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SEC8ETARIA DE PLANEJAMENTO, ORÇAMENTO E COORD,ENAÇÃO

FUNDAÇAO INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATISTICA -IBGE

RIVISTA BRAIIliiRA DI GIIGRAfll

ISSN 0034- 723 X

R. bras. Geogr., Rio de Janeiro, v. 54, n. 2, p. 1 - 120, abr./jun. 1992


A FRONTEIRA AGRÍCOLA
NA AMAZÔNIA BRASILEIRA*
Lia Machado**

A Amazônia constitui a maior reg1ao de propostas inibidoras do povoamento, desde


florestas tropicais primitivas ainda existentes as mais radicais, como torná-la "patrimônio
sobre a Terra, uma região ainda pouco conhe- biogenético da humanidade", e negociar sua
cida, sobretudo em relação aos processos preservação em troca de uma parte da dívida
vitais. Adquiriu vida própria ao converter-se externa brasileira, até as propostas de zonea-
em objeto de investigação científica, um inte- mento ecológico para direcionamento e conten-
resse que foi circunscrevendo e isolando a ção de investimentos (ecodesenvolvimento).
região como unidade em si mesma, em gran- Como peões dessa grande trama de incer-
de parte separada do conjunto das terras tezas, interesses e ideologias se encontram as
brasileiras. A legitimidade dessa percepção populações locais, tanto as populações nativas,
estritamente científica que se delineou no Sé- descendentes de correntes migratórias de ou-
culo XIX foi reforçada em épocas posteriores, tras épocas, pressionadas a adaptar-se a uma
apoiada no isolamento da região em relação nova lógica de ordenação do território, como a
à área povoada do Brasil. Mesmo na época população imigrante, mobilizada, nas últimas
atual, finalizado o isolamento e consciente de décadas, para a ocupação e a integração da
que o conhecimento científico está aberto ao região ao restante do País. Essas mesmas
uso produtivo, é difícil ainda qualquer intento populações também estão sujeitas a um jogo
de crítica das conseqüências políticas e eco- de representações, onde o habitante nativo é
nômicas dos estudos e apreciações científi- identificado com uma "economia ética ou natu-
cas sobre a região. ral", idealização já utilizada por muitos para
contrastar com a investida do capitalismo.
A atenção internacional dirigida à Amazô-
nia na última década, principatmente à sua Para um geógrafo, essa trama apresenta
parte brasileira (dois terços da região), se um interesse particular na medida em que sua
deve à perspectiva de destruição da floresta complexidade força a um reexame da ade-
pelo avanço da moderna civilização técnico- quação de alguns dos conceitos de uso fre-
mercantil, o que tem gerado uma série de qüente na disciplina, entre eles, por exemplo,

• Recebido para publicação em 30 de setembro de 1991.


A primeira versão desse trabalho foi apresentada no VI Colóquio de Geografia Anual, Universidad Autônoma de Madrid, Madrid, outubro 1991.
•• Geógrafa, Professora Adjunta do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio de Janeiro- UFRJ -, Pesquisadora do Conselho Nacional
de desenvolvimento Científioo e Tecnológico- CNPQ.

R. bras. Geogr., Rio de Janeiro, 54 (2), p. 27-55, abr./jun. 1992.


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os conceitos de fronteira, paisagem natural, usual de limite político internacional, se difun-


rural-urbano, urbanização, e induz a questões diu nas Américas a partir de seus escritos.
mais gerais, como a articulação das relações Seu iJGr,samento estava dirigido para a inves-
entre várias escalas geográficas na constitui- tigação da dinâmica de transformação histó-
ção do nível local, ou ao papel das redes de rica na América do Norte, em meio a um
transmissão da informação nas formas de debate de seus colegas historiadores sobre
organização do território. qual a origem das instituições do País. Turner
De outro lado, persistentes problemas se propôs a explicar a gênese da nação nor-
socioeconômicos caracterizam a macroes- te-americana como um processo autônomo,
trutura agroespacial, como a concentração desencadeado a partir da conquista de terras
fundiária, a carência de infra-estrutura, a bai- a oeste da costa atlântica, desde o início da
xa produtividade das terras e a marginaliza- colonização. Formulou a hipótese de que a
ção e subocupação dos trabalhadores, o que interação entre um ambiente com caracterís-
exige, por parte do observador, um esforço ticas geográficas excepcionais e o esforço
para diferenciar o transitório, que é comum às coletivo de pequenos proprietários inde-
áreas de ocupação recente, dos elementos de pendentes foi responsável pelo desenvolvi-
continuidade e semelhança com a macroes- mento de instituições políticas democráticas
trutura agroespacial a nível nacional. nos Estados Unidos. Apoiado fortemente em
O propósito deste trabalho é destacar os generalizações emprestadas da Biologia e da
principais elementos que possibilitem a com- Geografia, e citando Herder e Comte, o estu-
preensão do processo de modelação de espa- do de Turner associa a noção de "espaços
ços agrários na Amazônia brasileira, atentando, vazios" ou "espaços abertos" ao povoamento,
de imediato, para o seguinte: a) a ocupação isto é, espaços com baixa densidade de po-
agrícola se processa de forma descontínua no pulação, à metáfora do organismo social.
espaço, configurando um padrão de "man- O conceito de fronteira de Turner não foi de
chas", à margem dos rios e vias de penetração, sua invenção, nem se reduz a uma única
e no entorno de cidades e grandes projetos de definição: é um lugar, um estado de espírito,
exploração hidrelétrica e mineral; b) apesar do e também um processo que avança no espa-
crescimento recente da produção agrícola, ela ço. O êxito imediato de sua hipótese tem sido
não participa de modo significativo da oferta atribuído principalmente ao uso que faz de
agrícola a nível nacional. uma linguagem metafórica e analógica, co-
A primeira parte está dedicada ao rastrea- mum ao meio científico e político de sua épo-
mento histórico de conceitos como "fronteira", ca: a fronteira seria um organismo vivo, com
"frente" e "pioneiro", e do uso que deles foram a capacidade de se adaptar aos fatores am-
feitos no Brasil. Na segunda parte apresen- bientais, ao mesmo tempo que expressaria a
tam-se as principais características do pro- passagem para um estágio mais avançado de
cesso de assentamento agrícola na região evolução social, constituindo o lugar de ger-
amazônica brasileira, organizadas em torno minação do espírito da nação norte-america-
de eixos temáticos. na (Coleman, 1966).
Fundamentadas na história e dirigidas às
particularidades da sociedade norte-america-
na, as propostas de Turner podem ser consi-
FRONTEIRA AGRÍCOLA, FRENTE deradas como bastante irrelevantes para
PIONEIRA E ESPAÇOS VAZIOS outros países das Américas, inclusive o Bra-
sil. Sem embargo, tornou-se uma espécie de
"modelo" para muitos escritos posteriores, em
grande parte pelas relações que estabeleceu
A Hipótese da Fronteira entre a expansão agrícola e os outros fatores
Pode ser um ponto de partida interessante de desenvolvimento nacional.
começar com um breve comentário sobre a Entre os temas incluídos na tese da fronteira,
obra do historiador norte-americano, Frede- se encontrava o da modernização, sempre as-
rick J. Turner (1893;1920), devido ao seu im- sociada por Turner ao nacionalismo. A partir de
pacto sobre a imagem e o conceito de uma analogia com a "teoria dos germes", ou
fronteira de povoamento. O uso do termo seja, de que povos e instituições eram compa-
"fronteira", aplicado aos movimentos de po- ráveis aos germes biológicos, foi possível a
voamento e colonização, e não no sentido Turner deduzir que, uma vez propagados os
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germes da modernização, sucederia nas co o espaço se encontrava vazio, uma vez


