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EDUCAÇAO -
JNES

ESPAÇO

DEZ/04

De Vygotsky a Morin: 53
entre dois fundamentos
da educação inclusiva
Luiz Antonio Gomes Senna*

Resumo
- Abstract que, na década de 1990, a educa-
A educação inclusiva contem- • ção recebia as primeiras orienta-
porânea é, sem dúvida, um dos Contemporary inclusive ções no sentido de que se o rga-
maiores desafios apresentados às education is no doubt one of the nizasse para atender a imensa
ciências humanas desde os pri- biggest challenges presented to "demanda pela inclusão de sujei-
meiros momentos da era da es- human sciences since the veryfirst tos marginados culturais no inte-
crutura e dos modelos mentais. • moments of the age of structure rior das práticas de escolarização.
Este artigo analisa algumas con- and mental modeling. This article Tomada como princípio político,
tribuições de Lev Vygotsky e Ed- --, analyzessomecontributionsofLev a educação inclusiva formou-se
gar Morin para a necessidade de • Vygotsky and Edgar Morin to the desde então como um corpo am-
superação do conceito clássico necessary overcoming of classic bíguo, ora apreciado pelo cará-
ideal de cognição e, conseqüen- ideal concept of cognition and, ter humanista com que se defen-
temente, para a introdução de consequently, to the introduction diam os interesses dos sujeitos até
indivíduos singulares nas práticas • ofsingular individuais into school então banidos do espaço públi-
escolares, tendo em conta, cen- practices, taking into account, co, ora execrado pelo desconfor-
tralmente, o papel da diversida- centrally, the role of cultural to que provocaria na ordem vi-
de cultural no desenvolvimento diversity inknowkdge development gente do cotidiano da educação
do conhecimento e sistemas com- and complex Jrameworks as formal, ora pelo desarranjo das
plexos como princípio alternati- • alternativemodelingprinciplefor relações de poder entre classes
vo para a organização de mode- meaning and truth. sociais que caracterizaram e ain-
los de significado e verdade. Key words: inclusive education; da caracterizam a sociedade mo-
Palavras-chave: educação in- • humancognition; mentalmodels; derna. Em que pese a demanda
clusiva; cognição humana; mode- complex systems. institucional pela inclusão ter sido
los mentais; sistemas complexos. Já se passaram dez anos desde razoavelmente suprida através de
instrumentos legais e regimen-
tais, a escola ainda e ncontra se-
*Programa de Pós-Graduação em Educação/UERJ. veras dificuldades para justificar
Material recebido e selecionado em outubro de 2004. a presença e a permanência dos

Informativo Técnico-Cientifico Espaço, INES - Rio de Janeiro, n. 22 p. 53, julho/dezembro 2004


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54 Movida pelo fascínio da Razão, a cultura


