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Noções de cidadania no Telecurso 2000:

Plasticidade social ou construção de identidade?


Maria das Graças Pinto Coelho∗
Abril de 2005

Índice público a partir de suas próprias realidades


paradigmáticas. Os meios adiantam as re-
1 Introdução 1 formas do Estado, inclusive no campo da
2 O que é o Telecurso? 3 educação, e pressionam para que os agen-
3 É comparando que se entende 4 tes públicos funcionem como se estivessem
4 Motivando a autodeterminação 5 no mercado. O espaço público é modelado
5 A plasticidade flexível 7 no ethos privado. Estabelece-se um sentido,
6 Contrapontos 10 que no estudo de caso é revelado através de
7 Referências 12 um engenhoso projeto de educação à distân-
cia - o Telecurso 2000 - ressaltado na plasti-
1 Introdução cidade social brasileira. Nesse caso, a edu-
cação entra em um script paralelo, modelada
O estudo em evidência reflete uma iniciativa docilmente pela performance midiática, sem
de educação a distância que em sua cons- a oportunidade de ousar ressignificar-se na
tituição apresenta-se como um projeto de abrangência do processo comunicacional.
formação social, portanto público, mas que São experiências que ultrapassam alguns
na concepção é lançado como apêndice de paradigmas que serviam à organização dos
desenvolvimento das políticas públicas no protocolos de interação entre a educação e
país, interferindo nos protocolos educacio- a comunicação - antes cindidas em duas ru-
nais e comunicacionais. Em tal contexto, bricas com etiquetas específicas e diferencia-
os meios e processos comunicacionais uti- das. é reconhecido que as duas áreas per-
lizam sofisticadíssimas técnicas de gerencia- manecem divididas sim, no campo episte-
mento de opinião, promovendo suas natu- mológico, mas juntas como interesse de su-
rezas performáticas e interferindo no espaço porte às políticas públicas e privadas. Sofisti-

Professora Adjunta do Departamento de Co- cadas técnicas são tecidas na direção da ma-
municação Social da Universidade Federal do Rio nipulação simbólica.
Grande do Norte. Membro do Programa de Pós- A junção da educação com a mídia serve,
graduação em Educação - PPGE-UFRN. Cordena- ainda, para formar consumidores ungidos na
dora da Base de Pesquisa Gemini - Grupo de Estudos
de Mídia - UFRN-CNPq - gpcoelho@ufrnet.br cultura de consumo de massa. As narrati-
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vas do “senso comum”, usadas por liberais e Deve se levar em consideração o fato de que
conservadores, popularizadas nos textos cul- esse é um projeto de formação social, port-
turais, ajudam a mobilizar o consentimento anto circunscrito ao espaço público. E é este
às posições políticas hegemônicas, no caso o movimento a ser considerado na análise
atual, toma corpo a retórica neoliberal con- de projetos que utilizam os meios na edu-
tida no hipertexto midiático. cação, em circuito aberto de televisão, a par-
De todo modo, a inserção do projeto Te- tir de uma concepção híbrida da expressão
lecurso 2000 no espaço público brasileiro é público-privado.
um fato, embora desperte controvérsia sobre Como as estratégias culturais são orga-
a sua amplitude social. As decisões que in- nizadas em torno de uma pedagogia pública?
fluenciaram o processo político de sua con- Esta era a pergunta inicial para chegarmos
cepção nunca foram debatidas junto aos seg- ao Telecurso. A partir daí o estudo repassou
mentos sociais que estão envolvidos direta as diversas maneiras como a cultura se rela-
ou indiretamente com a educação de jovens ciona com o poder e como e onde as funções
e adultos. O projeto queimou algumas etapas culturais são simbólicas ou institucionais na
comunicacionais requeridas à sua implemen- educação. Foi levada em consideração a
tação. Não levou em consideração a intera- prática imediata da política cultural empre-
ção entre a formação da vontade institucio- gada na estratégia proposta. A análise tam-
nalizada e os espaços públicos culturalmente bém procurou responder quais as noções de
mobilizados. No que pese a chancela go- diferença, de responsabilidade civil, comu-
vernamental, através dos Ministérios do Tra- nitária e de pertencimento, que estão sendo
balho e Educação, o poder de decisão coube produzidas em um determinado lugar, com
às organizações empresariais. Esta conduta específicas formações discursivas e práticas,
por si só já representa um claro antagonismo o que, segundo HALL (1996: p.4), são ele-
entre o seu locus de concepção/produção e o mentos constitutivos de uma pedagogia púb-
espaço público onde ele é veiculado.A polê- lica crítica.
mica se acirra quando se resgata a discussão A política cultural de uma nação, ainda se-
sobre formação fundamental. Sua inserção gundo HALL (1996), é, em parte, as estraté-
não é aceita por se tratar de um projeto de gias que cada povo escolhe para regular e
educação à distância, supletiva, que por suas distribuir o saber. Mas a capacidade de
próprias características não suporta seguir as pensar politicamente é, também, mediada
trajetórias escolar fundamentais, iniciais, de pelas formas como cada cultura é governada.
cultura geral e humanística. São os projetos culturais, resultantes dos sis-
Partiu do segmento empresarial a idéia de temas de cultura nacionais, que modelam as
conceber o Telecurso e, mais ainda, a arre- práticas humanas, a conduta e a ação social
gimentação dos recursos que o viabilizaram. do cidadão. Portanto, as formas como as pes-
Também coube ao empresariado nacional a soas interagem com as instituições e em so-
condução do processo político. No entanto, ciedade, dependem da maneira como os seus
a ausência de outros segmentos sociais no sistemas culturais estão conduzindo questões
comando coloca em xeque a iniciativa de- ligadas à identidade política e seus significa-
vido a sua abrangência político-pedagógica. dos.