áreas primitivas ou "selvagens" a mesma se- que era território indígena.
qüência de estágios- da coleta ao assentamento Sem embargo, para Turner, como para
agrícola, até a emergência de cidades com eco- muitos de seus antecessores, os "espaços
nomias diversificadas e, principalmente, indus- vazios" não correspondiam somente a um
triais (Coleman: 31). critério demográfico de baixa densidade de
A modernização e o debate sobre as condi- população. Era um conceito, elaborado em
ções para a sua difusão ocupavam um lugar contraposição à presença indígena: os"es-
importante no pensamento de intelectuais da paços vazios" eram espaços não civilizados,
América Latina desde o início do Século XIX, já quer dizer, aqueles onde não existiam as for-
possível de identificar na obra de Sarmiento mas da civilização. A propriedade privada e o
( Civilización y barbarie. Vida de Juan Facundo aparato jurídico que a legitimam sob a forma
Quiroga, 1845). No decorrer do Século XIX, do Estado eram instituições próprias da civili-
outros temas, que aparecem mais tarde nas zação e ausentes das comunidades indíge-
teses de Turner sobre a fronteira, foram motivo nas. Dessa maneira, era possível anular os
de debates políticos. Foi o caso, por exemplo, argumentos jurídicos sobre o direito de posse
dos debates sobre o papel dos imigrantes de dos indígenas sobre as terras americanas.
origem européia e da pequena propriedade in- A disponibilidade de terras livres foi um
dependente para a modernização da agricultu- argumento bastante comum entre os políticos
ra no Brasil (Hennessy, 1981; Mattos, 1987) e e grandes proprietários do Brasil do Século
dos debates e propostas de interpretação da XIX; contudo, foi utilizado em sentido oposto
realidade social latino-americana a partir das àquele dado por Turner: sem controle do
idéias neolamarckianas e do darwinismo social acesso à propriedade da terra, haveria uma
(Crawford, 1961; Machado, 1989 c: 438). Como redução da oferta de mão-de-obra, tanto es-
em Turner, as concepções ambientalistas e crava como assalariada, o que poderia preju-
evolucionistas, aplicadas ao social através de dicar, segundo eles, a grande agricultura de
metáforas, permitiam reafirmar, em termos exportação. Nesse sentido, a lei de terras
científicos, a convicção da continuidade es- aprovada em 1850 e a política dita de "coloni-
sencial da história e do papel determinante do zação" constituíram os eixos de uma política
ambiente natural. E também como Turner, os governamental que associou a concentração
intelectuais latino-americanos, partidários da fundiária ao desenvolvimento do capital (Sil-
modernização, atribuíam uma grande impor- va, 1982: 93). A consolidação de uma estrutu-
tância aos meios de transporte para a integra- ra fundiária concentrada, particularmente no
ção político-econômica da nação (Meira Estado de São Paulo, onde veio a centralizar-
Mattos, 1979; López del Amo, 1989). se a economia do café, foi garantida não
Outro aspecto, incluído na tese da fronteira, somente pela tradição brasileira das sesma-
é o papel das "terras livres" ou dos "espaços rias como também por uma política governa-
vazios" nas formações nacionais, principalmen- mental dirigida no sentido de impedir o livre
te aquelas com base territorial de grandes di- acesso dos trabalhadores rurais à terra (Lima,
mensões. Para Turner, a disponibilidade de 1956; Silva, 1976: 72).
terras livres significava as terras passíveis de Como ocorre com certa freqüência, aquilo
serem apropriadas e transformadas em proprie- que é letra morta em um momento pode read-
dade privada. Neste sentido, a fronteira teria quirir uma nova funcionalidade em outro. As
atuado como ''válvula de escape" para as popu- teses de Turner ressurgem no Brasil na déca-
lações pauperizadas do leste dos Estados Uni- da de 70, tanto nos textos oficiais como nas
dos e da Europa, oferecendo para cada críticas dos cientistas sociais. O novo fato,
indivíduo a oportunidade de adquirir uma pe- que desencadeou a exumação de termos
quena propriedade rural e se tornar inde- como "fronteira móvel", "espaços vazios" e
pendente: a democracia nasceria, assim, da "válvula de escape", foi o Plano de Integração
terra livre (Smith, 1970: 252). Na realidade, o Nacional, concebido e implementado pelo go-
acesso à terra no oeste norte-americano não verno militar naquele momento. O objetivo do
foi tão livre como propagado por Turner, pois, plano era a incorporação definitiva da Amazô-
apesar do Homestead Act, o próprio avanço nia brasileira ao Território Nacional, através
do povoamento e das vias de transporte atuou da construção de uma infra-estrutura de redes
como regulador da apropriação privada do (hidrelétricas, estradas, telecomunicação, ci-
território (Moore Jr., 1973: 113 e ss). Tampou- dades), e da distribuição de terras públicas
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para empresários e imigrantes. Esses últimos Havia motivos concretos para a adoção da
seriam realocados das áreas de alta tensão tese da pequena propriedade pelas organiza-
social, como o Nordeste do País, para peque- ções não-governamentais. No entanto, é pos-
nas propriedades rurais na Amazônia, dedi- sível reconhecer também uma tentativa de
cando-se à produção de alimentos para o reformulação da tradição agrário-pastoril,
mercado interno. Por certo, o uso do território idealizando uma economia "natural" ou "ética"
amazônico como "válvula de escape" para a baseada na agricultura de subsistência e não
população pauperizada de outras regiões do afetada pela economia de mercado, um pen-
País foi sintetizado em uma frase do mais samento compartilhado por Turner e muitos
puro estilo turneriano: "as terras sem homens de seus antecessores (Smith, 1970: 252; Wil-
para os homens sem terra". liams, 1990: 59). De fato, havia um preceden-
Sem embargo, de nenhuma maneira se te no Brasil, onde no contexto de Iutas de terra
pode deduzir que as idéias contidas no plane- a tradição agrário-pastoril foi integrada aos
jamento estratégico, origem ideológica e nor- movimentos das comunidades marginaliza-
mativa do Plano de Integração Nacional e de das inspirados no messianismo ou em doutri-
modernização econômica proposto na época, nas milenaristas (Queiroz, 1965; Hennessy,
1981; Musumeci, 1985).
derivavam das propostas de Turner. Havia um
ponto crucial a distinguir ambas: enquanto o Não é difícil perceber que em Turner,
historiador americano defendeu a hipótese de como em muitos de seus sucessores, exis-
que a expansão da fronteira agrícola permitiu te uma dificuldade em conciliar a idéia de
a descentralização política e, através desta, a modernização, que supõe o desenvolvimento
consolidação da democracia, o planejamento de uma sociedade urbano-industrial, com a
defesa de uma sociedade "ética" e "natural"
estratégico (Silva, 1955; 1967) partia do prin-
na fronteira agrícola. Escapa ao propósito do
cípio da centralização das decisões políticas,
texto explorar esse tipo de indagação, mas
quer dizer, que a integração das "terras livres"
vale anotar aqui que constitui um dos temas
e a modernização econômica deveriam ser principais das propostas ambientalistas e da
administradas pelo Estado central, considera- ecologia política na última década.
do o tutor da democratização. Por conseguin-
te, a ressonância de algumas das teses de
Turner se situa a nível mais subjetivo e sim- Frentes e Zonas Pioneiras
bólico da relação estabelecida entre naciona-
lismo, modernização e expansão das Os conceitos de frente e zona pioneira
fronteiras "internas" do território, no sentido de também foram desenvolvidos tendo em vista
cumprir a expectativa secular de transformar o processo de ocupação do oeste norte-ame-
o país na grande potência que a dimensão ricano e, por isso mesmo, também se funda-
mentam em muitas das idéias sintetizadas no
territorial e as riquezas naturais pareciam pro-
pensamento de Turner. Contudo, a aplicação
meter.
desses conceitos no Brasil não foi mecânica.
O antigo argumento da disponibilidade ou
Primeiro, porque a continuidade da expan-
"abundância" de terras públicas foi reavivado
são cafeeira no Sudeste do País, nas primei-
não só pelos textos oficiais como pelos defen-
ras décadas do Século XX, atraiu a atenção
sores da tese de que a Amazônia, como fron-
de cientistas nacionais e estrangeiros, no sen-
teira de povoamento, deveria ser o "iocus
tido de explicar a especificidade dessa expan-
privilegiado para a reprodução do pequeno são relativamente às anteriores ondas de
produtor'' (Martins, 1973: 43). Nesse sentido, povoamento do interior. O interesse não era
as terras "novas" poderiam ser divididas em somente o de determinar as semelhanças e
pequenas propriedades e distribuídas entre a diferenças em relação ao modelo norte-ame-
população imigrante, que as transformaria em ricano, mas também ao passado e ao presen-
unidades autônomas de auto-subsistência te do País. Em segundo lugar, devido a uma
para a produção de alimentos básicos. A tese combinação particular de circunstâncias,
foi incorporada por diversas organizações cientistas sociais europeus tiveram ocasião
não-governamentais e pela Igreja Católica, de permanecer no País durante períodos
cuja atuação militante na região foi articulada mais ou menos largos, o que possibilitou um
em torno da defesa dos direitos dos pequenos contato maior com a realidade brasileira e um
ocupantes de terra sem titulação legal intercâmbio científico-acadêmico bastante in-
(CNBB, 1976). tenso (Ferri e Motoyama, 1979). Os geógra-
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tos, em particular, exerceram um papel in- sável pela alteração da paisagem natural era
fluente nesse intercâmbio, sendo que dois o mesmo que atribuía valor à terra e, portanto,
deles, Pierre Monbeig e Leo Waibel, fizeram à propriedade.
uma contribuição decisiva à conceituação de A "marcha pioneira" foi como Monbeig de-
frentes e zonas pioneiras. nominou o deslocamento espacial das frontei-
· Monbeig, discípulo de Albert Demangeon e ras do café no Sudeste do País tema de sua
de Lucien Fébvre, em seus primeiros traba- tese doutoral, publicada em 1950 e, até hoje,
lhos publicados sobre a expansão agrícola no referência obrigatória dos estudos sobre a
Sudeste e Sul do País, apontou vários traços economia cafeeira no Brasil. Um dos aspec-
distintivos de um "movimento pioneiro". tos fundamentais da marcha pioneira, apon-
O povoamento obedecia a uma concepção tado por Monbeig, era precisamente o grande
moderna de colonização. A construção de salto do preço da terra provocado pela chega-
vias de circulação e o aparecimento de pe- da do café, possibilitando intensa especula-
quenos centros urbanos assim como o lotea- ção fundiária. O comércio de terras dominava
mento das terras rurais e urbanas e os a tal ponto a sucessão de "frentes pioneiras",
sistemas de comercialização distinguiam o que o geógrafo foi levado a afirmar que a
movimento pioneiro das anteriores formas de colonização era uma questão de segundo
ocupação. Isso significava que era irrelevante plano, vindo antes o desejo de especular
se os espaços haviam sido apropriados ante- (Monbeig, 1950: 143 e ss). Grandes proprie-
riormente ou se fossem habitados ou não. Em tários (os fazendeiros}, comerciantes de café
síntese, o dinamismo das zonas pioneiras era e sociedades imobiliárias controlavam o mer-
produto de um novo tipo de financiamento, de cado de terras, interferindo de maneira deci-
organização e de escala dos empreendimen- siva na dinâmica pioneira, na medida em que
tos, configurando uma economia capitalista o controle do acesso à terra através do preço
moderna (Monbeig, 1935). contribuía para a formação de um mercado de
trabalho "livre". Havia, portanto, uma disponi-
Sem embargo, não era o bastante afirmar
bilidade relativa de terras nas frentes pionei-
que a "conquista de terras novas" significava a
ras.
integração do campo a uma economia de tipo
capitalista. Isso porque, em muitas regiões da A questão da disponibilidade de terras não
América Latina, os coletores dos bosques tropi- seria tão importante se a capitalização, a nível
cais, como os seringueiros e castanheiros da da produção, fosse significante. Isso ocorreu
Amazônia, os chie/eras do México ou os yerba- em frentes pioneiras de outros países, onde a
teros do Paraguai e Brasil, também eram pio- propriedade da terra se tornava menos impor-
neiros, que não estavam no exterior e sim nas tante que o acesso ao crédito e à tecnologia
lindes dos circuitos econômicos e monetários. (cf. Bowman, 1931: 25). Sem embargo, a
Uma baixa dos preços no mercado mundial os expansão da produção de café, seja sob a
forçava a reduzir suas compras de sal, vestuário forma de monocultura ou em associação com
e complementos alimentares. O que é distinto culturas de subsistência, era feita por exten-
na zona pioneira é a noção de propriedade da são da área cultivada, através de sucessivos
terra (Monbeig, 1981: 55). deslocamentos da fronteira agrícola, e com
A propriedade da terra nas zonas pioneiras poucos investimentos diretamente produti-
apresenta, na análise de Monbeig, múltiplas vos. Por conseguinte, o acesso à terra e a
facetas. Os grandes latifúndios pastoris ha- concentração fundiária constituíam uma "con-
viam se apropriado, no passado, de vastas dição" e não um aspecto secundário da agri-
extensões de terra no interior do País, muitos cultura cafeeira.
deles com titulação legal; a terra, contudo, Um outro aspecto característico das fren-
não ti'nha'valor de mercado porque a atividade tes pionerras era a presenÇa massiça de imi-
econômica se aproveitava dos campos e sa- grantes. Monbeig descreve as sucessivas
vanas, alterando muito pouco a paisagem correntes migratórias, de origem geográfica
"natural". Ao reverso, nas franjas pioneiras, a variada, começando pelos imigrantes euro-
principal atividade econômica era a agricultu- peus, japoneses e os próprios paulistas no
ra, e sua expansão se fazia à custa da des- início do Século XX, até sua substituição por
truição das florestas subtropicais, obrigando uma grande migração interna, depois de
a um investimento de capital desde o momen- 1930. A maioria dos imigrantes internos era
to inicial, de desmatamento e preparo do solo. proveniente dos estados do Nordeste do País,
Significava, portanto, que o trabalho respon- onde o nível de vida era dos mais baixos.
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Aceitavam salários piores dos que os traba- Os caçadores, os extrativistas e os cria-