científica desenharia para si um modelo
incluídos na educação formal,
disto resultando que os alunos
humano baseado integralmente na figura
supostamente beneficiados pela
de um sujeito mítico, idealizado como a
inclusão escolar ainda amargam a própria energia da criação, a mais pura e
frustração de não serem reconhe- sublime figura entre as produzidas por
cidos - pelos outros e por si mes- Deus, cuja energia lhe era imposta como
mos - como sujeitos dignos da um dom inato.
condição de alunos.
Não há, todavia, como impu-
tar à escola a responsabilidade inócua uma discussão sobre edu- • baseados na Razão moderna, fo-
pela atual dificuldade de se dar cação inclusiva que tome por pres- raro mantidos à distância. O sen-
corpo de fato à educação inclusi- suposto algum tipo de inabilida- tido social da escola - tal como a
va, uma vez que, como sujeitos de, ou desinteresse, do professo- concebemos ainda hoje - está
sociais acima de tudo, os profes- rado quanto à adoção de práticas fortemente associado, tanto ao
sores reagem segundo orienta-~ de adaptação do ensino formal, dogma da Razão, quanto ao prin-
ções seculares que determinam a pois é impossível provocar adap- cípio do banimento, ambos soli-
razão de ser e os modos da edu- tações que incorporem os exclu- dariamente agregados como
cação formal. A solução para o ídos sem que se provoque uma ícones de uma cultura que não
problema da inclusão escolar não verdadeira ruptura com certas ,., tolera as diferenças e se sente
reside no tensionamento das re- bases da educação, que estão si- ameaçada por elas. Ainda é mui-
lações entre escola e sociedade, tuadas muito além da sala de to forte em nosso imaginário o
tendo-se por parâmetro a infun- aula e da própria escola. princípio sintetizado no dito po-
dada crença de que os professo- Em paralelo à questão políti- pular em que se declara serpreci-
res sejam sujeitos adversos às prá- ca imediatamente associada aos so ir à escola para ser gente na
ticas de inclusão. Não é tampouco indicadores internacionais de in- vida, aludindo-se, assim, aos não
possível buscar solução em fórmu- clusão social, existe uma outra escolarizados como não-gentes,
las metodológicas que ofereçam esfera de poder público cuja in- como sujeitos desprovidos de
certas condições mais adequadas tervenção política sobre as práti- • Razão, como os outros.
para o ensino de tudo aquilo que cas de educação formal se faz de • Movida pelo fascínio da Razão,
se consagrou como necessário e modo direto: a cultura científica. a cultura científica desenharia
recorrente na experiência curri- A sociedade moderna instituiu-se • para si um modelo humano base-
cular da educação formal, sem através da crença dogmática sobre ado integralmente na figura de
que se leve em conta o fato de a Razão científica e nela se baseou um sujeito mítico, idealizado
que a materialidade sociocultural para se instituir como uma uni- como a própria energia da cria-
e cognitiva dos sujeitos incluídos dade cultural, em detrimento dos ção, a mais pura e sublime figura
não necessariamente legitime al- demais segmentos humanos, os • entre as produzidas por Deus,
guma necessidade nos conteúdos quais, por força de imposições • cuja energia lhe era imposta como
formais do ensino. É, portanto, sociais ou de outros dogmas não um dom inato. O inatismo - em

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muito responsável pelo dogma- • 55


tismo que se viria a formar no
Não se observaria mudança substantiva
conceito de homem moderno -
quanto à posição dos excluídos da cultura
imputaria à Razão um caráter in-
dividual e atemporal, ambas ca-
científica nem mesmo quando, no século
racterísticas que justificariam as
XIX, os antagonistas do inatismo trouxeram
bases de uma ciência que se auto- à tona as teses deterministas de que
intitularia universal, não por for- resultaram o positivismo e o behaviorismo.
ça de uma generalidade entre os
homens, mas sim por condição de
uma estrutura de conhecimento
que se colheria na origem onto- que revelaria, não uma crença cialismo que teria por pressupos-
lógica de todas as coisas. Tama- propriamente, mas o estado de to a absoluta incapacidade huma-
nho racionalismo, todavia, escon- pertencimenco a um grupo soci- na de produzir conhecimentos
deu por trás de si uma profunda almente autorizado a produzir por atitude cognoscente, os de-
incoerência, já que se tomou por conhecimentos de forma legítima terministas somente asseveraram
reconhecer verdadeiro somente e irrefutável. Assim sendo, a fa- ~ prerrogativa cultural da socie-

o conhecimento que se produzis- mosa expressão de Descartes, dade moderna sobre os outros
se por certos sujeitos sociais, "Penso, logo existo", com a qual homens, imputando-lhes, através
edificados que fossem à imagem este define a máxima racionalista das mais variadas formas de vio-
e semelhança de valores sociais de que a existência de todas as lência, seus padrões de compor-
rigidamente prescritos pela or- :"' coisas é produto da Razão, pode tamento e seu saber hegemônico.
dem cultural da sociedade mo- também ser interpretada como Contudo, talvez por reação à for-
derna. Aos outros, legou-se a de- marco de uma posição frente à ça avassaladora dos deterministas
bilidade e a escravidão. definição de quem se elege, ou no século XIX, bem como pelo
Ainda que supostamente pró- • não, como sujeito da sociedade evidente sinal de decadência so-
prio da natureza humana, o co- moderna. cial, diversos movimentos come-
nhecimento inato - responsável Não se observaria mudança çaram a surgir na sociedade como
por toda a revelação do mundo - substantiva quanto à posição dos um todo e, ainda que de forma
permaneceu exclusivo de uns excluídos da cultura científica mais contida, na comunidade ci-
poucos que dele pudessem dis- nem mesmo quando, no século entífica, na busca por espaço para
por com eloqüência pública, na XIX, os antagonistas do inatismo o reconhecimento do direito à
forma como nos definiu Foucault, trouxeram à tona as teses deter- vida e à voz na sociedade.
pois que os outros humanos não ministas de que resultaram o A primeira grande contribui-
eram reconhecidos como sujeitos positivismo e o behaviorismo. Ain- ção que viria a introduzir mudan-
capazes de construir verdades da que se deslocasse momentane- ças realmente significativas na or-
confiáveis. Foi deste modo, en- amente o centro da atenção para dem científica moderna foi-nos
tão, que a verdade do conheci- fora das discussões clássicas sobre trazida por Lev Vygotsky, sob
mento passa a ser tratada como o inatismo, apresentando-se como motivação das orientações temá-
verdadeiro dogma social, algo defensores de um experien- ticas da literatura de Karl Marx.

