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História das Ideias Políticas

2º Semestre | Ano lectivo 2010/2011

Idade Média

Antropologia política medieval e Teoria do Poder Político

A primeira grande questão que o Professor Doutor António Pedro


Barbas Homem coloca em relação à Idade Média, é a “razão pela
qual os homens consentem no poder?”. A sua resposta assenta no
ponto de partida que Sócrates nos deixou com o estudo da
natureza social do homem. Estudo esse que constatou que o
Homem é um animal social, ou seja apenas consegue viver em
sociedade, e o poder nasce dessa necessidade do homem, que para
viver em sociedade precisa de organizá-la.

Os pressupostos da antropologia política ocidental, vão tornar-se


num dos alicerces das concepções jurídicas e filosóficas do
ocidente. É a natureza do homem que justifica a sociedade, e não
o contrário, no entanto, nenhuma sociedade pode governar-se a
ela própria, tal como nenhum reino, república ou cidade, o que
leva à necessidade de existir alguém que os governe.

Este poder que emerge, não é um poder representativo, pois ele


não representa, é um poder político. Por oposição a este poder, o
despotismo é associado à ideia de um governo sem regras. Esta
refutação, marca então uma ruptura clara com os despotismos
orientais. Estes despotismos são considerados como a negação da
Politica, e o despotismo é então associado a escravos e servos,
enquanto a política representa os homens livres.
O poder é também associado ao pecado, por autores como Santo
Agostinho, a posição agostiana sobre o carácter pecaminoso do
poder, afirma que o poder só surge devido à existência do pecado.
Santo Agostinho afirma que Deus não quis que o homem fosse
dominado pelo homem, o que levou a que o desejo de dominar
aparecesse como intolerável.

No mesmo registo, em relação à necessidade humana da


existência do poder, vários autores relacionaram o poder e o
pecado, autores como S.Agostinho, S. Gregório Magno ou
S.Isidoro. É S. Agostinho que contraria a ideia do poder como
factor de subsistência da sociedade, e encontra como alternativa a
justificação de que é a Justiça a causa da sociedade e que sem ela
não é possível a vida em sociedade, radica a ideia que sem Justiça
os reinos são “quadrilhas de malfeitores”, como transcreve o
senhor Professor António Pedro Barbas Homem no seu livro A
Lei da Liberdade.

O poder segundo esta perspectiva é visto como consequência do


pecado e não como necessidade da natureza humana. S. Paulo
vem ainda acrescentar que a raiz de todo o mal é a cobiça,
relacionando esta afirmação com o poder como fruto do pecado.
A origem do poder segundo S. Paulo , de todo o poder, está em
Deus, mesmo o que é mau. Álvaro Pais, em o Espelho dos Reis,
deixa ainda a referencia «que uma coisa é o poder, outra coisa é o
abuso do poder», no entanto estabelece a ideia que a maldade dos
homens determina a existência do poder, e cabe aos reis ou
príncipes a função de afastar os maus homens das suas províncias

É aqui, nesta concepção da origem do poder como algo


pecaminoso, surge a amizade, ou seja a criação de laços entre os
homens, como remédio para este mal dos homens.
Também a compreensão da dimensão moral da vingança importa
para a limitação do poder político dos governantes. A vingança
era então entendida como uma dimensão moral da acção política
legitima, o triunfo do moralismo surge devido ao trabalho da
literatura penitencialista e da evolução moral e ética da vida em
sociedade. Este triunfo por parte do moralismo ético, vai levar a
condenação da vingança, através de um processo lento, mas que
influenciou toda a Historia politica e jurídica da Humanidade.
Esta condenação da vingança como acto legítimo, resulta também
em conjunto com a obrigação moral da confissão, conseguida
também por trabalho da literatura penitencialista mas também
pela imposição da obrigação de confissão de todos os cristãos.
Este conjunto de factores cumulativos explica a mudança do
modo de lidar com a ira e a vingança, e significa também a
formação em termos jurídicos de um dos princípios e alicerces do
direito e da filosofia jurídica ocidental: o princípio da culpa.

