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Arquitetura e Cidade

A Cidade pelo Avesso


Desafios do urbanismo contemporâneo

Rachel Coutinho Marques da Silva


Organizadora

VIANA & MOSLEY


Editora
A Cidade pelo Avesso
Desafios do Urbanismo Contemporâneo
A Cidade pelo Avesso
Desafios do Urbanismo Contemporâneo

Rachel Coutinho Marques da Silva


organizadora
Agradecimentos
Este livro é o resultado de múltiplas colaborações. Muitas pessoas direta e indiretamente Aos meus filhos Eduardo e Gabriel,
contribuíram para a elaboração e finalização deste livro. Sem poder nomear a todos, agra- por um mundo melhor.
deço aos amigos, colegas e alunos pela paciência, apoio e troca intelectual. O apoio da
Coordenação do PROURB/FAU/UFRJ, Programa de Pós-Graduação em Urbanismo da
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ, em especial de nossa coordenadora Denise
Pinheiro Machado foi crucial. Este livro não existiria sem o seu incentivo e suporte. A
FAPERJ e o CNPq deram o apoio financeiro necessário e fundamental para a materializa-
ção desta publicação. Agradeço à Editora Viana & Mosley pela confiança no projeto e à
Elisabeth Simões pela cuidadosa revisão. Finalmente, os autores dos artigos deste livro
merecem um especial agradecimento pelo engajamento intelectual e valiosa contribuição.
Projeto Editorial
Denise B. Pinheiro Machado
PROURB - Programa de Pós-graduação em Urbanismo FAU/UFRJ Sumário
Coordenação Editorial
Marta Mosley - Editora Viana & Mosley
Diagramação Urbanismo, urbanidade e as novas configurações sócio-espaciais | 9
Hybris Design Rachel Coutinho Marques da Silva
Capa Parte I Urbanismo Contemporâneo e uma Nova Urbanidade | 21
Isabella Perrotta A urbanidade na cidade contemporânea entre fronteiras e trincheiras | 23
Foto da capa Rachel Coutinho Marques da Silva
Rachel Coutinho Marques da Silva O urbanismo em estado fluido | 41
Rosane Azevedo de Araújo
Revisão de texto
Elisabeth Simões Um tempo-lugar para o cultivo dos corpos e do espírito | 59
Cristovão Fernandes Duarte

Parte II Urbanismo e Novas Espacialidades | 69


Ideologia moderna, planejamento e imagem de cidade na produção do espaço de Brasília | 71
Lucia Cony Faria Cidade
Cidade aeroporto ou aeroporto-cidade? | 93
Alexandre Brandão e Teresa Faria
Transformações na paisagem urbana: favelização de conjuntos habitacionais | 113
Luciana da Silva Andrade e Gerônimo Emílio de Almeida Leitão

Parte III Projetos Urbanos e Áreas Centrais | 133


Cidade e renovação urbana: breve histórico da experiência italiana | 135
Elio Trusiani
Projeto urbano no Rio de Janeiro e as propostas para a área central nos anos 1990 | 145
Henrique Barandier
Reabilitação patrimonial e moradia coletiva na área central de Rosario | 169
Laura Varni

Parte IV Paisagem e Meio Ambiente | 181


Natureza e cultura: do idealismo constituído ao despertar de novas visões | 183
Ivete Farah
Notas sobre o paisagismo moderno no Brasil | 201
VIANA & MOSLEY Fabiana Izaga
Editora
A opção bioclimática no projeto urbano | 227
Av. Ataulfo de Paiva, 1.079/ sala 704 Prourb – Programa de Pós-Graduação em Urbanismo Oscar Corbella e Virginia Maria Nogueira de Vasconcellos
Leblon - Rio de Janeiro, CEP: 22440-031 Avenida Pedro Calmon, 550 Reflexões sobre as dimensões humanas da conservação | 243
Tel./Fax: (21) 2540-8571 Edifício da FAU/Reitoria, Sala 521 Marcelo Motta
Diretor Comercial: Richard Mosley Cidade Universitária - Rio de Janeiro CEP: 21941-901
Tel.: (21) 3204-9285 Tel.: 55(21) 2598-1990 - Fax: 55(21) 2598-1991 Sobre os Autores | 274
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Urbanismo, urbanidade e as novas
configurações sócio-espaciais

Rachel Coutinho Marques da Silva

Ao longo da estrada fui percebendo que os meus amigos


tinham umas idéias meio loucas de o que era uma cidade, umas
idéias exageradas, cada ilusão, negócio de louco.

LUIZ ENRIQUEZ, SÉRGIO BARDOTTI E CHICO BUARQUE,


A Cidade Ideal, 1977

Como se pode então construir um utopismo mais sólido que


integre processo social e forma espacial? É possível formular uma
nova modalidade mais dialética de utopismo, e até mesmo, cons-
truir uma dialética utópica?
DAVID HARVEY,
Espaços de Esperança. 2000

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A C i d a d e p e l o A ve s s o Urbanismo, urbanidade e as novas configurações

Nunca cidade esteve tanto em evidência quanto nos dias de hoje. Falar de cidade é falar cas sociais aconteciam, mesmo numa sociedade ainda com estratificação social bem defini-
de vida urbana e dos desafios que representa a vida cotidiana, sobretudo nas grandes metró- da. O artigo examina a passagem da condição de homem público para a condição de homem
poles. Ao urbanista, que tem a cidade como seu objeto de estudo e de intervenção, cabe ten- indivíduo na cidade contemporânea e, brevemente, tece considerações sobre o que significa
tar entendê-la para poder propor soluções que possibilitem por um lado, amenizar as dificul- o termo urbanidade nos dias de hoje, quando as grandes cidades, mas especialmente o Rio
dades da vida urbana e, por outro, estimular os potenciais criativos dos indivíduos e a convi- de Janeiro, apresenta profundas divisões sócio-espaciais, constituindo fronteiras a serem
vência sadia entre os grupos sociais. A perplexidade diante da atual realidade urbana, princi- superadas e trincheiras a serem demolidas. Trabalha juntamente com o conceito de urbanida-
palmente nas grandes metrópoles, faz com que velhos conceitos sejam postos em cheque ou de a noção de fronteiras urbanas, formando separações visíveis e invisíveis que fragmentam
pelo menos relativizados. Noções como segurança, controle e estabilidade, solidariedade e o espaço urbano e esvaziam o espaço público. Examina a condição de isolamento e de indi-
cidadania, centralidade, vazios urbanos, esfera pública e privada, bem como a própria estéti- vidualismo cada vez maior presente na cidade contemporânea e propõe uma possível reinte-
ca urbana devem ser reexaminadas. As tradicionais noções estão pelo avesso e o bom senso gração dos tecidos urbanos divididos a partir da transformação das fronteiras-faixa (faixas de
pode ser tão efêmero quanto as relações sociais. fronteira) em fronteiras vivas.
Este livro reúne uma série de artigos, que procuram refletir sobre os desafios da cidade Rosane Araújo examina a condição do efêmero e passageiro na cidade contemporânea e
contemporânea, em quatro grandes eixos de questões fundamentais para o urbanismo na suas repercussões na arquitetura e urbanismo no artigo seguinte: O URBANISMO EM ESTADO
atualidade: a) urbanidade contemporânea; b) novas espacialidades; c) áreas centrais; e, FLUIDO. A autora coloca em discussão o próprio conceito de cidade. Esta não mais se reduz
d) paisagem e meio ambiente. Estas questões fazem parte da agenda do urbanismo contem- aos ideais modernistas e os urbanistas buscam, e alguns mesmo anunciam, um novo urbanis-
porâneo e a elas se agregam sempre os aspectos sociais, econômicos e culturais. mo, mais adequado às exigências contemporâneas. Evidentemente, este novo urbanismo
O eixo urbanidade tem como centro o homem enquanto ser urbano e destaca a relação requer um repensar do conceito de urbanidade, pois, como Araújo coloca, estar na cidade sig-
dialética entre o sujeito e objeto e as inversões de papéis que a contemporaneidade coloca. nifica estar em qualquer lugar. O espaço virtual subverte as tradicionais definições de público
O homem, enquanto ser social e sujeito, faz, vive, transforma e se reproduz na cidade. A cida- e privado e de local e global, além de atenuar um dos traços urbanos mais marcantes da
de, enquanto objeto, é feita e refeita, consumida e transformada. Na contemporaneidade sociedade industrial que era a separação casa-trabalho. Da mesma forma, como bem frisa a
observamos cada vez mais uma mudança nesta relação e o homem vem assistindo, cada vez autora, a cidade tradicional tem suas origens e é fortemente marcada pelo sedentarismo, pelo
mais passivamente, a cidade dominá-lo e consumi-lo, fazendo com que a vida urbana seja assentamento das populações nômades no território e pela forte materialidade das constru-
meramente uma busca pela sobrevivência – do tipo salve-se quem puder – deixando pouco ções. A cidade contemporânea apresenta tendências de volta ao nomadismo, físico e virtual,
espaço para a expressão da individualidade criativa e feliz. Somos nós que moldamos a cida- e passa a ser marcada pela estética do leve, do portátil e do efêmero. A ciência se volta para
de ou é a cidade que nos molda? a nanotecnologia e para a clonagem. Assim, a autora enfatiza a necessidade de se estudar as
O primeiro artigo: A URBANIDADE NA CIDADE CONTEMPORÂNEA ENTRE FRONTEIRAS E TRIN- definições de espaço, as conseqüências destas transformações no espaço e nas pessoas que
CHEIRAS, de minha autoria, procura examinar as mudanças na condição do viver urbano e do habitam a cidade.
próprio conceito de cidade a partir da modernidade, quando a relação entre as esferas públi- Argumenta que devemos retomar a antiga noção de cosmopolita, pois as trocas sociais
cas e privadas guardava um significado definido entre a condição de vida íntima e vida públi- e materiais se darão mediante a interface gerada pela disponibilidade mental, social, pessoal
ca, na qual o espaço urbano privilegiava a condição de vida pública. Com o rompimento dos e dos equipamentos disponíveis. A autora diz que o Urbanismo se tornaria o “Orbanismo” do
muros a cidade ganha uma condição de cidade aberta, e era nos espaços públicos que as tro- século XXI, e o mundo seria tratado como um só, sem referência fronteiras ou limitações.

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A C i d a d e p e l o A ve s s o Urbanismo, urbanidade e as novas configurações