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ATUALIDADES
,., EM . . . . . . . . . . . . . . . . . . menos próxima de uma verdade
universal quanto mais próxima de
EDUCAÇAO um Homem universalmente aco-
• lhido e reconhecido como sujei-
INES to cognoscente.
O mecanismo mental descrito
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em seu modelo epistemológico
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não difere em muito do análogo
O impacto do modelo mental defendido por proposto em Piaget no que se
56 Vygotslcy frente ao modelo de sujeito social refere às dinâmicas de funciona-
da cultura científica é enorme, justamente mento, mas guarda especificida-
des outras que a cultura científi-
pelo fato de que o desenvolvimento
ca tentou desprezar por longo
proximal não opera, -em tese, sobre a prer-
tempo. Segundo Vygotsky, a men-
rogativa de algum conceito com relação ao te humana ~ um sistema de valo-
outro no processo de interação. res, e não de categorias atômicas;
: é um sistema que deriva e inter-
• preta conceitos de mundo, não
Nas primeiras décadas do século desloca a discussão relativ;i. ao : dedicado, portanto, ao ajuiza-
XX, em meio a um turbilhão de conhecimento da natureza • mento lógico e essencial das re-
movimentos outros, particular- ontológica dos objetos mentais • ferências de mundo. O princípio
mente na esfera das artes e no para a sua natureza conceitual, • de equilibração, também presen-
interior dos movimentos operá- determinada a partir de suas rela- • te em Piaget, é adotado no mo-
rios, tendo por marco a Revolu- ções diversas com os sujeitos que : delo de Vygotsky para explicar o
ção Russa, em 1917, Vygotsky pro- os vivem e os representam. Ainda • movimento de incorporação de
poria as bases de uma revoluçãc que não desprezando a natureza • novos conceitos possíveis a um
geral da cultura científica, ao or- lógico-essencial das representa- • conceito prévio, de modo que
ganizar o primeiro modelo ções mentais, o modelo mental • resulta necessariamente do con-
mental não orientado segundo os proposto centraliza justamente a • fronto entre dois ou mais valores
princípios da individualidade e da natureza pragmática e vivente das ,.,: pragmáticos distintos relativos a
universalidade. representações, vindo, então, a : um único objeto ou contexto.
Advogado e lingüista, Vygotsky definir a produção de conheci- Neste sentido, apresentam-se os
faz introduzir nos estudos sobre mento como dinâmica e determi- estágios de desenvolvimento de
a epistemologia do conhecimen- nada pelo intercâmbio de concei- • determinado conceito como "zo-
to um viés prag~ático que influ- tos, que nada mais são do que nas de desenvolvimento", dentre
enciaria a criação de toda uma representações com valor cultu- • as quais a "zona de desenvolvi-
escola, desde Wittgenstein, seu ral determinado, local e temporal. mento proximal" explica o pro-
contemporâneo, a Habermas, to- O modelo mental de Vygotsky cesso através do qual dois sujei-
dos tendo como princípio o fato aponta, portanto, para uma jane- tos buscam mutuamente compre-
de que as dinâmicas sócio- la até então desprezada na cultu- ender os sentidos que dão corpo
interacionais (jogos comunicati- ra científica, à medida que para aos respectivos conceitos que cada
vos, segundo Wittgenstein, e atos além dela encontrar-se-iam todos qual emprega para ajuizar deter-
comunicativos, segundo Habermas) os sujeitos banidos da sociedade minado objeto ou contexto de
propriamente determinam, não moderna, não mais tomados mundo.
somente estruturas, mas todo o como débeis alienados, mas sim O impacto do modelo mental
sistema de valores em torno dos como sujeitos de seus próprios defendido por Vygotsky frente ao
quais a verdade se constrói. O conceitos de mundo. Abria-se, modelo de sujeito social da cul-
sócio-interacionismo pioneira- assim, uma nova era de possibili- tura científica é enorme, justa-
mente defendido por Vygotsky dades para a Modernidade, tanto mente pelo fato de que o desen-

