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LEITURA, ARTE QUE LIBERTA:

A LEITURA COMO FERRAMENTA DE


TRANSFORMAÇÃO NO ENSINO DA EJA DO SESC LER
SURUBIM

READING, ART RELEASING:


THE READING AS A TRANSFORMATION TOOL IN THE TEACHING OF THE
SESC READER SURUBIM

TATIANA DE MOURA SILVA

Resumo

É perceptível que na sociedade atual nunca se leu tanto, mas com tão pouca qualidade. O
presente relato trata-se de uma experiência do projeto “Leitura, arte que liberta”, surgido da
observação das práticas de leituras dos alunos da Alfabetização, 1ª e 2ª fases da EJA do Sesc
Ler Surubim, de 16 a 60 anos, com pouco ou nenhum contato com a leitura fora da escola ou
que a tem de forma desqualificada, especialmente em redes sociais. No cenário tecnológico no
qual se encontram, os registros escritos estão cada vez mais acessíveis e hostilizados. Porém,
esse bombardeio de publicações que são em fração de segundos disseminadas e absorvidas
com pouca ou nenhuma reflexão e compreensão, é preocupante. A análise do que leem está
cada vez mais escassa. O principal objetivo desse projeto foi despertar o interesse pela leitura
crítica iniciando pelos gêneros que já tinham contato e logo após oportunizando-os a conhecer
um universo mais amplo de tipos e gêneros textuais, tornando a leitura uma prática diária
prazerosa e necessária para sua autonomia e formação cidadã, utilizando-se do letramento
para o seu desenvolvimento social e cultural. Os resultados foram significativos e os alunos
estão constantemente aderindo a novas práticas de leitura.

Palavras-chaves: Ensino da EJA. Leitura. Autonomia.

Abstract

It is noticeable that in today's society one has never read so much, but with so little quality The
present report is an experience of the project "Reading, art that liberates", arising from the
reading practices of students of Literacy, 1st and 2nd stages of the EJA of SESC Ler Surubim,
aged between 16 and 60, with little or no contact with out-of-school reading or disqualified
reading, especially on social networks. In the technological setting in which they find
themselves, written records are increasingly accessible and hostile. However, this
bombardment of publications that are disseminated and absorbed in seconds, with little or no
reflection and understanding, is worrying. The analysis of what they read is increasingly scarce.
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The main objective of this project was to awaken the interest for critical reading, starting with the
genres that already had contact and soon after opportunizing them to know a wider universe of
types and textual genres, making reading a daily practice pleasurable and necessary for its
autonomy and citizenship training, using literacy for their social and cultural development. The
results were significant and students are constantly adhering to new reading practices.

Key-words: EJA teaching. Reading. Autonomy.

Introdução

A velocidade com que as informações e atualizações chegam ao mundo moderno é


assustadora. Porém se faz necessário lembrar que estas não chegam ao mesmo tempo nem
da mesma forma em todos os lugares. Há ainda um percentual exorbitante de pessoas sem a
apropriação de sistema alfabético de escrita, ou ainda que o tem apenas como decodificação
de símbolos, incapazes de compreender e interpretar o que foi lido. Classificados
respectivamente como analfabetos e analfabetos funcionais, essas pessoas sobrevivem numa
sociedade cada vez mais dependente da escrita e leitura em versões cada vez mais
sofisticadas e distantes de suas realidades, dificultando seu acesso e participação na vida
social, cultural e política de onde vivem.
Em consequência disso, temos o agravamento do quadro de desigualdades nas
oportunidades de estudo, emprego, aquisição de bens materiais e qualidade de vida entre a
população letrada e não letrada, que não se divergem muito de um lugar a outro do Brasil.
Preocupados com estas e outras questões relacionadas à quantidade e à qualidade do
que nossos alunos estão lendo, desenvolvemos na Unidade do Sesc Ler Surubim o projeto:
“Leitura, arte que liberta”, que tem como objetivo inicial despertar o interesse pela leitura e
contribuir na formação de leitores críticos e ativos no processo de ensino-aprendizagem e não
somente pessoas que leem e absorvem tudo que hoje é dito ou postado com pensamentos
velados de intolerância, preconceitos e alienações. É preciso apresentar aos alunos diversos
tipos e gêneros textuais, especialmente os que eles hoje têm mais acesso e a partir deles criar
estratégias de criticidade para que percebam o quanto somos vulneráveis e propícios a
legitimar discursos simplesmente compartilhando algo que venha a ferir o direito do outro.
Utilizando-se de uma pedagogia de projetos, as leituras sempre estiveram presentes
em nossas ações, mas eram realizadas como metodologias estratégicas para chegar a outros
fins, de forma mais informativa onde os alunos só liam porque lhe era proposto e
consequentemente cobrado algo pós a realização dessa leitura.
Antunes (2003, p. 70a) acredita ser esse tipo de leitura também favorável na formação
leitora, ao dizer que:

favorece, num primeiro plano, ​a ampliação dos repertórios de informação do leitor. [...] ​Como se sabe,
informações de um texto de Geografia ou de História podem ser bastante
relevantes para apoiar os argumentos apresentados num comentário, por
exemplo.

E já que nosso objetivo é desenvolver o letramento e a criticidade, nada mais coerente


do que garantir um repertório de conceitos a serem utilizados nas argumentações dos leitores
ao defender ou discordar do que leram.
Além dessa consciência crítica e analítica, desejamos após apontar aplicabilidade e
auxiliá-los a encontrar um sentido na prática de leitura, apresentá-los ao universo da leitura
deleite. Sobre isso, Antunes (2003, p.71b) classifica essa prática como “​experiência gratuita do
prazer estético​, do ler pelo simples gosto de ler. Para admirar. Para deleitar-se com as ideias,
com as imagens criadas, com o jeito bonito de dizer literalmente as coisas.”
Vemos em Rubem Alves (2001, p. 27-28 apud ANTUNES, 2003, p. 72c):

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as palavras também podem ser objetos de fruição, se nos ligarmos a elas pela mesma razão que nos
ligamos a um pôr-do-sol, a uma sonata, a um fruto: pelo puro prazer que
nelas mora... Brinquedos, fins em si mesmas, palavras que não são para ser
entendidas, são comida para ser comida: o caminho da poesia.

É também esse tipo de leitura que queremos apresentar através do projeto aos nossos
leitores. Levando em conta a vida corrida e complexa que relatam viver diariamente,
oportunizá-los a terem momentos de lazer e fuga mesmo que momentâneas das suas
realidades, mergulhando nos universos que só a leitura é capaz de levá-los.

Figura 1:​ Alunos da Alfabetização em momento de leitura deleite na Sala de Leitura. Fonte:
SESC Ler Surubim

Pretendemos ter como desdobramento do projeto: Leitura, arte que liberta, criar essa
atmosfera que propicie o desenvolvimento do hábito de ler, de forma que os alunos
compreendam e consigam distinguir os tipos de leitura que realizarão, propondo objetivos para
cada momento, seja ela deleite, informativa, de pesquisa, de diversão, entre outras. Eles terão
ainda um longo caminho a percorrer em sua vida acadêmica e pessoal, visto que estão dando
os primeiros passos, porém muito significativos para o processo de alfabetização no qual se
encontram.

No ato de ler, portanto, estão envolvidos diversos saberes que precisam ser adquiridos durante o
processo de alfabetização e anos iniciais do Ensino Fundamental. No
entanto, aprender a ler não se esgota em uma etapa ou no momento em que
pessoas jovens e adultas se alfabetizam; [...] ao longo da vida, haverá
inúmeras oportunidades para a ampliação de repertórios, a apropriação de
conhecimentos e o desenvolvimento de habilidades por meio de práticas de
leitura com as quais não se está familiarizado. (SESC-DN, p.21a)

Referencial Teórico

​A Educação de Jovens e adultos oferecida pela Unidade de SESC Ler Surubim vem
oportunizar aos jovens, adultos e idosos um ensino de qualidade numa perspectiva de
“Educação por inteiro”, pois além das disciplinas regulares, trabalhamos com projetos didáticos
envolvendo temas transversais numa abordagem interdisciplinar, de forma a atender aos
alunos em suas diversas necessidades com um currículo cada vez mais humanizado e
valorizando os saberes e vivências que esses alunos trazem para o ambiente escolar.