O terceiro artigo que encerra este primeiro bloco, de autoria de Cristóvão Duarte intitu- O artigo de Lucia Cony Cidade: IDEOLOGIA MODERNA, PLANEJAMENTO E IMAGEM DE CIDADE NA
lado UM TEMPO-LUGAR PARA O CULTIVO DOS CORPOS E DO ESPÍRITO traz ao debate um outro aspec- PRODUÇÃO DO ESPAÇO DE BRASÍLIA busca o entendimento da produção do espaço de Brasília
to importante da urbanidade contemporânea que é a dimensão do tempo livre e de sua apro- através de uma análise da ideologia do urbanismo de cunho modernista. Cidade examina a
priação para a fruição do lazer. O autor reivindica uma estratégia de resistência à opressão construção da espacialidade de Brasília e seu corolário social e mostra que a segregação
da sociedade de consumo e, examina a relação entre espaço-tempo e corpo-espírito na cida- sócio-espacial presente no Distrito Federal afeta a imagem de cidade ideal e reforça situações
de contemporânea. típicas de um capitalismo periférico. A criação da nova capital do país foi pensada para ser o
Neste texto, Duarte se propõe discutir o conceito de lazer de maneira ampliada, como símbolo dos ideais desenvolvimentistas do país que se ensaiava moderno, que deveria rom-
sendo o ato de cultivar o corpo e o espírito. Neste sentido, enfatiza a importância de pensar per com as tradições arcaicas de seu passado e voltar-se para o futuro em busca da socieda-
o ato de cultivar o corpo e o espírito não como uma atividade isolada das demais atividades de ideal. Se, por um lado, a ênfase no projeto de organização do espaço urbano baseado em
urbanas, mas como primordial para a integração de todas estas. O autor aponta o fracasso princípios racionais de urbanismo propiciou a produção de um espaço ordenado, por outro
do ideário da sociedade industrial que apontava para um aumento do tempo livre, o que per- lado, a forma de ocupação apresentou-se muito mais como um reflexo das desigualdades pre-
mitiria a passagem da sociedade do trabalho para a sociedade do lazer. Esta seria alcançada sentes no modelo de desenvolvimento nacional e nas práticas sociais mais comuns na socie-
em última análise não somente pelos ganhos de produtividade do modo de produção capita- dade brasileira. A autora utiliza quatro eixos teóricos e históricos para o entendimento do pro-
lista, que permitiria aos indivíduos ter mais tempo livre, mas também pela reorganização do cesso de produção do espaço em questão. A partir destes eixos a autora examina o caso do
espaço urbano, ancorado nos princípios modernistas. Sua intenção é mostrar como o tempo planejamento, criação, expansão e gestão do Distrito Federal, que se insere na ideologia
livre vem se tornando cada vez menor e como a relação tempo-espaço na sociedade de con- desenvolvimentista dos anos 50, que alguns autores se referem como modernização conser-
sumo reduz o tempo a mais uma mercadoria a ser consumida. Nos termos colocados por vadora. Neste contexto, o espaço, enquanto expressão das desigualdades sociais e das rela-
Duarte, a urbanidade, que se pauta nas relações de trocas sociais e na maximização das ções de poder, há que ser ordenado e dominado; o urbanismo torna-se então um elemento
potencialidades criativas dos indivíduos, fica comprometida. estratégico para os governos.
A segunda parte do livro é dedicada às mudanças nas espacialidades presentes na cida- O estudo de Brasília fornece uma boa análise dos limites do planejamento racionalista e
de contemporânea. Os três artigos que compõe este bloco irão mostrar de forma complemen- serve como um contexto histórico para o artigo que se segue, de Alexandre Brandão e Teresa
tar como as políticas urbanas podem produzir espaços desiguais e como novas espacialida- Faria, sobre o papel dos aeroportos na estruturação urbana da cidade contemporânea, desa-
des decorrem do processo desigual de produção do espaço. A antiga noção de centralidade fiando os antigos paradigmas de centralidade. Mostram o surgimento de um novo conceito –
muda seu rebatimento físico e não mais corresponde à tradicional área central. Equipamentos o de aeroporto-cidade – como uma nova forma de produção do espaço urbano. Os aeropor-
de serviço e infra-estruturas urbanas como shopping-centers e aeroportos assumem novas tos representam o elo de ligação do local com o global através de duas funções principais, a
funções e faz com que repensemos as definições de espaços livres públicos, lazer e recreação. de conectividade dos fluxos e materialização das trocas e de polarizador de capitais logísti-
Conceitos como mobilidade e conectividade dos fluxos constituem-se chaves para o entendi- cos. Neste sentido, os autores analisam a relação entre os aeroportos e as cidades onde se
mento da cidade contemporânea. A mobilidade, como vários autores já apontaram (Ascher, inserem, mostrando como estes grandes equipamentos urbanos que são infra-estruturas fun-
Castells, Graham e Marvin entre outros) , é crucial para a economia global. No entanto, nunca damentais nas cidades alteram os espaços urbanos e se tornam eles próprios cidades dentro
em outro período da história as pessoas se moveram tanto sem sair do lugar e sem saber de cidades. Apontam, outrossim, o surgimento de outro conceito importante – a Aerotrópolis,
quando conseguirão chegar a algum. que significa tornar o aeroporto uma grande centralidade e ao mesmo tempo transformá-lo

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em um nó de transporte multimodal regional, criando as condições para o aparecimento de to, o controle do espaço pelo poder público. Os autores afirmam que este conflito ideológico
usos e atividades complementares à atividade do aeroporto, e, portanto, o aparecimento de permanece até hoje nas políticas públicas habitacionais, onde se alterna a ausência de orde-
novos espaços no entorno. Brandão&Faria afirmam, que as aerotrópolis representam a mate- namento e regulação e práticas autoritárias de provisão de moradia. Desta forma, a troca
rialização da globalização na forma de cidades. As aerotrópolis, se planejadas, poderão repre- entre saber popular e técnico apresenta-se como uma terceira via.
sentar a possibilidade de recuperação do traçado e da inter-relação dos elementos morfoló- A terceira parte do livro é dedicada ao estudo do papel das chamadas áreas centrais das
gicos, formando um conjunto integrado e de crescimento urbano controlado. Se mal planeja- cidades, que assim eram denominadas por conta de seu papel de centralidade principal. As
das, poderão resultar em desastres urbanísticos, com a degradação sócio-ambiental do entor- antigas áreas centrais representam hoje um desafio para os urbanistas, pois carregam consi-
no. Os autores traçam um histórico da evolução do planejamento aeroportuário para situar a go uma forte representação simbólica da memória urbana e ainda mantém uma infra-estru-
relação entre o aeroporto e a cidade, e apontam algum dos aspectos que hoje desafiam o tura instalada subutilizada. As metrópoles urbanas, por sua vez, estabelecem novas centrali-
equilibro desta relação, como localização, acessibilidade, intermodalidade, ruído, ocupações dades. O próprio termo centralidade merece uma revisão, pois a estruturação das cidades con-
formais e informais. Chamam a atenção, contudo, para um dos grandes entraves na potencia- temporâneas vem mostrando uma dispersão funcional e formal de tal monta, que é cada vez
lização desta infra-estrutura em benefício da cidade, que é a fraca integração entre as políti- mais difícil a identificação de qualquer centralidade em seus tecidos. Os artigos selecionados
cas de planejamento setorial e urbana e indicam que o desafio atual é conjugar o planeja- abordam casos de projetos urbanos em três cidades: Roma, Rio de Janeiro e Rosário. O caso
mento dos aeroportos com as demandas de crescimento do transporte aéreo, concebendo de Rosário é um bom exemplo dos conceitos abordados por Trusani em seu artigo e confirma
uma nova forma de planejamento integrado que considere as novas funções dos aeroportos que é possível requalificar a cidade histórica através de intervenções que integrem patrimô-
nos arranjos produtivos da sociedade pós-industrial. nio, moradia e recuperação urbana.
O terceiro artigo deste bloco, TRANSFORMAÇÕES NA PAISAGEM URBANA: FAVELIZAÇÃO DE O artigo de Elio Trusani: CIDADE E RENOVAÇÃO URBANA: BREVE HISTÓRICO DA EXPERIÊNCIA
CONJUNTOS HABITACIONAIS, de Luciana Andrade e Gerônimo Leitão analisa um outro importan- ITALIANA faz uma breve incursão sobre a evolução do conceito de centro histórico, mostrando
te aspecto da cidade contemporânea, que é o da moradia para as classes de menor renda e como a evolução do conceito traz consigo modificações metodológicas com profundas impli-
as espacialidades produzidas pelos modelos dos grandes conjuntos habitacionais herdados cações nas políticas urbanas de renovação e requalificação de áreas centrais. Como estudo
do modernismo. O trabalho apresenta quatro exemplos do Rio de Janeiro complementando de caso, o autor analisa a experiência da cidade de Roma. Trusani chama a atenção para a
com a análise das recentes experiências de requalificação nos conjuntos habitacionais de importância de se trazer a dimensão projetual para os programas de requalificação de cida-
Berlim. Mostram como ainda é problemática a herança deste modelo habitacional até os dias des históricas, entendendo que uma nova projetualidade deve ser concebida. Esta deve enten-
de hoje. Sua intenção é oferecer proposições de intervenções arquitetônicas e urbanísticas der que a cidade é um sistema de relações espaciais em constante transformação, que as
que contribuam para integrar as dimensões de gestão participativa e conhecimento técnico dimensões ecológicas e funcionais são fundamentais e que a cidade deve ser restituída a sua
como forma de melhorar as condições efetivas de moradia da população de menor renda. Os história.
autores observam que, no caso do Rio, as alterações empreendidas pela população residente Henrique Barandier apresenta uma reflexão sobre a prática de projetos urbanos na cida-
nas edificações acabam por produzir uma espacialidade muito semelhante àquela das fave- de do Rio de Janeiro no artigo: PROJETO URBANO NO RIO DE JANEIRO E AS PROPOSTAS PARA A ÁREA
las. Estas situações terminam por gerar posições políticas e ideológicas antagônicas entre CENTRAL NOS ANOS 1990. O autor mostra como a noção de projeto urbano vai se tornando um
aqueles que defendem a interferência no projeto original das edificações como sendo uma instrumento para solucionar questões da cidade contemporânea, tais como a requalificação
afirmação legítima da sabedoria popular e aqueles que defendem o saber técnico, e portan- do espaço público, a reabilitação de conjuntos arquitetônicos e a recuperação de antigas cen-

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A C i d a d e p e l o A ve s s o Urbanismo, urbanidade e as novas configurações

tralidades. Através de uma análise detalhada dos projetos urbanos propostos para a requali- algum revisionismo. Hoje, além da consciência ecológica surge o conceito de ética ambiental,
ficação da área central do Rio de Janeiro, conclui que o instrumento em si não apresentou que propõe uma nova forma de conceber o projeto da paisagem, integrando o conceito de
grande eficácia, a não ser enquanto estratégia de marketing urbano, pois grande parte nunca urbanismo ao de natureza. Tanto Farah quanto Izaga concordam que é preciso superar a anti-
foi implantada. No entanto, cumprem o papel de incentivar o debate sobre a cidade, especial- ga dicotomia que separa a natureza da cidade e partir para novas categorias que sejam inte-
mente sobre o futuro da área central. Neste sentido, o autor questiona a formulação destes gradoras. Motta, tal como as duas autoras, faz uma revisão do processo de construção social
grandes projetos que não levam em conta a grave situação de moradia e exclusão social pre- do conceito de natureza, e também propõe novas categorias que, além de superarem a dico-
sente no Rio de Janeiro. tomia natureza e cidade, considerem a integração homem e natureza.
O último artigo deste bloco apresenta o caso da cidade de Rosário na Argentina. O artigo de Ivete Farah, intitulado NATUREZA E CULTURA: DO IDEALISMO CONSTITUÍDO AO DES-
REABILITAÇÃO PATRIMONIAL E MORADIA COLETIVA NA ÁREA CENTRAL DE ROSÁRIO, de Laura Varni, PERTAR DE NOVAS VISÕES, aborda a evolução da relação entre natureza e cultura – a qual a
encerra a discussão sobre as áreas centrais, apresentando um caso bem sucedido de reabili- autora atribui a atual crise ambiental – e como o paisagismo expressa as visões desta rela-
tação onde o foco se deu na provisão de moradias coletivas. Trata-se de um programa de ges- ção . O trabalho está dividido em quatro partes. Na primeira seção Farah analisa como esta
tão implementado pelo Servicio Público de la Vivienda, que propôs tratar a questão da mora- relação se dá no século XVII, quando a natureza era vista como um objeto a ser controlado
dia para as classes de menos renda através de propostas que articulavam a reutilização dos e dominado. Neste momento a visão dos franceses predomina nos primeiros exemplares de
imóveis históricos subutilizados com novos usos e atividades, adaptando a tipologia arquite- inserção de elementos naturais nas cidades, como na introdução dos jardins e nas avenidas
tônica a estas novas funções. Após um inventário minucioso do patrimônio ocioso existente arborizadas. Na segunda seção, a autora analisa a visão romântica de natureza que se impõe
na área central da cidade de Rosário foi articulada a reabilitação destas propriedades para a partir do distanciamento cada vez maior entre campo e cidade que ocorre a partir do final
fins de moradia, utilizando-se de instrumentos urbanísticos apropriados. O caso apresentado do século XVIII. A natureza passa a ser vista como paisagem e não mais como fonte de pro-
é interessante na medida em que se propõe a articular os vários grupos de interesses sociais dução e cultura. Os jardins ingleses do século XVIII são um exemplo desta nova visão utópi-
da área central, tentando alcançar uma nova forma de gestão através de parcerias público- ca de natureza. Apesar de se manter no imaginário urbano, a autora argumenta que o movi-
privadas. Assim como Trusani, Varni tece considerações sobre aspectos que precisam ser apro- mento romântico no paisagismo, com seu desenho aparentemente orgânico de emulação de
fundados para que os projetos de renovação de áreas centrais sejam bem sucedidos, tais uma natureza ao natural, contribuiu para a visão da cidade como antítese da natureza. Em
como a revisão dos marcos legais edilícios e urbanísticos, estratégias de negociação com pro- seguida, Farah examina como a natureza continua sendo apropriada de maneira idealizada
prietários de imóveis ociosos, a promoção da diversidade na oferta habitacional e novos e utópica nas cidades ideais do século XX e como os principais modelos, apesar de suas dife-
modos de gestão e de parcerias. renças estilísticas e ideológicas, contribuíram para a dissociação ainda maior entre natureza
Finalmente, a última parte deste livro se dedica a outro grande desafio do urbanismo con- e cidade. Por último, a autora aborda a visão contemporânea de natureza que tenta integrar
temporâneo que é como lidar com a paisagem e com o meio ambiente. Os quatro artigos que a visão antagônica entre natureza e cidade, principalmente por conta da nova conscientiza-
compõem este eixo vão se complementando na análise do que eram as visões de natureza no ção ecológica. Surge então neste momento a noção de paisagem como parte de um siste-
passado, como esta visão se transforma e é apropriada pela cultura moderna e termina por ma ecológico e com esta novas metodologias de intervenção. A autora conclui que as
instaurar um novo paradigma de natureza com rebatimentos nas noções de meio ambiente e mudanças que vêm ocorrendo nas visões sócio-culturais sobre natureza permitem avançar
de paisagismo. O aparecimento da noção de meio ambiente e dos estudos sobre a paisagem para novos paradigmas, onde a cidade seja encarada como parte da natureza e projetada a
numa perspectiva cultural vem mudando o foco dos estudos sobre o paisagismo e forçando partir desta premissa.