lhadores rurais paulistas, e também as ativi- dores de gado, nos Estados Unidos, na
dades mais pesadas, constituindo, segundo América Espanhola e no Brasil, eram ho-
Monbeig, "os proletários mais miseráveis das mens da fronteira, penetrando nas florestas
zonas pioneiras". Assim mesmo, os sucessi- e criando um tipo de paisagem que não era
vos fluxos imigratórios pareciam confirmar a nem terra civilizada nem floresta virgem (o
tese de que as oportunidades de mobilidade sertão).
social e econômica nas frentes pioneiras O conceito de pioneiro, sem embargo, sig-
eram maiores do que em seus lugares de nificava mais do que um indivíduo que vive
origem. numa fronteira espacial. O pioneiro não só
Evidenciava-se uma sociedade móvel e expande o povoamento no espaço como tam-
em mutação que pressionava a todos, mes- bém cria novos e mais elevados padrões de
mo que em graus diferenciados, e se bem vida, melhorando as técnicas e a vida espiri-
que a massa de pioneiros sem terra era a tual da comunidade (Waibel, 1979: 281). E
mais vulnerável às modificações, também o continua:
eram os grupos intermediários, de peque- no campo da agricultura, nem o extrativísta e
o caçador nem o criador de gado podem ser
nos e médios proprietários e arrendatários, considerados como pioneiros; somente o agri-
e de pequenos comerciantes rurais e urba- cultor pode ser denominado como tal, estando
nos. Inclusive os grandes proprietários e apto a constituir uma zona pioneira. Somente
comerciantes estavam sujeitos a movimen- ele é capaz de transformar a mata virgem
numa paisagem cultural e de alimentar um
tos de ascensão e queda, com muito poucas grande número de pessoas numa área peque-
exceções. Não obstante, era uma socieda- na. Naturalmente não levo em conta a minera-
de móvel e em mutação que reproduzia, em ção e a indústria, cujo desenvolvimento, em
geral, leva a paisagens culturais urbanas. [... ]
muitas de suas formas, a sociedade conser- De uma zona pioneira, em geral, só falamos
vadora à qual parecia se contrapor. Voltar- quando, subitamente, por uma causa qual-
se-á, mais adiante, a essa questão da quer, a expansão da agricultura se acelera,
quando uma espécie de febre toma a popula-
"modernização conservadora" no Brasil. Nes- ção das imediações mais ou menos próximas
se campo, Monbeig, um observador atento e e se inicia o fluxo de uma forte corrente huma-
sensível às contradições da modernização, na, [... ] quando a agricultura e o povoamento
preferiu privilegiar o aspecto que considera- provocam o que os americanos denominam na
sua linguagem comercial um rush. Então, os
va positivo, o de "buscar o novo". Golpes, preços das terras elevam-se vertiginosamen-
turbulência e violência são fenômenos ine- te, as matas são derrubadas, casas e avenidas
rentes ao processo de buscar o novo, como são construídas, vilas e cidades saltam da
terra quase da noite para o dia, e um espírito
reafirmou, 30 anos depois, ante a "conquis- de arrojo e de otimismo invade toda a popula-
ta de terras novas" na Amazônia (Monbeig, ção (Waibel, 1979: 282).
1981: 55). Para Waibel, portanto, é o cultivo da terra
Leo Waibel era geógrafo formado na Ale- que constitui o fundamento econômico de
manha, onde se especializou em geografia uma zona pioneira. Seu parâmetro não era o
agrária da América tropical. Mais tarde, du- oeste norte-americano e, sim, o "verdadeiro
rante a Segunda Guerra, radicou-se nos camponês, segundo o conceito europeu",
Estados Unidos, exercendo cargo de pes- aquele que tem a virtude de estar intimamente
quisador e professor em universidades vinculado à propriedade, conservada através
norte-americanas. Entre 1946 e 1950, per- das gerações, passando de pai para filho e
maneceu no Brasil, como técnico contrata- deste para os netos (1979:310). O cultivo da
do do Conselho Nacional de Geografia, e foi terra deveria ser por métodos agrícolas inten-
nesse período que desenvolveu seu traba- sivos, contrapondo-se ao padrão brasileiro de
lho sobre as zonas pioneiras brasileiras expandir o povoamento de forma dispersa,
(Waibel, 1955). fundamentado nos grandes latifúndios impro-
Começando com uma das idéias de F. J. dutivos e no domínio dos especuladores de
Turner, de que a fronteira no sentido econô- terra.
mico é uma zona mais ou menos ampla, que O camponês proposto por Waibel não vive
se intercala entre o bosque virgem e a re- em uma economia fechada, primitiva. Ade-
gião civilizada - a zona pioneira -. Waibel mais de técnicas modernas, necessita de um
afirma que é preciso distinguir os dois con- produto comercial com boa aceitação no mer-
ceitos, o de fronteira e o de pioneiro. cado nacional ou internacional. Criticou a
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idéia de que fosse possível uma colonização baixa densidade de povoamento e economi-
no interior distante, a partir da fundação de. camente estagnadas. Não se localizavam a
cidades que formariam o mercado para os oeste e sim no interior da região de povoa-
colonos que, por sua vez, receberiam das mento antigo. A população se deslocava no
cidades os produtos manufaturados. Em al- sentido sudoeste, na zona de influência das
gum momento desta economia fechada teria cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. Por
que ser produzido um produto agrícola ou sua vez, o sistema agrícola de queimada da
industrial que pudesse ser colocado em mer- floresta e rotação de terras, adotado nas zo-
cados mais afastados para obter lucro, que nas pioneiras brasileiras, não era um fenôme-
constitui a "premissa fundamental para atrair no transitório, como nos Estados Unidos, mas
o colono à floresta virgem e mantê-lo lá" uma situação permanente.
(1979:310). Waibel atribuiu grande importância ao sis-
A zona pioneira é uma situação de mo- tema de cultivo para explicar os poucos laços
mento. O problema para Waibel era deter- do colono à sua terra, considerando-o como
minar se, a largo prazo, poderia vir a ser principal motivo da facilidade com que vendia
uma forma eficaz de colonização. Seu inte- a propriedade.
resse imediato pelo tema estava relaciona- Apesar de destacar o papel do mercado, da
do à sua participação no projeto do governo técnica e da urbanização, na avaliação das
dos Estados Unidos ("Projeto N") durante a possibilidades de êxito de uma zona pioneira,
Segunda Guerra, que buscava avaliar as Waibel atribuiu o mesmo peso às "condições
possibilidades de localizar nas terras ame- naturais". Nesse sentido, a Amazônia e a Re-
ricanas imigrantes procedentes da Europa. gião Centro-Oeste lhe pareceram pouco favo-
Também nesse período o governo brasileiro ráveis ao povoamento intensivo. Ao invés,
havia desencadeado um programa de ocu- considerava a região subtropical do Sudeste e
pação do interior do País. Sul do País como áreas mais fáceis de serem
A "Marcha Para Oeste", como foi denomi- economicamente aproveitadas. Nestas, e não
nado o programa, apresentava uma concep- nas outras, é que deveria ser estimulada a
ção econômica da fronteira relacionada à intensificação da agricultura. Concordava que a
expansão do mercado interno brasileiro. Se ocupação do oeste era uma necessidade, só
fosse estimulada a ocupação do interior, que mais de ordem militar do que econômica
seria possível expandir o mercado interno e, (1979:309).
com isso, criar bases mais sólidas para o A nível geral, o breve resumo e discussão
desenvolvimento industrial. Em síntese, a das contribuições dos três autores permitem
ocupação do Território Nacional e a introdu- algumas conclusões a respeito dos conceitos
ção de processos culturais modernos permi- de fronteira agrícola, espaços vazios e frentes
tiriam que a "fronteira econômica" finalmente pioneiras.
coincidisse com a fronteira política do País a) a "fronteira agrícola" seria um lugar onde
(Machado, 1989 b:661). O programa pouco é possível a criação do "novo". O "novo"
realizou de concreto, mas provocou inúme- pode ser entendido como a introdução
ros debates. Não há dúvida que o nome das formas e conceitos de vida de uma
escolhido era uma referência à "marcha civilização técnico-mercantil. A variedade
para oeste" norte-americana. Waibel se pro- no grau de utilização de técnicas e ritmos de
pôs a fazer, então, um estudo comparativo trabalho intensivos, de aéessibilidade à pro-
com as zonas pioneiras brasileiras, cha~ priedade da terra e da·organização espacial,
mando a atenção, de imediato, para as dife- que supõe o desenvolvimento de infra-estru-
renças das condições naturais, históricas e tura e de um sistema de comercialização
sociais (1979:302). eficaz, permite afirmar que a ''fronteira agrí-
Ao tratar das características de ambas as cola" é também um processo, que cria a
zonas pioneiras, especifica diferenças funda- expectativa ou a possibilidade de melhor
mentais quanto à marcha do povoamento, à padrão e qualidade de vida para a população
localização das zonas pioneiras e ao desen- rural, em sua maior parte marginalizada e/ou
volvimento da agricultura. A marcha do povoa- sem possibilidade de mobilidade social as-
mento mostrava que, no Brasil, até 1950, a cendente no lugar de origem. Por isso mes-
expansão foi linear ou por núcleos, sem for- mo, a massa de "pioneiros" é constituída
mar uma faixa contínua. Entre as zonas pio- de imigrantes. Como os imigrantes têm, em
neiras, distantes entre si, existiam terras de geral, origens culturais e sociais bastante
34 RBG

diferenciadas, e suas expectativas são he- que a baixa densidade de população era
terogêneas, a "sociedade" pioneira é mutá- considerada um indício de atraso econômi-
vel e tensa. O mesmo espírito especulativo co, desde o Século XVIII até meados do
das grandes iniciativas e a confiança no Século XX, momento em que a mecaniza-
futuro, que contrapõem os imigrantes à ção da agricultura modificou a relação ho-
população porventura existente no lugar, mem/terra. O critério de "civilização"
também os induzem a caminhar sempre parece, à primeira vista, aplicável somente
para diante, formando "frentes" de conquis- aos territórios dos índios. Na realidade, foi,
ta de "terras novas". Sem embargo, odes- e em muitos casos continua sendo, empre-
locamento espacial encontra limites. Essas gado para definir a relação de contato com
limitações são de ordem diversificada: as populações aborígines, quando dita popu-
condições naturais, o preço da terra, a lação é valorada negativamente, por crité-
extensão física da infra-estrutura sobre o rios étnicos ou econômicos (estagnação).
território ou a ausência de força de trabalho Ademais, de seus componentes ideológico-
suficiente.
científico e econômico-demográfico, o conceito
b) o sistema agrícola adotado pelos colo- de "espaços vazios" pode ter também uma
nos também pode constituir um motivo conotação político-militar, no sentido de prote-
para o deslocamento das "frentes". Se, ção e segurança do território de um Estado e/ou
ao invés da rotação de cultivos ou do de afirmação de sua potência e "destino mani-
emprego de outras técnicas intensivas festo".
de uso da terra favoráveis à permanên-
cia no lugar, o sistema adotado é o de e) a "paisagem" é um elemento fundamental
rotação de terras, a produção agrícola para a construção do conceito de fronteira
cresce por extensão da área utilizada e agrícola, frentes e zonas pioneiras. Permi-
não por melhora dos níveis de produtivi- te descrever a especificidade do povoa-
dade. Esse tipo de sistema agrícola é mento pioneiro, a respeito de um processo
produto não só da baixa capitalização a "normal" de expansão do povoamento. Nos
nível da produção, como da existência movimentos pioneiros a "paisagem" se
de "abundância de terras". transforma em ritmo acelerado, os traba-
c) a abundância ou disponibilidade de terras lhos de destruição e construção são simul-
tem uma dimensão absoluta e relativa. É tâneos e visíveis ao observador. Nesse
absoluta quando definida como determi- sentido, as noções de dinâmica e relação
nante físico (quantidade de terras), uma trabalho/tempo são essenciais para distin-
conseqüência da extensão do território. É gui-la da noção estética e literária de pai-
relativa, porque existem mecanismos so- sagem. Os conceitos de "paisagem
cioeconômicos que regulam sua apro- cultural" e "paisagem natural", como utiliza-
priação, como o preço da terra e a dos por Turner, Monbeig e Waibel, não
especulação fundiária, a condição jurídi- correspondem a um contraste simples en-
ca das terras, a expropriação por violên- tre sociedade e natureza, e sim ao grau de
cia e assim por diante. Em resumo, a domínio das formas de civilização sobre a
disponibilidade de terras é relativa por- natureza.
que o que regula o movimento de apro- f) em princípio, a "fronteira agrícola" se refere
priação não é todo o espaço e sim o à expansão da área de cultivo, excluindo a
espaço organizado, sobre o qual se de- criação de gado. A associação secular en-
senvolve a produção. Por isso mesmo é tre a ocorrência de florestas e solos férteis
que as lutas de terra ocorrem em lugares parecia indicar que as áreas de floresta
geográficos específicos, não importando eram mais favoráveis à expansão da fron-
a quantidade absoluta de terras. teira agrícola. Sem embargo, essa visão da
d) os espaços vazios são principalmente en- paisagem teve que ser modificada diante
contrados nas formações nacionais com de situações concretas. Turner, por exem-
base territorial de grandes dimensões. O plo, pôde constatar a variedade das condi-
conceito, na acepção usual, combina o cri- ções geográficas dos territórios da
tério demográfico de baixa densidade de fronteira, concluindo, afinal, que a diversi-
população e a contraposição entre espa- dade fisiográfica foi um dos principais mo-
ços civilizados e espaços não-civilizados tivos do êxito da ocupação do oeste
ou "selvagens". Aqui é preciso recordar norte-americano.
RBG 35

No caso do Brasil, o padrão secular de uso cia concreta de expansão pioneira, como um
da terra havia circunscrito a criação de gado fenômeno meramente geográfico.
às áreas de campo e savana, e o cultivo às A Figura 1 mostra grosso modo a localiza-
áreas de floresta. Isso significou a expansão ção geográfica das fronteiras agrícolas brasi-
de uma "frente pastoril" no interior, onde do- leiras. As zonas pioneiras do Século XIX (1,
minavam os grandes latifúndios e o povoa- 2, 3, 4) correspondem à expansão (marcha
mento disperso. A frente pioneira do café, e pioneira) da monocultura cafeeira em áreas
de agricultura de alimentos, ao escolher as de floresta tropical, compreendendo os Esta-
áreas de floresta, parecia confirmar o padrão dos do Rio de Janeiro, sul de Minas Gerais e
tradicional. Não obstante, Monbeig constatou São Paulo. Tal expansão se deu em função
que, com freqüência, tanto nas áreas de aber- da elevação dos preços no mercado interna-
tura da frente como em sua retaguarda, a cional.
pecuária bovina se expandia em pastagens Nas zonas pioneiras da primeira metade do
plantadas, substituindo as antigas florestas. Século XX, não só o café como outros produ-
Muitos anos mais tarde, também teve a opor- tos foram responsáveis pela ocupação de
tunidade de constatar a expansão de frentes áreas de floresta, tropicais e subtropicais. Em
pioneiras agrícolas em áreas de savana e algumas áreas dominava o café, em consór-
campo. Por conseguinte, a fronteira agrícola cio com a produção de alimentos básicos (6,
pode significar a expansão de ambas ativida- 7, 1O); outras áreas eram domínio da policul-
des e não se circunscreve às áreas de flores- tura, desenvolvida em pequenas e médias
ta. propriedades (5, 8, 9); no oeste do Maranhão
Ao revés, Waibel insistiu que, no caso bra- e extremo-norte do Estado do Tocantins, o
sileiro, somente o cultivo da terra poderia cultivo do arroz foi responsável por frentes
caracterizar o movimento pioneiro, ao consi- pioneiras, também predominando pequenas
derar o precedente histórico de fronteiras pas- e médias propriedades (11 ). Em todas elas,
toris que haviam "conquistado" o interior sem depois de alguns anos, foi introduzida a pe-
consolidar o povoamento e sem melhorar o cuária, as pastagens substituindo uma parte
padrão de vida da população. Por isso, prefe- dos antigos campos de cultivo. A entrada do
riu empregar o conceito de "zona pioneira", ao gado podia decorrer da caída do preço do café
invés de "fronteira agrícola". O outro motivo nos mercados internacionais, da demanda de
que levou Waibel a preferir a noção de "zona carne no mercado interno e/ou do rendimento
pioneira", no caso brasileiro, era sua ocorrên- decrescente das plantações.
cia em áreas limitadas, no interior da zona de
A expansão das "frentes", até 1950, decorreu
povoamento mais antigo. Essa localização
da colonização espontânea, ou foi direcionada
geográfica particular estava determinada pela
por companhias privadas de colonização, sen-
presença de vias de circulação modernas, o
do mínima a inteNenção governamental. Hoje,
que demonstrava a importância para a econo-
os estados que abrigaram as antigas zonas
mia pioneira do acesso a mercados de gran-
pioneiras do Século XIX e primeira metade do
des dimensões.
Século XX, em conjunto com o Rio Grande do
g) por último, em Turner, Monbeig e Waibel Sul, Minas Gerais e Goiás, são responsáveis
encontra-se a defesa acrítica da pequena por quase 75% de toda a produção agrícola do
propriedade rural, como forma preferencial País. No entanto, restam grandes extensões de
de colonização e organização agrária, seja terras rurais improdutivas em meio das áreas
por associação a noções de autonomia e economicamente aproveitadas.
liberdade (Turner), seja por considerá-la Diferente do passado, as "fronteiras agríco-
uma condição econômica essencial para a las" das últimas décadas estão localizadas em
melhoria do padrão de vida da população áreas de floresta tropical (14, 15, 16, 17,21, 22,
rural, e um estímulo para sua permanência 23), savanas úmidas e secas, e campos (12, 13,
no campo (Monbeig e Waibel). 18, 19, 20). Genericamente, obseNa-se que: a)
Apesar da brevidade dos comentários e da o padrão espacial está estreitamente vinculado
escolha forçosamente subjetiva e restrita de à expansão das vias de circulação; b) são cons-
autores e questões, é possível constatar a tituídas por movimentos espontâneos de imi-
multiplicidade de significados dos conceitos gração, e por iniciativa de projetos de
de fronteira agrícola, espaços vazios e frentes colonização oficial e privada; c) podem estar
pioneiras. Tal multiplicidade de significados especializadas em um único produto, como o
sugere a impossibilidade de tratar a experiên- arroz, a soja e o trigo, na policultura, ou mesmo
36 RBG