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Portanto, ao considerar os saberes do aluno, o professor demonstra um conhecimento de sua identidade


cultural o que possibilita uma maior integração com o aluno e traz
repercussões positivas para a aprendizagem do mesmo, na medida em que
favorece o resgate de sua autoestima, já tão desgastada, em função do
histórico de fracasso/exclusão escolar, frequentemente presente no aluno
jovem/adulto da classe trabalhadora. (GARCIA, 1985).

Assim temos os saberes dos alunos como ponto de partida para elaboração de nossos
projetos pedagógicos e complemento de nosso currículo, tornando-se um diferencial em
nossas escolas.
Neste sentido, o professor tem um papel fundamental de mediação e associação do
que se é proposto a trabalhar em sala de aula e sua função social no cotidiano dos alunos, de
uma forma que encontrem sentido ao que está sendo estudado e identifiquem juntos uma
aplicabilidade em sua realidade. O ato de ouvir seus alunos e a sensibilidade de perceber suas
reais necessidades, são fatores indissociáveis nesse processo de ensino-aprendizagem. Assim
diz Freire (1996, p.47a):

Saber que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades


para a sua própria produção ou a sua construção. Quando entro em uma sala
de aula devo estar sendo aberto a indagações, à curiosidade, às perguntas
dos alunos, as suas inibições; um ser crítico e inquietador, inquieto em face
da tarefa que tenho – a de ​ensinar e não a de transferir conhecimento.

Tendo em vista o perfil de nossos alunos da modalidade EJA, onde em sua maioria
apresentam baixa autoestima, cansaço, desestímulos e são desacreditados de si mesmos,
especialmente na possibilidade de avanços em sua leitura e escrita, os desafios dos
professores aumentam na medida que precisam descobrir meios de apresentar a esses alunos
o maravilhoso universo do saber, condição essencial para a sua autonomia e libertação, desde
as tarefas diárias mais simples até o desenvolvimento e superação de limites estabelecidos por
eles próprios e/ou pelo meio em que estão inseridos. “Neste sentido, o bom professor é o que
consegue, enquanto fala, trazer o aluno até a intimidade do movimento de seu pensamento.
Sua aula é assim um desafio e não ‘uma canção de ninar’. Seus alunos cansam, não dormem.”
(FREIRE, 1996, p. 86b).
Vemos nesse contexto, a leitura como caminho de libertação, desenvolvimento da
autonomia e transformação do individuo. Mas estamos falando de um processo de aquisição do
letramento e não apenas da decodificação das letras. A leitura que os alunos da EJA já trazem
do mundo em seus conhecimentos prévios e suas memórias afetivas entrarão em cena ao
pronunciarem as palavras ou analisarem imagens de forma a compreender e mais ainda,
conseguir interpretá-las. Dessa forma, os símbolos que antes pareciam apenas “enfeitar e
preencher espaços” passam a ter um enorme significado e necessidade de serem entendidos.
A tomada de consciência ​da importância da leitura implica na formação da identidade, pois o
sujeito letrado passa a compreender melhor o seu papel na sociedade de maneira mais
atuante. Porém, é preciso nesse processo despertar a criticidade e consciência de poder de
escolha do que se é possível aproveitar de cada leitura realizada. Compreender que em todo
discurso produzido há um interesse velado torna o leitor capaz de discernir e se distanciar da
alienação e condicionamentos, criando opiniões próprias a respeito de quaisquer temas
abordados. Quando atingem esse patamar, acreditamos ter de fato formado leitores no sentido
mais amplo da palavra.
Segundo Soares (2008, p.120):

A alfabetização não apenas para aprender as técnicas de ler e escrever, mas alfabetização
como tomada de consciência, como meio de superação de uma
consciência ingênua e conquista de uma consciência crítica, como
promoção da ingenuidade em criticidade.

