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CRÔNICAS & ENSAIOS
Uma Crítica aos Costumes
GALENO PROCÓPIO M. ALVARENGA
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Esse livro faz parte do acervo de publicações do Psiquiatra e Psicólogo


Galeno Alvarenga. Disponibilizamos também a versão impressa, que
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Tags: Agressividade e Violência, Comportamento / Condutas, Crenças anti-


gas / Mitos / Superstições, Educação e Conhecimento, Emoções Sentimentos
Controle, Informação Linguagem e comunicação, Livros Online Grátis, Livros
Psicologia, Livros Psiquiatria, Médico vs Paciente, Sociedade: Valores e Cultura

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Índice
7 Introdução

Valores
9 Homem: Ator engraçado e ridículo
13 Dois modos de pensar que não combinam
16 Ser Humano: Anjo ou Demônio?
19 Responsabilidade moral: Fato ou ficção
22 Satisfação e sofrimento: Dois lados da mesma moeda
25 Viva feliz realizando coisas ruíns
32 O Sequestro da Camisa Listrada
38 Valores: Informações resumidas

Agressividade e Violência
42 O Assalto
48 Brigas de Casais: Agressão ou Excitação Sexual?
50 Marido Violento: Este Incompreendido
53 Conheça o Estuprador
55 Agressividade e Violência: Informações resumidas

Aprenda a não ser tolo: três Marias vão ao médico


59 Maria Ingênua vai ao médico
64 Maria Cautelosa vai ao médico
68 Maria Sofisticada vai ao médico
73 As três Marias: Informações resumidas

Nosso povo
79 Entardecer de uma estrela: “BIG BROTHER”
84 Os maiorais
90 Amanhecer sem Futuro: Fortunato e Felicidade vão às Compras
95 Metamorfose
104 Fanfarra para um Homem Comum
107 A Fabricação do Homem Fora-de-série

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110 Um Lugar ao Sol
113 Nosso Povo: Informações resumidas

Início do universo - começo da vida


117 O nascimento do Universo
119 O BIG-BANG
122 A Explosão inicial: Agrupamento das Letras
126 O aparecimento dos Seres Vivos
129 Organismo Humano: O que são Seres Vivos?
133 Nascimento do Bebê: Primeiros contatos
136 Recém nascido: Ligação inicial com o Criador
138 Formação de Modelos: Relação mãe/filho
139 A Plantonista
144 Início do Universo – Começo da Vida: Informações resumidas

Emoções, sentimentos, memória e indivíduo


150 Emoção: A história de Geraldo
155 O que é emoção?
158 Sentimentos: Afetos secundários
162 Memória, Aprendizagem e Pensamento
164 Duas Memórias: Procedimento e Declarativa
168 O Eu e a Regulação Interna
174 Confidências à Meia-Noite
180 Emoções, Sentimentos e Memória e Indivíduo: Informações resumidas

Comportamento
188 Tenha Coragem de ter Medo
193 Como era Verde meu Vale
197 O Modelo da Lata de Lixo
200 AIDS: Você tem medo da Doença ou do Doente?
204 O Preço de uma Escolha: Adeus às Ilusões
212 Adivinhos: Esses Desadaptados
215 Comportamento: Informações resumidas

Sociedade e cultura
220 Os Donos do Poder
224 Nossas Origens Culturais: Chinesa e Grega

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229 Um desfecho inesperado
238 Loucos X Sem-tetos
242 O Conhecimento e as Diversas Línguas
248 Sociedade e cultura: Informações resumidas

Informação, comunicação e linguagem


254 Duas Mulheres Num dia Qualquer
258 TV e Pesquisas de Opiniões: Você Decide
264 Discurso: O Toque Sutil dos Sons
267 O Que se Esconde Por Trás dos Slogans
271 Informação, Comunicação, Linguagem: Informação resumidas

Lembranças, recordações, saudades


276 Mergulho no Passado: Uma História Verdadeira

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Para minhas filhas Jussara e Juliana

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Introdução
Quando eu era criança, meus amados e esforçados “professores”, im-
buídos das melhores intenções e empenhados em preparar-me para a
vida futura na sociedade, prescreveram-me algumas regras para avaliar
o comportamento humano quanto ao certo e errado.

Alguns, possivelmente preocupados em não me assustar, transmi-


tiram-me um único modo de “ver o mundo” com respeito à ciência,
filosofia, ética, religião.

Outros, menos apreensivos com a tranquilidade do espírito, alerta-


ram-me para a existência de mundos diferentes, bem como de formas
diversas para observá-los.

O primeiro grupo de “professores” – os convergentes e presos à


tradição dogmática e da certeza única – dificultou-me ou impediu-me
de observar, examinar e julgar os eventos e as relações humanas sob
prismas diferentes dos afirmados.

O segundo grupo de “professores” – os divergentes, defensores da


tradição crítica, assentados na dúvida construtiva – ensinou-me que
todo conhecimento envolve contradições, incertezas e princípios dis-
cutíveis, pois nada é definitivo e universal. Esses mestres tiveram a co-
ragem e a humildade necessárias, dignas dos verdadeiros professores,
de criticarem as próprias hipóteses que possuíam e ensinavam. Graças
a eles, muitos alunos, como eu, puderam crescer sem se prenderem
rigorosamente a nenhuma idéia externa.

Deixo aqui minha gratidão a esses homens de mente crítica e flexível.


Devo muito a eles.

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Valores

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Homem: Ator engraçado e ridículo
“Lincha! Lincha!”; ”Assassino! Assassino!”. Frequentemente ouvimos
o povo gritar e xingar o suposto estuprador, criminoso ou sequestra-
dor; outras vezes, nem tão emocionados, escutamos o discurso opos-
to: “Salve!, Viva!”: gritos seguidos de palmas e mais palmas, elogios e
exortações.

Frágil, física e intelectualmente, através dos tempos, o homem tem


se mostrado cômico, metido e ridículo. Após adquirir a fala, orgulhosa
e arrogantemente, o homem tem exibido uma superioridade sobre os
outros animais (baratas, ratos, maribondos, bactérias, mosquitos da
dengue e outros): jamais comprovada. Baseado nessa crença falsa, o
homem, através dos tempos, reivindicou para si a responsabilidade por
suas ações; condutas que de fato pertencem à natureza do organismo
biológico e da cultura.

Não somos nem tão poderosos, nem tão inteligentes como tem sido
apregoado; somos mais pra burros-autômatos que pra gênios-livres.
Baseado no continuado delírio de grandeza, o homem sancionou sua
importância na Terra. Qual importância seria?

Deixando escapar uma sabedoria suspeita, um amor próprio arro-


gante e vazio, ele ora elogia, ora culpa a si próprio; de sobra, engran-
dece e macula outros indivíduos. Ele exalta e arruína. Alguns homens,
classificados de criminosos, são torturados e assassinados; outros, ao
realizarem ações chamadas de elevadas (políticas, esportivas, religio-
sas, científicas, artísticas) são dignificados e imortalizados. Mas, nem
o homem extraordinário, nem o ordinário, são responsáveis por suas
condutas.

Nós, da espécie “Homo sapiens” – devemos pronunciar isso de boca


cheia – fazemos parte de um grupo de seres semelhantes aos obedien-
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tes cupins, às ordeiras formigas, ás belas e simpáticas abelhas e aos
teimosos salmões. Esses animais, bem como todos não citados, for-
mam um batalhão de seres vivos disciplinados, em marcha continuada,
do nascimento à morte, na sua busca frenética e incansável por metas
imaginadas como sendo estabelecidas ou assentadas por eles próprios.

Todo organismo busca, antes de tudo, manter sua vida e a da es-


pécie; o resto é um sonho, preocupações secundárias e derivadas do
princípio fundamental: não morrer.

Nossos objetivos, julgamentos e decisões, jamais foram escolhas


livres. Sabemos que as coisas que acontecem raramente são as que
queremos. Muitas vezes temos, claramente, a impressão de que não
fomos nós os executores da ação, muito embora saibamos que nós é
que as fizemos: “Desculpe: eu não queria fazer isso”.

Quando nós “queremos” algo – tomar um café, ir ao cinema, encon-


trar a namorada – utilizamos apenas uma pequeníssima parte do nosso
comando: a consciência voluntária. Mas o que empurra ou impulsiona
a conduta é o organismo total, no qual a consciência está incluída. A
consciência que “escolhe livremente” o desejado está subordinada
e fixada na totalidade do organismo, faz parte dele, e dele depende.
A ciência mostra que é a totalidade do organismo, não somente um
atributo ou aspecto dele, que leva, arrasta, empurra e conduz a pessoa
a fazer uma ou outra coisa. O poder da consciência é ínfimo diante da
potência extraordinária do restante do organismo.

A totalidade do organismo não é dirigida por nós: é comandada por


outras forças, com pouco, e, às vezes, nenhum poder nosso. Não basta
desejarmos ter uma boa disposição, uma inteligência elevada ou pos-
suir uma habilidade futebolística ou artística; tudo isso não acontece
apenas em virtude do nosso desejo e esforço, participam outros fato-
res, altamente poderosos.

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A totalidade do organismo situa-se numa região pouco conhecida: a
nossa imensa ignorância. Ele não só se orienta por princípios ou para-
digmas inconscientes, como é comandado, também, por pressões bio-
lógicas poderosas; ambas orientações não são acessíveis à consciência
e à nossa vontade e essas duas forças governam e promovem as ações
humanas. A frágil “consciência voluntária” faz parte do conjunto total;
nos propiciando somente a ilusão do livre-arbítrio, dando-nos a suposi-
ção de que as condutas executadas foram decididas livremente por nós
ou que somos livres para agir.

O organismo, como um todo, no qual se instala a consciência volun-


tária, não pode ser conhecido ou conscientizado através de nenhuma
técnica. Uma razão – dentre outras – para isso deriva do fato de que a
consciência só se mostra – é dada à conhecer – à medida que ela vai
sendo constituída, a cada instante, isto é, ela é estruturada ou desvela-
da quando nós agimos. Não podemos conhecer esse mecanismo, pois
é impossível voltar nossa atenção para o objeto focalizado pela consci-
ência e, também, para ela própria; as duas atividades ocorrem juntas.
A estruturação da consciência é formada e deformada sem parar; não
podemos conhecer antecipadamente sua constituição ou produção.

A ciência comprovou que a consciência é instalada ou produzida,


automaticamente, devido a ações bioquímicas e biofísicas ocorridas
dentro do organismo diante dos estímulos do meio ambiente, quase
sempre, aleatoriamente e sem nosso conhecimento.

As intenções verdadeiras – as que se realizam e se tornam atos


– nascem de programas não exibidos em nossa consciência; temos
acesso ao resultado final, à conduta possível de ser observada pelos
órgãos dos sentidos. Agimos por intermédio de nosso corpo devido às
pressões externas e internas. O “querer amplo” é cumprido ou alcança-
do através de várias ações biológicas: neuro-transmissores, peptídeos,
elementos sanguíneos, hormônios etc., provocadoras das emoções
sem-palavras e, por outro lado, acha-se influenciado ou dominado

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pelos modelos teóricos, princípios, ideologias, paradigmas etc., que se
manifestam, automaticamente, durante as interações do indivíduo com
acontecimentos fortuitos do meio ambiente. Não possuímos meios ou
aptidões para resistir a essas poderosas forças.

O homem é uma construção da evolução: ora dançamos a melodia


demoníaca, ora a dos anjos. Estamos aprisionados às forças que nos
obrigam a preservar a nossa vida e a da espécie. Inventamos explica-
ções mágicas ou semimágicas para a explicar a conduta; uma dessas
interpretações é a de que somos superiores e livres.

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Dois Modos de Pensar
que Não Combinam
Duas orientações básicas, quase opostas, invadiram e dominaram
nossas mentes, passando a fazer parte dos nossos estoques de saberes
culturais. Lançamos mão ora de uma, ora de outra forma, para apoiar e
dar direção às nossas ações e pensamentos.

A primeira informação fundamental afirma que para compreender


a conduta das pessoas, ou das coisas, devemos examinar e analisar as
cadeias de acontecimentos existentes entre eles; pesquisar como um
– ou alguns – evento anterior atua como causa necessária e suficien-
te para a ocorrência da posterior. Usamos frequentemente as frases:
“Tudo tem sua causa”; “Precisamos conhecer as causas para resolver o
problema”.

A segunda orientação, estranha à primeira, afirma a responsabilida-


de moral do homem diante da vida, de sua liberdade de escolha, ou
seja, atesta que sua conduta não depende de acontecimentos anterio-
res existentes. Usamos, também, as frases: “É preciso ter “força” de
vontade”; “Com determinação venceremos”.

Você, leitor, deve ter percebido o desacordo entre esses dois princí-
pios básicos para a compreensão da conduta humana; ambos usados
por todos nós, dependendo do momento. Num instante esbravejamos
com nosso filho, afirmando que ele é um vagabundo, não faz os de-
veres e não estuda como devia, pressupondo que, se ele “quisesse”,
tivesse “força de vontade”, fosse um bom filho, poderia “escolher” ser,
também, um bom aluno e tirar boas notas. Em outro momento, no
trabalho ou laboratório, o pai que acreditava na “liberdade de escolha”
estuda a sequência de fatos para verificar as causas da pressão arterial,
da obesidade, da criminalidade, do desemprego, do câncer, dos aciden-
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tes de trânsito, da possibilidade ganhar na sena, ou, ainda, ao deixar
entornar o café na roupa da amiga querida, apressa-se em falar: “Per-
dão: foi sem querer”.

Portanto, uma crença afirma que o estado de espírito, o sentimento


e a vontade humana, bem como suas ações, relacionam-se ou depen-
dem de cadeias causais inquebrantáveis. A outra idéia – princípio, re-
gra, direção – declara que o homem é responsável por seus atos, isto é,
que nós poderíamos agir, se quiséssemos, de forma diferente de como
agimos. De onde nasceu esse “querer”? Onde ele está apoiado? No ar?

Afinal e resumindo: somos determinados por forças acima de nossa


vontade ou somos livres? Fabricados como somos – genética e cultu-
ralmente – estimulados num certo momento por uma ou várias dessas
forças; não sabemos como a maioria delas age em nosso organismo
para determinar a formação de uma ou de outra conduta. Como deixar
de agir conforme determinam os fatores formadores da minha esquisi-
ta e quase desconhecida estrutura?

Como usar a “liberdade” pretendida se estou aprisionado a um cor-


po biológico de homem, sendo que, na minha cabeça mole e capaz de
ser esculpida, foram introduzidas, sorrateiramente, trilhões de idéias?
Sou regido, primeiramente, por forças de minha espécie, impossíveis
de serem contestadas, pois não posso nunca ser uma águia ou pulga;
depois, por valores da minha classe, de minha raça – se é que isso
existe – da igreja e da civilização na qual fui ; forças incorporadas, não
criadas por min, que não consigo ir contra.

Você não acha, pensando da maneira acima, que é uma idiotice


censurarmos ou elogiarmos João ou Maria; prender ou aplaudir Teresa
ou Frederico, por possuírem ou não uma determinada característica
que uma cultura particular inseminou no seu genoma de ser humano?
Devemos aplaudir uma pessoa por ela ter uma altura maior ou menor,
um nariz mais aquilino, uma cor da pele branca, preta ou amarela; uma

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grande inteligência ou falta dela? Nenhum desses atributos foram deci-
sões de seus possuidores.

Se pensarmos assim – aproveito o espaço para lhes dizer que esse


modo de pensar pode ser perigoso – chegamos à conclusão que tudo
o que existe é necessário e inevitável. Para essa, somente essa especu-
lação, culpar ou elogiar alguém, considerar outros cursos possíveis de
ação diferentes das tomadas por João ou Maria, acusar ou defender fi-
guras históricas, Cristóvão Colombo, Pedro Álvares Cabral, Dom Pedro I,
Tiradentes, Getúlio Vargas, FHC ou Lula, por agirem de um certo modo,
é uma conduta sem pé nem cabeça, tola e maluca, caso apoiarmos
nosso raciocínio nas cadeias de acontecimentos, um atuando no outro,
como foi descrito numa das orientações. Mas, se adotarmos o outro
ponto de vista, que esses senhores, do nada, construíram suas vidas,
poderemos aplaudi-los ou censurá-los, tudo dependerá do avaliador.

Acusar alguém nada mais é que interpretar superficialmente uma


pessoa, ou melhor, se prender apenas à tinta externa, a casca facilmen-
te visível. Denominar alguém de responsável ou irresponsável, culpa-
do ou criminoso, é um modo simples de escapar ao penoso e longo
esforço, sutil, chato e carregado de dúvidas visando a desembaraçar
os intrincados e desconhecidos laços que dão nascimento às intenções
humanas.

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Ser Humano: Anjo ou Demônio?
Sempre existiram pessoas altamente entusiasmadas com os feitos
espetaculares de A, com a insensatez de B, a violência de C ou a pe-
riculosidade de D. Sempre admiramos alguns, desprezamos outros e
permanecemos indiferentes à maioria. Os julgamentos que realizamos,
favoráveis ou contra determinada pessoa, possivelmente, são seme-
lhantes às avaliações efetuadas diante de um quadro, de uma música e,
principalmente, de uma mulher: “Como é bela esta mulher!” ou “De-
testo este cara! Pô!”.

As avaliações de condutas como as acima citadas, igual à maioria


das que realizamos, são fáceis, simples e automáticas de se fazer; não
precisamos de esforço e nem de raciocínio para elogiar ou deplorar,
sentir amor ou ódio, satisfação ou vergonha; esse tipo de julgamento
emocional brota fácil da mente. Ninguém se esgota ao avaliar ações. A
avaliação explode rápida; sem estudo e sem o uso da razão e da lógi-
ca; ela emerge sem querer, automaticamente, sem nossa vontade ou
desejo; ela é inconsciente.

Nós, frequentemente, simpatizamos ou antipatizamos por alguém,


amamos ou odiamos algo. Essas atitudes – puras reações motivacionais
e emocionais – geram emoções positivas ou negativas sem o uso da in-
teligência e vontade, surgindo de repente, às vezes nos assustando ao
invadir e dominar nossa consciência sem que saibamos o porquê: uma
paixão violenta ou um ódio destruidor.

Por outro lado, é extremamente difícil – seria impossível? – arrumar


e organizar argumentos bem colocados, válidos, racionais, para culpar
ou justificar as ações de César, Pilatos, Átila, Jesus, Maomé, Buda, Moi-
sés, Hitler, Bush, Saddam Hussein e Lula.

Os “argumentos” usados por nós, quase sempre, são ruídos passa-


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geiros, pois a conduta de Pedro, ou de Paulo, pode ser admirada ou
não, numa, ou noutra ocasião. Podemos saudar euforicamente Ely,
ou amaldiçoá-lo. Sempre existem os dois lados. Se pensarmos mais a
fundo, denegrir ou enaltecer, criticar ou elogiar, “A” ou “B”, é tão idiota
como fazer sermões recriminando minha jabuticabeira que morreu à-
-toa; criticar a “maldade” do empertigado escorpião amarelo que picou
Joãozinho quando este brincava com o rabinho dele.

Partindo do princípio de que todos nós somos comandados ou condi-


cionados devido as nossas peculiaridades biológicas e socioculturais,
chegamos à conclusão que seria mais viável evitar toda atribuição de
responsabilidade ou todo julgamento moral. A escolha humana é mui-
to mais limitada que costumávamos supor. A evidência atual à nossa
disposição mostra que muitos dos atos frequentemente considerados
sob controle do indivíduo não o são. O homem é, muito mais que se
supõe, um objeto da natureza (cientificamente previsível); é isso que
todos os cientistas, biólogos, psicólogos, sociólogos e outros estão
tentando fazer; descobrir leis associando o comportamento estudado
e desconhecido com outros já estudados e conhecidos. Com o desen-
volvimento das ciências sérias, os disparates acerca da conduta irão
diminuir ou sumir.

O ser humano aprendeu, entre outras coisas, a valorizar ações. Os


hábitos, pensamentos, sentimentos e expressões – as condutas de
modo geral – podem ser, pelo menos em princípio, passíveis de serem
classificadas e submetidas a hipóteses e leis sistemáticas como acon-
tece com os comportamentos de outros objetos da natureza. Esse é o
trabalho conjunto da psicologia e de outras ciências relacionadas.

Pensando assim, a explicação e o peso da responsabilidade de toda


ação humana deve deixar de ser posta no indivíduo, João ou Maria, e
transferir-se para outros aspectos ou forças diferentes das comumente
chamadas pessoais: circuitos cerebrais, hormônios, neuro-transmisso-
res, lesões, drogas, educação, cultura, época, idade, doenças, pressões

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diversas, profissão etc. Todas essas estruturas: biológicas, bioquími-
cas, psicológicas, culturais e religiosas possuem um maior potencial
explicativo que a que habita o fraco e isolado João Ninguém ou Pedro
o Grande, ou seja, o ser humano que foi atirado para um lado ou para
outro, por forças complexas e mal-estudadas, jamais esclarecidas pelos
“sábios”, que também, por sua vez, sofrem, como João Ninguém, as
ações dessas mesmas forças.

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Responsabilidade moral:
Fato ou ficção
Nada é universal e absoluto, tudo muda conforme o momento, o
local e as idéias dos “donos da verdade”. As regras morais, como tudo o
mais, variam diretamente com a distribuição do poder, a época, a mo-
ralidade predominante. Sabemos que a ética nunca é a dos perdedo-
res; para dar uma impressão superficial e popular de justiça, fingimos
e exibimos nossas mentiras uns para os outros de maneira hipócrita.
Mantemos um suposto equilíbrio, uma pseudo-harmonia da justiça dos
fortes e dos fracos, dos “escolhidos” e dos “rejeitados”, dos dominan-
tes e dos domesticados.

Sem exceção, nós mesmos, julgadores não-julgados num momento,


querendo ou não, pertencemos a um ou outro grupo e, nesse caso,
tendenciosamente, enxergamos e avaliamos o mundo segundo o ponto
de observação provisoriamente ocupado por nós. Ora pertencemos
ao grupo médico, ora ao político; mas podemos representar e pensar
como o eleitor, lixeiro, pai, cliente, filho, irmão, católico, ateu, ociden-
tal, oriental, latino, mineiro e itabirano.

Sempre usamos, durante nossos julgamentos, a tela do momento –


pai ou filho, médico ou cliente – que nos cega; impede-nos de enxergar
o lado de lá, muitas vezes oposto, o que está sendo acusado ou elogia-
do. Creio ser impossível julgar um povo sob a tela visual despreocupa-
da, otimista e folgazã do político; examinar o lixeiro através dos “olhos”
indiferentes do produtor do lixo.

Se não estudarmos como possíveis às grandes e poderosas correntes


do pensamento que nos dominam, o jogo complexo acerca da conduta
humana jamais será decifrado, existirão vultos desordenados, não-
-interligados, assentados na argila mole.
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A bela e admirada responsabilidade moral é uma ficção que começa
a desabar e a ficar fora de moda. É um dinossauro, uma criação pré-
-científica que deverá morrer quase sem deixar vestígios, sem foguetes
e sem luar. Espera-se, com o aumento do conhecimento, o desapareci-
mento da antiga explicação, ou, no mínimo, sua reformulação quanto
aos princípios básicos. Usamos, constantemente, expressões “carre-
gadas de valor”; também, falsas noções de democracia, de liberdade
humana, na qual se fundamenta a idéia de responsabilidade. Espera-se
que essa idéia acabe para os homens esclarecidos e se alastre.

Há uma maneira rápida, mas complexa, para entender a condu-


ta negativa ou positiva de alguém; tomar seu lugar, representar seu
papel provisoriamente, se possível, imaginar os aspectos biológicos da
pessoa que estamos julgando e, também, as condições como o “clima”
intelectual, religioso e social da época e do lugar onde ela cresceu e de-
senvolveu até chegar no ambiente onde agiu. Assim consegue-se obter
uma visão mais clara e aproximada dos motivos e ações que estamos
incriminando ou exaltando.

Caso conseguíssemos isso – sei que é impossível – todo o voca-


bulário das relações humanas sofreria um abalo radical. Expressões
como: “Não devia ter feito isso”; “Como é que você pôde escolher X?”,
além de toda a linguagem, pejorativa e enaltecedora, usada por nossa
consciência para avaliarmos nós e os outros, passaria por uma trans-
formação total; as expressões linguísticas seriam muito diferentes das
atualmente usadas.

Se os progressos existentes nas neurociências e na psicologia conti-


nuarem, caso não haja censuras constrangedoras, seremos obrigados
a usar novos modos de pensar, de avaliar e de conceituar os eventos
acerca da responsabilidade, do crime, do engrandecimento ou glorifi-
cação de pessoas. Isso marcaria uma revolução no modo de raciocinar,
de julgar, maior que a guerra dos Canudos, do Iraque ou dos Cem-
-Anos.

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Caro leitor: acho que fui longe demais. Eu, pessoalmente, a princípio
entusiasmado, comecei a ficar amedrontado à medida que, automáti-
ca e inconscientemente, imaginava e escrevia. Achei estranho, talvez
insensato, não mais “poder” ou conseguir, por causa da minha trans-
formação, deixar de elogiar uma bela mulher, ou acusar alguns polí-
ticos que odeio. O meu mundo – perderia minha identidade? – caso
isso ocorresse, seria esquisito; talvez, inabitável para meu eu antigo
e conhecido. Além disso, até que ponto deveria mandar para a lixeira
e, em seguida, esvaziá-la, inúmeras crenças contrárias aos fatos que
todos nós aceitamos como verdades verdadeiras, que têm servido,
pelos séculos e séculos, de suporte para elaboração do pensamento e
para explicar condutas; elogiando ou denegrindo pessoas. Seria muito
perigoso agir assim; o ser humano eliminar toda essa poderosa rede de
conceituações falsas relacionadas à responsabilidade, liberdade e livre
escolha.

O melhor é não esquentar a cabeça e continuarmos presos à estrutu-


ra inexata; caso contrário, iria pelos ares toda uma classe de expressões
que usamos sem parar: “Você está errado!”; “Você precisa largar a
bebida!”; “Como é bondoso aquele senhor”; “Albertina é uma santa!”.

Tudo o que pensamos está impregnado por essas categorias de


uma forma tão arraigada, tão difundida e universal que afastá-las e
pensarmos de outro modo é quase, senão totalmente, impraticável.
Fica difícil, talvez esteja além de nossos poderes normais, conceber
qual seria nossa imagem do mundo se acreditássemos e empregás-
semos seriamente essas idéias. As mudanças envolvidas são radicais;
por tudo isso, repito: estou arrependido. O melhor, ou menos ruim, é
deixar tudo como sempre foi. Não vale a pena pensar desse modo, pois
experimentaríamos consequências terríveis caso mudássemos nossa
maneira de avaliar. Por isso, vamos continuar a exclamar: “Viva Z!” ;
“Lincha X! Mata Y!”; é fácil e prático e, além disso, não dá trabalho a
nossa cansada cabeça.

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Satisfação e Sofrimento: Dois lados
da mesma moeda
A satisfação e o sofrimento são emoções responsáveis pelos impul-
sos que levam um organismo – homem ou outro animal – a buscar ou
fugir de uma meta. Mas, um objetivo que era muito agradável num
momento, com o passar do tempo, torna-se menos prazeroso. Do mes-
mo modo, uma meta provocadora de emoções ruins, pouco a pouco,
fica mais suportável. Portanto, o homem acostuma-se tanto aos praze-
res como aos sofrimentos da vida.

O sofrimento

O número dos batimentos cardíacos de um cão aumenta quando ele


é submetido a sessões de choques. Se os choques continuam sendo
aplicados por mais tempo, os batimentos cardíacos aumentados come-
çam a diminuir; tendem a retornar ao que era antes das aplicações. O
mesmo processo ocorre com respeito à respiração, salivação etc., dian-
te de estímulos negativos ou positivos para o cão. Quando isso ocorre
falamos que o cão tornou-se tolerante, de outro modo, seu organismo
acostumou-se aos choques elétricos, habituou-se ao “sofrimento”. Nós
homens, somos semelhantes ao cão da experiência quanto a esses
aspectos.

O prazer

Certos estímulos nos provocam prazer e, consequentemente, eufo-


ria; assim, se estivermos diante de uma deliciosa e rica carne tostada,
suculenta e cheirosa, naturalmente com fome, ficamos animados,
alegres e contentes. Ocorre, numa primeira fase, uma reação prazerosa
produzida pela sensação visual, olfativa e mental (expectativa de comê-
-la), gerando no organismo uma grande quantidade de saliva e, além
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disso, os olhos ficam mais abertos, antevendo a possibilidade do prazer
durante a ingestão da carne. Quando a pessoa começa a mastigar,
saborear e engolir a carne, aparece a segunda fase: o prazer e entusias-
mo produzido pelo sabor e ingestão do alimento.

Mas há uma terceira fase; a chamada pós-reação, a que é importante


para essa matéria. Esta aparece à medida que o estômago vai ficando
cheio, variando conforme o comilão e o dia. Após certo tempo, o pra-
zer e euforia inicial, provocada pela visão, cheiro, gosto e ingestão da
carne, vai se acabando.

Horas ou dias após o indivíduo ter saboreado a carne, caso ela tenha
sido saborosa, ele tende a recordar o fato: “Aquele churrasco estava
uma delícia; vou ao restaurante outra vez”. O nosso amigo ficará pro-
penso a buscar novamente o mesmo estímulo positivo e prazeroso que
lhe excitou e lhe deu alegria: a carne tostada e cheirosa. A esperança
do seu organismo é obter, de novo, um prazer parecido ao sentido na
primeira experiência.

Assim, a representação mental da carne olhada e ingerida tende a


provocar o retorno do comilão ao restaurante. Essa idéia, por si só,
alivia em parte o estado desagradável ou aversivo provocado pela lem-
brança da ausência do fato agradável: comer a carne cheia de gordura,
cheirosa etc.

Assim começa a cristalizar a adição, ou seja, a necessidade de co-


mer, outras e outras vezes, a carne apetitosa ingerida num certo dia e
produtora de prazer. O organismo “sofre” caso não busque e consuma
o desejado e prazeroso. As adições (pressões internas do organismo
percebidas pela consciência para alcançar a mesma fonte de prazer)
podem ser de bebidas, drogas, alimentos, internet, compras, dinheiro,
jogos, poder, passeios, transas etc., ou seja, atividades que produziram
e virtualmente continuam a produzir prazer no organismo do indivíduo
e, consequentemente, sofrimento devido à ausência.

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Vivemos à procura de alguma fonte favorita de prazer. Cada indiví-
duo, durante certa época, conforme a cultura e “biologia”, terá suas
preferências singulares: para uns, a comida, para outros, o sexo; ou-
tros, ainda, a novela, as visitas, a solidão, o programa do “Ratinho” ou
o “Fantástico”, a música, a leitura, e-mails, um cafezinho, contar piadas,
xingar, olhar o céu e, principalmente, torcer e morrer pelo Atlético.

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Viva feliz realizando coisas ruíns
Assim como ocorre a tolerância no cão que recebeu choques elétri-
cos repetidos ou um naco de carne, durante algum tempo, o ser huma-
no também, com o passar dos dias, meses ou anos, apresenta tolerân-
cia diante do sofrimento ou do prazer causado por fontes continuadas
do mesmo estímulo: a mesma praça, a mesma casa, a mesma rua, a
mesma cama, o mesmo portão e televisão, a mesma secretária ou
vizinha, o mesmo marido ou mulher, a mesma iguaria: todos produzem
a maldita e terrível tolerância. O estímulo provocador de imenso prazer
passa a não provocar mais emoções agradáveis como antes; produz,
às vezes, indiferença, muitas vezes, pior ainda, o sofrimento e aversão:
“Que chatura! Não aguento nem ouvir a voz de meu marido!”; “Tenho
vontade de sumir ao ver minha mulher se aproximar de mim com sua
tosse antipática!”; “Não suporto mais essa comida”.

Estudos mostram que a droga que excitou muito o usuário, a compa-


nhia antes agradável, o filme, o autor ou o programa de TV predileto,
todos eles, após algum tempo, não mais agradam como antes. O que
um dia nos atraiu muito, fornecendo-nos inclusive um significado para
viver, com o passar do tempo, perde seu encanto, vigor e importância;
torna-se um “nada”, um zero à esquerda, ou, algumas vezes, uma fonte
de sofrimento e irritação da qual procuramos fugir: “Que burrada! Por-
que tanto tempo preso a isso”.

Como é estranha a vida! Diante disso, pergunto-me: O que fazer? De


forma automática o organismo pode aumentar a quantidade da fonte
produtora do prazer ou, também, procurar estímulos novos, isto é, de
qualidade diferente. Dessa forma, a pessoa poderá comer, comer e
comer ou, também, usar o alimento altamente temperado; se a bebida
estiver fazendo pouco efeito, a solução é beber e beber, mais e mais,
na busca do prazer anterior perdido; poderá também misturar diver-
sas bebidas, tomá-las de cabeça para baixo, pulando de pára-quedas
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ou debaixo d’água dentro de escafandro. Se o problema for o dinhei-
ro, que na quantidade atual não mais produz emoções positivas, seu
possuidor poderá armazenar mais e mais, fazer diversas aplicações, de
preferência as ousadas, pois essas provocam mais emoções.

Em qualquer área: fama, crença religiosa, transa, onde a fonte de


prazer acha-se enfraquecida, a técnica será a mesma: aumentar ou
diversificar os estímulos. Assim, para aumentar o prazer enfraquecido
diante das orações, o remédio é orar mais e mais, ou trocar, de tempos
em tempos, de religião ou de igreja; se as transas não causam mais
prazer, o amante poderá tentar transar mais e mais ou variar as técni-
cas, criar fantasias imagináveis e inimagináveis, usar drogas que au-
mentam o prazer ou, ainda, se tudo isso der errado, trocar, de tempos
em tempos, de parceiro.

Lamentavelmente, – eu não queria relatar o que se segue para não


tirar a alegria do leitor – qualquer remédio usado para aumentar o pra-
zer anterior, com o tempo, cedo ou tarde, irá diminuir, pois a tolerância
aparecerá novamente atrapalhando o novo prazer obtido através das
novas técnicas empregadas. Não há prazer ou sofrimento que resista
ao tempo. O homem, bem como alguns animais, acostuma-se a tudo:
seja bom, seja ruim. A dopamina, uma substância química produzida
por algumas células nervosas, mecanismo envolvido na produção do
prazer, se esgota quando os estímulos são exibidos e continuados por
muito tempo. A nascente dopaminérgica, diante de estímulos continu-
ados, esgota-se.

Mas, como diziam os escoteiros, num tempo longínquo, que não


tenho saudade, pois jamais fui ou pensei ser escoteiro: “Nem tudo está
perdido, ainda resta uma esperança, o escoteiro sorri na desventura e
caminha com as próprias pernas”. Existe uma solução aparentemente
estranha, mas que dá, na maioria das vezes, bons resultados. Aconse-
lho, convidando o prezado leitor, que nesse ponto pode estar um pou-
co desesperado, a entrar no processo oposto; o outro lado da moeda,

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buscar o sofrimento em lugar do prazer. Não estou brincando! Falo sé-
rio! Não pare aqui; prossiga a leitura, pois explicarei melhor como você
irá alcançar a felicidade através da execução das atividades chamadas
– só chamadas – de ruins. Vivemos alegres e satisfeitos por realizarmos
tarefas ruins, precisamos delas para ficarmos eufóricos e satisfeitos; as
tarefas boas são raras.

Noel Rosa (?) já cantava, na voz de Aracy de Almeida, em seus ver-


sos:

“Sofrer foi o prazer que Deus me deu/ Eu sei sofrer sem reclamar/
Quem sofreu mais do que eu; não nasceu/ Com certeza Deus já me
esqueceu?/É na dor que eu encontro o prazer/ Saber sofrer é uma arte
que pondo a modéstia à parte, eu posso dizer que sei sofrer.

Caso tenha errado, no autor ou versos, peço desculpas aos leitores.


Para mim, estou certo!

Quando um estímulo (o reforço) é negativo (desagradável para o


organismo) ele produzirá na pessoa ou no cão uma tonalidade afetiva
desagradável, como foi dito no caso do choque elétrico. Por outro lado,
afirmei ainda que a provocação de uma reação agradável no organismo
o leva a tentar aproximar-se do objeto desejado; ao contrário, quando
surge a reação desagradável, nossa tendência é nos afastar do objeto.
Guarde essa última afirmativa: fugir do ruim. Se não existisse o ruim,
não existiria o bom. A seguir uma explicação detalhada e espero ser
convincente.

Conforme a teoria, e todos vocês sabem disso, após a estimulação


desagradável, ocorrida quando somos submetidos a um estímulo
negativo ou danoso, aparece a pós-reação. Esta, nada mais é que o
prazer de ficar livre do desprazer. Isso mesmo: prazer. A ausência do
sofrimento provoca o prazer, término da estimulação negativa: entrar
num banho quente após estar “gelado” pelo frio; acabar com a secura

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da garganta tomando água; terminar a difícil arrumação etc. Atenção!
Aqui está o “pulo do gato”! Ao fugirmos, escaparmos, livrarmos do
acontecimento provocador do nosso sofrimento, nos sentimos bem,
eufóricos, alegres e satisfeitos. Schopenhauer, exagerando, escreveu:
““Só a dor é positiva””; para ele, o prazer seria a ausência da dor.

Passamos de um sentimento negativo – ação do estímulo ruim – para


um positivo, quando não mais estamos sendo estimulados por algo
aborrecido; o que nos fazia sofrer. Toca o telefone durante a madruga-
da. Imaginamos ser uma notícia ruim. É um engano. Ficamos aliviados,
felizmente não era nada. A visita chata decide sair. Que bom! Se estiver
me afogando, ao conseguir voltar a respirar, surgem os sentimentos
de alegria e prazer, que nesse caso, podem ser enormes. Frases como:
“Renasci”, “Deus me salvou, vivi de novo”, são afirmadas, sem parar,
por todos nós, com grande satisfação. Portanto, ouvimos essas de-
clarações – saídas do fundo da alma – a todo o momento, quando a
pessoa se livra de um grande perigo: assalto, acidente, doença etc. Há
outros exemplos: após o alívio de uma dor de barriga, de dentes ou
de cabeça, nasce a nova emoção, os sentimentos de prazer e vigor. O
prazer sem-palavras que sentimos ao ficarmos livres dos sofrimentos
não só tranquiliza, como relaxa nosso organismo biológico. Para coroar
o evento orgânico e sem-palavras, em seguida ao alívio corporal, nosso
intelecto elabora um discurso sobre o fato sentido: surgem as explica-
ções, interpretações ou considerações da nossa cognição, de nossas
idéias, como as exemplificadas acima. Para o organismo biológico não
havia necessidade dessas considerações ou palavrórios.

Como a eliminação do fato ruim e, consequentemente, das emoções


negativas, dá nascimento ao prazer, o indivíduo, como ocorre no caso
dos estímulos positivos, passa a procurar os estímulos negativos para,
após alguns instantes, dias, meses ou mesmo anos, ficar livre deles e,
portanto, alcançar o prazer e a felicidade. Estou falando sério. É isso
mesmo que você está lendo: a pessoa começa a procurar realizar uma
atividade ruim; um ruim ou desagradável que ocorre somente duran-

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te sua execução; não quando ela termina. O autor da ação sabe, por
experiência própria, que ele, após terminar a atividade, alcançará a
emoção desejada: euforia, alegria, felicidade: tudo o que uma pessoa
sadia deseja da vida. Penso que agora vocês perceberam que eu tinha
razão. Estudamos e sofremos para passar no vestibular; quanta alegria
ao terminar o sofrimento. Fazemos um curso de vários anos; sabemos
que num dia ficaremos livres dele. Meu artigo parece que está sendo
delineado. Que alívio! Isso nos faz agir.

Vamos a um exemplo muito bem pesquisado: o salto de pára-que-


das. Os estudos mostram que no primeiro salto, antes do pára-quedas
se abrir, o pára-quedista apresenta vários sinais de terror: órbita ocular
ressaltada, batimentos cardíacos aumentados, respiração difícil e suor
profuso. Uma vez tendo chegado vivo ao chão, após um pequeno perí-
odo de estupor, aparece um alívio, um prazer por estar bem, ter ficado
livre do sofrimento. Nesse instante, começa a se instalar a euforia em
sua face. Quando isso ocorre, os pára-quedistas falam e gesticulam
alegres entre eles. Nota-se claramente a mudança do medo e do sofri-
mento para a euforia; é esta que toma conta de seu organismo. Assis-
tindo um filme ou novela, vemos o herói, com o qual identificamos,
enfrentar perigos e perigos. Mais tarde ele supera as adversidades e
alcança o prazer. O espectador, também, ficará angustiado e, mais tar-
de, aliviado e eufórico. O mesmo ocorre com alguém, sem treino, que
vai falar em público.Após o pavor inicial, lá no finzinho da fala, aparece
o sorriso e alegria quando ele percebe que cumpriu o dever. Outros
exemplos: encerrar uma conversa, um namoro complicado, urinar após
estar “apertado” etc.

Seguindo estudos feitos com diversos pára-quedistas, o efeito aversi-


vo inicial vai se acabando após pulos continuados; aparece a tolerância
ao sofrimento, semelhante ao descrito quanto ao choque no cão. O
mal-estar inicial, aos poucos, praticamente desaparece ou é tão leve
que a pessoa quase não o sente. Contudo, depois de aterrissar, os
pára-quedistas se sentem alegres e satisfeitos; um bem-estar bastante

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intenso, levando-os a pular outras e outras vezes.

O mesmo pode ser dito para o caso de entrar na sauna superquente;


a satisfação ocorre após ficar livre da sensação ruim de queimação e
falta de ar. Fato semelhante acontece com os praticantes de esportes
radicais (asa-delta, alpinismo, fórmula 1 etc.) e, também, com os que
fazem uso de penitências ou autoflagelação. Todos agem dessa forma
porque se “sentem bem” durante a atividade por saber que ela ter-
minará logo depois; irão se sentir muito bem após seu término. Du-
rante as chicotadas que a pessoa dá em si mesmo, ele, antecipando a
felicidade ao ficar livre delas, terá um prazer semelhante ao individuo
diante da carne tostada e cheirosa antes de degustá-la. Possivelmente,
após alguns dias sem experimentar a autoflagelação, forma-se na men-
te de seu autor uma situação semelhante à ocorrida quando deixamos
de ingerir a carne tostada e gordurosa; surge a vontade de tornar a
obter o grande prazer conseguido com seu término.

Suponho que diversas ocupações profissionais, seguindo esse ra-


ciocínio, têm seus adeptos devido ao mecanismo explicado acima.
Em diversas profissões, as atividades são realizadas com algum prazer
porque seus agentes estão pensando que “daqui a pouco” eles fica-
rão livres delas, e, depois, aparecerá o prazer e alegria do alívio. Para
alguns, o alívio total, a imensa euforia, só aparecerá na aposentadoria.
Segundo minhas avaliações – sei que são tendenciosas – coloco no gru-
po dos trabalhos “agradáveis” somente após seu término os limpado-
res de esgotos, os professores de certos colégios, policiais que realizam
trabalhos de alto risco e incerteza, lixeiros, caixas de bancos etc. A lista
é enorme.

Também, se a hipótese é correta, uma pessoa acostumada a su-


portar uma enorme dor, um grande calor, um exercício físico pesado,
tolerará dores atrozes, temperaturas mais altas e ginásticas terríveis
devido a sua “tolerância”. Algumas pessoas são exibidas pela mídia
como exemplos de pessoas capazes de suportar grandes sofrimentos;

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esses escolheram um modo complicado de obter prazeres enormes ao
ficarem livres dos terríveis padecimentos. Nós, amadores, jogadores da
terceira divisão dos martirizados, não chegamos aos pés desses felizar-
dos-sofredores.

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O Sequestro da Camisa Listrada
Fim de semana. Nos sábados e domingos, como sempre, há mui­tos e
muitos anos, visto minha velha e surrada camisa branca com oito listras
horizontais, finas, azuis e amarelas. Eu percebia que ela estava fican-
do desbotada, alguns orifícios começaram a aparecer e, além dis­so,
foi abrindo uma grande abertura junto ao meu peito, bem ao lado do
coração. Compreendia que, com a idade e também com muito tra­
balho, ela não mais suportava os “embates da vida”. Aos poucos, para o
meu pesar, foram nascendo diversas feridas em sua pele, que não mais
cicatrizavam, por mais que ela fosse levada ao “hospital” para receber
alguns pontos.

Numa segunda-feira triste de outubro, perto do aniversário de minha


camisa, a antiga lavadeira, grávida de nove meses, entrou de licença. A
nova lavadeira, uma moça dengosa e alta, decidida e afirma­tiva, logo
após tocar o interfone, passando por mim quase sem cum­primentar,
subiu as escadas rapidamente dirigindo-se até a lavanderia para come-
çar o novo trabalho na minha residência.

A lavadeira antiga conhecia e amava, como eu, minha camisa. Tinha


por ela uma ternura especial. Eu sabia, mas não demonstrava, que ela
a protegia. Era lavada e passada com mais cuidado e carinho, estava
fraca, doente e, além disso, era mais “idosa” que as outras. Eu, como
a antiga lavadeira, sabia dos problemas de saúde da camisa listra­da
e, por isso mesmo, a vestia com cuidado, em momentos especiais e
calmos, não só para que ela percebesse sua utilidade, mantivesse sua
autoestima e autoeficácia, mas também para que ela, sem se sentir
abandonada e esquecida, exercitasse e convivesse um pouco com o
mundo externo à gaveta. Eu e ela, nos fins de semana, recordávamos,
abraçados, os fatos bons e ruins vividos juntos.

Preocupado com a nova lavadeira, atento às possíveis reações dela


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para com a minha amada camisa, estava apreensivo, receava que, sem
conhecê-la, ela pudesse maltratá-la, ou, no mínimo, não dar à camisa a
atenção merecida.

Há muito a camisa listrada fazia parte da família, tinha ligações


estreitas comigo, minhas filhas e parentes mais chegados. Sabia que
para a nova lavadeira a camisa não tinha história e, sem história, ela
nada significava, pois nenhum fato vivido pela camisa se ligava a ou­tros
eventos existentes na vida da lavadeira.

Não era uma camisa bonita de chamar a atenção e nem metida a


sebo. Era simpática, nem larga nem apertada, abraçava-me com a
suavidade e meiguice de quem conhece e ama o companheiro. Ela
encostava-se ao meu tórax com carinho, sem apertar-me. Tocava-me
suavemente quando precisava e às vezes massageava minha pele sofri­
da e carente. Conhecia, como ninguém, meu corpo quente e amigo. A
camisa era calma e tolerante, não agredia abertamente, gostava mais
de uma ironia suave, um sorriso ou de um elogio gozador.

Minha camisa era superdiscreta e confiável. Eu e ela guardáva­mos


nossos segredos diante de experiências vivenciadas juntos, que não
podiam, ou não deviam, ser contadas pra qualquer um. Mas nossa
relação não era constituída apenas de segredos. Minha camisa, ajudan­
do-me, testemunhou e partilhou de diversos acontecimentos bons e
ruins, alegres e tristes. Foi cobrindo meu corpo que ela, amedrontada,
enredada no meu peito, viu nascer minha primeira filha. Anos depois a
segunda, lá na Maternidade Otaviano Neves. Participando dos mes­mos
eventos, pouco a pouco passamos a gostar e odiar as mesmas coisas.
Na maioria das vezes, ela me dava sorte, levando-me a usá-la diante de
situações especiais e complicadas. Sabia respeitar uma e ou­tra cerimô-
nia, pois sempre foi bem educada e civilizada. Mas a camisa listrada
não participou apenas dos fatos bons, ela acompanhou-me também,
com toda a dedicação e sensibilidade, durante as situações tristes
vividas por mim: a doença, morte e velórios de parentes próxi­mos e

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amigos.

Como ela acabou fazendo parte de minha vida e das minhas con­
versas, muitas e muitas vezes, nos meus papos com amigos, me referia
a ela, contando seus modos, idiossincrasias, gostos e até mesmo julga­
mentos. Quando me referia à camisa para outras pessoas, ou também
nas conversas solitárias comigo mesmo, batizei-a com uma frase, não
com um só vocábulo.

Chamava-a de “a camisa branca de listras horizontais”. Sei que era


um nome muito simples, pensei até em chamá-la de “A Globo”. De-
sisti: ela não gostou do nome. Quando eu lhe contei meu dese­jo, ela
confidenciou-me, educadamente, que “A Globo” era um nome muito
sofisticado e ela preferia ser chamada pelo apelido, pois já se acostu-
mara a ele.

Quando convidada, acompanhava-me sem se irritar para qual­quer


lugar. Além disso, não tinha ciúme, pois não insistia em continuar
abraçada ao meu corpo quando era chegado o momento de largar-me
por instantes ou dias, para dar lugar a uma ou outra camisa, às vezes
mais bonita e faceira que ela. Costumava me dar conselhos: “Cuidado!
Não vista aquela vermelha. Não lhe fará bem”. Eu não sabia e nem per­
guntava os motivos de sua preocupação. Era uma camisa de verdade.

Sentindo o prazer de seu tecido alisando meu corpo cansado e enve-


lhecido, juntos e isolados do mundo, somente eu e ela, olhá­vamos nos
fins de semana, no sossego e calma do terraço, a cidade esfumaçada,
agitada e distante, lá longe.

Sábado, como sempre acontecia nos fins de semana, fui à sua pro-
cura na gaveta onde ela me esperava limpa e cheirosa, pronta para o
abraço gostoso e singelo daquele dia especial. Tranquilo, ima­ginando o
encontro carinhoso das tardes de sábado, o momento de aconchegar-
-se em torno do meu corpo, abri a gaveta sorridente e ale­gre. Assustei-

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-me! Ao procurá-la, não a encontrei! Tornei a procurá-la. Nada! Co-
mecei a ficar em pânico. Onde estará minha camisa branca de listras
horizontais? Será? Imaginei o pior. Abri afoitamente uma por uma as
gavetas onde encontrei outras e outras companheiras: azuis, brancas,
vermelhas, listradas diversas, mais largas, apertadas, de man­gas com-
pridas e curtas, velhas e novas, mas todas sem a história dela, uma
história especial e única. Ela não estava em lugar algum.

Dois dias depois, afinal, chega a segunda-feira. Espero inquieto,


olhando pela vidraça, a lavadeira nova e malvada. Toca o interfone.
Junto à porta de entrada, aguardo sua entrada. Altiva, pisando duro,
ela cruza a porta, espichando o pescoço e olhando para cima.

Bruscamente, irritado com sua postura de superior ou indife­rença,


perguntei-lhe se se lembrava da camisa. Soberba e insensível, a lava-
deira, ignorando minha angústia enquanto subia, com passos largos
e antipáticos, a escada em direção à lavanderia, resmungou de forma
quase inaudível:

- Uma camisa toda esburacada… feia e velha, desbotada, que não


mais prestava para nada, esgarçada…

Ao virar o rosto em minha direção, via-se claramente que seu olhar


era de deboche. Ela criticava-me por me preocupar com artigo tão inú-
til. Fiquei com vontade de pular em seu pescoço grosso e, ao mesmo
tempo, estava confuso por demonstrar, abertamente, minha preocupa-
ção por um artigo tão desprezível para ela. Por outro lado, sentia culpa
e raiva de mim mesmo por estar envergonhado por de­monstrar, diante
da lavadeira, meu amor à camisa. Após respirar fun­do, com muito cus-
to, tomei coragem e decidi falar grosso:

- Sim, ela mesma! Gostava muito dela!

Falei o mais claro que pude, ao perder a vergonha de demons­trar

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meu afeto à camisa. Meus sentimentos de culpa acabaram-se e conti-
nuei, quase gritando:

- Onde você a colocou?

- Sei, não, senhor. Não prestava pra mais nada…. não sei se pus no
lixo, ou se a rasguei para limpar a pia. Nem pra isso ela servia. O pano
era ruim.

De repente, voltando a caminhar, arrematou:

- Por quê? O senhor usava aquilo?

Falou zombando, dando um risinho maroto.

Saí rápido, antes que perdesse a cabeça. Fui até o cesto de lixo, so-
nhando poder encontrá-la. Nada! Não estava lá. Desci as escadas cor-
rendo. Eram nove e cinco e o caminhão de lixo passava mais ou menos
nesse horário. Quem sabe? Não havia mais lixo, tudo estava va­zio, não
havia mais a camisa branca de listras horizontais, mais nada! Solucei,
desolado.

Assim foi decretada a morte, o fim de minha querida camisa. Ela não
mais foi encontrada, nem para ser enterrada, cremada ou guarda­dos
suas restos finais, como lembrança de nossas relações e história.

Uma camisa que fez parte de minha vida, simbolizando fatos que
presenciei e vivenciei. Para minha nova lavadeira, a amada camisa nada
significava, era apenas um pano velho e inútil, que merecia ser rasga-
do, um trapo sem valor, uma qualquer, uma porcaria que não provoca-
va lembranças de nenhuma espécie, nem boas nem más.

Para mim, a camisa era parte de minha vida, recuperava me­mórias


alegres e tristes, conversava comigo coisas que só nós dois sabíamos:

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as dificuldades e brigas que tive, as esperanças, tudo isso e muito mais.
Ela significava, só para mim, lutas, vitórias e derrotas, uma bandeira re-
presentando várias fases e aspectos de minha auto­biografia. A lavadei-
ra, sem ter criado nenhum vínculo com a camisa, a classificou como um
tecido desbotado e furado, uma fazenda rasgada e envelhecida, sem
valor, um pano que não tinha nada para contar e nada simbolizava.

Coitada de minha camisa, seu fascínio foi ignorado por quem não a
conhecia. Percebida por um ângulo genérico – pano – e não por um
singular – uma camisa com uma história – ela foi desvalorizada. A lava-
deira a olhou sob um ponto de vista diferente do meu, a consi­derava
sob um aspecto imediato, prático e simples. Sob essa visão, a camisa
não possuía uma identidade própria, não tinha valor e signifi­cado. Por
tudo isso, para a lavadeira minha amada camisa merecia ir para o lixo,
pois não servia nem para lavar a pia.

Pobre de mim! Perdi um pouco do meu passado, de minha me­mória.


Quanta dor!

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Valores: Informações resumidas
Somente quando a pessoa possui um conhecimento inicial e bási-
co de que existem germens e bactérias capazes de produzir doenças,
terá sentido para ela a atitude de forçar as crianças a serem vacinadas
contra varíola, tétano etc. Quando as informações disponíveis para
raciocinar acerca das doenças são formadas por demônios e espíritos,
os problemas de saúde para esse grupo só serão resolvidos pelo curan-
deiro, feiticeiro e, consequentemente, haverá atitudes diferentes da
médica quanto à vacinação e higiene.

Para o pensamento antigo as leis da natureza e as morais eram a ex-


pressão da vontade divina. Quando a experiência mostrava o contrário
do afirmado pelas leis, sua defesa apoiava-se na “ignorância dos impe-
netráveis desígnios divinos”. Depois, a garantia da unidade da lei moral
e natural deixou de ser Deus; passou a ser a razão humana; dando
nascimento às grandes ideologias do séc. XIX. Para os teóricos, a razão
deveria descobrir as regras de conduta e de organização da sociedade,
em harmonia com as leis da natureza.

Enquanto as leis da natureza são cada vez mais bem decifradas e do-
minadas pelo exercício da razão (método científico), o crescimento das
ciências não ajudou praticamente nada para a descoberta ou elabora-
ção de uma ética individual e social.

O mundo desabou: as ideologias fracassaram, a própria razão caiu


do pedestal e espatifou-se. A crença de uma razão livre ou neutra para
fundamentar a ética individual e social foi enterrada.

Temos boas “razões” para duvidarmos da influência e do poder do


raciocínio na construção do julgamento moral. Existem dois processos
cognitivos trabalhando juntos: o raciocínio e a intuição. Historicamen-
te, o processo do raciocínio foi superenfatizado e priorizado. Agora
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sabemos que, na maioria das vezes, o raciocínio é gerado pelo julga-
mento intuitivo. A intuição ocorre antes da razão, orientando-o; assim
foi destruída a crença do raciocínio objetivo.

Poucas vezes usamos o julgamento racional para avaliarmos a con-


duta moral. Os estudos demonstraram que as pessoas se apóiam e
seguem mais suas intuições/emoções que suas reflexões morais.

Os filósofos usaram e abusaram da metáfora para descrever o con-


flito entre a razão e as emoções; uma delas comparava a razão com a
divindade e as emoções com o animal existente em nosso organismo.
Platão relatou que Deus criou primeiro a cabeça do homem, encarre-
gada do raciocínio; depois foi forçado a criar um corpo com as paixões
para permitir a cabeça mover-se para um e outro lado. A intuição e,
também, o raciocínio e o julgamento, são processos mentais conecta-
dos às emoções.

Intuição e raciocínio são palavras que indicam a compreensão de


duas formas de pensamentos diferentes. A intuição ocorre rápida e
automaticamente; a conclusão final é obtida por ela, isto é, não através
de um processamento envolvendo uma mente consciente e possível
de ser examinada ou avaliada pelo autor. Por outro lado, o raciocínio
ocorre mais lentamente, exigindo algum ou muito esforço, implicando,
no mínimo, passos que são acessíveis à consciência.

A intuição moral (“Ele não presta!”; “É um assassino!”; “Isto é um


absurdo”) pode ser examinada como um conhecimento que se mani-
festa na consciência de forma repentina, produzindo um julgamento
moral impregnado de aspectos afetivos, sentidos como bons ou ruins,
prazerosos ou não-prazerosos. Além disso, seu possuidor sabe que não
alcançou a conclusão através de uma procura organizada e metódica;
ela formou-se automaticamente. Pensando assim, podemos afirmar
que a intuição moral é um processo mental semelhante à avaliação
estética: “Gostei desse quadro”; “Detestei essa melodia”; “Essa mulher

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é fantástica”. Num caso ou noutro, a pessoa observa algo e, instantane-
amente, o aprova ou o desaprova.

David Hume sintetizou essas idéias com a frase: ““A razão é escrava das
emoções”.”

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Agressividade e Violência

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O Assalto
Domingo: o relógio da igreja bateu quatro horas da tarde. Sérgio
escrevia no computador.

— Doutor! Doutor! Fui assaltada. Estou desesperada!

— Assaltada? Como? Onde? Fala, Flor.

— Não aguento nem falar, doutor. Vou assentar-me. Estou quase


desmaiando!

— Sente-se. O que foi? Conta! O que ocorreu?

— Quase me mataram. Estou com o pescoço todo ferido.

— Foi aqui perto?

— Não aguento falar.

— Pivetes? Quem foi?

— Estou nervosa demais.

Flor caminha na sala para um lado e outro. Assenta-se. Respira


fundo. Levanta-se. Passa a mão pelo pescoço, mostrando marcas de
unhas. Enfia os dedos nos cabelos crespos, levantando-os, dando a
impressão de uma vassoura virada.

— Roubaram-me, nem sei quanto! Sessenta reais, não… du­zentos ou


trezentos…

— Como? Saiu de casa para passear com trezentos reais?


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— Não. Tinha cinco. O dinheiro que me roubaram, hoje, deve estar
valendo seiscentos reais. Mais ainda com a inflação. Fo­ram cruzeiros,
cruzados, cruzados novos. Nem sei mais!

— Não estou entendendo nada. Como você foi assaltada, arra­


nharam seu pescoço, se você saiu sem dinheiro? Para piorar, você disse
que foi em cruzeiros, cruzados, reais. Que confusão!

— Fui assaltada, sim. Estou com ódio. Vou arrumar um ad­vogado


para cuidar do caso. A mulher disse que eu fiz um abaixo-assinado
contra ela no emprego. Ela saiu do serviço. Ele, sem mo­tivo, de repente
quase me enforcou. Olha meu pescoço: as marcas das unhas. Está tudo
doendo. Arrumaram um táxi para mim. Eu só tinha dois reais. A Edina
ficou lá.

