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III semana de pesquisa em artes

10 a 13 de novembro de 2009 art uerj


processos artísticos contemporâneos

Caminho Plural, o percurso da desmaterialização à materialização do objeto

Leonardo Motta Campos

Artes Plásticas – UERJ

A pesquisa aborda, através de um processo artístico, a presença da fotografia na arte


contemporânea. Com a efemeridade da performance, o objeto artístico se desmaterializa
dando lugar ao corpo e a ação como suporte da obra. Pensando a obra como ação na
cidade, o projeto desenvolve a pesquisa em torno da linha, como um percurso a percorrer, em
paralelo com o fluxo da cidade e seus corpos. Como resultado, o projeto desenvolverá um livro
fotográfico, no qual conterá o registro visual das ações dentro do espaço urbano.

Desmaterialização do objeto; fotografia na arte contemporânea; intervenções urbanas.

The research board, across by artistic process, the presence of photography in the
contemporary art. With the ephemeral of the performance art, the artistic object turn immaterial
give the place to body and the action like support of the work. Thinking the work like a action
into the city, the project expands the research around about the line like a route to walk, in
parallel with the flux of the city and them bodies. The result of project is a photography book,
each has the pictures of the performances into the urban space.

Dematerialize of the object; photography in the contemporary art; urban intervention.

1- Introdução
O projeto de pesquisa Caminho Plural abordar através da construção de
uma poética, baseada na reflexão critica, teórica e prática de diferentes artistas e
pensadores teóricos, discutindo a desmaterialização do objeto artístico mediante a
efemeridade das ações performáticas. Em conseqüência ao vazio provocado pela
ausência do objeto, surge a fotografia como mediadora entre a criação artística, que

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neste novo contexto não resulta em um objeto finito e acabado, e o espectador.
Agregando a reflexão teórica ao projeto, apresenta-se como defesa pela escolha
da cidade como campo de atuação a teoria de Brian O`Doherty1 publicada na ArtForum
na década de 70, na qual o autor investiga o efeito do contexto da galeria modernista
sobre o objeto artístico e sobre o visitante; e compara os locais de exposição de galerias
e museus do século XX com as igrejas medievais, ambos criam um espaço asséptico,
atemporal e sacralizado, distanciado das vicissitudes da vida cotidiana.
Para conduzir a linha de pesquisa prática, o projeto mira a Experiência nº.
2 de Flávio de Carvalho e Trouxas Ensangüentadas e 4 dias e 4 noites de Artur
Barrio, que consistem na ação de deslocamento pela cidade, dialogando a arte com
os corpos do coletivo e seus fluxos.
Em ambos os casos, as propostas artísticas exploram a efemeridade como
uma qualidade poética, utilizando como recurso de subsistência da obra os registros
textuais dos artistas. A ação é a força da obra, que inicia e encerra. Entretanto,
mesmo após o fim, a obra cria seus desdobramentos e suas extensões, que acabam
por somar-se à ação inicial.
Diante de um novo contexto, a fotografia confirma seu lugar no campo da
arte. O vazio provocado pela efemeridade das ações performáticas é ocupado pela
fotografia. Phillippe Dubois defende em seu livro, O ato fotográfico2, o argumento que
consiste em uma arte contemporânea fotográfica. As criações artísticas passam a
incorporar conceitos fotográficos no processo de criação.
Como resultado prático o projeto consiste em quatro ações dentro do espaço
urbano que consistem na construção de quatro linhas temporais e espaciais
constituída por quatro elementos distintos (barbante, troncos de 1,8 a 2 metros de
altura em forma de Y, folhas secas de amendoeira e sementes da mesma árvore),
que denomino ato-percurso. Associado a composição da linha surge o elemento
árvore. É através da tensão provocada entre a racionalidade das linhas da cidade e a
organicidade do mundo vegetal, cria-se o desenho espacial. As quatro linhas originam
e se manifestam a partida da/ pela/ com/ através da árvore. São quatro ações
que ocorrerão em quatro pontos distintos, aproximando e estabelecendo diálogos
possíveis entre a arte e o fluxo de corpos do coletivo da cidade.