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Ao mesmo tempo também é através do que são distribuídos na forma de conheci-


reconhecimento de seus locus de produção, mento social, sejam eles, culturais, técnicos,
realização e circulação, o campo midiático, cognitivos, ou sócio-econômicos. Portanto,
que o Telecurso 2000 se credencia como desde que se entenda o Telecurso 2000 como
um projeto cultural relevante para a tran- sendo um projeto de formação social, gerado
sição econômica nacional. Através da natu- em um sistema cultural próprio, seu pro-
reza de seu campo ele se insere no aspecto duto final, a programação exibida, está sendo
tecnológico que sustenta a expansão das re- monitorada através de uma agenda cultural
des de informação no processo de globali- específica, onde se articulam os elementos
zação. Coincidentemente, reside nesse lócus que compõem a cultura midiática, com as
o mundo em transição onde são negociadas práticas sociais que estão sendo propostas.
as novas formas simbólicas que marcam os São perseguidos os sentidos do conceito de
produtos culturais na atualidade. O projeto cidadania nas três esferas do campo discur-
se apresenta em uma situação ímpar. É ao sividades, narrativas e técnicas.
mesmo tempo objeto e sujeito da cultura de
informação.
2 O que é o Telecurso?
Nesse caso, a cultura fornece inúme-
ras razões constitutivas para reconhecê- O Telecurso 2000 foi originalmente conce-
lo como um projeto político-pedagógico- bido para promover a escolaridade de dez
público. Mas para tanto, é necessário que milhões de trabalhadores que oscilam entre o
se reconheçam suas estratégias de represen- analfabetismo, a alfabetização instrumental
tação e interrupção da realidade, tal qual são ou têm menos de oito anos de escolaridade.
apresentadas para o seu público-alvo na pro- Implantado em 1995, hoje sua expansão não
gramação analisada. São atributos dessa re- se restringe à educação supletiva do traba-
presentação, por exemplo, a construção da lhador. Também está sendo usado como al-
identidade nacional veiculada pelo projeto ternativa à educação formal em alguns esta-
de formação. dos brasileiros. É resultado de uma parceria
No entanto e, obviamente, a cultura é li- entre o governo e o empresariado nacional.
vre para flutuar. Perpassa por vários signi- Tem a chancela e o financiamento de organi-
ficados e é um campo social onde o po- zações públicas e privadas.
der muda constantemente; onde identida- Confrontado com os fenômenos observa-
des estão em permanente trânsito e onde a dos na sociedade de informação, o Telecurso
agenda se situa na última tecnologia, no úl- detém um discurso midiático natural, produ-
timo conhecimento. O projeto se impõe, so- zido no lócus de sua própria concepção e vai
bretudo, como prática performativa à moder- além. O Telecurso também possibilita a ar-
nidade dos meios. Pedagogia pública, ainda ticulação necessária para a reflexão das três
segundo HALL (1997), envolve, sobrema- forças que compõem as mudanças atuais. As
neira, práticas morais e políticas, mais do duas primeiras - revolução tecnológica e a
que um simples procedimento técnico. reestruturação do capitalismo mundial, re-
Por outro lado, os sistemas culturais em volucionam a organização produtiva em es-
suas várias interconexões emitem valores cala global com implicações para o mundo

