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ÂNGELO ALMEIDA

VIVA O POVO
CAPELENSE

2015
1ª. Edição
A edição deste livro não respeita a norma culta da Língua
Portuguesa pois se trata de reprodução fiel à fala do povo
Nordestino, seus trejeitos, suas falas são cultivadas.
Portanto, essa versão não existe correção ortográfica. O
Escritor tenta retratar fielmente o modo de fala do povo
sertanejo no Estado da Bahia.
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Ângelo Almeida
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As origens
O viajante é capelense e de retorno à Capela
da Bahia; ele se lembrou das suas origens. O
passado familiar registrou na memória dos
capelenses alegrias, perspectiva de vida e casos
desconhecidos à nova geração.
Jamais deverão permitir que o cenário se
pareça como Lamentações do Profeta Jeremias,
aquele da Bíblia.
As origens capelenses são boas nos ensinos
dos primeiros mestres que naquela jornada de mais
de doze anos subindo à ladeira da Avenida Sete de
Setembro em direção ao CENEC – Centro
Educacional Cenecista de Capela: Eliete Almeida,
Joselita Rocha, Eliaze Gomes, Noádia Matos, Elza,
Jucelma, Carlos Carneiro, Gesival e Lucimaura. No
Colégio Joaquim Machado: Lindaura, Lourão,
Fátima, Arismário, Mirande, Lindaura e Maria de
Feira de Santana.
É grito de satisfação do, - “viva o povo
capelense”. Aqui vamos conhecer nossas origens
devem ser relembradas. Não se esgotarão os casos,
lições de vida do povo capelense, muito mais virão
no futuro.

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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação


Fundação da Biblioteca Nacional

ALMEIDA, Ângelo Viva o povo


capelense, Capela do Alto Alegre-BA,
Ed. Clube de Autores, Ed. Agbook e
Amazon Internacional, 2015, pág.124.

Registro:
Fundação da Biblioteca Nacional,
o
registro n 370870, em
06/03/2006, gênero contos.

Índice para catálogo sistemático:


1. Literatura Nacional; 2. História da Bahia;
3. Povo sertanejo na Bahia; 4. História
de vida; 5. Contos regionais do povo capelense.

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Aos amigos

Memórias e lembranças da minha infância,


um menino pesquisador, num bom dia ali outro
acolá, descobre um mundo esquecido e
maravilhoso do povo capelense. E nessa leitura de
passado, que, agora, nesta leitura se resgata o
presente.

Uma homenagem àqueles que abriram sua


afetividade e compartilharam suas casas, serviram
o café e o almoço, esses são as pessoas e os
personagens importantes desta obra.

Precisamos dá boas risadas daquelas que


torcem as tripas. Assim, viveremos produzindo o
hormônio da felicidade (serotonina) e resgatando
boas lembranças do simples fato de viver.

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Considerações

A Deus quem nos depositou a sua centelha


de sabedoria em nós.
Alexandre de João de Nezinho, perdi as
contas, muitas das vezes sentávamos no passeio em
frente à sua residência na Rua Manoel Gonçalves, e
ele contava pra mim muitas histórias, algumas
recordadas. Ele me falava de Nostradamus, achava
incrível como era que um homem conseguia
inventar tanta história do futuro, quando ele não era
Deus.
Seu Alexandre de João Nezinho me contava
do livro de Nostradamus como se fosse um livro
daquele de botar fogo na pessoa só em manuseá-lo.
E foi com ele que aprendi a técnica do drama e do
suspense. Muito obrigado ao meu primeiro mestre
de contar e mim motivar escrever histórias.

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Sumário
Um/13
Dois/14
Três/17
Quatro/20
Cinco/24
Seis/26
Sete/28
Oito/31
Nove/33
Dez/36
Onze/38
Doze/41
Treze/43
Catorze/46
Quinze/49
Dezesseis/52
Dezessete/54
Dezoito/56
Dezenove/60
Vinte/63
Vinte e Um/66
Vinte e Dois/68
Vinte e Três/70
Vinte e Quatro/73
Vinte e Cinco/74
Vinte e Seis/75
Vinte e Sete/77
Vinte e Oito/79
Vinte e Nove/80

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Trinta/82
Trinta e Um/83
Trinta e Dois/84
Trinta e Três/85
Trinta e Quatro/86
Trinta e Cinco/88
Trinta e Seis/90
Trinta e Sete/91
Trinta e Oito/94
Trinta e Nove/96
Quarenta/97
Quarenta e Um/99
Quarenta e Dois/103
Quarenta e Três/105
Quarenta e Quatro/109
Quarenta e Cinco/111
Quarenta e Seis/113
Quarenta e Sete/115
Quarenta e Oito/116
Quarenta e Nove/118
Cinquenta/119
Cinquenta e Um/122
Fim/123
Autor/124

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As lembranças resgatadas nesse livro


se dão a partir do ano de 1973.

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Capítulo Um
Se perguntar o porquê. Responda:
Um povo deve contar, registrar e lembrar da
sua história. Assim, ainda que mortos, viverão na
lembrança do vago espaço do tempo que não se
limita.
- Homem que é homem chora, quem não
chora é bicho;
- Dependendo das circunstâncias o corajoso
fica medroso e o medroso fica corajoso;
- Vender muito, lucrar pouco. E gastar
muito menos;
- Ainda que as situações não estejam do
nosso jeito, devemos apreciá-las;
- O bem poderá se transformar em mal.
Cuide-se para ser levadi isto à sério;
- O poder das palavras é tanto que a mentira
se transforma em verdade;
- O trabalho em grupo se vai mais longe que
os próprios participantes possam calcular;
Sabedoria popular do povo capelense.

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Capítulo Dois

Meu tio gostava de falar do seu tempo de


adolescente traquino. Em reuniões rápidas a partir
das dezenove horas da noite, ao cair do pôr do sol e
depois da janta gostava de chegar lá em casa, se
sentava no sofá da sala, retirando os sapatos e
cruzando as pernas em cima da poltrona; já se
ouvia a reclamação da sua irmã: tira os pés daí.
- Tio como foi o seu tempo de adolescente?
- Vou contar, falou o Rosalvo Gonçalves,
filho do Manuel Gonçalves, aquele que tem o nome
da Rua Manoel Gonçalves no centro da Capela.
- Era uma noite daquelas que, após a
colheita de abóbora nós pegávamos algumas e
retirávamos as sementes e deixávamos aquele
buraco e colocávamos as velas acesas, desenhava
dois olhos, uma boca e um nariz, ficavam aqueles
buracos que em forma de rosto se via de longe
como se fosse uma cabeça.
- Que tipo de brincadeira? Perguntei.
- Há muito tempo esse lugar aqui foi
movido à luz de motor ao óleo, as lâmpadas
chegaram bem depois por que quem mandava era a
luz de fifó de candeeiro à querosene, este era quem
alimentava o pavio que acendia à tocha de fogo que
clareava o recinto.
- Em certo dia tínhamos a obrigação de ir à
Igreja Católica na Praça Joaquim Machado onde
tinha o abrigo no meio da praça, ali servia comida,
era apoio de mantimentos das pessoas que vinham

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da zona rural compra alimentos e a frente do abrigo


uma árvore de carnaúba. Mas, nunca gostávamos
por que ficávamos inquietos na missa e a Rosalina
Gomes a mulher do Joaquim Machado, sempre
atenta a chamar de nossa atenção o respeito na
missa.
- Resolvemos aprontar com a Rosalina,
sabíamos os dias que ela saía da Igreja Católica.
Depois da dezenove horas, ela estava em casa para
cuidar dos afazeres da casa.
- Rosalina residia e domiciliava a dez casas
da Igreja. Então, pegamos uma escada e
conseguimos subir na torre da Igreja que era baixa,
uns três metros, eu acho. Aí amarramos um
barbante de cor preto no badalo do sino com um
rolo muito grande. Descemos da torre com muito
cuidado, evitando barulho e nos escondemos no
Coreto da Praça à frente da Igreja.
- Do Coreto esticamos o barbante, eu e o
filho de Dozinho da Jibóia e, naquele breu, uma
noite sem lua cheia, não enxergávamos um ao
outro. Ai o meu amigo e eu começamos a puxar o
barbante e o sino ecoava o som, aos poucos
aumentando até um forte badalar que ecoava e
tilintava com maior altura. Em um ritmo diferente
daquele das dezoito horas, todos os dias batia o
sino pra avisar ao povo que era a hora da Ave
Maria, uma velha tradição do povo capelense. Mas,
naquela noite o sino fez tanto barulho que Rosalina,
saiu aos gritos da sua casa e na Rua falava, - “corre
as assombrações estão na Igreja, vixe Maria”.

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- Rosalina morreu de susto ficou quase uma


hora distante da Igreja cheia de medo, conseguia,
somente, gritar a voz tremula e muito assustada.
- A sorte de Rosalina que na nossa
empolgação de tanto puxar o barbante acabou
quebrando, o forte barulho do sino
automaticamente diminui o batido.
- E, para Rosalina não desconfiar que
aprontamos aquela traquinagem começamos correr
em direção contrária à Igreja pra ficar bem junto à
Rosalina.
- O que é isso Rosalina?
- As assombrações, respondeu Rosalina.

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Capítulo Três

Seja bem vindo ao roteiro de viagem da


Expresso Queiroz, disse o cobrador. No volante
permanecia um motorista, boêmio, daquele que o
cabelo branco não relatava as rugas e marcas do
passado, era conhecido como Miguelzinho.
Ouvi de alguns passageiros que este
motorista guiava o seu automóvel sem usar os seus
óculos que eram de grau da miopia. Sendo
questionado como ele conseguia aquele feito, nas
estradas um tanto perigosas, ele respondeu: - “sigo
a faixa branca no meio da estrada que sempre dá
um sinal quando reluz a luz do sol e à noite sigo a
faixa pelo reflexo da lua”.
Miguelzinho foi criado na região da Pedra
Bonita, onde se falava um sotaque local daqueles
bem engraçados, exclusivo de uma área do
município, aquele povo fala, até hoje, cantando
mesmo, algo parecido como: túvai praondeeee?
Contam que Miguelzinho começou a vida
ganhando dinheiro alugando bicicletas, porque
naquele tempo não tinha, ainda, táxi ou carro de
aluguel. O meio de transporte era animais de
montaria, o que fez o sucesso das bicicletas ser o
grande negócio que a partir daquela iniciativa
conseguiu ajuntar dinheiro para comprar ônibus da
Expresso Queiroz.
Preferir viajar no ônibus da Expresso
Queiroz era muito divertido na certeza que
oferecendo um maior conforto, claro comparado

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aos paus de araras, quando se usava da carroceria


de caminhões e caminhonetes para transportarem
pessoas.
Estamos em Capela do Alto Alegre no
Estado da Bahia é gostoso esquecer os
movimentados centros urbanos que promovia uma
estafa dos engarrafamentos, não admirava mais a
vida como ela se apresentava. A poluição do ar não
o incomodava tanto quanto a poluição sonora do
vai-e-vem dos automóveis, entre tantos outros
sistemas que propagava os sons dos automóveis
que atrapalhava o bom sono. Mas, essa
modernidade surgiu em pouco tempo.
Foi aqui na Capela que o viajante ficou
curioso, carente quase perto da amiga solidão,
buscava ali e acolá um ombro amigo, uma
companhia ideal lhe faltava para se divertir,
brincar, beijar, cantar e aliviar as cargas e dores da
labuta dos dias.
Entretanto, como todo jovem imaturo na
vida amorosa o viajante se feria e machucava os
sentimentos das namoradas que o levava a sério.
Naturalmente vivia em um mundo de conflitos
daqueles que amava quem não o amasse. “Ame-
me! Não me ame! Fique comigo! Não fique!”.
Foram nesses desencontros de ida e vinda que se
aproximava à potência sexual que não permanecia
tão potente, não era correspondido. E, os valores
mudaram, os prazeres eram substituídos por
sublimes momentos.
O viajante, este personagem oculto dessa
história, também se apaixonou, sentiu na pele o que

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outras sentiram, machucado foi por um sentimento,


também, não correspondido, uma linda garota,
educada, gentil, meiga, próximo à sua parentela.
Aprendeu que por confiar demais ou depositar a
sua felicidade no outro, poderia haver decepção.
Sentiu o que era traição fazia, uma dor de
não ser correspondido por aquele(a) que um dia
depositara confiança. A partir desse dia, o
sentimento de amor se transportou para um vago e
longo desânimo, quase em depressão. Mas,
aprendeu que um dia agente decepciona o outro, no
outro dia a gente é decepcionado. Portanto, o
viajante em passagem à Capela tocou a sua vida, e
disse pra depressão: - “vai te embora, porque meu
caminho é outro”.

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Capítulo Quatro

À planície que pouco favorecia explorar


muitas culturas de plantações por localizar-se na
área do nordeste do Estado da Bahia. Na Capela
conseguiram plantarem cocos, planta nativa do
litoral praiano. Mas, aproveitaram o açude da Rua
do Açude.
Sofrimento da seca não era novidade
provocada dos efeitos e fenômenos como el-ninõ
através dos ventos fortes desviavam as nuvens
carregadas de chuvas que alimentariam o solo seco
e rachado, mas, àquela chuva traria consigo a
esperança dos rostos enrugados que refletiam o
sofrimento exagerado.
Não se via de imediato os coqueiros, mas
frutas tinham nascidas através das vindas e idas das
revoadas dos pássaros que traziam no bico as
sementes que por osmose germinavam sem
interferência humana.
Essa situação promoveu ao povo capelense
investir em suas famílias através dos seus filhos
para estudarem em outros Estados: Álvaro Ferreira
e Manoel Luiz, dois gestores familiares que deram
os primeiros passos.
Muito capelenses se aglomeraram na cidade
de Viçosa em Minas Gerais. Investimentos
importantes, assim um futuro para esses rebentos
poderiam proporcionar vida melhor, além de
provocar, bem-estar aos seus conterrâneos, era o
sonho dos seus pais.

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Em caso de percas mudavam as trajetórias e


não perdiam o foco, os propósitos poderiam ser
mudados, mas não esqueciam de chegar ao fim das
suas jornadas por que primava resultados na
sociedade da qual nasceram, cresceram e se
desenvolveram.
Os capelenses não eram moles não.
Conseguiram sair na frente, naquela época,
comparando-se aos circunvizinhos na formação e
habilitação de qualificação nos melhores Centros
do Conhecimento da Agricultura, Agronegócios e
Agronomia. Mas, alguns desses profissionais não
produziram ao esperado do povo capelense, não por
incompetência, mas por mudança de estratégia se
voltaram à educação na sala-de-aula, deixando o
campo da plantação da mamona, do feijão e do
sisal desaparecer nas suas motivações.
Capela agregava um grande número de
Agrônomos ociosos por metro quadrado.
O viajante na sua concepção e achando
estranho, analisou que por uma influência
competitiva daqueles profissionais afetados por
uma disputa como uma prova de: mostrar para a
sociedade dos capelenses em ver quem era o
melhor dentre eles.
O viajante entendeu que por alguns
instantes deveriam ter perdido o foco, mas poucos
enxergaram o desvio profissional ou a
desmotivação? Quando aqueles capelenses
poderiam ter transformado em um modelo sócio-
econômico que promovesse o seu
desenvolvimento? Mas, o “eu sou”, “eu posso” –

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sufocou-os promovendo o desvio de atividade.


Sendo por algum tempo recuperado o valor da
profissão sem grande influência na cultura do
Agronegócio de Capela.
A produção da lavoura mingou por lhe
faltar Tecnologia em Agrotécnica. Era um
desequilíbrio daqueles que se deixaram se envolver
em objetivos que não nasceram para tal fim. A
formação de Agrônomos teria cumprido à missão
desejada dos capelenses?
Foi nesse contexto tumultuado que surgiram
pessoas aventureiras, não tão qualificadas, mas
persistentes e corajosas com espírito de guerreiro o
Almir, pai do Anjinho, esposo da Detinha, homem
honesto, trabalhador, de pouca prosa; começa uma
plantação de coqueiros, cocos-anão, sem um estudo
de viabilidade do escoamento de sua produção ele
fez o que muitos não fizeram. O Almir
compartilhava com o viajante: -“há se eu tivesse
um pouco da sabedoria desses Agrônomos”.
Desabafava diariamente suas angústias por faltar
líderes de visão do Agronegócio que depois de
cinco anos o Almir colhera muitos cocos-anão que
se arrastavam ao chão dependurados nos cachos. E
na sua caminhonete idas e vindas teve uma grande
duradora produção de cocos.
Para o Almir, “quem deveria ser o melhor?”
Para nada servia, essa competição de Agrônomos
capelenses não o contaminava, o modesto
profissional Almir, na sua humildade lançou a
semente não permaneceu por muito tempo, pois o

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tempo o tornou debilitado em trepar no caule dos


coqueiros que cresceram muitos metros.
- “ Rala o coco,
tira a massa pra comer,
se o coco tiver água,
deixa um pouco pra beber”.
Verso de cantiga de roda e autoria de
Secundina Pereira, a conhecida Dona Rola, esposa
de Manuel Gonçalves e avó de Ângelo, Ângela,
Angélica, Albérico, Carlos, Salma, Júnior, Irineide,
Andréia, Mônica e Tinho de Sema.