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A C i d a d e p e l o A ve s s o Urbanismo, urbanidade e as novas configurações

Segue o artigo de Fabiana Izaga: NOTAS SOBRE O PAISAGISMO MODERNO NO BRASIL, no qual flitos presentes na gestão de unidades de conservação. Para tal, toma como estudo de caso
a autora faz uma revisão do conceito de paisagem moderna, tal como colocado pelos moder- a criação do Parque Natural Municipal de Grumari em 2003, área de imenso valor paisagísti-
nistas, enfocando a relação, muitas vezes discrepante e ambígua, entre a teoria da paisagem co, que possui os mais importantes remanescentes de vegetação de restinga no município, e
e o projeto paisagístico. Izaga revê o pensamento de autores, que de alguma forma abordam habitada por uma população de 27 famílias de caiçaras e agricultores. Neste sentido, o autor
o tema da relação entre arquitetura moderna e paisagem. Desta forma, a autora propõe supe- afirma que a paisagem é uma construção social e humana, e sua conservação é resultante da
rar as análises que partem de dicotomias como natureza-cultura, tradição e modernidade, relação homem-natureza. A criação de uma unidade de conservação é em si uma ação polí-
figura e fundo, para uma nova categoria analítica, neste caso, arquitetura e paisagem. O texto tica e ideológica. Trata-se portanto, na sua visão, de superar a concepção tradicional de que
de Izaga inicia-se com uma breve análise das visões de paisagem moderna no século XX, des- uma unidade de conservação deve ser vista apenas por seus aspectos ambientais e paisagís-
tacando três conceitos principais: a) um advindo da tradição grega; b) um de inspiração japo- ticos, e passar a considerar as culturas dos que vivem nestas unidades e foram, em última aná-
nesa e c) um advindo da tradição do jardim paradisíaco, para se concentrar na análise da rela- lise, os responsáveis por sua conservação. Conforme argumenta, a visão da natureza enquan-
ção entre arquitetura e paisagem na obra de Le Corbusier, que se insere na tradição grega. to objeto e do homem enquanto sujeito, “parece ignorar que a palavra sujeito comporta mais
Em seguida analisa a evolução do conceito de pitoresco, noção que precisa ser resgatada, de um significado: ser sujeito quase sempre é ser ativo, ser dono do seu destino”. Neste sen-
pois conquanto carregada de ambigüidade, revela a dicotomia vivida em fins do século XVIII tido, é importante ressaltar que esta visão embute os conflitos relacionados com a questão
e durante o século XIX, quando a sociedade industrial oprimida pelas condições urbanas tenta da propriedade da natureza, que tem a ver com a questão do poder individual, coletivo e ins-
resgatar uma natureza intocada e reproduzi-la nas cidades. Na terceira seção, a autora exa- titucional sobre o espaço.
mina o conceito de paisagem a partir das noções de experiência e cena, e a partir do traba- As diferentes contribuições deste livro nos remetem às questões do urbanismo relativas à
lho de alguns autores, tais como, Cosgrove e Córner. A paisagem moderna brasileira é trata- urbanidade e às novas configurações sócio-espaciais. O reverso da cidade, antigamente, seria o
da na seção seguinte bem como seus elementos projetuais, sua relação com a cultura moder- campo. Na visão lefebvriana o campo não mais existe. Existe somente o urbano. Então, qual
nista e com o projeto paisagístico. Izaga conclui que os diversos estudos sobre o modernismo seria o avesso da cidade? Quais os pressupostos da não-cidade, do não-lugar? O lado avesso
no Brasil tratam a paisagem no âmbito do projeto modernista através de dicotomias que res- de um tecido é o lado que mostra as costuras, as imperfeições, os alinhavos. Aquilo que no fim
tringem uma passagem para novos conceitos. A paisagem precisa ser analisada segundo suas das contas mantém a roupa na sua integridade, mas que não convém mostrar por razões esté-
relações entre objeto e contexto e vice-versa. ticas. Quando o avesso vira a própria roupa temos que pensar se não escondemos por tanto
No terceiro texto deste bloco, Oscar Corbella e Virginia Vasconcellos mostram em seu arti- tempo aquilo que não queríamos mostrar por razões estéticas, porém repressoras, se não tenta-
go: A OPÇÃO BIOCLIMÁTICA NO PROJETO URBANO a importância de se considerar questões relati- mos varrer para debaixo do tapete as condições sub-humanas a que são submetidas a maioria
vas ao clima nos projetos urbanos. Chamam a atenção de que, apesar da consideração de da população, para que a minoria dominante possa usufruir de paisagem e de história.
fatores climáticos nos projetos arquitetônicos e urbanísticos remontarem à Antiguidade, ainda A urbanidade é definida tradicionalmente com a qualidade de urbano, como civilidade,
hoje são poucos os projetos que levam o bioclimatismo em consideração. cortesia e afabilidade, três expressões que hoje em dia menos traduzem a vida nas cidades.
Fechando o livro temos o artigo de Marcelo Motta: REFLEXÕES DIMENSÕES
SOBRE AS Pode o urbanismo devolver estas qualidades à cidade e reviver o conceito de urbanidade, ou
HUMANAS DA CONSERVAÇÃO, no qual o autor traz ao centro da cena o homem, mostrando como estamos fadados à incivilidade, à má-educação e à maldade?
a questão ambiental muitas vezes é colocada de forma inapropriada ao não considerar as tra- Deixo aos leitores a conclusão, esperando com um certo otimismo que uma nova utopia,
dições culturais de populações nativas e sua permanência quando da criação de unidades de um “utopismo dialético” (David Harvey. ESPAÇOS DA ESPERANÇA, 2004), possa guiar os arquitetos e
conservação ambiental. A intenção do autor é estimular uma discussão teórica sobre os con- cidadãos em busca de uma cidade melhor.

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Parte I
Urbanismo Contemporâneo
e uma Nova Urbanidade
A urbanidade na cidade
contemporânea entre fronteiras
e trincheiras

Rachel Coutinho Marques da Silva

Provisoriamente não cantaremos o amor,


Que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que estereliza os abraços,
Não cantaremos o ódio porque esse não existe,
Existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
O medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
O medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
Cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
Cantaremos o medo da morte e o medo depois da morte,
Depois morreremos de medo
E sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


Congresso Internacional do Medo, 1940

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A C i d a d e p e l o A ve s s o A urbanidade na cidade contemporânea

Introdução O conceito de fronteiras urbanas

Falar de urbanidade hoje é falar basicamente de cidadania; e falar de fronteiras é falar O conceito de fronteira é muitas vezes confundido com o conceito de limite.1 O termo
da dinâmica social e política das nossas cidades que, ao longo da sua história, sofrem muta- fronteira é mais abrangente e se refere a uma região ou faixa, e o termo limite está ligado a
ções e novas colorações, mas que serão sempre parte integrante da história das cidades e uma concepção precisa, linear e perfeitamente definida no território. No passado, o conceito
do urbanismo. de fronteira era designado para definir a demarcação de limites que separava os povos e pos-
O sentido de urbanidade é particular de alguns períodos da história, alternando visões teriormente as nações. Hoje, um novo conceito emerge: o conceito de fronteiras vivas.2 São
positivas e negativas em relação ao habitar as cidades, ou o que seria ser urbano. Viver na nas faixas de fronteira que se dão os melhores intercâmbios das nações modernas, e o con-
cidade logo após o período medieval significava a libertação do jugo feudal, e a cidade repre- ceito de fronteiras vivas superou o conceito de fronteiras obstáculos. Assim, nos casos de fron-
sentava novas fronteiras e novos horizontes. No início da modernidade a noção de urbanida- teiras entre países as fronteiras vivas se baseiam no pressuposto da integração e interação,
de evolui e está intimamente ligada à noção de homem público, noção esta que vai se diluin- seja por meio de trocas ou pelo multiculturalismo. No entanto, algumas áreas de fronteira
do durante o século XX, e os indivíduos que viviam nas áreas urbanas começam a apresentar ainda possuem conotações de barreiras e trabalha-se neste caso com a idéia de superação de
características de individualidade e atitudes blasés. E hoje, na contemporaneidade, o que obstáculos. O termo fronteira comporta outras acepções, como fronteiras-zonas, que são
muda na noção de urbanidade? É uma noção ainda válida, ou as características da indiferen- caracterizadas por extensas áreas inabitadas, como florestas e montanhas. São espaços a
ça, alienação, egoísmo e hedonismo predominarão ao contrário das qualidades de civilidade, serem conquistados, espaços de penetração e avanço da civilização. Outro conceito é o de
cortesia e afabilidade que definiam a própria urbanidade? Estaremos tão dominados pelo fronteiras faixas, quando a fronteira é protegida por muros ou muralhas, que demarcam e
medo e obcecados por segurança, que são poucas as chances de superação e de volta a valo- separam contundentemente espaços, seja por razões políticas ou defensivas.
res comunitários essenciais? Estaremos fadados ao controle invisível, à repressão do direito O conceito de fronteiras vivas é recente, e estas podem ser permeáveis, de tensão ou acu-
de ir e vir, direito este que foi a base da sociedade urbana moderna? mulação.3 Nas fronteiras vivas, dependendo do tipo de interação, cria-se um novo espaço e
Este artigo visa refletir sobre o conceito de urbanidade na cidade contemporânea, tendo uma nova cultura. Mas se a interação for assimétrica e desigual ocorrerão disputas, discórdias
em conta que a violência urbana faz parte do cotidiano de muitas cidades estimulando uma e rivalidades. Nas fronteiras vivas, onde existe uma forte concentração demográfica e uma
tendência ao isolamento e uma série de práticas sociais que vem alterando o modo de vida estrutura social complexa, existe uma integração informal que pode sobreviver às políticas de
urbano. A reflexão é naturalmente baseada na minha própria vivência e observação dos pro- fechamento e de corte.
cessos em curso na cidade do Rio de Janeiro, mas toma como referência o recente debate Hoje o conceito de fronteiras tem sido questionado, especialmente com a introdução das
sobre violência urbana expresso em vários artigos e livros. novas tecnologias de informação onde a própria Internet se constitui numa fronteira virtual de
Este trabalho está organizado em três seções. Começo por discutir o conceito de frontei- conquista e, paradoxalmente, contribui para a diluição das fronteiras tradicionais. Um aspecto
ra urbana. Em seguida apresento um breve histórico da noção de urbanidade através da his- importante no campo das relações internacionais, relativo à noção de fronteiras, é a teoria da
tória do urbanismo e na visão de alguns autores. Finalmente segue a seção sobre as possibi- interdependência.4 Para os teóricos da interdependência, a cooperação seria a melhor forma
lidades de integração das fronteiras urbanas. das nações alcançarem seus interesses, estabelecendo novas estruturas de relações.
Assim, creio ser pertinente utilizar o conceito de fronteira viva para a reflexão que se
segue sobre as fronteiras que se estabelecem no espaço urbano entre áreas informais e for-

