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CIÊNCIA POLÍTICA

Conceito de Ciência Política

É a partir da Filosofia que surgem diversas disciplinas como o Direito, onde se


inserem vários ramos, sendo um deles o Direito Constitucional. Neste incluía-se o estudo
do fenómeno estadual, ou seja, estudava o Estado.

A partir do século XIX, inicia-se um movimento de separação entre o Direito


Constitucional e a Ciência Política. Alguns pensadores acreditavam que o Direito
Constitucional não abordava todos os temas políticos que a disciplina deveria estudar. O
argumento utilizado era: todas as ciências estudavam o indivíduo e o seu comportamento
- realidade social - esta realidade é muito complexa e cada disciplina abrange-a de formas
diferentes.

Exemplo: o fenómeno do divórcio compreende diversas perspetivas nas várias áreas


em que é estudado como em sociologia, psicologia, direito e economia. Cada uma
destas disciplinas dá o seu contributo para estudar esta realidade no contexto social. A
isto dá-se o nome de fenómeno social total, uma vez que possuiu uma abordagem
holística.

A Ciência Política procura conhecer, descrever, explicar e sistematizar os


fenómenos políticos. É uma disciplina que estuda as regras que presidem no
funcionamento dos sistemas políticos, assim como nas causas, características e
consequências dos fenómenos políticos. Analisa os problemas através da observação dos
factos e a sua explicação através de conceitos.

Em Portugal, esta disciplina emerge mais tarde, visto que foi apenas em 1974 que
se separou da disciplina de Direito Constitucional.

É importante que se faça a distinção entre Direito Constitucional e Ciência política.


De acordo com a primeira, a sociedade política é observada através de normas, sendo
formado por estas e tendo como objeto uma realidade normativa. O Direito Constitucional
visa “o que deve ser”, constituindo, por isso, uma ciência jurídica. A segunda conhece,
descreve, explica e sistematiza os fenómenos políticos, tendo como objeto uma realidade
factual, visa o “ser”, sendo, por esse motivo, uma ciência descritiva. Ambas as disciplinas
estudam as estruturas políticas do Estado.

A disciplina da Ciência Política engloba 3


Estado - é uma forma de organização
perspectivas: o Estado, o poder político e o
política de uma sociedade.
sistema político. O Estado tem 3 elementos
fundamentais: o povo (art.º 4.º CRP), o território (art.º 5.º CRP) e o poder político/
soberania (art.º 3.º CRP). Este engloba a função legislativa (legislativa em si e
constituinte), a função executiva (política e administrativa) e a função judicial (esta não é
tida como uma função política, mas como uma técnica de aplicação do Direito). O poder
político subdivide-se em fenómeno estadual (FE) e fenómeno político (FP). Existem 3
concepções: FE < FP, FE = FP e FE > FP.

FE < FP: Nesta concepção, nem todo o fenómeno estadual é fenómeno político. A função
judicial não pode ser tida como fenómeno político, uma vez que se trata meramente de
uma técnica de aplicação do direito. Apenas as funções executiva e legislativa são
políticas.

FE = FP: De acordo com esta concepção, a função judicial inclui-se no fenómeno político.
Tudo o que é fenómeno estadual é também fenómeno político. As funções do estado
(legislativa, executiva e judicial) pertencem a ambos os fenómenos. Desta forma, quando
o Estado legisla, julga ou administra está a produzir fenómenos políticos.

FE > FP: Segundo esta concepção, o fenómeno político não se restringe apenas e só ao
Estado. Nele, inserem-se as ações dos partidos ou grupos de interesse que tentem
influenciar o poder. O fenómeno político não está de acordo com o fenómeno estadual,
uma vez que o primeiro se revela mais abrangente ao estudar a definição e o
funcionamento de partidos políticos, grupos de pressão, associações sindicais e
patronais, a opinião pública, manifestações, entre outros.

O fenómeno político pressupõe uma relação de poder, uma distinção entre


governante e governado, ou é o resultado de um conflito de interesses com vista à
conquista ou exercício do poder político. É essencial a ideia de autoridade, possuir
autoridade ou ter força para exercer ou influenciar o poder.
A Ciência Política pode ser tida como arte, saber ou ciência. A política é o saber
associar uma boa atividade com uma boa organização da polis, em nome do interesse
comum de todos (Aristoteles). A política é a arte de governar. Por outro lado, ela era vista
como o conjunto de regras a observar para a obtenção e perpetuação do poder
(Maquiavel). A política é a ciência que procura ordenar, sistematizar e dar a conhecer a
realidade política, através do estudo dos fenómenos políticos.

