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Dos crimes contra a incolumidade pública

Incolumidade é o estado de preservação ou segurança de pessoas


ou de coisas em relação a possíveis eventos lesivos. Ao utilizar a expressão
incolumidade pública, o legislador incriminou condutas atentatórias à
vida, ao patrimônio e a segurança de pessoas indeterminadas ou não
individualizadas, ao contrário dos delitos disciplinados nos títulos
anteriores (crimes contra a pessoa, contra o patrimônio, dignidade sexual,
etc).

Os crimes contra a incolumidade pública estão divididos em três


capítulos: Capítulo I- Dos crimes de perigo comum (art.250 a 259);
Capítulo II- Dos crimes contra a segurança dos meios de comunicação e
transporte e outros serviços públicos (art.260 a 266) e Capítulo III- dos
crimes contra a saúde pública (art.267 a 285).

Dos crimes de perigo comum: no direito penal, perigo é a


probabilidade de dano. Sendo assim, a consumação destes crimes não
depende da efetiva lesão do bem jurídico; basta a sua exposição a uma
situação perigosa, evidenciada pela provável ocorrência do dano.

O crime de incêndio é o primeiro dos crimes de perigo comum,


estando previsto no artigo 250, CP: Causar incêndio, expondo a perigo a
vida, a integridade física ou o patrimônio de outrem. Pena - reclusão, de
três a seis anos, e multa.

OBJETIVIDADE JURÍDICA: o bem jurídico


penalmente protegido é a incolumidade
pública, a lei busca manter a salvo e livre
de perigo a saúde, a segurança e a tranquilidade de um número
indeterminado de pessoas.

OBJETO MATERIAL: é o objeto alvo de incêndio, a exemplo da casa, do


automóvel.

SUJEITO ATIVO: o incêndio é um crime comum, podendo ser praticado


por qualquer pessoa, inclusive pelo proprietário da coisa incendiada. A lei
não faz distinção quanto ao incêndio ser de coisa própria ou alheia.

Sujeito passivo é a coletividade (crime vago) bem como as pessoas


diretamente atingidas pelo incêndio, as quais tiveram seus bens jurídicos
ameaçados ou até mesmo ofendidos.

Núcleo do tipo: é “causar” no sentido de dar origem, provocar ou


produzir. Neste contexto, realiza a conduta criminosa o agente que
originar o incêndio de modo a “expor” a perigo a vida, a integridade física
ou o patrimônio de pessoas em geral.

Incêndio é o fogo com labaredas de grandes proporções, originado pela


combustão de qualquer matéria, cujo poder de destruição e o de causar
prejuízos se revelem idôneos no caso concreto.

Não é necessário, entretanto, que o perigo seja resultado do fogo em si,


bastando que da ocorrência do fato (incêndio) haja a efetiva comprovação
do perigo à vida, à integridade física ou o patrimônio de terceiros. Ex: em
uma situação de incêndio por exemplo, um tumulto e uma situação de
pânico generalizado possui a capacidade se expor a perigo a coletividade.
Elemento subjetivo: é o dolo de perigo. O sujeito ativo deve,
voluntariamente provocar o incêndio, consciente de que tal
comportamento poderá resultar em perigo comum.

O código prevê a modalidade culposa em seu § 2º do art.250, CP.

Incêndio e intenção de matar ou ferir pessoa determinada: se o incêndio


for praticado com este propósito, deve ser imputado ao agente dois
crimes: homicídio qualificado pelo emprego de fogo e o crime do art.250,
CP em concurso formal impróprio (art.70, CP) em razão da presença de
desígnios autônomos para a ofensa de bens jurídicos distintos (vida e
incolumidade pública).

Incêndio provocado por motivação política: se o agente causar o incêndio


impelido por inconformismo político estará caracterizado o crime do
artigo 20 da Lei 7.170/83 (LSN) em obediência ao princípio da
especialidade.

Consumação: trata-se de crime material, consuma-se no momento em


que o incêndio provocado pelo agente expõe a perigo a vida, a integridade
física ou o patrimônio de pessoas indeterminadas. Cuida-se de crime de
perigo concreto, pois é indispensável a prova da efetiva ocorrência da
situação perigosa.

A simples provocação do incêndio não enseja por si só a incidência deste


tipo penal, se da conduta não resultar a efetiva exposição da coletividade
a perigo concreto.

Incêndio e prova da materialidade: o exame pericial é necessário para


comprovação de crimes não transeuntes (crimes que deixam vestígios),
não podendo supri-lo a confissão do acusado. Ler o artigo 173 do CPP. A
perícia é imprescindível como meio de prova.

