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A Guerra dos Bárbaros na Capitania Real da Paraíba

Angelita Carla Pereira ALVES 1


Dominick Frarias de SOUSA 2

1 Graduada em geografia /UEPB- Campus III; Especialista em Ciências Ambientais/ FIP. Endereço para
correspondência: R. Clotilde Maria da Silva N 127. Bairro:Ernesto Geisel- João Pessoa-PB. CEP: 58075-63. E-
mail: carlaalvesjp@yahoo.com.br.

2 Graduado em História /UEPB Campus III; Especialista em História do Brasil/ FIP. Endereço para correspondência:
R. Clotilde Maria da Silva N 127. Bairro:Ernesto Geisel- João Pessoa-PB. CEP: 58075-638. E-mail:
jovemjo@yahoo.com.br.
TARAIRIÚ – Revista Eletrônica do Laboratório de Arqueologia e Paleontologia da UEPB

A GUERRA DOS BÁRBAROS NA CAPITANIA REAL DA PARAÍBA

RESUMO

O processo colonizador português desde o início, com a criação das Capitanias Hereditárias,
deixou claro que o objetivo da colonização era massacrar a tudo e a todos que estivessem em
seu caminho na ocupação efetiva da Paraíba. Promoveram sem sombra de dúvidas um
massacre a estes povos valentes que não tiveram outra solução se não defender-se até a morte.
O presente artigo tem por objetivo relatar a“Guerra dos Bárbaros da Capitania Real da Paraíba”,
mostrar inclusive o processo de colonização português. Os procedimentos teóricos-
metodológicos que permitiram a execução desta pesquisa compreenderam a leitura e o
fichamento bibliográfico, além de entrevistas com conhecedores do assunto.

PALAVRAS-CHAVE: Indígenas, Paraíba, Colonização.

ABSTRACT

The Portuguese colonization process from the beginning with the creation of hereditary
captaincies, made it clear that the purpose of colonization was massacring everything and
everyone who got in the way in effective occupation of Paraiba. Promoted without a doubt a
massacre to these brave people who had no other solution iF not to defend themselves to death.
This article aims to report the "War of the Barbarians of the Royal Captaincy of Paraiba " and to
discuss the Portuguese colonization process. The theoretical and methodological procedures
that allowed the execution of this research were revision of literature and interviews with experts
on the subject

Campina Grande, Ano III – Vol.1 - Número 04 – Abr/Mai de 2012

KEYWORDS: Indians, Paraiba, Colonization.


TARAIRIÚ – Revista Eletrônica do Laboratório de Arqueologia e Paleontologia da UEPB

BREVE HISTÓRIA SOBRE A CONQUISTA DA CAPITANIA REAL DA


PARAÍBA

Não existem dúvidas que a história de nossa colonização foi demasiadamente violenta.
Por muitos anos existiam lacunas nas informações históricas sobre os indígenas e para que esse
passado fosse de fato esclarecido é necessário compreender a conquista das terras interioranas
deste enorme país chamado Brasil. O relato desta trajetória histórica é essencial para entender a
formação social, econômica e cultural do povo brasileiro. Desse povo que hoje não possui um só
rosto, fruto da sua miscigenação, ainda há muito que se buscar e porque não dizer, que existe
uma necessidade de entendimento sobre a conquista das terras ligadas geograficamente aos
“Sertões” que compreendemos hoje como nordeste.
Com a colonização em direção ao interior, ou seja, aos Sertões foi inevitável não
mencionar o confronto com os índios dessas regiões. O que causou espanto para o colonizador
foram as diferenças culturais dos indígenas e sem sombra de dúvidas a bravura dos mesmos,
como se não bastasse o desafio de entrar no território que compreendemos como agreste e
semi-árido,com um inevitável conflito, os portugueses não os conheciam e esses índios que
não falavam o tupi e sim uma nova língua indecifrável como eles mesmo diziam, uma língua
bárbara. Esses índios não-tupis eram chamados genericamente de tapuias. Na verdade, no
interior do território paraibano havia dois grupos lingüísticos: cariri e taraíriú.Existem relatos
desses conflitos em quase todas as capitanias, na Bahia foi denominada de “guerra do
Recôncavo”, no rio Grande do Norte, de “Guerra do Açu”, na Paraíba e em Pernambuco este