— Não entendi. Quem te assaltou? O que roubaram?

— Doutor, eu já lhe falei que tinha um “pepino” para resol­ver. Pois é


isso. Este é o pepino.

— Mas você foi roubada? Alguém levou seu dinheiro?

— Bem… saí com Edina, minha prima. Tem uma mulher lá no Palmi-
tal, às vezes empresto-lhe dinheiro. Uma vez ou outra.

— Empresta dinheiro? Seiscentos reais?

— É… ou mais. Deve ser uns mil, com a inflação. O senhor sabe como
é… Tudo subiu. Mas ela me paga, desgraçada!

— Mas não foi um homem?

— Foi. Foi o marido dela. Eu nem o conhecia.

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— E emprestou dinheiro para ela?

— Coisa antiga. Gente fina, empresto há três anos.

— E nem conhecia o marido de sua amiga de três anos?

— Não! É… conhecia. Trabalha na “Fit” em Contagem.

— Que história confusa. Ainda não entendi nada!

— Eu também não. Estava no bar assentada com meu amigo, con-


versando. Ele veio sem falar nada e quase me enforcou. Olha as marcas
das mãos dele. Tá doendo muito. Acho que queria me matar. Eu disse a
ele:

— Vamos conversar direito! Não tenho nada contra ele. O irmão


dele está condenado a vinte e cinco anos. Ouvi dizer que ele também
tem um ou mais processos na justiça. Acho que precisa urgente de um
psiquiatra. Deve estar louco da cabeça.

— Mas como? Por quê? Se você nem o conhecia direito…

— Ele é marido dela. Acho que ele ficou com ciúmes de mim. Eu
estava com Fred, que tem os olhos azuis. Agora eu só gosto de homem
de olhos azuis.

— Outro dia um “intaliano”, que também trabalha na “Fit”, me


cantou. Um homem lindo, doutor. Agora está usando homem branco
gostar de negra. Os brancos não estão gostando de brancas. As negras
são mais quentes.

— A cada hora a história fica mais confusa. Era um assalto e você


nem dinheiro para o táxi tinha. O cara te apertou o pescoço e você diz

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que era por ciúme?

— Foi no portão da casa. Ele saiu de repente. Eu estava com Edina,


conversando com a mulher dele… ele veio…

— Você não disse que estava no bar assentada? Que sua pri­ma esta-
va lá fora? Você gostaria de…

— Não. Eu estava na porta da casa dele. Ele é mais velho, deve ter
uns cinquenta anos. Quem falou que gosto de velho?

— A história de assalto já está mudando para namoro.

— É… quando eu vou lá na casa dela. É, vou muito lá, ficamos horas


conversando. Ele sempre passa de um lado para o outro, só para me
vigiar. Ele anda pela casa e me olha com cara de apaixonado. Eu penso
é que ele está caído por mim. Depois que ele me agarrou no pescoço,
está tudo marcado. Olha aqui, ele me paga, aquele des­graçado. Ele
ficou na cadeira assentado e começou a chorar. Ficou parado, choran-
do. Aí, eles chamaram o táxi. O motorista ficou com dó de mim e só me
cobrou os dois reais que tinha.

— Como que ele ficou assentado, se foi na porta da casa? A cada


hora você conta que a cena foi num lugar diferente. O dinhei­ro perdi-
do, quanto foi?

— Eu sempre emprestei dinheiro para ela, gente boa. É para ela pa-
gar o barracão onde mora. Mas ela falou que fiz um abaixoas­sinado no
serviço dela.

— Você já falou sobre isso. Você sabe o que é abaixoassina­do? Como


você iria fazer um abaixo-assinado no serviço dela? E para quê? Onde
ela trabalha?

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— Não sei, não senhor. Não sei o que é abaixoassinado. Ela trabalha
em casa de família como eu. Mas já foi despedida. Acho que é uma
assinatura. Não é? Ela perguntou-me se eu queria tro­car a dívida que
ela tem comigo, que é de trinta reais, por um che­que de oitenta reais.
Este cheque é de outra pessoa e vai vencer em janeiro. Eu ficaria com o
cheque e daria mais cinquenta reais para ela. Ela pensa que sou boba.
Acha que eu não sei o que é cheque pré-datado. Todo o dia a televi-
são fala sobre isso. Que as pessoas não devem fazer compras a prazo,
que os juros estão altos e que é melhor dar cheques pré-datados para
pagar as compras. Ela quer é me tapear, dando-me um cheque. Ela não
me passa a perna nunca.

— Ela está te devendo trinta reais? Você não falou que tinha sido
assaltada em mais de seiscentos reais?

— Mas, e os juros? Eu lhe emprestei em cruzeiros, reais, não sei


mais, durante a inflação… foi muito dinheiro. Uns cinquenta reais ou
muito mais, até uns mil, não sei bem não. Eu sei é que ela me deve e
tem que me pagar.

— Talvez isto sirva para você aprender, Flor. A gente só aprende,


errando.

— Mas ela é amiga antiga. Ela trabalhava, o marido também. Ele é


paquerador, mas ela também tem um amante que dá dinheiro para ela.
Para isso ela não é boba não.

— Afinal, você os conhece há muito tempo. Gosta dela e em­presta


dinheiro quando ela precisa. Estava na casa deles e ele se enfureceu.
Por quê?

— Já ouvi dizer que ele colocou até detetive para saber com quem
eu ando e aonde vou aos fins de semana. Eu já tinha notado. Lá na
rodoviária, onde passeio aos domingos, um homem sempre anda me

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vigiando. Quando fui tomar uma coca-cola, ele conversou comigo. Até
pediu-me um pouco do refrigerante e eu, boba, lhe dei o resto da lata.
Ele disse que a coca-cola estava com gosto de meus lábios. Acho que o
marido de minha amiga é apaixonado por mim. Ontem fui lá no bairro.
Depois fui até a casa dele junto com o amigo dos olhos azuis. Foi este
amigo que chamou o táxi para mim. Tinha muito tempo que não anda-
va de táxi. O motorista até que tentou me cantar. Foi muito simpático
comigo. No caminho…

— Termine a história. Passou para outra, a do motorista.

— É… bem… acho que ele me apertou o pescoço de ciúme. Tanto


que se arrependeu e chorou. Falou que na quinta-feira vem aqui em
casa trazer o dinheiro que sua mulher me deve. Mas que precisa muito
conversar comigo. Estou doida para chegar quinta. Ele não é de se jo-
gar fora. Será que saio com ele? O que… o que o senhor acha?

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Brigas de Casais: Agressão ou
Excitação Sexual?
Alguns casais usam com naturalidade as agressões físicas como
forma de resolverem brigas domésticas. Curiosamente, apesar da rai­va
de ambos durante as desavenças, automaticamente eles aplicam certas
regras para suavizar a agressão. Entre as “leis” do permitido e do proi-
bido durante as lutas, encontram-se: “é proibido atacar pelas costas”,
“o lugar de chutar deve ser olhado com atenção”, “deve-se ter extremo
cuidado para não lesar as partes “nobres” como os seios, tes­tículos, pê-
nis, olhos, estômago”, “os chutes ou coices são permitidos em resposta
a determinadas agressões verbais mais graves, mas não às leves”: “não
se pode usar objetos para agredir”, “deve-se evitar as brigas diante dos
filhos”, “se o companheiro estiver deprimido, gripa­do e com diarreia,
ele deve ser respeitado, não podendo ser agredido nesse dia”.

Os homens envolvidos nesse tipo de briga agem com suas mu­lheres


durante estas lutas excitantes como se estivessem educando um filho.
Ora a seguram, impedindo-a de se movimentar, ora a seguram para
que essa não saia à rua, ou para impedi-la de lhe atirar um objeto. Sua
agressão é mais simbólica que real – muito diferente do agressor típico
– mais para mostrar à companheira seu maior poder físico que para
feri-la. Sendo assim, os maridos só batem nos lugares apropriados,
usando apenas um pouco da força, com a palma das mãos, visando
controlar a agressão passageira da companheira/adversária.

As mulheres que participam dessas brigas geralmente atiram ob­


jetos, quebram outros, rasgam as roupas do marido, xingam palavrões,
gritam para chamar a atenção ou para pedir socorro aos vizinhos. Esse
tipo de briga é frequentemente mostrado nas novelas da televisão.

Uma particularidade desses casais nos quais ambos são agresso­res é


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que os dois são assertivos, isto é, nenhum tem medo do outro.

Esses agressores, marido e mulher, estão sempre prontos para res­


ponderem às provocações recebidas. É comum o uso do álcool por um,
ou por ambos os cônjuges, situando-se em torno de 50% dos casos. As
brigas se dão geralmente durante discussões acerca de questões sim­
ples. Essas vão aumentando de intensidade, pouco a pouco, passando
por períodos de uso de termos chulos até chegar às agressões físicas.

O interessante dessas brigas está no fato de que, muitas vezes, elas


fazem nascer um certo grau de excitação sexual, o que pode ser uma
razão automática ou involuntária de sua provocação. A excitação sexual
talvez seja despertada pela respiração ofegante de cada con­tendor,
pelo roçar dos corpos quentes e lubrificados pelo suor, pela dança dos
agressores exibindo movimentos rápidos e também lentos. Toda a cena
provoca a lembrança do ato sexual, realizado frequente­mente no mes-
mo local onde, no momento, está ocorrendo a briga. Estudiosos do as-
sunto afirmam ser a agressão física um excitante para o organismo para
a realização de diversas ações, entre elas a sexual. Por tudo isso, estas
brigas terminam muitas vezes com os cônjuges rolando agradavelmen-
te na cama “entre tapas e beijos”, com o apare­cimento do prazer, da
liberação de endorfinas endógenas e de oxito­cina, bem como o retorno
à suave paz.

Estes comportamentos violentos continuam enquanto o casal estiver


morando junto, aumentando sua frequência nos períodos de piora nas
relações. Uma vez afastados um do outro por separações, as agressões
terminam. Mas quase sempre voltam com um novo ca­samento, mos-
trando que esses cônjuges apresentam um padrão de agressão física
ao lidar com certos problemas existentes, o qual pode ser interrompido
temporariamente, quando não há um cônjuge apro­priado, ou seja,
pronto a aceitar o desafio e a entrar numa briga sim­bólica de amigo-
-inimigo.

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Marido Violento: Este Incompreen-
dido
O homem que agride sua companheira tem sido interpretado de di-
versos modos: cada interpretador usa um ou vários modelos ou teorias
explanatórias. Um e outro grupo defende apaixonadamente seu ponto
de vista acerca do homem violento, convencido de sua veracidade. En-
tretanto, seus opositores também têm suas certezas. Vejamos algumas
interpretações deste ser ainda não compreendido.

1 – A antiga psicologia dinâmica freudiana, hoje moribunda e em


extinção, interpretava o agressor da esposa como sendo sádico. O ato
de bater, para esse modelo, daria um alívio e prazer ao agres­sor. Já sua
companheira, permitindo ser agredida, era classificada como maso-
quista – a que gosta de apanhar.

2 – A Psicologia da Relação Objetal interpreta tanto o violen­


to como a vítima que aceita as agressões como possuidores de per­
sonalidades patológicas. Os dois grupos estariam catalogados como
Transtornos da Personalidade Antissocial, “Borderline” e Narcisista.
Além disso, para essa teoria, estes agressores foram abusados e es­
pancados na infância.

3 – A Psicologia Cognitiva Comportamental explica a agressão


desses homens como proveniente de distorções perceptuais e de sua
tendência a atribuir causalidades incorretas à conduta da esposa. A
raiva deriva da pessoa ter, desde cedo, seu “processador de infor­
mações” defeituoso. O seu possuidor seleciona e enfatiza apenas os
eventos provocadores de raiva, generalizando estes e, por outro lado,
negligenciando as informações não agressivas. O possuidor des­se
“defeito” interpretativo fica sensível somente às ações “negativas” da
companheira.
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4 – A Biologia estuda as disfunções orgânicas do agressor pro­
venientes de distúrbios hormonais, lesões cerebrais, defeito nos neu­
rotransmissores, baixa de glicose, etc. Estas disfunções podem ser
exacerbadas pelas drogas ou álcool.

Entre os sinais genéticos, anatômicos e bioquímicos que têm sido


associados às agressões dos maridos estão o baixo teor de sero­tonina,
as infecções cerebrais, um sistema nervoso autônomo pouco reativo, o
sexo masculino, a juventude e a baixa inteligência.

5 – A Teoria dos Sistemas explica a agressão como decorrente de


interações disfuncionais entre os familiares do agressor. Esta agres­são
é cultivada pelo agressor e pela vítima. Uma briga pode ser uma forma
de preservar condutas que estão sendo úteis à manutenção do grupo
familiar, permitindo a cada um dos membros desempenhar um papel
aceito pelos demais familiares.

6 – O Modelo Ético-Religioso coloca o marido violento como res-


ponsável por sua agressão. Possuindo o “livrearbítrio”, este tem con-
dições de distinguir o “certo” do “errado”. O agressor deve ser punido
por seus atos ao agir erradamente devido à sua “maldade” interna.
Através de punições, penitências e rezas, o agressor poderá ser perdoa-
do e se converter.

7 – O Modelo da Lei examina se o marido agressor infringiu, ou


não, o permitido pela lei. Desse modo, ele deve ser julgado de acor­do
com o que consta na legislação em vigor. Deverá ser absolvido ou puni-
do, dependendo do exame das provas arroladas tanto em sua defesa,
como na acusação. É a parte formal que interessa e não os fatos em si.

8 – As feministas, por fim, veem o agressor como um produto das


instituições sociais que não criaram uma igualdade entre homens e
mulheres. Existe a agressão masculina devido a uma longa história do

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domínio dos homens sobre as mulheres, muitas vezes constru­ída ou
apoiada pelas próprias mulheres. Criado com privilégios, o homem
acredita no seu direito de julgar e punir as mulheres que o desafiam.

Diante de tantas explicações, pergunto-me, qual é a certa? Não te-


nho resposta.

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Conheça o Estuprador
Os estudos acerca da personalidade do estuprador têm mostra­do
aspectos de interesse para o entendimento de sua conduta sob o ângu-
lo da psiquiatria. O estuprador geralmente é diagnosticado como tendo
um Transtorno da Personalidade Antissocial (irresponsabilida­de social,
busca de risco, explorador, propensão ao uso de álcool e drogas, etc.).
A sua bioquímica cerebral mostra, entre outros, um déficit no neu-
rotransmissor serotonina. Os estudos mostram que uma diminuição
dessa substância no cérebro tem sido associada com atos impulsivos,
impensados, agressivos, suicidas, etc. O cérebro do estu­prador parece
ser internamente pouco ativado, levando-o a procurar mais estímulos
externos para se sentir bem.

Os estupradores, em grande parte, mostram-se agitados, inquie­tos e


explosivos. Tem sido relatado que a inteligência do estuprador é mais
baixa que a média da população. Essa deficiência mental tem sido atri-
buída a fatores genéticos ou a lesões cerebrais sofridas du­rante a vida
pré ou pós-natal. Eles têm, principalmente, menor com­preensão verbal
e social. Com frequência, fazem uso de álcool e de drogas, agravando a
sua já reduzida capacidade de lutar contra seus impulsos.

Ainda cedo, os estupradores podem apresentar condutas desa­


daptadas como a crueldade com os animais, o uso de armas e má
adaptação escolar. Na história de vida deles é frequente a enurese
noturna (urinar na cama), incêndios e alcoolismo dos pais. Alguns es­
tupradores podem fazer 150 vítimas durante sua vida, caso não sejam
presos ou mortos. Cerca de 70% deles já praticaram outros crimes
como assaltos, roubos e homicídios. Diversos estudos mostram que o
padrão criminoso incorporado na infância desses indivíduos não será
extinto com punições carcerárias. Como se sabe, todo e qualquer cas­
tigo usado comumente não pune o padrão aprendido, pune somente o
indivíduo que praticou o crime.
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O estuprador, muitas vezes, ataca sua vítima com armas. Pes­quisas
mostram que certas pessoas tornam-se mais agressivas ao lidar ou
mesmo visualizar armas. A maioria dos estupradores é formada de
jovens. Cerca de 61% deles têm menos de 21 anos. Sabe-se que os
jovens, principalmente do sexo masculino, praticam mais atos antis­
sociais. Um outro fator de importância é a maior taxa de testostero­na
nessa idade, e esta parece atuar diminuindo a taxa de serotonina cere-
bral e, consequentemente, aumentando a impulsividade. Muitos deles,
durante o ato criminoso, têm, ao mesmo tempo, raiva e medo. Daí sua
conduta confusa, na qual se misturam agressões e investida sexual.
Durante o ataque, o estuprador normalmente ameaça a vida ou a inte-
gridade da vítima ou dos familiares. Além disso, não é raro ele ejacular,
defecar ou urinar na face ou corpo da vítima. Às vezes, introduz objetos
no ânus ou na vagina desta.

As vítimas dos estupradores vão, segundo os dados, desde os 15 me-


ses até os 82 anos, sendo que a maioria delas encontram-se entre 10 a
29 anos. A estatura da vítima é geralmente menor que a do estu­prador.
Apenas cerca de 4% das vítimas facilitaram o estupro, o que é uma
taxa baixa quando comparada com as pessoas assassinadas. Nestas, a
percentagem chega a 22%. Apenas uma em cada quatro ví­timas dos es-
tupradores dá queixa à polícia. Para outros autores, uma em dez. Para
terminar, a maior parte dos estupros ocorre dentro da própria casa da
vítima e cerca de 7% dos estupradores são parentes.

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Agressividade e Violência:
Informações resumidas
Para diagnosticar o criminoso é preciso conhecê-lo. A partir dos
4 anos ele inicia sua vida de desadaptado: bate e morde crianças e
adultos, é superativo, pirracento, irritável, difícil de se educar, seduzido
por aventuras, propenso às brigas, mentiroso, pratica pequenos roubos
na escola, em casa e nas lojas, e apresenta coordenação motora defi-
ciente. Mais tarde, rouba carros, vende e usa drogas, briga em bares,
assalta, frauda, abusa de crianças, dirige drogado ou alcoolizado, agride
mulheres, não paga suas dívidas e não fica no emprego. A disposição
subjacente existente no verdadeiro desajustado permanece durante
sua vida, com pouca ou nenhuma alteração, podendo mudar apenas
quanto à expressão do ato criminoso conforme a idade e condições
ambientais.

A maioria dos criminosos nasceu em verdadeiras “escolas” do crime;


ali aprenderam (aprendeu), dos pais ou companheiros, inconscien-
temente, a conduta anti-social. A maioria apresentou problemas de
impulsividade, provavelmente, hereditários.

Uma serotonina baixa associa-se a impulsividade, ou seja, uma maior


rigidez da atenção e menor habilidade para agir diante dos problemas
enfrentados no dia-a-dia.

Foi sugerido que a serotonina baixa leva a uma maior sensibilidade


à rejeição; o indivíduo torna-se mais vulnerável à não-aceitação ou à
perda; fundamento dos sintomas existentes no Transtorno da Persona-
lidade “Borderline” ou Limítrofe. Tais pacientes geralmente apresen-
tam, também, os transtornos de personalidade histérica, narcisista e
anti-social.

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Os pacientes denominados “borderlines”, bem como os anti-sociais,
narcisistas e histéricos, parecem ter um fator comum: uma extroversão
extrema. Se isso é correto podemos especular que essas condições
estão associadas com o fracasso dos extrovertidos em fixarem liga-
ções com pessoas desejadas. Mas talvez seja o fracasso em conseguir
ligações, e não a extroversão, o responsável pela baixa da serotonina
produzida ou liberada nas sinapses neuronais desses indivíduos.

Níveis baixos de serotonina cerebral têm sido descritos na depres-


são, atos suicidas, alcoolismo, medos exagerados, preocupações conti-
nuadas, obsessão e compulsão, transtornos alimentares e, ainda, entre
os homicidas, principalmente quando esses têm uma estreita relação
com suas vítimas.

Parece que o meio social “normal” diário, principalmente, as rela-


ções com pessoas desejadas, é que mantém um nível continuado e
apropriado de liberação de serotonina. Ora, se a pessoa é amada e res-
peitada por outros que têm importância para ela, seus níveis de sero-
tonina tendem a ficar mais elevados e, talvez, a torne menos extrover-
tida, ou mais “introvertida”. Quando a pessoa não consegue as ligações
desejadas – há rejeição – os níveis normais de serotonina abaixam-se
diante do fracasso em manter os contatos sociais imaginados. Ao mes-
mo tempo, há uma tendência ao aparecimento de condutas associadas
à agressão impulsiva, a maior sensibilidade à rejeição e o pavor de ficar
só: sinais e sintomas descritos entre os pacientes com Transtorno de
Personalidade Borderline.

Estudos mostraram que um anti-social que teve seus pais ricos quan-
do criança, pode estar pobre ao chegar aos 40 anos, semelhante a uma
pessoa de nível socioeconômico baixo, devido a sua restrita capacidade
para aprender e compreender o complexo meio social, a pouca discipli-
na e baixa tolerância à frustração. Ele se torna um desviado da socieda-
de devido ao seu limitado repertório de alternativas para sobreviver.

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Cerca de 50% dos crimes são cometidos por 5 a 6% dos ofensores,
agindo, principalmente, contra pessoas. Este seleto grupo permanece
cometendo crimes desde cedo até a morte.

A sabedoria convencional, muitas vezes, sugere que a conduta está


sob controle do inato e do aprendido, ora é um, ora outro, o mais forte
ou mais poderoso. Se uma pessoa pobre apresenta um nível baixo
de serotonina, alguém poderia argumentar que sua pobreza é bio-
logicamente fundada. Entretanto, correlação não prova causalidade
e é possível que fatores associados à pobreza como a falta de poder,
deprivação das crianças, a dieta pobre, o isolamento social, o emprego
exigindo grandes esforços e baixa decisão, tudo isso, contribui para um
nível baixo de serotonina cerebral.

Um aspecto característico do espírito da delinquência é o culto à


proeza; uma incansável busca de sensações e emoções. O código deles
é a aventura, a ousadia, as situações carregadas de perigo. Excitam-se
fazendo o proibido, desafiando as autoridades, agindo contra a segu-
rança, a rotina e o estabelecido. Para os delinquentes, a obediência à
ordem produz tédio e ansiedade. Desdenham o progresso, os mode-
los de disciplina usados na escola e no trabalho. A maioria apresenta
sonhos grandiosos de sucesso rápido, no qual o dinheiro é valorizado
para gastos imediatos – não a longo prazo – em que tudo é desperdi-
çado num consumo impensado. Valorizam a trapaça e a manipulação,
inclusive a dos familiares e amigos.

As estatísticas acerca do crime – prevalência e incidência – situam-se


em torno dos 17 anos. Em torno dos 20 anos a taxa diminui em 50% e
em 85% aos 28 anos, ou seja, a maioria desiste de ser delinquente, de
agir criminosamente.

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Aprenda a não ser tolo:
três Marias vão ao médico

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Maria Ingênua vai ao médico
Imaginemos a seguinte situação: Maria, após sentir dores torácicas
e palpitações, procura Dr. José, um conceituado médico indicado por
uma amiga. Poucos dias antes, Maria havia visitado outros médicos.
Um deles diagnosticou hipocondria; um outro, dor anginosa; e um ter-
ceiro lhe afirmou que, a qualquer momento, ela poderia ter um infarto
ou, um derrame. Maria estava apreensiva.

No consultório limpo e bem arrumado, Dr. José, atencioso, começou


o exame fazendo uma longa anamnese. Em seguida, a auscultou e,
após pedi-la para deitar-se na maca, fez um exame eletrocardiográfico;
também verificou, por diversas vezes, a pressão sanguínea e a tempe-
ratura.

Após todo o ritual médico, Dr. José, enquanto ainda olhava o traçado
do eletrocardiograma, pediu a Maria que se assentasse. Em determina-
do momento, ele voltou seu olhar calmo e alegre em direção à Maria e
lhe disse com uma voz firme e bem postada:

— Você não tem nada!

Maria, talvez várias Marias diferentes, pode interpretar a afirmação


do Dr. José de diversos modos. Uma frase, como esta, pode ser inter-
pretada literalmente, isto é, como ela foi dita. Pode, também, provocar
outras informações além da contida apenas na frase emitida. Entre
essas estão as pistas fornecidas pelos diversos gestos do médico; pelos
conhecimentos que temos acerca dele; pelas idéias anteriores que
armazenamos acerca de doenças; pelos sintomas e sinais percebidos;
pelas opiniões emitidas por outros médicos e, finalmente, pela simpa-
tia ou antipatia que sentimos por ele.

A primeira Maria, que nessa matéria descrevo, a ingênua, faz par-


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te do enorme grupo das pessoas crédulas, que aceita a frase ouvida
sem contestá-la, sem fazer uso de outros conhecimentos e suposições
existentes em sua mente e que enriquecem as conclusões, permitin-
do escolher um melhor caminho. Para o enorme grupo dos crédulos,
o afirmado por uma “autoridade”, como é o caso do Dr. José, é uma
verdade verdadeira, não sujeita a críticas.

Maria Ingênua da Silva não só aceita a frase “Você não tem nada”,
emitida pelo Dr. José, como também acredita que ele é uma pessoa
bem intencionada, ou seja, não teve outras intenções não reveladas
além da expressa na frase. E mais, Maria talvez acredite que os médi-
cos são todos competentes, portanto, Dr. José é uma pessoa capaz de
conhecer seu organismo e transtornos deste. Desse modo, ela acredita
que o exame foi perfeito e que a conclusão final expressa observações
acertadas. Resumindo: Maria pensa que o Dr. José sabe o que está
dizendo e é convincente.

Podemos dizer que Maria aceitou como corretas duas informações


que não foram expressas, além da afirmação transmitida. Em primeiro
lugar, ela acreditou ser a informação dada por Dr. José, “Você não tem
nada”, como a importante e que deve merecer sua atenção, de outro
modo, segundo a postura de Maria, não existe outra mensagem im-
portante para ela focalizar além da expressa pelo médico. Em segundo
lugar, para Maria, os meios usados pelo médico para examiná-la, bem
como sua maneira de lhe transmitir a informação, facilitaram a com-
preensão dela e a conclusão final acerca do seu estado físico. Ela pode-
rá ir para casa tranquila, pois não tem nada: é uma pessoa saudável.

Para muitos autores a idéia transmitida que merece a atenção é a


que produz efeitos cognitivos, isto é, a que fornece informações fáceis
de se ligarem às outras informações antigas do “assimilador mental”,
ou seja, existentes na mente, no estoque de saberes armazenados,
prontos para serem utilizados na compreensão ou interpretação das
informações. O afirmado, “Você não tem nada”, uma vez unido ao já

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sabido, possibilitará à rede de idéias – modelos ou paradigmas gerais –
entender e extrair deduções.

Se a informação não é esperada, se ela é rara ou estranha àquela


mente, ela dificilmente será compreendida e, nesse caso, a informação
não será assimilada. Muitas vezes as pessoas enfrentam situações ou
notícias que não são assimiláveis; nessas ocasiões, elas usam expres-
sões como: “Isso é inacreditável!”; “Parece um sonho ou filme”; “Que
horror; terrível! ”, bem como outras frases que indicam que a informa-
ção não pôde ser compreendida pelas idéias existentes. Assistimos,
perplexos, à catástrofe ocorrida na região central de Nova Iorque quan-
do os aviões espatifaram-se nos arranha-céus; nessa ocasião, ouvimos
diversas expressões verbais desse tipo.

Pacientes como Maria Ingênua aceitam, sem questionar, a idoneida-


de, as boas intenções e a capacidade total do Dr. José e, possivelmente,
de quaisquer outros Doutores Josés. Maria, uma vez tendo ajustado
suas idéias às do Dr. José, por ser hipoteticamente ingênua, irá seguir
o caminho do menor esforço, construindo uma interpretação simples,
sem levantar suspeitas acerca da fala do médico.

Coitada das Marias desse vasto mundo. Em primeiro lugar, ela não
imagina que a informação importante poderia ser outra, estar oculta e
não ter sido dita. Os médicos usam muito isso, afirmam que o cliente
não tem nada, sabendo que apresenta uma doença grave, às vezes,
mortal. Em segundo lugar, o Dr. José poderia ainda não ter feito um
diagnóstico correto como afirmou, poderia ser um profissional incom-
petente, estar distraído ou cansado no momento do exame, ter deixa-
do para trás um sinal ou sintoma fundamental para o diagnóstico mais
acertado, como se diz no jargão médico, pode ter “comido mosca”, ou
ainda, Maria pode ter uma doença difícil ou impossível de ser diagnos-
ticada.

Ao ouvir Dr. José dizer: “Você não tem nada”, Maria interpretou a

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informação “não tem nada” no sentido de que seu organismo está fun-
cionando bem, suas dores e taquicardia devem ser esquecidas como
algo que não existe, pois “tudo é psicológico”. Ela conclui que o Dr. José
deseja que ela aceite essa implicação, ou seja, que ela, como ele, acre-
dite estar bem, sem doenças, não precisa se preocupar, podendo ter
uma vida normal. Em resumo: ela, por enquanto, não precisa procurar
ajuda médica.

Esta estratégia – interpretação ingênua – poderá produzir uma


compreensão adequada e sem riscos para o ouvinte, sempre que o
falante seja de fato bem intencionado e, acima de tudo, capacitado o
suficiente para perceber e comunicar o que é importante e evidente
para a pessoa com quem está se comunicando no momento. Apesar da
crença, as pessoas, frequentemente, nem são competentes continua-
damente e, também, nem sempre são bem intencionadas.

Maria sabe, – mas não prestou atenção a esse conhecimento – sem


o conhecimento de Dr. José, que outros médicos não só a examinaram,
como também deram-lhe diagnósticos diferentes; um suspeitou de
angina e da possibilidade dela vir a ter um derrame, o outro de hipo-
condria. Mas Maria Ingênua só prestou atenção ao afirmado por Dr.
José; esqueceu as afirmações dos outros médicos. Seu defeito é não
relacionar o que ouve agora com o que ouviu ou vivenciou antes. Se
ela tivesse lembrado de suas dores, do que o outro médico lhe disse,
de histórias médicas escutadas ou lidas de outras pessoas, ela ficaria,
no mínimo, em dúvida diante do falado pelo Dr. José: “Você não tem
nada”. Poderia até pensar, caso suas interpretações fossem mais longe,
que ele talvez estivesse querendo dizer que “ela não tem nada” a ver
com o que aconteceu, ou mesmo, que ela não tem mais nada a fazer,
pois seu estado é grave.

Mas como, no desenrolar da consulta, ele não receitou nada, nem


indicou nenhum tratamento, ela imaginou a frase “Você não tem nada”
da maneira mais fácil e mais simples, sem ter trabalho mental. Lem-

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bro o leitor que as crianças muito novas, bem como certos deficientes
mentais, acreditam, sem fazer críticas, em qualquer informação ouvida.
Maria é apenas ingênua como todos nós somos em inúmeras ocasiões.

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Maria Cautelosa vai ao Médico
A segunda Maria, a Cautelosa, menos ingênua que sua companheira,
a Maria Ingênua, após a consulta, sai do consultório com algumas dúvi-
das. Afinal, o que o doutor quis dizer com a frase “Você não tem nada”,
se eu sinto dores e palpitações?

Maria Cautelosa acredita também, como a ingênua, que o emissor,


nesse caso, Dr. José, está bem intencionado. Mas ela duvida de dois
aspectos aceitos sem críticas por Maria Ingênua:
faz restrições a maneira como Dr. José impôs no espírito dela as
informações resumidas na frase “Você não tem nada”;
levanta dúvida a respeito de sua competência para realizar um
diagnóstico exato, isto é, absolutamente certo.

Para Maria Cautelosa, Dr. José ignorou outros conhecimentos já pos-


suídos por ela, pois, caso soubesse, fatalmente teria mais cuidado ao
formular a informação final, a tida como a mais importante: “Você não
tem nada”. Quando o Dr. José afirmou para Maria Cautelosa que ela
não tinha nada, imediatamente ela lembrou-se das diferentes informa-
ções dadas pelos outros médicos visitados. Por tudo isso, a informação
resumo e importante transmitida pelo Dr. José à Maria não dominará
sua mente, pois esta já estava habitada por outras suposições surgidas
na sua consciência quando recebeu a informação do médico.

Os estoque de informações já existentes decorrentes das consultas


anteriores, fatalmente, como não estavam de acordo com as do Dr.
José, irão dificultar ou impossibilitar a aceitação das novas informações
dadas por ele, mesmo sendo elas possíveis de serem importantes. De
outro modo, como o ninho mental da paciente já estava povoado por
outras idéias antigas, diferentes e contrárias à nova informação, estas
combaterão as intrusas, as novas inimigas. Caso o ninho estivesse va-
zio, sem idéias, seria mais fácil a idéia básica do Dr. José ali se instalar e
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prosperar, orientando outras crenças e condutas de Maria.

Vamos supor que a informação ouvida do Dr. José tranquilize a


mente de Maria e ela a aceite como sendo uma informação importante
e suficiente. Nesse caso, como sempre, a mente da ouvinte segue um
caminho que facilita a compreensão, a via de menor esforço. Entre-
tanto, aqui ela vai mais longe; não se deterá na primeira interpretação
importante que lhe vem à mente. Mesmo se sua mente apressada e
distraída tiver aceitado a primeira interpretação dada pelo Dr. José, ela,
sendo Maria Cautelosa, pensará outras possibilidades importantes.
Para isso ela irá recorrer ao estoque de recordações existentes em sua
memória como: o que ela sabe sobre o médico em particular; conheci-
mentos armazenados a respeito de outros médicos; acerca da arte da
medicina; do que ela já leu ou viu nas TVs sobre acertos e erros médi-
cos; dos sintomas sentidos e que ficaram sem explicações. Aos poucos,
poderão surgir em sua memória lembranças de outros fatos vividos,
observados e experimentados por ela, por parentes e amigos. Durante
suas reflexões, ela lembra que ele não lhe receitou nada, não pediu
exames laboratoriais, despediu-se dela e deu por encerrada a consulta;
as dores e palpitações não foram explicadas.

Assim, Maria Cautelosa, após todo esse trabalho intelectual de re-


cuperação de lembranças e cruzamentos dessas com o afirmado pelo
Dr. José, poderá construir um arsenal poderoso de críticas mais seguro,
possibilitando uma avaliação melhor do que a aceitação simples do es-
cutado durante a consulta, permitindo-lhe examinar melhor, e mesmo
aceitar, ou, também, colocar em xeque o afirmado pelo Dr. José, ou
seja, fará uma interpretação menos ingênua.

Esse segundo modo de interpretar um acontecimento produzirá


uma compreensão mais rica e adequada do informado pelo médico,
mas, sem dúvida, é mais trabalhosa. A pessoa que fala, nesse caso, o
Dr. José, mesmo sendo, por hipótese, bem intencionado, também por
hipótese, poderá não ser capacitado ou competente o suficiente para

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fazer um bom exame, ou de perceber o que é importante para Maria
num certo momento.

Mas, infelizmente, apesar de nossos desejos, cheios de esperanças,


nem sempre as pessoas são bem intencionadas e capacitadas. A co-
municação humana pode ser inadequada e, para piorar, nem sempre
é honesta; pode faltar por parte do emissor tanto a competência,
como uma boa intenção. Liguem suas TVs e observem as propagandas.
A maioria delas tenta convencer as crianças, jovens e idosos a com-
prar e comprar; usando os produtos anunciados todos ficarão mais
sadios, mais bonitos, charmosos e atraentes, cheirosos, importantes,
inteligentes e outros mais e mais. Tudo a baixo custo e sem esforço.
As propagandas nos informam e nos incentivam a imaginar que o uso
dos produtos é importante para nós. A propaganda tenta demonstrar
boa-fé e nos levar a seguir suas orientações. Todos sabemos que as
propagandas são geralmente muito competentes, atingem o desejado
com grande parte da população; mas a intenção delas é diferente da
vinculada.

A intenção subjacente nas propagandas, como a que ocorre em


grande parte das informações que escutamos, não é explicitada. Os
motivos, razões ou desejos dos donos do produto propagado, velados
ou bem escondidos, diferem e muito, dos desejos do telespectador;
o desejo fundamental de um lado é vender e vender e não ajudar os
compradores. Com os políticos, em grande parte dos casos, o padrão
é o mesmo. Por tudo isso, um ouvinte realmente mais sofisticado não
pode pensar como pensa Maria Ingênua: “Eu ponho a mão no fogo por
ele”, como se todos os emissores de informações fossem bem intencio-
nados. Creio que um comunicador verdadeiramente sofisticado, quase
sempre, não é bem intencionado.

Na hipótese aqui relatada, mesmo que Maria Cautelosa imaginasse


Dr. José como bem intencionado, ela seria forçada a fazer restrições
quanto a sua conduta, pois ele não tomou conhecimento de suas dores

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e palpitações, bem como foi incapaz de explicar essas queixas; motivos
de sua consulta. Portanto, o próprio Dr. José deveria estar ciente de
que sua afirmação não era a única informação possível de ser verdadei-
ra, pois ia contra o relatado pela cliente. Maria Cautelosa, através de
um grande esforço criativo, poderia imaginar uma outra interpretação
para tentar adequá-la à frase “Você não tem nada” dita pelo Dr. José.
Quem sabe ele estivesse querendo dizer “Você não tem nada” em re-
lação a algum aspecto do organismo, como a pressão arterial que está
boa, ou o intestino, por exemplo, que sempre funcionou bem”. É possí-
vel supor que Maria Cautelosa não agirá conforme a intenção expressa
pelo Dr. José, ou seja, ir tranquila para casa imaginando não ter nada.

As duas estratégias de interpretações, a Maria Ingênua e a Maria


Cautelosa, pressupõem ser o Dr. José bem intencionado; elas não duvi-
darão de possíveis motivos escondidos existentes nele para prejudicá-
-las, ou mesmo não ajudá-las como devia ser o trabalho médico; em
resumo, para elas seu caráter é de um homem bem intencionado. A
situação iria piorar caso Maria abandonasse esse pressuposto; se não
acreditar na boa intenção dele, ela não encontrará mais nenhuma in-
terpretação válida, pois, neste caso, sempre existiria a dúvida, acabou-
-se a confiança, essencial para pressupor o restante da informação.

Quando você aceita a boa intenção do emissor, não imaginará má-fé


ou mentiras em suas afirmações, mas quando você não acredita na
boa-fé ou honestidade do emissor, o receptor não mais poderá acre-
ditar em nenhuma estratégia otimista apresentada por ele, pois essa
postura pressupõe boa intenção. Em resumo: os ouvintes que reconhe-
cem ou detectam mentiras nas informações de outros usam estratégias
diferentes para assimilar o informado do que os que partem da suposi-
ção da informação ser bem intencionada.

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Maria Sofisticada vai ao Médico
A terceira Maria, a Sofisticada, examina mais profundamente, e de
diversos modos, a frase construída por Dr. José após a consulta: “Você
não tem nada”. Para Maria Sofisticada, a conclusão de um exame mé-
dico, resumida nessa frase, procura ligar diversos níveis de observações
feitas pelo médico. A informação “Você não tem nada” é mais rica do
que relatos de apenas alguns níveis como sua pressão está normal; seu
peso também; não apresenta edemas; não há sopros cardíacos; sua
memória está excelente etc.

Entretanto, às vezes, imaginamos estar compreendendo um evento


complexo – como um exame médico – ao isolar somente alguns níveis
e não outros. Um médico cardiologista tende a “enxergar” principal-
mente os sinais e sintomas relacionados à área cardiovascular; um psi-
quiatra selecionará os aspectos do comportamento, deixando de lado
características físicas etc. Uma minha amiga deu-me um bom exemplo
do aqui discutido ao me confidenciar: “Doutor, Marly é esperta porque
ela é paulista”. Sua conclusão foi estabelecida através de um fato – ter
nascido em São Paulo – que talvez não tenha ligação alguma com “es-
perteza”.

Os clientes ou ouvintes sofisticados – geralmente falantes compe-


tentes – percebem que os emissores usam a informação para atingir
seus próprios fins. Estes podem, em alguns ou em muitos aspectos,
corresponder aos fins ou desejos do receptor. Deve ser notado que,
muitas vezes, as intenções dos emissores são altamente diferentes dos
objetivos dos receptores ou ouvintes; estimulo a mente do leitor para
os discursos políticos, algumas pregações religiosas e, principalmente,
propagandas existentes nas TVs, rádios, jornais etc.

Maria Sofisticada, partindo de intenções possíveis do Dr. José, apro-


funda-se mais, focalizando e imaginando diversas condutas do Dr. José
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durante o exame. Ela procura entender o que o levou a examiná-la por
tanto tempo, porque ele usou o eletrocardiograma e tomou a pressão
arterial tantas vezes. E suas dores? Ele nada falou a respeito delas. Se-
ria proveniente de uma outra doença ou de uma área da medicina que
ele não conhece? Quem sabe ele não gostou de mim? Talvez, por não
ter conseguido fazer um diagnóstico, decidiu mandar-me embora. Ele
sorriu ao dizer a frase “Você não tem nada”. Porque será? Uma minha
amiga foi diagnosticada como não tendo nada e morreu dias depois;
não pode acontecer o mesmo comigo?

Durante uma consulta médica são exibidos diferentes níveis para


o médico e o cliente. Em cada nível ou aspecto focalizado, formamos
compreensões diversas, às vezes, contraditórias, outras vezes as in-
formações obtidas se somam formando um todo mais compacto. Por
exemplo: “Essa criança tem gastrenterite”; ela apresenta vômitos,
febre, diarréia, desidratação etc. Cada um desses aspectos está aparen-
temente separado, mas estão interligados através de uma teoria acerca
da doença.

O paciente, durante o relato de sua história médica, induz o ouvinte/


médico a dar mais importância a certos fatos que foram selecionados
pela mente dele. O médico prestará mais atenção a certos trechos da
conversa e, além disso, durante a consulta, ele focalizará, também, sua
atenção na conduta geral do cliente como: os termos usados, a cons-
trução das frases, a ordem lógica, os temas fundamentais descritos, as
intenções por trás dos relatos e muito mais. Esses e outros aspectos
não citados indicam claramente que a compreensão da informação
obtida durante uma consulta, ou qualquer conversa, não é construída
apenas dos relatos e observações diretas; é preciso mais alguma coisa
que é, muitas vezes, a parte principal, importante ou básica da infor-
mação. Podemos afirmar que a mente do receptor ou ouvinte vai da
mais simples, como Maria Ingênua, a mais complexa, como Maria So-
fisticada; o que a pessoa conhecia antes de receber a nova mensagem.

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Durante uma conversa, as inferências, deduções e suposições apa-
recem na mente do ouvinte e observador quando as estruturas do
conhecimento dele são ativadas, isto é, quando o ouvinte recupera
experiências ou lembranças anteriores memorizadas e fundamentos
teóricos que passam a ser usados para ajudar a compreensão. Os
conhecimentos anteriormente armazenados, possíveis de estarem
relacionados ao tema discutido, uma vez recuperados da memória
autobiográfica do indivíduo e tornados acessíveis à consciência – pron-
to para serem usados – irão participar ativamente na compreensão e
resposta à conversa que está em andamento.

Como não podia ser de outra forma, as memórias diversas armaze-


nadas e estimuladas pela conversa ou leitura sempre dependerão do
estoque existente e, também, de sua forma ou característica. Além
disso, é necessário que o já aprendido esteja pronto para aparecer na
consciência para ser utilizado. Eu posso ter um grande conhecimento
acerca de um assunto e, no momento da conversa, esse pode não me
vir à cabeça, portanto, de nada valerá. Quando o conhecimento se
torna acessível à consciência, ou seja, foi recuperado, ele possibilitará
uma compreensão mais ampla do que está sendo discutido por acres-
centar mais informações ao tema.

Maria Sofisticada armazenou uma grande quantidade de informa-


ções que ela utiliza durante suas conversas com o Dr. José. Sendo
crítica e tendo boa memória, ela se lembra de minúcias do ocorrido
durante o exame, de outras consultas já realizadas, dos bons e maus
médicos em geral, leu muito sobre “erro médico”. “Não poderia estar
acontecendo o mesmo comigo?” Questionou. Ela foi a outros médicos,
um deles lhe disse que ela tinha “hipocondria”, o outro lhe falou na
possibilidade de infarto e derrame. Quem tinha razão? As indagações
de Maria Sofisticada poderiam prosseguir questionando a frase simples
do Dr. José: “Você não tem nada”.

Podemos afirmar que a melhor ou pior compreensão ou decodifica-

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ção de uma informação como a acontecida na consulta – ou em qual-
quer conversa um pouco mais complexa- será sempre realizada através
dos dois caminhos: as informações fornecidas pelo emissor de um
lado, nesse caso, as do Dr. José; e a outra, a produzida pela maior ou
menor sofisticação da mente do cliente, ou ouvinte, de sua prontidão,
no momento, para recuperar as informações armazenadas, auxiliares à
compreensão, que irão acrescentar outros significados e inferências à
narração do discurso ouvido.

Uma maior riqueza e disponibilidade dos conhecimentos anteriores,


chamado por alguns de inteligência potencial, será fundamental para
uma compreensão mais sofisticada acerca das informações recebidas.
Esse fator é composto de estruturas de conhecimentos diversos esto-
cadas, tanto específicas como genéricas, possíveis de ser lembradas e
usadas no momento da interação com o focalizado.

As estruturas de conhecimento específicas, facilitadoras da compre-


ensão, existentes na pessoa, incluem representações ou lembranças de
experiências particulares, leitura de textos, aulas e discussões ouvidas
etc. Muitas vezes, ao ouvirmos uma parte da fala de um amigo – prin-
cipalmente dos inimigos – lembramos que ele, por exemplo, um pouco
antes, relatou situações que contradizem o falado.

As estruturas de conhecimento mais genéricas incluem os esquemas,


os enredos, modelos, estereótipos e outros conjuntos de conhecimen-
tos que conseguem facilitar e dar maior velocidade para a “digestão”
do texto ou conversa que está sendo assimilada.

São essas estruturas que irão fornecer à pessoa grande parte do con-
teúdo necessário para interpretar, explicar, predizer e compreender a
conversa, o texto e os eventos que estão sendo enfrentados ou obser-
vados; em resumo, são estas estruturas que nos permitem compreen-
der, predizer e explicar as experiências particulares e vividas por cada
um de nós no meio ambiente experimentado.

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Quando uma situação nos é muito familiar e superaprendida, o con-
teúdo das estruturas, ou seja, determinadas lembranças relacionadas
ao observado são automaticamente estimuladas e ativadas com pouco
ou nenhum esforço nosso. Quando uma nova informação aparece e só
pode ser construída a partir de ciclos cognitivos de buscas e rebuscas
na memória – uso de maior esforço – e na informação acumulada de
várias fontes na memória autobiográfica, haverá muito mais dificulda-
de para a compreensão. Portanto, o ouvinte, ao compreender a con-
versa – neste caso particular, a consulta – uns mais e outros menos, irá
procurar construir significados para o que está sendo ouvido; ele ten-
tará explicar “porque” os episódios da conversa ou atos ocorreram e
“porque” o falante mencionou certas informações particulares naquele
dia.

Dando um exemplo: Mário decidiu escrever uma carta a Alice, sua


antiga amiga. Uma possibilidade adequada inclui “queria pedir ajuda”;
“sentiu-se solitário”, “tinha uma notícia importante para ela” etc. Seria
estranho inferir ou imaginar que Mário escreveu para Alice para “pegar
na caneta”.

Ao ouvir ou ler, esperamos por algo no futuro; uma conversa acer-


ca de uma pessoa entrando num restaurante ativa nossa mente para
pensar que alguém deve ter ido ali para comer, beber, conversar, pagar
etc., conforme nossa memória autobiográfica armazenou. Do mesmo
modo, uma história de vingança leva-nos a esperar que alguém fira o
outro que lhe fez algo desagradável anteriormente.

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As três Marias: Informações
resumidas
Deve ser lembrado que todos os comportamentos verbais, bem
como outros comportamentos comunicativos, visam, antes de tudo, a
prender a atenção do sujeito alvo. Não há possibilidade de nos comu-
nicarmos com alguém caso este não preste atenção às nossas informa-
ções.

Quando transmitimos uma determinada mensagem para alguém,


nós, como emissores, tentamos sempre formar na mente do recep-
tor ou ouvinte outras informações, além das literalmente expressas:
Pedro, interessado em conquistar Cláudia, ao vê-la, afirma: “Você tem
belos olhos”. Em outro caso, ele pretende ajudar uma pessoa que
está trocando o pneu furado do seu carro e lhe pergunta: “Seu pneu
furou?”. Essas informações, que têm recebido o nome de “intenções
informativas”, não são claramente verbalizadas. No caso do Dr. José, as
intenções informativas deste foram seus gestos calmos, o tom de voz, a
maneira de olhar etc.

As intenções informativas simples nada mais são do que outras in-


formações que a pessoa – a que emite a mensagem – tenta transmitir
além do expresso literalmente. Muitas vezes, após ouvirmos uma frase,
segundos depois, percebemos o que não tínhamos notado, falando
para nós mesmos: “Ah! Só agora, percebi. Que burro fui! Ele disse que
estava gripado como desculpa para não ir; fiquei preocupado à-toa.”

A provocação ou realização de uma intenção informativa é geral-


mente intencional. Uma intenção de comunicar – ou uma “intenção
comunicativa” – procura tornar conhecida uma intenção informativa
inicial (de primeira ordem), a primeira informação, a que se deseja que
seja aceita pelo receptor. Podemos imaginar que Maria Sofisticada está
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ciente que Dr. José tem por intenção, ao demonstrar calma e falar que
não há nada, fazer com que ela acredite no que está sendo dito. Nesse
caso, podemos supor que Maria Sofisticada, não a Ingênua, está de
posse do seguinte raciocínio/complexidade: “Dr. José quer que eu saiba
que ele pretende fazer-me acreditar que ele não precisa fazer nada por
mim, pois tudo está bem”.

De maneira simples, podemos afirmar que a comunicação nada


mais é do que usar um meio, ou estratégia, especial para realizar
uma intenção informativa; de um modo mais seco e desagradável, de
administrarmos nosso egoísmo junto ao outro. Através de uma inten-
ção informativa fornecemos indícios, genuínos ou falsos, a respeito da
informação que desejamos que o outro acredite como verdadeira.

Nós, seres humanos, alguns mais, outros menos, usamos e abusa-


mos de técnicas para construir, ou melhor, inocular estados mentais e
emocionais nas pessoas. Constantemente estamos provocando inten-
ções como no exemplo:

“Luiz come diante de Marta, demonstrando extremo prazer pela


feijoada preparada por ela.”

Com esse gesto, Luiz tenta agradá-la para mudar as intenções de


Marta para com ele. Naquele dia, ela estava possessa. Era preciso
acalmá-la. Um observador que não conhecesse as intenções de Luiz
poderia imaginar que ele estivesse faminto. Por outro lado, se Marta
percebesse a intenção de Luiz – comer muito para agradá-la e acalmá-
-la – a conduta de Luiz poderia não surtir o efeito desejado.

Um comportamento comunicativo, construtor de idéias, emoções


e intenções no espírito dos receptores, pode ser feito por meios não-
-verbais e verbais. João pode estabelecer contato visual com Lúcia,
sua superiora; pode ainda olhar para o chão, andar devagar, esfregar o
rosto com as mãos etc., tudo isso para auxiliar a compreensão de sua

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intenção afirmativa; a de que está doente, precisa ir para casa e procu-
rar um médico.

Conforme o discutido, não há possibilidade clara e objetiva de saber-


mos as intenções mais escondidas do Dr. José; sabemos as mais super-
ficiais, por exemplo, uma de suas intenções básicas foi fazer com que
Maria acreditasse no que dizia. Mas durante uma ironia podemos fazer
o oposto; falar algo de um certo modo que leva o receptor a saber que
o afirmado quer dizer outra coisa diferente. No caso do médico, o Dr.
José, ao fazer gestos e usar certos tons de voz, tentava mostrar calma
intencionalmente para provocar nas Marias que ele não estava tenso
e nem preocupado com estado físico delas, pois tudo estava bem. Mas
é possível que ele quisesse dizer alguma coisa a mais do que foi falado
e demonstrado pelos seus gestos. Hipoteticamente, tudo o que ele
fez pode ser falso; não só em virtude dele ter uma intenção falsa por
algum motivo próprio e desconhecido para nós, como também devi-
do a uma incapacidade dele de fazer o diagnóstico mais acurado. Se
pensarmos conforme essas hipóteses, o Dr. José podia estar enganan-
do Maria, fingindo que tudo estava bem, para, posteriormente, tomar
outras medidas necessárias junto a outros médicos ou familiares dela
devido a gravidade do caso.

Se alguém em quem você confia quer que você acredite em algo, há,
frequentemente, boas razões para que você acredite no falado. Essa
situação acontece nas relações usuais que temos com nossos pais e
educadores. Estes nos informaram, em épocas passadas, uma série de
dados e interpretações acerca das relações entre pessoas, da nossa
família, da constituição e formação do mundo etc., todas bem intencio-
nadas. Mais tarde, lamentavelmente, percebemos que muitas infor-
mações eram falsas. Nossos educadores e pais nos informaram tudo
isso com a boa e santa intenção de nos ajudar; de não nos fazer sofrer
diante da realidade dura e crua. Além disso, eles foram competentes
para pôr em prática suas intenções; nos informar erroneamente acerca
do mundo e das pessoas.
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Quando uma pessoa tem uma intenção fundamental, espera-se que
ela se esforce para que outras crenças ligadas à principal sejam aceitas
para que a intenção principal seja realizada. Uma condição necessária
para que ocorra isso é a de que o receptor, ou alvo da intenção, acredi-
te que a informação que o comunicador quer transmitir é importante
e, também, que é verdadeira. Em outros termos, todo ato de comuni-
cação e, em particular, toda afirmação, contém uma presunção de sua
própria relevância, do contrário ela não seria emitida.

Se o ouvinte postular que o falante é bem intencionado e competen-


te, como fez Maria Ingênua e, portanto, que a afirmação dele é impor-
tante e verdadeira para ela, nesse caso, fica simples e fácil decifrar a
mensagem. Isso acontece mais nas relações entre pais e filhos, menos
um pouco entre os cônjuges e amigos, e menos ainda em outros en-
contros.

Mas na terceira estratégia, a da Maria Sofisticada, a interpretação


fica extremamente mais complicada. Nesse caso, não se supõe que o
falante seja bem intencionado, também não se acredita piamente na
sua competência: todas essas características são examinadas através
de outros dados da experiência e do conhecimento geral do ouvinte
fora do contexto enfrentado no momento. Neste modelo admite-se ou
acredita-se somente que o Dr. José procura formar uma intenção no
ouvinte de que é bem intencionado e competente.

A Maria Sofisticada, como nas outras estratégias interpretativas,


deve seguir o caminho de menor esforço, mas não se deter na primeira
interpretação tida como importante que vem à sua mente – na primei-
ra idéia acomodada ao ninho – nem na primeira interpretação que o
falante pode ter pensado que fosse importante o suficiente para ele.

Quando se considera a ironia, bem como outras interpretações de


notícias e outros conteúdos que comentam o afirmado, isto é, infor-
mam além das informações fornecidas literalmente pela fala ou escrita,

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torna-se evidente que os comunicadores usam muito suas interpreta-
ções particulares acerca das informações primárias, e muitos interpre-
tam, por sua vez, as interpretações existentes, e assim por diante, tor-
nando o informado cada vez mais complexo e difícil de ser entendido
e exposto em nossa mente, ao mesmo tempo. Isso não implica que os
comunicadores, durante esse tipo de informação estejam conscientes
da complexidade de seus raciocínios. O que está implícito é que cada
uma dessas representações mentais assenta-se em diferentes cama-
das, uma em cima da outra; sendo que cada uma das camadas terá que
ter um papel diferente na compreensão do ouvinte ou leitor. Por isso
elas são difíceis.

Boa parte da comunicação cotidiana se efetua entre pessoas que são


bem intencionadas umas em relação às outras; elas se conhecem bem
reciprocamente. Em tais circunstâncias, a técnica da Maria Cautelosa
– mesmo da Maria Ingênua – pode servir como estratégia de interpre-
tação “usual”; não havendo necessidades de utilizar níveis mais altos e
complicados como as envolvidas nas compreensões sofisticadas. Mas
quando a estratégia ingênua ou cautelosa fracassa, seria interessante
usar as estratégias sofisticadas para realizar deduções complexas.

O Dr. José transmitiu à Maria uma informação que pode, como vi-
mos, ser interpretada de diversos modos, indo do mais simples, acei-
tando as intenções dele e sua alta competência; que foi bem codificada
na frase “Você não tem nada” sem outras intenções ou objetivos. Pode
também ser examinada sob a ótica mais complicadas como a das duas
Marias; Cautelosa e Sofisticada, que colocaram em dúvida suas inten-
ções explicitadas ou sua competência. Essas Marias utilizaram diversos
comentários ou análises das informações exibidas pelo Dr. José: o que
ele disse, gestos, histórias particulares delas e outros conhecimentos
adquiridos. Diversos outros exemplos nos levam a imaginar o uso de
técnicas semelhantes para examinar informações usadas frequente-
mente por todos nós: “Vamos dar um tempo”; “Para mim está tudo
acabado”; “E agora José…”

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Nosso Povo

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Entardecer de uma estrela:
“BIG BROTHER”
Se ligo uma TV e vejo um jogo de futebol, uma corrida de carro ou de
maratonistas, eu chamo esses eventos de esporte; se assisto uma no-
vela, um filme, leio um romance ou uma poesia, observo uma pintura
ou ouço uma canção, chamo isso de arte. Essas atividades são fáceis
de categorizar. Do mesmo modo, se estudo num livro de Biologia ou de
Física, sei que eles descrevem ciências diferentes; ao ler a Bíblia, o Tal-
mude ou o Alcorão, sei que estou recebendo ensinamentos religiosos.
Cada uma dessas atividades ensina, emociona e, muitas vezes, promo-
ve o desenvolvimento e crescimento do ser humano.

Por outro lado, se ligo a TV e vejo um amontoado de jovens bonitos


e atléticos, totalmente “perdidos na noite”, torna-se difícil encontrar
algum conceito conhecido e, principalmente, elegante para categorizar
os acontecimentos observados. Os telespectadores diante da tela, ao
assistirem o programa “Big Brother” ficam perdidos, como os “atores”
se encontram.

Aquilo não é arte, não é esporte, não é religião e muito menos,


ciência. Seria diversão pura e simples, com informação zero? Talvez
não seja nada…um nada que não constrói, que não contribui para o
desenvolvimento humano, que talvez só sirva para alimentar a bobice:
uma bobice altamente desenvolvida, que alcançou seu limite máximo,
possível e suportável.

As imagens mostradas naquele jardim zoológico chique, os rosnados


ouvidos – não há diálogos próprios do homem civilizado – nos incita
à regressão, isto é, a um retorno aos animais que nos habitam, que
dominaram o homem primitivo, que nascemos com eles, mas que a
educação e a cultura de alguns, não de todos, domesticou. Observan-
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do-os, enxergamos condutas que lutamos para ficar livres delas, pois,
somente assim, conseguimos construir uma sociedade dita civilizada.

Estranhamente, o “nada” exibido pela TV atraiu uma multidão de


pessoas, assim como riscos e rabiscos coloridos e em movimentos na
tela das televisões atraem as crianças recém-nascidas, ou seja, pos-
suidoras, até aquele instante, somente do cérebro biológico primitivo.
Como é triste ver seres humanos atraídos por rabiscos ou por um lixo
desses. Seria diversão ou regressão?