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jeto de inclusão social iniciado 51


em Vygotsky ganharia novo fôle-
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1
go com as contribuições de cada
um dos estudos que, no século
XX, apresentaram críticas ao mo-
delo científico de produção de
verdades. Afinal, que verdade?
Interrompido por sua morte e pelo incômodo
Em seus quatro volumes de O
que sua tese provocou pelos quatro cantos Método, Edgar Morin reúne os
do mundo, Vygotsky deixou por her.ança à mais diversos argumentos em fa-
cultura científica o desafiu de se consolidar vor, sobre tudo, da desdog-
o estudo do desenvolvimento proximal e, matização do conceito científico
com ele, dar-se prosseguimento ao processo de verdade, instaurando a dúvi-
de inclusão dos excluídos sociais, sujeitos ao da quanto à possibilidade de ha-
preconceito da ignorância científica. ver verdade possível a partir de
juízos produzidos desde um
~lhar individual e supostamente
volvimento proximal não opera, desenvolvimento proximal e, universal para os fatos de mun-
em tese, sobre a prerrogativa de com ele, dar-se prosseguimento do. Morin defende a concepção
algum conceito com relação ao ao processo de inclusão dos ex- de mente como um fenômeno
outro no processo de interação. ,., cluídos sociais, sujeitos ao pre- complexo, permeado por variá-
Ao contrário, defende-se justa- conceito da ignorância científica. veis contextuais e historicamen-
mente o oposto, ou seja, o prin- • Passar-se-iam várias décadas até te dete rminadas, cuja natureza
cípio de que todo conhecimento que se retomassem as questões colide frontalmente com a possi-
resulta da aproximação entre dois teóricas necessárias à consolida- bilidade de juízos a priori. Mes-
conceitos, da qual resulta um ter- • ção dos estudos iniciais sobre o mo que não abordando a ques-
ceiro conceito que é a síntese dos desenvolvimento proximal. A fim tão do desenvolvimento pro-
1
anteriores. Em termos concretos, • de que se pudesse garantir ao ximal, Morin aproxima-nos do
~ isto significa aprese ntar à socie- • desenvolvimento proximal um problema observado por Vygotsky
dade moderna a tese de que in- • valor reconhecido na cultura ci- à medida que pluraliza as verda-
cluir os "outros" implica, propri- • entífica, deste modo assegurando des possíveis e fragiliza a hege-
amente, incluir novos conheci- • voz e eloqüência aos sujeitos em monia de uma concepção de va-
mentos, novas perspectivas de • aproximação, teve-se de esperar lores centrada em um ú nico sis-
mundo. até que as bases da ciência mo- tema de valores, a-contextual e
Interrompido por sua morte e • <lema viessem a ser objeto de dis- pragmaticamente amorfo, já que
pelo incômodo que sua tese pro- • cussões apuradas e que o concei- banido da vida conceituai.
vocou pelos quatro cantos do • to dogmático de verdade fosse O percurso atual da educação
mundo, Vygotsky deixou por he- posto à prova. inclu siva não pode desprezar o
rança à cultura científica o desa- • Neste sentido, h á que se assi- fato de qu e a situação dos incluí-
fio de se consolidar o estudo do nalar que a continuidade do pro- dos nos sistemas de escolarização

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ATUALIDADES
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ESPAÇO formal está diretamente vinculada prenunciou um espaço de desen- no, mas sim para novas meto-
ao processo de ruptura com os volvimento em que as pluralidades dologias de produção de conhe-

' D;/; dogmas com que a cultura cientí-


fica definiu - para si e para a esco-
podem interagir, por outro, os cimento acadêmico-científico, es-
agentes de inclusão escolar neces- • tas sim determinantes de uma ver-
la - o conceito de verdade. Entre- sitam reorientar suas práticas, não <ladeira possibilidade de diálogo
tanto, se, p or um lado, Vygotsky para novas metodologias de ensi- com as diferenças culturais.

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