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EDITOR CHEFE
Arno Alcântara

REDAÇÃO E CONCEPÇÃO
Marcela Saint Martin

DIREÇÃO DE CRIAÇÃO
Matheus Bazzo

DESIGN E DIAGRAMAÇÃO
Jonatas Olimpio

Material exclusivo para assinantes do


Guerrilha Way.

Transcrição das lives realizadas no


Instagram do Dr. Italo Marsili dos dias
25/02/2019 a 01/03/2019

2
Tem gente que adora um papel — para

ESTA APOSTILA
segurar, anotar, levar consigo aonde for.
Outros preferem o digital, seja em áudio,
em vídeo, ou mesmo em texto.

O Guerrilha Way atende a todos os gostos.


COMO USAR

Nesta apostila semanal, que você pode


imprimir ou simplesmente salvar em PDF,
você vai encontrar:

1. Uma visão geral dos assuntos


abordados nas lives da semana
anterior;

2. Um resumo de cada uma delas;

3. Sua transcrição na íntegra, com


uma bela diagramação.

Por isso, o booklet que você tem em mãos é


uma pequena jóia que você pode arquivar
em um lugar especial da sua biblioteca e
consultar sempre que necessário.

Você não precisa lê-lo de capa a capa.


Consulte-o conforme a sua necessidade.

Faça bom proveito!

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A SEMANA NUMA RESUMO DA
TACADA SÓ SEMANA

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JAMAIS ESCONDA A RESERVA DE
FONTE DAS SUAS MERCADO É COISA
INFLUÊNCIAS DE FRACOTE

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A VIDA PRECISA DE SABE POR QUE
UM POUCO DE NINGUÉM TE AMA?
CONFUSÃO

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Live #29 | 26/02/2019 - Instagram | Youtube
JAMAIS ESCONDA A FONTE
DAS SUAS INFLUÊNCIAS
Querer parecer brilhante e original, ocultando a fonte
das nossas influências, só escancara a nossa pequenez
e nos enfraquece.

Live #30 | 27/02/2019 - Instagram | Youtube


RESERVA DE MERCADO É COISA DE FRACOTE
Querer parecer brilhante e original, ocultando a fonte
das nossas influências, só escancara a nossa pequenez
e nos enfraquece.

Live #31 | 28/02/2019 - Instagram | Youtube


A VIDA PRECISA DE UM POUCO DE CONFUSÃO
O que aumenta a nossa produtividade não é ter uma
agenda toda amarradinha, mas conhecer os processos.

Live #32 | 1º/03/2019 - Instagram | Youtube


SABE POR QUE NINGUÉM TE AMA?
Esqueça essa história de “amar-se primeiro”. Amar aos
outros e interessar-se pelo mundo exterior é o que tor-
nará você amável.

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Live #26 | 18/02/2019 - Instagram | Youtube
JAMAIS ESCONDA A FONTE
DAS SUAS INFLUÊNCIAS
Existe na alma de todos nós um desejo de ocultar a
origem daquilo que nos influenciou ou, de algum
modo, contribuiu para nossa formação, especialmen-
te quando a fonte nos é próxima. No fundo desse mo-
vimento reside um temor de que os olhos da nossa
platéia se voltem para a fonte, e não mais para nós.
Entretanto, a capacidade de prestar o devido culto às
pessoas que nos influenciam, inclusive citando-lhes o
nome, faz muito bem ao espírito humano, revelando
um coração grande e destemido. O desejo de escamo-
tear nossas fontes nos torna piores, mais fracos e co-
vardes.

Quando vivemos sem medo de perder prestígio, reve-


lando com tranquilidade de onde vêm nossas influên-
cias, nossas idéias, sem desejar passar uma impressão
de autossuficiência, a vida fica mais leve, ficamos
mais fortes e conseguimos caminhar com mais segu-
rança, porque amparados pela sinceridade de quem
não faz pose.

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Live #30 | 27/02/2019 - Instagram | Youtube
RESERVA DE MERCADO É COISA DE FRACOTE
Tem gente que leva bem a sério o negócio da “criança
interior”. Tão a sério que, tão logo uma ameaça despon-
ta no horizonte, busca desesperadamente a proteção
paterna, agora sob a forma do Estado, dos conselhos
profissionais, dos comitês. O alarme que os profissio-
nais de uma determinada área fazem soar, sempre que
se sentem ameaçados por outra categoria profissional,
escancara o despreparo daqueles que se julgam em pe-
rigo.

Essa atitude revela uma incapacidade de lidar com a re-


alidade do mundo do trabalho, onde as competências
têm de ser conquistadas e provadas dia após dia. Em
última análise, evidencia um problema de dependên-
cia infantil — uma expectativa de que a interferência
paternal alivie as tensões que são próprias da vida de
responsabilidades. É o velho sonho de que exista um
lugar seguro, um oásis onde a mera exibição de títulos
seja garantia de prestígio e clientela farta.

Para matar esse fetiche, o primeiro elemento é ter o


domínio técnico da atividade que se exerce. Entretan-
to, o domínio técnico é somente o mínimo indispensá-
vel. Para superar a sensação de insegurança e o terror
diante das “ameaças”, é preciso desenvolver uma série
de outras habilidades, cujo domínio, então, conferirá
a força necessária para enfrentar a realidade do traba-
lho.

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Live #31 | 28/02/2019 - Instagram | Youtube
A VIDA PRECISA DE UM POUCO DE CONFUSÃO
O problema da falta de organização, em geral, não se
resolve com uma agenda. Programar o dia com ativi-
dades e horários, quadricular a vida, dificilmente vai
funcionar, porque todos os dias temos de lidar com
imprevistos. A harmonia da vida humana não está na
simetria, na organização perfeita. É preciso um pouco
de confusão para ser produtivo.

O segredo da ordem não está na agenda, mas em cap-


tar a ordem ontológica. Isso significa saber qual é o
processo — significa, em cada área da vida, saber o que
é mais importante. O que aumenta a nossa produtivi-
dade não é a fidelidade aos horários, mas saber o que
é mais importante a se fazer num dado momento em
concreto.

A partir do momento em que entendemos qual é o pro-


cesso das nossas relações afetivas (pessoas vem antes
de coisas), do nosso trabalho (encontrar o equilíbrio
entre coisas urgentes e coisas importantes), começa-
mos a encontrar a ordem, a produtividade e uma paz
no dia a dia.

Live #32 | 1º/03/2019 - Instagram | Youtube


SABE POR QUE NINGUÉM TE AMA?
Acontece com o amor um fenômeno curioso: quanto
mais amamos, mais aumenta a nossa capacidade de
amar. O amor não se divide; dilata-se o coração.

Entretanto, quando o amor se volta para o próprio agen-

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te, essa capacidade de amar diminui drasticamente. O
tal “amar-se primeiro para poder amar os outros” não
existe. É preciso amar aos outros, amar outras coisas,
para então tornar-se amável pelos outros.

O segredo para ser amado por alguém é amar os ou-


tros primeiro e interessar-se pelo mundo exterior. Nin-
guém se interessa por pessoas que só falam de si ou da-
quilo que está diante dos próprios olhos. Quem deseja
ser interessante deve ser, antes, interessado pelo que
está fora de si.

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Live #29 | 26/02/2019 (terça) - Instagram / Youtube

JAMAIS ESCONDA A FONTE


DAS SUAS INFLUÊNCIAS
Como diz o professor Olavo, tem gente que prefere
matar a própria mãe do que dizer que cometeu um
deslize, que foi feito de trouxa. É muito difícil lidar
com esse tipo de pessoa. O cara está na boca do cri-
me, fez uma burrada, cometeu um deslize, foi pego
de calça curta e prefere justificar com 1.001 motivos.

Isso acontece muito no Brasil. Uma coisa feia, um


cacoete que temos de matar é o de querer ocultar
as fontes que nos fazem melhorar, como se estivés-
semos por cima de tudo sempre, como se tivésse-
mos descoberto a pólvora. Não é assim que funcio-
na, e sabemos disso.

Toda hora lembramos as nossas referências: Olavo,


Julián Marías etc.

Uma das atitudes que mais fazem bem para o


espírito humano é demonstrar gratidão com o
nome daquela pessoa pela qual somos gratos; e
com o nome verdadeiro – nome e sobrenome.

Alguns não entendem que eu não estou cobrando


autoria de nada, pois eu fui o primeiro a declarar que
não sou o autor dessas frases que eu sempre repito.

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Imagine se eu poderia ser o autor de frases como
“Bom dia”. As pessoas falam “Bom dia” desde que o
mundo é mundo. Imagine se o William Bonner po-
deria ser o autor da frase “Boa noite”. Ele não é autor
dessa frase. É claro que eu não sou autor das frases
“Faça coque”, “Dê esmola”, “Ninguém me deve nada”.
Tais frases não têm dono.