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conflito ficou conhecida como “Guerra dos Bárbaros”. De acordo com Pacheco:

“O século XVII começaria com a ação devastadora dos Bandeirantes em busca de


índios para abastecerem as lavouras, sempre carentes de mão-de-obra. O ciclo
açucareiro generalizou a situação de conflito que levaria ao extermino milhares de
índios, e forçariam outros a refugiarem-se em outras regiões que não a litorânea.”
(PACHECO, E. 1977,p.13).

Durante os séculos XVI e XVII as guerras mercantilistas entre as potências da época


abalaram o velho mundo europeu, pactos entre metrópoles e colônias foram rompidos. É
justamente nesse momento da história que holandeses em guerra contra espanhóis resolveram
participar da colonização do novo mundo conhecido como América. Por volta de 1630 os
holandeses começaram o processo de conquista das terras lusas na América. Em sua estada
aqui na Capitania Real da Paraíba, entre 1634 e 1645, os holandeses ocuparam o recém
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construído mosteiro de São Bento e o Convento de São Francisco. Neste período os potiguaras
foram seus aliados, além de algumas tribos tarairius e cariris no sertão da capitania, a relação
entre alguns índios, principalmente, os mencionados anteriormente foi mais amistosa, essa
aproximação ainda nos dias atuais é alvo de grandes discussões entre historiadores.
A dominação holandesa na Paraíba foi de fundamental importância para o conhecimento
histórico dos índios das regiões distantes do litoral conhecidos relacionados aos seus hábitos,
costumes e táticas de “guerra” foram vistas pela primeira vez na colônia portuguesa. O domínio
dos holandeses foi quebrado em 1645, quando as tropas portuguesas com o apoio de alguns
colonos chegaram à Paraíba, os holandeses não tiveram como resistir, estando assim à Paraíba
liberta da dominação holandesa.
Logo após a expulsão dos holandeses da colônia, a metrópole portuguesa buscou
retomar o crescimento dos anos anteriores a chegada dos holandeses. No entanto, os flamengos
haviam adquirido muita experiência com o plantio da cana na África e na América, isso afetou
enormemente os lucros da Coroa Portuguesa, que deixou de barganhar com o açúcar, foi
necessário encontrar novas atividades para auxiliar o plantio da cana-de-açúcar, dessa forma a
Metrópole esperava não diminuir seus lucros.
A colonização da Paraíba ficou no litoral até os anos de 1650, a empresa açucareira era
algo tão lucrativo que por muitos anos nem se pensou em ir a outras regiões mais afastadas
como os denominados os “sertões”. Nas primeiras décadas depois da expulsão dos holandeses
vislumbrou-se a busca de atividades secundárias e metais preciosos.
Para os portugueses o caminho em direção ao sertão da Capitania Real da Paraíba,

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bem como das outras Capitanias, teve por objetivo de adquirir novas formas de lucros. Foram
criadas bandeiras que chegaram inicialmente ao agreste da capitania, partindo para o planalto
da Borborema e regiões conhecidas atualmente como sertão da Paraíba. Buscava-se a princípio,
implantar a criação de gado bovino, ovino e caprino, além de promover a colonização desta
região. À medida que entravam nos sertões aproximavam-se de um obstáculo ainda maior, os
tapuias. Logo nos primeiros encontros, ficou evidente para os portugueses o desafio que os
esperava. Para eles sem o extermínio desses índios a colonização desta região não seria
possível.

