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A HISTóRIA DA PROPRIEDADE DA TERRA NO BRASIL (*)

Fania Fridman (**)


Carlos Alexandre Fiaux Ramos (***)

o tema proprledade fundlárla é fundamental para a


compreensão do uso do solo e do papel desempenhada pelas prá-
ticas normativas de organlzacão do território. Este texto
procura descrever a evolucão histórica da propriedade do solo
através do levantamento da leglSlacão concernente e de sua
contrapartida na conformacão e gestão do espaco, através do
estudo de caso da cidade do Rio de Janeiro

Brasil Colonial - Sesmarias

As terras no 8rasll desde antes de sua descoberta


Já pertenciam a Portugal, através do Tratado de Tordesilhas
de 1494 A partir de 1500, passaram à Coroa Portuguesa, sob a
Jurlsdlcão eSPlrltual da Ordem de Crlsto(1)

o regime Jurídico aplicado às terras conquIstadas


foi o sistema de sesmarias. atraves da lei de 1375 de D. Fer-
nando, o Formoso. rei de Portugal. para ImpedIr que as terras
contInuassem Incultas em um período de fome e misérla(2) As
sesmarIas eram títulos domlnlais. contratos enfitêutICOS,
feudaIs, que previam o pagamento da sexta parte das rendas.
ou diZimo. à Ordem de CrIsto. lStO é, ao Rel.

No 8rasll. em contraste com o sIstema português, as


sesmarIas foram concedIdas com dlrelto vitalíCIO e hereditá-
rio. Era, portanto, uma propriedade plena, com dízimo pagá-
"el à Ordem de Cnsto, sem caráter feudal (JunqUelra, 1978> ..
Os dízlmos foram Instaurados por Martlm Afonso de Souza em
1532 e perduraram até Julho de 1822 com a suspensão das ses-
.arias.

I Este texto, original.ente apresentado no Se.lnário de História Urbana, prolOYldo pela AHPUR f pelo
Hestrado d! Arquitetura da UFBa. e. novelbro de 1990. e. Salvador, Bahia. foi !xti<lído da pes~lsa
"&rarnoesPropnetános Fundianos di Cidade do Rio de JaneHo", realizada no IPPUR, COI r€ílfrsas 4!0
CNPq.
•• Professora do IPPUR/UFRJ .
••• ~estrando do IPPUR/UFRJ.

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-
· --,.. ~

D. João 111 (1521-1557) decidiu lmpulsionar a colo-


niza~ão atrav.s da dlstribui~ão de terras. O territ6tio bra-
sllelro foi divldldo em václas parcelas de 90 léguas de costa
e llmite de profundldade até onde atinglsSe ti dominlo da Co-
r8-~ (. ecss•••dlVl:.ão par,::elada deu-se o nome de Capitani-a~.
Eabé, .,-c-"-
_____ aq~. .• ul'!'.a__.~"__pequen~---·dl;
__ _ .•
ressao
. sobre o slstema das caPlta- _
nlas heredltarlas

Esse sl~tema preVla a carta de doa~ão e a carta fo-


ralo Pela carta de doa~ão, o Estado concedla determlnada
por~ão terrltorlal ao donatárlo e ao Governador e especlfica-
va os poderes de que eram lnvestldos. A capitania era trans-
missivel por heran~a sem que pudesse ser vend.ida., allenada ou
parcelada. O Estado tinha, no entanto, o direlto de retomá-
la mediante indenlza~ão ou confisco.

A carta foral assegurava ao capitão-mor, o donatá-


rlO, o direlto de doar sesmarias em nome do soberano, a ex-
plora~ão das mlnas e do pau-brasll e a lmportacão e e~porta-
ção de produtos Possuía também o "senhorlo" (moendas
d'água), engenhos de a~úcar e marlnhas de sal, cUJO acesso
era pago Flcava com 5% da exporta~ão do pau-brasll, metade
da dizlma do pescado. a dízlma dos metals e 05 dlreltos oe
passagem em rlos, portos e "outras águas"

Apesar do slstema das caPltanias procurar reprodu-


Zlr as relações de dependêncla do tlPO feudal, haVla dlferen-
ças fundamentals com o modelo da metrópole Prlmelramente
porque os caPltães eram vlglados por funclonárlos realS e, em
segundo lugar, porque haVla a mercantlllza~ão da vlda econô-
mlca do BraSll. através de Portugal. junto aos grandes cen-
tros ComerClalS europeus Neste sentioo, lncluslve. lncentl-
vava-se malS o estabeleclmento de feltorlas do que de clda-
des.