FIGURA 1
LAS FRONTERAS AGRICOLAS EN BRASIL (SIGLOS XIX-XX)

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MANAUS / •• ••• i

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• CUIABA ,., " ••••• BRAS~ ' " -
I J'r-~·~~ q, \
ZONAS PIONERAS - SIGLO X I X
~f~~;;,~ 1
/
--~

f. VALE DO PARAÍBA
2.CAMPINAS
3-S. CARLOS- RIBEIRÃO PRETO
4-BOTUCATU

ZONAS PIONERAS- !9M/TAD SIGLO X X

5.0ESTE S. CATARINA

6- NORTE PARANÁ o 150 300 600Km


7-0ESTE S. PAULO

8- SUL MATO GROSSO

9 _MATO GROSSO DE GOIÁS

lO- NORTE RIO DOCE


I I-OESTE MARANHÃO

FRONTERAS AGRO- GANADERAS- 29MITAD SIGLO XX

rn3 12 .BARREIRAS
t.;:;::j 13. CARRETERA BELÉM- BRAS(UA
14.C. ARAGUAIA-XINGOARA

15-MARABÁ
16.CARRETERA TRANSAMAZÔNICA
17. NORTE CARRETERA CUIABÁ-SANTARÉM
18. SORRISO
19.SINOP- ALTA FLORESTA
20.CUIABÁ - PORTO VELHO
2J.RONDÔNIA
22.ACRE ELABORACIÓN: LIA MACHADO
23-HUMAITÁ DIBUJO: JOSÉ CARLOS MENESCAL
RBG 37

na pecuária, com plantio de pastagens; d) dife- ção Econômica da Amazônia (1953). Com-
rem quanto ao grau de tecnificação, podendo ser preendia, de início, os territórios federais de
excepcionalmente modernas, como as frentes Rondônia, Acre, Roraima e Amapá e os Esta-
pioneiras das savanas e campos, ou extensi- dos do Pará e Amazonas (Região Norte),
vas, como as frentes pioneiras em área de acrescido dos Estados do Mato Grosso (até o
floresta tropical. paralelo 16°S), Goiás (até o paralelo 13°S) e
Maranhão (até o meridiano de 44°0). O cri-
tério geodésico foi adotado depois de largas
discussões com os geógrafos, terminando por
A FRONTEIRA AGRÍCOLA obedecer a considerações de ordem econô-
NA AMAZÔNIA mica e política, e de desenvolvimento regional
(Moreira, 1956:1 09).
Desde 1960, a divisão política do Brasil foi
A Amazônia como Conceito alterada, com a transformação dos territórios
federais em estados da Federação, a subdi-
Geográfico, Político e Histórico visão do Estado do Mato Grosso (1977) e a
Ao enfocar a fronteira agrícola na Amazô- criação do Estado do Tocantins (1988), os
nia, o primeiro cuidado que se deve ter é últimos aproveitando-se dos territórios delimi-
estabelecer a matriz territorial de referência. tados segundo as antigas linhas geodésicas.
As diferentes concepções da Amazônia inter- Esses estados, acrescido da Região Norte e
ferem especialmente nas referências de da- do oeste do Maranhão, integram a "Amazônia
dos estatísticos e áreas de desmatamento. Legal" na atualidade, com uma área corres-
Em termos da bacia hidrográfica amazôni- pondente a quase 60% do Território Nacional.
ca, a Amazônia compreende uma superfície Por certo, a alteração da divisão política
de 7 milhões de quilômetros quadrados, dos brasileira nos últimos 30 anos é, em grande
quais 4,8 milhões de quilômetros quadrados medida, uma conseqüência da expansão das
se encontram em território brasileiro, o que fronteiras agroganaderas e das ''frentes" de
significa mais da metade do País. mineração, na Amazônia.
Em termos da cobertura vegetal, apesar da A Amazônia costumava ser um exemplo de
pobreza dos conhecimentos atuais, foi possí- "região natural", uma insinuação de que a
vel determinar que o território da selva ou interferência humana era pouco ou nada notá-
hiléia (floresta perenifólia tropical) constitui vel, sem dúvida uma espécie de reformulação
somente 40% da bacia do Amazonas, existin- do conceito de "espaços vazios". Recentemen-
do outros tipos de selva que são, na realidade, te, em muitos textos de defesa da ecologia
variações da anterior (floresta subcaducifólia amazônica, mesmo aqueles que incluem a de-
tropical, floresta de várzea), cada uma com fesa das terras indígenas, o antigo conceito de
espécies diversas e estruturas complexas; a região natural é substituído pelo de "paisagem
aparente homogeneidade da selva amazôni- natural". No entanto, é impossível distinguir-
ca é rompida também por "campos" ou sava- se a "paisagem natural" e a humanizada ou
nas. "cultural" nas regiões amazônicas, devido ao
Segundo a divisão regional do País, a sistema agrícola ameríndio de rotação de ter-
Amazônia compreende a Região Norte cons- ras a longo prazo (Sternberg, 1986:44). Além
tituída pelos Estados de Rondônia, Acre, disso, o nome "Amazônia" surgiu no Brasil em
Amazonas, Roraima, Amapá, Pará e Tocan- conseqüência da explotação da borracha na
tins, e a maior parte da Região Centro-Oeste selva, e não como termo puramente científico,
(Estado do Mato Grosso). A soma das áreas de reconhecimento de uma unidade "natural".
desses estados é de 4,7 milhões de quilôme- Até o final do Século XIX, o povoamento havia
tros quadrados, ou seja, a divisão político-ad- se restringido ao vale do Amazonas e aos
ministrativa se fundamentou em um dos baixos vales de seus afluentes. A elevação
critérios geográficos possíveis, aquele corres- do preço da borracha natural no mercado
pondente ao território da bacia do rio Amazo- internacional foi responsável pela expansão
nas, mais amplo, portanto, do que a área de extensiva do povoamento nos altos vales dos
ocorrência da selva amazônica. afluentes do rio Amazonas e, pela primeira
Uma outra concepção é a de "Amazônia vez, surgiu a "unidade espacial" da selva ama-
Legal", criada para efeito de planejamento zônica, fonte da matéria-prima para a indús-
econômico e execução do Plano de Valoriza- tria de pneumáticos (Machado,1989c:381).
38 RBG

Se, na perspectiva de um observador distante, uma agricultura tecnificada e a expansão do


ou em representações cartográficas, as florestas mercado interno.
compactas e cerradas parecem sugerir algum No caso brasileiro, o modelo da CEPAL foi
tipo de "unidade", essa será sempre uma abstra- adotado, pela primeira vez, no "plano de de-
ção, tanto do ponto de vista físico quanto huma- senvolvimento nacional" (1955-1960), res-
no: a selva não é homogênea, e o espaço vivido ponsável pela implantação da estrada
por seus habitantes, desde a época pré-colom- pioneira, de ligação entre a Amazônia e o
biana até hoje, é fragmentado. Sudeste do País, conhecida como "Belém-
Qualquer que seja o critério de sua delimi- Brasília"(1958), em homenagem às cidades
tação, a Amazônia apresenta, na atualidade, situadas em seus extremos. Portanto, quando
a explotação simultânea de diversos recursos foi lançado o Plano de Integração Nacional -
-energético, mineral, vegetal e turístico. As PIN - (1970), já estavam em curso frentes
iniciativas que deram origem a essa explota- pioneiras nas áreas marginais à estrada fede-
ção são também responsáveis pelas frentes ral.
de colonização pastoril e agrícola; por isso Os objetivos do Plano de Integração Nacio-
mesmo devem ser consideradas em seu con- nal eram diversos: a) reduzir a tensão em
junto, do que se tratará a seguir. áreas rurais e urbanas, principalmente do
Nordeste do País, estimulando a imigração
As Estratégias do Governo para áreas previamente selecionadas na
Amazônia; b) considerações de ordem geo-
Federal política, como a "nacionalização dos espaços
A intervenção estatal no povoamento e va- vazios"; c) o aumento da produção de alimen-
lorização das terras amazônicas foi decisiva, tos para os mercados internos e externos; d)
no período 1965/85. Não que tenha sido a a criação de novos espaços para o investi-
primeira vez em que políticas de governo mento privado, no sentido de intensificar o
tenham tido impacto na região, como teste- ritmo de acumulação interna de capital, e
munha seu passado colonial (Machado, modificar o padrão espacial de concentração
1989a). O que pode ser considerado como das inversões no Sudeste e Sul do País,
"novo" é o uso de recursos técnicos moder- julgado como nocivo à "segurança nacional"
nos, a articulação com o capital privado na- (Costa, 1979; Kohlhepp, 1981; Becker, 1982).
cional e internacional e a integração da Os elementos básicos das estratégias ado-
colonização regional a um projeto mais amplo tadas para a região amazônica e um breve
de modernização institucional e econômica resumo das críticas que provocaram são
(Silva, 1967; Cardoso e Mueller, 1977). apresentados a seguir:
Com freqüência, a literatura sobre esse Cobertura extensiva do território por redes
período atribui a ação consertada do Governo técnicas. Investimentos públicos foram dirigi-
Federal no Brasil ao regime militar autoritário dos para a construção de estradas pioneiras
instituído em 1964. Contudo, suas premissas (12 000 km em cinco anos), para a rede de
de modernização são, em grande medida, telecomunicações (sistema de comunicação
devedoras das teorias e modelos de desen- em microondas de 5 11 O km em três anos) e
volvimento econômico elaborados no âmbito para a rede de distribuição de energia elétrica
da Comisión Economica para America Latina associada às usinas hidrelétricas de grande e
- CEPAL- da Organização da Nações Unidas médio portes. Foi criado também um progra-
-ONU-, com sede no Chile. Os economistas ma de levantamentos por radar de recursos
integrantes da organização defendiam a tese naturais (Projeto RADAM-1971 ), responsável
de que o único caminho para o desenvolvi- pela cobertura de cerca de 5 milhões de qui-
mento econômico dos países ibero-america- lômetros quadrados da região e áreas contí-
nos era o de promover, de maneira prioritária, guas. Na década de 80, foi também implantado
a industrialização, substituindo o modelo um sistema de análises de imagens multiespec-
agroexportador pela substituição de importa- trais de satélites, captadas por estação rastrea-
ções. E evidente que a idéia não era nova, e dora em Cuiabá.
sim a elaboração de modelos e de uma teoria As obras são; sem dúvida, impressionan-
econômica que a fundamentassem. Sua ado- tes e sem paralelo na história da ocupação de
ção implicaria a construção de infra-estrutura terras na faixa intertropical, representando um
física, a atração de capitais estrangeiros por- investimento de mais de 1Obilhões de dólares
tadores de novas tecnologias, a promoção de em 20 anos, uma parte financiada interna-
RBG 39