O Estado e o Sistema Político

Tendo em conta que o fenómeno político é mais amplo que o fenómeno estadual, a
Ciência Política estuda as atividades políticas, no seu campo mais global, de uma
sociedade, enquadradas num sistema político. De modo a estudar os fenómenos
políticos, é estabelecido um sistema e um modelo teórico. Numa perspetiva sistémica, é
considerado um sistema como um conjunto de variáveis. Desta forma, o sistema político é
um sistema aberto, através do qual se conseguem ver as causas e efeitos de cada
fenómeno. Este sistema recebe inputs provenientes de outros sistemas intrassociais da
mesma sociedade ou de outros sistemas sociais de outras sociedades globais.
Os inputs são ações ou causas dos fenómenos políticos. Podem ser ações de
apoio ao sistema político ou exigências, reivindicações ao sistema político, como
manifestações, eleições, referendos, petições, entre outros. A partir do efeito que é
produzido no sistema político, resultam os outputs, isto é, a resposta do sistema político
para resolver o desequilíbrio gerado. A resposta do Estado - os outputs - em relação aos
inputs produz-se através das suas funções (judicial, legislativa e administrativa).
Por sua vez, as modificações concebidas de forma a que o sistema político se
adaptasse aos efeitos causados pelos fenómenos, por vezes criam novos inputs que
entram no sistema através de um mecanismo de retração ou feedback.

Na sua globalidade, o sistema é caracterizado por duas leis principais:

Lei da Homeostase

De acordo com esta lei, os sistemas têm tendência para o equilíbrio, apesar dos
impactos e alterações. O sistema político tem a capacidade de conservar o equilíbrio
interno, apesar dos fatores de alteração, sendo que é através dos outputs que o equilíbrio
se mantém.

Lei da Entropia

Segundo esta lei, o sistema tem tendência para um maior equilíbrio e


complexidade, de modo a atenuar o impacto dos inputs sobre o centro de decisão. O
sistema vai-se organizando cada vez mais de forma a reduzir a pressão e que as
exigências feitas causem menos desequilíbrio.

O Estado

Conceito de Estado

O Estado é uma entidade abstrata que atua através de orgãos que o representam.
O Estado surge como uma comunidade politicamente organizada (criado pelo Homem),
fixa em determinado território, que lhe é privado e possui como características a
soberania e a legalidade. Os três grande elementos pertencentes ao estado são o povo, o
território - constituído por vários domínios - e o poder político.
Todos os Estados estão subordinados à respetiva Constituição, uma vez que esta
tem a função de organizar e delimitar o poder político. Cada Estado exerce a função
legislativa, através da produção de leis, ficando subordinado às mesmas (art.º 3.º, nº2
CRP). Todos os Estados devem respeitar as normas de Direito Constitucional Público (em
Portugal, art.º 8.º CRP).

Como surge o Estado

Teses Naturalistas

De acordo com as teses naturalistas, o Homem é um ser social, com tendência


para vive em sociedade. O ser humano nasce egoísta e agressivo, com instinto de
sobrevivência e de procriação, atribuído pela natureza.
Segundo Aristóteles, a família é a primeira forma de Estado. Porém, uma só família
não é auto-sustentável e, desta forma, coopera com outras famílias, formando uma tribo.
As tribos acabam por se unir a outras, de forma a garantir a sua sobrevivência, levando
assim à formação de um estado.
Os grandes defensores das teses naturalistas são, essencialmente, Aristóteles,
Cícero e S. Tomás de Aquino.