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do trabalho e para as nossas existências ao atualidade. Por outro lado, reconheceu nos
deslocar para outras dimensões experiências estudos culturais a possibilidade de matizar
de tempo e espaço. Uma terceira força, esta o estilo posto na programação
contraditória, impulsiona a busca por identi-
dades. A reconstrução das identidades políti-
3 É comparando que se entende
cas, culturais, sociais, territoriais, religiosas,
éticas, nacionais, entre outras, está na ordem A análise da programação observa como são
do dia e, curiosamente, coexiste com a ex- negociados os significados postos no eixo
pansão do processo de globalização. “atitudes de cidadania” -, escolhido na pro-
A reestruturação do capitalismo mun- posta técnica-pedagógica do projeto. A ver-
dial impulsiona a reacomodação do Estado- são considerada se apresenta no Caderno de
nação, bem representada pela mídia para as- Capacitação 1 - Conhecendo o Telecurso
segurar a hegemonia do projeto político da 2000 -, (1999).
doutrina neoliberal. O fundamentalismo de O Caderno de Capacitação 1, escolhido
mercado, contido na doutrina, transformou a para abalizar a lógica de produção do Tele-
maneira como cada povo lida com a identi- curso 2000 é mais recente e reproduz, em
dade e com a conexão entre resistência co- parte, o documento técnico-pedagógico que
munitária e os novos movimentos sociais. serviu de base de no lançamento do projeto
Esta terceira força é aferida na medida em em circuito nacional em 1996. A mudança
que a categoria cidadania, como construto fundamental diz respeito ao deslocamento
identitário, está sendo enfocada na análise do das atitudes de cidadania dos princípios para
Projeto estudado. o eixo temático principal. Nessa nova ver-
Para tanto, foram extrapoladas as barrei- são, as práticas cidadãs estão sendo apon-
ras do conceito mais conhecido, as três di- tadas como um tema transversal a todas as
mensões clássicas de MARSHALL (1967): disciplinas veiculadas na programação. Exa-
direitos e deveres civis, políticos e sociais, tamente como acontecia com o tema tra-
onde se agrega uma nova dimensão, a cultu- balho na versão que regia os fundamentos
ral. A regra foi reconsiderar o cidadão atual do “Telecurso 2000 -Educação para o Tra-
a partir da expansão das redes de comuni- balho”, em 1994. Na introdução, o docu-
cação e informação. Registrando sua lícita mento técnico-pedagógico se apresenta as-
presença na rede imaginária do sistema de sim: “participar da construção de uma so-
expansão global e observando as novas re- ciedade mais justa e solidária exige oferecer
dimensões territoriais que o abrigam física, e meios para que todos exerçam plenamente a
simbolicamente na sociedade atual. sua cidadania” (FRM: 1999, p.2).
A proposta educativa do projeto Telecurso A construção de noções de cidadania, que
foi revista estabelecendo relações entre po- surge com todo vigor nos documentos de
der, ideologia e resistência na esfera social e 1999, relaciona-se diretamente com o pro-
em seu lócus de produção imanente. A pes- jeto normatizador de educação nacional im-
quisa fez a conexão entre os sistemas cul- plantado pelo Governo federal: os Parâme-
turais e os estudos de mídia e observou a tros Curriculares Nacionais - PCNs; conce-
relevância que o campo midiático ocupa na bido para estandardizar o sistema brasileiro

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de educação. Os PCNs convergem para uma até sem lhes modificar a natureza, mas tam-
norma instrumental comum, apesar de re- bém podem convergir.
conhecerem as diferenças regionais - cultu- Em termos quantitativos, as fitas foram vi-
ral e econômico-social do país. É um projeto stas na seqüência apresentada pelo projeto.
governamental audacioso porque se situa na A única exceção desse procedimento refere-
discussão do processo de globalização em al- se às aulas de matemática porque as fitas in-
guns aspectos - técnicos, econômicos e cul- iciais apresentaram problemas no ambiente
turais - e tem como objetivo manter as ca- onde foram requisitadas. Elas foram vistas a
racterísticas nacionais. Desperta a discussão partir da aula 21 até a 60, de um total de 80
sobre identidades e pertencimento na socie- aulas. História Geral e do Brasil, foi anali-
dade brasileira. sada através das aulas 1 a 33, de um total de
Entre os objetivos do Ensino Fundamen- 40 aulas; Ciências de 1 a 40, de um total de
tal, os Parâmetros Curriculares Nacionais 70 aulas; Geografia, de 1 a 37, de um total de
indicam que os alunos sejam capazes de: 50 aulas. A disciplina de Português foi vista
“compreender cidadania como participação nos programas/aula de 1 a 36 e mais a fita
social e política, assim como exercício de di- N0 6, que apresenta as aulas de 41 a 47 em
reitos e deveres políticos civis e sociais, ado- um universo de 90 aulas. O estudo de Língua
tando, no dia-a-dia, atitudes de solidarie- Estrangeira - Inglês - não foi considerado. A
dade, cooperação e repúdio às injustiças, re- análise de expressão alcançou mais de 50 por
speitando o outro e exigindo para si o mesmo cento dos programas apresentados.
respeito...” (MEC/SEF, 1998: p. 7). A pro-
posta dos Parâmetros é bem direta no que se
4 Motivando a autodeterminação
refere ao direito dos alunos brasileiros sobre
o acesso aos conhecimentos indispensáveis Em princípio, verificamos a pertinência ou
para a construção de sua cidadania. não da tese central proposta na normatização
Cidadania é um fenômeno espacial e dos PCN, onde se situam os parâmetros ins-
temporal, historicamente definido, mesmo trumentais de desenvolvimento da cidadania
quando se apresenta enquanto entidade legal nacional. Foi refletida uma lógica exeqüí-
e territorial, sobre a qual são associados di- vel e predominante nas instituições nacionais
reitos e deveres. Tanto os Parâmetros Curri- que permite aceitar a noção de integração ter-
culares Nacionais (PCNs), que normatizam a ritorial contida na construção de identidades.
educação brasileira , como o Telecurso 2000, Tal lógica admite que a formação da cidada-
elegeram a construção de noções de cida- nia passa em primeira mão pelo reconheci-
dania como eixo principal na formação es- mento das identidades nacionais, representa-
colar. Por essa razão, este trabalho escol- das pelos grupos sociais nelas contidos.
heu confrontar o sentido de cidadania con- Para tanto, repassamos a crise do conceito
tido em ambos os projetos. A comparação de Estado-nação, ressaltada no processo de
é legítima. Os valores que estão sendo atri- globalização de bens e serviços. A crise
buídos ao conceito de cidadania em ambos joga contra uma unicidade entre identidades,
os projetos, o de educação nacional, e o Te- nações e Estados. Por outro lado, o que se
lecurso 2000 podem divergir, algumas vezes apreende do deslocamento do conceito do