mente e outra por bancos internacionais. foram responsáveis pelo mau resultado. Não
Igualmente impressionante é o volume de há dúvida de que no caso dos projetos agro-
críticas ao impacto dessas obras. ganaderos da SUDAM, os investimentos go-
A maior parte delas refere-se ao impacto vernamentais, quer dizer, públicos, acabaram
ambiental, como, por exemplo, a ruptura de por beneficiar interesses privados em outras
ecossistemas locais pela construção de estra- áreas geográficas que não a Amazônia.
das e hidrelétricas, e o estímulo ao desmata- Outro programa de investimentos, o
mento (Kohlhepp e Schrader, 1987; Morán, POLONOROESTE, destinava-se ao apro-
1990). Sem embargo, também o impacto so- veitamento das áreas de floresta e de sava-
cial desses grandes projetos de infra-estrutu- na (os cerrados) da Região Centro-Oeste,
ra está sendo questionado, principalmente o para a melhoria da rede de transporte regio-
reduzido grau de acessibilidade da maior par- nal, a consolidação dos assentamentos ru-
te do habitantes regionais aos benefícios des- rais e a proteção dos territórios indígenas.
ses investimentos, o que agrava os conflitos Mato Grosso e Rondônia (incluído depois de
sociais e a luta por domínio de território (Fo- 1981), ambos pertencentes à Amazônia Le-
rewaker, 1981; Kohlhepp e Coy, 1986; CEDI, gal, foram os mais beneficiados. Contudo,
1988; Becker, 1990; IBGE, 1990). os resultados foram bastante heterogêneos.
Incentivo à inversão de capital privado. Um Os projetos de colonização particular de Mato
mecanismo fiscal para estimular o investimento Grosso tiveram relativo êxito na aplicação dos
de capital de firmas nacionais e transnacionais, recursos em atividades produtivas (Miran-
e de particulares, na região, foi criado em 1966. da, 1990:47), apesar de muitos deles se autofi-
Permitiu que pessoas físicas e jurídicas direcio- nanciarem com os lucros da exploração de ouro
nassem até 50% do imposto sobre a renda em e não da agricultura; já nos projetos de coloni-
projetos agropastoris e minerais na Amazônia zação oficial em Rondônia, o resultado não foi
Legal, aprovados pela Superintendência de De- o esperado. A diferenciação entre ambos os
senvolvimento da Amazônia - SUDAM. Por
tipos,de colonização é, em grande medida, uma
cada unidade monetária investida, o Banco da
conseqüência da diferenciação no grau de con-
Amazônia contribuía com três unidades mone-
trole exercido sobre os fluxos imigratórios: a
tárias, e os lucros estavam isentos de tributação
colonização privada limita o acesso de imigran-
por dez anos.
tes, enquanto áreas com projetos de coloniza-
Dos 950 projetos aprovados pela SUDAM, ção oficial constituem frentes pioneiras
631 foram para a pecuária, sendo que o tama- "abertas". O aumento da imigração parece estar
nho médio das fazendas era de 24 000 ha. As agravando os conflitos de terra e induzindo à
companhias de explotação de madeira ocu- concentração fundiária (Coy, 1987:261 ).
pam o segundo lugar, em número de projetos
O Governo Federal também tornou fácil a
aprovados. Para o Governo Federal, o inves-
timento no programa foi da ordem de 700 obtenção de crédito agrícola, através de bancos
milhões de dólares. A maior parte dos proje- oficiais (programa PROTERRA). Também nes-
tos pastoris se localizaram em áreas marginais se caso os efeitos foram diferenciados. Os mo-
da Belém-Brasília e no sul do Pará (Conceição tivos são de ordem institucional, social e
do Araguaia - Xingoara) (Figura 1). Nessa econômica: a dependência do crédito bancário
sub-região, por exemplo, foram introduzidos ao título de propriedade; o desconhecimento dos
5 milhões de cabeças de gado e 2 milhões de procedimentos institucionais por parte de grande
pessoas, no período 1960/80 (Morán, 1990:298). parte da população imigrante; o custo do crédito;
Tomados em conjunto, os projetos da os custos da comercialização dos produtos (Bun-
S U DAM, em si mesmos, apresentaram uma ker, 1985:161).
relação custo/benefício negativa; foi avaliado que O aproveitamento desigual dos benefí-
somente 10% dos projetos aprovados recebe- cios creditícios é um dos elementos deter-
ram investimentos privados, e somente 92 dos minantes da dinâmica pioneira. Diferencia
projetos, até 1988, haviam chegado às metas a produtividade e rentabilidade agrícola en-
propostas (Mahar, 1988, em Morán, 1990:290). tre os produtores, na medida em que regula
Uma parte considerável do dinheiro contábil foi a capacidade de modernização técnica; por
desviada para aplicações, de índole especulati- sua vez, a diferenciação entre os produtores
va, nos mercados financeiros do Sudeste. Tam- estimula o movimento de compra/venda de ter-
bém o desconhecimento de técnicas agrícolas ras, também contribuindo para a concetração
adequadas e experimentações de alto risco fundiária (Bunker, 1985:173).
40 RBG

Por último, alguns aspectos devem ser prietário (no sentido jurídico do termo); b) as
apontados a respeito dos investimentos priva- terras que não têm proprietário. As primeiras
dos efetivos no setor agropastoril: constituem propriedades; as segundas, terras
a) existe uma diferença, quanto à relação devolutas. As terras públicas não são obriga-
investimento/apropriação de terras, entre toriamente desocupadas ou não apropriadas,
grandes propriedades pecuaristas e grandes no sentido econômico do termo: seus ocupan-
propriedades agrícolas: no primeiro caso a tes simplesmente não possuem títulos de pro-
relação é negativa, quer dizer, a apropriação priedade. No Brasil, como se sabe, a maior
de terras e sua transformação em grandes parte das terras públicas pertencem aos esta-
propriedades foi maior do que o investimento dos locais e não ao estado central. O governo
efetivo na produção; no segundo caso, o das central superpôs sua jurisdição sobre uma
grandes propriedades para cultivo, como a parte das terras públicas estaduais, apropria-
sub-região de Sorriso, em Mato Grosso (Figu- das ou não, com o objetivo inicial de distribuir
ra 1), especializada na produção de soja e as terras entre imigrantes pauperizados, alo-
arroz, a relação tende a ser positiva. O motivo cados nos programas de colonização, ou ven-
da diferença pode ser imputado ao valor co- dê-las a baixo preço, independente da lei de
mercial do produto no mercado interno e ex- oferta e demanda, a eventuais compradores.
terno, o que confirma o pensamento de Em 1970/71 , o governo determinou que as
Waibel sobre a importância do tipo de merca- terras públicas situadas em uma faixa de 100 km
do na melhoria do padrão técnico; de cada lado das estradas construídas, em cons-
b) a partir da segunda metade da década de trução ou planejadas, com recursos federais, na
80, verificou-se uma redução acentuada na Amazônia, seriam transferidas para o domínio
concessão de incentivos fiscais, como resul- federal. Constituiu o primeiro modelo de ocupa-
tado do início da recessão econômica que se ção do território - os "eixos de desenvolvimento"
aprofundará nos anos seguintes. Em conse- (Figura 2). No Pará, por exemplo, estima-se que
qüência, se modificou o tipo de investimento 72 milhões de hectares passaram para o domínio
privado, no sentido de aumento do número de federal, no período 1971/76, reduzindo o estoque
produtores rurais capitalizados, e houve dimi- de terras públicas do estado para 26,8% de sua
nuição daqueles dependentes de incentivos área total (E leres, 1990).
(Rattner e Udry, 1987:28);
Apesar das medidas terem sido mais tarde
c) as grandes firmas e os indivíduos que revogadas (1987), permanecem como patrimô-
financiam campos experimentais para novos nio da União: os Municípios de Altamira, ltaituba,
cultivos e cobertura de pastagem e investem
Marabá, no Pará; as áreas de projetos de coloni-
de maneira relativamente constante na pro-
zação, loteamento e assentamento, ou com pro-
priedade são aqueles que estão associados a
cessos de regularização fundiária em curso, além
redes de produção extra-regionais e/ou extra-
das reservas extrativistas e áreas indígenas da
nacionais, pertencentes a uma mesma em-
Amazônia Legal.
presa ou conglomerado; isso é válido tanto para
firmas multinacionais quanto nacionais; e O modelo dos "eixos de desenvolvimento"
d) os investimentos privados nos estabeleci- coincidiu com a construção da estrada Tran-
mentos rurais não constituem, necessariamen- samazônica, ligando a região ao Nordeste do
te, um indício de presença física permanente de País. O ambicioso projeto-piloto criou o Pro-
seu possuidor no território. Com freqüência são grama Integrado de Colonização - PIC - de
empregados, na gestão das grandes proprieda- Altamira (Figura 3), com o objetivo de atrair
des, administradores com os mais variados ní- 100 000 famílias, ofertando terras de graça.
veis de preparo profissional. A colonização da Transamazônica estava
Federalização de territórios e modelos de apoiada em vilas agrícolas (agrovilas), pe-
ocupação. Outro elemento da estratégia do Es- quenos centros de serviço (agrópolis) e cen-
tado foi a criação de territórios sobre os quais tros de mercado (rurópolis), cuidadosamente
exercia jurisdição absoluta e/ou direito de pro- planejados por consultores estrangeiros e
priedade. A forma assumida por esses territórios, nacionais (Racionero, 1981:151 ). Sem dúvi-
sua localização geográfica e as justificativas para da foi o mais interessante, e tem sido um dos
essas medidas variaram no tempo. mais criticados, projeto de todos aqueles em-
A federalização de territórios incidiu direta- preendidos pelo governo. Considerado um
mente na questão das '1erras livres". As terras fracasso, inclusive pelos órgãos de planeja-
são de dois tipos: a) as terras que já têm pro- mento governamentais, o projeto de coloni-
RBG 41

FIGURA2
POLÍTICA DE OCUPAÇÃO DA AMAZÔNIA LEGAL

1970
Eixos de desenvolvimento

Estrada construi da
Estrada planeJada
Estrada prujetada

Areas onde terras


devolutas serão Incorporadas
ao governo federal

~ Polígono de desapropnaçáo

Pólos de desenvolvimento
,.------__(\./
1974
O Agncultura pecw3na

O Mmeração

Xmgu Aragua1a
Caratás J Araguam 1ocant1ns
1rombetas 5 Ahamlfa
Pré-Amazón1a Maranhense
Rondlima 8 Acre
Juruá 10 Rora1ma
'i TapaJÓS 12 Amapá
I] Juruena 14 Anpuanã ,t
SI
15 MaraJÓ _ __)

~' Áieas pnontanas )


,r

Programa Grande Carajás

~ PGC 11 Cara1as
~
Núdeos urbanos
larn HXXJ hab.)

