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A Conquista de Lisboa aos Mouros

Relato de um Cruzado

Edição, tradução e notas de

Aires A. Nascimento

Introdução de

Maria João V. Branco


A CONQUISTA DE LISBOA AOS MOUROS

Relato de um Cruzado

DE EXPUGNATIONE LYXBONENSI

A CONQUISTA DE LISBOA

Relato de um Cruzado 1

O. Saudação.

A Osb( erto) de Bawdsey2, R(aul)l. As minhas


saudações!

Da mesma forma que julgamos estar seguros de que é


grande desejo da vossa parte saber o que acontece
connosco assim não deveis ter qualquer dúvida de que o
mesmo se passa connosco a vosso respeito4 • Do nosso
per-curso, pois, tudo quanto for merecedor de relato, bons
ou maus momentos, tudo quanto tenha sido entretanto
feito, dito, visto ou ouvido, tudo isso o exporemos por
escrito5•

1. Concentração em Dartmouth e convenções de


Cruzada.

No porto de Dartmouth6 se reuniram, pois, uns cento e


sessenta e quatro navios com homens de diversas
nacionalidades, costumes e línguas. Divide--se então o
exército de todos eles em três partes: sob comando do
conde Arnaldo de Aerschot, sobrinho do duque
Godofredo, ficaram as forças vin-das do Império Romano;
sob as ordens de Cristiano de Gistelles se colo-caram os
homens da Flandres e de Bolonha; os homens de todas as
outras origens ficaram na dependência de quatro
condestáveis: sob comando de Hervey de Glanville7, os
homens de Norfolk; os homens de Suffolk, às ordens de
Simão de Dover; todos os navios de Kent às. ordens de
André de Londres; às ordens de Saério de Archelles, os
restantes navios da frota•.

Entre estes povos de tantas línguas trocam-se garantias


da mais filme concórdia e amizade; mais que isso,
estabelecem-se decisões das mais estri-tas, como a de
morte por morte, dente por dente. Proíbe-se o espavento
de roupas sumptuárias, quaisquer que elas fossem; as
mulheres não aparece-riam em público; a paz devia ser
respeitada em todas as circunstâncias, a não ser por
motivo de ofensas compreendidas no pacto estabelecido9
• Semanal-mente far-se-iam reuniões, de um lado os
leigos, de outro lado os clérigos, a não ser que
eventualmente alguma circunstância exigisse assembleia
geral

A Conquista de Lisboa aos Mouros 57

de uns e outros. Cada navio teria um sacerdote e haveria


as mesmas obri-gações que em qualquer paróquia.
Ninguém reteria para seu serviço um ma-rinheiro ou um
serviçal de outrem. Todos se confessariam semanalmente
e comungariam no domingo.

E assim, sobre os demais pontos aplicáveis às nossas


exigências do dia a dia foram tomadas decisões
individualizadas para cada um dos deveres a cumprir.
Além disso, por cada mil homens, foram constituídos por
eleição dois juízes ajuramentados 10, como era a
designação que lhe era dado, e a eles competia, de acordo
com a convenção, decidir sobre diferendos entre con-
destáveis e sobre a distribuição de dinheiros 11 •

2. Partida (23 de Maio de 1147) e viagem atribulada.

Acordados assim estes termos, na sexta-feira antes da


Ascensão do Senhor12, fizemo-nos à vela. No domingo
seguinte, pela profundidade do mar que era no mínimo
de 75 côvados e pela sua cor negra identificámos a costa
da Bretanha; porém, nos dois dias subsequentes, ficámos
retidos pela cal-maria mais que bonançosa das brisas e
pouco ou nada progredimos.

Na quarta-feira, sob influência de um vento favorável e


pela altura das ondas e pela agitação do mar,
reconhecemos estarmos na Baleárica Maior13, ou seja,
nos Picos dos Montes Pirenéus; ao anoitecer, no entanto,
levantou-se um temporal e fomos todos dispersados, cada
um para seu lado14 • Facto é que a escuridão extrema da
noite e a corrente desusada do mar forçava ao desespero
mesmo os marinheiros mais destemidos; ouviram-se
entretanto as Sereias1S, um som horripilante, primeiro
acompanhado por lamentos, depois por risos e
gargalhadas, como se fossem gritos de tropas a fazerem
provocações.

Penámos, pois, ao longo de toda a noite do domingo da


Ascensão, mas a divina misericórdia foi nossa
companheira e guarda, para castigar o que havia que
castigar mas sem nos entregar à morte. Quantos ali se
penitencia-ram, quantos, por entre prantos e suspiros,
confessaram os seus pecados e negligências, e, fazendo
passar pelas lágrimas derramadas o propósito de uma
peregrinação que ainda mal tinham começado, faziam a
Deus sacrifí-cios no altar de um coração contrito! E assim
tudo aconteceu de tal forma que o favor divino ninguém
deixava de lado, antes, pelo contrário, cada qual se sentia
gratificado por ter recebido privilégio singular de graça
celeste, de tal modo que seria longo enumerar
individualmente os prodígios divinos que se tomaram
patentes em tantas quantas foram as visões recebidas16

E assim, no dia seguinte, tendo abrandado algum tanto o


temporal, ar-ribámos sem problemas à costa hispânica,
ao porto de São Salvador, que tem

A Conquista de Lisboa aos Mouros 59

0 nome de Má Penha17 • Há a assinalar que, havia


pouco tempo, fora aí destruída pelos mouro/uma igreja
muito famosa pela comunidade dos seus monges18 • Fica
a uma distância de dez milhas da cidade de Oviedo, onde
existe a igreja do Salvador e onde se encontram as mais
preciosas das relíquias de toda a Espanha. Próxima fica
uma região montanhosa, muito conhecida pelos animais
de caça e pela diversidade de produções, e que seria
altamente aprazível se não fosse aviltada pelos seus
próprios habitantes.

Dali navegámos até Ribadeo, que confina com a região de


Lugo; dista, aliás, 20 milhas da cidade de Lugo.

Navegando de novo a partir daí, chegámos a Ortígia e daí


até à Torre do Farol, uma construção de espantar,
levantada outrora por Júlio César como ponto central,
para onde convergissem os réditos e causas
intermináveis de toda a Bretanha, da Irlanda e da
Espanha. Está, efectivamente, situada de tal modo entre
a costa meridional e a ocidental que constitui o primeiro
porto de acostagem para quem procede da Bretanha em
linha recta; salta aí à vista, porém, uma ponte de pedra
formada de muitos arcos e alcandorada sobre o mar.
Vinte e quatro desses arcos há uns dois anos não
estavam à vista, mas agora estão. A seu respeito, foi
referido, por alguém de muita idade e per-tencente à
gente dali, que, segundo um vaticínio, quando
emergissem os arcos daquela ponte estaria iminente a
destruição da gentilidade e o fim da idolatria na
Espanha19 •

Daqui chegámos ao porto de Tambre na vigília do


Pentecostes [7 de Junho]. Está a 7 milhas de distância da
igreja de Santiago20 • Próxima, porém, está a cidade de
Iria que agora toma o nome de Padrão de Santiago21 e é
sede episcopal. O porto, por sua vez, que é copioso em
muitas espécies de peixe, tem uma ilha na enseada.
Vimos aí um peixe que, será estranho só ouvi-lo,
entorpece a mão de quem pega nele; é a modo de raia e
tem no alto da espi-nha duas barbatanas agudíssimas22
• A região vizinha é abundante em animais bravios, não
produz cereais, não tem vinhas, mas está cheia de
árvores de fruta.

Daí chegámos a uma ilha que na língua da terra tem o


nome de Flamba23 , e nela há grande número de coelhos
e de cobras; há também uma folha com que se tinge de
vermelhão 24 • Esta ilha é uma das Baleares25 • A
região do lado esquerdo na terra firme tem o nome de
Campis26 •

A costa do mar desde a ilha até Portugal é formada pelo


rio Minho, em cuja margem fica a cidade de Tui; depois
deste, vem o rio Cávado, acima do qual fica a cidade de
Braga; depois dele, o rio Ave, por cima do qual fica a
igreja do mártir Santo Tirso; a seguir a ele, o rio Leça27 ;
depois dele, o rio Douro, acima do qual fica a cidade de
Portuga/a (Porto), onde, vindos daquela ilha, chegámos
por volta da hora nona28 ; foi assim chamada desde

Conquista de Lisboa aos Mouros 61

antigamente a partir de Porto dos Gauleses29 e já há uns


80 anos que foi recon-quistada, depois de ter sido
devastada pela entrada de mouros e moabitas3o-.> O seu
porto do lado sul tem areias medicinais, desde o primeiro
rochedo na entrada até a outro rochedo mais abaixo,
numa largura de doze passos da margem do extremo da
enseada, e nelas se envolvem os doentes até vir o mar
lavá-los para assim ficarem curados. E é um facto que o
bispo nos confirmou que o seu antecessor havia sido
curado de uma doença semelhante à lepra. Nos textos
latinos encontra-se que havia areias deste teor na
Hispânia31 •

3. Chegada à cidade do Porto (16 de Julho, 2.• feira) e


recepção pelo bispo, D. Pedro Pitões.

Ao chegarmos ao Porto, foi o bispo com o seu clero quem


nos veio ao encontro, pois o rei já há muito se ausentara
com o seu exército, a enfrentar os mouro?. Feitas aí as
saudações a todos, conforme o costume do seu povo32,
deu-nos a entender que sabia de antemão da nossa
chegada33 e que, por outra parte, de véspera, recebera do
rei uma carta com estas palavras:

"Afonso, rei de Portugal a Pedro, bispo do Porto,


saudações. Se, por ven-tura, os navios dos francos
chegarem junto de vós, recebei-os com solicitude, com
benignidade e mansidão, e, segundo o acordo que
estabelecerdes para ficarem comigo, dai-lhes como
garantes desse acordo a vossa própria pessoa e todos
aqueles que eles quiserem convosco e assim vinde ter
comigo junta-mente com eles a par de Lisboa. Adeus!"

Ouvimos estas palavras, mas, como já era a hora décima,


adiámos a resposta para o dia seguinte, de modo que
todos os que se encontravam nos navios ouvissem por
igual a mensagem do rei e recebessem a absolvição dos
pecados e a bênção da parte do bispo. O resto do dia foi
passa,do a tratar assuntos domésticos.

De manhãzinha, saindo dos diferentes navios, reunimo-


nos todos na pre-sença do bispo no cimo do monte no
terreiro34 da casa episcopal, pois a igre-ja, pelas suas
dimensões, não nos poderia albergar a todos. Imposto
silêncio a todos, o bispo teve perante todos um sermão
em latim, por forma a que as

suas palavras fossem dadas a conhecer a todos35 na


língua de cada um através de intérpretes36 • É ele do
seguinte teo~7:

"Bem-aventurada a gente cujo senhor é o seu Deus e o


povo a quem ele escolheu para sua herança!

De verdade, bem-aventurados aqueles a quem Deus, não


sei por que inestimável privilégio, concedeu o
entendimento e as riquezas: o entendi-mento para
perceberem os caminhos da disciplina, as riquezas, para
poderem cumprir o que por piedade anseiam.

A Conquista de Lisboa aos Mouros 63


Certamente feliz é a vossa terra que tantos e tais filhos
nutre, que tantos e tão grandes filhos associa em unidade
de sentimentos para a santidade no seio da Madre Igreja.
Com razão se cumpre em vós o efeito daquela supre-ma
bênção que diz 'Bem-aventurados os que me não viram e
acreditaram'.

Cristo, mediador entre Deus e os homens, quando veio


em pessoa ao mundo, poucos homens encontrou que
fossem seguidores desta vida de pureza de religião. Por
isso, ao ser interrogado por um jovem que dizia ser
cumpridor observante da lei sobre o modo como podia ser
perfeito, respon-deu-lhe 'vai vender tudo', etc. Tornai
atenção no que se segue: 'entristeceu--se, pois era rico de
bens'. Oh! Quão grande é a justiça e a misericórdia do
nosso Criador! Oh! Quão grande é a cegueira e a dureza
do espírito humano! Com a Verdade e acerca dela própria
falava o jovem, a voz da verdade entra-va nos ouvidos,
mas, porque a dureza de um espírito calejado não se
abran-da com a palavra da verdade, já não é de admirar
que a tristeza se tenha intro-duzido num espírito
esvaziado da alegria da sinceridade. E que diremos a
isto? Quantos não há aqui de entre vós que são mais ricos
de bens do que este jovem, quantos não são mais excelsos
em honrarias e dignidades, quan-tos não são mais
afortunados em prole numerosa e fecunda em actos de
nobreza? Consta-nos realmente que eles trocaram todas
as dignidades e hon-ras para obterem de Deus um
prémio de eternidade em peregrinação promis-sora.
Deixaram o carinho afectuoso das esposas, os beijos
inocentes das cri-anças de peito, as promessas mais
dilectas dos filhos crescidos, os actos de conforto a
prestar por pais e amigos, ficando apenas com a doce mas
pun-gente saudade do torrão natal, para seguirem a
Cristo.
Oh! Como são admiráveis as obras do Salvador! Sem que
ninguém o pregasse, sem que ninguém o insinuasse, com
o zelo da lei de Deus no cora-ção, conduzidos pelo ímpeto
do Espírito, através de todos os perigos da terra e do
mar, e do esgotamento de uma longa viagem, tudo
abandonando, ao chegarem aqui, eles são para nós os
filhos da primitiva Igreja, eles são os últimos
representantes do mistério da Cruz. Oh! Como é grande a
alegria de todos e neles o rosto disposto ao trabalho e ao
sofrimento é mais prazenteiro do que em nós que
infelizmente nos deixamos entorpecer e arrastar para
uma inerte ociosidade!

E por certo, 'pelo Senhor foi isto realizado e é admirável a


nossos olhos' 38 • Eis que, irmãos caríssimos,
transportando o impropério da cruz, saístes de vossos
acampamentos39 ; procurais a Deus, enquanto pode ser
encontrado40 , para chegardes até Ele. Não é,
efectivamente, de admirar que os homens vão até Deus,
pois foi por causa dos homens e para ficar entre os
homens que Deus veio.

Já até vós, nos confins da terra, foram lançadas as


sementes da palavra

Conquista de Lisboa aos Mouros 65

de Deus, porquanto 'saiu quem semeia a semear a


semente'41 • 'A semente é a palavra de Deus', a palavra
de Deus é o próprio Deus. Se ela tomar assen-to no vosso
espírito, bom será o espírito, e não o será sem ela. Estas
sementes divinas foram espalhadas pelos vossos corpos e,
se as recebestes como bons cultivadores, necessariamente
produzirão frutos semelhantes à sua origem e iguais
àqueles de que nasceram; se sois maus cultivadores, o
resultado não será diferente do de uma terra estéril e
palustre que mata e depois só produz folheio em vez de
frutos. Deus, que é bom, 'dê incremento aos frutos da
vossa justiça ' 42 •

Eis, filhos caríssimos, renascidos pelo baptismo da


penitência, eis que de novo vos revestistes de Cristo, de
novo recebestes a veste da inocência para a guardardes
sem mancha43 ! Vede que não vos deixeis ir novamente
atrás da vossa concupiscência. 'Retirai do meio de vós o
mal dos pensamentos'44 • Purificai a vossa alma, ou
seja, o vosso espírito, para se tornar templo con-sagrado
a Deus. Por sua vez, a vida do espírito não pode soçobrar
sob qual-quer pressão se a acompanhar a pureza da
inocência. E para que seja pura a inocência do espírito,
seja extirpada sem reservas a inveja. Os que fazem a sua
caminhada por entre os precipícios do mundo devem
acautelar-se com o máximo de cuidado desta espécie de
vício, pois por ele se perdem os bens dos outros e se
consomem os próprios. É efectivamente verdade que
quando ver a felicidade é motivo de tormento para os
invejosos e os atinge o casti-go do remorso isso torna-os
piores; se apreciassem os bens dos outros que eles não
conseguem ter, de certeza que os tornariam seus. Sim,
são vossos os bens dos vossos companheiros, mesmo
quando não conseguis ser como eles, se gostais que eles
os tenham, e tornam-se vossos quando gostais deles para
os vossos companheiros. Eliminai, pois, a inveja que
deita a perder a cari-dade e alimenta a discórdia que
corrói e mirra o corpo não lhe permitindo manter a saúde
e o vigor, pois a peste da inveja enquanto dilacera a
alma, consome o corpo e mata nele o que parece ter de
bom. Por isso está na Escritura: 'a vida da carne é a
sanidade do coração, a inveja é a putrefacção dos ossos'45
• Por causa do vício da inveja definha aos olhos de Deus
até aqui-lo que aos olhos dos homens parece ser forte.
Levar os ossos a mirrar pela inveja é de facto fazer
definhar mesmo o que era robusto. A inveja é de facto
como que um ódio escondido, e é por isso que se lhe
chama inveja, ou seja, um ódio invisível. É um tolerar e
um odiar que não é virtude de mansidão mas um
esconder de ira. Por isso há que defender com vigilância
industriosa a entrada do espírito e há que estar tanto
mais atento quanto mais sub-repti-ciamente ela se
insinua no próprio momento da tentação. É necessária,
pois, a prática do amor, coisa que entre os maus não
diríamos propriamente amor, mas simultaneidade; na
verdade, não há amor senão entre os bons, pois não

A Conquista de Lisboa aos Mouros 67

há amor consistente a não ser que haja afecto de ambas


as partes. A guarda deste amor ou caridade é a inocência
que é considerada de tanta virtude e graça que agrada a
Deus e aos homens. A verdadeira é aquela que não causa
dano nem a si nem a outrem e que quando tem
possibilidade procura ser útil. A inocência, na verdade,
repele o ferro, embota o fio das espadas, detém os
inimigos, repele as intenções dos maus, pois, por
maravilhoso juízo da Providência divina, sempre que há
alguém de mau espírito e consciência torpe é certo e
seguro que um obstáculo o segue para não actuar contra
a inocência.

Quanto ao mais, haja entre vós moderação no comer e,


para dizê-lo em breves palavras, sacie-se a carne para
que seja capaz de nos servir em boas obras. Tende, pois,
alguma arte em vos saciardes, não vá acontecer que qual-
quer um de vós, ao saciar a carne descaia para torpezas
de iniquidade. Quanto ao que pode estar em causa por
semelhança e analogia e mesmo quanto ao que apontei só
ao de leve, mantenha-se a mesma atitude no acautelar
da rec-tidão, pois muitas vezes os vícios insinuam-se
como virtudes.

Cremos que já ouvistes dizer nas vossas regiões de


origem que o castigcY< divino feriu com a ponta da
espada a Espanha inteira com a invasão de mouro~
moabitas46, deixando nela bem poucos cristãos e em
poucas cidades, sob um pesadíssimo jugo de servidão.
Ora, o que apenas um conhecimento por ouvir dizer vos
fez chegar, é certo e seguro que isso está agora patente
aos vossos olhos com maior claridade que a do sol.

Que infelicidade! Em toda a Galécia e no reino de Aragão


e Numância4\ de entre tantas cidades, castelos e aldeias
e assentamentos de santos varões, mal se notam já
outros sinais que não sejam de ruínas e vestígios de uma
de-solação já consumada. Mesmo a nossa cidade que
estais a ver, em tempos posta entre as célebres, agora
está reduzida a um pequeno povoado, e foi, segundo as
nossas memórias, muitas vezes saqueada pelos
mouroi.'De ver-dade, ainda há uns sete anos, foi de tal
modo fustigada por eles que da igre-ja de Santa Maria, a
que sirvo por graça de Deus, levaram eles os sinos, os
paramentos, os vasos e todos os ornamentos da igreja,
depois de terem cap-turado ou morto os membros do
clero. Mais que isso, desta cidade e dos ter-ritórios
circunvizinhos até à igreja de Santiago Apóstolo, levaram
consigo para a sua terra homens quase sem conta, depois
de terem feito correr o sangue dos nossos fidalgos, e tudo
o mais passando a ferro e fogo.

Que há efectivamente no litoral hispânico que tenha


surpreendido o vosso olhar e que não demonstre senão
traços de memória da sua devastação e vestígios da
derrocada? Quantos destroços de cidades e de igrejas
perce-bestes nele pelo olhar ou pelas informações dos
seus habitantes? Por vós clama a Madre Igreja, já quase
de braços mutilados e de rosto disforme,

A Conquista de Lisboa aos Mouros 69

reclamando o sangue de seus filhos e a vingança por


vossas mãos. Clama, sim, clama: 'Executai a vingança
nos estranhos, exorcizai os povos' 48 !

