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AULA 1

ÉTICA, DIREITOS HUMANOS E


DIREITOS DA CIDADANIA

Profª Juliana Bertholdi


TEMA 1 – BREVE INTRODUÇÃO AO TEMA

A presente aula tem por escopo investigar a interação entre a ética, os


direitos humanos e os direitos da cidadania, relacionando como tais matérias
podem auxiliar na gestão pública e na construção de políticas públicas assertivas
e funcionais.
Conforme assente mais adiante, é preciso pensar não só políticas públicas
que garantam o acesso de todos aos direitos assegurados pela Constituição
Federal, como também uma cidadania eticamente comprometida com a
realidade e a transformação social. Uma Política de Direitos Humanos, com
base na ética e na participação cidadã, que garanta aos indivíduos a condição de
ser, no plano econômico, um cidadão sadio, no plano político, um cidadão
participante, no plano intelectual, um cidadão consciente das relações de poder,
e, no plano da ética, um cidadão comprometido com a realidade social.

TEMA 2 – O QUE É ÉTICA?

2.1 Conceito

Desde sua origem, o ser humano, ser social que é, aderiu à convivência
em comunidade para preservar sua vida e minimizar as agruras com a
manutenção de sua sobrevivência: primitivamente, a vida coletiva significava a
permanência da espécie.
Como consequência da vida do ser humano em comunidade, a aquisição
e a construção de valores acerca do bem e do mal, do justo e do injusto, do certo,
do incerto e do errado, por força da habitualidade, tornaram-se costumes, regras
aceitas, obedecidas por toda a comunidade e transmitidas por meio das gerações,
constituindo o domínio da ética e da moral (Felizardo, 2012, p. 3).
Nesse sentido, Cortella (2009, p. 102) ensina que a ética é o que marca a
fronteira da nossa convivência – em suas palavras, “é aquela perspectiva para
olharmos os nossos princípios e os nossos valores para existirmos juntos [...], é o
conjunto de seus princípios e valores que orientam a minha conduta”.
No que concerne a um assunto clássico dos filósofos e pensadores, Chauí
(1998, p. 25) afirma que a filosofia existe há 25 séculos, e que, nesse período, a
ética como um dos seus principais ramos esteve sempre presente e continua viva.

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A ética é compreendida atualmente como parte da filosofia, cuja teoria
estuda o comportamento moral e relaciona a moral como uma prática, entendida
por Cortella (2009, p. 103) como o “exercício das condutas”. Além disso, é
entendida como um tipo ou qualidade de conduta que é esperada das pessoas
como resultado do uso de regras morais no comportamento social.
Academicamente, a ética é uma disciplina filosófica que estuda três famílias
de problemas, dividindo-se por isso em três áreas, conforme ensinamentos de
Murcho (2009):

 A metaética estuda problemas relacionados com a natureza da própria


ética, como a questão de se saber se os valores éticos são relativos ou não
– tema que abordaremos em seguida.
 A ética normativa estuda o problema de se saber o que é o bem último, isto
é, o bem que não é meramente instrumental para outros bens, e o problema
de se saber o que faz uma ação ser boa – o deontologismo, o
consequencialismo, a ética das virtudes e o contratualismo são as quatro
grandes famílias de teorias éticas normativas.
 Finalmente, a ética aplicada ou prática estuda problemas como a
permissibilidade do aborto, a relevância moral dos animais inumanos, a
obrigatoriedade de ajudar as populações mais pobres ou a moralidade da
guerra.

Em suma, a ética discute os valores que se traduzem em existências


humanas mais felizes, mais realizadas, com mais bem-estar e qualidade de vida.
Além disso, busca os valores que signifiquem dignidade, liberdade, autonomia e
cidadania.
Conforme pontua Cortina (2003, p. 18), inobstante a palavra ética ter
passado a fazer parte do vocabulário cotidiano, demonstrando a vigência de uma
preocupação urgente e universal: “ninguém chega realmente a acreditar que ela
seja importante, e mesmo essencial para viver”. Há de se questionar, portanto,
por que a ética se tornou tema ao mesmo tempo recorrente e banalizado,
superficial.
À medida que entendemos a importância da ética para a sobrevivência
humana com qualidade e integridade, compreendemos também a complexidade
envolvida em suas relações com outros campos do saber e da prática, incluindo
os Direitos Humanos e os Direitos à Cidadania, fundamentais à vida humana em
sociedade.
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TEMA 3 – FUNDAMENTOS DA ÉTICA

O vocábulo ética tem sua origem no grego ethos, vernáculo que se refere
ao modo de ser do indivíduo ou ao caráter do ser humano. Na Grécia antiga
(século IV a.C.), os filósofos foram os primeiros a pensar o conceito de ética,
associando a tal palavra a ideia de moral e cidadania. Precisavam de honestidade,
fidelidade e harmonia entre cidadãos, uma vez que as cidades-estado estavam
em desenvolvimento.
Nesse sentido, Sócrates, Platão e Aristóteles são os pensadores gregos
mais estudados e citados no campo da ética. Pregavam virtude, firmeza moral e
outras atitudes pautadas nos conceitos advindos de ethos. Com o passar dos
séculos, diferentes escolas de pensamentos e filósofos construíram e
aperfeiçoaram os conceitos, e é fulcral que se faça uma breve incursão histórica.

3.1 Grécia Antiga

3.1.1 Sócrates

Nascido em Atenas provavelmente no ano 740 a.C., Sócrates veio a se


tornar um dos principais pensadores da Grécia Antiga. Afeiçoado à música e à
literatura, dedicou-se à meditação e ao ensino filosófico, debatendo e dialogando
longamente com as pessoas de sua região.
Assim, não fundou propriamente uma escola de pensamento, mas, realizou
trabalhos em locais públicos, principalmente em praças e ginásios. Costumava
agir de forma descontraída e descompromissada nesses espaços, fascinando a
todos.
A ética socrática tem por base o conhecimento e conjeturar a felicidade
como o fim de toda ação. O objetivo dessa ética é preparar o homem para o
autoconhecimento, a base do agir ético. A filosofia socrática prima pela
submissão, pela ética do coletivo sobre a ética individual.
Nesse sentido, a obediência à lei era o limite entre a civilização e a barbárie:
onde existem as ideias de ordem e coesão, podem-se dizer garantidas a
existência e a manutenção do corpo social. Trata-se, assim, da ética do respeito
às leis por bondade, conhecimento e felicidade.
Sobre o pensamento do filósofo, Vázquez (1997, p. 231) esclarece:
“Resumindo, para Sócrates, bondade, conhecimento e felicidade se entrelaçam

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estreitamente. O homem age retamente quando conhece o bem e, conhecendo-
o, não pode deixar de praticá-lo; por outro lado, aspirando ao bem, sente-se dono
de si mesmo e, por conseguinte, é feliz”.
Para Sócrates, “virtude é sabedoria (sofia) e conhecimento. Já o vício é o
resultado da ignorância. Assim, o saber fundamental é o saber a respeito do
homem. Sobre essa ideia, o pensador teria dito suas frases mais conhecidas como
‘conhece-te a ti mesmo’ e ‘sei que nada sei’” (Egg, 2012, p. 6).
Desse modo, “o homem enquanto integrado ao modo político de vida deve
zelar pelo respeito absoluto às leis comuns a todos, mesmo em detrimento da
própria vida” (Bittar, 2017, p. 6). Assim, “o ato de descumprimento da sentença
imposta pela cidade representava para Sócrates a derrogação de um princípio
básico do governo das leis, qual seja, a eficácia”. Segundo Sócrates, com a
eficácia das leis comprometida, a desordem social reinaria (Bittar, 2017, p. 6).
Devido à sua liberdade de expressão e às fortes críticas que fazia à política
da Grécia, foi acusado de corromper os jovens da época e condenado a beber
cicuta. Morreu no ano 399 a.C.

3.1.2 Platão

Platão viveu entre os anos 428 a.C. e 347 a.C. e foi um destacado filósofo
grego, considerado um dos principais pensadores de sua época. Discípulo de
Sócrates, procurava transmitir uma profunda fé na razão e na verdade, adotando
o lema “o sábio é o virtuoso” do referido filósofo. Escreveu diversos diálogos
filosóficos, entre eles “A República”, obra dividida em dez volumes.
Ele propõe uma ética transcendente: o fundamento de sua proposta ética
não é a realidade empírica do mundo, nem mesmo as condutas humanas ou as
relações humanas, mas, sim, o mundo inteligível. O filósofo centra suas
indagações na ideia perfeita, boa e justa que organiza a sociedade e dirige a
conduta humana.
As ideias formam a realidade platônica e são os modelos segundo os quais
os homens têm seus valores, leis, moral. Conforme o conhecimento das ideias,
das essências, o homem obtém os princípios éticos que governam o mundo social.
O uso reto da razão é entendido como o meio de alcançar os valores
verdadeiros que devem ser seguidos pelos homens. No mito da caverna, o filósofo
expõe a condição de ignorância na qual se encontra o homem ao lidar com o
conhecimento das aparências.

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Somente pelo conhecimento racional o homem pode elevar-se até as
ideias, até o ser e conhecer a verdade das coisas. Isso se dá por meio do método
dialético, o qual elimina as aparências e encontra as essências, a verdade no
conhecimento das coisas.
Esse método filosófico tem por finalidade libertar os homens da ignorância
e levá-los ao conhecimento de ideia em ideia, até alcançar o conhecimento da
ideia suprema: o bem. As outras ideias participam desta e devem sua existência
a ela (Vaz, 2017).
Nesse sentido, a virtude platônica é entendida como a

capacidade de realizar a tarefa que lhe é inerente [...]. No caso do


governante da cidade e da alma racional, a virtude inerente aos mesmos
é a sabedoria; no caso dos guerreiros e da parte irascível da alma, a
virtude que lhes é própria é a coragem; por fim, no caso da parte
concupiscente da alma e dos produtores de bens da cidade, a virtude
própria é temperança. (Vaz, 2017)

Portanto, o sentimento de justiça é “a virtude maior cujo valor ético guia


as condutas dos homens, o bem em si mesmo”, uma vez que ele realiza o ideal
de justiça, com relação tanto ao bem individual quanto ao bem social (Vaz, 2017).
Assim, para a ética platônica, é possível definir a justiça como cada parte
fazendo o que lhe compete, conforme suas aptidões próprias, estabelecendo-
se, portanto, uma analogia entre a sociedade e o indivíduo que levaria à
conceituação da ética.
A ética platônica, então, está intimamente ligada ao correto modo de agir
dos indivíduos e suas objetivações de alcance da felicidade: nos diálogos de “A
República”, Platão afirma ser a ética uma organização funcional dentro da alma
humana. Assim que harmoniosamente organizadas as almas humanas, a relação
do homem com a polis pode ser ética e coesa.

3.1.3 Aristóteles

O filósofo Aristóteles nasceu no ano 384 a.C., na cidade de Estágira, na


Macedônia, Grécia. Filho de Nicômaco, médico do rei Amintas III, Aristóteles
formou-se em Ciências Naturais. Aos 17 anos mudou-se para Atenas, a fim de
estudar na “Academia” de Platão. Com sua extraordinária inteligência, logo se
tornou o discípulo bem-amado de seu mestre, que observou: “minha Academia se
compõe de duas partes: o corpo dos alunos e o cérebro de Aristóteles” (Frazão,
2018).

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A ética aristotélica, em oposição à ética de seu mestre, é imanente, tendo
suas bases na realidade empírica do mundo, no questionamento acerca das
condutas humanas e na organização social. As exigências com relação à vida na
polis e a realidade do homem formam o conteúdo das ideias, e são ambas as
responsáveis pela escolha dos valores, pela moralidade e pelas leis, pela
definição das condutas dos homens. Sua teoria ética era realista e empirista, em
contrapartida à visão idealista e racionalista de Platão, devendo ser lida dentro de
sua teoria política.
A ética aristotélica inicia-se com o estabelecimento da noção de
felicidade. Nesse sentido, pode ser considerada eudemonista por buscar o que é
o bem agir em escala humana, o agir segundo a virtude – diferentemente de
Platão, que buscava a essência das ideias de felicidade e da ideia do bem sem
relacioná-las diretamente à prática.
A felicidade é definida como uma certa atividade da alma que vai de acordo
com uma perfeita virtude: a busca do sumo bem. Partindo dessa definição, faz-se
necessário um estudo sobre o que é uma virtude perfeita e, assim, também sobre
a natureza da virtude moral.
A virtude é definida pelo estagirita como hábito ou disposição racional
constante, sendo um hábito que torna o homem bom e o capacita para a boa
execução de sua função. Essa definição se mostra oposta à de Platão: a virtude
é definida como capacidade de realizar uma função determinada, inerente a
alguma parte da alma humana ou da cidade ideal (Vaz, 2017).
Por sua vez, a virtude moral seria a disposição de agir de forma
deliberada, com a ação de acordo com a reta razão. Assim, a virtude moral é
adquirida como resultado do hábito, que determina nosso comportamento como
bom ou ruim.
Para Aristóteles, diferentemente da lógica platônica, nenhuma das virtudes
morais surge nos homens por natureza, pois o que é natural não pode ser alterado
pelo hábito. Assim, “virtudes e artes são adquiridas pelo exercício, ou seja, a
prática das virtudes é um pré-requisito para que se possa adquiri-las. Sem a
prática, não há a possibilidade de o homem ser bom, de ser virtuoso” (Vaz, 2017).
A virtude intelectual, por sua vez, seria aquela “adquirida através do
ensino, e, assim, necessita de experiência e tempo” (Vaz, 2017). É devido ao
hábito que tomamos a justa medida com relação a nós. Logo, a mediania é

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imposta pela razão com relação às emoções e é relativa às circunstâncias nas
quais a ação se produz.
Nesse sentido, Medeiros (2016) destaca:

Trata-se de um homem ‘essencialmente destinado à vida em comum na


polis e somente aí se realiza como ser racional. Ele é um zoon politikón
por ser exatamente um zoon logikón, sendo a vida ética e a vida política
artes de viver segundo a razão’”. (Lima Vaz, 2004, p. 38-39, citado por
Pansarelli, 2009, p. 13)
E Hélcio Corrêa afirma que na polis grega o cidadão só é reconhecido
como tal a partir de sua inserção na comunidade política e a razão
prática que norteia a ação do cidadão grego está intimamente ligada ao
ethos “[...] entendido este como um conjunto de tradições, costumes e
valores próprios da vida na polis” (2011, p. 77) e, no caso de Aristóteles,
“[...] as noções de ética e política se completam reciprocamente na teoria
da justiça. (2011, p. 77)

Desse modo, a ética aristotélica está intimamente ligada à felicidade, pois


todos a buscamos, devendo-se atentar à justa medida, que nada mais é que saber
agir sem exageros ou extremos. Uma pessoa ética e feliz é aquela que age com
prudência e equilíbrio entre suas virtudes e em relação à polis.

TEMA 4 – ÉTICA AO LONGO DA HISTÓRIA

4.1 Ética na Antiguidade – a ética romana

Como é consabido, o direito brasileiro e, consequentemente, nossa lógica


jurídica, dogmática e hermenêutica têm fortes raízes no direito romano, permeado
de matrizes éticas muitas vezes olvidadas por estudiosos. Boa parte dos
caracteres romanos está intrinsecamente conectada ao pensamento filosófico
grego, sobretudo ao estoicismo – cuja ética é fundamentalmente conectada à
teoria do uso prático da razão com o fim de estabelecer o acordo entre ela e a
natureza.
Reportando-se à definição de Celso, filósofo romano, o também pensador
Ulpiano define o direito como a arte do bom e do justo. Trata-se da única definição
romana de ius. A partir dela, podemos inferir a estreita correlação entre o direito e
a ética constantemente afastada nos tempos atuais (Böttcher, 2013, p. 157).
Böttcher (2013, p. 157) ensina:

A natureza é a ordem racional, perfeita e necessária, que é o destino ou


o próprio Deus. E a ação, que se projeta conforme a ordem racional, é o
dever. Portanto, a ética estoica é, fundamentalmente, uma ética do dever
e a noção do dever torna-se pela primeira vez a ideia fundamental da
ética. Porém, o dever não é o bem. O bem começa a existir quando a
escolha aconselhada pelo dever é repetida e consolidada, mantendo

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sempre sua conformidade com a natureza até se tornar no homem uma
disposição uniforme e constante, ou seja, uma virtude, a qual é
verdadeiramente o único bem. Além dos bens (virtudes), existem outras
coisas que são dignas de serem escolhidas. Para indicar o conjunto
desses bens e coisas, os estoicos adotaram a palavra valor (axia).

Entre os filósofos romanos da Antiguidade, destaca-se Marco Túlio Cícero,


que nasceu em 106 a.C. e morreu em 43 a.C. Além de filósofo, foi também orador,
escritor, advogado e político romano (Egg, 2012, p. 10). Defendia que a vida era
pautada segundo as prescrições da natureza, o que significa, em última análise,
servir o interesse geral da coletividade em detrimento de seu próprio, como
destaca de trecho da obra de Cícero o autor Comparato (2016, p. 117):

Cada qual deve, em todas as matérias, ter um só objetivo: conformar o


seu próprio interesse com o interesse geral; pois se cada um chamar
tudo a si, dissolve-se a comunidade humana. Se a natureza determina
que devemos respeitar um homem pelo só fato de as condições
humanas, é inegável que, sempre segundo a natureza, há algo que é de
interesse comum a todos os homens; se assim é, somos todos sujeitos
a uma só mesma lei natural, que proíbe atentar contra direitos alheios.

Bem resume Egg (2012, p. 9):

os filósofos romanos dessa época, de um modo geral, convergiam para


a mesma preocupação com a conduta humana, com o caráter do
indivíduo e com seus costumes. Todos esses aspectos em conjunto
recebem o nome de moral. Esses filósofos também acreditavam que o
principal objetivo das ações humanas está na própria virtude, pela sua
retidão ou honestidade. A moral foi para os romanos um conjunto de
deveres que a natureza impôs ao homem, seja pelo respeito a si próprio,
seja pela relação com outros homens.

4.2 Ética cristã na Idade Média

Por volta do século III a.C., o Império Romano passou por uma enorme
crise econômica e política que culminou em corrupção sem precedentes instalada
no Senado, agravada pelos gastos exorbitantes com artigos de luxo que
escassearam os recursos a serem investidos no exército romano.
Assim, “com o enfraquecimento da instituição militar romana, somado à
crise política avassaladora, no ano de 395 a.C., o império Teodósio resolveu dividir
os limites de seu império” (Egg, 2012, p. 10). Dava-se, com isso, o fim da
Antiguidade e o início da Idade Média.
Na Idade Média, com a ascensão do catolicismo na Europa Ocidental, a
ética passa a se vincular à religião e aos dogmas cristãos, dominando a
epistemologia entre os séculos XI e XIX, a despeito de mudanças significativas

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com o renascimento e, depois, a entrada na modernidade e o iluminismo (Egg,
2012, p. 10).
Desta feita, como se passará a desenhar, ganham ênfase as revelações
dos livros sagrados traduzidos pelo clero e, a partir deles, passam a ser
determinadas as regras de condutas sociais. A figura de Jesus de Nazaré ganha
espaço central para a construção dessa nova ética: a do amor ao próximo. A igreja
católica e seus dogmas se mantiveram por muitos anos (Egg, 2012, p. 10).

4.2.1 São Tomás de Aquino

Tomás de Aquino (1.125-1.274) foi um frade dominicano responsável pela


orientação e proteção religiosa da sociedade. Uma de suas maiores façanhas foi
aplicar a visão aristotélica na doutrina cristã, sendo sua obra permeada das
categorias aristotélicas (as quatro causas, atos e potências, substância e
acidente), fato que colaborou para o surgimento da Escolástica.
Para o filósofo e teólogo, era a união do corpo com a alma que formava a
identidade e a dignidade de uma pessoa, sendo apenas por meio do exercício da
razão humana aliado à revelação divina que o homem poderia atingir a perfeição
das virtudes. Sua vertente afirma que “Deus era o legislador, e os padres,
intérpretes da lei” (Egg, 2012, p. 10).
Para o pensamento tomista, a fé e a razão estavam unidas e não poderia
haver contradição entre ambas, pois estavam sempre dirigidas rumo a Deus. Esse
pensador também afirmou que toda criação é boa, tudo o que existe é quando se
está sob a orientação dos mandamentos de Deus. Ele também pontuou que o mal
é a ausência de uma perfeição divina (Egg, 2012, p. 10).

4.3 Idade Moderna

Durante a transição da Idade Média para a Idade Moderna, a igreja católica


começou a cair no descrédito da população devido ao protestantismo e a outros
movimentos que eclodiram com a Reforma Religiosa do século XVII, época em
que ocorreu a formação e a consolidação dos estados-nação europeus,
precedendo a Revolução Francesa e Industrial, quando a separação entre Estado
e igreja se tornou definitiva, com a ascendência do antropocentrismo e a
aceleração do avanço da ciência (Egg, 2012, p. 10).

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Nesse contexto, destaca-se Martinho Lutero, religioso que viveu entre os
séculos XV e XVI e lutou pela reforma da igreja católica, sendo responsável pela
Reforma Protestante, que acabou por gerar as quebras de paradigma que
possibilitaram a queda do catolicismo.
Lutero, no seu movimento reformista, promoveu a educação para todos,
inclusive para camponeses e mulheres. Traduziu a bíblia do latim para o alemão,
dando a oportunidade para que todos a conhecessem. O aperfeiçoamento da
imprensa por Gutenberg também ajudou a divulgar a sagrada escritura dos
cristãos (Egg, 2012, p. 10).
Vale enfatizar que, na Idade Moderna, foram consideráveis as
transformações de “ordem social, econômica e política, como as viagens às Índias
e às Américas e a Revolução Científica, proporcionada por Nicolau Copérnico,
Galileu Galilei, Newton, dentre outros” (Egg, 2012, p. 10), evolução que gerou
novas reflexões e visões das interações humanas, impactando diretamente na
leitura da ética até então centrada nas lógicas cristãs.
Assim, “os filósofos modernos resgataram aspectos do pensamento
filosófico greco-romano no tocante à necessidade de toda a humanidade alcançar
a sabedoria e a felicidade, principalmente pautando-se no equilíbrio e na razão”
(Egg, 2012, p. 10), afastando, então, a ética cristã até então posta.
A exemplo, cita Egg (2012, p. 10):

Immanuel Kant (1724-1804) foi um filósofo prussiano, considerado o


último grande filósofo dos princípios da Era Moderna. Kant teve um
grande impacto no Romantismo alemão e nas filosofias idealistas do
século XIX. Para Kant, a ética é autônoma, ou seja, corresponde à lei
ditada pela própria consciência moral. Esse filósofo deu prosseguimento
à construção da própria ideia moral, afirmando que aquilo que o homem
procura está dentro dele mesmo.

TEMA 5 – RELAÇÃO ENTRE A ÉTICA E OUTRAS CIÊNCIAS

5.1 Ética e política

Uma marca característica da ética na Antiguidade, quando de seu


nascimento, é sua indissociabilidade da política. Desde Platão e seu discípulo
Aristóteles, a ideia de constituição da polis é perpassada pelo princípio de que a
cidade deve ser dirigida por governantes sábios, justos e virtuosos.
É de Aristóteles, por exemplo, a afirmação de que o homem é um animal
político – zoon politikon. “Trata-se de um homem ‘essencialmente destinado à vida
em comum na polis e somente aí se realiza como ser racional. Ele é um zoon
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politikón por ser exatamente um zoon logikón, sendo a vida ética e a vida política
artes de viver segundo a razão’” (Lima Vaz, 2004, p. 38-39, citado por Pansarelli,
2009, p. 13).
Nesse sentido, Cachichi (2011) afirma que, na polis grega, o cidadão só é
reconhecido como tal a partir de sua inserção na comunidade política, e a razão
prática que norteia a ação do cidadão grego está intimamente ligada ao ethos,
entendido como “[...] um conjunto de tradições, costumes e valores próprios da
vida na polis” (p. 77). No caso de Aristóteles, “[...] as noções de ética e política se
completam reciprocamente na teoria da justiça” (Cachichi, 2011, p. 77).
Assim, tais esferas estão relacionadas pela natureza do poder. Quando
falamos em democracia, como nos ensina Zajdsznajder (1994, p. 96), a grande
preocupação das pessoas que elegem o político refere-se ao uso indevido do
poder, quando o eleito coloca seus interesses particulares acima dos interesses
do povo, desviando os recursos em benefício próprio ou para pagar promessas
feitas durante a campanha eleitoral. É uma das questões éticas mais relevantes
do campo da política.

