Você está na página 1de 13

Formação Econômica Brasileira1

Dando início à discussão do Programa da Revolução Brasileira, o tema que me foi incumbido é o da
formação da economia brasileira. Meu objetivo é analisar, de um ponto de vista marxista, a evolução
histórica da economia do Brasil e seus desdobramentos. É uma tarefa difícil. Discutir a formação da
economia brasileira é a mesma coisa que falar de Deus e sua época. Corremos o risco de querer falar de
tudo se não focarmos nossa análise dentro de uma perspectiva interessante. Assim, considero relevante
partirmos de três premissas básicas: primeiro, é que para entender o desenvolvimento econômico e
social do Brasil é necessário ligar a história do país com o desenvolvimento mundial do capitalismo, ou
seja: pensar em uma totalidade para compreender a nossa história; segundo, dentro dessa perspectiva é
necessário enfatizar os conflitos, os movimentos e as lutas entre grupos e classes sociais no Brasil; e,
terceiro, é necessário concentrar a discussão em determinados momentos históricos, que são
fundamentais, porque são pontos de ruptura, de inflexão na história econômica do Brasil. Partindo
dessas premissas, formulei algumas questões prévias que podem ajudar na nossa reflexão: primeiro,
porque o Brasil se tornou um país industrializado ou semi-industrializado, porém, dominado e
dependente? Segundo, quem é a burguesia brasileira, qual a sua composição? Terceiro, quem é a classe
trabalhadora no Brasil, e também qual é a sua composição? E por fim, para onde vai a economia
brasileira diante a crise atual? Com isso, vou tentar fazer uma discussão teórica para entendermos para
onde caminha o Brasil e a sua economia, diante do contexto da crise mundial.

Entender o Brasil significa, como ponto de partida, voltar para o descobrimento, para a colonização do
país. Entender o que nós somos hoje implica fazer essa viagem histórica, e perceber que existe uma
ligação direta entre o Brasil-Colônia(1500-1822) e um processo que acontecia globalmente na Europa,
com o desenvolvimento do capital comercial apoiado nos Estados-nacionais, que estavam se formando
naquele continente. Um processo que se confunde com aquilo que Marx chamou de “processo de
acumulação primitiva de capital”. Você tem uma burguesia acumulando riquezas e criando mercados, e
que vai ser o pressuposto do processo de revolução industrial e da formação do modo de produção
capitalista. Uma frase de Marx é cristalina para entendermos a colonização do Brasil e da América de um
ponto de vista mais amplo. Marx vai dizer, em O Capital: “A descoberta das terras do ouro e da prata na
América; o extermínio, a escravização e o enfurnamento da população nativa nas minas; o começo da
conquista e pilhagem das Índias Orientais; e a transformação da África em um cercado para a caça
comercial aos peles negras marcam a aurora da era da produção capitalista. Esses processos 'idílicos' são
momentos fundamentais da acumulação primitiva”. É dentro desse pano de fundo que Portugal vai
empreender o descobrimento do Brasil. E a vantagem estratégica que tinha Portugal em relação aos
outros países europeus, ao contrário do que se fala, não era a sua posição geográfica. Portugal, se hoje é
um país atrasado, era um país adiantado nos séc. XIV e XV, porque foi o primeiro a formar um Estado-

1 Esse artigo é uma transcrição livre do informe apresentado no dia 25/08/09 por Daniel Feldmann durante a
Escola de Quadros do Comitê Central realizada em Florianópolis. Repetições, interjeições e frases truncadas,
interrompidas, típicas de um relato oral, foram suprimidas ou adequadas para tornar mais claro o raciocínio do
palestrante nessa versão escrita. A transcrição e as notas foram realizadas por Fabiano Stoiev. O texto foi
revisado pelo autor em Dezembro de 2009. Este texto foi extraído do Boletim Interno Especial – Notas para a
Escola de Quadros 2010 da Esquerda Marxista, de 18 de dezembro de 2009.
nação, depois da Revolução de Avis 2, onde uma classe burguesa, que já existia em Portugal, se aliou com
o Rei e estabeleceu um Estado com interesses mercantis e comerciais muito fortes. É isso que explica as
navegações, o descobrimento e a colonização do Brasil.

Quanto à colonização do Brasil, eu quero partir de um historiador, Caio Prado Júnior 3, que foi ligado ao
PCB. Apesar de não concordar com ele em diversas coisas, esse autor tem uma formulação para explicar
o sentido da colonização no Brasil que é muito útil. Ele vai afirmar: “se vamos à essência da nossa
formação, veremos que na realidade nos constituímos para fornecer açúcar, tabaco, ouro, diamantes e
em seguida, café para o comércio europeu. Nada mais do que isso”. Ou seja, na essência, nossa
colonização era um projeto do capital comercial europeu. Essa ideia complementa a frase de Marx
citada anteriormente. E quais as consequencias disso para o Brasil? Desde a Colônia podemos observar
algumas questões estruturais da nossa economia, e que vão fazer parte da nossa história, como o
latifúndio, o caráter agrário da nossa economia e a divisão da terra aqui existente. Primeiro, através das
capitanias hereditárias4, e depois, nas sesmarias5, grandes pedaços de terras vão sendo doados para
uma elite agrária que vai se estabelecendo aqui. Esses latifúndios são voltados para a exportação, para a
monocultura de produtos como o açúcar, o algodão e o tabaco, apreciados no mercado externo. O uso
do trabalho escravo vai completar o tripé dessa estrutura colonial. A escravidão era necessária do ponto
de vista do capital comercial investido no Brasil, já que seria inimaginável qualquer forma de trabalho na
colônia que não fosse compulsório, obrigatório. Naquela época, para existir um trabalho livre em um
lugar como o Brasil, onde havia terra abundante, o salário pago teria que ser altíssimo, porque sempre
existiria, para o trabalhador, a alternativa de uma produção de subsistência, na margem dessa
agricultura de exportação. Mas não era só por isso. É também pelo fato de que o próprio tráfico
negreiro era um negócio muito lucrativo para essa burguesia comercial portuguesa que veio colonizar o
Brasil.