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2. Quadro teórico de referências
Talvez seja difícil, ter clareza precisamente sobre o objeto central de
pesquisa deste projeto, visto que inúmeras abordagens se desdobram em cima das
proposições do projeto. Entretanto, pode-se afirmar que há três principais pontos de
interesses que revezam a hierarquia entre si. São eles: a desmaterialização do objeto
artístico mediante a efemeridade das ações performáticas, a exploração do espaço
não institucional da arte (compreendendo a cidade e o espaço natural como área de
atuação) e a presença da fotografia nos processos artísticos contemporâneos. Estes
objetos de interesse são apenas o início da pesquisa, pois o projeto ao dialogar esses
três pontos abre novas discussões.
Na busca da interação entre os fundamentos teóricos e práticas artística, o
projeto Caminho Plural estabelece o dialogo entre as práticas de Flávio de Carvalho,
Artur Barrio e dos artistas de arte ambiental, ou land art, com teorias de Rosalind
Krauss3 sobre o campo ampliado da escultura, as de Brian O`Doherty sobre a
natureza do interior do cubo branco das galerias de arte do século XX e a presença
da fotografia dentro dos processos criativos contemporâneos.
Segundo Rosalind Krauss a presença da dimensão temporal é um instrumento
fundamental para a análise dos caminhos da escultura do século XX. A escultura
deixa de ser uma categoria estática e idealizada, e transforma-se, assimilando a
dimensão temporal, participando já de um campo ampliado da escultura. A dinâmica
sugerida pela escultura coloca tanto o espectador como o artista diante do trabalho e
do mundo, a fim de encontrar a reciprocidade entre artista, obra e espectador.
Publicado na Artforum, o ensaio de Brian O`Doherty, intitulado No interior do
cubo branco, investiga o efeito do contexto da galeria modernista sobre o objeto
artístico e sobre o visitante. No espaço de exposição asséptico e atemporal das
galerias, a obra de arte é individualizada e apresentada em ambiente homogêneo,
dando destaque à obra como uma coisa em si mesma. Muito da arte que se produziu,
principalmente na primeira metade do século XX, foi idealizada para ser exposta
nesse ambiente sacralizado e distanciado do mundo. A arte existe numa espécie de
eternidade de exposição.
Em meio a tantas rupturas e reformulações conceituais da arte, vê-se surgir

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mais uma nova linguagem artística, a arte da performance ou a arte de ação. Neste
novo contexto, insere-se a ação do artista como atividade criadora de situações
efêmeras, na qual não se resulta, obrigatoriamente, a construção de um objeto
artístico, essencialmente material, mas sim, a vivência de uma experiência temporal e
espacial.
Grande nome brasileiro é Flavio de Carvalho. Suas experiências nas ruas
paulistanas na primeira metade do século XX introduzem no Brasil as primeiras
manifestações das ações urbanas. O ato de andar. Passar pelos e aos olhos dos
outros. A Experiência nº. 2 é um ato de radical experimentação dos limites de um
evento que age, a partir do movimento de deslocamento utilizando o corpo como
principal suporte.
O desejo de deslocamento é o princípio da ação. A movimentação é a própria
pulsão de se estabelecer em outro lugar, diferente do local que se ocupa. Deslocar-se
na cidade é a possibilidade de se encontrar no outro, com outro através do outro. A
ação percorre no corpo e pelo corpo, tencionando os limites, sejam eles os corpos do
detonador, do propositor ou do coletivo.

“Contemplei por algum tempo este movimento estranho de fé colorida,


quando me ocorreu a idéia de fazer uma experiência, desvendar a alma
dos crentes. Tomei logo a resolução de passar em revista o cortejo,
conservando o meu chapéu na cabeça e andando em direção oposta
a que ele seguia para melhor observar o efeito do meu ato ímpio na
fisionomia dos crentes”. 4

Flávio de Carvalho é um nome que não deve ser classificado historicamente,


inerente a uma fase modernista, e sim, contemporâneo a nós, pois suas ações
são precursoras de um tipo de performance interdisciplinar que incorpora
conceitos de psicologia, antropologia e artes plásticas, que a partir da década
de 60 seria conceituada e vivenciada por um grande contingente de artistas. A
interdisciplinaridade proposta pela Experiência Nº. 2 expande a definição fácil de
conceituar a ação performática como uma arte que é feita ao vivo pelos artistas. 5

