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25/05/2020 Problemas a serem resolvidos

Problemas a serem resolvidos

Site: ESKADA | Cursos Abertos da UEMA Impresso por: Karla Cristina Silva Sousa
Curso: Neuropedagogia Data: segunda, 25 mai 2020, 16:26
Livro: Problemas a serem resolvidos

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25/05/2020 Problemas a serem resolvidos

Sumário

1. Como aprendemos hoje?

2. O que é “informação”? (parte 1)

3. O que é “informação”? (parte 2)

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25/05/2020 Problemas a serem resolvidos

1. Como aprendemos hoje?

Aprender é uma característica do vivente. O ato de aprender foi há muito tempo confiscado pela Escola e o mundo educacional. Porém, o que
precisamos saber é que essa ação pertence, antes de tudo, à Vida. É quase certo que Homo não teria sido “erectus”, nem “faber”, nem “loquens”,
ainda menos “sapiens sapiens”, nem como ele é chamado atualmente “communicans”… se ele não tivesse sido, antes de tudo “cognoscens”, ou
seja, habitado pelo impulso de aprendência, pelo desejo de conhecer e de reconhecer, que caracteriza todo organismo vivente.

Segundo Trocmé-Fabre, esse impulso de aprendência é a expressão, a própria face de outra aspiração, a que leva o humano para dentro e rumo a
sua própria busca de sentido. Essa busca de sentido é, por sua vez, a expressão de um profundo desejo, de uma necessidade de engajamento num
processo de construção ou de organização, mais claramente, de uma exigência de estruturação como indica nosso presente biológico e assim como
ele, a memória de nossas células. Essa exigência de estruturação, sem dúvida, faz parte do impulso de complexidade que a história do Universo
relata.

Para os atores do mundo educacional (alunos, professores, formadores, responsáveis institucionais, políticos e pais…) o ato de aprender é, em
geral, posicionado numa relação única de instrução e de imposição. Nossa língua corrente que usa com frequência os termos “transmissão de saber”
e “aquisição de conhecimentos” situa o ato de aprender na sua relação com um informador ou uma informação como sendo exterior ao indivíduo. O
saber é implicitamente considerado como uma entidade existindo por si-mesma, e que pode ser tomada, transmitida tal qual, esperando que aquele
que consideramos como o destinatário seja receptivo.

Segunda a mesma autora, essa concepção do saber e da informação leva direto ao atual sistema quantitativo de avaliação de resultados. Presume-
se que o aprendente tenha captado certa porcentagem da “mensagem” que se avalia através de uma nota, numerada.

A vida nos mostra, diariamente, que não podemos aprender sozinhos, nem compreender, ou comunicar no lugar do outro. Aprender é um processo
de criação de laços em nossa vida mental, afetiva, sensório-motor, neurológica. Esses laços são, fundamentalmente, complexos, transitórios,
adaptáveis, dinâmicos e heurísticos. Como afirma a referida autora.

Muitos fatores entram em jogo fazendo da aprendizagem algo difícil, considerada mesmo como impossível pelos alunos, adolescentes ou jovens
adultos. Portanto, os neurofisiologistas e os sistemistas afirmam atualmente que todo organismo vivo é, por natureza, “aprendente”. Então é possível
deduzir que um organismo que não aprende é um organismo que crê não poder mais aprender. Enfraquecido, decepcionado, paralisado pelo medo
do fracasso, pela angústia do não “ser bem sucedido”, pela tristeza e a decepção, o organismo aprende a se ver como incapaz de aprender. Como
consequência, ele não pode mais se regular, adaptar-se ou evoluir. Essa situação, sinônimo de encarceramento, provoca um verdadeiro sofrimento
cognitivo. Esse sofrimento é a causa de uma grande violência, dissimulada, quase imperceptível, de origem múltipla, mas, que se exerce de maneira
subterrânea, minando as situações educacionais aparentemente “normais”. Essa violência é praticada cada vez que o indivíduo vai contra as leis do
vivente e, sobretudo, quando um organismo vivo é impedido de ser o portador de seu próprio potencial de evolução, de transformação, de adaptação
e logo, de aprendizagem.

Graças a sua capacidade para aprender, o ser humano é capaz de atualizar seu potencial de evolução, esse impulso de complexificação e de
superação que caracteriza o vivente. Atualizando-se no presente, na interface do que foi e do que será nossa aprendizagem é o motor da
emergência do sentido que buscamos. É porque devo agir hoje com o que aprendi ontem e com o que eu gostaria para o futuro, que procuro o gesto,
o ato, a palavra, o pensamento que convém ao que sou aqui e agora.

A aprendizagem é um ato existencial, em plena coerência com as leis da vida. Tratando-se de um processo, quem aprende se inscreve na duração,
ou seja, existe sempre um antes, um durante e um depois.