Não vos seduza a oportunidade de vos dardes pressa no


caminho em-preendido, porque 'não seria meritório
terdes estado em Jerusalém, mas sim terdes vivido
rectamente' 49 . Na verdade, não podereis chegar até ela
senão através das suas obras, e é através de boas obras
que se merece chegar ao fim glorioso. Como homens de
brio, soerguei, pois, a Igreja hispânica que jaze por terra
e se encontra deprimida; revesti-a com as vestes de júbilo
e de ale-gria50, ela que se encontra suja e disforme.
Como bons filhos, não olheis para a vergonha de vosso
pai51 , e não digais à vossa mãe 'seja qual for a oferta
que apresentar ela ser-te-á de proveito' 52 . Não tenhais
em menos consideração os laços de solidariedade
humana, pois, como diz Santo Ambrósio, 'quem, podendo,
não repele a ofensa feita aos companheiros e aos irmãos
incorre no mesmo pecado que aquele que o praticou' 53 .

E vós, que sois bons filhos da Madre Igreja, 'repeli a


violência e a injúria, pois no seu direito se encontra quem
fizer algo para defender o seu próprio corpo e considere
que o faz por direito'. Vós, irmãos, depusestes as armas, a
saber, as armas com que se rouba o alheio e das quais se
diz: 'quem com f~trro mata, com ferro morre' 54 ;
entenda-se: 'quem, sem ordem ou per-missão da legítima
autoridade, pega em armas contra a vida de seu irmão'.
Pelo contrário, agora, é por inspiração divina que trazeis
as armas com que 'homicidas e salteadores sofram
castigo, com que se ponha cobro a assaltos, se punam
adultérios, sejam exterminados os ímpios da face da
terra, não se deixem viver os parricidas nem se permita
que os filhos actuem sem piedade'. Por isso, vós, irmãos,
recobrai força com essas armas, essa força 'que em tempo
de guerra defende a pátria dos estranhos e em tempo de
paz defende os que não têm forças e os seus
companheiros dos ladrões, pois ela está inteiramente do
lado da justiça'.

Actos desta natureza são, de resto, 'obrigações de


vindicta que os homens de bem executam de bom grado'.
Não tenhais medo, irmãos, não tenhais medo!
Efectivamente, ao actuardes deste modo, não ficareis
marcados por homicídio ou pelo ferrete de qualquer
crime; muito pelo contrário, sereis con-siderados réus de
terdes desertado do vosso propósito. Na verdade, 'não é
crueldade quando se pune em nome de Deus, é piedade'
55 . Fazei guerra justa com o zelo da justiça, não com o
fel da indignação. 'A guerra justa, aliás, diz o nosso
Isidoro, é a que se faz por declaração para reaver o que é
nosso ou com o fim de expulsar os inimigos' 56; e porque
é justa a causa de 'punir homi-cidas, sacrílegos e
envenenadores, a efusão de sangue não é de homicídio'.
Também 'não é cruel quem elimina cruéis'. Ou 'quem
elimina os maus, pelo facto mesmo de serem maus, e tem
razões para os matar, é ministro do Senhor'.

A Conquista de Lisboa aos Mouros 71

De facto, os filhos de Israel travaram uma guerra justa


contra os amorreus57, ao ser-lhes negada uma passagem
inofensiva. E vós, pois, povo de Israel, fi-lhos de Cristo e
servidores da Cruz, porventura será de consentir aos
adver-sários da Cruz esta liberdade de nos insultarem
sem castigo? De forma algu-ma! Ouvi o que a este
respeito disse Agostinho ao presbítero Donato: 'Não há
que admitir uma vontade perversa entregue à sua
liberdade, do mesmo modo que a Paulo não foi consentido
usar da sua mais que perversa vontade quando perseguia
a Igreja de Deus' 58. Também Crisóstomo, Sobre Mateus,
homilia XVII: 'Matou Finéias um homem e «foi-lhe
tomado em conta de jus-tificação»59; Abraão, que
incorrera não apenas em homicídio, mas em parricí-
dio60, o que era mais grave, mais e mais se tomou
agradável a Deus'61 . Também Jerónimo diz a Rip(o)ário:
'Consta efectivamente das minhas leituras o gesto
implacável62 de Finéias, o rigor de Elias, o zelo de Simão
Cananeu, a severi-dade de Pedro que fulminou Ananias e
Safira, a firmeza de Paulo que conde-nou a cegueira
eterna o mago Elimas por resistir aos caminhos do
Senhor' 63 • Por isso se diz na Lei: «Se um teu irmão ou
um teu amigo ou a tua esposa, que vive no teu próprio
seio, te quiserem desviar da verdade, caia a tua mão
sobre eles e derrama tu o sangue deles»' 64 • É isto o que
de modo espiritual se cumpre convosco. Prostrou em vós
o Senhor a Saulo e levantou-se Paulo; a carne de Saulo e
a de Paulo são a mesma, não são os mesmos os
sentimentos, mas alte-raram-se. Eis como Deus é
condescendente, como é justo, como é misericor-dioso!
Deus nada vos retirou. Concedeu-vos que façais o mesmo
que fazíeis na vossa terra, apenas alterando os
sentimentos. Estáveis habituados a usar as armas;
fazíeis saques e praticáveis outras acções próprias de
militares, de que não há agora que individualizar. Ao que
parece, andais com as armas e com as insígnias
militares, mas com sentimentos diversos, como já referi,
não mudastes os actos mas a vontade, tendo em conta o
conselho do Apóstolo: 'Assim como fizestes gala dos
vossos membros para servirdes à impureza e à
iniquidade, fazei agora gala dos vossos membros (para
servirdes à justiça e à santidade )'65. Mas, já que vi estes
armados, vamos, como bons militares (porque não é
pecado ser militar, só o é por causa do saque), aceitai,
para vós e para os vossos, o conselho salutar de Santo
Agostinho ao conde Bonifácio66 : 'Pegai nas annas, a
oração bata aos ouvidos do Criador, pois, quando se
combate, Deus fica de olhos abertos e é à parte que
considera justa que Jogo dá a palma'. De verdade se
cumpre em vós a profecia em que para louvor e honra do
valor e da glória dos filhos de Deus se disse: 'Como é que
um perseguia mil e dois pu-nham dez mil em fuga?' 67, e
mais adiante 'Cinco de vós perseguirão cem dos
estranhos e cem de vós dez mil; cairão os vossos inimigos
perante vós à espa-da'68. Efectivamente, 'a guerra que se
assumir como devendo ser feita por mandato de Deus,
não é lícito duvidar que se empreende com legitimidade'.

A Conquista de Lisboa aos Mouros 73

Quanto ao mais, o nosso filho dilecto e vosso innão,


companheiro de tribulações, Afonso, nosso rei, saiu já há
dez dias com todas as suas forças militares, em direcção
a Lisboa. Prevendo a vossa chegada69, mandou que nós
aqui ficássemos à vossa espera para vos falannos em sua
vez. Se acaso Deus insinuou nos vossos corações que
deveis ir ter com ele, acompanhados de toda a vossa
frota, e com ele ficardes até ser tomada a cidade de
Lisboa, com o favor de Deus e vossa cooperação, pela
nossa parte, se bem vos parece, faremos de imediato uma
proposta de dinheiro aos vossos, em con-sonância com as
disponibilidades do património régio. A nós e a quantos
quiserdes, a partir de agora, tornai-nos convosco como
penhor da promessa a satisfazer.
O que houver por bem a vossa veneranda assembleia
será resposta que nós aguardamos. De seguida, sem
demora, haja lugar nas vossas mãos uma decisão pia,
justa, honesta, para louvor e glória do nome de Cristo e
de Sua Santíssima Mãe, Ele que com Deus Pai e com o
Espírito Santo vive e reina pelos séculos dos séculos.
Amen."

4. Partida para Lisboa.

Tenninado o sennão e depois da celebração da missa, foi


por todos deci-dido que se esperaria por Cristiano, duque
da Flandres e conde de Aerschot, e pelos diversos navios
que ainda não se tinham juntado depois de se terem
dispersado, e que se pediria a presença do arcebispo de
Braga, João70•

Uma vez reunidos os navios que se tinham dispersado,


foi deliberado que os bispos iriam juntamente connosco
nos navios até à cidade de Lisboa, a fim de ali ouvinnos,
frente a frente, da parte do seu rei o que, por interposta
pessoa, nos fora transmitido.

Uns dez dias depois [27 de Junho]", porém, carregadas as


nossas baga-gens, em companhia dos bispos fizemo-nos à
vela e fizemos próspera viagem. No dia imediato,
aportámos sem dificuldade à ilha de Peniche, que dista
da terra finne cerca de oitocentos passos. A ilha tem
abundância de veados e sobretudo de coelhos72 ; tem
liquirriza73 • Os tírios chamam-lhe Eritreia74 e os
cartagineses Gadir, que quer dizer 'sebe'75 ; para além
dela não há mais terra e por isso se diz que é o tenno
derradeiro do mundo conhe-cido. Próximo dela há duas
ilhas que na língua da terra têm o nome de Berlengas,
que é uma deturpação linguística de Baleares76; numa
delas há um palácio de traça digna de admiração e
muitos compartimentos de arreca-dações, o qual,
segundo dizem, serviu em tempos de abrigo secreto muito
grato para certo reF7•

De notar que desde o Porto até à ilha há em terra finne


rios e castelos. É

A Conquista de Lisboa aos Mouros 75

0 caso do castelo de Santa Maria78, entre o rio Douro


e uma floresta que dá pelo nome de Mesão Frio7\ em
cujo território se encontra sepultado s. Donato10,
discípulo do Apóstolo Tiago.

Depois da floresta fica o rio Vouga e depois a cidade de


Coimbra, so-branceira ao rio Mondego. Passada esta
cidade fica o castelo de Soure e depois o castelo que dá
pelo nome de Montemor' e depois o castelo de Leiria,
sobranceiro ao rio que divide o bispado de Lisboa do de
Coimbra12 • Depois, há uma floresta que na língua da
terra tem o nome de Alcobaça, e em tomo dela estende-se
um vasto ermo até ao castelo de Sintra que dista de
Lisboa oito milhas13 •

Depois de termos pernoitado na dita ilha, de


manhãzinha, pusemo-nos à vela, fazendo uma próspera
viagem até que próximo do estuário do rio Tejo o vento
que caía da serra de Sintra se abateu com temporal tão
fora do vul-gar que uma parte dos batéis foi apanhada
com os seus homens. Manteve-se o temporal até à
entrada do porto do rio Tejo. Quando entrávamos no
porto, porém, apareceu nos ares um prodígio
extraordinário. Foi o caso que umas nuvens grandes e
resplandecentes que vinham connosco dos lados das
Gálias nos apareceram a irem ao encontro de outras
grandes nuvens de farrapos negros que vinham de terra
firme; eram como fileiras em linha de batalha e juntando
cada qual as suas alas esquerdas entraram em luta com
ímpeto extraordinário, umas, a modos de infantaria
ligeira, vindas da direita e da esquerda davam a
impressão de saltarem para o combate, outras pareciam
tornear as demais para encontrarem uma entrada, umas
tantas pareciam penetrar noutras de modo e, depois de
nelas entrarem, esvanecê-las como se fossem de vapor;
umas eram levadas para cima outras para baixo, ora
pare-cendo quase a tocar nas águas ora a perder-se do
olhar nas alturas. Quando finalmente, a grande nuvem,
que nos acompanhava desde as nossas terras, arrastou
consigo toda a impureza do ar de tal modo que parecia
ficar para além dela uma espécie de azul extremamente
límpido, no seu movimento dominou todas as outras que
vinham de terra, como que proclamando vitória dispôs as
prisioneiras na sua frente e, só, assumiu o domínio do
espaço celeste enquanto as outras todas se começaram a
desvanecer ou, se alguma pequenita ficava, víamo-la
refugiar-se junto da cidade, enquanto nós clamá-vamos:
"Eia, a nossa nuvem venceu! Eia, Deus está connosco!
Está em dis-persão a força dos inimigos! Estão a ficar
perturbados, pois o Senhor os dis-solverá!".

5. A cidade de Lisboa.

E assim, sem mais, cessou toda a fustigação do temporal.


Por isso, algum

A Conquista de Lisboa aos Mouros 77

tempo depois, por volta da hora décima do dia, chegámos


à cidade que não fica muito distante da foz do rio Tejo.
É o Tejo um rio remansoso que desce da região de
Toledo; nas suas mar-gens no tempo da Primavera,
quando se recolhe ao leito, encontra-se ouro14 e é
também tão grande a abundância de peixes que os
habitantes acreditam que dois terços do rio é de água e
um terço de peixes15 • Tem tanta abundân-cia de
conquilhas como de areia. Uma coisa é de salientar, é que
os peixes deste rio mantêm pelo tempo fora a sua
gordura e sabor natural, sem se alte-rarem nem
apodrecerem, como acontece entre nós 16, quaisquer que
sejam as circunstâncias.

A sul deste rio fica a região de Almada, rica em vinhas,


figos e romãs. É tão fértil em cereais que de uma mesma
sementeira se fazem duas colheitas;

é afamada em caça, abundante em mel. Desse mesmo


lado fica o castelo de Palmela.

A norte do rio, no topo de um monte redondo, fica a


cidade de Lisboa, cujas muralhas descem em socalcos até
à margem do rio Tejo, dele ficando separadas apenas por
um pano de muralhas que assentam no chão. No
momento da nossa chegada era a mais rica e opulenta em
provisões de toda a África e de grande parte da Europa.
Está situada no Monte Ártabro 17 que se prolonga até ao
Mar de Cádis. Delimita o céu, as terras e os mares; é li-
mite para as terras, pelo facto mesmo de aí terminar a
costa hispânica e por no seu contorno começar o Mar da
Gália e a fronteira setentrional, delimi-tando aí também
o Oceano Atlântico e o Ocidente11•

Porque de Ulisses vem o nome de Lisboa, crê-se que a


cidade foi funda-da por ele19• Os seus territórios, no
perímetro em redor, se forem comparados com os
melhores não ficam atrás de nenhum, pela fartura dos
produtos do solo, se atendermos à produtividade quer das
árvores quer das vinhas. É rica em qualquer mercadoria
seja de artigos de luxo seja de uso corrente. Tem ouro e
prata e nunca faltam produtos de ferro. Predomina a
oliveira. Nada fica nela por cultivar ou é improdutivo
nem fica sem trazer uma messe abun-dante. Não
amanham o sal, mas escavam-no. É de tal modo rica em
figos que dificilmente seremos capazes de consumir uma
ração 90 • Até os terrenos ári-dos estão recobertos de
pastos. É famosa por muitos géneros de caça. Não tem
coelhos, tem aves de muitas espécies. É saudável de ares.
Tem, por outro lado, esta cidade banhos quentes91 •

Próximo fica o castelo de Sintra, a uma distância de


umas oito milhas, local onde há uma fonte puríssima,
cujas águas, segundo dizem, servem para curar a tosse e
a tísica, pelo que quando os moradores ouvem alguém a
tossir depreendem que não é natural dali. Tem também
limões. Nos seus campos espinoteiam éguas de
surpreendente fecundidade, pois, ao serem bafejadas

A Conquista de Lisboa aos Mouros 79

pelos favónios, concebem do vento e, depois, atacadas


pelo cio copulam com os machos, assim se acasalando
com o sopro das brisas92 •

Por outro lado, ao tempo da nossa chegada, a cidade,


incluindo os subúr-bios em volta, contava com 60 000
famílias que pagavam tributo, a que se somavam os
homens livres isentos de impostos. O cimo do monte é
cingido por uma muralha em redondo e tanto da
esquerda como da direita as mura-lhas da cidade descem
em declive até à margem do Tejo. Os arrabaldes ficam
albergados sob as muralhas, a modo de bairros
recortados nas rochas, de tal forma que cada bairro se
toma por castelo bem fortificado, tais são os obstá-culos
de que está rodeado. Tem mais população do que se
poderia imaginar, pois, como depois de tomarmos a
cidade pudemos saber do alcaide, ou seja, do governador,
chegou esta cidade a ter 154 000 homens, sem contar
crian-ças e mulheres, se bem que incluindo neste número
as pessoas do castelo de Santarém•que neste ano foram
expulsas desse castelo e ali moravam como recém-
chegados e bem assim todos os nobres de Sintra, Almada
e Palmela, além de muitos mercadores vindos de todas as
regiões de Espanha e de África 93 • Embora sendo
tantos, apenas tinham 15 000 de armas, com lanças e
escudos e com elas saíam a combater ora uns ora outros,
segundo plano estabelecido pelo alcaide.

Os edifícios formam aglomeraçã0 tão apertada que


dificilmente se con-seguirá encontrar ruas com mais de
oito pés de largura a não ser nas dos mer-cadores. Razão
para tamanha aglomeração era que não havia entre eles
ne-nhuma forma de entrave9\ pelo que cada um se dava
a lei que queria, de tal modo que de todas as partes do
mundo, os maiores viciados para aí conver-giam como
para uma sentina, viveiro de toda a lic~9ciosidade e
imundície.

Ao tempo dos reis cristãos, antes de os mouros 'a


conquistarem, celebra-va-se a memória de três Mártires
num lugar que toma o nome de Campolide95 ; eram eles
Veríssima, Máximo e a virgem Júlia 96 • A sua igreja foi
completa-mente arrasada e dela apenas se vêem três
pedras a assinalar a sua destrui-ção, as quais nunca dali
puderam ser retiradas; há quem diga a seu respeito que
eram dos altares, outros afirmam que eram pedras
tumulares. De mo-mento, acerca desta cidade bastará o
que fica dito.
6. Primeiro recontro com os mouros (28 de Junho).

Ora, na vigília de S. Pedro, depois de comermos, visto


que tínhamos che-gado quase à hora de jantar, alguns
dos nossos saem dos navios na praia junto da cidade.
Contra eles vêm os mouros,, mas, incapazes de suster a
arre-metida dos nossos, e não sem perdas dos seus,
puseram-se em fuga até à porta que deita para o
arrabalde. No entanto, Saério de Archelles, suspeitando
de

A Conquista de Lisboa aos Mouros 81

alguma cilada dos inimigos, manda suster a arremetida


aos nossos, dando graças a Deus porque no início da
nossa intervenção experimentávamos situa-ções
diferentes das que haviam sofrido os que haviam chegado
antes97 • Chamando os que se encontravam com ele,
manda fixar tendas na pestana do monte sobranceiro à
cidade, a uma distância menor que um arremesso de
lança, considerando vergonhoso logo no primeiro embate
abandonar o terreno, não fosse parecer que cedíamos ao
inimigo. Todos os presentes aprovam. Ao sobrevir, pois, a
primeira vigília da noite, não se avistavam mais que
duas tendas, a de Hervey de Glanville e a de Saério de
Archelles, tendo todos os restantes regressado aos navios.
Nós, pela nossa parte, com alguns poucos, a modos de 39,
ficámos de alerta toda a noite, não sem receio, obrigados
a celebrar a solenidade da vigília de S. Pedro com as
lorigas postas98 • Ao amanhecer, porém, o mais
rapidamente que foi possível, cada qual armou a sua
tenda em terra como se nada soubessem do nosso caso99

7. Encontro do rei D. Afonso Henriques com os
Cruzados (29 de Junho). Proposta de colaboração.

Por sua parte, os bispos que tinham vindo connosco vão


ter com o seu rei, a fim de, tal como tinham ajustado
connosco, fazerem com que ele viesse ao nosso encontro.
A breve trecho voltam com ele, pois há mais de oito dias
tinha ele ficado na região à espera da nossa chegada que
ia conjecturando. Ouvira, efectivamente, falar da nossa
chegada pelos nossos que, separados da nossa
companhia, em cinco navios, a cinco dias de navegação do
porto de Dartmouth, tinham chegado com oito dias de
antecedência.

Quando o rei se aproximou, todos, quase à uma, como


costuma aconte-cer em tais ajuntamentos, ricos e pobres,
fomos ao seu encontro. Pergun-tando o rei, pela sua
parte, quem de entre nós eram os comandantes ou quais
eram aqueles cujas resoluções prevaleciam ou se a
alguém tínhamos cometi-do a responsabilidade de todo o
exército, em breves palavras, foi-lhe respon-dido que
tínhamos como chefes estes e aqueles e quais eram
aqueles a quem cabia a prioridade dos actos e conselhos,
mas que ainda não havia sido deli-berado a quem ficaria
confiado o encargo do empreendimento. Se primeiro
ouvissem o que ele tinha para dizer, entre tantos homens
de extrema prudên-cia em breve haveria de encontrar
quem por todos respondesse com a anuên-cia de todos.