Com essa estrutura baseada nesses três elementos (latifúndio, monocultura exportadora e escravismo)
algumas características estarão delineadas na economia brasileira. A concentração da terra faz com que
no Brasil não se forme uma classe de camponeses, de pequenos proprietários independentes, como
acontece no norte e no oeste dos Estados Unidos. Esse é um fato importante no nosso processo de
formação econômica. O que existe de pequena propriedade no Brasil, em geral, ou é ligada aos grandes

2 A Revolução de Avis ocorreu entre 1383 e 1385, por conta da disputa sucessória pelo trono português depois da
morte de Fernando I. De um lado, os partidários de D. Beatriz, casada com o rei de Castela (futura Espanha), e
por isso, considerados como defensores de interesses estrangeiros. Do outro, as Cortes de Coimbra, que haviam
aclamado Mestre João, da Dinastia de Avis, como rei. A guerra foi vencida por este último, garantindo a
independência de Portugal em relação a Castela. O apoio financeiro da próspera burguesia de Lisboa foi decisivo
para essa vitória.
3 Caio da Silva Prado Júnior (1907-1990), historiador, geógrafo e político brasileiro. Suas obras inauguraram uma
tradição historiográfica no Brasil identificada com o marxismo. Seu livro, Formação do Brasil
Contemporâneo, é um clássico da historiografia brasileira.
4 Sistema de administração colonial, onde a Coroa Portuguesa transferiu a tarefa de colonização e exploração do
Brasil a particulares (membros da pequena nobreza portuguesa) através da doação de grandes faixas de terras. O
Brasil foi dividido em 15 capitanias hereditárias.
5 Para estimular a colonização e as atividades econômicas no Brasil-Colônia, os capitães donatários (como eram
chamados os nobres que recebiam as capitanias hereditárias) podiam distribuir sesmarias para os colonos. As
sesmarias eram grandes lotes de terras. O sesmeiro, para garantir a propriedade da terra recebida, deveria iniciar
a produção dentro de um prazo estabelecido. A doação das sesmarias está na origem do latifúndio monocultor no
Brasil.
senhores de terras - onde os pequenos proprietários não tentam uma existência independente – ou,
com o desenvolvimento das atividades econômicas, os senhores de terras vão expulsando e tomando os
campos desses pequenos proprietários. Toda essa estrutura leva a uma concentração brutal da riqueza,
e ao mesmo tempo, a uma economia caracterizada pelas exportações e que só existe em função do
mercado externo. Mesmo o que existe de mercado interno no Brasil está em função dessa economia
exportadora. Por exemplo, os boons no Brasil-Colônia, de desenvolvimento da pecuária no Nordeste,
ocorrem em função de períodos de auge da economia exportadora do açúcar, que estimula outros
setores econômicos dependentes. Essa é a cara da economia colonial brasileira e que vai ter uma série
de repercussões no futuro.

Esse sistema colonial, no entanto, vai entrar em crise. E temos que olhar para o capitalismo como um
todo para entender a crise por que passa a colônia. O sistema mercantil, que inclui a exploração
colonial, vai se desenvolvendo e gera suas próprias contradições. Na Europa, com o processo de
acumulação primitiva do capital, vai ocorrer a revolução industrial na Inglaterra e a transição para um
modo de produção efetivamente capitalista, com trabalhadores assalariados, fábricas, etc... Isso traz a
emergência de uma nova potência hegemônica, que é a Inglaterra. Esse país, que também fazia parte do
jogo colonial, passa agora a defender as bandeiras do livre mercado: de poder comprar e vender
produtos para toda a América livremente, rompendo com aquele sistema colonial monopolista 6 que
estava instituído. Isso tudo em um mesmo cenário de luta política na Europa, da burguesia contra a
aristocracia, da Revolução francesa e das ideias do iluminismo e do liberalismo.

É nessa Era das Revoluções que começam a se desenvolver as contradições entre as elites dos senhores
de terras que se estabelecem no Brasil-Colônia e a metrópole portuguesa. Esse cenário era muito
influenciado pela política liberal da Inglaterra, que estimula esse desejo na elite colonial de comerciar
livremente, de se ver livre dos impostos, de não depender mais da tutela de Portugal. Os portugueses
vão tentar, nesse contexto de crise, acentuar ainda mais a opressão colonial. Mais impostos, mais
administração, mais militares na colônia para tentar controlar a situação. Mas, cada vez mais vão se
acentuando as contradições, em especial com o desenvolvimento da mineração no Brasil, que gera, de
uma forma um pouco mais desenvolvida, uma economia interna, um desenvolvimento urbano e uma
certa integração nacional que não existia. Não é a toa, por exemplo, que um movimento de luta contra
Portugal, a Inconfidência Mineira (1789), vai se dar nesse contexto da economia mineradora do ouro. Já
estão sendo criadas as condições para a Independência do Brasil. Independência que se dá, do ponto de
vista econômico, já em 1808, quando Portugal, invadido pelos exércitos franceses de Napoleão e
totalmente dependente da Inglaterra, é obrigado a abrir os portos 7 da sua mais rica colônia, o Brasil. Já
6 O pacto colonial estabelecia uma relação de exclusividade entre uma colônia e sua metrópole. Nessa relação, a
colônia (no caso, o Brasil) só poderia comerciar com sua metrópole (Portugal). Navios comerciantes de outros
países eram proibidos de aportar no litoral brasileiro. A colônia também era impedida de competir com os
produtos da metrópole através da proibição do estabelecimento de manufaturas (de tecidos, armas ou
ferramentas, por exemplo) no Brasil. A Inglaterra da Revolução Industrial, baseando-se no liberalismo
econômico, vai combater essas práticas monopolistas para ter acesso aos mercados coloniais e vender seus
produtos industrializados.
7 Em 1807, as tropas francesas de Napoleão Bonaparte invadem Portugal. A família real portuguesa veio se
refugiar no Brasil sob proteção da armada inglesa. Em 1808, a aliança entre a Coroa portuguesa e a Inglaterra
rende frutos para os interesses britânicos. Foi decretada a Abertura dos Portos às Nações Amigas, que de fato,
pôs fim ao pacto colonial e ao monopólio comercial português sobre o Brasil. Os comerciantes ingleses podiam
agora dispor do mercado brasileiro para vender seus produtos.
aí você tem o processo de independência praticamente dado e também a transição para um novo
domínio econômico, um neocolonialismo da Inglaterra sobre o Brasil.

