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Expediente

Expediente
Editor
Amaral Cavalcante

Produção
Sônia Pedrosa

Design Gráfico
Ananda Barreto
Clara Macedo
Felipe Ferreira
José Clécio
Designer Convidado: (Teaser Propaganda)
Ilustradores: Felipe Ferreira e José Clécio

Revisão
Rosilene Santos
Vanessa Góes

Assessoria Técnica
Jeferson Melo

Consultores nesta edição:


Ana Libório
Carlos Cauê
Pascoal Maynard

Colaboradores - Neste Número


Tito Garcez • Aglaé d’Ávila Fontes • Gilfrancisco • Aglacy Mary • Ramon Diego • Ronaldson • Lavínia Souza Cruz • Adelvan Kenobi e Maíra Ezequiel •
Raquel Passos • Antonio Passos • Vieira Neto • Petrônio Gomes • Tereza Cristina Cerqueira • Juliana Almeida • Hélvio Dória Maciel

Cumbuca
Ano II | Número 6
cumbuca@segrase.se.gov.br
(79)3205-7421
Rua Propriá, 227 - Centro
Aracaju - SE

Governo do Estado de Sergipe Serviços Gráficos de Sergipe

Governador Diretor-Presidente
Jackson Barreto Jorge Carvalho do Nascimento

Secretário de Estado de Governo Diretor Industrial


Benedito de Figueiredo Mílton Alves
_________________
Diretor Administrativo-Financeiro
Carlos Alberto Leite Prado

Cumbuca conta com o apoio da Secretaria de Comunicação Social do Governo do Estado de Sergipe.
Ao Leitor
Ao Leitor sumário
sumário
O artesanato em cerâmica produzido em Santana
do São Francisco – antiga Carrapicho –, às margens
26 - POESIAS
do Velho Chico, abre esta edição de Cumbuca. Maté- Aglacy Mary
ria assinada por Tito Garcez revela desde o envolvi- Ramon Diego
mento de quase toda a população no manuseio do Ronaldson
barro, até os tradicionais processos de produção que
tornam a elogiada cerâmica de Carrapicho no princi-
pal item na economia daquela cidade. 32 - ANTÔNIO DA CRUZ CARRAPICHO, TEM CHEIRO DE DOCE EXÍLIO
O milho na culinária junina, importante caracterís- 40 anos de artes visuais A CAPITAL MILHO NO AR
tica na tradição cultural sergipana, é abordado pela Lavínia Souza Cruz SERGIPANA DA
pesquisadora Aglaé Fontes, que acrescenta à maté-
ria algumas receitas da nossa autêntica cozinha, em CERÂMICA
tempos de São João. 46 - MARIA SCOMBONA:
 Na literatura, Cumbuca 6 republica um artigo de Jor- a reinvenção da música Tito Garcez Aglaé d’Ávila Fontes Gilfrancisco
ge Amado sobre a cidade de Estância, onde o escritor sergipana
baiano, de ascendência familiar sergipana, se homiziou
Raquel Passos
de perseguições políticas durante o Estado Novo. O pes-
quisador Gilfrancisco, responsável pela garimpagem do
texto em velhos alfarábios, conta-nos um pouco da con- 52 - 1984 E A CANÇÃO
vivência de Jorge Amado em Estância. Ainda na litera- POPULAR EM ARACAJU
tura, os poetas Aglacy Mary, Ramon Diego e Ronaldson
Antonio Passos
comparecem com uma mostra das suas obras poéticas.
 Na área das artes plásticas, a presença do escultor
Antônio da Cruz, com sua multifacetada obra, e do exce- 60 - O DOMINGO ERA ASSIM
lente Jamson Madureira, um artista considerado under- Petrônio Gomes
ROTEIRO LÍRICO JAMSON RITA PEIXE
ground, com relevante obra de estética desconcertante. DE ESTÂNCIA MADUREIRA UMA SEREIA EM
 A cena musical está aqui representada pelo grupo Perfil de um artista
Maria Scombona, com histórico do grupo e entrevista underground
NOSSAS VIDAS
com o seu criador, Henrique Teles. Aqui, também, o leitor
de Cumbuca encontrará um bem informado artigo sobre Adelvan Kenobi e Maíra
o surto musical acontecido em Sergipe no ano de 1984, Jorge Amado Ezequiel Vieira Neto
incentivado pela realização do I Festival Novo Canto.
  Uma homenagem a Rita Peixe, inquieta figura
de decantada beleza, que se tornou decisiva para
a modernização dos costumes sociais em Aracaju,
abre a sessão de memórias, onde o cronista Petrônio
Gomes relata os afazeres dos aracajuanos em eras
passadas, seguido da Profª Cristina da Graça, que
descreve as saudosas retretas na Praça Fausto Car- CERÂMICA DE
doso, nos anos dourados.
 Encerrando esta edição, um interessante artigo CARRAPICHO
abordando a presença da vaidade pessoal, narcisista, RETRETAS DOS A PRESENÇA ARTE
entre os usuários da rede social Facebook e uma
instigante provocação, assinada pelo publicitário Foto de Tito Garcez ANOS DOURADOS DE NARCISO GENUINAMENTE
Hélvio Dória Maciel, infelizmente falecido antes da com Intervenção de NAS ÁGUAS DO SERGIPANA
publicação desta edição, questionando a necessidade
da existência de uma arte genuinamente sergipana.   José Clécio FACEBOOK
Tereza Cristina
Boa leitura! Cerqueira da Graça Juliana Almeida Hélvio Dória M. Silva
Amaral Cavalcante
Editor
CARRAPICHO,
A CAPITAL
SERGIPANA DA
CERÂMICA
Texto e fotos: Tito Garcez
S antana do São Francisco,
apesar de sua localização pri-
vilegiada à margem do Rio São
Carrapicho, nome que ainda é
dito principalmente pelos mais
antigos, pois foi o nome da fa-
a cerâmica faz parte da vida das
pessoas, e isso justifica o fato de
ela ser chamada de Capital Ser-
Francisco e muito próxima de zenda que lá existiu e de onde gipana da Cerâmica. São muitas


importantes cidades da região foi originado o povoado que le- as casas que, além de servir para
do Baixo São Francisco, como vava o mesmo nome. A fabrica- moradia, foram transformadas
Neópolis, em Sergipe, e Penedo, em lojas e galpões. Nelas, é pos-
em Alagoas, aparentemente não sível apenas comprar vasos, enfei-
possui nenhum ponto turístico tes de jardim e de parede, bacias,
de destaque. Contudo, é nessa fontes, entre tantas outras coisas,
Transitando pelas
cidadezinha que, de acordo com como também se pode observar a
o Censo 2010, possui apenas ruas, principalmente da pintura dos objetos ou até mes-
pouco mais de 7 mil habitantes, área central, é possível mo a confecção desses, que é a
existe uma interessante manifes- constatar como a parte mais interessante.
tação da cultura popular. Lá, são cerâmica faz parte da Para quem tem a curiosidade de
confeccionados, artesanalmen- vida das pessoas, e observar todo o processo de pro-
te, muitos dos itens de cerâmica dução, o ideal é visitar a chamada
isso justifica o fato de
que são encontrados em locais Cooperativa, que fica em um lugar
com um fluxo maior de turistas, ela ser chamada de “escondido”, não sinalizado, que
como a própria capital do estado, Capital Sergipana da só pode ser localizado pedindo
Aracaju – que está a 125 km dali Cerâmica. informação às pessoas, sempre so-
– mas que em Santana normal- lícitas, nas ruas ou nas portas das
mente podem ser comprados por ção de objetos de barro é o que casas. No galpão da Cooperativa é
um valor de menos da metade do dá mais movimento à cidade, e possível ver desde a matéria-prima
que costuma ser vendido em ou- é nesse ramo que boa parte dos – o barro –, que já foi preparada e
tros locais.  moradores atua. Transitando pe- passou um tempo “descansando”,
Antigamente, Santana do las ruas,  principalmente da área até os itens já prontos. Os traba-
São Francisco era chamada de central, é possível constatar como lhadores possuem funções bem

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definidas e divididas. Existe o que Sem dúvida, a melhor parte é velocidade e pressão, mas logo
“afofa” a massa para que esta seja observar a agilidade e experiên- observamos que essas vão fican-
Com as mãos trabalhada, bem como tem os que, cia daqueles que são responsáveis do bem sólidas quando os ex-
livres e sempre em suas pequenas máquinas, são por produzir os objetos. Com as perientes artesãos prosseguem
molhadas, eles responsáveis por moldar e criar os mãos livres e sempre molhadas, para a parte do acabamento.
“dão vida”, mais variados objetos, com desta- eles “dão vida”, dão o formato ra- Finalizado esse processo, o item
dão o formato que para vasos e bacias. Enquanto pidamente a coisas que, aparen- recém-criado é acomodado ao
isso, uns levam os itens para secar temente frágeis, em um primeiro lado de outros iguais, e é assim
rapidamente a
ao sol e outros carregam mais mas- momento nos fazem pensar que que temos ideia da quantidade
coisas. sa para cima e para baixo.  podem não resistir à tamanha de objetos que são criados diaria-

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Além de visitar o mercado, a
cooperativa e as lojinhas, vale a
pena fazer uma visitinha rápida
à agradável praça da Igreja Ma-
triz de Nossa Senhora Sant’Ana,
que possibilita uma interessante
vista do Rio São Francisco. Bem
perto dali, mais especificamente
à direita dos fundos da igrejinha,
é possível encontrar um peque-
no mirante, que, além de ser um
convite ao descanso, também ser-
ve para a apreciação do rio. 
Por não estar muito distante
tanto de Aracaju quanto de Ma-
ceió, pernoitar na cidade pode
não ser necessário. Mas se a ideia
for dormir por lá, como Santa-
na, aparentemente, não possui
nenhum meio de hospedagem,
as duas outras cidades citadas no
início do texto possuem algumas
opções, com destaque para Pene-
do, que é, sem dúvida, o princi-
pal destino turístico do entorno.
Se a ideia for fazer um bate e
volta, não é difícil chegar, tanto
de Aracaju, como de Maceió. A
partir de Aracaju, pode-se che-
gar – pagando aproximadamen-
mente. No galpão, podemos ver dade, logo na entrada dela é pos- te R$13,00 – através de linhas
tanto um “exército de vasinhos”, sível visitar um pequeno merca- de micro-ônibus da Cooper-
quanto também um “exército do que é o principal espaço da talse, que seguem das rodoviá-
de porquinhos”, quase prontos região para exposição e venda rias Velha e Nova, diretamente entrar na rodovia SE-335, que minutos para ir da margem ala- no de interesse turístico não só
para serem abatidos, ou melhor, dos produtos que lá são fabrica- para Santana do São Francisco dá acesso às cidades de Japoa- goana à sergipana. O que pode por sua localização privilegiada
prontos para serem quebrados, dos. No mercado, são expostos, ou pode-se, ainda, tomar uma tã, Neópolis, Pacatuba, Ilha das demorar é a espera na fila (no e pelo fato de produzir itens que
afinal, acredito que eram dezenas principalmente, os itens mais co- linha que vá a Neópolis – pois Flores e Brejo Grande (onde fica caso de se estar de carro) em de- possuem total ligação com o Tu-
de cofrinhos. Ao lado do galpão, loridos, por vezes extravagantes. possui mais horários disponíveis a foz do São Francisco).  terminados horários. A travessia rismo, mas, principalmente, pela
foi montada uma loja onde é co- Se o objetivo for ver e comprar – e de lá pegar um táxi ou mo- A partir de Maceió, tanto de em automóvel “comum” custa arte daqueles que trabalham com
locada à venda parte dos produ- objetos mais discretos, inclusive totáxi direto ao destino, que fica ônibus como de carro, o melhor aproximadamente R$19,00.   o barro, que prossegue de geração
tos feitos ali ao lado. sem pintura, com aquela tonali- a poucos quilômetros. De carro, é seguir direto à cidade de Pene- Enfim, Santana do São Fran- em geração e pelo modo com o
Caso o objetivo do visitante dade natural da cerâmica, o ideal têm-se que seguir pela BR-101 do e, de lá, atravessar o rio São cisco pode ser um local pouco qual tudo é produzido: Artesa-
seja só conhecer um pouco do é visitar as casas/lojas e até mes- e, depois, em frente a um posto Francisco em uma balsa, que não conhecido e visitado, mas, com nalmente, tranquilamente... Faça
trabalho final dos artesãos da ci- mo a cooperativa. da Polícia Rodoviária Federal, costuma demorar mais que 15 certeza, é um interessante desti- uma visita!

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Cuscuz

Milho cozido
ou assadado

Estava eu na cidade de Fafe, na. Reafirmei a entrega logo que a desfolhada, ou seja, a retirada

TEM
na região do Minho em Portu- retornasse e voltei ao encanta- das palhas, sendo depois o milho
gal, onde fui tomar parte no I mento do Sarau, ouvindo aquelas moído para se fazer farinha com
Encontro Pedagógico de Teatro senhorinhas falarem sobre seus mil utilidades culinárias.
para a Infância e Juventude como costumes, contos, histórias, ver- No nordeste, plantamos o mi-
palestrante, quando a convite de sos, rezas, nos levando a compara- lho em 19 de março, dia de São

CHEIRO
Moncho Rodriguez fui assistir a ções, referências e retorno a uma José como tão bem canta Luiz
um Sarau da Memória, projeto colonização que, especialmente Gonzaga:
comprometido com o resgate das da região do Minho, nos trouxe
histórias vindas do ontem, pela romances, cantigas, brinquedos, Vou plantar meu milho verde
boca das mulheres com mais de rezas e hábitos alimentares. No dia de São José

DE MILHO
50 anos, habitantes da zona rural Lá, na região agrícola, existe Se me ajuda a providência
e urbana da freguesia de Altemia também uma atividade que, sen- Vamos ter milho à “grané” (granel)
de Fafe. do festiva, é justamente relaciona- [...]
De repente, o telefone móvel, da à colheita do milho, que tem Pelos “caico” (cálculos) eu vou

NO AR
– como chamam por lá – trouxe o sugestivo nome de desfolhada. “coiê” (colher)
a voz de Amaral Cavalcante, atra- Em Portugal, o milho é semeado Vinte espiga em cada pé
vessando o Atlântico, me lembra- entre março e junho e colhido
va do compromisso assumido em em setembro. As espigas são re- E esperamos para, em junho,
escrever para a Revista Cumbuca, tiradas e levadas a eira, onde, de colocarmos à mesa de várias formas.
de sua responsabilidade editorial, forma coletiva, com a alegria que A música de Luiz Gonzaga é
Aglaé d’Ávila Fontes um texto sobre a culinária juni- a fertilidade da terra trás, é feita também um canto à fertilidade,