A isto o rei respondeu: "É bem do nosso conhecimento e


temos patente que vós sois homens fortes, destemidos e
de grande destreza. E, de verdade, a imagem que trazeis
perante nós não vos revela inferiores ao que a fama nos
comunicara. Não é, efectivamente, a pensar que a nossa
proposta tenha sido
A Conquista de Lisboa aos Mouros 83

bastante para que homens de tanta e tão grande riqueza


se sintam enriqueci-dos com as nossas dádivas e fiqueis
connosco a fazer o cerco desta cidade. Não é por isso que
vimos ao vosso encontro. Quem vive permanentemente
inquieto por causa dos mouros •nunca tem oportunidade
de juntar dinheiro com que possa estar alguma vez em
segurança. Mas, porque não queremos que deixeis de
saber quais são as nossas disponibilidades e quais os
nossos bons sentimentos relativamente a vós,
consideramos que a nossa proposta não deve ser tida em
menor conta; pelo contrário, o que a nossa terra tem de
seu consideramo-lo sob vossa fiança.

De uma coisa, porém, estamos certos, é que será mais a


vossa piedade a incitar-vos ao trabalho e ao empenho de
realizar tão grande empreendi-mento do que a promessa
do nosso dinheiro a estimular-vos ao prémio. No entanto,
para que as nossas palavras não sejam perturbadas pelo
clamor dos vossos homens, escolhei de entre vós aqueles
que quiserdes, a fim de, em lugar retirado, de boa
vontade e tranquilamente, de parte a parte definirmos as
razões da nossa promessa relativamente àquilo que
propusemos.

E assim o que tivermos definido entre nós será depois


exposto a todos em público para que todos de ambas as
partes dêem depois o seu assenti-mento e haja ratificação
com pacto certo e garantias firmes para serviço de Deus."

8. Deliberações por parte dos Cruzados.

Para darem a isto uma resposta todos se reúnem em


conselho, a uma só vez. O que, porém, aí se disse,
segundo a abundância que a facilidade de espírito e de
palavra lhes proporcionava (e outra coisa não faziam
senão ati-rar palavras ao ar), dado que pouca autoridade
resulta de dizer palavras, acho que não há qualquer
inconveniente em passar à frente. No entanto, porque
muitos se alongavam em vacuidades, prolonga-se para
além do jantar a decisão sobre o que seria preferível
aceitar. Entretanto, não sei por que con-luio ou por que
negociadores, os homens da Flandres aderem às
propostas do rei; na realidade, se é como penso, alguns
havia para quem a falta de meios de subsistência era
premente e foi a eles, sem sombra de dúvida, que a espe-
rança de obter dinheiro levou a cederem com alguma
facilidade. Logo que se voltou à assembleia, quem nós
julgávamos antes aliados de conjuração, damos com eles
a serem advogados do rei na assembleia, quando antes
ape-nas uma coisa defendiam na nossa frente, que não só
não aceitariam nenhum Pacto da parte do rei como muito
menos queriam dar-lhe ouvidos. Agora diziam que
sempre fora hábito em toda a parte conceder a primazia
à incli-nação a que o estado de espírito predispusesse e
afirmavam pretender ficar

A Conquista de Lisboa aos Mouros 85

com o rei se todos os companheiros estivessem de acordo


e não houvesse nada que fosse preferível.
Entretanto, cada um dos que era considerado de melhor
conselho, ao ser--lhe pedido o seu parecer, emitiu opinião
divergente dos outros. Entre eles, Guilherme Vítulo1110,
que ainda ansiava por arremetidas e matanças de pira-
taria, e Radulfo101 , seu irmão, com quase todos os
homens de Northampton e de Hastings e aqueles que
cinco anos antes tinham ali estado para porem cerco à
cidade de Lisboa, todos a uma só voz declaram que
aceitar a proposta do rei não era mais que traição;
relativamente a isso alegavam muitas razões que ou
eram falsas ou, se nalgum aspecto eram verdadeiras,
mais denuncia-vam insipiência deles que malícia de
outrem ou deixavam sobretudo patente que não queriam
suportar o desgaste de longo trabalho no cerco. Mais que
tudo, seria da maior vantagem bater a costa hispânica
com rapidez, pois reti-rariam disso facilmente muito
dinheiro dos navios que vinham de África e das
mercadorias de Espanha. Recordam que, além do mais, o
vento por aque-le tempo era extremamente favorável
para quem viajava para Jerusalém; eles próprios não
esperariam por outros se ao menos oito ou nove navios se
lhes juntassem. Muitas outras coisas semelhantes a
estas diziam que dependem mais do acaso da fortuna que
do valor próprio. No entanto, a maior parte dos nossos,
abdicando de qualquer oportunismo, aduz pleno
assentimento a que se fique. Colonienses, flamengos,
bolonheses, bretões e escoceses de bom grado dão o seu
assentimento; os restantes, com Guilherme Vítulo, uns
oito navios dos normandos de Southampton e Bristol,
persistem na sua teimosia, sem arredar pé; entretanto,
os flamengos, os colonienses e os bolonheses retiram-se
com a sua frota para a parte oriental da cidade. Algum
tempo depois, voltamos a reunir-nos em assembleia para
exortar os transviados a ver se com argumentos e
promessas lisonjeiras os retínhamos connosco ou se
havíamos de os afastar de toda a comunhão connosco e
com a santa Madre Igreja por terem faltado à palavra
jurada e ao compromisso de associação.

9. Intervenção conciliadora de Hervey de Glanville.

Foi então que, no meio de vozearia geral, depois de a


custo conseguir silêncio, Hervey de Glanville teve o
seguinte discurso:
"Comovida recordação é aquela com que evoco o que há
dias vi na cida-de do Porto, gente de tantos povos e
homens de religiosa doutrina armados com a Cruz do
Senhor, embora o que mais me aliviasse a extrema
tristeza de espírito fosse saber que tal multidão de gente
poderia estreitar laços de sin-cera união. Conviria que
qualquer um de nós empregasse o máximo de esforço
Para isso, de tal modo que o vínculo que liga agora uma
diversidade tão

A Conquista de Lisboa aos Mouros 87

grande de gentes por força de um juramento de união


entre nós admitamos que nada seja capaz de o pôr em
causa ou desfazer a qualquer título nas cir-cunstâncias
em que estamos, não vá acontecer que posteriormente
seja a mácula da infâmia, sempre de evitar, que associa
companheiros do mesmo sangue e da mesma estirpe.
Pelo contrário, importa que, lembrados das qua-lidades
dos nossos maiores, acrescentemos o louvor e a glória da
nossa estirpe e não deixemos que fiquem empanadas por
entraves de maldade. Os feitos insignes dos antigos
trazidos à memória pelos descendentes são indí-cio de
bom relacionamento e de honra. Se fordes bons émulos
dos antigos, acompanhar-vos-á a honra e a glória; caso
contrário, espera-vos a desonra do opróbrio. A gente
normanda, quem há que desconheça que nunca recusa
qualquer esforço na prática continuada da virtude? O seu
valor militar, longamente experimentado nas maiores
contrariedades, não se deixou abater facilmente nos
momentos de adversidade nem nos tempos de
prosperidade, porque estava posto à prova por tantas
dificuldades, nem chega a ser venci-do pela indolência e
ociosidade, pois sempre pelo trabalho soube sacudir o
vício da preguiça. Ora, não sei por que maneira perversa,
como se fosse por ânsia de glória e de honra, contra nós
se insinuou uma inveja rasteira que não podendo infectar
com a nossa colaboração gente de outras origens trans-
funde contra nós próprios a parte maior do seu veneno.
Tornai atenção, innãos, e tende mão no vosso
comportamento para o corrigirdes. Para vos
envergonhardes, tornais exemplo dos vossos vizinhos. Os
colonienses não entram em conflito com os colonienses; os
flamengos não querem mal aos flamengos. Quem há aí
que diga que os escotos102 não são gente rude? No
entanto, nunca entre nós puseram em causa a lei da
solidariedade devida. E como é que não se vê, entre vós,
senão uma coisa monstruosa: sendo nós todos filhos de
uma única mãe nega-se o oficio de mútuo serviço, como se
a língua o negasse ao palato, a boca ao ventre, um pé ao
seu igual, uma mão à outra? Vós quereis ir-vos daqui e o
que desejamos é que vos corra tudo bem. Pela nossa
parte, tal como foi decidido por todos em assembleia (em
que só o vosso pequeno grupo constituiu excepção, coisa
que sou forçado a declarar não sem mágoa), nós ficamos
aqui. Não é a Deus que vós causais prejuízo com isso,
mas a vós. Se efectivamente aqui ficardes, não
aumentará com a vossa presença o poder de Deus; se
fordes embora, não diminui. Se esta cidade for tomada
por nós, que direis vós a isso? Para já não falar do sacri-
~égio da violação da solidariedade, vós sereis apontados
como infames e

1gDóbeis em toda a parte da terra. Por medo de uma


morte gloriosa sub-traístes as vossas forças aos vossos
companheiros; com o opróbrio eterno, apenas comprastes
a ambição de um saque ainda por alcançar. A vossa
estirpe impoluta ficará poluída por esta vossa vileza. E
por certo será uma
Conquista de Lisboa aos Mouros 89

vergonha que a Normandia, mãe da nossa estirpe, sem


razão alguma, tenha de suportar o opróbrio da vossa
vileza para todo o sempre por parte de povos de tantas
nações que aqui se encontram presentes.

Venhamos ao resto. Por que razão vos deitais a perder a


vós e às vossas coisas? De certeza a vossa viagem não se
afigura fundada em caridade, pois em vós não há amor.
Se de facto em vós existisse verdadeiramente um sen-
timento de amor, certamente usaríeis de maior confiança
para connosco. Não fiz estudos nem sei fazer sermões ao
povo; aprendi, no entanto, e sei que quem quiser ser
perdoado dos seus pecados deve perdoar os pecados aos
outros. Cumpre realmente o dever de amar aquele que
perdoa àqueles por quem foi ofendido.

Se aqui faço um parêntese para falar das faltas que há


que perdoar e dos males que há que suportar é porque
anteriormente para vos escusardes a este
empreendimento apresentastes algumas coisas que se
deviam censurar no rei. Uma vez mais, a propósito do
lucro possível ao longo da navegação, quem sabe se ao
cobiçardes coisas alheias não ides perder as vossas? A
pre-texto de terdes pressa em seguir viagem, quem sabe
se na esperança de lucro a pressa não se toma tardança?
Prefiro, pela minha parte, gastar o que é meu fazendo
alguma coisa de bom, a trocar o certo pelo incerto, qual
vagabundo e errante, ou entregar-me a mim e ao que é
meu aos acasos da sorte sobretu-do para más utilizações.
Relativamente ao rei, mesmo que tivesse alguma culpa,
como anteriormente pretendestes, deveria ele ser
desculpado em nome de Deus, para da vossa parte
receberdes algum lucro maior. Ele, porém, ao que nos
declara, considera-se fora de qualquer actuação indigna
contra vós e que há que justificá-lo perante a opinião dos
vossos. Tende, pois, pena dos vossos companheiros.
Poupai a vossa estirpe a uma infâmia. Acedei aos con-
selhos da vossa honra. Eu, pela minha parte, se assim
desejais, com todos os meus, de joelhos e mãos postas,
tudo o que é meu entrego nas vossas mãos e aceito da
maior boa vontade o vosso senhorio com a única condição
de ficardes connosco. Se não quereis ser companheiros,
ao menos comportai--vos como senhores para connosco!"

A custo, por causa das lágrimas, concluiu o orador estas


palavras. Quis humildar-se aos pés de Guilherme Vítulo,
o mesmo fazendo os chefes dos cavaleiros e de outros que
ali se encontravam, mas não lhes foi isso consen-tido nem
por ele nem pelos partidários da sua causa que o
rodeavam. No entanto, Guilherme com os seus
companheiros acedeu a ficar connosco, desde que não
lhes faltassem mantimentos, mas nem mais um dia, e
sob condição de o soldo ser à custa do rei ou dos nossos.
Todos deixaram correr lágrimas de alegria, exclamando:
"Ó Deus, ajudai-nos!"

A Conquista de Lisboa aos Mouros 91

10. Pacto entre o Rei D. Afonso Henriques e os Cruzado


(30 de Junho).

Foram escolhidos de entre os nossos chefes alguns que


com os colonien-ses e os flamengos estabelecessem os
termos definitivos de acordo quanto a compromissos e
condições a haver entre nós e o rei. Reuniram-se eles com

0 rei, o arcebispo, os bispos, o clero e os leigos e


fizeram um documento de pacto de aceitação, o qual foi
depois proclamado perante todos. Os seus ter-mos são os
seguintes103 :

"Seja do conhecimento de todos os filhos da Igreja, tanto


futuros como presentes, o pacto de convenção feito entre
mim e os francos, a saber, que eu, Afonso, rei de
Portugal, com o consentimento de todos os meus, para
ficar perpetuamente em memória perdurável entre os
vindouros, assino em documento de confirmação:

Que os francos que juntamente comigo ficarem a pôr


cerco à cidade de Lisboa transfiram para seu domínio e
poder os bens dos inimigos em todas as coisas, sem
qualquer intervenção minha e de qualquer dos meus
homens.

Dos inimigos que aprisionarem se houver quem queira


resgatar-se para salvar a vida, tenham eles livremente o
dinheiro do resgate; quanto ao mais, entreguem-me a
mim os cativos.

Quanto à cidade, se porventura a tomarem, tenham-na e


mantenham-na até se fazer o escrutínio e ser saqueada,
tanto para constituírem resgate de tudo como para outro
efeito; e assim, finalmente, ma entreguem, depois de
terem procedido segundo a sua vontade.

Depois, porém, a cidade e as terras conquistadas serão


repartidas de acor-do com as suas condições, sob a minha
orientação e tal como a cada um eu melhor conhecer, e
deverão elas ser mantidas segundo os costumes e liber-
dades respeitabilíssimas dos Francos, para mim
revertendo nelas apenas o direito de convocação 104 •

Quanto ao mais, os navios e os seus bens ou os dos


herdeiros daqueles que tiverem estado juntamente
comigo a fazer o cerco da cidade de Lisboa desde agora e
para sempre em todo o meu território firmemente e de
boa fé os isento de todo o direito consuetudinário sobre
mercadorias que na língua vulgar se designa por pedágio
10' .

Foram estas as testemunhas: João, arcebispo de Braga;


Pedro, bispo do Porto; o bispo de Viseu106; Fernão
Mendes, cunhado do reP07; Fernão (Mendes) Cativo,
Gonçalo Rodrigues; Gonçalo (Mendes) de Sousa; Mendo,
mordo-mo-mor de Afonso; Moço (Viegas), de Lamego;
Pedro Pais; João Ranha; Gonçalvo Sotero, e muitos cujos
nomes não conseguimos apurar"101•

Deste pacto, com juramento de fidelidade, foram dados


por parte do rei vinte fiadores precisos, tanto bispos como
leigos. Sobre eles jurou o rei

A Conquista de Lisboa aos Mouros 93

observar o pacto exarado no documento assinalado. Além


disso, jurou ainda que não se retiraria senão em caso de
enfermidade extrema o obrigar ou em caso de o seu
território ser invadido pelos inimigos e que de modo
algum intentaria com isso criar ocasião em que faltasse à
lealdade para connosco109• Nós, pela nossa parte,
igualmente fizemos juramento de cumprir o pacto, pelo
que demos também vinte fiadores.

11. Conversações com os sitiados: intervenção do


arcebispo de Braga, resposta do representante
muçulmano e réplica do bispo do Porto.

Avalizadas assim as condições, por comum acordo de


todos, foi decidi-do que seriam enviados à cidade
delegados para se encontrarem com os inimigos, devendo
parecer que se os atacávamos era a grande pesar
nosso110• O arcebispo de Braga e o bispo do Porto, com
alguns tantos dos nossos, são, pois, enviados à cidade.
Trocadas arras de parte a parte, estando sobre as
muralhas da cidade o próprio alcaide com o bispo e as
principais perso-nalidades do burgo, foi negociado um
período de tréguas a fim de dizerem o

que pretendiam de parte a parte.

Assim se levantou o arcebispo e teve o seguinte discurso:

"O Deus de paz e de amor retire dos vossos corações a


venda do erro e vos converta a si.

É que nós viemos ao vosso encontro para vos falarmos


de paz. Com a concórdia, efectivamente, as coisas
pequenas crescem, com a discórdia as maiores definham.
Ora para que esta não reine entre nós por todo o sempre

é que vimos ter aqui convosco a fim de chegarmos a


uma conciliação. Efectivamente, a natureza gerou-nos a
todos de um só e mesmo princí-

pio, de tal modo que não ficaria bem que, estando ligados
por um pacto de solidariedade humana e por um vínculo
de concórdia da mãe de todos, nós vivêssemos
desagradados'" uns com os outros.

Nós, pela nossa parte, não vimos a esta cidade, que está
na vossa posse, para vos lançar fora daqui nem para vos
espoliar. Uma coisa tem, efectiva-mente, sempre consigo
a inata benignidade dos cristãos, é que, embora
reivindique o que é seu, não rouba o alheio. O território
desta cidade reivin-dicamo-lo como sendo nosso por
direito; e, por certo, se em vós alguma vez tivesse
medrado a justiça natural, sem vos fazerdes rogados, com
as vossas bagagens, com haveres e pecúlios, com
mulheres e crianças, vos poríeis a caminho da terra dos
mouros de onde viestes, deixando a nossa para nós.

É-nos, pelo contrário, sobejamente conhecido que só a


contragosto ou forçados a isso o fareis. No entanto,
procurai fazê-lo por vossa iniciativa, pois se aceitardes de
boa mente o que vos rogamos, estareis imediatamente

A Conquista de Lisboa aos Mouros 95

a salvo das consequências mais amargas do que


pretendemos. Que tipo de conciliação se possa
estabelecer entre nós não o sei, pois a sorte que há-de
caber a cada um não está garantida a ninguém, à
partida. Fostes vós que viestes da terra dos mouros e dos
moabitas e raptastes fraudulentamente o reino da
Lusitânia a um rei vosso e nosso112 • São inúmeras as
depredações que se fizeram e continuam ainda a fazer
sobre cidades e aldeias com as suas igrejas desde esse
tempo até hoje. Por uma parte, ficou em causa a vossa
lealdade, por outra parte, ficou lesado o convívio em
sociedade.

Há já uns 358 anos ou até mais113 que tendes


ilegitimamente nas vossas mãos cidades que são nossas e
a posse das nossas terras, anteriormente a vós habitadas
por cristãos a quem nenhuma espada de exactor forçou a
abraçar a fé, mas só a palavra da pregação tomou filhos
adoptivos de Deus, no tempo do nosso apóstolo Santiago
e dos seus discípulos, Donato, Torquato, Secundo,
Indalécio, Eufrásio, Tesifonte, Victor, Pelágio e muitos
outros assinalados varões apostólicos 114 • Temos nesta
cidade como testemunho o sangue derra-mado pelo nome
de Cristo no tempo do governador romano Daciano115
por parte de mártires como Máxima, Veríssimo e a
virgem Júlia 116• Consultai o concílio de Toledo
celebrado no tempo de Sisebuto, glorioso rei nosso e
também vosso; é-nos testemunha Isidoro, arcebispo de
Sevilha, e o bispo de Lisboa desse tempo, Viérico, com
mais de duzentos bispos de toda a Hispânia 117•
Atestam-no ainda nas cidades sinais manifestos das
ruínas das igrejas118 •

Mas, dado que tendes mantido a cidade ocupada em uso


longo com propagação das vossas estirpes, usaremos para
convosco do habitual senti-mento de bondade. Entregai
nas nossas mãos a guarnição do vosso castelo. Cada um
de vós terá as liberdades que tem tido até aqui. Não
queremos, efectivamente, expulsar-vos dos vossos
assentamentos tão antigos; viva cada um segundo os
seus costumes, a não ser que espontaneamente queira vir
aumentar a Igreja de Deus119•

Como observamos, é riquíssima e bastante próspera a


vossa cidade, mas está exposta à avidez de muitos.
Efectivamente, quantos arraiais, quantos navios, que
multidão de gente está em conjura contra vós! Tende em
atenção a devastação dos campos e dos seus frutos.
Tende em atenção o vosso di-nheiro. Tende ao menos em
atenção o vosso sangue. Aceitai a paz enquanto vos é
favorável, pois é bem verdade que é mais útil uma paz
nunca posta em causa que outra que se refaz com muito
sangue; de facto, é mais agradável a saúde nunca
alquebrada que a que foi recuperada depois de graves
doenças
~ sob ameaças de medidas forçadas e exigências
extremas para ficar a salvo. E grave e fatal a doença que
vos atinge; outra virá se não tornardes uma reso-lução
salutar: ou ela se extingue ou vós sereis extintos. Tornai
cuidado, pois

A Conquista de Lisboa aos Mouros 97

a rapidez apressa o fim. Cuidai da vossa segurança


enquanto tendes tempo. Antigo, na verdade, é o
provérbio que diz: "na arena é que o gladiador forma

0 seu plano"120 • A partir de agora a resposta


pertence-vos a vós, se assim vos aprouver".