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Freire (1996, p. 77b), reforça a ideia de que não há no mundo letrado espaço para
neutralidade e passividade. Segundo ele “ninguém pode estar no mundo com o mundo e com
os outros de forma neutra.” Ainda nessa perspectiva, Freire completa com indagações
reflexivas para quem está diretamente envolvido no processo de descobrimento de suas
potencialidades: “Em favor de estudo? Em favor de quem? Contra o que estudo? Contra quem
estudo?”
A leitura foi e continua sendo na sociedade instrumento de poder e dominação, colocando o
analfabeto e o analfabeto funcional numa posição social específica inferior de limitações que o
impedem de desenvolver inúmeras atividades pela incapacidade de decifrar o sistema
simbólico da escrita, afastando-os cada vez mais do mercado de trabalho, assim como serem
vítimas constantes de alienação especialmente de mídias que impõe uma cultura de massa.
Transformar um indivíduo em leitor assíduo é resgatar nele valores éticos capazes de
trazer segurança e respeito a si próprio. Freire (1996, p. 83-84c), afirma: “A isto ​corresponde a
‘expulsão’ do opressor de dentro do oprimido, enquanto sombra invasora. Sombra que, expulsa
pelo oprimido, precisa de ser substituída por sua autonomia e responsabilidade.” Assim nasce
o cidadão crítico e consciente de seus deveres e direitos, incluso no universo cultural e capaz
de mudar sua própria realidade social e política, saindo da condição de da qual se encontravam
vivendo num mundo letrado e cada vez mais escolarizado, industrializado, burocrático,
tecnológico e consequentemente excludente.

O papel do professor na formação do aluno leitor

Para que a formação de leitores na escola atinja os objetivos acima descritos, voltamos a falar
da importância do professor como figura essencial na condução desse processo transformador.
Pensar em estratégias que desenvolvam o gosto e prazer pela leitura em jovens e adultos com
diferentes níveis de compreensão e estágios tão diversos de idades e aprendizagens, é
desafiador. As disparidades necessitarão de muito diálogo e sensibilidade entre as partes para
que se encontrem ali algo que os aproxime e que seja significativo e instigante de ser
trabalhado.
É extremante importante que tenha o professor o habito de ler e ter internalizado a
preocupação de inserir seus alunos no universo letrado. Percebemos quando alguém dá vida
às palavras ao ler com emoção e satisfação. Chega a ser de fato contagiante os relatos de
leitores que leem com a alma. Assim como as demais leituras com finalidades de informar,
comunicar, divertir, refletir.
Antunes (2003, p. 28d), reflete sobre como o ensino de leitura é por muitas vezes trabalhada
em sala de aula, sendo: “uma atividade incapaz de suscitar no aluno a compreensão das
múltiplas funções sociais da leitura (muitas vezes, o que se lê na escola não coincide com o
que se precisa ler fora dela).” A autora preocupa-se ainda a construção de uma escola “sem
tempo para a leitura”, como se esta fosse uma atividade a ser realizada isoladamente e
esporadicamente de modo a não atrapalhar o andamento das disciplinas e conteúdos,
realizada com estreiteza e banalização.
​É também papel fundamental do professor se planejar e criar ambientes e situações favoráveis
aos momentos de leitura, respeitando cuidadosamente a diversidade e tentando atender às
especificidades de cada leitor; apresentar comportamentos de leitores em ambientes como as
salas de leitura, por exemplo, analisar os livros de sua escolha, observar capa, ilustrações, ler
resumos, familiarizá-lo com práticas sociais de leitura e suas diversas funções e usos sociais,
indicar autores que abordem temas interessantes para os diferentes níveis de leitura em que
seus alunos se encontrem. Sendo estes momentos de fruição, gradativamente estarão
habituados a utilizarem-se da leitura de acordo com suas necessidades.