Teses Contratualistas

As teses contratualistas têm como base a racionalidade. O estado natural do


Homem é desorganizado e está em constante conflito. O ser humano nasce num estado
agressivo, de egoísmo e de sobrevivência, com liberdade absoluta. A característica
agressiva do Homem, por sua vez, vai gerar conflito, colocando em causa a
sobrevivência. Assim, o ser humano conclui que tem de ceder uma porção das suas
liberdades em prol da comunidade, estabelecendo um contrato social que vai impor a
criação de uma sociedade civil, organizada através de um contrato voluntário com
reciprocidade. Este contrato - o contrato social - subdivide-se em duas partes: pactum
unionis - que consiste na criação da sociedade civil organizada - e pactum subjectionis
- que consiste no ato de subordinação à vontade da maioria, que designa os governantes,
que irão ditar e executar as regras necessárias à comunidade, ou seja, subordinação à
vontade da maioria.
Os grandes defensores das teses contratualistas são Thomas Hobbes (estado
natural, violento e egoísta; contrato irrevogável; preferência pela monarquia), John Locke
(estado natural de incerteza, não tão violento; normas que diminuem a incerteza; poder
sempre do povo, que pode retirar poder; os seus direitos não alienáveis) e Jean-Jacques
Rousseau (o Homem nasce livre; o Estado protege o Homem e os seus bens; possível
alienação dos seus direitos em benefício da vontade geral).

Teses Voluntaristas

As teses voluntaristas defendem que o Homem foi obrigado a agrupar-se de forma


a sobreviver. É a partir daqui que surgem as tribos e os clãs, onde existia uma imensa
solidariedade entre os seus membros, que obedeciam à ordem derivada de regras
naturais de sobrevivência, imposta pelo mais forte. O aparecimento do Estado não pode
resultar da vontade de todos. A partir dos pequenos grupos ter-se-ão formados outros
maiores.
De acordo com esta tese, o Estado resulta do um ato de vontade. Os orgãos
constituídos por este vão depender da forma política, do regime político e do sistema de
governo. As primeiras regras do Estado correspondem ao modo de organização, aos
poderes, aos seus orgãos e à posição do indivíduo perante o Estado. Este fica sujeito às
normas que cria, estando sujeitas à fiscalização da sua constitucionalidade.

Tipos Históricos de Estado

Ao longo da história sucederam-se vários tipos de Estado. Houve várias


abordagens quanto à sua tipologia:

• Quanto ao fim do Estado: conservador, reformista, revolucionário, entre outros.


• Quando ao grau de intervenção: abstencionista, intervencionista, totalitário, entre
outros.
• Quando à evolução histórica: antigo, moderno, contemporâneo.
• Quando ao modo de produção: despótico, esclavagista, feudal, capitalista, socialista,
entre outros.

Faz-se a distinção entre o Estado na fase pré-constitucional de Estado na fase


constitucional, sendo que aquilo que os diferencia é a Constituição, marco importante do
século XVIII, na Europa e na América. A Constituição é o documento que organiza de
forma escrita o poder político e limita a sua ação, que, por sua vez, protege os
direitos fundamentais do povo.

Caracterização dos Tipos Históricos de Estado

Estados na fase pré-constitucional

Estados Antigos

Nos Estados antigos, a estrutura estadual não se assemelha àquela que


conhecemos nos dias que hoje. O Estado é, de certa forma, estruturado, porém a
instabilidade territorial, a falta de centralizado do poder e a inexistência de vínculo de
nacionalidade perpetuam a concepção de que não existia ideia de nação.
Dentro dos Estados Antigos encontramo-nos e Estado Ocidental, o Estado grego e
o Estado Romano.

Estado Oriental

É monárquico e teocrático, ou seja, o poder religioso é intrínseco ao poder político.


Neste Estado, o monarca é adorado e tido como um líder espiritual. A ordem social é
caracterizada pela elevada hierarquização e acentuada desigualdade, interessando
também as garantias jurídicas dos cidadãos, neste estado, reduzidas. O povo possui
origens étnicas distintas, agregadas pela força. O grande objetivo deste estado é a
expansão universal.

Exemplo: Egipto, Pérsia, Síria e China

Estado Grego

Surge o conceito de cidade-estado, de pequena extensão territorial. Exercia-se


uma democracia direta e as cidades estavam ligadas pela tradição, pela defesa, culto
religioso e por uma política comum. Só aos cidadãos da cidade pertenciam os direitos
políticos, os restantes indivíduos eram tido como estrangeiros e sujeitos a uma jurisdição
especial. O poder político era organizado, havendo já a existência de leis e alguma
separação de poderes. Era dada primazia à liberdade individual e ao exercício da
soberania, que constituía um dos deveres dos cidadãos. O Estado tinha poder, desde que

este fosse devidamente justificado pelas leis formuladas pelos cidadãos. Possui, de certa
forma, influência do Ocidente.