Não se trata de colocar meu nome embaixo toda vez


que vocês citarem essa porcaria. Não é para fazer isso.
Seria ridículo fazer isso, porque não sou autor dessas
frases. Ninguém é autor dessas frases, por exemplo,
de frases célebres, como “Ser ou não ser, eis a ques-
tão”. Lógico que essa frase tem um autor, é uma fra-
se poética, uma frase que só apareceria na cabeça de
um poeta. E também, ao falar esse tipo de frase, não
precisamos citar o autor. Por quê? Porque todo mun-
do com um mínimo de cultura sabe que “Ser ou não
ser, eis a questão” é uma frase de Shakespeare. Não
precisa citar também.

Mas o problema do brasileiro – algo que todos nós fi-


zemos ou fazemos alguma vez na vida – é ocultar a
fonte quando ela é muito próxima de nós. E isso por
dois motivos: não querer transmitir a audiência e a
atenção para aquele que falou. “Se eu falo quem disse
isso, as pessoas vão parar de prestar atenção em mim
e vão começar a prestar atenção na outra pessoa, e
eu não quero.”

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Mas o problema do brasileiro – algo que todos nós
fizemos ou fazemos alguma vez na vida – é ocultar
a fonte quando ela é muito próxima de nós. E isso
por dois motivos: não querer transmitir a audiência
e a atenção para aquele que falou. “Se eu falo quem
disse isso, as pessoas vão parar de prestar atenção
em mim e vão começar a prestar atenção na outra
pessoa, e eu não quero.”

Nós fazemos muito isso no dia-a-dia. Por exemplo,


você está conversando com uma menina e copia
uma fala de um amigo seu. Você não vai dar o crédito
para ele, senão a menina vai olhar para o seu amigo,
e não para você. Esse é um movimento da alma, todo
mundo age assim. Porém, precisamos tomar cuida-
do para isso não dominar o nosso coração, não en-
durecer o nosso coração, para que não nos trans-
formemos em pessoas mesquinhas. Dar o crédito
para a pessoa, apontar quem o está ajudando, é ati-
tude de quem tem o coração grande.

É muito bom falar de onde está vindo aquela nossa


idéia, quem está nos influenciando. Com generosi-
dade, a coisa só melhora para todo mundo. Deve-
mos sempre revelar de onde está vindo a idéia, com
tranqüilidade, sem precisar fazer citação de rodapé a
cada vírgula, pois isso é muito pedante também.

Dá para citar todo mundo; esconder é muito ruim,

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mesquinho e faz com que o nosso coração fique pe-
queno. O que podemos fazer no nosso dia-a-dia é
dar crédito para os outros, falar bem de todo mun-
do, parar com a mania mesquinha de brasileiro de fi-
car falando mal de amigo. A primeira coisa que você
faz quando tem um amigo é falar mal dele numa ro-
dinha: “Eu o conheço por dentro e posso falar isso
aqui; e posso falar porque ele é meu amigo. Como ele
é meu amigo, posso falar tranqüilamente que é um
filho da mãe...”. Não aja assim, isso não é uma posi-
ção de amigo.

Amigo não faz isso. Nunca faça isso nunca! Quando


aparecer na sua cabeça o movimento de “Vou falar
mal de uma pessoa porque a conheço”, não faça isso
nunca, isso não é amizade, é inveja, é mesquinharia,
é medo de ficar por baixo.

Esse movimento está na alma de todos nós, e esta-


mos revelando aqui esse ocultar as fontes, esse não
falar bem das outras pessoas, essa falta de gratuida-
de nos relacionamentos. Tudo isso é muito ruim; não
façam isso nunca.

Quando fazemos esse elemento circular, esse ele-


mento de caridade, de amor, essas citações e refe-
rências, tudo floresce, tudo melhora; nossa cabeça
vai ficando melhor.

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Alguns me falam: “Italo, você fala grosso, xinga os
outros… deve ter um monte de hater”. Não existe ne-
nhum hater, pois não estou falando de nada que não
esteja dentro do coração de vocês.

Já disse: quando estou batendo, não estou


batendo em você, mas naquela merda dentro
da sua pessoa que faz com que você não seja
você. É isso que estamos fazendo.

Eu não vou bater no núcleo que você construiu.


Pelo contrário, vamos bater e extirpar aquela por-
caria que o está intoxicando, aquela coisa que não
é você, aquele conjunto de pensamentos da sua ca-
beça que veio de fora e o abafa. É nisso que vamos
bater.

Lógico, quando nos relacionamos assim com os ou-


tros, não sobra ódio, porque estamos limpando. Mes-
mo que a pessoa não queira, a estamos limpando.

Vamos fazer com que nossa vida neste mundo seja


mais ágil, porque nós já temos muitos problemas e
não podemos ficar nos apegando a mesquinharias,
pois temos um monte de coisa para resolver. Vamos
agilizar as coisas.

Aqui está o ponto central: não podemos matar den-


tro de nós a origem da nossa influência, não prestar

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culto – no bom sentido do termo –, não olhar para
uma pessoa que nos influenciou e falar “Valeu, obri-
gado”, e jogar o olho das outras pessoas para ela.

Tudo o que podemos fazer na vida é pegar as pesso-


as que amamos e apontar a cabeça delas para algo
que vimos antes. Se quisermos pegar a cabeça des-
sas pessoas e apontar para nós, daqui a pouquinho
vai dar merda, porque nós não valemos nada. Va-
mos frustrar essas pessoas.

Este é o segredo da vida: matou a origem, ferrou. Não


vai funcionar. Então, você vai pegar a cabeça das pes-
soas e apontar para aquilo que você viu antes — isso
é tudo o que podemos fazer na vida. É tudo o que po-
demos fazer na criação de filho, por exemplo.

Por exemplo, o pai que quer ser exemplo para o filho


o tempo todo. Isso não vai dar certo, porque você, pai,
é exemplo de quê? Você vai pegar o seu filho e apon-
tar para coisas que são melhores que você; vai pegar
os seus amigos e apontar para aquele livro que você
leu, para aquele filme que você viu. Não precisa falar
que a idéia é sua. Conte uma piada na roda e, depois
que todo mundo riu, diga: “Quem fala isso é Fulano”.
Dê o crédito para o Fulano.

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Algo que aprendi logo cedo: na vida, podemos
fazer qualquer coisa, desde que não queiramos
ser reconhecidos pelo crédito dela.

Quando queremos ser reconhecidos pelo crédito, a


coisa não anda, não funciona.

Então, nunca vou me cansar de falar do Olavo, quer


vocês queiram, quer não, porque é de lá que vem
tudo. Se eu parar de lhe dar crédito, sabe o que acon-
tece? Acaba tudo, porque é dentro da tradição dele
que eu estou. Simples assim.

Quando comecei a crescer, muitos comentavam:


“Italo, não fala do Olavo; ele é muito controverso;
muitas pessoas o odeiam”. Vá tomar naquele lugar! É
óbvio que vou falar. Vou falar para sempre. Ainda que
vá todo mundo embora, vou continuar falando dele,
assim como Julián Marías falava do Ortega, ele mor-
reu falando do Ortega. Com que devoção você acha
que Aristóteles falava de Platão, e Platão de Sócrates?
Com que devoção os apóstolos falavam do Cristo?

É isso, cara. Sempre devemos falar e ter uma devo-


ção por aqueles que nos ensinam, porque assim
vamos ganhando força. Quando queremos ocultar,
perdemos a força imediatamente, ficamos nus.

No nosso dia-a-dia, acontece a mesma coisa: nunca

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querer ficar com a glória para si, nunca querer ser o
mais engraçado. Conte para as pessoas, que é melhor,
porque essa é a verdade sobre você.

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Live #30 | 27/02/2019 (quarta) - Instagram / Youtube

RESERVA DE MERCADO
É COISA DE FRACOTE
Vamos lá. O pessoal gosta do Dr. Italo. Aliás, uns gos-
tam, outros odeiam, mas vocês sabem que há um
monte de médicos (a maior parte deles, sobretudo os
que vão aos meus cursos) que me adora. Eles gostam
das coisas que eu falo, das coisas que eu faço, vêem
uma consistência técnica... Dependendo do curso,
eu abordo parte da bioquímica, da farmacológica, aí
o pessoal vê a consistência, a boa formação, e acaba
por gostar de mim.

Pois bem. Hoje é o dia de os médicos ficarem bravos


comigo, porque vou usar como exemplo uma discus-
são que está em voga para falar de uma coisa que aco-
mete muitos adultos, muitos de nós, chamada depen-
dência infantil. É a pessoa que quer a todo instante
ser amparada por alguém de fora.

Qualquer pessoa que tenha Instagram eventualmen-


te verá uma amiga dentista ou um amigo dentista
postando uma fotinha de uma pessoa de perfil, com
um nariz torto, e depois com um nariz retinho. Outra
foto: a pessoa de frente com um labiozinho fininho
e depois com lábios fartos. Todos verão, vocês estão
ligados.

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Acontece que ontem o Dr. Italo disse o seguinte nos
Stories (era uma descrição que eu estava fazendo):
“Estamos diante do terceiro boom da odontologia”.
Houve um primeiro boom lá atrás, o dos aparelhos e
da ortodontia, depois houve o boom dos implantes, e
agora estamos no boom da harmonização facial.