Bolo de
milho Pipoca

Ilustrações: José Clécio

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Canjica

Broa de
fubá

Pamonha

a fartura, o que permite que, em que vem da festa, da sanfona ge- saindo para procurar comida para O fato é que com lenda ou Hoje, há uma redefinição do sergipano pode faltar à presença
junho, o cheiro do milho adoce o medeira num forró animado. sua gente com outro guerreiro, sem lenda o milho está presente costume culinário, que está pre- da culinária do ciclo, de forte ri-
ar, fazendo com que tradicionais No compadrio, repetimos foi visitado pelo grande espírito no ciclo junino com força total, sente nas residências em todos queza e diversidade.
receitas preencham a história da muitas vezes os versos que a tra- Nhandeiara, que o avisou que os criando alimentos saborosos, e de os níveis sociais, mas também se Porém, o milho não reina so-
culinária do ciclo. dição nos deixou, enquanto pas- dois iam lutar e Avati morreria. grande beleza estética. deslocou para a rua onde barra- zinho no período junino. Há
É importante ver como o mi- samos de mãos dadas sobre as Enterrado, faria surgir na sua cova Antigamente, em Aracaju, o cas das chamadas comidas típicas também a puba, a macaxeira, que
lho se desvela em tantos sabores brasas da fogueira na noite dos uma planta que daria alimento a São João começava na porta da oferecem durante o ciclo, os ali- também são responsáveis pela pre-
desde cozido com água e sal, ou sortilégios, onde as coisas mági- toda tribo. Era o milho, que em casa, a fogueira acesa, mamoei- mentos tradicionais. sença de bolos e pés de moleque.
assado nas brasas da fogueira, cas acontecem. Tupi-Guarani se chama Avati. ro ou bananeira transplantado, Reafirmando a tradição, é pos- A diversidade culinária que
como transformado em bolo, pa- Segundo a lenda, as primeiras fogos nas mãos dos meninos, sível encontrar carrinhos onde possuímos, remanescente do
monha, canjica, mugunzá, ma- São João dormiu espigas não deveriam ser usadas e uma culinária diversificada se vende milho cozido, canjica e período colonial, traz no seu
nauê e pipoca. Ganha em cada São Pedro acordou para se comer, mas guardadas onde os licores e sucos de fru- bolo, pelas ruas da cidade, como bojo a feitura de licores, biscoi-
um, sabor irresistível, típico da (fulano) é meu padrinho para o replantio, dando conti- tas da terra não faltavam, como uma nova maneira da cidade, vi- tos, sequilhos e bolos, riqueza
sua feitura. Que São João mandou nuidade ao alimento. também o amendoim, a laranja ver o São João e sua economia. nascida nas cozinhas da Casa
Elementos que contribuem De igual forma, os índios Pa- e a tangerina. Existem também casas especiali- Grande, que atravessaram os
para essa valorização são o coco, Após repetir três vezes, está sa- recis também possuem uma lenda Era costume social do ciclo zadas que permitem escolhas va- tempos e, ainda hoje, fazem o
o sal, o açúcar, a manteiga, o grado o compadrio. na qual a morte do cacique provo- a troca de gentilezas entre os riadas dos alimentos do ciclo. encanto do nosso paladar no
leite, e claro, o cravo e a canela, A presença do milho na celebra- ca, no enterramento do seu corpo, vizinhos. Biscoitos, sequilhos, Pode-se dançar forró, qua- mês de junho.
especiarias presentes desde a co- ção junina é tão forte que temos até o nascimento de uma planta que manauês, licores de jenipapo, drilha, enfeitar a rua com ban- Quando o cheiro do milho vai
lonização e que, misturados ao lendas indígenas para justificar sua dará alimentos a toda tribo. E as- de feitura doméstica, circulavam deirolas, soltar fogos de chão, enchendo o ar, traz uma mensagem:
milho, lhe dão um sabor incon- presença entre nós. Os índios Gua- sim, mistérios e crendices envolvem numa prática cultural marcada papoco ou de subida, mas em São João chegou...!
fundível, completando a alegria ranis dizem que o guerreiro Avati, o milho. pela tradição. nenhum momento no São João É só aproveitar.

Munguzá

Pé de
moleque

Manauê

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Para quem quiser fazer
EXPERIMENTOS CULINÁRIOS
as receitas podem ajudar:
BOLO DE MILHO BISCOITO DE MILHO

Ingredientes: Ingredientes:
· Milho ralado 02 pires de farinha de milho
MANAUÊ · Leite de coco 02 pires de trigo
· Manteiga 150g de manteiga
· Açúcar 150g de açúcar
Ingredientes: Como fazer: 04 gemas
· Milho Rale o milho e o coco. Peneire o milho e retire o leite de
· Leite de coco coco. Em seguida, misture o milho com o leite de coco, o Como fazer: Como fazer:
· Açúcar açúcar, a manteiga e o sal. Rale o milho e passe na peneira. Bata a manteiga com o açúcar e
· Manteiga Leve ao fogo, mexendo até ficar bem consistente. Passe Junte o leite de coco e o açúcar a acrescente as gemas. Depois o milho
· Sal gosto. Leve ao forno em uma forma e a farinha de trigo. Amasse tudo até
manteiga em uma forma colocando, logo depois, a massa
untada com manteiga. ficar macio e faça os biscoitos, levan-
e por cima ponha o leite de coco, levando ao forno. do depois ao forno.

MILHO COZIDO CANJICA PAMONHA


Ingredientes: Ingredientes: Ingredientes:
· Milho verde · Milho verde · Milho verde
· Água · Leite de coco · Leite de coco
· Sal · Açúcar · Açúcar
· Canela · Manteiga
Como fazer: · Manteiga
Descasque o milho, e reserve algu- Como fazer:
mas palhas. Coloque em um caldei- Como fazer: Descasque o milho e reserve algumas palhas, fazendo com elas um pequeno saquinho.
rão água com sal a gosto. Coloque o Rale o milho e passe por uma peneira. Rale o milho e passe em uma peneira. Depois coloque o leite de coco, o açúcar a gosto e
milho envolto em algumas palhas. Junte o leite de coco, o açúcar a gosto e a manteiga.
Deixe ferver até cozinhar. um pouco de manteiga. Coloque em cada saquinho feito com a palha um pouco dessa mistura, que deve ser con-
Leve ao fogo e mexa sempre até ferver e sistente. Depois amarre o saquinho com um cordão e vá colocando-o numa vasilha com
ficar consistente. Coloque em travessa e água fervendo para escaldar.
ponha canela. Pode servir quente ou fria. As pamonhas estarão cozidas quando a palha ficar amarelada. Então é somente retirar os
saquinhos e pôr para escorrer numa peneira. Para servir basta cortar o cordão.

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DOCE EXÍLIO Gilfrancisco

A permanência de Jorge Amado em Estância por


duas vezes na década de trinta, esteve bem re-
presentada, motivo de justo orgulho para todos os
de Hernani, Nilza e Neuza, amigas do casal. Como
qualquer outro hotel do interior, o Vitória era o
principal da cidade e funcionou por mais de meio
estancianos. Depois de alguns meses de permanên- século. Em homenagem a Jorge, a rua onde antes
cia na “cidade jardim”, em cujos meios sociais soube ficava o hotel passou a se chamar Rua Jorge Amado.
conquistar os mais vastos círculos de simpatia, des- Localizada na Rua Capitão Salomão, a Papelaria
de os intelectuais até os empresários. Em Estância, Modelo de propriedade de João Nascimento (pai
Jorge e Matilde se hospedaram no Hotel Vitória, de Rui e Cordélia) era a novidade da cidade, ponto
de propriedade de Juca Nunes e D. Pequena, pais obrigatório da turma da prosa, para lá se dirigia em

Gilberto Freyre, Anísio Teixeira e Jorge Amado.

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UMA CORTINA SE ABRIU busca de informações de toda espécie e, principal-
mente, para imprimir os folhetos e cartazes que di-
Q uando lancei meu livro “Jorge Amado” – uma cortina
que se abre, não imaginava que o título suscitasse tanta
curiosidade. Decorridos esses poucos anos, em que o apre-
vulgariam seus espetáculos. João era um jornalista
autodidata ou, como o definiu Jorge Amado, “pre-
sentei em 22 estados, a pergunta infalível em noites de autó- feriu ser um homem feliz na mais feliz das cidades
grafos é sempre sobre a cortina que se abre, o que conferia à
obra um tom de mistério, indesejado.
do Brasil: Estância”. Mas foi na residência de João
Jorge Amado atrás de uma cortina? Vale investigar. Foi onde Jorge Amado realizou vários saraus literários,
a que me propus. alguns com a participação de músicos e acompa-
Conheci o escritor desde a minha mais tenra idade, acom-
panhando-o pela vida afora, curtindo a intensidade de sua
nhados de comes e bebes, tudo patrocinado por
vida e obra literária. Uma lacuna, porém, sempre me intrigou. ele. O renomado romancista mudou a rotina da
Porque Jorge Amado, com a sua imensa fama, interpre- cidade. Dessas tardes na Papelaria, Jorge conhe-
tado, noticiado, festejado, criticado ora com justiça, ora com
o azedume dos invejosos de plantão, comunista muito ativo,
ceu outras figuras, que foram transportadas para
logo, alvo da intolerância acadêmica, atravessou dois anos as suas obras, a exemplo de: Capitão e Nhô-Galo.
de confinamento político numa pequena cidade do interior A lista dos que frequentavam a Papelaria é grande:
de Sergipe, sem que uma linha sequer, da grande mídia, se
houvesse ocupado, então, de seus passos.
Amintas, os irmãos Oscar e Maurício, Armando
As temporadas de Estância não foram apenas um doce Simas, Capitão Hernani Prata, Raimundo Sotero,
exílio. Lá, escreveu quase todo Os Capitães da Areia, concluiu Pedro Soares, Jessé Fontes, Luiz Garcia, João Sacra-
Mar Morto e recolheu os tipos que saltariam vivos das pági-
nas de Gabriela, transferidos para Ilhéus. Teresa Batista, Tieta
mento e outros.
do Agreste tiveram geração estanciana Sua presença em Estância motivou um grupo
Hotel Victória
Eu, como filho da terra sergipana que o acolheu, ou seja, de jovens estudantes do Atheneu Pedro II a orga-
Estância, inconformado com esse silêncio, resolvi sair da inér-
cia e abordei o assunto com o próprio escritor. Comprometi-
nizarem uma caravana composta por membros do pouco tempo, conquistou a fina flor da sociedade
-me, inclusive, a um ensaio biográfico sobre essa temporada Grêmio Literário Clodomir Silva: Joel Silveira, João estanciana, como Ofenísia e Filemon Franco Freire,
provinciana, resgatando tudo aquilo que vinha ficando atrás Batista de Lima e Silva, Paulo Reis e João Simões, militantes políticos ligados ao Partido Comunista.
da cortina, com o correr dos anos, como se nada tivesse acon-
tecido de interessante ou importante nesse período esquecido.
para prestar uma homenagem ao romancista de Alegre e festeiro, era comum ver Jorge Amado len-
Minha surpresa foi o acolhimento do meu propósito, quem tanto admiravam, encontro este relatado no do ou escrevendo, convivendo, enfim, com a pai-
ele aprovando e autorizando a realização do meu intento. E livro de memória Na Fogueira (1998). Vejamos um sagem e com o povo de Estância: A Rua Capitão
ainda, abençoou.
No meu livro, toda essa fase inicial está minuciosamente
trecho do que diz Joel Silveira: Salomão, as águas do rio Piautinga, o cinema da
resgatada, abrindo a cortina de onde tiraria todos os fatos “Estava parcialmente aberta à porta do casarão fábrica, os amigos, ficaram para sempre guardadas
daquele período. Fatos reais, diga-se, a ficção não teve vez. de várias janelas, moradia sergipana do coronel João na memória do escritor, falecido em 2001.
Do grande escritor Mario Cabral recebi uma generosa
crítica ao livro, na época do lançamento, onde ele, em deter-
Amado, pai de Jorge Amado, bem defronte do então Logo que se entrosou com a turma, Jorge tratou
minado momento, afirma: limpo e sonoro rio Piauitinga. Olhamos lá dentro, na de criar o Jornal falado. Escreveu e dirigiu peças te-
“Sempre que, de agora para adiante, se escrever sobre a vida e sala da frente, mas não vimos ninguém. O corredor atrais (com participação dos operários) no Centro
a obra de Jorge Amado, será obrigatória uma consulta ao seu livro.
A cortina quando se abre exibe o fundo do palco, a cena viva, a
também estava deserto, mas ouviam-se vozes e risos Educativo Gonçalo Prado, pertencente à Fábrica
expressão maior da verdade. Não só o lado ficcional do romance. vindos dos fundos da casa. Batemos palmas. Quem Santa Cruz, onde havia um cine teatro. Também
“Mas a verdade é que Sergipe, estando, realmente, tão ligado apareceu foi uma caboclinha dos seus treze, quator- realizou bailes de carnaval, passeios a Mangue Seco,
à obra amadiana – pela terra, pela gente, pelos modismos, pelas
pessoas da vida real e à nobre e terna cidade de Estância – sempre
ze anos, cabelos pretos e corridos, corpo cheinho que o concurso de misses, promoveu saraus e organizou
esteve atrás da cortina que hoje se abre com o seu excelente livro”. vestido de chita, muito apertado, desenhava com exa- a Biblioteca Monsenhor Silveira. O escritor baiano
Palavras generosas do eminente mestre Mário Cabral, tidão. Os olhos eram de espanto, como se a dona deles organizou ainda várias festas filantrópicas, na verda-
amigo e companheiro de Jorge em seus anos sergipanos,
que aplaude o meu livro, creditando-me as primícias de ter
estivesse se perguntando: (“Quem são e o que querem de, Estância foi um doce exílio para Jorge Amado,
aberto a cortina. Escrever esse ensaio foi, antes de tudo, uma esses moços todos”). uma grande paixão.
jornada sentimental. – Somos estudantes de Aracaju. Viemos fazer uma
visita ao escritor Jorge Amado”.[1] [1]
Joel Silveira afirma que o encontro ocorreu em outubro
Estância era famosa por ser um local onde viviam de 1936, mas os jornais divulgaram a viagem em edição de 11
intelectuais, pessoas de gosto refinadas, por isso, em de setembro. Juca Nunes e D. Pequena, proprietários do Hotel Victória, com
Rui Nascimento a neta Lulu no colo - 1949

20 | Cumbuca Junho 2014 Junho 2014 Cumbuca | 21


ROTEIRO LÍRICO
DE ESTÂNCIA
Jorge Amado*

E já que atualmente estão fechadas as rolas aventurosas


do mundo, vamos minha amiga, fazer mais uma vez o
roteiro lírico das ruas de Estância. Assim, esperamos o dia
em que partiremos para manhãs desconhecidas em terras
inéditas para os nossos olhos, o dia em que crepúsculos
marinhos encherão de nostalgia nossos corações. Nesses
dias, amiga, quando chegar a noite de lâmpadas elétricas
das grandes cidades, a saudade de Estância se apossará de
nós, talvez. Por um momento apenas – quem sabe? – pen-
saremos nessas ruas que ficaram, nesses parques de árvores
tão sombreadas, nessas velhas de tão curiosa humanidade
que nos contam histórias de antigas cidades. Por um mo-
mento, na alegria da aventura da nossa vida, a saudade de
Estância será o único sentimento. E na ternura e calidez
do nosso amor, passará diante de nós, como num teatro
mais uma vez, o roteiro que percorremos durante meses,
quotidianamente, enquanto esperávamos que outras es-
tradas se abrissem à nossa sede de vida e de aventura.