5.2 Bioética

Os estudiosos da bioética empreendem esforços para debater questões


referentes à vida humana e às melhorias na qualidade de vida do homem. É uma
área composta de estudos multidisciplinares da biologia, da medicina e da
filosofia. Egg (2012, p. 12) destaca que:

com o notável avanço da Medicina, em especial na pesquisa genética,


surgiram grandes preocupações no campo da ética. A clonagem
humana e a fecundação artificial são exemplos de práticas genéticas que
vêm alterar conceitos e realidades da sociedade e hoje. Por exemplo,
com as descobertas da biociência, passou-se a questionar muitos pilares
da ética médica, impactando diretamente as diretrizes e políticas
públicas voltadas à saúde.

5.3 Ética e sociologia

Tais matérias estão intimamente ligadas, pois a sociologia trata das leis que
regem o desenvolvimento e a estrutura das sociedades humanas. Notoriamente,
a ética sociológica impacta diretamente na construção das gestões públicas e,
igualmente, na idealização e na implementação de políticas públicas.
Segundo Egg (2012, p. 12):

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A sociologia estuda o indivíduo inserido no meio social, de quem se
espera um comportamento ético para o bem coletivo. As transformações
sofridas nos tempos modernos atingem o homem em sociedade. A
evolução das máquinas no campo e na indústria causam o alto índice de
desemprego, a evasão rural e a superpopulação das cidades. A
sociologia por sua vez está cada vez mais próxima da ética para
encontrar soluções para esses problemas presentes na vida do indivíduo
contemporâneo.

5.4 Ética e direito

Acerca da íntima relação entre direito e ética, bem coloca Egg (2012, p.
13):

a relação entre estas áreas refere-se ao próprio fato de que o homem


está sujeito às normas que regulamentam as condutas sociais. Os
homens necessitam das leis e de sanções para manterem a ordem na
sociedade. A sociedade depende de estatutos para determinar regras de
convívio, deveres e direitos.

5.4.1 Ética e Direitos Humanos

Descobrir formas de nos tornar sujeitos de práticas éticas em nosso dia a


dia sem nos reduzirmos aos códigos e às restrições existentes em qualquer
sociedade é um dos grandes desafios da atualidade.
Mendonça Filho e Nobre (2009, p. 12) questionam:

Como discernir entre atitudes passivas de submissão, subserviência e


constrangimento das atitudes ativas das práticas de liberdade? Como,
em meio às relações de poder que, muitas vezes, nos oprimem e tornam
esse mundo insuportável, estabelecer relações de cuidado de si e dos
outros (Foucault, [1982-1983] 2008), sem esperar recompensa ou
castigo?
Um devir ético da imanência não se processa apenas nas lutas contra
forças negativas do mundo: o abuso de poder, a menorização e
desqualificação do outro, todo tipo de racismo que nos atravessa liquida
a vida. Assim, direitos humanos precisam ser constantemente
conquistados, e não simplesmente resgatados, sendo as práticas éticas
faróis que os iluminam.

5.4.2 Ética e Direito da Cidadania

O termo cidadania vem se tornando paulatinamente mais popular. A


tendência à universalização dos “Direitos Humanos”, ostentados em declarações
internacionais, faz com que a noção de cidadania ultrapasse as fronteiras dos
estados nacionais e consagre a noção do homem como “cidadão do mundo”.
Esse conjunto de circunstâncias possibilitou à esfera pública um espaço de
debates com a função política de transformar pessoas privadas em sujeitos da
esfera pública: nasce, assim, o cidadão, sujeito de Direitos Humanos que interatua

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com a ordem estatal e participa dos debates públicos, espaço em que a ética
ganha especial relevância. Tais relações serão melhor exploradas futuramente.

LEITURA COMPLEMENTAR

MURCHO, D. Ética e direitos humanos. Cadernos da Escola do Legislativo,


Belo Horizonte, v. 12, n. 19, p. 37-56, jul./dez. 2009. Disponível em:
<https://criticanarede.com/valoresrelativos.html>. Acesso em: 27 nov. 2018.

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REFERÊNCIAS

BITTAR, E. C. B. Curso de Ética Jurídica. 13. ed. São Paulo: Saraiva, 2017.

BÖTTCHER, C. A. O legado ético e universalista do Direito Romano. Revista da


Faculdade de Direito – Universidade de São Paulo, São Paulo, v. 108, p. 155-
167, 2013. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br/rfdusp/article/view/67981>.
Acesso em: 27 nov. 2018.

CACHICHI, R. C. D. As relações entre ética e política na concepção de justiça em


Aristóteles. Revista CEJ, Brasília, v. 15, n. 55, p. 76-85, out./dez. 2011. Disponível
em: <http://www.jf.jus.br/ojs2/index.php/revcej/article/viewFile/1483/1524>.
Acesso em: 27 nov. 2018.

CHAUÍ, M. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 1998.

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Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.

ZAJDSZNAJDER, L. Ser ético. Rio de Janeiro: Gryphus, 1994.

16
AULA 2

ÉTICA, DIREITOS HUMANOS E


DIREITOS DA CIDADANIA

Profª Juliana Bertholdi


TEMA 1 — FUNDAMENTOS HISTÓRICOS DOS DIREITOS HUMANOS

A saga por direitos é marca das democracias contemporâneas e constitui


“exigência inarredável da agenda política interna constitucional e externa do
direito internacional dos direitos humanos” (Fachin, 2015).
Como direitos históricos, os direitos humanos estão em constante
transformação, sendo assim entendidos como processos, decorrências
transitórias, frutos de dinâmicas sociais (Flores, 2009), que se alteram no curso
do tempo, adaptando-se ao contexto social.
De fato, os direitos humanos jamais se erguem todos de uma única vez ou
mesmo de uma vez por todas (Bobbio, 1988); em realidade, surgem
progressivamente, como reinvindicação moral, quando precisam surgir e no
momento em que encontram terreno fecundo para tanto (Piovesan, 2011),
necessitando, portanto, de constante atenção e manutenção.
Não se trata, assim, de um dado, mas de uma edificação paulatina, uma
invenção humana em constante processo de construção e reconstrução (Arendt,
1979), sendo devotada a necessidade de sua reafirmação e racionalização de
resistência, formando processos que criam e consolidam espaços na luta pela
dignidade humana.
Dessa forma, os direitos humanos são produzidos com base na dinâmica
social “em defesa de novas liberdades contra velhos poderes”, frutos de uma
racionalidade de resistência (Flores, 2009).
Os direitos humanos crescem, então, como um contrapoder (Ferrajoli,
2007), que marca o processo constante de lutas contra a lei do mais forte, tônica
que bem se amolda aos direitos humanos que visam equilibrar as relações
assimétricas de poder como insurreições contra os despotismos, sejam
provenientes dos campos público ou privado (Fachin, 2015). É contra essas
assimetrias de poder, inclusive, que atuam boa parte das políticas públicas.

1.1 Conceituação básica

A contemporânea concepção de direitos humanos foi inaugurada pela


Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, avançando para explorar a
universalidade e integralidade de tais direitos, conceitos fundamentais para
compreensão dos entendimentos mais atuais acerca dos direitos humanos.

2
Nesse sentido, destaca-se o art. 5º da Declaração e Programa de Ação de
Viena, de 1993:

Todos os direitos humanos são universais, indivisíveis interdependentes


e inter-relacionados. A comunidade internacional deve tratar os direitos
humanos de forma global, justa e equitativa, em pé de igualdade e com
a mesma ênfase. Embora particularidades nacionais e regionais devam
ser levadas em consideração, assim como diversos contextos históricos,
culturais e religiosos, é dever dos Estados promover e proteger todos os
direitos humanos e liberdades fundamentais, sejam quais forem seus
sistemas políticos, econômicos e culturais.

1.2 Características dos direitos humanos

1.2.1 Universalidade

Sobre essa fundamental característica, bem aponta Fábio Comparato


(2004) que é a partir do período axial que, pela primeira vez, o ser humano passa
a ser considerado, em sua igualdade essencial, como ser dotado de liberdade e
razão, não obstante as múltiplas diferenças de sexo, raça, religião ou costumes
sociais. Conclui-se, assim, serem os fundamentos intelectuais para compreensão
do que é a pessoa humana e para afirmação da existência de direitos universais,
porque inerentes à pessoa – independentemente de suas múltiplas diferenças.
Assim, os direitos humanos passam a adquirir esses contornos de
universalidade, descolando-se da dependência das culturas locais para serem
entendidos como amplos e inafastáveis, independentemente da moral local.
Nesse aspecto, Henkin (1990) esclarece a característica em questão:

Direitos Humanos são universais: eles pertencem a todos os seres


humanos em toda sociedade humana. Eles não diferem geografia ou
história, cultura ou ideologia, política ou sistema econômico ou estágio
de desenvolvimento social. Chamá-los de humanos implica que todos os
seres humanos têm esses direitos, igualmente e em igual medida em
virtude da sua humanidade – sem discriminação de sexo, raça, idade;
sem discriminação de bom ou mau nascimento, classe social, origem
nacional, étnica ou filiação tribunal; sem discriminação de riqueza ou
pobreza, ocupação, talento, mérito, religião, ideologia ou outro
comprometimento.

Arion Romita (2009) nos informa que esses direitos são variáveis, a
depender de cada sociedade, porém há o reconhecimento no mundo da existência
de um mínimo de direitos conferidos a todas as pessoas. Existe uma corrente
chamada de relativismo cultural a qual contesta a universalidade dos direitos
humanos, considerando que não há direitos universais, e defende o pluralismo
cultural, pois cada povo teria uma ótica diferente acerca do que seriam os direitos

3
fundamentais os quais dependeriam da sua cultura e da época para tal definição.
Dessa forma, a universalidade dos direitos humanos significaria a imposição da
cultura ocidental pelo mundo, causando a extinção da diversidade cultural
(Piovesan, 2009).
Porém, na Primeira Parte da Declaração de Viena de 1993, o art. 5º
demonstra claramente as características dos direitos humanos, afirmando o seu
caráter universal ao adotar a teoria universalista.
Dessa maneira, “apesar de não existir uma unanimidade a respeito da
característica da universalidade, entende-se a maioria dos doutrinadores,
inclusive as declarações, como a Declaração de Viena, a universalidade dos
Direitos Humanos” (Almeida, 2017).

1.2.2 Irrenunciabilidade, inalienabilidade e imprescritibilidade

Os direitos humanos são irrenunciáveis, inalienáveis e imprescritíveis.


Assim, como bem ensina Almeida (2017), “afirmar que os Direitos Humanos são
irrenunciáveis, significa que tais direitos não podem sofrer a denominada
renúncia, isto é, os titulares não podem desistir de tais direitos em decorrência
deles serem essenciais a todas as pessoas, eles se configuram como direitos
personalíssimos”.
Ainda, afirma a autora serem os direitos humanos inalienáveis, não sendo
possível transferi-los por meio de título gratuito ou oneroso.
Luigi Ferrajoli (2017) assevera que:

[...] a inalienabilidade fundamenta-se no fato de que os direitos


fundamentais são normativamente direitos de todos os membros de uma
coletividade, por isso não são alienáveis ou negociáveis, já que
correspondem a prerrogativas não contingentes e inalteráveis de seus
titulares e a outros tantos limites e vínculos inarredáveis para todos os
poderes, tanto públicos como privados.

E, nesse sentido, conclui Almeida (2017):

A imprescritibilidade também é uma das características dos Direitos


Humanos, isto é, a não utilização de algum direito não impõe a sua
perda, esses direitos são intrínsecos ao ser humano, desta forma,
perduram ao longo de sua vida, desde o seu nascimento até a sua morte,
uma vez que são direitos extrapatrimoniais.

A prescrição é a perda da pretensão punitiva em decorrência do decurso


do tempo, ou seja, é a impossibilidade de ajuizar uma ação judicial para
que o juiz condene aquele que violou ou ameaçou a lesar o seu direito.
Esse instituto atinge a provável indenização que se obteria em um
processo de conhecimento para reparar dano ou ameaça de dano a
algum direito, haja vista a indenização possuir cunho patrimonial.

4
TEMA 2 — DIREITOS HUMANOS DE PRIMEIRA DIMENSÃO

Os direitos humanos de primeira dimensão aludem à liberdade. Bobbio


(1988) afirma que, no início da Era Moderna, houve a luta pela concessão de
garantias de liberdades fundamentais frente às opressões do Estado, como a
concessão de liberdade religiosa, a partir de guerras de religião, e das liberdades
civis e políticas, com o parlamento combatendo o monarca. Por meio das
revoluções liberais advindas nos séculos XVII e XVIII, a exemplo das Revoluções
Americana e Francesa, apresentando como norte o liberalismo político (limitação
do Estado pelo Direito) e o individualismo jurídico, exigiam do Estado
principalmente uma abstenção, ou seja, a não interferência do poder estatal nas
relações privadas (Romita, 2009).
Os direitos civis correspondem aos direitos individuais, como o direito à
vida, à liberdade e à propriedade. Já os direitos políticos são relacionados à vida
política do Estado, isto é, o direito de votar e o de ser votado, porém, eles não
tinham a mesma amplitude que possuem modernamente, pois eram direitos
restritos a determinada classe econômica. Assim, só teria a capacidade ativa
(votar) e a capacidade passiva (ser votado) quem tivesse certa quantia de bens e,
além disso, as mulheres e os analfabetos não eram titulares desses direitos.
Arion Romita (2009) ilustra em outra ótica os direitos de primeira geração:

[...] os direitos fundamentais do primeiro naipe podem ser classificados


em: direitos pessoais (vinculados à autonomia, à liberdade e a à
segurança da pessoa) e direitos políticos (ajustados à ideia de
participação). Os primeiros são os direitos voltados à proteção da
expansão da personalidade sem interferência do Estado. Os outros são
os direitos da pessoa em face do Estado ou no Estado, vale dizer,
direitos de tomar parte na vida pública e na vida política,
correspondentes ao status activae civitatis de Jellinek.

Nesse sentido, por fim, diz Almeida (2017):

Os direitos civis e políticos são basicamente individuais, porquanto são


direitos oponíveis somente ao Estado, pretendia-se uma abstenção
apenas das autoridades estatais, logo, são direitos de resistência ou
oposição.

Fernando Barcellos de Almeida [1996] posiciona que esses direitos


foram universalizados pela Revolução Francesa, atualmente eles estão
reconhecidos no Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos, 1966,
cuja aprovação foi feita pela XXI Assembleia Geral da ONU, enfatizando
que tal pacto entrou em vigor em 23 de março de 1976.

5
TEMA 3 — DIREITOS HUMANOS DE SEGUNDA DIMENSÃO

A segunda dimensão dos direitos humanos relaciona-se à igualdade. Os


direitos reconhecidos por essa família são chamados de direitos sociais,
econômicos e culturais (Novelino, 2011). São direitos que exigem a atuação do
Estado nas relações sociais, econômicas e culturais, assim como traduzem a ideia
de igualdade material ou substancial, como corrobora Rúbia Alvarenga (2009):

Os direitos de segunda geração são aqueles que cobram atitudes


positivas do Estado para promover a igualdade entre as categorias
sociais desiguais. Não se referem à mera igualdade formal de todos ante
a lei, mas à igualdade material e real de oportunidades, protegendo
juridicamente os hipossuficientes nas relações sociais de trabalho e os
padrões mínimos de uma sociedade igualitária. Esses direitos incidiram
sobre a relação de trabalho assalariado para proteger a classe operária
contra a espoliação patronal e a desigualdade social desencadeada
pelos abusos do capitalismo desenfreado.

O ensejo à mudança de status negativo para positivo exigida pela


sociedade frente ao Estado decorreu da ampla desigualdade provocada pela
Revolução Industrial do século XIX. Essa dimensão, como explana Bonavides
(2010), foi dominada pelo século XX.
Já Arion Romita (2009) afirma que são chamados direitos sociais, “porque
não assistem ao indivíduo como tal, considerado abstratamente, mas sim à
pessoa em sua vida de relação do grupo em que convive, ao indivíduo
considerado em concreto”. E é por essa razão que, de acordo com alvarenga
(2009), o “Estado deveria agir na saúde, na educação, no trabalho, na assistência
social”.
Os direitos humanos de segunda dimensão também estão previstos no art.
22 da Declaração Universal dos Direitos:

Artigo XXII

Toda pessoa, como membro da sociedade, tem direito à segurança


social e à realização, pelo esforço nacional, pela cooperação
internacional e de acordo com a organização e recursos de cada Estado,
dos direitos econômicos, sociais e culturais indispensáveis à sua
dignidade e ao livre desenvolvimento da sua personalidade.

Tais direitos estão previstos ainda no Pacto Internacional dos Direitos


Econômicos, Sociais e Culturais, de 1966. Sobre isso, Bonavides (2010) nos faz
saber que tais direitos foram proclamados nas Declarações marxistas, na
Constituição de Weimar de 1919; com o constitucionalismo socialdemocracia,

6
após a Segunda Guerra Mundial, tais direitos foram introduzidos em todas as
Constituições.

TEMA 4 — DIREITOS HUMANOS DE TERCEIRA DIMENSÃO

Os direitos humanos de terceira dimensão “relacionam-se à fraternidade


(ou solidariedade). Esse foi um movimento ocorrido após a Segunda Guerra
Mundial, quando a humanidade passou a buscar a solidariedade entre as
pessoas” (Almeida, 2017).
Nesse período, a sociedade mundial percebeu a necessidade da
internacionalização dos direitos humanos, especialmente em decorrência das
barbaridades cometidas pelos nazistas, pois não bastaria a proteção de tais
direitos apenas no âmbito nacional (Piovesan, 2009). Essa dimensão de direitos
“abrange o direito ao desenvolvimento, ao meio ambiente, à paz, à propriedade
sobre o patrimônio comum da humanidade, à comunicação, previstos na
Declaração Universal das Nações Unidas, 1948 e nas demais convenções
internacionais do séc. XX” (Almeida, 2017).
Bonavides também tratou do assunto com bastante propriedade:

Dotados de altíssimo teor de humanismo e universalidade, os direitos da


terceira geração tendem a cristalizar-se no fim do século XX como
direitos que não se destinam especificamente à proteção dos interesses
de um indivíduo, de um grupo ou de um determinado Estado. Têm
primeiro por destinatário o gênero humano mesmo, num momento
expressivo de sua afirmação como valor supremo em termos de
existencialidade concreto. Os publicistas e juristas já os enumeram com
familiaridade, assinalando-lhe o caráter fascinante de coroamento de
uma evolução de trezentos anos na esteira da concretização dos direitos
fundamentais. Emergiram eles da reflexão sobre temas referentes ao
desenvolvimento, à paz, ao meio ambiente, à comunicação e ao
patrimônio comum da humanidade.

Nesse contexto, a solidariedade, como afirma Romita (2009): “Assume a


feição de um dever assumido pelos indivíduos que tomam consciência de suas
obrigações recíprocas como membros do mesmo grupo, a ser observado por todo
homem diante de seus semelhantes”. Em relação à fraternidade, os
revolucionários franceses entenderam que teria como finalidade unir as pessoas,
rompendo as diferenças entre elas.

7
TEMA 5 — SISTEMA INTERNACIONAL DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS
HUMANOS

5.1 Antecedentes históricos

Não obstante os primeiros passos rumo à construção de um Direito


Internacional dos Direitos Humanos tenham se dado logo após o fim da Primeira
Guerra Mundial, com o advento da Liga das Nações e da Organização
Internacional do Trabalho, a consolidação desse novo ramo do Direito ocorre
apenas com o fim da Segunda Guerra Mundial.
Assim, forjada a Declaração Universal em 1948, consolidou-se o Direito
Internacional dos Direitos Humanos. Igualmente, ocorreu a sua universalização a
partir da legislatura de pactos e tratados que trouxeram normatividade e
positivação aos já consagrados direitos, reafirmados globalmente em
Conferências Mundiais sobre Direitos Humanos.
Tal processo redefiniu o conceito tradicional de soberania estatal, até então
tido como absoluto e ilimitado, reconhecendo que o indivíduo também, e não
apenas o Estado, é sujeito de Direitos Internacionais. Nesse sentido, explicou
Almeida (2017):

Com efeito, à medida que se passa a admitir intervenções internacionais


em prol do indivíduo por ocasião de violação aos direitos humanos no
âmbito interno dos Estados, a noção tradicional de soberania absoluta
dos Estados resulta prejudicada.

A contribuição destes órgãos ao processo de universalização dos


direitos humanos é inegável. Afinal, ao proteger os direitos fundamentais
em época de guerra, promover a paz e a segurança internacionais, e
estabelecer um padrão global mínimo para as condições de trabalho,
deu-se o primeiro passo rumo ao reconhecimento de que os direitos
humanos devem ser protegidos independentemente de raça, credo, cor
ou nacionalidade, podendo a comunidade internacional intervir no caso
dos Estados furtarem-se a fornecer tal proteção a seus nacionais. Com
o advento daqueles institutos, prenuncia-se o fim da era em que a forma
pela qual o Estado tratava os seus nacionais era concebida como um
problema de jurisdição doméstica, restrito ao domínio reservado do
Estado, decorrência de sua soberania, autonomia e liberdade.

5.2 A internacionalização dos direitos humanos: o pós-guerra

A Segunda Guerra Mundial foi que fez mais vítimas e provocou mais
mudanças na história mundial, com o início da era atômica e a dizimação de mais
de 50 milhões de seres humanos. Tais situações, de gravidade sem precedentes,

8
significou verdadeira ruptura da ordem internacional com os direitos humanos. A
violação desses direitos durante a guerra foi tamanha que, com seu fim, a
comunidade internacional se viu obrigada a novamente voltar os olhos para o
tema. Sobre isso, afirmou Almeida (2017):

Entendeu-se com o fim da Segunda Guerra Mundial, que, se houvesse


um efetivo sistema de proteção internacional dos direitos humanos,
capaz de responsabilizar os Estados pelas violações por eles cometidas,
ou ocorridas em seus territórios, talvez o mundo não tivesse tido que
vivenciar os horrores perpetrados pelos nazistas, ao menos não em tão
grande escala.

Os direitos humanos passam, então, a ser uma verdadeira preocupação


em escala mundial, o que impulsionou o processo da sua
universalização e o desenvolvimento do Direito Internacional dos
Direitos Humanos, por meio de uma estrutura normativa que veio a
permitir a responsabilização internacional dos Estados quando estes
falharem em proteger os direitos humanos dos seus cidadãos. Passou-
se a compreender que a soberania estatal, de fato, não pode ser
compreendida como um princípio absoluto, devendo ser limitado em prol
da proteção aos direitos humanos, haja vista esta ser um problema de
relevância internacional.

5.3 O Tribunal de Nuremberg de 1945-1946

Marco importante no mencionado processo de universalização dos direitos


humanos, a constituição e o funcionamento dos Tribunais de Nuremberg e de
Tóquio (1945-1949), ainda que permeados por intensa polêmica atinente a sua
qualidade de tribunal de exceção, significaram um grande avanço no
desenvolvimento do Direito Internacional dos Direitos Humanos.
Aponta Flávia Piovesan (2009) sobre o significado do Tribunal de
Nuremberg: “O significado do Tribunal de Nuremberg para o processo de
internacionalização dos direitos humanos é duplo: não apenas consolida a ideia
da necessária limitação da soberania nacional, como também reconhece que os
indivíduos têm direitos protegidos pelo Direito Internacional”.