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Estado-nação é que na atualidade o Estado quê e para quê isso acontece. Sobre o quem
luta incondicionalmente para reconstruir sua e para quê, ele mesmo dá a pista: estaria con-
legitimação e instrumentalidade, juntando as tido na resposta o grande conteúdo simbólico
sociedades civis locais para se projetar no dessa identidade que está sendo construída,
processo de expansão das redes transnacio- bem como o de seu significado para aqueles
nais. que se identificam ou dela se excluem.
Essa é uma estratégia articulada por parte O autor identifica três formas de origens
dos governos mundiais para fazer fase aos de construção de identidade:
imperativos globais comuns. Para tanto, são
usados os sistemas educacionais no sentido • “Identidade legitimadora: introdu-
de promover coesão social e transmitir a zida pelas instituições dominantes
idéia de identidade nacional. No caso do da sociedade no intuito de expandir
Brasil, o projeto normativo é mais auda- e racionalizar sua dominação em re-
cioso porque abre espaço para uma coalizão lação aos atores sociais, tema este
de interesses sociais fundamentados em uma que está no cerne da teoria de au-
identidade (re)construída. toridade e dominação de Sennett,6
Para se entender o procedimento de recon- e se aplica a diversas teorias do
strução é interessante se chegar à visão de nacionalismo7 .
CASTELLS (1999: p. 60) sobre o assunto. • Identidade de resistência: criada
Ele entende por identidade a fonte de signi- por atores que se encontram em
ficado e experiência de um povo. Citando posições/condições desvalorizadas
CALHOUN, CASTELLS (2001) apresenta o e/ou estigmatizadas pela lógica
conceito: da dominação, construindo, assim,
trincheiras de resistência e sobrevi-
Não temos conhecimento de um povo vência com base em princípios di-
que não tenha nomes, idiomas ou cultu- ferentes dos que permeiam as in-
ras em que alguma forma de distinção stituições da sociedade, ou mesmo
entre o eu e o outro, nós e eles, não seja opostos a estes últimos, conforme
estabelecida... O autoconhecimento - in- propõe Calhoun ao explicar o sur-
variavelmente uma construção, não im- gimento da política de identidade8 .
porta o quanto possa parecer uma desco-
berta - nunca está totalmente dissociado • Identidade de projeto: quando
da necessidade de ser conhecido, de mo- os atores sociais, utilizando-se de
dos específicos, pelos outros” - CAL- qualquer tipo de material cultural ao
HOUN apud CASTELLS (2001: p. 22). seu alcance, constroem uma nova
identidade capaz de redefinir sua
Não é difícil concordar com o fato de que a posição na sociedade e, ao fazê-
identidade cultural de um povo é construída. lo, de buscar a transformação de
Ainda segundo CASTELLS (2001: p. 23), toda a estrutura social. Esse é o
a principal questão que envolve a discussão, caso, por exemplo, do feminismo
diz respeito a como, por quem, a partir do que abandona as trincheiras de re-

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sistência da identidade e dos direi- dores convergem na construção do mito. Um


