Você está na página 1de 2

16 • Antropologin du Ra/.

:il

10. Vidc Hubcrt Dreyfus c Paul Rabinow, Michel Foucault, uma trajetória
filosófico: para além do estruturalismo e da herrnenêuticn, Rio de Janeiro, política da Verdade: Paul Rabinow
Forense Universitária, 1995.
11. Michel Foucault, Tire Use of Pleasure - Tire History of Sexualitv; Volume entrevista Michel Foucault'
7'>110, New York, Vlntngc Books, 1986, p, 8.
12. A primeirn versão da tradução deste texto ao português foi feita por Antônio
C. Maia.
13. Paul Rabinow, "Representations are social facts: rnodernity and post-rno-
dernity in Anthropology" in James Clifford e George Marcus, Writing
Culture: The Poetics and Politics of Ethnography, Berke1ey, University of
Calí fornia Press, 1986, p. 241. .
14. Vide a entrevista de João -Guilherme Biehl com Paul Rabinow, "E a
natureza finalmente se tomará artificial" in Ciência & Ambiente, 2 (3): 76,
77.
15. Paul Rabinow, "A Modern Tour in Brazil" in Friedman e Lash, Modernity ..,~
and ldentity, Oxford, Blackwell, 1992, p. 260.
16. Paul Rabinow, "Beyond Ethnography: Anthropology as Nominalism" in
CulruralAnthropology 3 (4): 361. P.R.: Por que você não se <>envolve em polêmicas?
c; ::::::;
17. Paul Rabinow, Frencli Modern: Norms and Forms of the Social Environ- M.F.: Eu gosto de discutir e tento responder as perguntas que me
ment, Carnbridge: MIT Prcss, 1989, p. x.
fazem. É verdade que não me agrada participar de polêmicas. Se
18. Este texto foi traduzido em parceria com Luis Guilherme Streb.
J 9. Este texto foi traduzido por Zarima Vargas. Revisões foram feitas pelo
abro um livro e vejo que o autor está acusando um adversário de
autor e pelo organizador desta coletânea. "esquerdisrno infantil", imediatamente tomo a fechá-lo, Esta não é
20. Este texto foi traduzido por Heloísa Jahn. Revisões foram feitas pelo autor minha maneira de fazer as coisas; não pertenço ao mundo das
e pelo organizador desta coletânea. pessoas que agem assim. Considero essa diferença como algo essen-
21. Este texto foi traduzido em parceria com Mike Panasitti. cial: toda uma moral está em jogo, a da procura da verdade e da
22. Gilles Deleuze, "Qu'est-ce que un dispositif?" in Michel Foucault Philo-
relação com o outro.
sophe, Paris: Éditions du Seuil, 1989, p. 185.
No intercâmbio sério de perguntas e respostas, no trabalho de
elucidação recíproca, os direitos de cada pessoa são de algum modo
imanentes à discussão. Derivam da situação de diálogo. Aquele que
pergunta está apenas exercendo um direito que lhe foi concedido: o
i de não estar convencido, perceber uma contradição, requerer mais

i informação, enfatizar postulados diferentes, apontar raciocínios de-


feituosos etc. Quanto ao que responde, também ele exercita um
direito que não vai além da própria discussão; pela lógica de seu

1 próprio discurso, está comprometido com o que disse antes e, por


aceitar o diálogo, com o questionamento pelo outro. Perguntas e
respostas dependem de um jogo, um jogo que é ao mesmo tempo
prazeroso e difícil, no qual cada um dos dois parceiros se compro-
mete a só usar os direitos que lhe são dados pelo outro e pela
aceitação da forma de diálogo.