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A C i d a d e p e l o A ve s s o A urbanidade na cidade contemporânea

mais, nas zonas de conflito social e criminal. Ao examinarmos as fronteiras que se constituem Quando as cidades ressurgem no final da Idade Média e o comércio retoma suas rotas,
no espaço urbano percebemos a interdependência entre estas áreas, e a cooperação seria a a cidade foi o foco de uma grande revolução social, econômica e política. A cidade era vista
melhor forma de superação dos conflitos. não somente como o lugar da libertação da sociedade feudal dualista, mas também como o
Com este propósito lanço uma questão, quase premissa, que me proponho a trabalhar lugar da liberdade de expressão, livre da censura religiosa. É em seu seio que surge uma nova
ao longo deste texto: Podem as atuais zonas de fronteira entre a cidade formal e informal classe social — a burguesia, que vai abalar os alicerces do modo de produção feudal e vai
adquirir as características de fronteiras vivas? Estamos nos enquartelando intramuros e refor- dar início, junto com o ressurgimento da moeda e de um novo modelo econômico mercanti-
çando as fronteiras faixas? Qual o papel do urbanismo no resgate da urbanidade? lista, à transição para um novo modo de produção, o capitalista. Surgem novas práticas cul-
turais a partir de uma revolução tecnológica: novos inventos, novas tecnologias e uma nova
percepção do cosmos.
A urbanidade ao longo da recente história urbana O iluminismo e a modernidade surgem embalados pela cidade, que é peça fundamental
nesta nova engrenagem. Desta forma, para os renascentistas isto significava a cidade liberta
Primeiramente, uma breve conceituação do termo urbanidade. Ventós atribui a três auto-
das muralhas, a cidade livre da servidão, a cidade de um novo pensamento, a cidade que
res a preocupação com o comportamento urbano: Alberti, Castiglione e Erasmus. Estes auto-
engendraria uma nova sociedade e um novo homem.
res falam de um novo caráter que deve estar relacionado com o cotidiano urbano. É um perío-
Stadtluft macht frei (O ar da cidade liberta) era um ditado alemão que Max Weber usou
do de transição entre o cavaleiro cristão e o conceito de honra e a construção da identidade
para ilustrar a importância da cidade na formação da nação alemã e na diluição das frontei-
burguesa e o conceito de urbanidade. Castiglione fala dos atributos de austeridade e espon-
ras existentes.9 Nos contos infantis, até o século XIX, a cidade ainda era vista como um lugar
taneidade que deveriam governar as relações entre cidadãos.5 Ventós distingue o termo cor- da liberdade. Em os MÚSICOS DE BREMEN, dos Irmãos Grimm (1812-1814), por exemplo, os ani-
tesia que vem de corte do termo urbanidade que vem de urbs. Segundo o autor, cortesia é mais saltimbancos idealizam a cidade como um lugar onde poderiam sobreviver sem dificul-
uma atitude convencional governada por regras e até estereotipada, mas com aparência de dades. O surgimento das cidades viabilizou a autonomia da arte em relação à Igreja, e o
espontânea. Urbanidade, nas palavras do autor, é uma espécie de anomia amigável, que per- renascimento artístico se dá exatamente nas cidades mercantis, especialmente em Florença.
mite às pessoas se relacionarem entre si sem ter que trocar experiências ou confidências. Argan, tal como Mumford, coloca a arte como uma atividade tipicamente urbana e constitu-
Neste sentido, a urbanidade permite que os indivíduos possam entrar no jogo das aparências tiva da cidade.10
e papéis urbanos que constituem a cidade.6 A urbanidade se estabelece e funciona em um Ser moderno significava estar na cidade e ser urbano. O campo era o lugar da opressão,
mundo de representações. Vejamos agora como, ao longo da história, a própria noção de da escuridão e do atraso. A cidade era o lugar da libertação, do claro e do avanço. A frontei-
fronteiras e urbanidade vai se desenvolvendo. ra a ser conquistada era o campo.
Temos que reconhecer que as cidades muradas e fechadas são tão antigas quanto os O conceito de fronteira naquela época, eram os novos territórios incivilizados a serem
assentamentos humanos. No entanto, com o desenvolvimento dos estados-nações o aparato conquistados e trazidos para o seio da civilização ocidental e para o modo de produção capi-
de segurança pública passou a exercer um controle suficiente para que as muralhas não mais talista. Por conta disto, se fizeram guerras religiosas e ideológicas, Cruzadas, Colonialismo,
fossem necessárias.7 Ao mesmo tempo, a sensação de insegurança e medo nas cidades não guerras com o Oriente, com os povos nativos. As fronteiras vivas de antigamente eram sub-
é produto da era contemporânea. Como coloca Giddens, ansiedades e inseguranças afetaram metidas à visão de mundo dos ocidentais e dos povos europeus. Era preciso subjugar o atra-
outros períodos da história. Porém, seu conteúdo e forma são bastante diferentes.8 so e práticas consideradas arcaicas e inserir estas geografias nos limites do mundo ocidental.

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A C i d a d e p e l o A ve s s o A urbanidade na cidade contemporânea

Tanto Braudel como Wallerstein11 localizam o início da globalização no Renascimento, ocorre, e o campo passa a ser visto como o lugar da natureza, onde as relações sociais são
quando surge o conceito de economias-mundo. Outros pensadores marxistas, como Rosa puras, onde se pode atingir o belo e o bem. Um mestre dos contos sobrenaturais e de terror,
Luxemburgo12, trabalham de outra forma o mesmo conceito. As fronteiras seriam inexoravel- Edgar Allan Poe, por exemplo, ambienta um de seus famosos contos, O ASSASSINATO DA RUA
mente conquistadas pelo avanço do capitalismo e todo o mundo se tornaria capitalista, num MORGUE (1841), na cidade ícone do século XIX, Paris. Eça de Queiroz relata a dualidade
processo de homogeneização cultural e social. Sabemos, hoje, que o processo não se dá campo cidade em A CIDADE E AS SERRAS, clássico da literatura portuguesa do século XIX. A
linearmente, e que no bojo da desigualdade social e econômica que mantém vivo o sistema CIDADE E AS SERRAS é basicamente uma crítica ao estilo de vida urbano. Seu personagem
capitalista, criaram-se focos de resistência e subculturas, modos de vida e, principalmente, Jacinto de Tormes, dândi residente em Paris, é um homem tipicamente urbano ligado nos
visões de mundo diferenciadas, e muitas vezes antagônicas. avanços da tecnologia. O outro personagem, Zé Fernandes, é um ferrenho crítico das grandes
Com a Revolução Industrial surgem as novas tecnologias de comunicação, os novos cidades e do progresso, e as considera maléficas à moral e aos valores humanos.
meios de transporte, e com tudo isto a cidade se expande e a população urbana cresce É nesta época que a cidade se torna o foco das críticas sociais e de outras disciplinas.
assustadoramente. A migração do campo para a cidade nos países do hemisfério sul não é Freud inaugura a psicanálise em seu consultório em Viena, e examina os males urbanos. Em
acompanhada necessariamente por uma industrialização urbana, e assistimos a uma expan- O MAL-ESTAR NA CIVILIZAÇÃO (1929), Freud passa a pensar a relação indivíduo e sociedade. A
são urbana desordenada, sem que o aparato estatal e a economia urbana possam dar conta idéia central é que a vida social pressupõe repressão e o desenvolvimento do indivíduo e da
deste lumpen. O exército reserva de mão de obra, conceito fundamental para se entender o civilização só seriam possíveis através da repressão das pulsões humanas. A vida em comuni-
pensamento marxista, fica eternamente na reserva, e se transforma na massa de trabalho dade só é possível se os instintos do homem forem reprimidos. Em 1903, o sociólogo Georg
informal. Na minha opinião, isto é fundamental para entendermos o porquê do capitalismo Simmel15 escreve um texto importante intitulado A METRÓPOLE E A VIDA MENTAL, onde exami-
não ter tido o mesmo desenvolvimento nos países do sul como o que teve na Europa e nos na os efeitos da vida urbana na vida psíquica de seus habitantes.16 Simmel era um crítico da
Estados Unidos. Este ponto é tão simples, mas tão crucial para entendermos muitos dos pro- vida urbana moderna, a qual considerava incompatível com uma boa cultura urbana. A espe-
blemas que assistimos hoje nas nossas cidades latino-americanas: ou seja, nos Estados cialização funcional do século XIX fez com que cada indivíduo fosse incomparável em relação
Unidos houve escassez de mão de obra, por razões históricas, e a guerra civil americana ao outro individuo, e esta especialização, por sua vez, levou a constituição de um tipo de indi-
redundou em vitória do Norte sobre o Sul. A imigração de europeus para os Estados Unidos viduo metropolitano que minava a cultura comunitária. Simmel considerava que a vida no
foi fundamental para que a revolução industrial florescesse e, dentro do modelo norte ame- campo promovia um estilo de vida benéfico ao desenvolvimento de uma cultura comunitária.
ricano, a fronteira foi fundamental para a expansão capitalista: fronteira de terras, fronteiras Interessante notar, que o sentimento antiurbano floresce nos Estados Unidos e vai engen-
de ouro, fronteiras vivas.13 drar uma série de políticas públicas destinadas a estimular as pequenas cidades e os subúr-
No entanto, é exatamente com a Revolução Industrial que a cidade começa a se degra- bios. Assim, do outro lado do Atlântico, uma outra escola de sociologia vai florescer e estimu-
dar devido às condições de vida da classe trabalhadora, à presença das indústrias. Neste lar os debates sobre urbanismo e urbanidade. A escola de Chicago incluía jornalistas, soció-
momento, o livro de Engels sobre a condição das classes trabalhadoras, cujo foco é a cidade logos e reformistas sociais, e praticamente reinventa a sociologia moderna. Seu laboratório de
de Manchester na Inglaterra, apresenta uma cidade da opressão, onde a fruição urbana era análises era a própria cidade de Chicago, plena de problemas urbanos e processos sociais
privilégio da elite industrial e da aristocracia.14 conflituosos. Chicago, ao final do século XIX e durante toda a primeira metade do século XX,
Na literatura do século XIX é comum encontrarmos relatos onde a cidade é representa- apresentava um recorte sócio-espacial de guetos e conflitos sócio-raciais. As fronteiras entre
da como o lugar do pecado, da devassidão, do mal. Neste momento uma inversão de valores bairros negros e brancos eram marcadas por conflitos e tensões.