A GUERRA DOS BÁRBAROS NA CAPITANIA REAL DA PARAÍBA


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Os primeiros conflitos ocorridos entre os portugueses e índios dos sertões da Capitania


Real da Paraíba, ocorreram muito antes do início do processo de expansão da pecuária e
povoamento dos sertões. O primeiro conflito aconteceu quando João Fernandes Vieira governou
a Paraíba (1655-1657), que buscava vingar o que ele chamou de traição por parte dos índios da
Capitania, por terem se aliado aos holandeses, ordenou que atacassem os índios janduís. Muitos
foram mortos e alguns deles presos, sendo inclusive enviados a Lisboa dois desses índios como
presentes ao Rei de Portugal. “Por causa dessas agressões sofridas, os Janduí foram o primeiro
grupo a se porem em pé de guerra contra os colonizadores”. (PIRES, 1990, p 57).
A “Guerra dos Bárbaros” na Capitania Real da Paraíba teve seu início oficialmente, em
1687, quando o Governador Geral, Matias da Cunha, enviou recursos para a luta contra os
Tapuias desta Capitania, que no dia 15 de fevereiro deste ano, levantaram-se contra os
portugueses a cerca de 400 km do litoral, nas Capitanias da Paraíba, Ceará e Rio Grande.
Com os sertões tomados pelos Tapuias, que se rebelaram também nas capitanias
vizinhas, o governador geral enviou duas companhias dos terços 3 na luta contra os Tapuias da
região do Açu4, onde foram envidas tropas da Capitania da Paraíba, Pernambuco e do próprio
Rio Grande. Este primeiro conflito que envolve não só a Capitania da Paraíba mais suas
circunvizinhas, terminou em grande fracasso, embora se tenha poucas informações sobre esta
“primeira” batalha entre Tapuias e colonizadores, as informações existentes relatam que a
batalha aconteceu por mais de 12 horas, sendo os portugueses vencidos e seus muitos homens
mortos por mais de três mil arcos.
Estrategicamente os portugueses sabiam onde encontrar alguns dos índios Tapuias do

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sertão da Capitania da Paraíba. Entretanto os colonizadores conheciam muito pouco sobre eles,
a não ser pelos primeiros confrontos que não foram favoráveis para Coroa. Segundo os relatos
de Herckmans quando os holandeses estiveram na Capitania Real da Paraíba haviam visto que
esses índios,

“não marcham em ordem, e sim correm em confusão. Contudo sabem pôr as suas
emboscadas, donde fazem muito mal aos seus inimigos, o que os nossos soldados
(holandeses) dão testemunho de ter várias vezes praticado com eles”.
(HERCKMANS, 1982, p 41)

3 Organização derivada da Espanha onde o tercio era originalmente um regimento de infantaria paga e profissional,
no entanto, as companhias de terço eram tropas irregulares constituídas por malícias que não recebiam
pagamentos. Ver mais informações em, PUNTONI. A guerra dos bárbaros: povos indígenas e a colonização do
sertão nordestino do Brasil, 1650 – 1720, 2002 , p 180-186.
4 Região localizada nos sertões do Rio Grande banhada pelo rio Açu que é chamado na Paraíba de Piranhas, está

região possui enormes campos, ideais para se criar gado, é um lugar de difícil acesso, está a centenas de
quilômetros do litoral, cercada de morros e encostas.
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Pretendia-se uma guerra rápida e eficiente, onde os portugueses buscaram a ajuda dos
paulistas, na sua maioria bandeirantes acostumados a penetrar nos sertões com o objetivo de
explora riquezas das Sesmarias. Um dos primeiros paulistas a se enveredar pelo sertão da
Capitania da Paraíba foi Domingos Jorge Velho. Ele era tetraneto de índios, nasceu na Vila de
Paranaíba em 1641, na Capitania Real de São Paulo, antes de chegar à Paraíba já fazia a
guerra contra índios e negros fugidos no nordeste da colônia. Às vésperas de chegar a Capitania
Real da Paraíba recebeu a ordem de ir a Capitania Real de Pernambuco e massacrar todos os
índios que estivessem pelo caminho.
Domingos Jorge Velho penetrou na Capitania da Paraíba vindo pelo rio Açu, que na
Paraíba é chamado de Piranhas; por lá ele encontrou os índios chamados “pegas” e “ariús”,
onde travou com esses índios batalhas que duraram dias. Esses nativos não resistiram por muito
tempo, sendo criado nesta região em 1687 um forte de mantimentos. Seguindo o curso dos rios
Domingos Jorge Velho alcançou os “icós” e “panatins” sertão adentro, além dos “coremas’ na
região próxima a Piancó. Muitos destes índios guerrearam com seus inimigos em conflitos
mortais. A grande maioria dos índios que não foram exterminados viram-se capturados e levados
para regiões como o Açu no Rio Grande. Anos mais tarde, em 1691, Domingos Jorge Velho
retorna a região do Piranhas na Capitania Real da Paraíba, onde adquiriu sesmarias na região.
Embora possa parecer que a sublevação indígena dos Tapuias na região do Açu e Piranhas
estivesses controlada no final do século XVII, não foi o que aconteceu, principalmente no Açu na
Capitania do Rio Grande.
Em 1696 corria a notícia que os índios aprisionados na região do Açu estavam mais