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Capítulo Cinco

Ser ranzinza não é atributo bom, pois tende


a guardar detalhes que não se livra da mágoa que o
domina sua vida sentimental o deixando mal
humorado.
Como disse, Arismário Gomes, o ditado, -“
quem cultiva o mau será prisioneiro do seu próprio
mau”.
O viajante lembrou que visitava um velho
amigo queixo-duro, era o apelido do velho amigo
Arnério pai do Roque da Madeireira.
Ao visitar o boteco do José de Daniel, pai
do Professor Gildo, homem humorado,
cabeleireiro, proprietário e vaqueiro. Este
dominava a arte do humor sempre criando histórias
baseadas no convívio capelense. Vendia o seu
refresco de maracujá-de-boi, mas ao anunciar para
seus clientes a chegada daquele líquido, fala em
bom tom – “olha, olha, chegou a banha do barrão
donzelo”; e se ouvia em uníssono as gargalhadas.
Assim, cativava os seus clientes com as tiradas do
Zé Daniel.
O amigo Arnério, empresário e fazendeiro,
homem que trabalhou com a força e conseguiu unir
visão empresarial implantando um comércio pouco
explorado naquela Capela, material de construção.
No entanto o seu rosto foi dotado de um enorme
pontiagudo queixo. E, realmente, era admirável o
seu queixo. Entretanto, ninguém ousava dizer cara-
a-cara daquela obra da natureza na face daquele

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capelense. Mas, ninguém se ousava a falar: -


“queixo duro”, por que a zanga era na certa.
- “Deita aqui”, convidou Zé Daniel. Arnério
debruçou em um ronco só, que expressava o
cansaço de labuta do dia-a-dia que se manifestava
no seu rosto.
- Vamos tirar a barba. Fala Zé Daniel,
amola a navalha, cheio de humor, raspa o bigode e
a na barba de Arnério, dá uma parada com a
navalha bem na veia jugular, logo à baixo da
garganta. E pergunta ao Arnério, em um tom de
voz de gozação, - “dizem por aí que tem um
homem valente que se chamar ele de queixo-duro
ele chega junto na porrada. É verdade Arnério?”
Mexendo os olhos pra direita e esquerda,
Arnério resmungou: -“ran, ran”. Mas, do outro
lado, os capelenses gritaram - “e agora Arnério?”.
A gargalhada tomava conta do ambiente.
O viajante aprendeu que a depender das
circunstâncias o corajoso se transforma em
medroso.

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Capítulo Seis

No levantar das manhãs de sol ou chuva,


um relógio era do roncar dos jumentos que
acompanhava o carcarejar do galo, o fiel alarme
para incentivar tirar o leite das suas vacas.
O viajante conheceu mais um capelense que
admirava que do suco de maracujá-de-boi e doce-
de-leite o Sizinho Machado fazia uma vida estável
que refletiu na vida dos seus filhos. Colocando-os a
residir, trabalhar e estudar em Salvador, investindo
os centavos adquiridos pela venda dos sucos de
maracujá.
Revelou o mestre da arte musical o músico
e professor da UNICAMP em Campinas de São
Paulo o Jaime Machado. Seu irmão João Machado
advogado e comandante de polícia civil. As irmãs
Neusa e Gai, exímias professoras que cativaram se
descobrindo a razão primordial de viver e meditar
na pedagogia educacional.
Nunca mais se esqueceu do sorriso,
diferente do Sizino Machado, que das moedas que
se aglomeravam na caixa de sapato em baixo do
balcão, conseguiu refletir a lição de economia de
satisfação continuada que do pouco era estável.
Capela sofreu uma transição dos meios de
transporte dos quadrupedes animais de cela do
burro, ao jumento e ao cavalo foram substituídos
pelas equilibrantes motocicletas.
A triste notícia, dos vários pedestres,
agitação das vindas e idas das motocicletas de um

Ângelo Almeida
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trânsito cheio de novatos motoqueiros imaturos;


Sizino Machado viera a ser atropelado na sua mais
fiel trajetória, no caminho das longas madrugadas
em busca do líquido precioso da sua brancura rica
em cálcio fonte do leite de gado que nutria os
desnutridos capelenses.
Um empreendedor que ensinou: um vender
muito com lucro pouco, grande rotatividade,
gastando o mínimo possível. Lição de negociação
do Sizino Machado.

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Capítulo Sete

Alguns quilômetros o povoado de Ipiraí a


terra de quem Antônio de Miné produzia o doce de
batata do umbu como fonte alternativa de
sobrevivência, extraindo da raiz da árvore
umbuzeiro e ao cozimento e fervura chegava ao
ponto se transformando em guloseima saborosa, o
que não era enjoado a ponto de repugnar o seu
sabor.
Contradições são circunstâncias difíceis de
serem aceitas e compreendidas como deveriam, isto
porque se apresenta o que é contraditório a
compreensão do povo. Poderemos ver que os
capelenses, às vezes, presenciavam inversões de
valores onde o tempo providenciava.
O viajante andante dentre o povo capelense
conhece um vaqueiro, dentre tantos e centenas
deles em fazendas de Capela, mas aquele se tornara
um fazendeiro próspero e honesto. O que foi
contraditório? - “O homem é fruto do meio em que
vive?”. Aquele vaqueiro, não! Ele nasceu na região
simples, de família humilde, nem muito
conhecimento das Faculdades, um quase semi-
analfabeto, que na convivência de grande
intensidade com o seu patrão o Antônio Oliveira,
famoso fazendeiro, o vaqueiro deslumbrou na vida.
Sendo estimulado a descobrir o seu potencial que
estava desconhecido orientado a novos ritmos de
trabalho da Agropecuária do gado de corte e
leiteiro.

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Houve sim muita vontade de vencer, a sua


grande marca não o acomodava e sai do lugar onde
nasceu na Pedra Bonita e deu um passo à frente em
direção a Ipiraí que se firmou do outro lado da
serra. Que, por fim, o chamam de Cícero da Serra.
A vontade de vencer, tamanha era, que o
viajante ouviu dizer que Cícero pra economizar
ajuntou frutas da árvore do juazeiro que substituiria
o creme dental com suas folhas e serviriam para
higiene bucal.
Alguém inventou a história de ajuntar do
mato as frutas do juá de boi que tinha gente
comprando. Cícero chega acumular mais de três
sacos daquela fruta e tenta vender ao Alexandre
Gomes, procurando saber por quanto compraria
cada saco do juá de boi. Toda história era, nada
mais, uma pilhéria que Cícero da Serra acreditou
como verdade, tamanha era a intensidade da
vontade de trabalhar e ganhar dinheiro.
Após falecimento do Antônio Oliveira, o
vaqueiro Cícero, os vários filhos herdaram grandes
fazendas, porém se interessam em estudar
Engenharia Civil.
Mas, ali, ainda restava a retribuição da
família Oliveira ao Cícero, que paga os tempos de
trabalho com quatro vacas de leite e pouco mais de
cinco mil metros quadrados de terra.
A soma e a multiplicação foram à força de
vencer, Cícero administrou às quatros vacas se
multiplicando em mais de quatrocentos, com
grande produtividade de vacas leiteiras da raça

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holandesa se transformando em um dos maiores


Fazendeiros de Capela.
Por fim, conseguimos ver o dito, - “vi o
escravo andar a cavalo e o príncipe a pé”, como
disse o Rei Salomão em sua sabedoria.

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Capítulo Oito

Muitas foram a novidades que o viajante


presenciou nos capelenses, costumes e hábitos de
homens que sentavam no mesmo lugar todos os
dias, à porta da Igreja localizada à praça Joaquim
Machado, a sol escaldante, a neblina da manga de
chuva, os bonvivans passavam manhãs e manhãs
naquele passeio.
Uma das histórias que se ouvia era de bois e
vacas. Para destaque um reprodutor, imponente e
sedutor pra enxertar as vacas, registrado como
“boião”, tinha seu proprietário o Arismário Gomes,
um dos líderes políticos da cidade.
Boião perdia as batalhas das conquistas que
o destronara por completo, ainda tendo vários
sêmens que geravam filhos e filhos.
A chegada de Boião acendia esperança das
novilhas recentemente que chegaram no sítio que
cobria suas necessidades, de uma genética não
comum na maioria da sua espécie.
Boião, sempre Boião! Mas com o tempo o
que se via era um futuro de um invencível que seria
vencido pelo próprio tempo.
Quando jovem muito desejado, agora, ao
passar dos dias o seu mamilo encurvava de um lado
para outro. A velhice é uma doença que mata
quando se envelhece e os médicos que, também,
sabe eliminar tanta doença morre por velhice.
Quando a velhice chegou o orgulho foi
abatido, o prepotente foi humilhado, o soberbo

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mais que bêbado desprezado. Ô Boião, a vida é


assim...
E, por fim, o comércio de gado de corte,
gado leiteiro foi, por muito tempo, o sustento, a
fonte de renda dos capelenses. Com um
melhoramento na genética através da Zootecnia,
conta a história Alder Fernandes da LACAA.

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Capítulo Nove

Canções de rodas era um remédio para


muitos na senzala na época da escravidão no Brasil,
e no povoado do Cajueiro, não foi diferente. E, do
pouco conhecimento surgiu à sabedoria de
resolverem problemas inimagináveis, como domar
as pragas na lavoura.
No Cajueiro surgiram vários poetas da
cantiga de roda Secundina Pereira, Antônio
Feliciano e Carlito, tia e sobrinhos, bons no
pandeiro e na rima da chula e do samba de roda.
Numa época onde não usavam os
agrotóxicos na eliminação das pragas, o refúgio foi
nas palavras criativas que rimavam, se
transformando em mais um poder de espantar os
problemas da vida. Já dizia que, - “mentira contada
várias vezes se transformavam em verdade”:
- “Lagarta, assim como mulher de padre não
se salva, assim também é você; vai de uma e uma;
em duas em duas; em três em três; e quatro em
quatro...” Se repetiam estes versos em cada canto
da plantação, pela manhã, sem dialogar com
ninguém. As primeiras palavras logo cedo antes do
sol nascer, declamavam esses versos. Secundina
orientava que deixem um canto para as lagartas
saírem e diga: - “vão embora e não voltem nunca
mais, sem olhar para trás”, uma invenção de Dona
Rola, esposa do Manoel Gonçalves, avó materna de
Ângelo Almeida.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /34

Os homens cantavam com Antônio de


Merquídio da Fazenda Lagoa da Mata, batiam as
palmas ritmadas, numa empolgação dos versos que
uniam as rítmicas que ressoavam a cantiga de
Antônio:
“ Canção do Homem Sofredor:
- Sofri tanto neste mundo que quase perco a
mente. Tenho que voltar a cantar. Porque se eu
voltar a chorar, sei que vou ficar doente...” E, na
outra frase se ouvia, - “Fiquei no mundo sofrendo.
Um homem abandonado sente dor sem tá
doendo...”. Na estrofe seguinte, - “...a pior coisa do
mundo é gemer sem sentir dor. Não gosto nem de
lembrar, nunca quero passar, por onde ele
passou...”. Frases da cantiga de um homem que
separou da sua esposa e viveu em uma busca de
encontrar uma mulher da sua vida. Por que aquela
que ele deixou não correspondeu às expectativas.
O cantor e compositor analisa, - ”...um
homem sente dor sem tá doendo?”. É nato, nasce
com ele essa sabedoria, uma inteligência de
autoanálise, uma percepção coerente e firme nas
suas convicções e que não se abala com qualquer
vendaval que passe pela sua vida, ainda que
ameaçassem o esteio do seu telhado.
Na escassez da natureza no deserto a
companheira desconhecida, a verdade lhe
sustentava com o relacionamento de mãe que as
interferências somente se davam no batuque e do
pandeiro.
A mãe era o consolo, as portas se abriam,
porque sempre existia um espaço no coração dessa

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /35

gestora, e ”...um homem sente dor sem tá


doendo?”. O consolo e a cura era preenchida com o
doce de calda feito do leite de gado com o suco de
laranja, bem moreno, descia goela à baixo num só
gole.
O viajante percebeu que os valores
familiares, era a base sólida para viver e lutar por
sobrevivência, ainda que os irmãos, Antônio e
Carlito estivessem em grupos políticos em
oposição, jamais se estrangulariam até à morte, e
jamais se debateriam em negociar o convívio
familiar. Grupos diferentes, mas nunca um contra o
outro. Comer em mesa diferente, jamais
indiferentes no relacionamento pessoa a pessoa.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /36

Capítulo Dez

Na pedra da onça, nome de uma das


fazendas, residia dois irmãos Demilson e Rosalvo,
caçadores de primeira linha, caça que atravessasse
não permaneciam fora da panela de barro.
O irmão mais novo Rosalvo, corajoso
daqueles que se via o nervo à flor da pele, viril
mais que seu outro irmão. Já o Demilson,
administrador da pequena fazenda que tirava o
sustento bem mais que o mais novo irmão, e,
infelizmente, sua namorada não foi cortejada na sua
carência.

Demilson residia com sua namorada, e


outras fora do terreiro. Certo dia, saindo ao
trabalho, o poleiro desprotegido ficou, não sendo o
seu maior inimigo as raposas, mas o seu irmão
Rosalvo, boêmio, viril, bonvivan e descarado, sem
vergonha; foi mexer no buraco que não era da sua
propriedade. Envolve-se com uma das raparigas do
Demilson.
Ofensa total, honra ou desonrada de
Demilson, mas não deu tanta importância, porque
tinha namoradas sobrando.
Demilson sabia que Rosalvo se aproveitava
das suas várias conquistas.
Certo final de semana, uma noite, o irmão
mais velho, o Demilson, mais uma vez, sai pra se
divertir, ao voltar pela madrugada, cheirando a
cachaça, bate a porta da casa dos seus pais, onde
residia, também, Rosalvo.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /37

Quem vem atender? Rosalvo cheio de


medo, ódio e inveja. Não conta outra e aperta o
gatilho da garrucha cheia de chumbo disparando no
irmão Demilson, mas um chega pra cá, um chega
pra lá os dois se livram da morte.
A saraivada de chumbo espalhado
totalmente em seu corpo que, muita sorte, é salvo
pela espoleta velha que derreava no cachimbo da
espingarda, não soprando o vigor, o tiro miou.
O povo capelense era brabo...