Todas as grandes religiões nasceram no Oriente (Cristã, Budista,


Islâmica etc.); todas as grandes Ideologias nasceram no Ocidente (Co-
munismo, Democracia, Nacionalismo etc.). Nós participamos de uma
civilização Latino-Americana, diferente das orientais e ocidentais; mas,
por outro lado, sofremos pressões da religiosidade e ideologia de am-
bas. Entretanto, segundo alguns pensadores, ainda temos condições de
nos libertar dos dois domínios e construir uma civilização Latina, mais
nossa, menos controlada, na qual nossos valores e identidades possam
emergir. Mas, para que isso aconteça, torna-se necessário jogar longe a
manta que nos encobriu e que não é e nunca foi nossa.

Gustave Flauber, no seu livro “Madame Bovary”, descreveu seus


personagens como idiotas: Ema Bovary; seu marido médico; o farma-
cêutico; o amante e fazendeiro de botas brilhantes etc. Nós, agora,
possivelmente, seríamos também descritos por Flauber como perso-
nagens idiotas no cenário global, ao gastar nosso tempo assistindo as
bobagens plagiadas e importadas de países europeus e americanos.

Há anos atrás, o filme “Eles Matam Cavalos, Não Matam? de Horace


McCoy que serviu de roteiro de “A Noite dos Desesperados” de Sydney
Pollack , mostrou-nos o esforço de uma mulher para vencer uma mara-
tona de dança e ganhar uns trocados durante a depressão dos anos 30
nos USA. Ela dança até a exaustão. Aqui a exposição pública vale 500
mil reais. E os cavalos como ficam? Eles são sacrificados quando não

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têm mais chances de sobrevivência, não são? Penso que já foram!

O “Big Brother” começou mal; a apresentadora, ao conversar com os


candidatos ao prêmio disse:

— Gente, os pares já estão se formando.

Isto foi falado cinco minutos após o início da atração.

— Será que alguém vai dormir juntinho essa noite? insinuou Marisa
imitando a cara de idiota da personagem Magda de “Sai de Baixo”.

Entre os participantes, Kleber mal chegou e foi dizendo:

— Gosto de menina malhada. Por isso, se tiver que traçar alguém,


que seja a Xaiane.

Parece que, com o tempo, ele não se mostrou tão fanático quanto ao
sexo feminino, como afirmou inicialmente para o público.

Para piorar, houve uma procissão pelas ruas do Rio e esquema de


exibição, divulgação, promoção e venda montado pela Globo. TV aber-
ta e fechada, rádios, revistas, jornais e internet, para operar em con-
junto e faturar publicidade. A promoção valeu: o programa de estréia
aprisionou uma audiência média de 49% em São Paulo, projetando um
público de 56 milhões de pessoas em todo o Brasil, um terço da popu-
lação brasileira. Nada a declarar… Eu devo estar errado.

Os animais/personagens foram mostrados para um público que


implora o comando de “Novos Deuses”. Com a ausência transitória do
Deus primeiro, único e puro, vários candidatos tentam apoderar-se da
vaga, infiltrando-se nas religiões e, muitas vezes, dominando-as, usur-
pando o lugar e as idéias sagradas. O Deus maior e antigo está sendo
abandonado; as religiões nascidas do Oriente enfraqueceram e mor-

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rem dominadas ou destruídas pelas ideologias dos países ocidentais.

O show e o espetáculo contaminam todos; como vírus, atingem


agora as igrejas. A representação teatral intromete-se e imiscui-se em
tudo; artistas, padres, pastores e participantes do “Big Brother”, todos
desejam o sucesso, o prestígio e o lucro financeiro. O Deus antigo, de-
tentor dos princípios de justiça, foi derrotado; em seu lugar nasceram
deuses diversos ligados à ideologia-religiosa do lucro; os novos deuses
sonham o dinheiro fácil e a fama.

Tudo está sendo transformado em espetáculo: o sequestro, o estu-


pro, a fuga, o incêndio, a doença do prefeito, a morte do promotor e do
comissário da ONU, os bombardeios no Iraque, a declaração da mãe da
terrorista-bomba. Há uma reiterada busca das celebridades; o limite, as
pegadinhas do Gugu ou do Faustão; a mulher – no Ratinho – que mais
xinga e bate no amante ou o senhor e senador que melhor age como
idiota. Na platéia, gritando histericamente, todos invejam, babando, o
idiota que representa, ou é a própria bobice humana.

“Tá tudo dominado!” Assistimos e vibramos com a exibição do Lixo


Cultural (Faustões, Ratinhos, Gugus, Leões, Xuxas, Gimenez etc.), que
constroem e destroem, com incrível rapidez, todo candidato à celebri-
dade. São eles que, antes de desaparecerem, como fumaças carrega-
das de fuligem, irritaram nossos olhos e nosso cérebro.

A cultura é subjugada e derrotada pelo poder sem freio da diversão;


a vida se torna o desempenho de um papel desejado ou imaginado.
Estamos retrocedendo; em lugar de uma cultura “carnavalesca”, im-
portamos a “cultura do lixo” na qual tudo é embrutecido, vulgarizado
e banalizado, em que o espalhafatoso e imbecil é mais observado e
aplaudido do que o evento que, talvez, tivesse algum mérito.

O grupo dominante critica as relações na qual ainda restam laços


entre as pessoas envolvidas, ligações que nasceram de tradições e valo-

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res morais comuns aprendidas durante milhares de anos; tudo isso está
sendo jogado fora, abandonado, emporcalhado pelas sobras dos novos
deuses. A meta principal passou a ser o divertimento, a força mais
poderosa, insidiosa e perigosa existente; ela, aos poucos, segue o pro-
fundo e profético pensamento de Nietzsche: “Sempre que um homem
almeja persistente e longamente parecer outro, acaba tendo dificulda-
de de ser ele mesmo de novo”. O Brasil está seguindo a profecia.

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Os maiorais
Alguns sujeitos têm mais sorte que outros: são percebidos pela
população como possuidores de características muito “superiores” às
normais, por isso são chamados de “gênios”, “santos”, “heróis”, artistas
excepcionais, craques tipo Pelé ou Ronaldinho ou “grandes bandidos”
como o “Fernandinho” e o “Bandido da Luz Vermelha”. Esses indivíduos
não se transformaram apenas em bons médicos, excelentes atletas ou
artistas, eles se transformaram em mitos; chamo a atenção do leitor,
pois uma coisa é diferente da outra.

Alguns indivíduos abandonaram sua “humanidade”, isto é, as maze-


las e singularidades positivas e negativas próprias dos homens; sofre-
ram uma metamorfose, deixaram a pele humana e passaram a usar
vestimentas gloriosas dos maiorais; tornaram-se “heróis”, “santos” ou
“malfeitores” extraordinários.

Faço uma pergunta para mim mesmo: O que faz com que um deter-
minado indivíduo, aos poucos, deixe de ser homem e torna-se mito?
O que leva uma pessoa a receber uma categorização de tão alto ní-
vel? Não estou falando de uma habilidade comum como “ter um bom
ouvido”, uma “bela voz” ou uma boa memória. E muito mais: Por que o
processo de cristalização dessas honrarias ou acusações se deu em tor-
no daquele determinado indivíduo e não de outro qualquer? De modo
concreto: por que Santo Antônio tornou-se santo numa certa época e
não antes ou depois e, além disso, santo casamenteiro; S. Judas Tadeu
metamorfoseou-se em protetor das “causas perdidas”; Fernandinho
Beria-Mar, virou um perigosíssimo bandido?

Frustro o leitor. Não tenho respostas; tenho especulações. Talvez


certos indivíduos são possuidores de determinados aspectos físicos,
intelectuais ou morais que se adaptam melhor a uma história mítica
preexistente, bem conhecida, contada repetidamente. Um certo modo
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de ser, de olhar, andar, bem como as roupas usadas etc. facilitariam
uma melhor assimilação conforme o modelo de “Cinderela”, enquanto
outro se assemelha mais ao estereótipo de “demônio”.

Todos nós, muito cedo, ouvimos, emocionados, histórias míticas ou


lendas, contadas pelos nossos pais, avós, professoras, entre elas: Gata
Borralheira, Chapeuzinho Vermelho, Robin Hood, Gúliver. Por outro
lado, também os jornais, filmes e TVs nos informaram acerca de ban-
didos espetaculares e craques fora-de-série. Pode ocorrer que, mais
tarde, ao observamos certas condutas, determinamos e selecionamos
certos aspectos da pessoa e, após enfatizá-las, identificamos os atribu-
tos com as características armazenadas em nossa mente do mito: “Oh!
É a própria Gata Borralheira!”; “Esse é outro Pelé!”; “É outro bandido
da mala”. Com as pistas e as noções memorizadas da lenda aprendi-
da, associamos alguns fatos percebidos do indivíduo alvo. Os fatos
selecionados e enfatizados, muitas vezes, são características quase ou
nada significativas, seja no aspecto físico, seja na conduta do indivíduo
observado para que seja dado o rótulo final de gênio ou de santo. De
posse das idéias da lenda armazenadas em nossa memória, assimila-
mos o cidadão focalizado e passamos a classificá-lo disso ou daquilo.
Não sei se essa explicação tem algo de verdadeiro; mas é um palpite
meu nesse momento.

Mas vamos um pouco além dessa idéia; pois já penso ser ela sim-
ples demais; até um pouco boba. Talvez ganhe mais sua atenção com
as novas suposições que acabei de ter. Na maioria das vezes, o rótulo
colocado é percebido pelo “rotulador” como tal, ou seja, como rótulo.
Nesse caso, o “rotulador” reconhece claramente que o rotulado não é
o personagem do mito. Exemplificando: a pessoa sabe que o símbolo
por ele usado ao chamar determinada mulher de “Gata Borralheira”
não representa a realidade; pois ela é, de fato, a lavadeira Teresa.

Entretanto, algumas vezes ficamos confusos e podemos confundir as


idéias estocadas em nossa mente com respeito ao mito com a pes-

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soa identificada e, posteriormente, rotulada. Nesse caso, passamos
a acreditar que Teresa é a “Gata Borralheira” e não a lavadeira. Não
se assustem, isso não tão raro assim; é bastante comum; isso torna a
coisa complicada. Passamos a denominar e, logicamente, a enxergar
ou tratar a pessoa rotulada conforme o rótulo usado: gênio, herói,
santo, milagreiro etc. Assim, passamos a acreditar totalmente na nossa
categorização, no rótulo usado, deixando de lado o exame ou as obser-
vações possíveis de serem realizadas.

Vamos imaginar, como exemplo a afirmativa: “Minha mãe foi uma


santa”. Se repetimos isso diversas vezes, contamos para os outros e
para nós mesmos, aos poucos, para nós, ela se torna “santa”. Entretan-
to, ela jamais agiu conforme as determinações dos candidatos a santos,
mas passamos a acreditar nas nossas idéias, que eram inicialmente
meras suposições e, numa época, sabíamos que estávamos conjectu-
rando. Aos poucos, com segurança, sem dúvida, passamos a acreditar
na nossa idéia delirante; que nossa mãe, sem dúvida nenhuma, foi
mesmo uma santa; não a do pau oco. Nesse caso, falamos que houve
uma transformação do real para o ideal. Como afirmou o “gênio” Pas-
cal: ““Aja como se acreditasse; reze, ajoelhe-se e você acreditará, a fé
chegará por si””. Você poderá lembrar de outros rótulos: burro, bonito,
inteligente, esperto, molenga, educado.

Vamos a outro exemplo: por mais que a pessoa demonstre que ela é
gente como a gente, como ocorreu com Maria da Silva que tem diar-
réia, menstruações dolorosas, alimenta e defeca, age, muitas vezes,
burramente, como todos nós, passamos a imaginá-la como santa, gênia
ou uma perigosa bandida, isso não importa; ela passa a ser classificada
como muito diferente de nós. Num grau semelhante e muito frequen-
te, não sei bem se pequeno ou grande, a rotulação inadequada ocorre
quando amamos ou odiamos alguém. Embevecido, arrebatado pelo
desejo e paixões avassaladoras, Amadeu visualiza e categoriza sua
amada não como ela é de fato: com sua perna fina e as coxas grossas,
um ombro mais alto do que outro, a testa cheia de rugas. Ele a enxerga

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sim, conforme os mitos que possui acerca da beleza e elegância e, in-
conscientemente, como afirmou Pascal, passa a enquadrá-la: ““um cor-
po esbelto, uma testa lisa e sedosa, olhos brilhantes e sedutores e uma
sagacidade de espantar, um amor de mulher””. A “sabedoria” popular
tem um provérbio para resumir tudo isso de forma mais simples e mais
exata do que escrevi: “Quem ama o feio, bonito lhe parece”.

Portanto, algumas pessoas se transformam em mito para um indi-


víduo – como exemplifiquei acima – outros, para um grupo, país ou
para grande parte da população, como ocorreu com a Irmã Teresa de
Calcutá. Esta, como consta na sua história, viveu parte de sua vida
como uma santa, mas não toda a vida. Sei que é difícil ir contra esse
estereótipo para os seguidores do catolicismo; alguns leitores não gos-
taram, franziram a testa reprovando minhas especulações. Mas essa
afirmação encaixa-se no exemplo geral do que estou descrevendo: uma
transformação ou um estereótipo mítico de uma pessoa que viveu, até
uma época de sua vida, como todos nós.

Podemos dizer, de uma outra maneira, que a população absorveu


a pessoa indicada, que ela se encaixou no assimilador mítico preexis-
tente (mito do herói, do rei justo, do fora-da-lei, do nobre, do santo,
do sábio etc.) como pessoa mítica, isto é, possuidora de características
excepcionais anteriormente já descritas para outras figuras mitológicas.
Esse encaixe do indivíduo ao mito do herói, santo ou demônio, apare-
ceu muito cedo na imaginação dos homens.

Uma vez iniciada a construção do mito, ou seja, a transformação de


um homem normal num mítico-excepcional, esta edificação continua
através de sua vida. A partir do seu reconhecimento como homem
extraordinário, seus novos feitos ou condutas, geralmente semelhantes
às de todos nós, passam a ser vistas de forma deformada pelo novo
estereótipo existente. A conduta do ser mítico é observada e julgada
com os novos óculos usados, o novo prisma deformador da realidade,
de acordo com o rótulo recebido: santo, herói, malfeitor, um amor de

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mulher, super-honesto ou outro qualquer.

Nomeado herói, santo, craque, grande artista, os esforços são fei-


tos para que ex-candidato à figura mitológica, uma vez empossado no
cargo, se estabilize, ou seja, não retorne à sua normalidade anterior, a
de um homem medíocre como são os homens comuns como eu e você
leitor. Dessa forma, os fatos ocorridos anteriormente – antes da pessoa
ter se tornado uma “figura mítica”, a “santa” ou o “herói” – passam
a ser examinados de maneira deformada; procuramos dar aos fatos
comuns uma conotação “santificada”, “heróica”, para se adaptar ao
novo status atingido. Ele não é mais um homem qualquer, logo, não
mais pode ser examinado como tal, ele agora é Chico Xavier, um santo,
um homem extraordinário, boníssimo; não poderemos mais enxergar
nele as características humanas que todos possuímos, pois ele é um
ser diferente; só pode ser examinado, observado e avaliado conforme
o molde mítico existente na mente dos observadores; sentimos mal,
asco, se usarmos nosso assimilador mental normal para examinar Moi-
sés, Chico Xavier, Madre Tereza, Freud, nosso pai, mãe e, logicamente,
nossa amada namorada.

Temos a tendência de manter inalterável um determinado modelo


que temos das pessoas com as quais lidamos. Assim, por exemplo, se
gosto de uma pessoa, procuro atos seus que comprovem minha hi-
pótese, inclusive os fatos que aconteceram antes de conhecê-la, por
outro lado, não percebo, não aceito ou não acredito nos eventos que
negam as crenças existentes em minha mente; se odiar, uso o raciocí-
nio oposto.

Muitas vezes, após aceitarmos por muito tempo algum indivíduo


como super-homem (herói, bandido etc.) damos uma rasteira no seu
prestígio, destruímos sua santidade ou heroísmo, transformando-o
num homem normal. Isso tem ocorrido entre os grandes estadistas e
mesmo entre os santos, alguns foram destituídos do status que goza-
vam.

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O candidato a covarde ou herói, demônio ou santo, dando tudo
certo, não surgindo nenhum acidente de percurso, se transforma em
mito e passa a ser admirado como tal. Mas não devemos nos esquecer
do essencial: fomos nós, os “rotuladores”, que o construímos, para isso
usamos mais os símbolos de histórias míticas anteriores, e menos a
realidade observada.

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Amanhecer sem Futuro: Fortunato
e Felicidade vão às Compras
Fortunato e Felicidade, casados e sem filhos, ele gerente de super-
mercado, ela, caixa de banco, como seus amigos, jamais per­deram uma
liquidação como aquela marcada para acontecer no fim de semana.
Os devotos fiéis, adoradores de mercadorias desne­cessárias e descar-
táveis, encurvados, avidamente procuraram nos encartes dos jornais
se inteirar do local e horário da sensacional liquidação, onde seriam
vendidas as novas e as velhas bugigangas indispensáveis para habita-
rem nossas casas.

Às nove horas da noite de sábado, o casal saiu de casa e tomou o


ônibus em direção à loja onde ia ser realizada a grande liquidação.
Centenas – ou milhares de pessoas – companheiros de Fortunato e Fe-
licidade, submissos e obedientes, fazendo parte desse imenso exército
bem treinado de compradores fanáticos e compulsivos, esperavam,
preocupados, ocupar os primeiros lugares da fila, pois assim teriam
maiores chances de alcançar, antes dos outros, os ob­jetos disputados.

Depois da longa viagem de ônibus, o casal chegou à porta da loja


ainda fechada, onde se descortinava uma enorme fila. Os sortu­dos que
ocupavam os primeiros lugares sorriam satisfeitos perante os invejosos
concorrentes, um tanto desanimados com a diminui­ção das oportuni-
dades.

Dois a três minutos de atraso poderia ser fatal, tempo necessá­rio


para que as mais cobiçadas ofertas, num piscar de olhos, desapa­
recessem das prateleiras. A porta seria aberta às 6 horas da manhã de
domingo. A publicidade bela e colorida anunciou, por diversos dias, as
ofertas que seriam vendidas a “preços nunca vistos”.

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Na madrugada escura e fria, uma chuvinha miúda caía sem se im-
portar com a multidão solitária formada em torno do prédio. Tensos,
silenciosos, cada um por si, todos esperavam a sirene dar a partida: os
compradores imaginavam as fantásticas compras. De mãos dadas, do
lado de dentro da loja, vendedores rezavam pedin­do a Deus para que
tudo acabasse o mais rápido possível, pois a tempestade dos desespe-
rados estava perto de desabar a qualquer momento.

A hora ia se aproximando: 5:00 horas, 5:30 horas. Todos, a postos e


em pé, começam a se preparar para a ação. Às 5:45 horas, os concor-
rentes/compradores começam a tirar suas roupas, em se­guida entre-
gam suas vestimentas e pertences aos funcionários/po­liciais da empre-
sa ou aos parentes e amigos acompanhantes, pois, como foi anunciado,
todos fariam suas compras despidos. Os ami­gos, caso tivessem, toma-
riam conta das roupas e, posteriormente, serviriam de guardas para as
compras efetuadas.

5:48 horas. Centenas de compradores nus, debaixo da chuva, come-


çam a esquentar as pernas e as mãos na esperança de conse­guirem
agarrar mais objetos no menor tempo possível.

6:00 horas. Finalmente a hora chega: o relógio da matriz, hoje pouco


frequentada, bate demoradamente às 6 horas desse domin­go triste.
Toca a sirene estridente, carregada de energia potencial, que liberará,
em seguida, nos corpos ainda frios, uma imensa quan­tidade de energia
cinética e calórica.

É dada a partida! Começa a competição desenfreada: homens e


mulheres nus expõem, uns para os outros, suas marcas corporais até
então bem escondidas. Hoje tudo será exposto à visitação do grande
público: gorduras caídas, seios e bundas murchas, cicatri­zes, tatuagens,
manchas escuras, vermelhas e purulentas, espinhas, verrugas, rachas
e pintos murchos, tristes e desnecessários e sem fun­ção no momento,
pêlos escuros, lisos e eriçados, louros, pretos, pin­tados, descoloridos e

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brancos, em profusão. Tudo irreconhecível.

Como cavalos e éguas livres dos cabrestos, rinchando, ho­mens e


mulheres ofegantes movem-se em disparada em direção ao cocho
onde estão expostos os alimentos cobiçados. Mantendo os olhos fixos
e esbugalhados, as mãos duras e esticadas em dire­ção às prateleiras,
cada comprador saboreia, virtualmente, antes de agarrá-la, a mercado-
ria sedutora à mostra.

Na arena da imensa loja, aterrorizados e enfurecidos, imagi­nando


não conseguir alcançar a ração sonhada, animais aflitos dis­putam a car-
ne ainda possível de ser abocanhada. Trava-se uma luta feroz. Corpos
tensos e agitados correm velozmente de um lado a outro, avançam,
recuam, caem, trombam e esfregam-se uns contra os outros, deixando
um rastro de suas sobras. Um odor fétido e asfixiante se desprende
de suas peles cobertas de suor. De suas bo­cas semiabertas escorrem
salivas grossas e espumosas sem tempo de serem engolidas. De suas
bexigas, contraídas pelo desespero, pingam gotas de urina exalando
seu cheiro peculiar. De seus ânus relaxados pela incomensurável apre-
ensão, escorrem fezes semilí­quidas e nojentas.

Entretanto, lá dentro, naquele momento, nesse campo de luta pela


sobrevivência, sem asco e sem atração, bumbuns desco­nhecidos,
soltos, moles, que não seduzem e nem agridem, encos­tam-se e afas-
tam-se indiferentes, presos aos seus donos na busca pela sonhada e
sedutora tigela amarela, da espreguiçadeira para ver a vida rolar, ou da
garrafa térmica colorida agarrada pelo sor­tudo mais rápido.

Fortunato uiva ao segurar com suas mãos vigorosas um fer­ro em


bom estado. Felicidade berra hilariante diante da posse da panela, que
sobrou na prateleira quase vazia. Prendendo a relíquia junto ao corpo,
ela corre, triunfante, para mostrá-la ao marido. Um homem magro, de
peito escavado, avança sobre Felicidade e puxa a panela presa entre os
seios.

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Os dois rolam pelo chão lutando pela posse do troféu. For­tunato,
alertado pelos gemidos conhecidos, ao tentar salvar a pa­nela de Felici-
dade, abandona, por instantes, seu precioso ferro, correndo em auxílio
à mulher. Eufórico e agitado ao reconquistar a panela perdida, ele larga
Felicidade ferida no chão. O ferro de Fortunato, solto de suas mãos,
foi seguro rapidamente por uma mulher sardenta e magra, que foge
correndo com ele escondido entre as coxas gordas e brancas. Fortu-
nato avança como louco so­bre a mulher que abocanhara seu ferro,
derrubando-a e ferindo-a no nariz. Levanta-se abraçando o ferro em
uma das mãos e a panela na outra, segurando-os contra o peito nu.
Tenta, esquecendo que não está vestido, escondê-los das outras feras
predadoras que dese­jam apoderar-se do seu alimento. Felicidade con-
segue, após alguns segundos, levantar-se. De sua boca ferida escorre
um sangue ralo, misturado à saliva que é cuspida no chão imundo. Ela
olha com pe­sar para as prateleiras quase vazias. As mercadorias mági-
cas estão chegando ao fim.

Empurrados de todos os lados, alguns caem e uivam, não por te-


rem sido jogados ao chão, mas sim porque a queda atrasou em alguns
segundos a ida ao alvo sonhado. Pisoteados, blasfemando, Felicidade e
Fortunato olham desolados para o sonhado conjunto de pratos fundos
avermelhados quando esse é pego por um homem alto de ombros
largos, bem em frente dos olhos espantados do ca­sal, conjunto esse no
qual almoçariam junto à família no domingo de páscoa.

Fortunato soluça, seus olhos, encobertos pelos óculos verme­lhos


que pegara num cesto quase vazio, lacrimejam. Um inimigo en­furecido
abraça Fortunato por trás, dando-lhe uma “gravata”, numa tentativa de
apoderar-se do seu ferro. Jogado ao chão, e depois pi­soteado, Fortuna-
to vê seus óculos vermelhos se espatifarem, óculos que iriam substituir
sua visão do mundo no próximo verão.

O estoque chega ao fim. Termina a liquidação. Agora só resta entrar

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na fila para procurar os guardas que tomaram conta das rou­pas, dos
cartões de crédito e de cheques para fazer o pagamento.

As filas começam a se formar. Termina a festa com os uivos de alguns


que ainda rolam no chão agarrados a restos de papelões rasgados,
manchados de urina, fezes e sangue, mesas, cadeiras e peças quebra-
das, copos, xícaras, tigelas, rádios, fios de cabelos e cabeleiras pisotea-
das.

Entretanto, apesar de tudo, a multidão sai da loja esperanço­sa, ale-


gre e animada. Segundo os anúncios estampados com letras enormes
nas paredes, no próximo ano haverá outra liquidação, maior ainda do
que a agora terminada e, na entressafra, a massa atenta detectará e
consumirá rapidamente todo e qualquer novo produto lançado. Al-
guns, na fila, comentam eufóricos os novos medicamentos lançados,
imaginando usá-los logo, antes que desa­pareçam do mercado ao
mostrar sua ineficácia. Uma vez vestidos, cantarolando, segurando com
firmeza o ferro e a panela, Fortunato e Felicidade, unidos, caminham
felizes sob a chuva miúda, satisfei­tos pelo dever cumprido.

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Metamorfose
Final de férias. Começo de aulas. Naquela manhã, ao abrir os olhos,
percebi que meu corpo se transformara. Ao passar as mãos pelo meu
rosto, notei que este, bem como minhas pernas e braços, estavam dife-
rentes. Até meus órgãos sexuais não eram mais os que estava acostu-
mada a ver e tocar. Em pânico, sem rumo, a princípio procurei não mais
me examinar; tinha medo de descobrir coisas piores. Entretanto, a
curiosidade foi mais forte e, medrosamente, comecei a olhar e a pegar
nos novos tecidos que cobriam meu or­ganismo. Tragicamente, concluí
que meu corpo não era mais o da menina de treze anos que conhecia.

A cabeça pesava. Cambaleando fui até o banheiro, ainda não me


despertara completamente. Apesar do sofrimento que antevia, senti
uma atração pelo espelho. Era preciso examinar-me melhor, mais uma
vez. Quase desmaiando, abri a torneira da pia, apanhei uma porção de
água fria e molhei, demoradamente, meu rosto es­pantado. Desejava
ficar livre, o mais depressa possível, desse pesa­delo. Diante do lavabo,
ainda sem olhar para o espelho, eu pergun­tava-me: “Como seria vista
pelos outros?” Sempre de cabeça baixa, olhei fixamente para a água
que escorria devagar. Sabia que prote­lava, até onde podia, a revelação
final. Mas, o que fazer? Não sabia, minha mente jamais trabalhara com
um problema como esse.

Tentava não fixar meus olhos no velho e conhecido espelho. Ele, até
aquela data, sempre fora calmo e honesto. Ali quieto, de­pendurado
na parede, ele observava-me de longe, pronto, e talvez até desejando
revelar-me a verdade.

Era ele que todas as manhãs examinava-me minuciosamen­te com


seu olhar crítico, justo e severo, às vezes, bondoso. Ja­mais evitou dia-
logar comigo inventando desculpas, como, por exemplo, dizendo que
estava ocupado com outra pessoa, ou sem tempo para mim. Ele sem-
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pre estava à minha disposição, bastava aproximar-me dele.

Era desse espelho amigo que eu recebia os mais diversos pa­receres:


“Hoje você dormiu demais, não devia ter ficado até tarde vendo aquele
filme”, “Você está ótima”, “Que cara mais esquisita. Está com raiva?”
O espelho dava-me conselhos, alguns agradáveis, outros alarmantes:
“Está comendo demais, ficará gorda como uma elefanta.” Eu ficava
radiante quando ele, sorrindo, dizia-me: “Você hoje está linda! Este
penteado fica muito bem em você, conquista­rá todos os colegas.”
Mas ele dava-me outras mensagens, além das críticas e elogios, dava-
-me apoio. Algumas vezes ele ficava penali­zado com meu sofrimento:
“Estou com dó de você, mas nada posso fazer, é preciso acordar, pois já
está na hora de ir para a escola.”

Após rodeá-lo por alguns momentos, decidi examinar-me no espelho


pois, apesar do medo, eu confiava nele, ele era honesto. Queria acabar
com a dúvida, receber um diagnóstico final através daquela entrevista,
que acontecia todas as manhãs. Além disso, es­tava curiosa para ver sua
reação diante do meu corpo. Pensando assim, levantei minha cabeça
e olhei, corajosamente, para o espe­lho. Mas, logo em seguida, estava
arrependida do que havia feito. Vi, para minha tristeza, do outro lado
da parede, o que não queria ver: meu organismo transformado. Eu era
outra pessoa mesmo, não havia mais engano, não estava mais dormin-
do. O meu amigo espelho, mais sério do que de costume, apesar de
manter sua pru­dência e serenidade, ficou confuso. Deu-me a impres-
são de ter fica­do desapontado por não ter encontrado e dialogado com
a pessoa esperada. Logo após olhar-me, emudeceu. Também, não era
para menos, esperava conversar e emitir um parecer para uma pessoa,
não para aquela desconhecida. Engasgado, meu avaliador não con­
seguiu dar-me nem mesmo o seu habitual bom dia.

Irritada com esse comportamento, pisei duro no chão e saí dali zan-
gada. Antes, fechei a cara e fiz caretas, as mais feias que co­nhecia. Ele,
por sua vez, demonstrando ódio, devido aos meus mo­dos grosseiros,

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fez o mesmo: franziu o cenho, fez caretas tão feias como as que havia
feito e pisou duro no chão. Ele comportou-se de um modo que jamais
tinha presenciado. Por instantes, abandonan­do a costumeira neutrali-
dade, ele olhou-me com desdém. Dei-lhe as costas, dizendo palavrões.
Será que ele me estranhou?

O que vi no espelho, agindo como um jato de água fria, der­rubou-


me. Agora não mais podia negar a metamorfose: fui transfor­mada,
durante a noite, numa outra pessoa, um ser estranho para mim mes-
ma. Acordei com um corpo e um raciocínio diferente do que possuía.
Bem que eu andava desconfiada de certos fatos, de algumas conversas
que ouvira, de olhares que, infelizmente, ape­sar de ter suposto, não
decifrei, de enigmas e códigos escondidos. Como fui idiota!

Desajeitada no meu novo organismo, tentando entender a transfor-


mação e acostumar-me com ela, decidi, após vestir roupas empresta-
das às escondidas, pertencentes ao meu irmão, sair rapi­damente de
casa. Não queria que ninguém me visse daquele modo. Todos ainda
dormiam.

Sem rumo, caminhei em direção ao colégio, era lá o meu des­tino


todas as manhãs, portanto devia ser também o daquele maldi­to dia.
Andei devagar pelas ruas, atrasava minha chegada proposi­tadamente,
mas acabei lá. Diante da porta de entrada esperei um pouco, escondida
atrás de uma árvore. Só entrei no velho prédio, quando tocou a sineta.

Do mesmo modo que notava que meu corpo estava trans­formado,


percebia que também minha mente estava possuída por uma nova
compreensão, por novos fundamentos lógicos acerca do mundo e de
mim mesma. A nova mente produzia imagens es­quisitas, concluía de
modo não usual. Além disso, não planejava e organizava os pensamen-
tos de forma objetiva e produtiva, mas, ao contrário, as imagens apare-
ciam desorganizadas, umas eram liga­das às outras sem que existissem
elos ou razão para isso.

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Elas fundiam-se de um modo incompreensível. Entrei na es­cola usan-
do esses novos óculos, para observar, entender e inter­pretar as coisas,
as pessoas e os fatos.

A escola não era a mesma. Vi fisionomias coloridas, alvas e cinzentas,


todas tinham as faces congeladas, não havia contrações, nem gestos,
pareciam estátuas. Continuei minha marcha sonâmbula, como nuvens
levadas por ventos calmos. Eu penetrava, com leveza e delicadamente,
nos poros dos colegas enfileirados, um ao lado do outro. O que deseja-
va? Não sabia. Vi alguns rostos esculpidos em me­lancias, eles fitavam-
-me. Estariam debochando da minha imagem?

Memórias de ontem, de como era, invadiam minha mente, compa-


rava-me… não compreendia… tinha saudades. Perdida, solu­çava diante
desse mundo confuso. Continuei minha caminhada, no­vos grupos.
Num, os participantes olhavam-se, noutro eles emitiam sons que não
compreendia: “Seria uma outra língua?”, perguntava-me sem resposta.
Alguns comentavam experiências passadas, mas sem nada falar, outros
estavam nus, tinham uma face triste, alguns riam, por nada. Chamou-
-me a atenção uma moça alta e gorda, que olhava para cima, de boca
aberta, parecia que ia engolir alguma coisa. Ao seu lado, agarrado a ela
pela blusa, um rapaz seguia uma abelha perdida.

Automaticamente, andava sem sair do lugar, estava presa à meta-


morfose, não mais conseguia retornar ao passado. Minhas per­nas não
me obedeciam, minha mente não mais sabia dar ordens para o novo
corpo. Pensava em sumir, acabar com tudo aquilo, com o pesadelo.
De repente, minhas pernas moveram-se sem que eu desejasse e fui
levada em direção à sala de aula. Atravessei um comprido corredor
iluminado por lâmpadas amarelo-avermelhadas, presas na parte mais
alta do teto. O corredor estreito, rodeado de grades altas, pintadas de
cinza e roxo, não tinha fim. De cada lado, mais e mais alunos, cente-
nas, milhares deles. Em certos momentos, todos pareciam iguais, em

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outros, transformavam-se. Eles olhavam-me e examinavam-me. A face
de alguns era achatada, muitos não tinham olhos, mas, mesmo assim,
seguiam-me os passos.

Suando frio, com o coração apertado, fui lançada numa sala. Esta,
como tudo ali, também mudava de forma, tamanho e cor, à medida
que eu olhava. Num certo momento, surgiu do escuro uma cadeira
– parecia sorrir para mim – era a mesma onde assentei-me durante
o ano passado. Foi nela que gravei meu nome antigo, num cantinho,
bem escondido. Aos poucos, o nome, desenhado com tinta dourada,
foi aparecendo, letra por letra e tornou-se mais visí­vel no encosto da
cadeira.

Fiquei sem saber se devia ou não assentar-me nessa cadeira mar-


cada. Em dúvida, caminhei em direção a um canto escuro, no fundo
da sala, imaginando esconder-me. Esperei tensa o início, não sabia de
quê. Eu refletia: “Que pena hoje ser hoje, como foi bom ontem, quan-
do me conhecia melhor… tudo era mais fácil, eu sabia o que fazer. Ou
apenas achava que sabia?”

Escondida no canto observava os que entravam. Aos poucos a sala


ficou cheia. Examinava as fisionomias, todas indiferentes diante daque-
le ambiente que eu percebia anuviado e deformado. Comparava-me
com eles. Eu era uma caloura naquele mundo estra­nho. Assentei-me
com medo.

O professor, que entrara, retornou à secretaria, pois esquecera o


diário com os nomes dos alunos. Um alívio temporário. Pressentia que
daqui a pouco seria descoberta. Alguns alunos se levantaram após
a saída do professor: abraços, gargalhadas, saudações, brinca­deiras,
gritos, conversas na sala apertada. Três deles, sem que sou­besse o mo-
tivo, caminharam em minha direção. Novo desespero! E agora? Mas,
ao contrário do que imaginara, eles aproximaram-se e trataram-me
com toda naturalidade e amabilidade possível, como qualquer colega

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masculino. Por que não notaram? Afinal, quem eu era para eles, um
homem ou uma mulher? E para mim?

A sala de aula estava abafada e quente. Permaneci como se es­tivesse


amarrada à cadeira. Suava, estremecia diante de cada olhar, de cada
movimento. Tampei parte do meu rosto com as mãos, numa tentativa
tola de esconder minha nova identidade, esforçava-me para mostrar
supostos resíduos da menina que abandonara-me. Entretanto, critica-
va-me, pois sabia que os sinais identificadores da adolescente de treze
anos não mais existiam. Por sorte, os colegas não compararam meu
organismo atual com o antigo. Eles perce­biam somente o presente,
assim olharam-me como se tudo sempre tivesse sido desse modo. No
burburinho formado, aproximaram-se mais colegas, alguns deles ve-
lhos conhecidos. Estremeci! Agora irão perceber meus cabelos curtos,
meu buço que começava a apa­recer, minha voz, ora grossa, ora aguda
e irritante, minhas novas roupas e um modo masculino de falar, andar
e comportar-se.

— Que pena! Disse-me um dos colegas, olhando-me, enquan­to


procurava um lugar para assentar-se perto de mim. E continuou – são
poucos os rapazes… esse ano não teremos um bom time de futebol.
Sem saber o que falar e receosa da voz que sairia, fingi concordar:

— Hum, hum.

Eu nunca gostei de futebol, deve ser péssimo levar pontapés e


tombos. Que tolice. Desejava sumir dali, escapar daquela prisão o mais
depressa possível, abandonar este eu que apossou-se de mim, e retor-
nar ao mundo antigo, com suas regras e padrões que conhe­cia bem. O
eu anterior sabia agir, fazer ou não fazer o que devia, o que era certo e
o que era errado. Nesse organismo, aprisionada pelo ser estranho que
dominava-me, não mais sabia comportar-me. Assim, perguntava-me:
“Devia ou não olhar para minhas colegas como antes? Devia namorá-
-las? E diante dos meninos? Nova con­fusão: “O que fazer? Como antes?

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Perdi a bússola original, estava perdida.

Fui treinada, e muito, para conquistar rapazes. Sabia com mi­núcias


todas as técnicas, os diversos truques capazes de transformar um
jovem esperto num bobo. Bastava um certo olhar, um sorriso especial,
o uso de um certo tom de voz… Agora, com tristeza, vejo que esses
ensinamentos não me servem. O que faço com o antigo modo de pen-
sar? Jogo-o fora? Terei que aprender tudo de novo? A todo instante era
forçada a enfrentar nova situação, para a qual não tinha conhecimento
ou treino. Que azar! Porcaria! Oh meu Deus todo poderoso, ajude-me a
encontrar uma saída!

Repentinamente, deparo-me com mais um problema terrível. Notei


que uma menina começou a observar-me, a princípio, discre­tamente.
Por sinal ela era dengosa e engraçadinha, de bom tama­nho, simpática.
Aos poucos descobri que ela queria conquistar-me. “E agora, o que
fazer?” perguntava-me. Que horror! Namorar uma mulher? Ela foi se
aproximando, mais e mais… fingia nada querer, como distraída. Come-
çou a conversa num tom de voz suave e meló­dico. Confesso que eu
estava envergonhada, pois sentia-me atraída pela sua maneira de falar.
Ela me cativava com seu jeito.

Confusa com a cena, intranquila, descobri que ela fazia uso, para
encenar e representar a conquista, dos mesmos gestos, da mes­ma
técnica que eu empregava em situações semelhantes. Por outro lado,
estava claro como água: ela procurava atrair-me. Perguntou-me, com
voz adocicada, onde morava, onde estudei antes… Era o papo introdu-
tório para poder ir mais longe: marcar um encontro, fazer um elogio e
tudo mais. Diante de suas intenções cristalinas, sufocada, sem saber o
que fazer, comecei a gaguejar, às vezes fingia não entender o que dizia,
tentava ganhar tempo. Ela, insistente, sabia o que queria… Olhava-me
com ternura, como sempre fiz. Foi se aproximando, segura de suas pre-
tensões. Eu não visualizava ne­nhuma saída, seria um escândalo o que
estava prestes a acontecer. Que vergonha!

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Alarmada, desejando interromper de qualquer forma aquele jogo
amoroso que se iniciara, imaginei, como último recurso, des­maiar, na
impossibilidade de matar-me, como desejava. A cada ins­tante ficava
mais sobressaltada. Suava frio e, para não cair, agarrei com firmeza os
braços da cadeira, coloquei meus pés no chão. Na­quele momento es-
tava hipnotizada pelo rosto que habitava aquele corpo, pelo olhar que
fitava-me naquela manhã sem igual.

Num certo momento, quando ela girou o rosto para olhar-me mais
de perto, quase encostando o dela no meu, sua face foi ilumi­nada por
um facho de luz, uma luminosidade ainda fria do sol da manhã que
entrara pela janela da sala. Fui tomada por uma terrível confusão,
assustada com o que deparei: vi, de maneira muito níti­da, o próprio
fantasma ou alma, isso eu não sei.

Acontece que ela, ao atravessar a luz do sol, mostrou com ni­tidez


seu rosto e seu próprio corpo que emergiram do escuro: sua pele era
branca e pálida, salpicada por pequenas sardas. As pistas afloraram
com exatidão, era um rosto, um olhar, um modo de agir que conhecia
muito bem, bem até demais… era o corpo e a manei­ra de ser que eu
havia perdido naquela manhã.

Apavorada, pedi, mais uma vez, a ajuda divina. Sentia ener­gias


desconhecidas e poderosas saindo de um e de outro corpo, trocas
de fluidos, encontros, misturas, construção de um só indi­víduo. Essa
garota calma, que caminhava em minha direção, mei­ga, serena, qua-
se angelical, que dispersava-se no ar e penetrava no meu organismo
transfigurado, era, nada mais nada menos, do que eu mesma antes da
metamorfose. Era minha imagem especular do dia anterior, talvez o
que restou de mim, da que conhecia. Ela era meu eu antigo. Apavora-
da, gritei, gritei o mais que pude, ali mes­mo na sala de aula, em busca
do socorro. Estava completamente transtornada…

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Acredito que mesmo desmaiada, não sei por quanto tempo, fiquei
gritando por ajuda. Quando abri os olhos, ainda gesticula­va. Diante de
mim, nervosos, estavam meus pais debruçados sobre meu leito, se-
gurando-me, espantados. Minha mãe, aproveitando uma breve inter-
rupção da respiração, quando procurei mais ar para dar um novo grito,
berrou nos meus ouvidos:

— Acorda, Sônia! Acorda! O que foi, minha filha? O que está aconte-
cendo?

Eu sonhara… Nunca imaginei que fosse tão difícil virar outra pessoa,
adquirir uma outra identidade, pior ainda, ser uma pessoa de outro
sexo. Como é difícil. Ainda bem que tudo terminou!

Era domingo. Não precisava levantar-me às seis horas da ma­nhã.


Além disso, as férias estavam apenas começando. Um lindo céu azul,
de um azul claro e acolhedor, invadia alegremente meu quarto de me-
nina, iluminando minha mente e desejando-me bom dia e boas férias.
Eu permanecia sendo a mesma. Como fiquei feliz! Corri ao espelho
para dar a ele a boa notícia. Ele e eu sorrimos ao mesmo tempo. Está-
vamos aliviados.

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Fanfarra para um Homem Comum
Na manhã daquele feriado vazio, ao ler as propagandas anun­ciando
a fantástica liquidação, os olhos do adorador de produtos brilharam
diante das belas e coloridas imagens. Agindo como mãos protetoras
e estimulantes, ícones potencialmente maravilhosos socor­reram o
desvalido consumidor, transportando-o para o porto amigo, seguro
e conhecido. Reanimado após desvencilhar-se do tédio das manhãs
sem trabalho, ele assimilou energias novas para suportar sua vida sem
importância.

A injeção mágica, aplicada à distância pelo executivo ou dono, intro-


duziu no organismo plástico e débil significados importantes. Animado,
realizadas as anotações necessárias, o consumidor telefo­nou para os
mais chegados, relatando as vantagens da liquidação, as ofertas imbatí-
veis e as compras planejadas. Tudo devia ser feito o mais rápido possí-
vel: eram apenas 500 calcinhas para milhares de compradores.

Nem só disso vive o consumidor aflito e bem treinado pelos Pa­vlovs,


Skinners e Watsons dos tempos modernos. Ele carrega consigo outros
interesses, tão importantes como as compras planejadas com entusias-
mo. Uma vez ou outra, sem tirar sua mente das propagandas, como
aperitivo, ele penetra com avidez e a fundo na vida íntima de alguns
de seus deuses preferidos. Devorando cada detalhe, fungando, tendo
os olhos bem abertos, ele esforça-se para encontrar, fora de si, um
modelo inspirador para sua desvalida vida. Detecta e memori­za, com
um imenso entusiasmo – que não tem para si mesmo – cada atributo
insignificante da vida do ídolo que possa lhe servir de guia. Ludibriado,
aplaude o poder e o exibicionismo distante de seus pro­prietários, do-
nos disfarçados de amigos. Ele sonha em participar de uma realidade
distante que jamais encontrará.

Condicionado de modo eficaz pelos adestradores, como cobaia


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mansa, domesticada e resignada, pateticamente come gato por le­bre,
imaginando poder se transformar no inacessível modelo jovem, bonito
e elegante, usando a loção para a barba anunciada, lavando o rosto
manchado de cimento e ferrugem com o sabonete cheiroso propaga-
do.

Treinado e educado para jamais criticar os poderosos, chefes, ídolos


e santos, e também sendo proibido de ter consciência do seu estado
desprezível, esse ser humano infeliz, possivelmente foi contido muito
cedo e reprimido por um pai ou uma mãe nervosa e mandona, que
instituiu um modelo de obediência total, sem questionamentos e sem
críticas. Essa potente marca, imprimida precocemente, dominou o
frágil cérebro do nosso amigo para o resto da vida.

Hoje seus pais estão muito longe, entretanto, seus rígidos prin­cípios
e os sinais indeléveis continuam ordenando com precisão ao filho
obediente o modo de agir frente a outros adultos com poderes supos-
tamente semelhantes aos possuídos pelos seus antigos proprie­tários.
Obedecer, obedecer sem saber o porquê, esta foi a regra fixa­da. Sub-
misso, sai à procura de chefes, políticos, colegas, namoradas, sogras,
ídolos do futebol, amantes ocasionais, companheiros da con­dução,
padres e pastores, vizinhos e colegas de trabalho, analistas e cartoman-
tes: qualquer um serve de inspiração para lhe dar conselhos acerca do
que fazer, em qualquer área, em qualquer ocasião. Quando escapa des-
sas ligações, sobrando-lhe algum tempinho, esse indivíduo diverte-se
no salão de dança, na festinha familiar, no “shopping”, no casamento
do sobrinho, conforme determina a lei do cidadão bem comportado e
ordeiro. “Coitado: ele não sabe o que faz”.

Bem domesticado pelo meio ambiente cultural, semelhante à “casa


dos pais”, controlado e gratificado por todos os lados na apren­dizagem
estímulo-resposta e pelos malabaristas dos símbolos – grita­rias, mu-
lheres e homens jovens e bonitos, frases e mais frases – ele permanece
iludido e puro, trabalhando muito e recebendo pouco, em troca de sor-

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risos e de frases enganadoras, com intenções, quase sempre, opostas
às expressadas.

A técnica maldita alastrou-se como gripe asiática: fez o cão sali­var


diante da sirene, confundindo-a com o bife de carne de primeira.

A prática perniciosa da venda da burla e ilusão ultrapassou as ino-


centes propagandas de calcinhas, cremes dentais e cerveja. A “pro­
paganda enganosa” invadiu abertamente boa parte da assistência
mé­dica e odontológica – tratamentos espetaculares e caros – alastrou-
-se como fogo na palha, alcançando as igrejas com suas pregações
acer­ca das salvações milagrosas, representações teatrais, obediência
total e dízimos. Germinou com rapidez, dominando praticamente toda
a propaganda política e o esporte. Vivemos no mundo da trapaça, vale
mais o que simula melhor ser o que não é. Estamos todos presos, cada
vez mais afastados do mundo real, talvez, definitivamente perdidos,
nessa atmosfera fantástica da propaganda, da venda de ilusões e do
virtual. Sem terreno firme para pisarmos, estamos sem “lenço e sem
documentos”, atolados no palavrório enganador.

Por falta de ensino e experiência, o azarado não aprendeu a distin-


guir os símbolos (sons e letras) do concreto (da linguiça), pois ainda
não se encontram à venda processadores mentais sofisticados, ven-
didos em 24 suaves prestações, capazes de traduzir os símbolos em
coisas e eventos concretos, transformar o mapa em território. Coi­tado:
satisfeito, continuará engolindo os sons e discursos dos outros, ou me-
lhor, seus dejetos, em lugar de vomitá-los, convencido de es­tar devo-
rando canjiquinha, costelinha de porco, feijão, batatas fritas, queijo e
couve mineira.

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A Fabricação do Homem
Fora-de-série
Nossa cultura tem poucas fórmulas para usar como receitas para fa-
bricar os nossos atuais super-homens: he­róis, santos e outros fora-de-
-série. A mente humana, es­gotada, interrompeu sua fábrica criativa de
novos padrões capazes de transformar um homem comum num mítico.
Sem outra alternativa, só nos resta aplicarmos o modelo antigo exis-
tente num ou noutro candidato a esse posto tão cobiçado. Para que os
candidatos possam se adequar aos modelos e símbolos pré-existentes
dos antigos mitos é pre­ciso que eles exibam modos de agir e de pensar
sugerindo figuras míticas conhecidas. Quais seriam as características
necessárias para que um indivíduo, até certa época igual a todos os ou-
tros homens, passe a ser percebido, observado e finalmente rotulado
de gênio, herói ou santo?

Sabemos que o fantástico sempre esteve presente na vida do can-


didato a mito. O incrível dominou a vida dos santos, do nascimento à
morte, seu azar e ao mesmo tem­po sua capacidade imensa de suportar
provações terríveis sem abandonar seus objetivos. Ouvimos inúmeras
histó­rias acerca dos cavaleiros que realizaram façanhas sobre-humanas
na política, religião, esporte, proezas jamais rea­lizadas por nós, pobres
mortais de segunda classe.

Um outro fator necessário à fabricação do mito tem sido seu nasci-


mento e sua morte diferentes da dos outros homens.

Histórias incríveis têm sido contadas para descrever o nascimento


da figura mítica, enquanto outros relatos asso­ciam a morte do mito às
grandes catástrofes.

Uma associação da morte do herói com as desgraças sociais leva a


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população a imaginar uma ligação de causa­lidade entre os dois fatos.
Na mente de seus adoradores, a morte do herói passa a ser “causa”
dos sofrimentos do povo, gerando o raciocínio de que, caso ele estives-
se vivo, os acontecimentos tomariam um rumo diferente. “A partir da
morte de minha amada não fui mais o mesmo homem”. Os heróis ou
santos não morrem como nós. As histórias nos mostram que a maio-
ria dos super-homens teve morte trágica. Não fica bem para um ser
excepcional ter uma morte devida a um nó nas tripas ou um engasgo
com um naco de carne. A morte desastrosa sempre estimulou a mente
popular, para lembrar e venerar mais e mais seu herói predileto por
algum tempo. Os mais velhos recordam alguns de nossos mitos e suas
mortes: João Pessoa, Getú­lio Vargas, Juscelino Kubitschek e outros.

O processo de cristalização de personagens míticas não se restringe a


governantes. Como exemplo de mitos não-governantes podemos citar:
Padre Eustáquio e Ayr­ton Senna. Mas, além desses heróis, o molde
mítico pode adaptar-se também a outros tipos, os chamados heróis-
-marginais ou vilões populares: Robin Hood, Escadinha, Mariel Maris-
cot, Fernandinho Beira-Mar, Lúcio Flávio, Hus­sein, Bush e outros.

A sabedoria também é um fator importante na feitura do mito. Não


se pode conceber um santo ou um herói burro. Um Ulisses da Odisséia,
ou o Guimarães, Einstein, Churchill ou Lenine, foram considerados,
todos, muito inteligentes. Incorporado à sabedoria, o homem-mito ne-
cessita ser sa­gaz e esperto, além de possuir a bravura e audácia, como
tem sido descrita pelos admiradores de Hitler e Stalin.

Precisa ainda ter uma força extraordinária, como Hér­cules, Atlas, e


também, se possível, poderes imensos que possibilitam ligações com
outros deuses excepcionais, ou mesmo sobrenaturais: Lao-Tsé, Buda,
Confúcio e Maomé, entre outros.

Alguns homens que foram transformados em mitos assimilaram, ao


mesmo tempo, diversos estereótipos míti­cos, eles se encaixaram entre

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os “plurimitos” ou “supermi­tos”. Esses felizardos, inicialmente, tiveram
um nascimen­to fantástico, depois, uma sabedoria superior ao homem
comum, além disso, possuíam a esperteza dos fora-de-série e ligações
poderosas com forças do bem ou do mal. Tinham ainda, para esnobar,
uma força física extraordi­nária e feitos impossíveis para os normais.
Um exemplo desse supermito é o de Ulisses, o da Odisséia de Home-
ro, retratado há mais de 2.000 anos. Este mito encarna as pe­ripécias
sensacionais de um herói capaz de causar inveja a qualquer candidato
a aprendiz de semideus ou de deus.

Lamentavelmente, muitos supermitos e mitos, da mesma forma


que se tornaram homens percebidos como superiores, rapidamente
se transformaram em antimitos. O povo, ora elege um homem a santo
ou guerreiro, ora o destrói, tão rapidamente como o construiu. O mito
anterior torna-se um covarde, demônio ou idiota. A história nos mos-
tra como a ascensão de diversos ídolos mundiais teve uma duração
efêmera: Hitler, Stalin, Mussolini, Getúlio Vargas e Collor são alguns
exemplos. Muitos – nem todos – anos depois de atingirem o status de
mitos, passaram a ter dores de barriga, câncer, doença de Alzheimer,
adoeceram e morreram, confusos, esqueléticos, fracos e submissos,
como possivelmente acontecerá a todos nós.

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Um Lugar ao Sol
O nascimento, o crescimento e a divulgação de al­guns novos termos
que são lançados no mercado da fala diária, muitas vezes se espalham
ao sabor do vento: “Com certeza”, “Virgem Maria”, “Bumbum”, “Aí”,
“Nossa!”, “Na verdade”, “De repente”, “Quer dizer”, “Né”, são apenas
al­guns exemplos. Uma grande parte dessas expressões de­notam excla-
mações, emoções, outras são apenas ruídos inofensivos sem utilidade
informativa.

Do mesmo modo, de tempos em tempos todos nós anotamos em


nossa memória, no computador ou agen­das, novos nomes e endereços
de um e outro indivíduo que, temporariamente, foi batizado como “ex-
celente me­cânico”, “grande conquistador”, “canalha”, “ótimo médico”,
“craque”, “língua ferina”, “perigoso bandido”, “próspero fazendeiro”,
“comerciante esperto”, “linda mulher”. Essas classificações, geralmen-
te, têm uma vida curta.

Não se conhece bem o processo da produção de novas palavras, bem


como a “descoberta” de características ex­cepcionais de determinada
pessoa. Portanto, não sabemos como nasce, nem por que isso aconte-
ce e também a ma­neira como o sucesso ou desprestígio do indivíduo
se espa­lha nas mentes dos seus admiradores ou críticos ferinos.

Num caso ou noutro, o indivíduo se transforma num exemplar que


será elogiado ou criticado, uma amostra ou modelo que facilitará a
comparação de um indivíduo ao outro, seja semelhante, seja frontal-
mente oposto.

Cada um de nós defende e briga em defesa de nossos argumentos:


um afirma ser Edgard o melhor e mais ho­nesto mecânico já encontrado
e, ao mesmo tempo, critica­mos, emocionados, o profissional defendido
pelo amigo.
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Nota-se que certos estereótipos (rótulos, denomina­ções ou lugares-
-comuns fixos) encaixam-se bem em torno de um determinado indiví-
duo, mas não em outro e, mui­tas vezes, esse encaixe tem o apoio de
grupos maiores, de uma comunidade, ou até de um país ou de quase
toda a população mundial: “Madre Teresa de Calcutá foi uma santa”,
“Bush é um demônio!”. Soa estranho e mesmo in­tolerável para nossa
mente pensar ou imaginar o oposto: “Madre Teresa é um demônio”,
“Bush é um santo”. Estas últimas afirmações nos provocam um arrepio,
enquanto as primeiras fluem bem, são facilmente assimiladas, sem
causar o malestar anterior.

Conforme o ambiente sociocultural existente e vigo­rando numa


época, certos conceitos e modelos ficam mais fáceis de serem atribu-
ídos a alguém, classificando o indi­víduo de um certo modo e não de
outro. Essas suposições, muitas vezes palpites, podem permitir o de-
senvolvimento, crescimento e reprodução das atribuições das pessoas
ro­tuladas, ou seja, elas ficam encarceradas nos conceitos emitidos a
respeito delas, tudo dependendo do ninho social onde os conceitos
foram plantados ou lançados. Para que ocorra o crescimento de um
conceito, torna-se necessário que haja “fertilizantes’’ adequados, um
terreno propício, para o conceito “pegar” e “decolar”.

O lançamento, a instalação, a fixação e propagação de uma ideia


para classificar a conduta de determinada pessoa, boa ou má, às vezes
é lenta, outras, rápida.

O rótulo “João é muito inteligente”, uma vez acei­to torna-se para


seus usuários uma verdade insofismável, autoevidente e “acima de
qualquer suspeita”, jamais ima­ginada no seu oposto.

A partir da rotulação, os homens e as mulheres clas­sificados passam


a ser tratados pelos conhecidos, amigos ou inimigos, conforme o rótulo
recebido. Se o indivíduo é denominado “engraçado”, “palhaço”, “gran-

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de contador de anedotas” e mesmo “filho da mãe”, uma vez acreditan-
do na rotulação, aprisionado à categorização, ele irá se esforçar como
pode para desempenhar, no carnaval ou no velório, o personagem
designado pelo roteiro. Já assisti, muitas vezes, colegas de sala de aula
rotulados de “engraçados” representarem, de tempos em tempos,
conforme os fatos existentes, o papel exigido pela turma, inventando
sempre que possível uma “graça” qualquer, mesmo uma graça sem
graça, pois, do contrário frustrariam a plateia e poderiam perder o con-
ceito recebido, passando a ser um qualquer, um João Ninguém, como
os colegas não classificados de alguma coisa. Da mesma forma, se a
pessoa recebe a clas­sificação e os comentários necessários dos obser-
vadores de que é “bonita”, “elegante’, “inteligente”, “bom de cama”,
“burro”, etc., deverá desempenhar esse papel nas ocasi­ões esperadas,
não poderá ser “bom de cama” durante a discussão filosófica na qual
deveria representar o papel de “inteligente”.

Uma vez rotulado, forçado a agir como tal devido a pressões exter-
nas e internas, o antigo cidadão, Carlos ou Diva, desaparece. Assim vai
se formando o novo ator, o transformado no rótulo, passando a agir de
acordo com o novo conceito: “Aninha é bonita”, “Dirce é inteligente”,
“Pedro é um crápula”.

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Nosso Povo: Informações resumi-
das
Uma conversa, ou um texto escrito, será espontâneo se for conduzi-
do, não por planos hierárquicos cognitivos, mas orientado e composto
pelas emoções submersas que irão formar o conteúdo e os objetivos.
Por isso, certas pessoas são “interessantes”, outras, “chatas”; uma nos
provoca emoções agradáveis, a outra, tédio, nos “enchem” de idéias
conhecidas e repetidas.

Pesquisas confirmam que as palavras com valências afetivas, ex-


pressões faciais, fotos de pessoas, quando apresentadas num curto
espaço de tempo – mesmo subliminares – provocam emoções nos
sujeitos da experiência. Isso torna claro que o processamento afetivo
trabalha imediatamente após a apresentação do estímulo, ou seja,
antes do pensamento ser elaborado.