Metodologia

​ Projeto: Leitura, arte que liberta, objeto de estudo deste artigo, resultou da preocupação
O
sobre o que e de que forma a leitura está sendo utilizada no processo de ensino-aprendizagem

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dos alunos da Alfabetização, 1ª e 2ª fase, (correspondentes às séries iniciais do Ensino


Fundamental destinada aos alunos jovens e adultos da Unidade Sesc Ler Surubim), por eles
próprios e por seus docentes. Para tanto, foi utilizada uma pesquisa aplicada com o intuito de
desenvolver o senso crítico nos educandos sobre que estão lendo e o que estão fazendo com
aquilo que leem, seja com aqueles que já têm um nível fluente de leitura, como também
aqueles que estão no processo inicial de leitura e a realizam através de imagens, símbolos,
gráficos, entre outros gêneros textuais similares.
A abordagem de caráter qualitativa possibilita a análise de resultados valorativos de
desenvolvimento do senso crítico e formação humana e cidadã de nossos alunos, com a plena
consciência de suas capacidades de contribuir na construção de sua história e interferir na
realidade política, social e cultural de seu meio.
Através do método de revisão bibliográfica, foram oportunizadas discussões acerca da
leitura crítica em diversos âmbitos voltados ao ensino da EJA com autores conceituados e
estudos que norteiam teoricamente nossas práticas pedagógicas e serviram de base
metodológica para a elaboração, aplicação e avaliação deste projeto.
As ações desenvolvidas no decorrer do projeto foram diversas e com objetivos distintos para
cada turma envolvida, visto que atendemos a um público de grande variação em idade e nível
de escolaridade entre as turmas e ainda entre os alunos de uma mesma turma. Nas rodas de
conversas e diálogos com os alunos, os professores realizaram levantamentos sobre o que
liam e a frequência dessa leitura. Os registros escritos dos quais têm mais contato na maioria
dos casos foram das redes sociais e televisão. Poucos têm em casa acervos de livros, revistas
ou jornais ou outros registros impressos. Mesmo com pouco domínio da leitura conseguem
com a ajuda de pessoas letradas criar contas em redes sociais, memorizar nomes de contatos
e realizar conversas via aplicativos e mensagens. Para realizar as atividades diárias, os que se
encontram em níveis iniciais de leitura, criaram estratégias de identificação de marcas,
símbolos e outros meios de reconhecer produtos, estabelecimentos, ruas, transportes e outras
necessidades de seu cotidiano.
Sobre a importância da leitura para eles, obtivemos resultados também variantes e
reflexivos. Percebemos que a maioria não reconhece a leitura como elemento de autonomia e
de função social importante. Queriam ler para mudar o status de analfabetos, alguns para
atender às necessidades religiosas (ler a bíblia) e poucos foram os que veem no bom
desenvolvimento da leitura e escrita uma oportunidade de melhoria na qualidade de vida e
ascensão profissional. Cada qual com seus motivos, todos apresentaram o desejo de obter o
domínio nas palavras na leitura e escrita.
Foi realizada nas turmas a reflexão sobre a necessidade de analisar o que lemos (textos,
imagens, vídeos) sob o risco de legitimar discursos distantes de nossas concepções ou que
venham a transmitir sentimentos de intolerância, exclusão, violência e desrespeito ao outro,
como também a influência da mídia em nossas escolhas desde a compra de um produto da
moda até a escolha de nossos candidatos a cargos políticos. Para tanto, utilizamos recursos de
multimídia, materiais impressos e diálogos e nos fundamentamos no pensamento de que: “Ler
não é simplesmente captar a ideia do autor: atribuir sentidos a um texto não demanda um
sujeito passivo, que se deixa levar pelas intenções e argumentos daquele que o produziu”
(SESC-DN, p. 20b).

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Figura 2: ​Alunos da Alfabetização apresentado acróstico sobre os 15 anos do SESC Ler


Surubim. Produção coletiva da turma. Fonte: SESC Ler Surubim.

Figura 3: ​Alunos da 2ª fase lendo cordel sobre os 15 anos do SESC Ler Surubim. Produção
coletiva da turma. Fonte: SESC Ler Surubim.