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A C i d a d e p e l o A ve s s o A urbanidade na cidade contemporânea

Em 1938, Louis Wirth escreve um ensaio polêmico no qual descreve as características da nidade se resolve através de uma série de relações efêmeras e segmentadas, que são
vida urbana. Em URBANISM AS A WAY OF LIFE, (O modo de vida urbano), o autor argumenta que superpostas sobre a base territorial com um centro definido, porém com uma periferia
indefinida, e uma divisão do trabalho que transcende a localidade imediata, e tem um
três características chaves das cidades (tamanho de sua população, heterogeneidade social e
escopo global. (…) Assim, quanto maior for a população em estado de interação, tanto
densidade populacional) determinaram o desenvolvimento de um estilo de vida peculiar que, menor será o grau de comunicação entre elas. (…) A direção das mudanças em anda-
por sua vez, determinou uma personalidade tipicamente urbana. Assim, Wirth afirma que os mento no urbanismo transformarão para melhor ou para pior não somente a cidade,
habitantes das cidades (os urbanos) são em geral mais tolerantes socialmente do que os habi- mas o mundo.18

tantes do campo, mas ao mesmo tempo são mais impessoais e menos amigáveis. Os urbanos Um sociólogo contemporâneo, Zygmunt Bauman, segue em linhas semelhantes à de
possuem um ar blasé, um distanciamento dos problemas alheios. Ele diz que os urbanos apre- Wirth, trazendo o debate para a cidade contemporânea e mostrando o paradoxo da busca por
sentam um certo caráter esquizóide. segurança no mundo atual e a noção de comunidade. Num capítulo do livro COMUNIDADE,
A superficialidade, o anonimato, e o caráter transitório das relações sociais urbanas escla- Bauman examina o gueto urbano e analisa o significado do lugar. Tudo pode ser feito nos
rece também a sofisticação e a racionalidade dos moradores urbanos. 17 lugares longínquos dos outros sem sair do próprio lugar. Porém, diz ele, “pouco se pode fazer
Assim, os encontros acontecem baseados no princípio da utilidade, ou seja, cada intera- para prevenir em relação ao nosso próprio lugar, por mais vigilantes e cuidadosos que seja-
ção social é vista como um meio de atingir um fim específico. Dessa forma, ao mesmo tempo mos em guardá-lo”.19 Analisando o fracasso do Estado e da sociedade em proteger o indi-
em que se ganha um grau de emancipação e liberdade em relação ao controle exercido nos víduo, comenta o autor:
grupos comunitários, perde-se a expressão espontânea, os valores morais e o senso de per- Entre as totalidades imaginárias a que as pessoas acreditavam pertencer (…) um vazio
tencimento que pautavam a vida em comunidade. Isto é o que Durkheim chamará de estado boceja no lugar outrora ocupado pela ´sociedade´. Este termo já representou o Estado,
armado com meios de coerção e também com meios poderosos para corrigir pelo
de anomia, ou vazio social característico de várias formas de desorganização social na socie- menos as injustiças sociais mais ultrajantes. Esse Estado está sumindo da nossa vista.
dade tecnológica. As palavras de Wirth foram proféticas. Vale a pena a longa citação: Esperar que o Estado (…) fará algo palpável para mitigar a insegurança da existência
não é muito mais realista que esperar o fim da seca por meio de uma dança da chuva.
É basicamente através das atividades dos grupos voluntários, sejam seus interesses
(…) A segurança como todos os outros aspectos da vida humana num mundo inexo-
econômicos, políticos, educacionais, religiosos, recreacionais, ou culturais que os URBA-
ravelmente individualizado e privatizado, é uma tarefa que toca a todo indivíduo. A
NOS expressam e desenvolvem sua personalidade, adquirem status, e são capazes de ´defesa do lugar´, vista como condição necessária a toda segurança, deve ser uma
levar as atividades que constituem sua vida profissional. Pode-se facilmente inferir con- questão do bairro, um ´assunto comunitário´. Onde o Estado fracassou, poderá a comu-
tudo, que este quadro organizacional que mantém estas funções altamente diferencia- nidade – a comunidade local, uma comunidade corporificada num território habitado
das não assegura a consistência e a integridade das personalidades, cujos interesses por seus membros e ninguém mais (ninguém que não faça parte) – fornecer aquele
ele assinala. Desorganização pessoal, colapso mental, suicídio, delinqüência, crime, “estar seguro” que o mundo mais extenso claramente conspira pra destruir?20
corrupção e desordem deverão prevalecer nos espaços urbanos, mais do que nas
comunidades rurais. (…) O controle social na cidade será feito pelos grupos sociais Bauman argumenta que os ricos podem comprar a segurança do seu lugar. Aqueles que
organizados. Deduz-se que as massas de pessoas na cidade estarão sujeitas à manipu- acreditam que não existe nada a fazer se cercam de alarmes e cercas. O que eles procuram é
lação através de símbolos e estereótipos administrados por indivíduos escondidos atrás
equivalente ao abrigo nuclear pessoal. A este abrigo chamam de comunidade. A comunidade
dos bastidores. O auto-governo nestas circunstâncias é reduzido a uma mera figura de
linguagem, ou na melhor das hipóteses, sujeita ao equilíbrio instável dos grupos de que procuram é um ambiente seguro sem ladrões e à prova de intrusos. Comunidade hoje em
pressão. Em face do desaparecimento da unidade territorial como base da solidarieda- dia quer dizer construir barreiras, limites, controlar os intrusos. Quer dizer isolamento, separa-
de social, criam-se unidades de interesse. Neste meio tempo, a cidade enquanto comu- ção, muros protetores e portões vigiados.

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Estas são as fronteiras da cidade contemporânea. Filmes recentes como L.A. CRASH Fronteiras urbanas, exclusão ou integração
(2004), mostram bem o distanciamento dos indivíduos numa cidade povoada pelo ressenti-
mento e pelo medo. No início do filme o personagem Graham diz: Muitos autores24 vêm tratando a cidade contemporânea como o local do conflito e da
insegurança e mostrando como certas atividades se beneficiam desta imagem. Esta imagem
É a sensação do contato. Numa cidade real você anda, não é? Você esbarra nas
pessoas, as pessoas tropeçam em você. Em L.A., ninguém toca em você. Estamos de insegurança e medo vai sendo construída e reproduzida pela mídia e apropriada pelo ima-
sempre por trás de metal e vidro. Acho que sentimos tanta falta deste contato que ginário coletivo. Não que a violência urbana e a insegurança nas cidades não seja real. A
provocamos acidentes só para poder sentir alguma coisa.21 mídia e as atividades que vendem segurança interagem com a realidade para criar um qua-

Tanto Mike Davis em A CIDADE DE QUARTZO, quanto Sharon Zukin, que descreve os atuais dro ainda mais perverso que vai minando a urbanidade e a convivência pública.25

projetos urbanos para os espaços públicos em Los Angeles, apontam para os cuidados com Esta imagem de cidade cárcere com aparatos de segurança espalhados nas edificações,
com câmeras a controlar nossa vida e liberdade, com suas fronteiras invisíveis a nos impedir
segurança e a força policial destacada para proteger estes lugares.22 Os bairros vão se tor-
de exercer o direito de ir e vir mina os espaços de sociabilidade e a própria vida urbana.
nando condomínios fechados com todo o aparato tecnológico de segurança, uma equipara-
A segregação, a fragmentação espacial urbana e a exclusão sócio-espacial são temas que
ção das áreas públicas a enclaves defensáveis com acesso seletivo; a separação em lugar da
vem sendo exaustivamente tratados nas três últimas décadas pelos estudiosos de cidades.26
negociação da vida em comum e a criminalização da vida residual. Estas são na visão de
Para fins deste artigo basta dizer que a segregação sócio-espacial delimita áreas na cidade
Bauman as principais dimensões da atual evolução da vida urbana. E é neste contexto que se
que se constituem em fronteiras invisíveis. As áreas de transição entre a favela e a cidade for-
forma a nova concepção de comunidade. Nas palavras do autor:
mal, por exemplo, podem ser consideradas fronteiras urbanas vivas. São nestas áreas que se
Segundo essa noção, comunidade significa mesmice, e a mesmice significa a estabelecem as trocas e a fraca integração entre estas áreas.
ausência do OUTRO, especialmente um outro que teima em ser diferente, e preci-
A violência urbana contribui, sem dúvida, para a intensificação da exclusão sócio-espa-
samente por isso capaz de causar surpresas desagradáveis e prejuízos. (…) Dada
a intensidade do medo, se não existissem estranhos, eles teriam que ser inventa- cial e da perda de dinamismo do espaço público e da vida urbana. Alguns autores identificam
dos. (…) Um gueto combina o confinamento espacial com o fechamento social; o quadro de insegurança pública no Brasil no fracasso das políticas públicas que lidam com
(…) Tanto o confinamento quanto o fechamento teriam pouca substância se não o informal e o formal.27 O Estado ao conviver com a informalidade estabelece políticas de
fossem complementados por um terceiro elemento: a homogeneidade dos de den-
recuperação urbana que incentivam a vigilância e a repressão dos direitos fundamentais.
tro, em contraste com a heterogeneidade dos de fora.23
Desta forma, projetos urbanos que não levem em consideração políticas efetivas de seguran-
Aos guetos voluntários correspondem os guetos forçados, territórios onde os excluídos e ça pública estariam fadados ao fracasso.
segregados do espaço formal da cidade vivem. Nestes territórios incrustados no tecido formal Com o aumento da criminalidade nas grandes cidades observamos uma nova tendência
da cidade, as barreiras não são tão visíveis, porém os códigos são entendidos por todos na na configuração dos espaços urbanos: os condomínios fechados. Estes são frações de bairros
cidade. Estas são as ameaças mantidas sob a égide da discriminação e do medo. onde o acesso é controlado por seguranças e bloqueios físicos, e podem ser residenciais ou
complexos comerciais. A literatura que trata do tema dos condomínios fechados e da exclu-
são sócio-espacial reconhece que o tema é complexo, visto que estes são percebidos não
somente como refúgios seguros, mas também conferem status aos seus moradores.28
Landman e Schonteich comparam o desenvolvimento dos condomínios fechados na África do

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Sul e no Brasil (São Paulo) e identificam a expansão desta modalidade de espaço urbano No caso do Rio de Janeiro, a expressão cidade partida33 vem designando a cidade divi-
como uma reação à criminalidade.29 No caso do Brasil, os autores identificam que a maior dida entre áreas informais e formais, e alimentando o imaginário coletivo do Rio como uma
parte dos condomínios fechados encontra-se nas grandes cidades onde a taxa de criminali- cidade violenta. Este crescente sentimento e percepção da cidade como violenta contribui
dade é mais alta. Além do fenômeno dos condomínios fechados existe também o progressi- para a fragmentação espacial e exclusão social, e para o sentimento difuso de medo e inse-
vo fechamento dos prédios residenciais com grades e aparatos de segurança. Como resulta-
gurança. Márcia P. Leite argumenta que “a representação do Rio como uma ´cidade partida´
do destes fenômenos, observa-se um aumento no nível de polarização, fragmentação espa-
terminou, contudo, por reforçar os nexos simbólicos que territorializavam a pobreza e a mar-
cial e diminuição da solidariedade. Os condomínios fechados também contribuem para a pri-
ginalidade nas favelas cariocas.”34 Os inúmeros episódios de confrontos violentos, chacinas,
vatização do espaço público e para a reserva de certas amenidades para uso exclusivo de gru-
arrastões que vem acontecendo na cidade, e intensificados nos anos 1990, contribuem para
pos sociais homogêneos. Com isto, os moradores destas áreas exclusivas deixam de usar o
o isolamento e enclausuramento dos cidadãos nos seus condomínios ou guetos. Cria-se tam-
espaço público, que é abandonado e entregue a moradores de rua e mendigos. Os autores
bém uma falsa oposição entre morro e asfalto, entre favelados e classe média, entre bandi-
concluem que a falta de políticas adequadas de segurança pública vêm fomentando o cresci-
dos e policiais, que contribui para a percepção no plano simbólico de caos urbano.35 A per-
mento desordenado dos condomínios fechados, que por sua vez, exacerbam padrões existen-
versidade está não somente nos violentos atos criminosos, mas também no círculo vicioso que
tes de segregação espacial e exclusão social. Este fenômeno dificulta a consolidação da
se cria, onde a mídia e a indústria da segurança privada se beneficiam e contribuem para a
democracia no país que ainda se recupera do período ditatorial militar.30
perpetuação deste estado de coisas, desviando o foco real do problema.
Outros autores, ao contrário de Landman e Schonteich, consideram que o fenômeno
O que a autora aponta, e com a qual concordo inteiramente, é que esta representação de
não se restringe apenas aos condomínios das classes de alta renda, e que o termo condo-
medo e insegurança contribui para a intolerância e o individualismo, minando as bases da
mínios fechados tem sido injustamente atacado. No caso dos Estados Unidos, observa-se
que este tipo de moradia está se tornando popular entre as classes de renda baixa, princi- urbanidade, em especial, da urbanidade carioca. Esta sempre foi pautada pela solidariedade,