Estado Romano

A concepção territorial é mais ampla, apesar da Roma se encontrar no centro da


ação. Os cidadãos romanos possuem alguns direitos básicos, tais como o direito ao
casamento, o direito à propriedade, o direito de voto e o direito de ser eleito para exercer
determinados cargos públicos. O poder político é observado como um poder supremo e
uno, cuja plenitude pode ou deve ser reservada a uma só pessoa, um único detentor,
fazendo-se a distinção de imperium, de potestas e majestas. Inicia-se uma monarquia,
que posteriormente virá a ser uma república, depois um principado e império, onde a
concentração de poderes prevalece. O cristianismo surge e, por sua vez, abala o sistema,
uma vez que reconhece à pessoa humana uma nova posição dentro da comunidade
política e contesta o carácter sagrado do imperador.
Surge a distinção entre poder público (Direito Público - do Estado) e poder privado
(Direito Privado - do pater familias).

“Estado” Medieval

Este Estado encontra-se dividido em duas fase - a das invasões e a da


reconstrução. Aqui, o poder é reduzido à autoridade da igreja e o poder dos senhores.
Existe a ausência de um Estado, tal como o conhecemos, dado que há uma diversificação
de poderes particulares, sendo o poder político difuso, concentrado nos privados (estes
eram titulares privilégios, com posições jurídicas que lhes adivinham de posições sociais
que ocupavam na hierarquia feudal). Neste contexto, o poder privatiza-se e, ao invés do
conceito de imperium, temos o dominium (derivado da supremacia territorial). É a
concepção patrimonial do poder.
No “Estado” Medieval, os direitos dos cidadãos dependem da classe social a que
pertenciam e da hierarquia de relações de vassalagem. A liberdade advém do estatuto da
pessoa e não da titularidade de direitos enquanto indivíduo.
O rei era apenas detentor do título, estando no topo do poder político sem qualquer
tipo de poder efetivo. Este tinha que subordinar ao papa, o que enfraquecia o poder
político que lhe era concedido.
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A partir do século XII/XIV dão-se grandes mudanças: a nação desenvolve-se e o


Direito Romano renasce. Desenrola-se um processo de centralização do poder político e
de emancipação face à igreja, bem como de eliminação de privilégios feudais. Começa
surgir um reforço de conceitos como o de nação, secularização e de soberania, voltando o
poder a concentrar-se na figura do rei. A justiça e o Direito são agora a lei-vontade do
monarca.

Estados na fase constitucional

Com o crescimento do capitalismo, a burguesia desenvolve-se. A disparidade entre


o poder económico desta classe social e a falta de poder político que lhe é concedido vão
impulsionar as revoluções liberais e o crescimento dos ideais ligados a estas. A
insegurança proveniente da atividade arbitrária e ilimitada do monarca, empenhado na
construção de uma “nação oculta e polida” desencadeiam na burguesia uma sentimento
de revolta que vai contra o Estado absoluto.
Assiste-se, assim, ao crescimento de uma nova concepção de Estado, que se
distingue em diversos aspetos. Surge a ideia de um Estado organizado e limitado
juridicamente, que privilegia a proteção e garantia da autonomia, da liberdade e da
segurança dos cidadãos. É a ideia de um Estado de Direito, ou seja, um Estado limitado
juridicamente, de forma a proteger e garantir a autonomia, liberdade e segurança dos
cidadãos.
De forma a terminar com o Estado Absoluto, desenvolveram-se ideias como:
• limitação do poder político e racionalização do seu exercício
• controlo da atividade da administração
• proteção da liberdade dos cidadãos
• livre desenvolvimento da economia
• igualdade dos cidadãos

Divergências face ao Estado de polícia:


• Soberania do monarca Soberania popular e alei como expressão da vontade geral
• Exercício do poder por um só indivíduo Exercício do poder por muitos, eleitos pela
coletividade
• Raison d’état (razão do estado) O Estado está sujeito às normas jurídicas em vigor
• Súbditos Cidadãos com direitos

Principais instrumentos técnico-jurídicos:


• Constituição
• Princípio da Legalidade
• Declarações de direitos
• Separação de poderes
• Representação política