5.4 A Carta das Nações Unidas

Ainda com o mesmo sentimento de urgência após a Segunda Guerra


Mundial, diversas foram as organizações internacionais que surgiram com a
finalidade de promoção de cooperação internacional, dentre as quais destaca-se
a Organização das Nações Unidas (ONU), criada em 26 de junho de 1945 pela
Carta das Nações Unidas, considerada “a mais ambiciosa experiência em
organização internacional até os nossos dias” (Almeida, 2017). Dentre os

9
objetivos da ONU, destacam-se a manutenção da paz e da segurança
internacionais, o alcance da cooperação internacional nos planos econômico,
social e cultural, a proteção internacional dos direitos humanos.
Dessa forma, inaugura-se, então, uma nova ordem internacional,
preocupada não só com a manutenção da paz entre os Estados, mas também em
grande escala com a promoção universal dos direitos humanos (Almeida, 2017).
Assim, consolidou-se a universalização dos direitos humanos, promovida e
protegida não apenas pela própria ONU, mas também por diversos organismos e
mecanismos de proteção dos direitos humanos e das liberdades fundamentais,
“direcionados a todas as pessoas, independente de raça, sexo, religião e
nacionalidade” (Piovesan, 2012).

5.5 Mecanismos não convencionais de proteção dos direitos humanos

 Sistema Global de Proteção dos Direitos Humanos

 Declaração Universal dos Direitos Humanos


 Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos
 Protocolo Facultativo ao Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos
 Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais

5.6 O sistema especial de proteção dos direitos humanos no âmbito das


Nações Unidas

 Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de


Discriminação Racial
 Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação
contra a Mulher e seu Protocolo Facultativo
 Convenção sobre os Direitos da Criança
 Convenção contra a Tortura e outros Tratamentos ou Penas Cruéis,
Desumanos ou Degradantes
 Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio
 Estatuto de Roma referente ao Tribunal Penal Internacional

10
LEITURA COMPLEMENTAR

BENVENUTO, J. Manual de direitos humanos internacionais: acesso aos


sistemas global e regional de proteção dos direitos humanos. Disponível em:
<https://www.uniceub.br/media/181730/Texto4.pdf>. Acesso em: 13 dez. 2018.

11
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Disponível em: <https://jus.com.br/artigos/61538/direitos-humanos-no-ordena
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ALVARENGA, R. Z. de. O direito do trabalho como dimensão dos direitos
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ARENDT, H. As origens do totalitarismo, trad. Roberto Raposo, Rio de Janeiro:
Documentário, 1979.
BOBBIO, N. Era dos direitos, trad. Carlos Nelson Coutinho, Rio de Janeiro:
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COMPARATO, F. K. Afirmação histórica dos direitos humanos. São Paulo:
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FACHIN, M. G. Direitos humanos e desenvolvimento. Rio de Janeiro: Renovar,
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FERRAJOLI, L. In: ADORNO, R. dos S. Da inalienabilidade dos direitos
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Direitos humanos e desenvolvimento. Rio de Janeiro, Renovar, 2015.
FLORES, J. H. A (re)invenção dos direitos humanos. Florianópolis: Boiteux,
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HENKIN, L. In: ALVARENGA, R. Z. de. O direito do trabalho como dimensão
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Brasil: 2003-2010. Rio de Janeiro: Cepia; Brasília: ONU Mulheres, 2011.
ROMITA, A. S. Direitos fundamentais nas relações de trabalho. 3. ed. São
Paulo: LTr, 2009.

12
AULA 3

ÉTICA, DIREITOS HUMANOS E


DIREITOS DA CIDADANIA

Profª Juliana Bertholdi


TEMA 1 – DIREITOS HUMANOS E INSTITUCIONALIZAÇÃO DOS DIREITOS E
GARANTIAS FUNDAMENTAIS

Nas últimas aulas pudemos entender como se deram os fundamentos


históricos dos direitos humanos, suas principais características, classificações e
como se deu a construção de seu sistema internacional de proteção.
Como pudemos observar, os direitos humanos exsurgem no direito
internacional de forma paulatina, contínua, sendo fulcral a atenção constante a
sua aplicação e manutenção. De fato, conforme já apontado, os direitos humanos
surgem “progressivamente, como reinvindicação moral, quando precisam surgir e
no momento em que encontram terreno fecundo para tanto” (Piovesan, 2011, p.
63).
Nesta aula, abordaremos como se deu o movimento histórico de
abrangência dos Direitos Humanos na legislação brasileira, sua importância na
constituição das lutas sociais e na compleição de novos sujeitos de direito, bem
como os conceitos e concepções sobre Direitos Humanos e Direitos
Fundamentais, à luz dos tratados internacionais, da Constituição Federal e de
diplomas legais correlatos ao tema.

1.1 Distinção entre Direitos Humanos e Direitos Fundamentais

A fim de retomar conteúdo anterior e aclarar uma significativa distinção,


buscando sempre uma melhor compreensão da presente temática, faz-se
necessária a distinção entre as expressões “direitos humanos” e “direitos
fundamentais”, que comumente – e não por acaso – são utilizadas como
sinônimos.
Nesse sentido, tem-se que a diferença básica entre direitos humanos e
direitos fundamentais se assenta justamente no sistema legal a que se encontram
vinculados.
Vejamos:

o conjunto de direitos e liberdades do ser humano institucionalmente


reconhecidos e positivados no âmbito do direito constitucional
positivo de determinado Estado, enquanto que os direitos humanos
estão abarcados pelo direito internacional, porquanto extensivos a todos
os seres humanos, independentemente de sua vinculação a
determinada ordem constitucional, apresentando validade universal e
caráter supranacional”. (Moraes, 2003)

2
Nesse sentido, o professor Ingo Wolfgang Sarlet (2006, p. 35) vai além ao
valer-se do espaço e a efetividade como significativos fatores responsáveis pela
diferença terminológica:

Em que pese sejam ambos os termos (“direitos humanos” e “direitos


fundamentais”) comumente utilizados como sinônimos, a explicação
corriqueira e, diga-se de passagem, procedente para a distinção é de
que o termo “direitos fundamentais” se aplica para aqueles direitos
reconhecidos e positivados na esfera do Direito Constitucional positivo
de determinado Estado, ao passo que a expressão “direitos humanos”,
guardaria relação como os documentos de Direito Internacional por
referir-se àquelas posições jurídicas que se reconhecem ao ser humano
como tal, independentemente de sua vinculação com determinada
ordem constitucional, e que, portanto, aspiram à validade universal, para
todos os povos e tempos, de tal sorte que revelam um inequívoco caráter
supranacional.

Cumpre destacar que, muito embora haja diferenças entre direitos


humanos e direitos fundamentais, essas duas categorias não são antagônicas.

Importa, por hora, deixar aqui, devidamente consignado e esclarecido o


sentido que atribuímos às expressões “direitos humanos” e “direitos
fundamentais”, reconhecendo, ainda mais uma vez, que não se cuida de
termos reciprocamente excludentes ou incompatíveis, mas, sim, de
dimensões íntimas e cada vez mais inter-relacionadas, o que não afasta
a circunstância de se cuidar de expressões reportadas a esferas distintas
de positivação, cujas conseqüências práticas não podem ser
desconsideradas. (Sarlet, 2006, p. 42)

Desta feita, até o presente momento nos referíamos aos Direitos Humanos
por estarmos tratando de direitos abarcados pelo direito internacional, sendo que,
doravante, ao abordar direitos e garantias similares, porém dentro do
ordenamento jurídico nacional, vamos nos referir a Direitos Fundamentais.
Assim, em apertada síntese, “enquanto os direitos humanos são aqueles
declarados como inerentes ao ser humano, com pretensões de universalidade”,
os direitos fundamentais são “apenas daqueles direitos os reconhecidos e
positivados na Constituição de um determinado Estado, havendo, assim,
pretensões de territorialidade, ou seja, de âmbito nacional” (Moreira, 2011),
relacionando-se profundamente, mas não confundindo-se.
De tal modo, os direitos fundamentais se desenvolvem e se firmam com a
Constituição na qual foram reconhecidos e assegurados: aqui no Brasil, com o
advento da Constituição Federal de 1988.

3
TEMA 2 – DIREITOS FUNDAMENTAIS NA HISTÓRIA BRASILEIRA

Como é consabido, o desenvolvimento dos direitos fundamentais no Brasil


aconteceu sob a influência do movimento constitucionalista europeu que exsurgiu
no final do século XVIII. Assim, em maior ou menor importe, todas as constituições
brasileiras possuíram em seus textos a consideração pelos direitos fundamentais;
não obstante, só foi possível identificá-los de forma expressa e sólida na
Constituição Federal de 1988.

2.1 Constituição Imperial

A Constituição do Império, datada de 1824, carregava em seu texto, ainda


que de forma bastante tímida, os direitos fundamentais de primeira dimensão, no
Título 8º, sob a nomenclatura de Garantia dos Direitos Civis e Políticos dos
Cidadãos Brasileiros.
Como informa José Afonso da Silva, é a primeira Constituição, no mundo,
a subjetivar e positivar os direitos do indivíduo, dando-lhes concreção jurídica
efetiva (Silva, 2007, p. 170). Em seu texto, a constituição imperial previa direitos
individuais como liberdade, segurança individual e propriedade. A Constituição de
1824 ainda reconheceu direitos sociais que só seriam constitucionalizados em
outros países no final do século XIX (Pestana, 2017).
É o que nitidamente se extrai da leitura dos incisos XXI, XXII e XXIII do art.
179, que, sucessivamente, garantem os “socorros públicos”, a instrução primária
universal e gratuita e a existência de colégios e universidades. Assim, não
obstante a parcimônia de tais disposições, havia relativa e significante abertura
para a ideia de direitos sociais para a época em que cunhada (Nunes Junior, 2017,
p. 4).
Há de se anotar, conforme cita Nunes Junior (2017),

que à época, a Constituição apresentava o chamado “poder moderador”,


o que representava, na prática, a limitação do exercício dos direitos por
meio da própria discricionariedade do governo. Desta feita, ainda que
Constituição de 1824 tenha trazido superficialmente os direitos
fundamentais de primeira e segunda dimensão, havia um claro
impedimento que tais direitos fossem efetivamente exercidos pelos
cidadãos.

4
2.2 Constituição de 1981

Infelizmente, “a abertura parcialmente promovida pela Constituição anterior


não influenciou significativamente a Constituição republicana, datada de 1891,
que deixou de flertar com direitos fundamentais e sociais para limitar-se ao
reconhecimento dos direitos de liberdade” (Nunes Junior, 2017).
A Reforma de 1926 integrou o direito do trabalho à Constituição. Tal
modificação, embora significativa, não teve o poder de mudar acentuadamente,
mesmo no plano hipotético, a natureza da ordem jurídica estabelecida, como
ensina Nunes Junior (2017, p. 4).

2.3 Constituição de 1934

De acordo com Pestana (2017), “a Constituição de 1934 sofreu grande


influência das constituições europeias, como a da República de Weimar (1919) e
é produto do movimento de 1930” – que levou Vargas ao poder, bem como do
movimento constitucionalista ocorrido dois anos depois, em que foram “fincadas
as pedras fundamentais do assim chamado Estado Social de Direito” (Nunes
Junior, 2017, p. 4).
Assim, ao reconhecer movimentos sociais, a Constituição de 1934
inaugurou o Estado Social brasileiro, assegurando direitos como a liberdade, a
justiça e o bem-estar social e econômico, adindo caráter fundamental aos direitos
sociais. Com relação à ordem social trabalhista, “o novo ordenamento
constitucional também trouxe grandes e relevantes conquistas” (Pestana, 2017).
Desse modo, refletindo sobre os movimentos internacionais da época, que
buscavam incorporar aos países capitalistas premissas de um Estado Social,
nossa Carta de 1934, de efêmera vigência, foi, dentre as Constituições brasileiras
de até então, a que efetivamente se preocupou com a identificação de um Estado
fortemente marcado pela presença institucional dos direitos sociais, como aponta
Nunes Junior (2017, p. 4).
Segundo Pestana (2017),

sua revogação foi determinada pela superveniência da Constituição de


1937, que pôs termo ao curto período de institucionalidade democrática
então vivenciada. A mesma supressão foi também encontrada nas
constituições de 1967 e 1969 [...] Assim, entende-se que a partir de
1934, ressalvados os períodos ditatoriais, houve a previsão de direitos e
garantias individuais, direitos de nacionalidade, direitos políticos e
direitos econômicos e sociais do homem.
5
2.4 Constituição de 1946

A Constituição de 1946 deu azo à espécie de repúdio ao espírito autoritário


que imbuía sua predecessora. Influenciada pelos “ventos de renovação
democrática que varriam o país, com o anúncio do fim do Estado Novo, recuperou
as liberdades formais, colocando-as à margem de qualquer controle autoritário do
Estado”, denotando forte “vontade constituinte de reorganização dos poderes,
sobretudo no que se refere a um fortalecimento do Legislativo e do Judiciário, que,
no regime político anterior, haviam se quedado enfraquecidos pela automática
expansão do poder Executivo em tempos ditatoriais”.
Do ponto de vista dos direitos sociais, a Constituição de 1946 buscou, ainda
uma vez, fortalecer a noção de Estado Social. Exemplifica-se:

 A previsão de participação dos trabalhadores nos lucros das empresas (art.


157, IV);
 A instituição do repouso semanal remunerado (art. 157, VI);
 O reconhecimento do direito de greve (art. 158);
 A ampliação do direito à educação (art. 168);
 A aposentadoria facultativa do servidor com 35 anos de serviço (art. 191,
parágrafo 1º);
 A inserção formal da Justiça do Trabalho no poder Judiciário (arts. 122 e
123).

Conforme bem ressalta o autor utilizado na presente construção histórica,


a Constituição de 1946, “entusiasmando os defensores do Estado Democrático
Social de Direito, acabou confinada a um difícil papel histórico, o de ficar situada
entre duas Cartas ditatoriais: a de 1937 e a de 1967” (Nunes Junior, 2017, p. 4).

2.5 Ditadura Militar

Caudatária do golpe militar de 1964 (Nunes Junior, 2017, p. 4), é exemplo


típico de Constituição outorgada, apesar do consentimento formal do Poder
Legislativo.

 Como é consabido, o Ato Institucional nº 4 convocou o Congresso Nacional


“para se reunir extraordinariamente, de 12 de dezembro de 1966 a 24 de
janeiro de 1967”, para “discussão, votação e promulgação do projeto de

6
Constituição apresentado pelo Presidente da República” – em um
procedimento inelutavelmente autoritário de outorga da Constituição.
 Por sua vez, tanto o rol de direitos individuais (art. 150) quanto o rol de
direitos sociais (art. 158) não foram modificados em suas estruturas, não
obstante a recorrente menção à necessidade de lei para sua
implementação implicasse, na prática, dicotomia entre a ordem normativa
e a realidade.
 No que concerne aos direitos sociais, não houve alteração estrutural dos
dispositivos anteriormente vigentes, com a mesma nota de que muitos
deles tinham sua eficácia condicionada a uma futura eventual legislação
integradora.

2.6 Constituição de 1988

De acordo com Nunes Junior (2017), “reconhecida como Constituição


Cidadã, trata, em seu texto, dos direitos e garantias fundamentais, merecendo
incursão mais detalhada nos módulos que se seguem”.

TEMA 3 – CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA DE 1988 E CONCEPÇÃO


CONTEMPORÂNEA DE DIREITOS HUMANOS

Como já debatido no correr deste curso, a Constituição democrática –


também conhecida como Constituição cidadã – ratificada em 1988 expandiu
consideravelmente o campo dos direitos e garantias fundamentais, colocando-se
dentre as Constituições mais avançadas da atualidade no que diz respeito à
matéria.
Já em seu preâmbulo, a Carta de 1988 pugna pela consolidação do
Estado Democrático de Direito:

destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a


liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e
a justiça como valores supremos de sociedade fraterna, pluralista e sem
preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem
interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias [...].
(art. 1º da CF/1988)

Assim, dentre os fundamentos do Estado Democrático de Direito brasileiro


destacam-se a cidadania e dignidade da pessoa humana (art. 1º, incisos II e
III). Verifica-se, assim, que “os direitos fundamentais constituem o elemento

7
básico para a realização do princípio democrático, uma vez que exercem uma
função democratizadora” (Moraes, 2003).
Nesse sentido, aduz Flavia Piovesan (2019):

A Carta de 1988 pode ser concebida como o marco jurídico da transição


democrática e da institucionalização dos direitos humanos no Brasil.
Introduz indiscutível avanço na consolidação legislativa das garantias e
direitos fundamentais e na proteção de setores vulneráveis da sociedade
brasileira. A partir dela, os direitos humanos ganham relevo
extraordinário, situando-se a Carta de 1988 como o documento mais
abrangente e pormenorizado sobre os direitos humanos jamais adotado
no Brasil.

Por sua vez, construir uma sociedade livre, justa e solidária, garantir o
desenvolvimento nacional, erradicar a pobreza e a marginalização, reduzir
as desigualdades sociais e regionais e promover o bem de todos, sem
preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de
discriminação, constituem os objetivos fundamentais do Estado, conforme consta
do art. 3º da Constituição Brasileira.
Como bem aponta Moraes (2003):

tais objetivos visam à concretização da democracia econômica, social e


cultural, implicando a efetivação da dignidade e do bem-estar da pessoa
humana. É nesse contexto que o valor da dignidade da pessoa humana
revela-se como núcleo básico e informador de todo o ordenamento,
imprimindo-lhe uma feição particular.

Ainda, entende-se que o sistema jurídico apresenta, ao lado das normas


positivadas, “princípios que incorporam valores, este define-se como uma ordem
axiológica ou teleológica de princípios jurídicos que possuem função ordenadora,
na medida em que salvaguardam valores fundamentais”, de modo que “a
interpretação das normas constitucionais ocorre tendo-se por base critérios
valorativos que emergem do próprio sistema constitucional” (Moraes, 2003).
À luz dessas premissas, constata-se que “os valores da dignidade da
pessoa humana, bem como o valor dos direitos e garantias fundamentais,
constituem os princípios constitucionais que incorporam as exigências de justiça
e dos valores éticos, refletindo o suporte axiológico de todo o sistema jurídico
brasileiro” (Moraes, 2003).
Nesse sentido:

Inova, ainda, a Carta de 1988, ao ampliar a dimensão dos direitos e


garantias, incluindo no rol de direitos fundamentais, além dos direitos
civis e políticos, os direitos sociais. Nesta ótica, o texto constitucional
acolhe o princípio da indivisibilidade e interdependência dos direitos

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humanos, pelo qual o valor da liberdade se conjuga ao valor da
igualdade, não sendo possível dissociar o elenco desses direitos.
Importante referir que a Carta de 1988 prevê, ao lado dos direitos
individuais, os direitos coletivos, pertinentes a determinada classe ou
categoria, e os direitos difusos, pertinentes a todos e a cada um. Assim,
a Constituição Brasileira, ao mesmo tempo em que consolida a extensão
de titularidade de direitos a novos sujeitos de direitos, também consolida
o aumento da quantidade de bens merecedores de tutela, com a
ampliação de direitos sociais, econômicos e culturais. (Moraes, 2003).

Em síntese, extrai-se do sistema constitucional de 1988 os delineamentos


de um Estado intervencionista, voltado ao bem-estar social. Consagra-se a
preeminência ao social. Com o Estado Social, como observa Paulo Bonavides, o
Estado-inimigo cede lugar ao Estado-amigo, o Estado-medo ao Estado-confiança,
o Estado-hostilidade ao Estado-segurança. As Constituições tendem a se
transformar num pacto de garantia social. Assim, o Estado Constitucional
Democrático de 1988 não se identifica com um Estado de direito formal, reduzido
à simples ordem de organização e processo, mas visa a legitimar-se como um
Estado de justiça social, concretamente realizável.
Como é consabido, os direitos fundamentais sociais, na sua grande
maioria, estão expressamente previstos no art. 6º da CRFB/1988: “Art. 6º São
direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer,
a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a
assistência aos desamparados, na forma desta Constituição.”
Além disso, várias medidas foram previstas no texto constitucional para
conferir uma eficácia maior a esses direitos sociais, por exemplo, percentuais
mínimos de investimentos para a saúde e educação (arts. 198, parágrafo 2º e 212
da CRFB/1988).
Os direitos fundamentais podem ser identificados sob o ponto de vista
formal e material.
Bonavides (2005, p. 234) apresenta dois critérios elaborados por Carl
Schimitt para identificar um direito como fundamental, sob a ótica formal:

Pelo primeiro, podem ser designados por direitos fundamentais todos os


direitos e garantias nomeados e especificados no instrumento
constitucional. Pelo segundo, tão formal quanto o primeiro, os direitos
fundamentais são aqueles que receberam da Constituição um grau mais
elevado de garantia ou de segurança ou são imutáveis
(Unabaenderliche) ou pelo menos de mudança dificultada (Erschwert), a
saber, direitos unicamente alteráveis mediante lei de emenda à
Constituição.

9
Nitidamente perceptível que somente o aspecto formal não é suficiente
para uma identificação de todos os direitos fundamentais previstos na
CRFB/1988, uma vez que há direitos fundamentais fora do seu Título II; por essa
razão, o aspecto material é basal para a identificação dos direitos fundamentais
alheios ao catálogo expresso do Título II da CRFB/1988.
Nesse sentido:

o prisma do art. 5º, §2º da CRFB/1988, o princípio da dignidade da


pessoa humana é um excelente critério material para a identificação dos
direitos fundamentais. Nessa perspectiva, Mendes (2008, p. 227)
arremata que “os direitos e garantias fundamentais, em sentido material,
são, pois, pretensões que, em cada momento histórico, se descobrem a
partir da perspectiva do valor da dignidade da pessoa humana (Moreira,
2011)

Nesse aspecto, que combina a análise formal e material, é que se deve


considerar os dispositivos constitucionais referentes à proteção internacional dos
direitos humanos (Moreira, 2011).

3.1 Classificação dos Direitos Fundamentais

Para J. J. Gomes Canotilho (2003), os direitos fundamentais podem ser


classificados em dois grupos principais: direitos de defesa e direitos a prestações.
Enquanto os primeiros exigem que o Estado se abstenha de praticar
condutas contrárias a tais direitos, os direitos fundamentais a prestações exigem
do Estado a realização de certas prestações positivas, por exemplo, saúde e
educação.
Como bem aponta Moreira (2011), não se pode olvidar que esses direitos
“não são antagônicos, mas sim complementares, uma vez que os direitos
fundamentais a prestações fornecem as condições necessárias para que a
cidadania e a liberdade sejam usufruídas em sua plenitude”. Nesse aspecto,
Pinheiro (2008, p. 25) assevera que “não adiantaria ter liberdade sem saúde para
gozá-la, ou, então, sem alimentação adequada que propicie energia suficiente
para usufruí-la”.
Cumpre então analisar os principais Direitos Fundamentais.

10
TEMA 4 – DIREITOS FUNDAMENTAIS NA CONSTITUIÇÃO FEDERAL: ANÁLISE
EM ESPÉCIE

Neste tema, realizaremos uma breve incursão nos direitos e nas garantias
fundamentais previstos constitucionalmente (Título II), que foram divididos em
cinco capítulos: direitos individuais e coletivos, direitos sociais, nacionalidade,
direitos políticos e partidos políticos.
Assim, tem-se, conforme extração realizada por Pestana (2017) sobre os
direitos individuais e coletivos:

Por se tratarem de direitos intrínsecos à condição humana, tais direitos


estão intimamente ligados ao conceito de pessoa humana e
personalidade jurídica. Representam o direito à vida, à igualdade, à
dignidade, à segurança, à honra, à liberdade e à propriedade. Estes
direitos encontram-se no artigo 5º da Constituição Federal: os direitos
individuais são aqueles que tem por escopo se opor ao arbítrio estatal
em favor dos indivíduos. Por sua vez, os direitos coletivos ultrapassam
o âmbito estritamente individual, pertencendo a uma coletividade que se
vincula juridicamente, como, por exemplo, o direito a um governo
honesto e eficiente, o direito ao meio ambiente equilibrado e os direitos
trabalhistas. (Pestana, 2017)

Quanto aos direitos sociais, de acordo com Pestana (2017):

constituem obrigações positivas do Estado, ou seja, garantias de


liberdades positivas aos indivíduos, como, por exemplo, direito à
educação, trabalho, lazer, previdência social, saúde, segurança, à
maternidade e à infância e assistência aos desamparados. Tais direitos
encontram-se dispostos a partir do artigo 6º da Constituição Federal.