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Os reflexos das experiências de Flavio de Carvalho podem ser percebidos
na obra de Artur Barrio com suas Situação T/T,1 e 4 dias e 4 noites realizadas na
década de 60. Tencionando os limites das categorias de artes, Barrio destaca-se
pela utilização de materiais precários conjugados a efemeridade de suas ações e
experiências espalhadas pela cidade, relacionando-se diretamente com a mesma e
com seus habitantes.
A eficiência do trabalho de Barrio e Flávio de Carvalho reside na inserção do
inesperado no espaço da vida cotidiana afastada dos lugares institucionais da arte. A
efemeridade das situações e experiências proposta por ambos os artistas se perpetua
com o auxilio dos registros textuais e fotográficos de seu processo criativo.
A historia da fotografia apresenta sua invenção como o resultado da conjunção
de duas invenções pré-liminares e distintas: a primeira puramente ótica (dispositivo
de capacitação de imagem), a outra, essencialmente química, é a descoberta da
sensibilização à luz de certas substancias a base de sais de prata. Vê-se com isso
o surgimento de um novo meio mecânico, ótico-químico, pretensamente objetivo,
porém com fortes aspirações de se firmar no campo da arte.
A foto não é apenas uma imagem (um produto de uma técnica e de uma
ação, o resultado de um fazer e de um saber fazer); é também, em primeiro lugar
um verdadeiro ato referencial, a produção de uma imagem que se relaciona com
um momento passado, portanto, uma imagem ato, compreendendo que esse ato se
limita apenas à produção da imagem, mas inclui também o ato de sua recepção e
contemplação.
Phillippe Dubois em seu livro O ato fotográfico cita Walter Benjamin, ao
considerar que “tudo muda, contudo, se da fotografia como arte, passa-se à arte
como fotografia”. 6 Se o século XIX foi um período em que muito se questionou sobre
o valor artístico da fotografia, já que esta se apresenta supostamente como um
aparato tecnológico, a questão inverte-se ao longo do século XX. A pergunta feita
agora é: a arte é ou tornou-se fotográfica? Dubois aponta a arte e a fotografia como
dois campos de expressão, que tem sua relativa autonomia, mas jamais deixaram de
manter relações inextricáveis, de atração e repulsa, de incorporação ou rejeição.
A arte se apropria de certas lógicas formais, conceituais e de percepção

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inerente à fotografia. Há uma inversão de ponto de vista que indica não uma
fotografia como arte, mas antes a arte contemporânea impregnada em seus
fundamentos pelos conceitos fotográficos. A arte contemporânea, pelo menos uma
significativa parte do que se produziu, caminha para uma produção onde a fotografia
é o intermediário entre obra e público.
Tanto as experiências de Flávio de Carvalho quanto as de Artur Barrio
deslocam os valores da representação concebida como produto acabado de uma
atividade para o da própria atitude criadora, do processo gerador, da idéia e do
ato. Em resumo, o “percurso” das obras não como objetos (finitos), mas como um
processo (em curso).
É evidente que em um primeiro momento, a fotografia se relaciona com as
“novas obras de artes” como simples meio de documentação da ação do artista
no lugar específico. Mas o papel da fotografia não pode ser um simples registro.
Logo, esta rompe o limite de documento, e torna-se uma forma de pensamento que
influencia diretamente a concepção do projeto. Os artistas já pensam seus trabalhos
a partir dos ângulos fotográficos de sua documentação.

3. Objetivos
“De uma cidade, não aproveitamos as suas sete ou setenta e sete
maravilhas, mas a resposta que dá às nossas perguntas.”
Ítalo Calvino7

A produção a desenvolver estabelece o dialogo com o conceito de


temporalidade no campo ampliado da escultura defendida por Krauss agregando
valores das ações performáticas de Flávio de Carvalho e Artur Barrio e a escolha de
materiais naturais utilizados pelos artistas da land art, especialmente Richard Long e
Andy Goldsworthy.
A corporalidade da cidade ou a do individuo é a resultante dos processos
relacionais do corpo com outros corpos, ambientes e situações, estes processos são
justamente os elementos que reorganizam e reconfiguram tanto os corpos quanto
o ambiente que se modificam reciprocamente e simultaneamente. A cidade é um