E aí, caramba, vários médicos, dermatologistas, ami-


gos e até mesmo pacientes meus comentaram: “Ita-
lo, que absurdo! Você é um formador de opinião, não
diga isso, porque o médico e o dentista, blá blá blá
blá…”. Olha, pessoal, calma aí, devagar com o andor,
que o santo é de barro. Vamos lá.

Eu recebi várias mensagens com o seguinte teor:


“Não, Italo, isso é absurdo, há um monte de médicos
aí disponíveis. Um dentistazinho recém e mal for-
mado já quer sair ganhando dinheiro, aí vai atrás de
fazer esse negócio de harmonização. É perigoso”. Eu
respondi: “Ah, é, cara pálida? Então vamos lá. Você
está comparando alhos com bugalhos”.

Essa situação é a mesma daquele pessoalzinho que


fala assim: “O Ocidente é muito tumultuado, bom
mesmo é o Oriente”. Aí sabe o que eles fazem? Com-
param uma cidade badalada do caramba, como
Chicago, Nova Iorque ou São Paulo, tumultuada
pra burro, com um mosteiro lá no Oriente, no alto
do Tibete. Ah, vá plantar banana! Quero ver você

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comparar Xangai, Nova Déli, uma cidade oriental
dessas cheias até o talo, com um mosteiro inglês,
com uma catedral gótica francesa. Caramba! Tem
de comparar A com A, B com B!

É para comparar A com B? Então vamos comparar


um cirurgião-dentista, um bucomaxilofacial, com
mestrado, doutorado, anos de prática clínica, um cara
que faz cirurgia em base de crânio, um cirurgião de
cabeça e pescoço, com um médico recém-formado
em uma faculdade de quinta categoria que fez uma
pós em dermatologia, que “fez uma pós-zinha”.

Quem está mais habilitado? Quem você acha que


domina mais toda a técnica cirúrgica, domina mais
anatomia, quem você acha que saberia resolver as
complicações? É o cirurgião-dentista bucomaxilo-
facial bem formado ou o médico de quinta catego-
ria que fez uma pós do avesso? Quem você acha que
dominará mais? Vocês comparam A com B, e não A
com A! Que absurdo!

Sabe o que é isso? Medo. Veja bem: uma dermatolo-


gista bem formada ou um cirurgião-plástico bem
formado não vai perder mercado nenhum. Que
história maluca de “perder mercado”! O pessoal
fica falando “Não, mas tem de ser médico para fazer
isso”. Tem de ser médico por quê? Nariz torto é doen-
ça? Olheira é doença? Sulco nasogeniano é doença?

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Essa porcaria nem CID tem, que doença o quê! Quer
pagar uma de médico? Vá tratar de pênfigo só, pênfi-
go bolhoso, aí eu quero ver. Eu já vi dermatologistas
entubando gente porque o pênfigo fechou as vias aé-
reas do paciente. Quer brincar de médico, vá fazer só
isso. Cirurgião plástico quer brincar só de médico?
Então vá operar só lesão, carcinoma. Pronto, aí aca-
bou, isso aí o dentista não fará mesmo.

Já a estética é uma área de interseção! Esse alarde todo


é medo. Bicho, quem é bom não vai perder paciente.
Fique calmo, cara. O que é isso, afinal? É medo. É só
medo. “Ah, não, o Conselho tem de resolver para
mim um problema. Eu não sou capaz de montar
meu consultório e encher a minha agenda, de fazer
bem para o meu paciente, então o Conselho tem de
determinar que o outro amiguinho não pode ‘tra-
tar’ uma coisa que nem doença é.” Ah, faça-me o
favor! Isso é um absurdo! Isso é medo, caia na real!

Essa é a hora de cair na real e falar: “Bicho, é, estou


comparando A com B, estou comparando realmen-
te um dentista muito mal formado com um médico
muito bem formado. É isso o que estou fazendo”. Pois
compare um dentista bem formado com um médi-
co bem formado, e compare um médico mal forma-
do com um dentista mal formado. Pronto, acabou,
você verá que dá na mesma, caramba. Dá na mesma
porque estética é uma área de interseção. Levantar

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nariz, preencher lábio, isso tudo está na interseção.
Fazer o quê? É simples.

Pare com esse negócio de “é um ato médico”, me


poupe! Médico é uma raça do cão! Essa porcaria de
campanha “Quanto vale um médico?” é ridícula.

Ué, médico que não vale nada não vale nada.


Um médico preguiçoso, que não atende
ninguém, não vale nada. Um médico que
trabalha bem vale muito, assim como um
faxineiro que não trabalha bem não vale nada.

Não é porque o faxineiro é pobre que diremos “Ah,


vale”. Não vale. Se trabalha mal, não vale nada. Que
coisa louca. E se o faxineiro trabalha muito bem, não
é porque é um emprego pouco qualificado que ele
não valerá nada. Vale muito, dentro da área dele. Que
doidera! Qual o nome disso? É dependência infantil.
Não passa de reflexo, na verdade.

Acabaram de dar aqui o exemplo do “Dr. Bumbum”.


Caramba! Falou tudo. Ora, o “Dr. Bumbum” era mé-
dico, por exemplo, com diploma. Nem conheço a his-
tória dele, não sei se o pegaram para Cristo ou não,
não falarei dele porque não acompanhei.

Caiam na real. Isso está dentro do grande campo da


dependência infantil. É aquela mesma pessoa que

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precisa ficar dando espaços na vida para o papai
e para a mamãe. De tudo o que faz, precisa antes
falar para os pais. Quer fazer uma viagem, precisa
falar para o papai e para a mamãe. Vai comprar um
carro, tem de falar para o papai e para a mamãe.
Vai casar, tem de falar. Isso é dependência infantil.
Livre-se disso.

Isso serve para mim, para você, para todos. Todo


mundo neste país tem uma tentação a essa depen-
dência infantil infernal. Tem de ficar justificando
um passo atrás do outro. Caramba, pare com isso!
Vá tocar sua vida! Quando você começa a fazer isso,
você ganha uma força. Você começa a ganhar uma
força que o deixará destemido.

É igual à onda do “psicólogos com medo dos coaches”.


Como assim, “medo de coach”? Uma coisa trata uma
coisa, outra coisa trata outra coisa. Do mesmo jeito
que há coach muito mal formado, há também psicó-
logos mal formados. Existem psicólogos que não aju-
dam ninguém, assim como coaches que não ajudam
ninguém. Pronto, simples assim.

E outra coisa, meu amigo: se o seu trabalho de psi-


cólogo tivesse sido bem feito, se todo psicólogo tra-
balhasse muito bem, não ia haver espaço para outra
abordagem, para uma abordagem positiva. Não ia.
Justamente, né? Uma área em descrédito dará espa-

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ço para aparecer outros tipos de atuação. É simples,
caramba, muito simples. Sempre haverá maus pro-
fissionais em uma área e maus profissionais na ou-
tra.

É questão de botar a mão na cabeça e pensar: “Isso


aqui é só reflexo de uma outra área minha, de ou-
tro domínio do meu espírito, chamado dependên-
cia infantil. Eu quero que todo mundo resolva tudo
para mim”. Claro que quer, somos massacrados
desde que somos pequeninos, eles só enfiaram
areia nos nossos projetos. Todo mundo é assim,
todo mundo sofreu isso na família, um ou outro
que não. Com a maior parte das pessoas foi “Vou
fazer tal coisa”, aí veio a família e falou (e ainda
fala) “Cuidado, não faça isso! Não empreenda!”.
Aí fica todo mundo aterrorizado, com um senhor
medo, só podendo fazer aquilo que papai e mamãe
validam. Se os pais validaram, aí pode fazer. Se não
validaram, não vai fazer.

Você fica buscando validação externa


o tempo todo. Pare com esse negócio.

O pessoal comenta: “Ah, eu conheço um caso de um


dentista que necrosou a cara do paciente”. É, mas eu
conheço mil casos de médicos que fizeram tal coisa e
a cara do paciente necrosou. Sabe qual o nome disso?
Ossos do ofício. Risco. Acontece. Vai acontecer com

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médico, com dentista, depende de o profissional ser
bem formado ou não.
Aí reside o ponto, então não me venha com o papo
(como alguns médicos vieram) de “Italo, você, como
formador de opinião, fale que isso não é certo, você
não pode dizer…”. Como assim, “como formador de
opinião não posso dizer”? É aí que eu vou falar mes-
mo. Se não tivessem mexido comigo, eu não falaria
nada, mas provocaram…

É o inverso, na verdade. Deixe o dentista fazer har-


monização, ué. Deixe o coach aparecer. O merca-
do vai selecionar, há atividades que não possuem
muita regulamentação mesmo. Não tem mistério.

Volto a falar: trata-se de outro movimento, é um


movimento de medo, de insegurança que está en-
raizado no espírito nacional, de paternalismo. “Eu
não consigo lutar direto com meu concorrente por
meio da boa prática, do fairplay, então eu tenho
sempre de apelar para alguém de cima, alguém de
cima vai tomar a decisão para mim.”

