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Urihi – Saúde Yanomami (V3.

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Fevereiro de 2011

A URIHI - Saúde Yanomami é uma organização não-governamental brasileira, criada em


setembro de 1999 por membros da CCPY (Comissão Pró-Yanomami), e teve como
objetivo ampliar o seu bem sucedido programa de assistência à saúde, além de apoiar os
índios Yanomami e promover a defesa dos seus direitos coletivos, tais como garantidos
pela Constituição Federal, por intermédio de ações sanitárias, educativas, políticas e de
auto-sustentação econômica, que visem à conquista de sua autonomia na preservação da
vida e do bem estar das presentes e futuras gerações.
A CCPY, após ter atuado nas décadas de 70 e 80 na assistência à saúde em toda a área
Yanomami através de equipes volantes, no início da década de 90 passou a executar, com
recursos próprios, um programa de assistência permanente à saúde em cerca de 10 % da
Terra Indígena. Este programa resultou em expressiva melhora da situação de saúde das
populações assistidas, possibilitando a implantação de um programa de educação em sua
área de abrangência, que se desdobrou no primeiro projeto de formação de
microscopistas e de agentes indígenas de saúde entre os Yanomami.
Nesse período, as demais áreas sob a assistência direta e exclusiva da FUNASA
continuavam apresentando preocupante incidência de doenças infecto-contagiosas,
especialmente de malária, além de altíssimos índices de mortalidade geral e infantil. Em
contraste, o programa de saúde da CCPY apresentava excelentes resultados, passando a
ser reconhecido como um modelo na assistência à saúde indígena. Assim, em meados de
1999, a FUNASA convidou insistentemente a CCPY a expandir o seu programa de saúde
para outras regiões da área Yanomami, abrangendo aproxidamente 50% desta etnia
residente no Brasil (na época, cerca de 7.500 índios), incluindo as áreas de mais difícil
acesso da Terra Yanomami.

Em sua assembleia anual, ante a eminente dizimação dos Yanomami, a CCPY decidiu
aceitar o convite, porém julgou que, para o melhor encaminhamento das atividades
propostas, seria mais conveniente criar uma nova estrutura organizacional totalmente
direcionada para atender às novas demandas ampliadas da assistência e da educação em
saúde. Esta decisão tomou em consideração também os riscos que uma organização
correria ao firmar convênios com o estado e passar a depender completamente destes
recursos, e das normas de execução dos convênios, para realizar o atendimento de saúde.
Assim, a URIHI-Saúde Yanomami é fundada em setembro de 1999 pelos médicos e
demais membros da organização (antropólogos e indigenistas, entre eles Alcida Rita
Ramos, Bruce Albert, Carlo Zacquini, Cláudio Esteves de Oliveira, Deise Alves
Francisco e Fernando Bittencourt), que ao longo dos anos acumularam experiência na
assistência à saúde dos Yanomami e, através de convênio com a FUNASA, inicia as suas
atividades no campo em janeiro de 2000, permanecendo até meados de 2004.
Ao assumir a assistência no início do ano 2000, a URIHI enfrentou a trágica situação de
saúde em que se encontravam os Yanomami. Durante toda a década de 1990 a execução
direta das ações de saúde pela Fundação Nacional de Saúde (FUNASA) no Distrito
Sanitário Yanomami (DSY) foi extremamente mal sucedida demonstrando-se incapaz de
resolver a situação de calamidade epidemiológica dos Yanomami. A incidência de
malária era altíssima, sendo a principal causa de morte durante o período. A tuberculose
progredia de forma epidêmica e os diagnósticos só ocorriam nas formas já avançadas da
doença. A assistência - precária ou ausente - das comunidades mais isoladas permitia que
muitos óbitos não fossem notificados. A média do Coeficiente de Mortalidade Geral era
quase 4 vezes maior que a registrada na população brasileira em geral.

Ao longo dos seus 4,5 anos de atividades, a URIHI alcançou extraordinários resultados e
obteve êxito na reversão desse quadro catastrófico. A incidência de malária, principal
causa mortis na década anterior, foi reduzida em mais de 99% durante o período e, desde
2001 até junho de 2004, não ocorreu nenhum óbito por esta doença nas áreas assistidas.
Trinta e um jovens yanomami foram capacitados no diagnóstico laboratorial da malária
em suas comunidades. A mortalidade infantil foi reduzida em 65 % e a tuberculose
começou a ser diagnosticada precocemente e, sempre que possível, tratada na área
indígena. A cobertura vacinal em crianças menores de um ano atingiu pela primeira vez
as metas preconizadas pelo Ministério da Saúde e o tratamento da oncocercose, doença
restrita no país à área yanomami e em relação à qual o Brasil tem um compromisso
internacional pela sua erradicação, alcançou uma das mais altas coberturas das Américas.
O estado nutricional das crianças menores de cinco anos era acompanhado mensalmente,
identificando a necessidade de intervenção nos casos de desnutrição. Estas medidas
permitiram um crescimento demográfico de cerca de 4% ao ano durante o período de
atuação da Urihi.

A formação de agentes de saúde, prevista para durar 4 anos, teve início em 2002 entre os
yanomami de diferentes regiões que, além do interesse nesta atividade e o apoio de sua
comunidade, estivessem alfabetizados e com capacidade de comunicação na língua
portuguesa. Um total de 24 alunos falantes de três diferentes línguas Yanomami
receberam treinamentos em: Malária, Oncocercose, Verminose, DST/AIDS, Saúde
Bucal, além de Controle de Vetores.