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revoltos do que nunca, para complicar ainda mais a situação, os soldados do terço estavam
descontentes por não serem recompensados, até aquele momento, esses soldados fugiram e
deixaram mais de 200 índios soltos. Domingos Jorge Velho que era o principal paulista nesta
área, não pode fazer nada, pois estava na região dos Palmares caçando negros fugidos. Esta
região permaneceu conflituosa por mais de um ano. Em agosto de 1698, procurando solucionar
o problema na região do Açu e Piranhas, foi pedido ao capitão-mor da Paraíba que auxiliasse a
entrada enviada pelo Governo Geral liderada pelo paulista Manuel Álvares de Morais Navarro,
que desembarcaria na Capitania da Paraíba, e seguiria sertão adentro até o Piranhas, na qual
seguiria o curso do rio até o Açu.
As tropas sob o comando de Manuel Álvares de Morais Navarro, antes mesmo de
chegar ao Açu, teve que enfrentar os índios revoltos da Capitania da Paraíba, no entanto, as
dificuldades da conquista ocorreram mesmo no Açu. O confronto entre os índios e Navarro
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assustou tanto aos moradores próximos a região, que os fizeram fugir para os matos em busca
de proteção. O objetivo de Navarro não teve sucesso algum, muitos de seus homens morreram
nas batalhas e os que restaram contraíram bexiga e foram entregues a própria sorte. Navarro
totalmente derrotado retorna a Capitania da Paraíba, onde pede socorro ao Capitão–mor Manuel
Soares de Albergaria.
O conflito nesta região só foi controlado pelos portugueses em 1699, quando morreu o
rei dos Janduis (Canindé), vitimado pela malária. Enfraquecidos, os índios não resistiram às
novas investidas de Manuel Álvares de Morais Navarro que ficou na Paraíba reorganizando seu
terço até a investida “final”. Como pudemos observar, feita a guerra com os índios “Pegas” e
“Ariús” na região do Piranhas, a Capitania Real da Paraíba foi importantíssima, no que se refere
à logística para as bandeiras no Piranhas e Açu. Um outro paulista que ficou muito conhecido no
final do século XVII, na Capitania Real da Paraíba foi Theodósio de Oliveira Lêdo, que veio pelo
Rio Grande, de onde sua família, os Oliveira Ledo possuíam enormes sesmaria. Ele tinha como
missão ainda em 1663 auxiliar o Governador da Paraíba Mathias de Albuquerque Maranhão no
conflito contra os índios, embora não se saiba se ele naquele período tivesse guerreado com os
Tapuias.
Quando João do Rego Barros natural de Olinda, sucedeu Mathias de Albuquerque
Maranhão em 1663, ordenou que Theodósio de Oliveira Lêdo organizasse uma bandeira que
chegasse a região do planalto da Borborema, por lá, estavam os “ariús”, “carnoiós” e “sucurus”
que se abrigavam nesta região. A região do Planalto da Borborema e Serra de Teixeira foi
conquistada por Theodósio de Oliveira Lêdo Por volta de 1696, ele organizou sua bandeira e