palmente entre inquilinos.31 No caso brasileiro, podemos observar que apesar de não cordialidade e alegria. No imaginário coletivo o Rio de Janeiro era sinônimo de um espírito

podermos usar a terminologia de condomínios fechados para as áreas informais, especial- democrático e integrador de diferentes raças e classes sociais nos seus espaços urbanos, como
mente as favelas, estas constituem-se em guetos cujo acesso é restrito e controlado pelas na praia e nas manifestações culturais e esportivas como o samba e o futebol, e mesmo nos
barreiras invisíveis (hoje cada vez mais visíveis, nos fuzis e metralhadoras dos “olheiros” nas chamados pés-sujos, botecos onde diferentes segmentos se reuniam para uma cervejinha.
lajes das habitações). Neste sentido, a sensação de insegurança e medo aumenta as fronteiras entre as zonas ricas
Graham e Marvin identificam na distribuição desigual das infra-estruturas a raiz da frag- e pobres, entre as áreas formais e informais. E de forma cruel contribui para a diminuição dos
mentação sócio-espacial na cidade contemporânea e cunham a expressão urbanismo esgar- direitos civis dos habitantes das favelas e assentamentos irregulares, visto que nestes territó-
çado. Alguns processos contribuem para o esgarçamento do tecido urbano: os complexos rios dominados pelo tráfico de drogas, cidadania e segurança pública são incompatíveis na
empresariais dotados da mais moderna tecnologia de informação, a distribuição desigual de ótica conservadora. As operações de repressão ao tráfico de drogas são quase sempre cerca-
água, os enclaves turísticos, os aparatos de segurança nos aeroportos das cidades, os corre- das de prisões e mortes indiscriminadas, onde a polícia entra em confronto armado com os
dores exclusivos de informações na Internet, a privatização dos espaços residenciais e comer- bandidos e quem “leva a pior” são os moradores destas áreas. Estas operações vem sendo con-
ciais, as passarelas entre edifícios em substituição à rua tradicional, as vias expressas de trans- duzidas sistematicamente desde o início da década de 1990 e ao invés de produzirem a dimi-
porte, o uso cada vez maior do helicóptero pelas elites, e a oferta de infra-estruturas a baixo nuição das taxas de criminalidade, contribuíram para o seu aumento. Contribuíram também
custo para os consumidores de alta renda.32 para o aparecimento e fortalecimento de aparatos de segurança privada e ilegal nas áreas

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faveladas, as milícias, que em nome de proteção controlam serviços básicos, como distribuição expandir suas capacidades criativas, seus horizontes pessoais em busca da felicidade. No iní-
de gás e acesso à televisão a cabo, criando um outro poder paralelo. Estas milícias são forma- cio da modernidade, o indivíduo urbano era um homem público, cujo declínio, no início do
das por policiais reformados e expressam a tênue linha que separa o poder legal do ilegal. século XX, representa uma mudança no conceito de urbanidade. Não que a cidade não tenha
O fenômeno da violência policial não é novo na cidade do Rio de Janeiro. Holloway mos- sido palco de conflitos e tensões ao longo do período moderno, mas a noção de urbanidade
tra como a polícia não foi criada para servir ao cidadão, mas à elite e às classes aristocráti- era justamente o amálgama da sociedade civil e do controle social.
cas, desde o século XIX.36 O autor argumenta que a sociedade civil sempre apoiou as bru- Finalmente procuro analisar se podemos na contemporaneidade, com o quadro de segre-
tais ações de repressão policial. gação e exclusão sócio-espacial, encontrar na dimensão do urbanismo possibilidades de
A violência policial e seus métodos repressivos, ao invés de contribuir para a diminuição da superação do isolamento e individualismo e um resgate da urbanidade perdida.
violência urbana, desencadeiam processos de resistência e de exclusão social. Outros autores A cidade é o lugar das diferenças sociais e culturais e as áreas de transição entre as áreas
chamam a atenção para a importância de políticas urbanas inclusivas, (moradia digna, infra- pobres e ricas devem ser apropriadas pelas vários grupos sociais de forma aberta, múltipla e

estrutura básica, política de transportes urbanos) para a diminuição da violência urbana.37 flexível. As faixas de fronteira — territórios perigosos — precisam ser repensadas dentro das
políticas urbanas para que sejam transformadas em fronteiras vivas, zonas de interação social,
Assim, a transformação das fronteiras faixas em fronteiras vivas depende de uma políti-
de convivência e aprendizado mútuo. Não falo aqui de uma utopia, pois a realidade nos mos-
ca urbana que reconheça as possibilidades destes espaços de interação social e cultural. Além
tra que estas faixas representam um perigo real na medida em que as áreas informais estão
disso, é preciso também uma reversão do discurso preconceituoso e a recuperação das noções
dominadas pelos traficantes de drogas ou por milícias, ambos fortemente armados. Assim, é
de cidadania e urbanidade, através de ações de solidariedade. Esta tendência em curso na
preciso uma política de segurança pública e de desarmamento que transforme estes territó-
cidade do Rio de Janeiro se apóia em iniciativas da sociedade civil com ênfase na participa-
rios em ambientes seguros. E políticas públicas que garantam a distribuição equilibrada de
ção social, ações culturais e projetos de resgate da cidadania. Deve passar também por um
recursos para as áreas periféricas e excluídas.
resgate do espaço público.
Mas alimentar o discurso da insegurança e do medo só contribui para esvaziar os espa-
ços públicos e para a proliferação de grades, muros e comunidades fechadas, isolando os gru-
pos sociais homogêneos e impedindo as possibilidades de trocas sociais, base da sociedade
Considerações Finais urbana moderna.
A urbanidade não significa integração total, pois os preconceitos e as diferenças sociais
Este artigo procura mostrar as limitações e as possibilidades de uma nova urbanidade na
sempre existiram e existirão. Mas significa aceitação do outro, e como defini acima, uma ano-
cidade contemporânea, trabalhando o conceito de fronteiras a partir da constatação de que
mia amigável, que permite que cidadãos diferentes convivam sem ter que trocar experiências
os espaços urbanos estão cada vez mais fragmentados e isolados, e a cidade entrincheirada
ou confidências. Este é um mundo das aparências onde os diferentes assumem papéis públi-
pelo medo e a insegurança. Neste sentido, procurei primeiramente trabalhar o conceito de
cos e convivem com cordialidade.
fronteiras vivas, que são espaços que fomentam a interação social e o surgimento de uma
No entanto, a urbanidade depende do resgate de certos valores básicos da civilização, a
nova cultura a partir das subculturas divididas pelas barreiras e trincheiras.
tolerância e o direito pleno à cidade por todos seus habitantes.
Em seguida, analisei o conceito de urbanidade e seu desenvolvimento ao longo da his-
tória urbana, mostrando que a partir do Renascimento a cidade representava uma nova fron-
teira a ser conquistada, e os urbanos eram atraídos para este novo espaço para conquistar e Agradeço a Alexandre Brandão pelas críticas e sugestões neste artigo.

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A C i d a d e p e l o A ve s s o A urbanidade na cidade contemporânea

Notas University, 1988, pp. 14-21; um livro que muito influenciou o pensamento da sociologia norte-america-
na no começo deste século, foi o livro de Frederick Turner, The Frontier in American History . Professor
1 Wilson R. M. Krukowski. “Fronteiras e Limites”, in http://www.info.lncc.br/wrmkkk/artigo.html, de História de Harvard, ele escreve este ensaio em 1920, e examina o papel da conquista dos territó-
acesso em 19 de setembro de 2006. rios além das montanhas Apalachians, na formação de uma nova cultura e nova economia norte-ame-
2 O conceito de fronteiras vivas vem sendo tratado por diversos autores. Normalmente o foco é ricana.
nas áreas de fronteiras entre países. No entanto, o conceito pode ser transposto para as áreas urba- 14 Friedrich Engels. The Condition of the Working Class in England (transl. W. O. Henderson e W.
nas, e é neste sentido que faço esta revisão. Dentre os autores pesquisados cito, Karla Maria Muller, H. Chaloner), Stanford: Stanford University Press, 1968.
“Práticas Comunicacionais em Espaços de Fronteira: os casos Brasil-Argentina e Brasil-Uruguai”, in 15 Georg Simmel, The Metropolis and Mental Life, adapted by D. Weinstein from Kurt Wolff (trans.)
http:/qredebonja.cbj.g12.br/ielusc/necom/rastros/rastros03/rastros0307.html, acesso em 19 de setem- The Sociology of Georg Simmel. New York: Free Press, 1950, pp. 409-424.
bro de 2006; Marcos Faerman. “O ocaso das fronteiras” in 16 Tanto Simmel como Max Weber foram autores importantes da escola sociológica alemã.
http://www.sescsp.org.br/sesc/revistas_sesc/pb/artigo.cfm?Edicao_Id=28&bread-
17 Louis Wirth. “Urbanism as a way of life”, in American Journal of Sociology vol. 44 n.1 (July
crumb=1&Artigo_ID=72&IDCategoria=346&reftype=1, acesso em 19 de setembro de 2006; Beatriz
de Majo C. “Fronteiras Vivas”, in Revista Eletrônica Venezuela Analítica, n. 17, Julio 1997, 1938), p. 12.
18 Ibid., pp. 23-24
http://www.analitica.com/archivo/vam1997.07/semana/semnac03.htm, acesso em 15 de setembro de 2006.
3 Iturriza, cf Karla Maria Muller, op.cit. 19 Zygmunt Bauman. Comunidade: a busca por segurança no mundo atual (trad. Plínio Dentzien).
4 T. Vigevani e, J. P Veiga. “Mercosul e os interesses políticos e sociais”. In São Paulo em Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p. 100.
20 Ibid., p. 102.
Perspectiva. São Paulo, Fundação Seade, v.5, n.3, jul.-set. 1991, p. 15
5 Xavier Rubert de Ventós. “Urbanisation against urbanity?” In “Urbanitats” n. 7, Barcelona: 21 L.A. Crash, 2004, diretor Paul Haggis, produtor Don Cheadle; “It’s the sense of touch. In any
Centre of Contemporary Culture of Barcelona, 1998. real city, you walk, you know? You brush past people, people bump into you. In L.A., nobody touches
6 Ibid., p. 2. you. We’re always behind this metal and glass. I think we miss that touch so much, that we crash into
7 Norbert Elias. The Civilizing Process: Sociogenetic and Psychogenetic Investigation. Oxford: each other, just so we can feel something.” (minha tradução)
22 cf. Bauman, op. cit., p. 103. Ambos apontam para a institucionalização dos temores urbanos e
Blackwell, 2000.
8 Anthony Giddens. Modernidade e Identidade (trad. Plinio Dentzel). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, se referem à política do medo cotidiano.
23 Ibid., p.105.
2002
9 Ver também Norbert Elias. La Societé du Cour. Paris:Flammarion, 1985. 24 Mike Davis. Cidade de Quartzo: escavando o futuro em Los Angeles. São Paulo: Página Aberta,