tos da mulher para fazer frente ao mito ungido em suas raízes históricas, em
patriarcalismo, à família patriarcal uma combinação forjada entre a população e
e, assim, a toda a estrutura de pro- as instituições. SILVA (1996), ressalta a “fle-
dução, reprodução, sexualidade e xibilidade” como sendo a identidade nacio-
personalidade sobre a qual as so- nal mais significativa. Essa idéia surge a par-
ciedades historicamente se estabe- tir de um comentário de FREYRE (1961) so-
leceram (CASTELLS, 2001, p. 24). bre a dinâmica que tem constituído o Brasil
desde 1500:
Isto posto, resta identificar as razões con-
sideradas na (re)construção do significado Considerada de modo geral, a formação
de identidade nacional do projeto normativo brasileira tem sido, na verdade, como já
do Ministério de Educação brasileiro. Sem salientamos às primeiras páginas deste
dúvidas, os PCN não chegaram a normati- ensaio, um processo de equilíbrio de ant-
zação proposta do nada. Este foi um pro- agonismos. Antagonismos de economia
cesso intencional de alteração do indivíduo, e de cultura. A cultura européia e a in-
visando a implantação de um projeto de for- dígena. A européia e a africana. A afri-
mação social, audacioso, tendo em vista que cana e a indígena. A economia agrária e
sua finalidade principal foi a de transformar a pastoril. A agrária e a mineira. O cató-
a coletividade onde ele atua. Obviamente, lico e o herege. O jesuíta e o fazendeiro.
também, que esta é uma estratégia articu- O bandeirante e o senhor de engenho. O
lada porque negocia novos códigos cultu- paulista e o emboaba. O pernambucano e
rais a partir da matéria prima fornecida pela o mascate. O grande proprietário e o pa-
história. Então, historicamente, como o Bra- ria. O bacharel e o analfabeto. Mas pre-
sil tece seu jogo de identidades refletido em dominando sobre todos os antagonismos,
seu imaginário social? o mais geral e o mais profundo: o senhor
e o escravo (FREYRE 1961: p. 73).

5 A plasticidade flexível Referindo-se a fixação do imaginário do


ponto de vista institucional, SILVA (1996,
O estilo de vida do brasileiro, que tam- p.33), evoca FAORO (1975), para lembrar
bém é uma construção histórica, para SILVA que no processo de construção do mito os
(1996) se caracteriza principalmente pela sua governantes tinham a preocupação de “er-
plasticidade, que contrasta com os saberes guer um império com gente vil”. O ant-
divulgados pela escola, igreja, e entidades agonismo “mais profundo”, observado por
destinadas à regulamentação do social. No FREYRE (1961), ou seja, a relação do se-
entanto, o processo de formação cultural do nhor com o escravo, é a mais arraigada das
povo brasileiro é motivo de muita especu- tradições nacionais. é também a que mais
lação por parte de pensadores como Gilberto se credencia na reflexão do imaginário social
Freyre - Casa Grande & Senzala (1961) e brasileiro.
Sérgio Buarque de Holanda - Visão do Pa- Um país legitima sua identidade nacional
raíso (1959). De modo que ambos os pensa- quando de alguma forma suas instituições,

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governos, tradições, refletem a história de que a colocam em um lugar privilegiado no


sua população. E por várias razões históri- ranking das desigualdades sócio-econômicas
cas, o passado escravocrata nacional não foi mundiais.
expurgado. Vez ou outra, a cada novo passo Conseqüentemente, o esforço proposto
rumo à autodeterminação, nossa escravocra- pelo Estado, através das normas contidas nos
cia sai do armário e assusta a todos se pro- PCN, deve levar em consideração a matéria
jetando em uma obscura sombra de passado. prima histórica da construção. Em primeiro
Porque mesmo que a população, governo e lugar, devido às peculiaridades expostas, a
instituições se unam na simulação de uma nação, em última análise, não se vê represen-
nova identidade, as camadas mais pobres da tada na noção de integração. Não existe uma
sociedade tratarão de desarticular o acordo, identidade nacional que abra espaço para
lembrando a todos sua posição diferenciada. uma coalizão de interesses sociais funda-
Sem uma redenção de fato, que incorpore mentados em uma identidade (re)construída.
séculos de discriminação sócio-econômica e Uma força social/política definida por uma
institucional, esse segmento populacional ja- determinada identidade (ética, territorial, re-
mais vai se sentir representado nas decisões ligiosa, tribal ou étnica) que possa ser trans-
que acontecem no centro do poder nacional. formada nesta noção.
Para o bem ou para o mal a história brasi- Voltando para a idéia do construto, CAS-
leira carrega consigo uma imensa carga far- TELLS (2001), o projeto nacional parece
sesca. Uma dissimulação das relações reais. estar lidando com as três formas de origem
Algumas vezes, a farsa até se transverte em propostas, no entanto, a identidade de pro-
um jogo envolvente para regojizo de todas jeto, que permite a construção do sujeito,
as raças, cores e crenças. As identidades pode estar sendo favorecida nos Parâme-
nacionais, enfocadas pelos historiadores, fre- tros Curriculares Nacionais. Citando TOU-
qüentemente transbordam em contradições. RAINE, CASTELLS (2001), dá uma idéia
HOLANDA (1995) exalta os valores do ho- do que significa essa produção:
mem cordial, ungido nas relações coloniais,
Chamo de sujeito o desejo de ser um in-
como sendo o traço definitivo do caráter bra-
divíduo, de criar uma história pessoal,
sileiro. A polidez - traduzida recentemente
de atribuir significado a todo o conjunto
como “flexibilidade” - seria um mecanismo
de experiências da vida individual... A
de defesa ante a sociedade. A lhaneza no
transformação de indivíduos em sujeitos
trato, a generosidade e a hospitalidade, no
resulta da combinação necessária de duas
entender de HOLANDA (idem), é o convívio
afirmações: a dos indivíduos contra as
baseado na ética de fundo emotivo. Na ética
comunidades, e a dos indivíduos con-
que se confunde com a etiqueta. É a tradução
tra o mercado (CASTELLS, apud TOU-
do desejo do escravo de estabelecer intimi-
RAINE 2001, p. 26).
dades com o seu senhor. Seria, portanto,
uma convivência humana dissimulada pelo Repassando essa seqüência, chega-se a um
sujeito para esconder as diferenças sociais, resultado evidente: existe uma dinâmica nas
étnicas, ou mesmo econômicas que rondam a identidades que as conduz a um trânsito per-
sociedade brasileira. As mesmas diferenças manente. Por outro lado, também se torna