Cabe acrescentar. também, que a organlzação adml-


nlstratlva dltaoa pelas Ordena~ões Manuellnas (1521) ou pelas
Ordenações FillPlnas (1603) era centrallzadora na medlda em
qué o rel nomeava as autorldades superlores, como o governa-
dor geral. o ouvldor geral e o provedor mor, denotandO uma
lntervenç:ão da Metrópole na aparente e breve autonomlà adml-
nlstratlva e jurídlCa local Neste sentldo, concordamos que
a dlscussão acerca do feudallsmo no Brasll perde alguns de
seus lmportantes argumentos-

Voltamos às sesmarlas Houve três tlPOS de aglome-


rações humanas no Brasil Colônla. a povoação ou povoado, que
era espontânea i a vila, crlada por ato donatárlOj e a cidade.
situada em terras SUjeltas à Ordem de Cristo e de fundacão
real ou papal O menor núcleo da admlnlstração era o munlCl-
P10 CUja sede era a vila A vila e à cldade eram governadas

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por câmaras munlC1PalS eleltas pelos "homens bons" clero.
milicla e nobreza locals (Ft'"ldman,1980)

A competêncla munlclPal abrangla o terrltório. cha-


mado de termo, e nele encontrava-se o rocio. area destlnada
ao uso publico (Albuquerque. 1984) O termo da cldade, flxa-
do pelo Governador Geral, media "selS ljguas para cada lado"
Ap6s sua fixacio era doado em sesmarlas a quem o requeresse
sob as seguintes condlcões resldlr na povoa~ão, não alienar
seu domínlo útil nos prlmelros três anos e pagar o dízlmo à
Ordem de Crlsto

A sesmarla nio era uma institulcio democrática,


pois as exigênClaS onerosas e os mecanlsmos burocrátlCOs im-
postos pressupunham, no malS das vezes, os favores das auto-
ridades locals. Acrescente-se a isso que a distrlbuic:ão de
terras ocorria nos prlmelros anos de funda~ão da· vlla. Se-
gundo Telxeira da Silva (1990), no Rio de Janelro entre 1565
e 1801, foram doadas 996 sesmarlas, sendo 115 nos prlmelros
quatro anos

PeSqU1SamOs os Tombos das Cartas das Sesmarias do


Rio de Janeiro no periodo 1594 e 1595 e percebemos que 44
sesmarlas foram doadas na malorla para "chios para casas"
Em uma petl~ão. do mestre dO a~úcar Fernão de Albuquerque, há
qUelxaS de pobreza e carestla de aluguéis. Entre 1602 e
1605, 41 sesmarlas foram cedidas para "Chãos para casas" e
para lavoura, engenhos, pastos e "águas"-.- As requlsicões lo-
calizavam-se entre a várzea e o Morro da Concelcão, denotando
preferêncla pela planícle, apesar de suas barrelras e pânta-
-nos.

A carta de sesmarla eXlge a medlcão atravjs da bra-


~a craveira "duas varas de medlr por uma, como no Reino se
costuma medlr", como tambjma verlficac:io de que é
devoluta(3) É eXlgldo também o reglstro da Carta de Doac:ão,
num prazo de um ano, nos llvros da Fazenda, sob a autorldade
do Provedor-Mor

A poslcão soclal dos vlrtuals sesmelros, nem sempre


explicltada nas petlcões, era da pequena nobreza. mestres do
a~ucar, olelros, soldados (Cavaleiros ClaCasa d'EI Rey), ou-
tros "homens honrados". mUl tos de sobrenome, "de Sá", aqueles
que qUerlam ingressar na vlda religiosa e necessitavam de pa-
trimônlo, e alguns estrangelrOs, afrlcanos e castelhanos (Mi-
nistjrlo da Justl~a, 1967)

Quando da União Ibjrlca, Felipe 11 manda elaborar


o as Ordena~ões Filiplnas baseadas nas Ordena~ões Manuelinas e
nas Leis Extravagantes de Duarte Nunes de Leão, de 1569, man-
tendo, entretanto, o caráter português da leglSlac:ão, para

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nio melindrar seus s~ditos (Teixeira da Silva, 1990) ,Essas
Ordena~aes, que ficaram em v1gor ·at. o C6d190 Civil de 1917,
portanto, por maIS de trezentos anos. Impunham os mesmos re-
qUISItoS p~ra a doa~ão de sesmarIas a medlção, a confirma~ão
e a culturc.