:xJ - 100

100 500

500 - 100J

F'ig.2

Elob. L ,Mochod o.l986
42 RBG

FIGURA3
SUR DE PARA: LA MUNICIPALIZACION DE NUCLEOS PIONEROS- 1990

C!) NúCLEOS PIONEIROS - NUEVOS MUNICIPOS

• CIUDADES PA!NCIPALES

AREA DE COLONIZACióN OFICIAL


~ (PROYECTO INTEGRADO DE COLONIZACION)
o LIMITE DEL PROYECTO CARAJAS
(MINERACION Y SIDERURGIA)
(Z] LIMITE DEL ESTADO

8 FERRO·CARRIL CARAJAS·HAOUI

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BRASIL/A
RBG 43

zação da Transamazônica não foi terminado hidrelétrica de Tucuruí e construída uma es-
em grande parte devido ao choque do petróleo trada de ferro, com 890 km de extensão,
(1973), que aumentou astronomicamente o cus- ligando Carajá ao pólo siderúrgico de Marabá,
to das rodovias (Machado, 1987:199; Mo- e ao porto de ltaqui, em São Luís (Maranhão),
rán, 1990:299). para exportação de minério de ferro e, even-
O segundo modelo de ocupação regional tualmente, de produtos agrícolas da região.
foi armado em torno dos "pólos de desenvol- Ademais, expandiu-se a trama viária intra-re-
vimento", fundamento no conceito de vanta- gional.
gens comparativas. O investimento seria Apesar do reduzido interesse do mercado
canalizado para 15 pólos regionais, cada pólo financeiro internacional e da posição contrária
especializado em determinadas atividades de de muitos países industrializados, o Progra-
produção, agrícola e mineral. O início da re- ma Grande Carajás é uma realidade devido
cessão, ao limitar a disponibilidade financeira aos investimentos do capital privado industrial
do Estado central, obrigou-o a escolher áreas do Sudeste do País e da Companhia Vale do
prioritárias para investimentos, ou seja, aque- Rio Doce - CVRD.
las áreas com maior potencial na obtenção de Como era previsível, o PGC tem sofrido
l.:;e>n~.l<~"';n:; imediatos. Ademais, a política de inúmeras críticas. A degradação ambiental
distribuiç&.o de terras foi modificada, dando-se provocada pelo uso de carvão vegetal nas
preferência às empresas rurais e aos imigran- pequenas siderúrgicas e a poluição do ar e
tes mais capitalizados. dos rios são uma fonte de novos problemas,
Um dos setores considerados como priori- quando outros, como o saneamento básico
tários foi o da explotação mineral. Os pólos urbano e rural, não foram solucionados. Do
que receberam ajuda governamental efetiva ponto de vista da agricultura, o resultado tem
foram o de Trombetas (bauxita), Carajás (fer- sido ambíguo. Muitos pequenos produtores
ro, ouro, manganês, tungstênio), Rondônia agrícolas estão sendo transformados em pe-
(estanho), Juruena/Tapajós (ouro). No que quenos produtores de hulha para os em-
se refere às atividades agrícolas e de coloni- preendimentos indutriais. Por outro lado, o
zação, a ação governamental concentrou-se crescimento urbano tem ampliado o mercado
nos pólos de Rondônia e sul do Pará. para produtos agrícolas, tratando-se agora de
De novo, o programa governamental so- uma concorrência entre a frente "mineral-si-
freu um corte abrupto em 1979, em conse- derúrgica" e a frente agrícola. Uma outra
qüência do segundo choque do aumento de conseqüência é o aumento do preço das
preços do petróleo e da elevação das taxas terras simultâneo ao aumento do fluxo imi-
de juros. O Banco Mundial e os Bancos inter- gratório, o que tem agravado os conflitos na
nacionais começaram a pressionar, como até região (Barros, 1987:73; Almeida, 1987:77;
hoje o fazem, no sentido de reduzir gastos Peixoto, 1987:80).
públicos. Tratava-se de suspender os progra- Desapareceram os problemas de mão-
mas em curso ou estabelecer novas priorida- de-obra, devido à concentração demográfi-
des. ca em Marabá, Imperatriz e nos pequenos
A contenção de investimentos públicos, o núcleos urbanos locais. De outra parte, as
estímulo à exportação e a otimização da rela- modificações na organização do território ti-
ção tempo/custo foram os parâmetros da veram conseqüências políticas importantes,
nova estratégia. Nesse contexto, foi formula- aumentando a massa de votantes urbanos.
do o Programa Grande Carajás, cuja preten- Grande parte dos antigos núcleos pioneiros
são inicial foi a de canalizar inversões de colonização são, atualmente, sedes de
nacionais e internacionais para o desenvolvi- novos municípios, existindo numerosas soli-
mento de um pólo minerossiderúrgico, funda- citações de autonomia municipal por parte de
mentado na explotação da província mineral outros núcleos (Figura 3).
de Carajás, considerada uma das maiores do
planeta (18 bilhões de toneladas de minério Apropriação de Terras,
de ferro, no teor de 66%). A escala espacial Especulação Fundiária e os
do programa (10,6% do Território Nacional)
Limites da Geografia
permitiria o planejamento integrado da infra-
estrutura necessária ao fomento de outras Em 1985, a área total dos estabelecimen-
atividades econômicas que não só a minera- tos rurais na Amazônica Legal, com exclusão
çã.o. Foi completada a construção da usina do Maranhão, somava cerca de 100 milhões
44 RBG

de hectares (Anuário Estatístico do Bra- implantação dos projetos não coincidiram em


sil, 1991}. Em 1960, o total era de pouco mais sua maior parte com as áreas mais povoadas.
de 31 milhões de hectares, o que significa que fv1" .: .. o que de maneira dispersa, a popu-
a apropriação de terras, para qualquer tipo de lação nativa, ela mesma descendente de flu-
uso produtivo, incluindo o extrativismo vege- xos imigratórios anteriores, localizava-se às
tal, aumentou mais de três vezes em 25 anos, margens dos grandes rios e no baixo rio Ama-
principalmente no período 1975/85. O au- zonas (Velho, 1972; Machado, 1989c). As ter-
mento é impressionante; sem embargo, a ras interiores eram domínio das tribos
área total dos estabelecimentos rurais consti- indígenas, dos criadores de gado nas áreas de
tui pouco mais de 2% da área total da Ama- campo e savana, e de coletores dos produtos
zônia Legal, excluindo de novo o Maranhão. naturais da selva, principalmente de castanha
Apropriação não é o mesmo que proprieda- (Bertholletia excelsa), caucho (Castilloa ule1),
de da terra. Os responsáveis pelos estabeleci- seringueira (Hevea brasiliensis), e guaraná
mentos rurais podem ser proprietários (firmas (Paullinia cupania); eram áreas, portanto, de
ou indivíduos), ocupantes (sem título de pro- densidade demográfica extremamente baixa
priedade), rentistas e arrendatários, ou colonos (menos de 1 hab./km2 (Moraes, 1908; Ribei-
aguardando título de propriedade definitivo. Os ro, 1977:21 ). Possuir títulos de propriedade era
dados sobre a área total das propriedades são uma exceção e não a regra geral, mesmo quan-
menos confiáveis, pois grande parte delas não do se tratava de grandes explotadores. Assim
estão discriminadas ou em situação jurídica mesmo, as irregularidades na titulação legal
irregular. Assim mesmo, o último Recensea- não impediram a venda ou expropriação de
mento (1980) mostrou que as Regiões Norte e grandes áreas extrativistas, principalmente nos
Centro-Oeste e os Estados do Maranhão e Estados do Acre e Amazonas, ocasionando a
Piauí apresentam a mais alta proporção de redução da área dos estabelecimentos rurais e
produtores não proprietários, concentrados nos provocando inúmeros conflitos (IBGE, 1990}.
estabelecimentos de tamanho mais reduzido Sobre essas áreas foi superimposta a nova
(Mesquita e Silva, 1988:96}. infra-estrutura viária que cortava os afluentes
Por sua vez, a área total média dos grandes do rio Amazonas no sentido este-oeste, apro-
estabelecimentos mensurados em termos de veitando, em muitos casos, antigos núcleos
maior valor de produção, na Região Norte e urbanos ligados à rede fluvial. Cada estrada
Centro-Oeste, é de 1O 400 e 5 600 ha, respec- construída ou planejada, cada área selecio-
tivamente, sendo a média nacional 1 300 ha. nada para distribuição ou regularização de
São responsáveis por somente 8,5% da produ- lotes, e o próprio ritmo e forma adotada de
ção total de ambas as regiões. Significa que os assentamento orientaram o processo de
estabelecimentos rurais com grandes áreas apropriação de terras (Machado, 1990:11 0).
(mais de 5 000 ha) se apropriaram das terras É evidente que não é possível o controle
sem interesse ou condição de desenvolver seu total da regularização dos títulos da terra em
uso produtivo e, de outra parte, que os peque- situações de expansão pioneira, mesmo
nos estabelecimentos (em valor da produção) quando o Estado interfere diretamente, como
são responsáveis por uma parte considerável na Amazônia. Não só devido ao fluxo de
da produção agropecuária efetiva. imigração espontânea e à superposição de
Na realidade, a ociosidade das terras é um direitos de ocupação, como em conseqüência
traço característico de todos os estabeleci- das próprias formas de apropriação. Ao con-
mentos rurais, e não somente dos maiores trário do processo que Monbeig descreveu,
estabelecimentos: a Região Norte detém áreas gigantescas foram compradas ou esco-
11,7% e a Região Centro-Oeste, 25,5% do lhidas por avião. Assim, muito imigrante que
total de terras ociosas no Território Nacional. havia corrido adiante dos grupos de constru-
Terras ociosas não é algo específico da Ama- ção de estradas foi ingratamente surpreen-
zônia. Considerando a área total dos estabe- dido, anos depois, pela notícia de que seu
lecimentos rurais do Brasil (369 milhões de pequeno lote pertencia legalmente a uma
hectares/1980), vemos que 13% estão ocupa- desconhecida e impessoal empresa. Por ou-
dos por cultivos permanentes e temporários e tro lado, é bastante freqüente que colonos e
uns 51% por pastos. ocupantes vendam seus direitos de ocupação
O padrão espacial do processo de apropria- (sem titulação legal) aos novos imig~antes ou
ção de terras acompanha fundamentalmente a a outros colonos, ou proprietários. As vezes
construção de novas estradas e a implantação para comprar terra adiante, em áreas menos
de grandes projetos de colonização, hidrelétri- valorizadas, às vezes para voltar a seu lugar
cos e mincais. As áreas escolhidas para a de origem.
RBG 45

A subida do preço da terra é um dos moti- cam-se principalmente à própria subsistência,


vos da mobilidade dos imigrantes e tem con- e o excedente da produção é trocado no
seqüência sobre o ritmo de desmantamento. mercado (Martins, 1973:45).
Em Rondônia, por exemplo, é possível ter um É evidente a conotação geográfica dessas
lucro líquido de 9 000 dólares, depois de distinções, independente das intenções dos
desmatar uma área de 14 ha e vendê-la (Ma- autores. A partir da localização geográfica, do
har, 1988:38 em Morán, 1990:302). Diante da tipo de uso da terra e das relações de cada
oportunidade, a especulação fundiária não é unidade de produção com o mercado, seria
um privilégio dos mais ricos. Contudo, são os possível classificar, seguindo premissas con-
grandes compradores de terra na Amazônia, ceituais determinadas, os espaços apropria-
quer dizer, aqueles que não a utilizam de dos na fronteira agrícola. O problema está em
maneira produtiva, esperando a subida de que a conotação geográfica ajuda a formar
preços, ou realizando loteamentos privados, uma imagem de contraposição entre formas
que apontam para uma característica estrutu- capitalistas e não-capitalistas de produção,
ral do campo brasileiro. ou mesmo entre formas produtivas e formas
No caso específico do Brasil, o desenvolvi- especulativas de capital.
mento capitalista associou o grande capital Na realidade, existe a subordinação da eco-
monopolista ao latifúndio, através da transfor- nomia camponesa à estrutura geral (capitalista)
mação da propriedade da terra em título finan- da economia. A pequena produção agrícola
ceiro; em conseqüência, a propriedade produz alimentos a baixo preço, barateando o
capitalista da terra é utilizada pelo grande custo de reprodução da mão-de-obra urbana,
capital, pelo capital em geral e pelo capital e, ao mesmo tempo, constituindo uma reserva
aplicado na agricultura (Silva, 1984:42). Sig- de mão-de-obra, que se reproduz por si mesma
nifica que a debilidade da atividade produtiva a níveis mínimos de subsistência. Por outro
no campo não impede a formação de um lado, a especulação fundiária e os latifúndios
intenso mercado de terras. O processo infla- tampouco são formas que se contrapõem às
cionário somente acentua o papel da terra formas produtivas de capital, na medida em
como "reserva de valor". As implicações polí- que têm em comum o mesmo regime de
ticas para a reforma agrária são evidentes, acumulação. Ademais, como se verá, o mais
pois não existe possibilidade, como ocorreu comum é a existência simultânea de diferen-
em outros países, de que uma ruptura entre o tes estratégias de exploração em um mesmo
latifúndio e o grande capital possa alterar as território.
vias de desenvolvimento capitalista em uma
A possiblidade de associar a paisagem ao
direção mais democrática. conceito, na caracterização do pioneirismo
Não se deve subestimar a importância de em área rural- de zonas pioneiras cultivadas,
tal dinâmica, ao considerar-se a apropriação modernas e capitalizadas, e a fronteira de
do espaço amazônico. No processo de apro- grandes latifúndios improdutivos e semicivili-
priação, formam-se estabelecimentos rurais zados do sertão, como proposto por Waibel
produtivos e não-produtivos. Independente -, deixou de existir faz muito tempo. Se a
do tamanho, esses estabelecimentos apre- paisagem permanece, o sentido é totalmente
sentam níveis diversos de capitalização. Tal outro.
constatação tem levado alguns autores a ten-
tar estabelecer uma tipologia de frentes pio-
neiras: frentes de substistência vs. frentes O Uso Agrícola do Solo
comerciais ou capitalistas (Katzman, 1977);
frentes demográficas vs. frentes econômicas Os sistemas agrícolas na fronteira amazô-
(Sawyer, 1986); frentes camponesas vs. fren- nica são bastante diversificados. Diversos
tes especulativas (Sawyer, 1986). Uma tenta- motivos podem ser apontados. Alguns deles
tiva anterior, fundamentada em Waibel e, são comuns às frentes pioneiras em geral: a
indiretamente, em Turner, serviu de modelo experimentação e a especulação comercial,
para as sucessivas distinções: existiria uma por exemplo, que são características da agri-
"fronteira econômica", caracterizada por uma cultura em sentido amplo, são mais marcan-
economia voltada ao mercado, portanto, ca- tes nas fronteiras pioneiras; ou a qualidade
pitalista; e uma "frente de expansão", ou "fron- diferenciada dos solos, e o desconhecimento
teira demográfica", com economia de dos efeitos das práticas agrícolas sobre a
excedente, ou seja, seus participantes dedi- fertilidade do solo (Bowman, 1931 :76).
46 RBG