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ambiente de existência do corpo, um fator de continuidade da própria corporalidade
de seus habitantes.
A cidade somente ganha corpo e torna-se “outro corpo” quando é
experimentada e vivida no espaço real e cotidiano, caso contrario, ela tem apenas
como função a cenografia de um espaço onde ações ocorrem sem qualquer tipo
de relação direta com o espaço nas quais estão inseridas. A verdadeira e clara
compreensão da cidade se dá através da relação entre corpo do cidadão e o corpo da
cidade, que consequentemente, permite uma reflexão e a possibilidade de pensar a
intervenção urbanística como ação de transformação real e necessária à cidade.
Dentro do espaço urbano ocorrerão quatro ações performáticas que consistem
na construção de quatro linhas temporais e espaciais constituída por quatro
elementos distintos (barbante, troncos de 1,8 a 2 metros de altura em forma de Y,
folhas secas de amendoeira e sementes da mesma árvore), que denomino ato-
percurso.
Associado a composição da linha surge o elemento árvore. É através da tensão
provocada entre a racionalidade das linhas da cidade e a organicidade do mundo
vegetal, cria-se o desenho espacial. As quatro linhas originam e se manifestam a
partida da/ pela/ com/ através da árvore. Linha compreendida muito além de um
infinito de pontos em um papel branco. A linha compreendida como um desenho
espacial conseqüente de um caminho percorrido, uma experiência efêmera. A tênue
linha limite, que separa e une.
São quatro ações que ocorrerão em quatro pontos distintos, dialogando a arte
com o fluxo de corpos do coletivo da cidade. Como resultado material e objetivo, o
projeto apresenta a criação de um livro fotográfico, que contará com fotos das ações
e mapas do Rio de Janeiro localizando as ações pela cidade.
Quando um artista repete a mesma forma com materiais diferentes, é de se
supor, que o conceito que o artista deseja alcançar envolve o material, diz Sol Lewit8.
Para cada material há um discurso distinto, estabelecendo relações entre o material,
o conceito da ação e o local escolhido para a realização do ato-percurso.
O primeiro ato-percurso chama-se De galho em galho, que é a materialização
da linha na tridimensionalidade, um salto da planaridade do branco do papel para a

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tridimensionalidade do espaço. A linha perfeita cria-se na tridimensionalidade a partir do
fio de barbante que avança no espaço natural tendo a árvore como suporte. O barbante
compõe a linha reta incomum na natureza. A linha como uma direção a caminhar.
Diante da linha visível no espaço, caminho para um novo caminho. As
possibilidades do caminho apresentam-se como um futuro prematuro. O segundo
ato-percurso é denominado Y, onde troncos em forma de y serão alinhados no chão;
os troncos revezam a dianteira da linha deslocando-se assim pela cidade. Y são as
escolhas e os desvios do caminho.
O terceiro ato-percurso, João e Maria, faz alusão à fábula infantil na qual
duas crianças marcam seu caminho com miolos de pão. Desta vez, as amêndoas
compõem o desenho que será realizado por mais uma artista ainda a ser convidada.
João e Maria fala sobre o medo do percurso sem o regresso, a necessidade que
temos de encontrar uma via possível de resgate de nossas origens. João e Maria é o
medo de se perder pelo caminho e não poder voltar. O caminho de ida necessita do
retorno. A semente como origem e veiculo da vida. Vida repleta de ação.
A cidade é feita das relações entre as medidas de seu espaço e os
acontecimentos do passado. Memória de outono é a conclusão dos quatros
atos-percursos. Com um arranjo de folhas enroladas ao corpo transitarei da pela
Avenida Rio Branco partindo da Cinelândia em direção a Candelária. O sentido
de deslocamento adotado vai contra o trânsito dos carros e as passeatas. A
memória caminhando do presente para o passado na contra mão do trânsito com
suas folhas ressecadas caindo pelo chão da cidade, que observa tudo com olhos
curiosos. Caminhar na contra mão como a resistência da memória opondo-se ao
esquecimento. Ir contra o fluxo. Nadar contra a corrente. Se opor. Resistir.
Refletindo sobre a efemeridade das performances, à inacessibilidade dos
expectadores às obras produzidas pela land art e à presença da fotografia na arte
contemporânea; e objetivando dar coesão a todo o processo de criação artística,
venho aqui elaborar o projeto de um livro de artista.
O livro fotográfico é a estratégia lançada a fim de conjugar os quatros atos-
percursos através de fotos e mapas que demonstram e localizam visualmente os
eventos na cidade. Se as ações pertencem à cidade, o livro, resultado dessas ações,

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AoLeo - Ir e Vir –
intervenção urbana
(barbante esticado em
árvore; Radial Oeste –
fev 09)

pertence ao campo da fotografia. O papel, a página e a fotografia todos concentrados