Dermatologistas e médicos estão com medo porque


não estão entregando o que de fato o público pede. E
aí precisam de mais espaço para poder crescer mes-
mo dentro dos seus erros, da sua inconstância… Isso
acontece em todas as áreas. Se o sujeito entrega, se ele
é bom, ora, não haverá ninguém de cima precisando

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regular a atividade dele. Haverá uma regulaçãozinha
ou outra ali apenas. Não estou falando de regulação
jurídica, estou falando de aceitação do próprio públi-
co, do próprio chefe.

Vamos matar as dependências infantis,


as expectativas adolescentes.
Isso ferra a nossa vida.

Não vai funcionar para ninguém. Peguei os médicos


para Cristo porque foram vocês que ficaram provo-
cando de modo muito inconsistente. Veja o médico, o
cirurgião plástico ou o dermatologista que não estão
entregando nada muito bom, não têm muito perfil de
empreendedor, não ocuparam o espaço que tinham
de ocupar e ainda, quando aparece algum paciente,
têm medo de fazer o procedimento. É claro que não
vão crescer, e aí vão botar a culpa em quem? “Ah, a
culpa é do Conselho que autorizou a entrada desses
malvadões, desses dentistas malvados.” Ah, cresce!

É você que não está trabalhando direito, que não


entregou, que não tem o drive do empreendimen-
to, do bom atendimento ao público! Dane-se se você
é bom tecnicamente. Preste atenção: na maior par-
te dos trabalhos, ser bom tecnicamente não é nem
metade do problema.

Você tem de ser bom tecnicamente e ter mais um

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monte de outras habilidades, meu filho. Você pode
ser SUPER bom tecnicamente. Se você não tem ha-
bilidades humanas para se relacionar com o públi-
co, com seus parceiros, com seus colaboradores, se
você não tem visão do empreendimento para fazer
o negócio crescer, se você não tem a humildade para
receber feedback dos outros, sabe o que acontecerá?
Seu domínio técnico não valerá de nada.

Você precisa de domínio técnico (isso é óbvio, nin-


guém pode trabalhar em algo que não sabe fazer),
mas precisa de várias outras habilidades. Então não
me venha com o papo de “Ah, o dentista não tem o
mesmo domínio técnico que eu”. Primeiro: isso é fal-
so. Para esse tipo de atuação, óbvio que ele tem ou
pode ter mais domínio técnico. Segundo: ele pode ter
mais uma série de outras habilidades que você não
tem! A idéia é simples, e isso vale para qualquer coisa
na vida, até mesmo para relação entre irmãos. Por
exemplo: um irmão é bonzinho e tal, porém não fala
direito, não se interessa muito pela família, não leva
presente para os pais, não liga para a avó, mas tam-
bém nunca errou, nunca pisou na bola. E aí ele fica
louco da vida porque o outro irmão, que é um pou-
quinho mais malandro, mas é mais envolvente, gos-
ta de conversar, liga para a avó, acaba também sendo
mais querido, é mais convidado para festas e não sei
o quê. E o irmão bonzinho fica louco com isso.

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Eu pergunto: fica louco por quê? Por que você está
com raiva? Quem foi que falou que não fazer idiotice
era a única coisa que se valoriza na vida? Cara, nós
valorizamos sorrir diante dos outros, valorizamos ser
amados, receber uma ligação, até temos um pouqui-
nho mais de benevolência com a idiotice que o irmão
malandro faz.
Imagine que você contratou uma faxineira para a sua
casa que limpa muito bem, mas ela chega em casa e
não sorri, não lhe dá bom dia, está sempre de cara
fechada. O que vai acontecer com ela? Será mandada
embora, porque ninguém agüenta gente assim, dia-
cho. Isso é dependência infantil. É você achar que,
só porque fez bem uma coisinha, todo mundo tem
de cobrir as suas falhas com a interferência paterna.
Isso não funciona, caramba, não é assim que a vida
funciona.

Nós precisamos recrutar uma série de habilidades


dentro de nós. A primeira atitude é matar o fetiche
louco de que alguém de fora tem de resolver nossos
problemas. Nós é que temos. E fazemos isso tendo
domínio técnico da coisa (ou seja, olhando para a na-
tureza da relação e tendo domínio daquilo), além de
mais um monte de outras coisas! Aí está o ponto! Fica
um monte de médico louco, de cabelo em pé, porque
não tem esse outro domínio, como também haverá
dentistas que não terão esse outro domínio!

28
Ninguém está preocupado com o paciente em si,
porque, se estivessem, a porrada ia para cima dos
médicos e dentistas. De quais? Dos maus médicos e
dentistas. Não me venha dizer “Agora dentista vai fa-
zer harmonização facial, isso é absurdo”. Absurda é a
sua incompetência, o seu medo. Pare com isso.

Alguém comentou aqui: é a interseção entre contado-


res e advogados. Exatamente! Há uma área de inter-
seção mesmo. Às vezes é muito melhor um contador
especializado que um advogado sem especialidade,
que você contrata só porque é advogado. Que obvie-
dade.

Reserva de mercado é coisa de gente medrosa.


Não embarque nessa.

Sabe o que vai acontecer se você começar a defen-


der esse tipo de ladainha? Você se enfraquecerá.
Seja você o primeiro médico a dizer: “Olha, que ve-
nham bons dentistas, melhor para os pacientes”.
E seja o primeiro advogado a dizer: “Que venham
bons contadores para nos ajudar aqui em nosso es-
critório”. Isso lhe dá segurança, você não fica com
medo, você corre atrás. Você entregará o melhor
resultado no médio prazo para os seus clientes ou
pacientes.

29
Preste atenção: o desejo por segurança sempre nos
ferra. Não é segurança que você tem de buscar na
vida, é força. Quais forças? A força da técnica e das
outras habilidades que você precisa recrutar. Fi-
que aí buscando defesa, falando “Ah, não, tem de
respeitar meu espaço, porque eu me formei como
doutor médico, como doutor advogado…”. Nin-
guém vai respeitar seu espaço, meu filho. Se você
não for bom, ninguém vai respeitar.

Imponha-se, e imponha-se por meio de boa técni-


ca, do bom relacionamento. A força sempre vence.
O desejo de segurança vai enfraquecer você, não é
isso que você tem de buscar. Tem de buscar força. En-
fie isto na cabeça, independentemente do que você
ache: seja forte.

30
Live #31 | 28/02/2019 (quinta) - Instagram / Youtube

A VIDA PRECISA DE UM
POUCO DE CONFUSÃO
O assunto de hoje é o tema da ordem, da organização.

Eu vejo uma galera que fala assim: “Italo, eu queria


começar a organizar melhor a minha vida. Eu acho
que eu já sei o que eu vou fazer; eu vou comprar uma
agenda. Eu vou pegar a minha agendinha e vou colo-
car os horariozinhos, tudo que eu tenho para fazer”.
Você já viu gente assim? Você deve ter feito isso tam-
bém. “Olha, Italo, eu já sei o que vou fazer. Eu vou
acordar às 7 horas da manhã. Às 7h30 vou tomar
meus remédios. Às 8 vou fazer meu ovo mexido com
bacon, porque estou fazendo uma dietinha bacana.”
E a pessoa vai naquela história: “Às 7 da manhã faço
uma coisa, às 7h30 faço outra, às 8 faço outra, às 9
faço outra”, e assim por diante. Isso aqui o pessoal
faz toda hora, e dá para perceber que não dá muito
certo.

Costuma não funcionar muito. Aí está o ponto. Eu


não tenho nada contra agenda. Acho bom ter agen-
da. Um pouquinho de agenda é bom ter. Mas eu vejo
um pessoal com um baita de um fetiche com agenda
que não consegue se organizar, porque, em regra, o
problema não está na agenda. Em regra, o problema
não está em você fazer agenda ou não. Nós meio que

31
sabemos. A sua produtividade não melhora, exata-
mente, quando você tem uma agenda clara; você
não se organiza melhor quando você tem uma
agenda na cara.

“Já fiz isso várias vezes, mas não funcionou. Eu não


sei o que acontece, não funciona.” Assim que nós co-
meçamos a querer melhorar, a querer ser um pouco
mais organizados, vem sempre alguém e fala assim:
“O importante é você ter uma agenda. Você tem de
ter uma agenda. Você vai precisar ter uma agenda, e
ali você vai anotar o que você precisa fazer em cada
hora”. Sabe quando isso vai dar certo? Vai dar certo
raramente, em pouquíssimos casos.

Não vai funcionar, cara. Compra uma agenda para


ver se vai funcionar. Não vai funcionar. As pessoas já
tentaram fazer isso mais de mil vezes, e não funcio-
na.

O mais importante, e que no início vai parecer um


pouco teórico, mas depois nós vamos concretizan-
do, é que o problema não está na agenda. O pro-
blema não está em você saber o que tem de fazer a
cada hora do seu dia. Isso aí, no fim das contas, não
importa muito. Sabe por quê? Porque há dias em que
você vai acordar com dor de cabeça, ou vai acordar
atrasado, ou vai ter uma demanda do seu primo, ou
um paciente seu vai faltar, e por aí vai. Então, o pro-

32
blema não está na agenda. Com a agenda você não
vai conseguir quadricular a vida.