Num segundo momento com o objetivo de ampliar esse repertório reduzido de gêneros
textuais dos alunos, escolhemos um tema gerador que possibilitasse a inserção de uma grande
variação de textos, mas de forma significativa que os fizessem se encantar pelo universo da
leitura e trazer à tona memórias afetivas e prazerosas.

A leitura de mundo, como tão bem nos ensinou Paulo Freire, antecede a leitura da palavra. Precisamos
mostrar que é possível ler mesmo quando ainda não se sabe decodificar a
escrita. Nesse processo, dependemos em grande medida dos conhecimentos
que podemos ativar para realizar a leitura e tirar proveito das situações que
deles decorrem, para que alcancemos os objetivos traçados ao abordar um
texto.[...] Esses conhecimentos do mundo são necessários para se
compreender o tratamento dado a um assunto, problema ou tema, e estão
em constante reorganização à medida que novas aprendizagens vão
ocorrendo.(SESC-DN, p. 23c).

Encontramos então na Arte Literária um bom caminho a ser percorrido. Foi escolhido entre a
equipe de professores como tema central “Lá no meu Sertão...” e com cada turma de acordo
com seu perfil e objetivos a serem atingidos, se encontrou em um subtema: Alfabetização- O
caminho das águas do Sertão (leitura de gráficos, mapas, documentários, contas de água,
letras de músicas, textos informativos, cordéis), 1ª fase – Alimentação alternativa (leituras de
imagens, textos instrucionais, cartilhas da saúde, poesias) e 2ª fase – A arte de viver no Sertão

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(leituras de fotografias, pinturas,esculturas, letras de músicas, poemas, documentários,


biografias, texto teatral).
Iniciamos a socialização dessa nova etapa do projeto com a visita de um poeta e cordelista
já conhecido pelos alunos, Klébson Oliveira, que nos trouxe seus relatos de experiência com a
leitura, recitou cordéis e presenteou todos os alunos com algumas de suas produções. Os
alunos tiveram a oportunidade de entender como se dá o processo de escrita desse poeta, que
é antecedida por muita leitura e reflexão, envolve experiências vividas e outros fatores que
interferem diretamente na escrita de acordo com o público a quem o texto é destinado. Foi um
momento emocionante que provocou nos alunos o desejo de ler e até produzir textos como
alguns deles externaram. Perceberam-se pertencentes e muito envolvidos no projeto.

O ato de ler também abarca conhecimentos sobre o mundo como os textos foram produzidos, sobre quem
os produziu e em que contexto, como se tornaram públicos, em que veículos
ou suportes são divulgados, como chegam até nós. Todo texto, além de um
tema, apresenta elementos formais que seu autor escolheu para atingir uma
finalidade específica e para dialogar com os leitores previstos pelo autor.
(SESC-DN, p.23d)

Figura 4: ​Alunos da EJA em encontro com o poeta e cordelista Klébson Oliveira. Fonte: SESC
Ler Surubim

A partir desse encontro, cada turma foi desenvolvendo com estratégias próprias os
momentos de leitura e desenvolvimento do projeto.

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Figura 5:​ Aluno da 2ª fase apresentando a releitura de pinturas trabalhadas na sala de aula.
Fonte: SESC Ler Surubim

Semanalmente realizamos encontros para avaliar como estavam acontecendo as ações e


planejar as próximas e após dois meses de aplicação do projeto (março e abril de 2018),
iniciamos o planejamento da culminância. A integração que desenvolvemos na Unidade Sesc
Ler Surubim, assim como nas demais Unidades do Regional de Pernambuco (SESC-PE) das
Atividades Cultura e Educação, nos possibilitou a parceria com o supervisor Igor Alexandre de
Sá e do professor de teatro, André Chaves, na construção e acompanhamento do processo
criativo para socialização dos temas trabalhados. Optamos pela linguagem do Teatro e ao
externar as proposições aos alunos tivemos a feliz surpresa da adesão mesmo com a
preocupação por parte deles de participarem de uma experiência nova e desafiadora, assim
como foi também esse o sentimento da equipe de professores.