17
18 • Antropologia tla Razão Polêmica, polftica e problcmntizaçõcs • 19

o po!emistíl_p.roeeue baseado nos privilégios que tem d~ antemão manciras de agir. que têm suas conseqüências. Há efeitos esterili-
c que IlU!lC;\ vai questionar. Ele possui, por príncípio, dlrelto~ que o zantes: alguém já viu uma idéia nova surgir em uma polêmica? Não
" autorizam a guerrear e que fazem dessa luta um empreendimento poderia ser di fcrcntc, já que. os interlocutorcs não são i~citados a
justo: (l!-lell1está diante dele não é 11m parceiro n~ proc.ura da avançar, a se arriscar TIO que dizem, mas a encerrar-se continuamente
verdade, mas um adversário, um inimigo errado e nocIvo cup mera nos direitos que reivindicam. na legitimidade que precisam defender
existência constitui uma ameaça. Para ele, então, o jogo não consiste e na afirmação da sua inocência. Algo ainda mais grave aparece
'em reconhecê-Ia como um sujeito com direito a falar, mas sim em aqui: nessa comédia faz-se caricaturas de guerra, batalhas, aniquila-
aboli-Io como interlocutor de qualquer diálogo possível; seu objeti- mentos ou rendições incondicionais, permitindo que o polemista
vo final não será chegar o mais próximo possível de uma verdade utilize ao extremo seu instinto de morte. Ora, é bastante perigoso
difícil. mas sim obter o triunfo da causa justa que ele manifestamen- fazer crer que o acesso à verdade passe por tais caminhos e assim,
te sustenta desde o princípio. O polemista assume uma legitimidade ainda que de forma meramente simbólica, validar as práticas políti-
que por definição é negada a seu adversário. cas reais que poderiam ser admitidas a partir disso. Imaginemos por
""<1:1-- Algum dia, quem sabe, uma longa história da polêmica será um momento que com uma varinha de condão seja concedido a um
escrita; da polêmica como figura parasitária na discussão e obstácu- dos adversários numa polêmica todo poder que quiser sobre o outro.
lo na procura da verdade. Esquematicamente, creio que podemos Não é preciso nem imaginar: basta ver o que aconteceu há pouco
reconhecer hoje a presença de três modelos na polêmica: o religioso, tempo com os' debates na União Soviética sobre lingüística ou
o judiciário e o político. Como na heresiologia, a polêmica assume genética. Seriam apenas desvios aberrantes do que deve ser uma
a tarefa de determinar o ponto intangível do dogma, o princípio discussão correta? Não; eram conseqüências reais de uma atitude
i fundamental e necessário que o adversário negligenciou, ignorou ou polêmica cujos efeitos normalmente ficam em suspenso.
I transgrediu - e nessa negligência denuncia a falta moral; na raiz do
erro encontra a paixão, o desejo, o interesse, toda uma série de
If:-
P.R.: Você já foi visto, por suas obras, como um idealista-um
fraquezas e compromissos inconfessáveis que estabelecem uma niilista, um "novo filósofo", um antirnarxista, um neoconservador e.
culpabilidade. Como na prática judiciária, a polêmica não abre a assim por diante ... Onde você se situa verdadeiramente?
possibilidade de uma discussão igualitária, mas instrui um processo; M.F.: De fato, acho que tenho sido localizado consecutiva.ou
não lida com um interlocutor, mas com um suspeito; colhe as provas simultaneamente em todas as casas do tabuleiro político. Já fui tido
da sua culpa. designa a infração cometida por ele, emite um veredito como anarquista, esquerdista, marxista ostentoso ou dissimulado,
e o condena. Em todo caso, o que temos aqui não pertence à ordem niilista, antimarxista explícitoou enrustido, tecnocrata a serviço do
de uma investigação em conjunto; o polemista diz a verdade na gaullismo, neoliberal etc. Certa vez um professor americano indig-
forma de u 111julgamento e segundo a autoridade que conferiu a si nou-se com o fato de que um cripto-marxista como eu tivesse sido
mesmo. Mas é o modelo político que hoje em dia é o mais poderoso. convidado para visitar os Estados Unidos; também fui denunciado
A polêmica define alianças, recruta partidários, une interesses ou pela imprensa de países' do Leste Europeu como cúmplice de dissi-
opiniões, representa um partido; ela também situa o outro como um dentes. Nenhuma destas caracterizações é importante em si mesma;
inimigo que apóia interesses opostos aos seus e contra o qual é mas, se tomadas em conjunto, elas significam algo. E admito que
preciso lutar até que, derrotado, se renda ou desapareça. gosto do que significam.
Evi cientemente, a reati vação dessas práticas políticas. judiciárias É verdade que não gosto de me identificar e me divirto com a
c: religiosas na polêmica não passa de teatro. Gesticula-se: anátemas, diversidade das maneiras como tenho sido julgado e classificado.
c xcomunhõcs, condenações; batalhas, vitórias e derrotas nada mais Algo me diz que depois de tantos esforços, em direções tão variadas,
,;-\0 que maneiras de dizer. Mas são também, na ordem do discurso, um lugar mais ou menos aproximado deveria ter sido finalmente