na mesma função: dar suporte ao registro da ação.
Deslocamentos envolvem direções. Os mapas (des) orientam, (des) constroem
um lugar outro, que remete ao lugar onde nossos corpos atuam. Assim como os
mapas, a bússola também é (des) orientadora. A cartografia (des) configura o fluxo de
ida e vinda, de parada e de acesso. Portanto, a cartografia é suporte e dá suporte ao
livro fotográfico, (des) localizando os eventos espacialmente.
Os mapas portugueses já demonstravam como os monstros ou os precipícios
sem fundo, determinavam os limites do espaço. É irônico pensar como pôde existir
um mapa com um monstro representado. Talvez em um livro de fábula infantil isso
seria mais fácil de encontrar. Mas de fato, há quinhentos anos atrás, os navegantes
portugueses temiam se deparar com criaturas ultramarinas. Portanto, me faz pensar.
O que nossos mapas dizem de nós hoje? Quais são os espaços que são permitidos
ocupar? Quais são os movimentos de deslocamentos possíveis? Estão nossos
sonhos nos mapas? Estão nossos medos nos mapas? Nós somos nossos mapas.
Através de linhas estamos representados.
O livro é um resíduo dos acontecimentos, uma estratégia a fim de suprimir a
ausência da ação depois de ocorrida. A efemeridade da ação transforma-se na ação
de paginar o livro fotográfico. É uma tentativa de subsistir a experiência vivida por
mais tempo, e conseqüentemente, entrar em dialogo com as produções e práticas de
outros artistas e pessoas
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4 - Considerações finais
A arte de ação contrapõe o conceito de representação realista e a idéia de
uma representação acabada. A arte, de um modo geral, fazia uso da fotografia como
simples instrumento de segunda mão (documental, registro) que por sua vez em
seguida passa a integrar a criação como elemento fundamental para concepção
da ação artística, e logo, a arte impregna-se com a lógica fotográfica; e por fim,
invertendo os papeis dando à fotografia o status de obra.
Entretanto, a ação funciona como o centro emissor da pontecialidade artística
da obra, mas aglomerado a esse pólo de força, encontra-se tudo que atravessa a
obra, como os registros textuais e fotográficos, as críticas, e em alguns casos, os
boletins policiais. Os desdobramentos que a obra provoca criam uma névoa que
fortalece obra, entretanto, estes desdobramentos geram a indefinição do que seja a
própria obra. . De algum modo, essa “poeira” pertence ao “núcleo”, e este se mantêm
forte pela presença da vizinha enevoada.

AoLeo Memória de
Outono – Folhas
secas de amendoeira
enroladas ao corpo (Av.
Rio Branco mar-09

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A desmaterialização do objeto artístico implica na tensão entre resíduo e
registro. A distinção entre ambos não deve ser baseada em valores hierárquicos.
O registro tem como finalidades a captura do instante e proporcionar certo nível de
descrição da ação. Os resíduos são fragmentos do acontecimento, são potencias do
movimento e da ação, na mesma medida que os objetos resultantes são partes da
extensão da ação transcorrida – a descrição do percurso enquanto atualização da
objetividade do acontecimento.
O resíduo proporciona materialidade à ação, enfatizando a densidade do
processo criativo. Portanto, a totalidade do projeto envolve a realização dos quatro
atos-percurso, que consequentemente, resultam na criação de um livro fotográfico, o
resíduo da ação.
Portanto, o que procuro afirmar, é a possibilidade em desmaterializar o objeto
artístico, e em paralelo, criar desdobramentos de uma ação, agregando outros
valores artísticos que o efêmero não produz. O livro fotográfico é a valorização das
ações per si e a estratégia que procura escapar da imaterialidade da criação artística
contemporânea.

Notas
1 O`DOHERTY, Brian. – No interior do cubo branco: a ideologia do espaço da arte; trad Carlos S.
Mendes Rosa. – 1ª ed. – São Paulo: Martins Fontes, 2002.
2 DUBOIS, Phillippe – O ato fotográfico e outros ensaios; trad. Marina Appenzeller. – Campinas SP:
Papirus, 1993.
3 KRAUSS, Rosalind E. “A escultura no campo ampliado”. In: Gávea- revista do curso de Especialização
em História da Arte e Arquitetura no Brasil, nº1. Rio de Janeiro: Pontifícia Universidade Católica.
4 CARVALHO, Flavio de – Experiência número 2, São Paulo: Nau Editora, 2004.
5 LIGIÉRIO, Zeca – Flavio de Carvalho e a rua: experiência e performance. O percevejo, revista de
teatro, critica e estética. Programa de Pós-Graduação em Teatro UNI-RIO.
6 DUBOIS, Phillippe – O ato fotográfico e outros ensaios; trad. Marina Appenzeller. – Campinas SP:
Papirus, 1993.
7 CALVINO, Ítalo - Cidades invisíveis. Cia. das Letras, 2000.
8 FERREIRA, Glória; COTRIM, Cecília (org.) – Escritos de Artistas: anos 60/70, trad. Pedro Sussekind,
Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2006

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