A isto deu a seguinte resposta um dos anciãos presentes:

"Vejo que tendes bom domínio da palavra; nem vos


arrebata o uso dela nem ela vai mais longe do que
planeastes. Uma única orientação teve em vista o vosso
discurso: tomar a nossa cidade. Há, no entanto, uma
coisa que não consigo reconhecer em vós: uma só floresta
ou região dá para muitos elefantes ou leões viverem;
para vós, porém, não basta nem o mar nem a terra.
Efectivamente, não é a necessidade das coisas que vos
força, mas a ambição do espírito.

Relativamente ao que anteriormente propusestes sobre a


sorte reservada a cada um, vós estais inquietos pela
nossa sorte; designando a vossa ambição por zelo de
justiça, trocais o nome de vícios pelo de virtudes;
efectivamente, a vossa cupidez veio tanto a terreiro que
as torpezas não apenas vos agradam como também vos
comprazem e já quase deixou de haver lugar de cura,
pois, ao consumar-se, a infelicidade da cupidez quase já
ultrapassou os limites naturais.

Vós julgais que nós devemos ser votados à miséria e ao


exílio para vós vos tornardes gloriosos. Semelhante
forma de glorificação identifica-se com ambição estéril. A
vossa cupidez, ao exceder-se contra si própria, acaba
sem-pre por murchar e por ficar estrangulada. Quantas
vezes é já da nossa memó-ria que viestes com peregrinos
e estranhos para nos expulsar daqui?121 Será que as
vossas coisas não vos agradam ou será que incorrestes
nalgum crime na vossa terra para migrardes tantas
vezes? Por certo, a vossa migração assí-dua é prova de
instabilidade inata de espírito, pois não é capaz de conter
o espírito quem não é capaz de evitar a fuga do corpo.

Entregar-vos a nossa cidade em boa paz ou permanecer


nela sujeitos a vós, até agora não foi objecto da nossa
consideração. Ainda não foi tão longe o nosso estado de
espírito122 que deixemos o certo pelo incerto. De facto,
importa julgar as grandes coisas com grande atenção.
Quanto a esta cidade, ao que me apercebo, foi ela vossa
em tempos; mas agora é nossa; no futuro talvez seja
vossa. Isso, no entanto, será da vontade divina; enquanto
Deus quis, tivemo-la nós; quando não quiser, não a
teremos. Efectivamente, ne-nhuma muralha é
inexpugnável contra as disposições da sua vontade. Seja-
•nos pois grato o que a Deus for grato, Ele que tantas
vezes livrou o nosso sangue das vossas mãos; não
deixamos de olhar para Ele e para as suas dis-posições, e
com razão, por isto: porque Ele não pode ser vencido e
porque

A Conquista de Lisboa aos Mouros 99


tem sob o seu domínio todos os males e, por outro motivo,
mais importante ainda, porque é Ele quem nos sujeita
aos infortúnios e às dores ou às injúrias.

Por ora, ide-vos daqui, pois não vos está aberto o acesso à
cidade se não 0 forcejardes à espada. Efectivamente, de
nada valem para nós as vossas ameaças e a vozearia de
bárbaros, cuja valentia conhecemos melhor que a língua.
Quanto às ameaças de desgraças fatídicas e irrefragáveis
que augu-rais, dependem do futuro, se é que alguma vez
hão-de acontecer; e, por certo, seria loucura viver em
angústia demasiada quanto ao futuro e não seria outra
coisa que atrair misérias sobre si sem necessidade. Há
que dispensar, pois, os bons oficios do vosso consolo e
diferir o que, embora não se podendo resolver, a timidez
do nosso espírito nos aconselhe a experimentar. É que o
temor quando é persistente e de tal maneira pungente
que roça pelas reali-dades extremas estimula os
entorpecidos a serem audazes e o valor toma-se tanto
mais vivo quanto é fustigado por uma necessidade
inevitável.

Mas, para que hei-de demorar-vos mais? Fazei o que


estiver ao vosso alcance. Nós, o que for da vontade de
Deus."

A isto respondeu o bispo do Porto:

"Se é possível falar aos vossos ouvidos acolhedores, fá-lo-


ei; caso con-trário, dirigir-me-ei a ouvidos indignados.

Vós, como é vosso hábito, fixais num ponto apenas o


motivo e o objec-tivo da vossa obstinação e esperais pelo
acontecer dos factos e das des-graças123. Ora, é frágil a
esperança e débil a confiança que não procede do próprio
valor, mas depende da miséria alheia. A vossa situação,
temerosa e enfraquecida como está, parece dar razão a
condenação. Falastes do incerto e do futuro; ficai cientes
também do que foi decidido entre nós: sempre que a
eventualidade de alguma coisa se toma incerta, para que
alguma vez chegue a bom termo, há que tentá-la vezes
seguidas. Ora, já que, como dizeis, tantas vezes
fracassaram as nossas iniciativas, alguma coisa acres-
centamos para tentarmos de novo. Mas qual seja o fim
que daí vos espera, sabê-lo-eis quando o
experimentardes. Tanto quanto prevejo, ao retirarmo--
nos desta cidade, não vos saudarei nem serei saudado por
vós" 124•

12. Início do cerco à cidade (1 de Julho).

Desiludidos, pois, na sua expectativa de tomarem conta


da cidade das mãos dos inimigos, os nossos legados
voltam a ter connosco.

O rei com todos os seus retira-se para norte da cidade,


onde fica no cimo de um monte, distante de nós uns
quinhentos passos12' .Nova manhã regres-sa126 e de
novo os nossos condestáveis com os dignitários da nossa
parte se

A Conquista de Lisboa aos Mouros 101

dirigem à cúria 127 do rei por volta da hora nona, a fim


de entregarem os fidu-ciários do pacto atrás referido e
proverem às várias exigências do cerco, enquanto os
nossos fundibulários, gente jovem, provocam os inimigos
e os fazem vir até ao campo a fim de que assim
provocados pelas pedras que lhe são arremessadas de
longe se tornasse o desafio mais apetecido.
Seguidamente, e a pouco e pouco, os nossos pegam em
armas enquanto os inimigos se vão infiltrando nos
arrabaldes, travando aos nossos a entrada com pedras
atiradas do telhado das casas que formavam uma cerca à
maneira de muralha em toda a extensão. Os nossos, por
sua parte, procuravam por todos os lados aberturas
acessíveis, se é que as havia por algum sítio, e rechaçam
os inimigos até meio do arrabalde no lugar em que ele se
cinge ao declive do monte na muralha. Aí, porém, foi-nos
feita resistência tenaz. A pouco e pouco os nossos foram
crescendo e o ataque tornou-se mais violen-to. Muitos,
entretanto, caíam por causa das setas e dos tiros das
balistas, pois o arremesso de pedras travava a
possibilidade de maior avanço. Assim se passou grande
parte do dia. Finalmente, à hora do sol posto, servindo-se
de uns carreiros por onde mal passava gente mesmo
desarmada, os nossos, no auge da refrega, foram ocupar
uma parte da colina. Ao darem-se conta do sucedido, os
inimigos puseram-se em fuga, pois estavam longe da
fortifi-cação da cidade mais alta.

Tendo entretanto sabido disto, D. Saério de Archelle foi


enviado pelo rei e pelos nossos condestáveis a mandar-
nos recuar. Tinham deliberado entre eles, diziam, que a
cidade seria atacada por todos os lados pelo rei e por
todos no dia seguinte a fim de evitar ocasião de maior
dano pelo facto de serem poucos. No entanto, quando
chegou junto de nós já quase todos os nossos tinham
acorrido dos navios e já se misturavam de tal forma com
os inimigos na cidade que mal se poderiam distinguir por
outra coisa que não fosse a diversidade das armas.

A noite estava quase a chegar. Verificado que não


podíamos retroceder sem grande prejuízo para os nossos,
são dadas ordens por D. Saério para todos saírem dos
acampamentos, enquanto o bispo do Porto a todos ia
aben-çoando e absolvendo121 • O próprio Saério,
juntamente com quantos pôde con-seguir quer no nosso
pavilhão quer no seu, entra também armado na cidade
com fim de socorrer os outros, pois a maior parte dos
nossos companheiros avançara já para o combate. Já,
porém, por entre as ruas estreitas, a vitória se inclinava
ora para um lado ora para o outro, segundo eram maiores
os apoios que se faziam em cada sítio aos inimigos ou aos
nossos.

Encontravam-se, por último, os nossos num cemitério dos


inimigos129, agrupados num todo e dispostos em linha
de batalha; ao irromper D. Saério,

A Conquista de Lisboa aos Mouros 103

pois todos os restantes de entre os condestáveis se


tinham afastado, recha-çaram a investida em peso dos
inimigos. Seguidamente fez-se uma grande mortandade
entre estes. Só então se puseram finalmente em fuga,
pois, a seguir à primeira vez, referida acima, tinham-se
ido refazendo algum tanto, ao darem-se conta de que não
poderiam ser atacados com muita violência devido à
multiplicidade das ruas e ao cansaço dos nossos. Agora,
punham--se finalmente em fuga, atirando com o que era
objecto de saque das suas coisas, uma vez que muitos dos
nossos já se entregavam a ele, até darem com um
caminho de escapatória disfarçada por debaixo das
portas. Os cava-leiros, porém, com os frecheiros e alguns
jovens mais lestos, sem atenderem ao saque, fazem uma
investida de grande bravura até às portas. É um facto
que, se os que se entregaram ao saque tivessem
procedido diversamente, teriam provocado uma
debandada desonrosa.
A noite vem, entretanto, pôr termo à luta, depois de
tomado o arrabalde não sem milagre evidente, pois
menos de três mil homens armados tor-naram-se
senhores de uma cidade de 15 mil famílias cercada por
tantos obstáculos. Por sua parte, os cavaleiros e todos os
jovens de eleição, com D. Saério, armados, montam
sentinelas de vigia, pela noite dentro, a meio do monte
em que se encontrava o cemitério deles, de forma a
impedir que, por abandono do que tínhamos conquistado,
no dia seguinte se apresentasse de acesso mais difícil.
Assim se fez toda a noite, ao mesmo tempo que por toda a
parte grassava um incêndio horroroso.

13. Acções isoladas e episódios de provocação.

Logo ao romper da manhã, perto da primeira hora, os


inimigos'fazem uma sortida para nos expulsarem da
cidade; mas vieram em nosso auxílio de toda a parte
reforços do rei e das guarnições dos nossos mais chegados
e eles de novo se recolhem.

Envolvida assim fmalmente a cidade pelo cerco,


acampámos por debaixo do arrabalde junto das
muralhas, não sem grande inveja por parte de todos os
outros em razão do nosso bom êxito. Ao darem-~e conta
destes factos na parte em que se encontravam os
flamengos, os mouros•êncerram-se nas muralhas da
cidade, abandonando o arrabalde e ficando ao abrigo de
qualquer ataque.

Entretanto, os nossos, ou sejam os normandos e os


ingleses, organizaram vigias para durante a noite, cada
uma delas composta por quinhentos ho-mens, de tal
modo que de nove em nove noites os mesmos voltavam a
pegar na primeira vigia. Por outro lado, dispuseram oito
batéis no rio com gente armada frente à cidade para
ficarem de vigia.

A Conquista de Lisboa aos Mouros 105

Seguidamente foi encontrada, na nossa parte do


arrabalde, dentro de covas rasgadas na encosta do
monte, uma quantidade de perto de umas cem mil cargas
de trigo e de cevada, de milho e de legumes, provisões
que eram para a maior parte da cidade130•
Efectivamente, junto das muralhas, a exigui-dade do
espaço e a quantidade de habitações familiares bem como
a dureza da rocha firme ou também, no vale, a
abundância de águas impediam que se abrissem covas.

Entretanto, os mouros~\to longo de alguns dias fazem


sortidas frequentes contra os nossos, pois, como frente a
nós tinham três portas, duas laterais e uma frente ao
mar131 era-lhes fácil sair e voltar. Pelo contrário, a nós
toma-va-se difícil enfrentá-los. A verdade, porém, é que
isso não se dava sem per-das de parte a parte, embora
fossem maiores as deles.

Enquanto nos mantivemos assim de vigia, dias e noites,


junto das mura-lhas, atiravam contra nós escárnios e
impropérios, considerando-nos merece-dores de mil
mortes, pois que era por estarmos fastidiados com as
nossas coisas que cobiçávamos as dos outros como se
fossem de valor; nem se lem-bravam de outra ofensa que
eles nos tivessem feito além de terem eles algu-ma coisa
de grande valor e nós considerarmos que éramos
merecedores de tomar posse dela e eles não merecerem
possuí-la. Insultavam-nos dizendo que na nossa ausência
nos haviam de nascer em nossa casa muitos filhos e que
devido a isso as nossas esposas não se importariam com a
nossa morte, bastando-lhes ter em casa os filhos
adulterinos. Mas, se alguns de nós sobre-vivêssemos,
prometiam repatriar-nos, pobres e miseráveis.
Escarnecendo, rosnavam por entre os dentes contra nós.

Em gracejos, por palavras injuriosas e torpezas,


afrontavam sem cessar Santa Maria, a mãe do Senhor,
amesquinhando-nos por venerarmos com tanto respeito,
como se fosse Deus, o filho de uma pobre mulher, e por
di-zermos que Ele é Deus e Filho de Deus, quando é
sabido que Deus há só um, Aquele por quem foram
criadas todas as coisas que alguma vez existiram, e não
há ninguém que lhe seja co-eterno e participe da sua
divindade; que Ele

é sumamente bom e perfeito, tudo pode e, tudo


podendo, seria a maior indig-nidade e o maior sacrilégio
restringir tão grande poder de divindade tão excelente
aos limites humanos e às formas de uns membros, e não
seria senão insensato e contrário à nossa salvação
acreditar que assim é na reali-dade. Ou então, porque
não confessarmos que o filho de Maria é um profe-ta
entre os maiores, já que é extremamente ofensivo para
um homem usurpar o nome de Deus? Estas e outras
coisas semelhantes a elas nos atiravam para nos
injuriarem. Além disso, com grande irrisão, alçavam
para os nossos o sinal da cruz e cuspindo-lhe limpavam
com ele as partes traseiras da sua feal-dade e, por fim,
urinando sobre ela, em gesto de opróbrio, arremessavam-
nos

A Conquista de Lisboa aos Mouros 107


a nossa cruz. Para nós, isso parecia-nos que era Cristo
estar de novo a ser blasfemado em nossos dias por
incrédulos, saudado com genuflexões falsas, molhado com
cuspidelas de malvados, apertado com cordas, zurzido
com açoites, pregado no opróbrio da cruz. Sentindo tudo
isto, como nos com-petia, mais acirrados nos tomávamos
contra os adversários da cruz.

Isto acontecia porque a justiça divina os mantinha


obcecados. Quantas vezes por nós foram instados,
quantas vezes lhes foram caucionados os seus direitos e
bens, com a condição de saírem livremente da cidade
para onde quisessem ou lhes foi admitido que ficassem
em posse plena de tudo, desde que nos entregassem a
fortaleza da cidade! Mas nunca o nosso Deus permi-tiu
que a sua obstinação terminasse senão na pior e extrema
desonra. Estava, efectivamente, nas previsões de Deus
que sobretudo nestes tempos se daria o castigo aos
adversários da Cruz através de homens de pouco valor,
não importa quem eles fossem. De facto, tal como depois
nos apercebemos, Deus tinha-os entregue a paixões de
ignomínia.

14. Organização das acções por parte dos Cruzados:


construção de igrejas e mobilização de meios (máquina de
guerra) para atacar (3 de Agosto).

Entretanto, para sepultar os que iam morrendo foram


levantadas pelos francos duas igrejas: uma, na parte
oriental, pelos colonienses e flamengos, onde dois mudos
de nascença, por mercê de Deus, receberam o exercício da
fala; outra, no lado ocidental, por ingleses e
normandos132 •

Estávamos, porém, já ali há quinze dias e começámos de


um lado e de outro a fabricar máquinas de guerra:
colonienses e flamengos montam um suíno, um aríete e
uma torre móvel; os nossos, uma torre móvel de 95 pés de
altura133 •
Estavam todos aplicados nestas tarefas quando ocorreu
algo de prodi-gioso no lado dos flamengos. Foi o caso que
num domingo, depois da cele-bração da missa, o
sacerdote reparou que o pão bento estava cheio de
sangue; mandou que o limpassem com uma faca, mas
reconheceu-se que continuava tão ensopado em sangue
como se fosse carne que não se pode cortar sem deitar
sangue; cortado depois em pedaços, foi visto neste estado
muitos dias depois da tomada da cidade134 • Havia
quem interpretasse isto e dissesse que aquela gente era
feroz e indomável, outros que era gananciosa e que,
embora sob a aparência de peregrinação e de piedade,
ainda não ti-nham abandonado a sede de sangue
humano135 •

Entretanto, os colonienses e os flamengos tentam abalar


as muralhas e as torre~ dos inimigos com cinco
balistas136 • Terminadas finalmente as máquinas

A Conquista de Lisboa aos Mouros 109

e levadas até junto das muralhas, só a custo conseguiram


puxar atrás o aríete, pois tudo o mais foi queimado de
modo bastante afrontoso. Quanto à torre, quando estava
prestes a chegar junto da muralha enterrou-se na areia e
aí ficou, tendo sido irremediavelmente fustigada por três
balistas inimigas durante dias e noites sucessivas; aí foi
incendiada pelos inimigos ao fim de quatro dias, não sem
que os nossos tentassem defendê-la com grande esforço e
perdas, mas tudo em vão. Com isso, os nossos ficaram
não pouco conster-nados e a custo ao fim de oito dias
conseguiam recobrar ânimo. No entanto, quando
finalmente já íamos em seis semanas passadas no cerco
que fazía-mos à cidade, ao descobrir-se que a fome nela já
apertava algum tanto, enquanto aos nossos sobrava
inestimável abundância de pão e de vinho bem como de
produtos frescos, ganharam um pouco de alento.
Reconduzem os barcos a terra, arreiam os mastros,
recolhem os cordames para dentro, em sinal de
hibernação. No entanto, os colonienses por cinco vezes
tentam abrir túneis subterrâneos para fazer cair a
muralha, mas outras tantas vezes fra-cassaram.

15. Os mouros tentam buscar apoios.

Nisso tomaram de novo os nossos motivo de consternação


e murmu-ravam uns com os outros, remoendo que
melhor teria sido fazer alguma coisa noutra parte,
quando, ao fim de alguns dias, aconteceu que por miseri-
córdia divina nos chegou algo de não pequena satisfação.

Foi o caso que, ao entardecer, dez mouros, a coberto da


muralha, sobem para uma canoa e saem a caminho do
castelo de Palmela. Foram eles per-seguidos com tanta
rapidez pelos nossos que, em acto de desespero, aban-
donaram a canoa e tudo o que nela transportavam.
Dentro dela foram encon-tradas cartas dirigidas a muitos
destinatários e escritas em língua árabe. O teor de uma
delas, tal como me foi dado a conhecer por um intérprete,
era o seguinte137 :

"A Abu Moamede, reP31 de Évora, os desafortunados139


da cidade de Lisboa: possa ele manter o seu reino em
segurança. Quantas, quão lamen-táveis e inopinadas
sejam as calamidades que sobre nós tenham caído dá
testemunho, como monumento para perpetuidade, a
desolação extrema da nossa cidade onde não falta
enorme perda de sangue de gente nobre e o luto, ai! ai!,
em que ficámos. Já quase passou a segunda lunação
desde que uma armada de francos aportou aos nossos
termos, com apoios do céu, da terra e do mar, e nos forçou
a ficarmos encerrados no perímetro da muralha que é
mais que exígua. Ora que haja a esperar neste acumular
de misérias é por demais incerto, a não ser que socorro
seja de esperar apenas do contributo do ouro.

