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A Arte de Ler: os 5 graus de

letramento
uma síntese do curso do professor Rafael Falcón

Vinícius Scheffel
INTRODUÇÃO
O curso foi concebido para discutir as condições de uma formação completa
do que chamamos letramento, das suas possíveis falhas e consequências.

Antigamente, ser capaz de ler e entender literatura era considerado o mínimo


para ser letrado.

5 Níveis de Leitura
1 - Passivo Culto
Passivo Culto é o indivíduo que atingiu o nível mais alto de leitura que um
indivíduo pode atingir. Envolve a compreensão profunda das categorias
gramaticais.

Passivo → absorção passiva da linguagem; faculdades passivas.


A parte passiva é anterior e mais importante que a ativa, porque a ativa
depende da passiva.

Ler é o mesmo que ouvir:


Parte de um dado dos sentidos
→ Decodifica o dado em vários níveis
→ Chega no nível intelectual, que é a compreensão.

--------------------------- PASSIVO --------------------------->


Sentidos → Espiritualização / Abstração / Intelectualização → Intelecto
<--------------------------- ATIVO ------------------------------

Culto → absorção linguística que chega até os níveis de expressão mais


profundos dos quais a linguagem humana é capaz de chegar.

O indivíduo passivo culto está apto a continuar o processo educativo, porque


domina a educação linguística e, portanto, tem condições para educação
superior.

Ensino superior é o desenvolvimento de faculdades superiores da


inteligência, o que é diferente dos cursos técnicos/profissionalizantes
(engenharia, arquitetura, computação, etc).

Exemplos de ensino superior: Direito (filosofia), Medicina (filosofia),


Teologia, Filosofia.
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2 - Passivo Refinado
Passivo Refinado é o indivíduo que dominou os instrumentos da análise
morfológica e sintática. Ele compreende como as palavras se combinam: uma
em relação à outra. Mas não consegue interpretar a partir desta relação e de
outras mais profundas, ou seja, o sentido do texto como um todo.

Não contempla as categorias como o Passivo Culto, mas articula com perfeição
aquilo que o Passivo Incipiente (próximo nível) começou a perceber.

Não compreende o princípio de funcionamento das figuras de linguagem.


Quando lê literatura, lhe falta segurança, porque ele procede com
adivinhação em muitas interpretações, e também perde velocidade por ter de
estar pensando no chute, e olhando de novo.

Realiza a articulação técnica da linguagem, combinando os conceitos e


deduzindo, mas ainda não teve a intuição dos princípios de funcionamento
profundos da linguagem (algo como a forma ou a alma da linguagem).

É capaz de saber sujeito, predicado, orações, e até a estrutura material de um


texto (divisões), mas não capta o princípio profundo dessas relações. Esse é o
nível mínimo para ler jornal, mas atualmente, esse nível necessário foi
diminuído forçadamente, prejudicando a resolução dos problemas públicos.

3 - Passivo Incipiente
Passivo Incipiente é o indivíduo que não dominou os instrumentos da
análise gramatical, mas já percebe que existam princípios racionais que
estejam por trás das estruturas linguísticas (sabe que existe).

Não tem a ver com decorar os conceitos e definições, mas ter a intuição
intelectual de que existam tais princípios. É capaz de entender e aprender
gramática, e tenta explicar a interpretação com elementos racionais.

4 - Passivo Bruto
Passivo Bruto é o indivíduo que tem domínio linguístico apenas no âmbito
sensorial e contextual. Sabe repetir no contexto certo, mas é incapaz de
perceber sequer a existência dos princípios formais.

SOM + CONTEXTO = ELEMENTOS SENSORIAIS

Definição estrita do professor:


O Passivo Bruto capta ideias gerais e deduz o sentido do texto a partir de
palavras chave e conhecimento prévio do contexto. Tem uma ideia do
significado das palavras, mas dificilmente consegue defini-las e distingui-las
de outras no mesmo campo semântico. Não é capaz de defender
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racionalmente sua interpretação de um texto, a qual frequentemente está
errada em algum ponto, mas ele vê esses erros como divergências racionais e
legítimas, ainda que não consiga justificá-los, por princípios gramaticais.
Como está no nível mais baixo, pode achar inconcebível que ler seja algo a
mais que sentir e adivinhar o sentido. Não possui noções claras de quantos
tipos de palavras há na língua, para que serve cada um, e quais são suas
características morfológicas e possibilidades sintáticas. Não consegue
perceber padrões gramaticais por si mesmo, nem no seu próprio idioma, mas
percebe padrões sonoros, como rimas e alterações. Depende de repetições
exaustivas, ou de fórmulas e regras explícitas para aprender.