Trata-se de uma porcaria de um fetiche maluco que-


rer quadricular a vida. A vida não está aí para ser
quadriculada. Nós não temos de quadricular a nossa
vida.

A nossa vida – preste atenção – precisa de um pouco


(escuta o que eu vou falar; o pessoal da organização
vai ficar com os cabelos em pé agora) de confusão.
Como diriam os italianos: para esse tipo de coisa, é
necessário um pouco de confusão. Para você poder
fazer uma vida boa, uma vida gostosa, uma vida que
você goste de estar ali dentro, é preciso de um pouco
de confusão. Não é nenhuma bagunça. É a mesma
pessoa que quer que a casa seja um showroom. Não
pode tirar nada do lugar. Eu digo assim: “Cara, sua
vida é uma casa triste”. A casa tem de ser bonita, ób-
vio, a casa tem de ter bom gosto, óbvio, a casa tem de
estar bem decorada, óbvio; quanto mais, melhor. Po-
rém um pouco de confusãozinha é importante. Para
quê? Porque você vê a vida da coisa.

Você não está entrando em um showroom. O


showroom não demonstra vida. Está lá para você ver.
“Este aqui é o apartamento ideal.” Mas nós não vive-
mos em uma vida ideal. A vida precisa de um pouco
de confusão. Um pouquinho de confusão é do caram-

33
ba; a sua vida anda, você gera problemas que você
consegue se organizar ali dentro.

É o mesmo pensamento: “Italo, por que você começa


a live às 12h52?”. O que é 12h50 na vida? O que tem
simetria nesta vida? Você olha para a cara do Tom
Cruise, aquele sujeito lindo. A cara dele é toda assimé-
trica. Todo mundo sabe disso. Um pouco de assime-
tria é importante. A própria questão da arquitetura,
por exemplo. Você vai lá em uma catedral fantástica,
gótica, lá no interiorzinho da França. A fachada não
é nada simétrica, repare nisso, mas é absolutamente
harmônica. O que está de um lado não é o que está do
outro, mas tudo se harmoniza.

A harmonia da vida humana não está na simetria.


A harmonia da vida humana não está na coisa qua-
driculada. A coisa quadriculada, a coisa simétrica
é tara de engenheiro, é tara de gente que tem um
fetiche nisso. Ninguém consegue ser mais produti-
vo, ninguém consegue encontrar o sentido às cus-
tas de quadricular a vida humana.

A vida humana não se quadricula.


É preciso um pouco de confusão,
um pouco de liberdade.

“Então, Italo, se o segredo da produtividade não


está em eu colocar todas as coisas em uma agenda,

34
onde está?” Bem, o segredo não está na agenda. O
segredo está em você sacar qual o processo.

Preste atenção. Uma coisa é assim: “Às 7 horas eu faço


isso, às 7h30 eu faço aquilo, às 8 eu faço aquilo”. Tra-
ta-se de um tipo de ordem: uma ordem cronológica.
Todavia ordem cronológica não dá conta de aumen-
tar a sua produtividade. O que dá conta de aumentar
a sua produtividade é uma ordem ontológica, por as-
sim dizer. É você saber o que é mais importante.

O que é mais importante? Quando você saca o que é


mais importante, você está dentro de algo chamado
processo. É o processo que importa. O que importa é
você sacar qual o processo da sua vida. Qual o pro-
cesso das suas relações afetivas? Qual o processo
do seu trabalho? Qual o processo da sua escolha?
Aí você vai vendo.

Veja só: processo de relação afetiva. Pessoas são


mais importantes do que coisas.

Vocês viram o filme Beleza americana? Lester, per-


sonagem de Kevin Space, estava tentando, de algum
modo, se reconciliar com a esposa, e eles começam
a se beijar; há ali uma musiquinha, o clima começa
a esquentar, eles estavam tomando um vinhozinho.
Quando eles vão se beijar (lembram da cena? É fan-
tástica), ele está com o copo de vinho na mão, e a mu-

35
lher trava; ela não consegue mais ficar ali apreciando
o beijo, o abraço, o carinho do marido. Ela começa a
olhar para o vinho que vai manchar o tapete, que vai
sujar o sofá. Pronto. Quebrou o processo, está enten-
dendo? Claro que vai haver uma alteração ali de qua-
lidade na percepção.

O que aconteceu? Ela colocou a coisa, a limpeza de


um carpete, na frente da pessoa. Ela colocou uma
coisa na frente da pessoa. Ela inverteu a ordem do
processo. Ora, pessoas são sempre mais importantes
do que coisas.

Então, na hora de você tomar uma decisão - “O


que eu preciso fazer agora?” -, você pondera. Se for
uma coisa de relacionamento afetivo, uma coisa de
convívio, é isso que importa. Então, você colocou na
agenda que, em determinado dia, às 19h30 vai lavar a
louça ( já vi agenda de todo tipo, acredite). Mas acon-
tece que nesse dia específico o seu filho tem uma de-
manda concreta. Que se dane a louça, deixe a louça
para amanhã. Deixe a louça para lavar outro dia. Não
lave a louça. Por quê? Porque há uma pessoa na sua
frente com uma demanda. Vá ficar com gente, que é
muito melhor.

A primeira coisa sobre processos: pessoas vêm antes


de coisas. Cara, isso dá uma tranqüilidade na vida.
Então, você já começa a falar assim: “É bom ter uma

36
agenda, mas, se eu tenho na minha cabeça esse cri-
tério de processo, já facilita pra burro”. No trabalho
acontece assim também. Você sabe o que precisa fa-
zer. O que é o processo de trabalho? Você tem de fa-
zer a primeira distinção assim: coisas importantes e
coisas urgentes. É aquela coisa velha de guerra. Não
estou inventando moda. Todo mundo fala, todo mun-
do sabe disso. Nós temos de resgatar certos conceitos
fundamentais para colocar nossa cabeça em ordem.

Em relação a trabalho, um jeito é assim: “Às 9h30 eu


vou ligar meu computador, às 10h30 eu vou respon-
der relatórios, às 11h30 eu vou fazer tal coisa”. Ago-
ra, o jeito mais importante é o seguinte: separe as
suas tarefas e atividades em “importantes” e “ur-
gentes”. Dentro do que é importante e do que é ur-
gente, você precisa encontrar o equilíbrio. Você vai
ter um monte de tarefa urgente que pode tomar a
dianteira das importantes. Então, precisa encontrar
um equilíbrio. Você tem de separar um tempo para
fazer coisas urgentes e para fazer coisas importantes.

Então, você vai organizar. Você vai pensar no seu tra-


balho assim: “Caramba, o trabalho só tem deman-
da urgente. Eu achei que fosse fazer uma coisa, mas
chegou tanta demanda de coisa nova, que eu não
consegui fazer o que eu tinha de fazer”. Opa, então
temos um problema aqui. É sempre assim? Então,
você tem de arranjar alguém para ajudá-lo. É sempre

37
assim? Então, de repente, o seu trabalho só lida com
coisas urgentes, e você não pode ficar aflito com isso.
Imagine um bombeiro, que apaga fogo, se quiser or-
ganizar a agenda dele. Não dá. Ele sabe que a nature-
za do trabalho dele é apagar fogo, que é sempre uma
urgência.

Então, pronto. O que ele tem de fazer? Ficar tranqüi-


lo dentro do processo.

Imagine só um sujeito de design. O nosso designer,


por exemplo, da nossa empresa aqui. É sempre ur-
gente. Nós sempre pedimos algo urgente para ele. Ele
precisa ficar tranqüilo com isso. Tem de falar: “Bele-
za. É isso. Não é que isso é urgente. O meu trabalho
é assim”. Então, você se acalma, ali dentro. O bloco
é: coisas urgentes e coisas importantes. Você precisa
ter uma listinha das coisas importantes, que você de-
veria estar fazendo e não está fazendo, e depois das
coisas urgentes. Existe uma previsibilidade nas coi-
sas urgentes.

Por exemplo, meu trabalho. O que é urgente? Laudo


é uma coisa urgente. O pessoal vem aqui, e não tem
como. Precisou do laudo porque o advogado pediu,
precisou do laudo porque o RH da empresa pediu.
Isso é urgente. O que você faz? Você cria um processo
para aquilo. É previsível. Veja bem, eu não sei quem
vai me pedir o laudo. Isso é imprevisível. Eu não sei

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se será a Dona Angélica, ou a Dona Olga, ou o Seu Ga-
briel. Eu não sei quem vai me pedir o laudo, mas eu
sei que laudo é a urgência do meu trabalho. O que eu
faço? Eu crio um processo para aquilo. Então, pronto.
Eu não tenho mais a percepção de urgência da coisa.
Quer dizer, aquilo não me dá uma demanda afetiva
que me tire do eixo. Qual o processo? “Denise (mi-
nha secretária), por favor, sempre que alguém te pe-
dir um laudo, você vai pegar o nome da pessoa, CPF
dela, qual a demanda da pessoa. Você já me dá um
negócio mastigado para eu fazer isso rápido”. Pronto.
Eu não tenho mais a percepção de urgência.