Sobre os direitos de nacionalidade, segundo Pestana (2017): “relacionam-


se com o vínculo jurídico-político entre o indivíduo e determinado Estado, assim,
o indivíduo passa a integrar o Estado.”
A respeito dos direitos políticos, para Pestana (2017), “têm por escopo o
exercício de sua cidadania, participando de forma ativa dos negócios políticos do
Estado, elencados no artigo 14 da Constituição Federal.”
Por fim, no que se refere aos direitos relacionados à existência,
organização e a participação em partidos políticos, Pestana (2017) entende que
“tais direitos asseguram a autonomia e a liberdade plena dos partidos políticos
para preservar e proteger o Estado Democrático de Direito, encontrando-se artigo
17 da Constituição Federal.”

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4.1 Conclusões

A Constituição Federal de 1988 expandiu os direitos fundamentais,


reconhecendo aqueles advindos da primeira e segunda dimensões (individuais e
sociais), e aqueles advindos da terceira dimensão (direitos de solidariedade).
Clarividente, no entanto, que não basta apenas a previsão formal desses
direitos na Constituição e nas leis. É preciso que o Estado os consolide, permitindo
à sociedade o aproveitamento real dessas previsões (Pestana, 2017).

TEMA 5 – TRATADOS INTERNACIONAIS DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS


HUMANOS NO DIREITO INTERNO

Finalmente, cumpre abordar o impacto jurídico dos tratados internacionais


de direitos humanos no Direito interno brasileiro. Como ensina Moraes (2013),
levando-se em conta a hierarquia constitucional desses tratados, pode-se
visualizar três situações em que o direito enunciado no tratado: a) coincide com o
direito assegurado na Constituição, reproduzindo-o; b) integra e complementa a
gama de direitos previstos na Constituição; ou c) contraria disposição do
ordenamento interno.
Não por acaso, a Constituição Federal brasileira contém inúmeros
dispositivos que replicam fielmente as normas constantes dos tratados
internacionais de direitos humanos, como exemplificado a seguir.

 Princípio de que “todos são iguais perante a lei”, consagrado no art. 5º


da Carta de 1988, que também está previsto no art. VII da Declaração
Universal, no art. 26 do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e
no art. 24 da Convenção Americana.
 Princípio da inocência presumida, constante do art. 5º, LVII, da
Constituição Federal, que teve inspiração no Direito Internacional dos
Direitos Humanos, nos termos do art. XI da Declaração Universal, art. 14
do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e art. 8º da Convenção
Americana.

Assim, ao reproduzir normas de tratados internacionais de direitos


humanos, a ordem jurídica brasileira demonstra que, muito além de buscar
orientação e inspiração nesse instrumento, o legislador igualmente se preocupa
em ajustar o Direito interno às obrigações internacionais contraídas pelo Brasil.
12
Nesse contexto, os direitos constitucionalmente previstos robustecem o
valor jurídico de tratados internacionais de direitos humanos, de modo que uma
possível violação do direito acarretará responsabilização nacional e internacional.
Segundo Moraes (2013):

Outro importante impacto jurídico decorrente da incorporação do Direito


Internacional dos Direitos Humanos pelo ordenamento interno constitui-
se na ampliação da gama de direitos nacionalmente assegurados. De
fato, os tratados internacionais de direitos humanos reforçam a Carta de
direitos prevista constitucionalmente, inovando-a e completando-a com
a inserção de novos direitos. Há inúmeros direitos elencados nos
instrumentos internacionais ratificados pelo Brasil que, embora não
previstos expressamente no Direito interno, passam a se incorporar à
ordem jurídica interna brasileira, tais como: o direito das minorias
étnicas, religiosas ou lingüísticas de ter sua própria vida cultural,
professar e praticar sua própria religião e usar sua própria língua,
conforme disposição do artigo 27 do Pacto Internacional dos Direitos
Civis e Políticos [105] e do artigo 30 da Convenção sobre os Direitos da
Criança [106]; o direito de não ser submetido a experiências médicas ou
científicas sem consentimento do próprio indivíduo, nos termos do artigo
7º do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos [107]; vedação da
utilização de meios destinados a obstar a comunicação e a circulação de
idéias e opiniões, segundo o artigo 13 da Convenção Americana [108];
possibilidade de adoção pelos Estados de medidas temporárias e
especiais que visem acelerar a igualdade de fato entre homens e
mulheres, nos termos do artigo 4º da Convenção sobre a Eliminação de
todas as formas de Discriminação contra as Mulheres [109], dentre
tantos outros.

Seguindo ainda o raciocínio de Moraes (2013), constata-se assim a


influência inovadora e expansiva do Direito Internacional dos Direitos Humanos
sobre o universo dos direitos constitucionalmente assegurados, uma vez que “os
instrumentos internacionais de direitos humanos podem integrar e complementar
dispositivos normativos do ordenamento interno, permitindo o reforço de direitos
nacionalmente previstos”.
A última situação que resulta da influência jurídica dos tratados
internacionais de direitos humanos no Direito interno brasileiro diz com a hipótese
de um eventual conflito entre o Direito Internacional dos Direitos Humanos e o
Direito nacional. Para Moraes (2013), “a solução para a situação em tela orienta-
se para a escolha da norma mais favorável à vítima, ou seja, prevalecerá a norma
mais benéfica ao indivíduo, titular do direito”.
Assim, não há razões para se debater a questão da prevalência do direito
internacional sobre o direito interno ou vice-versa: sempre prevalecerá a norma
que melhor proteja os direitos consagrados da pessoa.
Desta feita:

13
os direitos internacionais constantes dos tratados de direitos humanos
apenas vêm a aprimorar e fortalecer, jamais restringir ou enfraquecer, o
grau de proteção dos direitos consagrados pela ordem normativa
constitucional. Portanto, em caso de conflito entre o Direito Internacional
dos Direitos Humanos e o Direito interno, propugna-se pela prevalência
da norma mais favorável à vítima. Reitera-se que a escolha da norma
mais benéfica ao indivíduo cabe fundamentalmente às cortes nacionais
e a outros órgãos aplicadores do direito, no sentido de assegurar a
melhor proteção possível ao ser humano. (Moraes, 2003)

No que concerne ao grau de efetividade dos direitos humanos e


fundamentais, assevera Sarlet (2006, p. 40) que:

importa considerar a relevante distinção quanto ao grau de efetiva


aplicação e proteção dos direitos fundamentais (direito interno) e dos
direitos humanos (direito externo), sendo desnecessário aprofundar,
aqui, a ideia de que os primeiros que – ao menos em regra – atingem
(ou, pelo menos, estão em melhores condições para isto) o maior grau
de efetivação, particularmente, em face da existência de instâncias
(especialmente as jurídicas) dotadas do poder de fazer respeitar e
realizar estes direitos.

5.1 Uma noção importante: o controle de convencionalidade

Assim como é possível o controle de constitucionalidade, traduzido, em


linhas simplistas, no controle da interpretação da legislação sob o manto da leitura
constitucional, o ordenamento jurídico brasileiro prevê o controle de
convencionalidade dos direitos humanos, que determina a leitura do sistema
jurídico à luz dos tratados ratificados pelo Estado.
Assim, “a validade de uma lei (e sua consequente eficácia) depende do
exame de sua compatibilidade exclusivamente com a Constituição do Estado”
(Bianchini; Mazzuoli, 2019).
Desta feita, em uma concepção moderna, verificar a adequação das leis
com a Constituição (controle de constitucionalidade) é apenas o primeiro passo a
fim de se garantir validade à produção do Direito doméstico: as normas internas
devem estar em conformidade com os tratados internacionais ratificados pelo
governo e em vigor no país, condição a que se dá o nome de controle de
convencionalidade.

FINALIZANDO

Nesta aula buscamos entender como se deu o movimento histórico de


abrangência dos Direitos Humanos na legislação brasileira, os conceitos e as

14
concepções sobre Direitos Humanos e Direitos Fundamentais, à luz dos tratados
internacionais, da Constituição Federal e de diplomas legais correlatos ao tema.
Ainda, buscamos construir a ausência de hierarquia entre diplomas legais
nacionais e internacionais, rememorando que a prevalência será sempre da
norma que melhor proteger os direitos consagrados da pessoa humana.

Leituras complementar
MACHADO, A.; GOERCH, A. B. Os Direitos Fundamentais sob a perspectiva
dos Direitos Humanos: uma abordagem acerca da Declaração Universal dos
Direitos Humanos e do Sistema Interamericano. Disponível em:
<https://online.unisc.br/acadnet/anais/index.php/sidspp/
article/download/15794/3693>. Acesso em: 24 mar. 2019.

PESTANA, B. M. Direitos fundamentais: origem, dimensões e características.


Conteudo Jurídico, Brasília, 17 out. 2017. Disponivel em:
<http://www.conteudojuridico.com.br/?artigos&ver=2.589755&seo=1>. Acesso
em: 24 mar. 2019.

15
REFERÊNCIAS

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Penha. Disponível em: <https://lfg.jusbrasil.com.br/noticias/2597882/controle-de-
convencionalidade-da-lei-maria-da-penha-alice-bianchini-e-valerio-mazzuoli>.
Acesso em: 24 mar. 2019.

BONAVIDES, P. Curso de direito constitucional. 16 ed. São Paulo: Malheiros,


2005.

CANOTILHO, J. J. G. Direito constitucional e teoria da constituição. Coimbra:


Almedina, 2003.

MORAES, M. C. A proteção dos direitos humanos e sua interação diante do


princípio da dignidade da pessoa humana. Revista Jus Navigandi, Teresina, ano
8, n. 157, dez. 2003. Disponível em: <https://jus.com.br/artigos/4607>. Acesso em:
24 mar. 2019.

MOREIRA, V. R. Direitos humanos e fundamentais: diferenciação, classificação e


identificação. Conteudo Jurídico, Brasília, 2 fev. 2011. Disponivel em:
<http://www.conteudojuridico.com.br/?artigos&ver=2.31058&seo=1>. Acesso em:
26 mar. 2019.

NUNES JÚNIOR, V. S. Direitos sociais. In: NUNES JÚNIOR, V. S.; ZOCKUN, M.;
ZOCKUN, C. Z.; FREIRE, A. L. (Coord.). Enciclopédia jurídica da PUC-SP. Tomo:
Direito Administrativo e Constitucional. São Paulo: PUC-SP, 2017. Disponível em:
<https://enciclopediajuridica.pucsp.br/pdfs
/controle-interno_59224567dda34.pdf>. Acesso em: 24 mar. 2019.

PINHEIRO, M. R. A eficácia e a efetividade dos direitos sociais de caráter


prestacional: em busca da superação dos obstáculos. Brasília, 2008.

PIOVESAN, F. Direitos humanos e o direito constitucional internacional. Rio


de Janeiro: Max Limonad, 2011.

_____. A proteção dos direitos humanos no sistema constitucional brasileiro.


Disponível em: <http://www.pge.sp.gov.br/centrodeestudos/revistaspge/revista5/
5rev4.htm>. Acesso em: 28 mar. 2019.

PESTANA, B. M. Direitos fundamentais: origem, dimensões e características.


Conteudo Jurídico, Brasília, 17 out. 2017. Disponivel em:

16
<http://www.conteudojuridico.com.br/?artigos&ver=2.589755&seo=1>. Acesso em:
24 mar. 2019.

SARLET, I. W. A eficácia dos direitos fundamentais. 6. ed. Porto Alegre: Livraria


do Advogado, 2006.

SILVA, J. A. da. Curso de direito constitucional positivo. 28 ed. rev. e atual. São
Paulo: Malheiros, 2007. p. 170.

17
AULA 4

ÉTICA, DIREITOS HUMANOS E


DIREITOS DA CIDADANIA

Profª Juliana Bertholdi


Em estudos anteriores, foi possível entender como se deu a construção dos
Direitos Humanos e Fundamentais, pautados e inter-relacionados aos conceitos
de ética que abordamos no início deste tópico.
Doravante, buscaremos compreender como as crises econômicas,
políticas e de segurança pública, com a crescente violência e desigualdade,
inúmeras vezes acabaram por gerar o questionamento da validade e legitimidade
dos poderes instituídos e dos instrumentos que deveriam permitir aos cidadãos a
apresentação de suas demandas e necessidades com o fito justamente na
preservação desses direitos básicos.
Brocardos populares, como “direitos humanos para humanos direitos”,
“justiça só funciona para os ricos”, “bandido bom é bandido morto”, demonstram
não apenas o descrédito nas instituições estatais, mas igualmente preconceitos
que denotam nossa ignorância social e nos impedem de viver o pleno
desenvolvimento da cidadania.
Não obstante, é possível perceber que, mesmo que em toada mais lenta
que a desejada, “as instituições e os próprios indivíduos estão assumindo seu
papel de protagonistas, modificando essa postura conformista, desatenta,
desiludida por uma nova com laivos de participação e reivindicação” (Oliveira,
2012, online). No Brasil e no mundo, percebe-se o surgimento de diversos
movimentos sociais e seu grande engajamento voltado ao interesse público, por
meio de ações de informação, conscientização e prática dos verdadeiros valores
da sociedade e cidadania.
Nos dizeres recorrentes de Hannah Arendt, cidadania é justamente “o
direito a ter direitos”, pressupondo igualdade, liberdade e a própria existência e
dignidade humanas.
Neste sentido, aduz Oliveira (S.d., online):
Este reconhecimento ainda não é o bastante para torná-la efetiva e
reconhecida entre seus titulares. Muitas discussões e estudos têm
sido realizados, especialmente em face das condições definidas
como "pós-modernidade" e "globalização", bem como das suas
manifestações concretas: a reconfiguração de classes, o
aparecimento de novos regimes de governo internacional, das
racionalidades de governo e regimes de acumulação de diversas
formas de capital, novos movimentos sociais e suas batalhas por
reconhecimento e redistribuição. É importante ressaltar que essa
articulação de direitos como reivindicações por reconhecimento
sempre evocou o ideal de cidadania, o que tem exigido a
redefinição e reconfiguração da cidadania em suas três dimensões
fundamentais, quais sejam, a extensão (regras e normas de
inclusão e exclusão), o conteúdo (direitos e responsabilidades) e a
profundidade (profunda ou superficial).
2
Assim, para melhor explanação do tema, iremos analisar alguns
pressupostos e conceitos advindos da obra de T. H. Marshall (1967), comparando
assim suas conclusões e novas teorias descritas na modernidade.

TEMA 1 – DIREITOS HUMANOS E DIREITOS DA CIDADANIA

Desde o clássico trabalho de Marshall (1976), o conceito de cidadania tem


sido ordenadamente construído por meio da noção de direitos, sejam estes civis,
políticos ou sociais (como se pode perceber, assim replicados em conceituação
paralela a de Direitos Humanos já trabalhada).
Assim, não obstante a noção de direitos seja relacional, supondo uma
situação de interação social que envolva ao menos duas partes e contexto
determinado, vem-se absolutizando a noção do direito, usualmente se falando nos
direitos da cidadania como se fossem intrínsecos, naturais à pessoa. Igualmente,
as democracias vêm demonstrando preocupação com a universalização dos
direitos da cidadania dente seus concidadãos, havendo inclusive autores que
mencionam a possibilidade de uma conceituação de cidadania planetária
(Cardoso de Oliveira, 1992, online).
Desta feita, sendo notórios os paralelismos entre Direitos Humanos,
Direitos Fundamentais e Direitos da Cidadania, cumpre investigar o que os
diferencia, conceituando e individualizando estes últimos, objetos deste estudo.

1.1 Conceito de Cidadania por T. H. Marshall

Em seu trabalho, o autor T. H. Marshall trabalha o problema do impacto da


questão da cidadania e classe social sobre a desigualdade social, analisando a
literatura produzida por Alfred Marshall.
Neste sentido:

Tomava como padrão de vida civilizada as condições


consideradas por sua geração como apropriadas a um cavalheiro
e reconhecia que a reivindicação de todos para gozar dessas
condições é uma exigência para serem admitidos numa
participação na herança social como membros da sociedade, isto
é, como cidadãos. Mesmo ao postular sobre uma espécie de
igualdade humana básica associada com o conceito de
participação integral na comunidade (cidadania), afirmava não
existir qualquer inconsistência com as desigualdades que
diferenciavam os vários níveis econômicos na sociedade, uma
vez que a desigualdade do sistema de classes sociais poderia ser

3
aceitável desde que a igualdade de cidadania fosse reconhecida
(Oliveira, S.d., online).

Não obstante a permanência hodierna desse entendimento, a tendência


mais moderna na recente fase de evolução da cidadania é em direção à igualdade
econômica e social (Oliveira, S.d., online).
Ao firmar o conceito de cidadania, com base no que visualizava na
realidade britânica, Marshall o faz em três partes: civil, política e social. Anota,
ainda, que a cidadania se dá por definição nacional – pressupõe o pertencer, pelo
vinculo da cidadania, a algum tipo de comunidade juridicamente organizada, um
Estado-nação (Oliveira, S.d., online).
Como aconteceu com os direitos humanos e fundamentais, historicamente,
surgem os direitos civis, os direitos políticos e dos direitos sociais, nesta ordem.

1.1.1 Cidadania Civil

Na mesma lógica que havíamos estudado, o elemento civil é composto


dos direitos necessários à liberdade individual – liberdade de ir e vir,
pensamento e fé, liberdade de imprensa, direito à propriedade e de concluir
contratos válidos e o direito à justiça.
O período de formação dos direitos civis é caracterizado pela
adição gradativa de novos direitos a um status já existente e que
pertencia a todos os membros adultos da comunidade. Esse
caráter democrático ou universal do status se originou
naturalmente do fato de que era essencialmente o status de
liberdade. Nas cidades, os termos liberdade e cidadania eram
semelhantes: quando a liberdade se tornou universal, a cidadania
se transformou de uma instituição local numa nacional (Oliveira,
S.d., online).

1.1.2 Cidadania Política

Por sua vez, o elemento político concerne ao direito de participar no


exercício do poder político, seja como membro de um organismo investido da
autoridade política, seja como um eleitor dos membros de tal organismo.

Quando os direitos políticos fizeram sua primeira tentativa de vir


à tona (1832), os direitos civis já eram uma conquista do homem
e, tinham em seus elementos essenciais a mesma aparência que
têm hoje. Sobre aquela fundação sólida, construíram-se todas as
reformas subsequentes. No início do séc. XIX, a cidadania na
forma de direitos civis era universal, os direitos políticos não
estavam incluídos nos direitos de cidadania e constituíam
privilégio de uma classe econômica limitada. Em sua formação os
direitos políticos consistiam não na criação de novos direitos para
4
enriquecer o status já gozado por todos, mas na doação de velhos
direitos a novos setores da população, ou seja, nesta fase os
direitos políticos eram deficientes não em conteúdo, mas na
distribuição conforme os padrões de cidadania democrática
(Oliveira, S.d., online).

Sem embargo, vale anotar que a cidadania não era vazia em termos de
significado político, pois, apesar de não conferir um direito, reconhecia uma
capacidade: a do sufrágio. No Século XX, associou-se os direitos políticos direta
e independentemente à cidadania como tal com a adoção do sufrágio universal,
transferindo a base dos direitos políticos do substrato econômico para o status
pessoal (Oliveira, S.d., online).

1.1.3 Cidadania Social

Já o elemento social se refere a tudo o que vai desde o direito a um


mínimo de bem-estar econômico até a segurança ao direito de participar, por
completo, na herança social e levar a vida de um ser civilizado de acordo com os
padrões que prevalecem na sociedade. Vejamos:

Já a classe social constitui um sistema caracterizado por


desigualdades, quer quando assentada numa hierarquia de status
com diferenças entre uma classe e outra em termos de direitos,
quer quando as diferenças se estabelecem a partir da combinação
de fatores educacionais, econômicos e relacionados à
propriedade. É possível constatar que à medida que a consciência
social desperta, a influência das classes diminui o que não
constitui propriamente dito um ataque ao sistema de classes.

Mesmo nos momentos e formas iniciais, a cidadania já carregava


em si a idéia de igualdade. Partindo do pressuposto de que todos
os homens eram livres, em teoria, e capazes de gozar direitos, a
cidadania se desenvolveu pelo enriquecimento do conjunto
desses direitos que não estavam em conflito com as
desigualdades da sociedade capitalista. Ao contrário, eram
necessários para a manutenção daquela determinada forma de
desigualdade, explicada principalmente porque o núcleo da
cidadania, nesta fase, se compunha dos direitos civis (Oliveira,
S.d., online).

Desta sorte, o status diferencial, dominado pelos direitos civis que conferem
a liberdade de lutar pelos bens que o indivíduo gostaria de possuir, sem, no
entanto, garantir nenhum deles. Pode-se concluir que essas desigualdades
gritantes não eram resultantes das falhas dos direitos civis, mas a falta dos direitos
sociais (Oliveira, S.d., online).

5
1.1.4 Conclusões iniciais

O conceito moderno de cidadania como meramente um status sob a


autoridade do Estado tem sido questionado e ampliado, passando a incluir as
várias batalhas políticas e sociais por reconhecimento e redistribuição como
instâncias do direito de reivindicação e tem sido modificado pelos apelos da pós-
modernidade e globalização.

TEMA 2 – CONCEITOS DE CIDADANIA

A hodierna conceituação de cidadania como mero status sob a autoridade


do Estado tem sido ampliada e discutida, passando a questionar e pautar as várias
“batalhas políticas e sociais por reconhecimento e redistribuição como instâncias
do direito de reivindicação, modificado pelos apelos da pós-modernidade e
globalização” (Oliveira, S.d., online).
Neste momento, rememora-se que a teoria de Marshall sobre a cidadania
tem como enfoque o empenho dos grupos e a criação de direitos de cidadania
pelo Estado: sustenta-se com base nos estudos sobre a sociedade inglesa que os
direitos da cidadania tendem a progredir do âmbito legal para o político, e somente
então para os direitos sociais.
Mesmo que ele tenha sido duramente criticado por essa teoria, há
evidência considerável de que, quando um país salta de direitos políticos para
direitos sociais ou de participação, haverá problemas para garantir os direitos
legais e desenvolver os direitos políticos (Oliveira, S.d., online).
Hodiernamente, é certo que a cidadania também deve ser definida como
um processo social pelo qual os indivíduos e grupos sociais se ocupam
reivindicando, expandindo ou perdendo direitos:

Estar politicamente comprometido significa praticar cidadania


substantiva, atuando quer em âmbito interno ao Estado ao qual
está vinculado, quer em âmbito transnacional, envolvendo
interesses que superam as fronteiras. Essas novas configurações
conduziram a uma definição informada socialmente acerca da
cidadania, na qual a ênfase se dá menos em regras legais e mais
nas normas práticas, significados e identidades (Oliveira, S.d.,
online).

Um dos conceitos que melhor demonstra essa reabsorção dos bens sociais
pelo conjunto dos cidadãos – que melhor expressa, portanto, a democracia – é
precisamente o conceito de cidadania. Cidadania é a capacidade conquistada por

6
alguns indivíduos, ou, no caso de uma democracia efetiva, por todos eles, de se
apropriarem dos bens socialmente criados, atualizando as potencialidades de
realização humana possibilitadas pela vida social em cada contexto histórico
(Coutinho,1999, p. 42).
Como bem anotado por Coutinho (1999, p. 42), a cidadania “não é dada
aos indivíduos de uma vez para sempre, não é algo que vem de cima para baixo,
mas é resultado de uma luta permanente, travada quase sempre a partir de baixo,
das classes subalternas, implicando um processo histórico de longa duração”.
Assim, a identidade será sempre um aspecto importante da cidadania, que
habilita os excluídos a se organizarem em movimentos sociais e em grupos de
interesse, de forma que possam participar como cidadãos com direitos legais,
políticos e sociais. Os direitos de cidadania são “o resultado de movimentos
sociais que objetivam se expandir ou defender a definição de agrupamento social”.
Eles acreditam que as consequências, em longo prazo, desses movimentos
sociais foram o incentivo e a universalização dos direitos de cidadania para um
conjunto crescente de pessoas (Oliveira, S.d., online).