Mas se essa elite brasileira, de um lado, quer a independência para poder comerciar livremente, do
outro, ela tem uma preocupação muito grande: é necessário manter a escravidão no Brasil. Com duas
preocupações essenciais, nesse caso. No processo de independência não poderia haver uma
fragmentação do território como ocorreu na América Espanhola, com a criação de uma série de países.
Já existiam as pressões contra o tráfico de escravos e era preciso manter um Estado que garantisse a
escravidão. E ao mesmo tempo, você tinha que evitar um Haiti no Brasil. Isso não era brincadeira. O
medo da elite colonial de uma revolta dos escravos negros se fazia presente. Então, a independência do
Brasil se faz por um processo de transição e não por um processo revolucionário como na América
Espanhola ou nos Estados Unidos. D. Pedro I, que é um representante da monarquia portuguesa, faz um
acordo com as elites coloniais e opera um processo mais pacífico de independência. Justamente para
manter as instituições, a figura do Imperador e a monarquia. E principalmente, manter a escravidão e a
unidade do território nacional. É uma conjuntura diferente da América Espanhola e dos Estados Unidos,
e que vai marcar, inclusive, a continuidade da nossa história.

Diferente do Brasil, na América Espanhola teremos um processo de revolução de fato, com Bolívar, San
Martín8 e outros, e que vai gerar uma série de repúblicas de caudilhos, de proprietários de terra. Mas o
interessante é que nesse processo, durante as guerras civis, as elites são obrigadas a incorporar negros,
índios e mestiços na revolução, para lutar militarmente e vencer. Isso faz com que, na América
Espanhola, os negros e os índios, que eram os servos e os escravos nas colônias, sejam libertados aos
poucos após o processo de independência. O que não acontece no Brasil, onde a escravidão vai durar
muito mais tempo. Nos Estados Unidos há uma outra configuração. No norte e no oeste, vigora aquela
ideia de Thomas Jefferson9, de um país de pequenos proprietários já com mercado interno desenvolvido
e uma república “democrática”. Enquanto no sul se mantem uma estrutura semelhante como a do
Brasil, de escravidão, monocultura e latifúndio. De qualquer forma, a independência dos EUA ocorre em
um contexto diferente do Brasil.

Apesar dessas diferenças, não se pode esquecer que no Brasil também houve luta de classes no período
posterior ao da independência. As décadas após a independência foram marcadas por uma profunda
instabilidade política no Brasil. Existem conflitos entre as próprias elites, cada uma delas vinculada à sua
atividade agrária e defendendo seus interesses particulares. Ao mesmo tempo, essas elites sentem a
necessidade de unificação do Império para manter a escravidão. Existem também revoltas de setores
médios e populares, como as da época da Regência no Brasil 10, nesse contexto de instabilidade em que o
Estado Nacional, Imperial, ainda não havia se consolidado totalmente. São exemplos dessas revoltas 11 a
8 Simón Bolívar (1783-1830), militar venezuelano e líder revolucionário, lutou pela independência de vários
territórios da América Espanhola, como Venezuela, Equador, Peru, Bolívia e Colômbia. José de San Martín
(1778-1850), general argentino, líder do processo de independência na parte sul da América Latina. Participou
ativamente da luta pela libertação da Argentina, Chile e Peru.
9 Thomas Jefferson (1743-1826). Filósofo iluminista, advogado e político americano. Principal autor da
Declaração da Independência Americana.
10 Período da Regência no Brasil (1831-1840), foi o período transcorrido entre a abdicação de D. Pedro I até a
maioridade de D. Pedro II. Nesses anos, o governo do país ficou nas mãos dos regentes, eleitos por deputados e
senadores. Foram anos conturbados na política nacional.
11 As revoltas populares do período regencial tinham como causas comuns as péssimas condições de vida da
Cabanagem (1835-1840) no Pará, com uma participação de massas; a Balaiada (1838-1841), no
Maranhão; e a Revolta dos Malês (1835), na Bahia, uma revolta de escravos muçulmanos que provoca
uma verdadeira insurreição na cidade de Salvador. É justamente nesse contexto que a elite vai criar a
Guarda Nacional (1831) apoiada no poder dos coronéis. Aliás, o nome “coronel” aparece neste
momento, para nomear os senhores de terras que organizam as milícias da Guarda Nacional na sua
região. A função principal dessa Guarda é a repressão da população. Além disso, a partir de 1840, com a
posse de D. Pedro II, teremos a formação de um império mais centralizado, com maior concentração de
poder, como uma resposta a esse período de instabilidade, para dar conta dos conflitos existentes entre
as elites e controlar as revoltas populares. Essa monarquia garante a manutenção da escravidão. Na
verdade, uma coisa complementa a outra. Monarquia e escravismo são dois lados de uma mesma
moeda.

Isso se dá durante o desenvolvimento de um novo ciclo econômico no Brasil, após as crises que
atingiram os ciclos anteriores do açúcar, do algodão e da mineração. O desenvolvimento desse ciclo, no
séc. XIX, ocorre com a exploração de um novo produto: o café. No contexto da revolução industrial, em
que o consumo do café ajuda os trabalhadores a ficarem acordados trabalhando, o Brasil vai ter quase o
monopólio do mercado mundial desse produto. Isso permite um certo desenvolvimento das forças
produtivas no Brasil e do próprio Estado. O Estado passa a fazer mais obras públicas com essa riqueza
que é gerada pelo café. Isso de um lado. Agora, por outro lado, é interessante notar que a produção do
café reforça ainda mais a nossa dependência do mercado externo e o caráter agrário da nossa
economia. Com essa expansão do café, a ponto do café ser o Brasil, temos uma debilidade ainda maior
da pequena produção no país. Os cafeicultores vão ocupando as terras e expulsando os pequenos
produtores, impossibilitando o desenvolvimento de uma classe camponesa e mesmo de uma agricultura
de subsistência.