Quando o pessoal me cobrava o laudo, era assim:


“Que data eu coloco? De quando a quando?”. Isso
tem de vir no processo. Então, você cria um proces-
so. É isso que não bagunça a sua agenda. O que não
bagunça a sua agenda? Quando você tem os proces-
sos para o seu trabalho. Então, quanto a trabalho, o
esquema é: importância e urgência. Você vai ver que
existe uma previsibilidade nas urgências; a coisa não
muda muito. Em geral, o que te demandam de modo
urgente é sempre, mais ou menos, a mesma coisa. O
que você vai fazer? Você vai criar um processo para
aquilo, para você atender melhor. E o que é impor-
tante? Colocar na lista. Isso é muito mais útil do que
criar uma agenda.

Você sabe qual é a minha agenda? Eu não tenho. Eu

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só tenho hora para acordar. O pessoal pergunta as-
sim: “Caramba, Italo. Você é produtivo pra caramba.
Meu Deus do céu. Tão novo e já fez tudo isso. Tem cin-
co filhos, está vindo um sexto filho aí. Você faz um
monte de coisa. Eu queria saber como é sua agenda”.
Eu não tenho agenda. Você acha que eu tenho agen-
da? Eu não tenho agenda, absolutamente. Agenda é
coisa de maluco. E eu lá sei o que eu vou fazer às 8 da
manhã? Eu não sei. Mas eu sei o que é importante,
o que é urgente, eu tenho meus processos domina-
dos, e sempre que eu estou em uma situação entre
pessoa e coisa, eu escolho pessoa. A sua produtivi-
dade vai para outro nível, a sua presença vai para
outro nível, você fica dentro do que você tem de fa-
zer. Aí reside o segredo.

Então, cara, mate essas agendas. Não precisa de agen-


da para coisa nenhuma. Agenda só atrapalha. Não
precisa de agenda. Agenda é um saco, é um porre. Es-
queça a agenda.

“Italo, você não tem uma agenda?” Óbvio que eu te-


nho uma agenda. Meus pacientes estão ali, mais ou
menos. Uma agendinha você tem de ter. Mas é não fi-
car amarrado na agenda. E, sobretudo, não é a agen-
da que vai colocar ordem na sua vida. O que coloca
ordem na sua vida é a ordem de prioridades; não é
ordem do horário. Porque, se você agendou, se você
amarrou a sua vida na agenda, o que você faz tal hora,

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quando vier algo, de fato, prioritário, você vai ficar ou
ansioso ou vai se sentir um derrotado. Não vai fun-
cionar. Não precisa de agenda. Do que você precisa?
Alguns marcos no dia você precisa ter; hora que vai
acordar, hora que vai dormir. É uma coisa ou outra.
Agora, quanto ao resto, o que você vai fazer no meio
daquele negócio, é preciso ter o processo na mão. É
isso que funciona.

Então, processo: coisas importantes e coisas urgen-


tes. Pessoas sempre vêm antes de coisas, na ordem
da prioridade, na ordem da atenção, na ordem do
que você tem de fazer. Pronto. A coisa começa a fluir
melhor. Você começa a encontrar uma presença.

“Eu comprei uma agenda, e o máximo que eu escre-


vi nela foi o meu nome.” É claro. Não é isso que você
tem de fazer. É muito melhor – preste atenção – para
você encontrar ordem, para você encontrar pontua-
lidade, para você conseguir encontrar produtividade
no seu dia-a-dia, é mil vezes melhor você dominar
isso a que chamamos de processo. É o processo que
vai lhe dar ordem.

“Italo, o processo sempre me pareceu teórico de-


mais. Eu vejo essas lives de processo e não entendo
muito bem o que o pessoal quer dizer com processo.”
Processo é: importância e urgência; depois, pessoa
vem antes de coisa; e, no meio disso, você escreve

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mais ou menos o que você deve fazer.

Isso vai lhe dar uma tranqüilidade, uma presença,


uma instalação na sua realidade, vai lhe dar uma
grande produtividade; com isso vêm um conforto,
uma segurança, eu diria, que diminuem muito a
ansiedade. A ansiedade pode aparecer? Claro, a an-
siedade como um transtorno deve ser tratada como
transtorno. Mas não estou falando da ansiedade de
transtorno, estou falando de outro tipo de ansieda-
de: a ansiedade fisiológica funcional. Ela aparece por
dois motivos: porque você não tem a mínima idéia do
que vai fazer, então você fica ansioso; ou porque você
amarrou todo o seu dia e você não consegue cumprir
aquilo nunca, e fica ansioso.

Quando você não consegue cumprir aquilo nunca,


você vai se sentindo desmotivado pra caramba, mui-
to desmotivado. Então, é isso. A agenda pode ser útil
para você organizar uma vida que já está organizada
anteriormente, quando você tem um princípio hie-
rárquico na sua cabeça; quando você tem o princí-
pio de importância, o princípio de urgência, quando
você tem um princípio de que pessoas vêm antes de
coisas, pode ser que a agenda comece a fazer senti-
do para você. Para deixar claro: não comece tentando
organizar a sua vida pela agenda. A agenda vai amar-
rar a sua vida. É isso que a agenda vai fazer. Ela não
liberta; ela amarra.

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Então, essa é a idéia da live de hoje. Vamos tentar es-
quematizar: coisas importantes e coisas urgentes.
Isso aqui é fundamental na nossa cabeça. E como
você faz? Quanto a trabalho, separe o que é impor-
tante e o que é urgente; quanto a família, separe o
que é importante e o que é urgente. Por exemplo,
educação de filhos. Coisas que são importantes: edu-
cá-los bem, que eles tenham uma boa educação. O
que é urgente? Levar o moleque para vacinar, porque
a vacina está atrasada já há três meses; cortar a unha
do moleque, ele está parecendo o Zé do Caixão, pare-
ce um largado; cortar o cabelo.

Há coisa que é importante e há coisa que é urgen-


te. Cortar unha é importante? Não. Cortar o cabelo
é importante? Não. Mas é urgente, porque o mole-
que está parecendo um mendigo. Dar vacina? Bom,
é importante e urgente. Então, você vai lá, organiza
as tarefas, coloca em uma listinha. Aí a listinha fun-
ciona. Colocar no papel esse tipo de coisa funciona,
para dar uma clareza da situação. Mas colocar coisa
de agenda não adianta coisa nenhuma.

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Live #32 | 1º/03/2019 (sexta) - Instagram / Youtube

SABE POR QUE


NINGUÉM TE AMA?
Sextou. Hoje é sexta-feira, não há dia melhor para fa-
lar das coisas do coração. Todos os corações aflitos,
todas as carnes trêmulas, tudo se ativa neste dia ma-
ravilhoso da semana onde o amor pode acontecer.
Hoje iremos falar sobre o amor, mas não exatamente
sobre o amor.

Falarei para as meninas queridas e para os meninos


desencorajados. É para vocês que eu falo hoje, meus
amados. Vocês, que estão à procura de um chinelo
velho, de um abraço carinhoso, de alguém que pos-
sa afagá-los nesta noite de sexta-feira, vocês, que es-
tão sem um amor para chamar de seu. É para vocês
que eu dirijo toda a minha conversa hoje. “Italo, eu já
tenho homem”, “Italo, mas já tenho mulher”, eu sei,
mas sempre podemos melhorar, então eu também
falo para vocês no dia de hoje. Fiquem aí.

Apaixonem-se, é para isso que estamos aqui hoje,


meus amados e amadas, porque sei que vocês ficam
por aí chorando pelos cantos. Vai entrar o Carnaval
e vocês vão se desfazer nos bloquinhos, vão colocar
uma máscara atrás da outra para que tudo vire cin-
zas na Quarta-feira de Cinzas e enfim vocês chorem
amargamente a solidão que invadirá seus corações

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naquele dia. É isso o que acontecerá com vocês, cria-
turas amadas, se o coração dos senhores não estiver
preparado para receber as serpentinas e os confetes
da verdade do amor. Então não se iludam neste Car-
naval, mas fiquem aqui comigo e conversemos exa-
tamente sobre este assunto dos pares românticos.

Não quero que a vida de vocês vire cinzas naquela


quarta-feira triste onde acabam-se os blocos, onde as
trombetas cessam, onde os pés sangram depois de
terem se desfeito naquelas avenidas do Carnaval. Fi-
quem aqui comigo que falaremos um pouco sobre o
amor, pois sei que as senhoritas e senhoritos estão aí
à procura de alguém para chamar de seu. Acontece
que vocês, e eu, e todos nós, em algum momento da
vida, andamos por este mundo feito idiotas. Somos
uns grandessíssimos idiotas e é por isso que temos
dificuldade de encontrar alguém que se interesse
por nós. Esse é o ponto central da nossa conversa.