Ao contrário das emoções básicas, que são inatas, o raciocínio é


aprendido conforme a cultura em que vivemos. Ele é utilizado para
descrever ou compor os dados dispersos percebidos ou inventados,
originalmente isolados uns dos outros. Como o conhecimento através
da cognição é indireto, ao contrário das emoções que é direto, a cog-
nição dependerá da “leitura” realizada acerca da relação entre os fatos
– nem sempre adequada – pois se assenta no aprendizado e na lin-
guagem com as regras aprendidas.

Sempre a pessoa trabalha com duas metas básicas; estas podem ou


não estar em harmonia. Uma parte do eu deseja alcançar os objetivos
relacionados à manutenção de si (egoísta): alimentar, ser um bom pin-
tor ou escritor, casar, arrumar um emprego. A outra parte refere-se a li-
gações com pessoas (pró-sociais); agradar ou desagradar alguém. Tudo
indica que os dois objetivos trabalham juntos; busca-se, ao realizar
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uma atividade, mais ou menos implicitamente, fazer com que outras
pessoas fiquem sabendo e satisfeitas com a obra realizada; assim, as
duas metas se associam.

A nossa visão do mundo depende tanto do modo como o mundo é, e


como nós somos; o conhecimento do mundo depende da nossa ca-
pacidade para construir modelos dele: produto da seleção natural e da
cultura. Portanto, nosso conhecimento depende, em grande parte, da
nossa característica biológica e das coisas como elas são.

Nós só podemos perceber, descrever e pensar acerca de qualquer


coisa em termos de sua relação com algo já conhecido; sempre rela-
cionamos alguma coisa às outras. Quando perguntamos o que algo
significa, nós só podemos responder colocando o indagado num todo
no qual imaginamos existir uma inter-relação no sistema geral. Portan-
to, definimos o significado de algo conforme as coisas que podem ser
afirmadas acerca dele.

Nos nossos encontros com a realidade, principalmente nas relações


com pessoas, são despertadas inicialmente as emoções e, logo em
seguida, mas nem sempre, entram em ação as imagens, pensamentos,
raciocínios lógicos, aumentando a fonte de orientação para a conduta
imaginada ou a ser executada. As emoções, continuadamente, influen-
ciam o que estamos conhecendo ou pensando; num nível consciente
ou inconsciente. .

Parece que a procura por certas condutas, entre elas, as opiniões


emitidas durante conversas, a adesão a uma ideologia, a busca e par-
ticipação numa religião, o empenho em torcer por um time, tem a ver
com a necessidade de estar agindo conforme as idéias e valores de um
grupo significativo; “comungando” os ideais dos companheiros. Desse
modo, a pessoa se sente ligada ou religada, se incorporando num
grupo mais amplo do que seu organismo individual.

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Um organismo vivo trabalha fundamentalmente para sua manuten-
ção e reprodução; que nada mais é do que a manutenção da espécie a
que pertence. Para realizar essas duas tarefas – conservação do indi-
víduo e da espécie – as células dos seres vivos contêm informações
necessárias para executar esses dois objetivos básicos que dirigem a
conduta: a manutenção e a reprodução da vida.

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Início do universo - começo da vida

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O nascimento do Universo
O homem sempre procurou conhecer seu meio e a si próprio, bem
como transmitir esse conhecimento aos outros. Nas suas tentativas de
obter essa sabedoria, ele descobriu o homem entre os Messias, mas
também entre os bandidos, entre os fortes e sadios, mas ainda entre
os doentes e fracos. Mas, pensando bem, o homem continua sendo um
procurado e não um encontrado. Ele é, ao mesmo tempo, o anjo e o
demônio; o sábio e o imbecil; o racional e o irracional; o incrédulo e o
fanático; o verdadeiro e o falso; o honesto e o desonesto; o prudente
e o imprudente. Ele é tudo isso; sua conduta continua a nos espantar.
Desde o surgimento do ser humano até hoje, cerca de 70 a 100 bilhões
de homens participaram dessa jornada da qual nós fazemos parte, isto
é, das prováveis 200.000 gerações que se sucederam na Terra.

Podemos nos enxergar como seres desamparados, ligados por uma


cadeia genética a todos os seres vivos e, também, unidos a todo o
Universo físico-químico. Carregamos no corpo e no cérebro vestígios
doloridos da evolução; nossas mãos são ex-nadadeiras modificadas; os
pulmões resíduos de tecidos do animal que vivia no pântano; o fêmur,
endireitado à força; o pé, uma antiga pata que servia para trepar em
árvores. Mas tem mais: nosso corpo foi aos poucos invadido por mi-
croorganismos e hoje não podemos mais viver sem eles. Sabe-se que
diversas bactérias, que há muitos e muitos anos, possivelmente, parasi-
taram ou se hospedaram em nosso corpo primitivo, muito diferente do
atual, agora são imprescindíveis à sobrevivência do nosso organismo.
Em resumo: somos um boneco reconstruído com pedaços costurados
de antigos animais; algumas partes de animais não mais existentes.
Aparecimento do Universo

Sabemos que a vida nem sempre existiu, e mais, sabemos que a


organização do Universo nem sempre existiu. A matéria manifestou-se
de um caos primordial e, sem um nome melhor para dar, essa explosão
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foi chamada de “Big-Bang”. Dela, originou-se, pouco a pouco, tudo que
existe no Universo. A expansão continua, com uma velocidade 15%
mais rápida do que a iniciada há 15 bilhões de anos atrás. Os produtos
reconstruídos dessa explosão inicial são bilhões de corpos celestes:
estrelas, planetas, cometas, luas etc. incluindo aí, naturalmente, nossa
galáxia, contendo o planeta Terra.

Na Terra, por motivos aleatórios e ainda não esclarecidos, surgiram


os seres vivos. Estes foram construídos com alguns poucos elementos
do mundo físico, entretanto, estão organizados de maneira bastante
diferente das chamadas substâncias físicas. Tudo indica que os seres
vivos despontaram há cerca de 4 bilhões de anos, sendo os homens
os caçulas dessa sequência evolutiva. Segundo os estudos, após su-
cessivas transformações dos seres vivos, apareceram possivelmente
diversas espécies de homens diferentes há cerca de 4 milhões de anos,
segundo pesquisas recentes, há 6 milhões de anos.

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O BIG-BANG
O cosmo nasceu da explosão inicial, ou seja, do “Big-Bang”. A expan-
são física criou probabilidade no espaço no qual processos dissipativos
(com dispersão, espalhamento) podiam ocorrer. Isso deu origem tanto
às grandes estruturas como às estrelas, planetas e, também, aos pro-
cessos de auto-organização com a emergência e evolução da vida. Esta
atividade ocorre devido às forças da natureza que são, na maioria dos
casos, de atração; deve ser lembrado que as entidades isoladas têm
mais alto potencial de energia do que as ligadas entre si.

Uma forma mais simples para entender a formação ou a organização


da natureza, incluindo aqui os organismos vivos, é imaginá-la estru-
turada como a linguagem escrita. Esta última utiliza como elemento
fundamental para sua organização um alfabeto, ou seja, um conjunto
de letras adotadas por convenção. Nós empregamos o alfabeto latino
composto de vinte e seis letras se contarmos com o k, y e w. Para criar-
mos uma palavra agrupamos algumas letras numa ordem determinada
e previamente convencionada. Quantas “palavras” – aqui expressando
conjuntos possíveis de combinações de letras – diferentes podem ser
compostas com quatro letras? Cerca de quatrocentas mil; com sete,
mais de dez bilhões de arranjos.

O leitor sabe que poucos conjuntos formados pela reunião de letras


ao acaso são palavras de verdade, tendo significado linguístico ou, de
outro modo, constatando nos dicionários. A palavra formada pelas
letras na ordem aqui escrita: l; i; g; a, ou seja, “liga”, tem um significado
que leva-nos a imaginar objetos, coisas ou letras juntas ou reunidas.
Entretanto, nenhuma dessas letras isoladas contém, mesmo num nível
ínfimo, referência a qualquer idéia do tipo de união. A idéia de “unir”
ou “ligar” só nasce com as quatro letras juntas na ordem indicada aci-
ma. Se ligarmos as quatro letras de outros modos como agil, gali, iagl,
lgia etc. não iremos compreender nada do significado da palavra for-
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mada pela ordem mostrada em “liga”. Uma vez formadas as palavras,
pelo mesmo processo, ligando certas palavras a outras determinadas,
teremos relações entre as palavras, ou seja, as frases que são formadas
pela combinação de palavras; estas que são associações de letras.

A “água”, seguindo o raciocínio acima, é uma “palavra” composta de


“duas letras” – no sentido de elementos do meio ambiente – denomi-
nadas oxigênio e hidrogênio, na qual cada um dos seus componentes,
H e O, não tem as propriedades do conjunto de dois átomos de hidro-
gênio e um de oxigênio de uma maneira apropriada que produz suas
propriedades. Pois bem, o C (carbono) mais H (hidrogênio) formam
diversos compostos; uma combinação determinada de Ca (cálcio), H
(hidrogênio), O (oxigênio), Fe (ferro), Al (alumínio), Mg (magnésio) ,
cerca de aproximadamente cem deles, formam as pedras, formações
rochosas existentes. Estes átomos existem em todas as partes: no siste-
ma solar, nas estrelas da nossa Via Láctea e, também, nas galáxias mais
estranhas.

Finalmente, e mais tarde, nós também fomos formados pela com-


binação, de um certo modo, de alguns elementos que bailavam no
Universo desde sua formação à procura de um ou mais pares. O que
diferencia um agrupamento físico do não-físico são os elementos uti-
lizados no fabrico de um e de outro e, principalmente, a organização
peculiar existente em cada grupo; os puramente físico-químicos e os
chamados de orgânicos. De outro modo: é o arranjo de um certo modo
dos átomos que fornecerá as características próprias e diferentes de
cada espécie; as vivas e as não-vivas.

Os átomos, que antigamente eram tidos como indivisíveis – daí a


origem da palavra – demonstraram ser compostos de elétrons, prótons
e nêutrons. Essas três partículas desempenham um papel de “letras”
com relação aos átomos. O núcleo dos átomos é constituído de pró-
tons e nêutrons (conjuntamente denominados núcleons). O número de
prótons determina a natureza física do elemento. Se houver 6 prótons

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é carbono, se 26, ferro, se 92, urânio etc. A quantidade de nêutrons
não afeta a identidade química.

Nas últimas décadas foram descobertas no interior dos núcleons es-


truturas ainda menores, estas foram denominadas de quarks. O próton
é constituído de 2 quarks do tipo U (up) e um do tipo D (down). Para
um nêutron, tomam-se 2 d e 1 u. Conhecem-se quatro outras espécies
de quarks: s (strange), c (charmed), t (top) e b (bottom ou beauty). Em
resumo: os núcleons podem ser considerados como nossas palavras; os
quarks como as letras dessas palavras.

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A Explosão inicial: Agrupamento
das Letras
Todos os sistemas estão soldados por forças naturais: a força de gra-
vidade une os planetas, as estrelas e as galáxias; a força eletromagnéti-
ca une os átomos e as moléculas; a força nuclear forte une os núcleos
dos átomos; a força nuclear fraca não é responsável por qualquer
estrutura estável. O princípio da ligação é sempre o mesmo; agrupando
os elementos, a força transforma em energia uma parte de sua massa.

O Universo, no seu início – de quinze bilhões de anos atrás – situa-se


na base da escala. O calor extremo que predominava nessa época man-
tinha todas as partículas de matéria em estado de dissociação comple-
ta e permanente, ou, de outro modo, toda e qualquer associação era
imediatamente dissociada. Só havia letras, desorganizadas, desligadas,
soltas, bailando sozinhas; não havia possibilidade de formação de “pa-
lavras”; muito menos de “frases”.

Não havia o menor vestígio de organização, era o caos primordial.


O Universo continua em expansão e esta provocou o resfriamento. A
temperatura e a densidade diminuíram com o passar do tempo. Com o
resfriamento torna-se possível o aparecimento dos episódios associati-
vos: primeiras formações de “palavras” utilizando algumas “letras” que
trombaram entre si e se fixaram devido às forças naturais existentes.

Assim iniciaram-se as primeiras organizações da matéria, ou seja,


o nascimento dos elementos, das primeiras palavras. Pouco a pouco,
lentamente, foram aparecendo outros elementos naturais que caracte-
rizam os níveis de complexidade do Universo. No início, tais episódios
ocorreram ao mesmo tempo, em todos os lugares do Universo. Poste-
riormente, seu alcance passou a ser mais localizado.

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A partir do momento no qual a temperatura caiu abaixo de um
trilhão de graus – conforme estimativas – houve a possibilidade da
criação dos quarks se unirem, três a três, dando origem aos núcleons.
Quando a temperatura chegou a um bilhão de graus, uma fração dos
núcleos associou-se para gerar os primeiros núcleos de hélio; a primei-
ra “palavra” formada no Universo. Um milhão de anos após, surgiram
novas “palavras”; os primeiros átomos e as primeiras moléculas de
hidrogênio foram formados quando, graças à diminuição do calor, os
elétrons conseguiram se fixar e permanecer em órbita ao redor dos
prótons.

Uma centena de milhões de anos depois, aparecem as primeiras


galáxias, dando origem às estrelas do céu. Em seu centro incandescen-
te, as estrelas agrupam os núcleos em núcleos pesados (hélio, carbono,
silício, ferro). Com a morte das estrelas e lançados no espaço intereste-
lares, esses núcleos capturam elétrons e tornam-se átomos. Associan-
do-se entre si, os átomos formam moléculas e minúsculas estruturas
cristalinas: os grãos de poeira do espaço sideral. Sua aglutinação em
corpos sólidos extensos provoca a formação de asteróides e de plane-
tas; sobre alguns se depositam oceanos e atmosferas.

O nosso Sol apareceu quando a galáxia já tinha dez bilhões de anos e


as estrelas anteriores lançaram no espaço suas safras de núcleos pesa-
dos. A temperatura no centro do Sol é de dezesseis milhões de graus.
Já a temperatura do centro da Terra deve ser de dez mil graus, pois
esta, ao contrário da lua e dos asteróides, não acabou de liberar para o
espaço o calor acumulado no momento de sua formação. A superfície
do Sol é, como foi dito, muito mais quente do que a da Terra, sendo,
graças a essa diferença de temperatura, a esse desequilíbrio térmico,
que a energia solar é aproveitada na Terra.

É a partir dessa informação solar que a biosfera cria e mantém a


vida. A cada minuto a Terra recebe uma imensa quantidade de ener-
gia luminosa proveniente do Sol. Tal energia chega em forma de uma

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chuva de fótons amarelos que são absorvidos pelo solo. Essa energia,
convertida em calor, é depois remitida para o céu sob a forma de luz
infravermelha, sendo, portanto, poucos os fótons que são “predados”
ou capturados pela Terra, pois a maioria deles se perde no espaço.
Interações

Todos os sistemas agem ou exercem interação com o ambiente, com


o resto do Universo: os átomos absorvem e emitem luz; as moléculas
mudam de forma, associam-se e dissociam-se; as bactérias movem-
-se em direção às suas fontes de alimento. No interior dessas camadas
férteis, novas interações moleculares podem associar moléculas leves
ou gigantes em células vivas e em organismos vegetais ou animais.
Acredita-se que a vida celular surgiu na Terra há cerca de quatro bi-
lhões de anos, já a vida chamada de inteligente há não mais que alguns
milhões de anos.

A retirada de energia do sistema material, inevitavelmente, conduz


à destruição da ordem ou informação que ele mantinha; essa exige
esforço e trabalho, portanto, o uso de matéria. Assim é que a criação,
a construção, mudança ou adaptação de qualquer sistema – vivo ou
não-vivo, natural ou humano, individual ou social – só poderá ocorrer
através da destruição, queda, consumo ou demolição de outro sistema
ordenado. Assim, a energia necessária para a emergência e evolução
de vida na Terra – para a produção e manutenção da vida – deriva
da transformação ou destruição do Sol, bem como transformação da
rádio-atividade que ocorre no interior da Terra. (unindo e desunindo
quarks, átomos, moléculas etc., formando água, bactérias, vegetais,
animais etc., até chegar ao ser humano).

Da mesma forma, nós, homens, nossos parentes, outros animais e


vegetais, destruímos a organização ou ordem dos alimentos que nós
comemos ou do combustível queimado para alimentar nosso organis-
mo (hidrato de carbono, lípides, proteínas etc.) para nos mantermos
quentes, construirmos nosso corpo, em resumo, mantermos a integri-

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dade de nossa organização.

Do ponto de vista da termodinâmica, a Natureza aparece como uma


cadeia sem fim de transformação de energia originada no “Big-Bang”
, ou também, de acordo com outras teorias científicas, sistemas orde-
nados emergem para a conversão mais eficiente de energia liberada do
que seus predecessores.

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O aparecimento dos Seres Vivos
A Paleontologia, a Antropologia, a Paleantropologia e a Pré-história,
bem como outras ciências do homem, nos ensinam que a vida nasceu
da matéria e que todos os seres vivos que existem ou existiram perten-
cem a uma só árvore genealógica e que sua filiação chama-se evolução.
A vida surgiu da não-vida, pelo menos uma vez, em algum momento.
Os registros fósseis mostram que ela deve ter surgido há 4 bilhões de
anos. Mas, a partir desse momento, por mais de 3 bilhões de anos a
Terra foi habitada somente por organismos muitos simples, como os
seres unicelulares que se assemelham a bactérias e algas.

Ocorre uma transformação constante nas formas de vida existentes;


essas foram, aos poucos, tornando-se mais complexas. No início não
havia vegetais nem animais; esses últimos começaram a aparecer há 3
bilhões de anos após o aparecimento de seres unicelulares segundo a
ordem: Árqueo-bactérias e bactérias; aparecimento das Algas Azuis –
possibilitando a produção de oxigênio, transformando a cor cinzenta da
atmosfera para a azul atual, houve assim o aparecimento de diversas
espécies que utilizam oxigênio para viver até chegar nos mamíferos e,
finalmente, nos homens.

Aos poucos, uma antiga distinção entre a matéria inerte e a matéria


viva foi se desvanecendo. Sabe-se atualmente que tanto os sapos e ho-
mens, como as pedras e as montanhas, são formados por átomos iden-
tificáveis pelos físico-químicos. O que se estuda agora é como, em cada
organismo, vivo ou não, a matéria é composta e organizada de modo a
criar um determinado indivíduo. As moléculas biológicas, ou moléculas
gigantes, como as proteínas, agrupam, de um certo modo, milhões de
átomos (basicamente C, N, O e H), substâncias essas que existem no ar,
no solo, nas estrelas etc. Foi verificado que certos aminoácidos que dão
origem às proteínas podem ser facilmente formados quando a energia
elétrica passa através de uma simples mistura de gases. A absorção ou
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a emissão de radiação faz com que os sistemas mudem de um estado a
outro.

Uma vez formado, basicamente, o organismo trabalha para sua


manutenção e reprodução; que nada mais é do que a manutenção da
espécie a que pertence. Para realizar essas duas tarefas – conservação
do indivíduo e da espécie – as células dos seres vivos contêm informa-
ções necessárias para esses dois objetivos básicos e que dirigem toda a
conduta: a manutenção e a reprodução da vida. Pois bem, essas instru-
ções estão escritas através de um alfabeto composto de quatro letras:
A, C, G, T (adenina, citosina, guanina e timina). Cada letra é formada
por uma molécula de quinze átomos denominados nucleotídeos.

O alinhamento dessas quatro letras em uma ordem resulta nas “pa-


lavras”, que são os genes. Terminando o raciocínio: no núcleo de cada
célula viva existem várias dezenas de cromossomos (46 no homem),
onde cada um é formado por milhares de genes, ou seja, bilhões de
nucleotídeos, que, no total, englobam trilhões de quarks e de elétrons.
Existe uma sequência própria em cada indivíduo nessa construção.

As células vivas não passam de elementos químicos organizados de


uma certa combinação, uma maneira única de composição das subs-
tâncias. Por exemplo, entre os mamíferos há cerca de mais de duzentas
espécies de células diferentes que, agrupadas de certo modo, originam
as “palavras” cães, gatos, elefantes etc. Com o acréscimo de algumas
variedades suplementares, não muitas, englobamos todos os seres
vivos da Terra: unicelulares, plantas e animais.

Os seres vivos, para sobreviverem, dependem de suas trocas com o


meio ambiente. Através dessas trocas ocorrem transformações, evolu-
ções e emergências. No começo houve formas de estruturas e compor-
tamentos mais primitivos; esses modos rudimentares se desenvolve-
ram, se enriqueceram e se diversificaram. Entretanto, jamais largaram
ou, se quisermos, livraram-se totalmente de sua origem: o ser vivo é

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um ponto de troca; por seus orifícios, moléculas e fótons penetram
sob forma de alimento, de respiração, de calor etc. A vida é um estado
excitado da matéria e sabemos que um átomo excitado transmite sua
energia para outro organismo, células ou átomos.

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Organismo Humano: O que são Se-
res Vivos?
Os seres vivos são sistemas estruturados de uma certa forma. Tudo
o que ocorre em nós – ou em qualquer outro organismo vivo – aconte-
ce em função do aparecimento, em cada momento, de determinadas
mudanças nas estruturas. O que observamos – do lado de fora – que
está ocorrendo num organismo, como o ser humano, que tem sido
chamado popularmente de conduta, nada mais é do que as mudanças
verificadas nas estruturas internas. Deve ser lembrado e enfatizado que
mesmo quando há uma ação do meio externo sobre o meio interno do
organismo, o ocorrido – o produto final – nunca é determinado pelo
meio. Explicando melhor: uma barata – isto é, um organismo – por
mais treinada que seja, nunca aprenderá a ler ou a falar, pois seu meio
ou estrutura interna não a capacita a realizar tal proeza; o organismo
da barata, sendo diferente dos homens, não tem condições de alcançar
esse aprendizado próprio – não superior – dos seres humanos.

O que notamos sob forma de ações através dos nossos órgãos dos
sentidos e cognições, a conduta observável do homem ou da barata em
um contexto determinado é, digamos assim, a representação externa,
visível para o observador, o possível de ser percebido, das mudanças
estruturais que estão ocorrendo lá dentro, no organismo vivo. No caso
da auto-observação, o observador é o próprio agente das ações.

Os seres vivos são sistemas estruturais dinâmicos, que se constituem


e se delimitam como redes fechadas de produção de seus componen-
tes a partir de substâncias que retiram do meio, ingeridas, inspiradas,
absorvidas pela pele etc. De outro modo: os seres vivos são verdadei-
ras fábricas em constante funcionamento, encarregadas de produzirem
seus próprios componentes e, para isso, utilizam substâncias do meio
ambiente. Essas substâncias participam, transitoriamente, da continua-
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da renovação dos componentes do organismo impedindo a interrupção
da produção. Com a morte, a produção encerra-se; a fábrica se fecha,
os componentes – matérias-primas – que davam corpo àquele deter-
minado organismo, substâncias como o H, N, C, O, Ca, Fe, K e outros, se
separam daquelas ligações anteriormente existentes e passam a fazer
parte de outras organizações diferentes da antiga, contribuindo para a
formação de novas estruturas, isto é, as substâncias passam a ter outro
destino. Portanto, uma vez encerrada a existência de um organismo
vivo, seus componentes, dispersos, sem função naquele ex-corpo, pas-
sam a fazer parte do estoque de substâncias físico-químicas do meio
ambiente, podendo ser, a partir de então, reaproveitadas para a cons-
tituição de outros seres vivos, vegetais ou animais, ou para outra coisa
qualquer.

A fábrica viva, animal ou vegetal – bactéria, roseira, carrapato,


homem ou elefante – é uma continuada realização de si mesma,
através da produção incessante e renovada de seus componentes. Os
organismos-fábricas têm recebido os nomes de Sistemas Autopoiéticos
(do grego “autopoiesis” = autoprodução ou auto-renovação), Sistemas
Vivos, Sistemas Complexos e outros nomes.

Os sistemas autopoiéticos apresentam como característica mais


importante a sua capacidade de organização. Enquanto o sistema
autopoiético produz a si mesmo, o sistema alopoiético, seu oposto, é
construído pelo homem. Assim, o sistema alopoiético é resultado da
produção de algo diferente do produtor, como o computador, rádio
etc. Resumindo: existe uma espécie de organização – tipo máquina –
que é fabricada pelo homem, designada para nos servir e que produz
algo externo a ela mesma; por outro lado, existe uma segunda forma
de organização, a natural, onde se inclui o organismo vivo e, também,
os ecossistemas, como as sociedades, que se autoproduzem. As orga-
nizações naturais como o homem, a roseira, a sociedade, o mosquito,
foram criadas por elas mesmas, através da evolução e de mudanças
continuadas; elas se auto-reproduzem, sendo sua identidade insepará-

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vel de sua história.

O sistema autopoiético, ao contrário do sistema alopoiético, é autô-


nomo, ou seja, coordena e subordina todas as mudanças que ocorrem
nele visando a manter sua própria organização. A conservação de sua
organização representa a sua constante fundamental, seu processo
básico, isto é, preservar a si próprio, evitar sua morte. Quando a co-
ordenação para sustentar a organização fracassa por algum tempo,
ou seja, quando as disposições e funcionamento das partes passam
a trabalhar anormalmente, fora do padrão habitual, surge o que cha-
mamos de doença. E mais, quando a desorganização atinge um grau
elevado, ou seja, essa passa a ser muito intensa, “sem remédio”, ocorre
o que chamamos de morte do sistema individual. A morte, num senti-
do biológico, nada mais é do que a incapacidade do organismo, diante
de determinadas situações, pressões do meio interno e ou externo que
impedem o organismo de ser o que ele é. A autonomia de um organis-
mo tem sido definida através de termos como: “autodeterminação” ou
“autodecisão”. Esta é uma propriedade crucial existente em qualquer
sistema auto-organizado.

A meta máxima do organismo vivo é a automanutenção e a auto-


-renovação de si mesmo. Para que exista a conservação da organização,
o organismo assimila informações (alimentos, idéias, desorganizações)
produzidas no meio externo e interno devido às desordens resultantes
dessas trocas ou, de modo mais simples, em virtude do sistema estar
vivo.

Um sistema autopoiético perde sua identidade ao perder sua organi-


zação, a barata perde, ao ser esmagada por um sapato, sua organização
de barata – transforma-se, entre outras coisas, em restos alimentícios
para formigas, mosquitos e bactérias. Por outro lado, o sistema alopoi-
ético também se mantém como uma unidade apenas enquanto sua
organização não variar; uma cadeira só será cadeira enquanto a sua or-
ganização for a de uma cadeira; uma vez quebrada, poderá virar lenha,

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bengala e porrete. Nesse caso, ela perdeu sua identidade de “cadeira”.
A organização de um sistema são as relações entre os seus componen-
tes, os que lhe dão sua identidade de classe, como as cadeiras, uma
fábrica de pregos, os seres vivos. O modo particular pelo qual realiza-se
a organização de um sistema particular – classe de componentes e as
relações concretas que se dão entre eles – constitui sua estrutura.

Nós não instruímos um sistema, não especificamos o que vai acon-


tecer nele. De maneira semelhante, se você põe um toca-fitas para
tocar, você não o instrui, você o aciona, você ativa o que o toca-fitas é
capaz ou foi preparado para fazer; suas funções são as determinadas e
possibilitadas pela sua estrutura. Assim, não se pode imaginar certas
pessoas agirem de um certo modo quando sua estrutura o orienta para
outro. Certas transformações estruturais são acionadas pelas intera-
ções do organismo com o meio ambiente; outras, pela própria dinâ-
mica interna do sistema: agora, meu organismo está com sede; saio à
procura de água.

Mas dois sistemas totalmente iguais – duas baratas ou dois homens


– terão histórias diferentes de interações pessoais e de mudanças es-
truturais que foram iniciadas de forma diferentes quando o organismo
começou sua existência como uma célula; ela terá uma história de vida
singular.

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Nascimento do Bebê: Primeiros
contatos
Morre um ser aquático expulso da vida intra-uterina, nasce uma
criança desvalida, necessitando de extrema ajuda externa. O recém-
-nascido esforça-se para sobreviver na atmosfera terrestre desconhe-
cida: grita, agita-se, chora, contrai-se, esperneia irado, chuta, agarra,
solta, sofre, ainda não tem alegria. Tem fome, busca calor humano,
expele sobras desnecessárias; inicia, fora da proteção intra-uterina,
uma jornada mais estimulante e perigosa.

Estruturas neurais selecionadas pela evolução, juntamente com


órgãos, neuro-transmissores, hormônios, peptídeos, canais, células,
água, muita água, sais, condutores, eletricidade, energia, tudo impele
o recém-nascido para explorar o ambiente, informar-se acerca dele,
aproximar-se ou afastar-se de áreas do mundo onde foi arremessado.

É aceita a idéia de que o indivíduo entra no mundo equipado com


um conjunto rudimentar de estruturas genéticas e padrões neurais
inatos, juntamente com programas de processamento de informações
rudimentares que, por sua vez, começam a desenvolver a relação com
o meio ambiente, conforme um curso genético controlado. Este pro-
grama inicial permite ao recém-nascido lidar, de forma adaptada, com
estimulações fornecidas por grande parte das informações as quais ele
está exposto; assim ele consegue sobreviver.
Primeiras condutas: relação mãe/filho

Para agir é preciso que haja um motor interno impulsionando a


pessoa para explorar ou investigar o ambiente externo e interno; desse
modo, ela conhecerá e avaliará o que lhe proporcionará prazer ou
desprazer. A exploração do ambiente, caso provoque uma ansiedade
ligeira, agrada o organismo, entretanto, diante de grandes perigos, a
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ansiedade se torna desagradável e tende a provocar a fuga.

A criança é ativada internamente por necessidades básicas ou fi-


siológicas de seu organismo; fome, sede, contato e segurança, mas,
também, exploração e curiosidade acerca do meio, esperança de que
as ações dêem certo. Para isso, ela movimenta-se em direção às metas
possíveis de produzir alívio às necessidades produtoras de desarmonias
e sofrimentos.

Sabe-se que os recém-nascidos são atraídos, ainda muito cedo, por


novidades do meio ambiente, levando-os a “explorar” o ambiente em
busca de recompensas e, nessa busca, são ativadas suas “esperanças”
de encontrarem algo que lhes dará satisfação, alegria ou felicidade.
Durante suas explorações, elas encontrarão também situações que as
farão sofrer, nesse caso, seus organismos, automaticamente, produzem
vocalizações (gritos, choros etc.) sinalizando pedido de socorro.

Os sinais que a criança possui ao nascer são poucos para indicar seus
desejos: ela olha, pega, chora, movimenta-se, engole, rejeita, excreta
etc. Meses após nascer, por não possuir ainda a linguagem simbólica
usada pelos adultos, ela não saberá explicar o que sente ou o que de-
seja através de palavras. Seu sofrimento é informado ao cuidador atra-
vés da linguagem corporal, concreta e no presente, desajeitadamente
e em bloco. A mãe, para entendê-la, precisa decodificar as informações
usando seu assimilador mental sem-palavras que pode ser ótimo ou
não.

As crianças começam a mostrar o que elas são, como indivíduos


diferentes, logo após o nascimento. Certos recém-nascidos mostram-se
alertas e cheios de emoções e vigor, entrando facilmente em contato
com outras pessoas; outros, por sua vez, exibem mais calma e ordem,
são fechados, dão menos repostas emocionais aos pais. Alguns bebês
desistem facilmente quando não conseguem produzir a resposta espe-
rada em suas mães, outros se esforçam, tentam inúmeras vezes antes

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de desistir.

Nessa interação, de um lado temos o recém-nascido com suas ca-


racterísticas inatas, geradas por genes particulares e diferentes para
cada indivíduo; de outro lado, há o externo à criança, a maneira como
o mundo vai tratá-la ou estimulá-la, especificamente, como os seus
criadores – geralmente os pais – irão provocar e ou responder às infor-
mações dela.

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Recém nascido: Ligação inicial com
o Criador
Todas as mães, ou babás, sabem que o cuidado para com um recém-
-nascido nunca foi, nem será, fácil, simples ou previsível. Os problemas
surgidos são, em grande parte, estressantes, e mais, na maioria das
vezes, não-familiares, podendo ser decifrados e interpretados de diver-
sos modos, muitas vezes, contraditórios. Não é simples determinar ou
adivinhar o que o menino está desejando no momento do choro, ou
mesmo, se o que ele necessita poderá ser encontrado. Os sinais for-
necidos pela criança à mãe atenta precisam ser, primeiramente, regis-
trados na mente materna e depois interpretados, sendo que a seleção
e a avaliação dos dados importantes, que servirão de orientação, são
peculiares a cada um de nós. Isso dificultará a ação do responsável para
responder às informações rudimentares do bebê.

Uma ação inicial da criança após seu nascimento, bem como de


todos os mamíferos e aves, fundamental para que ela escape da mor-
te, é a de se ligar física e afetivamente a um outro animal da mesma
espécie e mais bem preparado. Esse protetor inicial é, na maioria das
vezes, a mãe do recém-nascido. Essa aproximação – o agarrar-se a um
adulto – é um processo instintivo, de origem biológica, fazendo parte
da conduta não-aprendida de diversos animais. Assistimos a essa cena
no recém-nascido humano, nas relações entre o bezerro e a vaca, o
cãozinho e a cadela e o pintinho e a galinha; mas não presenciamos
essa ligação entre os répteis e suas crias, pois esses não possuem esse
comportamento instintivo. O sistema de ligação afetiva, presente nos
mamíferos e aves, é um produto da evolução de sistemas motivacio-
nais/emocionais mais primitivos que não evoluíram nos animais cha-
mados de “inferiores”.

A aproximação mãe/filho, dito de outra forma, essa força interna


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agregadora, impele o bebê e sua mãe a buscar contato e satisfação
após o nascimento. Não devemos confundir a ligação inicial da mãe (ou
de outro criador disponível) e seu filho, que é biológica, com os “laços”
afetivos que aparecem posteriormente e que foram aprendidos; nesse
último caso, essas ligações fazem parte da história de vida de cada um.

Se o criador lê e interpreta acertadamente os sinais fornecidos pelo


recém-nascido, ou seja, responde funcionalmente aos pedido, exi-
gências ou súplicas dele, as ações produzidas pela criança serão re-
forçadas, isto é, elas tendem a se repetirem de forma semelhante. Se
a criança chorou por estar com frio e a mãe interpretou o sinal corre-
tamente, agasalhando-o, formam-se padrões funcionais de informa-
ções e interpretações conhecidos que se repetem em função de sua
eficiência. O oposto aconteceria como no caso da mãe agir de modo
inadequado: em lugar de agasalhar o bebê em resposta ao choro, esta
lhe dá a mamadeira. Nesse caso haverá uma tendência da criança em
diminuir a emissão das informações (choros, lamentos, expressões de
raiva etc.), pois elas não tiveram êxito, ou seja, não foram recompensa-
das corretamente pelo criador, isto é, não foram aliviadas.

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Formação de Modelos: Relação
mãe/filho
Os modelos ou as representações internas na mente do recém-nasci-
do começam a ser construídas durante os períodos iniciais da vida. Esta
afirmação tornou-se uma idéia chave manifestada nos estudos cogniti-
vos e neurobiológicos do desenvolvimento. Portanto, a construção dos
modos de “ver o mundo”, entre estes, os modelos positivos ou nega-
tivos com respeito às relações humanas e de si mesmo, começam a
ser estruturados logo após o nascimento, quando o cérebro da criança
começa a interagir com o ambiente, principalmente com o cérebro da
mãe.

As respostas dos pais a essa aproximação, quando eficientes, dão


origem à formação de um esquema ou modelo cognitivo na criança de
esperança e de prazer com respeito a futuras relações com pessoas.
Quando ocorre isso, o modelo inicial, uma vez ampliado, reforça o esta-
do emocional positivo da criança e atenua o negativo. A interação mãe/
filho ocorre primordialmente nos primeiros dias de vida, em função do
calor do contato, da alimentação, do odor e da estimulação táctil.

As experiências iniciais do bebê, provocadas durante suas relações


com os cuidadores, são assimiladas e tornam-se codificadas na me-
mória, dando origem à expectativa de possíveis contatos satisfatórios
com outras pessoas; o contrário é verdadeiro com respeito às ligações
deficientes e produtoras de sofrimento. Apesar da não existência ple-
namente desenvolvida da memória episódica – memória para situa-
ções concretas vividas – funciona, desde o nascimento, a memória de
procedimentos, também chamada de memória implícita, relacionada
ao aprendizado de ações motoras da criança, gestos, sorrisos, agarrar,
andar, ou seja, respostas inconscientes e automáticas provocados pelos
estímulos internos do organismo e do meio ambiente; uma memória
que está ligada a regiões e circuitos cerebrais relacionados às emoções.
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Essa memória inicial, exercendo um papel importante e básico na
criação dos modelos gerais do indivíduo, do meio físico e social, rela-
ciona-se também ao aprendizado inicial das ações morais, pois regula
as expectativas favoráveis, ou desfavoráveis, o que deve e o que não
deve ser feito no futuro e, também, a orientação para formar ou não
vínculos com uma ou outra pessoa. Agindo conforme essas regras,
aprendidas muito cedo, a pessoa, ao identificar-se com elas, irá sentir-
-se seguro, ao contrário, irá sentir-se estranho a si mesmo quando ado-
tar posturas que vão contra regras conhecidas. A criança, ao enfrentar
novas situações negativas parecidas com a antiga, irá manifestar diver-
sas emoções e condutas desagradáveis, semelhantes a exibida durante
a situação estressante primeira; sem decifrar o que o levou a sofrer tais
emoções e conduta, ou seja, sem se lembrar que, numa ocasião, teve
uma experiência ruim ou negativa daquele formato. Assim, as experi-
ências com o criador, positivas e negativas, formadas em decorrência
de boas ou más ligações, serão armazenadas na memória da criança e
utilizadas, posteriormente, na construção de todas as outras ligações.

Através desses contatos precoces serão esboçados os futuros mode-


los ou padrões orientadores para a formação de laços afetivos futuros
com outras pessoas encontradas, entre eles, o cônjuge e os compa-
nheiros. Conforme as diretrizes ordenadoras existentes na mente de
cada um, acentuamos ou atenuamos determinados estímulos percebi-
dos nas pessoas com as quais estamos em contato. Como subproduto
dessa relação construída – a primeira da vida da criança – novos es-
quemas serão formados, apoiados no primeiro modelo e, também, nos
sinais emitidos pelas pessoas encontradas. Estes esquemas, nascidos
muito cedo, servirão de bússolas para clarear e facilitar o modo como o
indivíduo deverá postar-se, cumprimentar, falar, afinal, agir nas rela-
ções interpessoais futuras.

Daí a extrema importância desse início de vida. Se o modelo inicial


do indivíduo for inadequado à realidade, e frequentemente é, as idéias
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construídas que se originaram dele, consequentemente, serão, como o
padrão, disfuncionais, conforme afirma o ditado: “pau que nasce torto
cresce torto”. Como resultado, não serão saudáveis as futuras ligações
afetivas do indivíduo possuidor do modelo defeituoso. Trabalhando
com uma representação imperfeita acerca das relações humanas, ela
não fornecerá ao seu possuidor o resultado por ele esperado: obtenção
de tranquilidade e prazer; poderá causar, ao contrário, sofrimento e
frustração.

Esse aprendizado, uma vez adquirido, passa a ser usado automáti-


ca e inconscientemente, ou seja, o seu possuidor não sabe ou não se
lembra de como ele foi adquirido. Pensando assim, a “amnésia infan-
til” é natural para o aprendido durante os dois a três primeiros anos
de vida; o contrário do que muitos crédulos afirmam. Portanto, muito
pouca ou nenhuma memória desse período da infância é acessível às
recordações na idade adulta, entretanto, a conduta é determinada, em
grande medida, por esse aprendizado não consciente. A não-lembrança
de como a pessoa aprendeu não ocorre devido à repressão de memó-
rias traumáticas na fase do “Complexo de Édipo” como, erroneamente,
afirmava a teoria psicanalítica, mas sim, devido ao desenvolvimento
demorado da memória declarativa ou episódica, que nessa idade ainda
não está desenvolvida plenamente. A memória declarativa ou episódi-
ca tem a ver com a memória de fatos concretos, singulares: a pessoa
lembra do que ocorreu com detalhes: do cheiro, cores, movimentos
etc., como ocorre com o primeiro sutiã, a primeira vez que dirigiu um
auto, um acidente etc.

Tudo indica que um inicial autoconceito negativo – uma baixa auto-


-estima – funcionará como um mecanismo central gerador de futuras
ligações defeituosas e estressantes. Assim vai sendo construído o ser
humano, preso aos primeiros modelos mentais formados; outros e
outros esquemas, padrões, ou ainda, representações acerca do mundo
externo e interno, vão sendo criados para serem usadas numa e outra
conduta.

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A Plantonista
Noite de sexta-feira; 22 de junho. Noite calma, calma demais para
aquela sexta-feira, com fogueiras e festas. Por sorte, o Hospital Psiquiá-
trico São Judas Tadeu estava sossegado. Nos fins de semana, o número
de internações crescia com aumento dos bêbados, drogados, esquizo-
frênicos e maníacos agitados.

Distante do hospital tranquilo, Clara, agitada, após ter vestido seu


short ultracurto, saiu com os amigos para os pontos de sempre. Em
cada local onde parou, fumou, bebeu e drogou-se como nas outras
vezes. No bar, assentada nas cadeiras cheirando a frituras, ela bebia e
discutia com os amigos dos fins de semana. Como suas palavras saiam
velozmente de sua boca pequena, uma boca que parecia nunca se
abrir, tornava-se difícil compreender o que Clara pronunciava. Entre-
tanto, o que era falado ou entendido tinha pouca importância, pois
os temas eram sempre os mesmos e conhecidos de todos: o custo de
vida, as paqueras, a praia melhor para viajar durante as férias e os luga-
res da cidade que tinham uma melhor cerveja.

Clara era jovem, solteira, talvez até bonita, aparentando ter trinta
anos. Ao terminar o curso superior, conseguiu um emprego razoável;
um trabalho que não gostava, a não ser quando recebia o salário que
sempre achava que era pouco. Seus cabelos loiros avermelhados,
grossos e cheios de pequenas tranças, combinavam com suas roupas
coloridas e extravagantes. Não tinha limites; geralmente falava mais
do que devia, fumava muito e, às vezes, bebia tanto que não mais se
lembrava do que havia feito.

A noite estava terminando e o cansaço se instalou entre os amigos


do bar. Clara, jovem e forte, sozinha, continuou suas andanças pelos
botecos. Ora num, ora noutro, os pileques continuavam. Já bem tarde,
quando a manhã se aproximava, ao sair cambaleando de um dos bares,
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ela foi despertada por sons animados dos tambores, chocalhos, tam-
borins e pandeiros. Estimulada e atraída, caminhou, automaticamente,
em direção aos sons produzidos por um grupo de rapazes que canta-
vam, sambavam e tocavam pelas ruas da cidade adormecida.

Clara, sonolenta, cansada das conversas e pileques, uma vez des-


pertada diante da magia e força dos sons, aproximou-se do grupo e,
facilmente, se enturmou. Sem inibições, entrou na dança bamboleante
e, imediatamente, foi aceita, com entusiasmo, pelos componentes do
grupo. Sendo a única mulher presente, os rapazes, após formarem um
círculo em torno de Clara, começaram a gritar e a bater palmas, diante
de cada balançar excitante e ritmado do seu bumbum. Cada requebro
de Clara provocava urros que eram ouvidos à distância.

Encantada pelos sons do batuque, encorajada por gritos e palmas,


ela sonhava: dançava, pulava e requebrava; cadenciada conforme os
sons poderosos provocados pelas batidas dos tambores e berros da
platéia excitada. A cada gingado dela, mais brados e mais liberdade de
ação. Tudo dominava a mente receptiva de Clara.

Num rebolado mais ousado e violento, seu “short” apertado rom-


peu-se de uma só vez, abrindo-se de cima a baixo no seu traseiro. O
entusiasmo dos presentes aumentou. A platéia foi crescendo; pessoas
que voltavam para casa e alguns moradores da vizinhança aproxima-
ram-se para presenciar o espetáculo inusitado. Clara, indiferente ao
acontecido, parece que se tornou, com o incidente, mais e mais anima-
da. Os uivos, à medida que ficavam mais fortes, gerava, da parte dela,
mais movimentos ritmados, na orgia que ali se instalara.

Não demorou muito para que Clara, para alegria de muitos e espanto
de poucos, tirasse de uma só vez, a blusa e restos do “short” rasgado,
passando a dançar, em plena praça, apenas de calcinha e sutiãs verme-
lhos. A animação aumentava, contagiando todos os assistentes daquela
festa inesperada; não era sempre que surgia ali um acontecimento

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como aquele.

Outros e outros espectadores paravam para ver o espetáculo: casais


que voltavam cansados para casa, homens que se dirigiam ao traba-
lho, andarilhos diversos. Moradores insones da vizinhança, diante do
barulho, largavam suas camas ou TVs e se debruçavam nas janelas para
desfrutarem da cena ousada, interessante, divertida e “ao vivo”. Alguns
poucos, desejosos de dormir, reclamaram do barulho e ameaçaram
chamar a polícia.

Clara, cada vez mais estimulada, dançando e cantando, alcançou o


clímax. Num piscar de olhos, como um furacão, tirou o resto de suas
minúsculas e últimas peças vermelhas. Exclamações de prazer e de
apoio dos assistentes foram ouvidas a centenas de metros; os tambo-
res rufavam estrondosamente com batidas superanimadas, enérgicas e
rápidas.

Mas, “o que é bom dura pouco”. Para tristeza da platéia alvoroçada,


de repente, a festa acabou. Chegaram os policiais. Clara, sem perceber,
continuava sua dança, mesmo sem os sons dos tambores, até que foi
paralisada pelos fortes braços de dois soldados. Através dos gritos de
um deles ela foi intimada a se vestir imediatamente. Os espectadores
pesarosos e frustrados, diante da interrupção brusca do prazer gozado
naquela noite fria de junho, exatamente quando imaginavam cenas
ainda mais ousadas e interessantes, se dispersaram tristonhos.

Clara mostrava-se agitada; embriagada, continuava a ter uma con-


duta e conversa estranha, pois, aos berros, exigia dos policiais seus
direitos de cidadã por não ser uma qualquer:

— Tenho uma profissão. Ouviu! Não sou uma merda não! Solte-me!

Colocada no camburão; cada vez mais seguros de que se tratava de


uma doente mental, os policiais decidiram levá-la para o hospital de

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loucos. Cinco horas da manhã, o camburão chega à porta do Hospital
São Judas Tadeu que, felizmente, continuava, naquela noite de sexta
feira, sem a ocorrência de nenhum caso complicado; todos os pacien-
tes estavam calmos sem exigir cuidados especiais, não houve brigas en-
tre os internos e, até aquele instante, nenhum louco tinha sido levado
às pressas pela polícia ou familiares para ser internado.

O militar sonolento chega ao hospital trazendo Clara segura pelas


suas mãos fortes. Ela sai do camburão esperneando e gritando:

— Solte-me, solte-me. Idiota! Desgraçado!

O soldado, calmo quanto à sua força, indiferente aos berros, toca a


campainha. Chega à porta Mateus, com seus cabelos desarrumados e
seu rosto inchado:

— O que foi?

— Vim trazer esta louca, esta bêbada e drogada…

— Entra…, aqui está escuro, deixe-me acender a outra lâmpada…

— Esta mulher aí; apontando para Clara: — Estava dançando nua na


rua…, continuou a falar o policial, — Quando a agarramos…: disse que
era uma profissional de valor e não uma qualquer. É uma louca! Nesse
instante o soldado deu uma sonora gargalhada.

— Meus Deus! É você Dra. Clara! Exclamou Mateus olhando espanta-


do para ela.

— Estou dizendo para esse imbecil, há muito tempo, quem sou eu…
ele não acreditou… Falei com ele que hoje era o dia do meu plantão
aqui no hospital. Ele não quis me ouvir! Tornou a repetir, irritada.

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— Mas você me telefonou dizendo que não podia tirar o plantão,
pois estava acamada, com TPM, com uma dor terrível devido a enxa-
queca.

— Tomei umas aspirinas; melhorei, saí para tomar uns ares.

O atendente levou a doutora para dentro do hospital, despediu-se


dos policiais, pedindo-lhes desculpas pelo ocorrido. Em seguida medi-
cou a médica com água doce e com um resto de café bem forte exis-
tente na garrafa térmica. Logo depois, a Dra. Clara vestiu um jaleco e
assumiu o plantão daquele fim de madrugada fria e calma de junho.

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Início do Universo – Começo da
Vida: Informações resumidas
Os sistemas cerebrais dos animais foram construídos aos poucos,
não pela experiência ganha por cada organismo particular durante uma
vida; foram mantidos durante a seleção natural em função do chamado
reforço embrionário, isto é, a expressão de condutas que ajudaram os
indivíduos, de uma mesma espécie, a sobreviverem. Entre as experiên-
cias mantidas pelo reforço embrionário estão os ataques ofensivos, as
fugas, os chamados ou vocalizações expressando sofrimento, a postura
ou sons indicando conquista ou poder, os jogos grosseiros, as ativida-
des exploratórias em busca de alimento e parceria, o abatimento e
tristeza diante da dor, a alegria ou esperança em alcançar o cobiçado
e outros comportamentos não-aprendidos e não-condicionados. Essas
condutas permaneceram porque elas se mostraram úteis e necessárias
à preservação do indivíduo e da espécie.

As unidades químicas básicas associadas às transmissões no sistema


cérebro/espinhal e relacionadas às emoções – neuro-transmissores –
são muito antigas, nos reportando ao período cambriano iniciado há
570 milhões de anos. É possível que as moléculas transmissoras clássi-
cas evoluíram há 1 bilhão de anos e permaneceram fazendo parte de
todos os organismos descendentes, passando por diversas mutações
e transformações. As novas formas de neuro-transmissores nascidos
através de mutações genéticas conservaram a propriedade de estimu-
lar, excitando ou inibindo, as células vizinhas onde se encontram os
receptores apropriados.

Pesquisas modernas constatam que certos indivíduos são mais sen-


síveis que outros aos estímulos provenientes de uma ou mais fontes.
Assim, alguns são mais propensos a reagir com raiva a fatos insigni-
ficantes do meio; outros estão sempre atentos e supersensíveis aos
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sorvetes e pudins e, outros, ainda, ao bumbum e às curvaturas. Daí, um
estímulo interessante e atraente para uma determinada pessoa, pode
não ser um excitante para outra; também, estímulo potente para um
poderá ser um estímulo fraco para outro.

O estado do organismo, uma vez estimulado, fará com que ele res-
ponda a determinados estímulos sensoriais e não a outros, por estar
mais sensibilizado em virtude das alterações nos sensores capazes de
gerarem respostas específicas e apropriadas à nova situação vivida. Se
meu sistema receptor estiver estimulado internamente com respeito à
fome, meu organismo ficará mais atento à possível presença de alimen-
to no meio exterior (minha geladeira, a pastelaria); o mesmo acontece-
rá com respeito à irritação; nesse caso, em qualquer lugar e momento,
estarei pronto para xingar ou brigar; também, poderei estar superesti-
mulado com respeito ao sexo, ficando desperto e atento aos estímulos
relacionados a essa área.

As influências, genéticas e ambientais, bem como o uso de certas


drogas, podem produzir grandes variações individuais na produção,
liberação e efetividade de um determinado mecanismo do neurotrans-
missor.

De certa maneira, a atividade dos sistemas de punição e de recom-


pensa do organismo pode ser acessível ao portador através das emo-
ções subjetivamente experimentadas por ele.

Os seres humanos não são máquinas orgânicas que dão respostas


constantes aos estímulos. O animal culto responde aos estímulos con-
forme esses são definidos e interpretados.

Durante os últimos meses de sua vida aquática, o feto torna-se


assustado quando a mãe fala. Acontece que a baixa frequência do som
provocado pela voz da mãe é transmitida através do corpo e do líquido
amniótico, que filtra a alta frequência. Esse som que viaja através do
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corpo, e não do ar, vibra contra a boca, mãos e corpo do feto. Esta bem
sentida estimulação tátil – não auditiva – causa uma aceleração do
coração e, em seguida, uma resposta exploradora quando o feto agarra
o que está flutuando, (cordão umbilical e seu próprio dedo) sugando-os
e provando o fluido amniótico.

No estágio de desenvolvimento embrionário, a duração da memória


biológica não excede a poucos minutos, pois durante esse estágio do
desenvolvimento a memória existente é de curta duração. Portanto,
caso as emoções da mãe provoquem excitação no feto, assim que a
mãe se acalmar, o feto também ficará tranquilo.

O feto não pode armazenar memórias capazes de serem evocadas


através de palavras, pois, nesse período de vida, ainda não se acha
desenvolvida a memória semântica (composição, através de símbolos,
do percebido). Esta inicia seu desenvolvimento a partir dos dois ou três
anos de idade. Nós só lembramos e comentamos, mesmo assim de
forma rudimentar, eventos a partir desse período. A idéia de que existe
uma “memória fetal” capaz de ser recuperada mais tarde através de
palavras não tem suporte empírico, ou seja, é uma crença não susten-
tada pelos conhecimentos científicos atuais.

Mary Ainsworth mediu o choro das crianças após o nascimento;


algumas choram 3 minutos por hora, outras, 20 minutos. A curva de
choro cai no segundo trimestre e torna a subir no terceiro. Os meninos
que são mais cuidados e tocados durante as interações dificilmente
aumentam a quantidade de choro no terceiro trimestre, enquanto os
mais isolados choram mais.

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Emoções, sentimentos, memória
e indivíduo

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Emoção: A história de Geraldo
Geraldo, um jovem de vinte anos de idade, descrito pelos amigos
como sendo uma pessoa feliz, sempre gostou de esportes, principal-
mente de futebol e corridas. Como bom estudante de Direito, ele es-
pera chegar bem alto na carreira de advogado. Naquela noite quente e
abafada de novembro, Geraldo e seus amigos assentaram-se nas arqui-
bancadas do estádio para assistir a uma partida de basquete. Enquan-
to esperava o início do jogo, Geraldo, segurando numa das mãos um
pacote de pipocas, conversava animadamente com os amigos assenta-
dos ao lado. Vagarosamente, ele ia retirando, com as pontas dos dedos,
algumas pipocas salgadas e ainda quentes que comprara ali mesmo e
as colocava com prazer na boca enquanto ouvia as considerações dos
companheiros acerca do jogo e observava moças sorridentes e belas
que por ali passavam a procura de um lugar e, talvez, de um namorado.

Alice, uma adolescente de cabelos curtos, passou diante do grupo


e provocou o olhar e a cobiça de todos; Geraldo, no momento em
que focalizava seus olhos bem abertos para a graciosa morena, sentiu
uma ponta de tênis no seu traseiro. Desviou seu olhar e pensamento
da moça para o ocorrido, ficando, por instantes, ligeiramente irritado.
Mas, em seguida, ajeitou-se novamente na arquibancada, perdendo de
vista a graciosa gazela de cabelos curtos. Ele continuou comendo pipo-
cas e examinando, detidamente, as diversas jovens que por ali transita-
vam. Alguns minutos após o primeiro esbarrão, ele levou um segundo
chute, no mesmo lugar. Neste instante, enrijeceu-se, agora bem mais
irritado do que da primeira vez que recebeu o pontapé. Apesar disso,
Geraldo ainda conseguiu manter-se controlado. Parou por instantes
de comer a pipoca, calou-se, arredou como pôde, levando seu corpo
um pouco mais para frente, imaginando, nessa posição, ficar livre dos
chutes do vizinho de cima da arquibancada. Mas, mais uma vez, apesar
dos seus esforços, ele não conseguiu evitar um terceiro esbarrão, mais
forte ainda, quando algumas pipocas caíram ao chão.
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Geraldo se enfureceu. Tenso e trêmulo, colocou o pacote de pipocas
no piso, junto aos seus pés. Interrompendo a conversa tranquila, as
brincadeiras e gargalhadas, ele levantou-se bruscamente, girou seu cor-
po para trás em direção ao desconhecido assentado no lance de cima
da arquibancada, preparando-se para agredi-lo caso este aceitasse a
briga. Uma vez tendo girado totalmente o pescoço e tronco para trás,
ele pôde, só agora, olhar e observar melhor, bem de frente, o mal-
-educado e chato, o perturbador de seu sossego e lazer. Num rápido e
completo exame do chutador, Geraldo teve sua atenção voltada para
os membros superiores do seu “agressor”. De suas mãos atrofiadas,
desciam pequenos dedos disformes que nasciam logo abaixo dos
ombros. Geraldo, ainda um pouco agitado e raivoso, ficou paralisado
com o que viu. Ele, antes de perceber os braços do vizinho incômodo,
estava possesso e decidido a “matar ou morrer” em defesa dos seus di-
reitos, ou, no mínimo, bater ou apanhar, mas com honra. Agora, diante
do que acabara de ver, sentiu sua raiva intensa e selvagem rapidamen-
te ser consumida e transformada numa mistura de simpatia, perdão
e até piedade para o agressor. Pálido, sorrindo sem graça, girou seu
corpo novamente em direção ao campo de basquete. Ainda tremendo,
abaixou-se pegando novamente o pacote de pipocas e enfiou seus de-
dos finos nele, segurando algumas delas com dificuldade e levando-as
até sua boca seca. Ajeitou-se como pôde nas apertadas arquibancadas
do estádio, chegando o traseiro o mais pra frente possível, pois assim
esperava não ser mais chutado.

Aqui termina a história de Geraldo…

Comentários: Geraldo foi descrito como uma pessoa geralmente fe-


liz, significando sua disposição habitual, possivelmente, uma condição
geneticamente influenciada pelo seu sistema neural, operando mais
ou menos de forma continuada, gerando um modo que caracteriza o
estado emocional da pessoa. Nesse caso, seu traço de um humor feliz
significa uma pessoa animada; o mecanismo da atividade neural é atri-

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buído a atividade neuroquímica. Na noite do jogo, talvez, instigado pela
temperatura – um dia quente – ele sentiu mais a dor diante do impacto
do chute no traseiro e, além disso, o sofrimento emocional foi aumen-
tado pela interpretação formulada por Geraldo: “Isso é um abuso, uma
falta de respeito”, aumentando ainda mais sua raiva já desencadeada.
Tudo isso gerou o desejo ou a prontidão para agir, defender-se, quando
girou o corpo pronto para agredir o torcedor distraído.

Todo esse processo pode ser descrito como mudanças motoras e


sensoriais, mas, também, por ter abandonado a pipoca que, por ser
alimento, o acalmava, juntamente com o papo com os amigos, que
também tem um efeito tranquilizador. A interrupção brusca das emo-
ções agradáveis e calmantes , transformadas em emoções desagradá-
veis e com possibilidade de produzir resultados incertos, levou Geraldo
a sofrer irritado, deixando por instantes sua animação e prazer com a
vida que existiam antes dos chutes. A raiva, consequentemente, gerou
certas condutas motoras expressivas (levantar-se, enrijecer-se, partir
para a briga). O próprio ato de movimentar-se para brigar aumentou ou
promoveu mais ainda a raiva inicial, conforme disse William James: “Se
recusarmos a expressar a paixão, esta morre”.

Mas a raiva existente no organismo de Geraldo, ao iniciar seu ata-


que ao “inimigo”, transformou-se, prontamente, em outras emoções
após observar os braços e mãos do “agressor”. As novas emoções, bem
diferentes das ocorridas antes do chutes e durante esses, levaram-no
não ao ataque, mas à compaixão, união, um desejo de ajudar, ou, no
mínimo, de compreender o que aconteceu com o “agressor” distraído.
Dessa forma, a avaliação do fato, “Tenho que agredir esse chato”, ao se
transformar num novo julgamento: “Coitado: tem os braços defeituo-
sos; não conseguirá me dar um murro”, fez mudar, também, as diversas
emoções existentes em um ou em outro momento. As interpretações
acerca dos chutes levados no traseiro passaram a ser perdoados, pro-
vocando novas emoções, diferentes das anteriores, entre elas, talvez, a
piedade. Pode ainda ter pensado, se teve conhecimento para isso, que

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o problema do vizinho talvez tenha sido o uso de talidomida por sua
mãe durante a gravidez.