Junho 2014 Cumbuca | 23


* Crônica publicada originalmente na Folha da Manhã - Aracaju-SE
Filemon, Osnar, Maurino, Amintas, Lauro, Raimundo Sousa, Alirioi, Donald, Raimundo Sotero e Tota.

Jorge Amado (com Lila sua filha), João Nascimento, Hernani, João Pereira e Intelectuais em Estância, final dos anos 30.

Um mistério de poesia que existe em Estância, Última cidade do mundo onde existem lendas ca- antiga. Esse quarto que parece pular fora do hotel, adivinhar o futuro que nos está reservado. Vê bem
minha amiga, que não é dado aos homens decifrar. pazes de apaixonar os poetas. Velha é a lenda do rio cercado de coqueiros, a lua entrando pelas janelas, que a água sob o teu olhar não se turva, porque o
É um mistério lírico, por vezes se parece com um Piauitinga, recente é a lenda do quarto 19 do hotel obriga fatalmente aquele que nele se hospeda a ca- nosso futuro será belo. Talvez venha essa capacidade
milagre porque é de imediato que se apossa do via- de Juca. Quem não conhece e não ama essas lendas sar com uma filha da terra. Casamento que exige, de prender que Estância possui, dos sobradões co-
jante. De onde ele decorrerá ninguém o sabe, pois de tanto pitoresco? Se a do Piauitinga explica do e esse complemento é a parte mais bela da lenda, loniais, dos azulejos das paredes, das pedras negras
que é um mistério o dom de prender que tem essa amor do viajante à cidade pelo amor à água clara uma fuga romântica, desesperação da família, um das ruas mais pobres, daquela casa que ainda con-
cidade de árvores, de peixes e frutas, de uma alegria do rio sobre todos belo, a do quarto 19 do hotel auto rasgando a noite da estrada deserta, o casal serva um nicho na sua frente.
quase ruidosa. de Juca vai buscar a beleza das filhas de Estância a partindo na madrugada. Amiga, ninguém sabe de onde vem a beleza, a
Tão grande é a força lírica de Estância, que, por explicação do mistério lírico da cidade. Na primei- Outros, porém, dizem: oh! minha amiga, que magia, o mistério maravilhoso de Estância. Nin-
vezes, chego a pensar que ela decorre de ti, da tua ra, o viajante que se dirige ao rio como que lava o não vem do rio, que não vem da sedução das fi- guém sabe porque, todas as noites, todas as estrelas
presença que dá a tudo uma plenitude de beleza. corpo e a alma, deixa na água límpida a poeira das lhas da cidade, essa magia de Estância que domina se reúnem no céu sobre a cidade, vêm dos quatro
Mas se para mim o mistério da beleza da cidade estradas já percorridas, o cansaço que traz no co- o viajante. Outros querem que venha do umbroso cantos do mundo atravessando os sete mares, brilhar
tem uma explicação na tua beleza, os demais ho- ração e descansa então na doce paz de Estância. E do bosque que penetra a cidade, a cerca e a domi- sobre os teus cabelos e sobre as casas de Estância. E
mens procuram, entre espantados e comovidos, o fica preso à água do rio e não mais poderá esquecer na, como um amante apaixonado à mulher amada. com elas vem a lua mais bela, a lua que os poetas
motivo do milagre permanente que é o dom de se a paz da cidade idílica. Idílica, sim, já que nossa Que venha do alto desses coqueiros, dessas palmas procuram, e derrama como um bálsamo a sua luz
fazer amar que essa cidade possui, como só pos- vida é um idílio, já que os pares enchem os jardins tropicais eternamente balançadas pelo vento que sobre as dores dos homens. Envolta pelo luar e pelo
suem a cidade da Baía de Todos os Santos e aquela nas noites de estrelas. E o viajante logo descobre vem de longe, que vem do mar. Ouvirá essa magia brilho das estrelas, eu contemplo na noite de Estân-
cidade peruana de Lima, dos grandes balcões flo- que um ar de idílio o envolve porque já lhe contou das pontes sobre os rios, de onde olhamos as fábri- cia. E já não sei, amiga, se a magia é da cidade ou é
ridos e dos sobrados rendilhados. Os homens pro- alguém, com certeza. A lenda do quarto 19. A len- cas e as lavadeiras, de onde, minha amiga, consulta- tua, se a sedução vem dessas ruas banhadas de luar,
curam lendas para explicar o mistério de Estância. da do quarto 19 tem toda a beleza de uma balada mos a água que corres sobre as pedras, procurando ou se dos teus olhos refletindo estrelas.

24 | Cumbuca Junho 2014 Junho 2014 Cumbuca | 25


OÀ MÓ PRAZERES DA CARNE
Aglacy Mary  
Estou ficando
 
Nesta debilidade que às com saudade
vezes De uma vidinha
me sorrateira a mente, que não vivi
pulso PROSOPIS JULIFLORA
Forra cama
feito poeta que principia: Faz café
ora soltando do cabresto o  
Leva lixo
sentimento, Os dias de Zezo Lava roupa
ora preso no vazio da cabiam bem Lustra móvel
retórica entre dois pés de algaroba. Limpa vidro
Varre chão
que seja isso a pausa, Um sol inteiro, Compra carne
AGLACY MARY é educado- e que me venha palavra um quinto de chão, E fatia
ra nascida em Aracaju, onde inteira, meio poço,  E tempera
dirige uma escola da rede pronta para a limpa na a patroa, E cozinha
particular de ensino, a Nos- peneira seis meninos Os dias
sa Escola. Seu gosto por ler e ser depois entregue à mó. e uns bodes. Em banho-maria.
e escrever é herança do pai,  
que fez da biblioteca de casa Tudo balançando na mais
POEMA DA PERENIDADE
o maior tesouro da família, perfeita  
 
enriquecido pelo diálogo com ordem de Deus. CRESPURA
os professores de Português Beleza e tudo desbotam.  
que teve ao longo da ado- Até que aconteceu,
Tudo sai de moda.
lescência e sentenciado por sem razão sabida: Se você olha bem
Tudo é barro e se quebra
uma semana de convivência Zezo trocou os bodes e traz seu toque,
com mais de dez grandes no- na fraga dura do tempo.
por um cavalo, sente...
mes da literatura brasileira, Nada é para sempre amém.
e as algarobas Em que outros fios
a exemplo de Lígia Fagundes por uns paus de carroça achará tanto enleio?
Teles e Ignácio Loyola Bran- Minto! e uma vontade O reino que herdei
dão. Em 2008, publicou o li- de criar galhos. nesta coroa
vro A Lavra, uma coleção de Perene é o homem é mar de sargaços,
poemas. É também autora de em seu renovar Até hoje Zezo vai indo. onde a vida, assim,
histórias para crianças e para e repetir de paixões. embaraçada, faz convite;
adultos, coautora de um livro E suas algarobas onde o sonho, assim,
didático de História de Sergi- invadindo outros nordestes. todo encrespado, faz
pe (ao lado da historiadora Por isso juro
protesto:
Lenalda Santos) e tem com- e conservo a jura:
  Não formolize meus
posições musicais. A música quando a vida nos fechar o chão corais.
“Maré de Peixe” (homenagem da inevitável sepultura, Sem eles, em que falsa
a Zé Peixe), parceria com João uma flor há de se abrir na campa lisura
Ricardo (do grupo A Casa do e se espraiar no tempo. haverá você
Zé), foi classificada no Ses- de se perder em mim?
canção 2011.  
Junho 2014 Cumbuca | 27
POESIA
À MEIA-LUZ PÍLULA POEMETO ERÓTICO
RAMON DIEGO Beijei-lhe a boca Um soluço tenro
PSEUDO-EXISTENCIALISTA

Em outra roupa, contorce o acaso. Quando formos


Em frase solta Pigarreio. sair
E vão cinismo. meu amor
Hão de ter nomes quero que leves
Despiu-se à luz todas as coisas. apenas
Da vela, rouca, teu riso
Na hora muda Como um pêssego sem graça
Em som e vício. em calda e um
e procuro um livro guarda-sol.
Cumpriu sua sina de Piva.
E a dor jaz pronta, Tire esse teu
Na flor que, tonta, A palavra arsenal
Em nervo expus. me limpa cosmético
Ramon Diego nasceu na ci- a garganta. e pega carreira
dade de Sousa-PB, e resi- E a voz que assombra em busca do mar.
de há mais de dez anos em A tua recusa
Nossa Senhora da Glória-SE. É apenas musa Pois, a vida
Membro da AGL (Academia Em olhos nus. é como areia
Gloriense de Letras) e da As- indesejada
sociação Cultural Sertão na DOMINGO que fode 
Arte, publicou, em 2013, seu com a gente
primeiro livro de poemas, in- O dia se despe NÓDOA devagarzinho.
titulado Viagem Rasa, oriun- na cortina velha
do do financiamento parti- que balança os móveis. Eu queria ter os pés
cipativo dos seus leitores, e de Ana Botafogo
conseguiu se firmar, por duas A tarde engatinha com sua leveza
vezes consecutivas, entre os pelo gelo inquieto e altivez descomunais.
poetas classificados para a na dose de gim.
antologia TOC140 – Os cem Queria ter o nariz
melhores poemas do Twitter, O homem chacoalha o copo,  de Ana Botafogo
organizado pela FLIPORTO mistura as horas e,  leme que aponta
nos anos de 2012 e 2013. como num passe de mágica para a Ursa maior.
bebe-as de um gole
só. Queria ter as coxas
de Ana Botafogo
Billie Holiday reclama seu espaço Instrumento árduo
ao fundo de cooptação artística.
no canto esquerdo da sala
engolida pela sombra Mas de Ana Botafogo
Ilustração: Felipe Ferreira
esparramada pela varanda eu só tenho
I honestly believe that you are bored as marcas da puberdade
You’ve changed. nas nódoas de um pôster.

28 | Cumbuca Junho 2014


Ronaldson
SIDERAL
POEMA DE SOL
Oh tarde:
O travor do verão O poema solar se inicia
em ardências e azuis. na praia clara da página.
Vertiginosa, a flora
lateja seu gozo Sem mar, a palavra é que é onda
seu fruto de mil fogos. — vibrátil —
O golpe da polpa entretendo frêmito e brisa.
seiva dúbia entre cica e mel É o que anda onde
Foto: Silvania Gois
(subs que seu rúmen maquina), a correnteza desliza...
POR OFÍCIO
Ronaldson atua na cultura sergipana
troveja a joia de zil rebentos
— explosão luz e cor Tudo é seco, estéril e parado.
desde os anos 80, quando começou a publi- A abelha zumbe sobre o pomar
entre leques verdes vento: Para germinar semente
car poemas e desenhos em jornais de Ara- (já intermezzo entre horta e jardim).
caju no alto, — atadura ou poente:
Zumbe o zinco de zuns
caju. Talento múltiplo, ganhou prêmios lite- madurando,
de bêia bela, beira pétalas
rários, em desenho, em festivais de música, vasculha suas flores prediletas A palavra cava seu arado.
— tez de quando e chumbo —
evoluindo sua atuação até as artes plásticas adentra internos de corola
atleta, decifra códigos naturebas (Litorâneos, 2009)
e a produção cultural de obras digitais. Tam-
um dia dois
bém atuante no jornalismo cultural, rese- já ébria de tanta cor, fulô
do mundo.
nhou discos, artes plásticas e literatura atra-
— zona de sins de açúcar...
vés de colunas a partir dos anos 90, quando (Questão de Íris, 1997) SOL DE MIM
— eitcha química secreta! —
estreia com Questão de Íris (1997).
Ponho meu ray-ban
Nas artes visuais, também é autor de Zinco de zuns e sins Meu sungão
mais de 20 capas de livros de autores ser- sons de bêia bela, beira pétalas PUBERDADE
gipanos e outros eventos gráficos, a partir zinco de sino, de zins e zons E dano às praias de mim.
eis que sorve néctar e pólen No espelho do riacho
de 1985. Também possui algumas músicas
Já zen, zonza de zans, de zins a moça despe-se. Quem me quiser sou assim:
gravadas com músicos de Sergipe. fração de dulcíssima alquimia
A partir da primeira década dos anos sonsa, mas fel não, O brim afaga a grama hormonal. Meio ostra dura
2000, participa de coletivas de artes plásti- à luz do verão: Meio jasmim
cas na Galeria Semear, na J. Inácio e Espaço Em fúria, Surfista de nova schin.
Cultural dos Correios. Atua, também, como
O ponto do mel toda a tarde endurece.
sabe seu ferrão. (Litorâneos, 2009)
professor e principalmente como revisor e
(Questão de Íris, 1997)
coordenador editorial. É filiado à Associação (Inédito)
Brasileira de Críticos de Arte.

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Um perfil Algumas características deste nógrafo e pintou muito até 1988,
sergipano de Maruim são mar- predominantemente na técnica
Em tempos de universos reais cantes. O companheirismo e o óleo sobre tela, temas variados.
e virtuais paralelos, o entabula- espírito de solidariedade devem É lembrado, também, como o
mento de conversação acontece ao ser ressaltados como qualidades artista que fez o monumento aos
ponto de, pelo menos, ideias, con- evidentes. Isto se enfatizou quan- garis e às margaridas na cidade de
Lavínia Souza Cruz

Antônio
ceitos e atuação pública das pesso- do a Casa Cultural Careca & Ca- Aracaju, a partir da ideia de Luci-
as serem facilmente conhecidos. maradas, a exemplo da homena- mara Passos, então presidente da
Em um desses posts do Facebook, gem feita anteriormente à perso- Empresa Municipal de Serviços
a amiga Yvana Soares, pedagoga, nalidade como o jornalista Cleo- Urbanos de Aracaju (EMSURB),
por meio de um poema de versos mar Brandi, reconheceu também também encampada pela Torre,

da Cruz
livres traçou, espontaneamente, o Antônio da Cruz “Camarada do empresa que faz o serviço de co-
perfil de Antônio da Cruz: Ano”, em 2008.  Fábio Sampaio, leta dos detritos. O monumento
“Antônio da Cruz, Simples, artista plástico e amigo de mui- concebido pelo artista não passa
simpático, carismático / homem tas jornadas, declara: “Conheci despercebido por quem transita
das artes, envolvimento intrínseco, seus trabalhos, e aí pude compre- pela Av. Heráclito Rollemberg,
ender que, a mesma maneira que zona sul da cidade. Afinal, trata-
40 ANOS DE ARTES VISUAIS / sinônimo de inteligência e capa-
cidade, / o homem das artes geo- trata os metais, dando-lhe forma, se de algo pouco comum, pois,
métricas, / horizontais, verticais, beleza e equilíbrio, é a mesma que tradicionalmente, apenas aos de-
perpendiculares, cilíndricas, / qua- se relaciona com todos, com talento nominados “grandes vultos his-
driláteras, quadrados, retângulos, e sensibilidade”. tóricos” são erigidos monumen-
triângulos / um olhar de menino, Cruz encara as palavras amá- tos. “Ainda que as condições sociais
criativo, capaz, sagaz / alma pura, veis das pessoas como uma espé- dos garis e margaridas tenham
interior alegre e manso. / Risonho e cie de zelo que elas têm para com muitas pendências, creio que, er-
perspicaz. / Da cruz, da luz, do sa- seus semelhantes. Neste ano, de guer um monumento a pessoas tão
ber, /movimento, experimento, sen- 2014, o artista plástico comemo- mal valorizadas pela própria socie-
satez, lucidez / engajamento diário ra 40 anos de ativismo e dedica- dade, melhora substancialmente a
com a responsabilidade artística. / ção às artes visuais. Atualmente, autoestima delas”, afirma Cruz.
Criação, produção, sensação!”. reconhecido pelos seus trabalhos  
  Outra amiga, a arquiteta feitos em aço – muitas das peças A Trajetória
Ana Libório, confirma: “Assim é estão mais para objetos lúdicos  
Cruz”.  Esta certeza vem da con- do que figuras feitas do rijo aço, “Ele é um artista inquieto,
vivência por ocasião de um tra- pois estas ganham mobilidade apaixonado pelo movimento e pelo
balho realizado há alguns anos, mediante o vento e o toque das tridimensional, com suas escul-
quando Cruz integrou a equipe pessoas –, Cruz tem produzido turas, Cruz insiste em provar que
responsável pela montagem da obras de arte de porte monu- peças em aço podem flutuar pelo
maquete que reproduz o centro mental. Ele também é chargista espaço, num jogo visual que mate-
histórico de Aracaju para o então e publicou muitos trabalhos nos rializa o etéreo e instiga o incons-
Museu de Rua da Ponte do Im- jornais e boletins dos movimen- ciente” (Marcelo Rangel – Museu
perador. O trabalho, hoje, se en- tos sociais entre as décadas de oi- da Gente Sergipana). 
contra no Museu Palácio Olím- tenta e noventa. Trabalhou como Ainda criança, Cruz desenha-
pio Campos para visitação. desenhista técnico, projetista, ce- va com carvão e pedra calcária