Eu vejo um monte de gente que vai para os meus cur-


sos, que vem aqui me procurar, são pessoas bonitas,
interessantes, com doutorado, com “diproma”, mas
estão sem ninguém, estão sem amor. Estão olhando
para o seu par romântico, que é a sua solidão, e não
encontram uma fonte de inspiração.

“Por que isso acontece, Italo?” Acontece pelo seguin-


te, veja só. Temos de entender o mecanismo desta

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porcaria. Há pessoas que são muito bacanas, legais,
bonitas, interessantes até, mas não têm uma mulher,
um homem, um namorado, não param quietas com
ninguém (e queriam parar). Todos conhecem gente
assim, talvez você seja uma pessoa dessas. Há pesso-
as que não param porque não querem mesmo, mas
há quem queira parar quieto com alguém, há quem
queira formar um casal, queira ter uma coisa mais
íntima, com uma estrutura, uma solidez, para de re-
pente até casar. O sujeito ou a menina querem sosse-
gar, querem arranjar uma pessoa, e às vezes não con-
seguem, não encontram. Vê-se um monte de gente
que está solteira há muito tempo. Por que isso acon-
tece?

O nosso coração dilata, ou seja, nós conseguimos


aumentar a nossa capacidade de amar. Esse é um
fenômeno que todo mundo conhece. Um pai que te-
nha um filho, depois outro, e depois outro, não divide
o amor, o amor aumenta. Quando entra um filhinho,
você começa a amar aquela porcariazinha. Depois
entra outro filhinho, e curiosamente, você consegue
amar mais os dois, o amor não divide. Não é como
um prato de bife. Se eu tenho um prato com um bife
gostoso, com alho e um ovo estalado em cima, e se eu
quero dividir esse prato com alguém, eu vou comer
meio bife, não dois. As coisas materiais gostosas são
divisíveis, nós a dividimos, são finitas. Se eu quero
compartilhar o pote de doce de leite com café que re-

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cebi em Belo Horizonte com a minha irmã, e se cada
um dá uma colherada, é claro que eu vou comer só
meio pote de doce de leite e ficarei sem a outra me-
tade.

O amor não é assim. Se eu entrego o meu amor, o


meu conhecimento, acontece um fenômeno mis-
terioso: o amor e o conhecimento multiplicam-se
por dois. Se eu recebo um filhinho na minha famí-
lia, eu começo a amar. Se eu recebo um segundo,
eu não amo pela metade, eu amo o dobro. É uma
coisa muito curiosa que acontece. Com o conheci-
mento acontece a mesma coisa. Se eu estudo e trans-
mito conhecimento a vocês, eu fico mais inteligen-
te, é isso o que acontece. É curiosíssimo, é uma coisa
maravilhosa. Essa é a estrutura da vida.

Se ao passo em que o amor sai ele se multiplica, ou


seja, se eu aumento a minha capacidade de amar ao
amar aos demais, há um outro fenômeno muito gra-
ve que é o inverso deste. Imagine-se, faça esse exercí-
cio contigo aí. Você.

Se você dirige o seu amor a você mesmo,


pronto, ferrou. Você não tem mais
como receber amor dos outros.

Veja que coisa curiosa.

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“Italo, isso é muito esquisito, porque é contra tudo o
que temos ouvido falar. A gente ouve que você tem
que se amar primeiro, para que outro te ame depois”.
Beleza. Vai nessa para ver o que acontece.

Se você se ama primeiro, se você disputa o seu amor


consigo, ninguém mais vai ter necessidade de te
amar. Você não recebe mais amor nem atenção de
ninguém. Veja bem: o seu amor, a sua autoestima,
o seu “autoamor”, como o pessoal gosta de cha-
mar, não tem de ser dirigido a você, não é assim que
você se torna uma pessoa mais amável, meu bem.
Você se torna uma pessoa mais amável não quan-
do se ama, não quando se serve, meu santinho, mas
quando ama mais aos outros. Este é o segredo des-
ta porcaria.

Comece a se amar e a pensar “Agora eu me amo, só


penso em mim”, e pronto, acabou, ninguém mais
precisa pensar em você. Não cabe outro olhar para
dentro de você. É um fenômeno. Você pode ouvir o
que quiser, pode enfiar o que quiser na cabeça, mas
infelizmente é assim que a coisa acontece. Nós não
somos causa suficiente para o nosso amor.

Se você está mortalmente interessado em si, em se


amar, sabe o que acontece? Você tapa um buraco.
Ninguém mais te olha, ninguém mais te ama. É sim-
ples assim. Você quer começar a ser uma mulher in-

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teressante, desejável, quer que os “boys” caiam todos
aos seus pés, quer finalmente poder gritar, ao chegar
neste dia da semana, “Agora sextou, vou encontrar
meu amor”? Quer de fato que as pessoas gostem de
você? Seja amável, seja interessada.

Se você quer ser interessante, seja interessado,


como já diria nosso psiquiatra Eduardo Mascare-
nhas. É isso o que você tem de fazer. “Italo, mas in-
teressado em quê?” Nos outros, em tudo! Isso não é
desleixo consigo mesmo. Você vai cuidar de si em
uma medida normal, vai cuidar do seu corpo, da sua
saúde, da sua alimentação, das coisas de que você
tem mesmo que cuidar, e pronto, não se dê muito in-
teresse.

O problema surge quando você fica olhando só


para si, pensando “Mas será que sou interessante?
Será que sou uma pessoa linda e gostosa? Será que
sou inteligente? Agora tenho de olhar para mim,
vou cuidar de mim”. É, vai nessa para ver onde você
vai cair! Vai cair na solidão, caramba, é por isso que
está sozinha aí, Pai amado!

Ame aos outros, aos demais, ame extrinsecamente, e


aí você começará a se tornar amável, desejável, você
começará a se tornar o foco de atenção. É simples as-
sim. Você que está solteiro ou solteira há um tempo,
ou então você cujo casamento está uma porcaria, que

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fica dizendo “Nossa, Italo, perdi a conexão com meu
marido ou com a minha esposa, não temos mais co-
nexão”. Você está nesta situação porque está olhando
só para si, só para o seu prazer, só para os seus inte-
resses, para si, para si e para si.

“Ah, ele não me ajuda a lavar a louça”, “Ela não me


ajuda a trocar a lâmpada”, “Ele não me ajuda cuidar
de não sei o que…” Você está olhando para você, você,
você e você. Pronto, o outro não olha mais, não cabe.
Não cabe o seu olhar e mais um.

Quando você se olha, não há


necessidade de o outro te olhar.

É claro que a desconexão vai vir, é claro que qual-


quer qualidade de relação fica uma porcaria. É as-
sim que funciona sempre.

Você tem que cuidar de si, isso não é uma apologia ao


desleixo pessoal. Eu sou o primeiro a dizer o contrá-
rio: você tem de ficar forte, ficar bonito, maquiar-se,
cuidar de si, vestir-se bem, procurar uma consultora
de imagem e estilo (siga a Paula Serman no @beleza-
cura), buscar uma nutricionista, uma educação físi-
ca, cuidar da sua imagem. Tem de procurar essas coi-
sas. Óbvio, quanto mais bonito você ficar, melhor, é
um elemento a mais. O problema não é esse. O pro-
blema acontece quando você faz isso tudo de um

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modo absolutamente egoísta. Tem de buscar essas
coisas sem dar importância para elas. Elas são ab-
solutamente coexistentes, funcionam como uma
base, não são um fim em si, mas um meio para que
você possa operar. Esté o truque da vida.

Quando você está pensando só em si, não cabe ou-


tro olhar ali. Esse assunto aí, de que “Ah, ninguém
me ama, eu amo fulano mas ele não olha pra mim,
não corresponde ao olhar apaixonado que eu tenho”,
é tudo uma bobeira. Não corresponde porque você
não é uma pessoa interessante, e não é interessante
porque não é interessado. Não tem mistério.

Quer que os outros se interessem por você?


Seja uma pessoa interessada, caramba,
interessada nos outros, no mundo exterior.

Quer receita para ser uma pessoa absolutamente de-


sinteressante, um pé no saco? Fale só de si e só das coi-
sas que estão diante de seus olhos. Seja uma mulher
ou um cara que chega em um ambiente e só sabe fa-
lar de si ou de coisas idiotas, de coisas que estão acon-
tecendo ali fora. “Ah, o que está acontecendo hoje?”
“Hoje está chovendo, e o elevador está quebrado”. É
isso o que torna uma pessoa chata, desinteressante,
é isso o que fará com que você não consiga aprofun-
dar nos relacionamentos, é isso o que fará com que
você não encontre alguém com quem de fato possa

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compartilhar uma vida. É um saco.

Todos esses relacionamentos que aparecem a par-


tir de um vínculo muito frágil dão em término. Por
exemplo: “Ah, a gente se interessou um pelo outro
porque nós dois gostamos de comida elaborada, nós
nos conhecemos no circuito gastronômico da minha
cidade”. Tá. É só isso? Esse é o único ponto de inte-
resse entre vocês? Saiba: o relacionamento vai aca-
bar, porque comida é uma coisa que está na frente do
olho. Uma hora um dos dois irá enjoar, ou ficar dia-
bético, ou vai perder o emprego e não vai mais poder
comer no mesmo restaurante. Pronto, o vínculo aca-
ba, é claro que o relacionamento também acabará.