TEMA 3 – A CONSTRUÇÃO HISTÓRICA DA CIDADANIA

Como é amplamente consabido, a noção de cidadania não nasceu no


mundo moderno, muito embora tenha encontrado nele a sua máxima expressão
(Coutinho,1999, p. 42). Em realidade, as primeiras teorias sobre cidadania
remontam à Grécia Antiga, mais precisamente nos Séculos V-IV antes de Cristo,
com as primeiras práticas da democracia. Assim, Aristóteles definiu o cidadão,
que para ele seria todo aquele que tinha o direito – e consequentemente o dever
– de contribuir para a formação do governo, participando ativamente das
assembleias nas quais se tomavam as decisões da Pólis.
Neste sentido, Silva, Freire e Prado (2018, p. 96) afirmam que:

Não é incorreto afirmar que na Grécia antiga, cidadania era confundida


com o próprio conceito de naturalidade, visto que cidadãos eram
somente os nascidos em solo Grego, o mesmo ocorria em Roma, onde
se via claramente a exclusão dos romanos não nobres e de estrangeiros,
que não detinham nenhuma espécie de direitos.

Com o feudalismo advindo na Idade Média, logo após a queda do Império


Romano, a preocupação política “cedeu espaço à questão religiosa e a ideia de
cidadania foi relegada a segundo plano” (Coutinho, 1999, p. 42). Assim, a
sociedade de estamentos apresentava uma organização própria e estratificada

7
(nobreza, clero e camponeses), tendo as diferentes classes direitos e privilégios
distintos – não havia, assim, como se falar propriamente em conceito de
cidadania.
A conjuntura somente se modificou com os estados nacionais, no período
denominado Baixa Idade Média, em que reapareceu a noção de estado
centralizado e com ele a clássica visão da cidadania, ligada aos direitos políticos
(Melo, 2013, online). Inobstante, a cristianização passou a exigir reformulação do
conceito de cidadania que já não atendia às demandas, surgindo o embrião do
que viria a ser o ideal de igualdade.
Adiante, com o advento da era iluminista, passou-se a viver tempos de
transmutações “políticas, econômicas, artísticas, contribuindo também para o
despertar do ideal de liberdade” (Melo, 2013, online). Neste sentido:

(...) filósofos como Locke e Rousseau defenderam a democracia


liberal, distante do direito divino e que tinha por base a razão.
Merece destaque as idéias de Rousseau que preconizava ainda
um caráter universal para os direitos. Muito influenciaram essas
idéias nas lutas políticas da época, sendo alicerce para os
movimentos de independência de colônias americanas e de
revoluções tais como a Francesa e a Inglesa. Entretanto, neste
período, diante do fato de que a sociedade ideal apontava
desigualdades sociais, a cidadania também foi tolhida, de certa
forma, de seu sentido mais amplo.

Com a Revolução Francesa e a Revolução Americana, restou inserido um


novo tipo de Estado, que carregava consigo os ideais de liberdade e igualdade, e,
embora tivessem uma origem burguesa, auxiliaram na busca pela inclusão social,
despontando assim as lutas sociais que trabalhávamos.
Como pudemos observar na construção de estudos anteriores sobre os
Direitos Humanos, as duas guerras mundiais, em especial a Segunda Grande
Guerra, tiveram uma influência bastante significativa na construção destes novos
direitos.
Neste sentido (Melo, 2013, online):

Mesmo diante de todos estes avanços ainda hoje se percebe as


inúmeras violações aos direitos humanos e a ausência de
cidadania plena a considerável parcela da população que se diz
excluída, em especial, nos países subdesenvolvidos e
emergentes.
Podemos assim, abeberando-nos da lição de Norberto Bobbio,
assegurar que a cidadania é uma luta diária, e que hoje não basta
apenas elencar e fundamentar direitos é preciso efetivá-los. Este
é o desafio de nosso tempo.

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TEMA 4 – A CONSTRUÇÃO DA CIDADANIA NO BRASIL

Ao se analisar o desenvolvimento da cidadania proposto por Marshall,


conclui-se facilmente pelo surgimento sequencial dos direitos a sugerir que a
própria cidadania se trata de fenômeno histórico, desenvolvido dentro do
fenômeno denominado Estado-nação e costurado com base em sua relação com
o cidadão. Em alguns países, o processo de difusão dos direitos se deu
principalmente com base na ação estatal; em outros, foi resultante da ação dos
próprios cidadãos.
Adotar-se-á a evolução pontual histórica de Oliveira (S.d., online), suficiente
aos propósitos deste tópico. Vejamos:

 No Brasil, da Independência (1822) até o fim da Primeira República (1930),


do ponto de vista do progresso da cidadania, a única alteração importante
foi a abolição da escravidão (1888). A abolição incorporou os ex-escravos
aos direitos civis apenas no sentido formal. Sem sombra de dúvida, o fator
mais negativo para a cidadania foi a escravidão, uma vez que os escravos
não eram cidadãos, não possuíam nem mesmo os direitos civis mais
básicos. Tampouco se pode dizer que os senhores fossem cidadãos, pois
lhes faltava o próprio sentido da cidadania: a noção da igualdade de todos
perante a lei. Neste período, não havia povo organizado politicamente nem
sentimento nacional consolidado; a ação política do povo era motivada
contra o que se considerava arbítrio das autoridades e desrespeito ao pacto
de não intervenção na vida privada. Por isso, tratava-se de uma cidadania
em negativo.
 A partir de 1930, houve aceleração das mudanças sociais e políticas, cuja
mudança mais relevante verificou-se no avanço dos direitos sociais. Por
um lado, os direitos políticos tiveram evolução mais complexa, em face da
instabilidade pela qual o país passou, alternando ditaduras e regimes
democráticos; os direitos civis progrediram lentamente e sua garantia na
vida real continuou precária para a grande maioria dos cidadãos. A
antecipação dos direitos sociais fazia com que os direitos fossem vistos
como um favor do Estado, o qual exigia gratidão e lealdade. A cidadania
que daí resultava era passiva e receptora. Por outro lado, a concepção da
política social revelou-se como privilégio e não como direito. Essa origem e
a maneira como foram distribuídos os benefícios sociais tornaram duvidosa

9
sua definição como conquista democrática e comprometeram em parte sua
contribuição para o desenvolvimento de uma cidadania ativa.
 Em 1964, com a imposição de mais um regime ditatorial, os direitos civis e
políticos foram restringidos pela violência: a censura à imprensa eliminou a
liberdade de opinião; não havia liberdade de reunião; os partidos eram
regulados e controlados pelo governo; os sindicatos estavam sob constante
ameaça de intervenção; era proibido fazer greves; o direito de defesa era
cerceado pelas prisões arbitrárias; a justiça militar julgava crimes civis; a
inviolabilidade do lar e da correspondência não existia; a integridade física
era violada pela tortura nos cárceres do governo; o próprio direito à vida
era desrespeitado. Ao mesmo tempo em que se cerceavam os direitos
políticos e civis, os governos militares investiram na expansão dos direitos
sociais. Na avaliação deste período, sob o ponto de vista da cidadania,
destaca-se a manutenção do direito do voto combinada com o
esvaziamento de seu sentido e a expansão dos direitos sociais em
momento de restrição de direitos civis e políticos. No entanto, as
desigualdades, ao fim do regime, tinham crescido ao invés de diminuir.
 O auge da mobilização popular foi a campanha pelas eleições diretas em
1984, que, sem sombra de dúvida, foi a maior mobilização popular da
história do país. Como consequência da abertura, os direitos civis foram
restituídos, mas continuaram beneficiando apenas parcela reduzida da
população, os mais ricos e os mais educados. Dos direitos que compõem
a cidadania, no Brasil são ainda os civis que apresentam as maiores
deficiências em termos do seu conhecimento, extensão e garantias. A falta
de garantia dos direitos civis se verifica, sobretudo, no que se refere à
segurança individual, à integridade física, ao acesso à justiça.
 A maioria da população ou desconhece seus direitos ou não tem condição
de exercê-los efetivamente. Do ponto de vista da garantia dos direitos civis,
os cidadãos brasileiros podem ser divididos em classes: os de primeira
classe, os privilegiados e os doutores que estão acima da lei, que sempre
conseguem defender seus interesses pelo poder do dinheiro e do prestígio
social; ao lado dessa elite privilegiada, existe uma grande massa de
cidadãos simples, de segunda classe, que estão sujeitos aos rigores e
benefícios da lei; finalmente, há os cidadãos de terceira classe, que
correspondem à população marginalizada das grandes cidades,

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"elementos" que são parte da comunidade política nacional nominalmente,
pois na prática ignoram seus direitos civis ou os têm sistematicamente
desrespeitados por outros cidadãos, pelo governo, pela polícia.

As críticas da autora à evolução dos direitos da cidadania que nos trouxe


até o presente momento histórico muito importam às nossas reflexões neste
curso: por motivos históricos de construção de situação, alguns cidadãos são
entendidos como menos-cidadãos ou mesmo não-cidadãos, ignorando eles
mesmos seus direitos civis.
Tal visão crítica constitui elemento essencial para nossa reflexão final,
sobre a possibilidade – ou não – da construção de um exercício pleno da
cidadania.

TEMA 5 – CIDADANIA PLENA

Com base nos ensinamentos e reflexões anteriores, é de se questionar se


uma cidadania plena, que possibilite a liberdade, participação e igualdade para
todos, é uma utopia inatingível. Inegável, no entanto, que o estabelecimento de
parâmetros nos permite julgar, dentre outras características, a qualidade da
democracia em cada Estado e em cada era.
Os conceitos clássicos de Marshall, apresentados aqui, possibilitam-nos
“identificar os direitos civis como aqueles que garantem a vida em sociedade; os
direitos políticos, a participação no governo dessa sociedade; e os direitos sociais,
a participação na riqueza coletiva” (Oliveira, S.d., online), permitindo algumas
reflexões:

 é possível haver direitos civis sem direitos políticos, mas o contrário não é
viável, pois sem os direitos civis, especialmente a liberdade, os direitos
políticos, sobretudo o voto, podem existir formalmente, mas ficam
esvaziados de conteúdo e servem somente para justificar governos e não
para representar cidadãos;
 direitos sociais colocam cada indivíduo em condições de ter o poder para
fazer aquilo que é livre para fazer, isto é, são pressupostos ou precondições
para o efetivo exercício dos direitos de liberdade;
 a brutal desigualdade e a ausência de educação colocam em perigo o
exercício dos direitos civis, políticos, uma vez que cala a voz do cidadão,

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estimula o temor e permite que a lei do mais forte prevaleça (Oliveira, S.d.,
online).

Ainda, dos argumentos elencados por Marshall e das novas configurações


de cidadania propostas na obra de Turner e desenvolvidas mais detidamente por
Oliveira (S.d., online), pode-se destacar, em reprodução fiel:

1. ‘Cidadania’ como um status legal: cidadãos são pessoas


legalmente reconhecidas como membros de uma comunidade
política particular e oficialmente soberana, que possuem direitos
básicos a serem protegidos pelo governo dessa comunidade.
Neste sentido, possuir cidadania é equivalente a possuir
nacionalidade sob um determinado estado moderno.
2. ‘Cidadania’ inserida no conceito de república e democracia:
cidadão tem sido a pessoa com direitos políticos de participar do
processo de auto-governança, ideal que serviu desde então como
inspiração e instrumento para esforços políticos a fim de alcançar
maior inclusão e engajamento democrático na vida política. Esta
concepção continua a desempenhar papel relevante no discurso
político moderno. Ironicamente, parece que à medida que a
cidadania tornou-se onipresente, ela tornou-se também
despolitizada, ao menos no que tange à consideração de
cidadania como participação formal no auto-governo.
3. ‘Cidadania’ para significar não apenas o quadro de membros
de algum grupo, mas certos padrões de boa conduta. Este
significado representa a fusão da concepção republicana da
cidadania participativa com a prática comum de utilizar o termo
‘cidadania’ para se referir ao conjunto de membros em qualquer
de uma quase infinita variedade de grupos humanos.
4. ‘Cidadania’ e a necessidade de redefinição a fim de responder
aos grandes desafios, tais como a exclusão social, a imigração,
novos movimentos sociais, pluralidade religiosa e étnica,
globalização. Sob nova configuração, visa a inserir o cidadão no
cenário internacional cosmopolita, enfrentar os abusos dos
defensores radicais do mercado mundial, bem como promover o
reconhecimento do valor da dignidade humana e o seu papel no
interior de seu próprio Estado.

Conclui-se, assim, que, da dimensão vertical (relação Estado-cidadão),


tem-se caminhado paulatinamente para a dimensão horizontal (relação cidadão-
cidadão) sob os auspícios dos deveres de igualdade e solidariedade.
Percebe-se, mais uma vez, que as dimensões de direito não se sobrepõem
de forma a anular a dimensão anterior, mas sim de maneira a lhe complementar,
possibilitando maiores direitos.
Note-se, por exemplo, que “a primeira dimensão não está sendo
substituída, mas complementada, uma vez que a solidariedade, a defesa do
interesse público e o respeito à dignidade da pessoa humana tendem a resgatar

12
o sentido de participação política, bem como a garantia de efetivação dos direitos
fundamentais” (Oliveira, S.d., online), explanando assim que

essa solidariedade significa abrir caminho para a participação dos


cidadãos nas instituições do Estado, na ocupação dos espaços
nas instituições da sociedade civil, de modo a criar mecanismos
de articulação entre Estado e sociedade, visando ao alcance da
liberdade para o exercício dos direitos fundamentais e a igualdade
entre todos os membros da sociedade.

Assim, evoluímos para superar a ideia de que cidadania seria apenas o


direito a ter direitos, para entender novas formas coletivas e mais complexas de
direitos e deveres que interatuem com novas formas e critérios de participação.
Em nosso sistema jurídico, a CF/88 situou a cidadania dentre os princípios
fundamentais da República, buscando derradeiramente garantir a real
participação de todos os cidadãos com o fito na construção de uma sociedade
efetivamente livre, justa e solidária.
No entanto, como bem aponta Oliveira (S.d., online), a formalização de tais
direitos na constituição cidadã não necessariamente implicou em seu exercício
efetivo:

A imensa disparidade social criou ambiente propício ao


desenvolvimento de classes de cidadãos, ou seja, a sociedade
brasileira se compõe de cidadãos que se colocam acima de
qualquer lei, beneficiários de privilégios ao invés de direitos; de
cidadãos que, normalmente, se sujeitam aos rigores e benefícios
das leis; e, por fim, daqueles que se encontram à margem da
cidadania e têm seus direitos constantemente aviltados. Dessa
divisão totalmente injusta surge a desconfiança sobre a real
existência dos direitos de cidadania e das condições mínimas de
seu exercício por parte de seus titulares, que, em conseqüência
disso, passam a questionar a legitimidade das instituições ligadas
a estes direitos e a sua própria força em exigir garantias do pleno
e efetivo cumprimento das promessas inseridas na definição de
cidadania. A profunda desilusão e a conseqüente apatia da
maioria dos brasileiros devem ser convertidas em educação e
ação no sentido de demonstrar que a cidadania torna todo
cidadão um protagonista na construção da sua própria história,
aquele que toma o destino em suas mãos e assume o dever cívico
de participar solidariamente na edificação de um Estado
genuinamente Democrático de Direito.

Enquanto cidadãos, detemos, portanto, o dever de refletir como podemos


exercer essa cidadania com qualidade e, mais além, como podemos possibilitar
que os outros membros da sociedade também a exerçam com igual qualidade, na
construção de um Estado efetivamente Democrático.

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LEITURA COMPLEMENTAR

COUTINHO, C. N. Cidadania e Modernidade. Perspectivas, São Paulo, n. 22, p.


41–59, 1999. Disponível em:
<https://periodicos.fclar.unesp.br/perspectivas/article/viewFile/2087/1709>.
Acesso em: 21 mar. 2019.

14
REFERÊNCIAS

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reflexões preliminares. Série Antropologia, 122. Brasília: UnB/Departamento de
Antropologia, 1992.

BOBBIO, N. A Era dos Direitos. Rio de Janeiro: Editora Campus,1999.

COUTINHO, C. N. Cidadania e Modernidade. Perspectivas, São Paulo, n. 22, p.


41–59, 1999. Disponível em:
<https://periodicos.fclar.unesp.br/perspectivas/article/viewFile/2087/1709>.
Acesso em: 21 mar. 2019.

MARSHALL, T. H. Cidadania, classe social e status. Rio de Janeiro: Zahar,


1967.

MELO, G. C. Evolução histórica do conceito de cidadania e a declaração universal


dos direitos do homem. In: Âmbito Jurídico, Rio Grande, XVI, n. 119, dez 2013.
Disponível em: <http://www.ambito-
juridico.com.br/site/?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=13959>. Acesso em:
21 mar. 2019.

MORAES, M. C. A proteção dos direitos humanos e sua interação diante do


princípio da dignidade da pessoa humana. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-
4862, Teresina, ano 8, n. 157, 10 dez. 2003. Disponível em:
<https://jus.com.br/artigos/4607>. Acesso em: 21 mar. 2019.

NUNES JÚNIOR, V. S. Direitos sociais. Enciclopédia jurídica da PUC-SP.


CAMPILONGO, C. F.; GONZAGA, A. A.; FREIRE, A. L. (Coords.). Tomo: Direito
Administrativo e Constitucional. Vidal Serrano Nunes Jr., Maurício Zockun,
Carolina Zancaner Zockun, André Luiz Freire (Coord. de tomo). 1ª ed. São Paulo:
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2017. Disponível em:
<https://enciclopediajuridica.pucsp.br/verbete/54/edicao-1/direitos-sociais>.
Acesso em: 21 mar. 2019.

OLIVEIRA, P. J. J. de. A Cidadania é para todos. Direitos, deveres e solidariedade.


148ª Subseção de Santo Anastácio, S.d., online. Disponível em:
<http://www.oabsp.org.br/subs/santoanastacio/institucional/artigos/a-cidadania-e-
para-todos.direitos-deveres-e>. Acesso em: 21 mar. 2019.

15
PESTANA, B. M. Direitos fundamentais: origem, dimensões e características.
Conteúdo Jurídico, Brasília-DF, 17 out. 2017. Disponível em:
<http://www.conteudojuridico.com.br/?artigos&ver=2.589755&seo=1>. Acesso
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SANTOS, B. de S. Para uma concepção pós-moderna do Direito. In: _____. A


crítica da razão indolente: contra o desperdício da experiência. São Paulo:
Cortez, 2000.

SILVA, J. A. da. Curso de Direito Constitucional Positivo. 28ª ed. rev. e atual.
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SILVA, L. F.; FREIRE, J. L.; PRADO, L. M. do. Cidadania e Violência Estrutura.


Revista Brasileira de Educação e Cultura, ISSN 2237-3098. Centro de Ensino
Superior de São Gotardo. Número XVII. Jan-jun. 2018, p. 94–103, Trabalho 05.
Disponível em: <http://periodicos.cesg.edu.br/index.php/educacaoecultura>.
Acesso em: 21 mar. 2019.

TURNER, B.; ISIN, E. Handbook of citizenship studies. London: Sage


Publications, 2002.

16
AULA 5

ÉTICA, DIREITOS HUMANOS E


DIREITOS DA CIDADANIA

Profª Juliana Bertholdi


Apresentados os principais conceitos e estruturas que permeiam o tema
do presente estudo, fundamental que não se olvide concretude ao conteúdo.
Assim, entende-se que a igualdade é o cerne da realização dos direitos humanos
e mola propulsora da realização cidadã. Nos próximos estudos, iremos abordar a
construção dos direitos tratados na legislação interna que visam tais garantias aos
chamados grupos vulneráveis/minoritários, abordando as principais
legislações e políticas públicas que possuem tal objetivo.
Com esta abordagem, pretende-se contribuir para o desenvolvimento de
uma percepção mais crítica da exclusão social destas populações no Brasil,
promovendo o desenvolvimento da consciência da necessidade de redução das
desigualdades sociais e combate a todas as formas de preconceitos e
discriminação, à luz da ética, dos Direitos Humanos e da realização dos Direitos
da Cidadania.
Assim, neste e no próximo estudo veremos como se dá a promoção dos
Direitos Humanos e da Cidadania na estrutura legal e governamental brasileira.

TEMA 1 – A IGUALDADE SOCIAL COMO INSTRUMENTO PARA REALIZAÇÃO


DA ÉTICA, DOS DIREITOS HUMANOS E DOS DIREITOS DA CIDADANIA

Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em


direitos: assim começa o art. 1º da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Desconhecido por grande parte da população, o dispositivo legal busca alumiar
fato que nos deveria ser óbvio: independentemente de questões como sexo, etnia
ou religião, todos os seres humanos merecem, por princípio, os mesmos direitos
e garantias.
Na mesma toada dos dispositivos internacionais, os Direitos Fundamentais
brasileiros buscam a mesma tutela da igualdade: a Constituição Federal de 1988
dispõe, em seu art. 5º caput, sobre tal princípio:

Art. 5º. Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer
natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no
País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à
segurança e à propriedade, nos termos seguintes.

Percebe-se de pronto o quão fulcral é a igualdade: a palavra aparece em


variações por duas vezes no artigo que desenha os direitos fundamentais
brasileiros. A igualdade é, por essência, ponto de partida dos direitos humanos e

2
fundamentais e pressupostos da realização dos direitos da cidadania e realização
democrática.
Tal princípio é ainda replicado no art. 4º, inciso VIII, que descreve a
igualdade racial; no art. 5º, I, que versa sobre a igualdade de gênero; do art. 5º,
inciso VIII, que trata da igualdade de credo religioso; do art. 5º, inciso XXXVIII,
que trata da igualdade na prestação jurisdicional; do art. 7º, inciso XXXII, que
cuida da igualdade trabalhista; do art. 14, que monta a igualdade política ou ainda
do art. 150, inciso III, que dispõe a igualdade tributária.
Ainda, conforme Moraes (2002, p. 65), o princípio opera em dois planos
distintos. Inicialmente, a igualdade opera nas variadas produções normativas,
frente ao legislador ou mesmo ao próprio Poder Executivo, prevenindo que
possam criar tratamentos demasiadamente diferenciados a pessoas que se
encontram em situação análoga. Ainda, reflete-se na obrigatoriedade de aplicar a
lei e atos normativos de maneira igualitária, sem estabelecimento de distinções
em razão de sexo, religião, convicções filosóficas ou políticas, raça e classe social
(Moraes, 2002, p. 65). A esta igualdade formal que nos referimos quando
utilizamos a expressão “tratar os iguais como iguais”.
Noutro vértice, o mesmo artigo constitucional possui garantia mais ampla
do que a mera igualdade formal perante a lei: tem como escopo uma igualdade
material que se baseia em determinados fatores:

O raciocínio que orienta a compreensão do princípio da isonomia tem


sentido objetivo: aquinhoar igualmente os iguais e desigualmente as
situações desiguais (Bulos, 2002, p. 79).