Ao perceber e imaginar os problemas do agente de seus aborreci-


mentos anteriores, uma vez livre deles, Geraldo pode ter ficado en-
vergonhado, sentindo-se culpado do que pensou e de sua ação inicial:
querer brigar, bater, numa pessoa menos capacitada fisicamente. Essas
considerações mentais podem ter originado simpatia e tristeza e, possi-
velmente, felicidade por não possuir o problema do “agressor”.

Em resumo: Geraldo teve raiva e dor ao ser chutado, essas são emo-
ções não-cognitivas; mais tarde, apresentou vergonha, piedade e triste-
za e, novamente, felicidade pela comparação; todas essas emoções são
chamadas de cognitivas, ou seja, aprendidas e relacionadas à maneira
de pensar cultural. Durante toda a descrição dos fatos, aconteceram
diversos processos geradores de emoções: a disposição de Geraldo
“feliz” é função de um sistema neural geneticamente influenciado que
opera mais ou menos de forma continuada para gerar e manter esta
característica emocional; as transformações no sistema de emoção ao
ser chutado foram devidas às atividades neuroquímicas instigadas pelo
ambiente (temperatura), ao processo emoção/dor que o levou à raiva,
e aumento dessa pelas ações sensório/motoras/expressivas necessá-
rias ao uso do pensamento: “Vou agredir esse chato”.

As ações orientadas pelas emoções são utilizadas como defesa nas


crianças de três semanas. Nessa idade, elas são capazes de sorrir junto
ao seu cuidador quando começam a estabelecer vínculos que irão au-
mentar suas chances de sobrevivência; uma atitude que ocorre antes
delas serem capazes de processar as informações com imagens, pen-
samentos e fazer uso da memória. Possivelmente, as expressões das
emoções iniciais são inatas e universais, emergindo antes da criança
ser capaz de defini-las.

A literatura acerca da evolução nos sugere que o sistema emocional

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precedeu o cognitivo na evolução. A emoção é um indicador, ou sinal,
importante para que haja a adaptação do animal ao meio ambiente.
Ela permite que o animal aja rapidamente – como fez Geraldo – diante
das emoções sentidas ligadas às incertezas. Diante da dor provocada
pelo fogo, por exemplo, retiramos a mão e, ainda, geralmente, ficamos
com raiva; esta motiva ações defensivas e, às vezes, xingamentos.

Por todas as razões acima descritas, o estudo das emoções, cada vez
mais, tem demonstrado uma extraordinária importância. Mas ainda
não está claro se o que é chamado emoção em um nível, relaciona-se
ao que chamamos emoção em outro. Serão as emoções básicas como
a felicidade, tristeza, medo e raiva, relacionadas às emoções mais
primitivas como o impulso sexual, domínio ou poder? Quais seriam as
ligações das emoções básicas com os níveis mais elevados das emo-
ções como o orgulho, ciúme, vergonha ou remorso? Interesse, tédio e
curiosidade seriam emoções? O que se sabe da relação acerca dos for-
tes sentimentos associados aos julgamentos morais como admiração,
veneração, desprezo, meditação, contemplação e ponderação? Quais
são as bases da emocionalidade da simpatia, piedade ou compaixão e,
também, da crueldade e da ferocidade?

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O que é emoção?
Duas correntes antagônicas discutem a expressão ou o controle das
emoções. Uma supõe que as emoções devem ser expressas ou libe-
radas; para esses, sua repressão (autocontrole) causaria problemas
físicos ou fisiológicos. A outra corrente defende o controle das emo-
ções através da razão; conforme essa idéia, nós podemos e devemos
dominar nossas emoções e isso seria possível se usarmos nossa mente
ou razão.

Tudo faz crer que as duas correntes estão equivocadas: não existe
raciocínio sem emoção. Nosso pensamento é guiado, na maior par-
te das vezes, pelas emoções sentidas e, além disso, é conveniente e
necessário constantemente dominarmos e não expressarmos nossas
emoções. Somos animais domesticados do ponto de vista sociocultural
e, domesticados significa não liberarmos nossas emoções em toda e
qualquer situação.

Mas, o que é emoção? Emoção significa, literalmente, “movimento


para fora”. Certos “movimentos para fora” são percebidos por outras
pessoas; alguns, só pelo seu dono. O termo sentimento tem sido usado
para definir a experiência mental provocada pela emoção, ou seja, a
percepção e consciência da pessoa diante de sua própria emoção. De
um modo concreto: sentimento é ficar irado e saber que está irado.

Como as emoções podem ser, de maneira simplificada, agradáveis


e desagradáveis, elas nos sinalizam se devemos ou não aproximar ou
fugir da meta; podemos concluir que a motivação acha-se estreitamen-
te ligada à emoção.

Há uma grande diferença entre as pessoas quanto à procura para ser


recompensado pela conduta exploratória e a fuga diante da possibilida-
de de sofrer. Por exemplo, os extrovertidos e os introvertidos diferem-
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-se tanto na maneira de expressarem as emoções, como no modo de
serem sensibilizados por estímulos idênticos. Essas dessemelhanças
podem ser tanto geneticamente determinadas – relacionadas ao tem-
peramento – quanto aprendidas socialmente.

Emoções ou impulsos inatos

Os milhares de eventos aleatórios que aconteceram no mundo exi-


giram das espécies continuadas adaptações para conviver com o meio
incerto e constantemente em transformação. Algumas dessas adap-
tações e readaptações gerais, repetidas por longos períodos, foram
mantidas em alguns organismos- padrões programados e adaptados
– para sobreviverem conforme o meio particular. Entre esses padrões
mantidos e úteis a vários animais, estão os circuitos neurais capazes de
possibilitarem a expressão de determinadas emoções, pré-organizadas,
prontas para serem usadas diante de alguns estímulos percebidos no
ambiente externo e, também, no próprio organismo do observador.
Exemplos dessas emoções pré-organizadas são as reações emocionais
como o medo que aparece diante de um animal de grande porte ou
de uma grande envergadura (águias em vôo); certo tipo de movimento
como os dos répteis; determinados sons como os rugidos; certos esta-
dos corporais como a dor sentida durante uma queimadura ou ataque
cardíaco, bem como diversas outras situações.

Os organismos mais simples, cujos cérebros incluem apenas estru-


turas arcaicas, como os répteis, não possuindo estruturas cerebrais
evolutivamente modernas, executam, sem dificuldades, sua simplifica-
da seleção de respostas diante do meio ambiente. No caso dos répteis
não existe um “eu” consciente e complexo capaz de visualizar diversas
decisões possíveis; existe apenas um conjunto rudimentar de circuitos
neurais que comandam a conduta de forma mais ou menos automáti-
ca, não-reflexiva e, sobretudo, simples; uma vida com poucas escolhas.

Os impulsos básicos como a fome, a sede, a dor e as emoções bioló-

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gicas como a ativação física e mental, a aproximação ou fuga, a luta e
o acasalamento, todos, constituem conjuntos de eventos envolvendo
incertezas em função da relação do organismo com o meio ambiente.
O sistema motivacional/emocional dos organismos mais simples detec-
ta ou lê, internamente, as emoções surgidas no seu organismo diante
disso ou daquilo. A partir desse alerta interno, inicia-se a prontidão ou
a atenção voltada para examinar o ocorrido interna ou externamente,
para aproximar ou fugir conforme os sinais surgidos ou produzidos pela
modificação do estado corporal. Podemos concluir que a condição ne-
cessária e suficiente para a existência das emoções consiste na leitura,
em resposta aos estímulos desafiadores ou provocadores, dentro e fora
do organismo.

A cognição nos seres humanos, com a evolução, tornou-se interli-


gada ao antigo sistema motivacional/emocional. A função cognitiva
aumentou ainda mais as informações possíveis para a sobrevivência do
organismo particular, ou seja, uma resposta mais sofisticada diante dos
acontecimentos eventuais. Resumidamente: os organismos mais evolu-
ídos e complexos, diante das incertezas, utilizam-se, além dos circuitos
primitivos, simples e automáticos, comuns a outros animais, circuitos
mais complexos, relacionados a neocórtex – setor mais moderno do
cérebro – facilitando a realização de respostas sofisticadas aprendidas
durante a vida de cada um.

Durante a evolução, todos os organismos, para sobreviverem, de-


senvolveram sistemas perceptuais que podiam informá-los tanto da
existência das provisões do meio terrestre, como de possíveis predado-
res e, também, da possibilidade de contato com outros organismos da
mesma espécie com os quais poderiam relacionar-se formando grupos
de apoio ou, ainda, acasalar-se. É desse modo que o organismo fica
informado ou orientado para agir em direção a uma ou outra meta, a
atraente ou a perigosa. As várias emoções, algumas opostas (prazer/
desprazer), são geradas pelas informações que emergem durante en-
contros entre o organismo e o meio ambiente.

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Sentimentos: Afetos secundários
A reação emocional pode atingir alguns objetivos úteis: esconder-se
rapidamente de um predador, retirar a mão do fogo antes de queimá-
-la, expressar raiva em relação ao competidor, rosnar e latir, “fechar
a cara”, elevar o tom de voz, xingar nomes simbolizando ameaças e
desdém etc.

Mas o processo não termina aí, pois, nos seres humanos, há uma ou-
tra fase: podemos sentir a emoção existente em nosso organismo, isto
é, a sensação percebida associada ao objeto desencadeador. Assim,
temos consciência de que algo está sendo perigoso ou, ao contrário,
agradável, isto é, percebemos o estado emocional corporal provocado
por alguma coisa ou pessoa. Este conhecimento, que de fato é um co-
nhecimento sobre o conhecimento – chamado de meta-conhecimento
– indica que algo, acerca de algo, foi percebido e sentido.

Através dos sentimentos, o indivíduo pode sentir determinadas emo-


ções ao enfrentar uma certa situação ou, também, senti-la sem viven-
ciar a situação, apenas imaginando-a ao supor situações semelhantes
já vividas. Os sentimentos tornam-se os “qualificadores” da coisa que
é percebida/sentida ou recordada, como nos exemplos: “Gostei de ir
ao Rio de Janeiro”; “Detesto São Paulo”; “Não gostei do filme”; “Fiquei
encantado com a música” etc. Ao pensarmos dessa forma, estamos
“lendo” o estado do nosso corpo diante de cenas experimentadas ou
imaginadas. Isso é o que chamamos de sentimentos.

Os sentimentos são tão cognitivos como qualquer outra percep-


ção. Se não existisse a possibilidade de sentir os estados dolorosos ou
agradáveis do organismo, não haveria sofrimento ou felicidade entre
os homens. Podemos afirmar que as emoções e os sentimentos são
os sensores para o corpo durante seu encontro real ou virtual (imagi-
nário) com alguma coisa do ambiente, entre a natureza individual e as
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circunstâncias externas – inclusive o próprio eu físico e mental. Assim,
as emoções/sentimentos servem como alertas – indicadores internos
– ajudando-nos a nos informar, ou a outras pessoas, nossos estados
corporais. É uma característica altamente importante para nossa sobre-
vivência quando bem “lida” e usada.

Uma vez conscientes dos sentimentos – ajudados pela parte mais


nobre do cérebro – podemos interpretar as emoções sentidas e sua
relação com os fatos e, desse modo, organizar e classificar as situações
concretas e os sentimentos relacionados, sob a forma de conceitos,
hierarquias e, ainda, relacionar uns com os outros. Isso nos permite
adquirir e elaborar estratégias mais eficientes para raciocinar e tomar
decisões mais sábias; o que não acontece com muita frequência.

A conduta final, produto acabado da seleção de determinada res-


posta motora, fruto das composições desejadas e sentidas, situa-se
da quebra de um vaso na cabeça do inimigo, dos berros e nomes feios
expressos com ódio, até o abraço amigo do filho, a composição de um
conto, o telefonema pesaroso, ou, ainda, executar “Carinhoso”, suave-
mente, na flauta.

O estado corporal existente num e noutro momento, ruim e nega-


tivo, ou agradável e positivo, dependendo da disposição do organis-
mo, fornece tanto o que vamos pensar (sua forma), como a maior ou
menor rapidez da nossa mente. Exemplificando: quando o estado do
organismo encontra-se na faixa positiva (espectro agradável de sen-
timentos, satisfação, alegria), há uma alteração no pensamento no
sentido de tornar mais rápido e mais rico em idéias. Assim, uma pessoa
mais feliz ou alegre terá um modo de pensar mais rápido e mais produ-
tivo. Ao contrário, quando a condição corporal é negativa (sentimentos
desagradáveis e pessimistas) ocorre o pensamento lento, repetitivo e
pobre. Assim, a pessoa é mais produtiva se está eufórica e animada e
improdutiva se triste e desanimada.

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Nos seres humanos, bem como em muitos animais, manifesta-se a
sensação da emoção diante do objeto que a desencadeou e, ao mesmo
tempo, diante da percepção do objeto causador do estado emocional
corporal. Sabemos que o animal – e nós – experimentará certas emo-
ções diante da visão do alimento ou de seu tratador antes de começar
a ingerir a comida; também, diante do que lhe deu uma surra por ter
urinado no tapete. Essa consciência proporciona uma estratégia de
proteção ampliada, levando o animal a se preparar melhor para evi-
tar ou aproximar-se da experiência prazerosa ou ruim. Mas há outras
vantagens: ao sentir a própria emoção, torna-se possível generalizar o
conhecimento e acautelar-se diante de situações semelhantes.

Nos seres humanos, apenas as estruturas do sistema límbico (amíg-


dala e cíngulo) não são capazes de sustentar o complexo processo das
emoções secundárias ou aprendidas, a rede é ampliada pelos córtices
pré-frontais e somatossensoriais. Vamos a um exemplo do aparecimen-
to da emoção secundária. Gabriel encontrou Inês. Eles, ex-namorados,
não se viam há anos. Na conversa mantida, ele ficou a par de vários
problemas que ela enfrentou durante os últimos meses. Ao ouvir o
relato de Inês, ele experimentou algumas emoções: antes da informa-
ção, o cérebro de Gabriel formou as novas imagens a respeito dela e,
ao mesmo tempo, recuperou antigas lembranças de encontros ante-
riores, entre elas, o aspecto físico atual e passado de Inês; ao mesmo
tempo, comparou seu próprio corpo presente e antigo. Ao criar tais
imagens e compará-las, seu coração bateu mais depressa, houve uma
ligeira mudança da coloração da pele, os músculos da face tornaram-se
diferentes, mostrando uma expressão feliz pelo encontro. Além disso,
houve pequenas mudanças no funcionamento visceral e no cérebro, ao
liberar moduladores peptídeos lançados na corrente sanguínea, pro-
duziu-se uma transformação no sistema imunológico; houve, também,
uma mudança no ritmo da atividade dos músculos lisos das artérias
levando a pressão arterial a aumentar.

Em resumo, o encontro de Gabriel e Inês produziu emoções e pen-

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samentos nos dois organismos envolvidos, conforme a maneira como
cada um deles pensou acerca do acontecimento, das relações entre
eles passadas, das condições atuais e das predisposições corporais de
cada um Portanto, ocorreu uma sucessão continuada de alterações de
emoções, motivações e cognições e, também, de mudanças fisiológi-
cas, variando das mais fracas as mais fortes`, conforme o que foi con-
versado, bem como as recordações recuperadas, e da maneira de um e
de outro reagir ao encontro. Conclui-se que as disposições pré-frontais
adquiridas – aprendidas – durante a vida pós-nascimento, necessárias
à existência das emoções secundárias, são distintas das disposições
inatas também chamadas de primárias (não-aprendidas), necessárias
às emoções iniciais da pessoa.

As emoções aprendidas, para serem expressas, necessitam do bom


funcionamento das emoções inatas ou primárias. Entre os pacientes
portadores de lesões pré-frontais, o processamento emocional, se
deteriorado, se limitará às emoções secundárias. Mas, as estruturas
que detonam as emoções primárias precisam estar intactas, pois, se
isso acontecer, os pacientes continuam a expressar as emoções primá-
rias: medo ou raiva repentina. Os pacientes que apresentam lesões das
estruturas associadas às emoções primárias apresentam diminuição
tanto das emoções primárias como das secundárias, isto é, não expres-
sam nenhuma emoção.

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Memória, Aprendizagem e
Pensamento
Aprendizagem e memória são conceitos fundamentais para a noção
da individualidade. Nossa maneira peculiar de pensar, sentir e agir
depende do que aprendemos e armazenamos em nossa memória du-
rante nossa vida. Ora, como cada indivíduo vive experiências diferentes
e particulares, tendo também uma idade, profissão, irmãos, colegas,
professores e muitas outras coisas mais desiguais, as pessoas terão,
forçosamente, memórias e histórias para contar diversas, bem como
mentes singulares para assimilar novos conhecimentos.

Aprendemos pelas experiências e o número delas é literalmente


infinito. A aprendizagem é um processo pelo qual nós adquirimos no-
vos conhecimentos; memória é o processo pelo qual nós retemos este
conhecimento obtido. Assim, podemos dizer que o aprendizado pode
ser definido como a aquisição de memória; cada um de nós adquire
memórias diferentes.

Nosso cérebro, automática e continuamente, filtra estímulos do


meio interno e externo; não deixa passar a maioria deles por não ter
importância para nós naquele instante, deixando entrar apenas os
relevantes. Os estímulos que passam pelo filtro existente na parte mais
primitiva do cérebro atingem, em seguida, as áreas mais modernas,
dando origem à formação da segunda fase da cadeia cognitiva: a orga-
nização dos estímulos que passaram pelo filtro inicial e mais primitivo.
De outro modo, alguns estímulos tiveram acesso livre através do por-
tão selecionador do sistema talâmico, foram aceitos devido à suposta
importância de seu conhecimento para o organismo.

A cognição (pensamento) é definida como o processamento de


novas informações – as que atravessaram a barreira do filtro do tála-
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mo – através de antigos conhecimentos básicos já existentes que
foram armazenados através da experiência do indivíduo. Tem sido
verificado que o cérebro economiza esforço através do uso de experi-
ências anteriores, preservando, de forma condensada, idéias (modelos,
esquemas, padrões) de situações já vivenciadas antes, tudo isso facilita
a compreensão das informações que aparecem. Através desses resu-
mos esquemáticos de conhecimentos anteriores, as novas informações
recebidas são organizadas e processadas. O modelo representa, por-
tanto, padrões de pensamentos adquiridos durante o desenvolvimento
do indivíduo.

Os que adquiriram erros lógicos do pensamento durante o período


de desenvolvimento, trabalharão no futuro com “redes” ou “esque-
mas” defeituosos para avaliar as informações futuras e, consequente-
mente, estarão predispostos a experimentar mais problemas futuros.

Os termos, inferências arbitrárias, abstrações seletivas, supergenera-


lizações e minimizações têm sido usados para descrever as distorções
existentes ou erros cognitivos básicos, de outro modo, classificar o
“pau nascido torto” e suas consequências para o aprendizado futu-
ro que leva a pessoa a cometer erros sistemáticos ao avaliar novas
informações, pois há um “defeito” no seu assimilador mental. Essas
cognições (raciocínios, pensamentos) são automáticas, involuntárias e
altamente plausíveis para o seu possuidor. Os esquemas podem repre-
sentar a base da memória de trabalho da pessoa, isto é, a memória
utilizada pelo indivíduo no momento de sua conversa, leitura para
compreender o escutado, lido ou pensado. Uma vez compreendida a
informação, pode ocorrer a resposta final do processo da pessoa diante
de uma informação: a execução motora da ação.

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Duas Memórias: Procedimento e
Declarativa
As memórias podem ser divididas em duas grandes classes quanto à
origem do conhecimento memorizado:
Uma memória, fruto dos acontecimentos que se sucederam na
vida particular do indivíduo; esta é uma memória instável, confusa,
desorganizada, mistura de ruídos falsos e verdadeiros;
Uma outra memória nascida dos genes; esta é inata, estável, abas-
tecida pelos acontecimentos organizadores de um passado anterior ao
indivíduo, bem protegida contra o “ruído” e a informação circulante.

As duas memórias trabalham juntas: a dos genes possibilita a aqui-


sição das memórias ocorridas após o nascimento. Deve ser lembrado
que cada espécie apresenta potencialidades diferentes para aprender
conforme as facilidades e limitações fornecidas pelos genes do indiví-
duo. Por outro lado, dentro da mesma espécie, alguns indivíduos pos-
suem cérebros que são melhores arrumados, capazes de adaptarem-se
melhor às estimulações do meio ambiente desde a infância; podendo
aprender mais, podem se tornar mais “inteligentes”.

A memória disponível para cada pessoa numa certa idade estabelece


a individualidade de cada um. Somos quem somos porque nos lembra-
mos, não só de quem somos, mas, também, como nós fomos e onde
queremos chegar.

Memórias, procedimento e declarativa

Inicialmente, deve ser lembrado que nenhuma das memórias estu-


dadas localiza-se num só lugar; todas envolvem circuitos complexos. A
memória tem sido dividida em vários tipos e, frequentemente, autores

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diferentes, dão nomes diversos para o mesmo tipo de memória.

Dois tipos de memórias têm sido descritos: a memória de procedi-


mento (também chamada de processo, não-consciente, implícita, de
atividades), e a memória declarativa (recebendo ainda os nomes de
episódica, consciente, de eventos e explícita). Uma terceira memória
descrita, a memória de trabalho, que não será descrita aqui, é conside-
rada como um ramo ou subtipo da memória declarativa.

Os pesquisadores concordam que o uso dos dois sistemas de memó-


rias é uma regra mais do que uma exceção; as duas se sobrepõem, são
usadas conjuntamente; assim, ambas são recrutadas nas experiências
de aprendizagem. Na verdade, uma repetição constante de uma ação
pode transformar a memória declarativa (explícita) numa de proce-
dimento ou implícita, como pode ser observado na experiência de
aprender a dirigir um veículo. Nesse caso, há, inicialmente, um envolvi-
mento de um processo consciente, depois, automático ou inconsciente
– o motorista perito não fica pensando, ao dirigir, como ele aprendeu e
cada detalhe do aprendizado.
Memória de Procedimento (Processo mental inconsciente)

A memória de procedimento relaciona-se a atividades que são me-


morizadas como ações: nadar, escrever, tocar um instrumento, digitar,
andar de bicicleta etc. Esta memória é aprendida lentamente, armaze-
nada através de atos repetitivos, após diversas tentativas, envolvendo
a associações de estímulos sequenciais. Ela permite o armazenamento
de informações acerca de relações entre acontecimentos, que são ex-
pressas, primariamente, pela melhoria dos processos de atuação – não
pela familiaridade com certas tarefas – sem que o sujeito seja capaz de
descrever exatamente o que e como foi aprendido. Envolve, portanto,
sistema de memória que não tem acesso ao conteúdo do conheci-
mento geral do indivíduo. Por isso é chamada de memória de proces-
sos e não-consciente. Esta memória relaciona-se, anatomicamente, a
ativação de sistemas sensoriais e motores comprometidos na tarefa

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da aprendizagem; adquirida e retida devido à plasticidade do sistema
nervoso, que varia de indivíduo para indivíduo como um bom e mau
jogador de futebol, vôlei, tênis etc.

A memória de procedimento (inconsciente) inclui vários processos e


estes envolvem diversas áreas cerebrais:
O reconhecimento do estímulo encontrado é uma função dos cór-
tices sensoriais;
A aquisição de várias pistas dos estados afetivos sentidos envolve a
amígdala (uma região do cérebro);
A formação de novos hábitos motores e, talvez, hábitos cognitivos,
exige o neo-estriatum;
A aprendizagem de ações motoras novas ou a coordenação de
novas atividades irá depender do cerebelo. Desse modo, diferentes
situações vividas e, consequentemente, certas experiências de apren-
dizagem, estimulam o cérebro, fazendo entrar em ação diferentes
subconjuntos de áreas, que agem em combinação com os sistemas de
memória explícita localizados, principalmente, no hipocampo.

Tem sido aceita por alguns teóricos a idéia de que o desenvolvi-


mento da conduta moral também seria adquirida através de meios
da memória de procedimento e inconsciente. Para seus defensores, a
pessoa geralmente não se lembra de forma consciente de que modo e
em quais circunstâncias ela assimilou as regras morais que governam
suas avaliações e a conduta moral ou ética. Sabe-se que essas foram
adquiridas quase automaticamente, como as regras da gramática que
usamos sem pensar e que governam cada linguagem nativa.
Memória Declarativa (O Processo Mental Consciente)

A memória declarativa tem sido também chamada de memória cons-


ciente, semântica, episódica, de evento, de conhecimento, de lugares
etc. Ela, que envolve associações de estímulos simultâneos, permite o
armazenamento de informações acerca de um acontecimento simples
que ocorre num tempo e lugar particular, podendo ser aprendida e

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usada após uma única tentativa. De posse dessa memória, possuímos
um sentido de familiaridade com o fato, pessoa, lugar, daí o nome de
memória episódica, relacionada ao episódio.

Existem dois tipos de memórias declarativas: uma de curta duração


(de 3 a 4 horas), outra de longa duração (acima de 6 horas, poden-
do durar dias, meses e anos). A primeira encarrega-se dos processos
declarativos enquanto pode-se formar ou não uma outra memória, a
de longa duração. Esta última, ao contrário da de curta duração, requer
uma cascata bioquímica complexa no hipocampo, que geralmente
leva horas para se instalar e poder, posteriormente, ser recuperada ou
resgatada.

A memória declarativa é adquirida através de circuitos que ligam


diversas regiões do córtex, principalmente os circuitos envolvidos com
a memória de trabalho e com o hipocampo. Assim é que lesões de
certa gravidade na região do lobo temporal não impedem o aprendiza-
do da memória de procedimento, apesar de dificultar ou impedir o da
memória declarativa, (episódica). De outro modo, essa região do lobo
temporal, principalmente o hipocampo, é responsável apenas pelo tipo
de memória declarativa e não a de procedimentos.

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O Eu e a Regulação Interna
O nosso “eu”- Maria, José, Lúcia, Antônio – pode ser entendido como
uma associação composta de diversos “eus” interdependentes que se
comunicam continuamente: o eu auto-eficácia, o eu auto-estima, ou o
eu pai, filho, namorado, aluno etc. Existindo, como existe um grupo de
várias pessoas, o “eu” global – se é que existe isso – trabalha com todas
as partes bem coordenadas de cada um dos “eus” ao mesmo tempo.

Mas nem tudo são flores; com frequência, essa harmonia entre os
vários “eus” é quebrada, isto é, falha. Não é raro observarmos alguns
“eus” menores e semipartidos agirem isoladamente ou, também,
terem ações uns contra os outros, como tem sido descrito, de maneira
dramática, nos Transtornos de Dupla ou Tripla Personalidade.

O eu é a maior estrutura do sistema cognitivo; é ele que circunda e


relaciona todas as informações relevantes derivadas da vida da pes-
soa. O indivíduo pode ser examinado, por exemplo, como tendo uma
alta ou baixa auto-estima somente quando seus pensamentos e senti-
mentos acerca dele mesmo estejam organizados de uma maneira que
indica uma avaliação relativamente coerente desse aspecto.

Do mesmo modo que um grupo de amigos, ou colegas, não pode ser


reduzido aos componentes individuais, não caracterizando as relações
funcionais entre eles, assim também o eu total não pode ser reduzido a
um e outro eu isolados; neste caso, não poderíamos chamá-los de gru-
po ou de eu. Por definição sabemos que o grupo dos atleticanos tem
em comum torcer pelo Atlético. Assim também a mente não pode ser
reduzida a mecanismos separados, sem levar em conta a influência de
uma parte sobre a outra, tendo tanto as ações como os pensamentos
coordenados.

Assim como ocorre com cada indivíduo que faz parte do grupo dos
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atleticanos, no caso de Pedro ou de Maria – uma pessoa particular
– algumas funções cognitivas isoladas e diferentes, produzidas por
estruturas específicas diversas, funcionam em paralelo umas com as
outras, interagindo entre elas, visando a produzir estruturas e funções
de ordem mais elevada, com novas propriedades, isto é, diferentes das
existentes em cada uma das funções isoladas. Exemplificando: sabe-
mos que existem atleticanos altos e baixos, gordos e magros, pobres
e ricos, mas todos são chamados de atleticanos por interagirem, num
certo momento, formando um grupo que torce pelo Atlético. De outro
modo: indivíduos, isolados, reúnem-se, num certo momento, para
exibir o que têm de comum: torcer e morrer pelo Atlético. Assim, a
influência mútua entre os indivíduos gordos e magros, velhos e novos,
como no caso dos atleticanos, conduz a emergência de fenômenos de
nível social tais como certas formas de comentar, comportar-se, agir
em certos dias, ou seja, certas “normas” de opinião pública, valores e
condutas.

Podemos pensar que, tanto as estruturas mentais do indivíduo parti-


cular, com as dos grupos, estão aprisionadas em modelos de relação ou
ligação, padrões esses que sugerem certas funções complexas – vestir a
camisa preta e branca, gritar “galo”, soltar foguetes, conforme o ocor-
rido etc. que resultam das interações entre os componentes do grupo,
uns atuando nos outros, e determinadas idéias gerais que emergem do
grupo atuam sobre todos os componentes. O grupo pode ser caracte-
rizado como uma coleção de indivíduos interconectados por ligações;
cada um irá influenciar e é influenciado pelos outros com os quais ele
mantém esse tipo, apenas esse, de relação. Do mesmo modo, o eu
geral de cada um de nós é influenciado pelos diversos “eus” separados
e influencia os outros.

A mente (espírito, alma, eu ou consciência) revela ou reflete o mun-


do circundante particular de cada homem; mas também mostra sua
própria operação interna, ou seja, a maneira particular de organizar os
conteúdos acerca do seu mundo. A natureza reflexiva – o exame de si

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mesmo – da mente – fornece a base para a apreensão e conhecimento
do eu. A representação do eu que resulta desse espelho, reflexo de mi-
lhões de pensamentos e sentimentos experimentados pelo eu, formam
uma estrutura altamente complexa, difícil de ser entendida.

Para a construção de uma imagem de si mesmo como bom jogador


de futebol, o jovem craque necessita integrar um amplo conjunto de
fatos e avaliações pertinentes já vividas e experimentadas: o sucesso
naquilo que está sendo avaliado. Isso vale para qualquer área. Certos
pensamentos específicos acerca do eu, por exemplo, acerca de suas ha-
bilidades futebolísticas, podem estimular ou ativar outros pensamentos
relacionados armazenados em sua mente (memória autobiográfica), os
quais, uma vez recuperados, expostos à consciência, tornam-se aptos
para serem reorganizados em grupos de novas ou de antigas ordens,
que podem ser cada vez mais elevadas; o novo conjunto formado pode
produzir outros conceitos ou auto-avaliações.

Para entender melhor, vou exemplificar: um pensamento acerca de


um encontro social poderá trazer à mente outros encontros sociais já
ocorridos e ligados a este. Durante o encontro, podem emergir, tornan-
do-se conscientes, avaliações globais acerca de nossa habilidade social
e, também, fornecendo padrões e prescrições com respeito de como
devemos nos comportar no futuro. Não devemos nos esquecer, é claro,
que a mente pode ser um “terreno desordenado para fantasias”; este
estilo, cada vez mais, parece estar aumentando por culpa do hemisfério
esquerdo, que é adepto das ficções e não da realidade, como acontece
com o hemisfério direito, que é mais observador.

O eu fornece também a integração para as várias estruturas psicoló-


gicas. Os auto-esquemas existentes em cada eu singular irão influenciar
as condutas do indivíduo, bem como organizar os julgamentos acerca
delas. Mas sempre a organização é uma propriedade que emerge –
como no caso dos torcedores – derivada das interações existentes
entre os elementos. Nesse processo, cada elemento particular adota

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um estado que conduz a um alinhamento com o estado dos outros ele-
mentos importantes. Um bom exemplo é a observação das bolhas de
ar que aparecem quando a água começa a ferver. Até um certo ponto,
elas estão desordenadas, sozinhas, desligadas. Ao começar a fervura,
há um certo movimento em uma direção; a partir daí, quase todas elas
se movimentam de um só modo.

Nós, com frequência, agimos como a bolhas de ar da água fervente.


Do mesmo modo que na panela nem todas as bolhas seguem a maio-
ria, no eu, também, alguns poucos elementos do eu podem discordar
dos outros, sendo incompatíveis e mesmo inimigos que não suportam
aparecer na mesma consciência ao mesmo tempo; como certas pesso-
as que não podem ficar perto uma da outra numa reunião.

É muito difícil ou impossível manter uma amizade e, ao mesmo tem-


po, competir com nosso amigo, mesmo sendo nosso cônjuge. Também,
é impossível ser “educado” e, ao mesmo tempo, espontâneo, pois este
último conceito indica não seguir as regras. Alguns “eus” isolados po-
dem ainda estar em conflito por outras causas; se um eu meu é inimigo
de Pedro, fica difícil para um outro eu meu ser amigo de André – uma
terceira pessoa – que é amigo de Pedro, isto é, do meu inimigo. Esse
fato é visto com frequência durante as separações; fica problemático
e difícil para o filho gostar do pai que a mãe fala mal e detesta, isto é,
gostar do inimigo da mãe/amiga.

É comum observar um elemento do sistema do eu – um eu isolado-


interagir somente com um número limitado de elementos da vizinhan-
ça. Assim, não só é impossível como desnecessário cada elemento
interagir com cada outro; nossa competência para falar em público não
precisa ser considerada com respeito a nossa efetividade em torcer
pelo atlético ou nossa habilidade para descascar abacaxis ou fazer uma
salada de alface.

Mas agir de um certo modo, realizando um dado papel, significa

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comportar-se de maneira tal que esta esteja coerente com o exigido
em outros papéis. Vamos ao exemplo: para ser torcedor do Atlético o
meu eu terá que gostar também de futebol, provavelmente de espor-
tes de maneira geral, assistir jogos nas TVs, ler páginas de esporte nos
jornais etc. Cada uma dessas ações encontra-se interligada e em har-
monia com o meu papel de torcedor do Atlético, que na verdade não
sou, pois sou mais cruzeirense. Portanto, qualquer ação está sujeita à
confirmação – ou não-confirmação – de outras influências.

Se um elemento – conduta ou pensamento – está bem integrado aos


outros elementos, ele receberá mais influência e apoio desses ele-
mentos e, nesses casos, ocorre mais segurança interna; fica mais fácil
resistir aos desafios que ocorrem pelas informações vindas de fora que
não estão de acordo com a conduta. Aqui retorno a pensar no grupo
dos atleticanos; qualquer ação de um membro do grupo está sujeita
à crítica ou apoio dos outros elementos. Se a ação é bem integrada às
normas do grupo, o torcedor ficará mais seguro e poderá enfrentar
melhor o desafio provocado pelas torcidas inimigas, como a cruzeiren-
se. Um indivíduo isolado fica mais vulnerável às influências e pressões
externas, enquanto que o mesmo indivíduo fazendo parte de uma
rede social de apoio tende a resistir mais, mesmo no caso de intensas
pressões sociais.

Os estudos com o eu e com os grupos mostram que, comumente,


surgem padrões de comportamentos que só emergem nos grupos,
nunca no indivíduo isolado. Um bom exemplo disso são as quebra-
deiras, incêndios em ônibus, roubos grupais, depredações, pichações,
vandalismos, certos tipos de sexo etc. Assim como existem ações de
grupos destruidoras, existem ações benéficas; os grupos podem ser
formados para realizarem condutas pró-sociais diante de catástrofes;
nessas ocasiões são comuns o aparecimento de ações cooperativas
entre indivíduos. Tanto num caso como em outro, os indivíduos envol-
vidos são afetados pela conduta anti-social ou pró-social que poderá
trazer mudanças transitórias ou duradouras para sua vida futura.

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Para finalizar essas idéias, deve ser lembrado que cada elemento do
eu pode ser caracterizado com respeito a sua atual avaliação: uns são
positivos, outros negativos; ou com respeito a sua posição: uns são
mais centrais, agindo com maior peso, maior papel e influência, outros,
mais periféricos, com menor potência. Assim, se é central ou importan-
te para Pedro chamar a atenção das pessoas, ele irá procurar agir de
modo a fazer brincadeiras, elogios, brigar, chorar etc., em resumo, tudo
aquilo capaz de provocar atenções.

Um sistema autopoiético (que vive para organizar a si mesmo, caso


do homem) deve possuir individualidade (ser único, singular). Essa
identidade resulta de sua diferenciação genética inicial e, mais tarde,
de sua ativa e continuada relação com situações de “não-eus” – o
meio ambiente, incluindo outros indivíduos diferentes. A identidade é
construída e conservada ativamente diante das perturbações encontra-
das no meio ambiente. Assim nasce o “eu”, que é, ao mesmo tempo, o
conhecedor e o conhecido.

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Confidências à Meia-Noite
São nove e meia da noite: o telefone toca insistentemente. Pau­lo,
cinquenta e dois anos, administrador de empresas, olha as horas no
relógio dependurado na parede. Apesar de cansado, após ter lecionado
todo o dia, ele se encontra animado e feliz. Resolve aten­der o chama-
do, imaginando: “Quem sabe, é ela.”

— Alô, é Paulo? Aqui é Cícero. Tudo bem?

— Cícero! Como vai? Sua voz sai baixa, demonstrando frustração.

— Mais ou menos. Todo dia, aqui no banco, meu chefe me aporri-


nha.

— Nas minhas aulas eu ensinei como lidar com chefes chatos. Você
tem usado o aprendido?

— Claro que sim. Mas com ele não adianta. Tudo que faço, ele acha
ruim.

— Mas não foi despedido, como imaginava. Ainda bem, não acha?

— Certo. Mas vou ser transferido. Até que gostei. E você, como vai?

— Tudo bem. Estou com sorte. Estes dias uma antiga amiga me…

— É? Você se lembra daquela moça que lhe falei? Ela canta no con-
junto em que toco.

— Sim. Lembro-me. Ela agora te largou, canta no coral, não é?

— É… Mas voltou… está impressionada com a técnica. Deu certo!


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— É… esta minha amiga… uma amiga dos tempos da facul…

— Eu, agora, é que não sei se a quero de volta ao conjunto. Vou le-
vando. Paulo, estou azarado. Preciso tocar, mas estou com dor na mão
direita. Fui ao médico e, para ele, eu não devo trabalhar com os dedos.

— Isso passa… é coisa simples. Você se impressiona com tudo. Exa-


gera qualquer dor ou mal-estar. A minha amiga morava aqui, há muitos
anos. Ela, ao contrário de você, sempre…

— Você acha que devo tirar licença médica? Conversei com um


amigo ligado ao diretor. Ele acha que devo cuidar de minha saúde em
primeiro lugar. Preciso emagrecer, estou com quinze quilos a mais.

— Puxa! É… precisa mesmo! Se você não for, pode piorar a situa­ção.


E esta, como disse, não anda nada boa. Não é? Essa minha amiga fez
um regime, emagreceu seis quilos. Ela só come verd…

— Preciso emagrecer, sim. Vou começar a fazer ginástica, comer me-


nos doces: gosto de chocolate. Parei de fumar há três meses.

— É um grande passo. Agora já pode começar a emagrecer. A minha


amiga gosta de alimentos naturais como…

— Se for para o interior, irei me sentir isolado. Nunca fiquei longe


da família. Sempre morei com minha mãe, moro com ela atu­almente,
após a separação com Fofó. Ficamos casados dois anos…

— Viver sozinho tem, também, algumas vantagens. Eu tenho pouco


medo da solidão… chego a gostar dela. Quando essa amiga me telefo-
nou, comecei a pensar…

— Acho que acabo me acostumando em Lavras. Não acha?

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— É evidente. Até logo. Um grande abraço.

Paulo não conseguiu falar nada do que desejava. Seu amigo, por
mais que ele tentasse, não quis escutar seu caso: a amiga, seu retorno,
sua conversa ao telefone. Tudo isso estava lhe atormen­tando. Tomou
um café requentado e pegou uma revista para ler, mas não conseguiu
prestar atenção em nada. Sua mente estava ocupada com Maria. Pen-
sou em ligar para ela. O telefone tocou novamente.

— Paulo, tudo bem? Aqui é Dario, seu sobrinho. Estou lhe tele­
fonando para comunicar o nascimento do meu filho, Mário.

— Que bom! Você casou-se? Não sabia, hoje em dia há muito des-
ses casamentos modernos. Mário é um bonito nome, parece com o
nome…

— Não casei. Estou morando com aquela minha namorada, Clara.


Você a conhece. É aquela que trabalha na Secretaria da Educação.

— Lembro… é uma alta, morena, bonita! Que tal a vida a dois?

— Mais ou menos. Sinto-me muito preso. Ela é ciumenta. Por causa


disso, tive que abandonar as outras. Sempre gostei de várias.

— É sempre assim. Se estamos sozinhos, reclamamos, se en­


contramos alguém, não suportamos. Amamos quem não nos ama e
somos amados por quem não amamos. É o nosso destino. Ela pa­rece
ser uma boa moça, deve dar certo. Eu, grande parte de minha vida,
fiquei só. A gente, pouco a pouco, vai se acostumando. Esses dias, uma
antiga amiga telefonou-me. Ela é bonita e…

— A vida a dois é até boa. Não me arrependi. Mas filho, ainda mais
recém-nascido, é um saco. Chora a noite inteira. Não durmo mais como

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antes. Fico bocejando no trabalho. Estou precisando de sua ajuda. Vi
em sua casa, no fundo da garagem, uma banheira velha para dar ba-
nho em recém-nascido. Você pode emprestá-la pra mim? Além disso,
preciso que você me indique um pediatra. Um que cobre barato, pois o
dinheiro está curto. Você elogia mui­to o que cuidou de seus filhos.

— Sim. Tenho, sim. A banheira está estragada, mas ainda pode ser
usada. Esta minha amiga contou uma história interessante e cômica do
seu primeiro filho e do primeiro banho que ela foi dar numa banheira
como…

— Preciso de seus conselhos e experiência para cuidar bem do meu


filho. Ele é do saco roxo. Macho como nós. Espero que seja paquera-
dor como sempre fui. Ah! Ia esquecendo-me, estou preci­sando de um
empréstimo. Não é uma grande quantia não. Apenas duzentos reais
para pagar algumas despesas extras que tive. Daqui a uma semana eu
te pago. Posso contar com você?

— Acho que sim. Vou procurar a banheira. Por falar em despe­sa, esta
minha amiga gastou uma nota…

— Posso passar aí amanhã para pegar a banheira e o dinheiro?

— Amanhã à noite. Dou aulas durante o dia. Como sabe, moro só


e faço tudo sozinho. Se arrumasse uma companhia, talvez as coisas
ficassem…

— Vou desligar. O pirralho está berrando e minha mulher está me


chamando. Até amanhã.

— Até logo.

Paulo continuava a pensar em sua amiga. Discutia consigo se de-


via ou não lhe telefonar. Precisava falar com alguém a respeito dela.

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Tinham sido amigos quando jovens. Maria, após estudar em Belo
Horizonte, foi para o Paraná, onde morava sua família. Mais tarde,
casou-se. Separou-se há cinco anos. Paulo a imaginava bo­nita, alegre e
espontânea, como era quando se conheceram. Ela sempre gostou de
ler, frequentar teatro e cinema. Talvez ainda esteja capaz de aguentar
e de manter, por horas, uma conversa animada. A corrente de pensa-
mentos de Paulo novamente foi in­terrompida pelo telefone, que volta
a tocar.

— Professor Paulo, aqui é sua ex-aluna Fátima. Desculpe-me incomo-


dá-lo às onze horas da noite. O senhor deve estar cansado… mas acon-
tece que preciso conversar com alguém como o senhor. Como sabe,
larguei meu marido há quase um ano. A princípio, fiquei feliz por ficar
livre do Haroldo. Entretanto, a cada dia mais, sinto-me terrivelmente
só. É muito ruim para uma mulher não ter um homem para conversar,
sair, jantar fora ou mesmo transar. Es­tou desesperada. Ontem eu o vi.
Ele caminhava junto com uma mulher. Não sei quem é: sei que é mais
feia e mais velha do que eu. Mulher observa muito as outras. Além dis-
so, é muito magra para meu gosto. Se for uma namorada, ele escolheu
mal. Mas diabo! Mesmo assim fiquei com ciúmes. O que devo fazer
para ficar livre do fantasma do Haroldo?

— Isto acontece, Fátima. Toda separação é parecida. A pes­soa, ao se


separar, lembra-se das coisas ruins que aconteceram e, portanto, fica
alegre e eufórica. Após um certo tempo, as coi­sas mudam. Começa a
lembrar também dos bons momentos que passaram juntos. Aí a pessoa
fica triste. Eu, como você sabe, sou separado há seis anos. Creio que já
me acostumei um pouco com a vida longe da ex-mulher e filhos. Mas,
outro dia, recebi um tele­fonema de uma antiga amiga. Ela contou-me…

— É! O senhor compreende mais do que minhas amigas esse tipo de


problema. Tem uma experiência pessoal, sabe como é difícil viver só. O
senhor não sente falta de uma companhia feminina de vez em quando?

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— Claro. Todos sentem. Mas é difícil encontrar a pessoa certa para
cada um. Não é que uma seja melhor do que outra. As pesso­as são di-
ferentes e temos dificuldades em conviver com diferen­ças. Eu, pessoal-
mente, acho difícil. Essa amiga até que parece ter ideias parecidas com
as minhas. Quando ela telefonou-me, conver­samos…

— Concordo. Já tentei algumas paqueras após o término do meu


casamento. Mas os homens que encontrei não me agradaram. Suas
conversas não me tocaram. Começo a conversar com eles e lembro-
-me do Haroldo. Faço imediatamente comparações. Ele é um ho­mem
inteligente, culto, com uma grande cabeça, professor também como o
senhor. Um chato, às vezes. Ah! Você o conhece.

— Sim, conheço. Participei com ele de uma mesa redonda. Ele é sa-
gaz. Parece-se com a minha amiga. Ela é inteligente e culta. Há…

— É? Também encontrei um ex-namorado. Ele foi meu namora­do an-


tes de conhecer Haroldo. Gostava demais dele. Naquela épo­ca, gostava
muito do papo dele. Brigamos por nada. Agora foi uma decepção. Não
sei se eu melhorei ou se ele piorou.

— Isto acontece. Antes do Haroldo, você não tinha um crité­rio tão


sofisticado para avaliar pessoas. Qualquer um servia. Agora fica difícil
encontrar um parecido. Comigo aconteceu diferente. Só hoje é que
vejo que esta minha amiga é uma raridade. Comparan­do-a com diver-
sas que tenho encontrado, percebo que ela…

— Haroldo tem muitos defeitos. Eu sei disso. Todos nós temos de-
feitos. Eu também não sou perfeita. Mas eu preferiria morar com ele,
a viver como estou. Não consigo dormir quando penso nele. E ele era
bom também para outras coisas, não era bom só de con­versa, não.

— Entendo bem seu problema. Estou vivendo algo parecido com


esta amiga. Desde que a reencontrei…

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— Professor Paulo, tomei muito seu tempo. Desculpe-me mais uma
vez. Gosto demais do senhor, de suas ideias e conversa. Elas me fazem
tão bem! Depois, quando tiver na fossa outra vez, volto a lhe telefonar.
Boa noite.

— Boa noite. Telefone sempre que precisar. Seus problemas são mui-
to interessantes, lembram os meus…

— Até a próxima.

Paulo, apesar de tudo, ainda continuava feliz, mas engasgado. Auto-


maticamente, pega o telefone para discar para Maria. Talvez ela o escu-
te. Já é meia-noite. “Já é tarde, já deve estar dormindo. Ela levanta-se
cedo para trabalhar”… Paulo desiste.

Ele tentou, o dia inteiro, passar para outras pessoas sua vivên­cia e
alegria. Ninguém se interessou por seu caso. Ninguém o ou­viu. Cada
um queria falar acerca de seus problemas particulares, dando impor-
tância às suas misérias e não às dos outros.

Paulo, impotente diante do seu fracasso em comunicar sua ale­gria,


procura uma última alternativa, um ouvinte mais obediente, capaz
de prestar atenção ao seu relato, sem ter outros interesses. Tenso,
após tomar um rápido banho morno, penteou seus cabelos, já ralos.
Assentou-se comodamente diante do espelho que cobre toda a parede
lateral da sala de visita. Para não ser interrompido, desligou o telefone.
Postado diante do espelho, tendo à mão uma taça de seu vinho preferi-
do, começou a falar para sua própria ima­gem refletida no espelho:

— Quando eu ainda era estudante de Administração de Empre­sas,


conheci uma moça linda, alegre e inteligente por quem me apaixonei.
Ela era, antes de tudo, capaz de ouvir-me. Apesar de nunca brigarmos,
caminhamos cada um para seu lado. Não deixa­mos pistas… vinte anos
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depois, como por milagre…

Paulo, às vezes sorrindo, às vezes tendo lágrimas nos olhos, con­


tinuou a contar sua história para si mesmo diante do espelho imó­vel
e acolhedor. Do outro lado, sua imagem refletida parecia feliz e ouvia
tudo atenta e seriamente. Cada emoção existente no rosto de Paulo
transmitia igual sentimento na sua representação. Esta não demonstra-
va deboche, ironia ou enfado. A atitude simpática da ima­gem favorecia
um relato tranquilo, sem temores. Sua figura refletida no espelho, ao
contrário dos outros ouvintes, respeitava não só a narração, como as
pausas, O reflexo no espelho não interrompeu, nem uma vez sequer,
seu relato, prestava atenção a cada detalhe.

Aos poucos, foi relaxando. Tranquilo e feliz, Paulo pôde con­tar sua
longa história de amor. Uma história vivida por ele, que só interessava
a ele, talvez, quem sabe, também a Maria. Seu relato, carregado de
lembranças alegres, terminou às três horas da madru­gada daquela
quinta-feira abafada. Após ter completado sua histó­ria, Paulo foi deitar-
-se e, naquela noite, conseguiu dormir aliviado.

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Emoções, Sentimentos e Memória
e Indivíduo: Informações resumidas
Um ser humano pode sentir, pensar, aprender, criar, porque o seu
programa biológico assim o dotou, conjuntamente com a capacidade
para sofrer alterações programadas conforme interações com o meio
ambiente.

Os sistemas, estruturais e químicos, que integram as emoções, por


via nervosa ou sanguínea, funcionam continuadamente. Sabemos, às
vezes mais claramente, outras vezes, nem tanto, se estamos excitados,
famintos, felizes, raivosos, em alguma extensão. Com frequência, não
damos ouvidos para essas importantes informações fornecedoras de
pistas para sabermos “qual caminho devemos tomar”, como perguntou
Alice ao gato.
Dopamina

É provável que a dopamina seja o neurotransmissor mais antigo


existente no organismo de vários animais. Acredita-se que ele apare-
ceu há, aproximadamente, um bilhão de anos. As idéias atuais colocam
o sistema dopaminérgico assentado durante a expectativa de algo, isto
é, a busca de alguma coisa pretendida, entre elas, o término de uma
tarefa não desejada, contar um caso, assistir um jogo etc.

A dopamina é liberada nas sinapses neuronais quando o animal sai à


procura de alimentos, sexo ou outra coisa pretendida. Mas ela é libera-
da ainda quando a mente representa – ainda sem agir – o que se dese-
ja alcançar, ou seja, quando criamos uma visão interna do que preten-
demos. Assim, ela prepara o organismo quando eventos possíveis são
procurados ou imaginados, ou seja, uma conduta virtual ou potencial.

Os sentimentos fazem parte da vida diária das pessoas. Todos os pro-


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cessos da cognição e da motivação, possivelmente, acham-se interliga-
dos e ou comandados pelos estados emocionais experimentados pelos
indivíduos. A produção mais acentuada de noradrenalina e de dopami-
na não só elevam o afeto positivo, mas também orienta nossa maneira
de pensar, aumentando e melhorando nossa criatividade ao solucionar
problemas. Além disso, torna mais interessante e agradável o envolvi-
mento com pessoas e eventos.

O abuso de algumas drogas acha-se relacionado à ativação de neuro-


transmissores: a cocaína e a anfetamina reproduzem os efeitos da do-
pamina e da noradrenalina, aumentando os níveis de uma e de outra; a
heroína e a morfina aumentam os níveis de endorfina.

As células que liberam dopamina do cérebro respondem mais às


recompensas não previstas, portanto, quando o agrado é esperado, a
dopamina liberada é menor, logo, o afeto positivo – entusiasmo pela
ação – deverá ser maior quando há um ganho inesperado. Um relacio-
namento – ou emprego – altamente cobiçado provoca maior prazer
no seu início (maior liberação de dopamina). Entretanto, aos poucos,
ele se torna “sem graça” (menor produção de dopamina), às vezes, até
chato.
Neurohormônios Peptídeos

As emoções são ativadas pela excitação dos circuitos nervosos dos


neurotransmissores e, também, de peptídeos (um segundo sistema de
neuroquímicos). Alguns peptídeos – há centenas deles – merecem uma
atenção particular com respeito às emoções, entre eles, as endorfinas
e a oxitocina.

Os peptídeos são substâncias químicas que apareceram antes do


surgimento dos neurônios; através de mutações, eles sobreviveram
não só no sistema nervoso dos animais mais elevados, mas também,
nos insetos, minhocas, lombrigas e, além disso, em algumas plantas,
leveduras e bactérias.

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Alguns peptídeos: Oxitocina

A oxitocina é produzida no cérebro (núcleos supra-óticos e parvoven-


tral do hipotálamo), nos ovários e testículos, tendo importante ação na
conduta de afiliação (ligação da cria com o criador ou mãe). Sua produ-
ção propicia, facilitando, a resposta sócio-sexual nos répteis, pássaros
e, também, em todos os mamíferos. Liberada durante o parto, a oxito-
cina auxilia a contração uterina e produção do leite materno. Além dis-
so, ela é liberada durante a estimulação dos órgãos sexuais (mamilos,
clitóris, glande) e também durante o orgasmo masculino e feminino.

A oxitocina tem sido classificada de “selecionador” ou “estabilizador”


das preferências amorosas. Quanto mais o namorado fica apaixonado,
mais aumentam os níveis de oxitocina do seu organismo e, também,
mais será a sua atração e apego ao companheiro provocador do bem-
-estar e calma sentida.

Um beliscão ou chute, ao aumentar os níveis de cortisol, prepara


o animal ou pessoa para atacar ou fugir; uma leve e macia escovada
reduz os efeitos ruins do beliscão – efeito antiestresse – associado ao
aumento de oxitocina. Um sorriso nos tranquiliza devido a maior pro-
dução de oxitocina cerebral.
Endorfina

A endorfina (morfina endógena) teve esse termo cunhado em 1970


como uma morfina produzida pelo organismo. Os opiáceos endógenos
– cadeia de 91 aminoácidos – são analgésicos poderosos, mas também
produtores de euforia e de sensação de paz. É liberada pelo organis-
mo em maior quantidade diante de pessoas que nos são simpáticas e
agradáveis.

No útero materno o feto está submerso num líquido contendo um


alto nível de endorfina, por isso, podemos imaginá-lo tranquilo, sem
dores e, talvez, eufórico. Ao nascer, ocorre uma queda repentina da en-

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dorfina existente, causando um sofrimento para a mãe e filho. Os altos
níveis são recuperados pelos contatos e comunicações mãe/filho.

A ligação mãe e filho é uma experiência extremamente agradável,


por isso, o recém-nascido tende a procurar novos contatos pelo resto
da vida, por serem as ligações – nem sempre são – uma fonte de eufo-
ria e paz.

A separação, ao contrário da ligação, é aversiva e dolorosa; os ma-


míferos e aves recém-nascidas, diante dela, emitem sons sinalizando
sofrimento. A região cerebral associada a essa chamada por socorro é
rica em opióides endógenos, talvez, oxitocina. Os “choros” implorando
o cuidado maternal-paternal associam-se a uma menor produção de
opiáceos endógenos nas regiões cerebrais ricas desses peptídeos (sep-
to e cíngulo). As vocalizações são reduzidas com aplicação de pequenas
doses de morfina.

Geralmente, uma pessoa procura a outra para receber, através dela,


sua cota de endorfinas ou oxitocina, visando a tranquilidade e euforia.
Quando ajudamos alguém, aumentamos nosso estoque dos benditos
neurohormônios e, também, ficamos mais calmos, satisfeitos e alegres.

Numa conquista – ou amizade – somos motivados a agradar o outro,


se possível, ultrapassar o esperado por ele; imaginamos receber dele,
por isso, a estima e o amor. Esse motivo social está entre as razões mais
fortes para que o ser humano – ou outros animais – aja em direção ao
outro.

Os apaixonados “doidamente” devem estar nadando nas endorfinas


e na oxitocina; felizes e tranquilos, dando pouca importância a outras
atividades, pois recebem suas “drogas” através do escolhido/amado.
Essa mesma conduta é observada entre os viciados em jogos, trabalha-
dores ou ginastas compulsivas etc., ou seja, atividades que aumentam
os neurohormônios que produzem prazer e calma.

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Uma paixão intensa associa-se a uma baixa liberação de serotonina;
esta condição, por sua vez, leva o indivíduo a se tornar impulsivo e
obsessivo (pensar sem parar na amada). Entretanto, após os primeiros
encontros, os níveis de serotonina aumentam. Para tristeza dos apaixo-
nados, o namoro pode mesmo terminar ao diminuir a impulsividade e
obsessão.

Nem tudo é um prazer continuado; há um freio que impede o orga-


nismo de continuar a gozar indefinidamente. Uma comida saborosa
torna-se, depois de algum tempo, indigesta; uma companhia atraente
tende a se tornar chata após alguns encontros. O prazer sentido, seja
devido à degustação do alimento, da relação sexual ou do interessante
bate-papo etc., torna-se, com o tempo, cansativo e aborrecido. Ocorre
que o próprio organismo, após a liberação dos neuro-transmissores
que nos provocaram prazer, libera outras substâncias que diminuem
as ações dos primeiros (antagonistas das substâncias liberadas). Desse
modo, há uma inibição do prazer inicial e o que era bom torna-se ruim.

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Comportamento

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Tenha Coragem de ter Medo
O medo é universal, atinge todos os homens e os ani­mais chamados
de irracionais. Dele ninguém escapa. Trata-se de uma emoção carac-
terizada por uma apreensão, com comprometimento físico, mental e
social. O indivíduo que nele se encontra, apresenta falta de ar, palpita-
ções, tremores, músculos fracos, dificuldade para pensar, falar e agir,
pois sua criatividade diminui. A pessoa torna-se “abobada” no momen-
to, agindo aquém de suas possibilidades nor­mais. Alguns ficam parali-
sados durante a crise de medo.

A palavra medo tem sido usada num sentido muito geral, abran­
gendo uma série de quadros que têm origens, significados, evoluções
e tratamentos diferentes. O uso do termo “medo” no sentido geral
produz confusões e discussões, pois muitas vezes os envolvidos nes­tas
falam de entidades diferentes.

Tentarei esclarecer algumas dúvidas. Psicológica e mesmo fi­


losoficamente, o termo “medo” tem sido usado no sentido restrito
como uma emoção negativa ou desagradável, com as características
já descritas, ocorrendo em todos os animais quando estes se sentem
ameaçados por um perigo real ou imaginado. A conduta natural dian­
te do medo será o animal ou o homem fugir do fator causador deste
e, caso tenha sucesso, haverá o término da emoção desagradável.
Al­guns exemplos: percebo algo caminhando nos meus pés descalços,
olho e vejo que se trata de um escorpião. Sinto medo e cuidadosa e
rapidamente livro-me dele. Ao atravessar uma rua, vejo surgir inespe­
radamente um carro em disparada, corro e me salvo do acidente ao
alcançar o passeio. Termina o meu medo.