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /38

Capítulo Onze

As muitas casas de farinha eram na região


da Birosca, onde ali, colhiam mandioca do campo,
raspadas em mutirão conhecido como “boi
roubado”. Aquela multidão de trabalhadores
braçais invadia a plantação de mandioca do vizinho
pela noite, uma admirável quantidade de
trabalhadores. E, ao acordar pela manhã o dono da
propriedade era chamado, sem ele saber, e guiado
até a casa de farinha e o samba comia.
O dono da plantação de mandioca e a
multidão passavam todas as raízes da mandioca no
motor que se desfragmentavam, depois peneiravam
para tirar o excesso da água e secavam ao forno de
lenha, girando até tostar a farinha.
Cantiga de roda ritmada com versos ditos
por todos os trabalhadores enquanto colhiam a
mandioca no campo à noite. E, durante aquele
digitório há festividade era acompanhado com
muito churrasco de carne bovino, ao término do
serviço, na maior alegria, com o roçar das tantas
enxadas que andavam em um ritmo só.
O Cícero do Sapato era um destaque, das
muitas tiradas o viajante lembrou: - “Muito Deus
lhe ajude, Deus ajuda. E muito o diabo te leva e
atrapalha”. Criava a literatura de cordel com grande
facilidade, estava no sangue o dom de declamar em
versos ritmados.
A má notícia em seu retorno a sua casa,
depois do dia de feira-livre, foi interpelado por

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /39

assaltante, -“é assalto!” O Cícero responde: - “acho


difícil assaltar um pai de família nesta hora”. E, na
sua humildade, por não acreditar, e, nem se render,
ouviu, - “não estou de brincadeira, eu lhe atiro”. E,
mais uma vez, Cícero responde: -“não venha que te
corto todo no facão!”. Naquele tom de brincadeira
não foi levado na brincadeira não, sendo disparados
três tiros a queima roupa e o quarto tiro no seu
cavalo.
Cicero rastejou chegando na casa do Tica,
tentando descer do animal, caiu ao chão todo
ensanguentado. Sendo socorrido por um garoto que
chama João da Vargem Queimada, por que Tica
não estava em casa.
Diretamente levado ao Hospital São Lucas
que funcionava, provisoriamente, na residência de
Osvaldo Fernandes, atendido por Jaime Fernandes,
o único médico capelense, naquele tempo.
O diagnóstico do médico foi três balas no
corpo do Cícero, uma caiu na maca, às outras duas
permaneceram no corpo de Cícero que faleceu com
elas.
Já dizia Antônio Feliciano, primo do Cícero,
- “meu pai foi um homem sério, honesto e
justiceiro. Se casou com mamãe, conservando um
amor verdadeiro e eles nunca pensaria que seu filho
um dia caísse no desmantelo”.
O viajante emocionou-se em conhecer,
pessoalmente, o Dr. Jaime Fernandes, que se
especializou em Portugal, um capelense genuíno,
volta da Europa para atender a população
capelense. Este médico entregou e dedicou anos da

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /40

sua vida no atendimento aos seus conterrâneos, no


entanto, viveu dias difíceis em Capela, quando não
tinha estruturas e equipamentos hospitalares a fim
de melhor prestar o socorro. Entretanto, a sua força
de vontade e fiel a ética médica conseguia superar
todas as dificuldades. Os capelenses tem em sua
história de existência a imensa gratidão a este
profissional, bem como, a sua família.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /41

Capítulo Doze

O viajante logo se deparou com o professor


Patrocínio, daqueles que não gostavam que seus
alunos fizessem diferente dele. Como se sabia
“deveriam ser tudo do jeito dele”, nem mais, nem
menos. Este homem trazia consigo a necessidade
de ser reconhecido, pois os capelenses o
consideravam o professor de todos os pedreiros.
Uma visão interessante daquele professor
ele nunca se sentia honrado em qualificar
discípulos que reproduziria seus conhecimentos.
Até porque no mundo de hoje as Escolas procuram
os alunos que se destacam no mercado a fim de se
autopromoverem.
Cismado era o apelido do Patrocínio, um
dos seus filhos, Rubisael, herdou à arte da
marcenaria e pedreiro, honrado trabalhador.
- “Lá vem o cismado!”. O que se ouvia nas
Ruas de Capela quando surgia ao longe o
Patrocínio. E não foi no início da sua vida, nem no
auge de professor, sua esposa Dego, diz, - “ele era
grosseiro e cismado, mas soube conviver com a
enfermidade que o levou à morte. Um
comportamento diferente que não se viu em vida.”
O viajante aprendeu que devemos ser sábios
em conviver com as enfermidades, seja qual for.
Por último no velório do Cismado, os
amigos ao derredor do caixão, falaram um para o
outro: - “mexe ai no caixão, ai, ai, como este
homem é tão Cismado é riscado ele levantar do

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /42

caixão”. Ah, ah, ah, ah uma risadaria só, até a


esposa Dego, porque o povo capelense aprendeu
que à morte para alguns é o descanso.
O Cismado não cismou com a enfermidade,
aceitou de bom grado, sabiamente aprendeu não
resistir às enfermidades, mas suportá-la.
Conta Izaque, irmão de Zé de Daniel, que
contratou Patrocínio para um serviço em sua
residência, e que ali houve um caso daqueles
conhecidos de Cismado.
- Patrocínio já são oito horas e nem fez a
massa, nem cessou a areia?
Não contou outro, senão, o Cismado ajuntou
as ferramentas de colher de pedreiro, prumo,
metros, colocando no seu alforje e se mandou pra
casa.
- Izaque não conteve as risadas, e falou: -
“já vi que Cismado igual a este não nasce outro”.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /43

Capítulo Treze

O viajante se esbarra com um moço no


sertão capelense, com o Isaías, intitulado “o poeta
da paz”.
O texto deverá ser lido todo, ao final uma
novidade que jamais poderíamos imaginar, a não
ser por um poeta. Que nos ensina que de texto
ingênuos se enaltece uma grande lição.
O viajante jamais pensaria o que vem a
seguir, surpresa final para ser ouvida. Disse Isaías,
- “substitua a palavra estrela pela primeira pessoa
do singular “eu” e verás a estrela que você é”.

“Descubra a estrela que você tem:


Durante à noite quando olhamos
para o alto, ainda que o céu não esteja
nublado, enxergamos várias estrelas,
algumas posicionadas que se destacam das
outras, formam constelações e desenhos
como uma cruz ou o mais conhecido
cruzeiro do sul. Todas brilham como
estrelas que ocupam um lugar no espaço,
preenchem e se destacam no seu devido
tempo.
O céu bonito, povoado de brilhos,
monotonia não existe, mesmo que no outro
dia enxergamos as mesmas estrelas no
mesmo lugar sendo mais um espetáculo da
natureza do tipo que jamais se apaga da
nossa memória.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /44

Em certos momentos da nossa vida,


estas estrelas se fazem presente como
únicos amigos, dos quais nos sentimos
seguros para desabafar algum caso. Noutros
instantes podemos fazer das estrelas o único
caminho que nos estimula a permanecermos
olhando para o sonho que, ainda, não
alcançamos e não realizamos. Corremos
atrás das estrelas que brilham no céu escuro,
são úteis aos nossos semelhantes porque nos
auxiliam até quando à vida está escura. Elas
nos iluminam com os seus brilhos. Nos
ensinando que apesar de pequenas não se
apagam e conseguem ser vistas por
pequenos seres humanos quando são
apreciadas de um ponto qualquer deste
planeta terra.
Mesmo causando tanto impacto à
noite as estrelas são iguais no brilho, em
comparação uma pela outra, pois, brilham
no mesmo tempo e espaço. Infelizmente, as
estrelas passam despercebidas em meio à
multidão das tantas estrelas que iluminam
no céu, seja na estação da primavera, verão,
outono ou inverno.
Em relação às estações do ano, uma
destas estrelas se destaca na escuridão da
noite que a deixa oculta aos olhos humanos,
ainda que este olho esteja equipado por um
aumento visual de um telescópio. Para
muitos é um momento estranho, pois, todas

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /45

as estrelas neste céu escuro e, ainda que o


olho não se veja é possível enxergá-las.
Estrelas que não se atrasam no seu
brilho, nem mesmo, ocupa lugar no tempo e
espaço.
Estrela do Sol sabe fazer parte do
grande espetáculo, é forte, é irradiante. E
quando chegam as nuvens conseguem tapar
o grito. Somente o fenômeno das nuvens
pode calar o seu grito.
Tanto a estrela do Sol como as
demais estrelas da noite são pontuais, mas
não dominam o mundo onde estão. Estrelas
da noite e do dia não estão no controle do
universo, ainda que a força e energia não se
comparem a sua irradiação que elas
conseguem emitir”.
O viajante concluiu, - “todo nós nascemos
para brilhar, ainda que uma multidão ofusque nosso
raio de luz”.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /46

Capítulo Catorze

Sem dúvidas alguma a teima é quase irmã


da persistência e quase prima da perseverança.
Essas virtudes quando andam juntas vão onde
jamais imaginamos que chegariam nos seus
objetivos.
O viajante acreditava que o percurso já não
mais traria novidade ou alguma outra lição de vida
que, ainda, não tivera conhecido. Todavia, a vida
surpreende aqueles que o subestimam.
Em entre olhadas no vago espaço se vê e
ouve uma advertência de uma jovem a um Senhor,
um tanto idoso. Para o viajante, era uma má
educação exortar uma pessoa idosa, principalmente,
se fosse em público. Mas, era um motivo nobre
aquela advertência. Afinal, quem estava sendo
advertido era o Luiz da Lagoa, mentor da família
Fernandes. E na sua fazenda ensinou aos filhos a
vencer na vida. Surpreendente a sua maior virtude
o destruiu. Como assim? Uma boa característica se
transformaria em má? Como se dá isso?

Luiz da Lagoa, pai de Natanael, Antônio,


Vivaldo e Iraci, foi um homem de garra e sua maior
virtude era ser teimoso, não desistia fácil. Com o
passar dos anos a sua carne foi acometida por uma
doença que exigia dele mudanças de hábitos e uma
destas era deixar de tragar ou fumar cigarro na
palha. Infelizmente, o que não foi possível, virtude

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /47

de quem era teimoso é não saber o limite de parar,


até quando poderia persistir na sua trajetória.
Nos fundos das Ruas tomados pelo breu de
longe se apreciava uma tocha vermelha, na mais
oculta carência da nicotina, ainda retardando a sua
vida, a teima de Luiz, virtude que ajudou a vencer
na vida, agora teimava em antecipar sua própria
vida.
Teimosia sadia de não deixar as vacas
morrem de fome com o corte da palma que entre
espinhos furam as suas mãos, boas de leite,
assolada pela seca, não fizeram Luiz da Lagoa
parar, estacionar ou deixar pra lá. Nada disso, ele
dobrava a próxima esquina na certeza de apreciar e
saciar a teimosia.
Pouca gente sabe e alguns dos netos nem
conheciam essa virtude. Os odontólogos, os
médicos, os zootecnistas que o mentor Luiz da
Lagoa, seu avô, registrava essa tamanha teimosia.
Amiga no início da vida, inimiga no final da vida?
Os Fernandes permaneceram prósperos,
geneticamente, a teimosia estaria presente? Do Luiz
da Lagoa o sistema circulatório se movimenta com
essa emoção herdada?
Fábrica do queijo, iogurte, leite
pasteurizado e da manteiga abastecidos por o
escoamento da região da produção de leite Capela,
Pintadas, Nova Fátima, Gavião e circunvizinhança
promoveram o ramo alimentício derivado do leite
da vaca.

Iraci, a única filha do Luiz da Lagoa,


mulher virtuosa, muita alegria nos olhos, portadora

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /48

de dois rins, doou um para o seu irmão Edson Luiz


a quase beira da morte. Ainda consciente do perigo,
não contou com outra, senão da solidariedade, do
amor de família.
E, na antiga baixa da coca, um lugar
desterrado onde escoava o esgoto da cidade, onde
se juntava as crianças com objetivo de traquinagens
não ficou de fora das traquinagens do Luiz da
Lagoa em teimar apreciar a nicotina.
O viajante analisou, quem diria que uma
virtude que nos faz o bem, por um longo tempo,
poderia se voltar contra nós, caso não enxergaria a
sua dosagem de execução. Por fim, o equilíbrio é
fundamental em todos os ângulos da vida.
Carretas e mais carretas do boi nelore de
Capela a Princesa do Sertão, Feira de Santana, onde
escoavam as grandes produções da sua
agropecuária em negociação no Campo do Gado.
Os retornos da Princesa do Sertão, com
notas fiscais em mãos, Luiz da Lagoa solicitou ao
policial que baixasse à sua nota fiscal, por que não
vendeu nenhum animal. O guarda responde, - “ô
Sr. Luiz, não podemos dá baixa, assim o senhor não
paga imposto devido”. O teimoso respondeu, -
“como pagar imposto do que não vendi?”.
De retorno à Capela, falava - “pagar
imposto para viajar em estradas esburacadas?”.
- “Luiz da Lagoa não era mole não”, já dizia
Zé Daniel, o barbeiro, amigo de muitas datas que
pilheriavam constantemente.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /49

Capítulo Quinze

Na região do Bispador tinham muitos


homens que naquele tempo andavam com peixeiras
daquelas que tiravam bigode dos mais grossos. Ali
tinha gente valente, tinha sim! No entanto, o
viajante conheceu o José Martim, um agricultor,
proprietário e um dos herdeiros das terras do seu
pai Antônio de Vencelêncio. José Martim, pai do
jovem Ney do BANCOOB.
A região do Bispador não desenvolveu tanto
quanto os outros povoados, mas não faltavam os
esforços do vereador José Silva em promover a
auto sustentabilidade dos trabalhadores rurais em
produzir alimentos acessível a agricultura familiar e
juntos criaram a BANCOOB - Cooperativa de Crédito
Rural, onde cada um depositava a sua cota no valor
de trezentos reais e integralizando ao patrimônio
liquido fortalecia a Instituição
BANCOOB.
O José Martim foi o principal mentor dessa
iniciativa, com outros amigos e conterrâneos, mas o
seu destaque foi em ceder três meses de carência
não cobrando aluguel algum ao BANCOOB.
Propondo, ainda, o pagamento acontecer, tão
somente, acumulasse lucros proporcionais ou acima
dos débitos fixos que a Cooperativa contraísse,
motivando o crescimento de associados.
Alguns anos de investimentos o pensamento
lucrativo seria à prazo, o quê desafiou a inteligência
dos economistas, pois a Cooperativa

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /50

cresceu mais de cinquenta por cento no capital,


mais rápido que o esperado.
A fé tinha seus obstáculos, aqueles homens
estavam depositando o seu dinheiro que poderiam
desistir da iniciativa, pois as decepções eram
demais de outras atitudes que não se
desenvolveram, mas a quantidade de homens em
cooperar foi o sucesso.
O viajante pensou e tirou uma grande lição,
- “nenhum de nós é tão bom quanto todos nós
juntos”.
E, volta haver circulação de dinheiro, efeito
de enormes variedades das linhas de créditos,
custódia de cheques pré-datados com juros abaixo
do mercado financeiro, bem como, empréstimos
orientados no seu investimento. Com a viabilidade
do negócio que se destinava cada montante.
O capital de giro deixou de ser um problema
para aqueles que vendiam à prazo, bem como,
dinheiro passou a circular com maior intensidade
provocando uma estabilidade econômica na cidade
de Capela.
Os caprinocultores e o resgate da sua
autoestima promoveu o slogan “a união, realmente,
faz a força”. E com ajuda de Instituições Não
Governamentais, as ONG´s, uma grande influência
de países como Bélgica que através dos vizinhos de
Pintadas com Neusa Cadore, na época Prefeita, e
Valci, Gerente do BANNCOB, articularam e
intercambiaram essa tecnologia do BANCOOB
influenciando toda a região. Estas iniciativas foram
instrumentos de bênção para inúmeras famílias

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /51

graças à arte do empreendedorismo na atitude de


José Martim.
O viajante continua sua jornada e conviver
com o bom caráter do José Martim, ainda que não
qualificado a economista, soube, muito bem,
desempenhar o papel de Conselheiro ds atividades
do SICOOB-Sertão, localizado na Praça Joaquim
Machado.
Toda casa tem que ter o esteio para
sustentar. Osvaldo Rios, Vivaldo Fernandes, Carlos
Relojoeiro, Miro de Vencelêncio, Gilson de
Dozinho da Fazenda Jiboia, e muitos outros
fazendeiros e comerciantes se motivaram em
depositar os seus investimentos na Cooperativa.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /52

Capítulo Dezesseis

O que chamava atenção do viajante era a


criatividade do povo capelense as famílias que
registravam sobrenomes com base nos animais que
viviam e prevaleciam nestas regiões.
Carneiro era o sobrenome do Lindolfo João
Carneiro, conhecido Lindú, mas não é que tinha
realmente a paciência da ovelha. Um grande líder,
sua sobriedade, determinação, humildade conseguia
liderar um grupo político promissor.
Muitas iniciativas entre elas o Hospital São
Lucas que reunia uma multidão para um mutirão
com a população para ajuntar dinheiro e juntos
construírem o desenvolvimento da sua terra.
Amigos como: Emílio, conhecido Zezinho,
Presbítero da Igreja Presbiteriana, entre outros,
como Abdias, Amado Luiz e João de Zeferino,
conseguiram construir um Colégio que servia aos
Cenecistas uma Instituição Nacional CENEC, a
base sólida da educação do povo capelense.
Todos estavam dispostos a construírem a
novata cidade de Capela. Jovelino Maciel o doador
do terreno para construção do Hospital São Lucas,
e muitos sorteios de gado, galinha e diversos
animais que foram doações.
Um dom divino o Lindú tinha em exercer
caridade, servir ao povo capelense e uma iniciativa
única com atenção ao desenvolvimento da Capela.
Mas, o viajante pensou – Lindú não foi
Prefeito, também, não foi vereador dessa terra? Ô

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /53

povo mau. Pensava que no futuro os capelenses


poderiam sofrer grandes percas e dificuldades por
não tomarem como exemplo o remédio de Lindú.
E no futuro os capelenses deveriam rever o
conceito de seguir líderes maus sem observar os
bons líderes. Entretanto, fracassos, decepções
surgiriam e refletiriam na vida futura dos
capelenses.
Quando não valorizamos o que é bom,
somente resta o mau. Esta foi uma das verdades
que o viajante registrou no seu entendimento.
E eufórico o viajante disse: o Carneiro
realmente sabe conviver em grupo, compartilhar é
seu mais alto grau de virtude, não é como o Bode
que somente chega pra ser o dono do pedaço e
pouco divide as suas conquistas.
É bem verdade que Lindolfo se realizava
pessoalmente, através dos seus corajosos atos.
Onde seu bem maior foi depositar suas atitudes que
impulsionaram o desenvolvimento em Capela.
Um povo será forte e vitorioso quando se
fortalecer em torno de si mesmo, valorizando as
virtudes de cada pessoa envolvida em dignas
missões.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /54