Desta feita, com a permissão constitucional em cláusula pétrea, a


Constituição Federal e a legislação estão autorizadas a realizar tratamento
diferenciado de acordo com critérios razoáveis e justificáveis, que visem a conferir
tratamento isonômico aos desiguais: “Assim, os tratamentos normativos
diferenciados são compatíveis com a Constituição Federal quando verificada a
existência de uma finalidade razoavelmente proporcional ao fim visado” (Morais,
2001, p. 65). A esta igualdade material que se refere a expressão “tratar os
desiguais na medida de sua desigualdade”.
Neste sentido, citamos como exemplo:

a) O art. 7º, XXX, da Constituição Federal, que proíbe a diferença de salários,


de exercício de funções e de critério de admissão por motivo de sexo,
idade, cor ou estado civil;

3
b) Art. 7º XVIII que dispõe sobre a licença à gestante em período superior à
licença-paternidade;
c) Art. 40, parágrafo 1º, III, a e b e art. 201, parágrafo 7º da Constituição
Federal, que dão tratamento diferenciado à mulher, diminuindo o tempo
necessário para se aposentar.

Neste raciocínio, portanto, conseguimos conjugar um excelente exemplo


de tratamento igualitário formal e material com base na perspectiva de gênero. A
igualdade de gênero, prevista no inciso I, do art. 5º da Constituição Federal, possui
dois pressupostos básicos: o gênero não pode ser utilizado como critério de
discriminação substancial entre homens e mulheres, mas pode funcionar como
critério favorável na atuação contra os desníveis social, político, econômico,
cultural e jurídico existentes entre eles.
Atualmente, a desigualdade em nosso país é o maior óbice à realização
dos direitos humanos, razão pela qual buscaremos dar concretude ao conteúdo
por meio da análise de realidade dos grupos minoritários brasileiros,
entendendo como nossa legislação e nossas políticas públicas se estruturam para
criação de um cenário mais igualitário.

TEMA 2 – DIREITO DAS MINORIAS: PRIVILÉGIO OU NECESSIDADE?

Analisado o princípio da igualdade, por razões metodológicas, torna-se


fundamental entendermos o que buscamos significar quando tratamos de
minorias ou populações vulneráveis. Neste aspecto, desde logo fulcral enfatizar
que não há consenso acadêmico quanto ao conceito de minorias e mesmo quanto
à sua necessidade de aplicação, havendo inclusive autores que questionam a
escolha terminológica, a exemplo da professora Melina Fachin.
Neste conteúdo, igualmente por razões metodológicas, abordaremos o
conceito de minorias mais amplo, conforme a definição a seguir, do sociólogo
Mendes Chaves (1970, p. 149):

A palavra minoria se refere a um grupo de pessoas que de algum modo


e em algum setor das relações sociais se encontra numa situação de
dependência ou desvantagem em relação a um outro grupo,
“maioritário”, ambos integrando uma sociedade mais ampla. As minorias
recebem quase sempre um tratamento discriminatório por parte da
maioria.

Há autores ainda que estabelecem critérios/ elementos para identificação


dos grupos minoritários. Tais critérios possuem grande variação; inobstante,

4
alguns critérios repetem-se com bastante frequência, a exemplo da
vulnerabilidade, caracterizada pela ausência de suficiente amparo nas estruturas
governamentais e legais vigentes, tornando-se especialmente dificultosa a
realização dos direitos fundamentais para aquele grupo.
Importante ressaltar que tal vulnerabilidade jamais é intrínseca, mas sim
possui caráter histórico e cultural: em cada região ou país, diferentes grupos
podem ser considerados minoritários a depender das estruturas sociais locais,
podendo o mesmo grupo ser dominante em determinada sociedade e dominado
em outro. Veja-se, por exemplo, os judeus, grupo hegemônico em Israel e
minoritário em outros países. O mesmo ocorre com o povo curdo e o povo turco.
Como pudemos observar, os Direitos Humanos, entendidos como direitos
fundamentais quando internalizados constitucionalmente, devem ser garantidos a
absolutamente todos os indivíduos. Como estamos observando, no caso das
minorias tal consideração é especialmente importante, posto que se tratam de
grupos já discriminados e tratados de modo desigual pela parte maioritária: nosso
país é o que mais mata a população LGBT, o que tem maior incidência de
feminicídios e um dos últimos países do mundo em representatividade política
feminina, como veremos nos próximos estudos.
Em estudos anteriores pudemos verificar a preocupação com as minorias
no âmbito internacional, com Pactos, Declarações e Convenções internacionais
que tratam dos direitos e proteção das minorias. Rememoramos a Declaração
Universal dos Direitos Humanos, de 1948; a Convenção da Unesco para
Eliminação da Discriminação na Educação, de 1960, e a Declaração dos Direitos
das Pessoas pertencentes a Minorias Nacionais ou Étnicas, Religiosas e
Linguísticas, de 1992.
Na legislação brasileira, além dos dispositivos da Constituição Federal já
destacados anteriormente, avultamos legislações fulcrais a todas as minorias:

a) Lei n. 2.889/56 – lei de prevenção ao genocídio, colabora para a


proteção das minorias, que, como já citado, são as maiores vítimas
desse crime. Ela estabelece punições para aquele com intenção de
destruir, no todo ou em parte, grupo nacional, étnico, racial ou religioso.
b) Lei n. 7.437/1985 – inclui, entre as contravenções penais, a prática de
atos resultantes de preconceito de raça, de cor, de sexo ou de estado
civil, dando nova redação à Lei n. 1.390, de 3 de julho de 1951 – Lei
Afonso Arinos.

5
c) Lei n. 7.716/1989 – define os crimes resultantes de preconceito de raça
ou de cor.
d) Lei n. 7.716/89 – estabelece punições para crimes resultantes de
discriminação relacionada a raça, cor, etnia, religião ou procedência
nacional. Alguns dos crimes são: impedir acesso a serviços públicos,
negar contratação, impedir acesso a cargos públicos, deixar de atender
cliente, impedir acesso a transportes públicos, entre outros, por motivos
de discriminação já citados. Como já foi comentado, as minorias são
alvos de discriminação e preconceito, portanto, ao buscar punir esses
crimes, o Estado protege os grupos minoritários.
e) Lei n. 9.474/1997 – define mecanismos para a implementação do
Estatuto dos Refugiados de 1951 e determina outras providências.
f) Lei n. 9.455/1997 – define os crimes de tortura e dá outras providências.
g) Lei n. 12.847/2013 – responsável por instituir o Sistema Nacional de
Prevenção e Combate à Tortura; cria o Comitê Nacional de Prevenção e
Combate à Tortura e o Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à
Tortura; e dá outras providências.

O Estado Brasileiro prevê, ainda, legislações específicas que buscam


proteger e promover a igualdade nomeadamente para grupos minoritários
específicos, além de políticas públicas desenvolvidas para promoção da igualdade
e pleno exercício da cidadania por estes grupos vulneráveis.

TEMA 3 – PROGRAMA NACIONAL DE DIREITOS HUMANOS

Ainda neste momento inicial em que são apresentados os Direitos


Humanos instrumentalizados na legislação brasileira, destaca-se o Terceiro
Programa Nacional de Direitos Humanos, instituído pelo Decreto n. 7.037, de 21
de dezembro de 2009, e atualizado pelo Decreto n. 7.177, de 12 de maio de 2010.
Com o Decreto n. 7.037/2009 ficou aprovado o Programa Nacional de
Direitos Humanos – PNDH-3, em consonância com as diretrizes, objetivos
estratégicos e ações programáticas estabelecidos.
Assim, é produto de uma construção democrática e participativa,
incorporando resoluções da 11ª Conferência Nacional de Direitos Humanos, além
de propostas aprovadas em mais de 50 conferências temáticas, promovidas
desde 2003, em áreas como segurança alimentar, educação, saúde, habitação,

6
igualdade racial, direitos da mulher, juventude, crianças e adolescentes, pessoas
com deficiência, idosos, meio ambiente etc.
Em seu art. 2º, o Decreto aduz que o PNDH-3 será implementado de acordo
com os seguintes eixos orientadores e suas respectivas diretrizes

I. Eixo Orientador I: Interação democrática entre Estado e sociedade


civil;
II. Eixo Orientador II: Desenvolvimento e Direitos Humanos;
III. Eixo Orientador III: Universalizar direitos em um contexto de
desigualdades;
IV. Eixo Orientador IV: Segurança Pública, Acesso à Justiça e Combate
à Violência;
V. Eixo Orientador V: Educação e Cultura em Direitos;
VI. Eixo Orientador VI: Direito à Memória e à Verdade.

Segundo o site do Programa,1 o Eixo I, Interação Democrática entre


Estado e Sociedade Civil, “reflete o pressuposto de que o compromisso
compartilhado e a participação social na construção e no monitoramento de
políticas públicas são essenciais para que a consolidação dos direitos humanos
seja substantiva e conte com forte legitimidade democrática. Nesse contexto, o
PNDH-3 propõe a integração e ao aprimoramento dos fóruns de participação
existentes, bem como a criação de novos espaços e mecanismos institucionais de
interação e acompanhamento” (Brasil, S.d., online2).
Por sua vez, o Eixo II, Desenvolvimento e Direitos Humanos, enfoca a
“inclusão social e a garantia do exercício amplo da cidadania, garantindo espaços
consistentes com as estratégias de desenvolvimento local e territorial e buscando
um modelo de crescimento sustentável, capaz de assegurar os direitos
fundamentais das gerações presentes e futuras” (Brasil, S.d., online).
O Eixo III, Universalizar Direitos em um Contexto de Desigualdades,
“baseia-se na necessidade de reconhecer as diversidades e diferenças para
concretização do princípio da igualdade, visando à superação de barreiras
estruturais para o acesso aos direitos humanos. Envolve, portanto, iniciativas
relacionadas com a redução da pobreza, a erradicação da fome e da miséria, o

1Disponível em: <https://pndh3.sdh.gov.br/portal/sistema/navegue-no-pndh3>. Acesso em: 31 mar. 2019.


2Disponível em: <https://pndh3.sdh.gov.br/portal/sistema/navegue-no-pndh3“tratar os desiguais na medida
de sua desigualdade>. Acesso em: 31 mar. 2019.
7
combate à discriminação e a implementação de ações afirmativas voltadas para
grupos em situação de vulnerabilidade” (Brasil, 2018, online).
Ainda, o Eixo IV, Segurança Pública, Acesso à Justiça e Combate à
Violência, envolve “metas para a diminuição e prevenção da violência e
criminalidade, priorizando a transparência e a participação popular. Inclui ainda,
medidas de ampliação do acesso à Justiça, por meio da disponibilização de
informações à população, do fortalecimento dos modelos autocompositivos de
solução de conflitos e da modernização da gestão do sistema de Justiça” (Brasil,
2018, online).
Ato contínuo, o Eixo V, Educação e Cultura em Direitos Humanos,
refere-se ao “desenvolvimento de processos educativos permanentes voltados à
formação de uma consciência centrada no respeito ao outro, na tolerância, na
solidariedade e no compromisso contra todas as formas de discriminação,
opressão e violência, com base no respeito integral à dignidade humana” (Brasil,
2018, online).
Finalmente, o Eixo VI, Direito à Memória e à Verdade, “afirma a
importância da memória e da verdade como princípios históricos de direitos
humanos, e tem como finalidade assegurar o processamento democrático e
republicano dos acontecimentos ocorridos durante o regime militar, além das
reparações a violações que tenham se passado nesse contexto” (Brasil, S.d.,
online).
Ressalta ainda o próprio site institucional que, dentre os principais avanços
trazidos pelo Programa, destacam-se a “transversalidade de suas diretrizes,
objetivos e ações programáticas e o envolvimento de diversos Ministérios,
partindo da perspectiva de indivisibilidade e interdependência dos direitos
humanos” (Brasil, S.d., online). Nesse sentido, as iniciativas de responsabilidade
do Governo Federal previstas no documento se distribuem por todas as áreas da
administração, reforçando a importância da coordenação entre as políticas
públicas desenvolvidas pelos diversos Ministérios para o alcance dos resultados
esperados.

TEMA 4 – POVOS ORIGINÁRIOS BRASILEIROS

Desde 1500 até a presente data, a população indígena brasileira diminuiu


significativamente, sendo muitos povos originários extintos (dentre eles, calculam-

8
se como os mais populosos o povo Potiguar e o povo Tupinambá,3 que, somados,
constituíam quase 200 mil indivíduos).
As violências foram sistemáticas durante todo o período colonial e pós-
colonial. Durante o processo de ocupação e colonização, as sociedades indígenas
foram desconsideradas e a política indigenista foi planejada e aplicada com fito
de anular todo o sistema indígena local, cultural, política e juridicamente (Pacheco,
2004). A mesma conduta se seguiu no período pós-colonial, com uma política que
não admitia a existência de grupos sociais com identidades próprias, com uma
política de integração à comunhão nacional (Pacheco, 2004, p. 5).
No fim dos anos 1950 até 1968, o Estado brasileiro submeteu seus povos
indígenas às tentativas violentas para integrar, pacificar e aculturar suas
comunidades. Neste aspecto, o relatório da Comissão Nacional da Verdade, de
2014, apontou, por exemplo, que tribos no Maranhão foram completamente
erradicadas no Mato Grosso, entre 1946 e 1988, período que pautou as
investigações sobre graves violações de direitos humanos.
O documento atesta ainda uma série de crimes de genocídio contra os
povos indígenas do Brasil, incluindo assassinatos em massa, tortura e guerra
bacteriológica e química, relatava escravidão e abuso sexual que ocorreram nos
períodos de 1947 a 1988. O relatório revela que o Serviço de Proteção ao Índio
havia escravizado povos indígenas, torturado crianças e roubado terras, razão
pela qual restou banido.
Mais de trinta anos depois, a violência contra o povo indígena em território
brasileiro pouco se alterou: no ano de 2018, o Brasil foi denunciado na
Organização das Nações Unidas em virtude do “risco de genocídio indígena”. De
acordo com o relatório, houve uma profunda extinção da população indígena
brasileira no último século, passando de 4% da população para apenas 0,4%.
A violência especialmente dirigida a este grupo minoritário é inegável: a
taxa de homicídio na população Guarani-Kaiowá, em Dourados-MT, é de 88 para
cada cem mil pessoas, quase o triplo da taxa média de homicídios no Brasil.4

3 IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Brasil: 500 anos de povoamento. Rio de Janeiro,
2000. Apêndice: Estatísticas de 500 anos de povoamento. p. 222. Disponível em:
<https://brasil500anos.ibge.gov.br/estatisticas-do-povoamento/grupos-indigenas-extintos.html>. Acesso em:
31 mar. 2019.
4 Disponível em: <https://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,na-onu-entidade-denuncia-brasil-por-risco-de-

genocidio-de-povos-indigenas,70002501933>. Acesso em: 31 mar. 2019.


9
Segundo a Fundação Nacional do Índio – FUNAI, atualmente meio milhão
de índios estão espalhados pelo País, em 250 etnias que vivem em apenas 13,8%
do território nacional.
Neste momento histórico, o grande desafio dos povos originários das
Américas tem sido o de buscar novas estratégias de negociação com os governos
dominantes e criar modelos de resistência étnica com base em processos de
contato com os governos ainda coloniais (Athias, 2005, p. 1).

Saiba mais
Para aprofundamento do conhecimento da situação indígena atual,
indicamos o site da ONG Survival. Disponível em:
<https://www.survivalbrasil.org/povos/indios-isolados-brasil). Acesso em: 31 mar.
2019.

4.1 Legislação internacional

A resistência dos povos indígenas na reivindicação de seus direitos é


histórica e ultrapassa as fronteiras nacionais. No âmbito internacional, em 13 de
setembro de 2007, a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas –
ONU – aprovou a Declaração das Nações Unidas sobre Direitos dos Povos
Indígenas.
Quando de sua promulgação, a comunidade internacional reconheceu no
próprio preâmbulo do documento que os povos indígenas sofreram uma série de
violências e injustiças. Prevê o preambulo:

Injustiças históricas como resultado, entre outras coisas, da colonização


e inalienação de suas terras, territórios e recursos impedindo-os de
exercerem em particular seus direitos ao desenvolvimento em
conformidade com suas próprias necessidades e interesses.

A declaração reconhece, ainda, a urgente necessidade de respeitar e


promover os direitos intrínsecos dos povos indígenas, que derivam de suas
próprias estruturas políticas, econômicas e sociais e de suas culturas, de suas
tradições espirituais, de sua história e concepção de vida, especialmente os
direitos às terras, aos territórios e aos recursos.
Na declaração constam princípios como a igualdade de direitos e a
proibição de discriminação, o direito à autodeterminação e a necessidade de fazer
do consentimento e do acordo de vontades o referencial de todo o relacionamento

10
entre povos indígenas e Estados. Vejamos a pertinente síntese realizada pelo
Instituto Socioambiental – ISA:

a) Autodeterminação dos povos: indígenas têm o direito de


determinar livremente seu status político e perseguir livremente seu
desenvolvimento econômico, social e cultural, incluindo sistemas
próprios de educação, saúde, financiamento e resolução de conflitos,
entre outros. Este foi um dos principais pontos de discórdia entre os
países; os contrários a ele alegavam que isso poderia levar à fundação
de “nações” indígenas dentro de um território nacional.
b) Direito ao consentimento livre, prévio e informado: da mesma
forma que a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho
(OIT), a Declaração da ONU garante o direito de povos indígenas serem
adequadamente consultados antes da adoção de medidas legislativas
ou administrativas de qualquer natureza, incluindo obras de infra-
estrutura, mineração ou uso de recursos hídricos.
c) Direito a reparação pelo furto de suas propriedades: a
declaração exige dos Estados nacionais que reparem os povos
indígenas com relação a qualquer propriedade cultural, intelectual,
religiosa ou espiritual subtraída sem consentimento prévio informado ou
em violação a suas normas tradicionais. Isso pode incluir a restituição ou
repatriação de objetos cerimoniais sagrados.
d) Direito a manter suas culturas: esse direito inclui entre outros o
direito de manter seus nomes tradicionais para lugares e pessoas e de
entender e fazer-se entender em procedimentos políticos,
administrativos ou judiciais inclusive através de tradução.
e) Direito a comunicação: os povos indígenas têm direito de manter
seus próprios meios de comunicação em suas línguas, bem como ter
acesso a todos os meios de comunicação não-indígenas, garantindo que
a programação da mídia pública incorpore e reflita a diversidade cultural
dos povos indígenas (Mathias; Yamada, 2010, online).

Segundo Oliveira (2011, p. 144), a aplicação dos direitos humanos em


relação aos povos indígenas necessariamente deve considerar “a organização
social, os usos, costumes e tradições dos povos indígenas, bem como a natureza
coletiva dos bens que formam seu patrimônio cultural, territorial e ambiental”.
Neste aspecto, as legislações internacionais fornecem importantes parâmetros
para a instrumentalização dos Direitos Humanos para o povo indígena.

4.2 Legislação Nacional e estrutura de Políticas Públicas


A CF/88 possui fulcral importância para o estabelecimento de modelo
jurídico-institucional da política indigenista mais amplo, especialmente no que
concerne às garantias relativas às terras indígenas: a Carta Magna reconhece não
apenas a ocupação física das reservas habitadas pelos povos originários, mas
igualmente a ocupação em acordo com as tradições culturais. Em seu art. 20, a
CF/88 expande o conceito de território indígena a toda extensão de terra
necessária à manutenção e preservação das tradições imemoriais e culturais dos
povos indígenas. Por sua vez, o art. 22 determina a competência do Estado para

11
legislar sobre as populações indígenas, reconhecendo seu direito de preservação
da identidade étnica e organização interna.
Nas questões culturais, o art. 215 assegura a educação bilíngue,
garantindo-lhes a utilização de suas línguas e processos próprios de
aprendizagem.
Os parágrafos dos art. 231 e 232 dispõe as bases dos direitos indígenas e
ressaltam o reconhecimento da identidade própria e diferenciada, assim como dos
direitos originários. Ainda, determina a demarcação das terras indígenas e
reconhece as estruturas de organização social como partes legítimas para
ingressar em juízo em defesa de seus direitos e interesses.
Para além das disposições constitucionais, em 1996 foi editado o Decreto
n. 1.775/96 – Lei das Terras Indígenas, que igualmente regula este direito à terra
e preservação cultural.
Ainda quanto ao índio, no âmbito administrativo, destaca-se a Lei n. 5.371,
que criou a Fundação Nacional do Índio – Funai, o órgão administrativo de
proteção aos interesses indígenas. Assim se define a Funai em seu site
institucional:5

A Funai, enquanto órgão coordenador da política indigenista, é


membro ou acompanha, e fomenta a participação de povos e
representantes indígenas em instâncias de participação,
monitoramento e controle social de políticas com interfaces com
políticas indigenistas, ou seja, que afetam, ou interessam ou
contemplam povos e terras indígenas.
Na busca de equilíbrio de forças, a Funai apoia o processo de
participação dos povos indígenas com o objetivo de possibilitar a
discussão dos seus direitos e garantias, como medidas de
intervenção, de forma a impactar na realidade local nas
comunidades indígenas, alterando e qualificando políticas
públicos relacionadas a povos indígenas.

No mesmo texto, a Fundação Nacional do Índio – Funai – admite, no


entanto, a necessidade de medidas mais efetivas, incluindo a adoção da proposta
de criação de um Conselho Nacional de Política Indigenista para consolidar o
espaço de participação indígena nacional e conferir caráter deliberativo à atual
Comissão Nacional de Política Indigenista, uma das principais reivindicações dos
povos indígenas na atualidade.

5
Disponível em: <http://www.funai.gov.br/index.php/participacao-indigena-na-construcao-de-politicas-
publicas?start=1#>. Acesso em: 31 mar. 2019.
12
TEMA 5 – PESSOAS COM DEFICIÊNCIA

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde – OMS, 1 bilhão de


pessoas vivem com alguma deficiência no planeta (aproximadamente 1 em cada
7 pessoas). Infelizmente, a falta de estatísticas sobre o tema auxilia em sua
invisibilização, o que impacta no planejamento e implementação de legislação e
políticas públicas.
Desta larga população de quase 1 bilhão de pessoas, 80% residem em
países em desenvolvimento como o Brasil. No total, 150 milhões de crianças (com
menos de 18 anos de idade) têm alguma deficiência, segundo o Unicef.
Os mesmos dados da ONU ainda demonstram que portar alguma
deficiência aumenta o custo de vida em cerca de um terço da renda, em média.
Ainda, representa dificuldades em completar o ensino básico: “enquanto 60%
dessas crianças completam essa etapa dos estudos nos países desenvolvidos,
apenas 45% (meninos) e 32% (meninas) completam o ensino primário nos países
em desenvolvimento”. Não fosse suficiente, mais de 50% das pessoas com
deficiência não conseguem pagar por serviços de saúde (ONU Brasil, online).
Fundamental ressaltar que, neste grupo minoritário, é praticamente
inexistente a homogeneidade das pautas, uma vez que as pessoas com
deficiência possuem uma série de aspectos particulares – especialmente quando
se considera as diversas espécies de deficiências possíveis.
Este reconhecimento das complexidades e diversidades humanas é o
resultado do conceito biomédico da deficiência para o seu modelo social, “base
da compreensão e dos direitos que a Convenção sobre os Direitos das Pessoas
com Deficiência (CPCD) passa a assegurar, fundindo-se aos princípios
constitucionais, no Brasil, pelas características de sua incorporação legal”
(Carvalho; Almeida, 2017, online).
Neste sentido, aponta Diniz, Barbosa, Santos (2009, p. 62):

De acordo com a Convenção, a nova compreensão de deficiência não


deve ignorar as deficiências corporais, nem se restringe a listá-las. Essa
redefinição da deficiência como uma combinação de uma estrutura
biomédica, que lista deficiências corporais, e uma perspectiva de direitos
humanos, que denuncia esse tipo de opressão, não foi uma criação das
Nações Unidas sozinha. Por mais de quatro décadas, o chamado
modelo social de deficiência provocou o debate político e acadêmico
internacional sobre o fracasso do conceito biomédico de deficiência para
promover a igualdade entre pessoas com deficiência e sem deficiência
(tradução livre).

Para Carvalho e Almeida (2012, online):


13
Esta redefinição conceitual é fundamental na própria revitalização dos
movimentos de defesa de direitos das pessoas com deficiência e passa
a agregar de forma definitiva o sentido de “cidadania” às possibilidades
existenciais dos indivíduos, porque amparado nas normas legais e
baseado no mais amplo reconhecimento social e político.