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claro que a constituição do senso de cidada- de comunicação. Com a sua tradição oral
nia, proposto em ambos os projetos revistos, inequívoca. O Telecurso 2000 tem um papel
somente acontece quando os alunos são ca- fundamental na confecção do amálgama que
pazes de pensar os seus papéis enquanto su- parece ser a representação que a sociedade
jeitos da história. faz dela mesma e projeta através dos meios.
Para garantir o construto identitário do Tem o mérito de trazer para o campo da edu-
aluno, ou seja, o exercício pleno de suas cação os códigos culturais que os alunos têm
funções políticas, produtivas e culturais, am- acesso em seu cotidiano.
bos os projetos precisam estar atentos a toda Dito de forma simples, o Telecurso repre-
uma complexa compleição que articula a senta exatamente o produto final de uma so-
noção de cidadania. Seria necessário desco- ciedade que atravessa aceleradas mudanças
brir um princípio unificador dentro da nação tecnológicas sobrevivendo aos seus próprios
que seja válido aos interesses e vontades co- antagonismos. É a cara do Brasil rural, po-
muns. No entanto, a sombra obscura da for- voado de antenas parabólicas, cuja popula-
mação cultural brasileira persiste e é preciso ção permanece sentada em uma praça qual-
aprender a lidar com ela. quer, sem escolas, assistindo a última tele-
Pensando na convivência pacífica se chega novela. Melodramas reais, cujos enredos en-
à intersecção dos dois projetos que mais am- fatizam as nossas contradições econômico-
bicionam a formação social brasileira. A co- sociais, as passividades do presente, a guerra
mum união em torno de um mesmo ponto. permanente e sem solução entre as elites e o
A aceitação de que a sociedade atual se- povo.
ria o palco inequívoco de uma sociedade É também no Telecurso que a sociedade
civil mediada pelo consumo e pela infor- brasileira descobre que nenhum programa de
mação. Dessa forma, a flexibilidade plá- televisão é poderoso o suficiente para en-
stica da formação brasileira, defendida por terrar a realidade desigual que a sustenta.
SILVA (1996), estaria sendo reconhecida e A televisão serve, no caso, para lembrar ao
exaltada. Nem a escola, nem as instituições, telespectador que existe uma sociedade de
podem prescindir de incorporar ao processo consumo de massas, estratificada, onde dois
de formação cultural do povo brasileiro, o mundos convivem e se alternam contradito-
seu imaginário. O projeto normatizador ne- riamente: o pensado e o vivido. Já a nor-
cessita integrar os fios que tecem a ficção e matização dos PCN existem, e é bom que
a realidade, de maneira cuidadosa, para con- existam, para lembrar a todos que é possí-
seguir articular uma amálgama definitiva li- vel à construção de um mundo mais igual.
gando educação e imaginário. Descartando, Um mundo povoado de sujeitos sociais, con-
portanto, a preocupação de formar apenas e victos de seu papel na construção de um
através da racionalidade sábia, a serviço da Estado de direito democrático. Cumprem a
humanização da vida. sua função de tentar harmonizar, de maneira
Mas qual imaginário é esse que parece simples, as dimensões simbólicas da socie-
estar em permanente conflito? Talvez seja o dade, com seus processos produtivos e ope-
imaginário que surge na relação direta que o racionais. Nesse caso, ele existe para nor-
país mantém com a televisão, com os meios