Estado de Direito Liberal

Surge em resposta ao Estado de Polícia. Típico do século XIX, é liberal, a nível


político e económico, e assenta nos interesses e valores da sociedade burguesa. Este
Estado ergue-se perante a necessidade de separação entre Estado e economia, ou seja,
o Estado é abstencionista. Baseia-se na ideia de que o Estado deve garantir a
estabilidade necessária ao desenvolvimento, proteger os direitos e liberdades
fundamentais dos cidadãos, deixando a vida económica entregue à dinâmica de auto
regulação do mercado. O Estado era confiado aos particulares que conheciam melhor os
seus interesses e sabiam como alcançá-los, confiando no jogo das liberdades
fundamentais. O papel do Estado prende-se com a garantia e a proteção dos direitos
fundamentais, sendo que a limitação do seu papel serve para assegurar que o Estado não
vai para lá das funções que lhe são concedidas e invada, de forma ilegítima, as esferas
da vida privada.
De acordo com este Estado, os direitos fundamentais não podem ser contestados
ou contrariados, sendo estes anteriores e superiores ao Estado (pré e supra estaduais). A
Constituição reconhece apenas os direitos originários, tendo como principal função a sua
salvaguarda. O Estado não concede direitos aos particulares.
Os direitos fundamentais - ordinários - nascem com o indivíduo e são invioláveis.,
sendo que possuem, essencialmente, a função de proteção do cidadão face ao Estado.
Estão consagrados na Constituição, instrumento ao qual é concedida supremacia jurídica,
e toda e qualquer ação do Estado deve submeter-se às normas nela estabelecidas. São
direitos, na sua essência, negativos, uma vez que o Estado deve abster-se em vez de
intervir.

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Distinção entre direitos do homem e direitos do cidadão

Direitos do Homem Direitos do cidadão


direitos da relação com outros, enquanto
Pessoais/individuais, do ser humano
ser que vive em sociedade
liberdade de consciência liberdade de culto
liberdade pessoal liberdade da associação e reunião
inviolabilidade do domicílio direito à greve
direito à propriedade privada, etc… etc…

Toda a concepção do Estado de direito Liberal está ligada aos interesses da


burguesia e, por este motivo, o direito à propriedade surge como um direito absoluto, sem
limitações, um direito supremo. Só é, verdadeiramente, considerado como cidadão aquele
que for tiver, na sua posse, propriedade. Esta era a condição para que se pudesse
usufruir do exercício pleno dos restantes direitos. Apenas tinha direito ao voto aquele que
possuísse determinado grau de riqueza - voto censitário.
Relativamente à divisão de poderes, esta, enquanto elemento do Estado de Direito
Liberal, é inseparável da função de garantia dos direitos fundamentais do Homem. Aqui,
surge ainda a ideia de divisão de poderes enquanto especialização jurídica orgânico-
funcional, ou seja, como repartição juridicamente operada das várias funções do Estado
pelos seus diferentes orgãos. É dividida por funções, sendo cada uma delas atribuída a
um orgão. A divisão de poderes só se justifica em função da necessidade de ganir a
liberdade individual contra o abuso de poder. É inspirada em Montesquieu, “Espírito da
Leis”.

• Função legislativa - parlamento


• Função Executiva - Rei e ministros (governo)
• Função Judicial - Tribunais

Dois princípios que demonstram a verdadeira natureza da divisão de poderes como


técnica de organização do Estado, tendo como objetivo a garantia das liberdades
individuais são: o Princípio do Império da Lei e o Princípio da Legalidade da
Administração.

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Princípio do Império da Lei

Este princípio assenta na ideia de que a lei deve prevalecer sobre todos os atos.
Através deste princípio, a lei é legitimada pela aprovação do orgão que representa a
vontade geral - o Parlamento, onde todos estavam representados. Apenas deste modo
era possível garantir a liberdade e a justiça.
A lei é o garante da igualdade, da segurança e permite a previsibilidade, dado que,
enquanto geral e abstrata, excluía, por definição, a descriminação, o privilégio e o arbítrio
individual. Aprovada pelo Parlamento, seria justa, uma vez que cada um possui o papel de
legislador e, desta forma, ninguém seria injusto para consigo mesmo. A lei é igual para
todos e todos são iguais perante a lei. Cada um obedece à vontade geral e não há de um
indivíduo. Esta, enquanto justa, só necessitava que se fizesse cumprir e que fosse
aplicada. O Parlamento, dominado pela classe burguesa, esta divisão de poderes
subjetivada ao Princípio do Império da Lei, resultava num Estado dominado por essa
mesma classe social. Era necessário garantir a subordinação dos demais atos do Estado
à lei, ou seja, dos restantes orgãos constituintes do Estado ao Parlamento.