A Conquista de Lisboa aos Mouros 111

Não temos dúvidas de qüe se cooperardes connosco a


cidade e a pátria serão por vós libertadas dos"~árbaros.
Na verdade nem são muitos nem aguerridos; atesta-o o
facto de uma das suas torres e as suas máquinas de
guerra terem sido queimadas por nós, pela força das
armas. Se outra coisa [houverdes por bem], tome cautela
a vossa prudência 140; efectivamente, a mesma sorte
final de acontecimentos e desgraças vos espera."

As restantes cartas faziam o mesmo pedido a pais,


parentes e amigos ou devedores de dinheiro. Mais que
isso, pediam que rogassem por eles a Alá, ou seja, a
Deus, para que não permitisse que ao menos a parte
mais alta dos espíritos que viviam nos seus corpos
ficassem privados do lugar de eterni-dade em que o seu
dilecto Maomé vive e está em glória. Davam também
indicações sobre as reservas de pão e outros alimentos.

16. Domínio de situação por parte dos cristãos:


intercepção de mensagens e chacina em Almada;
dispensa do seu exército por parte do rei português.

Com estas notícias, os nossos recobraram ânimo e


bravura e durante dias seguidos intensificam os ataques
aos inimigos.
Pouco tempo depois, por baixo dos nossos navios,
encontrou-se um ca-dáver de um homem afogado, com
uma carta presa num dos braços. O seu teor era o
seguinte:

"O rei de Évora aos habitantes de Lisboa: liberdade para


os seus habitantes141 • Tendo há algum tempo
estabelecido tréguas com o rei de PortugaP42, não posso
quebrar o juramento prestado de forma a permitir-me
causar-lhe incómodo a ele ou aos seus em acto de guerra.
Quanto ao mais, tornai as devidas previdências. Resgatai
a vossa vida com o vosso dinheiro, não aconteça que
aquilo que deveria ser para proveito seja causa de des-
graça. Passai bem. A este nosso mensageiro dai-lhe uma
boa recompensa"143 •

Ficavam eles assim definitivamente frustrados em toda a


esperança de auxílio enquanto os nossos os passavam a
vigiar com mais cuidado144 •

Parte do nosso exército regressava de Sintra com grande


saque, pois a configuração do lugar impedira-os de
tomarem o castelo ou de lhe porem cerco.

Enquanto tudo isto acontecia entre nós, o rei dispensou o


exército inteiro dos seus145 , com excepção de um
reduzidíssimo número de cavaleiros e ofi-ciais da sua
casa, e pôs à venda os seus mantimentos ou mandou-os
para Santarém 146 • Só o bispo do Porto permaneceu
sempre connosco até à rendição da cidade.

A Conquista de Lisboa aos Mouros 113

Entretanto, porque a fome apertava entre os mouros,


quem quer que de entre os pobres conseguia escapar-se
sem ninguém saber entregava-se nas mãos dos nossos.
Assim, a breve trecho, aconteceu que os seus actos e os
seus planos por pouco tempo conseguiam escapar ao
conhecimento dos nos-sos.
Aconteceu também que certo dia alguns dos nossos
passaram o Tejo para irem pescar do lado de Almada.
Efectivamente, o areal daquela praia era mais favorável
para os pescadores. Caíram sobre eles os mouros daquela
zona, mataram bastantes e levaram com eles alguns
cativos, cinco dos quais eram bretões. Ficaram
indignados os nossos com isso e, discutido o assunto
entre todos 147, foi decidido que duzentos cavaleiros com
quinhentos peões seriam enviados a Almada para a
saquearem. À hora de fazerem a travessia, os colonienses
e os flamengos, por má vontade ou por receio, ou por
outro motivo que não conheço, retiraram os seus do nosso
grupo para não atraves-sarem. Por essa razão, os
normandos, os ingleses e os que se mantinham connosco
e estavam do nosso lado, malogrados na constituição de
grupo que abrangesse a todos, entregaram a expedição
prevista a Saério de Archelle com uns trinta cavaleiros e
uma centena de peões, para mais. Depois de terem
matado em combate mais de quinhentos mouros,
trazendo cerca de duzentos cativos e mais de oitenta
cabeças, o que não deixou de ser motivo de grande
alegria para os nossos e de grande abatimento dos
inimigos, regres-saram eles vitoriosos qo mesmo dia,
tendo perdido um apenas dos nossos.

Quando os mouros: ao olharem das muralhas, avistam as


cabeças espe-tadas nas lanças, saem ao encontro dos
nossos a pedir que lhes entreguem as cabeças cortadas.
Tendo-as recebido, em pranto e clamor prolongado, le-
vam-nas para dentro das muralhas. Ouviu-se por toda a
noite uma voz de dor e uma lamúria magoada de pranto
por quase todas as partes da cidade. O facto é que por tal
acto de ousadia tão preclaro ficámos a ser de extremo ter-
ror para os inimigos pelo tempo fora, enquanto que, para
os colonienses, para os flamengos e para os portugueses,
isso era factor de honra. Livre fica-va a partir de então o
caminho para atravessar até Almada.

17. Intensificação do cerco: torre móvel, escavação de


mina, desmoronamento de muralha (16 de Outubro).

É então que, por sua vez, os nossos se empenham mais


no trabalho e se lançam a escavar um fosso subterrâneo
entre a Torre e a Porta de Ferro148, com o fim de
deitarem abaixo a muralha. Porque estava demasiado
aces-sível aos inimigos, ao ser descoberta depois de
iniciado o cerco à cidade, foi extremamente danosa para
os nossos, tendo-se gastado muitos dias a

A Conquista de Lisboa aos Mouros 115

defendê-la sem êxito. Além disso, são levantadas pelos


nossos duas balistas: uma, colocada junto à margem do
rio era accionada pelos marinheiros, outra situada frente
à Porta de Ferro estava às ordens dos cavaleiros e dos
seus acompanhantes. Estavam todos eles organizados em
grupos de cem e, mal se ouvia o sinal para saírem os
primeiros cem, outros cem entravam; de forma a que no
espaço de dez horas tinham sido disparadas cinco mil
pedras. Acção desta natureza extenuava extremamente
os inimigos. É então a vez de os nor-mandos, os ingleses e
os que com eles se encontravam começarem a fazer uma
torre móvel de 83 pés de altura149• Os colonienses e os
flamengos reco-meçam a escavar novo fosso subterrâneo
frente à muralha da parte mais alta do castelo a fim de a
deitarem abaixo 150; era uma construção de merecer elo-
gios, com cinco entradas, com um pouco menos de 40
côvados de largura na frente, e concluíram-na em menos
de um mês.

Entretanto, a fome e o mau cheiro dos cadáveres (com


efeito, faltava sítio para sepultar dentro da cidade)
angustiavam pateticamente os inimigos. Dava-se até o
caso que os restos lançados dos navios junto das
muralhas eram levados pelas águas e eram recolhidos
para comer151 •

Aconteceu com isso algo que provoca riso, como foi o caso
de uns fla-mengos que montavam vigia no interior das
ruínas de umas casas e, depois de terem comido figos até
ficarem saciados, deixaram uma porção deles naquele
sítio; aperceberam-se disso quatro mouros e como aves
que se pre-cipitam para o isco, às escondidas e pé ante
pé, aproximaram-se; advertindo nisso, os flamengos (que
era para os atraírem que costumavam com bastante
frequência espalhar restos daquela natureza por aqui e
por ali), acabaram, no caso, por estender umas redes nos
sítios costumados e apanharam três dos mouros que
nelas se deixaram envolver. O caso foi depois motivo de
grande galhofa.

Minada, pois, a muralha e atafulhada com lenha para


arder152, nessa mesma noite, ao cantar do galo, um pano
das muralhas de cerca de trinta côvados ruiu por
completo153 •

No entanto, já antes, se tinham ouvido os mouros• que


estavam de vigia às muralhas gritarem angustiados que,
para porem fim de imediato a um tra-balho ininterrupto,
estavam dispostos a partilhar o dia supremo com a morte
e que não tinham medo de a enfrentar, mas seria para
eles satisfação máxi-ma se eles se trocassem a si mesmos
pelos nossos. Na realidade, era fatal ir até um ponto de
onde era inevitável não voltar; em boa verdade, se em
qual-quer parte a vida acabasse bem, não se diria que ela
era breve; de facto, duraria quanto devia, não quanto
podia e não seria contada por quanto tempo

A Conquista de Lisboa aos Mouros 117

tinha durado, mas pelo modo como tinha corrido bem, e


impor-lhe-iam ape-nas uma cláusula boa154.

Os mouros•, pois, acorrem todos, cada de sua parte, a


defender a brecha da muralha, tapando-a com uma
barreira de cancelas. Foram então os colonienses e os
flamengos e tentaram entrar, mas foram rechaçados.
Efectivamente, embora a muralha tivesse ruído, a
configuração do terreno impedia-lhes a entrada pelo
simples aterro existente1ss. No entanto, como não
podiam atacá-los de perto, atormentavam-nos com o
arremesso de setas incessantes e violentas 156, de tal
forma que eles, para se defenderem e como que evitando
não ficar feridos, ao manterem-se imobilizados, pareciam
ouriços de espinhos. Assim se defenderam dos atacantes
até à hora prima do dia157, altura em que estes se
retiraram para os seus acampamentos.

Por sua vez, os normandos e os ingleses, que vêm


armados para ren-derem os seus companheiros,
aprestam-se para tomarem em primeira mão a entrada
aos inimigos que já houvessem sido feridos e estivessem
esgota-dos151. No entanto, ainda que impressionados
com a vozearia, foram impedi-dos de o fazerem pelos
comandantes dos flamengos e dos colonienses, os quais
instavam connosco para que intentássemos a entrada,
com as nossas máquinas, por onde quer que fosse
possível, pois diziam que aquela abertu-ra fora
conseguida por eles e não por nós 159. Desta forma,
porém, são rechaçados da entrada por todos os modos
durante alguns dias.

Finalmente foi levada a bom termo a nossa máquina de


guerra, envolvi-da a toda a volta por vimes e couro de boi
para evitar que fosse atingida pelo fogo ou pela violência
das pedras. Foi além disso intimado a todos os dos navios
que fizessem mantas de guerra e abrigos entrançados
com varas.

18. Preparação do assalto final. Exortação e missa


campal (19 de Outubro).

No domingo seguinte, pois, estando já a postos os


aprestos de defesa, chama-se o arcebispo para dar a
bênção ao empreendimento. Acabada a ora-ção e feita a
aspersão da água benta, determinado sacerdote, com a
relíquia do Santo Lenho do Senhor nas mãos, pronunciou
o seguinte sermão:

"Eia, irmãos! O desafio está a postos. A empresa está no


auge. O adver-sário urge. Ninguém se assuste. Grande
conforto é da fragilidade humana ter cada qual um anjo
da guarda que lhe foi destinado individualmente; para
cor-responderdes à dignidade de guarda tão
sacratíssima, esteja na vossa frente a palavra de S.
Paulo, o doutor das gentes, na epístola aos Romanos em
que se diz: "Satisfazei a todos o que lhe é devido; a quem
pertence a honra, a honra"160• Quanto a isso, eis o meu
parecer: satisfazer à honra devida é satisfazer o que

A Conquista de Lisboa aos Mouros 119


se deve satisfazer à justiça e não conceder seja o que for à
injustiça. Da mesma maneira, no que toca à verdade, se
houver alguma coisa a satisfazer, que nada seja deixado
à mentira. Também à sabedoria, à inocência e à bon-
dade, de modo a que nada deixemos à estultícia, à
dissimulação ou à mal-dade. De facto, se alguma vez
puserdes de lado o que é verdadeiro, não sa-tisfareis à
honra devida à justiça e à verdade, mas afrontareis a
justiça e fareis desonra à verdade. E, dado que Cristo é
justiça, santidade e verdade, se menosprezardes a
justiça, sereis semelhantes aos que ultrajaram a Cristo
com bofetadas e lhe cuspiram no rosto ou lhe bateram na
cabeça e lhe colo-caram em cima a coroa de espinhos161
• E se vos desviardes da guarda do vosso anjo, procurai
reconciliar-vos com o Senhor pela penitência e onde
caístes por desobediência esforçai-vos por voltar aí pela
obediência aos man-damentos de Deus.

Talvez pergunteis quanto a isto: 'Em que é que


desprezámos nós os mandamentos de Deus?'. Escutai o
que disse a vosso respeito o profeta Malaquias: 'Nisto:
trouxestes ao altar os pães bolorentos e o alimento rou-
bado e oferecestes essas coisas a Deus que é o rei de
todos, pois se as trouxésseis a vossos príncipes
certamente não seriam elas aceites' 162 • Em tudo isso
mais irritastes que aplacastes a Deus. Seria estultícia e
insipiência extrema que o homem pensasse que poderia
enganar a Deus fosse de que modo fosse. Efectivamente
'a sabedoria deste mundo é estultícia perante Deus' 163 •

No entanto, porque está escrito: 'numa alma malévola,


não entrará a sabedoria' 164, arredai a malícia do meio
de vós, pois proceder mal não é outra coisa que desviar-se
da boa doutrina. 'Procurai, irmãos, a sabedoria que é do
alto e não a que anda à superfície da terra', como ensina
o Apóstolo 165 • Essa sabedoria só os puros de coração
conseguem obtê-la. E para fixardes a agudez do espírito
na contemplação da suprema sabedoria, que, sendo
imutável, seguramente não corresponde ao nosso
espírito, importa que o espírito, que é mutável, olhe para
si mesmo e de algum modo caia em si para reconhecer
que não é o que Deus é, mas ao menos é algo que depois
de Deus pode proporcionar satisfação. Melhor é, todavia,
a alma quando se esquece de si mesma em favor de Deus
e por causa do amor de Deus imutável se menospreza
totalmente a si própria como não sendo nada em
comparação com Ele.

Se, no entanto, ela, a si mesma se toma como objecto de


comprazimento de tal modo que pretende usufruir do que
está em seu poder em deturpada imitação de Deus, então
diminui-se tanto mais quanto maior se deseja tomar. E
não só 'o início de todo o pecado é o orgulho' 166, mas
também 'o início do orgulho do homem é apostatar de
Deus' 167•

A Conquista de Lisboa aos Mouros 121

Ao orgulho, porém, acresce a inveja malevolentíssima do


demónio para o persuadir de outra espécie de orgulho
que o leva a considerar-se condenado. Por isso se
verificou que ao homem foi imposta uma pena mais de
emenda que de aniquilação, de tal modo que aquele a
quem o demónio se apresentou com pro-postas de orgulho
a ele o Senhor se apresentou com propostas de
humildade.

Foi assim que o Filho de Deus assumiu o homem e nele


padeceu tudo o que era próprio do homem, e assim, como
a condenação se dera na carne e na alma, assim a
salvação eterna se dá também na carne e na alma. Por
isso Cristo se colocou no lugar de Adão: este tinha ficado
sob o pecado; entra o que era sem pecado para, pela sua
paixão aceite voluntariamente, ser curado o que não
aceitara sofrer voluntariamente 161 •

A esse respeito nos invectivam estes mouros, que são os


mais ignomi-niosos do mundo, perguntando porque é que
a sabedoria de Deus não podia salvar o homem de outra
maneira senão assumindo a natureza humana e nas-
cendo de uma mulher e padecendo tudo o que sofreu da
parte dos pecadores. Podia, sim, completamente. Se
procedesse de outra maneira, desagradaria do mesmo
modo à estultícia deles. Se efectivamente não se
manifestasse aos olhares dos pecadores, a luz eterna, que
só se vê através dos olhos interiores, não poderia ser
vista por espíritos de iniquidade. Agora, porém, uma vez
que se digna deixar-se perceber de modo visível, a fim de
preparar as coisas invisíveis, repugna a avarentos
porque não tem corpo de ouro, repugna a impudicos
porque não nasceu de uma mulher, repugna a orgulhosos
porque sofreu pacientemente as ofensas; aos tímidos,
porque morreu. E, parecendo defender os seus próprios
vícios, dizem que não é num homem que tal lhes
repugna, mas no Filho de Deus. Ora, o Filho de Deus, tal
como a Igreja católica acredita e venera, assumiu a
natureza humana para nela sofrer o que era próprio do
homem. É este remédio dos homens tão grande que nem
se pode pensar quão grande seja. Ó remédio que a todos
dá conforto, que elimi-na o que é supérfluo, que guarda o
indispensável, repara o perdido, corrige o depravado! Que
orgulho há aí que seja curado se não o é pela humildade
do Filho de Deus? Que avareza há aí que não seja a
pobreza do Filho de Deus a curá-la? Que ira que não seja
a paciência do Filho de Deus a sará-la? Que falta de amor
que não seja a caridade do Filho de Deus a repará-la?
Enfim, que timidez poderá ser curada se não for curada
pela Sua ressurreição?

E vós, irmãos caríssimos, que seguistes a Cristo, que


espontaneamente saístes da vossa terra, que abraçastes
a pobreza voluntária, ouvi e entendei que aos
principiantes se promete, mas aos perseverantes se dá o
prémio. Ora, não consegue perseverar quem já é
negligente no início de uma boa acção ou por ignorância
anda por maus caminhos. Por ignorância: quem se
arrepender e r~considerar para orar com lágrimas com o
Profeta e dizer 'dos pecados da

A Conquista de Lisboa aos Mouros 123

minha juventude e da minha ignorância não vos


lembreis' 169, depois merecerá acrescentar com o
Apóstolo 'obtive misericórdia porque o que fiz havia sido
por ignorância' 170• Os negligentes, com toda a
diligência, façam 'dignos fru-tos de penitência' 171 , de
modo que se alguém em algum tempo se recordar de ter
cometido alguma falta, se habitue a não voltar a pratir.á-
la. Se de facto quereis, irmãos, que Deus vos perdoe os
pecados, rogai-lhe que a sua graça se antecipe a vós para
que se digne cumular o vosso desejo em coisas de bem.
Deveis acautelar-vos, pois, com todo o empenho no início
da vossa conversão, por não manter a vossa afeição
agarrada a qualquer coisa que te-nhais abandonado, pois
no futuro com razão se há-de punir por obra quem agora
cometer alguma falta em má consciência.

Não vos fieis, irmãos, 'não vos fieis na iniquidade e não


ansieis por fazer roubos' 172, mas 'esperai no Senhor e
dar-vos-á o que o vosso coração pede' 173 • Reconciliai-
vos de novo com Deus e revesti-vos de Cristo, para serdes
seus filhos sem mancha! Recordai-vos das maravilhas do
Senhor que Ele fez em vós quando purificados pelo novo
baptismo de penitência saístes da vossa terra e da vossa
família; como vos transportou ilesos através de tantos
mares e tormentas temerosas; além disso, aqui chegados,
com que ardor do Espírito que nos conduz entrámos por
este arrabalde em que nos mantemos, como o tomámos
quase sem derramamento de sangue por parte dos nossos

-coisa que não fizemos sem evidente milagre.

Demonstrai, pois, de novo, para este empreendimento, as


qualidades com que aqui chegastes e prometo-vos que de
certeza destroçareis o poder dos vossos inimigos. Não
sou, de facto, eu, mas o Senhor quem o promete, pois Ele,
que sempre atende e ajuda quem dignamente lhe pede,
não costuma nunca negar o seu perdão aos que
confessam as suas faltas.