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promoveu a guerra definitiva contra os índios “ariús’ e ‘carnoiós”, do Planalto da Borborema no
final de novembro e início de dezembro de 1697. A data oficial da conquista do Planalto da
Borborema ficou registrada em 1º de dezembro de 1697. Theodósio de Oliveira Ledo após os
conflitos fixou-se no agreste da capitania, no Carnoió (atual cidade de Boqueirão), a conquista
desta área central do planalto foi importantíssima, para se ter uma idéia, esta região foi logo
converteria em povoada. Dada a sua posição geográfica, suas terras foram consideradas pelos
portugueses muito boas, prontas para várias culturas indispensáveis à vida dos colonos. Após
alguns anos da conquista desta região, o Planalto da Borborema ganhou importância como
entreposto comercial e irradiador da colonização do sertão.
Os índios vencidos foram para proximidades do riacho das Piabas, onde surgiram as
primeiras habitações e ruas, como a exemplo da Rua Vila Nova da Rainha existente até hoje no
centro da cidade de Campina Grande. A ação de Theodósio de Oliveira Lêdo nesta região teve
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tamanha importância que foi mencionada em carta régia; Como podemos perceber.

“Havendo visto a carta que me deste do bom sucesso que se teve na Campanha
como os índios nossos inimigos nos certões do distrito das Piranhas e Pinhancó em
que o Capitão mor dellas Theodosio de Oliveira Ledo se tinha havido com muito valor
e desposição e trazido cncigo hua nação de Tapuyas chamada Arius, que estavão
aldeiados junto com os cariris onde chamam a Campina Grande que queriam viver
com seus vassallos e reduziremse a nossa Santa fé Me pareceu estranha mui
severamente o que obrou Theodosio de Oliveira Ledo em matar a sangue frio muitos
dos índios que tomou na guerra, porque suposto em sncia (?) era incapazes isto não
hia ser conveniente uzarce com elles de toda a piedade por q. o exemplo do rigor
que com elles executou seria dar occasião a fazer aos mais nossos contrários vdo a
nossa impiedade; e a sy se faz caso digno de um exemplar castigo e emquanto a
creação do arrayal me pareceu dizervos se aprova o que nesta parte se assentou,
pois sse entende que se escolheria o que tivesse por mais conveniente. Escrita em
Lisboa em 16 de Setembro de 1699. Rey”. (PINTO, 1977, p. 33)

Com a região do Planalto da Borborema controlada, Theodósio de Oliveira Lêdo dirigiu-


se para as regiões dos sertões das Serra de Teixeira, por lá estavam cerca de mil e oitocentos
“sucurus”. Está região foi considerada pelos pecuaristas como viável para a atividade criatória,
além de ser uma região muito boa para a distribuição de sesmarias, o que interessava e muito já
que sua família havia feito fortuna com as concessões das sesmarias nas regiões do Piranhas e
Açu. Ao chegar à Serra de Teixeira, ele exterminou o maior número possível de índios “sucurus”,
os que escaparam do massacre foram aprisionados, castigados e mais tarde levados a núcleos
como: Açu, Piranhas e Araçagi (esta, hoje cidade localizada no brejo paraibano). Um fato que
deve ser relatado, é que esses índios “sucurus” em nenhum momento estiveram em pé de
guerra com os colonizadores, talvez por este motivo a conquista desta região sul do Planalto da
Borborema ocorreu rapidamente, sem que os índios tivessem nenhuma chance de resistir, sendo

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eles os mais “pacíficos” dos sertões foram uma das tribos que mais sofreram com a invasão
portuguesa nos sertões desta capitania.
As bandeiras de Theodósio de Oliveira Lêdo chegaram até as regiões de Piancó, por lá
havia também passado Domingos Jorge Velho. Estas bandeiras do ponto de vista expansionista
foram muito importantes, pois demarcaram os limites da Paraíba.