10 Lewis Mumford. A Cidade na História. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1965, pp. 318; Giulio C. 1993; Zygmunt Bauman. Comunidade: a busca por segurança no mundo atual. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar, 2003.
Argan. A História da Arte como História da Cidade, São Paulo: Martins Fontes, 1992, p. 43.
25 Michel Misse diz que a violência é um sujeito difuso, exatamente pelo que chama de interação
11 Fernand Braudel. Civilization and Capitalism, 15th-18th century, 3 vols. New York: Harper &
perversa entre a mídia e as situações de violência; ver Michel Misse. “A violência como sujeito difuso”
Row, 1979; Immanuel Wallerstein. The Modern-World System I: capitalist agriculture and the origins of
in Jandira Feghali; Candido Mendes; Julita Lemgruber (orgs.). Reflexões sobre a Violência Urbana:
the European World-Economy in the Sixteenth Century. New York: Academic Press, 1974.
(in)Segurança e (des)Esperanças. Rio de Janeiro, Mauad X, 2006, pp.19-32.
12 A tese da fase imperialista do capitalismo e a importância da organização da Internacional
26 Ver entre outros autores: Teresa Caldeira. “Fortified Enclaves: The New Urban Segregation”,
Socialista para a libertação dos trabalhadores permeia toda a obra de Rosa Luxemburgo. Ver especial-
Public Culture 8: 1996, pp. 303–28; M. Coy and M. Pohler. “Gated Communities in Latin American
mente, Rosa Luxemburg. Rebuilding the International. In Die Internationale no. 1, 1915; The
Megacities: Case Studies in Brazil and Argentina”, Planning and Design 29, 2002, pp. 355–70; Mike
Accumulation of Capital.(orig. 1913) Luxemburg Internet Archive, Marxists Internet Archive (marxists.org)
Davis. City of Quartz: Excavating the Future of Los Angeles. New York: Verso, 1995; S. Graham. “The
2003, http://www.marxists.org/archive/luxemburg/index.htm, acesso em 14 de agosto de 2006.
Spectre of the Splintering Metropolis”, Cities, vol.18, n. 6, 2001, pp. 365–8; David Harvey. The
13 Para uma revisão do conceito de fronteiras e seu papel no desenvolvimento econômico e regio-
Condition of Postmodernity: An Enquiry into the Origins of Cultural Change. Oxford: Blackwell, 1989;
nal ver Carvalho, Rachel Coutinho Marques da Silva. “New Towns and Regional Development in the Peter Marcuse. “The Enclave, the Citadel, and the Ghetto: What Has Changed in the Post-Fordist US
Northwestern Frontier of the State of São Paulo, 1890-1950”. Ph.D. dissertation, Ithaca, N.Y.: Cornell

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A C i d a d e p e l o A ve s s o

City?” Urban Affairs Review, vol. 33, n.3 1997, pp. 228–64; Edward Soja. Postmetropolis: Critical
Studies of Cities and Regions. Malden, Massachusetts: Blackwell, 2000; Michael Sorkin (ed.). Variations Urbanismo em estado fluido
on a Theme Park: The New American City and the End of Public Space. New York: Hill and Wang, 1992;
Sharon Zukin. “The Postmodern Debate over Urban Form”, in Theory, Culture, and Society, vol 5, 1988,
pp. 431–46; Gregory R. Weiher. The Fractured Metropolis: political fragmentation and metropolitan
Rosane Azevedo de Araujo
segregation New York: SUNY Press, 1991; Sako Musterd, W. J. M. Ostendorf. Urban Segregation and the
Welfare State: Inequality and Exclusion in Western Cities, London: Routledge, 1998
27 Marinella M. Araújo e Gustavo A. P. de Castro. “Efetividade das Políticas de Desenvolvimento
Urbano: a necessidade de políticas complementares de segurança pública” in Anais do XV Encontro
Preparatório do CONPEDI, Recife, PE: CONPEDI, 2006.
28 Teresa P. R. Caldeira. City of Walls: Crime, Segregation, and Citizenship in Sao Paulo. Berkeley:
University of California Press, 2000.
29 Karina Landman & Martin Schonteich. “Urban Fortresses: gated communities as a reaction to
crime” in African Security Review vol. 11 n. 4, 2002, pp. 71-85.
30 Ibid., p. 83.
31 Thomas W. Sanchez, Robert E. Lang e Dawn M. Dhavale. “Security versus Status? A first look at
the Census’s Gated Community Data” in Journal of Planning Education and Research vol 24, 2005, Antes mesmo de falar da arquitetura, pensemos em construir uma
pp.281-91. visão do mundo, do tempo, da imediatez, da ubiqüidade, da instan-
32 Stephen Marvin and Simon Marvin. Splintering Urbanism: networked infrastructures, techono- taneidade.... Há que dar dinamismo à arquitetura, fluidos e não
logical mobilities and the urban condition. London: Routledge, 2001, pp. 1-6. sólidos. Há que entender que o sólido, como estado, se acabou
33 Expressão usada por Zuenir Ventura em seu livro A Cidade Partida; Zuenir Ventura. A Cidade
como a massa, agora estamos na era da dinâmica dos fluidos (...)
Partida. São Paulo: Cia das Letras, 1994.
34 Márcia P. Leite. “Entre o individualismo e a solidariedade: dilemas da política e da cidadania no PAUL VIRILIO
Conversación com Paul Virilio, 2001
Rio de Janeiro” in Revista Brasileira de Ciências Sociais vol 15 n. 44, outubro 2000, pp. 73-90.
35 Ibid., pp. 75-77.
36 Thomas Holloway. Policing Rio de Janeiro: repression and resistance in a 19th-century city.
(...) uma tentativa de oferecer ‘fluidez’ como a principal metáfora
Stanford, Ca: Stanford University Press, 1993.
para o estágio presente da era moderna.
37 Ermínia Maricato. Metrópole na Periferia do Capitalismo: Ilegalidade, Desigualdade e Violência.
São Paulo: Hucitec, 1996, p. 40; Raquel Rolnik, “Exclusão Territorial e Violência: o caso de São Paulo” ZYGMUNT BAUMAN
in Câmara do Deputados, Comissão de Desenvolvimento Urbano e Interior. IV Conferência das Cidades: Modernidade Líquida
A Cidade Cidadã: as diversas formas de superação da violência. Brasília: Câmara dos Deputados, Centro
de Documentação e Informação, 2002.

Eu prefiro ser esta metamorfose ambulante.

RAUL SEIXAS
Metamorfose Ambulante, 1988

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A C i d a d e p e l o A ve s s o Urbanismo em estado fluido

A Dinâmica dos Fluidos de de planejamento local para lidar com a fluidez espacial sem precedentes que temos hoje
para levar a cabo atividades diárias em qualquer lugar e a qualquer hora”.4 Esta fluidez, em
Fluido é a característica das substâncias líquidas e gasosas que toma a forma do recipien- contraponto ao princípio vitruviano de permanência, indica a necessidade de haver enorme
te em que está colocado. O termo está associado a toda idéia de inconstância, leveza, mobi- maleabilidade dos planejadores do espaço, para considerar a inclusão de novas articulações
lidade, não fixação. É fato que mudança e transformação são características fundamentais da que possam estabelecer como dado, a mobilidade universal que está se instalando. Com as
época contemporânea, logo uma ‘arquitetura materialmente líquida’ está preocupada em dar facilidades geradas pela técnica, os deslocamentos se multiplicam e se prolongam, represen-
configuração não à estabilidade, e sim à fluidez movente da realidade. Sua atenção volta-se tando uma forma relativa de autonomia dos cidadãos em relação a suas ações no espaço
prioritariamente para as urbano. Isto permite que organizem sua existência segundo temporalidades e espacialidades
mais pessoais. De modo comparativo, podemos dizer que, assim como na revolução agrícola
formas fluidas, cambiantes, capazes de in-corporar, de fazer fisicamente corpo, não
com o estável, mas com o mutável, não buscando uma definição fixa e permanen- do neolítico foram estabelecidas novas relações entre pessoas e lugares de produção e na
te do espaço, mas dando forma física ao tempo, a uma experiência de durabilida- revolução industrial, entre pessoas e máquinas, no mundo digital global estabeleceremos
de na mudança que é completamente distinta do desafio do tempo que caracteri-
“relações entre pessoas e informação”. Isto, certamente, “possibilitará novas construções
zou o modo clássico de operação.1
sociais e modelos urbanos”.5
Uma arquitetura líquida representa um sistema que não se reduz a uma configuração, mas Para um entendimento amplo desta questão, que leve em conta as diferentes contribui-
em que “espaço e tempo estão simultaneamente presentes como categorias abertas, múltiplas, ções das novas conceituações de cidade e sua arqui-tectonia, consideramos indispensável um
não redutíveis, organizadoras desta abertura e multiplicidade”.2 Assim, o urbano se constitui deslocamento radical para conceitos de base mais próximos de uma topologia do que de uma
hoje mediante a multiplicidade da experiência dos espaços e dos tempos, fundando-se na con- geometria euclidiana. O espaço topológico suspende a rígida lógica dualista e idealista do
tinuidade e na comunicação entre as coisas. Espaços fixos dilatam-se pela co-habitação de espaço euclidiano, pois estuda concretamente os aspectos qualitativos das formas espaciais
múltiplas funcionalidades; tempos cronometráveis transformam-se em fluxos de informação, ou de suas leis de conexão, atento à posição mútua das formas, à ordem de suas partes, sua
com seus ritmos diferenciados e compartilhados. Daí a exigência de categorias de análise inclu- correlação e composição. Essa nova mentalidade, em matemática e alhures, abriu, no século
sivas, que contemplem a mutação, a continuidade e a diversidade em seu dinamismo. XX, um rico campo de investigação, aplicação e analogias, ao disponibilizar raciocínios cada
Entendemos as formas fluidas e cambiantes no Urbanismo no sentido do espaço que – vez mais abstratos (no sentido de amplos, refinados e inclusivos) de unilateralidade, inclusão
sendo suporte material de práticas sociais – pode se transformar continuamente através da e transformação.6 Ora, esses são raciocínios iniciais para o entendimento da transformação
flexibilidade de sua utilização, da simultaneidade de seus usos e significados, da justaposição dos usos e funções tão evidentes na cidade contemporânea, pois possibilitam a permeabili-
de informações. Esta maleabilidade de transformação, efemeridade e transitoriedade é que dade entre noções e conceitos, já considerados antagônicos ou diferentes e que, atualmente,
confere o caráter fluido, movente, indiferenciante do espaço urbano contemporâneo. estão relativizados em decorrência do uso das tecnologias, da inclusão da velocidade como
É nesse sentido, que utilizamos no título deste artigo a mesma referência feita por Solà- fator determinante da distância, da hipermobilidade de bens, pessoas e informações, da ubi-
Morales para a arquitetura contemporânea. Esta analogia se deve à constatação que os mes- qüidade gerada pela comunicação à distância em tempo real ou não.7
mos princípios norteadores do texto modelo, onde encontramos por definição que “uma
arquitetura líquida (...) será aquela que substitua a firmeza pela fluidez e a primazia do espa-
ço pela primazia do tempo”3, se aplicam ao Urbanismo. Aliás, já se reconhece a “necessida-

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A C i d a d e p e l o A ve s s o Urbanismo em estado fluido

O Processo de Fluidificação Se considerarmos, como outro dado para o entendimento da questão, a utilização plena
do espaço virtual que é ao mesmo tempo público e privado, local e global, atópico e de outra
Dos três conceitos clássicos definidores da arquitetura – utilidade, firmeza e formosura –, geometria, podemos dizer que a cidade – como o local de troca, de comunicação, de intera-
tradicionalmente, a firmeza é aquele que mais claramente expressa as características mate- ção, de moradia, de trabalho – está potencialmente em qualquer lugar. Os espaços e suas fun-
riais desse campo de produção e estudo.8 Trata-se da consistência física, da estabilidade e cionalidades estão disseminados por toda parte. Estar em casa pode significar estar no traba-
permanência que desafiam o tempo e constroem espaços concretos e palpáveis. lho; estar na empresa pode significar estar na faculdade; estar na rua ou em viagem pode sig-
As leis que regem esse espaço tangível e sua tectonia estão em conformidade com a nificar estar em conferência. Esta subversão do uso do espaço e esta multiplicação das pos-
força gravitacional e com a lógica euclidiana plana e tridimensional. Por muito tempo, esta- sibilidades de conexão já vêm constituindo uma nova realidade. Isto, sem entrarmos no méri-
bilidade e permanência foram noções chaves especificadoras do campo da arquitetura, assi- to do já banalizado conceito de cidade virtual, que já foi tema de revista14 e livro15, e que
nalando sua “condição material, fisicamente consistente, construtivamente sólida e delimita-
designa tanto a Netrópolis – a maior metrópole do mundo: a rede que une computadores de
dora do espaço”9, que fez da arquitetura, durante vinte e cinco séculos, “um saber e uma téc-
todo o globo –, quanto as cidades com base na World Wide Web, que funcionam como fer-
nica ligados à permanência”.10
ramenta política para diferentes objetivos urbanos: marketing urbano global, incentivo ao
Hoje, contudo, utilizamos diariamente um espaço não euclidiano, como, por exemplo, o
turismo e negócios, comunicação entre cidadãos e governo local, comércio, etc.16
espaço de diversas práticas compartilhadas por cidadãos, que passam a estar também no
Mas o que está efetivamente em questão é o próprio conceito de cidade. Tradicionalmente,
espaço eletrônico. O mesmo ato tecnológico que modaliza proximidades espaciais e estabe-
a cidade se estabeleceu pela vitória do sedentarismo, pela fixação no solo, pela codificação
lece novos vínculos menos tangíveis, também subverte o regime da temporalidade, fazendo
desaparecer a uniformidade e homogeneidade que se supunha haver entre o deslocamento de sua materialidade mediante, por exemplo, tipologias arquitetônicas, e toda a gama de nor-