Fobia: – Há um tipo de “medo” que tradicionalmente tem re­cebido


por parte dos psiquiatras o nome de “fobia”. Nesta, a reação emocio-
nal é semelhante à descrita para o medo, mas o objeto provo­cador da
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emoção é praticamente inofensivo ou neutro.

Um indivíduo percebe algo caminhando em seus pés descalços,


vira-se e vendo que se trata de uma barata, corre e grita apavorado.
A barata, por si só, não é um inseto ameaçador. Na fobia, o medo é
subjetivo, isto é, fabricado pela mente de quem o tem a partir de um
estímulo determinado, que é interpretado pelo fóbico como ameaça­
dor. O fóbico, muitas vezes, utiliza as palavras nojento, asqueroso e
outras, para classificar e justificar a emoção sentida. Tanto na fobia
como no medo o indivíduo tenta escapar da ameaça ou do perigo real
ou subjetivo.

Doença do Pânico: – Na psiquiatria existe uma doença que tem


recebido o nome de “Doença do Pânico”. Trata-se de um quadro clínico
“parente” do medo e da fobia, mas com alguma diferença. O fator que
desencadeia a reação emocional de pavor no pânico, com frequência
não exige estímulo externo denominado ameaça­dor. A pessoa acome-
tida da doença do pânico pode acordar à noi­te, (sem estar sonhando),
ou estar vendo um programa na TV e, repentinamente, sentir, de forma
intensa e duradoura, as reações descritas acima para o medo, com
sensação de que morrerá. Não havendo objeto externo identificável,
ele não poderá fugir. Pode­rá, posteriormente, ficar condicionado, isto
é, passar mal diante de situações ou objetos que eram neutros (não
produziam emoções), mas como a crise foi desencadeada num certo
lugar (sala de TV, usando uma camisa azul), a pessoa passa a sentir-se
mal nessas cir­cunstâncias. São comuns frases como: “Não posso passar
no centro da cidade, me provoca um malestar”, “Quando escuto essa
música fico triste”, etc. Em todos esses casos, ocorreu o condiciona-
mento da pessoa. O contrário existe: ficar animado ou alegre diante de
um fato ou lugar.

Ansiedade: – O quarto grupo, com as características do “medo”,


atinge todos os mortais. A ansiedade faz parte de todos os quadros clí-
nicos, tanto da psiquiatria como da chamada, erroneamente, me­dicina

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orgânica. Quase sempre, quando se utiliza o termo popular “nervosis-
mo”, estamos nos referindo à ansiedade no sentido que des­creverei.

O estudo da ansiedade não é propriedade apenas dos médicos, psi-


cólogos e sociólogos, mas também dos filósofos, poetas, literatos, ou
seja, de toda a humanidade. Ansiedade é um estado emocional, agudo
ou crônico, de apreensão, diante do possível resultado nega­tivo de
uma viagem, de um negócio, do namoro, de não dormir esta noite, etc.

Ansiedade, liberdade e cultura de massa – Esta ansiedade que aqui


discuto se liga, intimamente, ao conceito de “liberdade para” no sen-
tido de Erich Fromm. O indivíduo, através de sua consciência, visualiza
uma possibilidade de ação ou de mudança, na qual ele passa de um
estado já atingido e bem protegido para um desconhecido, ainda não
alcançado, incerto ou não-familiar. Ao contrário do medo no qual o
indivíduo foge, neste tipo de ansiedade a pessoa a procura, enfrenta
ou caminha junto dela, para alcançar o propósito idealizado, para se
sentir tranquilo. É uma emoção exclusiva do homem: envolve consciên-
cia, hipóteses e previsões para agir ou não. Trata-se de uma ansiedade
produtiva, isto é, leva a pessoa ao crescimento.

A outra ansiedade, a improdutiva, leva a pessoa à “não-ação”, provo-


cará uma ansiedade neurótica ou patológica, ligada ao sen­timento de
culpa pela não-realização, pelo não-crescimento ou ex­pansão de si. De-
sejo esclarecer o leitor que, em alguns momentos, a “não-ação” pode
constituir um propósito da pessoa na sua expansão. A criança procura,
a qualquer preço, andar, apesar do risco de cair, para desenvolver-se e
suplantar uma fase da sua jornada. Mais tarde, quando entra no pré-
-primário, ao desligar-se de sua família, fica ansio­sa, chora, mas cresce
ao se expandir e vivenciar novos modos de ser. O primeiro emprego,
o primeiro namorado, o afastamento da família protetora, todas cons-
tituem crises de readaptações, nas quais a pes­soa passa de uma fase
mais pobre de desenvolvimento, para uma mais complexa. Esta irá
exigir-lhe maior habilidade e competência. Quanto mais o indivíduo for

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capaz de suportar essas ansiedades, mais ele se desenvolverá.

Muitas pessoas ainda pensam acerca das emoções como especu­


lavam os grandes filósofos anteriores ao século XVII. Spinoza acredita­
va que a ansiedade podia ser abolida por meio do raciocínio lógico – a
supremacia da razão – ou da matemática.

Para ele e outros, a ansiedade e o medo eram emoções negati­vas e


vergonhosas. Esta falsa crença tem provocado consequências graves: a
eliminação da ansiedade produtiva paralisa o crescimento individual.
Ao escapar da ansiedade produtiva a pessoa sofrerá, inevi­tavelmente,
a ação da ansiedade neurótica devido ao não-crescimento do indiví-
duo.

Os governos totalitários, a mídia em geral, as religiões e outros hip-


notizadores, frequentemente procuram narcotizar e paralisar os indiví-
duos. Para isso esforçam-se para transformá-los em “grupos de felizes”,
incentivando-os a realizarem, unidos, ações tolas e infantis. Esses
grupos tendem a aniquilar os sistemas individuais, em proveito de um
sistema grupal criado por dirigentes fora do grupo.

As pessoas têm duas alternativas com respeito às suas vidas: cres-


cerem, suportando uma carga de ansiedade ao se projetarem para o
ainda desconhecido, isto é, para um futuro incerto do vir-a-ser, ou per-
manecerem estáveis, sem se arriscarem ou sem propósitos pró­prios.
Nesta segunda opção, livram-se da ansiedade criadora ou sadia, mas
passam a apresentar sentimentos de culpa e tédio.

Têm sido criadas crenças e religiões diversas, ídolos, heróis, mi­


tos naturais e artificiais, para apaziguar e narcotizar esta multidão de
necessitados de uma orientação externa, já que não desenvolveram
uma interna. A ação da cultura fabricada tem fornecido paz e calma ao
indivíduo contra o sentimento de nulidade, mas, ao mesmo tempo, im-
pede o aparecimento da ansiedade produtiva, ou seja, do impulso que

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força o indivíduo ao crescimento. Ao decretar sua morte como sistema
individual, dando-lhe uma orientação externa, nossa cultura produz no
alegre indivíduo uma emoção inocente, pueril, por fazer parte de um
sistema maior, que nunca é questionado, aceito com fé, por pertencer
a este ou àquele grupo: “Sou membro do fã-clube de Emilinha”, “Sou
médico”, “Sou torcedor do Atlético”, “Sou sócio do PIC”, “Lavo-me com
o sabonete Y, o que me faz ser igual aos artistas de Hollywood”, “Moro
na zona sul da cidade, janto nos melhores res­taurantes e viajo pela…”.

Os mitos são seguidos cândida e fielmente por grande parte da


classe média. Esta, uma vez hipnotizada, acompanha as mais estranhas
sugestões e prescrições dos seus donos. Aquele que ousa escapar do
cabresto é marginalizado do grupo ideológico, ou mesmo internado
como louco nos hospícios.

O seguimento hipnótico das ideologias míticas, consumidas por qua-


se todos atrás dos modismos, das últimas novidades, da úl­tima casa
noturna aberta, buscando a relação sexual mais moderna e com a mais
recente aquisição da boate, confere-lhe o direito de seguir sua traje-
tória no mundo, sem culpa e ansiedade, sem reclamar e questionar. A
massa que se submete ao novo modelo do penteado seguirá, talvez um
pouco mais animada, o novo político salvador de vidas perdidas.

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Como era Verde meu Vale
Muitos jovens, outros nem tão jovens, anseiam ter a vida contada na
Bíblia. Esses moços ambicionam no futuro, nada mais, nada menos, do
que o retorno ao mundo “bom, ordenado e belo”, imaginado e sonha-
do descrito pelo mito do paraíso.

A rebelião dos jovens, que combate o estabelecido, explode ocasio-


nalmente, conforme o tempo, o vento e tempestades passageiras, nas
entressafras das suas “re­voluções”. Não ocorre um questionamento
constante dos costumes por parte da juventude. O mal para a juventu-
de sonhadora, pura e ingênua, é a sociedade e a vida atual. A infelicida-
de, para eles, está ligada à ordem social vigente formulada pelos seus
pais.

Os mais idosos já desistiram, há muito, dessa luta inglória: transfor-


mar a atual sociedade imoral e corrupta numa decente e ordeira. A ju-
ventude sonha e luta, mas não de maneira eficaz, para salvar o homem
“do mal do século”, transformar a história humana num conto de fa­das
com um final feliz.

Esses loucos utópicos – deve ser lembrado que todos nós já vivemos
nossa loucura numa certa idade – expres­sam de vários modos, con-
forme a época e a cultura, sua atração pelo paraíso: o uso de roupas
grosseiras, des­botadas e rasgadas de fábrica. Nudez diante dos outros,
principalmente de uma câmera de TV ou de uma máquina fotográfica.
Exibição de coxas ou de seios entre as mu­lheres, para mostrar o proibi-
do pelas regras dos ordeiros e conformados. Badernas, gritos, urros e
destruição du­rante jogos, formaturas, shows, missas, sermões e posse
de presidente da república. Colônias de nudistas para ho­menagear e
defender o “naturalismo”, numa praia orna­mentada pela cultura de
massa. Ato sexual nos teatros, filmes e praças, para combater o mora-
lismo tolo e ineficaz dos gagás.
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Todas essas exibições teatrais, histéricas e mistura­das a rituais reli-
giosos ou pagãos, provocam, em seus exe­cutores, uma excitação deli-
rante: orgasmos demorados e aplausos da grande massa entusiasmada
enquanto espera o retorno à Terra prometida. Os outros seres, surdos
aos berros dos jovens, observam, afastados e incrédulos, o extraordi-
nário entusiasmo enxertado à simplicidade hila­riante. Para os jovens,
lá, muito longe, no alto, bem aci­ma de nossas cabeças de homens e da
montanha, no céu azulado e estrelado, anjos decentemente enfeitados
da nudez divina e primitiva, de mãos dadas, cantam e bailam alegre-
mente, girando em volta do compenetrado, honrado e sempre vigilante
Deus.

Entusiasmados com essa fantasia maravilhosa, em alguns lares desse


mundo afora, pais não muito jovens, inoculados por essa pregação,
passaram a cultivar o ba­nho coletivo. Também em algumas praias,
como ocorre no paraíso, desfilam homens, mulheres e crianças des-
pidas. Rapazes e moças desoladas exibem, diante da natureza viva, a
natureza morta: seios e pênis tristonhos e abando­nados, órgãos espe-
rando por algum milagre dos que por ali passeiam.

Semelhante ao mito da nudez e do paraíso, de tem­pos em tempos


nasce o mito dos protestos estudantis cô­micos. Estes, organizados
pelos exploradores, vestidos de cordeiros explorados, combatem com
seus discursos in­flamados o poder que eles, sem notar, exibem: roupas
de marca, palavras bem escolhidas e reveladoras de erudi­ção, corte
de cabelo moderno e apurado, relógios, brincos e outras joias de alto
custo. Seu poder, exposto através das informações sem-palavras, mos-
tra claramente existir uma classe estudantil bem diferente da outra, da
desclas­sificada logo ao nascer. Frequentemente, através de grita­rias em
público, de algumas pedradas medrosas e cuida­dosas, eles atacam o
pobre policial que pertence à classe que, hipocritamente, os líderes, do
lado de cima do limite, afirmam defender. Esta é a luta deles: alcançar,
através de ações dificílimas, perigosíssimas, carregadas de emoções

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intensas, um mundo melhor ainda para eles, ou seja, o paraíso para um
grupo especial e já escolhido.

Durante essas lutas coletivas, desordenadas e cômi­cas, transforma-


das em exibição teatral na praça pública, jovens fantasiados, tendo as
caras pintadas com esmero, com roupas típicas plantadas em desejos
inconfessáveis de cada um, gritam, por instantes, com muita raiva,
en­quanto esperam a hora de ir jantar e beber no restaurante chique.
Ninguém sabe com clareza o que se pretende, a favor de quê e contra
quê se luta.

Todos sabem que há um protesto contra alguma coi­sa. Rebelam-se,


talvez, contra eles mesmos, pelas prer­rogativas que uns poucos têm
sobre a maioria, pelo poder que detêm, pela arrogância de um lado e a
humildade do outro. Reclama-se contra o atual em todas as áreas.

Tudo está errado! Exige-se um futuro melhor. Entre­tanto, o que é


este futuro melhor? Nenhum deles sabe, nem nós, os mais velhos.
Tudo é vago, distante demais, impossível de ser até mesmo imaginado,
representado e muito menos verbalizado, o que eles mais fazem. Nin­
guém consegue definir o que se quer, nem mesmo os lí­deres dos movi-
mentos. Quase sempre a maioria deles fez – ou faz – parte e defendeu,
com o mesmo vigor, o “outro lado”, o lado do “estabelecido”, o agora
“combatido” com veemência.

Este mundo imaginário e buscado, principalmente pe­los jovens


sonhadores e rebeldes, é nebuloso. Se não se conhece o fim desejado,
logicamente não será possível sa­ber o meio para alcançá-lo. Nota-
-se que eles desejam um retorno ao mundo antigo, calmo e ordeiro,
sem lutas, com nudez e frutinhas naturais para serem saboreadas ao
som singelo de órgãos celestiais. Entretanto, os jovens são, ao mesmo
tempo, apaixonados pelo mundo natural e atraídos pelo moderno, pelo
desperdício do dinheiro na compra dos aparelhos de som e imagem
ultrassofisticados, pelo uso das últimas novidades em bebidas e drogas

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colocadas no mercado, tudo isso não tão natural assim.

Muitos discursos, artigos e livros dirigidos aos jovens buscam des-


pertar crenças antigas, plantadas firmemente pelos pais quando eles
eram crianças. Nós todos as temos. Essas histórias falam acerca de um
mundo imaginário or­deiro, cheio de homens bons e honestos, igual-
dade e liber­dade para todos. Infelizmente, isso era uma mentira que
nossos pais ouviram de seus pais e, de boca em boca, a história, teimo-
samente, continua a se alastrar. Este mundo imaginado nunca existiu e
nem existirá.

A juventude que procura alcançar essa utopia ainda acredita nela,


mas, à medida que se torna adulto, o sonho vai se acabando. Os jovens
receiam transformar-se em adultos, perceberem que o aprendido não
é o experimen­tado. Crescer, para a juventude, significa tornar-se igual
aos pais, assumir seu lugar nessa bagunça total, na farsa e corrupção
desse estranho mundo habitado por anjos e demônios, metade céu,
metade inferno.

Talvez o sonho máximo desse grupo fosse viajar para o paraíso. Caso
o combustível não desse, pelo menos até Marte, no novo ônibus es-
pacial a ser construído após o úl­timo acidente, ou, talvez, na nave dos
ETs. Para fazer essa viagem fantástica, “numa boa”, “de repente”, “com
certe­za”, “né”, e junto com toda a patota, todos vestiriam um uniforme
superchique e moderninho. Bem, quando lá che­gassem, prontamente
eles iriam se despir. Após cada um “ficar” rapidamente com os outros,
eles comeriam, abra­çados, as frutinhas celestiais distribuídas por São
Pedro, dançando e cantando, diante do som “louco” produzido por
uma banda supermoderna e, evidentemente, tendo todos seus compo-
nentes drogados com cogumelos do céu.

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O Modelo da Lata de Lixo
Todos vocês conhecem a “lata de lixo” mas prova­velmente não
conhecem o “Modelo da Lata de Lixo”, um termo criado por alguns
cientistas desocupados. Eles falam que em qualquer sociedade sem-
pre se encontram pessoas que discutem e brigam por certas ideias, as
mesmas de sempre, anos após anos.

Conforme os criadores do Modelo da Lata de Lixo, ao se iniciar uma


discussão em mesas redondas, programas de TVs e rádios, sempre
aparecem, em todos eles, certos problemas que são os mesmos, várias
vezes repetidos, os quais dominam a atenção de todos no debate. Eis
alguns exemplos desses assuntos que “enchem” os programas, bem
como a fala dos debatedores: “Precisamos estudar melhor os discos
voadores”, “Com o imposto único o País irá retomar o crescimento”,
“Devemos combater as drogas a qualquer preço”, “Nosso problema é
a infância desassis­tida”, “O problema do Brasil é a fome”, “Precisamos
acabar com a impunidade do país”, “O mal é o aumento do desem­
prego”, “Devemos aumentar o lazer”, etc. O leitor lembrará de muitos
outros problemas importantes para serem dis­cutidos com ardor.

Como é difícil pensar e trabalhar com muitas ideias ao mesmo tem-


po. Sendo muitas delas contraditórias, ao ado­tar o modelo da “Lata
de Lixo”, as discussões, bem como os problemas, se tornam simples
e fáceis de serem resol­vidos. Através desse modelo, todos os grandes
problemas são facilmente equacionados na mente de seu defensor e,
mais ainda, sua vida. Mesmo quando o argumento não se encaixa no
discutido, os debatedores, seguros e tranquilos, lutam tenazmente pela
importância das brilhantes ideias.

Este modelo é construído da seguinte maneira: ao nascer, a criança


começa a adquirir um sentido do “bom” e do “mau”, do “certo” e do
“errado”, inicialmente através da observação da conduta dos compa-
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nheiros mais velhos, quando ainda não aprendeu a linguagem e, muito
menos, o raciocínio lógico. Um pouco mais tarde, são aprendidos os
valores e condutas, principalmente com o grupo de amigos e com os
“ensinamentos” da mídia. Durante a puberdade e a adolescência, o
aprendizado de valores será através da imitação dos companheiros de
grupo. Para alguns, esse é o período mais importante e crítico para a
aquisição de julgamentos do “certo” e “errado”. Depois, seus juízos de
valor vão se fixando cada vez mais através das reações cordiais ou hos-
tis com pessoas importantes para o com­portamento do agente.

Alguns dos valores defendidos com ardor, uma vez as­similados e


armazenados, passam a fazer parte dos objeti­vos que devem ser segui-
dos e dos julgamentos realizados pelo indivíduo. São eles que forne-
cem o sentido para a vida de cada um. Muitos dos “tem de ser”, “devo
agir” e “tinha”, que proferimos constantemente para nós mesmos e
para os outros, nem são normas de conduta definitiva, nem são uni-
versais, isto é, para todas as culturas. Os valores são apenas objetivos
individuais, temporários, seguidos por uns, rejeitados e amaldiçoados
por outros, variando con­forme as diferentes culturas e subculturas,
podendo tam­bém ser adotados como meios para outros fins. Por isso,
os valores podem, e devem ser, de fato, questionados.

Como temos diversos “professores”, cada um deles com uma opinião


própria, aprendemos valores-fins e meios antagônicos. Assim, de um
lado, como objetivo, aprende­mos que devemos respeitar a professora,
por outro lado, avaliamos que é agradável conversar na sala de aula
sobre a nova namorada com o amigo. Aprendemos que devemos ser
honestos, mas também que precisamos passar de ano e, como não
estudamos, temos que colar. Ao escolhermos uma conduta contendo,
ao mesmo tempo, valores defen­didos opostos, podemos, às vezes,
ficar confusos. Assim, agrada-nos fumar, mas desejamos ter boa saúde,
não que­remos ser obesos, mas a carne gordurosa está uma delí­cia.
Queremos viajar, mas precisamos trabalhar mais ainda – o que não nos
agrada – para ter um dinheiro sobrando, desejamos a vida com uma

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companheira compreensível e carinhosa, mas detestamos as limitações
impostas pela vida a dois ou a três.

Alguns valores podem tomar conta de nossos objeti­vos ou meios a


vida inteira, como nos exemplos: aos de­zoito anos Pedro decide ser
engenheiro e torna-se enge­nheiro até a morte, José decide casar-se
aos 28 anos com Marta, a mulher dos seus sonhos. Poderá ficar para o
resto da vida preso a ela e aos filhos nascidos.

Diante de tantas alternativas, pergunta-se:

“Que caminho devo tomar?” Muitos só enxergam e têm interesse e


certeza da existência de um só objetivo e caminho para se chegar a ele,
sendo essa preocupação solitária que passa a coordenar, dirigir e a for-
necer signifi­cados para a vida. Os que fazem parte desse grupo podem
passar a vida fazendo campanhas contra o aborto. Outros se preocu-
pam com o controle do armamento nuclear.

Alguns lutam a favor do estudo da homeopatia nas Faculdades de


Medicina. Outros lutam em prol da vida das cobras. Para esses, o voto
deve ser dado nas eleições para o candidato que defender esse ou
aquele problema parti­cular: basta um deles, desde que se encaixe no
“Modelo da Lata de Lixo”. Adotando essa posição, o mundo fica fácil de
ser entendido, explicado e manuseado.

Felizmente, para a felicidade de todos, algumas vezes um problema


pode ser resolvido sem atrapalhar o outro. É possível tapar os buracos
da Rua da Esperança fazendo, ao mesmo tempo, um mata-burro na
Rua dos Sofredores e, também, prender os ladrões de galinha do Lam-
bari. Coro­ando tantas obras, criam-se mais impostos e, como conse­
quência, aumenta-se os salários dos nobres e digníssimos deputados.

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AIDS: Você tem medo da Doença
ou do Doente?
Há dias, durante cerca de três horas, fiz uma viagem de ônibus para
o interior de Minas. O ônibus, cheio de passageiros assentados, carre-
gava também alguns em pé. De tempos em tempos, o veículo parava
na estrada para pegar ou descer viajantes. Nessas ocasiões, por vezes
va­gava um novo assento no ônibus. Era comum ver o passa­geiro em pé
continuar nessa posição alguns minutos, antes de decidir se assentar
no lugar disponível.

É curioso observar que a maioria das pessoas prefere não se assentar


numa cadeira ainda “quente”. Segundo a crença, essa pode transmitir
doenças. Pesquisas mostra­ram mais do que isso: a maioria das pessoas
tem aversão a usar camisas, blusas, meias, sapatos, escova de den­tes,
pentes, sabonetes que pertenceram a um estranho e, principalmente,
utilizar-se de uma privada estranha ao seu bem conhecido e amado
bumbum.

Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos, com a participação


de 260 estudantes americanos, mostrou uma aversão estranha e não
esperada. As perguntas e as res­postas foram muito semelhantes às
abaixo:

— Você seria capaz de usar um blusão que pertenceu a um aidético?

— Acho que não.

— E se esse aidético for um homossexual?

— Pior ainda, de modo nenhum!

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— E se o blusão tivesse sido usado por um homem que perdeu uma
perna num acidente de carro?

— É… acho que não o usaria.

— Vestiria um blusão que pertenceu a um assassino?

— Não… nem pensar.

Outras perguntas foram feitas como “Como você se sentiria usando


um blusão novo?” Em seguida, perguntou-se acerca do uso do blu-
são usado por um homem sadio, por um tuberculoso e um aidético-
-hemofílico. As mesmas perguntas foram feitas ao grupo de estudantes
america­nos com respeito a dormir na cama e dirigir um carro usa­do
por esse grupo de indivíduos.

Os resultados encontrados são interessantes: houve um elevado


índice de medo de “contágio”, mesmo quando o blusão, cama e carro
haviam pertencido a um homem saudável, em 33% dos entrevistados.
Uma surpresa: na pesquisa, 50% dos entrevistados não usariam um ob-
jeto pertencente a um indivíduo que perdera uma perna num acidente.
Seria medo do azar?

Outros estudos relatam que tem sido difícil vender ou alugar casa
onde anteriormente morou um aidético. Também tem sido verificado
que os pais relutavam em matricular o filho numa escola frequentada
por um aluno com AIDS. Uma pesquisa mostrou que 32% dos entre­
vistados acreditam que a AIDS pode ser transmitida pelo banho de
banheira e 35% que pode ser adquirida ao doar sangue.

A aversão pessoal é um sintoma de inúmeros trans­tornos mentais,


na qual se inclui a personalidade “evitan­te” (pessoa facilmente ferida
pelas críticas, que foge de atividades sociais, evita falar ou comer em
público, etc.). A aversão ao contágio é uma resposta comum em pesso-

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as consideradas “normais” e poucos são os defensores dos direitos dos
aidéticos que seriam capazes de vestir uma roupa que foi usada por
esse grupo e, muito menos, por um aidético homossexual. Por quê?

Sabe-se que o medo do contato com pessoas, doentes ou não, impli-


ca mais do que o simples medo de contrair uma doença. Uma explica-
ção frequente das causas das doenças é a cultural-religiosa. Para essa
interpretação, apanha-se uma doença em virtude de transgressões
morais ou peca­dos. Por trás dessa crença há uma suposição da existên-
cia de um “mundo justo”, sugerindo um castigo e desvaloriza­ção moral
da vítima dos azares físicos ou moléstias. Para esses, o atingido pelo
infortúnio deve “merecer” o ocorrido como punição por algo errado
que ele deve ter feito.

O descrito acima intuitivamente nos soa esquisito. Mas, sem estra-


nharmos, observamos uma conduta oposta: a todo o momento assis-
timos fãs de artistas, esportistas, políticos, religiosos e outros famosos
sonhando em possuir e vestir a camisa e cueca que pertenceu a Ro-
naldinho e outros, de tomar um banho com o sabonete usado pelo
cãozinho de Xuxa, ou usar sua calcinha e sutiã, de dormir na cama que
pertenceu, ou, se possível, com o “próprio” deus idolatrado, de viajar
no carro de alguém famoso, em resumo: tudo que poderá produzir
associações suposta­mente “positivas”.

Acredito que é a emoção intuitiva, positiva ou negati­va que sentimos


para um ou outro indivíduo, que promove os pensamentos favoráveis e
desfavoráveis que surgem para justificar o sentido pelo nosso organis-
mo.

De outro modo, não são os pensamentos “lógicos” que dão origem


aos julgamentos feitos – vestir ou não o blusão – mas sim as emoções
presas em julgamentos cristalizados que são detonadas automática e
inconscien­temente contra ou a favor de determinadas categorias de
pessoas diante da presença do fato exibido.

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Vocês sabem que existe uma ilusão de autoengrande­cimento pessoal
devido a ligações não significativas, sub­jetivas tolas, como ficar feliz
por morar no mesmo prédio ou bairro onde reside uma pessoa famo-
sa, usar a mesma marca de auto, o mesmo corte de cabelo, chinelos,
óculos etc., semelhantes ao do nosso ídolo. Alguns ficam felizes até em
virtude de associações tênues, como ter nascido no mesmo dia e mês
em que nasceu seu deusinho passagei­ro. Esse é o ser humano, chama-
do, por alguns, de animal superior e racional.

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O Preço de uma Escolha: Adeus às
Ilusões
Todos nós sonhamos com a possibilidade, por sinal impossível, de
transformar alguns fatos já vividos em ou­tros. De outro modo, imagi-
namos desviver o vivido. Essa mágica não se realiza. Cada um lembra,
amargamente, que podia ter estudado mais para aquele exame, não
de­via ter tratado tão mal aquela namorada encantadora, há muito
devia ter mandado para o inferno o “amigo da onça” explorador, ter
tido mais cuidado ao dirigir, evitan­do o acidente provocador das dores
do joelho. Pensamos: “Se tivesse agido de outro modo, estaria, pos-
sivelmente, vivendo mais feliz do que estou”. Talvez sim, talvez não.
Quantos e quantos aborrecimentos podiam ter sido evi­tados. Em resu-
mo: muitas decisões tomadas ontem com muita fé, hoje, em hipótese
alguma seriam realizadas.

O povo fala: “ninguém é perfeito”, portanto, todos nós, sem exceção,


demos nossos tropeços durante nossa passagem pela vida terrena.
Segundo as estatísticas nesse assunto, quase todas ou todas as pessoas
sentem-se ter­rivelmente arrependidas de terem abandonado os estu-
dos muito cedo, queixam-se de que ninguém nada fez para dissuadi-los
disso. Outros lamentam um casamento preco­ce, que estragou todos os
outros planos.

Há, ainda, os que se arrependeram de ter mantido uma amizade por


muitos anos, quando o melhor teria sido mandar “para o inferno” o
“amigo/inimigo” de longa data, e outros ainda, por fim, amaldiçoam a
hora fatídica do trá­gico encontro que resultou numa gravidez e no nas-
cimento de um filho nascido num momento terrível, jogando por terra
as belas fantasias da juventude.

A psicologia costuma chamar esse arrependimento de “pensamento


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contrafactual”, isto é, nosso desejo de mudar os fatos que lamentavel-
mente aconteceram no passado e não podem ser modificados.

Como o mundo caminha independentemente do que desejamos, um


pequeno, simples e tolo fato não-pensado, não-desejado e nem neces-
sário pode ocorrer. Tragicamen­te, esse fato que não precisava existir
pode mudar para sempre nossas vidas. Um “escorregão numa casca de
ba­nana” pode dar origem a um novo e árduo caminho, sem que nada
mais possa ser feito, destruindo para sempre a trajetória delineada,
carregada de emoções positivas que habitavam o organismo num tem-
po longínquo que passou. Quanta saudade!

Pensando nos meus escorregões, nas minhas “burra­das” malucas


pela vida afora, lembrei-me do encontro oca­sional que tive com o
Sócrates. Esse meu amigo de infância tinha uma vida traçada para ser
boa. Era disposto, alegre, bonito e rico. Mas “estou lamentando antes
da hora”. Sócra­tes conheceu a filha do aposentado da esquina, em
virtu­de de pequenas coincidências, a princípio sem importância. Pouco
a pouco, esse conhecimento, que não precisava ter ocorrido o levou a
um caminho, é…bem! Vou lhes contar:

Eu caminhava a mando do cardiologista – fazia mi­nhas caminhadas


para melhorar a pressão e observar a multidão – quando encontrei
Sócrates. Achei-o envelheci­do. Sempre achamos o outro mais acabado
do que nós.

Penso que essa avaliação ocorre porque vemos todos os dias nosso
rosto e corpo no espelho e não vemos o do nosso amigo sumido.

Fomos colegas no colégio do bairro e do futebol da várzea. Nem eu,


nem ele, fomos craques, nem de futebol, nem dos estudos. Estudáva-
mos para passar de ano e jogá­vamos para nos divertir. Entretanto, não
éramos os piores da sala nem do time. Um dia, um dia como qualquer
outro, sem nada de especial, nem chovia, nem ventava, o azul do céu

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de abril começava a escurecer, o Sol se punha, tran­quilo. Sócrates ain-
da era jovem, muito jovem, como era o narrador dessa tragicomédia.

Estava esquecendo: ele era um dos poucos do grupo que a família


tinha algum dinheiro. Falava-se, entre nós, que seu pai era grande fa-
zendeiro no norte de Minas. Nas nossas conversas não se comentava a
vida e os segredos familiares de e para ninguém. Essa regra – não havia
proi­bições explícitas – era acatada e respeitada por todos, não podia
ser burlada.

Voltando ao Sócrates: ele, quando ainda era um gina­siano – para


quem não sabe, “ginasiano” era quem cursava os quatro últimos anos
do atual primeiro grau – foi fisgado pela filha do aposentado. Lucé-
lia, uma bela morena, ou mulata, isso não importa, era de “fechar o
comércio”. Até aquela data, ela era inacessível aos jovens imberbes e
de­sajeitados, mas nem por isso deixava de ser desejada por todos os
jovens que transitavam em torno de sua casa.

Dentro do nosso maniqueísta e acanhado campo per­ceptual de


julgamento da conduta feminina, existiam, ra­dicalmente opostos, dois
tipos de mulheres: de um lado, as santas ou virgens-santas que serviam
para se casar, de outro, as desinibidas e livres demais que podiam ter
algu­mas outras serventias.

Até então, não havia meio-termo. Mas apareceu Lu­célia. Nenhum


de nós pensava em aproximar-se dela para namorá-la, não porque a
rejeitássemos, mas sim devido à nossa incapacidade física e financeira,
ou pior do que isso, em virtude de nossa inabilidade, da falta de cora-
gem, pois não conhecíamos as estratégias e as táticas necessárias para
mantermos uma conversa e um relacionamento ade­quado com uma
mulher daquele “pedigree”, capaz de fa­zer todos os homens virarem
seus rostos em sua direção, quando passava pela rua. A presença de
Lucélia derrubou nossa regra simples para julgar as mulheres em dois
gru­pos opostos. Ela era um dos únicos e raros artigos que conhecía-

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mos fora-de-série, pois não era, segundo nossa classificação, nem para
casar, nem para um programa com pessoas como as do nosso grupo.
Amedrontados, muito antes de darmos o primeiro passo em sua dire-
ção, já ante­víamos o fracasso caso ousássemos conquistá-la. O nosso
treino era pouquíssimo, a nossa única e, por sinal, péssi­ma experiência,
era muito pequena: “mulheres de rua”, mulheres de “terceira classe”,
segundo nossa classificação sócio-religiosa da época, isto é, prostitutas,
semiprostitu­tas ou candidatas a tal.

Enxergávamos Lucélia através desses óculos embaça­dos e de lentes


não-flexíveis, de maneira confusa: éramos superatraídos por ela e tam-
bém tínhamos pavor de nos apro­ximarmos. Assim, ao mesmo tempo,
sonhávamos em estar juntos e afastados dela. Tentar ou não tentar.
Mas pior que tudo: Lucélia era inacessível para nossas posses. Tínha-
mos o delírio em nossas mentes, mas a realidade era outra.

Num fim de tarde, ficamos surpresos ou espantados, não sei bem,


quando vimos Sócrates de mãos dadas com Lucélia, passando na nossa
frente sorridente e orgulhoso da conquista. Não dava para entender. O
seu comporta­mento gerou em todos nós uma imensa inveja misturada
com raiva. Pensei inicialmente que devia ser um encontro casual, sem
consequências, milagrosamente dentro do pa­drão existente no grupo.
Mas fiquei intrigado, imaginando como foi que ele conseguira ganhar a
tão distante Lucélia, uma conquista que ninguém do grupo tinha conse-
guido, nem imaginado.

Mas as pequenas diferenças foram, pouco a pouco, provocando


as grandes diferenças na vida do Sócrates. Muito lentamente ele ia
se transformando, à medida que sua paixão por Lucélia aumentava.
Primeiramente Sócrates abandonou os encontros com os companhei-
ros, mais tarde largou o futebol, depois, os estudos. A cada dia mais,
sua vida girava exclusivamente em torno dela. Lucélia também ficou
diferente do que era. Deixou de ser a jovem livre e alegre de outros
tempos, a que saía com os “bacanas” de terno e gravata, os que a bus-

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cavam em seus carros, de fato carros simples. Tornou-se uma donzela
séria, reca­tada. Ao abandonar os “grã-finos”, somente saía com Só­
crates. Nós, de boca aberta, olhávamos e suspirávamos, seduzidos e
raivosos, ao ver o casal passar.

Após um curto período de dedicação exclusiva e de muita paixão,


Sócrates deu mais um ligeiro escorregão, provavelmente não-desejado
e não-programado. Um pe­queno fato, sem os cuidados necessários,
transformou, de vez, a vida do Sócrates e produziu uma diferença ainda
maior. O fosso entre o antigo e o atual aumentou.

O inevitável ocorreu: Lucélia foi deflorada, nome dado na época


a certas minúcias do sexo. Em outras palavras, Sócrates “fez mal” a
Lucélia. Naquele tempo, diferente dos tempos modernos, o costume
obrigava o suposto autor a ca­sar-se com sua “vítima”. À “boca peque-
na” falava-se que ele havia caído no conto da gravidez indesejada, ou
melhor, os componentes do grupo tinham dúvida quanto ao autor real
da gravidez. Talvez tivéssemos inventado isso de inveja.

A partir de mais esse pequeno fato, a boa vida de Sócrates foi dece-
pada para sempre. Ele, que nunca havia trabalhado, passou a fazê-lo.
Ele, que sempre tinha algum dinheirinho sobrando no bolso para com-
prar um doce ou ir ao cinema, teve que economizar. Os fatos negativos,
como bolas de neve, se acumularam. Sem alternativas, diante de sérias
dificuldades financeiras, Sócrates mudou-se da pensão razoável onde
morava, para o fundo do bar­raco existente na casa do sogro. Era lá
onde funcionava um pequeno depósito de lenha. Era apenas um quar-
tinho apertado para dormir. O banheiro situava-se fora do quar­to e não
havia cozinha, nem sala.

Sócrates passava parte do dia cuidando da esposa, que estava grávi-


da, pois logo no início da gravidez Lucélia foi despedida do emprego de
vendedora das Lojas Ca­nadenses. Dia sim, dia não, enquanto sua sogra
cuidava dela, Sócrates vendia para vizinhos e pessoas amigas do­ces

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fabricados por ele durante o dia e, à noite, trabalhava de porteiro da
Associação Comercial.

Tentou voltar aos estudos, mas faltou dinheiro para as mensalidades


e também tempo para frequentar a esco­la e, por isso, abandonou o
colégio para sempre.

Foi deixando de lado, progressivamente, outras me­tas anteriormen-


te planejadas como fazendo parte de seu futuro, frutos de sonhos de
criança e dos incentivos do pai: ser advogado na área criminal, ser fa-
moso, rico, par­ticipar de júris com criminosos conhecidos, aparecer nas
notícias dos jornais, ter diversas mulheres apaixonadas por ele.

O mundo imaginado e esperado foi sendo tomado por um mundo


frio, monótono e sem sabor.

Sócrates foi sendo esmagado pelas pressões dos fa­tos vindos de


todos os lados: despesas com o leite, rou­pas, médicos e remédios.
Outros filhos foram nascendo, crescendo, dando mais e mais trabalho.
Ora era um que tinha dor de barriga, ora outro tinha tosse, um tercei-
ro dor de ouvidos. Uma boa parte do tempo eles choravam, de dia ou
de noite, de fome ou de desconforto, algumas poucas vezes sorriam,
pedindo colo ou companhia.

Nessa guerra inglória de partos continuados, abor­tos espontâneos,


gritarias infernais dos diabinhos, Lucélia foi se desfigurando. Inferiori-
zada, começava a não mais chamar a atenção dos homens nas poucas
vezes que saía de casa. Sócrates, cabisbaixo, examinava-a. Recordando,
comparava a Lucélia atual, gorda e encurvada, a que esta­va viva à sua
frente dando sopinha ao filho, com a jovem bela e alegre do retrato,
colocado em cima da prateleira do guardalouça, a do dia do casamen-
to. Deprimida, des­confiada, irritada, gastava o que não podia com os
filhos agitados e magros, com o alcoolismo do pai e a hiperten­são da
mãe.

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Sócrates transformou-se num escravo das exigências do cotidiano,
dedicado integralmente às soluções para os entraves constantes da
vida familiar.

Não mais lhe sobrava tempo, nem mesmo capacida­de, para pensar
acerca de si mesmo, do que fazer em seu próprio benefício. O mun-
do imaginado durante sua juven­tude ficava cada vez mais distante,
com menor importância para ele. Uma vez ou outra, ocasionalmente,
estimulado por uma notícia no jornal ou o encontro com um ex-com­
panheiro, ele lembrava-se de algumas cenas do passado, longínquas,
antigas e envelhecidas como sua cabeça atual. Lá, muito longe, o jovem
alegre parecia tão feliz. Agora transformou-se noutro, um trabalhador
em tempo integral para manter-se naquela miserável prisão iniciada na
noite fatídica. Os sonhos viraram fumaça, dispersaram-se: Só­crates foi
levado para um outro mundo. O caminho, antes claro e perto, distan-
ciou-se, estreitou-se, ficou embaçado.

Naquela tarde sombria, abandonei minha caminhada para escutar o


desabafo de Sócrates. Morando sozinho, eu tinha enorme dificuldade
para entender uma pessoa pre­sa a uma família. Ao ouvi-lo com paci-
ência, simpatia e até piedade, relatar, com uma voz embargada, seu
drama melancólico, eu me lembrava dos tempos que não voltam mais,
dos meus tropeços parecidos com o dele, dessa vida da qual sempre
tive medo. Escutava suas amarguras, sua nova história de vida, uma
vida para mim inútil e sem rumo. Imaginei que talvez, bem escondida
– ele não me confessou isso – sua vontade era de nunca ter feito tudo
aquilo.

Entretanto, como bom observador, pude notar, ao me despedir, uma


certa satisfação e alegria no seu semblante. Imaginei que, apesar de
tudo, das dificuldades com que vi­via, ele estava desejando chegar em
casa, pois lá ele tinha proteção e segurança.

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Daqui a pouco ele teria ao seu lado seus filhos e sua mulher para
recebê-lo e com eles passaria a noite.

Nós nos despedimos friamente. Eu estava sem graça. Voltei para casa
pensativo. Sabia que estava livre de tudo aquilo que ouvira. Entretan-
to, estava confuso: retornava para meu lar, um lugar onde não havia
ninguém para me aborrecer, onde gozava de completa liberdade,
entretan­to na minha casa não havia ninguém, ninguém, ninguém mes-
mo. Somente eu para me receber, conversar e apoiar.

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Adivinhos: Esses Desadaptados
Os videntes, bem como os que trabalham com búzios, cartas, tarô,
horóscopos, mapa astral e outros semelhan­tes, ao tentarem predizer
o futuro do país, do artista ou do político, de fato só poderão observar
os “mapas” mentais que habitam suas próprias mentes. Esses leitores
miste­riosos “leem” apenas seus próprios pensamentos e não os dos
outros. Não há outra possibilidade. Alguns, sem malí­cia, outros, nem
tanto, descrevem para o consulente ávido por profecias a “realidade”
interna contida em sua mente, como se fossem eventos que irão acon-
tecer.

Ninguém pode refletir ou descrever o que não se en­contra arma-


zenado em sua própria mente, sua “memória autobiográfica”. Apesar
desse fato simples, eu só falo o que aprendi, só consigo discutir ou re-
solver questões que tenho em mente e que conheço. Estranhamente,
os diver­sos videntes atribuem suas visões a acontecimentos ex­ternos,
até o momento da revelação desconhecidos para o vidente e o cliente.

O grande paradoxo dos videntes e outros semelhantes é que eles


jamais conseguiram prever seus próprios desti­nos, sair de sua ignorân-
cia a respeito de sua incapacidade para fazer o que dizem: eles ignoram
a própria ignorância.

Há uma verdade lógica impossível de ser negada: nada do que existe


fora de nossa mente pode ser obser­vado, percebido, examinado ou
discutido em si. Tudo que conhecemos encontra-se intermediado pela
nossa mente.

Não existe objetividade nem nas ciências chamadas “exatas”. Tudo o


que é olhado, escutado, cheirado, etc., sempre o será por uma cabeça
que já possui algum co­nhecimento ao nascer (inato) e, após o nasci-
mento, cada um tem seu aprendizado singular. O conhecimento antigo
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forçosamente servirá de suporte ao novo que vai sendo edificado. Não
pode ser de outro modo.

Cada um de nós tem uma história que é humana: vi­veu e experimen-


tou certas situações, leu ou escutou algo, interessa-lhe observar de-
terminados aspectos do mundo, somente esses, num certo momento.
Qualquer observa­dor de fatos apresenta sempre limitações: caracte-
rísticas como a idade, sexo, maior ou menor conhecimento, a ado­ção
de certa filosofia de vida, o viver um instante particu­lar, etc. Tudo isso,
e muito mais, irá fatalmente modificar a percepção e interpretação do
fato ou as relações que estão sendo examinadas.

Sempre, sem exceção, todos nós, ao examinarmos um evento, lan-


çamos nele nossos desejos, noções gerais ou falta de conhecimento
acerca do fato, de modo que o observado mistura-se às nossas crenças.
Nós nunca atin­gimos os fatos. Sempre damos nossas versões acerca
dele ou, de outro modo, trabalhamos, examinamos e interpre­tamos
apenas as representações criadas ou construídas acerca dos eventos,
um simulacro ou amostra do evento, uma história reconstruída, modifi-
cada e contada acerca do fato para e por alguém. Que pena!

Muitas vezes recebemos informações de segunda, terceira ou quarta


mão. Construímos as nossas versões dos fatos e estas sempre devem
corresponder às nossas crenças subjacentes, aos nossos desejos, ao
grupo social onde somos aceitos e do qual fazemos parte.

As versões são frequentemente carregadas de mitos, hipóteses e


deduções antigas, aprendidas cedo e, além dis­so, muito longe da rea-
lidade. Assim é que todos nós cons­truímos nossos mitos particulares.
Na maioria dos nossos raciocínios não examinamos os métodos que
usamos para chegar às conclusões obtidas e, muito menos, não exami­
namos as contradições possíveis de existir no nosso pró­prio raciocínio.

Parece-me que os videntes fazem parte do grupo dos seres huma-

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nos. Talvez não! Não sei bem. Eles, caso es­tejam certos, ao observarem
e raciocinarem, como nós, selecionam certos fatos, acentuam alguns
aspectos, eli­minam e generalizam outros para construírem suas ideias
conforme seus planos e intenções. Além disso, como todos nós, ao exa-
minarem um acontecimento não valorizam e não selecionam aspectos
do fato que não interessam às hipóteses que formulam e que poderiam
contradizer as ex­pressas no momento. O resto… vocês decidem.

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Comportamento: Informações re-
sumidas
Historicamente, a ênfase para censurar e domesticar o homem foi
colocada no elemento destruidor deste. Mas é possível que muita raiva
e agressividade do homem derivaram das frustrações impostas pelos
processos educacionais.

Em todas as sociedades, as pessoas avaliam e comentam as ações de


outras, elogiando-as ou criticando-as. Certas condutas são tidas como
obrigatórias; as pessoas são forçadas a alcançá-las. Os que fracassam
em possuir tais virtudes são criticados e rejeitados.

A realidade social e nossa atividade na sociedade são guiadas por


uma ilusão. Não percebemos uma realidade, apenas vivenciamos um
modelo ou estruturação ilusória dela, criada pelo grupo dominante.
Entre as ilusões encontra-se a idéia de liberdade que se insere numa
forma particular de ideologia. Somos escravos de uma “liberdade”
inventada pelo modo de pensar ditado pela ideologia predominante.

Em 1530, Erasmo de Rotterdam escreveu ““Da Civilidade em Crian-


ças””, que teve 130 edições com traduções e imitações. O livro trata
do comportamento das pessoas em sociedade. É dedicado ao menino
nobre e escrito para a educação das crianças. O livro descreve, entre
outras coisas, como as pessoas olham e o significado de cada olhar: “O
olhar esbugalhado é sinal de estupidez; o fixo, de inércia; o cortante,
dos que têm propensão à ira; vivo e eloquentes, dos impudicos”. Escre-
ve também acerca da postura, vestuário, expressões faciais etc. : “Não
deve haver meleca nas narinas”; “O camponês deve limpar o nariz no
boné, o fabricante de salsichas, no braço”.

Antes dos livros de Erasmo, cada um mostrava com naturalidade sua


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nudez. As pessoas andavam e dormiam nuas; apenas alguns religiosos
não o faziam. Nos casamentos, a noiva se despia diante das damas de
companhia; a sexualidade era aberta.

A agressividade, como o sexo, era natural e aceita. Muitos homens


viviam para a violência; era natural matar e queimar em praça pública
homens, gatos e prisioneiros. A agressão era incentivada, bem como as
lutas, brigas e torturas; os afetos eram, também, totalmente liberados.

Num desenho de uma estalagem da época de Erasmo, nota-se a pre-


sença de 80 a 90 indivíduos. Entre eles encontram-se pessoas comuns
reunidas com outras mais bem vestidas, possivelmente ricos e nobres
e, também, mulheres e crianças. Muitos suam e enxugam-se; um deles
limpa a bota em cima da mesa, outros têm relação sexual.

Pessoas desconhecidas dormiam na mesma cama; a etiqueta e “boa


educação” aconselhava “o inferior” a deitar-se primeiro, ficar espicha-
do para não se encostar no “importante”, e levantar-se primeiro sem
esbarrar no companheiro.

As necessidades fisiológicas eram “aliviadas” em qualquer lugar: ruas


e praças, diante de todos. Erasmo aconselhou ao educado, ao ver o ou-
tro defecando na rua, olhar para outro lado, como se estivesse vendo
alguma coisa interessante, pois assim não o incomodaria. As pessoas
tomavam banhos nos banheiros públicos; para isso, saíam nuas de
casa.

Erasmo não foi o primeiro a descrever os costumes corretos que


deviam ser seguidos. Documentos escritos após o séc. Xlll (colocar em
romano), antes dele, descrevem normas tidas como adequadas, ou
seja, formas de “cortesia”. O modo usado na corte é que deu origem à
maneira “correta” de se comportar na sociedade civilizada: “Um ho-
mem requintado não deve fazer barulho de sucção com a colher quan-
do estiver em boa companhia“; “Não deve escarrar em cima da mesa

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diante dos outros enquanto almoça; apenas no chão e, após escarrar,
deve passar o pé em cima para espalhar o escarro”; “A mão usada para
escarrar deve ser a que não esteja ocupada em partir a carne para os
visitantes”.

Quanto ao modo de falar, Erasmo prescreve: “Os educados não


devem falar “como bem sabe”; “um bocado de vezes”; “acamado”;
“defunto”. Devem falar: “perdão”; “desculpe”; “por favor”; “meu fale-
cido pai”; “é necessário que façamos isso”. O critério para considerar
essas condutas como “boas maneiras” decorre delas serem as usadas
pelos membros da elite; o contrário era incorreto por ser a própria dos
“inferiores sociais”. Outras regras: “As palavras antiquadas são impró-
prias para a fala séria. Palavras muito novas podem levar a afetação; as
de baixo calão devem ser evitadas, pois os “baixos” as usam”.

Uma vez disseminadas as “boas maneiras”, as pessoas passaram a


se sentir envergonhadas ao agirem conforme o “modo errado”. Assim
a maneira ensinada e “correta” foi sendo exigida para todos os “bem-
-educados”.

Aos poucos, as pessoas começaram não só a agirem conforme as


regras, mas, também, exigindo a conduta “certa” dos outros: “Isso não
fica bem”; “Faça isso e não aquilo”.

O garfo, surgido no fim da idade média, era usado somente para reti-
rar os alimentos da travessa, não era usado para levar a comida à boca.

A igreja revelou-se, como ocorreu tantas vezes, um dos mais impor-


tantes órgãos da difusão de estilos de conduta a serem seguidos pelos
“mais baixos”. Para padre La Salle, o modo correto de agir veio de Deus
e, por isso, devia ser seguido.

O livro, trazendo centenas de exemplos de “boas maneiras”, nos


mostra uma etiqueta um pouco diferente da dos nossos dias. Mas
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essas instruções ditadas por Erasmo, numa certa época, foram todas
consideradas certas e, portanto, exigidas.

Eu e você rimos das regras de etiqueta descritas acima. Erasmo des-


creveu as maneiras usadas na corte como as corretas; eram os nobres
que sabiam e ditavam o modo de agir diante de convidados, nas festas
etc. Atualmente, como antes, livros têm sido publicados sobre eti-
queta, diferentes dos de Erasmo. Mas o livro de Erasmo era também,
naquela época, diferente dos anteriores. Será que os leitores de 2.500
irão rir de nossas regras acerca do comportamento do “homem bem-
-educado”?

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Sociedade e cultura

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Os Donos do Poder
Coitado do cidadão: aprisionado em si mesmo, sozinho, isolado do
exterior por uma pele fina e frágil, cercado por todos os lados pelos
donos do poder espalhados na natureza física, química, biológica e dos
homens.

Nos meus delírios de perseguição visualizo um complô, arquitetado


por homens tiranos, juntos aos seres vivos em geral e, também, pelas
almas penadas – tudo muito bem coordenado – visando a controlar
minha liberdade, bem como a sua. Não estou exagerando, darei exem-
plos, todos eles escolhidos ao acaso; os não lembrados ficarão por
conta dos leitores.

Não acreditam? Pois vejamos: ora é uma mosca que vem pousar no
meu nariz; ora um cão que me observa, mostrando seus belos e pon-
tiagudos dentes, prontos para atacar-me. Mas não fica só nisso, depois
é o convite de formatura que exige minha presença, o telefone que
toca e me obriga a correr; o interfone oferecendo gás; a conta a pagar,
o presente de Natal e de aniversário, o forno que não mais esquenta e,
também, isso e aquilo. Mas tem também a chuva, a enchente, o impos-
to de renda, o terremoto lá longe, o trombadinha bem perto. Na rua, o
carro disparado pronto para matar-me, obriga-me a correr desajeitado
e envergonhado pela falta de forma, o trânsito que não flui, a rua es-
buracada e sem saída, meu time perdendo, o assaltante roubando meu
sossego, às vezes, meu sonho de tranquilidade, o frio que me obriga a
vestir o agasalho feio e fedendo a mofo, o calor que me faz suar e dor-
mir mal, o café frio, fraco, fedorento e com formiga no fundo.

Onde buscar, nessa Babel de desgraças, forças capazes de suportar e


orientar minha vida. Deus! Oh Deus! Onde está minha sonhada liberda-
de, a escolha individual, meu livre-arbítrio? Milhares de outras forças,
além das minhas, me impelem a agir de um modo e de outro, não
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como gostaria. Estou aprisionado; a tudo isso e muito mais; a câimbra,
o espirro, a tosse, o pedinte e o flanelinha, o som do vizinho, a gritaria
dos meninos do colégio, a fumaça que me impede de enxergar os obje-
tivos imaginados e sonhados.

Ao envelhecer, aos poucos ou rapidamente, não sei mais, vou per-


dendo a ilusão plantada cedo em minha cabeça mole da existência da
liberdade, uma idéia inoculada pela igreja e pela escola, logo que nasci.
Cansado de ser preso à família, ao partido político, à religião, ao time
de futebol, à profissão e a tudo mais, percebo que o aprendido, acerca
da liberdade, era tudo mentira, nascida de uma ideologia democrática
falsa, incoerente: ela me enganou durante anos.

Onde encontrar a liberdade proclamada e esperada, que me fazia


sentir feliz? “Foi um sonho que findou”, como diz a letra do poeta. Vejo
agora que a liberdade é uma balela, um conceito belo, como algumas
pessoas, mas sem conteúdo. Imagino, sem melhor idéia, que a inexis-
tente liberdade foi construída pelo poder cultural para amenizar nossa
infelicidade; foi fabricada, como várias outras ilusões, para nos amparar
e nos proteger nesse mundo confuso.

Os poderes que esmagam meu fraco organismo vão desde a mosca


que pousa, sem dar a mínima, de tempos em tempos, no meu velho
e cansado nariz, até os decretos-leis de FHC, de Lula e de outros, que
sei que virão. Mas, além disso, fui, há muito, dominado pelos dogmas
religiosos, pelas ideologias marxistas, machistas e democráticas; mais
tarde, aprisionei-me nas teorias científicas em voga; pulando de uma a
outra sem parar. Corri como um burro atrás do milho inalcançável, em
busca do “alimento” para minhas dúvidas. Desesperado, sem melhor
orientação interna, esmagado por pressões e decepções, daqui e dali,
agarrei-me, como náufrago desesperado, à “sabedoria” dos provérbios:
“macaco que mexe muito está querendo chumbo”.

As terríveis forças malignas do poder trabalham para o mesmo fim e,

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em bloco, tentam me derrotar; todas elas têm um aspecto em comum:
mudar meu comportamento, dirigir minha conduta para um rumo
alheio à minha vontade. Meu saudoso livre-arbítrio, sem dizer adeus,
desapareceu da minha vida há muitos anos; as forças do não-eu, em
conjunto, lutam contra minha consciência, me impedem de alcançar
minhas metas, se é que elas são minhas. Agora, já não tenho nenhuma
certeza.

Aceito a definição de poder como a “capacidade para produzir


determinada ocorrência”, ou, “a influência exercida por uma pessoa
ou grupo sobre a conduta alheia, através de algum meio”. Portanto,
para ser exercido o poder necessita-se de uma força atuante – a que
desencadeia a ação (a mosca e o governo) – e, também, de um poder
geralmente passivo ou bastante submisso – adequado para sofrer a
ação (eu, eu, eu). Uma mosca não modificará a conduta de um boneco
ao pousar em seu nariz; o imposto de renda, com todos os urros do
leão, não conseguirá fazer com que o morto preencha sua declaração
de renda.

Algumas vezes, muito raramente, o poder de um indivíduo ou grupo,


sobre o comportamento do cidadão está em concordância, ou se iden-
tifica, com os objetivos ou necessidades deste, produzindo uma satis-
fação dos dois poderes envolvidos, o ativo e o passivo. Por exemplo, se
você é convidado para ir almoçar na casa de um amigo – o que modifi-
cará o seu comportamento habitual – há a possibilidade estatística de
você, naquele dia, desejar aquele encontro e até gostar das iguarias e
do vinho servido; caso tenha sorte. Isso acontecendo, os dois partici-
pantes do poder – a força atuante e a passiva- podem atingir objetivos
comuns: isso raramente acontece.

Além disso, o poder tem possibilidade de ser exercido visando a


auxiliar uma pessoa; com um fim eticamente louvável. Convenço
minha filha que é bom para ela frequentar a escola, comer determina-
do alimento, ter certos hábitos higiênicos etc. A aceitação de formas

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básicas de conduta por parte dela poderá facilitar sua vida, aumentar
seu “poder pessoal” para tolerar e, talvez, driblar o poder institucional.
Mas, mesmo esses valores amplos e gerais, podem ser questionados;
posso estar equivocado e isso minha filha verificará com o tempo e
experiência para encontrar seu caminho.

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Nossas Origens Culturais: Chinesa e
Grega
Todos concordam que existe uma considerável diferença entre as
diversas culturas, afetando não somente as crenças acerca de aspec-
tos específicos do mundo, como também de seus sistemas de pensar,
linguagem, origens, valores etc. De modo resumido, as culturas diferem
quanto às maneiras pelas quais os habitantes conhecem o mundo.

Grécia Antiga – Individualismo

Duas são as formas existentes de colocação do poder: mudando


a nós mesmos, ou mudando o meio para que este esteja conforme
nossos desejos. Uma das mais notáveis características da Grécia anti-
ga (Jônicos e Atenienses em particular) era a colocação do poder no
indivíduo. Conforme essa crença, as pessoas desenvolvem um sentido
de “agente das ações”. A definição de felicidade para os gregos era “o
exercício dos poderes vitais através das linhas de excelência na vida…”
Como eles acreditavam na influência dos deuses, havia, de um lado a
intervenção divina, de outro, a ação humana independente. As duas
eram vistas como trabalhando juntas.

Para os gregos, sua vida diária estava imbuída com um sentido de


escolha própria, sem restrição social, semelhante a nossa idéia (errada)
atual de liberdade. O Estado Ateniense representava a união de indiví-
duos livres para desenvolver seus próprios poderes e viver sua própria
maneira de ser, obedientes somente às leis criadas por eles mesmos,
leis essas que eles podiam criticar e mudar conforme seus desejos.
As pessoas sendo livres podiam discutir seus objetivos e criticar o dos
outros: mesmo as pessoas comuns participavam dos debates da praça/
mercado e assembléias políticas.