Aprender é uma profissão e tem os limites que lhe impõe o meio físico, familiar, social, político e cultural. O que a caracteriza é o fato dela ser a mais
velha profissão do mundo! Aprender é uma profissão cheia de riscos. Se aceita o risco de mudar, logo de não mais ser reconhecido nem
reconhecível. Outro risco ao qual o aprendente se expõe é o de ter que reinterrogar seus valores, ter que se engajar no desconhecido, reorganizar
seus hábitos, aceitar a singularidade e interrogar sua identidade.

A capacidade de aprender é o que os seres humanos possuem de mais precioso. Esse patrimônio comum é quantitativamente e qualitativamente
muito mais importante do que as diferenças que separam os seres humanos moldados por suas culturas respectivas.

Logo, trata-se de assumir nossa própria biologia, em vez de ser conduzido por ela, como diz H. Trocmé-Fabre, porque nosso dever é ser
responsável, ator e autor de nossos próprios momentos de aprendizagem, inserindo esses momentos no movimento, ou seja, no nosso percurso.
Quem aprende elabora cada etapa de um “caminho que se constrói, caminhando”.

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As primeiras regras a serem observadas são: conhecer e reconhecer o imenso potencial a nossa disposição; entrar na lógica do “ainda-não” (logo,
abandonar a lógica binária certo/errado) ; observar os meios, ferramentas e métodos necessários, para transformar nossas capacidades cognitivas
em competências cognitivas, ou seja, em capacidades atualizadas e reconhecidas.

Toda prática pedagógica faz referência implicitamente a certa concepção do mundo, uma visão do ser humano, um modelo de sociedade.
Atualmente, os especialistas das ciências cognitivas e das ciências da natureza ajudam-nos a compreender que a concepção quantitativa e
mecanicista de nosso funcionamento mental, baseada numa preocupação de conteúdo (e não de processo) não corresponde a nossa realidade
cerebral, correlativo neurofisiológico de nossa capacidade de aprender. Aprender não é acrescentar uma coisa a outra coisa, num alinhamento que
gostaríamos que fosse reto, se possível, já traçado. Aprender é mudar, modificar, transformar, reorganizar, bifurcar rumo a outro nível de
complexidade.

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2. O que é “informação”? (parte 1)

Em 1947, Norbert Wiener, o pai da cibernética propôs uma nova definição do mundo onde ele dizia que poderíamos considerar o mundo como uma
infinidade de mensagens. Essa definição içava o conceito de “informação” ao nível dos conceitos fundamentais, como o de energia ou de matéria.

Segundo Jean Jacques Wittezaele, psicólogo belga, a introdução do conceito de informação nas ciências humanas mudou a perspectiva e permitiu
emergir uma imagem do ser humano totalmente diferente da imagem tradicional, um homem em interação com seu entorno, seu meio ambiente e
permitiu também restabelecer a importância das relações numa ciência focalizada essencialmente sobre o objeto, o elemento e o sujeito.

O que distingue os fenômenos puramente materiais dos organismos vivos é que estes últimos têm a capacidade para processar a informação,
enquanto que no mundo material, não vivente, reage-se às forças, aos impactos, e às trocas de energias.

Gregory Bateson, antropólogo e psicólogo americano, disse que “a informação é uma diferença que faz uma diferença".

Sob esse ângulo, a informação seria uma distinção, uma diferença captada no meio ambiente, que é percebida por um órgão sensorial. Uma
diferença que provoca uma reação no organismo, por exemplo, o desencadeamento de um neurônio receptor.

Uma diferença que provoca uma diferença confere um aspecto inevitável à comunicação, ou seja, que além de seu aspecto “informativo” (a indicação
ou a relação sobre um acontecimento anterior) toda mensagem é ao mesmo tempo, uma ordem, um comando, uma incitação a reagir.

Toda mensagem recebida implica uma resposta. Podemos tentar escondêla, esforçamo-nos para dissimular o efeito da mensagem, mas a recepção
de uma mensagem causa, induz inexoravelmente uma reação.

Tudo começa por uma diferença, porque é tudo o que nós podemos perceber. Não podemos perceber a uniformidade, é preciso que um elemento
qualquer venha fazer contraste para que uma percepção possa ocorrer. Se, por exemplo, estivermos em um lugar totalmente azul, não
perceberíamos mais nada, inclusive nem o azul.

Essa diferença externa deve fazer uma diferença para nossos órgãos sensoriais. As terminações nervosas recebem em permanência “novidades” de
acontecimentos que correspondem aos contornos do mundo visível. Nós fazemos distinções, nós as fazemos aparecer, nós as explicamos. O
número de diferenças potenciais entre os acontecimentos é infinito, mas só as diferenças captadas se tornarão diferenças efetivas, ou seja,
elementos de informação.