As Ordena~ões do Relno fixavam os prInciPlOS básl-


cos, genérlcos, cabendo às autorldades locaIS recomendar as
restrIções, o que ocaSlonou um "urban:.smo". de caráter munl-
cIPal, característIca que permanece até hOJe (Mukai, 1988).

Já no século XVII são outorgadas as posturas pela


Câmara MunIcipal do Rio de JaneIro. Em 1617 é feIto o prI-
meiro calçamento urbano da cIdade(4), através de contrlbUI-
~ões dos moradores, dos Jesuítas e do admlnIstrador eclesIás-
tICO Em 1625, a Câmara determlna que os moradores calcem a
testada de suas casas. em toda sua extensão e com largura de
cinco palmos

Com a Restauração Portuguesa, em 1640. são crIados


os Conselhos de Guerra e UltramarIno, que tornam malS efI-
CIente e centrallzador o poder da Coroa na ColônIa. contra-
pondo-se às contestações ao Senado da Câmara e dos Juizes do
povo Estes são SubstItuídOS em 1696 pelos Juízes de fora.
nomeados pelo rel, e trazlam a vara branca de medlção oe ter-
ras Era-lhes atrIbuída também a supervlsão 005 encargos do
alcaIde, oe polICIamento da terra

A partIr de 1690, há a lmposlção do foro anual para


todas as terras. bem como sua conflrmação real e demarcação
O pagamento do foro vaI Inaugurar uma nova forma de aproprIa-
ção do solo - o dominlo útll do bem - que no Brasll é perpé-
tua.

A Ordem Régla de 21 de outubro oe 1710 autorlzou a


Câmara MunlCIPaldo-RlO oe JanelY-O que dlspusesse de uma par-
te oa "marInha" para a defesa da cldade E a Carta Régla de
23 de feverelro de 1713 atrlbul também à Câmara a função de
sesmelro. ou seja, de dlstrlbuldor de terras SUJeltas ao dí-
zimo O mot1vo esta no procedImento da Câmara quanoo da 1n-
vasão francesa, como tambem na necessldade oe atenaer os mo-
radores e suas reclamações, alem da convenlêncla de manter os
logradouros p~blicos, sem doa-los. Entretanto, segundo Alva-
rá de 23 de Julho de 1766. a a1Ienação por aforamento escapa-
va à Jurisdlção da Câmara (Carvalho, 1893)
;
Em um estudo de Orlando Gomes (1978), que levanta .;.
os preceItos anterIOres à Nova Consolldação das LeIS CiVIS de
1899, verificamos lels de 1765, 1776 e 1854. alvarás de 1757,
1766, 1769, 1773. entre outros, onde a enf1teuse somente po-
dia recalr "em terras que não estIvesserr. cultIvadas ou em

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~ .,

terrenos que se destinassem à constru~ão de casas e edifíclOS


de todo o gênero. Os arrendamen~os de terras já cultivadas
ou casas Já construidas. reputavam-se contratos de loca~ão
sem transferêncla de dlrelto real, não se confundindo desse
modo com os aforamentos" (pg. VI-3) Estas recomenda~5es
consubstanciar-se-ão no artlgO 680 do Código Civil.

Pelas Ordens RéglaS de 1731. 1754 e 1792 distin-


guem-se as terras de sesmarlas. as terras devolvldas e os
terrenos reservados às margens dos rlOS. denotando-se uma di-
ferenclàcão en~re o dominlo públlCO e o particular (Mukal.
1988)

No período pombalino. já há uma política urbaniza-


dora. quando da crla~ão da cldade de Vila Bela - antiga caPl-
tal de Mato Grosso. onde está determinada a área da praca
central, o pelourinho, a Igreja, as Casas de Vereanca e Au-
diênclas, a cadela, oficlnas públicas e as casas de moradla
em llnha reta e em ruas largas. Podemos perceber, por essas
lmposlcões, lnfluêncla das Lel-s das Índias. lels que reglam a
funda~ão das cldades espanholas colonlals. onde era lmposto o
prlmado da llnha reta. demonstrando a aSPlra~ão de dominar o
mundo novo (Holanda. 1988 e Mukal, 1988 apud Rels Filho.
1968)

Em 15 de abril de 1785, crlou-se a Intendência Ge-


ral da Polícia da Corte e do Estado do Brasll que possuía,
entre outras atrlbulcões, a de aprovar o arruamento da clda-
de, abrlr estradas. cuidar da conservacão de ruas, pracas e
logradouros públlCOS e zelar pelas fontes e chafarlzes.