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Um outro aspecto da civilização grega foi seu sentido de curiosidade
acerca do mundo e a pressuposição que ele poderia ser compreendido
através da descoberta de regras que regessem os eventos. Os gregos
especulavam acerca da natureza dos objetos e dos eventos que os
circundavam e criaram modelos explicativos a seu respeito. As cons-
truções desses modelos foram feitas categorizando ou classificando
os objetos e os acontecimentos, criando regras acerca deles visando à
descrição sistemática da realidade, a predição e a explicação dos fatos
e eventos. Esta postura possibilitou invenções nos campos da física, as-
tronomia, geometria, lógica formal, filosofia racional, história natural,
história, etnografia e outras áreas.

Antiga Civilização Chinesa – Harmonia

A antiga civilização chinesa contrastava com a civilização grega. Sua


ênfase, ao contrário do “agente pessoal”, foi colocada na “obrigação
social, reciprocidade ou agente coletivo”. Os chineses sentiram que o
individualismo era parte do ajuntamento da coletividade ou família,
assim, a conduta do indivíduo deveria ser guiada pelas expectativas do
grupo, não dele isolado, do qual fazia parte. O sistema moral chinês
fundamental, o Confucionismo, foi essencialmente elaboração das
obrigações que deviam existir entre o imperador e o sujeito, pais e
filhos, amigo e amigo, marido e mulher, irmão e irmão mais jovem. A
sociedade chinesa levou o indivíduo a se sentir fazendo, ou sendo, par-
te integrante de uma grande e complexa totalidade, de um organismo
social onde os papéis prescritos acerca de relações eram os guias para
a conduta ética. Os direitos dos indivíduos foram construídos de forma
que a pessoa “dividisse” ou compartilhasse dos direitos com a comuni-
dade como um todo. O respeito pelo sistema hierárquico tinha priori-
dade sobre a maioria das outras ações, principalmente as individuais.

Essa ênfase na agência coletiva resultou na valorização chinesa da


harmonia grupal. Esta ocorre quando os ocupantes de um grupo social
realizam suas funções sem transgredirem os limites de deveres ou

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expectativas que acompanham essas funções. Dentro do grupo social,
qualquer forma de confrontação, como o debate, foi desencorajada
entre os chineses, ao contrário dos gregos.

A civilização chinesa foi, na antiguidade, tecnicamente mais avan-


çada que a grega, por exemplo: sistema de irrigação, tinta, porcelana,
roda do carrinho de mão, broca para furar, barcos, compartimentos
para água, leme para barco, técnicas de imunização, técnicas astronô-
micas de observação, sismógrafos etc. Muitos desses ganhos tecno-
lógicos foram postos em funcionamento quando a Grécia não tinha
nenhum. Mas, na China, esse progresso tecnológico não surgiu devido
à investigação ou teoria científica, mas sim por meios artesanais, ações
grupais isoladas diante de tentativas para solucionar problemas práti-
cos comuns encontrados durante atividades do dia-a-dia, sem a cons-
trução de modelos formais do mundo.

Assim, as crenças – ou princípios – fundamentais dessas duas civili-


zações refletem suas existências sociais: a holística versus a analítica. O
pensamento holístico está envolvido numa orientação do contexto ou
campo como um todo; inclui atenção às relações entre um objeto foca-
lizado e seu campo, bem como uma preferência para explicar e predi-
zer acontecimentos baseados em tais relações. A abordagem holística
prende-se no conhecimento/experiência baseado mais do que no da
lógica abstrata. É um conhecimento dialético, enfatizando as mudanças
e reconhecendo contradições e necessidade de perspectivas múltiplas,
buscando um “caminho intermediário” entre proposições opostas.

O pensamento analítico, ao contrário, está envolvido com o isola-


mento do objeto de seu contexto, uma tendência a focalizar atributos
do objeto para colocá-lo numa categoria; na preferência do uso de
regras acerca da categoria para explicar e predizer a conduta do objeto.
A inferência ou suposição faz parte dessa estrutura de descontextuali-
zação do conteúdo, utilizando-se da lógica formal e, ao mesmo tempo,
fugindo da contradição. Assim, o pensamento holístico é associativo

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e sua computação reflete semelhança e contiguidade; o pensamento
analítico seleciona sistemas de símbolos representacionais, e sua com-
putação reflete regras de estrutura.

Uma diferença intelectual fundamental entre essas civilizações é a


de que a chinesa vê o mundo como uma coleção de encaixes (justapo-
sições) de substâncias ou matérias. Isto contrasta com as idéias Platô-
nicas descrevendo os objetos como individuais e com certas particula-
ridades, as quais permitem propriedades, que são universais, como a
“dureza” ou a “brancura”. Os gregos estavam inclinados a ver o mundo
como uma coleção de objetos separados, os quais são categorizados
com referência a algum subconjunto de propriedades universais que
caracterizam cada um desses objetos.

Para os chineses, as partes (objetos) só existem dentro do todo,


sendo inseparáveis. Para os gregos, o foco é o objeto central e seus
atributos. Aristóteles explicou que a pedra cai por ter ela a proprieda-
de de “peso” enquanto uma folha tinha a propriedade de “leveza”. Os
chineses, ao contrário, reconheciam que todos os eventos se devem às
operações de campos de força, pois eles já conheciam o magnetismo
e a ressonância acústica. A idéia de cirurgia vem do Ocidente; tirar o
órgão estragado para consertar o mal; entre os chineses essa idéia era
um contra-senso, pois, para eles, a saúde depende no equilíbrio e fluxo
de forças naturais através do corpo.

Em lugar da lógica, os chineses desenvolveram a dialética, a qual


envolve reconciliação, transcendência ou mesmo aceitar contradições
aparentes. Para a tradição intelectual chinesa não há necessidade da
incompatibilidade entre a crença de “A” e “não-A”, ambas têm mérito.
Na verdade, o espírito de Tao, ou princípio yin-yang, “A” pode atual-
mente implicar “não-A”, ou seja, o estado oposto de problemas pode
existir simultaneamente com o estado de transtorno (querela, luta).
Isso indica encontrar o meio entre os extremos, aceitando que as duas
partes da disputa podem ter direito a sua porção, ou que as duas pro-

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posições opostas podem conter alguma verdade não notada.

Os chineses procuram, intuitivamente, (perceptuais-emocionais, pré-


-atentivos), conhecimentos instantâneos através da percepção direta.
Isto resulta em focalizar um momento particular e casos concretos no
pensamento chinês. Os gregos favorecem a epistemologia da lógica e
dos princípios abstratos, vendo a experiência concreta e direta como
sendo não confiável e incompleta. Junto com as descobertas dos gre-
gos da lógica formal, foi o desenvolvimento das ciências. O crescimento
das ciências, mais tarde, foi proibido, por muitos anos, após o séc. VI;
nessa ocasião a tradição empírica da ciência grega foi grandemente
enfraquecida. O combate à ciência empírica ocorreu em virtude da
convicção, por parte dos filósofos, que era possível compreender as
coisas através da razão apenas, sem recurso dos sentidos.

Nós, latino-americanos, herdamos os dois modos de pensar, ora ten-


demos para um lado, ora para o outro.

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Um desfecho inesperado
O paciente do leito 33, aprisionado na cadeira de rodas, foi arrastado
por um auxiliar sonolento da enfermaria até o anfiteatro ainda vazio;
esperava o início da reunião clínica.

A discussão do caso do paciente do leito 33, marcada para às 10 h da


manhã, fazia parte das reuniões das sextas-feiras realizadas no anfi-
teatro do Hospital das Clínicas da Universidade. Ela despertou pouco
interesse entre os estudantes por ser uma história médica banal, se-
melhante a muitas outras ali discutidas. Por isso, os responsáveis pelo
“caso” tiveram dificuldades em persuadir e arrebanhar alunos e profes-
sores para a reunião.

Naquele templo sagrado, seria discutido a doença e o tratamento do


paciente do leito 33; entretanto, com frequência, era ali também que
o professor Protásio, inimigo mortal do professor Tertuliano, aprovei-
tava a oportunidade para agredir seu colega e adversário, enquanto
externava seus raciocínios clínicos. Durante as discussões acaloradas,
verdadeiras torcidas organizadas formavam-se a favor de um ou de
outro professor. A apresentação do “caso do leito 33? era mais uma
oportunidade para que o professor Protásio mostrasse, além de seus
conhecimentos de urologia e da extraordinária retórica, a incompetên-
cia e burrice do adversário.

Para alegria dos responsáveis pelo caso, a sala foi ficando cheia de
alunos. Nas primeiras cadeiras do anfiteatro divisava-se senhores de
fisionomia séria, cabelos grisalhos, ligeiramente obesos, tendo o rosto
não só bem barbeado como também marcado pelas rugas. Alguns pa-
reciam cansados, outros conversavam animados esperando o início da
sessão. Na parte alta do anfiteatro, jovens robustos, de roupas soltas,
riam e brincavam, andando, de um lado ao outro, pelo salão.

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O paciente do leito 33, imobilizado na cadeira de rodas, vestia o
uniforme azul desbotado do hospital, uma roupa larga para seu corpo
macerado. Seus olhos fundos e fixos, embutidos na sua cabeça inclina-
da para baixo, pareciam examinar a claridade produzida pelo reflexo da
luz que incidia no piso. O rosto ossudo e magro era coberto por uma
pele morena-esverdeada; os cabelos pretos, amassados onde ele se
deitara, mostravam alguns poucos fios brancos; suas mãos, penduradas
nos braços esqueléticos, exibiam veias finas onde corria um sangue
descorado e morno.

Instalado na parte mais baixa da sala, de frente para a platéia, o pa-


ciente do leito 33 podia ser observado por todos. Além do mais, como
sua cadeira não era fixa com as outras, o seu corpo podia ser levado
para um lado ou outro da sala, isso facilitava a aproximação e o exame
dos mais curiosos.

Submetido às pressões daquele mundo estranho, ainda não bem


esclarecido, o paciente do leito 33 tentava compreender a peça que
ali seria representada e da qual ele participaria. Não era difícil notar o
contraste entre ele e os outros, não só quanto às roupas usadas, como
também no que diz respeito ao aspecto físico; os mais velhos usavam
jalecos de mangas compridas, gravatas, sapatos pretos, conversavam
como se trocassem segredos; os mais jovens calçavam tênis, vestiam
camisas coloridas e aventais de mangas curtas, discutiam animadamen-
te acerca de futebol e de paqueras e, de repente, davam estrondosas
gargalhadas. Algumas moças abraçavam e beijavam os companheiros;
um rapaz, de gestos delicados, usava brincos e tinha os olhos pintados.

Finalmente, a sessão foi aberta. Os professores iniciaram a leitura e


os comentários acerca do caso. O interrogatório começou em seguida;
perguntas e mais perguntas foram feitas. O paciente, quase sem pen-
sar, ia respondendo aos inquiridores as perguntas que eram as mesmas
feitas, antes, na enfermaria.

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A partir daquele momento seu “caso” estava sendo alvo de espe-
culações de famosos mestres da medicina; um caso interessante para
alguns, chato para outros, um passatempo para uns e até mesmo uma
obrigação para muitos. Iniciadas as discussões, o protagonista da repre-
sentação usou e abusou das contrações faciais adequadas para cada
frase pronunciada: gesticulou, sorriu, elevou e abaixou o tom de voz,
isto é, exibiu uma técnica artística elegante, apurada e bem estudada
para representar: era preciso impressionar os assistentes.

Como um condenado na sala do júri diante dos juízes, o paciente do


leito 33 acompanhava visualmente as discussões que começavam. Ele
submetia-se, angustiado, àquela pantomima ruidosa, esquisita, que es-
tava sendo encenada. Por não entender a maioria das palavras pronun-
ciadas, ele esforçava-se para compreender, pelo menos, as expressões
faciais, os movimentos dos membros, o tom e a altura das vozes, afinal,
a mímica corporal dos faladores. Mas, por mais que tentasse, continua-
va não assimilando o significado daqueles sinais diferentes dos conhe-
cidos por ele. Desse modo, as mensagens transmitidas, agindo como
corpos estranhos, não eram traduzidas para sua mente diferente.

Algumas vezes ele tentou compreender o significado dos sorrisos


que, ocasionalmente, recebia de algumas jovens; olhares que levaram
o paciente do leito 33 a recordar os flertes afetuosos que recebera de
Teresa quando começou a namorá-la. Mas, naquela sala, as moças,
prontamente, davam-lhe as costas e não mais o observavam. Teresa,
ao contrário, o fitava com seus olhos pequenos, pretos e redondos, por
um longo tempo, com doçura, depois eles se beijavam.

Derrotado, ele procurou interpretar a cena que se descortinava


naquele teatro do absurdo, através de lembranças antigas, recuperadas
com dificuldade de sua mente. Assim, ele tentou visualizar represen-
tações de espetáculos vistos quando ainda era criança; despertados e
parecidos com o que assistia no momento. Lenta e penosamente, de
sua memória distante e enfastiada, afloraram fatos esparsos: o circo na

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praça com os números de marionetes, os palhaços de roupas largas e
vozes fanhosas, os macacos usando óculos e de saiotes, brigas e tapas
de mentira no picadeiro e as canções melosas, monótonas e repetitivas
que saíam dos discos antiquados e rachados da vitrola.

Alguns observadores mais experientes ali presentes sabiam que


as pistas fornecidas pela história do paciente – sinais e sintomas – às
vezes eram deixadas de lado, já que o desejo de massacrar o rival podia
ser o fator mais poderoso; entretanto, a maioria dos presentes, não
percebendo motivos velados, emocionava-se com a oratória brilhante
e a dedicação demonstrada para com o paciente.

As acaloradas discussões cresciam como as tempestades de verão:


inicialmente, pingos leves e esparsos, depois, tempestades barulhen-
tas. Assim, os ilustres professores, esquecendo por momentos o pa-
ciente, lançavam farpas alimentadas por uma ironia elegante. Como
as discussões complicadas geralmente motivavam mais a platéia,
os professores, comumente, transformavam problemas simples em
quebra-cabeças complexos; através desses era mais fácil escancarar a
ignorância do adversário.

As hipóteses e deduções do Dr. Protásio foram magistralmente ela-


boradas; ele argumentava sorridente, saboreava cada frase proferida
e, principalmente, sabia onde desejava e precisava chegar. Aos poucos,
ele foi descortinando seu diagnóstico, seguindo uma linha de raciocínio
sinuosa e complicada, como gostava. O ponto final da oratória termi-
nou abruptamente, após citações de artigos estrangeiros recentes. Foi
uma conclusão bela, triunfal e emocionante, demonstrando grande
erudição. Coube a este professor a decisão final: o paciente deveria
submeter-se a uma cirurgia radical. Ninguém ousou ir contra sua argu-
mentação. Anotações apressadas foram feitas no prontuário.

O paciente do leito 33, encurvado, continuava sem entender a ver-


borréia. Apesar de atordoado, percebia que sua vida estava nas mãos

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daqueles doutores agitados e falantes. Enquanto assim refletia, seu
pensamento foi cortado pelo tom de voz áspero do professor, ao decre-
tar uma sentença inapelável:

— Os testículos e o pênis devem ser amputados na próxima semana.

A reunião precisava terminar; a hora do almoço aproximava-se;


todos tinham fome e, além disso, os médicos, daqui a pouco, deveriam
estar em seus consultórios. Por tudo isso, o grupo apressou as conclu-
sões finais; alguns presentes ainda fizeram pequenos comentários:

— Para mim, disse um: — seria melhor tirar apenas o terço distal do
pênis; assim o restante poderia ser usado.

— Não! retrucou outro: — Deverá ser todo extirpado, para evitar um


retorno do câncer.

— Também, um terceiro afirmou: — Com 42 anos, para que um pê-


nis? Já tem filhos… e o que ganha não dá pra nada.

Desse modo, os médicos decretaram o fim da fria e monótona vida


sexual do paciente do leito 33. A sessão estava terminada. O enfer-
meiro entrou no salão e empurrou a cadeira de rodas cheia de grilos
em direção à enfermaria fria. Lá, o paciente passaria o fim de semana.
Naquele sepulcro, de paredes nuas e brancas, cada um, confrontando
sua solidão, meditava acerca do sofrimento. Estendido no leito 33,
ele rezava para que ele, ou seu vizinho tivesse, pelo menos, uma boa
morte.

Acabada a reunião, o almoço alegre e farto, os planos para a noite, a


cerveja gelada, o esporte do fim de semana, a transa com a namorada,
o passeio ao sítio e o esquecimento da vida atribulada.

Segunda-feira; os alunos sorridentes, queimados de sol, regressaram

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à enfermaria; era dia de visita aos leitos. Alguns debruçavam curiosos
sobre os órgãos genitais do paciente do leito 33 para observá-los, como
se examinassem uma escória, que seria desprezada ainda naquela
semana. Ninguém percebeu lágrimas salgadas que jorravam de seus
olhos quase fechados e que deslizavam pelo seu rosto envergonhado,
manchando o uniforme azul.

A cirurgia foi perfeita, um sucesso! Foram retirados, como determi-


nado, os testículos e todo o pênis, conforme a decisão dos professores.

— Mas e agora? Perguntava apreensivo o paciente para si mesmo


e continuava refletindo: — Como conviver com minha mulher, ou as
outras, e mesmo meus amigos? Meus planos estão enterrados para
sempre… sinto vergonha de mim mesmo, fiquei aleijado neste lugar, o
mais importante do homem. E agora, o que fazer com este corpo?

A partir da cirurgia, o paciente do leito 33 somente imaginava o que


não mais poderia realizar: suas aventuras, seu maior e talvez único
prazer; estava tudo acabado… a vida não tinha mais valor, toda ela fora
construída em torno do orgulho de ser homem. Era melhor morrer do
que viver assim.

Nos dias que se seguiram, o paciente do leito 33 voltou a sorrir para


os médicos e estudantes que vinham vê-lo para contar-lhe o sucesso da
cirurgia. Já confortado, ele agradecia a ajuda dos bondosos amigos da
medicina.

Numa tarde cinzenta de verão, aproximou-se do leito a simpática


enfermeira Lúcia, acompanhada da bonachona assistente social Clara,
cada uma com seus sorrisos costumeiros; estavam ali para prepará-lo
para deixar o hospital. A cicatriz já se formara no lugar onde antes habi-
tava um pênis. A enfermeira, carinhosamente, lhe ensinou qual seria a
melhor maneira de fazer xixi após a cirurgia.

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— Não será difícil, ela lhe explicou: — É só assentar no vaso ou aga-
char no chão, como fazem as mulheres. Entendeu? Não precisa preocu-
par-se, é uma pequena mudança; logo irá se acostumar.

As explicações se sucederam. Havia, segundo ela, diversos outros


modos agradáveis de gozar uma boa vida sexual e, com sabedoria de
quem conhece, demonstrando até certa excitação ao fazer uso de ges-
tos desenhados com suas mãos brancas e delicadas, a caridosa enfer-
meira lhe ensinou novas técnicas de fazer sexo.

Finalmente, a alta hospitalar; 12 de dezembro, um calor asfixiante,


uma viagem na poltrona dura e estreita no velho ônibus, a saudade de
sua casinha em Chaves das Botas. Mas sua mente não abandonava o
terrível pensamento: “Estou sem saída, sou um castrado”.

Antônio dos Santos Filho chegou exausto na rodoviária da cida-


de; Teresa o esperava; melancólica por costume. Recebeu-o com um
abraço envergonhado e desconfiado. Os filhos, vendo o pai desfigurado
pela magreza e palidez, choraram amedrontados e se esconderam, uns
agarrados aos outros, na saia da mãe. Neste instante, Antônio chorou.

A noite em Chaves das Botas estava quente. Antônio pouco comeu


da sopa de macarrão que Teresa fez com carinho e foi cedo para o
quarto. Deitado, evitou encostar-se em Teresa, que o esperava pronta
para ser usada. Ele permaneceu mudo ao lado da mulher. O sono não
veio por mais que tentasse. O plano imaginado nos momentos de so-
lidão renasceu. Impelido pela obsessão que o dominava, ele levantou-
-se, procurando não acordar Teresa. Mas, ao sair do catre, esbarrou na
perna de sua mulher, que gritou espantada:

— O que foi Antônio ?

— Nada mulher; vou ao quintal…mijar…

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Antônio caminhou cambaleando para o terreiro escuro, quente e
abafado como ele. As idéias, antes confusas, foram, aos poucos, fi-
cando mais claras. A coragem aumentava. Sentia internamente uma
pressão para agir. O plano elaborado no silêncio do hospital estava
prestes a ser executado. Suava frio, apesar de tudo, tinha medo. Auto-
maticamente, agachou-se para urinar como fazem as mulheres. Lem-
brou novamente a sessão clínica; os ensinamentos da enfermeira e da
assistente social, dos que lutaram tanto para mantê-lo vivo a qualquer
preço.

Agora estava livre para agir; desprezava todos e tudo; nada mais lhe
importava. Era preciso concretizar o que imaginara, acabar com tudo
aquilo, de uma vez por todas. Trêmulo, lembrou dos médicos que lu-
taram tanto para mantê-lo vivo; vacilou por instantes; sentia culpa por
decepcioná-los e desprezar o que eles tanto valorizam. Antes de partir
em direção à macabra e terrível ação, Antônio apalpou, pela última
vez, a cicatriz formada no seu corpo desfigurado. Nesse exato momen-
to, não teve mais dúvidas.

Sua mulher, sem dormir, preocupada com a demora, levantou-se


e, após acender uma vela, dirigiu-se ao quintal iluminando apenas o
estreito trilho por onde caminhava. Teresa, amedrontada, gritou por
Antônio, a princípio, timidamente. Nada, nenhuma resposta. Ouviu-se
somente, no sossego da noite, o piado de uma coruja distante. Novo
chamado, agora mais estridente; o silêncio parecia ser, a cada instante,
mais intenso. Agora ela escutava somente os sons apressados do seu
coração aflito e sua própria respiração ofegante. Mal segurando a vela
que estava quase se extinguindo, trôpega, ela observava cada vestígio
de vida e de esperança encontrada. De repente, no escuro, percebeu
que algo balançava na penumbra. Paralisada, ergueu um pouco mais
sua cabeça aproximando a chama mais perto do vulto para ver melhor,
quase encostando a chama nele. Nesse instante, Teresa soltou um urro,
antes de cair desmaiada, diante do que acabara de ver: no galho da
mangueira, havia um corpo suspenso. Não havia mais Antônio.

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Dependurado num cipó fino, um pouco acima do chão, ele parecia
mais magro ainda. O laço, ao entrar na carne existente em volta do
seu pescoço, produziu um profundo e feio canal roxo. Sua fisionomia
parecia mais serena do que antes, seu rosto, mais belo. De seu corpo
morno, pingos de suor, imitando gotas de orvalho, desciam preguiçosa-
mente pela sua face e caíam no solo, fertilizando a terra empobrecida.
Naquela silenciosa noite de dezembro, um aroma novo e diferente foi
criado: a fusão do odor emanado da terra, o suor do corpo de Antônio
e o perfume adocicado das mangas maduras.

Antônio parecia sorrir; zombou da vida, com a ajuda do frágil cipó.


Sem a sabedoria dos professores da medicina, derrotou, com simplici-
dade, as sábias teorias dos doutores ilustres. Desafiou os que afirma-
ram saber o que era melhor para ele; preferiu morrer a viver curado
para sempre, alcançando a liberdade através de sua morte.

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Loucos X Sem-tetos
Resta-nos esperar um pouco para assistirmos à trans­formação de
uma multidão de “loucos” em um exército de sem-teto (sem-casa, ou,
mais vulgarmente, pedidores de esmolas). Muitos dos loucos “sol-
tos” – ou seriam aban­donados? – pelos seus “defensores”, depois de
um certo tempo irão morrer de inanição, outros serão queimados,
atropelados ou assassinados pelos seus próprios compa­nheiros ou
inimigos, nas ruas ou nos barracões inabitáveis e também em “abrigos
para velhos e loucos”. Os que es­caparem desse morticínio morrerão de
cirrose, hepatite, tuberculose e pneumonia assentada na desnutrição,
alco­olismo e outras drogas.

Compreenda melhor a verdadeira história da “Liber­tação dos Lou-


cos”. Em 1900, o número dos pacientes men­tais internados nos hospi-
tais psiquiátricos americanos era de 150.000. Este número cresceu para
445.000, em 1940. Em 1955, dobrou para 819.000 (citado por John Q.
La Font, 1994). Os gastos ocorridos com esta população preocupa­ram
o governo americano. Era preciso armar, rapidamente, uma estratégia
capaz de diminuir essas despesas e, ao mesmo tempo, agradar à opi-
nião pública.

Nos anos sessenta o quebracabeça foi maquiavelica­mente solu-


cionado. A estratégia foi inteligentemente mon­tada. Sempre todos
criticaram a assistência médica dada ao paciente mental nos hospitais
psiquiátricos. Na época da criação da brilhante ideia para economizar
gastos pú­blicos, grandes nomes da psiquiatria mundial como Laing,
Szasz, Gofman faziam, com toda razão, pesadas críticas ao internamen-
to desnecessário e à péssima assistência psi­quiátrica hospitalar.

Mas como tirar os pacientes do hospital sem ferir a opinião públi-


ca? A ideia para esse dilema foi magistral e simples. Criou-se uma lei
proibindo o internamento invo­luntário. A partir daí, todas as interna-
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ções tornaram-se mais difíceis de serem concretizadas. Além disso, os
pa­cientes internados podiam escolher, a partir da promulga­ção da lei,
em continuar ou não hospitalizados.

O povo apoiou com entusiasmo a lei. O povo jamais conhece a fundo


as intenções reais e implícitas dos gover­nantes, pois os discursos ex-
plicitados, em sua maioria ou totalidade, têm sido usados para escon-
der o que não pode ser mostrado. O movimento que tirou o louco do
hospital e o despejou na rua como lixo, recebeu o eufêmico nome de
“movimento em defesa da liberdade dos indivíduos estig­matizados e
desprotegidos socialmente”.

O resultado da reforma foi rápido e eficiente como desejavam os


governantes preocupados com as despe­sas, jamais com a qualidade de
vida do paciente psiqui­átrico. O número de internados nos USA caiu
para menos de 200.000. Suas famílias, quando existiam, não tinham
capacidade nem competência para tê-los em casa. Os pa­cientes, uma
vez “libertados” e sem apoio familiar, foram transferidos dos péssimos
hospitais psiquiátricos para as ruas selvagens das grandes cidades ou
abrigos miseráveis e sem assistência médico-psiquiátrica.

Os dados mostram que nos USA houve um cresci­mento assusta-


dor dos sem-tetos após a vigência dessa lei. Estes aumentaram para
500.000 a 600.000 indivíduos.

Outras estatísticas falam de 3.000.000 deles. Desses, segundo as


estatísticas, 90% são doentes mentais graves: esquizofrênicos, alcoó-
latras, deprimidos, dependentes de drogas, epilépticos, demenciados
(caduquice) e débeis mentais.

Por outro lado, a população ficou à mercê de possí­veis ataques de al-


guns desses ex-pacientes. Há tempos, o New York Times publicou uma
reportagem relatando cri­mes no metrô de Nova Iorque. As vítimas,
usuários do metrô, foram atiradas debaixo dos trens. Dos dez assas­

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sinatos relatados, nove foram praticados por esquizofrêni­cos delirantes
e que nunca tinham visto suas vítimas. Um outro estudo feito na Suécia
mostrou que 20% das mu­lheres sem-teto morreram durante os três
anos da pes­quisa, sendo que algumas delas foram assassinadas pelos
próprios companheiros. Essa taxa de mortalidade é doze vezes maior
do que as ocorridas com uma amostra de mu­lheres de mesma idade.

Em resumo: os “loucos”, nos Estados Unidos, se trans­formaram em


sem-teto. A ideologia capitalista, desde sua origem, não tolera cida-
dãos que não produzam trabalho. Os primeiros “hospitais” eram depó-
sitos de “vagabundos”, destinados a afastá-los dos “sãos” trabalhado-
res. O gover­no capitalista esvaziou os hospitais, lançando os pacientes
na rua e sem dono, abandonando-os à sua própria sorte.

Surpreendentemente, vemos ativistas dos partidos chamados de


“progressistas” como os principais defen­sores dessa covarde trapaça.
Aproveita-se da insensatez provisória ou perene dos doentes mentais,
prometendo-lhes a liberdade inexistente. Foram, de fato, jogados no
inferno das ruas, sem comida e sem lugar para dormir. De forma ilógica
falam do direito do cidadão, inclusive do direito à assistência médica,
mas, com a alta hospitalar é-lhes negado esse direito.

Todos sabem – os políticos interessados em economizar fingem não


saber – que este tipo de indivíduo não consegue distinguir e escolher
o que é o melhor para ele próprio, uma conduta que faz parte de sua
própria doença. O Estado, apoiado por diversos políticos e pelo povo
ingênuo, atuando como o bandido ou marginal, passa o “conto do
vigário” no incauto e desprotegido paciente, lucrando com a ingenuida­
de de sua vítima e, estranhamente, recebe as honras e os aplausos da
galera por estar “libertando os loucos”.

A história ocorrida nos USA, que está sendo reformu­lada, foi copiada
em Minas. Lá nos Estados Unidos consta­tou-se que a “caridade” para
com o paciente, de fato, foi sua desgraça. A lei foi modificada para a

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adoção de uma “Jurisprudência Terapêutica”. Segundo esta, o alvo
passa a ser o melhor para a saúde do paciente, isto é, o interna­mento
ou tratamento pode e deve ser involuntário, desde que beneficie o
paciente.

Vamos matar muitos “loucos” para acordarmos e aprendermos


a lição. É possível, desde que pensemos, an­tecipar acontecimentos
ilógicos antes de sua ocorrência. Posso, ao perceber que a escada está
quebrada, trocá-la antes de minha queda. De qualquer modo, com o
dinhei­ro economizado devido à “liberdade” dos “loucos inúteis”, com
a diminuição dos gastos com a saúde desses pacientes sem voz e sem
prestígio social, torna-se possível aumentar os salários dos nobres
vereadores, deputados, senadores e outros protegidos. E os políticos
continuarão a ser os gran­des defensores dos desassistidos.

Talvez o governo e os políticos tenham razão: o me­lhor – ou menos


ruim – para os “loucos” abandonados é ter uma morte rápida.

Torna-se difícil fazer uma escolha entre viver num péssimo hospital
psiquiátrico ou morrer bêbado, drogado, doente e agredido numa rua
escura e sem saída.

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O Conhecimento e as Diversas
Línguas
Alimentadas pelo modo de pensar dominante exis­tente em cada
época, constantemente nascem novas pa­lavras. Uma manifestação
verbal importante socialmente produzida num local populoso poderá
influenciar outras regiões e grupos.

Assistimos constantemente ao aparecimento de mo­dos diferentes


de nomear fatos e situações, apropriados a cada geração, grupo ou
sociedade. Essas maneiras de classificar são simbolizadas ou expressas
em linguagens diferentes, variando conforme a idade, o sexo, o grupo
social e cultural, a profissão, o lugar, a época e outras va­riáveis.

Pode-se afirmar que cada indivíduo tem seu vocabu­lário próprio,


usa mais certas palavras e não outras, enfa­tiza mais certos aspectos da
realidade e pouco, ou nada, outros. Notamos que há uma grande dife-
rença entre a fala do presidente e a do ministro, do clérigo, advogado,
mé­dico, futebolista, sem-teto, idoso, jovem, trombadinha, prostituta,
bandido e político.

Por outro lado, cada um de nós altera seu modo de falar conforme
atua diante de uma ou outra situação, na hora da briga ou do amor,
perante os filhos, pais, médicos, clientes, amigos, inimigos, torcedores,
amante. Em cada uma dessas ocasiões, fazemos uso de linguagens
diferen­tes, pulamos de uma para outra, automaticamente, sem esforço
e inconscientemente. Algumas vezes não entende­mos a linguagem de
um grupo ou de outro.

As linguagens referidas acima (do presidente, bandido, futebolista


e outras) coexistem, se expressam e se mistu­ram. Todos os modos de
nomear coisas e eventos sobrevive­ram em grupos diversos e separados
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e germinaram, durante certos períodos, na vida sociocultural de um
grupo deter­minado. As palavras que ainda vivem, as que resistiram ao
tempo ainda dominam a mente de seus possuidores em ra­zão de sua
utilidade, do contrário teriam desaparecido.

Os vários discursos, indo do professor universitário ao analfabeto, do


servente ao presidente, nasceram e germi­naram da existência simul-
tânea de modos antagônicos de viver quanto às ideologias, aspectos
socioeconômicos, reli­giões diversas, várias profissões, sexo, idade. Em
resumo: de diferentes grupos com objetivos e condutas variadas. Con-
vivem ao mesmo tempo, de forma harmoniosa e con­flituosa, modos de
falar antigos e modernos, onde alguns terão vida longa, outros, curta.
Algumas palavras são mais potentes, tomam o lugar de outras mais
frágeis, que, às vezes, desaparecem para sempre. Outras renascem
com força total após anos de hibernação. Durante as lutas de palavras
contra palavras, despontam acasalamentos que geram novas palavras
ou novas formas de manifestações de ideias sociais, misturas de uma
e de outra, ou de di­versas delas. Das crias são conservadas, em maior
quan­tidade, os “genes” das dominantes e poderosas e podem desapa-
recer os genes mais fracos.

As palavras, como os seres vivos, nascem, crescem e morrem. Al-


gumas resistem mais, como insetos, estando mais bem adaptadas ao
meio, habitam a mente, em todas as épo­cas, de todos os grupos socio-
culturais. Não são extermina­das, por mais que haja grupos contrários à
sua proliferação.

Cada linguagem, nascida de um grupo sociocultural específico, in-


grediente do bolo total existente, se distingue das outras. Cada língua,
fiel à suas convicções e princípios orientadores, enfatiza um ou outro
aspecto: uma prioriza a função, a outra, o tema, outra, ainda, a religião
ou o social. Algumas poucas são dramáticas.

Apesar da existência de diversas linguagens, quase todas convivem

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entre si, apesar de que uma ou outra pode ser obstáculo ao crescimen-
to ou manutenção da outra. Por exemplo: o Brasil tem sido invadido
pela linguagem e, li­gado a ela, pelos costumes próprios dos nativos da
língua inglesa. Também percebe-se a invasão de conceitos e ter­mos da
linguagem de uma área no território de outras: “Precisamos fazer um
diagnóstico melhor da nossa econo­mia”, “Só fazendo uma cirurgia radi-
cal iremos acabar com a violência”, “Para curar esse câncer, há necessi-
dade de processos invasivos, pois assim iremos exterminar a do­ença”.
Os exemplos, relacionados ao uso de termos de de­terminada lingua-
gem de um grupo (médicos, na economia e na violência, da guerra, na
medicina etc.) são inúmeros, viajando na boca de todos nós de forma
automática. Usa­mos sem parar uma linguagem híbrida, tudo natural-
mente sem esforço. Aos poucos, alguns termos podem ir mudan­do de
habitat, passando, por exemplo, da linguagem mé­dica para a popular:
“O país está esquizofrênico”.

Um aspecto importante para a sobrevivência longa de uma palavra


é a de que o discurso onde ela habita, precisa, para viver ou sobrevi-
ver, apoiar-se fora dele, isto é, uma linguagem não pode ser gerada e
desenvolvida do nada.

Ela precisa alimentar-se de objetos observáveis, os que atingem


nossos sentidos, muito próximos ou muito afastados. A linguagem não
resiste à falta de objeto, sem este ela forçosamente desaparece.

Quando assistimos às conversas dos intelectuais – que fogem dessa


orientação – não percebemos no seu “bate-papo” nada além de uma
teia vazia: palavras e mais palavras sem referenciais, nuas, impossíveis
de serem compreendidas. Trata-se de um tipo de linguagem da qual
nada sabemos, pois ela não nos informa nem sua posição social, nem
as intenções, nem a época, nem o destino, nem nada. Os intelectuais,
estando acima das “coisas re­ais”, discursam sobre o nada. Estudar o
discurso em si mesmo, ignorando sua orientação externa, é tão ab-
surdo como estudar o sofrimento mental sem examinar como esse

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foi desenvolvido, bem como o contexto que facilitou ou dificultou o
aparecimento dele.

A língua não trabalha com palavras neutras ou sem emoções, como


os psicanalistas acreditavam. Não existe uma palavra válida e eficiente
que não pertence a ninguém, a nenhuma época e nenhuma idade, etc.
Um termo só so­breviverá e funcionará caso seja contaminado pelas
inten­ções, prazeres, sofrimentos e objetivos implícitos – rara­mente
explícitos – de uma pessoa ou grupo sociocultural.

Um lavrador iletrado, residindo pra lá dos confins da Cidade de Nos-


sa Senhora do Socorro, ingenuamente mer­gulhado em uma existência
imaginada como imutável e inabalável, vive, apesar de tudo, num meio
contendo vá­rios sistemas linguísticos interagindo e em constante mu­
dança.

Ele deve cantar suas modinhas caipiras numa forma poética e emo-
cional, reza a Deus numa linguagem apro­priada à sua religião, fala de
um modo coloquial e espon­tâneo com seus familiares e amigos ínti-
mos, ou seja, numa terceira língua. Quando colher e vender seu feijão
e milho usará a linguagem comercial, quando casar, diante das au­
toridades da cidade, ele usará uma outra língua: a oficial, do cartório.

Para cada ato desses, pressupõe-se linguagens e ter­mos diferentes,


porém estas línguas não estão ordenadas hierarquicamente na cons-
ciência do lavrador. Ele usa ora uma, ora outra. A cada instante, auto-
maticamente, troca de língua. Cada linguagem usada nasceu e cresceu
em ni­nhos diferentes. O lavrador, possivelmente nunca procurou,
nem mesmo imaginou, examinar uma linguagem usada – bem como
o mundo descrito ou interpretado por ela – com a lente da outra. Por
exemplo, examinar a linguagem usada no cotidiano e familiar com os
“olhos” da linguagem da ora­ção ou da canção. Ele não deve imaginar
que se fizesse isso – examinasse um dos mundos vividos com as “len-
tes” da outra linguagem – o “mundo” olhado não seria o conhecido,

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seria outro, talvez muito diferente do lido com a linguagem inicial. Ele
enxergaria novos mundos.

A linguagem e o mundo da oração, a linguagem e o mundo da can-


ção, do trabalho e comércio, dos costumes, a linguagem específica e o
mundo da administração rural, a moderna e o mundo do trabalhador
braçal que chega em casa para descansar. Todas essas linguagens des-
crevem mundos determinados, usam certas palavras apropriadas para
aque­le mundinho, os descortinados por cada uma delas.

Cedo ou tarde, cada um desses mundos, dependendo do poder ou


vigor da linguagem, poderá perder seu esta­do de equilíbrio sereno e
amorfo. Muitos mundos, antes estáveis, que foram imaginados firmes
e eternos, quando examinados sob o prisma complacente e tolerante
da lín­gua-mãe, de sua própria linguagem tendenciosa e toleran­te, de-
sabaram, olhados sob outros óculos, mais neutros e impiedosos.

Cada grupo de palavras nos leva a formar imagens de um contex-


to, no qual elas nasceram e viveram. Portanto, todas as palavras são
povoadas por intenções e emoções, nelas são inevitáveis as harmonias
e as desarmonias de gênero, de orientações, de idade, de indivíduos
diferentes.

A palavra pronunciada, ou escrita, numa conversa ou discussão é, ao


mesmo tempo, uma palavra emitida por uma determinada pessoa, e
também ideias, conceitos ou lógicas emprestadas de outros. Não foram
criadas por seu possuidor, já existiam quando ele nasceu. Ela se torna
“própria” quando o falante a povoa com sua intenção, com seu acento
particular – caso o tenha – quando ele a domina através do seu discur-
so, tornando-a familiar ao dar sua orientação semântica e expressiva
particular.

Alguns falam sem pôr um acento ou linguagem “pró­pria”, como se


estivessem distantes do falado. A fala ecoa de modo estranho, pois as

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linguagens usadas não foram assimiladas, ficam “entre aspas”, foram
decoradas.

A visão do mundo de uma geração, se formulada em palavras, torna-


-se necessariamente uma prisão para a gera­ção seguinte ou as seguin-
tes. Cada geração deve exigir sua própria linguagem, nascida de uma
época e numa cultura.

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Sociedade e cultura: Informações
resumidas
É arriscado examinar um povo a partir das experiências de outro
povo ou cultura; examinar as mulheres com os “olhos” dos homens; os
clientes com os olhos dos médicos; os negros com os valores dos bran-
cos etc. Usar um tipo de linguagem para examinar uma outra pode não
ser o ideal, entretanto, algumas vezes, produz uma melhor compreen-
são de uma ou de outra parte.

Quem sou eu? Posso conceber-me como um sistema físico de bi-


lhões de átomos; um sistema biológico de trinta bilhões de células; um
sistema orgânico com de centenas de órgãos; um elemento no sistema
familiar, urbano, profissional, social, nacional ou étnico. Ao fazermos
uma escolha quanto à avaliação, há algo de pessoal e, além disso, sele-
cionando uma delas, deixamos de lado as outras possíveis e válidas.

Compreender uma pessoa – ou uma cultura – é apreender o signifi-


cado das experiências e das ações do outro, de outro modo, reconhe-
cer como as experiências e ações da pessoa se referem a outras experi-
ências e ações possíveis vividas por ela. Quando isso ocorre adquirimos
ou tomamos posse do significado das experiências e comportamentos
que queremos compreender. Qualquer ação tornar-se-á compreensí-
vel quando ela é relacionada a outras ações e experiências da mesma
pessoa e, nesse caso, a parte passa a ganhar sentido sob o “olhar” do
conjunto total.

Cada sociedade enfrenta mais ou menos os mesmos problemas:


abrigo, comida, doenças, criação dos filhos, morte, amor, cooperação.
Cada uma dá suas respostas singulares. Por isso, o mundo real, cons-
truído inconscientemente pelos padrões linguísticos de cada grupo
ou sociedade, impede a percepção de outros mundos reais, pois cada
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língua tende a pontuar e categorizar a realidade de maneira própria e,
desse modo, não percebe e classifica outros.

Podemos colocar um recém-nascido em qualquer cultura; ele se


comportará razoavelmente nela apesar de possíveis limitações genéti-
cas: um índio numa cultura negra, um esquimó numa cultura equato-
riana etc. Os seres humanos não foram geneticamente programados
para serem membros desta ou daquela ordem social. Mas o que é pos-
sível geneticamente não é permitido nas culturas ou sociedades, pois
em nenhuma delas é tolerado uma diversidade exagerada de modos de
vida.

A ordem social, para o pensamento antigo, teve seu fundamento na


vontade divina; o discurso político repetiu e reproduziu a desigualdade
dessa ordem tida como divina. Um exemplo marcante encontra-se nos
famosos versos do hino inglês: “o rico em seu castelo – o pobre em seu
portão – Deus os fez poderosos ou humildes – e ordenou sua condi-
ção”.

Levy Strauss pediu aos habitantes de uma aldeia que desenhassem


a disposição espacial das cabanas conforme a crença de grupos anta-
gônicos. O grupo dos “conservadores” desenhou as cabanas dispostas
simetricamente em torno de um círculo, tendo no centro um templo
maior. Já o grupo dos “revolucionários” desenhou a aldeia como dois
aglomerados distintos separados por uma fronteira invisível. Conclui-
-se que a percepção do espaço social (divisão concreta) dependerá de
constantes ocultas na mente do grupo de observadores e não da dispo-
sição objetiva das construções

Para Althusser os homens, de fato, expressam, não a relação entre


eles e suas condições de existência, mas o modo como eles vivenciam
a relação e suas condições de existência: isso pressupõe tanto uma
relação real quanto uma “imaginária” vivida. Na ideologia, a relação
real é inevitavelmente investida da imaginária. É impossível isolar uma

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realidade cuja coerência não seja mantida por mecanismos ideológicos,
se a retirarmos, ela se desintegrará.

Para ter sentido queimar bruxas é necessário ter, como parte do


ambiente intelectual/cultural, as afirmações de que há demônios e que
algumas pessoas podem se aliar a eles para fazer mal aos sem poder.
Do mesmo modo, para “ter sentido”, para alguns homens, agredir
mulheres, é preciso que haja um ambiente cultural onde esses homens
aprenderam essa “verdade”; o mesmo pode ser pensado para a crença
de que podemos e devemos bater nos filhos. Para que fossem aceitas
as antigas idéias de que as mulheres não podiam votar, era necessário
que houvesse uma crença plantada culturalmente acerca da incapaci-
dade e submissão das mulheres aos homens.

As falsas crenças da inferioridade da mulher, da existência de espíri-


tos, bruxos e feiticeiras, de que a Terra era o centro do universo, jamais
foram estabelecidas em fatos possíveis de serem observáveis, ou logi-
camente inferidas. Mas essas idéias que dominaram a mente humana
durante séculos foram defendidas com vigor pelos grandes sábios da
época. Todas elas foram construídas em cima de princípios visando a
justificar e proteger necessidades de um ou outro grupo detentor do
poder.

Uma vez semeada, nascida e desenvolvida, uma crença básica-tronco


tende a dar nascimento a galhos e brotos, permitindo a formação de
outras suposições não observáveis dela derivada. Assim, a idéia origi-
nal inexata passa a ser uma condição para a formação de novas idéias,
logicamente, falsas. Logo, para entender uma determinada crença ou
opinião torna-se necessário conhecer sua base cognitiva não revelada,
implícita e inconsciente, inclusive para seu possuidor.

Não tem sentido falar de atitudes diante da educação ou do capita-


lismo, a não ser que saibamos o que essas categorias significam para o
indivíduo que as discute. Não poderá existir uma mudança de atitude

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sem que haja, também, uma transformação correspondente no conhe-
cimento básico: o que fornece o suporte à crença que se quer mudar
da atitude.

Aristóteles, ao defender a escravidão, baseou-se, “razoavelmente”,


nas idéias da época acerca de supostas diferenças individuais que eram
falsas. A oposição feita a Galileu foi, principalmente, devido a uma
ordem social que tinha pontos de vista rígidos e errados acerca da cria-
ção do mundo, da natureza das coisas; esses impediam imaginar uma
outra realidade. A falsa crença da inferioridade dos negros apoiou-se
na manutenção do poder político e exploração de mão-de-obra.

Estudos mostram que condições ambientais semelhantes dão nasci-


mento a formas parecidas de compreensão do meio ambiente físico e
humano. Estas situações definem, de maneiras mais ou menos especí-
ficas para os indivíduos, as propriedades de coisas, pessoas, grupos e
ações.

Os governos empregam inúmeros recursos para fornecer uma apa-


rência de uma linha política razoável. A censura e certas formas de
propaganda são esforços para moldar, ou imprimir, a compreensão e
opinião da população conforme o desejado pelos governantes.

Uma atitude contém em si uma ordenação mais ou menos coerente


de diferentes dados. Observações e raciocínios diversos utilizados pela
pessoa devem estar arrumados e unificados para facilitar os argumen-
tos apresentados. O que a pessoa diz em certo ponto precisa estar liga-
do, de maneira inteligível, com o que se afirmara antes ou dirá depois,
assim como as partes de uma história precisam estar interligadas.

Uma determinada atitude encontrará resistência caso vá contra siste-


mas que imperam: socioculturais e religiosos. Há uma tendência para
buscar a estabilidade. Por outro lado, uma transformação numa parte
muito poderosa do sistema pode iniciar um processo até então inexis-
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tente e, consequentemente, alterar o sistema amplo como um todo.

Podemos afirmar que: 1) uma atitude é uma organização de experi-


ências e dados referentes a um objeto; uma estrutura de ordem hie-
rárquica, cujas partes funcionam de acordo com sua posição no todo;
2) uma determinada atitude é uma estrutura semi-aberta que funcio-
na como parte de um contexto mais amplo. Ela tem o caráter de um
compromisso com a orientação da cultura, sendo parte dependente do
sistema mais vasto.

Para muitos, as atitudes deformam as observações, a percepção e o


pensamento. Elas funcionam como fontes de enganos, nos tornam su-
gestionáveis para certas experiências. As crenças, por trás das atitudes,
são mais do que uma expressão do conhecimento. As necessidades e
os interesses são pontos decisivos na elaboração da crença, e tornam-
-se responsáveis pelas semelhanças e diferenças entre os grupos.

As atitudes têm objetos, ou seja, formam imagens mentais; seus con-


teúdos nascem desses objetos, tão direta e inexoravelmente quanto
uma emoção específica surge de determinada visão de uma situação.

As oposições ou opiniões diferentes entre os indivíduos resultam das


diferenças do conteúdo cognitivo, ou do nível de conhecimento, de
um e outro indivíduo. Se um tem apenas um conhecimento parcial dos
fatos ele estará enfrentando uma situação diferente do que tem uma
visão mais abrangente.

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Informação, Comunicação e
Linguagem

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Duas Mulheres Num dia Qualquer
— Maria, o gás acabou?

— Está no fim, D. Marta.

— Telefone para saber o preço do botijão.

— O grande custa R$ 147,00 e o pequeno R$ 35,00.

— O quê? Que absurdo, Maria! O grande tem um pouco mais de três


vezes o gás dos pequenos. Nesse caso, vale a pena comprar três dos
pequenos, fica mais barato.

— Mas, D. Marta, os pequenos acabam mais depressa. Um pe­queno


não dura nada!

— Ora, Maria, se reunirmos três dos pequenos, eles vão durar mais
ou menos o mesmo tempo de um grande.

— Não, D. Marta. O grande dura três meses aqui em casa, o pe­queno


não dura nem quinze dias.

— Não tem jeito, Maria. Se o grande é um pouco mais de três vezes


maior, ele deve durar o mesmo tanto de três e meio botijões peque-
nos. É a lógica.

— Eu não entendo de lógica, não. Mas sei, pois sou a cozinheira, que
o botijão pequeno dura muito pouco. A senhora não se lembra que,
antes de colocarmos os grandes, tinha todo dia de trocar o bo­tijão?
A senhora é cabeleireira, sabe fazer penteados, mas não sabe quanto
tempo dura um botijão de gás. Todas as minhas colegas falam a mesma
coisa, nenhuma gosta de botijão pequeno. A gente começa a cozinhar
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e o gás acaba.

— Maria, escute: um pacote de arroz de cinco quilos não dura a mes-


ma coisa que cinco pacotes de um quilo?

— Não sei, não! Gás é diferente, arroz não pega fogo, nem sobe no
ar, ele serve pra gente comer. Quem come gás ou planta gás? O botijão
de gás grande tem mais gás e é muito mais pesado. Um entre­gador de
gás carrega um pequeno com facilidade, mas o grande, nem pensar, é
carregado no carrinho.

Quando o homem veio colocar o botijão grande, ele estava tão pesa-
do que amassou o dedo dele, saiu muito sangue.

Ele ficou com ódio, o outro ainda riu dele. Se fosse um pequeno, ele
levantava com um dedo. Lá perto de casa tem um homem que carrega
o botijão de gás nos dentes, amarrado no arame.

— Está falando de outras coisas, raciocinando errado.

— A senhora não compreende, porque nunca mexeu na cozi­nha. Se


eu colocar na mesa um bolo grande, ele não vai durar mais do que se
colocar muitos pequenos?

— Depende de quantos pequenos. Se for um número de bolos com o


mesmo peso do bolo grande, os pequenos vão durar o mesmo tem-
po que o bolo grande.

— Nunca! Quando faço um bolo pequeno, ele acaba logo. O bolo


grande fica vários dias sem acabar, mais do que o de vários boli­nhos.
Acaba sendo jogado fora, de tanto durar.

— É porque, ficando velho, as pessoas não o comem.

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— Agora a senhora viu que eu tenho razão! O bolo dura mais porque,
quando é grande, dura mais, igual ao gás. Se a senhora cami­nhar três
léguas, o tempo gasto vai ser o mesmo do que a soma dos tempos
de caminhar uma légua três vezes. Uma légua lá na roça a gen­te
caminha em 1 hora, mas três léguas, nem Tonico, meu primo, que
caminha o dia inteiro atrás de vaca no pasto, não consegue cami-
nhar em três horas, ele vai gastar muito mais e lá todo mundo fala
que não tem ninguém que caminha mais depressa do que Tonico. A
senhora, se fosse caminhar três léguas, era capaz de demorar umas 6
horas, ou nem conseguir chegar no final da caminhada. Se a senhora
colocar três lâmpadas de 50 watts, elas vão clarear a sala igual a uma
de 150 watts? É uma graça. Por que a senhora colocou na sala uma
lâmpada forte, em vez de três pequenas?

— Mas, Maria, caminhar e luz são diferentes.

— Eu sei que é diferente, mas, ao mesmo tempo, é igual. No pri­


meiro caso é o gás, no outro, o bolo, no outro, ainda, a légua e a luz.
Pois bem, o gás a gente não vê, mas pega fogo e serve para cozinhar,
o bolo a gente faz usando o gás e come, e a légua a gente não vê
tam­bém, como o gás, mas passa por ela, a atravessa, sabe que ela
existe sem nunca tê-la visto, e a luz, bem, luz eu não sei o que é, mas
se ela não existisse a gente não ia enxergar nada. Mas todas essas
coisas são iguais também, pois para comer o bolo, para gastar o gás,
para ir de um lugar ao outro e para a luz clarear, principalmente a da
lamparina lá da roça – as da cidade são diferentes – gasta-se um cer-
to tempo. Co­meçamos num momento e terminamos num outro mo-
mento, diferen­te do início. E aí é que está, a gente sempre gasta mais
tempo com as coisas maiores, mais compridas que as mais curtas.

— Isso eu sei, Maria, eu estou falando de proporções. Se uma coisa é


proporcional à outra, elas gastam o mesmo tempo.

— A senhora é mesmo cabeça dura. O caso do bolo, da caminha­da,

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da luz não deu para perceber?

— Mas nesse caso entram outros fatores que modificam o tempo


final. Você está raciocinando errado, usando metáforas para concluir
e isso sempre é perigoso, falando de uma coisa e explicando essa
com os termos de uma outra. Para explicar um acontecimento, é
necessá­rio explicá-lo com palavras que têm seu significado apenas na
situação examinada. Assim, se você tentar explicar uma coisa através
de uma palavra retirada de uma outra explicação dá tudo errado e
o resultado é essa confusão que você está fazendo. Você não pode
explicar o tem­po de duração do gás através do tempo gasto na ca-
minhada. Assim, no caso da caminhada, entram outros fatores que
modificam o tempo final. É difícil para você entender.

— A senhora é muito engraçada. As patroas todas que conheci são


assim. Parecem-se com o pastor lá da igreja onde frequento. Quan­
do lhe perguntei por que eu não podia abraçar meu namorado antes
do casamento, e podia depois, ele começou a falar de valores, nor­
mas, pecado, uma porção de coisas, que não entendi nada. Acho que
ele também não entende o que explica. As patroas fazem o mesmo,
quando perdem uma discussão começam a falar palavras difíceis,
pois com elas escondem o que não sabem. Deixe pra lá. Compre o
botijão pequeno e depois a senhora vai falar: “Maria, você está gas-
tando gás demais!” Sempre é a gente que fica com a culpa, a corda
arrebenta para o lado mais fraco. Nunca muda!

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TV e Pesquisas de Opiniões: Você
Decide
Todos sabem que a compreensão de afirmações sim­ples exige ba-
sicamente uma proposição com um sujeito e um predicado. O sujeito
refere-se a um exemplar específi­co ou a um ou mais membros de uma
categoria (José, no primeiro caso, um médico ou os médicos, os livros,
etc., no segundo). O predicado pode se referir a uma ação espe­cífica
(atendeu um paciente, apresentou um programa de auditório), ou a
uma relação entre o sujeito e um atributo dele (é gordo, tem o cabelo
preto).

A frase “um ator apresentou um programa” exige mais dificuldade


e também maior tempo para ser assimilada e compreendida do que
“Sílvio Santos apresentou um pro­grama”. Nesse último caso, há uma
ativação de imagens, noções ou modelos já formados e conhecidos na
mente do ouvinte, portanto mais fáceis de serem ativados. Ficará mais
difícil ainda assimilar a afirmativa: “um gato apre­sentou um programa”.
Tente, meu caro leitor, imaginar o que essa proposição quer informar.
É melhor lembrar de “Ratinho”. Por isso mesmo é difícil e chato con-
versar com intelectuais, pois sua fala dificilmente ativa algum fato já
experimentado ou visto por nós. O mundo deles não é o meu, talvez
não seja também o seu. Tudo indica que as afirmações repetidas são
mais fáceis de serem julgadas e, além disso, acreditamos mais nelas,
pela repetição, do que as ouvidas ou lidas pela primeira vez.

A compreensão de uma informação utiliza-se do lido, ouvido ou


experimentado. O estoque de informações exis­tentes em cada mente
servirá de base para se fazer novos julgamentos, a probabilidade de um
acontecimento ocor­rer, emitir qualquer opinião sobre o assunto X ou Y.
Assim, interpretamos a frase “João é mau”, ou “Maria é simpática”, em
função de modelos ou ideias que possuímos, aprendi­das anteriormen-
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te.

Serão elas que servirão de “processadores” para a in­formação rece-


bida. Por isso mesmo, fica difícil, ou impos­sível, assimilarmos uma frase
ou imagem: “Hitler e Stalin amavam as crianças e os pássaros”. Não
temos processa­dores mentais para isso.
Acontecimentos familiares e não-familiares.

A descrição dos eventos que ouvimos, na sua maio­ria, se constitui


de situações familiares e, por isso mesmo, fáceis de serem entendidas,
também fáceis de serem es­quecidas, como a que servirá de exemplo:
“Na noite de sexta-feira, fui ao restaurante Luar do Inferno. Lá, pedi um
bife com batatas e um copo de vinho. Terminei, veio a con­ta, paguei e
saí”. Todos os fatos são comuns, talvez o nome do restaurante possa
ser novo. Poderiam ter ocorrido fatos mais excitantes: “encontrei um
conhecido…, discutimos…, ele ficou nervoso, pegou o garfo, avançou,
etc.” Nessa úl­tima descrição, possivelmente, o ouvinte ficará um pouco
mais curioso com a cena mostrada, podendo retê-la um pouco mais.
Além disso, ao ouvir a narrativa, talvez se lembre de fatos e emoções
semelhantes já vividas.

Uma premissa fundamental para a informação é que ela deve forne-


cer para o receptor algum conhecimento que ele ainda não possuía.
Deve, ainda, convencê-lo de ser verdadeira. Nada mais chato do que
ouvir uma “informa­ção” conhecida:

— “Os atleticanos odeiam os cruzeirenses”, ou seja, ouvir uma não-


-informação.

Outro aspecto importante: as pessoas são mais facil­mente influen-


ciadas por informações que permitem a elas, sem dificuldade, constru-
írem uma ideia, imagem ou mo­delo concreto do acontecimento que
está sendo descrito. As ideias ou padrões mais utilizados pelas pessoas
consis­tem em representações mentais de situações, envolvendo pesso-

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as e acontecimentos particulares e ou concretos. Os modelos mais utili-
zados podem ser formados de diversas maneiras: devido a experiências
diretas, por ouvirmos re­latos de outras pessoas, lendo jornais, revistas,
etc. e, por último, assistindo TVs.

Segundo as estatísticas, um americano médio vê 4 horas de TV por


dia. Como foi dito, adquirimos modelos do mundo de diversos modos,
um deles é quando assistirmos TVs. Portanto, muitas de nossas ideias a
respeito da moda, da conduta sexual, da educação de crianças, acerca
da ci­ência, etc., são formadas através dessa “leitura” fácil e pre­guiçosa
que é a TV. Lamentavelmente, os modelos obser­vados, aprendidos, in-
corporados e utilizados pelo indivíduo nas televisões, frequentemente
baseiam-se em comporta­mentos de pessoas fictícias ou raras, vivendo
acontecimen­tos pouco prováveis e em situações não-comuns. Por tudo
isso, podemos supor que o modo de enxergar e lidar com o mundo,
do americano médio, ao incorporar suas ideias básicas com os ensina-
mentos da TV, assenta-se em fun­damentos falsos ou não-usuais. Desse
modo, ele irá com­preender ou assimilar os fatos concretos e reais do
mundo através de estacas podres e fincadas no lamaçal.