Figura 6:​ Encontro com as professoras da EJA e supervisores de Cultura e Educação.


Fonte: SESC Ler Surubim

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Figura 7:​ Professor de Teatro em explanação sobre o processo criativo a ser realizado com
os alunos da EJA. Fonte: SESC Ler Surubim

Os alunos participaram de todo o processo, escolha dos figurinos, construção do cenário,


criação das falas, escolha das músicas e todos os detalhes necessários para o momento,
sempre supervisionados pelas professoras e equipe de Cultura. A culminância de deu no mês
de maio com a apresentação dos teatros de cada turma participante num espírito de
coletividade e engajamento na execução de cada ação planejada para este dia.

Resultados

​De acordo com as proposições definidas para o projeto Leitura, arte que liberta,
desenvolvido com os alunos das turmas de Alfabetização, 1ª e 2ª fase da modalidade EJA do
Sesc Ler Surubim, percebemos algumas mudanças significativas durante e pós projeto, tanto
na questão do interesse deles pela leitura como na segurança e naturalidade com que
escolhem seus textos e os leem em voz alta para um grande grupo, por exemplo, como é
notário no depoimento de uma das professoras:

Todos os dias percebíamos o interesse dos alunos na leitura, pois sempre tínhamos algo diferente para
produzir e ler, como as falas dos personagens, ensaios, montagem do
cenário com a participação deles, ensaios das músicas. Também começamos
a ler mais sobre outras coisas. Hoje se não realizarmos esses momentos de
leitura na acolhida antes da aula, eles cobram e até trazem sugestões para a
leitura do dia.

É certo que esses avanços não aconteceram na mesma intensidade com todos os alunos
participantes, visto a heterogeneidade dos grupos já apresentada inicialmente neste relato.
Porém, cada um ao seu modo obteve avanços perceptíveis por eles próprios, por seus colegas
de classe e pela equipe pedagógica que acompanhou todo o processo, especialmente nas
apresentações teatrais onde perceberam-se de fato como protagonistas e provocados a
participar de novos experimentos por meio da fruição que a arte oferece. Veja-se a título de
ilustração, o que relata uma das alunas após sua apresentação no teatro da turma da
Alfabetização:

Achei foi bom, porque aprendi muitas coisas úteis sobre a água, como tratar, cuidar, economizar. Aprendi
a ler várias palavras que encontro em qualquer lugar, como água, Sertão,
chuva e outras que não lembro agora. Ficamos envergonhados quando a
professora convidou pra apresentar, mas depois foi tão bom que queria era
fazer de novo, nem acreditava que era que eu estava ali. A gente quer fazer
outra vez.

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Figura 8:​ Apresentação da turma Alfabetização da EJA na Culminância do Projeto; Leitura,


arte que liberta. Fonte: SESC Ler Surubim

Figura 9:​ Apresentação da turma 1ª fase da EJA na Culminância do Projeto; Leitura, arte que
liberta. Fonte: SESC Ler Surubim

Figura 10:​ Apresentação da turma da 2ª fase da EJA na Culminância do Projeto; Leitura, arte
que liberta. Fonte: SESC Ler Surubim

Percebemos que o processo na formação de leitores deve ser contínuo e muitas vezes a
passos lentos, mas que as primeiras sementes foram bem plantadas e estão sendo cultivadas

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a cada dia. A leitura é hoje como nos norteia a Proposta Pedagógica para o ensino da EJA nas
escolas do SESC, uma atividade permanente e prazerosa, ao ponto de partir da iniciativa e
desejo de alguns alunos de levarem livros paradidáticos para casa e socializá-los com a turma
as experiências vividas através da leitura deleite, fazendo nesses momentos mesmo que ainda
de forma tímida, a criticidade na análise das leituras realizadas.