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Escultura: Olhos da liberdade II

nas varandas das casas dos sítios insistindo, teimosamente, em amealhar patrimônio certo e a feito Marcelo Déda, Cruz foi con- trado, funcionários, e Silvane
onde residiu, nos arredores de reproduzir os desenhos de gibi, possibilidade de investimento vidado por Chico Buchinho, pre- Santos, estagiária pelo curso de
Aracaju; modelava em argilas e personas da história universal para a própria arte. Cruz, en- sidente da Funcaju, então órgão Artes Visuais da UFS.
esculpia em mulungu – madeira e brasileira, além de se esforçar tretanto, não perdeu o bonde municipal da cultura, a ser diretor Na GAAS, desenvolveu ainda
então abundante e de fácil lavra – para retratar pessoas do seu cír- da historia: foi ao “olho do fu- da GAAS, Galeria de Arte Álvaro projetos em parceria com a ASAP,
figuras humanas, ou partes delas, culo de amizade e parentes. O racão” e transcorreu a década de Santos. Lá, Cruz passou quatro Associação Sergipana dos Artistas
para atender às senhoras católicas. aperfeiçoamento veio com os oitenta militando no movimen- anos atendendo aos desejos repri- Plásticos, como o “Projeto Arte
Eram as promessas ou os ex-vo- fascículos semanais das coleções to sindical, contribuindo para a midos dos artistas que queriam em debate”, com a participação
tos. O contexto social e financei- de revistas de “Desenho e Pintu- redemocratização do país.   expor ali. Democratizou o espaço direta de Léo Mittaráquis, que manente
ro da sua infância e as oportuni- ra” que comprava nas bancas, na Na década de noventa, deu- e deu à galeria a efervescência que fomentava assuntos altamente de Artes
dades escassas lhe condicionaram década de setenta. Com o tem- -se a intensificação no universo ela possuíra na década de setenta; subjetivos, fosse a partir de um Visuais
a ser autodidata. po, a sua necessidade literária cultural. Vieram as participa- retomou o Salão dos Novos, que texto ou um filme. Fez acontecer de Sergipe,
Sacrificava os cadernos es- evoluiu e os volumes de história ções em seminários e encontros não acontecia há dez anos; tam- o “Projeto 5 Imaginação”, sob tem prolon-
colares com desenhos a grafite, da arte passaram a ser devorados de artistas pesquisadores em São bém criou o “Salão Praieiro”, o a coordenação de Náide Barbo- gado a contri-
reproduzindo as cenas dos fil- quase como livros religiosos. As Paulo, o que o estimulou mais “Concurso de Escul- sa. A proposta era debater temas buição de Cruz na formação de
mes de faroeste e gibis – as atu- biografias de Van Gogh e Porti- na organização dos artistas lo- filosóficos e históricos; propor público para as artes visuais.
ais revistas em quadrinhos –, de nari, com lances de sofrimento, cais em associações e fóruns, nos questões práticas, como a orga- Os seus quarentas anos de ar-
modo que sobravam poucas pá- necessidades afetivas e financei- quais os debates se fizeram im- nização de arquivos fotográficos, tes visuais têm como marco inicial
ginas para copiar as lições, o que ras extremas espantaram o so- portantes para a compreensão da Cruz também é pelo inquieto Newman Sucupi- a participação em uma exposição
lhe rederam puxões de orelhas nho do menino em querer en- realidade dos artistas sergipanos. chargista e publicou ra  (in memoriam);  promover o coletiva na GAAS, em 1974, aos
dezoitos anos de idade. Daquele
e outros castigos da irmã Maria veredar por caminhos artísticos Aconteceram “batalhas” entre o muitos trabalhos nos tratamento de imagens fotográ-
José, a responsável pela discipli- incertos. A sua própria realidade poder municipal e os artistas que ficas e fomentar pesquisas visu- ano aos dias atuais, o artista par-
jornais e boletins dos ticipou de várias exposições cole-
na em casa na ausência dos pais. lhe bastara como lição. Ao ca- defendiam uma lei de incentivo movimentos sociais ais, etc. Em ambos os projetos, o
Ela mesma, mais tarde, sar-se, em 1981, com Maria de à cultura municipal. As discus- apelo junto ao público era grande tivas e realizou mais de dez indi-
lhe presentearia com Lourdes, uma salgadense, vie- sões se mantinham acesas obje-
entre as décadas de e a ocorrência, por vezes, chegava viduais. Foi exatamente na GAAS
um caderno de dese- ram Lavínia e Andreyc, filhos tivando melhorar a produção e oitenta e noventa. a se equiparar às aberturas de al- que o fotógrafo Nailson Moura
nhos e uma cartela queridos, hoje adultos, com as o ambiente cultural. Neste mis- gumas exposições. lançou, no mês de maio deste ano
de aquarela. Cruz respectivas vidas resolvidas. O ter, o artista desenvolveu papel Nos anos recentes, o contato de 2014, o livro Crônicas do Ate-
aprendeu as fato, entretanto, é que as contas importante contribuindo na ar- turas na Areia” e a Reserva Técni- direto por meio de palestras so- liê, uma narrativa imagética em
técnicas precisavam ser pagas e o artista ticulação de artistas e entidades ca, com a devida catalogação de bre a organização e a discussão de que Cruz aparece desenvolvendo
passou a trabalhar empregado então existentes. todo o acervo Municipal, tendo outros temas importantes com etapas dos seus processos artísti-
como desenhista técnico, o No início do novo século, em a contribuição integral dos dedi- artistas dos mais variados lugares cos. Como acessórios, no livro
que garantia saldar dívidas, 2001, na primeira gestão do pre- cados Adelci Freire, Benedito Le- do estado, através do Fórum Per- constam 12 artigos selecionados

Experimentos com luz de LED na obra Mundos. Tela gravada em aço.


Monumento às margaridas
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entre os escritos de Cruz para a sinto a necessidade de fazer uma cotidiana. Ele é incansável neste ve ferramentas para as simples “Enfim, podemos afirmar que nu, não se veem, a luz revela. Ela,
imprensa local, de 2007 a 2011. ilustração realista não ‘perco o re- processo incessante de metáforas dobraduras, a trabalhosa mode- Cruz e o aço conspiram, em função assim, reinventa o inverossímil,
  bolado’. Eu faço e pronto; se por imagéticas e ousadia arquitetu- lagem e a sofisticação da estam- da Arte. Ele forja esculturas e mo- o abstrato, noutras palavras, faz
 Conceitos e concepções acaso me surgir uma ideia de uma ral da tridimensionalidade. pagem. A figura humana, seus vimentos que mais parecem ser de alquimia luminosa, convertendo
  obra fortemente abstrata eu expe- sentimentos, suas contradições um mundo ainda não inventado; simples e minúsculas reentrân-
“Fazer esculturas é interfe- rimento. Não tenho falsos escrú- A execução das obras de e seus dramas são suas bases de deixando livres situações plásticas cias, riscos na superfície da chapa
rir no espaço. E para que acon- pulos somente para seguir um esti- arte em aço inspiração. Deles também vêm os onde o imaginário parece nunca metálica do aço duro, em ima-
teça essa grandeza, todo artista lo engessado e agradar ao que cha-   movimentos que surgem nas suas querer descansar. Isso é Cruz e o gens imprevisíveis a partir de mi-
tem por obrigação conhecer e mamos de crítica. Para mim estilo “O aço de sua natureza fria, obras, principalmente quando aço em alta temperatura”.  (Elias crocóspicos reflexos que, uma vez
dominar a forma, o volume e o é um conjunto de elementos que quando manuseado com senti- com forte tendência à abstração. Santos – Artista Visual). somados, se avolumam e se es-
tridimensional. Essa busca tem predominam na obra do artista ao mentos e sensibilidade artística     tendem por toda a superfície por
sido, de fato, uma constante em longo da sua jornada e não é ele, o perde sua caracterização árida. As novidades Alquimia visual onde o artista trabalhou ávido, a
Antônio da Cruz. Percebe-se em artista, quem o define. Eu traba- Não é apenas o aço em seu aspec-     ferramenta abrasiva, com gestos e
suas obras não apenas uma esté- lho com outro conceito, o das sé- to industrializado, mais do que Desde o início de 2013, Cruz A junção dos efeitos de 3D intenções gráficos.
tica empírica, mas a plasticidade ries paralelas, ou seja, desenvolvo isso, Cruz trabalha formas com tem experimentado, sistematica- e a projeção das cores-luz sobre
exercida”. (Bené Santana – Ar- vários temas interdependentes e a aspectos orgânicos, dando vida mente, uma nova técnica, inicia- o desenho gravado na tela
tista Plástico). cada um chamo de série. Quantas e mobilidade real às suas cria- da bem antes, porém, o resultado de aço faz a satisfação dos
  Quando o assunto é defi- obras eu farei em cada uma destas ções”. (Marcos Cardoso – Editor e como obtinha tais efeitos ha- olhos. Torna-se alquimia
nição de estilo, o artista argu- séries não sei. As séries são abertas. do Jornal da Cidade). viam passado despercebidos. Ele visual. Em tela única a luz
menta que não se preocupa em Isto me permite ampliar os desa- No seu ateliê, Cruz lança mão usa a lâmina de aço substituindo remodela a forma. Dela
se enquadrar. Alega fazer arte fios para a criação. Não importa das “Notas de oficinas” e do seu a tela, e no lugar da tinta a luz. nada escapa. Vira força
com os recursos do seu tempo, se as imagens são realistas ou sei lá “Banco de ideias”. Assim, fixa as Nesta edição, algumas fotos mos- visual: viola contornos,
numa linguagem atual e assim se o quê”, diz. suas experiências artísticas. Para tram o resultado. Outra novidade tinge, obscurece, rebus-
diz um artista contemporâneo. Cada ideia é a matriz de mui- ele, a escultura é uma etapa na é a série de releituras de edifica- ca, torce, instiga o olho
“As fronteiras estilísticas não de- tas outras ideias impregnadas do sua vida de artista; é resultado ções, na qual o artista cria formas e brinca com o cére-
vem ser impostas ao artista como sentimento de liberdade explici- da vontade de dar forma real ao semelhantes a prédios e conjun- bro. Imagens que,
uma camisa de tada nas formas. Criar é o desa- desenho. As formas orgânicas tos arquitetônicos, residenciais a olho
força. Se eu fio que Antônio da Cruz toma que modela no aço acontecem, ou não, emprestando a alguns
para si como responsabilidade agora, após experiências e aspectos futuristas. São prédios
leituras técnicas, numa fictícios. O artista também está
bibliografia que não está trabalhando para transformar
destinada a um curso o seu ateliê em um instituto,
regular de belas artes ideia que alimenta desde 1999,
ou equivalente, mas às após participar de um encon-
áreas de metalurgia e si- tro da Associação Nacional dos
derurgia. Artistas Plásticos Pesquisadores
A partir do processo (ANPAP), quando percebeu que
mais elementar de percus- poderia ampliar sua contribui-
são, Cruz desafia a dureza do ção no universo das artes visuais.
aço, modelando e o submeten- São quarenta anos comemorados
do à forma desejada. Na execu- com a promessa de mais trabalho
ção das suas esculturas desenvol- pela frente.