Além da formação específica em saúde, ainda restrita aos poucos yanomami que já
haviam tido algum tipo de experiência escolar anterior, a Urihi implantou, desde o início
de sua atuação na área, diversas escolas de alfabetização. Estas escolas alfabetizavam na
língua materna e eram desenvolvidas dentro das comunidades, em cinco diferentes
regiões do território Yanomami. Visavam principalmente garantir que mais Yanomami
pudessem também ingressar na formação em saúde no futuro. Para tal, a Urihi manteve
uma equipe de cinco educadores não-indígenas e, até maio de 2004, 272 Yanomami de
47 diferentes comunidades, que nunca haviam tido qualquer experiência escolar anterior,
foram alfabetizados pela URIHI.

A partir de julho de 2004, a URIHI resolveu não renovar o seu bem-sucedido convênio
com a FUNASA por discordar das mudanças na política de saúde indígena. Essa decisão
baseou-se no fato de que a "nova política" da FUNASA limitava a ação das ONGs,
basicamente, à contratação de recursos humanos, caracterizando uma irregular
triangulação de pagamento de pessoal para o exercício de atividades diretamente
executadas pelo poder público. Ao mesmo tempo, a FUNASA voltava a centralizar nas
suas coordenações regionais as operações para a assistência nos Distritos Sanitários
Indígenas, sem que o órgão tivesse se preparado técnica, administrativa e politicamente
para assumir esta tarefa. Na verdade, o único movimento dentro da FUNASA que
pudemos observar à época foi o loteamento político das coordenações regionais do órgão,
que no caso de Roraima contemplou grupos corruptos e historicamente anti-indígenas.

Não ter renovado seu convênio com a FUNASA em 2004 não significa que a URIHI
renunciou à sua responsabilidade na fiscalização da eficiência dos serviços sanitários
prestados aos Yanomami, muito pelo contrário. Com o fim do convênio da Urihi, os
sócios e colaboradores da organização, aproveitando a vasta experiência sobre a saúde
dos yanomami, têm se dedicado, voluntariamente, a produzir relatórios e análises da
situação da assistência e da saúde no Distrito Sanitário Yanomami. Neste contexto, a
URIHI vem denunciando, desde 2005, a progressiva degradação da situação sanitária na
TI Yanomami.

Obviamente, com suas denúncias insistentes, todas comprovadas pelos inquéritos da


Polícia Federal e do Ministério Público, a Urihi vem contrariando os poderosos interesses
políticos e financeiros que parasitam os orçamentos da saúde indígena de Roraima desde
a reforma de 2003-2004. Neste contexto, ninguém se surpreenderá com o fato de que
certos setores da FUNASA, estreitamente associados a estes interesses, consagraram
muito mais esforços em tentar desmoralizar retroativamente a Urihi do que em investigar
a corrupção maciça que assola o orçamento da saúde Yanomami desde 2004. Entende-se
melhor, assim, o motivo pelo qual a URIHI, logo que rompeu publicamente com a
FUNASA, tenha sido indicada para a atenção do TCU com base em solicitações do
Senador Mozarildo Cavancanti, um defensor dos interesses anti-indígenas, que articula
ações contra as organizações indígenas como o Conselho Indígena de Roraima-CIR, e
também a Urihi.

As denúncias de corrupção na Funasa, feitas pela Urihi, tiveram como resultado imediato
a retaliação, e a Urihi passou a ser investigada pela própria Funasa por um procedimento
específico de Tomada de Conta Especial, que revê as prestações de contas já realizadas,
que pode ser encaminhado ao Tribunal de Contas da União (TCU). Agora, em janeiro de
2011, Claudio Esteves, presidente da URIHI, recebeu um oficio da Funasa-Roraima
solicitando a contestação ou devolução da quantia de quinze milhoẽs de reais
(R$15.000.000,00), em quinze dias, relativo a um dos convênios firmados (foram mais de
4), sob pena do procedimento ser encaminhado ao TCU em Brasília.

Apesar do caso ser novamente apreciado pelo TCU, com possibilidade de apresentar
defesa e novamente documentos, o caso requer acompanhamento imediato de um
advogado, para que não vire uma bola de neve burocrática e continue a abater
moralmente as pessoas que estiveram à frente da organização. Seus nomes são citados na
imprensa, tornando-os infinitamente reféns das solicitações do TCU e da Funasa-Roraima
para apresentar documentos e outras justificativas.

Assim será necessário:

- a curto prazo: solicitar mais prazo e responder à Tomada de Contas Especial


relativa ao convenio 2344/2000.
− a médio prazo: levantar todos os procedimentos administrativos existentes no
TCU (Brasília) e na Funasa- RR (Boa Vista) relativos à Urihi.

− levantar se existem Inquéritos Policiais Federais que envolvam a Urihi.


− Tomar conhecimento do arquivo que a Urihi mantém com a prestações de contas
dos convenios firmados com a Funasa.
− Analisar a situação, apresentar sugestões de encaminhamentos para resolver os
casos administrativos e os de investigação policial se houver.
− Apresentar defesa adminstrativa perante a Funasa-Roraima e o TCU e PF se for
necessário.

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