Izabel Maior (2010, p. 32) comenta o impacto da CPCD da seguinte forma:

A mudança de conceituação que retira a deficiência da pessoa e a


remete para o meio, bem como as obrigações assumidas pelos Estados-
Parte, seria suficiente para recompensar o trabalho do movimento das
pessoas com deficiência. Porém, a Convenção supera as expectativas
ao cuidar dos direitos civis e políticos, econômicos, sociais e culturais
dos cidadãos com deficiência e, também, ao considerar esse segmento
como parte da diversidade humana.

A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência – CPCD,


portanto, foi responsável por ressignificar legalmente o conceito de deficiência,
constituindo uma oportunidade de ação política.

5.1 Legislação internacional e nacional

Após anos de esforços, a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos


das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo foi adotada em 2006 e
entrou em vigor em 3 de maio de 2008. O Brasil é um país signatário desde 2009,
contando com um estatuto federal sobre o tema desde 2015 – o Estatuto das
Pessoas com Deficiência, Lei n. 13.146/2015.
Conforme o texto da própria lei, seu escopo é assegurar e promover, em
condições de igualdade, o exercício dos direitos e das liberdades fundamentais
por pessoa com deficiência, visando à sua inclusão social e sua cidadania.
Logo no art. 2º, a legislação dispõe definição legal de pessoa com
deficiência:

Considera-se pessoa com deficiência aquela que tem impedimento de


longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, o qual,
em interação com uma ou mais barreiras, pode obstruir sua participação
plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais
pessoas.

Destaca-se, ainda, a disposição expressa do art. 6º:

A deficiência não afeta a plena capacidade civil da pessoa, inclusive


para: casar-se e constituir união estável, exercer direitos sexuais e
reprodutivos, exercer o direito de decidir sobre o número de filhos e de
ter acesso a informações adequadas sobre reprodução e planejamento
familiar, conservar sua fertilidade, sendo vedada a esterilização
compulsória, exercer o direito à família e à convivência familiar e
comunitária e exercer o direito à guarda, à tutela, à curatela e à adoção,
como adotante ou adotando, em igualdade de oportunidades com as
demais pessoas.

14
Finalmente, há de se destacar que a Lei Brasileira da Inclusão concebeu
novas prioridades e reforçou algumas prioridades já existentes. Nesse sentido,
dispõe o art. 9º:

A pessoa com deficiência tem direito a receber atendimento prioritário,


sobretudo com a finalidade de: proteção e socorro em quaisquer
circunstâncias; atendimento em todas as instituições e serviços de
atendimento ao público; disponibilização de recursos, tanto humanos
quanto tecnológicos, que garantam atendimento em igualdade de
condições com as demais pessoas; disponibilização de pontos de
parada, estações e terminais acessíveis de transporte coletivo de
passageiros e garantia de segurança no embarque e no desembarque;
acesso a informações e disponibilização de recursos de comunicação
acessíveis; recebimento de restituição de imposto de renda; tramitação
processual e procedimentos judiciais e administrativos em que for parte
ou interessada, em todos os atos e diligências.
O §1º do referido artigo assegura a extensão dos direitos dispostos no
artigo 9º ao acompanhante da pessoa com deficiência ou ao seu
atendente pessoal, in verbis: “os direitos previstos neste artigo são
extensivos ao acompanhante da pessoa com deficiência ou ao seu
atendente pessoal, exceto quanto ao disposto nos incisos vi e vii deste
artigo.

Outra disposição significativa se encontra no art. 94 desta Lei, que


possibilita o auxílio-inclusão a que faz jus à pessoa com deficiência moderada ou
grave. A Lei Orgânica da Assistência Social – LOAS propicia às pessoas com
deficiência que se enquadrem nos requisitos dispostos o direito a receber o
Benefício de Prestação Continuada. Entretanto, o benefício é suspenso se a
pessoa com deficiência ingressar no mercado de trabalho.
Destaca-se, no âmbito penal, a existência de crimes com penas mais
graves nos casos em que praticados contra pessoas portadoras de deficiências
(Art. 149-A, 203 e 207), e, no âmbito processual, a possibilidade de decretação
de prisão preventiva para assegurar o direito do deficiente (art. 313, inc. III, Código
de Processo Penal).
Na esfera trabalhista, a proteção é assegurada com o fito de evitar
discriminações, fomentando a contratação de pessoas com deficiência.
Ainda, no âmbito administrativo, ressalta-se a reserva de vagas (cotas) em
concursos públicos reservadas para deficientes físicos, além da prioridade no
atendimento prestado pelo serviço público.

LEITURA COMPLEMENTAR

DICIONÁRIO Direitos Humanos. Projeto Unicef. Plano Estadual de Políticas para


Mulheres do Estado do Paraná 2014-2016. Agência da ONU para refugiados.
Disponível em: <http://www.acnur.org>. Acesso em: 26 mar. 2019.

15
PAULA, C. E. A.; SILVA, A. P.; BITTAR, C. M. L. Vulnerabilidade legislativa de
grupos minoritários. DOI: 10.1590/1413-812320172212.24842017. Revista
Saúde e Ciência Coletiva, 2017. Disponível em:
<http://www.scielo.br/pdf/csc/v22n12/1413-8123-csc-22-12-3841.pdf>. Acesso
em: 26 mar. 2019.

CHAVES, L. de G. M. Minorias e seu estudo no Brasil. Revista de Ciências


Sociais, Fortaleza, v. 1, n. 1, p. 149-168, 1970.

16
REFERÊNCIAS

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Recife: NEPE, UFPE, 2005.

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Programa Nacional de Direitos Humanos – PNDH. Navegue no PNDH-3.
Disponível em: <https://pndh3.sdh.gov.br/portal/sistema/navegue-no-pndh3>.
Acesso em: 31 mar. 2019.

CARVALHO, L.; ALMEIDA, P. Direitos humanos e pessoas com deficiência: da


exclusão à inclusão, da proteção à promoção. Inclusive – Inclusão e cidadania,
2017. Disponível em: < http://www.inclusive.org.br/arquivos/30688>. Acesso em:
31 mar. 2019.

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Sociais, Fortaleza, v. 1, n. 1, p. 149-168, 1970.

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Justice. Sur – International Journal on Human Rights, São Paulo, v. 6, n. 11, p.
64-77, dec. 2009. ISSN 1806-6445. Disponível em:
<http://dx.doi.org/10.1590/S1806-64452009000200004>. Acesso em: 31 mar.
2019.

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Brasil: 500 anos de


povoamento. Rio de Janeiro, 2000. Apêndice: Estatísticas de 500 anos de
povoamento. p. 222. Disponível em:
<https://brasil500anos.ibge.gov.br/estatisticas-do-povoamento/grupos-indigenas-
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MACKAY, F. Los Derechos de los Pueblos Indígenas en el Sistema


Internacional. Lima: FIDH, 1999.

MAIOR, I. de L. Pessoas com deficiência e direitos constitucionais. Revista


Jurídica Consulex, Brasília, v. 14, n. 326, p. 32-33, 15 ago. 2010.

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17
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Pública: ainda faz sentido – sobretudo após a edição da Lei Complementar nº
132/09 – a visão individualista da instituição? In: SOUSA, J. A. G. de. (Org.). Uma
nova Defensoria Pública pede passagem: reflexões sobre a Lei Complementar
132/09. Rio de Janeiro: Lumen Juris Editora, 2012.

OLIVEIRA, P. C. de. Os Povos Indígenas e o Direito Internacional dos Direitos


Humanos. In: PIOVESAN, F. (Coord.) Direitos Humanos. v. I. Curitiba: Juruá
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_____. Uma Nova Defensoria Pública pede Passagem: Reflexões sobre a Lei
Complementar 132/09. Obra Coletiva. Editora Lumen Juris, 2012.

PIOVESAN, F. Direitos Humanos. v. I. Obra coletiva. Curitiba: Juruá Editora,


2011, p. 139.

RAMOS, A. de C. Teoria Geral dos Direitos Humanos na Ordem Internacional.


3. ed. São Paulo: Saraiva, 2013.

PACHECO, R. A. S. Mobilizações Guarani–Kaiowá Ñandeva e a


(Re)construção de Territórios: (1978-2002). Novas Perspectivas para o
Direito Indígena. Dissertação de Mestrado em História, Universidade Federal de
Mato Grosso do Sul, 2004.

_____. A Violência contra os Povos Indígenas: Uma estrutura invisível que


impõe a fronteira entre a vida e morte. Disponível em:
<http://www.publicadireito.com.br/conpedi/manaus/arquivos/anais/salvador/rosel
y_aparecida_stefanes_pacheco.pdf>. Acesso em: 26 mar. 2019.

18
AULA 6

ÉTICA, DIREITOS HUMANOS E


DIREITOS DA CIDANANIA

Profª Juliana Bertholdi


TEMA 1 – POVO NEGRO E QUILOMBOLA

Na aula anterior, trabalhamos a importância do reconhecimento e do estudo


dos grupos minoritários para a realização efetiva dos direitos humanos e dos
direitos da cidadania. Na presente aula, seguiremos os estudos de grupos
minoritários e as principais legislações e políticas públicas que os envolvem,
caminhando para a finalização do conteúdo.
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os
brasileiros pretos ou pardos representam 54% da população do país. Não
obstante, os mesmos dados do IBGE demostram que ainda é grande a
desigualdade entre pretos e brancos: três em cada quatro pessoas das 10% mais
pobres do país são negras. Em 2015, eles correspondiam a 76% daqueles com
renda média de R$130,00 per capita na família (Brasil, 2018, online1).
No ano de 2017, a publicação do Atlas da Violência, divulgado pelo Instituto
de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), trouxe mais uma informação
preocupante para essa parcela da população: de cada 100 pessoas assassinadas
no Brasil, 71 são negras. Para historiadores e especialistas, esses números
podem ser justificados por um fato: a escravidão (Brasil, 2018, online2).
Não obstante inexistam registros precisos dos primeiros escravos negros
que chegaram ao Brasil, há um consenso de que o povo negro sofreu
aproximados 3 séculos de escravidão, sendo a tese mais aceita a de que, no ano
de 1538, Jorge Lopes Bixorda, arrendatário de pau-brasil, teria traficado os
primeiros escravos africanos para a Bahia.
Os negros escravizados tornaram-se a principal mão de obra, inicialmente
nas plantações e engenhos, e, mais tarde, nas vilas, cidades, minas e fazendas
de gado. Para além disso, o escravo tratava-se de verdadeira riqueza, uma
valorosa propriedade que podia ser vendida, alugada, doada e leiloada, símbolo
de poder e prestígio.
Entre os anos de 1701 e 1810, atingiu-se o apogeu do tráfico escravocrata,
quando 1.891.400 africanos foram desembarcados nos portos coloniais. O
período foi marcado por inomináveis atrocidades, que remontam desde a privação
de alimentação adequada até cruéis torturas empregadas.

1 Informações disponíveis em: <http://www.brasil.gov.br/consciencianegra/noticias/negros-ainda-


lutam-para-superar-consequencias-da-escravidao>. Acesso em: 14 abr. 2019.
2 Idem.

2
O caminho para a abolição foi percorrido a duras penas, após longa
pressão internacional:

a. 1850 – Promulgação da Lei Eusébio de Queirós, que acabou


definitivamente com o tráfico negreiro intercontinental. Com isso, caiu a
oferta de escravos, já que eles não podiam mais ser trazidos da África para
o Brasil.
b. 1865 – Cresciam as pressões internacionais sobre o Brasil, única nação
americana a manter a escravidão.
c. 1871 – Promulgação da Lei Rio Branco, mais conhecida como Lei do
Ventre Livre, que estabeleceu a liberdade para os filhos de escravas
nascidos depois desta data. Os senhores passaram a enfrentar o problema
do progressivo envelhecimento da população escrava, que não poderia
mais ser renovada.
d. 1872 – O Recenseamento Geral do Império, primeiro censo demográfico
do Brasil, mostrou que os escravos, um dia maioria, agora constituíam
apenas 15% do total da população brasileira. O Brasil contou uma
população de 9.930.478 pessoas, sendo 1.510.806 escravos e 8.419.672
homens livres.
e. 1880 – O declínio da escravidão se acentuou nos anos 80, quando
aumentou o número de alforrias (documentos que concediam a liberdade
aos negros), ao lado das fugas em massa e das revoltas dos escravos,
desorganizando a produção nas fazendas.
f. 1885 – Assinatura da Lei Saraiva-Cotegipe ou, popularmente, a Lei dos
Sexagenários, pela Princesa Isabel, tornando livres os escravos com mais
de 60 anos.
g. 1885-1888 – O movimento abolicionista ganhou grande impulso nas áreas
cafeeiras, nas quais se concentravam quase dois terços da população
escrava do Império.
h. 13 de maio de 1888 – assinatura da Lei Áurea, pela Princesa Isabel3.

Após a abolição, seguiram-se ainda décadas de escravidão clandestina e


o inegável racismo institucionalizado. Ambas situações deploráveis seguem
objetos de combate por parte do governo.

3Informações disponíveis em <https://www.faecpr.edu.br/site/portal_afro_brasileira/3_IV.php>.


Acesso em: 14 abr. 2019.
3
1.1 Movimento negro

Os Movimentos Negros se consolidam no Brasil na década de 1970,


durante a Ditadura Militar, relacionando o resgate da cultura africana com as
reivindicações periféricas. No ano de 1978, o Movimento Negro Unificado (MNU)
lançou seu manifesto, com o seguinte conteúdo:

[...] como princípio básico o trabalho de denúncia permanente de todos


os atos de discriminação racial, a organização constante da comunidade
para enfrentar qualquer tipo de racismo […]. Por essa razão, propomos
a criação de centros de luta do movimento negro unificado contra a
discriminação racial nos bairros, nas cidades, nas prisões, nos terreiros
de candomblé, em nossos terreiros de umbanda, no trabalho, nas
escolas de samba, nas igrejas, em todos os lugares onde as pessoas
vivem: Centros de Luta que promovam o debate, a informação, a
conscientização e a organização da comunidade negra […]. Convidamos
os setores democráticos da sociedade que nos apoiam a criarem as
condições necessárias para uma verdadeira democracia racial.

O MNU e outros movimentos e organizações negras tiveram papel


fundamental durante a Constituinte de 1988, especialmente por meio da
realização de uma convenção nacional em 1986, cuja resolução propõe normas a
serem inseridas na nova Constituição, tratando de “direitos e garantias individuais,
violência policial, condições de vida e saúde, direitos da mulher e do menor,
educação, cultura, trabalho, questão da terra e relações internacionais”. A
articulação conseguiu, junto a outros movimentos sociais, a formação de
Subcomissão dos Negros, Populações Indígenas, Pessoas Deficientes e
Minorias. Neste sentido:

As principais conquistas inseridas na Constituição foram a definição de


igualdade, a proibição de qualquer discriminação racial e o direito ao
território. O conceito de remanescentes de quilombos foi introduzido na
Constituição de 1988 (hoje, o Movimento Quilombola não aceita esta
denominação, preferindo descendentes dos quilombos). A Constituição
Federal determina o direito ao território por parte daquelas comunidades
que se autorreconheçam como quilombolas e comprovem as
Comunidades Quilombolas (Conaq). O Decreto 4.887/2003
regulamentou os procedimentos de identificação, reconhecimento,
delimitação, demarcação e titulação das terras ocupadas por
remanescentes das comunidades quilombolas. Esse processo está mais
atrasado que o dos indígenas e sofrerá igualmente as consequências da
PEC 215, se aprovada. Atualmente, apenas 253 comunidades
quilombolas contam com o título de propriedade de seu território, número
que representa apenas 8% da totalidade estimada de três mil
comunidades no Brasil (Levino, 2017).

Desta feita, há de se ressaltar também o Movimento Quilombola, que luta


pelo território e pelo Movimento Negro, bem como por políticas de inclusão social,
a exemplo das cotas para negros nas universidades e a implementação do
Estatuto da Igualdade Racial.
4
1.2 Legislação e políticas públicas para realização dos Direitos Humanos da
população negra

Nosso país tem legislação consolidada e é signatário de diversos tratados


internacionais relativos a direitos individuais e coletivos do povo negro. Não
obstante, assim como no caso da população indígena, resta uma série de
deficiências para cumprir a legislação, sendo o racismo um dos principais
obstáculos no que concerne à efetivação dos Direitos Humanos em nosso país.
Assim, passaremos a discutir as principais leis e políticas públicas voltadas
à garantia dos Direitos Humanos e Direitos da Cidadania da população negra,
buscando sempre uma visão crítica.

a. Estatuto de Igualdade Racial (Lei 12.288/2010): em seu artigo 1.º, a lei


determina que o Estado brasileiro deve “garantir à população negra a
efetivação da igualdade de oportunidades, a defesa dos direitos étnicos
individuais, coletivos e difusos e o combate à discriminação e às demais
formas de intolerância étnica.”
Assim, a legislação tem por escopo tratar dos Direitos Fundamentais da
população negra em áreas como Saúde; Educação, Cultura, Esporte e
Lazer; Liberdade de Consciência e de crença e ao livre exercício dos cultos
religiosos; Acesso à terra e à moradia adequada; Trabalho e Meios de
Comunicação4.
b. Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial (Sinapir): cunhado
para implementar o conjunto de políticas e serviços públicos destinados a
superar as desigualdades étnicas no país. Além de implementar ações
afirmativas, o Sinapir criou Ouvidorias Permanentes, garantindo acesso à
Justiça e à Segurança5.
c. Ouvidoria Nacional da Igualdade Racial: o Estatuto da Igualdade Racial
determinou a criação da Ouvidoria Nacional para receber denúncias de
discriminação racial e racismo e conduzir aos órgãos responsáveis, bem
como para acolher sugestões e críticas da sociedade para garantir o

Para consultar e fazer o download da íntegra do Estatuto da Igualdade Racial (e outras leis
4

atualizadas e comentadas), acesse o portal da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da


Igualdade Racial – Ministério dos Direitos Humanos: <www.seppir.gov.br>.
Para
5 saber mais sobre o Sinapir, seus objetivos, ações e resultados, acesse:
<http://www.seppir.gov.br/articulacao/sinapir>.

5
cumprimento dos direitos dos cidadãos. A Ouvidoria Nacional da Igualdade
Racial pode ser acessada por diversos meios, disponíveis no website
envolvendo o sistema de denúncias do Disque 1006.

1.3 Crime de Racismo e Injúria Racial

Dois são os delitos envolvendo diretamente atitudes racistas, sendo


fundamental para denunciar conhecer a diferença entre ambos, que têm conceitos
e responsabilidades penais próprias.
A diferença entre esses crimes está explicada detalhadamente no Portal
da Ouvidoria Nacional da Igualdade Racial, que se replica parcialmente abaixo:
a. Racismo: a CF/88, em seu art. 5.º, inciso XLII, avalia a prática do racismo
como “crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão”. O
praticante do racismo, da Lei n. 7716/1989, age com o intuito de
menosprezar, inferiorizar, de forma genética, determinado grupo étnico,
raça ou cor. Não há um destinatário específico.
b. Injúria Racial: a legislação penal contempla o crime de injúria racial em
seu parágrafo 3.º do art. 140 como forma de preencher as lacunas deixadas
pela Constituição Federal. A injúria consiste em ofender a dignidade e o
decoro de determinada pessoa, imputando-lhe qualidade negativa. O
parágrafo 3.º do art. 140 do Código Penal traz o delito de injúria em sua
forma qualificada.

Desta feita, a diferença entre racismo e injúria qualificada pelo preconceito


de cor está, sobretudo, no elemento subjetivo do agente, que, no primeiro caso,
age sem um destinatário específico e, no segundo caso, age para ofender a
dignidade e o decoro de determinada pessoa.

TEMA 2 – AS MULHERES: VIOLÊNCIAS SIMBÓLICAS E FÍSICAS

Maioria numérica no Brasil, atingindo quase quatro milhões de excedentes


em 2010, (Alves, 2017, p.22), as mulheres vêm adquirindo, gradativamente, maior
relevância social e econômica, representando, atualmente, 43% do mercado de
trabalho formal e constituindo a maioria em setores essenciais, como saúde e

6 Para saber mais sobre a Ouvidoria Nacional da Igualdade Racial acesse:


<http://www.seppir.gov.br/ouvidoria>. Acesso em: 14 abr. 2019.

6
serviços sociais (73,3%), educação (66,6%) e alimentação (57,6%)7. Em 2010,
38,7% dos 57,3 milhões de domicílios registrados no IBGE já eram comandados
por mulheres8 (Bertholdi, 2018).
A expressiva representatividade da mulher, no entanto, não vem sendo
traduzida em direitos: as mulheres brasileiras seguem dentre as mais violentadas
do mundo. Somos o 5.º lugar em número de feminicídios9, possuímos baixíssima
representatividade política e seguimos recebendo salários em média 30%
menores que o dos homens10.
É evidente, portanto, que as mulheres representam grupo que merece uma
maior tutela do Poder Público, constituindo incontestável minoria.

2.1 Legislação

Há uma série de legislações e dispositivos esparsos que visam a proteção


da mulher, sendo impossível esgotá-los neste tópico. Dentre estes mecanismos,
destacaremos uma variedade neste tópico, bem como a Lei Maria da Penha e a
Lei de Cotas Eleitorais, em tópico apartado.
Na seara trabalhista, são amplas as normas jurídicas de proteção à mulher
em respeito à proibição de discriminação, proteção à gestação e também à
amamentação no ambiente de trabalho, estabelecidos, sobretudo, nos artigos 389
e seguintes da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT).
No âmbito penal, há crimes mais severamente punidos quando praticados
contra a mulher, em que se destaca o feminicídio (art. 121, IV, CP) e os aumentos
de pena envolvendo delitos praticados em contexto de violência doméstica.
No âmbito eleitoral, destacam-se as recentes disposições legais e os
posicionamentos do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) no sentido de buscar a
isonomia de gênero nas eleições.

7 IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e estatística. Síntese de Indicadores Sociais, 2016.


[online]. Disponível em:
<https://ww2.ibge.gov.br/home/estatistica/pesquisas/pesquisa_resultados.php?id_pesquisa=9>.
Acesso em: 14 abr. 2019.
8 Idem.
9 Fernanda Matsuda, socióloga e advogada que integrou o grupo responsável pela pesquisa A

violência doméstica fatal: o problema do feminicídio íntimo no Brasil (Cejus/FGV, 2014).


10 Dados do IBGE disponíveis em:

<https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2018/04/11/desigualdade-salarial-homem-mulher-
ibge.htm>. Acesso em: 14 abr. 2019.
7
2.2 Lei Maria da Penha

Segundo dados coletados pelo Datafolha, uma em cada três mulheres


brasileiras já sofreu violência doméstica. Só de agressões físicas, o número é
alarmante: 606 mulheres brasileiras vítimas a cada hora11, sendo 164 estupros
por dia.
Os dados, divulgados em agosto de 2018, mostram que 22% das
brasileiras sofreram ofensa verbal no ano de 2017, um total de 12 milhões de
mulheres. Além disso, 10% das mulheres sofreram ameaça de violência física, 8%
sofreram ofensa sexual, 4% receberam ameaça com faca ou arma de fogo. E,
ainda: 3% ou 1,4 milhões de mulheres sofreram espancamento ou tentativa de
estrangulamento e 1% levou pelo menos um tiro.
A pesquisa mostrou que, entre as mulheres que sofreram violência, 52%
se calaram. Apenas 11% procuraram uma delegacia da mulher e 13% preferiram
o auxílio da família.
Por sua vez, o agressor, na maior parte das vezes, é um conhecido (61%
dos casos). Em 19% das vezes, eram companheiros atuais das vítimas e em 16%,
eram ex-companheiros. As agressões mais graves ocorreram dentro da casa das
vítimas, em 43% dos casos, ante 39% nas ruas.
A Lei Maria da Penha é o caso clássico de resposta Estatal no âmbito dos
Direitos Humanos após pressão internacional: o caso n. 12.051/OEA, de Maria da
Penha Maia Fernandes, julgado na Corte Interamericana de Direitos Humanos,
deu origem à lei n. 11.340/2013, lei que leva o nome da vítima e ativista.
Neste sentido, o website do Instituto Maria da Penha bem resume os
caminhos traçados12:

Maria da Penha conheceu Marco Antonio Heredia Viveros, colombiano,


quando estava cursando o mestrado na Faculdade de Ciências
Farmacêuticas da Universidade de São Paulo em 1974. À época, ele
fazia os seus estudos de pós-graduação em Economia na mesma
instituição.
Naquele ano, eles começaram a namorar, e Marco Antonio demonstrava
ser muito amável, educado e solidário com todos à sua volta. O
casamento aconteceu em 1976. Após o nascimento da primeira filha e
da finalização do mestrado de Maria da Penha, eles se mudaram para
Fortaleza, onde nasceram as outras duas filhas do casal. Foi a partir
desse momento que essa história mudou.
As agressões começaram a acontecer quando ele conseguiu a
cidadania brasileira e se estabilizou profissional e economicamente. Agia

11 Dados disponíveis em: <https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2018/08/brasil-registra-606-


casos-de-violencia-domestica-e-164-estupros-por-dia.shtml>. Acesso em: 14 abr. 2019.
12 Dados disponíveis em: <http://www.institutomariadapenha.org.br/quem-e-maria-da-

penha.html>. Acesso em: 14 abr. 2019.