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JAMSON
MADUREIRA
perfil de um artista underground
Adelvan Kenobi e Maíra Ezequiel

L á pelos idos de 1996, o nome Jamsom Madu-


reira aparecia na cena artística underground ser-
gipana como líder de uma banda industrial/mini-
do vocalista Fúria) era a arte que emoldurava o ma-
terial “promocional” da banda, releases e capinhas
da fitas demo. Era um traço estilizado, com uma ex-
malista chamada Camboja. A banda já existia desde celente utilização do contraste claro/escuro e óbvia
o início da década, e foi formada por amigos que inspiração no que de melhor existia nos quadrinhos
moravam no conjunto Marcos Freire, em Nossa alternativos da época. A arte de Jamson Madureira
Senhora do Socorro, região metropolitana de Ara- aparecia para o mundo, via circuito “alternativo”
caju, com o intuito de fazer um som grindcore. Os (leia-se troca de zines e demos pelo correio).
shows dos caras eram um caos, mas o que chamava A formação da banda começou a mudar, mas
mesmo a atenção (além da perfomance alucinada isso não importava. Era a típica banda-de-um-ho-

Foto: Moema Costa

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mem-só. Ecos de grindcore nos vocais berrados e Seguiram tocando e gravando por, aproxima-
a guitarra velha extremamente suja e desafinada, damente, 4 anos, shows no volume Máximo, com
tocada “com vontade”, era o que importava. Após bateria cadenciada marcando os espasmos guitar-
a saída de todos os primeiros componentes, de- rísticos e vocais gritados de Madureira, emoldura-
pois do lançamento da primeira demo, “Grind to dos pelos efeitos sonoros da guitarra de Sylvio que,
grind”, Jamson abandonou as baquetas e passou a espertamente, captou no ar que a sinfonia repetiti-
assumir vocais e guitarras, revelando-se um exímio va de riffs, criada por Madureira, não precisava de
criador de riffs matadores e de melodias grudentas mais do que isso para preencher os naturais vazios
que compunham uma música minimalista ao ex- que a formação pra lá de enxuta produzia.
tremo, na maioria das vezes se resumindo à repeti- Mais tarde, por volta de 1998, Madureira reve-
ção de uma frase por cima de um riff de guitarra. lou-se, também, artista plástico. Seus quadros fo-
Isso após um breve período acom- ram exibidos durante o festival Rock-SE, realizado
panhado por uma bateria eletrô- no fim de outubro daquele ano.
nica primitiva e tosca, que ele O estilo arrojado e altamente in-
abandonou para recrutar, para as fluenciado por quadrinhos dei-
baquetas, Wesley, já velho conhe- Em 1996, o nome xou muita gente de queixo caído.
cido de bandas punk/hc/grind Jamsom Madureira Como assim? Esse cara é de Ser-
como ETC e Lipofrenia, e o aparecia na cena gipe? Aquele mesmo doido do
“velho guerreiro”, Sylvio Subur- artística underground Camboja??? Bananeiras, retratos
bano, fundador da Karne Krua. sergipana como líder de de igreja e natureza morta, além
Tudo isso sem contrabaixo, “pra de cavalos, muitos cavalos, eram a
uma banda industrial/
não atrapalhar”, nas palavras de ideia que a maioria tinha de arte
Madureira. Gravaram mais uma minimalista chamada sergipana. Porém, a arte de Jam-
demo caseira, que se tornou um Camboja. son não tem raiz alguma com o
pequeno clássico “udigrudi”, in- que já se fez no Estado. Como
titulada “Lies about freedom”, e já disse, quadrinhos são a grande
em seguida, entraram finalmente em estúdio para referência. Nada no estilo super-herói, é claro. As
uma terceira demo, dessa vez acompanhados por reverberações vão de Bill Sienkiewicz (da clássica
um baixista, por pura insistência do mesmo, que mini-série Elektra Assassina), a viagens quadrinís-
vinha a ser Marlio, baixista da Karne Krua e outro ticas em forma de graphic novel, como “Blood” ou
fiel colaborador, sempre colocando sua casa à dis- “Ás Inimigo – Um Poema de Guerra”, este último
posição, nos fins de semana, para os ensaios. de George Pratt. Mesmo assim, essa tentativa de

Imagem extraída do site escarronapalm.blogspot.com.br

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Imagens extraídas do site escarronapalm.blogspot.com.br

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aproximação em nada resume a dimensão da arte de mínimo, autêntico. Madureira voltou a exibir seu ta-
Jamson. O caos de 68, poemas dadaístas e a música lento distribuindo fanzines – mesmo sendo já coisa
1. de John Cage talvez ajude. Ou melhor, não é nada do passado, da era pré-Internet –, apresentando sua
disso. Não há nada tão abstrato num elefante. Ou criação para o mundo dos quadrinhos. “Automazo” e
uma colher. O que importa é o traço, ou garrancho, a “Amante do Mutante” foi feita e desenhada à mão,
ou, simplesmente, as partes do quadro perfuradas xerocada e distribuída pra quem ele bem entendesse.
2. por algum instrumento estranho aos manuais de ar- Sortudos os que guardam suas cópias. Uma versão
tes plásticas. Sua arte pintada seguia de certo modo a em html chegou a ser feita, mas não tenho notícia de
mesma concepção de sua música: minimalista, feita ter sido postada na net. O estilo apresentado é típi-
de signos e de imagens urbanas, paranoias e fixações. co Madureira, versão HQ. O texto, uma linguagem
Experimentalismo, talvez seja por aí. solta e inspirada, em cima de argumento beirando
Aos poucos, mesmo sem ne- o surrealismo. A série perdura até
nhum esforço pessoal do artista, a hoje. Quando você menos espe-
arte de Madureira foi chamando ra, lá vem Madureira com mais
a atenção de mais e mais pessoas, Por volta de 1998, algumas historinhas em quadri-
inclusive daquelas distantes do Madureira revelou- nhos simples e, ao mesmo tempo,
mundinho do rock, onde vivia, -se também artista herméticas, rebuscadas e rabisca-
o que o levou a produzir desde plástico. Seus quadros das, xerocadas e distribuídas sem
3. 4. 5. capa de disco pra banda de rock foram exibidos durante nenhum compromisso, a não ser
(Snooze, “Waking Up... waking o mais nobre: a necessidade de se
o festival Rock-SE,
Down”) a ilustrações de livros comunicar, mesmo que de forma
1. 4. de poesia (de Araripe Coutinho realizado no fim de torta, enviezada e, deliciosamente,
Porco com Macã Iansã
e do hoje ministro do Supremo outubro daquele ano. anacrônica. Camisas foram feitas
Óleo sobre tela Gauche sobre papel
44 x 70cm 53 x 42 cm Tribunbal Federal, Carlos Ayres com a personagem. Jamsom até
2000 2003
de Brito). Depois de um tempo voltou a exibir em galeria de arte,
2. 5. pintando sem parar, cansou dessa vida de exposições usando os originais dos fanzines, foi tema de matéria
Mulher Lírio Dragão
Óleo sobre tela AST
conjuntas em Assembleias Legislativas, galerias de em jornal local e foi, inclusive, esse ano, convidado
50x40cm 30x40cm arte convencionais e “mercados pop”. Parou de pin- a participar, como único representante do estado de
2006 2009
tar, assim como o Camboja se dissolveu bem antes, Sergipe, de uma mostra nacional de novos (novos?
3. 6. com três demo-tapes servindo de legado. Eventual- Melhor dizer “desconhecidos”) talentos na Funarte,
Martelo com Pregos Ilustração
Silk screen em papel Material promo-
mente, ele apareceu com outra banda, a Madame no Rio de Janeiro. Resta a nós, pobres mortais, espe-
madeira cional da banda Tubarão, com um som meio “surf garageiro”. No rar e torcer pelo próximo passo do mestre.
15 x 25cm Camboja
2000

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6.
a reinvenção da música sergipana
Raquel Passos

D
esejando transformar o cenário musical de mas sempre tendo a música [e tudo o que ela possa sempre admirou a pegada sonora Em 2002, a banda lança o CD ‘Grão’ – que os
Sergipe, o polivalente em som e arte, o tea- representar] como centro do processo. perceptiva de Maria Scombona e vi- levou ao Festival de Verão de Salvador, ao Prata da
tral, sertanejo e contemporâneo, Henrique Teles, A cada apresentação da Maria, como a banda é rou admiradora ainda adolescente. Casa no Sesc Pompeia (SP), ao Festival Internacio-
criou a banda Maria Scombona (que, no lingua- carinhosamente chamada por seus fãs e entusiastas, “É um sentimento de amor que nal de Música Independente em Brasília, à Feira
jar nordestino, significa cambalhota ou pirueta), Henrique reinventa a própria musicalidade e faz da tenho. Eles estimularam muita da Música no Ceará e Festival de Inverno de Ga-
no final da década de 90. Daí mesmo, a partir da criação o seu principal elo entre os palcos e a reali- gente que era embrionária no ranhuns, dentre outros grandes eventos. Quando
concepção do próprio nome, começa-se a enten- dade. Como uma ponte entre o que de mais belo cenário musical de Sergipe e sem- Henrique anunciava cada nova caminhada da ban-
der melhor o que esse grupo sempre pretendeu: existe e o que é palpável. pre apoiou a música em sua melhor da, os jovens se entusiasmavam ao ponto de acom-
transformar. Um sentimento de preenchimento, ou mesmo forma”, sintetiza. panharem a banda nessas longas viagens. De van
Assim, é possível perceber que nas letras e melo- de acolhimento, é transmitido a cada novo arran- Além de Déborah, outras centenas de jovens ou avião, muita gente se vangloriou por ter estado
dias de suas canções, sempre inebriadas de regiona- jo e reinvenção que Henrique traz nas músicas da participavam das intervenções artísticas que os presente nestas ocasiões. Pudera! Não foi em vão.
lismo, desde o coco da embolada, aos aboios, blues, Maria Scombona. Desde 1998, quando a banda membros da banda promoviam, por meio da Em 2007, a banda se torna um quarteto e lança
jazz e soul music, o comandante da trupe passou a foi concebida, unindo amigos e os distribuindo vontade incessante de preencher as veias culturais o álbum ‘Mais de Um... Nós’. O segundo disco é
trabalhar uma linguagem estética e criativa em suas entre seus instrumentos favoritos, fica notória a dessa gente. Dali a 16 anos, um texto como esse considerado o da comparação da carreira, devido à
composições. A unicidade passou a ser seu marco, transformação incutida naqueles que acompanha- nasceria sob o encanto remanescente do conteúdo nova e enxuta formação da banda e foi justamen-
ainda que, muitas vezes, haja um contorno mais ram suas apresentações Sergipe afora. A publi- produzido a partir das produções musicais em te quando os membros idealizaram e propagaram
pesado e, em outros momentos, um som mais leve, citária Déborah Costa é uma dessas pessoas que questão e vontade de propagar qualidade. projetos socioculturais pelo estado.

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Foto: Elma Santos

O mentor Particularidade
C omo é possível perceber, o
vocalista ou idealista da ban-
da é um cara interessante e in-
A banda se diferencia das de-
mais em atividade em Sergi-
O álbum ‘Un Nu’ foi lançado
em 2012 e é até hoje considerado
pe por possuir identidade revela- o mais conceituado de todos da
cessantemente curioso. Além de dora em suas intervenções musi- carreira da banda. Mais uma vez,
incansável, tem um faro artístico cais mas, por sua vez, convergem É impossível imaginar um show a Maria Scombona inovou e este
e cultural que pulsa em sua veia – com vertentes artísticas encon- (ou espetáculo) da Scombona álbum foi concebido, também,
literalmente. Filho do cantor se- tradas, por exemplo, em Litera- sem aquelas pessoas desprovidas para o formato anacrônico mais
resteiro e também compositor da tura de Cordel ou em qualquer de qualquer armadura, mas que amado e saudoso por quem sente
terra, Antônio Teles, Henrique outra poesia tão cheia de magia permitem a entrada de melodiosas a música. Além do CD, o álbum
seria o cara que transformaria a quanto. Tal qual um espetáculo ondas frenéticas em seus corpos, ficou disponível em LP ou vinil.
cena musical sergipana em algo, circense, que sempre existiu plu- tornando-os reais brincantes, As composições continuam ‘ves-
finalmente, com identidade pró- ricultural, mas nunca foi ou será como um reflexo do homem tidas’ de rock, blues, soul, forró,
pria. E ali se reinventaria. o mesmo. O público o define. que conseguiu trançar tantos embolada, aboio, coco... Ou seja,
Quem o conhece e percebe Assim também acontece com a esforços e prazeres no único o desdobramento ‘scombônico’
seu lado ‘raiz’ pulsar, talvez não Maria Scombona. desejo de brincar, de ser potencial permanece intacto e presente.
saiba que sua ligação inicial foi transformador musical em sua
com o meio metal underground. cidade. Tal qual Henrique Teles
Na capital sergipana, Henrique do site Overmundo, em uma Foto: Marcelinho Hora com três notas musicais – ou mais.
percorreu os porões e garagens publicação de 2006.
do rock’n roll usando braceletes O primeiro grupo a estourar
heavy, conforme relata a jornalista no cenário cultural contemporâ-
Maíra Ezequiel no Overblog, neo underground de Aracaju, cer-
tamente, foi a Maria Scombona,
na década de 90, quando Hen-
rique Teles devolveu à sociedade
um pouco de suas impressões
captadas com sua vivência mu-
sical pelos corredores e arredores
da cidade.
Não é preciso ser especialista
para entender. Basta sentir. As-
sim, a suavidade da gaita, com
os gritos elétricos da guitarra e
a melancolia do contrabaixo se
uniram com a percussiva bateria
Foto: Elma Santos

e consolidaram o sentimento de
regionalismo que a interpreta-
ção vocálica de Henrique sem-
pre prospectou.
Foto: Elma Santos
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fez pelas cidades do interior. O mo, temos agido mais coletiva e
que acha da efervescência atual colaborativamente com artistas e
Foto: Alejandro Zambrana

nha mãe, do meu pai e de minha da cena local? Tenho notado o técnicos de outras áreas, inclusi-
família em geral. O DNA. aumento de espaços, de grupos, ve, para que toda a realidade se
etc. Aracaju, enfim, tornou-se fortaleça e possamos desfrutar de
Cumbuca: Quando fiz par- uma cidade autosuficiente para um status de celeiro de grandes
te da banda, entre 1992 e 1994, os músicos e artistas? músicos, compositores, intérpretes,
o repertório era mais reflexivo e como de fato o somos.
“acústico”, formado por músicas Henrique: Cidade alguma é
Entrevista com Henrique Teles como Farol de Ferro, Pela Barão, autosuficiente para seus músicos
Medo, dentre outras. A sonori- e artistas – é bom começar fri-
Cumbuca: O primeiro ál-
bum (“Grão”) data de 2002.
Por Marcos Vinicius Correia Cumbuca: Henrique, fale de dade atual, no entanto, é basea- sando isto. Precisaremos sempre, O trabalho foi bem recebido e
Exclusivo para Cumbuca sua formação musical, influên- da no funk/rock/blues, sem abrir como qualquer artista, sair de rendeu muitos shows. O mais
cias musicais e artísticas. Sei que mão da nordestinidade nas letras, casa. respirar outros ares, Neste recente (“Un Nu”) é de 2012 e