Outros motivos são específicos à região, agrícola, o problema maior está no uso do
entre eles, o desnível extremo dos graus de solo nas terras firmes.
capitalização, a questão da apropriação de Outro problema, também polêmico, é a
terras, a diversidade cultural dos agentes so- expansão da pecuária: estima-se que a área
ciais, o acesso diferenciado aos sistemas de desmatada para plantio de pasto ocupa pelo
comercialização e as características próprias menos 1Omilhões dos 25 milhões de hectares
da selva amazônica. desmatados até 1988 (Morán, 1990:289).
Pode ser interessante começar por uma Apesar dos subsídios governamentais terem
breve referência aos dois principais ecossis- sido responsabilizados por essa expansão,
temas amazônicos, produto do trabalho mile- estudos recentes mostram que o motivo para
nar do rio Amazonas e seus afluentes: a o desmatamento está na própria dinâmica
planície aluvial ou várzea e as terras não pioneira, de construção de estradas, urbani-
alagadas são constituídas por aluviões flu- zação e deslocamento de novo tipo de imi-
viais recentes, denominadas de terra firme. A grante, criando um mercado interno regional
terra firme delirnita o vale do rio Amazonas de que aumenta o preço da carne.
ambos os lados, recoberta em grande parte A título de ilustração, nos limitaremos aqui
pela floresta alta amazônica, e pode ser con- a apresentar os resultados obtidos por duas
siderada o ecossistema mais diversificado e pesquisas sobre o uso do solo em terra firme
complexo que se conhece sobfe a Terra (Sio- por grupos de pequenos produtores.
li, 1983:28).
A primeira pesquisa (Coy, 1987) trata do
A várzea, de solos mais férteis, ocupa cer-
ca de 3% da região amazônica, uma área maior e mais antigo projeto de colonização
equivalente a pouco menos da metade da oficial em Rondônia (1970), o Projeto Integra-
Grã-Bretanha. Por sua vez, as terras firmes do de Colonização- PIC, Ouro Preto-, desti-
apresentam solos de fertilidade bastante di- nado ao assentamento de famílias imigrantes
versificada e, principalmente, reações muito procendentes de diversas regiões brasileiras.
Os exemplos descritos pelo autor constituem
diversas ao uso intensivo, desde caída da
fertilidade e desertificação, até problemas o resultado de oito a dez anos de trajetória
com plantas invasoras (Morán, 1990:271 ). pioneira na área (Figura 4: exemplos 1, 2, 3, 4).
Mesmo assim, estima-se que 10% da região O exemplo 1 representa o uso do solo
são constituídos por solos férteis, as ''terras destinado, em primeiro lugar, à garantia da
roxas" estruturadas eutróficas de parte de própria subsistência da unidade familiar, com
Rondônia e do baixo Tocantins e Xingu (sul base no cultivo de alimentos básicos (milho,
do Pará), semelhantes àquelas encontradas arroz, feijão e mandioca). Somente o exce-
pelos pioneiros paulistas na marcha do café. dente é comercializado e somente é utilizada
Nenhum desses dados deve ser motivo de a força de trabalho familiar. Ademàis, uma
assombro, considerando a imensidão da re- renda adicional é obtida pelo emprego assa-
gião. Por outra parte, é preciso o maior cui- lariado em outros lotes próximos.
dado para não generalizar as observações O exemplo 2 representa uma unidade de
sobre as condições naturais amazônicas. produção orientada para a comercialização do
A respeito do uso da terra, existe um inten- produto agrícola. O volume de produção e o
so debate na comunidade científica sobre tamanho da área cultivada é maior do que no
qual é o sistema mais adequado para a pre- exemplo anterior. Apesar da base econômica
servação da selva. Existem os defensores de ser idêntica, com o cultivo de arroz, milho e
uma volta ao sistema agrícola de rotação de feijão, a proporção da produção comercializada
terras (cultivo itinerante) adotado pelas anti- é a maior. Aparece uma experimentação com
gas populações nativas, como exemplo de cultivos perenes, principalmente seringueira
uma cultura em equilíbrio com o ambiente, o (hevea), com financiamento de programa de
que manteria baixa a densidade demográfica; fomento governamental, e café, implantado
alguns autores defendem a preservação da com os próprios recursos do produtor, proce-
terra firme, limitando a agricultura às áreas de dente de antiga zona cafeeira do Suldeste do
várzea; e outros mais defendem o desenvol- País. Por certo, o café é um dos principais
vimento de novas técnicas de manejo am- cultivos em Rondônia, com rendimento médio
biental que permitam o uso produtivo com por hectare (689 kg/ha) próximo do nível de
menor custo ecológico. O debate deixa claro São Paulo (814 kg/ha), se bem que inferior ao
que, do ponto de vista do desenvolvimento do Pará (1 656 kg/ha). No exemplo 2, aparece
RBG 47

FIGURA4
PEQUENOS PRODUCTORES EN AMAZONIA: USO AGRICOLA DE LA PROPIEDAD
USO AGRICOLA EM 4 LOTES DO PIC "OURO PRETO" 1983 - RONDôNIA
Ejemplo 1 E]emplo 2

Casa de parcele1ro

Casa de mee1ro

Casa de "d1ar1sla"

Casa de agn!gado

o Tulha, Chiquf!iro, etc

C01ra1

"Unl1a"

Córrego

1~: ~ ~~1::c~r=n~~:;:;,: : d:e:~!~têncla


1 0

Café

:~=-::-J Cacao

- Banana

O Pasto

L·2J Uso consorc1ado (p e café /la'Júura branca)

~ 10bovmos

~ Mata

250 500 m

Area Total Propr1edad -=- 100 ha

EJEMPLO 5 EJEMPLO 6

-
LOTE DE RIO PRETO DA EVA LOTE DEL PROVECTO DE COLONIZACióN "JUMA"
(COLONIZACióN EXPONTÂNEAI -AMAZONAS - 1987/88
-AMAZONAS 1987/88
CASA DO PROPAIETAAIO

r=:J CASA DE H AAI NA

[';'11 ARROZ, MAIZ, FRIJOLES, MANIOC Y OTRAS


CULTURAS DE SUBSISnNCIA
D GAFE

!mil GUARANA

~ AABOLES FRUTIFEAAS

~ BOSQUE SECUNDAAIO

IE'll BOSQUE

ELABORACIÓN ; INSTITUTO NACIONAL DE


PESQUISA DA AMAZONIA, 1988
AREA TOTAL PROPRI EDAD ~ 25 h a AREA TOTAL PROPRIEDAD = 96,00 ha
AREA CULTIVADA c 3 DO ho ÁREA CULTIVADA =- 14.00 ha
48 RBG

o rentista (parceiro), além do uso de mão-de- colonos "sem terra". Por exemplo, na área
obra familiar. estudada, 63% das 193 famílias que vivem
O exemplo 3 se distingue dos anteriores nos lotes não são proprietários da terra, em
pela importância da criação de bovinos, ape- grande parte devido à redução drástica dos
sar da lavoura branca e do café contribuírem projetos de colonização oficial.
também para o rendimento familiar. A maior O segundo trabalho é um relatório do Ins-
parte da área desmatada do lote foi transfor- tituto Brasileiro de Pesquisa da Amazônia -
mada em pasto plantado. A transformação INPA-1988- para avaliar diferentes estraté-
das áreas de cultivo em pasto, portanto, não gias de sobrevivência de pequenos produto-
é uma tendência típica somente do grande res rurais em áreas de terra firme e várzea, no
estabelecimento rural, afirma o autor, sendo Estado do Amazonas. Foram escolhidos três
verificada também na agricultura "campone- tipos de colonização dirigida, diferenciados
sa". Dos 79 lotes analisados, a proporção de segundo o período em que foram executados,
pasto na área desmatada em cada lote é, em o tipo de migrante, a concentração demográ-
média, de 44% (1984). Os motivos para o fica agrícola.
aumento da criação de bovinos seriam: a) ris- Rio Preto da Eva (1968) se caracteriza pelo
cos econômicos menores em relação aos culti- domínio da colonização espontânea, apesar
vos temporários e perenes; b) o bovino como de ter sido originariamente um projeto oficial
"reserva de valor" em situação inflacionária da de colonização associado à criação da Zona
economia do País; c) o plantio de pasto valo- Franca de Manaus. Na fase "oficial" predomi-
riza o lote; ao revés, a capoeira (mata secun- navam imigrantes da Região Nordeste do
dária) desvaloriza, mesmo que melhor do País; na atualidade, 60% dos colonos nasce-
ponto de vista ecológico; d) a possibilidade ram em outras áreas do Estado do Amazonas
de aluguel do pasto, aumentando a renda e 40% são nativos do próprio lugar. Distante
familiar; e) o valor simbólico de ser criador, 100 km da cidade de Manaus, localiza-se na
considerado indício de ascensão social margem da estrada Manaus-ltacoatiara. Pre-
(Coy:259). dominam o cultivo de lavoura branca para o
O exemplo 4 representa o tipo de colono autoconsumo, sendo o excedente comerciali-
orientado para a comercialização total dos zado, e o cultivo de árvores frutíferas tropi-
produtos agrícolas. Principalmente, o café cais, também para comercialização (Figura 4:
(cultivo perene), o mais valorizado, a lavoura exemplo 5). Foi avaliada como a mais paupe-
branca (cultivo temporário) em associação rizada das três áreas analisadas.
como o cacau (cultivo perene) e uma área de O projeto de colonização dirigida de Jumá
experimentação com seringueira (cultivo pe- (1982) se caracteriza pelo domínio de imi-
rene). Os cultivos perenes contam com finan- grantes do Estado do Rio Grande do Sul
ciamentos especiais do governo. O custo da (54%). Foi localizada na margem da rodovia
mão-de-obra é um fator importante, utilizan- Transamazônica (km 640), no vale do rio Ma-
do-se rentistas e assalariados temporários da deira. Ao contrário do anterior, os colonos
região, além do trabalho familiar. cultivam espécies industriais, sob a forma de
Na avaliação de Martin Coy, um mesmo monocultura, o produto sendo destinado à
sistema regional comporta diferentes estraté- exportação, lavoura branca, principalmente o
gias econômicas, indicando um processo rápi- arroz e o milho, e árvores frutíferas (Figura 4:
do (dez anos) de diferenciação socioeconômica exemplo 6). Foi avaliado como o mais susce-
no interior do grupo de colonos. Para o autor, a tível à adoação de sistema agrícola moderno.
viabilidade dessas estratégias a largo prazo Bela Vista foi fundada em 1941 , com colo-
dependerá das condições individuais, das res- nos japoneses e do Nordeste do País. Em
trições ecológicas e da força de regulação do 1971, foi superposto um projeto integrado de
mercado, além de uma política governamental colonização, com colonos do Estado do Ama-
para equilibrar os conflitos entre as diferentes zonas, que constituem, na atualidade, 50% da
estratégias (pág.259). população presente na área, e os outros 50%
Por último, o mesmo autor mostra duas por seus descendentes e descendentes dos
tendências simultâneas na evolução da estru- imigrantes japoneses. Foi avaliado como o
tura fundiária, por certo verificada em outras mais estável, do ponto de vista econômico,
sub-regiões amazônicas: a concentração e a alterando o cultivo de plantas perenes, tem-
fragmentação da propriedade da terra, e a porárias e a avicultura, comercializando a to-
emergência e perpetuação de uma classe de talidade da produção.
RBG 49