É nesse contexto também que temos a penetração de um capital externo no financiamento e na


comercialização do café, principalmente o capital inglês. Não podemos esquecer que uma economia
voltada para o mercado externo também recebe investimentos e empréstimos, o que gera um certo
desenvolvimento das forças produtivas. E o que é fundamental nesse período, é entendermos como vai
se “resolver” a questão da terra no Brasil. Isso tem uma importância muito grande para a questão social
e para a luta de classes no país. O que acontece em 1850? Temos a aprovação da Lei de Terras no Brasil,
que é um verdadeiro golpe contra o povo. O que fez essa Lei de Terras? Ela regulariza o latifúndio, que
teve origem naquelas doações reais de terra que eram as sesmarias. Tudo é regularizado e passado em
cartório. E mais. A lei estabelece que as terras sem donos que existiam no Brasil só poderiam ser
compradas em leilões a um altíssimo preço. Antes, por mais que o centro da produção fosse o latifúndio,
ainda era possível alguém conseguir escapar dessa lógica para ter uma vida mais autônoma, como um
posseiro. Agora, com a Lei de Terras, todos têm que obrigatoriamente comprar as terras que não estão
regularizadas. Quais eram as intenções dessa elite agrária, dessa burguesia do café, com a Lei de Terras?
O que eles estão observando? Essa elite está percebendo que a questão do trabalho no Brasil tem que
ser resolvida. Justamente nesse ano de 1850 acontece a proibição do tráfico negreiro para o Brasil (Lei
Eusébio de Queirós). E a questão do trabalho se coloca como um problema crucial para essa elite. Esses
senhores de terras já prevêem que terão que adotar alguma forma de trabalho livre mais à frente. Por

população mais pobre, o excesso de impostos e a luta pelo poder de grupos e partidos políticos locais.
essa época já se discutia a vinda dos imigrantes para complementar a força de trabalho no Brasil. Mas
não se poderia trazer os imigrantes e dar livre acesso à terra a eles. Era preciso tornar a terra cara,
inacessível. Por isso a Lei de Terras, que cria um mercado de terras no país com preços caríssimos e já
muito concentrado nas mãos dos antigos senhores. Do contrário, você não conseguiria a exploração
desses novos trabalhadores rurais, que eram os imigrantes, e que iria garantir a produção da mais-valia
para os senhores de terra.

Esse é o Brasil do séc. XIX. Mas o próprio desenvolvimento econômico resultante da economia cafeeira,
é necessário dizer, vai gerar suas próprias contradições. É esse contexto que torna compreensível a
Abolição da Escravatura(1888) e a Proclamação da República(1889). Porque o fim da escravidão? Há
vários autores, como Fernando Henrique Cardoso 12, que vão afirmar que a abolição foi uma opção da
burguesia do café, das oligarquias. Porque, na medida em que se desenvolve a economia cafeeira, ligada
ao processo de expansão mundial do capitalismo, acontece a introdução de uma lógica capitalista no
país também, que necessita de uma mão de obra mais flexível: de um mercado livre para a compra e
venda da força de trabalho, do assalariamento do trabalhador. Essa flexibilidade inexistia na escravidão
porque com a compra de um escravo sua mão de obra era para sempre. E é por isso que os próprios
senhores decidem acabar com a escravidão. Mas essa explicação é verdadeira? Em parte é verdade. De
fato, há um desenvolvimento econômico que exige uma mão de obra mais flexível. Mas isso não anula o
que é fundamental. E nós já escrevemos isso. Serge no livro dele 13, o Miranda em vários textos do
Movimento Negro Socialista. E o que é fundamental? São as revoltas dos escravos que conquistam a
abolição. Outros autores vão discutir isso, como Jacob Gorender, ex-militante da guerrilha, que escreveu
uma obra chamada Escravismo Colonial(1978). Nesse interessante livro, ele vai defender uma ideia
semelhante ao que gente defende: que os senhores de terras no Brasil, até o último momento,
defendiam a continuidade da escravidão. O movimento de luta dos escravos teve apoio de setores que
não eram escravos, setores médios, que, mesmo minoritários, apoiaram, em certo sentido, a luta contra
a escravidão. Isso foi fundamental para debilitar e destruir a escravidão no Brasil. Esses setores médios
defendem a abolição não só por se “sensibilizarem” com a condição do escravo. Lógico, algumas pessoas
viam assim. Mas também porque esses setores viviam naquela sociedade baseada em castas, em
privilégios, onde você só podia votar se tivesse certa renda. Logo, existia uma luta por maior
participação política e ascensão social que fazia com que setores dos “brancos” também vissem na
escravidão uma instituição que representava o atraso. O fato da escravidão estar associada à
monarquia, a uma sociedade de privilégios que impedia a participação politica, leva setores médios a
apoiar a causa da abolição e também lutar pela república. É interessante perceber que abolição e
república são dois momentos conjuntos. Se você derruba a escravidão, você também derruba a
monarquia no Brasil.

Em que contexto vamos entrar com o fim da monarquia no Brasil? No contexto da chamada República
Velha, que vai durar até 1930. É o auge da economia agro-exportadora no Brasil. É quando a economia
do café mais se desenvolve, no período que vai do final do séc. XIX ao início do séc. XX. Aí, é
interessante ver algumas questões. Porque os militares, que no Brasil começam a ganhar importância a
partir da Guerra do Paraguai (1864-1870), vão ter um papel importante na derrubada da Monarquia e
12 Entre as obras de Fernando Henrique Cardoso estão Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional (1962) e
Dependência e Desenvolvimento na América Latina, em parceria com o sociólogo chileno Enzo Faletto.
13 GOULART, Serge. Racismo e Luta de Classes. Florianópolis: Editora Conhecer, 2002.
na instituição da República. Esses militares, estimulados pelas ideias do positivismo 14 – basta olhar o
lema da Bandeira do Brasil, “Ordem e Progresso” – vão defender um governo autoritário, centralizado e
que promova a industrialização do país. Alguns deles defendiam isso, como Marechal Deodoro e
Floriano Peixoto. Só que esse projeto é derrotado. Quer dizer, a elite agrária se apoiou nos militares em
um primeiro momento, mas depois de consolidada a República, o poder retorna para as mãos da
burguesia do café, principalmente a burguesia paulista. É o tempo da República do Café com Leite 15,
com São Paulo e Minas Gerais dominando o cenário político nacional. O que que significa isso? Que os
interesses da grande propriedade de terra devem prevalecer. A elite agrária de São Paulo e Minas está
de acordo com os latifundiários de outros estados. Os senhores de terras apóiam a elite paulista, e em
troca, essa burguesia de São Paulo não interfere na vida política local de outras regiões do Brasil. Com
isso, é mantida a estrutura do latifúndio e da exportação. Logicamente não existe mais a escravidão.
Mas permanece uma estrutura de exploração dos trabalhadores na produção do café e de determinados
gêneros agrícolas.