E melodias e sotaque. Como e por caso, seguindo a ideia de artistas


m 1992, eu estava totalmen- o DNA da música foi herdado de me pareceu ter sido de divulga-
te imerso no Rock. Era fã do seu pai, Antônio Teles. Quem – que se deu essa mudança? Quais como Chico Queiroga e Antônio, ção mais modesta. Como foi a
Rush, Metallica, Iron Maiden e ou o que – mais ajudou a cons- os caminhos trilhados até desa- que já haviam se aventurado nas recepção ao novo álbum? O que
minha banda principal era a He- eles dois anos e fiz shows mui- truir sua identidade? guar nessa sonoridade peculiar? escolas, montamos nosso circo de mudou entre esses dois lança-
misférios, que tocava nos ainda to interessantes, como os de uma forma pedagógica para, a mentos, em termos de banda e
escassos points da cidade. Foi Olinda (1992) e FASC (1993). Henrique: Assim como o DNA, Henrique: O começo da Ma- partir de 2004, ocupar um espaço de cena musical?
quando Henrique Teles, a quem Deixei-os devido a um de meus minhas influências são muito or- ria foi de muitas experimentações na educação musical de nossos ga-
conhecia de formações de gara- períodos sabáticos, no caso o de gânicas; pouco racionais e muito e a proximidade com as melodias, rotos, assim como, de certa forma, Henrique: Nenhum rio é o
gem (assisti a ensaio dele com 1994, quando botei a guitarra intuitivas. São frutos de tudo que harmonias e ritmos nordestinos. A ajudar a criar um público mais mesmo; muito menos nós. Quando
Beto Vela e Sérgio Pauleira, to- debaixo da cama por 6 meses, tocou meus sentidos e meu espírito. linguagem da música negra ame- conhecedor da música e, conse- chegamos com o “Grão”, fomos pe-
cando “Prodigal Son”, do Iron no esgar final para conquistar o Engraçado que, olhando para meus ricana ainda não tinha se sedi- quentemente, mais consciente do gos de surpresa, pois não esperáva-
Maiden), convidou-me para in- diploma de Químico Industrial. primeiros passos na minha relação mentado nas minhas criações como universo dos palcos e da produção mos que as coisas acontecessem tão
tegrar sua banda, um rascunho Henrique prosseguiu refinando com a arte/música, tive muitas re- compositor. Já existiam músicas musical. Fizemos incursões em es- bem. De lá para cá, a cena mudou
do que viria a ser a Maria Scom- seu som e conquistando espa- ferências, mas com o tempo fui me como Lucimar, mas ainda não es- colas e nas cidades do interior, em e melhorou muito mais, mas nós
bona. Eis que tornei-me (meio a ços, até que, em 2002, a banda distanciando de fórmulas ou padro- tava definido o meu caminho, meu projetos que deram ótimos resulta- também mudamos – e, acredito,
contragosto, é verdade) “um nu” lançou seu excelente trabalho de nizações de artistas que eu gostava. jeito de expressar esse elo africano dos e construtiva repercussão para para melhor. O “Un Nu” não foi
da distorção e tive de encontrar estreia, o CD “Grão”. Busquei, a partir disso, encontrar nas músicas brasileira e americana a cena. concebido com o ímpeto do “Grão”,
minha voz na guitarra, em meio o meu caminho, especialmente na que passaram a ser “pareceiras” em Quanto à cena, hoje ela é de mas este terceiro álbum parece estar
a percussão, efeitos, violão, toa- troca com o universo musical dos minha música. Então, essa mu- uma riqueza impressionante. No- se colocando no seu lugar na histó-
das e longos e reflexivos ensaios. músicos que passaram pela Maria dança tão clara para quem tocou mes que não deixam a desejar ria, como um disco que não teve se-
Adorava os da “casa da fazenda”, Scombona. Tudo isso me ajudou a no começo da banda foi se dando diante de artistas consagrados da quer show de lançamento – apenas
de D. Marlene, em plena Rua Jo- sedimentar e canalizar um mundo ‘silenciosamente’ no decorrer das música brasileira nos dias atuais. uma apresentação à imprensa com
ventina Alves. de elementos presentes no que vivi nossas experimentações. Mas, faço logo a ressalva de um pocket show, que aliás foi mui-
Foi um contraponto inte- desde a minha infância. Óbvio que que, mais do que UM NOME, to legal. Entretanto, é bom que se
ressante e uma ótima escola de nunca deixarei de reconhecer as in- Cumbuca: Fale um pouco importa muito mais a consistên- frise, é para mim o melhor álbum
brasilidade e poesia. Passei com fluências estéticas e musicais da mi- sobre os workshops que a banda cia de uma cena. Por isso mes- da Maria.

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E
ste é um papo adormecido
por 30 anos: o decorrer e o
resultado final do 1º Festival
Estudantil Novo Canto, realiza-
do em Aracaju no ano de 1984.
Entre 1984 e 2014, passaram-se
30 anos! Estive no olho daquele
furacão, participei e saí vence-
dor e vaiado daquele festival,

1984 e
como compositor da canção
“Canto à Esperança”.
Até aí nada de mais. Ocorre
que aquele Novo Canto de 84
e as edições seguintes, além de

a canção
outros festivais paralelos, revela-
ram uma geração quase inteira
de compositores e intérpretes que
sucedeu e passou a conviver com
a marcante safra imediatamente

popular
anterior, que rompeu os anos 80
no palco, representada entre ou-
tros por: Adelson Alves, Alcides
Melo, Antonio Carlos Du Ara-
caju, Bolo de Feira, Bosco Scaffs,

em
Cata Luzes, Chico Pires, Cícero
Farias, Emanuel Dantas, Grupo
Repente, Henrique Souza, Irmão
e Tonho Baixinho, Jimmy e Ne-
nen, Joésia Ramos, Luiz Eduardo

Aracaju
Oliva, Lula Ribeiro, Mingo San-
tana, Neu Fontes, Paulo Lobo,
Waldefrê e Nery etc.
Na primeira edição do Novo
Canto, foram ainda premiados:
Chico Queiroga (segundo colo-
Antonio Passos cado), Pantera (terceiro lugar) e
Maria Quaranta Lobão (quarta
colocada). Nas edições seguin-
tes despontaram Antônio Rogé-
rio, Bandauê, Gena Carla, Geor-
ge Martins,  Gilberto Nunes,  Jo-
albo,  Marco Aurélio,  Marcos
Odara,  Nino Karvan,  Rivando
Góis,  Sena, Sergival,  Tânia Se-

52 | Acervo de Pascoal
Cumbuca Junho 2014 Maynard Junho 2014 Cumbuca | 53
vla, Zelda Leite e outros, além viagem. A canção vencedora foi bate não se esgotou. A polêmica duplo que seria lançado com as esforço sergipano, buscando re- Contudo, evidencia-se, na
das primeiras bandas de rock dos composta por Rubens Lisboa. Na em torno do resultado temperou quatro primeiras. petir em solo nativo o momento minha avaliação, um contraste
anos 80. Alguns desses continu- UFS, o DCE realizou outro festi- muitos papos posteriores. Porém, como se diz, o “se” não mágico vivenciado pela música entre como são percebidos, re-
am em plena atividade musical. val cuja sigla era FEMUFS. Uma história que circulou faz história. Em Sergipe, comen- popular brasileira nos grandes trospectivamente, os festivais na-
Além de ter sido um ninho, o Entre esses festivais, havia meio clandestinamente naque- ta-se que alguns jurados, cujas festivais patrocinados pelas emis- cionais de música das décadas de
Novo Canto repetiu, ainda, um pontes e é claro que eu posso ter les dias apimentou ainda mais identidades nunca me interessei soras de TV Excelsior, Record e 60 e 70, despertando grande in-
dos rituais mais simbólicos dos trocado algumas personagens de as discordâncias. Vazou que, ao em esmiuçar, teriam Globo, nas décadas de 60 e 70. teresse e o silêncio acerca dos des-
grandes festivais nacionais da dé- lugar ou esquecido nomes tão final da contagem das notas, as argumentado que a O contexto era outro, mas a re- cendentes locais que alcançaram
cada de 60: o batismo pela vaia. relevantes quanto os que apare- canções “Canto à Esperança” alização de um festival local pela a década de 80. Penso que aque-
Realizado paralelamente à cem citados. Desculpem-me se e “Fim de Primavera” ficaram emissora de TV líder de audiên- les devam ser tão relevantes para
série Novo Canto, lembro, com cometi equívocos durante a ga- empatadas, em primeiro lu- Após o ano de 1984, cia, com transmissão ao vivo das a cultura brasileira quanto seriam
destaque, do Fest-Livre. Para lá rimpagem da memória, não foi gar, com a mesma pontuação. dois movimentos que eliminatórias e da grande final, os locais para a cultura sergipana.
correram os novos universitários por mal. Voltemos agora à final A importância dada na época, gerou um clima intenso de “ago- Contudo, enquanto proliferam
já circulavam pelos
que não podiam mais partici- do 1º Novo Canto e ao batismo confirmada nos debates de mesa ra vai” na música sergipana – isso estudos acadêmicos, livres re-
par do estudantil Novo Canto e pela vaia. de bar, ao resultado do 1º Novo bastidores da cena aconteceu em 1981. Não lembro flexões e documentários sobre a
quem mais topasse, pois (salvo Quando o resultado final Canto indicam que havia uma musical em Aracaju se a TV Sergipe também transmi- cena nacional, continuamos qua-
engano) não havia começou a ser lido nos microfones expectativa, entre quem se in- subiram ao palco tiu a segunda e última edição do se virgens em Sergipe. Que fique
critério de escola- de um Auditório Lourival teressava pela música popular principal: uma nova FSMPB, em 82. Disco, em vinil, aqui uma semente e um incenti-
Baptista completamente lotado, feita em Sergipe, de que os fes- safra de cantores só teve o LP do 1º FSMPB. Não vo aos estudantes universitários,
com todos os corredores cobertos tivais ainda fossem, em 1984, o alcancei festivais anteriores, em- aos historiadores e aos novos do-
vindos da noite e as
As letras de canções de gente sentada ou de pé, eu palco renovador e propulsor da bora já tenha ouvido que houve. cumentaristas.
bandas de rock dos
retratando a paisagem estava do lado de fora. Ao ser canção popular. Aquela expecta- O primeiro Novo Canto, to- Voltemos agora ao Brasil de
divulgado o segundo lugar para tiva revela o eco local, passadas anos 80. cado pelo ímpeto do agitador 1984. O país vivenciava um len-
social vinham ganhando
“Fim de Primavera”, de Chico quase duas décadas, do impacto cultural Jorge Lins e realizado to e doloroso definhamento da
relevância destacada no
Queiroga, a campeã popular causado pelos grandes festivais pela Subsecretaria de Cultura e Ditadura Militar. Como jovem
Brasil desde os festivais do festival, após as premiações nacionais de música. letra de “Canto à Esperança” era Arte da Secretaria de Estado da cidadão, acompanhei, por um
da década de 60. de “Samba da Utopia”, em Naquele 1º Novo Canto, o a melhor do festival. As letras de Educação e Cultura, foi transmi- telão instalado na Praça Fausto
quarto, e “Lume”, em terceiro, a empate poderia ter sido confir- canções retratando a paisagem tido apenas por uma emissora de Cardoso, ao vivo, a derrota da
insatisfação pipocou na plateia. mado, repetindo aqui a hábil so- social vinham ganhando relevân- rádio, a Liberdade AM, sob o co- proposta de emenda constitucio-
ridade. No Fest-Livre, vi e ouvi As vaias passaram a ser intensas lução encontrada para a final do cia destacada no Brasil desde os mando do prestigiado apresenta- nal, apresentada pelo deputado
pela primeira vez Marta Mari e e continuadas com o anúncio da Festival nacional da TV Record festivais da década de 60. Talvez, dor, Chicão. Se o início da déca- Dante de Oliveira, que propunha
Del Alencar. Acho que foi tam- vencedora: “Canto à Esperança”. de 1966, quando “Disparada” e especulo, para parte importante da de 80 já era um tempo tardio o restabelecimento das eleições
bém onde conheci Kléber Melo, Tive duas grandes dificulda- “A Banda” dividiram o primeiro da comissão julgadora, “Canto à para o protagonismo dos festivais diretas para presidente. Para que
Dirceu Passos e Beto, Gilton des naquela noite. A primeira foi prêmio. Brincadeira! No Festi- Esperança” tenha dito mais sobre no desdobramento da linha evo- os mais jovens possam estimar, o
Lobo. Rubens Lisboa participava atravessar a plateia – pois eu esta- val da Record de 1966 a deci- o Brasil social e político de 1984, lutiva da música popular brasilei- Brasil de 1984 manifestou-se nas
da produção, já demonstrando a va do lado de fora, na entrada do são pelo empate veio legitimar tornando-se, assim, merecedora ra, tínhamos aqui a esperança de ruas de um modo semelhante ao
generosidade, a determinação e o auditório – e voltar ao palco. A uma divisão já existente entre o do primeiro prêmio. que aquele modelo de espetácu- que ocorreu coletivamente em
brilho confirmados pelo artista. segunda foi tocar a canção, can- público. No 1º Novo Canto, se Com a afirmação que encer- lo ainda fosse um meio bastante junho de 2013.
Jorge Lins também empreendeu tada pela mineira Julie, sob as su- fosse para confirmar a expressão ra o parágrafo anterior, insinuo viável para a explosão da nossa A campanha por “Diretas Já”
um badalado festival nas areias de focantes vaias. Claro que alguém da preferência popular “Fim de ainda que aquele Novo Canto música, o que, em âmbito local, estava nas ruas temperando o
Atalaia, que acabou funcionando aplaudiu e vibrou, mas o grupo Primavera”, de Chico Queiroga, de 1984 e já os dois festivais da ainda revelou alguma validade. clima político e social que var-
como um segundo estágio, pois dos que aprovaram a decisão do seria a campeã, e “Canto à Espe- MPB, esses promovidos pela TV Por isso, entre nós, os festivais de ria o país. Foi naquele cenário
predominaram marinheiros do júri era nitidamente menor que rança” poderia dar-se por satisfei- Sergipe, em 1981 e 1982, repre- música dos anos 80 continuaram que surgiu “Canto à Esperan-
palco que não eram de primeira a turma dos discordantes. O de- ta se viesse a entrar no compacto sentam, em alguma medida, um oferecendo sabor intenso. ça”, uma canção que diz: “tudo

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está meio ruim, sufocado, mas
tenhamos esperança porque a
liberdade e a prosperidade estão
batendo à nossa porta”. Curioso
é que “Fim de Primavera” can-
ta coisas semelhantes e o “Sam-
ba da Utopia” também. Porém,
entre essas e as demais canções,
“Canto à Esperança” foi a que
mais agradou ao júri. Já o pú-
blico em geral foi mais tocado
pela expressão musical e poética
de “Fim de Primavera”. Daí de-
correu o meu batismo pela vaia.
Não recordo de vaia proporcio-
nal nos festivais anteriores, de
81 e 82, mas, avalio que é bem
diferente ouvir uma vaia estando
entre o público e sendo o vaiado.
Cabe contestação. É uma ques-
tão de ponto de ouvido.
Após o ano de 1984, dois mo-
vimentos que já circulavam pelos
bastidores da cena musical, em
Aracaju, subiram ao palco prin-
cipal: uma nova safra de cantores
vindos da noite e as bandas de
rock dos anos 80. Saindo da mu-
vuca apelidada de Baixo Barão –
fileiras de bares dos dois lados da
Av. Barão de Maruim, no trecho
entre as ruas Santa Luzia e Ita-
baiana, e mais alguns desgarrados
adjacentes, que fechavam as pis-
tas de gente nas noites das quin-
tas-feiras –, fomos ouvir os shows
de interpretação de Amorosa,
Pantera, Jorge Ducci e outros,
nos bares da Atalaia. Aquele foi
ainda o tempo do boom do rock
nacional dos anos 80, também
em Sergipe. Aqui começa uma
nova história ou um novo pedaço
da mesma história.