Por outro lado, se o sujeito é uma pessoa que conse-


gue falar de outras coisas, de Arte, de filmes, se conse-
gue fazer piadas, projetos, se consegue se interessar
verdadeiramente no outro, então a relação acontece.

As pessoas são interessantes


quando são interessadas.

Isso é o que você tem de parar para pensar.

Se você está mortalmente interessado só em si, só


nas suas coisas, beleza, tudo bem, mas para que você
quer o amor de mais alguém? Você já não tem seu
amor desmedido aí? Todo mundo sabe que o amor

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de si para si é igual a comer algodão-doce: não sus-
tenta a barriga, dá um gostinho bom na hora, mas
depois se desfaz em algo que não vira nada. Pode vir
o guru que for dizendo que “Isto é o que importa:
você se amar”, mas o amor de si para si não tem
substância, é algodão doce, não nutre. O que nutre
é o amor nosso pelos outros. É isso o que dá subs-
tância para a nossa vida. Experimente. Você se tor-
na mais forte, mais interessante.

Quando é que você nota que, ao final do dia, você diz


“Caramba, hoje o dia foi bom”? Quando? Quando você
serve aos outros, quando você tem um olhar atento de
amor para os outros, raios, é aí que a coisa funciona.
Pode fazer do jeito que quiser. Faça de um jeito, faça
do outro, depois experimente a diferença entre uma
coisa e outra e escolha o que é melhor para você. Só
estou abreviando o caminho e te dizendo: o melhor
é isto, este é o que fica, esta é a substância mesma
da vida humana. Fuja disso para ver o que acontece.
Você vai ficar chata ou chato para caramba.

Pode ser que não fique solteiro e arranje alguém, mas


aí será aquela relaçãozinha de lixo da qual você toda
hora reclama para mim, aquela coisa que não anda
muito, não decola, te deixa sempre jogando uma asi-
nha para um vizinho, para um colega de trabalho,
sempre disponível para os outros… É claro, você está
olhando só para si, então o outro não consegue te

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olhar, te amar direito. Aí você se sente vazio, já que o
amor próprio, de si para si, é algodão doce, dá um gos-
tinho na boca mas não nutre e não sustenta. Acaba
que você terá que buscar alimento em outras fregue-
sias, mas nunca estará com a barriga saciada, com o
coração saciado, ficará borboletando por aí quando
tudo o que quer é uma solidez e uma consistência na
vida.

Não há truque, não há receita de bolo. Não é um pote


de pirlimpimpim, não é uma varinha de condão que
eu toquei na sua cabeça e falei “Agora seja um pessoa
interessante”, “Agora você irá arranjar marido”. Não é
aquela coisa de “Trago a pessoa amada em três dias”.
Até traz, meu filho, mas a pessoa amada vai te amar?
É isso o que importa. Pouco me lixei se o sujeito trou-
xe a pessoa amada em três dias, a relação continuará
sendo uma porcaria. Para quê você quer trazer a pes-
soa amada em três dias, caramba? Deixe a pessoa
amada em três dias para lá, porque você tem de ser
uma pessoa interessante antes. Quando você virar
essa pessoa interessante, a pessoa amada volta an-
tes dos três dias, raios, e fica do seu lado não só por
mais três dias, mas criando uma vida substancial.

Pare com essa porcaria de querer truque, fantasia,


mágica. Para quê você quer uma pessoa amada em
três dias se você continua sendo esse estorvo, esse pé
no saco que vem sendo há tanto tempo? Só há uma

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receita e um truque aqui: seja interessante. Aprenda
sobre Arte, aprenda a ver filmes, aprenda a conversar
sobre o outro. Não há nada mais sedutor que isso. O
pessoal fala “Inteligência é afrodisíaca”. É nada. In-
teligência não tem nada de afrodisíaco, pare com
essa besteira. Sabe o que é “afrodisíaco”, como di-
zem por aí? É você de fato se interessar pelo outro,
caramba, porque, quando isso acontece, há ali a
mobilidade afetiva, a mobilidade do amor.

Quando você é uma pessoa interessante, não


existe esse negócio de amor não correspondido,
porque você está mesmo querendo saber do ou-
tro, e aí o amor do outro verte sobre você.

Nós temos de ser benévolos, bons de verdade. Vai fi-


car querendo olhar só para o seu umbigo para quê?
Tem craca aí dentro, tem cutão no meio. Seu umbigo
está sujo há anos, você não passa um cotonete nessa
porcaria, está gordo para caramba, há uma caverna
de morcegos, uma plantação de cogumelos aí dentro
desse seu umbigo. Quer olhar para dentro dele para
quê, raios? Pare com essa porcaria de umbigo, umbi-
go, umbigo. Vá para o quinto dos infernos com esse
seu umbigo. Diabos, olhe para o mundo, para fora!
Seu umbigo só tem plantação de cogumelos, pare de
olhar para ele! Para quê você quer isso? Só se for para
ficar frustrado, porque cogumelo não nutre, desgra-
ça, o que nutre é carne, é substância.

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Vamos olhar para o outro, vamos verter o nosso
amor ao outro. Só aí a gente recebe o fluxo do amor,
só aí a vida fica do caramba, viver fica bom. Só aí
você gostará de acordar, só aí você vai acordar e di-
zer “Minha nossa, por que não acordei meia hora
antes?” É o contrário. Todo mundo tem essa sensa-
ção de “Ah, queria dormir só mais dez minutinhos”.
Para quê, caramba? Porque sua vida está um lixo, por
isso você quer dormir mais dez minutinhos, por isso
você pensa “Para quê vou acordar?”

Mas não. Quando você acha mesmo bom viver, quan-


do viver é um tesão, quando você acorda e pensa
“Tenho um serviço no mundo, vou servir, vou me in-
teressar pelos outros, vou entregar meu amor bené-
volo, ser útil para os demais, não encher o saco e não
reclamar”, aí você passa a querer acordar na hora.
Dormir mais para quê? Você quer é acordar para ver
quem ama, para servir no seu trabalho, para fazer a
tal da atividade física para ficar melhor e mais bem
disposto. A vida fica boa, bicho.

Experimente, por um único dia na sua vida, servir


mesmo aos demais e não olhar para si um único mi-
nuto. Ontem eu estava batendo um papo com a mi-
nha irmã aqui, estávamos falando das pessoas que
dizem “Agora vou ser bom, vou servir um cafezinho
para o meu amigo de trabalho. Agora eu entendi que
é importante servir, então vou pegar um cafezinho lá

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fora e vou dar para a pessoa que trabalha comigo” Aí
a pessoa dá essa porcaria desse café esperando algo
em troca.

Que coisa maluca! Você está esperando o quê em tro-


ca da mixaria de um cafezinho, caramba? A pessoa
não precisa do cafezinho! Você quer o quê em troca?
Ela não vai te dar nada em troca, porque isso não é
minimamente digno de ser objeto de troca! Quando
você dá um cafezinho para a pessoa para fazer uma
boa ação e espera algo em troca, você age como um
idiota! O que a pessoa tem que te dar em troca de
um cafezinho?! Nada! Ela não precisa te dar nada,
porque um cafezinho não é nada! Mas não é nada e é
tudo, porque você começa a servir.

É a mesma coisa de você estar lá na sua repartição


pública, carimbar o documento que precisa carim-
bar e falar “Nossa, mas que pessoa mal educada, nem
me agradeceu”. Agradecer o quê?! É seu trabalho,
desgraça! Você quer o quê em troca? Pare com essa
coisa maluca!

É também a mesma coisa dos pais que dizem “Nossa,


eduquei tão bem meus filhos, dei tudo para eles, dei
escola, comida, roupa lavada, e agora eles nem me
amam”. Caramba, você quer o quê em troca? Era a
sua obrigação! É ruim para ELE não te amar, mas do
seu lado, você não perde nada! Era o que você tinha

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que ter feito mesmo! Tinha que ter amado aquela
criatura incondicionalmente, tinha que ter dado di-
nheiro incondicionalmente, tinha que ter realmen-
te pagado a escola dela! Você quer receber o quê em
troca? Não há troca. Há coisas que são de mão única.
Aprenda isso na vida.

A maior parte das coisas que importam é via de mão


única, não via de mão dupla. Aprenda isso e pare
com essa expectativa maluca de que tudo tem que
ter uma troca. Não tem, meu amor, não tem. Aprenda
isso que a coisa ficará uma beleza, a vida ficará uma
maravilha. Você começa a ter um coração expandido,
a amar mais. A vida fica uma beleza. Você se torna
uma pessoa interessante pra caramba e todo mundo
começa a gostar de você. Não era isso o que você que-
ria? Não queria passar esta sexta-feira acompanhado
ou acompanhada de um amorzinho? Pronto, aí a coi-
sa acontece.

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@italomarsili
italomarsili.com.br

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