8
sempre com intolerância, exaltava-se com facilidade e tinha
comportamentos explosivos não só com a esposa mas também com as
próprias filhas.
[...]
No ano de 1983, Maria da Penha foi vítima de dupla tentativa de
feminicídio por parte de Marco Antonio Heredia Viveros.
Primeiro, ele deu um tiro em suas costas enquanto ela dormia. Como
resultado dessa agressão, Maria da Penha ficou paraplégica devido a
lesões irreversíveis na terceira e quarta vértebras torácicas, laceração
na dura-máter e destruição de um terço da medula à esquerda –
constam-se ainda outras complicações físicas e traumas psicológicos.
[...]
A próxima violência que Maria da Penha sofreu, após o crime cometido
contra ela, foi por parte do Poder Judiciário:o primeiro julgamento de
Marco Antonio aconteceu somente em 1991, ou seja, oito anos após o
crime. O agressor foi sentenciado a 15 anos de prisão, mas, devido a
recursos solicitados pela defesa, saiu do fórum em liberdade.
Mesmo fragilizada, Maria da Penha continuou a lutar por justiça, e foi
nesse momento em que escreveu o livro Sobrevivi... posso contar
(publicado em 1994 e reeditado em 2010) com o relato de sua história e
os andamentos do processo contra Marco Antonio.
O segundo julgamento só foi realizado em 1996, no qual o seu ex-marido
foi condenado a 10 anos e 6 meses de prisão. Contudo, sob a alegação
de irregularidades processuais por parte dos advogados de defesa, mais
uma vez a sentença não foi cumprida.
1998
O ano de 1998 foi muito importante para o caso, que ganhou uma
dimensão internacional. Maria da Penha, o Centro para a Justiça e
o Direito Internacional (CEJIL) e o Comitê Latino-americano e do
Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher (CLADEM)
denunciaram o caso para a Comissão Interamericana de Direitos
Humanos da Organização dos Estados Americanos (CIDH/OEA).
Mesmo diante de um litígio internacional, o qual trazia uma questão
grave de violação de direitos humanos e deveres protegidos por
documentos que o próprio Estado assinou (Convenção Americana sobre
Direitos Humanos – Pacto de San José da Costa Rica; Declaração
Americana dos Direitos e Deveres do Homem; Convenção
Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a
Mulher – Convenção de Belém do Pará; Convenção sobre a Eliminação
do Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher), o Estado
brasileiro permaneceu omisso e não se pronunciou em nenhum
momento durante o processo.
2001
Então, em 2001 e após receber quatro ofícios da CIDH/OEA (1998 a
2001) − silenciando diante das denúncias −, o Estado foi
responsabilizado por negligência, omissão e tolerância em relação à
violência doméstica praticada contra as mulheres brasileiras.
[...]
Diante da falta de medidas legais e ações efetivas, como acesso à
justiça, proteção e garantia de direitos humanos a essas vítimas, em
2002 foi formado um Consórcio de ONGs Feministas para a elaboração
de uma lei de combate à violência doméstica e familiar contra a mulher:
Centro Feminista de Estudos e Assessoria (CFEMEA); Advocacia
Cidadã pelos Direitos Humanos (ADVOCACI); Ações em Gênero,
Cidadania e Desenvolvimento (AGENDE); Cidadania, Estudo, Pesquisa,
Informação e Ação (CEPIA); Comitê Latino-americano e do Caribe para
a Defesa dos Direitos da Mulher (CLADEM/BR); e Assessoria Jurídica e
Estudos de Gênero (THEMIS), além de feministas e juristas com
especialidade no tema.
Após muitos debates com o Legislativo, o Executivo e a sociedade, o
Projeto de Lei n. 4.559/2004 da Câmara dos Deputados chegou ao
Senado Federal (Projeto de Lei de Câmara n. 37/2006) e foi aprovado
por unanimidade em ambas as Casas.

9
Assim, em 7 de agosto de 2006, o então presidente Luiz Inácio Lula da
Silva sancionou a Lei n. 11.340, mais conhecida como Lei Maria da
Penha.

No entanto, apesar de a LMP ser compreendida como “um dos mais


empolgantes e interessantes exemplos de amadurecimento democrático no
Brasil”, a pesquisa demonstrou que a efetividade da lei não ocorreu de forma
homogênea no país, devido aos “diferentes graus de institucionalização dos
serviços protetivos às vítimas de violência doméstica”13, sendo que o Brasil segue
o país que mais mata mulheres no mundo.

2.3 Representatividade política

Com desempenho medíocre, o percentual brasileiro de participação


feminina na política é bem abaixo da média mundial, que é de quase 23%, e da
média para as Américas, que é de quase 28%. Com muito esforço, atingimos 11%
de participação no Parlamento brasileiro. Assim, também não surpreende que o
primeiro banheiro feminino do Senado brasileiro destinado às parlamentares
tenha sido inaugurado apenas em janeiro do ano de 2016 (Alegretti, 2017).
Nitidamente, os dados percentuais apresentados traduzem desproporção
que demonstra o quanto a pretensa democracia nacional nega às mulheres
participação mínima nas tomadas de decisões inerentes ao processo político nas
verdadeiras democracias representativas14, em contradição aos próprios
fundamentos democráticos e determinações constitucionais.
Ao tratar da representatividade política feminina no Brasil, Clara Araújo
aponta que:

[...] a desigual participação feminina nos espaços políticos,


particularmente aqueles que exigem representação, está assentada em
razões históricas, relacionadas com o processo de exclusão das
mulheres como sujeitos políticos de direitos no momento em que o
político era institucionalizado na esfera pública”. A autora ainda vai além
ao analisar que “o background histórico marcou a inserção das mulheres
no mundo político (Araújo, 2001).

De fato, histórica e mundialmente, a representatividade política feminina


está bastante aquém do desejável.

13Idem.
14Ao tratar do tema, Vergo e Schuck apontam que a proposta de democracia paritária surge como
marco estratégico ao combate do monopólio masculino no exercício do poder em todas as esferas
de tomadas de decisões. In: VERGO, T. M. Woelffel; SCHUCK, E. de O. A representação política
das mulheres enquanto desafio à qualidade da democracia. V Congresso Uruguaio de Ciência
Política. Outubro de 2014, p. 3-4.
10
Não por outra razão, organismos internacionais vêm se engajando na
divulgação de dados e relatórios sobre o assunto, defendendo, inclusive, a
instituição de cotas de gênero para garantir que as mulheres venham a constituir,
pelo menos, “minorias críticas”, que constituíram de 30% a 40% dos Parlamentos
nacionais (Dahlerup, 2017). Atualmente, estima-se que metade dos países se
utilizem de algum tipo de quota eleitoral de gênero15, justamente com o escopo de
realização implementação progressiva de políticas de igualdade proposta por
Diamond e Morlino ao tratar da qualidade da democracia.
Como já anotamos anteriormente:

O Brasil não é exceção a essa regra. No país, a legislação aprovada


para melhorar as oportunidades das mulheres de ingressarem na vida
política vigora desde 1995, ano em que entrou em vigor a Lei nº
9.100/95, determinado que ao menos 20% das vagas de cada partido ou
coligação fossem preenchidas por um dos gêneros. A Lei nº 9.504/97
(Lei das Eleições) elevou o percentual mínimo de cada gênero para 25%,
sendo novamente elevado a 30% nas eleições posteriores, percentagem
mantida atualmente.
Em adição, no ano de 2009 a reforma eleitoral introduzida pela lei 12.034
instituiu novas disposições na Lei dos Partidos Políticos (Lei nº
9096/1995) de forma a privilegiar a promoção e difusão da participação
feminina na política ao determinar que os recursos do fundo partidário
sejam aplicados na criação e manutenção de programas de promoção e
difusão da participação política das mulheres em ao menos 5% do total
repassado.
As medidas, no entanto, não vem impactando como se esperava: há de
se questionar a qualidade e eficácia dos métodos e legislações
atualmente aplicados, vez que as cotas adotadas no sistema brasileiro,
como bem anotado por Raquel Preto16 “chamam para o baile, mas não
nos tiram para dançar” (informação verbal), permitindo falhas graves que
impedem a real participação feminina na democracia e o alcance de uma
“maior igualdade”(Sartori, 2017, p. 205). (Bertholdi, 2018, online)

Tal fato fica nítido dos bancos de dado da Justiça Eleitoral: apesar de as
cotas estarem em vigor desde 199517, adquirindo o formato atual em 201018, as
evoluções vêm sendo bastante tímidas: de 5% de cadeiras no Parlamento
Brasileiro em 1990, passamos para 9,9% em 2016.

15 Idem.
16 Anotação da Advogada Raquel Preto na VI Conferência Estadual da Advocacia Paranaense,
em agosto de 2017.
17 A Lei n. 9.100/1995 prescrevia a exigência do registro de no mínimo 20% de candidaturas

femininas por cada partido ou coligação, inaugurando a política de cotas no Brasil.


18Conforme decidido pelo TSE nas eleições de 2010, o § 3º do art. 10 da Lei n. 9.504/1997, na

redação dada pela Lei nº 12.034/2009, estabelece a observância obrigatória dos percentuais
mínimo e máximo de cada sexo, o que é aferido de acordo com o número de candidatos
efetivamente registrados. Conteúdo disponível em: <http://temasselecionados.tse.jus.br/temas-
selecionados/registro-de-candidato/reserva-de-vaga-por-sexo>. Acesso em: 14 abr. 2019.
11
TEMA 3 – IMIGRANTES E REFUGIADOS

Conforme informações e dados da Agência das Organizações das Nações


Unidas para Refugiados (Acnur), o ano de 2017 teve o maior número de pedidos
de refúgio no Brasil, totalizando 33.866 pessoas que solicitaram o
reconhecimento da condição de refugiado nesse ano:

a. Venezuelanos representam mais da metade dos pedidos realizados, com


17.865 solicitações;
b. Cubanos – 2.373 solicitações;
c. Haitianos – 2.362 solicitações;
d. Angolanos – 2.036 solicitações.

No que concerne à imigração, o IBGE calcula que o Brasil deve chegar,


em 2022, com cerca de 79 mil imigrantes venezuelanos.
Esta população é internacionalmente reconhecida como grupo altamente
vulnerável. Após a Segunda Guerra Mundial e com a instauração do sistema das
Nações Unidas, criou-se um Estatuto para Refugiados, que, em 1951, limitava-se
a proteger refugiados europeus, mas em 1967 passou a integrar a todos.
Tal Convenção deu início ao Direito Internacional hodierno, que incluiu
instituições para migrados e refugiados, separando as categorias em relação a
motivação (Aveni; Mello; Gonçalves, 2017, p.4). O Art. 1 da convenção de 1951
estabelece que é refugiado:

[...] toda a pessoa que, em razão de fundados temores de perseguição


devido à sua raça, religião, nacionalidade, associação a determinado
grupo social ou opinião política, encontra-se fora de seu país de origem
e que, por causa dos ditos temores, não pode ou não quer fazer uso da
proteção desse país ou, não tendo uma nacionalidade e estando fora do
país em que residia como resultado daqueles eventos, não pode ou, em
razão daqueles temores, não quer regressar ao mesmo.

Assim, mais uma vez, vemos a reafirmação da já estudada universalidade


dos direitos humanos, contemplando, portanto, migrantes e refugiados.
O Brasil aderiu à Convenção dos Refugiados de 1951 em 1960, bem como
posteriormente ao Protocolo de 1967, tomando o conceito ampliado de refugiado
estabelecido na Declaração de Cartagena de 1984, que considera a “violação
generalizada de direitos humanos” como uma das causas de reconhecimento da
condição de refugiado.
No processo de redemocratização, foi estabelecido na Constituição Federal
de 1988, em seu artigo 1.º, que o Brasil tem, como fundamentos da República, a

12
cidadania e a dignidade da pessoa humana, razão pela qual entende-se como
abarcada a integral proteção aos refugiados.
O Brasil foi, ainda, pioneiro na América Latina ao elaborar uma lei
específica sobre refugiados, a Lei n. 9.474 de 1997. A chamada Lei de Refúgio
estabelece padrões para avaliação das razões de requerimento de refúgio
considerando as condições políticas do país de origem do refugiado.

3.1 Atualidades

Os dados mais recentes foram divulgados pelo Ministério da Justiça na 3ª


edição do relatório Refúgio em Números. Atualmente, os sírios representam 35%
da população de refugiados com registro ativo no Brasil, sendo que, do total, 52%
moram em São Paulo, 17% no Rio de Janeiro e 8% no Paraná.
Além da Lei n. 9.474 de 1997, uma série de outras políticas públicas vem
demonstrando a preocupação estatal com a dignidade humana dos refugiados.
Cita-se como exemplo o vestibular promovido exclusivamente para os migrantes
com visto humanitário e refugiados que desejam cursar graduação na
Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Segundo informações do sítio da universidade, para se inscrever no
vestibular, o candidato precisa apresentar documentos comprobatórios da
conclusão de Ensino Médio e da condição de migrante com visto humanitário ou
refugiado, tais como cópia da solicitação de refúgio no Ministério da Justiça ou na
Polícia Federal ou atestado reconhecido pelo Comitê Nacional de Refugiados
(Conare), do Ministério das Relações Exteriores. Os aprovados devem fazer o
curso de Acolhimento Linguístico e Acadêmico, organizado pelo Projeto
Português Brasileiro para Migração Humanitária (PBMIH).

TEMA 4 – POPULAÇÃO LGBT

No ano de 2017, 445 lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais


(LGBT) foram mortos em crimes motivados por homofobia, representando uma
vítima a cada 19 horas. Tais dados foram levantados pela organização não
governamental “Grupo Gay da Bahia” (GGB), que aponta ter registrado o maior
número de casos de morte relacionados à homofobia desde que o monitoramento

13
anual começou a ser elaborado pela entidade, há 38 anos19. Os dados de 2017
representam um aumento de 30% em relação a 2016, quando foram registrados
343 casos.
Assim, a população Lésbica, Gay, Bissexual, Transexual e Travesti (LGBT),
diante do contexto social sexista, machista, lesbofóbico, homofóbico, bifóbico e
transfóbico que ainda persiste em todo mundo – e especialmente no Brasil –
enfrenta grandes desafios na realização de seus direitos mais básicos e no acesso
às políticas públicas, fatos que acabam por limitar o exercício da cidadania.
Quando o primeiro desafio é sobreviver, realizar torna-se ainda mais dificultoso.

4.1 Legislação internacional

A Declaração Universal dos Humanos traz, em seu bojo, uma série de


dispositivos que podem e devem ser interpretados em favor da liberdade sexual,
assim como os Princípios de Yogyakarta, que enfatizam a promoção e proteção
dos direitos humanos e liberdades fundamentais universalmente reconhecidos e
sua incorporação pelos países signatários vincula o Estado ao seu cumprimento.

4.2 Legislação nacional

Diferentemente das demais minorarias abordadas, a população


LGBT encontra-se à margem da legislação nacional, não havendo leis federais
que assegurem, de forma direta, os direitos dessa população.
Muito embora se observe a existência de normas e planos de governo em
âmbito estadual para proteção desta população, a criação de uma lei protetiva
para esta categoria, que seria de competência do âmbito Federal, jamais foi
editada.
Foram editados planos nacionais, dentre os quais destacamos o Plano
Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos de Lésbicas, Gays,
Bissexuais, Travestis e Transexuais de 2009. Ao final do mesmo ano, com o
objetivo de efetivar os compromissos adotados, criou-se a Coordenação dos
Direitos Humanos da Presidência da República e, em dezembro de 2010, por meio

19Levantamento aponta recorde de mortes por homofobia no Brasil em 2017. Publicado em


18/01/2018 - 18:46. Por Jonas Valente – Repórter Agência Brasil Brasília. Disponível em:
<http://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2018-01/levantamento-aponta-recorde-
de-mortes-por-homofobia-no-brasil-em>. Acesso em: 14 abr. 2019.
14
do Decreto n. 7388, o Conselho Nacional de Combate à Discriminação e
Promoção dos Direitos de LGBT.
Ainda, em dezembro de 2009, foi lançado o Programa Nacional de Direitos
Humanos (PNDH-3), que emerge com determinações acerca dos direitos
humanos e liberdades individuais.
Inegáveis os avanços em assegurar o direito de união estável e casamento
dessa população, bem como o direito à adoção, em razão de decisões judiciais,
referendadas por normativas do Conselho Nacional de Justiça.
Anota-se, no entanto, a ausência de previsão de maior proteção na esfera
criminal, sendo os crimes cometidos contra a categoria LGBT julgados da mesma
forma que quaisquer outros, sem prerrogativas processuais penais ou
agravamentos de pena.

4.3 Planos de Políticas Públicas – o exemplo do Estado do Paraná

Em sua introdução, o Plano de Políticas Públicas, voltado ao atendimento


da População LGBT do Paraná, afirma-se como consequência de longo processo
de luta dos movimentos sociais LGBT, por meio da sociedade civil organizada.
O Plano foi cunhado tendo em vista as demandas da comunidade LGBT do
Paraná apontadas nas I e II Conferências Estaduais LGBT e tendo como norte o
já mencionado Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3), o Programa
Nacional Brasil sem Homofobia.
Orientado pelos princípios da igualdade, respeito à diversidade, equidade,
laicidade estatal, universalidade das políticas públicas, justiça social,
transparência dos atos públicos, participação popular e controle social, o
programa visa a garantia dos direitos de todas e todos à justiça, educação, saúde,
segurança pública, previdência e assistência social.

TEMA 5 – CONCLUSÃO: A ÉTICA, OS DIREITOS HUMANOS E OS DIREITOS DA


CIDADANIA COMO INSTRUMENTOS DEMOCRÁTICOS

Durante a presente disciplina, buscamos cumprir o desafio de investigar a


interação entre a ética, os direitos humanos e os direitos da cidadania.
Procuramos entender por que e como garantir o acesso de todos aos Direitos
assegurados pela Constituição Federal, incluindo as minorias éticas e sociais.

15
Procuramos, igualmente, demonstrar a importância de se construir uma cidadania
eticamente comprometida com a realidade e a transformação social.
Buscamos desenhar uma Política de Direitos Humanos com base na ética
e na participação cidadã, que garanta aos indivíduos a condição de ser, no plano
econômico, um cidadão sadio; no plano político, um cidadão participante; no plano
intelectual, um cidadão consciente das relações de poder; no plano da ética, um
cidadão comprometido com a realidade social.
Flavia Piovesan (2009, p. 189) comenta as motivações que levam à
necessidade de organização e ação pública no sentido de promover o acesso aos
direitos humanos fundamentais:

Enquanto a igualdade pressupõe formas de inclusão social, a


discriminação implica a violenta exclusão e intolerância à diferença e
diversidade. O que se percebe é que a proibição da exclusão, em si
mesma, não resulta automaticamente na inclusão.” E, logo a seguir,
complementa: “… para garantir e assegurar a igualdade não basta
apenas proibir a discriminação mediante legislação repressiva. São
essenciais as estratégias promocionais capazes de estimular a inserção
e inclusão desses grupos socialmente vulneráveis nos espaços sociais.

Sobre a exclusão, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos


(2008, p. 280-281) explica o funcionamento engenhoso que a promove e sustenta:

Se a desigualdade é um fenômeno sócio-econômico, a exclusão é


sobretudo um fenômeno cultural e social, um fenômeno de civilização.
Trata-se de um processo histórico através do qual uma cultura, por via
de um discurso de verdade, cria o interdito e o rejeita. Estabelece um
limite para além do qual só há transgressão, um lugar que atira para
outro lugar, a heterotopia, todos os grupos sociais que são atingidos pelo
interdito social, sejam eles a delinquência, a orientação sexual, a
loucura, ou o crime. Através das ciências humanas, transformadas em
disciplinas, cria-se um enorme dispositivo de normalização que, como
tal, é simultaneamente qualificador e desqualificador.

Assim, apontamos como a igualdade é o cerne da realização dos direitos


humanos e a mola propulsora da realização dos direitos da cidadania, destacando
a importância de garantias aos chamados grupos vulneráveis/minoritários,
abordando as principais legislações e políticas públicas que possuem tal objetivo.

LEITURA COMPLEMENTAR

AVENI, A.; MELLO, A. S. de; GONÇALVES, E. S. Vulnerabilidade dos


imigrados e refugiados no Brasil. Disponível em:
<http://revista.faculdadeprojecao.edu.br/index.php/Projecao2/article/view/1013/9
03>. Acesso em: 14 abr. 2019.

16
MACHADO, M. de T. A proteção constitucional de crianças e adolescentes e
os direitos humanos. 2002. 414 f. Dissertação (Mestrado em Direito) – Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2002.

17
REFERÊNCIAS

ALVES, J. E. D. et al. Meio século de feminismo e o empoderamento das mulheres


no contexto das transformações sociodemográficas do Brasil. In: BLAY, E. A.;
AVELAR, L. (orgs.). 50 Anos de Feminismo: Argentina, Brasil e Chile: a
construção das mulheres como atores políticos e democráticos. São Paulo:
Editora da Universidade de São Paulo; Fapesp, 2017. p. 22.

ARAUJO, C. Construindo novas estratégias, buscando novos espaços políticos –


as mulheres e as demandas por presença. In: MURARO, R. M.; PUPPIN, A. B.
(orgs.). Mulher, Gênero e Sociedade. Rio de Janeiro: Relume Dumará; FAPERJ,
2001.

BULOS, U. L. Constituição Federal anotada. São Paulo: Saraiva, 2002.

DAHLERUP, D. About Quotas. Quota Project. Disponível em:


<http://www.quotaproject.org/aboutQuotas.cfm>. Acesso em: 14 abr. 019.

KARPSTEIN, C. Representatividade feminina na política e nas cadeias de


comando: a meritocracia e o preconceito – Meritocracia pura e simples só pode
ser aplicada se partirmos de uma igualdade de base. Disponível em:
https://www.gazetadopovo.com.br/vidapublica/justicaedireito/artigos/representati
vidade-feminina-na-politica-enascadeiasdecomandoameritocraciaeopreconceito-
53h8jn34e47v46uv058javwo4/>. Acesso em: 16 abr. 2019.

MORAES, A. de. Direito Constitucional. São Paulo: Atlas, 2002.

PIOVESAN, F. Temas de direitos humanos. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2009.


415 p.

SANTOS, B. de S. A construção intercultural da igualdade e da diferença. In:


_____. A gramática do tempo: para uma nova cultura política. 2. ed. São Paulo:
Ed. Cortez. 2008, p. 279-316.

SARTORI, G. O que é Democracia? Coletânea da Democracia. Curitiba:


Atuação, 2017. p. 205.

18

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