Capítulo Dezessete

Sorridente, alegre, nunca se viu brigar com


ninguém, ainda que não adquirindo a sua moradia
própria. Pois, sempre, não residiu em domicílio
próprio, quando não era de favor, desembolsava
suas poucas economias em pagamento de solo
ocupado.
- Olá seu Paulo Bode. Falou o viajante.
- Diga aí, diga aí, meu filho. Respondeu
Paulo Bode.
O viajante não entendia como um homem
da estirpe do Paulo Bode, conseguia ser daquele
jeito, pois, adquiriu uma ninhada de filhos e netos,
todos no mesmo habitat, uma residência de poucos
cômodos. Alguns filhos eram problemáticos, outros
com doenças mentais. Casavam e descasavam e
deixavam mais um neto para andar por debaixo das
mesas da sua casa, mas limpa, apesar dos netos
enlamearem do corre-corre.
Paulo Bode e sua simplicidade de viver
levava uma vida precária, porém, uma coisa era
certa: falecendo com mais de oitenta ano, adquiriu
uma saúde de ferro, não se abalava com quaisquer
problemas. O orgulho não o acolheu, sempre
aceitou morar em lugares que pouca gente teria
coragem.
Naquele tempo o Paulo Bode não participou
de movimentos dos sem teto, o que fazia era cativar
e sensibilizar o mais próximo vizinho a baixar o
preço do aluguel. Era negociante dos bons. Afinal o

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /55

sobrenome “Bode” herdara como apelido, em ser o


vendedor de “carne de bode” nas feiras livres da
cidade dos capelenses.
Ele não criou inimigos, ainda que levasse
consigo a marca de “bode”, animal que resolvia os
problemas com a impulsividade das suas chifradas,
não era atributo de Paulo Bode.
Minha vó Secundina Pereira, mãe da
Detinha, do Djalma, do Rosalvo, do Irinei, da Nice
dizia que, - Paulo Bode era daqueles que visitava
doentes ainda que estivesse doente.
Sua amiga da infância Vitalina, mãe de
Amado Luiz, pai de Amadinho, sua neta Amanda,
o que fazia era visitar quase todos os dias na sua
enfermidade, jamais deixou a Vitalina na solidão,
amiga é amigo até na hora do leito da enfermidade.
O viajante admirou, chorou, emocionou,
meditou por que Paulo Bode não conheceu a
doença da depressão, para ele desmotivação era
preguiça. Assim, o melhor remédio era não parar;
ainda que os dias proporcionassem circunstâncias
não favoráveis.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /56

Capítulo Dezoito
Como conhecemos aqui nessas histórias o
viajante catalogou os nomes dos capelenses
retirado dos animais até para registro de povoados.
Nisto se percebeu que a inteligência popular, sabia
que atento a representação e importância de cada
espécie de animal no mundo das caatingas do
sertão brasileiro.
Mas, algo mais chamava atenção, uma
senhora apelidada de Dona Rola, mas em registro
de certidão Secundina Pereira de Almeida. Porém,
se ouvia, - “ô Dona Rola”.
Uma senhora que alcançara a idade de
noventa e seis anos, ainda assim, conseguia guiar e
administrar a sua própria vida, sustentando em
muletas e, pior, pernas cambotas que formavam um
círculo em cada passada que se dava. A
perseverança e à vontade de viver de Dona Rola era
um exemplo a se espelhar, virtude que a
transformava em uma pessoa independente com
uma condição social que não esmorecia com pouca
provação.
Nascera em uma época em que era
conservadora com diversos costumes dos quais era
proibido em dizer que se encontrava menstruada.
Era repreendido e considerado palavrão tal palavra.
Residente à Rua Manoel Gonçalves, nome
do seu esposo, era um espelho na arte da cozinha de
remédio-caseiro. Para cada doença encontrava
várias espécies de remédio que juntando com um
cozimento em água as folhas do mato do tipo:

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /57

alecrim, boldo, erva-cidreira, babosa, cassutinga,


cebola branca, camomila, carqueja, pejo, babosa,
unha de gato, catinga de porco, babatenã, etc.
O viajante soube que conseguiram uma
cadeira de rodas para aliviar as dores das andadas
da Dona Rola, entretanto, ela falou para o seu filho
que a presenteou: - enquanto estiver viva, me
arrasto, mas não ficarei a depender e dá trabalho a
ninguém.
Outras novidades se visualizaram naquela
senhora ao visita-la o viajante encontrou lavando os
pratos e ao recepcioná-lo logo ofereceu um
cafezinho. Admirando quem mandava naquele
terreiro era a Dona Rola.
O viajante, ainda, guardava curiosidade em
saber por que aquele apelido de “Dona Rola”.
Perante essa circunstância, um tanto descabreado e
com muita vergonha, pergunta, - o porquê do nome
rola?
Ela respondeu: rolinhas fogo pagou, um
pássaro.
- Não entendi Dona Rola. Porque esse nome
“rola” é se referindo ao órgão genital, é o que o
dizem os capelenses.
Descabreado, ainda estava e com muita
vergonha por que o nome rola naquela região, era
também, usado para falar do órgão genital
masculino.
Naquele vira e volta de cabeça pra direita e
esquerda, o viajante, um tanto capengando na sua
fala, desajeitado, chega ao finalmente e pergunta,

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /58

novamente, - porque lhe chamam com esse nome


de rola?
O viajante se surpreende, não se viu zanga.
- Quando eu era jovem, cuidava da
plantação de feijão e milho e, existiam diversos
pássaros que eram as rolinhas fogo pagou de cor
acinzentada de bico curvo, pareciam pombos,
apesar de serem bem menores. Esses pássaros
invadiam as plantações para comer as espigas de
milho. Desta forma, eu fazia as arapucas, eram
gaiolas com fundo aberto que se pareciam com um
formato de uma pirâmide, que se sustentavam
acima do solo com uma varinha fincada na terra e
colada umas talas confeccionada da folha do
ouricuri, depois se enchiam as talas com o milho
pisado.
Aquelas talas eram colocadas para sentir à
sensibilidade do toque de pesos abaixo de cem
gramas. Após a pisada do pássaro “rolinha fogo
pagou” através daquele toque era disparo a arapuca
em cima das “rolinhas fogo pagou“ que as
prendiam de comer o milho.
O viajante catalogou que aquela atitude foi
um erro ecológico, hoje, somente visto e analisado,
pois as “rolinhas fogo pagou” elas quem controlava
a cadeia alimentar comendo as pragas da largada e
do gafanhoto. Porém, somente depois de mais de
vinte anos após que se perceberam essa situação.
Dona Rola continuava à sua resposta:
- Foi desta forma, fiquei famosa em criar
arapucas que se disparavam e prendiam as rolinhas.
Sendo desta forma, recebi o título de “Dona Rola”.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /59

O viajante pensou, - se existisse Antes de


Cristo seria considerada na Mitologia Grega a
“Deusa das Rolas”. E, exclamou, - essa história é
das boas, com gaitadas, daquelas que estatelavam a
garganta.
Por último pergunta, - a Senhora não fica
zangada em ser chamada assim?
- Não meu filho! Por que nunca fui
simpatizante do carranquismo, nem mesmo do
ranzinzíssimo.
- O quê? Afinal o que é carranquismo e
ranzinzíssimo?
- Fique sabendo meu filho, - carranquismo
nos tira o humor e alegria de viver; o ranzinzíssimo
nos contamina com o ódio e ficamos enfermos por
não saber perdoar as ofensas de quem nos ofendeu.
O viajante conclui com muita inteligência,
está ai o segredo da longevidade da Dona Rola. Ela
não se estressa com pouca coisa, está sempre
imponente e jamais impotente. Inclusive, com
apelido que tentaram denegrir a sua imagem, ela
não se deixou ser envolvida pelas palavras que não
podemos negar o seu poder sobre o nosso
inconsciente.
No seu sepultamento se ouviu:
- Dona Rola foi como uma árvore. Tem a
árvore que dá sombra, porém não dá encosto é
como o mandacaru; mas, outra árvore que tem
sombra e não dá encosto conhecida como
barriguda; outras árvores dão sombra e tem
encosto; essa é comparada a Dona Rola. Uma
mulher que foi o suporte da família dos Gonçalves.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /60

Capítulo Dezenove
É bem verdade que se gastar tudo que se
ganha nada se acumulará. É necessário uma
dosagem de economia, saber gastar é uma das
virtudes que mais se dará o valor especial, nos
séculos vindouros.
Economizar era princípio, desde a infância,
inculcando a todo rebento, a toda criança que
cresciam; ouvindo as lições de economia
doméstica. Na hora do almoço, o pai, a palavra
forte, que servia poucos dos pedaços de carnes
cortados nos pratos sobre a mesa de alimentação,
distribuindo, individualmente, no prato de cada
filho. Sem jamais consumir todo o alimento sob a
mesa, guardava o restante à próxima alimentação.
As mulheres aprenderam a moda da mini-
saia, isto porquê, desta forma, o metro de
centímetro era aproveitado ao dobro para
vestimenta ao corpo de quem aderiu o método da
economia, o guardar hoje pra ter amanhã. Sábias
mulheres, faltou alguém avisar pra elas.
Dizem as más línguas que o Osvaldo
Fernandes um inteligente comerciante exerceu
várias atividades, compra de bois e venda do abate
da carne.
O viajante se aproxima do Osvaldo
Fernandes, o Vavá, e questiona: qual a razão do seu
sucesso e prosperidade?
- Ganhei dinheiro, mas gastando a metade
do lucro. Para mim não enxergava o montante de
dinheiro, mas o lucro. Comprar um boi com trinta

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /61

arrobas, custando cada arroba dez reais. Trinta


arrobas (um tipo de medida de peso) multiplicado
por dois reais de lucro sobrava sessenta de lucro
bruto por cabeça. Mas, tinha o serviço do vaqueiro
e do transporte. Abatia dez por cento dos sessenta
reais do lucro, ficava cinquenta e quatro de lucro
presumido. Um lucro que se presumia, não era
certeza, sendo assim, somente considerava que
ganhava quarenta reais por cada cabeça vendida.
- Essa aula de Vavá, parece matemática
prática. Quem lhe ensinou?
- A vida meu filho, a vida ensina.
Que aula de administração e economia,
pensa o viajante, compra e venda de animais na
escola do Vavá os cálculos eram precisos contando
sempre com a diminuição dos gatos. E o passar dos
anos cresciam em comparação aos outros
comerciantes. Tornando-se influente e referência,
candidatou-se a Prefeito; foi eleito, porém recebia
muitas visitas na sua residência. Em uma das suas
visitas lá vem o José que viera pedir uma ajuda a
Vavá.
- Ajude-me quero compra um cachão para
enterrar a minha sogra que falecera, agora mesmo.
E não dispomos desse dinheiro para adquirir a
mortalha.
Mas, era fora do expediente do Gabinete,
era um final de semana no sábado.
- Meu filho, hoje é sábado é feriado, volta
segunda-feira quem sabe eu possa te ajudar.
Respondeu Vavá.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /62

José pegou a sua bicicleta e seguiu caminho.


Alguns instantes, parou, pensou, insatisfeito
retornou à casa de Vavá. Bate na porta, e bem
atendido por Vavá, diz:
- Você de novo, o que é agora?
- Por favor, me empresta ai um real, é
possível Vavá?
- Você quer um real para quê?
- Com um real vou comprar um quilo de sal
para salgar o defunto, minha sogra, desta forma o
corpo vai suportar até segunda-feira, e nós vamos
conseguir conviver com o mau-cheiro que o
defunto exala.
O viajante assimilou? Com uma boa
gargalhada de estatelar as goelas.
A gente entende seu Vavá que, ô povo
carente. Mas, o viajante não sabia se aquela história
era a verdade, ou mais uma história de pirraça da
oposição política, resta saber e perguntar a Osvalci
Fernandes, Osvaldinho e Orisvaldo, bons filhos,
gente educada que o viajante sempre foi bem
tratado. Alguém pergunte para eles e se esse conto
é mais uma história gerada das campanhas políticas
dos capelenses?

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /63

Capítulo Vinte

Os pássaros acordam os moradores com


gorjeios que a alma sensível consegue apreciar e
logo os bons ouvintes estavam em sintonia com a
paz que a própria natureza promovia em melodias
que ecoavam através das diversas espécies de aves
que ali malhavam.
Lugar de Ruas distantes uma das outras,
pouco comércio, quase se ouvia o som da poeira
que se levantava do chão. Era um lugar pequeno
não tão expressivo, não existia, ainda, jardim que
influenciasse alguém a voltar naquele lugar.
O segredo da simpatia era as melodias dos
gorjeios dos pássaros, que se ouvia um tanto longe
no vago espaço, um som, suave e envolvente.
Daqueles que para quem está cansado faz bem o
ouvido e, também, ajuda a relaxar o corpo
enrijecido pelo cansaço acumulado.
O espírito de Betoven passou na vida dos
capelenses, as estrofes musicais cifradas foram
interpretadas e transformada em melodias.
Ouvia-se que à jovem Helena Rodrigues,
Flautista,e conceituada em todo o Brasil, inclusive,
instrumentista da Orquestra Sinfônica da Bahia –
OSBA, foi congratulada com uma bolsa de estudo
na Alemanha, centro e berço das melhores Escolas
da Arte Musical, visando a especialização na arte
da música de instrumento de sopro.
Ao seu lado se encontrava Clóvis
Rodrigues, irmãos que juntos estavam a ministrar e

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /64

participar de grandes concertos musicais no Teatro


Castro Alves localizado a Praça Castro Alves em
Salvador da Bahia.
Filhos de José Ferreira, um ferreiro, que as
longas idas e vindas dos agricultores amolavam as
ferramentas da enxada, facão.
Estes filhos de José Ferreira contradizem o
dito, - “o homem é fruto do meio em que vive”,
pois, se fosse pensar como o ambiente que viveram,
seriam bons profissionais e exímios em labutar com
qualquer instrumento, ainda que exigisse a
robusteza. Porém, em comunhão, solidariedade,
solidez, estabilidade emocional entre os irmãos
conseguiram o impossível aos olhos dos
capelenses.
Nesse percurso de delicadeza, dependência,
a sensibilidade dessa família fez ecoar melodias
que as mentes atinadas apreciassem em todo o
mundo onde se fazia presentes nos Concertos
Musicais registrando presença Helena e Clóvis.
E o que dizer da frase, - “casa de ferreiro,
espeto de pau”? Filosofou o viajante, os filhos
negaram por completo que, - “filho de peixe,
peixinho é”. E não pensavam como o pai, nem
seguiram o ramo de negócio, ampliaram as tendas
no se embora pra Salvador e por lá iremos
visualizar outras canções.
O viajante aprende que não existe limite
para à força de vontade quando se elimina
inconstâncias, nesse caminho, poderemos chegar
onde jamais imaginamos.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /65

Estela Rodrigues Doutora em Educação


cobiçada professora da Universidade do Estado da
Bahia – UNEB, a segunda filha do ferreiro. Pra
quem não imagina tão sonhada missão, tão difícil
caminho acadêmico de muitas leituras, pesquisas e
argumentações em suas aulas.
Dona Nega, sua esposa de cabelos grisalhos,
gentil, acolhedora e com um dom de atrair os filhos
ao seu lado. Uma mãe zelosa com Enoque o taxista
sempre pronto atender com grande zelo quem
entrasse no seu automóvel, uma gentileza especial
sem discriminar a cor de quem não tem cor, seja
amarelo ou misturado os cabelos.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /66

Capítulo Vinte e Um
Antônio Cego uma figura inesquecível.
Era cego de verdade, padrasto de Antônio
Filho que, junto, despachava na sua venda de
bombons, os doces que a garotada apreciava, e
funcionava na janela da frente da sua casinha na
Praça Antônio Dionísio de Oliveira, hoje à SM
Calçados.
Arlinda era impaciente com seus filhos.
Antônio Filho era traquino mais que Vardinha.
Ainda na adolescência, despachava os doces para
os meninos, mas não tinha moleza não, Antônio
Cego mesmo cego estava a vigiar. Como?
No final da tarde o cego fechava o caixa
junto com Antônio Filho que se via apertado, se
vendiam muitas balas a garotada e, na saída de uma
ou duas balas, uma era pra alivio da garganta de
Antônio Filho. O cego sabia o que se vendia e
quanto se vendia.
Ele, o cego, nunca passou o outro dia sem
antes saber o quanto de dinheiro tinha e quanto de
mercadoria ficaria em estoque, conseguia
discriminar e memorizar a quantidade dos doces. O
coitado do Antônio Filho sofria, além de contar os
doces e balas que comprovava o balanço do
estoque.
Todo cego é passado para trás, mas este
cego desenvolveu um sistema anti-roubo, a final,
ele vendia em retalho, recebia grande quantidade de
moedas que guardava em uma gavetinha da mesa