56 | Cumbuca Junho 2014


Rita
Peixe
uma Sereia em
nossas vidas
Vieira Neto

Ilustração: José Clécio


A legendária Rita Peixe é um
patrimônio imensurável de
Sergipe, uma mulher extraor-
nhos, já havia lido A Divina Co-
média, Dom Quixote, Os Lusíadas
e outros clássicos da literatuta
Vivemos um tempo de expan-
são do sensorial. Dos sentidos,
emoções, intuições, do renasci-
dinária que tornou-se célebre mundial. De temperamento for- mento de zonas antes esmagadas
mercê do seu talento incomum te, característica típica dos vence- de nosso psiquismo, pelo império
para a natação, assim como o dores, desde cedo, a menina-mo- absolutista da razão.
seu irmão Zé Peixe, além, é claro ça deixou bem claro o seu desejo Essa expansão ainda vive mo-
de ter sido, mesmo inconscien- de independência, sempre mil mentos desordenados, é verdade.
temente, pioneira do feminis- anos-luz à frente do seu tempo. Breve chegará o tempo em que os
mo em nossa Aldeia. Uma linda Uma predestinada. mecanismos puramente racionais
adolescente que ousou desafiar Rita Peixe foi – e ainda conti- não mais serão fiscais severos da
o falso puritanismo de uma so- nua sendo – um marco da nova emoção, mas elementos ordena-
ciedade que, em sua época (idos mulher. Como pioneira, pagou does de sua energia vital.
de 1950/1960), se “escandali- o preço dos exageros, choques, Rita representava a anti-hipo-
zava” ao ver uma mulher prati- sustos e espantos. Sua marca de crisia. Seus anjos e demônios (os
cando um esporte considerado, alegria, o comportamento de nossos) não brincavam de escon-
de forma equivocada, uma ex- menina rebelde, a ânsia indefi- de-esconde, nem de cabra-cega,
clusividade dos homens: a nata- nida representavam, cruamen- briancavam de “manja”. O afã era
ção. Precisava ver com que garra te, a situação da mulher que vai o de buscá-los e encontrá-los para
Rita Peixe conseguia atravessar, deixando a tradicional atitude de com eles conviver em alegria.
a nado, um rio Sergipe de águas dependência e dissimulação, para O homem comum sabe o
claras, até então longe de se uma ativa participação na vida. quanto engole para poder apa-
transformar em depositário de Sem necessitar de teorias ou rentar. Por isso sabe (e teme) a
toda gama de dejetos pútridos e interlocuções, Rita seguia o que força residente nas pessoas que se
anuseantes, em vias de se trans- a emoção lhe determinava, mos- assumem integrais, assim como a
formar no maior esgoto a céu trando como não é apenas da nossa Rita Peixe.
aberto de Aracaju. Com ágeis razão fria que as pessoas podem Sensação e sinceridade na
braçadas e movimentos sincro- viver. A emoção lhe dizia que, brincadeira de “manja” da exis-
nizados, bem ao estilo da atriz numa cidade cheia de sol, a ale- tência, ela que, por se assumir,
Esther Williams, ela alcançava, gria deve ser a norma entre as assumia também a criança que
em poucos minutos, as areias da pessoas. Que algo há de intenso era – eis Rita Peixe! Por isso, ao
praia da Atalaia Nova, no mu- no instante que passa, que os for- nadar livremente, tornava co-
nicípio vizinho, a então paradi- malismos exagerados são expres- nhecido de todos, sem pudores
síaca Barra dos Coqueiros, que, sões de recalques muito antigos menores, o seu corpo, e seu belo
aos poucos, está sendo descarac- da humanidade. E, mais adiante, corpo de mulher, templo de sua Rita Peixe
terizada pela fome insaciável da ela iria entender que só a mater- vida, corpo ao qual não associava
especulação imobiliária. nidade e o amor aos filhos com- sentimentos de culpa oriundos do
Mas Rita não se dedicava tão pletaria a mulher em sua existên- “pecado original” perdido no in-
somente à natação. Aos 14 ani- cia plural e singular. consciente coletivo dos povos.

Foto: Humberto Aragão

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O DOMINGO
ERA ASSIM... Depois da missa, o café com cuscuz, legítimo de
Braga, feito em cuscuzeiro de barro, coberto com
As moças usavam uma espécie de camisa de
força que deixava apenas os membros livres, assim
um pano escuro e furado. Conversa na hora da re- mesmo nem tão livres. Quando surgiu o maiô de
Petrônio Gomes feição era mais frequente entre os adultos. Qual- duas peças, foi um acontecimento que estremeceu
quer pergunta dos meninos a respeito de qualquer a cidade, pois ninguém seria capaz de imaginar a
assunto era sempre rebatida na hora, principalmen- possibilidade de tamanho atrevimento.
te quando eles não sabiam responder. A gente apro- Depois da praia, almoço. Domingo era dia de
veitava para comer enquanto eles estavam falando. galinha, uma galinha só. Era o único momento em
Após o café, o banho de mar na Praia Formo- que a paz do lar parecia desaparecer, sendo uma fa-

E ra-nos facultada a escolha entre a missa das sete


ou a das nove horas da manhã, na Catedral. Os
mais preguiçosos preferiam esta última, pois vem de
sa, um recanto que haveria, mais tarde, de perder
a formosura, quando se tornou passagem para a
“zona sul”. Essa praia oferecia a vantagem do sim-
mília numerosa. Todos nós gostávamos de coração,
e galinha só tinha um. Todos nós gostávamos de
moela, mas a galinha só tinha um estômago. Espe-
longe o mau costume de se adiar a “obrigação”. Se ples acesso, pois os seus frequentadores surgiam de rávamos o mais precioso: o peito, a titela. Mas era
tínhamos o direito de escolher a hora da missa, não todos os lados, a pé, escoltando bandos de crianças. costume reservar a titela para o jantar, quando ela
podíamos, entretanto, perdê-la, nem pensar! Seria Quando a maré estava na vazante, e se houvesse o seria servida assada.
o mesmo que estragar o domingo inteiro, atraindo azar de acontecer isto no domingo, a Praia Formosa À tarde, cinema. Sessão das quatro no Guarani,
sobre nós os olhares carregados dos pais, que não parecia um imenso campo de concentração de gen- com direito a seriado depois do filme. Picolé no
estavam “criando hereges”. te seminua e triste. corredor do cinema, xingamentos dos meninos
A Santa Missa era celebrada em Latim e o ofi- Os mais afortunados, todavia, seguiam para a que estavam na “geral”, um poleiro de madeira que
ciante a rezava de costas para os fiéis, que não en- Atalaia Velha, a bordo de seus raros automóveis ou havia nos fundos da sala de projeção, quase tocando
tendiam patavina do que ele dizia. O padre era au- compondo a lotação de “marinetes” fretadas para no teto, quente como o diabo. Eles estavam
xiliado por um acólito, ou “coroinha”, geralmente este fim. Em qualquer dos casos, era sempre uma xingando quem podia chupar picolé. Sempre
um garoto levado da breca nos dias úteis. Como aventura tomar banho no “oceano”. haverá descontentes no mundo.
não se entendia a reza do padre, formavam-se uns Os rapazes usavam uns calções de banho pareci- Terminada a “janta”, uma volta pela praça Faus-
grupinhos de rapazes fora da igreja, para os comen- dos com as “bermudas” de hoje, com a diferença de to Cardoso, ouvindo a banda da Polícia Militar,
tários sobre assuntos sempre estranhos às recomen- que não tinham bolsos. Ninguém ficava de peito nu vestindo o melhor terno de Panamá, em busca de
dações da Caridade. Esses grupinhos renitentes sa- na praia, de um lado para outro. Era de praxe uma olhares enamorados, mas já com o pensamento nos
biam quando deviam retornar ao recinto do templo camiseta, que a gente pedia para alguém guardar deveres da segunda-feira.
nos momentos mais importantes. quando dava vontade de entrar na água. Domingo, em Aracaju, era assim.

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NOVIDADES, MEXERICOS
E ESCÂNDALOS NAS
RETRETAS DOS ANOS
DOURADOS
Tereza Cristina Cerqueira da Graça

Nas noites de domingo a invariabilidade


Da banda no coreto em estos de harmonia
Ao longo da calçada, a vida, a mocidade
Distraidamente, em grupos, conversava e ria!
(Jacinto Figueiredo. Motivos de Aracaju, p. 69.)

Por mais de um século, a Retreta de Aracaju


estabeleceu-se no trecho do Palácio do Governo
onde, aos domingos, as bandas começavam a exe-
cutar suas marchinhas, boleros e outros ritmos por
volta das 17 horas. Rapazes e moças por lá estavam
bem antes daquela hora, a circularem entre a Praça
Olympio Campos e o Parque Teófilo Dantas. Cer-
tamente, já haviam comprado balas Imperial, chi-
cletes Ping Pong uma revista na Bomboniere Chic,
tomado um sorvete na Primavera ou na Yara ou
saboreado o cachorro-quente do Seu João com o
Ilustrações: Felipe Ferreira refrigerante Jade.

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As sessões das 19 horas do suntuoso Cine Pa- e amigos, esmerando-se para mostrar aos sogros, cência pública”. “Deus me livre andar sozinha num
lace competiam com a Missa da Catedral, desvir- que os acompanha logo atrás, suas ‘boas relações carro com um homem!”, jura a moça de família.
tuando tradicionais famílias católicas. Saídos da de amizade’. Entre olhares admirados e curiosos, Causa sensação três garotas em seus trajes do
diversão ou da devoção, elegantes senhoras, dis- a moça desfila seu vestido godê duplo estampado Fã-Clube de Emilinha Borba. Uma delas exibe a
tintos cavalheiros, rapazes e moças davam início de organdi com forro em moiré; cinto e sapatos, faixa de Rainha. São bonitas e têm elegância e fres-
ao footing pela Rua João Pessoa, a apreciarem as do mesmo tecido, fabricados pelo conhecido cor! Os rapazes as olham com interesse. Um gru-
vitrines das lojas. Entretanto, nenhum dos objetos sapateiro Juvenal. Sua diminuta cintura causa pinho de dondocas destila seus venenos em risos
expostos entre flores de crepom, pétalas naturais, inveja a algumas jovens que apostam que aquela incontidos: “Que presepada! Só um pobretão vai
pisca-piscas cintilantes ou caninhos coloridos de exibida está usando cinta Vespa. “Esse vestido já querer essas suburbanas! Sentiram o cheiro forte
neon conseguiam diminuir a ansiedade dos jovens está demodê!”, observa uma invejosa. de Promesa?!”, pergunta às amigas a dondoquinha
em exibirem-se na Retreta. Ali encontrariam ami- As moças direitas evitam as moças faladas. Com que cheira a Five O’ Clock.
gos, saberiam dos últimos “ti-ti-tis” e poderiam risinhos indiscretos apontam aquela que gazeia Em 1953, alguns jovens ainda vinham para a Re-
arrumar um broto ou um tipão. Acompanhemos aula para ir com o namorado de Cadillac à praia treta de bonde. Mas, a maioria tomava as marinetes,
essa moçada. de Atalaia. O que se andavam fazendo no balneário as velhas chocolateiras, “carros velhos, estragados,
O estudante de Direito, com seu terno em despertava a indignação dos conservadores. Segun- sem freios e com barra de direção amarrada por ara-
tropical inglês, comprado na Manufatura Curvelo, do um jornalista, a Atalaia era o local onde “gente mes” (O Nordeste, 19 Jan. 1952). As radionovelas
estufa o peito e segura firme a mão da bela granfina e rebelde” faz seus escândalos sexuais, o eram assunto preferido entre as jovens suburbanas.
namorada, eleita Miss Centenário. Ele mesmo que “está levando a bela e pacata praia a marchar O Direito de Nascer, um dramalhão argentino, adap-
mobilizara seus amigos e parentes para encher-lhe aceleradamente para o nudismo”, podendo chegar a tado por Eurico Silva, foi fenômeno de audiência
devotos através do rádio. Cumprimenta colegas “ganhar de Copacabana, símbolo brasileiro da inde- no Brasil. O sofrimento de Isabel Cristina, a jovem

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Praça Fausto Cardoso e o Palácio
Ponte do Imperador (década de 1950) do Governo (década de 1960) Rua João Pessoa (década de 1960)

apaixonada pelo médico casado, Albertinho Limon- discutindo assuntos importantes: os eventos da Ar- diz que esse último era “uma baiuca, uma espelun-
ta, consterna as meninas pobres que ali na Retreta cádia, a organização de Embaixadas, a inserção do ca, na qual se entra sem a certeza de se sair vivo”
esperam encontrar seu rico príncipe encantado. Grêmio Estudantil Clodomir Silva nos protestos (Cabral, 1955, p. 74). “O que é que tem? Eles são
Na companhia de um conhecido líder estudan- pela meia passagem e meia-entrada nos cinemas. homens, tem que conhecer mulher antes de casar!”,
til, três rapazes de calças pretas apertadas e blusões Portam-se como sérios intelectuais preocupados responde uma amiga à outra, que ouvira lances da
de couro aparecem na Retreta. São seus primos vin- com os destinos da massa alienada, inclusive dos conversa dos rapazes libidinosos.
dos do Rio de Janeiro. Aos olhares desconfiados e que só pensam em flertar na Retreta! “Não sei o Nesta bela noite de Retreta, passeia um estreante
reprovadores, os ‘transviados’ respondem com bafo- que tanto discutem esses bobalhões! Uma cambada cantor de mãos dadas com a sua linda namorada
radas espessas de cigarro Continental e gestos displi- de jilós que disfarça o medo de mulher com essas Dorinha. O rapazola, vestido de calça vermelha,
centes. A moçada abre alas para o quarteto passar, conversas de literatura e de protestos!”, diz o belo camiseta amarela, blusão de couro e botas pretas,
resguardando-se de um possível contato físico. A rapazola de olhos azuis e cabelo preto de pimpão havia sido muito aplaudido no programa Matinal
jovem Luíza não consegue disfarçar seu encanta- armado de Gumex, o Dom Juan da Retreta, admi- dos Brotos, cantando o sucesso de Ângela Maria,
mento. É amiga do grupo de playboys do Iate Clu- rado pelos chapas e cobiçado em segredo pelas mo- Rua sem Sol. Na plateia, as “meninas de vida aira-
be que ouve Bill Harley e participa de corridas de cinhas direitas. da”, suas vizinhas da Rua Simão Dias, levaram flo-
carros. Vai comentar a semelhança de um deles com Entre os rapazes mais velhos, as visitas às casas res para o novo ídolo (Vieira Neto, 2009, p. 76).
o bonitão Marlon Brando, no filme O Selvagem, de perdição são comentadas em voz baixa para não A jovem prostituta Dorinha comandava o grupo.
quando observa que as amigas falam do assassinato ferir os ouvidos das moças de família. Já não ha- Agora, Dorinha desfila com o garoto pela Retreta.
de Aída Cury por delinquentes viciados. Cala-se! via mais os luxuosos cassinos 5 de Julho e Atlântico, Alguém observa que aquela não é uma das meninas
Há um pequeno grupo de jovens estudantes do com orquestras, shows artísticos e mulheres bem decentes que frequentam a passarela. Apontam, fa-
Atheneu que costuma se reunir no mesmo lugar. vestidas. Restavam algumas poucas casas, como o lam mal, afastam-se. É Vieira Neto, que não dá bo-
Esses jovens quase não circulam e estão sempre Alabama, o Miramar e o Boa Vista. Mário Cabral las... Abraça sua ninfa e prossegue retretando...

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A presença
de Narciso
nas águas
do Facebook
Juliana Almeida

Q uem  nunca ouviu falar no mito de Narciso e Eco? O caminho percorrido desde a cultura
grega antiga até o século XXI trouxe uma atualização quase que orgânica desse mito,
seja em aspectos sociais ou como parafrenias. A trágica história do belo homem, Narciso
(tema narkhé = torpor, como em narcótico para nós), é uma importante representação da
vaidade humana. Admirado com sua própria imagem em um lago, o jovem pensa tratar-se
de algum espírito das águas. Não se contendo, baixa o rosto para beijar o seu reflexo e mer-
gulha os braços para abraçar-se, mas o contato com a água faz sua imagem sumir e ele se
sente desprezado. Dessa forma, Narciso ficou dias a admirar sua própria imagem na fonte.
Sem comer ou beber seu corpo definha. A beleza e o vigor deixaram-no e, assim, Narciso
morreu. A história do mito se completa com a sombra de Narciso atravessando o rio Estige,
em direção ao Hades, e ela ainda debruça-se sobre suas águas para contemplar sua figura.