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matizar um projeto nacional e abrangente de das as diversidades culturais apontadas, tam-


formação educacional. bém lhe diz respeito no processo educacional
No entanto, pode se afirmar que a adoção brasileiro. Resta saber como ele se enquadra
dos Parâmetros segue na contramão do mer- nessa missão.
cado. “O pensamento elitista da identi-
dade nacional começa, assim, a afastar-se
6 Contrapontos
do território - que inclui povo e natureza -,
voltando-se para valores transnacionais, ad- Este trabalho teve a preocupação de atribuir
vindos do “Outro”, definido como centrali- sentidos aos vídeos de modo que eles fos-
dade hegemônica do capital” SODRÉ (2000, sem apreendidos como qualquer outro mate-
p.130). Ainda segundo SODRÉ (op. Ci- rial educacional. O que significa dizer que
tada), a virada do milênio revive o século de- eles são matizados pelos valores, convicções
zenove, quando as elites nacionais selavam e interesses daqueles que os desenvolvem.
seu pacto perpetuo e faziam um grande es- Não podem, portanto, ser encarados como
forço de europeização a título de resgate de produtos neutros. Eles se apropriem tanto
sua identidade pessoal e coletiva, fora das dos valores presentes no campo midiático,
bases da política comunitária tradicional. como dos valores educacionais. A linha de
A parte mais relevante dos PCN é a argumentação sobre a natureza do material
sua originalidade. No sentido da gênese. apresentado nesse estudo atravessou valores
Eles articulam um novo compromisso com econômicos, históricos, estéticos, técnicos,
a história da formação social do povo bra- organizacionais, culturais, de produção ori-
sileiro. Seu arrojo reside na proposta que entada, e ideológicos. Enquanto todos os
resgata o construto de cidadania, a partir da critérios citados foram claramente importan-
re-construção de uma noção de identidade tes para a sua concepção, o caráter ideoló-
nacional. Rompe com a inércia da escola que gico da programação analisada sustentou a
esteve por muito tempo paralisada diante da tensão analítica..
abrangência e sofisticação dos meios de in- O locus midiático, as Organizações
formação e comunicação. Redime o sistema Globo, recoloca os conceitos de ideologia
nacional de educação de haver passado ao e hegemonia no foco central da análise.
largo, por várias décadas, da discussão que Mesmo porque, como foi dito anteriormente,
envolve cultura de consumo de massas. eles tipificam o papel dos meios de comu-
Os PCN trabalham no sentido de encon- nicação na sociedade atual. É exatamente
trar um equilíbrio entre formação e cultura nesse campo onde se situa a mistificação das
de massas. Pensam a expansão dos meios de relações de poder nas sociedades. A hege-
comunicação e informação como fato social, monia se define pelo modo como as clas-
código e instituição. Por outro lado, o pro- ses dominantes mantêm suas posições atra-
jeto que se utiliza dos meios de comunicação vés do consentimento popular, moldado na
para aumentar a escolaridade dos trabalha- representação que os meios fazem das clas-
dores brasileiros, o Telecurso 2000, também ses não hegemônicas. Dessa forma, o campo
teve que se enquadrar nas normas para pros- midiático produz associações simbólicas e
seguir ocupando um espaço que, reconheci-

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Plasticidade social ou construção de identidade? 11

retóricas onde as ideologias se manifestam apresentam uma mesma estrutura narrativa e


de forma definida e concreta. discursiva que se perfila em um alto valor
As ideologias, como já foi sugerido, são estético sem maiores compromissos com o
reproduzidas sistematicamente através das processo histórico do qual eles fazem parte.
estruturas midiáticas. Os meios são persis- No entanto, a contenção e a invisibili-
tentes modelos de cognição, interpretação, dade dadas às diversidades brasileiras na
representação, de seleção, ênfase e exclusão, programação analisada, em contrapartida a
em cuja simbologia se organizam rotineira- ampla cobertura que é dada à plasticidade so-
mente discursos verbais e/ou visuais, com- cial, é proporcional e sintomática da grande
prometidos com a manutenção do status so- invisibilidade, a falta de transparência, que
cial dominante. persiste na estrutura social do Brasil. Do
Significativamente, e independente das in- ponto de vista histórico, vale lembrar que a
tenções manifestas nos documentos oficiais única real tentativa de refletir nossas diversi-
do Telecurso 2000, a programação analisada dades na educação, do ponto de vista institu-
não foge à regra no que diz respeito a repro- cional, foi feita agora, pós PCNs.
dução ideológica em discussão. O discurso é Por outro lado, quando o Telecurso 2000
construído a partir da visão do produtor. Re- é pensado através do seu caráter formativo,
vendo as lições de História - 1 a 8 - que se é preciso acrescentar, em primeira mão, que
organizam em torno de um discurso politica- as formas de vida social interpostas na pro-
mente correto por não imprimir preconceitos gramação não se sobrepõem, não podem ser
em relação às etnias e culturas, sutilmente, a interpretadas como um princípio superior ao
supremacia ideológica se confirma. A narra- estágio de desenvolvimento econômico que
tiva que reconstitui a história pessoal de cada mapeia a sociedade brasileira. O Telecurso é
um dos brasileiros esconde a diversidade cul- apenas um programa supletivo de educação
tural e sócio-econômica de sua formação. O à distância produzido para aumentar a esco-
brasileiro que sai do Rio de Janeiro para o in- laridade do trabalhador que não teve acesso
terior da Bahia para resgatar sua história não à escola ou a freqüentou menos do que o tér-
tem sotaque nordestino, desconhece as diver- mino do primeiro ciclo fundamental.
sidades regionais e se perde como persona- No entanto, devido as suas engrenagens de
gem amorfo de um mesmo padrão de quali- elaboração, produção e circulação, já citadas
dade “global”. em situações anteriores, ele se expande en-
Na história que conta o passado escravo- quanto mito. Há algumas correntes que de-
crata brasileiro não se ressaltam as iniqüi- fendem a educação à distância por ela ser
dades sofridas pelo negro, como tampouco mais barata e fácil de se multiplicar. Essa
se compara o passado com o presente. Não premissa pode ser verdadeira desde que o
existe uma identidade negra a ser ressaltada modelo invista em material pedagógico de
e as diversas etnias brasileiras são retratadas qualidade e em um professor disponível para
como sendo únicas, ou melhor, integradas. trabalhar junto com o aluno esse material em
E assim se desenrolam os programas recor- tempo integral. Então, nessa perspectiva, o
tados para a análise. São produtos cindidos mito do projeto econômico se esvai. Um
entre a estética e a formação social. Todos