Tentativa: Perfeitamente possível. Exemplo: “A” munido de galões de


gasolina, a derrama por todos os cômodos de uma casa situada em uma
rua movimentada e repleta de pessoas e antes de riscar o fósforo para
atear o fogo, é impedido pelo dono da residência.

Também é admitida a tentativa na hipótese do sujeito ativo, atear fogo


em determinado local sem causar perigo a incolumidade pública por
circunstancias alheias a sua vontade. Ex.: “A” ateia fogo no apartamento
de um prédio, mas antes das chamas tomarem proporções inerentes ao
incêndio, estas são controladas pelos bombeiros.

Art.14, II: Parágrafo único - Salvo disposição em contrário, pune-se a


tentativa com a pena correspondente ao crime consumado, diminuída de
um a dois terços.

Ação penal: é pública incondicionada.

Na modalidade culposa, cuja pena máxima é de dois anos (menor


potencial ofensivo), a competência é dos Juizados Especiais Criminais.

Classificação doutrinária: crime comum, material e de perigo concreto (o


crime só se consuma com o efetivo perigo à vida, à integridade física ou o
patrimônio de outrem); vago (tem como sujeito passivo a coletividade);
instantâneo (consuma-se em determinado momento, sem continuidade
no tempo); não transeunte; unissubjetivo ou de concurso eventual (pode
ser cometido por uma pessoa, mas admite concurso de pessoas).
Causas de aumento de pena: art.250 §1º, I e II.

Soltar balões incide o art.42 da lei 9605/98 (crime


ambiental), mas caso esse balão cause incêndio
expondo a risco a vida, a integridade física ou
patrimonial subsiste o crime do art.250, princípio da
consunção.

Forma qualificada: art.258, CP. O resultado qualificador ocorre a título de


culpa (crime preterdoloso)

EXPLOSÃO art.251, CP:

Objetividade jurídica: O bem jurídico


penalmente tutelado é a incolumidade
pública.

Objeto material: É o engenho de dinamite ou


de substâncias de efeitos análogos. O
legislador valeu-se da interpretação analógica (ou intra legem), ou seja,
prevê uma fórmula casuística (“engenho de dinamite”) seguida de uma
fórmula genérica (“engenho de efeitos análogos”). Em outras palavras,
tanto pode existir explosão com o engenho de dinamite como com o
engenho de substâncias de efeitos análogos, isto é, diversas da dinamite,
mas aptas a produzirem efeitos semelhantes no caso concreto. Nas lições
de Magalhães Noronha:

Dinamite é nitroglicerina de que se embebem matérias sólidas,


geralmente areias. Engenho é a bomba, o aparelho que a contém. Refere-
se também a lei a substâncias de efeitos análogos, dentre as quais podem
ser mencionados os explosivos TNT, os explosivos de ar líquido, o trotil, as
gelatinas explosivas etc., produzindo efeitos semelhantes aos daquelas.

Núcleo do tipo: O núcleo do tipo é “expor”, no sentido de colocar em


perigo a vida, a integridade física ou patrimônio de pessoas
indeterminadas, mediante explosão, arremesso ou simples colocação de
engenho de dinamite ou de substância de efeitos análogos.

Explosão é a perturbação ou abalo de alguma substância, contida


normalmente em um recipiente, seguida de elevado ruído e detonação, a
qual produz o desenvolvimento súbito de uma força ou a expansão
inesperada de um gás.

Arremesso é o ato ou efeito de realizar o lançamento de algum


objeto a distância, mediante o emprego de força. No caso, refere-se ao
lançamento do engenho de dinamite ou de substância de efeitos
análogos.

Além da explosão e do arremesso, o tipo penal também incrimina a


simples colocação de engenho de dinamite ou de substâncias de efeitos
análogos. Destarte, configura-se o delito com o mero ato de instalar em
determinado local o objeto a ser explodido.

Fácil constatar, portanto, ser prescindível a efetiva detonação do


explosivo para caracterização do crime tipificado no art. 251 do Código
Penal, pois a lei pune autonomamente o lançamento do objeto
(arremesso) e também sua simples colocação em lugar a ser acionado.
Mas, em todos os casos, é fundamental a exposição de bens jurídicos de
pessoas indeterminadas à situação de risco, pois a explosão constitui-se
em crime de perigo comum e concreto, ou seja, reclama efetiva
comprovação na situação real. Nesse sentido, não há falar na configuração
do crime de explosão quando um explosivo é detonado em local
desabitado.

Consumação

A explosão é crime material e de perigo concreto. Consuma-se com


a explosão, arremesso ou simples colocação de engenho de dinamite ou
de substâncias de efeitos análogos, desde que da conduta resulte perigo à
vida, à saúde ou ao patrimônio de pessoas indeterminadas, o qual não se
presume, devendo ser demonstrado na situação concreta.