A diferença não é feita de matéria, ela não é uma coisa, ela é uma abstração, uma relação entre coisas. Os seres vivos possuem captores que
reagem às diferenças e não simplesmente a estímulos materiais.

Uma abstração pode desencadear um influxo elétrico em um neurônio receptor. Esse influxo se propaga e a diferença é, de certa maneira, codificada
num processo que ele no caso é bem material. Ela será finalmente processada, causando eventualmente uma reação. Não existe uma ruptura clara
entre uma abstração e um fenômeno físico. A matéria é informada pelas diferenças.

Um órgão sensorial é um comparador, um dispositivo que reage à diferença. Esse órgão é algo de material, mas é essa faculdade de reagir à
diferença que nos permitirá caracterizar seu funcionamento como “mental”.

A troca de informações no mundo dos seres vivos não se limita somente à comunicação verbal, o processo leva em conta o desenvolvimento e as
interações entre todos os organismos vivos.

É por essa razão que Maturana e Varela afirmaram que “toda ação é conhecimento e todo conhecimento é ação”82. É impossível não comunicar.

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3. O que é “informação”? (parte 2)

Para que um sistema possa se organizar, se estruturar, se regular e se adaptar às mudanças do meio ambiente é preciso que ele disponha de uma
possibilidade de detecção das diferenças, permitindo uma ação corretiva. Para isso, as cadeias de causalidade devem ser circulares, o efeito deve
incidir sobre a causa. Além disso, é necessário distinguir entre as “informações” que circulam entre os elementos desses circuitos e as “informações”
que se referem ao funcionamento da totalidade do circuito. Essas últimas consideradas como metainformações permitem ao sistema preservar sua
autonomia em relação ao meio ambiente, suas características internas, sua coerência, apesar das mudanças incessantes do sistema maior do qual
ele faz parte.

Desse ponto de vista, como diz Jean-Jacques Wittezaele, “se o meio ambiente cria o ser humano, é igualmente o ser humano que cria o meio
ambiente da maneira como ele vê”. “Não podemos realmente falar de um indivíduo que percebe o mundo exterior, mas, de um processo de interação
entre os dois. Os indivíduos existem como resultado do processo de interação”.

O mundo é antes de tudo uma rede de interdependências e não uma coleção de indivíduos. A realidade não é um estado, mas um processo. A
objetividade é um mito porque o simples fato de “receber uma informação” já é ser transformado por ela.

Segundo Trocmé-Fabre, o culto da informação talvez seja o pior mal que aflige nosso século, porque ele passa completamente despercebido. Ele
transparece nas expressões que nós utilizamos diariamente para falar da informação: nós a “buscamos” temos medo de “perdê-la”, nós a
“transmitimos”... A informação é assim considerada como uma entidade como se ela existisse por si mesma, um conteúdo quantificável, mensurável
e transferível.

Nós como seres vivos somos sistemas abertos e a nossa história, ou seja, a história dos nossos atos, do nosso pensamento, ou dos nossos atos de
comunicação, está profundamente ligada ao que vem antes e ao que vem depois. O termo “informação” (informação, dar a forma) é muitas vezes
utilizado no lugar de “dados”. Muitas áreas do nosso pensamento (e de nossas ações) foram infiltradas pelo conceito de “processamento da
informação” herdada da informática e do cognitivismo.

Não devemos esquecer que o “site” da nossa realidade viva (nosso cérebro, ou seja... nós) é evolutivo e que todo contato com o mundo exterior tem
um “antes”, um “durante” e um “depois” que influenciam nossas (re)ações e relações.

A crença – generalizada – que a informação existe em si, que o sentido é uma entidade na qual se penetra e que se pode transferir – deve ceder o
lugar para conceitos mais próximos do funcionamento de nossa realidade cerebral. A contribuição da neurobiologia, das ciências cognitivas e das
ciências da complexidade, permite-nos propor os conceitos dinâmicos de acoplamento, emergência, interdependência, interação, autossustentação.

Realmente, enquanto acreditarmos que o mundo existe fora de nós, independente de nossa visão, de nossa memória e de nossos pensamentos,
enquanto pensarmos que “pegamos” e “tratamos” uma informação “captada” por nossos órgãos sensoriais, enquanto acreditarmos que a informação
é externa a nós mesmos, que ela nos é transmitida e que devemos tratá-la como faz o computador é evidente que nossa relação com o meio
ambiente, com os outros e com nós mesmos já se encontra engajada numa lógica de verdade única, binária, dual e linear.

Atualmente, o “culto” de uma informação considerada como uma entidade em si, causa estragos em muitos campos, no da linguagem, no da
biologia, da medicina e das mídias.

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