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /67

onde se colocava à venda as guloseimas. E, naquela


gavetinha ele colocou um sino dependurado que ao
abrir a gaveta ele ouvia e, não sendo ele quem
movimentava a gaveta, ele descia o chicote na
direção da gavetinha de dinheiro. Um chicote do
tipo varinha que feria a mão de quem estava na
direção da gavetinha.
Mas, o cego não conseguia ter controle nos
sentimentos da sua esposa que era impaciente. A
vida não favoreceu ao cego por ser de mais idade
que a esposa.
Lembranças do cego que jamais deixou de
estar próximo à janela para atender com carinho os
garotos, dos quais, o viajante foi um dos primeiros
que esperava aquela janelinha se abrisse.
O cego deixa lições ao viajante que ali
comprava os seus doces: ainda que não estamos no
controle de tudo e todos, consequência de alguma
enfermidade, não seremos por completo
inutilizado, enquanto há vida existirá grande
utilidade.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /68

Capítulo Vinte e Dois

O fundo do poço foi sempre uma forma de


expressarem as mais frustrantes e decepcionantes
circunstâncias que o homem possa conviver e
passar. Entretanto, se conheceu entre os capelenses
um homem que cavava poços, mas nunca
permanecera no mais fundo da espera do nada.
De passos firmes que dispensava uma
carona, gostava de caminhar aos pés, ainda que
possuindo animais de montaria dos melhores. João
de Zeferino, pronto para toda obra, como se diz –
pau pra toda obra. E na sua fazendinha, nunca
negou trabalhar para os outros. A coragem era sua
marca. Pois, movido por um otimismo que jamais
se ouvia o murmúrio da labuta do dia-a-dia que não
eram dos melhores, pois a seca assolava de vez em
quando o seu pouco rebanho.
Desta forma, foi o espelho dos filhos que
dos melhores valores herdados se encontravam no
exemplo de ser do seu pai.
João, apesar dos poucos recursos
incentivava aos seus filhos se dimensionassem as
suas forças para outros Estados na busca de
informações e, principalmente, em adquirir o maior
tesouro que o homem pode herdar: o saber. O que
levamos para baixo da terra.
José Almeida, Geólogo, nas companhias de
petróleo espalhadas pelo mundo.
Manuel Almeida, Engenheiro de Minas.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /69

Vitalmiro e os demais filhos pequenos a


grandes agricultores que a maior lição de sucesso
era: economizar, pois assim ensinou o pai,
preferindo andar aos pés que gastar os lombos dos
seus animais.
Eliete Almeida, uma exímia professora de
matemática. Líder na Educação capelense, por
muito tempo.
Economizar não era ser um sovina (mão de
vaca, não soltar dinheiro fácil). Fazia das tripas
coração, esforçava um pouco para atender os filhos
nos estudos fora dos capelenses. Um empreendedor
realizando o que os outros não pensavam, foi à
marca do João de Zeferino. De caráter estável,
palavra segura, emoções estáveis e concentrado no
trabalho.
A região de Vargem Queimada reúne uma
grande maioria dos seus filhos que da terra tira o
sustento na valorização da cultura do leite.
Cavar tanques era uma especialização do
Zeferino e no antigo Tanque Novo, hoje bairro
novo dos capelenses, para quem vai em direção à
região da Cabeça do Porco, minguava água da boa
pra beber e servindo a população capelense.
Quando o açude da Rua do Açude, acumulava água
salobra, amarga de degustar, se salvavam, naquela
época com o Tanque Novo.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /70

Capítulo Vinte e Três

O tropeiro foi uma profissão sucumbida


pelo desenvolvimento dos modernos meios de
transporte.
Eram os transportadores de mercadorias do
passado, percorrendo no lombo dos burros
percorriam longas trajetórias. Animais resistentes e
levavam cargas que eram guardadas nos jacás feitos
de cipó, planta que crescia nos troncos das árvores,
estrutura roliça que parecia corda de grande
resistência e que protegiam os produtos dos
balanços nas trajetórias. Eram feitos de transas que
se entrelaçavam formando aparência de rede.
Jornadas de dez dias nos caminhos escuros,
empoeirados e desertos. Circunstâncias de varar à
noite, sem dormir, sem cochilar, sem temer o
rugido escondido dos animais noturnos e ferozes.
O viajante encontrou no meio dos
capelenses um idoso, resistente, trôpego e
deficiente, mas permanecia no seu rosto a marca de
um homem corajoso, destemido que enfrentou
noites, chuvas, sol, trovões e relâmpagos, além das
tantas surpresas que as jornadas reservavam quando
traçava o roteiro das suas viagens. Usando,
somente, da sabedoria popular, por onde passava
não lhes faltavam ouvintes que divulgava a fama
dos tropeiros. Bons contadores de histórias
propagadas pelas caças às cobras perigosas que
assustavam os animais perante o percurso.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /71

Naquela época tinha o vulto imaginário da


Caipora, uma lenda contada e repetida como se
fosse uma verdade. A Caipora assombrava os
animais, diziam os tropeiros, porém, nunca se viu
como realmente era esta assombração.
Usavam dos armamentos atirando nas
árvores com seus revolveres e espingardas para
demonstrarem que não estavam com medo. E, no
ressoar dos estouros os circunvizinhos avisavam, -
“sai da frente que lá vem os tropeiros”.
- “Ninguém ousava roupar um tropeiro,
alguém sairia ferido se tentasse. A sua reata um
revolver trinta e oito conhecido”. Foi o que dizia o
Filozino, tropeiro, pai de Helena, José Gabriel,
Antônio, Jucineide e Elenoides.
Filozino era o mais velho chefe de grandes
tropas de burro, onde tinha mais de dezessete
burros que transportavam fumo enrolado.
Sem muita habilidade na narrativa, Filozino
conta uma das suas:
- “Fui pego por uma diarreia e corri para a
minha privada para evacuar, num sabe né? Ao
descer a minha calça, esquecendo de retirar o
revolver da minha arreata, caiu no bocão da
privada, logo abaixo da minhas pernas”.
Foi preciso quebrar aquela privada para
resgatar a sua arma, para, tão somente, seguir
avante nas aventuras do tropeiro.
O seu amigo de longas estradas não saia da
sua reata, o passaporte para andar em mundos
estranhos, transitando com segurança nas estradas

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /72

com maior confiança. Mas, agora, o revolver estava


na merda.
O fumo era conservado usando açúcar que
mexendo a água virava uma garapa que embeberia
todos os rolos de fumo. Criavam o mel que deixava
o fumo com uma coloração bonita e consistente,
acrescentava um sabor todo especial que eliminava
o mau cheiro que aquele produto criava em um
furdunço.
Agora era compreendido como se percorria
grandes quilômetros sem estragar as suas
mercadorias e proteger pelo destino de saída e
chegada sem o mofo.
Mais de cinquenta anos de idade
sobrevivendo em cima de um burro se equilibrando
pela força do seu corpo desidratado pela seca,
entretanto, com uma resistência invejável.
Olho grande não o desanimava, nem o
desmotivava. Morfinado nunca! E, ainda que a
morfina se parecia com uma depressão os tropeiros
superariam esse tipo de enfermidade.
O viajante aprendeu que o percurso da vida
nos reservam surpresas imaginárias onde podemos
eliminar o seu efeito negativo sobre nós, quando
não tememos encarar, ver e provar que, realmente,
não somos incapazes de superar as tarefas ainda
que difíceis. E, para fortalecer a sua personalidade
é necessário encarar as lutas, pois através delas é
que saberemos quem somos e quais resultados
colheremos.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /73

Capítulo Vinte e Quatro

O viajante conheceu um dos escritores


capelenses, o chamavam de Anjinho de Detinha,
mas, hoje é Ângelo Almeida, neto de Manoel
Gonçalves e Dona Rola, Secundina. A diferença no
nome é que ele não mais era criança. E ele
filosofava em rimas:
- Vou descansar e vem comigo boas e más
lembranças, sob a cama pouco tenho a fazer,
quando acordar muito para recordar. Assim vou
viver cada minuto que nos restam, não esquecendo
da morte que nos dá, de forma triste, o sossego que
a vida não proporciona ao labutar. Espero que Deus
se compadeça de mim e ao derramar do sangue
remidor impeça que eu vá morar noutro lugar.
- As estradas nos ensinam admirar o
homem, jamais endeusa-lo. Ainda que a maior obra
de Deus deixou para ser apreciada, uma certeza
aprendi, gente é sempre gente, os defeitos, as
decepções, as tristezas são em grande número
provocadas por gente. Mas, uma lição fica
registrada em cada nova relação amigável, pois
cada um de nós é um mundo inesgotável de
surpresas boas e más. As más existem, no mesmo
espaço e tempo onde as boas conseguem brilhar.
- Sei que na próxima esquina, na curva a
seguir está reservado mais uma lição de vida que
surge não de homens previsíveis, mas daqueles que
põem o pé no chão e vão para lutar.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /74

Capítulo Vinte e Cinco

O viajante pensava, nunca fui jogador de


futebol, não tinha muita sorte em fazer o gol, eu
acho. Mas, com certeza Deus tinha lá seus
propósitos.
Alguns nasceram com os pés chatos, assim
dizia as mães que tinham muito trabalho para nos
levar ao médico que atendia a mais de cem
quilômetro de Capela, eu acho; por que saíamos da
nossa casa pela manhã e chegávamos à tarde no
consultório.
O viajante consegue umas prosar com
Melissa, filha da Angélica Almeida, neta da
Secundina, a famosa Dona Rola, irmão de Ângelo
Almeida, o escritor.
- Conta mais Melissa.
- Eu não essas histórias procura meu tio
Ângelo, ele quem sabe contar em “Inteligência de
criança” o seu próximo livro...

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /75

Capítulo Vinte e Seis


Ô você viu Chico do Sapato? Vi não.
O viajante entrou em uma residência à
frente um cercado de madeira, com várias flores do
girassol, chapéu de couro, plantas medicinais
alecrim de vaqueiro e cidreira.
Ao pisar no batente da casa se via um sofá
repleto de crianças bem junto as mães, estavam ali
para ser atendida por Floripes, mulher de Chico do
Sapato, mãe da Professora Maristela, e de Lúcia
Nunes Ex-Prefeita dos capelenses.
Tempos, ainda, distrito de Riachão do
Jacuípe onde João Campos, Zé de Tuza eram os
líderes e Prefeitos de uma grande região que
envolviam Nova Fátima, Gavião, São Domingos e
Pé de Serra.
Capelenses não tinham muito pra recordar
desses tempos difíceis onde a medicina era precária
que se atendia através do Médico Delorme de Ipirá
o
que se arranchava lá na Rua Manoel Gonçalves n .
45, na casa do Manoel Gonçalves, esposo da
famosa Dona Rola.
Estamos diante de uma história apagada no
tempo, onde servia a população na aplicação de
injeções nas bundas da garotada. Conta que as
agulhas bem grossas entravam nas bundas sem dó.
Engraçado que usava um pequenino recipiente de
metal de bronze para fervura dessas agulhas
queimando bactérias, isto por que era reutilizava as

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /76

agulhas, não jogavam fora não. Ô tempo


complicado.
Deu o tétano. Era uma doença que os
garotos não gostavam, sabiam que umas topadas
nas pedras espalhadas nas Ruas de Capela, logo se
abria uma pereba que só uma injeção de besatacil
resolveria o problema, mas a dor na bunda da
garotada era inesquecível.
O viajante conheceu alguns desses garotos
que recebeu as injeções aplicadas por Floripes. E, o
que se percebeu que eles não guardaram nenhum
trauma, nenhum transtorno mental por aquelas
agulhadas. Infelizmente, o que se percebe que as
novas gerações demonstram fragilidade. Ô carne
fraca.
Mas, cá pra nós, ninguém poderia esquecer
as traquinagens daquele tempo quando era tempo
de campanhas dos grupos políticos. E, naquele
tempo, o povo aprontava. Certo dia vieram juntos
Lindú e Floripes, cada um de grupo político de
posição. Estavam em campanha de petição de votos
para seus candidatos eleitorais.
Dizem as más línguas, ô línguas ferinas que,
até hoje, não se descobriram quem percebeu que
Lindú se assentara no fundo do automóvel, lá atrás
no trajeto de Riachão do Jacuípe a Capela. E,
usavam como combustível, naquele tempo botijão
de gás. Abriram a válvula do botijão de gás que
poderia embebedar as narinas tanto do Lindú e da
Floripes.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /77

Capítulo Vinte e Sete

Quando cansou de falar com tanta gente,


caminhando pra lá e prá cá, o viajante passa no
Povoado de Ipiraí, lá tinha apoio e acolhimento de
Zome e sua esposa Tonha, ô povo gente boa.
- Senta aqui, come aqui, deita aqui. Era o
falatório de Tonha.
- Ô seu viajante você não sai daqui tão logo
não, preciso que saiba que Patrícia, minha filha está
de criança, lindinha, fofinha, meu chamego. Tonha
falava, falava.
- Diga-me uma coisa, seu viajante, o que é
que eu faço com Zome?
- Qual o problema dona Tonha?
- Ele não fala não, é assim. Chega, senta,
come, liga TV, entra, sai, bebe água, faz xixi. Tem
hora que penso que Zome tá viajando e quando
vejo tá em casa. Até a pisada de Zome é piq-piq-
piq-piq nunca vi tanta paciência sobrando.
- Seu viajante o senhor tem que vir aqui
mais vezes, quanto tempo passa em nossa casa,
somos pessoas que gostamos demais do Senhor.
Fala, falava, fala, falava, fala, falava.
- Calma dona Tonha, calma. Disse o
viajante
- Calma o quê, ô Zome fala alguma coisa ai
homem.
- Ô Tonha fala o quê, respondeu Zome.
O viajante conheceu gente tão boa,
servidora, acolhedora, simples, sossegados da vida.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /78

Tonha uma senhora inesquecível de atenção que se


dispensava a quem visitava. O seu esposo Zome a
paciência depositou nele essa virtude.
Ô povo bom...

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /79

Capítulo Vinte e Oito

Gersival, neto de Zé Pereira, pai de Bia,


conta pra o viajante uma das intrigas entre Zé
Pereira e Margarida:
- Zé Pereira comprou um daquele
machucador de feijão, era um pedaço de madeira
que usava pregos atravessados como uma cruz e
que entre as mãos rolava pra frente e para trás
machucando o feijão. E vô coloca dois
machucadores em cima do fogão, enrolados em um
saco plástico. Sai a Rua toma uns pileques e ao
retornar em casa, sua esposa, Margaria pergunta:
- Ô Zé pra que tu queres esses
machucadores?
- Ô mulher esses negócios ai vou levar pra
Xique-Xique pra mulher dona da pousada me
pediu.
- Descarado agora tu vai ver.
O coro comeu, não ficou perna pra que te
quero. Saiu na carreira, cai aqui e acolá, não
consegue firmar-se em pé. Por que atrás dele estava
comendo o couro do cocuruto da cabeça do Zé
Pereira. Margaria não levou em conta a história.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /80

Capítulo Vinte e Nove

Manoel Gonçalves, foi um grande


negociador, jogava com a cabeça, juntava e
comprava ovo de galinha e frangos dos capelenses
e vendia em Salvador na feira de São Cristóvão, de
volta à Capela comprava panos de xita, papeline,
bramante, linho, cambraia – era o tempo do
escambo, troca de produtos por produtos.
Naquele tempo o Manoel era um vendedor
personalizado, pois os capelenses desejavam
qualquer mercadoria e solicitava à compra desses
produtos que se adquiria, somente, em Salvador.
Nas Ruas dos capelenses andava a mais
nova atração da cidade era o DKV, automóvel
importado, pra gente chique andar. Um
convencível, um tempo que usava o Jipe e a velha
Rural. Aparece o Manoel Gonçalves e o seu
automóvel DKV.
A empolgação com o DKV novinho,
infelizmente à tragédia que o abateu. Um dos
primeiros motoristas o seu genro Bebeto
Rodrigues, filho do Cornélio Rodrigues, bate o
DKV na cidade de Candeias na Bahia em um poste.
DKV era considerado uma Ferrari do
tempo, o viajante soube que Manoel Gonçalves,
não ficou de bem com a vida não, caiu numa
morfina daquelas que nem reza de Maria de
Vardinho conseguiria tirar a inhaca do Avô do
Ângelo Almeida, o escritor que dedicou anos de

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /81

pesquisa em reviver seus tempos de crianças, e das


lembranças das histórias que aqui se ouviu.
O viajante observou que o Manoel
Gonçalves se interessava em ganhar dinheiro com
praticidade. Ganhava muito dinheiro com o pano
papeline, luxo puro naquela época. Todas as
novidades que chegavam para os capelenses
estavam atreladas a este comerciante.
Enquanto Donato Alves, alfaiate que tinha
uma tenda de costura personalizada, pai de
Gutembergue, e o seu colega de Áureo Ferreira,
também agricultor muito inteligente, começaram a
carreira política de representante do Povoado de
Capela, mas era um tempo que ser político não
recebia nenhum dinheiro.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /82