Eles não resistirão frente a vós, pois é bem verdade que é


àqueles a quem o erro da ignorância da fé toma
disformes, que amesquinha o tormento de não poderem
actuar. De facto a cegueira é consequência da ignorância,
mas a angústia do espírito costuma vir acompanhada de
enfermidade corporal. Não tenhais medo, não, não vos
assusteis; procurai não cair em desânimo, tornai como
desonra o ficardes de braços cruzados. Se o nosso Deus
vos excluir da entrada desta cidade não obstante o
desgaste de tantas penas, uma coisa por certo realizou
em vós, é que a permanência em trabalho contínuo
consolidou em vós a paciência e esta, uma vez
consolidada, tomar-vos-á mais aptos para a
perseverança. Acordai de vez, meus irmãos, e pegai em
armas. Não tendes que lutar com os gigantes ou com os
)apitas, pois se trata de ladrões e salteadores sem força e
tímidos e a eles uma multidão em de-sordem e
perturbada embaraça-os no amontoado de tantas
inépcias.
Eis, meus irmãos, eis o Lenho da Cruz do Senhor! De
joelhos em terra,

A Conquista de Lisboa aos Mouros 125

mantende-vos inclinados, batei no peito como réus e


invocai o auxílio do Senhor. Ele virá, de facto, sim, virá.
Vereis o auxílio do Senhor a vir sobre nós. Adorai a
Cristo Senhor que neste salvífico Lenho da Cruz estende
as mãos e os pés para vossa salvação e glória. Com esta
bandeira, não hesiteis um só momento, vencereis. Pois
mesmo que aconteça que alguém venha a morrer
assinalado com ela, segundo acreditamos, não lhe será
tirada a vida, mas não duvidamos de que será mudada
para melhor174• Viver aqui, pois, é motivo de glória e
morrer é um ganho175 •

Eu próprio, meus irmãos, partilhando das vossas


tribulações e penas e companheiro das vossas
recompensas176, o que vos prometi é o que desejo para
mim. Com a ajuda de Deus, ficarei convosco nesta
máquina de guerra, a guardar este sacrossanto Lenho e
em vossa companhia permanecerei en-quanto a vida me
acompanhar. Estou certo de que nem a fama nem a
espada nem a tribulação nem a angústia nos separará de
Cristo177 • Decididamente, seguros da vitória, atacai os
inimigos, pois para vós o prémio da vitória é a glória
sempiterna. Paulo que foi chamado de entre os judeus e é
mestre de todos nós que viemos da gentilidade para a fé,
aceita rogar por vós muito para além do que é permitido
fazê-lo pelos seus irmãos segundo a carne. Com as vossas
orações, faço votos por que algo de semelhante ouse dizer
em vosso favor. Efectivamente vai além do mandamento
de Deus aquele que ama o seu próximo não como a si
mesmo mas mais que a si mesmo, e até, em última
instância, na sua própria abjecção, reza por que nós
sejamos con-duzidos a Cristo em vez dele. Oh! que
singular magnanimidade de espírito! Oh! que celeste
ardor do espírito, que excede a piedade e, por assim
dizer, por piedade, o que ele anseia por que se tome
realidade, já que aceita ser dito anátema por Cristo,
contanto que os outros se salvem 178•

O Deus da paz e do amor, que faz de dois um só e nos


entregou recipro-camente uns aos outros, Ele que levanta
da terra o necessitado e do esterco ergue o pobre179, Ele
que escolheu a David, seu servo, e o foi buscar aos re-
banhos de ovelhas110, embora fosse o mais novo dos
filhos de Jessé, Ele que aos evangelizadores dá a palavra
de grande eficácia para aperfeiçoamento da sua pregação
e manifestação da sua obra, mantendo as nossas mãos na
sua vontade, nos dirija e nos receba com glória; Ele
mesmo governe quem nos governa para podermos
[ensinar]!•• o seu rebanho com disciplina e não com os
instrumentos de um pastor desorientado182 • Seja Ele a
dar valor e fortaleza ao seu povo, seja Ele a apresentar a
si mesmo um rebanho purificado e res-plandecente e em
tudo imaculado e digno dos apriscos celestes, onde há
uma morada para os que se alegram nos esplendores dos
santos, de tal modo que no seu templo todos nós, grei e
pastores, cantemos glória a Jesus Cristo, Nosso Senhor, a
quem é devida glória pelos séculos dos séculos. Amen".

A Conquista de Lisboa aos Mouros 127

19. Preparativos finais: avanço da torre móvel, desgaste


dos inimigos e pedido de tréguas (21 de Outubro).
A esta voz, todos caíram de bruços com gemidos e
lágrimas nos seus ros-tos. De novo, à ordem do sacerdote,
todos se levantaram e foram abençoa-dos pela veneranda
relíquia da Cruz do Senhor, em nome do Pai e do Filho e
do Espírito Santo.

Assim, rogando em altas vozes o auxílio divino,


aproximaram finalmen-te a máquina da frente da
muralha, a uma distância de uns quinze côvados.

Aí morreu um dos nossos atingido por uma pedrada de


funda atirada das muralhas. No dia seguinte 183, de
novo, a máquina é deslocada para junto da torre que fica
situada num recanto da cidade frente ao rio'".

Os inimigos, porém, levaram igualmente para ali todos


os seus aprestos de defesa. Logo que isso descobrimos,
com facilidade fizemos fracassar os seus planos, pois os
nossos desviaram a máquina para a direita frente ao rio
e ultrapassaram a torre uns vinte côvados junto à
muralha perto da Porta Férrea que está voltada para a
torre'ss. Aí os nossos besteiras e frecheiros repeliram da
dita torre os inimigos que não conseguiam aguentar o
ritmo das setas, pois a torre ficava a descoberto pela
parte posterior que está voltada para a cidade.

Afugentados os inimigos da torre e da muralha, vizinha


da nossa má-quina, com a chegada da noite descansámos
um pouco, tendo todos regres-sado ao acampamento, mas
deixando de guarda cem cavaleiros dos nossos e cem dos
franceses 18\ com frecheiros e besteiras e alguns jovens
ligeiramente armados.

Ora, na primeira vigília da noite, a maré cheia envolveu


a máquina e impedia que os nossos tivessem caminho
para sair ou para entrar. Tendo os mouros descoberto
que a maré nos isolava, a pé, atacaram a máquina com
duas companhias de homens através da dita porta,
enquanto outros, em mul-tidão inacreditável, por cima
das muralhas, tendo acarretado materiais de lenha com
pez, estopa e azeite com substâncias incendiárias de toda
a espé-cie, começam a atirá-los à nossa máquina. Outros
ainda lançavam sobre nós uma chuva insuportável de
pedras.

Havia, porém, debaixo das asas da máquina, entre ela e


a muralha, um abrigo de vimes que em língua vulgar
toma o nome de gato valisco181, em que se mantinham
sete mancebos da província de Ipswich que tinham
trazido sempre esse abrigo atrás da máquina. Ali
debaixo, juntamente com os que se encontravam em
andares inferiores, alguns dos nossos procuravam, tanto
quanto lhes era possível, desfazer os materiais
inflamáveis, mas em vão.

A Conquista de Lisboa aos Mouros 129

Outros, por seu lado, tendo aberto covas debaixo da


máquina e aí perma-necendo, dispersavam as bolas de
fogo. Uns, nos andares cimeiros, através de postigos
regavam de cima os couros que se retesavam; aí havia
uns ren-ques de vassouras de cauda, pendentes da parte
de fora, que molhavam toda a máquina. Os restantes,
porém, dispostos em linha de batalha, resistiam com
ardor aos que tinham avançado desde a porta.

Foi assim a máquina defendida nessa noite em esforço


digno de admi-ração, por um punhado dos nossos, sob a
ajuda de Deus, sem grandes feri-das, enquanto a maior
parte dos mouros, pelo contrário, mais de perto ou mais
de longe, tinham caído mortos.
Ao romper da manhã 188, a nossa máquina, com a
subida da maré fica novamente isolada. Novamente
surgem os mouros ao nosso encontro, uns, vindos pela
porta, abatem-se sobre os nossos (foi neste embate que o
coman-dante das galés dq rei foi ferido e veio a morrer),
outros, a partir das mura-lhas, atiram sobre os nossos
uma chuvada de pedras, pois que tinham para aí
acarretado as balistas. Além disso sobre as nossas
máquinas, que apenas ficam a uma distância de oito pés
das muralhas, lançam baldes repletos de materiais
inflamados em tal quantidade que é mais que dificil dizer
quanto trabalho, suor, golpes e feridas sem número
aguentaram na maior parte do dia, sem terem qualquer
apoio dos companheiros.

Até o nosso especialista dos engenhos 189 ficou ferido


numa perna por causa de uma pedra e deixou-nos
privados de qualquer esperança no seu apoio. Também os
franceses, ao verem-se rodeados de água, e estando ou
feridos ou fazendo-se feridos, uns atirando com as armas,
outros ficando com elas, optam vergonhosamente por
fugir e passar um vau, não ficando mais que seis de todos
eles. Finalmente, na baixa-mar, os inimigos, já cansa-
dos, abandonam o combate, desiludidos de qualquer
expectativa de futuro. Por sua vez, os nossos cavaleiros e
aqueles que tinham sido escolhidos para guardarem a
máquina, uma vez entrados outros dos seus apoiantes a
rendê--Ios190, deixam aquele lugar, depois de terem
estado dois dias e uma noite, sem tirarem as armas, a
defender a máquina em angústia quase insuportável.

Pela hora décima, porém, na baixa-mar, os nossos


juntam-se na praia para aproximarem a máquina até
quatro pés das muralhas e assim lançarem uma ponte
com maior facilidade. A defender esta parte da muralha
chegam os mouros todos vindos de toda a parte. Ao
verem, porém, a ponte já içada uns dois côvados e nós já
prestes a entrar, como se nem a vida viesse a ser deixada
aos vencidos, gritam em grandes brados e, à nossa vista,
depõem as armas, baixam os braços e suplicam tréguas,
ao menos até ao dia seguinte.

A Conquista de Lisboa aos Mouros 131

20. Ocupação da cidade: negociações com os mouros e


desavenças entre grupos de cruzados (21 de Outubro).

Intervindo Fernão Cativo, por parte do rei, e Hervey de


Glanville, pela nossa191 , foram concedidas tréguas e
recebidos logo de seguida cinco reféns, tendo sido
acordado em como durante a noite não atacariam as
nossas má-quinas ou como eles, entretanto, não
procederiam a qualquer reparação que revertesse em
nosso prejuízo; além disso, durante a noite, deviam
deliberar como é que nos entregariam a cidade no dia
seguinte, se é que era assim que queriam decidir entre
eles, pois, caso contrário, o resto ficaria sujeito à sorte
das armas.

Fernão Cativo e Hervey de Glanville, por sua parte,


sendo já quase a pri-meira vigília da noite, recebem
reféns. e entregam-nos ao rei. Foi isso moti-vo de grande
discórdia, pelo facto de não os terem entregues aos
nossos, pois consideravam que através deles se
prepararia uma traição por parte do rei, admitindo que
era hábito seu assim proceder192, e por isso mostravam-
se indignados contra Fernão Cativo e Hervey de
Glanville.
De manhãzinha, pois, convocando os colonienses e os
flamengos, os nossos condestáveis juntamente com os
anciãos, dirigem-se ao acampamento do rei, para
ouvirem o que aqueles embusteiros teriam deliberado.
Interrogados, são favoráveis a entregarem a cidade ao rei
e a deixarem o ouro, a prata e outros haveres dos
habitantes da cidade nas nossas mãos. Para darem a isto
uma resposta, os nossos saem fora.

Freme então, até definhar, o antigo inimigo, ao sentir


que finalmente vai ficar despojado do velho direito.
Contra todos e através de todos, excita os vasos da
iniquidade193 • A tal ponto se encarniça o vírus da
maldade que difi-cilmente ou irremediavelmente alguém
chega algum dia a ':oncordar com o outro, ficando em
ruptura mútua. De facto, ao chegarem já perto da
entrada das portas, se não fosse o nosso Deus contrapor a
sua dextra de propiciação,

a boa harmonia ter-se-ia rompido. Efectivamente usou


sempre Ele para connosco de clemência da sua bondade
desde o início da nossa associação, a tal ponto que,
quando já os nossos chefes abandonavam o leme da
gover-nação por múltiplas e desesperadas causas de
divisão, era então que a brisa do Espírito Santo, trazendo
a sua inspiração e como que fazendo reverberar as
nuvens caliginosas do temporal com a vibração de um
raio de sol do meio--dia, tornava mais agradáveis os laços
da concórdia que regressava.

Foi o caso que, quando estávamos em assembleia para


darmos a nossa resposta, os nossos marinheiros, com
outros tresloucados a eles semelhantes, se juntam na
praia em conspiração montada por um certo sacerdote de
Bristol,
A Conquista de Lisboa aos Mouros 133

homem sacrílego; efectivamente, tratava-se de alguém de


costumes mais que reprováveis, como algum tempo
depois tivemos conhecimento por ter sido apanhado a
roubar. Começaram eles paulatinamente a incitar à
revolta, desde simples falas até chegarem a vociferar,
para declararem que era indigno que tantos e tão
grandes homens, ilustres na sua terra e nos feitos
militares, se sujeitassem a estar a mando de uns poucos
reunidos em assembleia, aos quais, nas circunstâncias
presentes, não seria propriamente necessário con-selho,
mas valentia. Na realidade, os que tinham até ali
chegado, trazidos pelo Espírito Santo, fosse o que fosse
que tivessem feito, tinham agido de modo excelente, sob
a sua inspiração. Ora, entre os seus magnates não se
registava assembleia ou empreendimento que alguma
vez não tivessem sido em vão. Efectivamente, sem eles,
tinha sido tomado o arrabalde, sem eles saberem tinha
sido submetida Almada; se, como convinha, se tivessem
dei-xado levar pelo seu entusiasmo, já há muito, diziam,
teriam tomado conta da cidade ou teriam tido alguma
vantagem maior.

Mas que havemos de dizer de homens que injuriam desta


maneira, senão que há uma certa capacidade
naturalmente implantada nos maus comporta-mentos de
tal modo que o crime de uns poucos deslustra a inocência
de muitos e que, em contrapartida, a escassez dos bons,
ainda que queira, não consegue desculpar os crimes de
muitos? Todavia, quem não se irritará ao ver que a
virtude sincera fica manchada pela alegação de vícios,
quando não conseguem discernir o que querem ou
deixam de querer nem o que lhes agra-da nas coisas boas
ou o que lhes desagrada nas coisas más? Se vêem uma
pessoa humilde, chamam-lhe abjecto; se anda de cabeça
levantada, pensam que é por soberba; se é menos
instruído, consideram que deve ser posto a ridículo
devido à sua falta de conhecimentos; se tem alguma
ciência, dizem--no inchado por causa do saber; se é
severo, têm-lhe horror porque é cruel; se é indulgente,
culpam-no por facilitar; se é simples, desprezam-no como
se fosse estúpido; se é áspero, evitam-no como a um
malicioso; se é diligente, consideram-no escrupuloso; se é
vagaroso, julgam-no negligente; se é pers-picaz, têm-no
por ambicioso; se é sossegado, chamam-lhe preguiçoso; se

é parco, clamam que é avaro; se, quando come, fica


saciado, condenam-no por comilão; se faz jejum na
comida, falam dele como dissimulado; ao que anda em
liberdade condenam-no como criminoso; ao modesto,
como homem rude; aos que são pessoas de rigor por
causa da austeridade não os estimam; os mansos por
afabilidade para eles são pessoas vis. Se alguém vive de
outra maneira, ainda que os seus comportamentos sejam
sempre de boa qualidade, ao serem espicaçados pelas
línguas dos maldizentes, ficarão dependurados de anzóis
de duas pontas.

A Conquista de Lisboa aos Mouros 135

21. Apaziguamento de tensões entre cruzados e acordo


de actuação em concertação com o rei português.

O alvoroço deste tumulto é, pois, dirigido contra Hervey


de Glanville, que tinha entregue os reféns ao rei e não a
eles e tinha bem assim deixado alguns deles fora da
atribuição dos dinheiros da cidade, como se eles fossem
de outra raça. Mais de quatrocentos correm para fora dos
acampamentos e, de armas na mão, procuram-no por
todo o lado, ainda mesmo onde sabem que ele não está,
clamando em altas vozes: "fora o ímpio, castigue-se o
traidor"!

Tendo tomado conhecimento disto, quando estávamos no


aca.rnpamento do rei, alguns dos nossos anciãos
tomaram a iniciativa de lhes ir ao encontro para
reprimirem estes assomos de violência. Logo que eles
voltaram, reuni-mo-nos para respondermos ao que
anteriormente estava em causa.

Os reféns, por sua parte, tendo-se dado conta de que os


nossos tinham entrado em disputas, dissimulam e
intentam retractar-se das palavras da pri-meira
proposta. Ao rei e aos seus homens diziam que
pretendiam guardar a sua palavra e manter todas as
promessas que anteriormente nos tinham afian-çado; aos
nossos, nem com a morte algo fariam, pois tinham-se
apercebido que éramos corruptos, desleais, sem piedade,
cruéis, que nem os nossos pró-prios senhores
poupávamos. Tudo isto deixou os nossos prostrados na
maior vergonha.

De novo se voltou a conselho com o rei; passou-se nisso a


maior parte do dia e ao fim anuíram os reféns no
seguinte: o alcaide, com um genro seu, ficaria de posse de
todos os seus bens em liberdade e todo e cada um dos
homens da cidade ficaria com o que tinham para comer e
a cidade render-se--ia; de contrário, tentariam a sorte
das armas.

Os normandos e bem assim os ingleses, para quem os


incidentes de guer-ra tinham sido particularmente
gravosos, cansados do longo cerco, diziam que seria
razoável aceder e que não seria honesto antepor o
dinheiro ou os víve-res à honra de tomar a cidade.
Os colonienses e os flamengos, por sua parte, com a sua
inata cupidez de deitar a mão, lembravam o desgaste de
uma longa viagem e a perda dos seus bens como o longo
caminho a percorrer ainda, argumentavam que não era
admissível deixar alguma coisa aos inimigos. Chegados a
este ponto de dis-cussão, por último, acediam a que todos
os haveres e mantimentos do alcaide lhe fossem
concedidos, com excepção de uma égua árabe que o conde
de Aerschot cobiçava para si e se propunha tirar-lhe sob
que pretexto fosse. Finalmente, a este respeito, a opinião
deles tomou-se inabalável, os nossos suportavam-na com
grande indignação.

A Conquista de Lisboa aos Mouros 137

A noite põe termo à reunião, os reféns mantêm a sua


opinião, os francos dispõem-se a qualquer das
alternativas, à paz ou à guerra.

No dia seguinte, porém, decidiram tentar a entrada na


cidade à força das armas e voltaram todos ao
acampamento. Entretanto os colonienses e os fla-mengos
mostram-se indignados, porque parecia que o rei ~ra
benevolente para com os reféns, e saem armados dos
acampamentos para, à força, rouba-rem os reféns ao
acampamento do rei e se vingarem neles. Gera-se
confusão e embate de armas por todo o lado.

Nós, pela nossa parte, estando no meio, entre o rei e os


acampamentos dos outros, e esperançados em que se
voltasse a parlamentar, fizemos saber ao rei o que se
preparava. Porém, o duque de Flandres e o conde de
Aerschot, dando-se conta do motim, armam-se também e
a custo travam o levanta-mento dos seus.
Apaziguado o motim, seguidamente, vão ter com o rei
para urna conci-liação em favor dos seus, declarando que
estavam completamente fora do acontecido. Garantida
que foi por parte deles a sua segurança, o rei, urna vez
serenado o ânimo, manda que os seus deponham as
armas, assegurando firmemente que deixarb para o dia
seguinte o cerco, mas não posporia a sua dignidade à
tornada da cidade; antes, pelo contrário, dizia, tudo
consideraria de menos se ficasse sem ela; no entanto, que
se sentia atingido por aquelas injúrias, e nada mais
queria em comum com homens corruptos, sem con-
tenção, e dispostos a tudo.

Tendo a custo serenado finalmente o ânimo, anuiu a que


se deliberasse sobre o que pretendia para o dia seguinte.
Deliberou-se, pois, que no dia seguinte todos os nossos
chefes, de urna parte e de outra, por si e pelos seus,
prometessem manter fidelidade ao rei enquanto
permanecessem na sua terra.

Confirmado isto por ambas as partes, anuiu-se ao que no


dia anterior os mouros tinham pedido relativamente à
rendição da cidade. Decidiu-se, pois, entre nós, que 140
homens de armas dos nossos e 160 dos colonienses e fla-
mengos entrariam antes dos outros na cidade e que
ocupariam pacificamente a fortaleza do castelo superior,
por forma que os inimigos pudessem trazer os dinheiros e
todos os seus haveres, comprovados, sob juramento,
perante os nossos; feita assim a recolha, a cidade seria
depois inspeccionada pelos nossos: se algo mais do que o
alegado fosse encontrado com alguém, o dono em cuja
casa fosse achado pagaria com a vida. Deste modo, depois
de espo-liados, todos seriam mandados em paz para fora
da cidade.
A Conquista de Lisboa aos Mouros 139

22. Entrada solene na cidade, desm~dos de alguns


cruzados e êxodo dos moradores.

