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31ª Vara do Trabalho de São Paulo. p
Juíza Mylene Pereira Ramos p
Tatiana Moreira Diniz ajuizou a presente Reclamação Trabalhista em face de MC DONALD'S COMÉRCIO LTDA,
mediante as alegações e pedidos contidos na inicial. Deu à causa o valor de R$ 12.000,00. Proposta inicial de
conciliação rejeitada. p
Foram ouvidos depoimentos. p
Encerrada a instrução processual p
É o relatório. p


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1. Preliminar p
Da incompetência da Justiça do Trabalho p
Rejeita-se a teor do disposto no art. 114 da Carta Magna eis que se trata de litígio entre empregado e
empregador decorrente do contrato de trabalho. p
2. Mérito p
Pleiteia a reclamante, de raça afro -brasileira, indenização por dano moral face constrangimento sofrido no curso
do contrato de trabalho. Alega que sua superiora hierárquica, Denise Brunetti, por diversas vezes fez
referências ofensivas à raça negra, dirigindo as ofensas especificamente à reclamante. p
Pois bem, a prova oral produzida em audiência demonstrou que de fato a superiora hierárquica da autora,
Deise Brunetti, por diversas vezes ofendeu a reclamante, praticando cont ra ela atos de racismo. p
Dentre outras atitudes racistas, a autora elencou que em uma oportunidade Denise alardeou para todos os
funcionários que não gostava de "pretos" e de "pobres"; que noutra oportunidade, Denise aproximou-se da
autora quando esta estava no balcão da ré, para cheira-la, e que inquirida se havia algum problema, Denise
apontou para a cor do braço, numa referência a cor da pele da reclamante como sendo o "problema". Por fim,
chamou a reclamante de "preta fedida" (fls.95). p
Inicialmente, cumpre ressaltar que a reclamada não logrou demonstrar a veracidade de suas alegações. Sua
primeira testemunha, Denise, a suposta ofensora, negou os fatos. No entanto, admitiu ter participado de uma
conversa com seu superior hierárquico a respeito de queixas que a reclamante teria feito contra ela. p
Já a segunda testemunha da reclamada foi considerada suspeita por haver concebido juízo de valor sobre os
fatos anteriormente à audiência, tendo declarado que a reclamante não estava certa (fls. 97). p
Com relação à terceira testemunha, declarou que não tinha conhecimento de quaisquer dos fatos invocados
pela ré (fls. 97).
Já a quarta testemunha, Arlindo, confirmou que presenciou Denise chamando a reclamante de "preta fedida"
bem como falando a todos os funcionários que não gostava de "pretos". Disse ainda que "... Denise fazia
insinuações ofensivas e mostrava para sua pele" e que 'acredita que a reclamante ficava mais ofendida por
dentro'. Declarou ainda que "as insinuações feitas por Denise tinham a ver com a raça da reclamante, inclusive
demonstrando que não gostava do cheiro da reclamante". p
Por seu turno, a testemunha Silmara, também afro -descendente, declarou que soube por outros funcionários
que "a reclamante havia sido chamada de "preta fedida" por Denise, e que indiretamente Denise havia feito
comentários negativos a seu próprio respeito. p
O dano moral sofrido pela reclamante foi cabalmente demonstrado, Por outro lado, a recamada tolerou o
assédio moral exercido por Denise contra a reclamante e a disseminação do racismo no ambiente de trabalho. p
Note-se que o preposto declarou em audiência (fls. 96) que a política da reclamada é contra o racismo, e que
funcionários que engajem nesta prática são demitidos. Estranhamente, Denise continuou a trabalhar exercendo
o cargo de gerente, o que demonstra o descaso da reclamada para com a questão da descriminação racial em
suas dependências. p
Neste particular, ficou mostrado pelo depoimento da testemunha Arlindo que Denise não foi demitida porque
alguns de seus familiares exercem cargos altos na empresa McDonald's. p
O preconceito racial, uma das maiores chagas da humanidade, não pode ser tolera do. Com efeito, a
Constituição Federal elenca o combate ao racismo em dois de seus males importantes dispositivos. Primeiro,
como um dos objetivos fundamentais da República (artigo três (l., inciso IV). Segundo como um dos princípios