DESFECHO DA GUERRA DOS BÁRBAROS

Muitos dos índios dos sertões da Capitania Paraíba eram irredutíveis, os que haviam
fugido sempre retornavam, destruíam os currais matando o gado, fazendeiros e vaqueiros. Os
índios tarairius guerrearam com os portugueses por muito tempo até meados do século XVIII,
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mesmo depois do tratado de “paz perpétua” 5 feito ainda em 1692, esse tratado de paz tinha
como principal termos: o reconhecimento do reino de Portugal das 22 aldeias (cerca 14 mil
índios) tapuias, inclusive a dos tarairius na Paraíba. Para Pedro Puntoni este “Tratado de Paz
deve ser entendido muito mais como uma capitulação de obediência do que como um contrato”.
Neste tratado os portugueses deviriam zelar pela vida dos índios, tornado índios e
colonizadores aliados nas capitanias de Pernambuco, Itamaracá, Paraíba ou Rio Grande.
Deveriam os índios permitir que os currais fossem implantados nas regiões já “conquistadas” em
suas terras, sem nenhuma resistência ou morte de animais. Em uma última clausula ficou
garantido aos índios, que nenhum capitão ou soldado poderia perturbar e inquietar os tapuias. 6
Depois deste tratado as bandeiras em direção aos sertões da Capitania da Paraíba e
suas capitanias circunvizinhas se intensificaram. Com o acordo feito, muitos dos índios
aceitaram, foram poucos índios que continuaram resistindo.
O extermínio dos índios continuou, a exemplo da Paraíba com os “Sucurus’, ‘Ariús” na
região do Planalto da Borborema. Algumas das tribos que pertenciam aos Tarairius que não
aceitaram o tratado de paz feito em 1692 fugiram ainda mais para os sertões das capitanias do
nordeste.
Em de agosto de 1699 o paulista Manoel Álvares de Morais Navarro muito conhecido
nas regiões do Piranhas e Açu, com cerca de 400 homens (entre índios aliados e soldados),
encontrou um grande grupo Tarairius na região da capitania do Ceará. Ao chegarem na tribo
foram recebidos com enorme desconfiança, estes índios não sabiam se os paulistas estavam
apenas de passagem ou desejavam a guerra. Este episódio mais pareceu uma emboscada

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ironicamente aprendida com os índios a quem os portugueses chamava de bárbaros em batalha.
A história desta cilada, de acordo com a narrativa que o próprio Navarro conta em carta,
ocorreu deste modo: Navarro foi o primeiro a atirar sem que os tarairius esperassem, os
soldados também fizeram o mesmo, cerca de 400 índios foram mortos e mais de 300
aprisionados, apenas dois paulistas morreram. Os índios aprisionados foram enviados a região
do Açu e Piranhas. (PUNTONI, 2002, p.244)
As matanças desses índios atenderam aos interesses autoritários e particulares dos
paulistas. Os paulistas não deram nenhuma oportunidade de resistência aos tarairius, sendo
inclusive criticados pelas autoridades religiosas, esse fato fez com que os poucos índios que

5 Em meados de 1692 Canindé cacique dos Janduis foi posto em liberdade, já que havia sido preso por Domingos
Jorge Velho que esperava a ajuda de Canindé para mostrar as minas de esmeraldas [...]. Mais tarde no dia 5 de abril
de 1692, Canindé enviou alguns de seus índios ao Governo Geral, propondo um acordo que ficou conhecido como
“paz perpetua”. Ver mais informações em PUNTONI. A guerra dos bárbaros: povos indígenas e a colonização do
sertão nordeste do Brasil, 1650-1720, p.157-162.
6 Ver mais informações em referência já citada PUNTONI, Pedro. p.157-163.
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ainda resistiam na guerra anti-colonialista deixassem de considerar qualquer acordo feito