Como compreendemos os fatos, e nos expressamos conforme os


modelos de condutas existentes e armazena­dos em nossa mente, e
como muitos de nossos modelos situacionais são formados através de
programas de auditó­rio do Gugu, Leão, Faustão e muitos outros, bem
como das novelas de TV, podemos compreender como anda a mente
do telespectador fanático e como funciona o que tem sido vulgarmente
chamada de “formadora de opiniões”.

Como se sabe, quase a totalidade dos programas de TV tem como


meta o seguinte: um patrocinador, uma au­diência, muita movimen-
tação e provocação de emoções. Para que se cumpra esse objetivo,
enfatizam-se inúmeras “ficções” sensacionalistas e teatrais. O ouvinte
distraído, tendo sua mente preparada para assimilar o que está sen­do
exibido, com o programa incorpora, lentamente, es­sas ideias. Elas pe-

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netram sorrateiramente: os costumes, o modo de se expressar, o jeito
teatral, os cabelos, as rou­pas, os namoros, a forma de beijar e tudo
mais visto na magnífica TV.

Mais tarde, as mesmas TVs, apostando na plasticida­de da mente já


semiformada, imprimem na mente plástica do telespectador julgamen-
tos e valores para eventos e fa­tos, parâmetros para julgá-los, executa
suas “pesquisas” de opiniões. Nestas, o telespectador inconsciente,
quase dormindo, é perguntado para “estimar as taxas de crimes no
Brasil”, “quem é mais inteligente, se o homem ou a mulher”, “quem fez
o gol mais bonito”, “quem deverá ser escalado”, etc.

Ora, o respondedor, como um cão bem ensinado, não mais rosnan-


do, soltando gotas de saliva, irá responder uti­lizando-se das “infor-
mações” ou “conhecimento” ditado e inoculado anteriormente pelos
senhores do poder e dos pro­gramas preferidos: jogos, novelas, pega-
dinhas, etc., isto é, os mesmos que fazem a “pesquisa de opinião” do
povo.

O leitor deve lembrar que a mente do telespectador ao assistir a TV


já está, na sua maioria, pronta para assimilar e adotar as infiltrações
dos programas. Mais tarde, feliz, o telespectador e seu repórter pre-
ferido comemoram o re­sultado das pesquisas de “opiniões”. O que o
telespectador responde – nos Ibopes da vida – a perguntas tais como:
“você decide”, “se você é a favor disque…”, “em quem você votaria se a
eleição fosse hoje”, “sua opinião sobre o novo presidente”, nada mais é
do que a opinião mais ouvida, mais pronunciada pelos atores, locuto-
res mais simpáticos e bonitos, pelas TVs, jornais e rádios mais ouvidos,
vistos, lidos e queridos e, também, dos companheiros do teles­pectador
que seguem o mesmo tipo de vida.

Vou lhes contar um caso. Há alguns anos, antes da eleição do F.


Collor, numa tarde, eu estava no barbeiro. Num certo momento do
papo, perguntei a ele – um ilustre senhor de cabelos brancos – em

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quem iria votar. Ele ficou sério, compenetrado. Demorou um pouco e,
de repente, dando uma de pensador profundo, respondeu-me num
tom de voz baixo, ao pé do ouvido, quase inaudível: “Doutor, estão
dizendo aí, TVs e rádios, que Collor vai ganhar. Vou votar nele”. Ele
mostrou o discutido acima: o voto no pos­sível ganhador, segundo os
orientados pelos rumores…

As TVs, lançando certo tipo de notícia e não outras, ou seja, infor-


mando algumas áreas e não informando outras – o modo de falar em
público, de alourar os cabelos das morenas e mulatas, mais recente-
mente das mais “idosas”, de se vestir e agir, etc. – levam as pessoas
que a veem, a imaginar que o costume, o lazer, a compra a crédito e os
costumes de modo geral mostrados são os certos para to­das as pesso-
as, em todos os lugares. Nada mais absurdo!

Lamentavelmente, muitos só têm a TV como fonte de informação e


amigos que assistem a mesma TV. Nesse caso as informações só são
transmitidas por essas fontes: TV, amigos e familiares que assistem os
mesmos progra­mas. Existindo apenas um único professor, a maneira de
pensar, avaliar e concluir desse infeliz telespectador, dian­te das per-
guntas feitas nas pesquisas das TVs, fatalmente será a ensinada nessas
“escolas” conforme as receitas e modas passageiras transmitidas. O
telespectador, anima­do, não percebe que vomita o alimento deterio-
rado doa­do pela TV para seu organismo submisso e complacente, bem
preparado para engolir todo e qualquer lixo. Solitá­rio, cansado e cor-
rompido, mais tarde, deslizando na sua poltrona desbotada e rasgada,
exalta-se satisfeito por ter “opinado” o que todos opinaram. Sorri por
ter contribuído para a “pesquisa”, principalmente, porque sua ava-
liação foi a “certa”, ou seja, estava de acordo com a maioria dos seus
iguais, como disse solenemente meu barbeiro.

Algumas vezes assisti a um programa de TV que fin­ge ser sério: “O


Globo Repórter”. Estava curioso acerca de certo assunto anunciado.
Pude perceber, na área que conheço um pouco, que inúmeras “infor-

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mações” forne­cidas estavam erradas, outras enfatizavam aspectos de
pouca ou nenhuma importância em detrimento de outras e, muitas ve-
zes, anunciava-se uma “grande e moderna descoberta da ciência” que
eu tinha lido há vinte anos atrás. Para meu azar, muitos clientes amigos
e interes­sados no meu conhecimento, telefonavam-me ou escre­viam-
me, antes ou depois do programa, para comunicar-me os “novos dados
científicos” que foram transmitidos em “primeira mão”.

Já recebi de clientes recortes de jornais e de revistas leigas, descre-


vendo artigos mal entendidos pelo repórter articulista. Logicamente, se
ele não entendeu o assunto que lera, jamais poderia escrevê-lo ade-
quadamente. Os artigos recebidos continham informações confusas e
er­radas acerca de novos tratamentos para a esquizofrenia, depressão,
ansiedade, doença de pânico, etc… O médi­co ou o leigo, que imagina
aprender através dessa fonte de informação, estará redondamente
enganado e perdido nesse atoleiro.

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Discurso: O Toque Sutil dos Sons
Os políticos – bem como outros manipuladores de opiniões – nas
campanhas eleitorais sempre abusaram de discursos carregados de
termos com forte carga emocio­nal, introduzidos em frases grandiosas,
expressos de uma maneira direta, simples e, sobretudo, superficial.
Para que um vocábulo no discurso tenha o poder de operar milagres é
preciso que seja uma palavra de natureza especial, dife­rente das pro-
nunciadas todos os dias. Ela precisa ser uma palavra que não somen-
te designa a coisa, mas que seja sentida como sendo a própria coisa
expressa.

Esta palavra mágica deve atingir as fantasias do elei­tor distraído,


propor soluções fáceis, rápidas e simples – in­tuitivas – ainda que
equivocadas, para resolver problemas humanos difíceis, custosos ou
impossíveis. As fantasias, utopias ou crendices populares são estimula-
das pelo dis­curso do político, transformadas em projetos possíveis de
serem executados.

Mas, por outro lado, o discurso político, semelhante às ideias descri-


tas pelos diversos mitos, exorta a manu­tenção do existente. Os políti-
cos, junto a companheiros pertencentes às mesmas castas, lutam por
conservar a mente do povo às escuras. O discurso político, defendendo
as ideias convergentes, tem como lema: “Nunca examine se seu modo
de pensar é, ou não, correto”.

O povo é aplaudido caso saiba de cor o hino nacional, trabalhe muito


sem reclamar, não faça greves, guarde di­nheiro na poupança, participe
ativamente de partidos polí­ticos, principalmente votando e apoian-
do seus candidatos, contribua para todas as campanhas de ajuda aos
necessi­tados, seja um bom soldado na guerra ou na paz, trate com
respeito os poderosos, frequente assiduamente a igreja, mantenha
amizades sólidas com certas pessoas, cuide de sua saúde e da famí-
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lia conforme mandam os padrões, não desperdice (nem água e nem
energia elétrica), respeite as autoridades e a lei, procure certo tipo de
conforto e de lazer no lugar e momento adequado para ele. Tudo como
ensinam os antigos mitos e o catecismo paroquial.

Assim, como estamos presos aos nossos genes que nos impedem
de ser outro animal diferente do que somos, e de escapar das caracte-
rísticas específicas que herdamos, também, desde nosso nascimento,
fomos aprisionados nas normas de conduta, de relacionar e de pensar
ditadas pela cultura, ou seja, construídas antes de nascermos pelos que
nos antecederam. Amarrados pelo resto de nossa vida a essas duas
vertentes, colaboramos inocentemente para a conservação do modelo
encontrado e impresso em nos­sa mente, imaginando-o como certo e
melhor. Na maioria dos casos, sem consciência disto, não exercitamos
nossa criatividade para escaparmos ou, pelo menos, tentarmos esca-
par, ou ainda avaliar este padrão.

Pois bem, o discurso político desperta, para conservar, muitas metas


controvertidas dos nossos antepassados. Es­timula a mente sonolenta
dos eleitores com palavras be­las, sonoras e vagas, o reservatório onde
dormem crenças, sonhos, medos e esperanças armazenadas durante
anos, na maioria das vezes ilusórias. O político apresenta-se ao eleitor
como um intermediário capaz de conduzi-lo, com mestria, para a tra-
vessia fantástica, partindo de sua vida atual e conhecida, mas também
chata, difícil e injusta, para chegar à vida paradisíaca, tranquila, feliz e,
sobretu­do, muito, muito longínqua.

As eleições terminam e tudo fica como sempre este­ve. A quimera


afundou-se na realidade indiferente, fria e sem alma. Alguns poucos
dominam muitos, para o bem-estar dos de sempre, conforme rezam os
diversos mitos do poder, cumprindo assim a profecia.

Os discursos não param após as eleições, eles conti­nuam, mesmo


nas entressafras, mas nestas servem para justificar as contradições

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existentes nos mitos citados du­rante os discursos proferidos nos palan-
ques eleitorais.

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O Que se Esconde Por Trás dos
Slogans
“Fome zero”, “Eu te amo”, “O principal no relaciona­mento familiar é
o amor e a compreensão”, “Tudo pelo so­cial”. Frequentemente, pensa-
mos, falamos e escrevemos dessa maneira. Muitos são capazes de dis-
cutir acalorada­mente sobre as ideias contidas nessas frases, defenden­
do-as ou atacando-as. Mas, afinal, o que elas afirmam?

Creio que ninguém saberá com precisão o que signi­ficam. Para cada
um de nós, as palavras “amor”, “ódio”, “compreensão”, “social” e ou-
tras, terão significados dife­rentes. Além disso, uma situação altamente
complexa, como a qualidade de vida familiar, não poderia ser atribuí­da
apenas a dois fatores, onde as palavras mágicas “amor” e “compreen-
são” tornam-se explicações causais pelo bem-estar ou não da família.
É raro questionarmos o nosso in­terlocutor, ou nós mesmos, acerca do
sentido, dimensão e significado das palavras que estão sendo utiliza-
das.

O psicólogo Kurt Lewin escreveu, entre outros, o arti­go “O modo


de pensar Aristotélico versus o modo de pen­sar Galileico”. Nesse, ele
critica a linguagem da Psicologia e da Psiquiatria quanto à descrição de
um fato, uma ma­neira que, infelizmente, continua. Para esse autor, o
modo Aristotélico de se expressar, próprio da linguagem comum, des-
creve uma pessoa como “rica” ou “pobre”, “bonita” ou “feia”, “gorda”
ou “magra” e assim por diante. Já a maneira Galileica, ao descrever os
mesmos fatos, é mais precisa.

Assim, em lugar de afirmar que o dia esteve quente, cita a tempera-


tura alcançada de 32ºC, que João pesa 100 quilos para indicar porque
está dizendo que ele é gordo.

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A linguagem da Psicologia e da Psiquiatria é muito semelhante à po-
pular, até mesmo nos artigos chamados “científicos” destas especiali-
dades. Não é raro encontrar­mos, entre os psicólogos, afirmações como
as seguintes: “Maria é uma moça carente”, “Marta é perversa”, “Álvaro
está deprimido”, “Alfredo é esquizofrênico, mas seu irmão Carlos é nor-
mal”. O leitor certamente se lembrará de cen­tenas de outros exemplos
semelhantes.

Discussões acaloradas, que terminam, às vezes, em brigas, ocorrem


em assembleias, programas de TVs, sala de aula, etc., devido ao uso
dessa linguagem. Nessas, em virtude da indefinição dos conceitos
causadores da discus­são, nunca se chega, nem se poderia chegar, a um
acordo. Se os conceitos utilizados nas disputas fossem mais bem defi-
nidos, as discussões provavelmente não ocorreriam. Fica difícil discutir,
por exemplo, “violência”, pois esse ter­mo tem conotações e denota-
ções muito diferentes para diferentes modos de pensar.

Com frequência, utilizamos a linguagem de dois mo­dos diferentes:


para representar nossa experiência pes­soal ou para comunicar nosso
modelo ou representação acerca do assunto. Assim, discutem-se fatos
diferentes, causados por fatores diferentes, utilizando um único vo­
cábulo. Que experiência e que representação do mundo cada um dos
que enunciam a palavra “violência” estaria querendo expressar? O
“mapa” utilizado foi um só para designar “territórios” diversos.

Usam-se, a todo o momento, palavras que têm o mes­mo som ou gra-


fia, mas com significados, conotações e de­notações as mais diversas.

O que pretende dizer alguém que usa as frases: “Tudo pelo social”,
“Defenderemos a nossa soberania”, “Fome zero” (seria no Palácio da
Alvorada ou na residência do presiden­te?). Todas são frases usadas
para se obter um efeito emo­cional, mágico ou hipnotizador, sem im-
portância para o real. Cada cidadão que as ouve, receberá e entenderá
uma comu­nicação diferente conforme a emoção que lhe foi inoculada.
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Atrás de uma palavra ou frase nem sempre está um objeto concreto.
Palavras não são coisas, são representa­ções e ligações entre coisas.
Não resolveremos os nossos problemas de comunicação empregando
palavras mágicas, procurando sinônimos das mesmas, gritando-as dian-
te dos altofalantes. Muita gritaria, às vezes, acalma e deixa de lado as
ações possíveis para dar soluções para os proble­mas existentes. Antes
de acreditar ou não em uma palavra ou seguir a ideia que ela parece
traduzir, precisamos pri­meiramente descobrir seu significado, pois o
símbolo nem sempre traduz a coisa simbolizada.

Quando um hipnotizador diz a alguém: “agora você se sentirá me-


lhor, mais disposto e terá mais forças para enfrentar seus problemas”,
cada hipnotizado entenderá a comunicação de acordo com suas expe-
riências particulares ou memória autobiográfica. As frases citadas no
início e ao longo desse texto despertarão em cada leitor certas fanta­
sias e sentimentos próprios. A maioria das frases do nosso dia-a-dia,
por serem altamente genéricas, atingem todos e acerca de quase tudo
e, ao mesmo tempo, de quase nada. Por exemplo, uma frase muito
repetida: “Devemos fazer tudo pelo social”.

Os termos empregados são vagos, abrangentes ao extremo, ou seja,


estamos diante de uma linguagem su­perficial. O que é “tudo” e “social”
para cada um dos leito­res ou ouvintes?

Alguns, usando agora uma linguagem menos super­ficial, poderão


pensar que a ideia fala acerca de possíveis aumentos de salários, de
menor inflação ou mais saúde. Para outros, a mesma frase poderá sus-
citar ideias opostas: menores salários, maiores taxas de inflação e mais
doen­tes. Os desejos e aspirações de cada um ditarão o tipo de ideia
que poderá surgir pelo uso do termo vago. Este modo de comunicar
pode ser chamado de “mágico” no sentido de que, não comunicando
nada, fornece suposições para cada cabeça.

Como hipnotizador, os emissores da mensagem con­seguem di-

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zer tudo e não dizer nada ao mesmo tempo, sem que haja meios de
desmenti-la, pois o enunciado não pos­sibilita a comprovação. Os polí-
ticos, pregadores fanáticos, psicólogos que escrevem sobre autoajuda,
curandeiros de modo geral, são useiros e vezeiros em pronunciamentos
desse tipo. Ao recebermos uma comunicação, expressa em linguagem
superficial e “Aristotélica”, ficamos sem refe­rências, como ocorreu com
o homem que corria atrás de outro, conforme a historinha “Sócrates”
de N. O. Scarpi.

Um homem, gritando, corre atrás de outro que foge:

— Assassino! Assassino!.

Pergunta Sócrates ao homem que grita.

— Um assassino! Que vem a ser um assassino?

— Pergunta idiota! Um assassino é um sujeito que mata.

— Então, um açougueiro?

— Cretino! Quero dizer um homem que mata outro homem.

— Seria, portanto, um soldado?

— Não, um homem que mata outro homem em tem­pos de paz.

— Compreendo, um carrasco.

— Eu quero dizer um homem que mata outro homem em casa dele.

— Ah! Entendi! Um médico?

Confuso, o perseguidor desistiu da perseguição.

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Informação, Comunicação, Lingua-
gem: Informação resumidas
A descoberta das motivações, discursos e condutas inconscientes
dos seres humanos originaram os primeiros golpes desferidos na idéia
existente do homem como criador de suas ações e raciocínios.

Não se pode mais aceitar a concepção totalmente determinista de


que a autonomia, imaginada por nós na programação de nossas ações,
seria mera ilusão; como se tudo fosse a realização de um programa
antecipadamente fixado. O programa existente não contém todas as
respostas previstas anteriormente. Mas, por outro lado, não podemos
considerar a consciência e a vontade como manifestações extremas e
livres fazendo parte de um princípio vital misterioso, de forças extrafísi-
cas, atuando na matéria.

A auto-organização inconsciente existente em cada organismo


humano deve ser considerada como o fenômeno primordial no meca-
nismo do querer (vontade, desejo), do planejamento ou da intenção
direcionada ao futuro. É a associação semi-automática de nossa consci-
ência e vontade que dá origem à consciência voluntária; esta é, suposta
e erradamente, imaginada como fonte de nossa determinação; este
mecanismo propiciou a ilusão do livre-arbítrio.

Nós sabemos que, na realidade, as coisas que acontecem raramente


são as que queremos. Temos, muitas vezes, a impressão de que não
fomos nós os executores da ação, muito embora saibamos que nós é
que as fizemos: “Foi sem querer”; “Perdão; não queria fazer isso”.

Acontece o seguinte: o nosso querer faz uso de uma parte de nós


mesmos – um atributo chamado de consciência voluntária – ao pas-
so que a totalidade de nosso organismo nos leva – arrasta, empurra,
conduz – a fazer outra coisa. A totalidade do organismo não é dirigida
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por nós; é comandada por outras forças independentes do nosso poder
ou querer. Essas forças são orientadas por princípios ou paradigmas
inconscientes, trabalhando em conjunto com os fatores biológicos; as
duas ações, em parte, nos comandam.

A totalidade, ou organismo como um todo, como uma força que nos


leva a agir orientada para o futuro, de fato, não pode ser conhecida
ou conscientizada através de nenhuma técnica. Um motivo para o seu
não-conhecimento, ou a sua não-conscientização, deriva do fato de
que ela não é fixa, ao contrário, vai sendo constituída e estruturada à
medida que nós agimos. Isso torna impossível o conhecimento da es-
truturação, pois ela está, continuamente, sendo formada e modificada.
A estruturação dessas forças é determinada de um lado pelos milhares
de acontecimentos, fora do nosso organismo, que nos atingem num
determinado momento sem nosso conhecimento, de outro, pelos
eventos automáticos que ocorrem dentro do organismo.

Podemos afirmar que o “querer real”, aquele que se manifesta e se


mostra eficaz, o que de virtual torna-se real ao se realizar, é constru-
ído ou nasce de programas impossíveis de serem revelados à nossa
consciência. Nós só temos acesso ao produto, ao resultado final, que
é a conduta visível e observável. O homem produz ações através dele;
o querer amplo – não o específico – é realizado através de todas as
células, neuro-transmissores, hormônios, glóbulos sanguíneos etc. e,
também, a partir dos modelos teóricos, paradigmas, princípios, pensa-
mentos automáticos etc. durantes as continuadas interações do indi-
víduo com os fenômenos aleatórios do meio ambiente. Quase iguais
à abelha, amarrados e obedientes nesses poderosos processos orde-
nadores automáticos, somos ejetados para o que chamamos de nosso
caminho futuro, de nossa liberdade de ação e de decisão.

Nosso futuro é fabricado através da memória armazenada que,


durante nosso confronto com o meio ambiente, torna presente o pas-
sado; expõe o estocado recuperado num dado momento; este sempre

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será uma parte da totalidade de um organismo particular possuidor de
uma auto-organização singular. Fica claro que a memória, surgida num
momento, em parte, somente em parte, através de nosso querer, é um
dos elementos e foi construída, inicialmente, por um organismo que
segue seus próprios princípios de organização biológica e de aprendiza-
do, não acatando, nem se importando, com nossos desejos, comandos
e valores aprendidos culturalmente. Não adianta querer estar bem
disposto, se o organismo não trabalha para isso. O organismo agindo
aleatoriamente criou a nossa memória, que depende de nosso querer
específico para se apresentar. Não podem conviver num mesmo siste-
ma sem interagir o organismo/memória e o nosso querer consciente;
essas interações fabricam novos fenômenos: uma mistura de ações
conscientes movidas por vontade próprias mas, também, ações do-
minadas e orientadas pelos processos inconscientes, automáticos e
biológicos.

O resultado é um trabalho conjunto: uma consciência voluntária


de um lado e, de outro, fenômenos desvelados, automáticos e incons-
cientes. Assim, a consciência voluntária e a vontade que emerge na
consciência sob a forma do querer, desejos e impulsos devem ser com-
preendidos como resultados simétricos de interações entre a consciên-
cia- memória do passado – e o querer inconsciente auto-organizador
do futuro.

A consciência voluntária deve ser examinada como sendo resulta-


do de uns poucos elementos do organismo antes memorizados, que
intervêm, secundariamente, nos processos de resposta organizadora às
estimulações do meio ambiente, como programas parciais, subprogra-
mas, sem tanta importância. A consciência voluntária, também, nasceu
do processo maior que é inconsciente.

A vida do inconsciente não pode ser reduzida a um fenômeno se-


cundário, resultante do recalcamento ou censura de desejos e ilusões
por meios conscientes. O querer inconsciente é o conjunto de meca-
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nismos pelos quais nosso organismo inteiro – total e compacto – re-
age aos estímulos aleatórios, às novidades e aos estímulos eventuais
esperados e conhecidos. O querer inconsciente não precisa, na maioria
das vezes, para se realizar, aparecer ou desvelar-se – tornar-se cons-
ciente e sujeito a exame – e se transformar em desejo. Se tivéssemos
uma visualização muito grande dele, como memória dos processos
auto-organizadores, isso poderia impedir seu aparecimento e bloqueá-
-lo. Para a sobrevivência do sistema, às vezes, é melhor que ele conti-
nue inconsciente. Quando falamos ou escrevemos, se começarmos a
examinar, usando nossa memória consciente, exageradamente, como
estamos usando nosso conhecimento ao expormos nossas idéias, elas,
geralmente, terão dificuldade para aparecerem.

O desejo tem como mãe o organismo natural e inconsciente total,


como pai a memória explicitada consciente e carregada de regras que
podem ser examinadas. Por tudo isso, nosso querer não é da ordem do
querer inconsciente “puro”, mas a emergência do querer inconsciente
na consciência consciente.

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Lembranças, recordações,
saudades

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Mergulho no Passado: Uma
História Verdadeira
Advertência à Guisa de Introdução

Essa história me foi contada, portanto, tentarei descrevê-la da ma-


neira como a ouvi. Por isso, todos os relatos que serão descritos abaixo
são de exclusiva responsabilidade do jovem narrador.

Este cursou a Faculdade de Medicina há muitos anos, como inú­


meros outros médicos, se é que os colegas mais velhos ainda se lem­
bram. As cenas selecionadas e narradas por ele, as interpretações e
críticas feitas às pessoas e aos costumes da época, bem como seu pon­
to de vista, de que algumas vezes discordo, são percepções formadas
por sua mente carregada de energia, mas ingênua que, ao começar o
curso médico, ao chocar-se com o complicado mundo dos adultos, aos
poucos foi perdendo as belas ilusões adquiridas na infância. Ele, como
seus colegas, por acaso decidiu ser médico, por acaso nasceu e passou
no vestibular num certo ano. A fatalidade existente na vida de cada um
dos jovens levou-os a entrarem juntos na faculdade, permitiu a forma-
ção de um grupo coeso, anteriormente desagregado.

Eu, como narrador do narrador, esforcei-me o quanto pude para


descrever fielmente o que me foi contado, quase que diariamente, ao
pé do ouvido, por esse jovem estudante. Preservei intactas também
suas explicações acerca dos fatos ocorridos durante seu curso médi­co.
Entretanto, observei, e vocês verão que tenho razão, que ele pró­prio,
algumas vezes, duvidou das interpretações simbólicas que deu aos
eventos. Acho natural essa sua dúvida. Nem sempre fomos amigos e
concordamos em tudo. Já brigamos muitas e muitas vezes, em certas
ocasiões mal nos cumprimentávamos.

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Examinando sua mente inquieta dia após dia, pois sempre es­tivemos
ligados, pude notar que ele jamais ficou preso a uma ideia por muito
tempo, pois estava sempre saltando de um lado a outro, à procura de
um pouso acolhedor.

Chamava-me a atenção sua incerteza ao tomar partido a favor ou


contra um ou outro modo de pensar, pois, geralmente, ao comba­ter ou
defender uma ideia, ele próprio descobria prontamente razões contrá-
rias às defendidas ou atacadas. Isso, segundo percebi, custou-lhe por
vezes o isolamento social e, ao mesmo tempo, estranhamente, uma
fusão e entendimento com todos os que pensavam diferente dele.
Assim é que, por sorte ou azar, não sei bem, foi levado a não fazer
par­te de nenhuma agremiação política, científica, cultural ou religiosa
e, ao mesmo tempo, internamente, aceitava e pertencia a todos esses
grupos heterogêneos. Desejo ainda comunicar-lhes que seu modo de
selecionar os fatos do seu mundinho acadêmico foi fragmentário e
parcial – por isso peço-lhes desculpas em nome dele – como deve ter
acontecido com todos jovens, pois cada um selecionava aquilo que
supunha ser “interessante e inesquecível”.

Possuía muita coragem e fé em si mesmo e, ao mesmo tempo, como


é comum nos valentes, pouca capacidade e competência para diferen-
ciar o mutável do imutável. Por isso mesmo trombou decepcio­nado em
vários muros intransponíveis. Suas características de jovem aventureiro
e impetuoso, por sinal muito humanas, até me atraíam. Confesso com
certo orgulho que devo a ele grande parte do que sou. Ele foi meu
instrutor e crítico. Dele nasceram, bem ou mal erigidas, todas as ideias
básicas ou princípios em que construí e organizei meu raciocínio atual.
Vivo, até hoje, encarcerado intimamente ao núcleo desse jovem inquie-
to, meu preceptor diário e carregarei até o túmu­lo suas marcas e emo-
ções impressas em minha mente. Entretanto, sei que algumas dessas
nódoas indeléveis são muito primitivas e conscien­temente preferiria
viver sem elas, mas elas não me abandonam. Não podia ser de outro
modo. Às vezes lamento, outras vezes louvo, sua vida desassossegada,

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leve e curiosamente ligada a mundos tão variados. Muitas vezes imagi-
no que poderia ser tudo tão mais simples… Será?

Lastimo sua completa incapacidade para se conduzir através de um


caminho sempre na mesma direção. Isso ele nunca conseguiu e talvez
jamais o desejasse.

Ele dirigiu sua vida em ziguezagues, ora para um lado, ora para
outro. Rodopiou e capotou várias vezes, fez curvas e mais curvas,
algumas imensas, em certas ocasiões, andou em círculos, sempre obs­
tinadamente, em busca do sonhado caminho orientador. Apesar dessa
procura teimosa, ele jamais encontrou uma saída nobre para escapar
e descansar desse labirinto onde se aprisionou. Acredito que vocês,
os simpáticos e ligados a ele como eu, o compreenderão. Talvez seus
amigos e colegas tivessem lutas semelhantes e batessem nos mesmos
obstáculos intransponíveis. Os inimigos, nem tanto. É possível que
alguns felizardos – ou seriam azarados? – tenham encontrado pronta­
mente o caminho acolhedor e definitivo. Ele jamais desejou isso. Como
seu aluno e admirador, nesse instante seu portavoz, quero de público
agradecer a todos vocês, que conviveram e ajudaram a formar a men­
te do meu tutor, exatamente no período mais crítico de sua vida. Ele e
vocês, estudantes desse tempo longínquo, assistiram, participaram e
viveram cenas e problemas semelhantes, sofreram e entristeceram-se,
regozijaram-se e consolaram-se juntos. O jovem narrador estruturou-se
ou, quem sabe, desestruturou-se, a partir dessa união grupal singu­
lar, desse contato estreito, formado através da soma das esquisitices
existentes em cada um. Foi nessa boa, ainda que imatura mãe, que
ele e muitos de vocês, como crianças amedrontadas, se apoiaram e se
sentiram protegidos ao buscar o carinho e a compreensão. Este gru­po
confortou e aliviou as “dores do mundo” que pesavam sobre sua cabe-
ça frágil de iniciante a adulto. Este jovem ligado profundamente a esse
grupo foi, e sempre será, o produto de cada um de vocês. Seus colegas
amigos, cada um a seu modo, imprimiram uma marca indes­trutível.
Nenhum jamais escapará dessa cunhagem misteriosa.

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Talvez vocês, como ele, segundo especulei, tenham sofrido os mes-
mos azares do preço das transformações. Percebi que, à medida que
ele foi alcançando degraus e conhecimentos mais elevados, mais
amedrontado ficou. A ignorância inicial, bem como a não consciência
desta, lhe dava segurança, falsa, eu sei, mas confortável, muitas vezes
procurada.

Ele nunca me confessou abertamente seu desejo de parar de crescer,


parar com tudo, regressar de vez ao tempo da incompetência quase
total, apesar dele saber que o caminho escolhido não tinha re­torno.
Entretanto inferia, nos seus rodeios, que é sua marca, dúvidas e mais
dúvidas, algumas vezes um desejo velado de voltar ao tempo da ino-
cência e da irresponsabilidade.

Parece-me que para cada pulo dado para o crescimento, para cada
estágio alcançado, mais ele se sentia aprisionado. Passou a ser con-
trolado pelas normas da classe, pelos clientes, pela família, pelos
deveres e compromissos diversos e, terrivelmente, pior ainda, pela
sua consciência aumentada acerca de tudo isso. Pouco a pouco, ele foi
abandonando quase tudo que amava. Os antigos e inocentes hábi­tos e
prazeres, altamente atraentes numa época, foram trocados, com pesar,
por obrigações pesadas comandadas por pressões externas. Ele passa-
va a não mais mandar na sua vida. Confessou-me, abafado, que muitas
vezes sentiu saudades da vida anterior, passando a ter inveja, nos dias
de maior desespero, da vida do pássaro cantando na lavoura ou da
abelha pousando nas flores. “É terrível!”, confessou-me: “Gosta­ria de
poder, ainda que por instantes, responder diretamente ao meio, sem
ser incomodado pelos pensamentos”.

Todos vocês, como ele, entraram na faculdade em busca de uma


sabedoria que não possuíam. Cedo, ainda na escola, ele verificou que
lá não havia este conhecimento. Continuou sua procura em campo
aberto, junto ao cliente e à vida cá de fora. Mas, depois de muita luta,

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chegou à conclusão que este ancoradouro tão esperado e sonhado não
existia, apesar dele ser procurado por todos. Ora, como seria bom se
existisse algo em que pudéssemos, continuamente, nos apoiar e ter
certeza! Decepcionado, percebeu que não havia nada que re­sistisse à
ação da história. As verdades encontradas serão, no futuro, mentiras,
cada uma desmentida pela outra que dura algum tempo. Tudo que
numa época foi imaginado ser um porto seguro, numa outra ocasião
poderá ser um abismo perigoso. O jovem narrador agarrou-se a uma
ideia, a outra, a várias delas, acreditando estar protegido, caso se
apoiasse em várias ao mesmo tempo.

Mas sempre, mais tarde, percebeu que se prendia a mitos, a ilu­sões,


a estacas podres e ocas e novamente se sentia desprotegido, afundava-
-se. As verdades aprendidas na escola eram mentiras, menti­ras que
todos acreditavam numa época, todas anunciadas com muita fé. Agora,
esse inconformado, condicionado pelo treinamento, conti­nua teimosa-
mente sua caminhada, como um rato que vai ao mesmo bebedouro di-
versas vezes à procura da água que lá não existe, atrás de uma verdade
que possa servir de apoio às outras. Para viver, ele finge desconhecer
essa “verdade” lógica.

Mas ele, como vocês, tem que prosseguir sua caminhada em direção
ao fim, e assim, penosamente, aprendeu que a verdade é vi­vida, ela
pertence a cada um, num certo momento. Jamais poderá ser ensinada
nas escolas ou nos templos.

Naquele tempo, na velha escola de paredes altas e brancas e de


porões escuros, os pequenos e inseguros alunos ouviam respeitosa­
mente seus deuses do momento, afirmando suas verdades durante as
aulas magistrais. Os professores eram vistos por cada um dos alunos
espantados, como super-homens inatingíveis e invejáveis, possuido­
res de conhecimentos eternos. Hoje, tristemente, ao nos lembrarmos
de suas aulas, temos pena deles, de suas prisões e de seus obstinados
esforços para defenderem as ideias médicas da época, agora em desu­

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so, perdidas no tempo, ridículas. Temos que prosseguir vivendo nessa
incerteza. Reconheço que ele aprendeu, lá, hábitos e costumes que
não mais servem para hoje, mas não deixo, às vezes, de ter inveja da
vida que ele me contou, daquele mundo sedutor cada dia mais distan­
te, que guardava seus encantos, prazeres, belezas e aromas simples.
Aprisionado até à alma ao estudante daquela época, vivemos, eu e ele
ao mesmo tempo, dois estilos de vida, às vezes em conflito.

Toda e qualquer queixa contra suas ideias, bem como contra o ponto
de vista adotado, deve ser encaminhada a ele próprio. Farei tudo para
que receba as críticas que porventura vierem. O narrador atual, naque-
la época ainda um embrião, será um mero instrumento de suas recor-
dações.

Como suas histórias sempre me fascinaram e por isso gravei cui­


dadosamente boa parte de seus relatos, não foi difícil para mim repro­
duzi-las. Devido ao pequeno espaço, fui obrigado, embora contraria­do,
a cortar boa parte do anotado, que guardo carinhosamente para outras
ocasiões. Selecionei somente uma pequena amostra. Peço-lhes descul-
pas por isso.
O Relato

Manhã de novembro. Um táxi levou-me até à Estação Rodoviá­ria,


em Belo Horizonte. Assentei-me na poltrona, espichei meus ve­lhos pés
magros, ainda fortes, no suporte, deitei-me e fechei os olhos. Dentro
do ônibus frio instalou-se o silêncio próprio de um grupo cansado pelo
passar do tempo. A algazarra inicial durou pouco e se transformou
apenas no barulho monótono do motor. Preso ao som acolhedor e
tranquilizante, despertei com a melodia “Carinhoso” que estava sendo
tocada no altofalante. Fechei os olhos para o presente, pouco a pouco
fui hipnotizado pelo som e silêncio.

Estava entrando naquele mundo que começara há muitos anos.


Senti que era essa a razão da minha ida: um mergulho gostoso ao pas­

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sado distante, ao curso médico feito. Sabia que, agora, isso me dava
segurança e pesar, que essa volta estava supervisionada pelas nossas
experimentadas mentes, pelos novos conhecimentos adquiridos. Já
não éramos mais os jovens inocentes que fizeram e passaram no vesti­
bular para Medicina. Aos poucos, entrei em transe e penetrei naquele
tempo.

Estávamos nas vésperas do vestibular, mais precisamente numa noi-


te escura, feia e fria de fevereiro. Eu acabara de completar 19 anos. A
chuva que caíra por todo o dia havia dado uma trégua para que pudés-
semos sair de casa. Nesta noite realizávamos um compromis­so come-
çado há anos. Ali estávamos, jovens ambiciosos, lutando por uma vaga
na Faculdade de Medicina. Tentávamos dar o passo mais audacioso na
nossa vida de estudante. Todos aqueles caminhantes inquietos e ten-
sos se punham em torno do portão principal, ainda fechado, do prédio.

Dali a pouco as portas seriam abertas para a realização do vesti­bular.


Todos tinham um só objetivo: conseguir uma vaga na escola.

Nos meses que antecederam as provas, todos nós estudamos com-


pulsivamente, durante os dias úmidos, tristes e chatos daquele ano. O
céu, durante três meses, talvez temeroso e nervoso como nós acerca
do risco da empreitada, solidário derramou continuadamente filetes de
lágrimas frias e brilhantes nos telhados esverdeados e sujos das casas.
A chuva miúda provocara nos livros e cadernos um insu­portável cheiro
de mofo que impregnara tudo. Apenas foram preser­vados nossos neu-
rônios que precisavam, através de grande esforço, ser mantidos limpos
e secos para realizarem seu papel. Eram eles que deviam armazenar
ordenadamente milhares e milhares de fatos e te­orias, a maioria delas
inúteis e que, durante o vestibular, fariam sua última viagem, pois logo
depois seriam jogadas no lixo eliminadas para sempre.

Havia medo estampado nos olhos dos postulantes a um lugar. Pre-


dominavam as dúvidas. Junto ao temor imperava também uma alegria

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ou alívio, pois, se tivéssemos sorte, poderíamos expulsar as detestáveis
matérias que invadiram e dominaram nossas mentes. Es­távamos na
reta final, não havia mais tempo para aprender nada. Dis­farçadamente,
olhava espantado e amedrontado para os meus rivais do momento:

— Aquele ali tem uma grande cabeça, sinal de inteligência… uma


vaga será dele. E aquela mulher morena de cabelos pretos cache­ados?
Bonita. Estranho… desejando entrar na Faculdade de Medicina? Será
que passa?

Examinava um a um os “inimigos da noite” e construía julgamen­tos


acerca deles.

Alguns brincavam desajeitadamente para espantar o medo, ou­tros


fumavam, mas todos tentavam camuflar a apreensão. Eram pou­cas as
vagas para muitos candidatos. Diziam, sem muita certeza, que certos
lugares já estavam reservados para alguns poucos escolhidos e apadri-
nhados de sempre.

Abriram-se as portas e, vagarosa e preguiçosamente, os candida­tos


foram procurando seus lugares nas salas.

Pareciam tentar, no seu passo lento, adiar o inicio da decisão. As-


sentei-me no lugar indicado. Tirei a velha caneta Parker 51 do bol­so do
surrado e largo paletó cinza, que servia para disfarçar minha magreza
de 50 quilos, meus ossos fortes e estufados, cobertos por uma pele
sem rugas e sedosa de atleta amador desnutrido. Tremi ao assinar a
lista que passava de mão em mão. A sala era comandada por um velho
professor da Faculdade, fungando sem parar através de suas largas e
proeminentes narinas. Isso punha-me irritado.

— Quem seria ele? Na certa um professor famoso. Será que al­gum


dia eu, um “pé rapado” qualquer, desajeitado, poderia estar no lugar
por ele ocupado e dando provas para futuros alunos? Oh! que bom

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seria!

Três dias de provas escritas: Biologia, Física e Química. No dia da


prova de Física, uma violenta tempestade caiu sobre a cidade. As luzes
se apagaram e ficamos às escuras por mais de uma hora, coman­dados
pelo velho, e agora, para minha decepção, fraco professor. Essa era a
prova que eu mais estava preparado. Entretanto, com as trevas, a con-
versa e a cola foram gerais. Esperei que a prova fosse anulada. Não foi.
Começaram aí, ainda muito cedo, minhas transformações na maneira
de ver o mundo dos adultos da elite. O mundo construído e sonhado
anteriormente começava a quebrar-se, e continuaria, através do con-
fronto com a nova realidade, a despedaçar-se.

Depois, começaram as provas orais. Na de Botânica, fui exa­minado


por um velhinho simpático. Via todos os professores velhos como sá-
bios e obesos, ao contrário dos candidatos magros, jovens e com cara
de débeis mentais. Eu nada sabia acerca dessa prova, pois não havia
essa matéria no curso científico. Lembro-me bem de sua voz cavernosa
e fraca ao chamar-me. Tive pavor naquele momento. Olha­va atraído
para a porta de saída do grande anfiteatro onde se realizava a prova,
imaginando poder passar correndo por ela o mais depressa possível.
Entretanto, como um réu diante do juiz, automaticamente caminhei
em direção à grande mesa, cheia de plantas e folhas soltas, atrás da
qual parecia se esconder o professor, na certa esperando um deslize
meu, pronto para me condenar.

Olhou-me fixamente nos olhos, passou suas mãos manchadas de


pintas negras sobre o bigode e disse-me, num tom que jamais decifrei:

— O senhor tem um nome e sobrenome importantes…

Não descobria por que ele falara. Qual a importância? Por ter cora-
gem de tentar medicina? Por ser um nada? Mas não havia tempo para
pensar. O inquérito estava apenas começando. Ele devia estar queren-

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do distrair-me e pegar-me. Mais tarde, vim a saber que na facul­dade
havia professores, que nunca foram meus parentes, nem amigos, que
tinham sobrenomes iguais aos meus. De fato, eu era um “João Nin-
guém”, fazia parte do grupo de pobres, dos filhos de viúvas, como disse
muito bem um da turma. Sem nome e sem poder para ajudar-me,
esperava a sorte e a simpatia do velho professor. Não tive outra alter-
nativa a não ser, engasgado e trêmulo, balbuciar:

— É… certo… espero honrar meu nome.

— Qual seria esse nome? – perguntei-me, confuso. Não sabia.

O professor, lentamente, separou uma planta que estava den­tro de


um pequeno vaso e perguntou-me, com um tom de voz até aí amisto-
so:

— Classifique essa Salvina.

Acredito, até hoje, que o nome que ouvi foi esse mesmo. Nunca quis
saber ao certo nada acerca desse maldito vegetal, se é que ele ainda
existe. Tonto, assustado, olhei para a planta… percebia que ja­mais en-
contraria uma saída. Olhei novamente para o vaso, fingia estar pensan-
do quando, na realidade, nada pensava. Sem saída, fixei meus olhos no
vaso uma vez mais e, sem outra coisa para fazer, respondi com uma voz
em falsete, lá do fundo, fazendo tudo para que ela não fosse ouvida:

— É… é… é uma planta… aquática! – falei o final, fingindo firmeza.

— O quê? Sua expressão e voz agora já não eram as de antes. Res-


pondi rápido:

— Não! Foi brincadeira, o senhor a colocou dentro d’água. Eu…

A partir daí fui me arrastando no exame, já não era mais senhor dos

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meus atos. Passei a fazer tudo automaticamente, entreguei meu des-
tino a qualquer Deus que porventura existisse, estivesse disponí­vel e
tivesse coragem para ajudar-me naquela hora maldita.

Como a Física era o meu forte, entrei resoluto e confiante para a pro-
va oral. Lá estava, como sempre, um velho careca, encurvado e magro,
cara fechada, que mais tarde fiquei sabendo que era professor, não de
física, mas de dermatologia. Coisas do passado. O exame, ou melhor, o
inquérito, começou. Não concordávamos. Ele não tinha es­tudado nos
livros de Física adotados no curso científico. Só mais tarde descobri que
seus conhecimentos de “física” foram obtidos através da leitura do al-
manaque da Saúde da Mulher que, lamentavelmente, naquele ano, por
falta absoluta de tempo, não pude ler. Ele, emperti­gado, com grande
orgulho e sabedoria, me fez duas perguntas:

— Como você sabe que uma água está fervendo na panela? O que é
balança doida?

As respostas não eram as óbvias e descritas nos livros de Física, eram


da “física” existente na mente dele, as do almanaque. Eu devia, como
adivinho, descobrir o que ele desejava e, infelizmente, não adi­vinhei.
Dancei nesta.

Acordei ao ouvir a voz calma de uma colega, que se sentara ao meu


lado no ônibus. Ela, durante o vestibular, havia despertado a atenção
do meu tutor logo após o término das provas, quando ca­minhava ao
lado do Parque Municipal, esguia e vagarosamente, em direção à sua
casa. A colega do ônibus, ao contar-me um caso atual, obrigou-me a re-
tornar ao presente, à turma dos idosos, largando por minutos a turma
antiga, a dos jovens, muito mais atraente e animada. Eu não imaginei
que ela se tornaria minha colega, tinha cara de crian­ça. Interessado em
retornar ao ano do vestibular, ansioso pela volta, procurei, após ouvi-
-la, cortar delicadamente o assunto. Eu desejava conversar com a cole-
ga antiga. Vim ao encontro para isso, para es­conder a realidade atual e

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encontrar a daquele tempo, quando ainda existiam vários caminhos a
seguir.

Agora, os acontecimentos, uma vez cristalizados pelos anos, não


mais permitiam escolher novas opções, os espaços já tinham sido ocu­
pados. Percebia claramente que nos encontros procuramos esconder,
de todos os modos possíveis, a penosa realidade experimentada, os
planos e sonhos imaginados na juventude, que se transformaram em
decepções, em nada, vencidos que foram pelos fatos crus e dolorosos.
Inspirado pelo ônibus, precisava voltar, o mais rápido possível, às nar­
rações do jovem que vivera num tempo em que ele podia imaginar e
planejar o que desejasse. Hoje, ele se acha preso à história construída
por ele próprio, composta por fatos que preferiria não ter usado na
edificação. Mas sentia saudade daquela época em que tinha poucos
fatos para prendê-lo, hoje ele os tem de sobra. Antes, sua vida era um
confronto vazio com o mundo real, com poucas e ingênuas teorias
acerca dele. Hoje, aos poucos, querendo ou não, transformou-se numa
outra pessoa, através das lambadas recebidas na face, produzidas pelos
acontecimentos indesejáveis. Fingi dormir. A colega falava mais baixo e
bondosamente calou-se, sem entender minha sonolência fingida.

O vestibular terminou: agora, impacientes, esperávamos o resul­tado.


Nada mais havia para ser feito. Passei ou não? Essa era a pergunta
que ocupava as mentes ansiosas e sofridas. Foi um longo período de
expectativas, que me colocaram mais tenso ainda. Evitei as conversas
de sempre, pois não queria ouvir a boataria. Um dia a notícia temida e
esperada: saiu a lista dos aprovados! Vagarosamente, para adiar o im­
pacto, fui vê-la. Entrei timidamente no porão escuro e mal iluminado,
local onde, naquele tempo, funcionava a secretaria da Faculdade de
Medicina. Acima da entrada do porão, dos dois lados, saíam duas es­
cadas laterais, que conduziam ao saguão, entrada principal da acanha­
da escola. O pequeno cômodo estava repleto dos companheiros de
infortúnio que se aglomeravam em torno da única lista colocada. Uns
liam em voz alta, própria dos desinibidos, os nomes dos aprovados e,

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por que não, com certo orgulho comentavam e conjeturavam acerca
dos que não haviam passado.

Alguns saíam do tumultuado porão, pulando e urrando alegre­mente,


outros, ao contrário, cabisbaixos e com lágrimas nos olhos, caminha-
vam lentamente para o espaço vazio e acolhedor do pequeno jardim
existente em frente da escola.

Chegou a minha vez. Sem o desejar, fui empurrado pelos de trás, até
ter a lista sob meus olhos amedrontados. Agora teria que encarar e
clarear, querendo ou não, minhas dúvidas. Passei ou não? Ainda tentei
evitar fixar meus olhos na lista ameaçadora e perigosa. Não tinha mais
jeito. Fui lendo com o coração oprimido, a respiração ofegante, suando
e quase desmaiando de terror. Passei por vários no­mes, o meu nada.
Continuava minha procura, não encontrava nada. Minhas esperanças
estavam desaparecendo… um nome, mais outro, esse é conhecido,
esse não, puxa, até fulano passou, só eu não? Ab­surdo! Por fim, lá
embaixo na lista, quase no fim, entre os últimos, o visualizei. Eu! Pas-
sei! Urra! Segurei rápido e envergonhado minha ex­pressão emocional
repentina, que aliviava minha angústia mas, como bom itabirano e mi-
neiro, saí do porão orgulhoso e de cabeça baixa, andando lenta e pau-
sadamente, disfarçando meu encantamento com a mudança de status.
Estava sem ar, mas aliviado. Não precisava ter vergonha de encarar a
família, que me esperava em casa, e acreditou e investiu nesse jovem
atirado e confuso. Mas havia ainda um pesadelo. “E agora José? A festa
acabou…”, onde conseguir o dinheiro para o curso e os caros livros?

Tonto como se tivesse levado uma violenta e pesada paulada na


cabeça, – como levei durante um tumultuado jogo de futebol, – cami­
nhei sem rumo e sem saber o que fazer, triste e alegre ao mesmo tem­
po. Também, com umas notas daquelas! Que vergonha! Andei cam­
baleando, bêbado, lembrei-me do dia que bebi mais do que devia, ao
ser campeão de futebol juvenil no meu bairro. Peguei uma condução,
qualquer uma servia, pois não sabia onde queria ir. Fui parar na Ave­

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nida Getúlio Vargas. Desci, caminhei mais e, automaticamente, voltei
à Faculdade de Medicina. Vi-me, desolado, passando novamente por
baixo das velhas escadas. Entrei outra vez no porão. Queria confirmar
minha colocação.

Olhei, agora mais calmo, para o quadro com a lista. Havia pou­
cos candidatos à volta. Estava confirmado, de fato havia passado. Era
verdade, mas não como esperava. Saí do porão decidido e, de repen­te,
retornei ao que sempre havia sido, animado e corajoso. Já não era o
medroso estudante do científico. Agora sabia claramente onde queria
chegar. Subi rápido e confiante as escadas, pois sendo agora um pri-
meiranista de Medicina, e não mais um candidato a este curso, tinha
outros direitos: reclamar minhas notas. Liberto, convencido e encora-
jado por essas ideias com o novo posto alcançado, fui até o diretor da
Faculdade de Medicina, tentando uma audiência com ele. O velho e
cansado diretor recebeu-me pronta e gentilmente. Fui di­reto ao assun-
to:

— Examinei a lista dos aprovados. Imagino que há um erro nas notas.


Merecia uma outra, coisa melhor.

Ele olhou-me com ternura, passou suas suaves mãos sobre meus
ombros, e imediatamente deu ordens à secretária para subir minhas
notas para examiná-las. De posse delas, olhou-as uma vez, mais outra
vez, fixou seus olhos complacentes nos meus e disse-me espantado:


­­ Mas você foi aprovado! Não está feliz?

— Eu sei, mas vim aqui para reclamar das notas, fiz provas boas…

— Ora meu filho, vá para casa, comemore com seus amigos e família
seu sucesso…

Envergonhado com o fracasso da missão, ainda irritado com as

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notas, saí apressado da sala e voltei a caminhar pelas ruas. Só cheguei
a casa à noite. Dei a notícia à família. Penso que tinha a fisionomia tão
sem graça, desapontada e sem alegria que não produzi – ou não perce-
bi – entusiasmo nos familiares. Talvez eles, confiando em mim mais do
que eu próprio, não esperassem outro resultado a não ser aquele. Este
foi mais um das dezenas de outros aborrecimentos que enfrentaria na
minha vida de estudante do curso de Medicina, que ora estava inician-
do. Entretanto, como todo início, também este teve seus encantos e,
ao mesmo tempo, seus desencantos.

Vejo-me andando pelas ruas de Belo Horizonte durante o tro­te, com


toda minha energia, rodeado de colegas fortes e jovens, de peles lisas e
corpos magros e esbeltos. Devido à minha magreza, fui transformado,
após uma boa dose de cachaça, em “Miss Sífilis”. Meu corpo foi enro-
lado em gazes, esparadrapos e tintas diversas. Outros, mais esbeltos,
viraram lindas mulheres. Um colega esnobe fantasiou-se de palhaço, o
que lhe assentou muito bem, um outro vestiu-se de baiana desengon-
çada, outro de pirata, etc. Desfilamos orgulhosa­mente pela Avenida
Afonso Pena: foi nosso dia de glória e esperança em conseguir namo-
radas melhores que as antigas. À noite, no DCE instalado na velha sede
da Av. Afonso Pena, o Magnífico Reitor falou para o seleto grupo de
garotos entusiasmados e ingênuos acerca do que é uma Universidade.
Ainda embriagado pela cachaça e pelas fes­tas, nada assimilei do que
foi dito. Percebi, pela sua empolgação, que ele deve ter falado bonito.
Estava, sem querer, forçado a virar adulto. Como é difícil!

Ainda ouvia o tom de voz exaltado e belo das frases do Reitor, quan-
do fui despertado pela estridente e nada melodiosa voz de um co­lega,
avisando-nos de nossa chegada à cidade onde iríamos almoçar.

Chegamos. A fome incomodava nossos organismos, mas nestes não


mais habitavam os jovens famintos de antigamente. Não mais con­
seguimos sentir o prazer do sabor das laranjas do simpático e gago Tião
Laranjeiro. Naquela época, qualquer “feijão com arroz” era in­gerido

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com prazer e voracidade. Hoje temos diante de nós alimentos sofisti-
cados, entretanto, procuramos em vão os jovens esfomeados de antes
para saboreá-los, e não os encontramos.

Na minha mente ainda morava o terrível, mas talvez bondoso para


muitos, professor de anatomia, fumando, dando sua primeira aula para
o curso médico, na sala comprida, escura e estreita. Subi à procura de
um lugar, não havia cadeiras, e sim degraus, onde me sentei, espanta-
do e curioso, com o “encanto do início”.

O carrancudo professor ia dar a primeira aula. Havia uma expec­tativa


geral, todos estavam atentos. Diante do professor, estendido na maca
suja e enferrujada, descansava um cadáver frio, triste e magro, chei-
rando a formol. Ele fora levado até ali por um servil bedel que, segun-
do fiquei sabendo posteriormente, cantava os alunos mais bo­nitos,
ajudando-os a escolher as melhores “peças” para estudar. Não fiz parte
dos escolhidos. Sem decodificar acuradamente o que via, confundi
o cadáver com um boneco de cera e, desse modo, almocei tranquilo
naquela tarde. Só depois fiquei sabendo que o “boneco” era um ex-
-homem, que teve antes uma vida, um nome, uma mãe, talvez pai,
alegrias e tristezas, como eu…

O barulho próprio do início das refeições atraentes despertou-me


do sonho. Fui chamado pelos colegas, que já começavam a comer o
tiragosto e a tomar vinho. Entretanto, mesmo diante do grupo, após
o efeito do primeiro gole, continuei a enxergar as aulas soníferas do
professor de Histologia e Embriologia, gordo, pequeno, pegajoso e
monótono. Durante essas aulas, dormíamos, principalmente quando as
cortinas eram fechadas para mostrar as lâminas. Um a um cada profes-
sor foi aparecendo na minha mente.

O almoço estava sendo servido. Fui obrigado a abandonar o passado


para retornar ao presente, pois precisava comer alguma coisa. Na sala
barulhenta, com as mesas abarrotadas de iguarias, os antigos cole-

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gas comiam, contavam piadas e casos médicos. O gru­po alegremente
transformava o presente no passado, na juventude perdida no tempo,
voltava aos sonhos que não mais podemos ter. Partimos no ônibus em
direção ao nosso destino. Recostado, ajudado pela leve embriaguez
ocasionada pelo vinho, avidamente regressei à faculdade…

Lá estava o cadáver estendido sobre a mesa fria, tendo na sua orelha


o número 33. Ele não tinha mais nome nem identidade, só um número.
Agora sua residência era a sala de anatomia.

Seus olhos negros embaçados, distantes, sem expressão, in­crustados


no seu rosto esquelético, olhavam-me com ternura e com­preensão.
Vendo-o todas as manhãs, recebendo ensinamentos dele, ficamos
amigos, ligados intimamente. Sentíamos sua falta nos fins de semana.
Sabíamos que ele estava sendo explorado, e que em troca pouco lhe
era dado, talvez respeito e agradecimento internos. Iden­tificados com
ele, resolvemos batizá-lo carinhosamente com o nome de Gaspar. As-
sim começávamos a descobrir, com mais clareza, os desníveis sociais, o
sofrimento de uns em benefício de outros, a gran­de ajuda do indigente
para nossa aprendizagem. No salão grande, cheio de janelas altas e an-
tigas, estavam as outras mesas. Lá descansa­vam corpos desconhecidos
de ex-homens.

Aos poucos, estava envelhecendo, vinte anos, vinte e um… Sa­bia


que o tempo das brincadeiras, da irresponsabilidade estava aca­bando,
faltava pouco para isso. A tristeza começava a dominar e inun­dar nosso
corpo. No olhar de todos via-se o fantasma da formatura, como ago-
ra vemos, receosos, o da velhice. Havia pressa, e ao mesmo tempo
medo, de terminar o curso. A maioria arrumou uma namorada firme
no quarto ou no quinto ano, ficava noivo no sexto e casava no primeiro
ano da profissão. Foi a essas mulheres jovens, animadas, corajosas,
belas e atraentes que a maioria dos colegas se agarrou, como crianças
apavoradas e desamparadas. Uma vez protegidos, eles tiveram forças
para enfrentar o ainda desconhecido e perigoso mun­do médico. Estes

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felizardos seguiram em frente com menos temor. Os isolados, sem nin-
guém para os amparar, tiveram que se apoiar nas próprias e trêmulas
pernas.

Com a proximidade da formatura, cada um procurava ganhar co-


nhecimentos também fora da escola: o Hospital São Vicente de Paula,
velho, com seu teto alto, frio e de grandes enfermarias, a antiga Santa
Casa, com suas paredes descascadas e comidas pelas mulheres grávi-
das, anêmicas e desnutridas que lá eram internadas, o Instituto Raul
Soares, com seu laboratório de vanguarda, alguns loucos inter­nados e
a maioria fora dele, o Hospital Militar e finalmente as diversas cadeiras
da escola que abrigavam alguns com mais sorte.

Eram poucas as opções. Cada um fazia o que podia para aprender.

A formatura aconteceu no dia 8 de dezembro na Secretaria de Saú-


de. A tarde estava fria e chuvosa, relembrando o vestibular já quase
esquecido. A emoção, que era enorme, talvez maior do que a do ves­
tibular, impediu-me de memorizar o que foi discursado. Lá estavam os
ex-estudantes assentados nas desconfortáveis cadeiras colocadas no
palco, agora representando, para a plateia de amigos e familiares, o
drama dos médicos recém-formados. Tremi ao ouvir meu nome e re­
ceber os abraços dos homenageados. Cada um no seu canto, cada um
na sua dor e solidão. Terminávamos uma jornada, o que passou, pas­
sou. Agora caminharíamos à procura de um sonho. Até onde iríamos?
Ninguém podia saber. Quais fracassariam? Ninguém sabia, ninguém
falava: todos tinham medo. Mas, como sempre, “todo início tem seu
encanto”. Agora a vida nos pertencia, faríamos dela o que quisésse­
mos, não mais seríamos julgados pelos professores. Estava novamente
enganado. Agora enfrentaríamos examinadores mais severos: o clien­te
e a nossa terrível consciência. Agora nosso erro poderia ser fatal, sem
retorno, não mais teríamos a salvadora segunda época.

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