Aberta, pois, a porta e dada autorização de entrarem, os


colonienses e os flamengos, concebendo um astucioso
ardil, solicitam aos nossos que seja deles a honra de
serem os primeiros a entrar. Dada, pois, a anuência para
tal efeito e chegada a ocasião, fazem entrada mais de
duzentos com os que ante-riormente haviam sido
designados, fora outros que se tinham intrometido pela
brecha da muralha que ficava à sua mercê da parte em
que se encon-travam, enquanto ninguém dos nossos, que
não fosse dos designados, pre-sumira proceder à
entrada194 •

À frente, pois, ia o arcebispo e os outros bispos com a


bandeira da Cruz do Senhor e a seguir entram os nossos
chefes juntamente com o rei e os que para este efeito
tinham sido escolhidos.

Oh! Quanta não foi a alegria de todos! Oh! Quanta não


foi a honra espe-cial que todos sentiam! Oh! Quantas não
foram as lágrimas que afluíam em testemunho de alegria
e de piedade, quando todos viram colocar no mais alto da
fortaleza o estandarte da Cruz salvífica em sinal de
sujeição da cidade, para louvor e glória de Deus e da
santíssima Virgem Maria. O arcebispo e os bispos com o
clero e todos os outros, nãc sem lágrimas de júbilo,
cantavam o Te Deum /audamus com o Asperges me e
orações de devoção 19' .
Entretanto, o rei dá a volta a pé pelas muralhas do
castelo cimeiro.
Os colonienses e os flamengos, ao lobrigarem na cidade
tantas oportu-nidades de se saciarem não respeitam
qualquer observância de juramento ou de palavra dada.
Correm por aqui e por ali, saqueiam, arrombam portas,
espreitam pelos interiores de qualquer casa, assustam os
habitantes e, contra o direito divino e humano, infligem-
lhes injúrias, dispersam vasilhames e roupas, actuam
sem respeito contra as donzelas, põem no :nesmo prato
da balança o lícito e o ilícito, às escondidas tudo
subtraem, mesmo o que deve-ria ficar em comum para
todos. Ao bispo da cidade, um ancião de muitos anos,
cortam-lhe o pescoço, contra o direito divino e
humano196• Aprisionam o próprio alcaide da cidade,
depois de lhe terem tirado tudo de casa. A pequena égua,
de que falámos acima, o próprio conde de Aerschot a
arreba-tou com as suas mãos. Tendo ele sido intimado
pelo rei e por todos os nos-sos a entregá-la, reteve-a com
tanta obstinação que o próprio alcaide disse que a sua
pequena égua ao urinar sangue tinha perdido um potro,
exprimin-do de maneira astuta a fealdade de uma acção
obscena.

Os normandos e os ingleses, que tinham em máximo


apreço a palavra dada e o respeito divino, observavam
onde poderia levar uma actuação destas e permaneciam
quietos no lugar que lhes fora determinado, preferindo
manter

A Conquista de Lisboa aos Mouros 141

as mãos limpas de qualquer roubo a violarem os


princípios de solidariedade firmada por um juramento de
fidelidade 197 •
A atitude tomada deixou grandemente cobertos de
opróbrio o conde de Aerschot e Cristiano com os seus
nobres, cuja cupidez ficava à vista de todos, sem
equívocos, depois de terem com toda a evidência atirado
para trás das costas o seu juramento.

No entanto, voltando finalmente a si, com pedidos


insistentes, suplica-ram junto dos nossos que fossem os
nossos, juntamente com os seus, a con-gregar as
restantes partes da cidade para uma partilha pacífica, de
tal forma que, depois de aceites as respectivas partilhas,
debatessem em paz as injúrias e as subtracções de todos,
estando eles dispostos a emendarem o que indevi-
damente se tinham antecipado a retirar.

Espoliados, pois, os inimigos na cidade, foram vistos sair,


sem despegar, pelas três portas, desde o início da manhã
de sábado até à quarta-feira sub-sequente, em tão grande
multidão de gente que era como se nela tivesse con-fluído
a Espanha inteira.

Verificou-se seguidamente um prodígio que causou muita


admiração: os alimentos dos inimigos que antes da
conquista da cidade e ao longo de quinze dias se haviam
revelado intragáveis por cheiro insuportável, pudemos
saboreá-los pouco depois, já que tanto para nós como
para eles se apresen-tavam bons e agradáveis.

Saqueada, pois, a cidade, foram encontradas em fossas


cerca de oito mil cargas198 de trigo e de cevada,
enquanto as de azeite eram de uns doze mil sextários 199

Relativamente às observâncias da sua religião, logo


depois vimos com os olhos o que acima tínhamos referido.
Efectivamente, no seu templo, que se levanta em sete
ordens de colunas com outras tantas abóbadas, foram
encon-trados uns duzentos cadáveres dos que ali tinham
morrido, fora mais oitocen-tos doentes que aí haviam
ficado no meio daquela imundície e na sua fealdade.

23. Epílogo da conquista: restauração da diocese de


Lisboa, com novo bispo; situação miserável dos mouros.

Tomada, pois, a cidade, após dezassete semanas de cerco,


os habitantes de Sintra fizeram oferta da guarnição do
seu castelo e entregaram-se ao rei. Por sua vez, o castelo
de Palmela foi abandonado pela sua guarnição e foi
tomado pelo rei já sem ninguém. Rendidas, pois, todas as
fortalezas que nas redondezas estavam ligadas à cidade,
foi celebrado o nome dos francos por todas as terras de
Espanha e abateu-se o terror sobre os mouros aos quais
ia chegando a notícia destes acontecimentos.

A Conquista de Lisboa aos Mouros 143

Seguidamente200, foi eleito para a sede episcopal um dos


nossos, Gilberto de Hastings, tendo dado o seu
assentimento para a eleição o rei, o arcebispo, os bispos, o
clero e todos os leigos201 • No dia em que se celebrava a
Festa de Todos os Santos, em louvor e honra do nome de
Cristo e da Sua Santís-sima Mãe, foi feita a purificação
do templo pelo arcebispo e por mais quatro bispos
sufragâneos 202 e restaurada a diocese como sede do
episcopado, com os seguintes castelos e terras: para além
do Tejo, o castelo de Alcácer, o castelo de Palmela, a zona
de Almada; aquém do Tejo, o castelo de Sintra, o castelo
de Santarém, o castelo de Leiria. Os limites vão do
castelo de Alcácer até ao castelo de Leiria e do mar, a
ocidente, até à cidade de Évora 203 •
Sobreveio seguidamente uma peste tão grande entre os
mouros que pelas vastidões dos ermos, pelas vinhas e
pelas aldeias e praças, bem como pelas casas em ruínas
jaziam inúmeros milhares de cadáveres à mercê das
feras e das aves; os que ainda tinham vida, semelhantes
a fantasmas que andassem errantes à face da terra,
abraçavam-se ao sinal da cruz e beijavam-no, con-
fessavam que Maria, cheia de bondade, é a bem-
aventurada Mãe de Deus, de tal modo que em tudo o que
fazem ou dizem, mesmo nos momentos ex-tremos,
misturam invocações a Maria boa, boa Maria e lhe
dirigem apelos angustiados204 •

24. Meditação após a vitória.

Que outra coisa nos poderá sugerir, a nós que


observámos isto, senão o cumprimento feliz, nos nossos
tempos, do vaticínio de Isaías, que diz: "O freio do erro
que estava nos maxilares dos povos converteu-se em
cântico de solenidade perfeitamos.

Ao recordarmos, pois, que nós assim andámos, dêmos


graças ao Criador por termos sacudido da servidão da
criatura a cerviz do espírito. Efectiva-mente, enquanto
tínhamos os maxilares aperreados pelo freio do erro, não
sabíamos dar a Deus o louvor da fé; por isso, ao darmos a
Deus o louvor da confissão fé, alegramo-nos em solene
expressão de santidade206• Correspon-damos, pois, com
o nosso comportamento a tanta misericórdia do nosso
Redentor e, já que conhecemos a luz, ponhamos de lado
as trevas das obras perversas, anunciemos as maravilhas
de Deus, pois se dignou exercer a sua acção em nós.

Deus entregou, efectivamente, nas nossas mãos os


adversários da Cruz. Extremamente severo foi, de facto,
o castigo divino que recaiu sobre eles. Quando olhamos
para a cidade destruída e para o castelo arruinado, para
os campos devastados, para a terra reduzida a solidão e
não vemos qual-quer morador nos campos e tudo é luto e
gemido, seja-nos consentido sentir

A Conquista de Lisboa aos Mouros 145

compaixão pela sua sorte e pelos males que lhes


aconteceram, condoer-nos e consolá-los nas suas
enfermidades, até porque não chegaram ainda ao fim os
flagelos da justiça celeste, certamente porque também
entre nós, os cristãos, não foram corrigidos os erros dos
nossos comportamentos.

Há que sentir pena e experimentar alegria. De verdade,


quando Deus omnipotente fere os perversos, quaisquer
que eles sejam, há que sentir pena pela infelicidade dos
que perecem e experimentar alegria pela justiça do juiz.

Examine-se, pois, cada um de nós com muito cuidado e


dê atenção aos juízos divinos, que são dados não apenas
para castigo dos maus, mas para ensinamento dos bons,
pois com os dons restabelece alguns, com os castigos dá
ensinamento a outros.

Não foi, porém, por sermos justos que vencemos os


inimigos, mas por misericórdia de Deus que é grande. A
abundância de dons não leve o nosso espírito a
envaidecer-se, nem nos vangloriemos por termos o que a
outros falta, nem julguemos que a infelicidade dos
inimigos é a nossa glória, pois a eles possivelmente a
infelicidade leva-os à glória, enquanto o orgulho nos
conduz à infelicidade. De facto, Deus endurece a quem
quer e a quem quer leva-o à misericórdia 207 • Como se
diz no livro de Job: "Se Ele concede a paz quem será que
o condena? Desde o momento que Ele esconde o seu rosto,
quem consegue contemplá-lo?"208

Ninguém, pois, discuta porque é que enquanto nós,


cristãos, nos mante-mos de pé e estes pagãos
sucumbiram na debilidade. Ninguém discuta porque

é que um é agraciado sem qualquer título e outro é


vilipendiado não obstante o seu mérito209 • Se alguém
se admira por nós, cristãos, sermos agraciados ... , "quem
será que o condene se Ele concede a paz?". Se deixa os
inimigos estar-recidos no seu aniquilamento e aflição,
"quando esconde o seu rosto, quem poderá contemplá-
lo?". E assim, conselho de suprema e oculta virtude seja
satisfazermos a uma manifesta razão.

Daqui que, no Evangelho, quando fala a este respeito, o


Senhor diga: "Dou-te graças, Pai, senhor do céu e da
terra, pois escondestes estas coisas aos sabedores e aos
aconselhados e as revelastes aos pequeninosm•o. Logo a
seguir, como que a dar a razão do ocultar e do revelar,
diz: "Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado na tua
presença"211 •

Com essas palavras recebemos, sem dúvida, uma


advertência de humil-dade, para não discutirmos as
decisões supremas quanto à escolha de uns e à rejeição
de outros. Ao vermos, pois, ainda que sem o
entendermos, o juízo da divina condenação inculcado aos
inimigos, tenhamos em consideração a imundície e a
impureza da nossa consciência e com temor e tremor de
espírito digamos a Deus: "Põe termo, Senhor, sem mais
delongas, põe termo ao que as tuas mãos fazem! Cessem,
Senhor, as intervenções da tua ira.

A Conquista de Lisboa aos Mouros 147


Deixe de descarregar a tua mão! Basta, Senhorf212 Já
basta, efectivamente, teres até agora combatido por nós
contra estes. Agora, se é possível, con-verta-se o luto
deles em alegria 'para que te conheçam a ti, único Deus
vivo e verdadeiro e àquele a quem enviaste, Jesus Cristo'
213, teu filho, tu que vives e reinas por todos os séculos
dos séculos". Amen214 •

NOTÍCIA DA FUNDAÇÃO

DO MOSTEIRO DE S. VICENTE DE LISBOA1

1. Quem quiser saber por quem ou quando e de que


modo foi fundado o Mosteiro de S. Vicente que está
situado nas imediações da cidade de Lisboa, como é
chamada, na sua zona oriental, faça o percurso de leitura
desta pá-gina2. Aí, efectivamente, colocamos tudo isso,
em estilo breve e simples, segundo relato de pessoas que
atestam terem participado pessoalmente no desenrolar
dos acontecimentos. Algumas delas ainda estão vivas,
como, por exemplo, Fernão Peres3, cavaleiro que sempre
tem mantido na cidade posição de relevo que lhe foi
conferida pelo rei e que, entre os seus concidadãos, é tido
em grande consideração pela sua palavra honrada e bem
aceite, ainda que sem ser alcaide nem juiz entre eles; é o
caso também de Ota, pessoa de nacionalidade teutónica e
converso de bom nome do dito mosteiro, que aí tem
passado, quase desde a primitiva fundação, uma vida
muito edificante. Estes dois, que, por misericórdia de
Deus, estão ainda vivos, coincidem, a uma voz, com o que
aqui nós colocamos, pelo que se confere credibilidade ao
pre-sente trabalho e fica com isso uma notícia fidedigna
para os vindouros. Mas, quanto ao mais, atenhamo-nos à
narrativa e sigamos pela devida ordem o essencial dos
acontecimentos.

Início da narrativa proposta

2. No ano, pois, da Encarnação do Senhor de 1147, o


cristianíssimo rei de Portugal, Afonso, filho do conde
Henrique e da rainha Teresa, extraordinário e decidido
exterminador dos inimigos da cruz de Cristo, no ano 18
do seu reinado, ou, por outra, aos 40 anos de idade,
reuniu o seu exército contra os sarracenos, como era seu
costume todos os anos, acercou-se de Lisboa, então cidade
deles, e sitiou-a no mês de Junho, montando
acampamentos em seu tomo. Tinha na sua companhia
um punhado de homens fortes e selecciona-dos, que o
Senhor lhe enviou em auxílio e que, abrasados no seu
zelo, che-gavam, vindos de diversas regiões do Norte, em
190 navios, a que chamamos barcas4 •

A eles, pois, deu ordens o rei de atacarem pelo lado do


mar, que rodeia

A Conquista de Lisboa aos Mouros 181

a dita cidade. Eram eles, de facto, guerreiros dos mais


fortes pelo vigor, todos com couraças e capacetes,
empunhando lanças, escudos e espadas, ati-radores do
arco, treinados para a guerra. Receberam eles de bom
ânimo as ordens do rei e logo que os navios ancoraram ao
largo, dispostos em for-mação adequada, saltaram
intrépidos em terra, instalando à porfia os seus
acampamentos defronte da cidade, atendo-se cada qual,
no entanto, à sua gente e à sua língua5•

Assim, os acampamentos dos teutónicos e dos restantes


que com eles ti-nham vindo das províncias vizinhas
ocupam as casas dos subúrbios na parte oriental da
cidade, e, expulsando de lá os sarracenos, entram e
instalam-se aí. Por sua parte, os ingleses e a restante
gente da Bretanha e da Aquitânia assentam arraiais nos
subúrbios a ocidente da cidade, depois de escorraça-rem
de lá os pagãos. Entretanto, o rei, com duques e outros
barões, organi-zava o cerco pelo lado norte, por entre as
colinas e os vales que ficam nas proximidades,
espalhando por lá grande multidão de povo.

3. Aconteceu, pois, que tanto a partir de terra como de


mar se travou luta feroz contra os sarracenos que
estavam encurralados, assestando sobre eles munições
de todos os lados e construindo engenhos. Querendo os
francos (era na verdade esta a designação comum a todos
os que vinham dos confins das Gálias e aí se
encontravam) intervir com certa afoiteza, uma parte
deles começou a lançar-se em acções repetidas de
combate, pelo que, inflamados de espírito e confiados nas
suas forças e na corpulência do seu vulto (pare-cia,
realmente, que eram dotados de membros de gigantes),
se chegavam bastante perto das muralhas. Caía sobre
eles uma saraivada de dardos inimi-gos, mas eles, sem
temerem a morte do corpo, por amor de Cristo, mesmo
feridos até à morte, não cessavam de infligir golpes.

Para dar sepultura aos corpos destes homens, segundo o


rito cristão, o rei apressa-se a convocar o conselho, pois
estava realmente emocionado o seu coração com o que se
passava com eles.

Por tal motivo, manda chamar de u~ência o arcebispo de


Braga, D. João~ sacerdote de Deus muito respeitável.
Logo quê ele chega~ o rei diz-lhe:

"Ponho os olhos nestes fortíssimos barões que saíram das


suas terras para combaterem e vieram para aqui pela
boa razão de darem a vida por Cristo, travarem as suas
batalhas e se baterem varonilmente contra os inimigos
da fé. Sem se preocuparem com a vida presente, tentam
sobretudo destruir pela espada os infestos pagãos. Tão
grande, de facto, é o zelo da casa de Deus que neles arde!
Importa, pois, que também nós demonstremos cuidado e
dedica-ção por eles, no que toca a enterrar os corpos
daqueles que caem de entre eles, e por isso levemos a
cabo as suas exéquias com honras dignas de mártires de

A Conquista de Lisboa aos Mouros 183

Cristo. Efectivamente, não tenho dúvidas de que, por


misericórdia de Deus, no céu serão associados aos santos
mártires, pois fica comprovado, pelo seu grande
empenhamento, que seguiram os passos deles na terra.
Por esse moti-vo, o meu senhor e pontífice não adie por
muito tempo consignar-lhes lugares adequados do
cemitério e não muito afastados dos seus acampamen-
tos. Às vossas funções pertence realmente dar
seguimento a isto".

Acrescentou ele um voto, prometendo isto ao Senhor, por


estas palavras: "Se o Senhor Nosso Deus entregar de
uma vez nas mãos dos seus servos esta cidade e se lhe
aprouver que seja eliminado da terra o nome destes
infiéis, tenha Ele por bem certo que eu, seu servo, hei-de
construir-lhe dois mosteiros6 nestes lugares, em que peço
que sejam feitos esses cemitérios, e hei-de insta-lar neles
uma comunidade de religiosos, que, por mim e por
aqueles que aí tenham sido sepultados, se devotem aos
oficios divinos e perpetuamente
prestem assistência diante do Senhor". j

O santo arcebispo congratula-se com tão grande piedade


do rei e enal-tece o seu voto. Na realidade, ficara cheio de
alegria pelas suas declarações

e experimentava grande contentamento. O arcebispo


levanta-se, pois, rápido do seu lugar e convoca todos os
outros bispos que por ali se encontravam e revela-lhes a
vontade do rei. Tomando-os consigo, e, logo de seguida,
junta-mente com o clero, dirige-se a ambos os
acampamentos dos francos, como o rei mandara. Quando
lá chega, demarca dois lugares apropriados para
cemitérios e, invocando o Deus Trino, seguindo o ritual,
procede à aspersão da água benta. Feito isto,
imediatamente abençoa7 duas pedras e levou-as ao rei
para fundar com elas as igrejas, como este prometera. O
rei recebe-as e sem demora procura fazer a construção,
no desejo de antecipar o que esta-belecera em voto, não
duvidando de que Deus, na sua piedade, lhe entregaria a
cidade que estava a cercar.

4. Ergue assim uma das duas pedras nQ cemitério dos


teutónicos, onde agora fica situado o mosteiro do
gloriosíssimo mártir Vicente, em honra de

quem assumimos narrar estes acontecimentos; a outra,


por seu lado, depõe--na no cemitério dos !ngleses, onde
presentem~nte se encontra a igreja de-
signada por Santa Maria, aos Mártires 8, assim
denominada por causa dos que tinham combatido até à
morte por Cristo e ali haviam sido sepultados.

Estando as coisas neste ponto, começaram os francos,


seguindo o rito eclesiástico, a enterrar os seus mortos em
sepulturas e a lançar os caboucos de basílicas em sua
honra, suportando os custos das obras, sob proposta do
rei, cujo espírito viam estar totalmente determinado a
levantar aí, sem demo-ra, os edifícios e os restantes
cómodos dos mosteiros para os oficios divinos

A Conquista de Lisboa aos Mouros 185

que celebrariam os muito devotos clérigos que o haviam


acompanhado em grande número e que eram plenamente
versados nas letras sagradas. Alguns destes eram
monges de muita piedade e solícitos em caminharem no
temor do Senhor.