Agora, o que é importante nesse período de auge da economia exportadora? É justamente aí que
teremos os primórdios da industrialização do Brasil e do surgimento da classe operária. Uma primeira
classe operária, mais concentrada em São Paulo, e uma indústria muito tímida, muito embrionária, que
é, em parte, voltada para produtos acessórios ao café, mas também, para setores de bens de consumo:
alimentação e têxteis. A indústria símbolo desse período é a Matarazzo. Indústrias que não têm ainda
um desenvolvimento tecnológico muito grande. E, como marxistas, precisamos entender esse início da
industrialização a partir da ideia de desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo. Esse
desenvolvimento industrial, que se inicia no Brasil, vai se dar em qual momento do capitalismo mundial?
No momento do Imperialismo, em que já existe um capital monopolista a dominar o mercado mundial.
Nós estávamos na primeira revolução industrial e as potências imperialistas já estavam na segunda
revolução industrial, com indústria química, eletricidade e siderurgia desenvolvida. É importante frisar
isso. Estamos atrasados e dependentes, comprando máquinas das nações mais industrializadas para
implantarmos uma indústria têxtil e de alimentos.

E o que também é fundamental: essa burguesia industrial, que surge na República Velha, principalmente
em São Paulo, assim como os senhores de terras, tem profundo medo das massas. Quer dizer, a questão
operária é tratada com violência no Brasil. Você não tem direitos trabalhistas e a repressão é brutal.
Trabalhadores estrangeiros, como italianos e portugueses que vinham aqui constituir o movimento
operário, são expulsos para seus países de origem. Esses setores industriais, mais “modernos” da
burguesia, se aliam aos fazendeiros mais atrasados na manutenção do poder e na repressão aos
trabalhadores do campo e da cidade. O que é toda a história da Revolução Permanente: uma burguesia
economicamente mais “moderna”, em um país atrasado, por medo das massas, acaba se aliando com os
setores mais atrasados com medo da revolução, com medo do povo.

14 Doutrina filosófica e política fundada pelo francês Auguste Comte (1798-1857). Procura associar uma
interpretação das ciências com uma ética humana radical (pequeno-burguesa). Suas ideias foram bastante
influentes no Brasil. Sua divisa “O Amor por princípio, a Ordem por base e o Progresso por fim” serviu de
inspiração para a bandeira nacional.
15 Política de revezamento no governo federal durante a República Velha (1889-1930) onde o presidente ora era
indicado por São Paulo (estado mais poderoso economicamente graças à produção cafeeira), ora por Minas
Gerais (maior pólo eleitoral do país na época e produtor de leite).
Com base nisso é que a gente tem que entender o que foi o Movimento de 30 16, que se costumou
chamar de “Revolução de 30”. Mas não é uma revolução popular. Foi fundamentalmente um
movimento das elites, cujo pano de fundo era a crise mundial de 29, que fez os preços do café caírem
60%. Uma crise que debilitou a burguesia cafeeira de São Paulo. É justamente nesse contexto que
teremos um movimento onde representantes das oligarquias, como Vargas, do Rio Grande do Sul, João
Pessoa, da Paraíba e de outros estados, como Minas Gerais, se aliam com um movimento que já existia
e que foi forte no Brasil nesse período: o tenentismo. Um movimento militar, mas também das classes
médias, que exigia reformas políticas e maior participação popular. É interessante perceber que o
movimento tenentista vai dar origem tanto a caras como Luís Carlos Prestes, que vai para o Partido
Comunista, como a caras como o Geisel, por exemplo, uma das lideranças da ditadura. Uns que vão
para a “esquerda” (no caso, para o estalinismo) e outros que vão depois para a direita. Mas é bom
notar: as cúpulas militares, nas suas participações na vida política do país, desde a guerra do Paraguai,
se apresentam em geral como aliadas diretas das elites, da burguesia. Agora, o que é interessante?
Esses representantes das oligarquias e militares, que vão fazer o Movimento de 30, são obrigados a
dialogar com certas reivindicações populares como mais democracia e direitos trabalhistas. Vargas tem
um apoio muito grande dos trabalhadores de São Paulo, é preciso dizer isso. Mas o projeto da
“Revolução de 30” é um projeto da oligarquia. Não é nem mesmo um projeto da burguesia industrial
como muitos dizem em um primeiro momento. A burguesia industrial de São Paulo apoiou Washington
Luiz e foi contra o Vargas. Ela estava ligada ainda à questão do café. Por que é importante esse pano de
fundo? Quando acontece o movimento de 30, os estalinistas do PCB não defendem Vargas, porque eles
estão na época do terceiro período, na época esquerdista - e que vai levá-los à fracassada Intentona
Comunista de 1935 liderada por Prestes. Mas, posteriormente, os estalinistas terão uma outra
interpretação da história, onde vão pintar o movimento de 30 positivamente, considerando-o como o
momento inicial da Revolução Burguesa no Brasil. Nessa análise, teríamos uma burguesia progressista,
industrial, que se consolida a partir de 30. Essa é a posição de Nelson Werneck Sodré 17, onde é
necessário passar por uma revolução burguesa para, em um futuro incerto, poder fazer uma revolução
socialista. Ao passo que os trotskistas, a LCI e o Mário Pedrosa, entre outros, já tinham um excelente
diagnóstico do que aconteceu no Brasil, com o Movimento de 30. Eles denunciam “a Revolução de 30”
como um movimento das oligarquias, e que por isso, o movimento operário não tinha que apoiar
nenhum dos lados. Mas, mais do que isso, identificam no Movimento o anseio de atrelar os sindicatos
ao Estado e instalar um sindicalismo corporativista, de corte fascista no Brasil. Além de manter os
trabalhadores do campo totalmente nas mãos dos coronéis. A legislação trabalhista não surgiu no Brasil
por nenhuma benevolência. Foi fruto da luta que os trabalhadores fizeram. Mas ela não se estendeu aos
trabalhadores do campo que ficaram totalmente à mercê dos coronéis. E a questão da terra nem foi
tocada no período Vargas.