Princípio da Legalidade da Administração

No século XIX, o poder executivo era ainda receado, já que o poder legislativo, de
certa forma, ainda não era burguês. O carácter soberano da função legislativa exigia que
o poder executivo lhe estivesse subordinado, através da administração e dos tribunais.
Apenas deste modo era excluído o abuso de poder, o privilégio, a discriminação na
aplicação da lei, quer pela Administração, quer pelos tribunais. Quanto ao poder judicial, a
subordinação estreita do juiz à lei procurava impedir que as decisões dos tribunais
estivessem sujeitos a pressões exteriores.
O grande receio da burguesia prendia-se com o facto de que a atividade
administrativa do estado pusesse em causa a segurança e a liberdade, indispensáveis à
sua atividade. O princípio da legalidade da administração, partindo do império da lei,
impõe à função executiva uma estreita subordinação à lei, por parte da Administração,
garantindo, deste modo, o respeito pela mesma.

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Este princípio, o Princípio da Legalidade da Administração, atua em duas


dimensões:

Preferência da lei - a administração pode atuar, desde que a lei não o proíba.

Reserva da lei - a administração só atua quando a lei o permite; no caso de


omissões da lei, não pode atuar. “O princ pio de reserva de lei evoluiu, modernamente,
para o princ pio da reserva total da lei, segundo o qual toda a atividade administrativa (...)
pressup e a exist ncia de fundamento legal.” - Silva & Alves, 2016

Estado Social e Democrático de Direito

Com a crise económica que antecede a Primeira Guerra Mundial, a ideologia liberal
entra em declínio no século XX. Começam a surgir dúvidas relativamente ao
funcionamento da auto-regulação dos mercados, a industrialização vem substituir a força
humana e a sobreprodução traz a baixa de preços. Em meados do século XIX, começa a
verificar-se uma certa crise nos pressupostos em que assenta o modelo do Estado
Liberal. Surge, assim, a necessidade de mudança de relação entre Estado/Sociedade -
novas ideologias.
De acordo com a Teoria da Mão Invisível de Adam Smith, as leis do mercado só
conduziriam a vida económica ao aproveitamento máximo da riqueza. Contudo, verificou-
se que não criava uma situação de equilíbrio através deste modelo de Estado. Surgem ,
assim, novas concepções que apelam à intervenção estatal. O Estado, em resposta,
começa a intervir no processo produtivo, na redistribuição do produto social e na
planificação económica, tornando-se num estado intervencionista. A ideia de que a
sociedade possui a capacidade de auto-suficiência é ultrapassada, passando a ser
encarada como algo suscetível e carente de transformação e estruturação. Começa a ser
exigido ao Estado que realize a justiça social - Estado Social. Com o Estado Social
assiste-se a um duplo processo.

(1) Estadualização da Sociedade - a sociedade requer intervenção global do Estado.

• O Estado intervém em todos os domínios, sempre subordinado às normas jurídicas.


• O Estado define metas e controla a atividade económica.

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• O Estado preocupa-se com a igualdade de oportunidades.


• O Estado assegura serviços como a água, a eletricidade, o património, a saúde, a
educação, entre outros, proporcionando uma vida digna aos cidadãos.

(2) Socialização do Estado - a sociedade participa mais na vida do Estado.

• Sociedade com a intenção de atuar sobre o Estado.


• Cidadãos mais organizados e intervertidos na vida política, a partir de grupos de
pressão, associações, partidos, entre outros.

Estado de Direito (diferente face ao Estado Liberal) - Exemplo: mant m-se a absten o
do Estado na interfer ncia nas liberdades do cidad o, mas acrescenta-se condi es para
o livre e igual desenvolvimento do indiv duo e da sua dignidade

Por sua vez, dão-se alterações aos direitos e liberdades fundamentais.