5. Entretanto, os teutónicos da basílica de S. Vicente,


que se estava a construir no seu cemitério, adiantaram-
se a colocar um presbítero chamado Ruardo, ou, como
outros dizem, Winando, que todos os dias cantasse as
mis-sas e recebesse as ofertas que aí generosamente
eram feitas pelo povo para erguer a fábrica da igreja.
Nomearam também um outro, um leigo de vida santa,
chamado Henrique, que, de acordo com o costume da sua
terra, tocaria para as horas canónicas o sino que aí
haviam erguido e, vigiando às portas da igreja, guardaria
com o devido cuidado o átrio, por dentro e por fora.

Aqui ocorrem já alguns dos admiráveis milagres de Deus,


que são de meter de permeio na nossa narração.
6. Em boa verdade, receamos passá-los em silêncio,
não aconteça que com isso incorramos nalguma censura,
que seria justa, por parte d' Aquele que ao actuar quis
que eles viessem a público.

Efectivamente, enquanto ocorriam os factos de que já


falámos, aconte-ceu que certo cavaleiro de Colónia, de
nome Henrique, nascido numa cidade chamada Bona,
que fica a quatro léguas de distância de Colónia, homem
indubitavelmente nobre de estirpe e de costumes, tombou
em combate na cidade. Tendo sido sepultado, tal como
outros, neste cemitério de S. Vicente, começou-se a falar
em milagres, feitos por acção de Deus, e em grande
número, junto do seu túmulo, e que ele era um
verdadeiro mártir de Cristo e que a sua morte era
preciosa aos olhos de Deus9 •

São alguns destes milagres que procuramos descrever


aqui para que fique bem claro como são grandes os
beneficios de Deus que acompanham os que de todo o
coração O procuram.

7. Aconteceu, pois, que certa vez dois jovens, ambos


surdos-mudos de nascença (os quais, aliás, tinham vindo
na tripulação com os francos), faziam guarda, à vez, cada
um, ao sepulcro de Henrique, cavaleiro de Cristo; conta--
se que o mártir lhes apareceu na figura de um peregrino
que segurava ao ombro uma palma e os convidava a
fazerem a guarda. Logo que sossegaram um pouco, causa
admiração que se diga, acharam-se a falar com tal desen-
voltura e também a ouvir que era como se sempre
tivessem tido o uso tanto da fala como do ouvido. E o que
era muito mais extraordinário era que, de

A Conquista de Lisboa aos Mouros 187


acordo com a diversidade de terras e de povos a que
pertenciam, assim lhes era concedida também a cada um
fala diferente. Propalado, pois, pelo acampa-mento tão
admirável acontecimento, todos e cada um dos que os
viam e ouviam glorificavam o Senhor, sempre admirável
nos seus santos 10, tendo, além do mais, o cavaleiro
Henrique como mártir verdadeiramente dilecto de Cristo.

8. Por outro lado, poucos dias depois, aconteceu que


caiu em combate um seu escudeiro. Pegaram nele os seus
correligionários e sepultaram-no um tanto longe do
sepulcro do seu senhor. Em sonhos, o cavaleiro de Cristo
Henrique aproxima-se de um que estava de sentinela no
átrio da referida basílica de S. Vicente, e de quem há
pouco fizemos menção, e, chamando-o pelo seu nome,
roga-lhe com grande insistência que se levante e de noite
retire o seu escudeiro do lugar em que está e o ponha
junto de si. Isto acon-tece uma primeira vez e repete-se.
Não tendo ele atendido à interpelação que o outro lhe
fizera, veio este uma terceira vez, tomando um aspecto
como que de irritado e aterrador, faz-lhe ameaças, caso
adiasse por mais tempo a exe-cução do que lhe solicitava.
Por tal motivo, ele acorda e, levantando-se a tremer,
apavorado, pois estava sozinho no local, dirigiu-se aonde
estava enterrado o escudeiro. Pegando nele, sepultou-o
ao pé do seu senhor, em se-parado, mas no mesmo
túmulo. Contando, de manhã, o que acontecera, dizia ele
que não sentira nenhum cansaço nem nenhum mal-estar,
quer ~o pegar nele, quer ao sepultá-lo.

9. Contarei também um outro milagre que ocorreu, por


esse tempo, nessa mesma basílica, por acção divina.
Aconteceu, certa vez, que a gente que ia entrar em
combate, mal termi-naram as solenidades da missa,
ansiava por munir-se com as "eulógias", ou seja, com o
pão bento. Assim, de facto, se tornara hábito
diariamente. Quando o sacerdote queria partir os
bocadinhos, para distribuí-los a cada um, e já metera a
faca a um dos pães para o cortar, eis que (coisa digna de
admiração) metade do pão cortado se encontra
ensanguentado e o sangue ainda vivo. Então, o sacerdote
e todos os que estavam presentes ficaram tomados de
estu-pefacção repentina, pois, à vista do sucedido, o
pânico apoderara-se deles. Ao investigarem logo ali a
razão do acontecido, descobriram que aquele pão fora
confeccionado com farinha roubada, que alguém, ao
morrer, mandara distribuir pelos pobres. Quando, por
fim, isto foi revelado no acampamento, todos acorrem a
ver e, pondo os olhos no que acontecera, regressavam
cheios de assombro e, não duvidando que o auxílio divino
estava com eles, cheios de fé, louvavam e glorificavam o
Senhor, o único que faz milagres.

A Conquista de Lisboa aos Mouros 189

I O. Ilustrado que estava, pois, o acampamento com


tantas graças de Deus e fortalecidos com tais favores,
retomam forças, cerram fileiras, levantam engenhos,
derrubam muros, em tomo, com aríetes, fazem cair sobre
as muralhas dardos e flechas, encurralam os inimigos
por todos os lados, não os deixando descansar por um
momento sequer.

Ao verem tanta firmeza e tanta persistência da parte dos


cristãos, os pagãos, por seu lado, perdem as esperanças
de poderem resistir por mais tempo e entregam a cidade,
incapazes de aguentar mais os esforços da guer-ra.
Estavam, na verdade, já quase exaustos, de fora, pela
espada, de dentro, pela míngua de pão e de água.

11. No ano, pois, da Encarnação do Senhor, de 1147, no


mês de Outubro, no dia em que se celebra nas igrejas de
Deus o aniversário dos santos már-tires Crispino e
Crispiniano, o ilustríssimo rei Afonso, por intervenção di-
vina, alcança o almejado triunfo e entra na cidade
rendida com todo o seu exército, os corações de gente em
festa a erguerem louvores a Deus até às alturas e a
entoarem imensas acções de graças pela prodigiosa
vitória que lhes era concedida dos céus.

12. Deste modo, alguns dias depois, realizada a


ocupação da cidade, dis-postas as coisas e feita também a
distribuição de casas, campos e vinhas pelo povo
vencedor, o rei, muito reconhecido pelos benefícios de
Deus para con-sigo, e não esquecido dos seus actos de
misericórdia, procura cumprir o voto que fizera quando
ainda estava no acampamento e mostra empenho em dar
andamento à construção dos mosteiros que fundara nos
cemitérios dos fran-cos, como antes referimos.

Por tal motivo manda chamar à sua presença o bispo da


cidade, que fi-zera ordenar havia pouco tempo. Chamava-
se ele Gilberto, era de naciona-lidade inglesa, e era um
homem realmente bem instruído nas sagradas letras e
merecedor de perpétua e piedosa memória.

Quando ele chega, o rei dirige-lhe estas palavras: "Eu,


bom pontífice, quando ainda estava no acampamento
defronte desta cidade e me encontra-va já preparado
para a atacar, movido de piedade por aqueles que caíam
feri-dos em combate pela espada inimiga, sem qualquer
constrangimento, tomei um compromisso por voto junto
do meu Senhor Jesus Cristo, por amor de quem também
eles não hesitaram em morrer. Fiz voto, efectivamente,
de nas basílicas que vedes começadas junto dos sepulcros
dos mártires, reunir uma comunidade de religiosos que
se ocupassem incessantemente dos ofícios divinos e se
encarregassem da minha salvação e da sua perante o
Senhor, se entretanto me acontecesse, por misericórdia
de Deus, usufruir da vitória

A Conquista de Lisboa aos Mouros 191

sobre os inimigos, como acontece hoje. Desejando agora,


pois, levar a efeito o que prometi, peço o conselho e bem
assim o apoio do pontífice, já que coisa desta natureza
não pode nem deve ser levada à prática sem a providên-
cia e intervenção do bispo."

A isto o bispo responde: "O voto que o senhor, meu rei,


emitiu é muito salutar, muito grato a Deus e necessita de
plena execução, pois está escrito: «Fazei votos ao Senhor
Vosso Deus e satisfazei-os». Quanto ao parecer a dar
sobre esta obra tão santa e tão admirável, o que é que eu,
servo do rei, devo fazer senão o que ele próprio quiser
ordenar? Seja o senhor, meu rei, a indicar-me, a mim,
seu servo, o que ele próprio pretende fazer, e eu de bom
grado o assumirei".

Responde-lhe o rei: "Quereria, bom pontífice, que,


tomando uma parte do santo trabalho, e em ordem a
virdes receber o quinhão da recompensa, tornásseis
efectivamente a vosso cuidado uma das referidas
basílicas, a que, com vossa licença, for do vosso agrado,
ficando ela para vós e para os vos-sos sucessores, por
direito hereditário, com tudo o que possui e vier a pos-
suir ao longo de todo o tempo, e quereria que a outra a
deixásseis para mim e para os meus descendentes, com
todas as prerrogativas que aí forem con-feridas por mim
e por outros fiéis para os gastos necessários com os que
nela viverem. Esteja, pois, nas vossas mãos escolher uma
delas de imediato e colocá-la sob o vosso domínio".

O bispo respondeu: "Se apraz ao rei que lhe respondamos


a esta propos-ta, dê ele tempo para consultarmos o
Cabido e os meus irmãos, sob cujo con-selho devo tomar
tais decisões".

Retoma o rei: "Quanto a mim, estou plenamente de


acordo em que vades consultar os vossos cónegos e não
demoreis a dar-me uma resposta precisa sobre o
assunto".

Pôs-se, pois, o bispo a caminho e, reunidos todos os seus


clérigos em assembleia, diz-lhes: "O rei disse-me isto e
aquilo. Convoquei-vos, portan-to, para que em comum
decidais o que lhe devemos responder".

Em resposta, disseram eles, por sua vez, ao bispo: "Há


que fazer o que apraz ao rei; todos somos dele; dele
recebemos tudo o que possuímos, foi ele que, com a
protecção de Cristo, expulsou os pagãos da terra que
habitamos, com a sua espada. No entanto, já que nos foi
dada opção, devemos escolher

de ~referência a basílica de Santa Maria, aos Mártires,


uma vez que est.á mais próxima.da cidade-e-é--aí que se
razem maiores ofertas. Quant~ à outra, que é

a de S. Vicente, já que assim é do vosso consentimento,


deixe-se à disponibili-dade do rei".
Assumindo tal conselho, imediatamente o bispo o
transmitiu ao rei. Por sua parte, o rei anuiu de bom
grado.

A Conquista de Lisboa aos Mouros 193

A partir desse momento, o bispo de Lisboa com os seus


clérigos entrou em posse plena da basílica de Santa
Maria, aos Mártires, que o rei Afonso lhes concedeu
contra a liberdade perpétua da basílica de S. Vicente,
cuja posse de futuro, com todos os seus direitos, lhe
pertenceria e com tal estatuto a reteve para si.

13. Depois disto, procurando o rei, com bastante


diligência, homens de santa observância para os poder
instalar nesta mesma basílica, recomeçam os milagres
divinos junto do sepulcro de Henrique, cavaleiro de
Cristo. Foi o caso que uma palma, trazida aos ombros de
Jerusalém segundo o costume dos peregrinos, que tinha
sido deposta no sepulcro, à cabeça do mártir, pouco
tempo depois, reverdeceu e rebentou da terra, cresceu em
altura e tornou-se uma árvore revestida de folhas e de
verdura11 • Ora, todos os que tinham doenças vinham
àquele sepulcro a fim de aí fazerem as suas súplicas e,
tiran-do daquela palma, penduravam-na ao pescoço ou,
reduzindo-a a pó, bebiam--no e imediatamente ficavam
curados de qualquer doença que os afectasse.

Permaneceu ela aí, como contam os que viram, até que


finalmente foi completamente levada por mãos dos
doentes. Há, no entanto, quem diga que, não estando
ninguém de guarda, foi de lá arrancada, sem ninguém
saber, para ser transplantada para outro lugar.
14. Entretanto, planeando o rei, como já dissemos,
constituir aí uma comunidade, eis que um abade de
altíssima santidade, de nome Gualter, de nacionalidade
flamenga, chega a Lisboa, acompanhado por quatro
irmãos da sua ordem; o motivo da sua viagem era a
intenção de fundar uma nova comunidade.

Ouvindo o rei falar muito bem dele, fica muito satisfeito


com a sua chegada e logo tudo prepara para o colocar à
frente da referida basílica, em cujos aposentos
trabalhava com solicitude.

Quando, pois, o dito abade veio à presença do rei para lhe


pedir a cons-trução de um lugar conveniente para a
comunidade, diz-se que ele deu ao seu pedido a seguinte
resposta: "Abade, tenho uma basílica por mim funda-da
de raiz; tenho grande afecto por ela e reservei-a até agora
para mim, esperando de dia para dia que me fosse
destinado por Deus um homem bom, a quem com
segurança pudesse confiar o seu governo. Agora,
portanto, vendo que, por disposição divina, a minha
esperança de cumprir o voto se realiza, pretenderia que
vós recebêsseis de bom grado o encargo desta mesma
basílica e ser-vos-ão sempre postos a vosso lado, tanto o
nosso con-selho sem reservas como a ajuda juntamente
com a protecção régia".

Exposta esta situação pelo rei, o abade Gualter assume o


leme da igreja

A Conquista de Lisboa aos Mouros 195

de S. Vicente e, a partir de então, passou o rei a entregar


a essa igreja cam-pos, vinhas, hortas, moinhos, rebanhos
de ovelhas, de cavalos, de gado bovi-no, de porcos, e as
demais coisas necessárias à manutenção dos irmãos nela
residentes. Também a todos os que resolvessem escolher
aí sepultura e que entregassem parte dos seus recursos, o
rei tomava-os beneficiários dela12 •

15. Em confirmação disto, o rei mandou fazer também


um rescrito, cujo teor era este, segundo as suas palavras:
"Posto que é próprio dos príncipes e dos reis enriquecer
os lugares santos, fazer-lhes concessões por benfeitores,
ampliá-los nas suas propriedades, assim também eu, rei
Afonso, a vós, cidadãos de Lisboa, e a todos os outros fiéis
faço carta de posse juntamente comigo da igreja de S.
Vicente, que eu tomei à minha conta na conquista de
Lisboa aos mouros, por tal forma que todos aqueles que
quiserem ter a sua sepultura nessa igreja ou aí constituir
benefícios ou esmolas, eles e os seus filhos e os
descendentes deles, sejam comigo, com os meus filhos e
com toda a minha descendência, beneficiários para
sempre nesta igreja. O que fica por escrito, também eu,
rei Afonso, o roboro por minhas próprias mãos e certi-fico
com o meu selo, tendo como testemunhas e subscritores
Gilberto, bispo da igreja de Lisboa, Gonçalo de Sousa,
meu mordomo, e Pero Pais, meu alferes".

16. Tal era o empenho posto em acção pelo rei Afonso


em tomo da cons-trução da referida basílica e tais eram
os benefícios com que a favorecia, pois ela acabava de ser
fundada de raiz.

Quanto ao mais, falta dizer quais foram os seus


responsáveis até aos nos-sos dias, já que no início da sua
fundação a governou o próprio rei Afonso, colocando nela
presbíteros que se revezavam a cantar as missas no dia a
dia. O primeiro de entre eles foi Roardo, que atrás
recordámos; o segundo foi Hícia, de ascendência inglesa;
o terceiro foi Salérico, igualmente inglês, que também
era monge. Depois chegou o abade Gualter, que, como
dissemos, foi o primeiro a ser nomeado pelo rei e foi o
primeiro a ser seu prelado. No entanto, ao pretender ele
fazê-la depender de um mosteiro premonstratense como
se nele estivesse filiada, e estando, por sua vez, o rei em
desacordo, ele largou-a em boa paz e voltou à sua terra,
para junto dos seus.

Tendo ele partido, o rei constituiu como prior a um


cónego de Grijó, chamado David. Este, poucos anos
depois, por ordem do rei, regressa ao lugar de onde viera.
A este sucedeu no priorado um cónego do Banho, por
nome Godinho, que depois foi bispo da igreja de
Lamego13 • Depois deste, governou-a durante quase oito
anos Mendo, de boa memória, que igual-mente fora
cónego do Banho. Após a morte deste, em idade já
avançada, foi

A Conquista de Lisboa aos Mouros 197

D. Paio, que ainda vive, quem, por mercê de Deus, tem


assumido o seu cuidado de forma denodada, durante a
governação do rei Sancho, filho do referido rei Afonso,
governação essa que leva já três anos decorridos no ano
da Encarnação do senhor de 1188.

Como se deduz, pois, do que ficou dito, o mosteiro de S.


Vicente de Lisboa foi fundado pelo rei Afonso e
construído no ano de 1148 da Encarnação de Nosso
Senhor Jesus Cristo, que é bendito pelos séculos. Amen.
n

DOAÇÃO DO CRUZADO RAUL A SANTA CRUZ &E


C.OIMBRA ANTI, Santa Cruz de Coimbra, maço 3, n.0
18

1148 (Era ll86). O presbítero Raul, afirmando-se cruzado


interveniente activo na conquista de Lisboa aos mouros,
lega em testamento a Santa Cruz de Coimbra os lugares
por ele edificados nos arrabaldes da mesma cidade por
ocasião do cerco.

Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Eu, Raul,


sacerdote, jun-tamente com outros meus companheiros,
ao tomar parte no cerco de Lisboa, ao tempo em que a
cidade com todo o seu território ainda se encontrava na
posse dos sarracenos, tendo sido o primeiro de todos os
navegadores a pôr o pé em terra, ainda longe da cidade e
de todos os seus habitantes, de dentro e de fora, uma vez
escorraçados por mão armada todos os infiéis, feita
oração em certo lugar solitário coloquei nele a bandeira
da santa cruz e no segundo dia da nossa chegada levantei
um altar para servir a Deus e ao Senhor Jesus Cristo.
Vivendo em tal lugar desse esse dia, embora sem me
esquecer de tomar parte na luta diária com os restantes
companheiros, levado pela maior devoção, com o meu
dinheiro pessoal e bem assim com o meu próprio tra-
balho e suor construí um ermitério em honra da bem-
aventurada Virgem Maria e para louvor de Nosso Senhor
Jesus Cristo. No seu cemitério, foram sepultados os
ingleses que faleceram ou foram mortos pelas setas dos
sarra-cenos. Uma vez, porém, tomada a cidade e
removidas todas as impurezas dos infiéis, com o
patrocínio de Afonso, rei de Portugal e com autorização
de D. João, arcebispo de Braga, eu, tendo tomado
conhecimento da vossa vida em comum sob a Regra de
Santo Agostinho, faço testamento, a vós, cónegos de
Santa Cruz do Mosteiro de Coimbra, do dito lugar com
tudo o que lhe pertence e tem de possessões. Isto, para
remédio da minha alma e dos meus parentes e de todos
aqueles que consta terem sido aí sepultados.
Se acaso alguma pessoa, eclesiástica ou secular, tentar
pôr em causa ou infirmar esta página de testamento,
qualquer que seja o seu alcance, seja obrigado por
tribunal régio a indemnizar dez vezes a dita igreja em
favor do mosteiro de Santa Cruz e se não o fizer fique sob
vínculo de excomunhf.o e privado da comunhão e do
convívio dos fiéis cristãos. De qualquer modo,

A Conquista de Lisboa aos Mouros 205

este meu acto tenha validade perpétua e pague ele cem


marcas de prata genuína aos cónegos de Santa Cruz.

Feito este instrumento de testamento no mês de Abril de


1186 (a. D. 1148). Eu, o dito Raul, sacerdote, que este
documento mandei fazer perante testemunhas idóneas, o
roboro e nele faço este sinal+.

Estiveram presente:

Eu, Afonso, rei de Portugal, confirmo;

Fernão Peres, testemunha;

Rodrigo Pais, alcaide, testemunha1;

Mendo Afonso, testemunha.


Eu, João, arcebispo de Braga, conf.

Eu, João, bispo de Coimbra, conf.

Eu, Pedro, bispo do Porto, conf.

Eu, Honório, bispo de Viseu, conf.

Eu, Mendo, bispo de Lamego, conf.

SALVADO, SUBDIÁCONO, NOTÁRIO.

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