Considerações Finais

​A leitura crítica torna-se um ato libertador uma vez que o indivíduo consegue identificar
nas linhas e entrelinhas a intenção que as palavras ditas ou ocultas transmitem. É uma
experiência única para cada leitor e que mesmo lendo o mesmo texto em momentos diferentes
da vida, não terão a mesma percepção, sendo os escritos os mesmos, mas o leitor, não. As
novas vivências o trará novas experiências na leitura.
Esse é sem dúvidas um processo mais demorado que deve ser retomado diariamente nas
mais variadas leituras realizadas no decorrer das aulas, como objetivado na elaboração deste
projeto, ao acreditarmos que “o ato de ler envolve um sujeito ativo que não apenas decodifica,
juntando as letras, sílabas e palavras, mas busca compreender e reage ao que está escrito, a
partir de seus propósitos e apreciações de mundo.” (SESC-DN, p. 20e).
Enquanto espaço de conhecimento que representa, a escola tem a oportunidade de
apresentar aos educandos o mundo letrado nos mais diversos âmbitos de sua existência e
oportunizar experiências significativas importantes na sua formação leitora. Uma vez
mergulhados nesse universo, ampliarão seus horizontes e construirão saberes necessários
para sua evolução pessoal e profissional, contribuindo para a formação de uma sociedade
questionadora, crítica e com conceitos próprios, cada vez mais difícil de ser manipulada e
influenciada pela cultura de massa e mídias oportunistas.

A escola, sem dúvida, é o lugar privilegiado para o estudante aprender a dialogar com os textos. É no
exercício diário do ato de ‘dar sentido’, ao que vemos, que nossa capacidade
de ler seu aprimora e amplia. Assim, torna-se necessário que um mosaico de
práticas variadas de leitura ocorra, com as mais diversas finalidades e com os
textos em gêneros do discurso necessários para que essas práticas sejam
realizadas. (SESC-DN, p. 25f)

Da mesma forma que se não forem oportunizadas na escola boa ou nenhuma


experiência leitora, os alunos ficarão limitados a ler por obrigação e a sempre esperar que
sejam cobrados de forma mecânica e meramente funcional totalmente descontextualizada,
consequentemente apresentarão dificuldades em toda a sua vida acadêmica e demais
situações em que seja a leitura seja necessária.
Acreditamos ter realizado através do projeto Leitura, arte que liberta, o início de um longo
processo de descobertas e aprimoramento da leitura crítica e significativa para as partes
envolvidas (professores e alunos) levando em conta todas as amplitudes que nos reserva.

Referências

ANTUNES, Irandé. ​Aula de Português: encontro & interação. São Paulo: Parábola Editorial,
2003 – (Série Aula; 1).

BRASIL. Lei 5692-71. ​Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional.​ Brasília: MEC, 1971

GARCIA. R. L. ​Formação de professoras alfabetizadoras- reflexões sobre uma prática


coletiva. In: - ( org.) A formação da professora alfabetizadora: reflexões sobre a prática. 2. Ed.
São Paulo: Cortez, 1998.

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ISSN: 1984-6355
Educação e Tecnologia em Tempos de Mudança | 13

EDUCATRIX. A revista que pensa a Educação. ​O desafio de formar jovens em um mundo


de múltiplas linguagens​. São Paulo: Moderna, 2011.

FREIRE, Paulo. ​Da leitura do Mundo à leitura da Palavra, leitura teoria e prática ​. Porto
Alegre: Mercado Aberto, 1982.

_____________ ​Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa​. São


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SESC. Departamento Nacional. ​Leitura e compreensão: a formação leitora: caderno de


estudos. Rio de Janeiro: SESC, Departamento Nacional, 2015 (Princípios em práticas.
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__________________________​Proposta Pedagógica Educação de Jovens e Adultos. Rio


de Janeiro: SESC, Departamento Nacional: 2000.

SOARES, Magda. ​Alfabetização e letramento​. 5. Ed. São Paulo: Contexto, 2008.

SOLÉ, Isabel. ​Estratégias de Leitura.​ 6 ed. Porto Alegre: ArtMed, 1998.

Anais do 16º Congresso Internacional de Tecnologia na Educação


Brasil | Recife | Setembro de 2018
ISSN: 1984-6355

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