anteriormente.
A Guerra dos Bárbaros na Capitânia Real da Paraíba teve seu fim no inicio do século
XVIII com a dissolução dos terços. No início do século XVIII só houveram pequenas revoltas
indígenas no Açu e Piranhas. Com as regiões da Borborema controladas foram criadas vilas
como Campina Grande, que tinham como moradores muitos dos índios conquistados, além dos
núcleos que deram origem às cidades de Teixeira, Pombal, Coremas e Piancó, que nasceram
das grandes sesmarias.
Não podemos dizer que o sertão da Paraíba teve a totalidade de suas terras ocupadas
no final do século XVII, há muitos núcleos de povoamento que só passaram a existir com a
completa implantações de currais, o que só aconteceu com a conquista definitiva de
determinadas áreas e índios, a exemplo de Cabaceiras que teve seu primeiro núcleo de
povoamento em 1730 por fazendeiros da região. Um outro povoado que nasceu da aglomeração
de fazendas e currais foi São João do Cariri que em 05 de maio de 1803, foi elevada a categoria
de Vila, sob a denominação de Vila Real de São Pedro, em homenagem ao príncipe regente,
sendo posteriormente elevada à condição de cidade com o nome de São João do Cariri.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A expansão marítima portuguesa que teve início no século XV trouxe uma das mais
violentas formas de exploração já vistas, à medida que se tornavam “donos das terras” viram

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que, mesmo diante de tanta violência e sede de lucro, essa nova empreitada seria única, visto
que os colonos encontrariam os verdadeiros donos dessas terras que hoje chamamos de Brasil.
Por volta de 1530 quando teve início a colonização desta nova colônia ficou evidente que
começariam os atritos entre colonos e índios em toda a colônia, inclusive nas terras da chamada
Capitania Real da Paraíba. Os índios estavam divididos entre o litoral e os sertões, as tentativas
de conquista do litoral do território da Paraíba duraram uma década (1574 -1585), o que
transformou o conflito entre índios e europeus em uma guerra sangrenta.
Os últimos anos do século XVII foram marcados pela implantação do gado nas
áreas distantes do litoral, invadindo as terras habitadas pelos índios bravios. Procuramos
analisar o processo colonizador dos Sertões e evidenciar a importância dos índios em nosso
território que com bravura registraram até certo momento a uma colonização sangrenta. É
evidente que as bandeiras foram importantíssimas na formação dos primeiros núcleos de
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povoamento entre o agreste e o sertão, porém, estas bandeiras promoveram o maior massacre
entre índios na América, sendo inclusive mencionadas por historiadores como Irineu Joffily como
“a maior guerra anti-colonialista que já se travou em território brasileiro”. (MELLO, 2002, p.77)
Foi com a colonização do sertão que se formou uma população própria a sertaneja,
marcada pela violência. Os sertões desta maneira foram sendo “construídos e cortados”,
contudo foi da conquista do sertão e dominação deletéria dos índios Tapuias que surgiu um
novo homem que passou a ser chamado de “sertanejo”.
No litoral pouco restou sobre a cultura dos índios Tupi-Guaranis, a Baía de Acajutibiró
hoje Município de Baía da Traição, quase não vemos elementos indígenas, encontramos índios
que desconhecem sua própria história, e o mais triste de tudo é que muitos deles não tem
orgulho de serem índios ou “guerreiros” potiguaras, embora algumas escolas venham tentando
resgatar um pouco da história e tradições potiguaras, o que se observa- na prática é uma luta
entre Davi e Golias. No que diz respeito aos tabajaras a situação é ainda mais trágica, não há
nenhum vestígio concreto da presença desses índios na Paraíba nos dias atuais, isso demonstra
o quanto nossa colonização foi violenta. Massacraram nossos índios, ao ponto de quase apagá-
los de nossa história. Graças aos documentos e memórias, nossos índios revivem nos relatos
científicos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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PINTO, Irineu Ferreira. Datas e notas para a história da Paraíba. V. I João Pessoa:. EDITORA
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PUNTONI, Pedro. A guerra dos bárbaros: povos indígenas e a colonização do sertão nordeste do
Brasil, 1650 - 1720. São Paulo: HUCITEC, EDITORA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO, 2002.

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