Existe então um combate, como limitação do poder político dos


governantes e dos governados, ao livre exercício das paixões. Isto
é, paixões do rei, com a proibição da ira régia, das paixões dos
homens, com a proibição da vingança privada, das paixões dos
juízes, com a proibição de julgar de acordo com a consciência,
mas sim de acordo com o alegado e o provado. No entanto, tudo
isto foi gradual. Outro factor que contribui para esta mudança
moral ou ética na sociedade medieval, foi também o receio de que
as vontades, carnais, espirituais ou prazenteiras, ou ainda a
própria conduta humana levasse ao pecado, e consequentemente
levasse às penas no inferno e o temor das penas da Lei, aliado ao
desejo de recompensa e amor de Cristo. Alguns autores afirmam
até, que este fenómeno designou a submissão dos homens à moral
e à ética.

Em relação à origem divina do poder, os textos medievais


afirmam que segunda esta teoria, tudo o que existe na sociedade
tem origem em Deus, logo o poder que nasce da necessidade
intrínseca da sociedade, tem também origem em Deus.
Dom Pedro, como refere o Professor Barbas Homem, recorda-nos
as consequências da origem divina do poder dos reis, que é de
extrema importância no exercício desse mesmo poder divino.
Dom Pedro, afirma que este poder impede uma visão legalista do
poder (através das leis), porque pe exercido à imagem de Cristo,
ou seja por uma visão Cristológica. A consciência do príncipe
cristão é inseparável da sua actuação politica. Esta importância
dada a Deus que é visível na actuação politica, é também notória
na invocação constante de Deus em textos legislativos, podendo
estar também na sua influência a ameaça do Juízo final.

A Idade Média é também marcada por um forte Pluralismo


Institucional, que é também um pluralismo de fontes de Direito,
são essas instituições a Igreja, o Rei, a Cúria Régia, as Ordens
Religiosas, as Associações de âmbito Profissional, entre outras
mais, são todas elas fontes de Direito pelo facto de todas serem
produtoras de normas, normas essas que regiam e organizavam a
sociedade medieval. Com crescimento exponencial da Igreja,
existe agora confronto entre o Direito Canónico e o Direito
Romano, por um lado uma fonte temporal, e por outro lado a
fonte de uma poderosa instituição na Idade Média.

Surge também a Res Publica Christiana, que se baseia na ideia da


criação de uma autoridade supra-estatal, superior as unidades
politicas particulares de todos os reinos cristãos, entidade essa, o
Papa. O Papa está acima de todos, é o mais alto representante de
Deus na Terra, e todos lhe prestam vassalagem, a sociedade torna-
se numa sociedade antropomórfica, em que Deus é assemelhado
ao homem, e que este tem algumas das suas características.
Em relação ao Poder Jurisdicional, que era realizado sem
qualquer tipo de verificação, coerência ou de maneira Justa,
também foram feitas algumas alterações. Nas grandes
propriedades os senhores feudais eram os juízes, e nas paróquias
os padres também o eram. Existiu então uma necessidade de
alterar esta situação, ou seja de dispersar a jurisdição real, para
diminuir o excessivo poder e autoridade que os senhores das
grandes terras detinham. Criaram-se então durante a Idade Média,
os Juízes do Rei, estes Juízes de “fora”, eram mandados e
espalhados pelas várias províncias como tentativa de acabar com
os julgamentos arcaicos que eram realizados sem rigor técnico e
jurídico.

O dever de obediência nasce da existência de poder devido à


necessidade da sociedade, este dever surge como uma relação
sinalagmática entre os governantes e governados, o que se dá é o
que se recebe, mesmo existindo autores que consideram que o
dever é sempre para ser cumprido, quando o dever vai contra a
reciprocidade dessa relação sinalagmática, existem institutos que
conseguem defender os estratos sociais mais prejudicados, são
eles o direito de resistência, a acção directa, a legítima defesa e o
estado de necessidade.

De um modo geral, a Idade Média é muito marcado pela religião e


pelo empoderamento da Igreja, factor determinante para a
construção das teorias do poder, para o próprio exercício desse
poder, para a construção da ética e da moral da própria sociedade
medieval, factor esse determinante também para toda a
organização geográfica e politica europeia.

Frederico Pauleta| aluno nº 20799


Turma A | Sub-Turma 6