16 Movimento político-militar que levou Getúlio Vargas ao poder em 1930. Tem como pano de fundo a crise
econômica mundial de 1929 e uma crise politica no Brasil. As lideranças paulistas, capitaneadas pelo presidente
Washington Luís, romperam com a política do café com leite e indicaram para a sucessão presidencial outro
paulista, Júlio Prestes. Em reação, políticos mineiros apoiaram a candidatura oposicionista do gaúcho Getúlio
Vargas, e de seu vice, João Pessoa, da Paraíba. As fraudes eleitorais, que deram vitória a Júlio Prestes, e o
assassinato de João Pessoa foram os estopins que deram origem ao golpe de estado, que pôs fim à República
Velha.
17 Nelson Werneck Sodré (1911-1999), militar e historiador brasileiro, ligado ao PCB e ao Instituto de Superior de
Estudos Brasileiros (ISEB). Escreveu o livro Formação Histórica do Brasil (1962).
Esse foi o cenário político. Mas do ponto de vista econômico, é necessário levantar uma questão:
porque foi possível, na década de 30, ter uma industrialização se desenvolvendo no Brasil? Com a crise
de 29 os capitais do café passam a migrar para o mercado interno, para outras atividades econômicas. A
industrialização do país e o princípio de um mercado interno só foi possível por alguns aspectos. Entre
eles, em primeiro lugar, o apoio do Estado que intervem e permite que isso aconteça. Além disso, como
estava a conjuntura internacional nos anos 30? A crise econômica e a disputa entre as potências
imperialistas, que vai dar na 2º Guerra Mundial, permitem a formação, com uma certa independência,
de uma burguesia industrial local com apoio do Estado e a constituição de certos setores econômicos
como a siderurgia e a mineração. Símbolo desse período é a Companhia Siderúrgica Nacional. Porém, se
estávamos desenvolvendo certos setores da indústria de base, os setores de ponta, mais desenvolvidos
tecnologicamente, permanecem ausentes da economia brasileira, como a indústria automobilística. De
qualquer forma, desenvolvemos um início de industrialização com intervenção estatal e um certo
desenvolvimento do mercado interno nessa conjuntura específica, onde o imperialismo está
relativamente debilitado para intervir no Brasil e impor sua dominação econômica.

Essa situação vai mudar radicalmente no pós-guerra, onde teremos a vitória incontestável do
imperialismo norte-americano e o começo de um processo, contínuo e irreversível, de vinda das
empresas multinacionais para o Brasil. O grande símbolo desse processo é o plano de metas do
Juscelino Kubistchek (que vai governar entre 1956-1961). A ideia era a formação de um tripé econômico,
com investimentos do capital privado nacional, do Estado e do capital imperialista, multinacional. Aos
poucos, isso vai levar à superação de uma tese, muito influente entre os economistas brasileiros: a tese
da CEPAL. A CEPAL é a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, criada pela ONU em 1948.
A CEPAL dizia que era possível o Brasil se desenvolver através do processo de substituição de
importações. Bastaria proteger o mercado interno e desenvolver a industrialização para o país se tornar
uma potência econômica, como as potências imperialistas. O que na verdade fica muito claro, a partir
dos anos 50 e 60, é que esse embrião de indústria, que se desenvolve no Brasil a partir da época do
Vargas, não tem nenhuma condição de competir com a grande indústria multinacional. Então a solução
é trazer essa indústria multinacional para o Brasil. Uma indústria que vai se aproveitar de uma mão de
obra baratíssima, já que os anos 50, 60 e 70 são marcados por um êxodo rural de milhões para as
grandes cidades, gerando um exército de mão de obra gigantesco no Brasil e rebaixando os salários. Ao
mesmo tempo, teremos trabalhadores submetidos a uma ultra-exploração, com uma burguesia nacional
e um capital multinacional dividindo essa mais-valia produzida pelos trabalhadores brasileiros.

Agora o que é interessante. Se do ponto de vista econômico há uma ultra-exploração, do ponto de vista
político, no entanto, passa a ser impossível para a burguesia manter sua dominação assentada nas
mesmas bases da República Velha, onde a questão social era tratada como questão de polícia. Já não se
podia mais fazer isso. Não com essas massas urbanas, operárias, que lutam nesse contexto dos anos 50,
60 e 70. É aí que surgem o trabalhismo e o populismo como fenômenos políticos no Brasil. Se de um
lado é preciso coquetear com reivindicações populares e operárias, por outro, o trabalhismo e o
populismo são projetos da burguesia para dominar e controlar o movimento de massas, atrelando os
sindicatos ao Estado e fazendo concessões aos trabalhadores. Ao mesmo tempo, há um profundo medo
da Revolução e dos trabalhadores. É, justamente nesse contexto que o governo João Goulart (1961-
1964) toma algumas medidas um pouco mais à esquerda, em um contexto de radicalização das massas,
tendo na sua retaguarda a vitória da Revolução Cubana(1959) e uma ebulição geral na América Latina. É
toda essa conjuntura que vai levar ao golpe de 64. Não podemos esquecer também a política de frente
popular adotada pelo PCB - que apoiava o Jango - e que parece ter contribuído para a impotência do
movimento operário na reação ao golpe.

A vitória da ditadura de 1964 vai acabar com aquilo que existiu nos anos 60, onde as lutas operárias
impunham aumentos de salários que o trabalhismo não conseguia segurar. Por isso o governo Jango,
que era burguês, era chamado por seus opositores de República de Sindicatos. Por que o apelido?
Porque era um governo que não controlava o movimento operário e nem o movimento de camponeses.
As ligas camponesas surgem justamente nesse período pleiteando a reforma agrária. É nesse contexto
que aparece a necessidade, do ponto de vista da burguesia, de imprimir uma derrota aos trabalhadores,
impôr uma ditadura e promover o maior arrocho salarial da história na base da repressão.