Se não restar provado o perigo comum, poderá restar caracterizado o


crime de dano qualificado pelo emprego de substância explosiva,
tipificado no art. 163, parágrafo único, inc. II, do Código Penal. Exemplo:
“A” explode o automóvel de “B”, em local deserto, sem expor a risco
diversas pessoas.

Explosão privilegiada: art. 250, § 1.º

A pena é de reclusão, de um a quatro anos, e multa, “se a substância


utilizada não é dinamite ou explosivo de efeitos análogos”.

O legislador elegeu a dinamite e as substâncias de efeitos análogos,


dotadas de elevado poder de destruição, como mais perigosas à
coletividade. Conclui-se, portanto, que todos os produtos não
enquadrados nos conceitos de dinamite e substâncias de efeitos análogos,
mas idôneos a provocar explosão, ingressam na modalidade privilegiada. É
o que se dá, exemplificativamente, na utilização de explosivos à base de
pólvora.

Vale destacar, entretanto, que o reconhecimento da forma privilegiada do


delito pressupõe a existência de exame pericial, comprovando tratar-se de
produto apto a causar explosão, mas diverso da dinamite ou substâncias
de efeitos análogos.

Cuida-se, nesse caso, de crime de médio potencial ofensivo (pena mínima


igual ou inferior a um ano), compatível com a suspensão condicional do
processo, se presentes os demais requisitos exigidos pelo art. 89 da Lei
9.099/1995.

Explosão culposa: art. 251, § 3.º

A explosão culposa está definida no art. 251, § 3.º, do Código Penal, cuja
redação é a seguinte: “No caso de culpa, se a explosão é de dinamite ou
substância de efeitos análogos, a pena é de detenção, de seis meses a dois
anos; nos demais casos, é de detenção, de três meses a um ano”.

Nessa hipótese, a explosão tem como causa a imprudência, imperícia ou


negligência do sujeito ativo, vindo a produzir resultado naturalístico
involuntário, mas objetivamente previsível. Exemplo: “A” armazena
produtos de alta potencialidade explosiva em local inadequado e nas
proximidades de imóveis residenciais, ensejando explosão que vem a
colocar em risco um elevado número de pessoas.

Evidentemente, não há crime quando o resultado vem a ser provocado


por caso fortuito ou força maior, sob pena de configuração da
responsabilidade penal objetiva. É o que ocorre, a título ilustrativo,
quando uma empresa instalada em área industrial e autorizada pelo Poder
Público a fabricar fogos de artifício, e por este motivo depositária de
grande quantidade de pólvora, vem a ser atingida por um raio, resultando
em explosão de grandes proporções.

Subtração, ocultação ou inutilização de material de salvamento

Art. 257. Subtrair, ocultar ou inutilizar, por ocasião de incêndio,


inundação, naufrágio, ou outro desastre ou calamidade, aparelho,
material ou qualquer meio destinado a serviço de combate ao perigo, de
socorro ou salvamento; ou impedir ou dificultar serviço de tal natureza:
Pena - reclusão, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, e multa.

Com a pandemia em que estamos


enfrentando (COVID19), infelizmente a
mídia relatou casos de subtrações de
máscaras e lotes de álcool em gel de
hospitais.

A princípio poderíamos equivocadamente achar que se trataria de


um mero crime de furto (artigo 155, CP) e até seria, se não tivéssemos o
crime específico do artigo 257, CP. É inegável que nos encontramos em
um momento de calamidade pública e a subtração dos materiais como os
citados acima se encaixam perfeitamente no tipo.

Qualquer pessoa pode figurar como autora do tipo penal em


análise, mesmo que seja o proprietário do material de salvamento ou
socorro.

O perigo aqui, segundo a maioria de nossos autores, é abstrato.


Significa dizer que é irrelevante a ocorrência de danos concretos
(efetivos). Há uma presunção legal de que a conduta do agente, por si só,
põe em risco a incolumidade pública.

Evidentemente, por expressa previsão legal, a conduta do sujeito


deve ser dolosa, ou seja, deve haver intenção de subtrair ou inutilizar,
por ocasião da calamidade pública, as máscaras e/ou os lotes de álcool
em gel.

Por fim, vale dizer que, nos termos do art. 258, 1ª parte, do CP, se
da subtração, ocultação ou inutilização de material de salvamento, bem
como do impedimento ou obstrução de serviço de combate ao perigo
resultar lesão corporal de natureza grave a pena privativa de liberdade
prevista será aumentada da metade. Ocorrendo a morte, a pena
será dobrada.

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