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OS FENÔMENOS NATURAIS E AS LEIS DE NEWTON

Décio Mallmith

A Física, uma Ciência dita "exata", busca, nos fenômenos da natureza, explicações para
seus modelos teóricos. Tais modelos, assim como toda a Física, não passa de uma
grande criação do intelecto humano e sua existência restringe-se a nossa realidade
intrínseca.

Na metodologia da Física, observa-se um fenômeno natural e tenta-se adaptar-lhe um


modelo teórico, sobre o qual é arquitetada uma lei física, passível de tratamento
Matemático e coesa em si própria, em termos das variáveis envolvidas no modelo
teórico. Desta forma, procura-se fazer com que o modelo teórico e o fenômeno natural
sejam correspondentes, duais. No entanto, qualquer fenômeno natural que se deseje
descrever apresenta uma quantidade incomensurável de variáveis, pois todo o Universo
interage com ele, de uma forma ou de outra, o que o torna, praticamente, indescritível. É
necessário, portanto, banir do modelo teórico todas as variáveis espúrias (incidentais),
i.é., aquelas que não podem ser explicadas pelo processo idealizado.

Por uma lei física é possível, através do adequado tratamento matemático, prever o
comportamento futuro do modelo teórico que lhe corresponde, diante de certas
circunstâncias iniciais. Ora, generalizar a aludida previsão ao comportamento futuro do
fenômeno natural correspondente é, no mínimo, discutível, uma vez que a analogia
modelo teórico-fenômeno natural pode não passar, muitas vezes, de mera casualidade.
Assim, baseado nas simplificações inerente ao modelo teórico, podemos afirmar que o
comportamento futuro deste modelo será, no máximo, uma aproximação do
comportamento futuro do fenômeno natural correspondente, abrindo, desta forma, um
leque de possibilidades, que varia desde o aproximadamente igual até o completamente
diferente.

Este processo de transição restringe-se a uma "Astrologia Científica", pois o fenômeno


natural, enquanto analisado ante o prisma da Física, não é representado, no modelo
teórico, em toda a sua amplitude física conhecida e, muito menos, em sua plenitude
desconhecida, de modo que sua totalidade física está muito além do modelo teórico.
Temos que considerar, também, que a Física não é o único prisma existente na natureza,
constituindo-se, apenas, em uma visão particular da mesma, sendo a realidade refletida
e refratada em vários outros prismas, o que torna, por conseqüência, a descrição
completa de um fenômeno natural algo tangente ao inatingível.

Neste contexto, é fácil nos transladarmos até uma partícula qualquer e verificarmos que,
para a mesma, não tem sentido as noções de reta, curva, movimento uniforme,
aceleração, distância, tempo, ajuste de trajetória ou qualquer outro conceito físico, pois,
enquanto a partícula pertence à realidade material, os conceitos emitidos fazem parte de
um campo de definição restrito ao intelecto humano.

Deixamos, por momentos, o problema da transição do modelo teórico para o fenômeno


natural e passamos à análise de um modelo teórico muito conhecido: as Leis de
Movimento de Newton, na qual seremos forçados a considerar inúmeras outras
dificuldades.
A segunda Lei de Newton, que na verdade não passa de uma definição, nos informa que
"a força resultante que atua num corpo qualquer é igual a derivada do momento linear
do corpo em relação ao tempo", que, para o caso da massa permanecer inalterada
durante o processo, resume-se em "a força resultante que atua num corpo qualquer é
igual ao produto da massa do corpo pela sua aceleração". A aplicação desta Lei, na
solução de problemas, nos traz alguns embaraços na identificação da força, ou forças,
"realmente" responsáveis pelo movimento do corpo em questão, uma vez que há
inúmeras atuando no corpo e em sua circunvizinhança, compondo, desta forma, um
Sistema Interagente. Sabemos, porém, pela terceira Lei de Newton, que "a toda ação
corresponde uma reação, de mesma intensidade e direção e de sentido oposto", de onde
decorre que o par ação e reação não podem ocorrer no mesmo corpo, pois, se assim
fosse, a resultante seria nula e, por conseqüência, não haveria movimento. Disto se
conclui que o movimento advém de uma força externa aplicada ao corpo considerado.
Esta força, ou forças, que muitas vezes são "reações" a forças que o próprio corpo que
se movimenta aplica sobre os corpos da vizinhança, são as que devem ser levadas em
conta para a aplicação correta da segunda Lei de Newton, visto que, qualquer outra
consideração leva a uma infinidade de outras forças, uma espécie de "efeito em
cascata", que se cancelam duas a duas, conforme é previsto pela terceira lei.