Capítulo Trinta

José Cadeira, não tem nada haver com o


homem que construía móveis, o viajante conheceu
pessoalmente este idoso, ainda vivo.
Ao lado da sua casa tinha um armazém,
logo chegando no batente, um pequeno susto.
Estava de frente com um arsenal de armas e
revolveres.
Calma, calma não era um traficante, se
tratava de um homem fabricante de armas branca
de fogo.
Há fabricação, naquela local um fole que
soprava o vento no fogo à carvão vegetal que
amolecia qualquer ferro: facão, enxadas amoladas,
picareto e cavadores.
Naquele tempo muitas caças de sobra no
campo, codornas, perdizes, nambus, veados
gaeiros, caititu, bengo, preás, tatus eram os alvos
dos caçadores, em grande fartura, o povo tirava seu
sustento de alimentação nas caçadas com as armas
compradas no José Cadeira.
José Cadeira, pai de Carminha, Terezinha e
Antônio, técnico em eletrônica.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /83

Capítulo Trinta e Um

Ecílio, avô de Silvio, Marcos, pai de João,


ele era um homem trabalhador, muito criativo,
marceneiro e carpinteiro de madeira de lei que
fabricava cancelas para a cerca, caibo e tesouras
para a cobertura de sustentação do telhado das
casas e currais nas muitas fazendas dos capelenses.
O viajante lembra de um caso ocorrido as
madrugadas da cidade, o silêncio total, para uns,
pra outros não. Os cli-cli-cli-cli dos grilos para uma
pessoa era incomodado.
Certa noite, Ecílio, dormia naquele ronco de
cansaço da labuta do dia-a-dia, mas os grilos
tiraram o sono dele. Até que ele pega a sua
garrucha cheia de chumbo pelas bocas do cano,
daquelas feitas à mão do Zé Cadeira, e manda a
sapecada de chumbo varar as telhas da casa e, pra
todo lado voaram pedaços de cacos.
O povo vizinho não sabia, assustados uma
maioria deles pulam da cama as madrugadas
naquele sereno com um frio de dá dó.
- Seu Ecílio, o Senhor está bem?
- Tô meus filhos.
- O que foi isso Senhor Ecílio?
- Uns arruinados de grilos não me deixam
dormir, mantei lhe chumbo neles.
Ecílio assustou a vizinhança por completo,
alguns retornavam pra casa resmungando:
- Só deve tá ficando broco, seu Ecílio.
- Broco? Não entendeu o viajante.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /84

Capítulo Trinta e Dois

Detinha filha de Manoel Gonçalves conta


para o viajante o comportamento da sociedade
perante as mulheres que naquele tempo eram
discriminadas. E o viajante caía na gargalhada:
- As primeiras mulheres que se perderam
em Capela foram proibidas de entra no Clube
Recreativo de Capela;
- As primeiras mulheres a usarem calça
foram discriminadas no povo capelense;
- As meninas se perdiam iguais as de hoje,
mas era por debaixo do pano, faziam tudo que as
meninas fazem hoje. Dão o rabo do mesmo jeito;
Ao ouvir esses casos. O viajante soltou uma
gargalhada daquelas de esgoelar;
- Os cabelos se faziam um coque,
colocavam bucha de aço da marca Bombril por
debaixo do coque (tipo de penteado) com a bebida
alcoólica cerveja pra segurar o penteado. A cerveja
servia como um gel.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /85

Capítulo Trinta e Três

A única fábrica de sapato foi criada pelos


capelenses suprindo as necessidades de um calçado
personalizado. A tenda de Leonel.
Leonel, pai de Tonha, sua mãe Dona
Orádia, estavam todos a serviço das vendas dos
doces na famosa Venda de Dona Orádia, ali
compravam doces, sucos e bombons.
Quando criança o viajante sentava perto
daquele homem curtindo o couro, cortando o
couro, ajustando o couro nos moldes de ferro que
numa costura aqui e outra ali, formavam um
calçado ao gosto do cliente. Uma tecnologia
manuseada e artesanalmente criava os calçados
femininos, masculinos e infantis.
Era um tempo que a criançada achava muito
engraçado, interessante. Era uma ansiedade das
maiores que forçava a esperar a finalização do
calçado. Até por que naquela tenda de trabalho,
somente o Leonel resolveria à entrada, à saída dos
produtos no estoque. Ele gerenciava o financeiro,
era o designer de modelos dos calçados retirados,
algumas vezes, das revistas. Outros calçados os
próprios clientes diziam como gostariam como
fosse feitos.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /86

Capítulo Trinta e Quatro

Êta que na Rua Manoel Gonçalves, a


primeira Rua de Capela, onde tudo começava, tinha
muito comerciante por lá, até mesmo a primeira
padaria dos capelenses que tinha um forno à barro,
as prensas de madeiras, e uns recipientes onde a
massa embotada num pano recebia os murros do
Baio Padeiro.
Às três horas da tarde o viajante seguia
aquela garotada que incomodava o Baio Padeiro,
queriam logo degustar e saborear aquele pão
batido, sem fermento.
O ambiente de trabalho era um cenário
daqueles onde se via uma penumbra que refletia os
raios do sol nas sombras das estacas que serviam de
esteio do telhado. À direita, logo a entrada do forno
à lenha, estava o pote d´água, água retirada dos
carotes do Tanque Novo.
O povo falava demais da técnica do amassar
a massa de pão por que o Baio Padeiro da maneira
como lavava as mãos. E tome lhe porrada até
amaciar àquela massa.
O que se via ao lado esquerdo estava o
fogaréu onde ao mesmo tempo ele realizava a
reposição da lenha ao forno de barro que deveria
esquentar para depois à entrada dos pães.
O viajante pensou esse pão do Baio Padeiro
era diferente, naquela quentura acima de quarenta
graus o suor descia no rosto, enrolava nos ombros,
infiltrados nos pelos da pele e descia aos seus

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /87

braços. E se percebia que a sua cabeça estava


embotada de suor que se limpava no passar do dedo
em direção à direita e que se espirrava ao chão. E,
na volta da atividade, tome lhe murro na massa de
pão: poque, poque, poque, poque.
Alguém deveria no futuro pensar que
comeram muito pão temperado ao suor.
Quanto aos germes, bactérias e fungos eram
consumidos no fogo e temperatura do forno à lenha
construído de barro.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /88

Capítulo Trinta e Cinco

Seresteiro capelense, boêmio Pereirinha, pai


da Dra. Rilza, do Gilson, do Toinho.
Era uma radiola movida às pilhas portáteis
com o disco bolachão:

“Sentimental eu sou,
Eu sou sou demais.
Eu sou que sou assim,
Porque assim ela me faz.
Das músicas que eu vivo a
cantar Tenho sabor igual,
Por isso que se diz,
Como ele é sentimental.
Romântico é sonhar e eu sonho assim,
Cantando essas canções para quem
ama Igual a mim
E quem acha alguém como eu achei, verás
que é natural. Ficar como eu fiquei, cada
vez sentimental.”
Altemar
Dutra

Estacionava o automóvel Chevette,


Pereirinha se assentava no passeio da Igreja
Católica na Praça Antônio Dionísio, logo as
manhãs em longos, longos anos de paixão. Diziam
que Angelita, sua esposa, não sabia que ele se
apaixonou por outra? Quem roubou aquele
sentimento do Pereirinha? Pouco se sabe!

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /89

No final da vida, Pereirinha, foi submetido


aos exames e descobriram que teve lá seus
descontroles emocionais. Mas, um gole aqui outro
gole ali, pitu com caipirinha, promoviam suas
alegrias através das suas serestas que nunca o
deixavam pra baixo, sempre, dizia e fala, - “tô legal
rapaziada”.

Para quem não sabe Pereirinha desenvolveu


um mecanismo de defesa apegando-se à alegria,
festas, aos sentimentos de amar e ser amado. Uma
passagem da vida entre viver no corpo se
desgastando, mas com um jeito de pensar jovem, se
motivando em resgatar o sorriso e alegria da labuta
do dia-a-dia em sua Mercearia que se localizava na
esquina da entrada à direita da Igreja Católica.
Poucos saberiam o quê se passava na cabeça
de Pereirinha. Porém, uma coisa é certo, lembrar do
Pereirinha triste? Quando amiga tristeza chegava
Pereirinha espantava ligando o som do auto e na
voz der Altemar Dutra a alegria tomava conta das
Ruas e ao longe se ouvia àquele eco.
Angelita uma trabalhadora na Venda de
Bebidas, na criação de suínos, onde se presenciava
descendo ao meio-dia com a lata na cabeça cheia de
restos de comida em direção à criação dos suínos.
Que se registravam nas mulheres capelenses
imagens das trabalhadoras que se manteriam firmes
na caminhada da vida.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /90

Capítulo Trinta e Seis

Gente a subida na Avenida Sete de


Setembro foi onde o viajante se deparou com
Manoel Luiz, dono do único Posto de Combustível,
naquele tempo. Também, Agricultor daqueles de
puxar enxada.
- Seu Manoel o senhor ainda planta
bananas?
- Sim meu filho, gosto de ganhar dinheiro a
longo e curto prazo.
- Mas, seu Manoel nessa idade?
- Idade não é doença, agora que tenho que
ocupar meu tempo.
Muito bom seria se os idosos
compreendessem este estilo de vida, além de
empreender, investiu na qualificação de Dr.
Bebega, Dr. Nane, Professores nas Universidades
Federais em Agronomia e Hildebrando, um grande
comerciante, esposo da professora Mirande.
Manoel Luiz, sempre, sempre naquele
batido da pisada firme, dizem que idade não é
doença mesmo, pois a fama da virilidade era das
melhores.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /91

Capítulo Trinta e Sete

Quando pensava que tudo estava


finalizando o viajante já com sua pasta repleta de
informações do povo capelense. Alguém fala pra
ele, não se esqueça do primeiro Prefeito de Capela,
Honorino Oliveira.
O Dú, o apelido e mais conhecido,
fazendeiro dos fortes, uma força de vontade
daquelas de dá inveja, sempre no serviço da labuta
do dia-a-dia, sem titubear, sem cambalear de lá pra
cá, de cá pra lá, a pisada do veio era sempre de um
jovem.
- Vamos a Salvador e lá visitaremos
algumas lojas. Alguém contou ao viajante que
nessa ida, o povo capelense há muito tempo pouco
saiam pra bandas distantes, mais presos no contato
das viagens na própria circunvizinhança vendendo
seus produtos ou animais do gado bovino, caprino e
suíno.
Dú era o famoso tabaréu sabido, passar a
perna nele? Era difícil! E não gostava de meia
palavra: Sim, sim! Não, não!
- Me digam aqui quem é esse Tota que está
ganhando acima do salário de Prefeito?
Toda questão que na cidade de Capela tinha
um homem chamado Tota, e naquela época poderia
está prestando serviços a Poder Público Municipal.
- Ô homem doido, isso aqui é total, é o total
da folha de pagamento, inclusive esta somando
com o teu salário.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /92

- Tá bom, pensei que tinha gente querendo


me fazer de besta.
Naquele tempo essa foi uma das histórias
que a oposição política criava e jogava na Rua
tentando acabar com a imagem do Honorino.
Mas, que povo danado os capelenses.
Apesar da sua limitação na leitura, naquele
tempo as dificuldades na educação brasileira eram
precárias. Por isso o viajante nunca culpou o Dú,
ele estava certo; esse negócio de Tota ganhar mais
que ele só se ele fosse besta.
Mas quem disse que Dú não sabia lê? Ele
sabia sim, o erro foi da máquina de datilografia que
espirrou “uma letra L” no final de “total” não
estava claro o nome de “Tota”, mas “total”.
Descobriu a tempo que o erro não foi na leitura de
Dú, mas na datilografada.
Há se Dú sabe que o datilógrafo errou.
Ainda bem que ninguém disse pra ele.
Viu ai? Ô povo fofoqueiro. Bem, fofoca era
a notícia ou o meio de comunicação dos capelenses,
por alguns anos, não tinha naquele tempo jornal
escrito, nem rádio na cidade.
Mas, o viajante nada bobo, sempre curioso
procurou Dú, aproximava daquele, - “olá veio
firme, tinindo”.
Brinca não, pense num cabra da peste, mexe
nele. Ele, até gosta de brincar, mas se tu engrossar
o pescoço, ele sabia como afinar. E botar gente no
eito.
O viajante aprendeu com Dú, quatro
grandes lições:

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /93

1ª. - Se você é o líder maior, então todos


devem ganhar menos que você;
2ª. - Se você é um administrar e responde
por responsabilidades, é melhor errar na intenção
de evitar um grande problema no futuro;
3ª. - Seja um líder nada frouxo;
4ª.- Tenha palavra firme e o povo respeita.
E o viajante avisa, num vai falar besteira
com Dú porque é homem que não tem tempo pra
coisa boba não. Entendeu?
Honorino aprendeu com alguns sabidos,
porém ensinou muitos daqueles sabidos. O que para
muitos não era aceito, se sentiam humilhados em os
capelenses confiar à missão de ser o primeiro
Prefeito dos capelenses, o que não perceberam era à
determinação, à coragem e, principalmente, o
espírito empreendedor que se movia através do
corpo de Dú.
Quem o conheceu pessoalmente, admira a
genética da vida daquele homem, seu físico, sua
estrutura emocional, às vezes, de temperamento
muito forte, mas que sabia conversar com quem
sabia tratá-lo bem.
Despediu-se o viajante, - obrigado Dú, tu é
duro na queda cabra, eu sei.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /94

Capítulo Trinta e Oito

- Vale meu Deus, como vou contar a


história da Néli e da Paquinha?
O viajante pensou, pensou...
Bem, todo adolescente depois dos pelos lá
em baixo crescerem, quer soltar a franga, tem jeito
não. O pastor diz é pecado, o padre diz tem hora
pra isso. Mas, os meninos não tinham hora pra
nada, toda hora era hora.
A mãe fala pra menina, virou moça, cuidado
pra não embuchar a barriga.
O pai diz pra o filho, tu tem cuidado agora
tu embuchas barriga das meninas. Não me traz
problema de bebês pra mim não.
Mas, é da natureza humana tentar negar ao
sistema reprodutor o que ele nasceu pra fazer.
Coisa estranha não é? Negar a boca de comer?
Negar os olhos de se vê? Negar a mão de pegar?
Negar os pés de andar? Negar o cú de cagar?
- Que quer isso seu viajante, que palavrão é
esse?
- Não me venha dizer que é nojento é lógico
ou não é?
Mas, na Bíblia Jesus disse, “negue a si
mesmo e siga-me”.
- Eu até concordo com Jesus, quem sou eu
pra discordar? Sim negar essa carne pecaminosa.
Cambada, - o certo é casar. Se comprometer
e construir a sua família.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /95

Porém, existe a natureza humana


tendenciosa ao prazer e à satisfação. E se Deus nos
deu, devemos usar na hora certa, a fim de evitar à
irresponsabilidade com a nossa saúde,
principalmente.
O viajante descobriu que Néli gostava de
namorar e ser embuchada. Grande coisa, não era
somente ela, tinham as incubadas que se
arreganhavam e poucos sabiam que davam...
E, naquele tempo, os meninos, coitados não
tinham pra onde descarregar aquela necessidade e
as escondidas dos pais, desciam nos fundos das
Ruas escuras, com chão de lama, andavam com
sandálias havaianas, acesso por o portão dos
fundos. E, poucos sabiam das tramas íntimas.
Anjinho de Detinha tu já foi lá? O viajante
questionou um daqueles jovens.
- Anjinho, respondeu, - “Deus não leva em
conta o tempo da ignorância”.
Do outro lado, o viajante solta aquela
gaitada de torcer as tripas.
Pior quando não se tinha Nél. Sobrava à
jumenta Paquinha e a zoofilia comia solta nos
fundos da Capela. Jesus tenha misericórdia. Mas,
ninguém avisou aos meninos que não podiam tal
prática.
Tempos de pouca conscientização. Aquelas
práticas eram antigas em Sodoma e Gomorra,
homem com homem, homem com animal, na
prática sodomia, nasceram as doenças venéreas
dizimando em morte toda população.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /96

Capítulo Trinta e Nove

O viajante conheceu Anjinho de Detinha,


andava lento muito naquele tempo, gostava de
viver uma vida buscando informações.
Anjinho conta pra o viajante:
- Meu vô que não conheci pessoalmente
Manoel Gonçalves, tinha uma força de trabalhar
incomparável a muita gente.
- Ele foi danado, tomou a namorada do seu
cunhado Zé Antônio; ela se chamava Maria Pião,
uma jovem franzina, mas descarada de dá dó.
- Foi à primeira “rapariga” que ousou viver
entre os capelenses. Rapariga era mulher que
tomava marido das outras.
Viu ai depois dizem que os descaradões só
existem hoje. Que nada!
- Foi sim seu viajante, minha vó Secundina,
a “Deusa das Rolas” aquela Senhora do Capítulo
Cinco, foi destronada por Maria Pião. Ô dó quem já
viu isso?
Minha mãe Detinha dizia: eu fiquei morta
de vergonha, porque aquilo de rapariga só tinha nas
novelas do Rio de Janeiro.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /97