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12 Maria das Graças Pinto Coelho

professor bem formado, em tempo integral, 7 Referências


custa caro.
CASTELLS, Manoel. Critical Education in
Um projeto de formação social que deseje
the New Age. Laham Md: Rowman &
alcançar objetivos compatíveis com a escola
Litlefield, 1999.
de formação integral precisa separar o mito
da realidade. O real na intenção de se fazer CASTELLS, Manoel. O poder da identi-
educação de massas de qualidade não dis- dade. Tradução Klauss Brandini Ger-
pensa a relação professor/aluno. Por outro hardt. São Paulo: Paz e Terra, 2001.
lado, o mito da técnica também se espalha
como um totem, recrutado para se expan- BRASIL, Ministério da Educação e do Des-
dir em todos os significados construídos. O porto. Secretaria de Educação Funda-
caráter performático dos meios é usado de mental. Parâmetros curriculares nacio-
forma exaustiva. Essa substituição, ou des- nais. Brasília: MEC/SEF, 1997.
locamento da intenção educativa em favor
da performance midiática, é mais observada FAORO, Raymundo. Os donos do poder:
quando se juntam os dois projetos: o de for- formação do patronato político brasi-
mação - o Telecurso 2000 - e o culturalista leiro. Porto Alegre: Globo, 1976.
das Organizações Globo, descrito várias ve- FIESP/SESI. Telecurso 2000: ensino suple-
zes pela empresa, e comentado por inúme- tivo/treinamento. São Paulo, 1996.
ros cientistas sociais, cuja marca é o “padrão
Globo de qualidade”. FIESP/SESI. Fundamentos e diretrizes do
Porque daí surge um produto híbrido Telecurso 2000. São Paulo, 1994.
muito bem ressaltando em suas nuances
ideológicas. Que em nenhuma hipótese pode FREYRE, Gilberto. Casa grande & senzala.
ser culpado por reproduzir um mesmo im- Rio de Janeiro: José Olympio, 1961.
passe social vigente. Uma marca consta- FUNDAÇÃO ROBERTO MARINHO / FE-
tada em todos os programas analisados é a DERAÇÃO DAS INDUSTRIAS DO
da assunção técnica da programação. De ESTADO DE SãO PAULO - Telecurso
todo modo, “o padrão Globo de qualidade” 2000. São Paulo: 1993 (datilografado).
sabe exatamente o que a audiência quer. Os
símbolos culturais arregimentados na pro- FUNDAÇÃO ROBERTO MARINHO / FE-
gramação do Telecurso fazem sentido do DERAÇÃO DAS INDUSTRIAS DO
ponto de vista do telespectador. Preenchem ESTADO DE SãO PAULO - Caderno
o imaginário nacional diariamente e conse- de capacitacao I: Conhecendo o Tele-
guem monopolizar a audiência. Resta ende- curso 2000. Rio de Janeiro: Fundação
reçar, no entanto, a expectativa do público Roberto Marinho, 1999.
para um projeto de formação social, suple-
tivo, ou não. Nessa perspectiva, poderia se HALL, Stuart. Questions of cultural identity.
ver credenciado o processo de construção de Thousand Oaks. Sage, 1996.
cidadania nacional, proposto pelos Parâme-
tros Curriculares Nacionais.

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Plasticidade social ou construção de identidade? 13

HALL, Stuart. The emergence of cultural


studies and the crises of the humanities.
London: Cultural Studies, 1997.

HOLANDA, Sérgio. Visão do paraíso. Rio


de Janeiro: José Olímpio, 1959.

MARSHALL, T.H. Citizenship and Social


Class, London: Pluto Press, 1967.

SILVA, Juremir Machado. Os anjos da per-


dição: futuro e presente na cultura bra-
sileira. Porto Alegre: Sulina, 1996.

SODRÉ, Muniz. Claros e escuros: identi-


dade, povo e mídia no Brasil. Petrópo-
lis, RJ: Vozes, 1999.

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