É interessante notar que, por esta terceira lei, só é possível a existência destas leis de
movimento para uma partícula graças a existência do restante da matéria do Universo,
pois, se considerarmos que a partícula é única no Cosmos, devemos admitir que não há
força nenhuma atuando sobre a mesma porque, se houvesse, implicaria,
necessariamente, na existência de um outro corpo, onde ocorreria a reação a força
mencionada, o que contradiz a premissa inicial de que a partícula é única no Universo.
Podemos estender esta situação para o caso de várias partículas, bastando que se
considere tal conjunto como um corpo único. Sucessivas extensões de semelhante
consideração extrapolariam o caso limite, quando, então, toda a matéria do Cosmos
seria vista como um corpo uno e indivisível, porém, não rígido, o que nos leva a
concluir que a força resultante que atua neste corpo é nula, ou seja, o Universo como um
todo não está acelerado e, portanto, a sua variação de Momento Linear, também, é nula.
Isto posto, salientamos, ainda, que, voltando ao problema da partícula única, somente
um sistema de referência fixo à partícula seria viável, de onde não se constataria
movimento algum, sendo, pois, impossível estabelecer qualquer lei de movimento.

Newton, ao estabelecer o seu princípio de Inércia, sua primeira Lei de Movimento,


sentiu a necessidade de estabelecer um Sistema de Referência Inercial, qual seja, aquele
que não se encontra acelerado. E mais, achava que um sistema deste tipo fosse um
Sistema de Referência Absoluto. A partir deste sistema, definia a sua Lei da Gravitação
Universal, onde "a matéria atrai matéria na razão direta das massas e na razão inversa
do quadrado da distância". Ocorre que o conceito de Sistema de Referência Inercial,
rigorosamente aplicado, Absoluto, como pensava Newton, é teoricamente inconsistente
perante a realidade do Universo, como bem demostrou Einstein em sua Teoria da
relatividade, o que nos leva a concluir que todos os referenciais que conhecemos devem
estar acelerados, uns em relação aos outros, e que, portanto, as forças ditas Newtonianas
são fictícias, ou seja, resultam da aceleração do sistema de referência em relação ao qual
estão sendo consideradas. Desta forma, o modelo clássico de Newton, que se pensava
definitivo, utilizado por uma multidão inumerável de cientistas, ano após ano, vê-se
substituído, repentinamente, por outra teoria mais abrangente; no caso a Teoria da
Relatividade de Albert Einstein.
Neste momento, a pergunta imediata que nos ocorre é: seria o modelo de Einstein
definitivo? A resposta, felizmente, não a temos, pois a busca do definitivo e,
simultaneamente, a consciência de sua inexistência é o paradoxo que impulsiona a
Ciência.

Obviamente, os conceitos aqui emitidos não são absolutos, pois na Física nada o é, mas,
de qualquer sorte, tentamos disseminar um pouco a neblina que paira sobre esta genial
criação do intelecto humano – a Ciência -, em um de seus mais excitantes ramos: a
Mecânica. Certamente esta utopia científico-descritiva, que são os modelos teóricos,
ainda nos causarão incontáveis transtornos, no paciente arranjo deste imenso quebra-
cabeças que é o Universo, mas é desta forma que a Física avança – sobre seus próprios
erros – e é através de problemas aparentemente triviais que se chegou a esta grande
quantidade de conhecimento que, não por acaso, já foi denominada de Filosofia
Natural.