A Ditadura Militar(1964-1985), do ponto de vista capitalista, vai promover sim uma “modernização”.
Mas é uma modernização contra as massas. Uma modernização que é, ao mesmo tempo, uma contra-
revolução. De um lado, no período do Milagre Econômico (1963-1973), tivemos um crescimento
comparável ao que a China teve em anos mais recentes. O Brasil crescia 11, 12% ao ano. Um
crescimento fenomenal. Do outro lado, durante a ditadura, o Brasil vira o país com a pior distribuição de
renda do mundo. A reforma agrária não foi feita, muito pelo contrário. Os senhores de terras se mantêm
no poder e continuam com a repressão aos trabalhadores rurais.

No entanto, essa mesma modernização também vai encontrar os seus limites. De novo, temos que
observar a relação do Brasil com o imperialismo, com a economia mundial como um todo. Por que o
Milagre vai chegar ao fim? Primeiro, com a crise mundial do petróleo (1973) que encarece brutalmente
o preço do petróleo e dificulta muito o desenvolvimento do capitalismo no Brasil. A ditadura tenta,
mesmo depois da crise, manter a perspectiva de tornar o Brasil uma nova potência que se equipare com
o Primeiro Mundo. Esse era o lema do presidente Geisel. Os militares lançam então o 2º PND (Plano
Nacional de Desenvolvimento) (1974). A ideia é continuar o desenvolvimento da economia brasileira e
que incluía o reforço das empresas estatais como a Petrobrás, Eletrobrás, Embratel e Embraer. Essas
empresas já existiam, mas vão receber um apoio maior nesse período, dentro da perspectiva de que é
possível desenvolver no Brasil setores tecnologicamente de ponta, de um Brasil-potência. Mas tudo isso
vai esbarrar em um profundo endividamento. Para investir nesses setores, os militares endividam
brutalmente o país. A dívida externa aumenta muito. E o que acontece? No final dos anos 70 teremos a
2º crise do petróleo. No ano de 1982, os empréstimos feitos pelo Brasil tem um aumento brutal dos
juros, que são flutuantes, variáveis. Paul Volcker 18 promoveu um aumento unilateral das taxas de juros e
com isso tivemos a Crise da Dívida Externa. Não só no Brasil, mas também em outros países, como o
México, que quebraram nesse período. A dívida externa tornou-se gigantesca, impossível de pagar. É
justamente aí que se consolida o parasitismo dos planos do FMI de ajustes fiscais e cortes no serviço
público, para pagar a dívida. Nos anos 80, os planos do FMI interferem na nossa economia.

Mesmo essa modernização promovida pelos militares, uma modernização contra os trabalhadores, não
foi possível de ser realizada. Ela esbarrou no endividamento e toda essa conjuntura, no final dos anos

18 Paul Volcker (1927 - ), economista estadunidense, foi presidente do Federal Reserve (Fed) durante os
governos Carter (1977-1981) e Reagan (1981-1989).
80, vai levar a uma profunda desorganização da economia brasileira, cuja marca essencial é a questão da
inflação, que boa parte de nós vivemos, alguns mais outros menos. É importante acompanharmos o
debate sobre a inflação. A elite se pergunta: por que tem inflação? Uma resposta é porque tem muita
moeda em circulação. Tudo bem, em parte sim. Outra resposta: porque a demanda é maior do que a
oferta. Isso também ajuda a explicar a inflação. Mas um dos motivos que faz a inflação ser algo crônico
no Brasil é o fato de termos uma economia de oligopólios, com uma concentração brutal de capital
apoiada pelo Estado. E esses grandes oligopólios, defendidos pelo Estado e dominando fatias inteiras de
mercado, podem repassar seus aumentos de custos para os preços tranquilamente. Isso vai criando um
espiral inflacionário, onde os oligopólios jogam os seus custos contra os trabalhadores, contra os
consumidores, através do aumento de preços para manter seus lucros. O papel que tem os oligopólios
no Brasil é fundamental para entendermos a inflação crônica. Resumindo: tínhamos de fato uma
desorganização da economia pela necessidade de pagar a divida externa, do ponto de vista da burguesia
e do imperialismo; mas também tínhamos o papel dos oligopólios que vão repassando seus custos para
os trabalhadores, que tentam acompanhar com os seus salários. Logo, tínhamos um espiral inflacionário
sem fim.

Esse é o cenário dos anos 80. Onde fica muito claro que aquele projeto da burguesia de tornar o Brasil
uma potencia tinha ido para as cucuias. Por outro lado, na virada dos 80 para os 90, teremos a queda do
muro de Berlim e a derrota do Lula na campanha de 89. Aí vem o governo Collor(1990-1992) que quer
por fim a esse negócio do Estado apoiar a industrialização. O projeto passa a ser o da abertura da
economia. E teremos uma abertura econômica total, comercial e financeira; assim como o início do
processo de privatizações. Para se ter uma ideia, com as medidas de abertura tomadas pelo governo
Collor, nos 6 primeiros meses do ano de 1990 teremos 170 mil demitidos apenas no Estado de São
Paulo! Esse plano de abertura econômica, privatizações e demissões só se aprofunda com o governo
Itamar Franco(1992-1995), com FHC e com o plano real. O resultado é a destruição da indústria
nacional. E em nome do combate à inflação, temos uma política de juros altíssimos; junto a isso, uma
política de câmbio valorizado que derruba nossas exportações e favorece as importações; tudo
colaborando para destruir ainda mais a indústria nacional que existia. Temos um processo de
desnacionalização da economia brasileira e de abertura para o imperialismo nesse contexto de
globalização.

Com isso, chegamos na situação que estamos hoje. É preciso tentar entender alguns elementos da
economia brasileira no período mais recente. Uma coisa que acho importante, e que tem que fazer
parte do nosso trabalho, é a questão dos dados. Precisamos trabalhar com dados atuais, mas ainda não
tivemos tempo para isso. Explicar qual é o grau de nacionalização/desnacionalização de nossa
economia; a composição da classe operária, e em que setores ela está; qual que é a composição das
indústrias e da própria burguesia; tudo isso são coisas importantes para nós e temos que ir atrás. Faço
essa observação antes de concluir essa apresentação.