Capítulo Quarenta

Tempos das novidades naquele lugar onde a


Escola com suas limitações não existiam
laboratórios de pesquisa, as crianças se divertiam
entrando em buracos das portas abertas. O viajante
não deixou de conhecer os garotos que gostavam de
visitar uma tenda de trabalhos onde amolavam as
ferramentas da enxada, do facão, do afoice, da
picareta.
O que despertava em nós era aquele carvão
que o fogo era de derreter o mais grosso tinindo
ferro.
Cravinho era um senhor que servia á
população nessa mão de obra onde com o seu
“fole” chamava muita atenção. O fole do ferreiro é
uma ferramenta usada atiçar o fogo na hora da forja
de metais.
- Cravinho me explica com o é que esse
fogo esquenta tão rápido esse ferro?
- É só mexer no fole que atiça o fogo.
- Mas, como é isso? Esse fogo é diferente.
Esse carvão é carvão da terra? Ele não é um carvão
de longe não?
- Não filho é carvão comum, mas é carvão
vegetal puro.
O viajante percebe aquela garotada estava
confusa: com era que aquele fogo esquentava tão
rápido aquelas ferramentas de ferro como o
picareta.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /98

A metalúrgica do Cravinho estava além do


pensamento e naquela mão de obra especializada
que ajustava e entortava o ferro de lei. Funcionava
na Rua do Açude debaixo de uma simples casa de
esteio de madeira e parede de barro.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /99

Capítulo Quarenta e Um

O viajante se desloca as bandas da Rua do


Cemitério em direção ao Povoado de Ipiraí.
Pense comigo os nomes dos filhos de
Dadinho e Minelvina: Noet, Noemio, Nodete,
Neuso, Narciso, Noraedna, Nossilandina,
Nossivandina, Nirlandio, Neovania, Noide,
Nailana, Nélio, Néliane, Neridiane, Narivania,
Naione.
- Dona Minelvina me diga como foi que a
senhora conseguiu tanto nomes começados com a
letra “N”?
- Naquele tempo o meio de comunicação
mais usado era o rádio, e tinha aqueles programas
que as pessoas pediam as músicas e os ouvintes se
identificavam dizendo o nome. Eu comecei a
guardar esses nomes e outros nomes eu inventava.
Ao chegar naquela localidade se dirige a
residência de Minelvina esposa de Dadinho de
Ipiraí. Este homem trabalhava para a sua família,
que não era pequena, dezessete filhos, treze
mulheres, trinta e sete netos, mais de dezoito
bisnetos.
Venha chuva ou faça sol, no batente
Dadinho estava a pelejar, sua labuta era promover
alternativas de sobrevivência que entrada os
mantimentos ao sustento da sua família abençoada.
Pois, todos os filhos seguiram uma das profissões
das tantas que o Dadinho desenvolveu durante a
sua vida: oleiro, agricultor, metalúrgico, mecânico

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /100

de automóvel, motorista, padeiro, açougueiro,


cabeleireiro.
- Este homem, pensou o viajante, - como
conseguia forças para desenvolver todas essa
profissões?
- Dona Minelvina, como se dava essas
motivações de tantas profissões?
- Meu filho, Dadinho foi um homem
ocupado e quando um negócio não rendia ele
promovia outro trabalho. Alguns casos de trabalhos
como cevar a planta do sisal com um motor, que
produzia depois cordas.
- Na casa de farinho, cevando a mandioca,
fabricava farinha;
- Dadinho também criava canga de bois, o
que eu entendo é que meu esposo tinha uma
inteligência além do normal, aqui no Povoado de
Ipiraí, ele criava alternativas para o povo que
residia aqui tivessem trabalho, então ele entrava em
várias áreas do serviço e fabricação de produtos.
Padaria ele iniciou, e já criava um serviço e vaga de
trabalho para um padeiro.
- Plantação de feijão, criava alternativas de
vagas temporárias para carpina e colheita da
plantação;
- Tinha a tenda onde existia, também, um
fole que assoprava vento no fogo e amolecia o
ferro da enxada, do facão, do picareto, isso por que,
naquele tempo existiam muitas ferramentas de uso
na labuta da zona rural;

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /101

- Depois ele enfrentou à linha de ônibus


levando passageiro de Povoado Ipiraí à Cidade de
Ipirá;
- Na olaria ele fabricava tijolos que era uma
grande necessidade de produto para construção
civil que o povoado e a cidade estava em
crescimento. Naquele tempo precisava de gente
para amassar o barro e carvão para cozinhar os
tijolos.
Mas, a grande participação de Dadinho não
foi somente em criar alternativas de trabalho e
alternativa para o povo capelense.
Com o Reverendo Germano da Igreja
Presbiteriana, Dadinho ele cedeu o terreno para
construção do Colégio Joana Rios, homenagem a
mãe de Tonha mulher de Zome, a Dona Joana
Rios.
Certa feita, Dadinho gostava de uns
pileques, ele gostava de permanecer em casa, e
sumiu por algum tempo, pegou o carro, passa pra
lá, passa pra cá. E não entrava em casa, passou
alguns dias, não sabíamos onde estava Dadinho.
Ficamos sabendo que ele estava dormindo na
cobertura da olaria, e disse: não quero incomodar
ninguém.
O viajante entendeu que o Dadinho gostava
mesmo era de ser útil e servir ao povo. E quando
estava de pileque não queria desagradar ou que
ninguém se preocupe com ele.
Os capelenses não poderiam esquecer deste
personagem tão importante para o desenvolvimento
sócio e econômico do município. As tantas
profissões do Dadinho indiretamente favorecia a

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /102

sua família sanguínea, mas, também, aqueles


jovens que precisavam aprender uma profissão, em
grande número, hoje, estão na labuta do dia-a-dia
com uma profissão aprendida com o Dadinho.
- Dadinho quero pão;
- Tô fazendo corda;
- Dadinho quero tijolo;
- Tô amolando facão;
- Dadinho quero carne;
- Tô plantando feijão;
- Dadinho quero compra.
- Diga que eu vendo.
- Finalmente conseguir pegar dadinho.
Nunca se sabia o que Dadinho estava
fazendo, mas uma certeza era que ele estava sempre
ocupando o tempo. O valor da vida era preenchido
em todos os dias, trabalhar-trabalho, não era difícil,
difícil mesmo era não ter o que fazer. Por este e
outros motivos Dadinho soube aproveitar o seu
tempo, os exemplos deixados criando profissões
para quem não sabia o que fazer da vida.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /103

Capítulo Quarenta e Dois

Em Lagoa das Flores, outro povoado do


povo capelense, encontramos com o Joaquim
Manoel Carneiro, pai de Vicente, Lídio, Maria,
Celma e o filho adotivo João Enfermeiro.
- Seu Joaquim como foi que seu pai
comprou uma tarefa de terra com três sacos de
farinha?
- Meu pai se deslocou de Candeal de
Riachão do Jacuípe para residir em Capela, aqui
meu pai comprou a terra do Coronel Marcolino no
total de 1350 (um mil trezentos e cinquenta) tarefas
a 500 (quinze mil rés).
- Meu pai Manoel Geraldo Carneiro, nome
da maior Escola Municipal dos capelenses, pai,
também do Lindú Carneiro, vendeu 300 sacos de
farinha e comprou a Fazenda Lamero da Terra no
que era 1042 (um mil e quarenta e dois) tarefas de
terra, onde cada 1 (um) saco de farina comprou
mais de 3 (três) tarefas de terra.
Joaquim nos dá uma aula de história de
capelense e do Brasil:
- Coronel Marcolino, tinha, ainda escravos
no ano de 1889 quando, ainda, era o regime A
Primeira República, onde surgiu o Coronelismo:
título e posição social comprada por seu nível
financeiro.
- Dom João VII veio fugido pela guerra de
Napoleão Bonaparte. Em 1815 intitulou o Brasil-
Reino-Unido-Portugal, conta Joaquim;

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /104

- Em 1816 a mãe de Dom João VII, sua mãe


Maria I, herdou o trono Português. E, Dom João
VII, filho, recebeu a coroa como Rei de Portugal no
Rio de Janeiro em 1826. Um Rei de Portugal que
morava no Brasil. Então ele retorna à Portugal
preocupado com o parlamento e entrega ao filho
Dom Pedro I o Brasil.
O viajante pensou, - um senhor com 79
anos, lúcido, ainda, guarda as lembranças das datas
cívicas, bem como, faz uma leitura de memória.
Jamais existirá demência e quaisquer enfermidades
que atinjam o cérebro.
A curiosidade do viajante se despertou a
pergunta, - como é que o Senhor Joaquim consegue
e aprendeu tantas informações?
Responde Joaquim, - meu filho, toda
semana, eu leio e releio o livro que conta história
do Brasil. Ai conseguir gravar essas datas e esses
detalhes.
Uma certa preocupação de alguns familiares
do Joaquim, mas o mais importante é que uma
pessoa idosa que lê e faz leitura de memórias estará
sadio por mais tempo que se possa imaginar.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /105

Capítulo Quarenta e Três

O viajante conhece, também, o jovem


conhecido como Anjinho de Detinha a vida o
reservou algumas surpresas para transformar em
um homem mais forte. Um acidente de trânsito
ocorrido com o seu pai Almir, o qual passara mais
de cinco horas de cirurgia cerebral e nove dias na
UTI, levando a permanecer em tratamento semi-
intensivo na Clínica Cirúrgica do Hospital Geral do
Estado da Bahia.
Anjinho estava rente naqueles momentos
como o seu pai, diga-se o único filho que teve força
para o acompanhar, os demais não conseguira
visualizar o sofrimento do velho Almir. Em quase
todos os dias, presenciando um crânio aberto,
auxiliando e consolando-o amarrado as grades da
cama. O Almir, pensava ele que estava no seu
transporte. E, dizia ao seu filho, Ângelo Almeida, -
vamos empurra esse carro porque tenho que tirar o
leite da vaca.
Nesse momento muitos amigos conseguiam
enxergar seus padrões de viver em perceber que a
vida era mais frágil que se imaginava, era mais
curta que os dias aparentavam.
Essas novas descobertas o viajante observou
que cada ser humano levava consigo uma vida
maravilhosa e inesgotável de se viver, analisar,
entender. Afinal, não era em vão que milhões de
espermatozoides morreram, mas um, tão somente

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /106

um, consegue ultrapassar a barreira e penetrar no


óvulo fecundo obtendo o prêmio da vida.
Lá na casa da Detinha, mãe do Anjinho,
esposa do Almir, a frase de Jesus “olhai os lírios do
campo”, naquela casa, no quintal estavam repletos
de flores. Mas, “olha os lírios...” foi um conselho
que o Anjinho lembrava sempre para superar
aquela dor de ver seu pai sofrer.
Anjinho aprendeu na Igreja Presbiteriana o
ensinamento que “desviar o pensamento a um
ponto do universo e ver a beleza que existe”.
Adotando esse conselho ele retomava a razão de
viver, e não somatizava (trazer para si um problema
sem ele ter provocado), ou seja, acolher a dor de
quem doía, nem acumulava angústias e tristezas
que o seu pai transmitira quando o acompanhou
naquele hospital.
O povo capelense não só merece um viva,
mas viva, viva este povo trabalhador que superava
e acreditavam em bom futuro.
Depois de alguns meses foi traçado um
novo percurso, o viajante, retira o peso das mágoas
e angústias do passado e embarca em uma viagem
sem fim. Uma grande característica do povo
capelense, o começo era um objetivo para alcançar
os fins. Mas, nunca seria o fim do começo. E,
jamais perderiam oportunidades e de imediato
buscavam novas alternativas. Aprenderam logo
cedo que “carro atolado, faz barulho, queima
combustível, mas não sai do lugar”.
Então, entendera que deveria se desapegar
pra dá continuidade à vida.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /107

Quanto à capacidade de planejamento


aprenderam através da técnica de ver o erro um dos
outros, as Faculdades não conseguiam registrar em
seus anais bibliotecários tanto casos. As Ruas e nas
calçadas o dialogar poderia ser visto como fofocar,
naturalmente. Uma pergunta aqui, outra pergunta
ali. Assim, pouco-a-pouco chegava onde desejava.
Sem perceber, os ouvintes naqueles diálogos,
falavam o que não desejavam, se soltavam e na
imaginação fértil se revelavam em brilhantes
notícias muitas criativas ou “criadas” da
informação gerada de quem não se dava conta de
tirar o leite às madrugadas.
Conta-me uma história ai fulano. Logo
chegando no passeio da Igreja Católica que
localizava-se na Praça principal da cidade Joaquim
Machado que concorria com outro nome de Praça
do Kiosk.
Os bons ouvintes relembravam fatos e
acontecimentos do seu passado; aqui usavam do
método da regressão, sem saber, amigáveis
informantes do que passou. Com destreza cada
palavra dita por aquele povo, pois deles se tiravam
as lições de vida e tentavam sentir e resgatar a
alegria de viver.
E, naquelas conversas estimulavam outros
encontros que dá boa audição se aprendia e se
tiravam exemplos das mais simples situações
relatadas. Exploravam mundos dos quais eram
escondidos na memória e história de cada família e
se registrava a sabedoria de cada um deles. Como
dizia o jovem apelidado Poeta, - “cada um de nós

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /108

compõe a sua história, e cada um sabe a dor de ser


feliz”.
As Igrejas em Capela pregavam, pregavam.
Mas, pecadores serão até à morte. Costumes que
eram certos para alguns, para outros eram quebra
da lei, as quais leis? Leis criadas por os capelenses
através de repetidas ações que transformavam em
costumes e quem ousasse quebra-las era
considerado “o pecador”.
Alguns capelenses determinavam suas leis
através da força da influência predominante de
classe social que se adquiriram no passar dos
tempos. Mas, os grupos políticos, ô raça,
aproveitavam e corriam na frente e pongavam
nestas leis para manipulá-las a seu favor. Ô
raça...Mas, - viva o povo capelense.
Nessa cidade não faltou os latifundiários de
herança das enormes fazendas, o direito de posse
através do Recibo Público lavrado em Cartório do
Poder Judiciário lavrado por Zé de Nazaré, ou
melhor, “Zé das Pencas das Chaves” dependuradas
na sua cintura amarradas ao cinto. Mas era o Zé das
Chaves que legitimava à compra e à venda dos
terrenos divididos em lotes para as futuras
construções em Capela.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /109

Capítulo Quarenta e Quatro

Sai da frente, sai da frente meu negócio é


limpar as Ruas.
- Lá vem a carroça de burro do Irineu de
Baio, pai de São, Popô residente a Rua na descida
do Tanque Novo. Tonha, a sua esposa, serviu muito
aos capelenses como “mãe de leite”, onde naquele
tempo as mulheres gestantes não produziam leite
para os bebês. A raça de Tonha era das boas.
Um tempo difícil na limpeza pública da
Capela, dominada e distrito de Riachão do Jacuípe,
tinha somente uma carroça puxada por burro.
As Ruas cheias de lixos espalhados por todo
o lado, tinha o carroceiro público Irineu de Baio,
onde puxava as rédeas à frente que parava em casa
a casa, logo pegando a pá e uma vassoura de
piaçava, ajuntando e recolhendo a lata do lixo na
Rua que as donas de casas deixavam nos passeios.
Ajuntava de um lado a outro, aquela poeira que
subia as narinas e que não se protegia com uma
máscara, infelizmente, pouco se pensava na saúde
ocupacional dos funcionários deixando-os atoa.
As muitas e quase intermináveis idas e
vindas, subidas e descidas nas Ruas de ladeiras, o
sorriso, a alegria, a determinação, o batido dos pés,
trazia uma alegria quando ele gritava:
- Olha o lixo. Cadê o lixo?
Alegria pura estampava naquele
trabalhador, um serviço pouco desejado dos
capelenses, mas o Irineu topava com toda

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /110

responsabilidade, não falhava no serviço porque, se


porventura, a sua ausência acontecesse logo se via
os lixos, os papéis, os sacos plásticos, os palitos de
picolés, os rolos de bucha de sisal rolassem pra lá e
pra cá nos redemoinhos e rodopios dos ventos
fortes que levantava a poeira pra bagunçar as Ruas
da Capela.
Mas, que nada, tempo ruim não tinha pra
Irineu de Baio.
O viajante ficou sabendo que, algumas
vezes as crianças dependuravam na carroça de
burro do Irineu de Baio, mas era uma diversão não
muito agradável porque os lixos e as poeiras
subiam e melecavam toda garotada. Os meninos
teimosos, mesmo Irineu de Baio dizendo, -
meninos vão procurar outra diversão.
O viajante entendeu que, a diversão não era
a carroça de burro, mas a pessoa do Irineu de Baio.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /111