As três áreas recebem assessoria técnica vas que permitam a sobrevivência de uma
de agrônomos da EMATER, Órgão do Gover- parte dos produtores rurais (Eden, 1978:458).
no Federal voltado para a extensão rural, que Alguns dados gerais sobre a produção
tem privilegiado a adoção de sistemas agro- agrícola amazônica colocam na devida pers-
florestais, como alternativa aos sistemas de pectiva a evolução do uso do solo.
cultivo mais predatórios. No período 1950-85, o número de bovi-
Uma avaliação genérica dos três tipos de nos cresceu de 1 milhão para 5,4 milhões
assentamento permite algumas conclusões: de cabeças na Região Nordeste. Se forem
a) a integração progressiva das áreas à eco- acrescentados os Estados do Tocantins e
nomia nacional, através dos sistemas de co- Mato Grosso, o total em 1985 era de 15,5
mercialização, torna o povoamento vulnerável milhões de cabeças. Representa, em ter-
às ocilações da política agrícola; mos relativos, 80% do rebanho (cabana) de
São Paulo e somente 3% do total nacional.
b) ao contrário de Rondônia, todos os produ-
tores apontam a baixa oferta de força de
A área de pasto artificial foi estimada em
15,9 milhões de hectares em 1985, incluí-
trabalho como um dos principais fatores limi-
dos os Estados do Mato Grosso e Tocantins
tantes à expansão da produção agrícola. Con-
(Anuário Estatístico do Brasil, 1991).
siderando o reduzido emprego de máquinas
e equipamento, se evidencia a continuidade A área de cultivo temporário e permanente
do padrão tradicional de baixa produtividade cresceu, no mesmo período, de 234 000 ha
e extensão territorial da área cultivada; para 2,1 milhões de hectares na Região Nor-
te. Se somado à área de cultivo dos Estados
c) predomina o autofinanciamento, por moti-
do Tocantins e Mato Grosso em 1985, o total
vos diversos: os altos juros bancários, o re- da área cultivada sobe para 4,8 milhões de
ceio de perder a propriedade, a distância das hectares. Representa 9% do total de área em
agências financiadoras e a dificuldade de ne- cultivo dos estabelecimentos rurais brasilei-
gociar com os gerentes da rede bancária; ros (Anuário Estatístico do Brasil, 1991).
d) há uma relação entre o uso do solo e a O ritmo de desmantamento, no período
situação fundiária: a maior parte dos colonos 1975/88, foi de 2,2% de selva por ano, calcu-
não tem título definitivo da terra, pois é exi- lando-se em cerca de 8% a área já desmatada
gência do governo demonstrar tempo de per- da selva amazônica.
manência no lote; assim, o plantio de espécies
perenes é uma maneira de evitar a instabi-
lidade comercial do cultivo de ciclo curto, Relações Cidade-Campo
assegurando o uso produtivo do solo a largo
prazo; O processo radical de reordenamento es-
pacial, o fluxo imigratório contínuo dos "sem
e) também foi constatada uma relação entre terra" e subempregados rurais e urbanos de
o fluxo imigratório dos habitantes do próprio outras regiões brasileiras e a concentração
Amazonas, a situação fundiária e a geoecolo- fundiária nas áreas com melhor infra-estrutu-
gia local: as áreas das várzeas amazônicas ra são os principais reponsáveis pela explo-
são de difícil titulação, devido à inundação são demográfica das cidades amazônicas.
sazonal e à erosão das margens dos rios; em Não só cresceu o número e tamanho das
conseqüência, os habitantes da várzea mi- cidades como também a ''favelização" (cha-
gram para as áreas de terra firme, mais favo- bolas) dos assentamentos rurais. Não é um
ráveis à obtenção de títulos de propriedade; e exagero afirmar que a expansão da fronteira
f) no projeto Jumá, observa-se o aumento agrícola se faz num contexto urbano.
progressivo do plantio de pasto com o objetivo Na origem da relação entre núcleos urba-
de alugá-lo para os grandes criadores de bo- nos, fluxo imigratório e organização agrária,
vino da região. encontra-se o antigo problema de criar-se
Na prática, portanto, o uso do solo depende uma reserva de mão-de-obra em área com
de uma série de condições que escapam ao "abundância de terras". Mesmo que fosse
controle do produtor direto. Em qualquer parte possível a distribuição de todas as terras entre
do território, há uma tendência de desenvolver pequenos produtores, as formas capitalistas
"estratégias compartimentadas" de explotação de produção necessitam de disponibilidade
da terra, o que, até certo ponto, constitui uma de mão-de-obra. No caso das atividades
forma de adaptação às condições ambientais, agrícolas, é preciso mão-de-obra disponível
possibilitando o desenvolvimento de alternati- para determinados trabalhos, em determina-
50 RBG

dos períodos do ano. De outra parte, a apro- mal" (doméstico, vendedor, servente). De ou-
priação privada das terras expulsa e, portan- tra parte, o núcleo urbano é também local de
to, "libera" a população outrora ocupante das residência de pequenos proprietários e ocu-
terras devolutas. Ao mesmo tempo, o preço pantes, e, com menor freqüência, de fazen-
da terra pode dificultar o acesso à proprieda- deiros. Para esse grupo, a localização da
de, ou um determinado uso do solo dispensar família na cidade permite acesso à escola,
o emprego de mão-de-obra permanente. A serviços de saúde, atividade comunitárias,
alocação de uma massa crítica de trabalha- segurança, além do aspecto já mencionado
dores em um espaço progressivamente priva- de oportunidade de emprego ou atividade al-
tizado só pode se realizar nos espaços ternativa para o próprio trabalho ou membros
possíveis de serem socializados, ou seja, no de sua família.
espaço urbano (Machado, 1990: 112). As cidades constituem centros de serviços
Considerando somente os núcleos urba- e comércio, porém o grau de articulação entre
nos classificados como cidade por serem se- cidade e campo depende da atividade domi-
des municipais, a população em núcleos de nante no entorno rural. Nas áreas de pecuá-
50 mil habitantes duplicou entre 1970 e 1980, ria e de agricultura mecanizada, por exemplo,
representando 49% e 53% da população ur- a produção é escoada através das estradas,
bana total, respectivamente. As cidades entre sem passar pelo núcleo urbano, transfor-
50 mil e 250 mil habitantes representavam mando-o em pequeno centro de serviço e
14,5% em 1970 e 18% da população urbana aglomeração da mão-de-obra eventualmen-
total em 1980. Manaus e Belém, as duas te empregada nos estabelecimentos rurais.
metrópoles regionais, ultrapassaram os 500 Se muitas cidades acolhem massas de
mil habitantes em 1980, reduzindo sua parti- imigrantes sem oferecer alternativas de em-
cipação no total de 34,5% para 29%. prego urbano, criando, por conseguinte,
As cidades têm crescido em ritmos diver- bairros de "favelados" e hordas de desem-
sos e de forma diferenciada quànto ao núme- pregados e subempregados, principalmente
ro e qualidade das funções urbanas, existindo se o setor rural for incapaz de absorver a
uma interação entre elas, tanto do ponto de mão-de-obra o ano todo ou mesmo sazonal-
vista de movimento populacional como de mente, é verdade também que as cidades
bens, configurando, pela primeira vez, na his- oferecem para outros, dependendo do grau
tória da urbanização regional, uma rede urba- de desenvolvimento da economia urbana, a
na não dentrítica. De maneira geral há uma oportunidade de acumular capital, muitas
correspondência entre o aumento do tama- vezes direcionado para a compra e explora-
nho urbano e a chegada das "frentes de po- ção de propriedades rurais na periferia da
voamento"; por outro lado, tem ocorrido, até cidade (Dados de campo, 1981, 1983). Esse
recentemente, uma defasagem entre o apa- é um aspecto fundamental no momento
recimento de novos núcleos urbanos e sua atual de redução dos investimentos públi-
instituição oficial como cidade, uma vez que cos, pois, pela primeira vez na história re-
seu reconhecimento depende da criação do cente da região, o processo de acumulação
município (Machado, 1990:120). "interna" de capital se torna tão ou mais
Um aspecto fundamental das relações ci- importante do que a entrada de novos capi-
dade-campo é a extrema mobilidade da força tais de origem "externa" à região.
de trabalho, tanto de imigrantes como de na- Um outro aspecto fundamental das rela-
tivos da região: entre campo e cidade, no ções cidade-campo é a formação de um nexo
próprio campo, no interior da cidade, entre territorial de tipo urbano independente, em
atividades sazonárias rurais e urbanas, e en- certa medida, da rede de cidades. Esse fenô-
tre diversos tipos de atividade na mesma uni- meno não é estranho às regiões de povoa-
dade de produção (Becker e Machado, 1982; mento pioneiro, pois nem sempre os núcleos
Coy,1988; IBGE,1990). urbanos estão próximos às frentes de traba-
O núcleo urbano é residência de trabalhado- lho, só que na Amazônia conforma um verda-
res rurais, urbanos e rurais/urbanos: com fre- deiro "padrão" de assentamento disseminado
qüência os indivíduosaltemam, sazonariamente, pelo território. Em conseqüência, existe um
ocupações rurais não qualificadas, porém extre- elevado número de aglomerações (povoa-
mamente exigentes quanto à resistência física dos) disseminadas no próprio campo, que
(desmatamento, limpeza de pasto), com ocupa- aglutinam mão-de-obra e/ou reduzidos gru-
ções urbanas, principalmente as de tipo "infor- pos de pequenos produtores. O grau de equi-
RBG 51

pamento urbano dessas aglomerações é va- de de gasto monetário; por fim, dada sua
riável e às vezes até ausente, dependendo da mobilidade no território, empregada eventual-
estabilidade relativa dos habitantes. Grande mente em atividades terciárias e primárias, os
número delas são semelhantes às favelas, habitantes integram-se não só à sociedade de
dada a precariedade das construções. Termi- consumo de massa, como iniciam ou repro-
nada a frente de trabalho, vendidos peque- duzem nas aglomerações o processo de
nos estabelecimentos, ou expropriados os (re)socialização necessário à introdução de
pequenos ocupantes na área rural, grande novas formas de produção. Em conjunto,
parte das aglomerações se retrai ou desapa- portanto, as aglomerações rurais e as cidades
rece, sua população emigrando para as cida- conformam um nexo territorial de tipo urbano.
des, ou para outras frentes de trabalho.
Outras, no entanto, permanecem como resí- Uma Consideração Final
duos das vagas imigratórias, configurando
núcleos prato- urbanos. A existência desse O problema do desmatamento, apesar de
não ser tão grave como em outras regiões do
tipo de "rede" rural/urbana mostra mais clara-
mundo, é uma possibilidade real. Por outro
mente do que a rede urbana formal o proces-
lado, os produtores que assumiram o risco de
so de instabilidade e a situação de incerteza
emigrar e se estabelecer na região não vão
e precariedade, ao qual estão sujeitos os
desaparecer. A questão, portanto, é o desen-
habitantes menos favorecidos da fronteira volvimento de uma estratégia de longo prazo
agrícola. que seja, ao mesmo tempo, produtiva e pro-
O aspecto que nos parece significativo é tetora do ambiente.
que, além de ser local de fixação provisória Mais grave é a questão da reprodução,
da força de trabalho, esse tipo de aglomera- na fronteira pioneira da Amazônia, da mes-
ção expressa uma urbanização do território ma estrutura econômica socialmente injusta
não vinculada à presença material da cidade. responsável pela organização do conjunto
Em primeiro lugar porque as aglomerações do território brasileiro. Os conflitos e contra-
fazem parte da rede de circulação de merca- dições marcantes que a caracterizam agravam
doria e de informação no território, mesmo a instabilidade inerente às áreas pioneiras e
estando ausente a forma e o equipamento põem em dúvida toda a racionalidade em que
citadino; em segundo lugar, porque a popula- se fundamenta a ocupação do solo. Mais do
ção residente é assalariada ou não produz que uma questão científica de âmbito regio-
grande parte do que consome, o grau de nal, a Amazônia é parte de uma questão
consumo dependendo somente da capacida- política de nível nacional.

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RESUMO

O propósito do trabalho é destacar os principais elementos que possibilitem a compreensão


do processo de modelação de espaços agrários na Amazônia brasileira.
A primeira parte apresenta o rastreamento histórico dos conceitos de "fronteira", "frente
pioneira" e "pioneiro", e do uso que deles foram feitos no Brasil. Ressalta-se que: a) a "fronteira
agrícola" como conceito foi definida como o lugar do novo, entendido como introdução das formas
e cultura da civilização técnico-mercantil; como um processo, resultante da variedade no grau de
utilização da técnica e do trabalho, do acesso à propriedade e do tipo de organização espacial; e
como um espírito especulativo das grandes iniciativas e confiança no futuro; b) a abundância ou
disponibilidade de terras é relativa porque o que regula o movimento de apropriação não é todo
o espaço e sim o espaço organizado, sobre o qual se desenvolve a produção; c) conceito de
"espaço vazio" combina o critério demográfico com a contraposição entre espaços civilizados e
espaços "selvagens", este último valorado negativamente por critérios étnicos ou econômicos
(estagnação).
Na segunda parte, apresentam-se os principais elementos que se consideram como responsá-
veis pela modelação do espaço agrário na região: a intervenção do Governo Federal; o incentivo
ao capital privado; a federalização de territórios; a apropriação e especulação fundiária; as
diferenças no uso do solo; a urbanização do campo.
Conclui-se que o problema mais grave na fronteira agrícola amazônica é a reprodução da
mesma estrutura econômica socialmente injusta que gera a organização do conjunto do território
brasileiro, reforçado pelo domínio do transitório, fato comum às áreas de ocupação recente, o que
permite caracterizá-la como área de instabilidade e incerteza, aumentando as pressões sobre a
população além do limiar dos riscos inerentes a uma ocupação pioneira.
RBG 55

ABSTRACT

This paper suggests some of the elements that can explain the spatialization of agricultura!
activities in the Amazon region of Brazil. Firsty a brief historical inquiry is conducted on concepts
such as "frontier", "pioneer zone" and "pioneer", tracing its use in Brazil, concluding that: a) the
agriculture frontier as a concept can be defined as a place o f innovation, that is, the introdution of
the forms and the culture of techno-mercantile civilization; as a process, molded by the use of
tchnology and labour, acess to landownership and spatial organization; as spirit of initiative,
speculation and confidence in the future; b) abundance of and is relative since what regulates
appropriation is not absolute space but organized space over which production can be carried
out; c) the concept of "empty space" combines demographic criteria with the opposition between
civilized and selvatic space, the latter valuede negatively by ethinic and economic criteria (stag-
nation).
Secondy, the main elements responsible for the spatialization of agriculture activities in the
Amazon region area presented: federal government intervention; incentives to private capital;
federalization of territories; land appropriation and speculation; diversity in landuse; urbanization
of rural areas.
Concluding remarks emphasize that the most serious problem in the agriculture frontier is the
reproduction of the same socially unfair economic struture found in the rest of the country,
aggravated by transitory aspects common to ali newly occupied areas thus characterizing the
Amazon region as an area of extreme instability and uncertainity responsible for population stress
far beyond the expected risks in pioneer ocupation.

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