Com a chegada da Corte. em 1808. foi estabelecldo o


pagamento da déclma predial urbana - de casa ou qualSqUer ou-
tros lmovels no lltoral ou em locals povoados, no interlor;
da Slza - lmposto de 10% sobre o valor das vendas dos lmóvels
urbanos, da mela-Slza - imposto de 5% sobre a venda de cada
escravo ladlno, como também taxas relatlvas à carne verde, á
aguardente, ao ouro e à prata. ao estanho, ao cobre, ao taba-
co, ao engenho de acúcar, ao sal e às sesmarlas, entre outros
(Instltuto Histórlco e Geográfico Brasilelro, 1922) Pele
Alvará de 22 de Junho de 1808 os sesmelros deverlam pedlr ã
competente conflrmacão à mesa do Desembargo do Paco

Cabe também lembrar o decreto de 21 de malO de 1821


que regulou a desaproprla~ão por utilidade pública, mediante
prévla indeniza~ão, que é um "ensalO" à declsão de Pedro de
Alcântara (futuro D. Pedro I), anterior à Independência, de
extincão do regime de sesmarias, em Julho de 1822.

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cri
nios, para a construcão de estradas, para passagem aos vIzi-
nhos e a retirada de águas desaproveitadas.

Um aspecto lmportante destes textos legals refere-


se à demarcacão e reglstro de posses. As áreas dos lmóveIs
deverlam ser demarcadas e em segulda efetuados os reglstros
dos mesmos A lncumbêncla de fazer a escrituracão era cabida
aos vlgárlos, dai flcar conhecido como "Reglstro do Vlgárlo"

Além dos aspectos Já apontados, merecem ser salien-


tados, alnda, os artlgoS que tratavam das terras reservaoas,
não SUJeltas à alienacão. Os art1gos 77, 78 e 79 referem-se
às terras reservadas para a fundacão de povoacões, onde have-
ria lotes urbanos e ruralS. os lotes urbanos não malores que
dez bracas de frente e cinq~enta de fundos e os ruraIS, com
maior extensão, não excedendo a quatrocentas bracas de frente
"sobre ou tras tantas de fundo" (art. 77). Haver 1a que se re-
servar lotes para fortificacões, cem1tér1os e demaIs servi-
dões públlcas e o restante div1dido entre os povoadores a tí-
tulo de aforamento perpétuo ~ fixacão do foro ser1a atrlbu-
to do Diretor Geral de Terras Públ1cas e o laudÊm1o, em caso
de venda. da quarentena Os recursos provenIentes do foro e
laudêmlo ser1am aplicados em lnfra-estrutura dessas povoacões
(art. 79)

Os lotes urbanos ser1am medidos com frente para as


ruas e pracas, tracados com antecedênc1a, v1sando a regUlarI-
dade e formosura das povoacões (art. 78)

Como podemos perceber, essas normas contrIbuíram


--para a ordenacão da estrutura fundiária e do própr10 espaco
urbano, denotando-se uma idéia de planejamento terrltorlal
E a grande nOVIdade é, sem dúvida alguma, no marco da leI. o
acesso à terra pela compra e/ou aforamento

Ainda com a f~nal1dade de regularlzar a sltuacão


das terras e 1móve1s, em 22 de Janelro de 1855 é edltada a
le1 840 que eX1ge a escr1tura públlca na compra e venda de
imóveiS Pelo artlgo 33, surge a funcão de JUlZ com1ssár10
de terras CUJa atrlbulcão é de med1r e demarcar as sesmarlas
ou concessões do Governador Geral ou Provlnclal

Do ponto de vista munic1pal, é a partir do decreto


2551. de 17 de marco de 1860, que as quotas da déCima urbana
são arbitradas pelos "lanr;adores" O decreto 5843. de 26 de
dezembro de 1874, divide o municíPIO em distritos fiscaIS e
dá aos cobradores além da funr;ão da demarcacão, 5% da renda
cobrada.