Comentários:
1) Como o Passivo Bruto não captou nenhuma estrutura racional da língua,
não é capaz de usá-la para interpretar o texto. Recorre, portanto, a elementos
extrínsecos.
2) Como ele não percebe que existe a dimensão da semântica, não se
incomoda em não saber os significados.
3) Procura justificar sua interpretação com elementos externos. Ignora os
argumentos gramáticos, porque ignora a ordem de preferência dos tipos de
argumentos.

5 - Passivo Bruto Incompleto


Passivo Bruto Incompleto é o indivíduo que ainda está desenvolvendo o
nível passivo bruto. Não foi exposto a língua o suficiente para ser passivo
bruto. Possui domínio incompleto das palavras. Normalmente, as crianças.

Relações
Conforme ocorre a progressão nos níveis da linguagem, diminui a
importância do contexto e de deduções, e aumenta a capacidade de
demonstrar racionalmente o sentido de um texto, através do domínio das
formas linguísticas.

É importante, e muitas vezes necessário, receber instrução para subir nos


níveis.

Como a linguagem depende dos sentidos em algum ponto, o Passivo Bruto é


capaz de mimetizar os outros níveis.

Exemplo relacionando os níveis: enquanto o Incipiente enxerga verbos


terminando com 's' e pensa que ele está na segunda pessoa, o Refinado
articula isso com o substantivo e adjetivo da oração. O Culto reflete sobre o
próprio verbo, substantivo e adjetivo e os contempla intelectualmente. O
Bruto nem percebe padrão algum.

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As Potências da Mente e seus
Exercícios
Entendimento
O entendimento é a suprema faculdade cognitiva, fonte da cognição. No
início do processo educacional, o entendimento é parcial, como se houvesse
uma penumbra a ser removida. Funciona desde o início, mas queremos que
funcione bem.

→ Aperfeiçoar o entendimento através do aperfeiçoamento das faculdades


menores.

Percepção Sensorial Memória


Passivo Bruto Incompleto. Envolve Passivo Incipiente. A memória é
um órgão sensitivo para ouvir e parte espiritual, parte corporal.
reprodução na memória para
escutar.

→ Consciência Fonética. → Sensibilidade Morfológica

Entendimento aplicado a Entendimento aplicado a


Percepção Sensorial ⇒ Memória ⇒ Sensibilidade
Consciência Fonética Morfológica

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Transições

→ Transição do Passivo Bruto Incompleto ao Passivo Bruto (Completo):


➤ Adquirir Consciência Fonética.
➤ Familiaridade com o idioma.

Para que haja um avanço do Passivo Bruto Incompleto ao Passivo Bruto


(Completo), é fundamental que a criança (ou adulto) entre em contato com
cultura, textos com um vocabulário decente e frases com estruturas diversas,
para aprimorar a percepção - consciência - e o domínio linguístico. Ex: ler a
Bíblia.

→ Transição do Passivo Bruto ao Passivo Incipiente:


➤ Adquirir Sensibilidade Morfológica (senso morfológico).
➤ Para isso, é necessário desenvolver a Memória.

O Passivo Bruto tem um domínio material (contextual) da linguagem,


enquanto que o Passivo Incipiente possui um domínio que ultrapassa o
material e sonoro, porque percebe uma relação entre os padrões sonoros e
características mais abstratas relativas ao sentido.

Não estamos tratando da memória animal que reage a estímulos, mas de


evocar a bel prazer um dado registrado. Decorar poesia é uma prática
milenar para desenvolver a faculdade da memória. A memória bem
desenvolvida é necessária para sair do Passivo Bruto, porque ela é necessária
para realizar as Intuições.

→ Transição do Passivo Incipiente ao Passivo Refinado:


➤ Adquirir Percepção Sintagmática.