Surgem os direitos sociais, em sentido mais amplo, positivos, cuja concretização
depende, fundamentalmente, da intervenção do Estado. Abrangem os direitos
económicos (art.º 80.º a 107.º CRP), os direitos sociais e os direitos culturais,
consagrados na Constituição. Há uma reinterpretação dos direitos, liberdades e garantias
(art.º 24.º a 57.º CRP - 1ª Geração de Direitos), através dos pressupostos do Estado
Social. O Direito à Propriedade é desvalorizado (art.º 62.º CRP), perdendo o carácter de
direito absoluto para ser integrado numa concepção de autonomia individual, que não
esquece a necessidade de integração social. Continua a ser regulado, mas é limitado. Há
dignidade independentemente da riqueza, diminuindo, deste modo, a influência da
burguesia na sociedade. Em consequência da desvalorização do direito à propriedade,
verifica-se a generalização da atribuição de direitos políticos, particularmente o direito de
voto, instaurando-se o sufrágio universal (art.º 49.º CRP e art.º 113.º, nº1 CRP). Os
direitos fundamentais só se encontram realizados e protegidos em regime democrático.
Há um aprofundamento e consolidação da democracia política, desde à eleição de uma
Assembleia representativa de todos os cidadãos e legitimação democrática de todos os
orgãos de poder, o reconhecimento do pluralismo partidário, direito à oposição, princípio
da alternância democrática, com eleições periódicas; bem como os direitos de
participação política sem quiser discriminações de sexo, raça, idade, convicção ideológica
ou religiosa e condição económica ou cultural (direitos económicos - art.º 58.º CRP,
direitos sociais - art.º 64.º CRP e direitos culturais - art.º 73.º e 74.º CRP - 2ª Geração de
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Direitos). Os direitos fundamentai são concebidos como direitos contra terceiros. São
agora direitos de defesa contra o Estado, contra os abusos e violações provenientes da
autoridade pública, porém, são igualmente concebidos com valores que se opõem contra
toda a sociedade, dirigidos também contra os poderes concedidos a outros particulares e
que os possam ofender, como o direito à greve. Com este domínio, o princípio
democrático confere um novo entendimento ao elementos do Estado de Direito.
A divisão de poderes sofre alterações. As suas características permanecem as
mesmas, porém o governo passa a ter influência no parlamento, que por sua vez tem
poder na função executiva. Há tribunais que passam a controlar o parlamento e o
Governo - constitucionalidade das leis. Isto sucede-se de forma a evitar a concentração, o
excesso e o exercício arbitrário do poder.

Parlamento Governo Tribunais

Legislativo Executivo Judicial

Governo - Legislativo: art.º 193.º


Orgãos de soberania: art.º 110.º
Tribunais: art.º 202.º
Oposição democrática: art.º 114.º, nº2

Face a atualidade:
• Separação e Interdependência dos orgãos de soberania: art.º 111.º e 112.º
• Assembleia da República: art.º 161.º, c); art.º 164.º e art.º 165.º
• Governo: art.º 198.º; art.º197.º, nº2; art.º 199.º
• Presidente da Republica: art.º 134.º, b) (promulgação da lei); art.º 277.º a 283.º (Vetar
juridicamente)
• Participação na vida política art.º 48.º

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Consagra-se pela primeira vez a justiça constitucional, isto é, fiscalização judicial


de constitucionalidade das leis que é atribuída, em regra, os tribunais comuns ou
especialmente criados para o efeito que apreciam seus atos legislativos estão conformes
com a Constituição como mecanismo de compensação das tentações arbítrio.
O Princípio da legalidade da Administração torna-se mais amplo. Por um lado,
tende para o estabelecimento do princípio da reserva total da lei, segundo o qual toda
atividade administrativa, carece da existência de um fundamento legal. Por outro lado,
assiste-se ao estabelecimento progressivo do controle judicial do respeito pela
administração não só limites da lei, mas igualmente os princípios gerais do Direito
(Reserva total de lei: princípio da legalidade da administração: art.º 266.º e 268.º).

Surgem novos mecanismos de limitação do poder que não existiam no Estado de


Direito Liberal ou não era suficientemente valorizados:

• Pluralismo partidário;
• Direitos da oposição;
• Direito de alternância política;
• Limitação temporal do exercício de certas funções;
• Divisão vertical ou territorial de funções, através da regionalização política e
administrativa;
• Repartição social funções, com o aproveitamento mecanismos de democracia
participativa e de descentralização;
• Complexificação dos sistemas de governo e sistemas eleitorais;
• Limitação interdependência dos órgãos de exercício do poder político;

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