Em 1. de setembro de 1876. a Câmara proíbe a cons-


trur;ão de cortlcos entre as prar;as Onze e Pedro IIe as ruas

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Riachuelo e Llvramento. no centro da cidade. A partlr de
1855. -as constru~5es de corti~os deveriam ser aprovadàs pela
Junta de Hlglene Públlca, indlcando uma preocupacão com o
"uso do solo", mUlto alem da saúde.

decreto 7051, de 18 de outubro


r=':",io de 1878, surge
o imposto predial, Substltulndo a déclma urbana e a decima
adlClonal - a de uma légua além da demarca~ão Era deVldo
pelos p~5~~~S da ~ldade e das provinclas com malS de 100 ca-
sas, e p=:c~ imovels das companhlas e socledades anônlmas,
das soclecade~ beneflcentes ou rellglosaS

o valor do lmposto era malor em lmovels com servl-


~os de esgoto e em dobro nos predlos das companhlas e SOCle-
dades beneficentes e religlosas. É lnteressante ressaltar o
processo de valorlza~ão dos lmovels com esta infra-estrutura,
que se inlC:ia em 1870. através da Companhia "Rio de Janelro
City Improvements"(5)

Estavam lsentos os predlos da Coroa, os proprios


naClonalS, as 19rejas. os predlos da Câmara MunlC1Pal, os de
socledades rellglosas e cemlterlOS Da mesma forma, os ter-
renos pertencentes à Corte, ao Estado e a MunlclPalloade ce-
dldos por arrendamentos

o decreto 3140, de 30 de outubro de 1882, refere-se


ao lmposto preclal slngelo, para os lmovels construídOS pelas
socledades an6nlmas para hablta~ãopopular, e ao pagamento de
2% à City Improvements. O estimulo à construcão de moradlas
operarlas f01 malS adlante com a concessão de favores por
parte do Impérlo(6)

Em 1896, com o decreto 278, de 23 de malO, as com-


panhlas de flacão e outras são equlParadas às socledades anô-
nlmas, no que tange aos lncentlvos e favores para habita=ôes
populares

Em janelrO do ano SegUlnte, a decreto 369 afirma o


lmposto predial "nas fregUeSlaS suburbanas onde a edlflca~ão
constltulr explora~ão de renda" e determlna seus valores
Estes calrão pela metade, alnda em 1897, pelo oecreto 504 oe
31 de dezembro, nas fregueslas de Jacarepaguá, Campo Grande,
Santa Cruz, Ilhas dO Governador e Paquetá, Inhauma e Irajá,
que estavam vlvendo seu perioco de ocupacão, auxillada lnclu-
-Slve pelas estradas de ferro

Cabe lncluir o decreto 495, de 23 de dezembro de


1897, que crla o lmposto Sobre os terrenos não ediflcados nas
fregUeSlas urbanas centrals e adjacentes com canallza~ão de
água e gás(7)

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Dessas med1das, extraímos um processo de valoriza-
~ao imoblliária e fundiária na c1dade do Rio de Janeiro onde.
e várlos estudos sobre o tema o apontam. a prática da cons-
tru~ão CiVll ~m moldes caPital1stas faz-se presente.

Brasil Republicano - especula~ão e uso social da terra

A Constitul~ão Republicana, ao instituir o regime


federat1vo, transferiu para os Estados a propriedade das ter-
ras devolutas eXistentes em sua Jurisdi~ão. Consideravam-se
terras devolutas. as terras que não estavam sob domínio par-
ticular. as que não eram utilizadas pelo poder público. as
que não se achavam doadas por sesmarias e aquelas não ocupa-
das por posses.