Para passar do Passivo Incipiente ao Passivo Refinado, é preciso ter domínio


da morfologia, desenvolvendo e enriquecendo a sensibilidade morfológica a
partir da convivência com o idioma. O resultado desse processo é o
desenvolvimento da Percepção Sintagmática. Sem Percepção Sintagmática,
não se chega ao Passivo Refinado.

Percepção Sintagmática: percepção racional do sintagma. O plano do


sintagma é o plano das combinações, i.e., enxergar uma palavra e todas as
possíveis relações que ela tem.

→ Transição do Passivo Refinado ao Passivo Culto:


➤ Adquirir Entendimento Perfeito.

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Quando obtemos um domínio perfeito de toda a dimensão sintagmática, o
entendimento trabalha sobre esse domínio, produzindo o Entendimento
Perfeito. Isso significa que o Passivo Culto tem a potência de entender
qualquer texto, mas pode não entender por algum acidente.

Reaprendendo a Ler: Diagnóstico e


Correção
1 - Treino das Faculdades
Passivo Bruto → Passivo Incipiente

1) Garantir, até os 8 anos, o Passivo Bruto Completo.


a) Treino linguístico sensorial.
b) Imitação e contexto.
c) Linguagem cotidiana é muito pobre, assim devemos recorrer ao
texto escrito (literatura).
d) Submeter a criança à textos mais complexos, acima do nível
dela.
e) Literatura Infantojuvenil (aos 7~8 anos), poesia infantil:
i) Vinícius de Moraes (A Arca de Noé)
ii) Cecília Meireles (Ou Isto, Ou Aquilo)
iii) Peter Pan
iv) O Mágico de Oz
v) Alice no País das Maravilhas
vi) Livros Coloridos
f) Pedir para a criança contar sobre o que leu.
g) Sinal de que chegou ao Passivo Bruto Completo: quando os
familiares reconhecem o vocabulário e a articulação da criança.
“Parece adulto!”

2) Passivo Bruto Completo → Passivo Incipiente


a) Memorização.
i) Usar poesia, pode começar com versos e ir escalando.
ii) Consciente e voluntário: a criança deve conseguir fazer
sozinha.
iii) Versículos Bíblicos e Poesia.
b) Sensibilidade Morfológica.
i) Não usar literatura infantil.
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ii) Saber classificar as palavras, ser capaz de explicar as
diferenças de palavras de mesmo gênero. Despertar a
inteligência para as formas.

Passivo Incipiente → Passivo Refinado

1) Capacidade de ordenar mentalmente períodos longos.


a) Estudo de funções sintáticas: qual a relação do sujeito com o
verbo e o objeto.
b) Coordenar períodos compostos, com inversões. Comentar qual é
a relação das orações umas com as outras.
i) [Conhecimento Técnico] Para tanto, é necessário ensinar
análise sintática: o que é oração, período simples,
composto, concordância.
ii) [Textos para aplicar] Usar prosa: Padre Antônio Vieira e
Manuel Bernardes.

2) Como deve estar a pessoa nesse momento.


a) Conhecimento gramatical tecnico.
b) Conhece os nomes das classes de palavras.
c) Capaz de explicar as diferenças entre as formas das palavras.
d) Memória desenvolvida.
e) Conhecimento para análise sintática.
f) Na prática: capaz de resolver parágrafos com períodos
complexos e inversões.

Passivo Refinado → Passivo Culto

1) Fazer crítica literária.


a) Estudo analítico do poema.
b) Familiaridade com as figuras e métricas, versificação.
c) Como cada palavra que o poeta usou influencia no sentido
último.

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Perguntas e Respostas
1 - Qual a importância da memória?
1) Memória é necessária para compreender relações sintagmáticas.
a) Memória de processamento (RAM) - Deixar certos dados em
segundo plano para compará-los com os que chegam.
2) Memória é necessária para memorizar poesia.
a) Memória verbal/direta. Memória tem relação de dupla via com a
atenção.

2 - Quanto de poesia por dia?


Começar devagar, com 1 verso. Depois, ir aumentando.

3 - E se eu esquecer algo que já memorizei?


Não tem problema. Continuar memorizando coisas diferentes.

4 - Sugestão de livro?
Os Lusíadas - Editora Concreta.

5 - Relação com a Teoria dos 4 Discursos?


É necessário dividir a poética, que corresponde à gramática, em mais partes.
É aí que entra a teoria do professor Rafael.

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