Capítulo Quarenta e Cinco

O viajante não para e se desloca à Rua em


direção ao antigo Tanque Novo, hoje bairro novo
nas terras de Angelita, mulher do Pereirinha, logo
encontramos a casa de Zezinho de Baio da Padaria.
Logo ao fundo da casa um as lenhas
queimavam, ao redor uma trempe com três pedras
que sustentavam o tacho, dos grandes, uma colher
de pau, daquelas que deveria usar duas mãos.
Parecia um remo para navegar o barco em água.
O que não se sabia direito era o que estava
em cozimento, o que se sabe é que Zezinho, pai de
Dêdeu e Bibito, pegava o sebo retirado do gado
morto para consumo no antigo Curral da Matança.
Usava a sódica caustica com água e o sebo
de gado, cozinhava até amolecer que se
transformava em sabão de massa bom para o
consumo das lavandeiras de roupas que, ainda,
usavam da água salobra do Açude da Rua do
Açude.
Barras e barras de sabão fabricado ali
mesmo no quintal do Zezinho para uso doméstico
dos capelenses o bom era que aquele tipo de
manuseio com sódica caustica cortava o sal da
água, facilitando, por demais, o trabalho de lavar
roupas.
As iniciativas dos capelenses eram criadas
como alternativa de sobreviver, uma região que era
assolada pela seca, muito carente em trabalho e
poucas alternativas de sobrevivência o que a crise

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /112

favorecia a criação de produtos como o sabão de


massa. O viajante presenciou que aquele sebo de
gado era desprezado e jogado fora, como sem
valor, mas para o Zezinho de Baio da Padaria foi a
matéria prima da sua produção.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /113

Capítulo Quarenta e Seis

Na Rua Manoel Gonçalves, as muitas


plantas e árvores enfeitavam a chegada da cidade
de Capela para quem vinha de Várzea da Roça, São
José do Jacuípe ou Mairi.
Naquela Rua a casa da Dona Rola, hoje
residência da Eudete conhecida Detinha, um
famoso banco de se assentar era um caule de
madeira de lei da árvore do cedro. O viajante se
sentou e ouvia a Dona Guinha, a raiz materna da
família Ferreira, esposa do Antônio de Dodô, e pai
de Celso, Ronivaldo, Géu, Tilulinho, Kare, Zé
Nelson, Vanusa, Ivete. Diga-se uma família bem
daquelas comparadas a família do Dadinho de
Ipiraí com mais de 18 (dezoito filhos). Imagine,
pensava o viajante, os netos e os bisnetos?
De viagens por este Brasil a fora, o viajante,
certa época retorna à Capela do Alto Alegre, senta
no velho “Pau da Rona Rola”, melhor explicando,
no banco à frente da casa da Detinha, Rua Manoel
Gonçalves, 45, onde bateu uma tristeza temporária,
e pergunta a Detinha, - cadê dona Guinha?
- Ela está com os nervos cansados, não
consegue andar tão bem. Respondeu Detinha.
- O viajante vai a casa da Dona Guinha
conferir aquela informação, logo após uma casa na
mesma Rua Manoel Gonçalves.
- Chegando lá, encontra d Dona Guinha de
Antônio de Dodô, na sua cozinha com a doméstica
Deja de Candinho.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /114

- Dona Guinha que alegria encontrar a


senhora, disse o viajante.
- Ô meu filho, alegria como? Tô aqui
rastejando, dor aqui, dor ali.
- Ô Dona Guinha, olha pra sua missão,
muito linda tantos filhos todos trabalhadores,
homens dignos, fortes, seus netos estudantes.
- A senhora tem uma família de sucesso e
próspera, não se queixa não. Poucas mães e avós
não tiveram esse privilégio.
Responde a Dona Guina, - é verdade meu
filho, mas não fica bolacha que dê. E dá aquela
risada. Não se sabe se é de alegria ou ironia.
- Dona Guinha, isso é a prova de que seus
filhos, seus netos lhe ama, que a senhora é uma
pessoa especial, amorosa, alegre. E por isso que
tive uma tristeza em não vê a senhora sentada “no
pau de Dona Rola”.
Dona Guinha, não se conteve, nas
gargalhadas de dá nó nas tripas.
- Tô indo Dona Guinha, fala o viajante. Que
sai daquela casa alegre, pois regatou, promoveu um
momento alegre de alegria e boas gargalhadas na
residência daquela senhora já idosa e cansada das
lutas e labutas do dia-a-dia.
O viajante considerou e analisou, -
realmente poucas são as famílias Ferreira que tem
tantos filhos, netos e bisnetos, todos eles
adquiriram uma profissão, de homens que não
temem o trabalho braçal ou intelectual. Eles
nasceram pra lutar até vencer.
Sai da frente que lá vem os Ferreiras...

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /115

Capítulo Quarenta e Sete

O viajante já cheio de amizade, fala com a


Dona Nadir, esposa do Áureo Ferreira, pai de
Arismário, Arielson, Amarildo, Aridelson e
Arionei. Todos os filhos com a letra “A”.
A família Ferreira a maioria na
determinação do Áureo Ferreira conseguiram se
qualificar para enfrentarem à vida por ai a fora.
Diga-se uma família que se gerou muitos líderes,
homens com influência na política pública.
Pois bem, - Dona Nadir, a senhora tem
fufuta?
- Fufuta o quê seu descarado?
- Há, há, fala verdade fufuta é boa demais
Dona Nadir, não se faz mais não? Tá esquecida do
tempo em que a Senhora dava merenda à sua
criançada?
- Mas, quem te disse isso?
- Digo não! Mas, eu sei que era verdade!
Oxe fufuta de raspadura com farelo de pipoca
moída é muito boa.
Com certeza as merendas daquele tempo
eram sadias, não demoravam pra descer
diretamente nas goelas da garotada, sem corante,
sem conservantes.
Aquele jeito do viajante falar com Dona
Nadir era uma brincadeira de bom gosto, para
promover aquele clima agradável, pois ela
apreciava uma boa e agradável brincadeira.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /116

Capítulo Quarenta e Oito

O viajante, retorna à Capela, urgente pra


atender uma velha amiga Bastiana, aquela
cabeleireira que fazia, também, uma boas cocadas
de coco branco.
O engraçado era que a gente sempre é
observador, lá vem os gatos entre as nossas pernas,
quando falávamos com a Bastiana para reservar o
horário do corte de cabelo.
Rosalia, era magricela, a única filha de
Bastiana. Vixe, nem diga, só queria viver na casa
de Dona Teófila, gostava das meninas que eram
aquela turminha. Por que, naquele tempo, as
meninas sérias tinham que viver em panelinha de
menina séria.
Bastiana residiu, bom tempo, a Rua Manoel
Gonçalves.
Dá pra perceber que esse nome Manoel
Gonçalves está sempre presente aqui, pois fique
sabendo que foi a primeira Rua dos capelenses.
Eu gostava de cortar o cabelo em Bastiana,
de verdade para comer aquelas cocadas, pena que
eu cresci, bem gordinho, deve ter sido efeito
colateral daqueles doces bem gostosos, feito na
panela de barro, algumas vezes, no carvão pra
economizar, por que Bastiana era uma mulher
arretada de guerreira, sabida, pense de verdade era
uma força de superação das lutas e lutas na vida
dura no sertão capelense.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /117

Alegria, alegria, deixa tristeza ir embora.


Era daquele jeito que Bastiana nos recebia, mas,
como disse, não esqueço não, quando criança, ai,
ai, um segredo confesso, – preferia Bastiana, pois
ali o kit era completo: corte de cabelo mais umas
cocadas de coco, aproveitada da chantagem com
minha mãe Detinha.
Mas, me diga como é que posso esquecer
dessa personagem, presente, agora mesmo aqui,
com aquele sorriso de gente que tem muito pra
ensinar.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /118

Capítulo Quarenta e Nove

Detinha de Almir, filha de Manoel


Gonçalves, lá vem o nome de novo, fazer o que se
o velho Manoel Gonçalves era danado de
trabalhador e construiu sua casa naquela Rua.
Garbosa, muito bonita, cobiçada demais,
Detinha tinha privilégios que poucos tiveram,
panos de papeline e cambraia de linho, que ela
mesma vendia nas vendas do pai Manoel
Gonçalves, na esquina hoje da Praça Joaquim
Machado, logo à frente da casa de Angelita.
Ali as duas confidentes, Angelita e Detinha,
as duas presenciavam tudo que se passava lá e cá.
Quando uma sede corria na cozinha de Angelita e
tome lhe água das boas vinda do Tanque Novo,
velho tanque hoje não mais existente.
A boneca da Detinha, era o que o povo
dizia, foi a primeira Rainha dos Vaqueiros em
Capela, uma festa realizada pelo seu padrinho de
batismo Antônio Oliveira.
- Penso que meu padrinho Antônio Oliveira,
tinha medo de um dia ele voltar a ser pobre. Pense
em um homem que só vivia nos matos,
trabalhando, trabalhando. Nunca vi homem como
aquele até hoje. Confidenciou Detinha ao viajante.
Detinha teve o privilégio de ter Angélica,
Ângela e Ângelo, este que virou escritor capelense.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /119

Capítulo Cinquenta

O viajante foi convidado a apreciar uma


partida de futebol, no Estádio de Futebol, que era
junto ao Colégio Cenecista de Capela. A trave,
ainda, feita de madeira quadrada, pintada com cal,
no terreno de areia, sem gramado especial, um
campo de futebol que tinha uma inclinação para
uma das traves. Ao chegar na entrada do campo de
futebol, olhando à esquerda visualizávamos àquela
inclinação no terreno.
Ali travavam as peladas de futebol todas as
tardes. O engraçado que eram dois times, o “Bahia
de Deca”, irmão do Lindú Carneiro, e o
“Esperança”. O “Bahia de Deca” era considerado
time dos melhores, mas lá por volta de algumas
semanas aquele título era enfraquecido com a
chegada dos Rios de Pé de Serra, Romualdo Rios,
um dos donos naquele tempo do Supermercado
Rios, hoje à Saquezinha.
O time “Esperança” exportava jogadores de
Feira de Santana, um deles o Zé Lito casado com a
irmã de Romualdo, somente daquele jeito que
poderia retirar o título do “Bahia de Deca”, assim
eram conhecidos.
O treinamento daqueles dois times se
realizava três vezes na semana, e o mais engraçado
que os próprios times, treinavam um com o outro.
Os chamados “bábas”, assim os capelenses
intitulava as partidas de futebol não oficiais, eram
os treinamentos.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /120

O viajante pensou que, - jamais surgiriam


times adversários treinarem sequencialmente
juntos. O que contava era o número de partidas
ganhas e perdidas, já se tinha uma estatística do
campeão, através daqueles treinos. E, sempre
falavam é o “Bahia de Deca”.
Uma das grandes decepções naquela tarde
de domingo, aconteceu à virada na partida, perdia
por 1x0, agora estava 2x1 que favorecia o time do
“Esperança”. Seu Deca quase enfartava, mas viveu
para comemorar por muito tempo muitas vitórias
do seu time.
Mas, lembro-me como hoje que, os
jogadores Negão de Diak da Serralheria, Riika Zé
Pequeno e Jersival de Bia, eram os atacantes dos
mais perigosos que se ouviam falar naquela época,
Jersival de Bia, neto de Pereira, seu estilo era o
famoso Ronaldo Fenômeno. No entanto, o estilo de
jogo dele era mais para meia-atacante. Além de
atacar, também, armava o time.
Era muito difícil alguém se ferir, só quando
colocavam em campo Antônio Mamatado, da
Lagoa da Mata, zagueiro dos brabos, pernas que se
cuidassem.
O viajante observou o que irritava os
torcedores, era o toque de bola recuado, uma
estratégia repetitiva, sem criatividade, retornando a
bola para Nerias, o goleiro. João irmão de José de
Daniel, falava, constantemente, - “esse time é
complicado de torcer, os cabras pegam a bola e ao
invés de atacar pra frente, recuam a bola e ficam na

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /121

banheira do seu próprio campo, não chegam nem


no meio de campo e já retornam”.
Seu Deca, então, já sem suportar tanta surra
de gol, porque o time “Esperança” estava, agora,
reforçado, principalmente, por que chegara do Rio
de Janeiro o técnico, capelense, Rege irmão de
Amado Luiz, torcedor do Botafogo. E, já tinha
visto alguns times profissionais jogarem ao vivo no
Estádio Maracanã, para eles era um curso de
técnico, por que, naquele tempo, não tinham tantas
informações a respeito do futebol brasileiro.
O viajante ouvia, - “Bahia de Deca é
campeão”. Mas, do outro lado, tinha outros
torcedores, dizendo, - “Esperança é campeão”.
Quais dos dois times mais importantes dos
capelenses receberam mais títulos? Procurem
Laerte, Professor Carlinhos ou José Hugo, filhos
legítimos do Seu Deca, eles podem narrar quem foi
o maior campeão, mas caso fique na dúvida, porque
eles eram e serão apaixonados pelo “Bahia de
Deca”, resta saber se ainda existe vivo algum
torcedor do “Esperança”.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /122

Capítulo Cinquenta e Um

- Elievaldo o que tu estas fazendo com tanta


madeira de cerejeira no quintal da tua mãe Amália,
vixe, ela não se zanga não?
- Anjinho de Detinha, estou fazendo os
móveis da minha casa, vou casar com a filha de
Matildes a irmã de Lique-Lique, a Luciene!
O viajante presenciou um jovem
trabalhador, determinado, destemido e responsável
em seus afazes. Inteligente em marcenaria, que
somente aplicou sua técnica na construção da
estante, da mesa, e do sofá rústico de madeira de lei
da cerejeira.
Elievaldo filho de Eliezer, irmão de Ninha,
e da Professora Eliaze, uma das nossas mestras no
ensino do correto uso ortográfico da língua
portuguesa.
- Professora Eliaze essa morfologia, só em
pronunciar à palavra eu fico arrepiado e os cabelos
da cabeça se espantam pra riba.
O viajante, conheceu alguns alunos que
tiveram o privilégio de estudar com essa Professora
Eliaze que nas suas resposta aos alunos ela usava
uma doce e calma voz de um tom que envolvia os
alunos, nunca exaltada e jamais exasperada, mas
expressava sutileza. Desse jeito ela lecionava.
Eliaze, inclusive, por muito tempo Professor do
Ângelo Almeida, escritor deste livro.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /123

Fim

O viajante, queira Deus permitir, na sua


missão de buscar informações retorne um dia a
Capela na Bahia, mas, agora sua viagem não se
limita em viver com os capelenses. Sabe que
culturas espalhadas em todo o mundo, aqui, logo
ali, mais acolá, despertará o interesse de aprender
dia-a-dia, pois, cada passada se dá o contato com
alguém que na observação aprende a ouvir a dor do
outro e entender que o sentido da vida se dá na
troca e compartilhamento de informações.
Pensa o viajante, - vivemos para ser úteis
uns aos outros, que valor teria à vida sem ser útil?
Pouco sentido teria, compartilhar informação e
ouvir o outro, sentir a dor de quem sofre, não
levando sobre si as enfermidades do próximo.
Sabiamente ouvir sem se envolver com os
problemas, farei grande favor ao próximo por onde
andarei.
- Pra onde tu vais, viajante?
- Tô indo em direção ao Povoado do
Bispador, logo chego a Várzea do Meio Povoado
de Várzea da Roça na Bahia, lá quem sabe, darei os
meus ouvidos para os varzeanos?
Já vi que a caminhada é longa desse
viajante.

Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /124

Autor
Ângelo Almeida, neto de Manoel Gonçalves,
genuinamente capelense, baiano, Teólogo formado e
chancelado por Universidade Federal do Espírito Santo
- ES, Psicanalista Clínico por FATEC-BA, Especialista
em Ensino de Filosofia por UFBA-BA, Técnico em
Magistério por CENEC, Técnico em Processamento de
Dados por
EPDBA.
Escritor de:
•• O desafio;
• O poder de cura dos ensinamentos de Jesus na
• mente humana;
• Inimigo: conheça-o para vencê-lo;
• O diário do aluno;
• Visão de Mundo. O que estamos fazendo?
•• Está difícil educar a criança?
• Introdução à Pedagogia Reversa. Sondagens e
• Intervenções no Ensino Fundamental;
• Diversos contos espalhados pelo mundo da
• Internet.
Trabalha com Capacitação em Educação,
palestra para os pais de alunos adolescentes e crianças,
motivação para professores, implantação do Projeto Pais
na Escola.
Ângelo Almeida
Viva o povo capelense /125

Ângelo Almeida

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