Cabe aSSinalar o decreto 4596, de 9 de setembro de


1903, da consolida~ão sobre as-desapropria~ões, que aUXilioU
e correspondeu ás reformas urbanas cariocas de Pereira Pas-
sos(8); e o decreto 1029. de 6 de Junho de 1905, que criOU a
contribu1~ão de melhoria de pavimenta~ão - a metade do custo
ficava por conta dOS proprietarios

Em 1917, foi ed1tada a lei 3071. de 1. de Jane1ro.


que inst1tulu o CÓdigO Civil. até hOJe em vigor O Código
si gn1 fiCOU a ordena~ão de normas até entãOc:lJêPªLêas .1: res-
tri~ões ao direito de cOnstrUir Embora o CÓdigo estabele-
cesse a pr1mazlCldo dir-eifo de propriedade. reconhecia e pro-
tegia a posse. Além da posse, estabelecia a aqUiSi~ão da
propriedade por usucaPião, bem como assinalava os conce1tos
de direito de viZinhan~a, direito de constrUir e a desapro-
pri.~ão. que assumem. ainda hOJe, impó~tâ~~ia como instrumen-
tes da polít1ca urbana.

Destaquemos, também. o decreto 13690, de 1919, e o


decreto 14589. de 1920. referentes á Baixada Fluminense Ao
cessionário de saneamento era permitida a revenda das terras
benefiCiadas ou o não-pagamento de taxa de benefiCiO "em lon-
ga zona".

Referido ao problema de saúde pública, o decreto


16300. de 31 de dezembro de 1923. cria a Inspetoria de Higie-
ne Industrial e Prof1ssi0nal, com a fun~ão de licenciar ofi-
cinas e estabelecimentos industriaiS novos desde que estes
não prejudicassem a saúde da popula~ão vizinha.

A Constitui~ão de 1934, no artigo 124, traz o con-


ceito de propriedade como fun~ão social. Esse é um importan-
te marco, na medrda que limita a propriedade em prol do bem

71

-
c:omum.
A lei federal 125, de 31 de dezembro de 1935, apon-
ta normas para a construc:ão de edifíclOS públicos segundo as
posturas mu~:~:oalS. Das antigas preocupac:ões estétlcas,
passamos à ,.::1':lonalidade
social das cldades brasllelras.

Vá~las lels estabeleceram normas que lnfluenclaram


na propriecl'~e de terras urbanas Destacam-se o dec:reto 58,
de 10 de dezembro de 1937, regulamentado pelo decreto 3079,
de 15 de setembro de 1938, e a lel 6766, de 19 de dezembro de
1979 Estes dlplomas tratam dos processos de parcelamento e
uso do solo urbano, devendo ser destacado o lntuito de prote-
c:ão aos adqUlrentes destes loteamentos, bem como a lmposlc:ão
de procedimentos aos vendedores.

Outros aspectos lmportantes são a crescente pro te-


c:ao à posse e a aplicac:ão do princípio do usucaPlao. Como
e~emplo deste último, temos a norma constituclonal vlgente
que o estabelece para aquele possuldor do lmóvel há malS de
Clnc:o anos.

Além 005 textos constltuclonals e da leglSlacão fe-


deral, as várlas normas estaduals e munlC1PalS vêm gradatlva-
mente llmltando a proprledade A concepc:ão do uso sOC:lal da
proprledade e supremaCla 00 lnterese publlCO, em detrlmento
do prlvado, encarregam-se de apontar camlnhos de uso do ter-
rltórlo Mesmo que, na luta que se trava no lnterlor das Cl-
dades segregaooras e segregadas, nem sempre o público seja
vencedor

NOTAS

(1) Instltulcão prlvaca, admlnlstraca por um grão mestre Vl-


taliclo, elelto pelos frelres, e crlada em 1494, orlunda
da Ordem dos Templarlos (Franca) e da Socledace de Jesus
(Espanha), que permaneceu lndependente da Coroa até 1520
FOl a Ordem oe Crlsto que flnanclou a vlagem de Cabral

(2) Em Portugal era um titulo qe minlfundlo para trlgo. ceva-


da e centelO.

(3) No sentldo de não ocupada

(4) Ladelra da Sé e o alto do Morro do Castelo

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(5) O valor era oe 12% do valor locaclonal em prédios com es-


goto e 10% daqueles sem esgoto. O dobro para as compa-
nhlas e socledades beneficentes e religlosas.

(6) Decretos 9560. de 1822; 9509, 9510. 9511. de 1885; 9560,


9754, de 1886; 9859, de 1888, e 10386. de 1889.

(7) Gávea, Lagoa, Glória. Candelária, Santa Rita, São José,


Sant'Anna, Sacramento. Santo Antonlo, Espírlto Santo, São
Cristóvão e Engenho Velho.

(8) O valor máxlmo da desapropriacão e fixado em 15 vezes o


valor locativo.

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