Entramos, então, no período mais recente: a politica econômica do Lula. Que é tudo o que temos
discutido nos últimos anos. Uma política que procura atender os interesses do capital estrangeiro. Por
exemplo: se comemora que a dívida externa acabou. Mas não se fala que ela foi transformada em dívida
interna, em dívida pública. Que, justamente com a política de juros altos, que vem sendo praticada no
Brasil, acaba por sustentar de uma maneira parasitária os bancos e os fundos de investimentos que
vivem de títulos públicos. Isso tem a ver com aquela discussão, que escrevi em nosso jornal, de que os
bancos no Brasil não precisam se arriscar como os bancos americanos; de que os bancos aqui são
sólidos, que eles não se arriscam e tudo o mais. Mas não precisam. Aqui no Brasil, eles têm um negócio
muito mais tranquilo e garantido, bancado pelo Estado, que são os títulos públicos. Emprestar para o
governo brasileiro é o negócio mais lucrativo do mundo. Não é preciso fazer um subprime arriscado
como se faz nos Estados Unidos. O governo Lula manteve essa orientação econômica que veio dos
governos que o antecederam. E tivemos, nos anos pré-crise mundial, um momento de bonança. Mas
não foi uma bonança por qualquer virtude do Lula. Foi um momento de bonança da economia mundial,
de um certo crescimento que permitiu um boom de exportações; que trouxe investimentos externos
para o Brasil e o próprio crédito que foi insuflado na economia. É nesse contexto que surge a ideia do
PAC. Uma comparação interessante: Lula e Mantega defendem que o PAC seria um plano de
desenvolvimento semelhante ao plano de metas do JK e o 2º PND da ditadura. Mas na verdade, do
ponto de vista da economia, o PAC pressupõe a participação de parceiras públicas e privadas e,
portanto, um menor controle do Estado sobre a economia do que houve no 2º PND, por exemplo, onde
tínhamos um reforço das estatais. Agora não temos mais investimentos em empresas estatais e,
fundamentalmente, o PAC traz implícita a concepção de retorno a uma economia de exportação de
produtos primários, de produtos agrícolas e minerais, que essa história recente do pré-sal só reforça.
Não se está pensando no desenvolvimento de setores de ponta da economia brasileira. Isso está nas
mãos do imperialismo, é importante frisar. Hoje, no Brasil, 50% da produção industrial está sob o
controle de multinacionais, e se pegarmos setores mais tecnologicamente avançados, teremos 80%,
dado o grau de desnacionalização da economia que houve nos últimos anos. Então o PAC, que retoma a
ilusão de desenvolvimento capitalista no Brasil, em certo sentido, é uma volta ao passado, uma
reafirmação daquilo que falei no início, de um país exportador, um país atrasado e dependente do
mercado mundial.

Então, para entendermos a questão do Brasil e a crise atual, pensando num ponto de vista mais geral,
uma pergunta que temos que fazer é a seguinte: o Brasil está mais ou menos dependente do
imperialismo? A grande verdade é que ele está mais dependente. Você tem cada vez mais um processo
de interpenetração de capitais, de maior abertura. Os capitais das multinacionais vão se espalhando por
todo o mundo, com uma circulação financeira, especulativa, cada vez mais interligada. E se estamos no
jogo do capitalismo, não temos como fugir disso. Então é muito difícil, eu diria impossível, um país como
o Brasil tentar fazer como nos anos 30: se fechar e tentar constituir um mercado interno, desenvolver
suas forças produtivas, guardar uma independência do imperialismo. Isso é impossível dentro da lógica
do capitalismo. A não ser que a gente rompa com o capital. Aliás, desafio que está colocado não só para
o Brasil, mas também para a Venezuela, para a América Latina, para todos os países atrasados como um
todo. Então temos uma contradição com o que é hoje o capitalismo, com o que é hoje o
desenvolvimento das forças produtivas, com o desenvolvimento do parasitismo financeiro e com os
Estados Nacionais que não conseguem controlar isso. Como controlar um George Soros? Como
controlar as grandes multinacionais, se você não rompe com o capitalismo e tenta trazer a economia de
acordo com os interesses do proletariado, da maioria do povo? Isso é impossível. Qualquer projeto mais
nacionalista, mais protecionista, é impossível se você está na arena do capitalismo. Estamos totalmente
dominado pelo imperialismo nesse contexto de abertura em geral. Logo, a retomada, diante da crise,
não depende do Brasil, que não está “blindado” de forma nenhuma. É possível uma retomada? Nós já
discutimos isso. O capitalismo é feito de ciclos de crises e de expansão. Agora o Brasil depende de uma
nova expansão do capitalismo mundial para de fato retomar as exportações e os investimentos que
estão paralisados, o crédito externo e tudo mais.

Essas são as reflexões que temos que fazer aqui para analisar o Brasil e a crise. O que considero
importante frisar é que toda essa discussão do desenvolvimento e da formação da economia do Brasil
guarda relação com a teoria da revolução permanente. De que só o proletariado, através da revolução,
pode de fato efetuar um verdadeiro desenvolvimento, garantir as conquistas, resolver a questão agrária,
a questão do serviço público e as demandas democráticas. Dentro dos países atrasados, onde a teoria
da revolução permanente é a teoria necessária, o Brasil guarda uma especificidade importante, que é a
força de nosso proletariado. O fato de ter tido um processo de industrialização, mesmo que dependente
e dominado por multinacionais, trouxe para o Brasil um operariado forte, concentrado em grandes
empresas monopolistas. De onde vem o PT, por exemplo? Das grandes fábricas de automóveis
multinacionais e de outros setores que estão lá no ABC. Isso é fundamental não só para a revolução
brasileira. Essa força do proletariado brasileiro, que existe e que luta contra os planos do capitalismo e
tudo o mais, é essencial para a Revolução Mundial. Então, pensar a Revolução Brasileira, dentro do
quadro da nossa internacional, ao meu ver, é pensar também um elemento fundamental, que é a
revolução mundial e o impacto que o Brasil tem, não só sobre a América Latina mas sobre o mundo
como um todo. Se vira o Brasil, vira o mundo. Com isso eu concluo meu informe.

Daniel Feldmann
Agosto de 2009

Você também pode gostar