Ilustação José Clécio

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O mito de Narciso influen- intimista como parâmetro de mente, estratégias para vender co. Não só na timeline é possível parecerem mais magros, con- mentam suas fotos. Isso reflete
ciou muitos artistas ao longo dos significação da realidade. padrões de satisfação. O gran- fazer esse tipo de constatação, tra 2% das mulheres. Portanto, uma necessidade de atenção, ou
séculos. Nas artes plásticas, há Os ‘narcisos’ contemporâneos de sociólogo e filósofo francês, mas também nas fanpages que se o  braggie  reforça o consumo e o seja, como uma espécie de ‘vitri-
pinturas de Caravaggio, Nicolas encontraram outras águas para Jean Baudrillard, traz uma in- proliferam com um número bas- exibicionismo como forma de ne’, o Facebook também é visto
Poussin, Turner, Salvador Dalí navegar. O reflexo da imagem no teressantíssima discussão sobre tante significativo de seguidores. distinção social. Ainda segundo como um espelho de aprovação
e Waterhouse. Na literatura, en- lago deu lugar ao ecrã dos com- o mito da felicidade e igualdade Páginas como: Fina e Rica; Bo- a pesquisa as poses mais comuns e popularidade.
contram-se várias passagens na putadores, tablets, smartphones na sociedade contemporânea, nita é você, EU SOU LINDA; do braggie  são: praia (43%), com Portanto, no ambiente li-
obra do russo Fiódor Dostoiévski e tudo que possa incorporar a que acaba adquirindo uma ca- Homens gostosos; As + gostosas bebidas (12%) e os beicinhos vre da internet é tolerável dizer
e na a obra do escritor inglês Os- cultura do compartilhamento. racterística particular ao ter que do FACE apresentam milhares para as lentes (3%). aquela verdade que se pensa
car Wilde – o  romance Retrato Grandes sociólogos e historiado- tornar-se mensurável. Dessa for- de ‘curtidas’ e reforçam o este- Esse caráter efêmero da socie- saber, assim como há possibili-
de Dorian Gray seria uma repre- res já chamavam a atenção para o ma, a felicidade e o bem-estar reótipo de homens e mulheres dade contemporânea gera a cha- dade de expressar visões intole-
sentação do homoerotismo re- excesso de exposição da intimida- são dimensionados pelos signos magros, sarados, felizes e, acima mada paixão consumptiva (um rantes; omitir o que se julga ser
tratado no narcisismo.  Os estu- de na vida pública muito antes da e objetos que possam ser vistos. de tudo, bem sucedidos. tipo de paixão que se extingue verdade e criar simulacros de si e
dos psicanalíticos do narcisismo internet, desde o século XVIII, Mesmo sendo uma necessidade O desenvolvimento e popu- em sua própria intensidade) pe- das coisas. Nesse espaço, o nar-
tomaram verdadeiro impulso mas, certamente, a ‘era’ digital individual, a felicidade se funda- larização do Facebook estabe- las coisas, e traz uma força dra- cisismo e o consumo simbólico
com Freud em seu artigo intitu- trouxe uma espécie de contágio menta em propósitos visíveis. leceu um fenômeno de criação mática, já que o desejo é muito se potencializam para aceitação
lado ‘Introdução ao Narcisismo’. viral da necessidade de se tornar O que toda essa discussão de ‘modas’ que potencializam a maior do que o sentimento de grupal ou são refu-
As primeiras observações do ‘pai diferente, se destacar. tem a ver com o Facebook? exploração da imagem na rede. posse. Por exemplo, nosso desejo tados, embora re-
da psicanálise’ procuram iden-  Claro que tudo está ligado à Tudo! Como uma grande vitri- Trata-se de duas formas de tirar de determinada roupa pode ser
tificar a origem do narcisismo sociedade de consumo. O consu- ne, essa rede social – com seus foto para colocar na rede social: ardente, mas alguns dias depois
como um investimento libidinal mo e o narcisismo, que revolu- mais de um bilhão de usuários O  selfie  (um autorretrato onde, de comprá-la e usá-la, ela já não Assim como o
do ego. cionam esferas culturais e com- no mundo – tem com o braço esticado para si, o nos entusiasma tanto, ou seja, a culto ao corpo e o
O sociólogo e historiador portamentais,  devem ser pensa- servido como um usuário consegue tirar sua pró- imaginação é mais forte na ex- desenvolvimento de
americano, Richard Sennett, ob- dos não apenas como um espelho pria foto) e, mais recentemente, pectativa. E assim as relações vão práticas narcísicas, a
servou que o narcisismo social se da vaidade individual, mas como o braggie (fotos postadas na rede se construindo.
O reflexo da imagem sociedade de consumo
potencializa, na medida em que, podem representar mudanças com a finalidade exibicionista É claro que nem todos os
as relações sociais   encorajam o significativas nas relações sociais. no lago deu lugar ao para provocar inveja nos amigos usuários da rede apresentam esse busca, incessantemente,
crescimento da valorização do Isso é um passo importante na ecrã dos computadores, e parentes). comportamento. Estamos falan- estratégias para vender
‘eu’ e anula o senso de contato percepção de como esse espectro tablets, smartphones Para se ter uma ideia da di- do de algo bastante recorrente e padrões de satisfação.
social significativo fora dos seus pode interessar diretamente ao mensão do braggie, foi feita uma de total conhecimento de quem
e tudo que possa
limites. Na sociedade intimista, entendimento das sociabilidades pesquisa no Reino Unido e ve- acessa cotidianamente o Face-
os atores são mais importantes contemporâneas.   incorporar a cultura do rificou-se que cerca de 5,4 mi- book, por exemplo. Uma pes- conhecidos, como um estilo de
do que as ações, ou seja, o que A possibilidade de ‘ver’ e compartilhamento. lhões de usuários de redes sociais quisa feita por mim com estu- vida contemporâneo. Qualquer
é mais relevante não diz respeito ter ‘visibilidade’ pelas redes so- digitais no país postam esse tipo dantes universitários, para a dis- um pode ser possuído pelo es-
ao que a pessoa fez, mas, como ciais digitais amplia, significa- de foto, sejam elas tiradas em sertação de mestrado, mostrou pírito de Narciso no lago virtual
se sente a respeito do feito. Ele tivamente, comportamentos de reflexo das manifestações nar- viagens, festas ou na intimida- que essa imagem pública me- e tão presente da internet. Mas
ainda destaca que esse narcisis- diferenciação social e de refe- císicas contemporâneas de con- de. Um dado interessante é que diatizada pelo Facebook traz um cuidado! Como bem disse Cae-
mo atua nas relações sociais por- rência. Assim como o culto ao templação física ou intelectual, sete em cada dez usuários da rede retorno de visibilidade. Cerca de tano Veloso, “Narciso acha feio
que há uma cultura privada de corpo e o desenvolvimento de além de reforçar estereótipos de admitiram que manipulam as 48% dos entrevistados disseram o que não é espelho” e há sem-
uma crença no público e que é práticas narcísicas, a sociedade beleza através da publicização fotos antes de postá-las: 5% dos se incomodar quando os amigos pre o risco de se afogar em sua
orientada por um sentimento de consumo busca, incessante- do consumo material e simbóli- homens editam as imagens para do Facebook não curtem ou co- própria vaidade.

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AINDA FAZ
SENTIDO LUTAR
POR UMA?
Ilustrações: José Clécio Hélvio Dória M. Silva*

A ntes de qualquer coisa, o títu-


lo é uma reflexão e não uma
pergunta capciosa para concluir
estou ven-
do, respectivamente:
é um xaréu no Thales Ferraz, um
Hegel e sua
Estética, em seu esfor-
ço para estabelecer uma ciência
seus criadores desde muito cedo,
talvez estejam também impregna-
das na retina de quem as mira, a
tecnicamente. A pergunta agora
poderia se reformular: se não go-
zam de fama mundial, tal qual os
to. Mas nada é mais opressor e
injusto do que esticar o dedão e
apontar na paróquia a ausência
lá no fim, que não. A pergunta sabiá numa laranjeira, um cavali- da arte, um trabalho para gênios, partir dos seus repertórios subje- best sellers globais da pintura con- de vultos locais na arte nacional
fica mais simples assim: será que nho de feira ou um sertanejo reti- como o idealista alemão. Mas vol- tivos. Este é o traço que distingue temporânea, por que, justo estes, ou mundial. De uma tacada só,
quando olho para um peixe de rante de semblante triste? tando aos nossos quatro exemplos os nossos: Leonardo, Fernandes, seriam universais? parece ser a prova mais contun-
Leonardo Alencar, um pássaro A minha impressão é de que acima, o que podemos dizer com Adauto e Joubert, daqueles que Primeiro, estes são exemplos, dente da falta de um conjunto
de José Fernandes, um cavalo de não e de que nem seria necessá- alguma segurança, é que essas pensam fazer arte, mas fazem, há outros sergipanos que pode- simbólico autêntico, que possa
Adauto ou uma face melancólica rio, até porque estabelecer a fron- imagens, embora não estejam ali de fato, artesanato – que não é ríamos apontar, inclusive os que ser gritado para o mundo. Até
de Cristo numa tela com as pince- teira entre o universal e o particu- retratadas, certamente povoaram menor –, mas diferente por ser vieram antes, como capazes de faz algum sentido pensar assim,
ladas nebulosas de Joubert, o que lar, nesse campo, é assunto para a criação porque circundaram os naif, circunscrita, geográfica e comunicar em qualquer contex- mas não dá para confundir uni-

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versalidade com uma espécie de É válido argumentar que para os artistas em sua República, um dos legados arrebatadores do sacrificar gente muito boa jogando surgimento de um virtuose para
valor cultural incorporado a uma uma arte sergipana é possí- tamanha sua aversão à “imitação” catolicismo, mesmo num oci- fora talento e energia de sobra nes- chamar de seu, nem numa arte
comunidade inteira, quase como vel e até necessária, nem tanto do mundo real, muito embora dente secularizado, e vai além, sa discussão que é eminentemente como um “esporte” a ser prati-
uma qualidade genética, que as pela contribuição pretensiosa à fosse ele próprio grande artista, ele enxerga os museus e galerias acadêmica. O debate pragmático cado como num treinamento em
pessoas de determinada raça ou humanidade, o que é até desejá- um escriba inconteste. Hegel, como os novos tem- que parece pacificado é de que é série para produzir uma geração
origem tragam em seu cerne, que vel, mas porque a arte é uma for- mais de dois mil anos depois, plos, Inhotim, talvez melhor lutar por um dinamismo de campeões nas galerias, nos
lhes confira uma genialidade co- ma de também divulgar Sergipe. com todo empenho, maior na produção cultural, a prá- palcos e nas livrarias.
letiva. Conhecimento e reconhe- Aliás, se bem soubesse, o poder sustentou que nada tica artística vista como atividade O que parece que Sergipe pre-
cimento andam juntos e são fun- público, sobretudo o executi- laboral, sem, necessariamente, a cisa é de acordar para o fato, este
Sergipe precisa é
damentais para despontar mun- vo, definiria a produção cultural pretensão de uma genialidade e sim universal, de que arte é arti-
dialmente e dependem de muitos como meta primordial de sua acordar para o fato de originalidade lotéricas. go de primeira necessidade, fonte
Uma arte sergipana
vetores além da obra. Mas se não estratégia auxiliar para projetar que arte é artigo de No fundo, o que está em foco de trabalho para muita gente e
é possível e até
estamos a falar de uma caracte- nossa imagem, isso porque a arte primeira necessidade, é menos a bela arte e seu poder forte instrumento de divulgação
necessária, nem tanto
rística física, geográfica, cultural, que funciona derruba muros ide- fonte de trabalho de emocionar e de trazer à tona e atração turística, mas como
por que um povo, e não outro, ológicos, idiomáticos e adentra pela contribuição o que há de mais guardado do em qualquer atividade, para que
para muita gente e
entendeu tão bem os fatores a com força nos corações e mentes pretensiosa à espírito humano – apenas para aconteça são necessários investi-
forte instrumento de
mais que são fundamentais para mais longínquos. humanidade, o que ficar com uma perspectiva hege- mentos constantes, planificados,
alavancar uma produção cultural Não há um só império, civil, divulgação e atração liana –, e mais um fazer artísti- sem padecer eternamente de uma
é até desejável, mas
que os projete, além-fronteiras e militar e religioso na história que turística. co como necessidade produtiva hierarquia em que sempre perde-
porque a arte é uma
através do tempo? não tenha investido o melhor de de um povo. Nem tudo o que rá atenção frente a graves defici-
Uma explicação possível é a seus recursos e inteligências para forma de também se faz em arte é, necessariamen- ências históricas e sistêmicas em
de que perseguir, obsessivamen- levar os seus valores, até impô- divulgar Sergipe. seja o que mais se pareça com te, arrebatador. A preocupação é setores como educação, saúde
te, a ideia de que toda a arte -los, através de sua arte a outros essa definição. que, talvez, nem tenha que sê-lo e obras, importantíssimos, mas
deve, de alguma forma, univer- povos. Hollywood, hoje, não é Nossas condições objetivas nos para cumprir alguns de seus pa- nem menos, nem mais funda-
salizar o simbolismo local é um menos que uma arma poderosa está mais impregnado do espíri- empurram para não esperar con- péis primordiais. Nem investir mentais que uma arte autêntica e
atalho perigoso, e não é raro em dos americanos e até dos costu- to absoluto do que a bela arte, e senso nesse campo e não dá para tempo e dinheiro no garimpo, produtiva que encante a vida, a
nome disso se replicar velhas fór- mes ocidentais. Nenhuma novi- Allain de Botton, em seu Religião se dar ao luxo de, nesse ínterim, que aguarda de dedos cruzados o nossa vida.
mulas, com novas caras, mas re- dade, propaganda e arte sempre para Ateus, vê ainda hoje na arte, * Hévio Dória Maciel faleceu antes da publicação deste artigo.
petindo mecanismos manjados, tiveram uma ligação umbilical,
fadigados, com uma roupagem seja quando estiveram empenha-
up to date. De outra parte, será das em edificar poder, seja quan-
que aos cajus, caranguejos ou sa- do, pelos seus engajamentos, se
ruês, tão nossos, bastariam uma esforçaram por desalojar.
serigrafia pop de Andy Warhol A tentativa, aqui, é demons-
ou um traço nova-iorquino de trar que nenhuma destas dis-
Basquiat para tornarem-se, au- cussões é recente, muito menos
tomaticamente, universais? Du- quaisquer destes pontos de vista
vido. É preciso mais que isso. foram refutados objetivamente,
Os caminhos para a difusão da pior, não parece que essa ampla
produção artística de uma gera- confrontação tenha prazo para se
ção vão muito além, nem falo de esgotar. O Platão crítico ferrenho
uma linguagem específica, mas da arte, não “de” arte, que fique
da produção em seu conjunto. bem claro, sequer achava lugar

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