basilares da República (4º., inciso VIII), Já em seu artigo 5º., XLII estabelece que a prática do racismo é crime
inafiançável e imprescritível sujeito a pena de reclusão. Segundo os mesmos fundamentos, na legislação penal
pátria o racismo foi classificado como crime hediondo. p
Mesmo na legislação americana, país de onde originalmente proveio a reclamada, a prática do racismo não é
tolerada. O Titulo VII do Ato dos Direitos Civis de 1964 coíbe a descriminação racial, sujeitando os ofensores ao
pagamento de vultuosas indenizações pelos danos causados. p
Paul Brest no seu artigo "In Defense of the Antidiscrination Principe" acertadamente assevera que "the
antidiscrination principie is designed to prevent both irrational and unfair infliction of injury" in Foundations of
Employment Discrimination Law de John J. Donohue IIII, editora Oxford University Press, 1997. p
Assevere-se que a globalização não dispensa a igualdade de práticas empresariais nos diversos países em que a
empresa mantém negócios. Os altos padrões estabelecidos para os empregados da reclamada em seu país de
origem devem também ser aplicados aos demais empregados no mundo, sob pena de praticar, também a
reclamada, discriminação entre seus trabalhadores. p
O perigo do "social dumping" condição em que multinacionais exploram a mão -de-obra de países em
desenvolvimento garantindo maiores lucros com o barateamento do trabalhador é de todo inaceitável. p
Neste particular o North American Agreement o Labor Cooperation (NAALC), regulamentação laboral adotada
pelos países integrantes do chamado NAFTA, área de livre comércio estabelecida entre Estados Unidos, México
e Canadá, também estabelece em sua declaração de princípios a proibição de discriminação racial no empre go. p
A Organização Internacional do Direito do Trabalho, organismo responsável pela normatização do Direito do
Trabalho no âmbito internacional, também elegeu a proibição de discriminação no emprego como um dos
princípios basilares da relação de trabalho ( Convenções 110 e 111). p
Assim, condeno a reclamada a pagar à reclamante indenização por dano moral no importe de R$ 12.000,00
(doze mil reais), fixados como modestamente pleiteado na inicial. A condenação lastreia -se no artigo 5º, incisos
V e X da Carta Magna, bem como no artigo 1521, III do Código Civil. p
Face à gravidade dos fatos que ensejaram a presente condenação e a inércia da reclamada em coibi -los, oficie-
se ao Ministério Público do Trabalho, ao Ministério da Justiça, à Delegacia Regional do Trabalh o no Brasil, à
Ordem dos Advogados do Brasil - Comissão do Negro e de Assuntos Antidiscriminatórios e à Organização
Internacional do Trabalho - Escritório em Brasília e às diversas centrais sindicais de trabalhadores, e nos
Estados Unidos da América a Equal Employment and Opportunity Commission (EEOC), U.S. Departament of
Labor, U.S. Commission on Civil Rights, U.S. Departament of Justice, e à central sindical dos trabalhadores
norte-americanos. p
Os últimos ofícios justificam -se pois como já mencionado, a ré é empresa de origem norte-americana. Atuando
globalmente, impõe-se que se de ciência às autoridades e organizações norte-americanas sobre as suas
práticas nos países em que mantém unidades. p
HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS - Indevidos honorários advocatícios poi s ausentes os requisitos da Lei 5584/70. p
ATUALIZAÇÃO MONETÁRIA / JUROS - O direito será atualizado com a aplicação do índice do mês de novembro
de 2002. A correção monetária deve ser apurada da forma prevista no Decreto Lei 2.322/87, cominado com a
Lei 8.177/91. p
DECISÃO - Por tais fundamentos, a 31ª Vara do Trabalho de São Paulo julga procedente o pedido para
condenar a reclamada a pagar à reclamante indenização por dano moral no importe de R$ 12.000,00 (doze mil
reais), nos termos de fundamentação que faz parte integrante do presente dispositivo, com juros e correção
monetária na forma da lei. Liquidem -se por cálculos. Expeçam-se os ofícios. p
Custas para reclamada de R$ 240,00, calculadas sobre o valor arbitrado a condenação de R$ 12.000,00. p
Intimem-se as partes." p
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