físico e o tempo do relógio. O grau de acessibilidade tecnológica dilui a sucessão temporal, mas, regras, legislações que nortearam este tipo de aglomerado, o que gerou certos modelos

desfazendo a relação de proporção entre o espaço percorrido e a cronometria do antes e de arquitetura e urbanismo considerados compatíveis com aquela realidade.17 Atualmente, a
depois. Deste modo, com o entendimento do conceito de tempo intemporal11 e do conceito época é do nomadismo, da fluidez, da mudança contínua, da estética do leve, do portátil e,
de tempo local12, poderíamos pensar que o tempo é casuístico, só podendo ser definido caso principalmente, da possibilidade de se tomar elementos externos como extensões do próprio
a caso, segundo um exame minucioso do grau de acessibilidade tecnológica de que a pessoa corpo, de modo que o deslocamento é simultaneamente de pessoas e lugares. Este entendi-
em questão disponha para realizar suas atividades. mento aponta para uma nova percepção do que seja arquitetura, urbanismo e cidade, e exige
Objetivamente, a cidade já não se reduz à grande utopia modernista. Os ideais dos pen- que se repense o estatuto de quem habita a cidade e sua relação com o espaço urbano.
samentos tayloristas e fordistas aplicados à cidade, resultando numa economia de escala, pro-
gramas de longo prazo, projetos de interesse comum e coletivo, repetição das funções urba-
nas, zoneamentos rígidos e massificação das soluções, entre outros, já foram devidamente cri-
ticados. Ascher13 empenhou-se, inclusive, em contrapor a cada uma dessas concepções, o
que seria mais de acordo com a nossa época, anunciando um neo-urbanismo com caracterís-
ticas reflexivas, de performance, com flexibilidade, multifuncional, com soluções de equipa-
mentos e serviços individualizados e uma economia da variedade.

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A C i d a d e p e l o A ve s s o Urbanismo em estado fluido

Considerações complementares ao urbanismo Um objeto topológico como a cinta de Moebius obedece a outro princípio lógico, no qual
em estado fluido a unilateralidade vem substituir a bilateralidade, dissolvendo a oposição euclidiana entre as
faces. Como isso acontece? Podemos construir concretamente uma cinta de Moebius toman-
O Urbanismo se constitui a partir de diversos campos do pensamento que são aplicados do uma faixa que, ao invés de ser fechada como em um cilindro euclidiano, sofre uma torção
à consideração da cidade. Ora, considerar a cidade é entender o conceito de cidade como uma de 180 graus. Obtemos um objeto que tem apenas uma superfície ou face, que percorremos
ferramenta conceitual historicamente construída, cujas sucessivas elaborações sofrem o de modo contínuo. Se, sobre essa superfície unilátera, nós marcarmos arbitrariamente um
impacto das transformações que a própria história impõe aos agentes sociais de um determi- ponto acompanhando seu percurso, observaremos que, antes de concluí-lo voltando ao ponto
nado espaço-tempo, que, em resposta, se vêem impelidos a produzir conceitualmente uma de partida, ele vira pelo avesso. O raciocínio que nos interessa é: temos uma superfície unilá-
reflexão consentânea com os problemas de sua época. tera que comporta a inscrição de posições que passam de uma para outra, em continuidade,
Posto isto, julgamos relevante pontuar alguns entendimentos que nos auxiliam a fazer a de tal modo que as opositividades desaparecem.
passagem de um estado sólido do urbano, como, por exemplo, o da cidade da utopia moder- A proposta do urbanismo em estado fluido considera, em analogia com a cinta de
nista, estabelecida segundo normas rígidas que mapeavam e separavam suas funções a prio- Moebius, a equivocação dos usos e funções, tão evidente, na cidade contemporânea.
ri, ao estado fluido, que se delineia nos dias atuais. Portanto, pode incluir a flexibilidade ou mudança na prática do dia-a-dia. Há multifuncionali-
1) Atravessamos uma era em que as definições, delimitações, antagonismos, oposições e dade, polimorfismo, passagem e reversibilidade nas formas urbanas.
distinções estão fluidas, maleáveis, sujeitas à permeabilidade de diferentes entendimentos, de As noções de sociedade em rede e de sociedade hipertexto são exemplos disso. A cida-
modo que a resultante passa, muitas vezes, a considerar como definição de um conceito aqui- de contemporânea pode ser considerada o espaço topológico, eletronicamente construído,
lo que ele nega e afirma, não mais como se fosse uma contradição, mas como alternância de que se reconfigura à medida que a tecnologia introduz, assimila e modifica formas e funções
possibilidades e como dado. Para um maior esclarecimento, podemos utilizar a metáfora da (novas e antigas), num alcance virtualmente infinito. Os nós que compõem a rede que a cida-
cinta de Moebius que permite construir raciocínios lógicos compatíveis com esta exigência. de é têm seu desempenho aferido em conformidade com sua capacidade maior ou menor
Quando comparamos este objeto matemático e suas propriedades com aqueles construídos de absorver informação relevante, processando-a de modo eficiente. Uma vez redundantes
pela lógica da geometria euclidiana ficam evidentes, por analogia, as características de muta- e sem uso, podem ser deletados ou absorvidos em novos nós. O importante é o poder de
ção, mobilidade e fluxo, típicas da cidade contemporânea. performance da rede, que tende a se reconfigurar em função da dinâmica de seus nós cons-
Uma cinta ou banda de Moebius é um objeto matemático concebido a partir de ferra- tituintes, que só existem e funcionam como seus componentes. Logo, “a rede é a unidade,
mentas conceituais da topologia. Suas características escapam às determinações do espaço não o nó”.18
geométrico euclidiano. Neste último, estamos rigidamente situados em regime de bilaterali- 2) Se houve uma época em que podíamos apontar o natural ou natureza em oposição
dade e oposição (externo X interno; sentido direito X sentido esquerdo), não havendo comu- ao artificial ou social/cultural, esta época acabou. Não bastasse nossa experiência e enten-
nicação ou passagem entre pontos situáveis nas faces opostas de uma superfície assim cons- dimento da indiscernibilidade destes conceitos, em vários campos do conhecimento os auto-
truída. Manipulando concretamente um cilindro, por exemplo, vemos que se trata de uma res há muito tempo apagaram esta linha divisória. Na obra MODERNIZAÇÃO REFLEXIVA, Ulrich
superfície bilátera, em que não há continuidade ou passagem entre as duas faces (interna X Beck, Anthony Giddens e Scott Lash, em uníssono, afirmam que o que é natural está tão intri-
externa), salvo se, por exemplo, agredíssemos essa superfície mediante um furo, o que ime- cadamente confundido com o que é social que os seres humanos não sabem mais o que é
diatamente desfiguraria o objeto matemático. natureza e que “nada mais pode ser afirmado como tal”.19 Segundo Manuel Castells,esta-

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mos num estágio em que, após termos suplantado a natureza a ponto de nos obrigar a pre- partículas subatômicas, da evolução da vida em nosso planeta às suas manifestações parti-
servá-la artificialmente como uma forma cultural, a cultura passa a referir-se sobretudo à culares, sistemicamente organizadas, em grau maior e menor de complexidade, sejam colô-
própria cultura.20 Neste sentido, vivemos num mundo predominantemente social e estamos nias de bactérias, colméias ou bandos organizados de primatas. O artifício industrial, por sua
no início de uma nova era, cuja “tecnologia central, a tecnologia da comunicação, está rela- vez, corresponde ao plano criativo e transformador do fazer humano, que cria sociedade, arte-
cionada ao coração da especificidade da espécie humana: consciência, comunicação com fato, conhecimento e tecnologia como informação que se acopla, lê e transcreve as informa-
significação”.21 ções constituintes dos artifícios espontâneos. Nesse sentido, o pensamento artificialista de
Se, apesar das evidências insistimos em lembrar o já sabido, é porque temos a impressão Magno encontraria a intuição de Castells acerca da íntima relação entre tecnologia e cons-
de que o conhecimento intelectual e a realidade empírica teimam em não se influenciar ciência, pois ambos entenderiam a capacidade tecnológica da mente humana como o opera-
mutuamente e, algumas vezes, o conhecimento quando aplicado e exemplificado causa estra- dor das passagens, transcrições e metamorfoses entre os artifícios, desfazendo a suposta fron-
nheza. Transpondo esta consideração de modo particular para nosso tema, interessa a refle- teira entre eles.
xão de que a Cidade– obra dos homens –, e a Natureza– dado espontâneo –, estão dentro de 3) Gilles Deleuze e Félix Guattari, comentando a experiência de escreverem juntos o
um mesmo e inseparável conceito. Este raciocínio nos leva a suspender não apenas a oposição livro O ANTI-ÉDIPO, avançam questões que ganharão consistência teórica e prática no concei-
entre natureza e cultura, como também entre humano e tecnologia, pessoa e cidade, etc. É o to de rizoma:
que afirma o ensaísta John Gray, a respeito de nossa condição contemporânea: Escrevemos o Anti-Édipo a dois. Como cada um de nós era vários, já era muita
As cidades são tão artificiais quanto colméias. A Internet é tão natural quanto uma gente. Utilizamos tudo o que nos aproximava, o mais próximo e o mais distante.
teia de aranha. Como escreveram Margulis e Sagan, nós próprios somos artifícios Distribuímos hábeis pseudônimos para dissimular. Por que preservamos nossos
tecnológicos inventados por antigas comunidades de bactérias como forma de nomes? Por hábito, exclusivamente por hábito. Para passarmos despercebidos.
sobrevivência genética: ‘Somos uma parte numa intrincada rede que vem desde a Para tornar imperceptível, não a nós mesmos, mas o que nos faz agir, experimen-
tomada original da Terra pelas bactérias. Nossos poderes e inteligência não per- tar ou pensar. E, finalmente, porque é agradável falar como todo mundo e dizer o
tencem especificamente a nós, mas a toda a vida’. Pensar nossos corpos como sol nasce, quando todo mundo sabe que essa é apenas uma maneira de falar. Não
naturais e nossas tecnologias como artificiais confere importância excessiva ao aci- chegar ao ponto em que não se diz mais EU, mas ao ponto em que já não tem
dente de nossas origens.22 qualquer importância dizer ou não dizer EU. Não somos mais nós mesmos. Cada
um reconhecerá os seus. Fomos ajudados, aspirados, multiplicados. 24
A idéia de artifício espontâneo e artifício industrial, proposta pelo teórico e psicanalista
A idéia de rizoma, proposta por esses autores no livro MIL PLATÔS, nos permite apreender
MD Magno, é outro testemunho do abandono da oposição entre o que é natural e artificial,
a realidade contemporânea como múltipla e descentrada, arranjo aberto e infinito de frag-
em prol de uma visão topológica e homogeneízante dos fatos do mundo como artifício.23
mentos autônomos interligáveis em rede e sem ponto fixo de convergência. É o que indica a
Interessa aqui destacar o aspecto articulatório que constitui qualquer artefato do mundo, seja
metáfora do rizoma: oriundo da botânica, onde significa o caule subterrâneo que cresce e se
ele recortado como um dado físico, biológico, cultural ou tecnológico. Lidamos com formações
ramifica em direção horizontal25, o rizoma, como ferramenta cognitiva, é útil para pensarmos
que são articulações, isto é, sistemas de informação (universo, vida, sociedade, ecossistemas,
o espaço urbano como malha complexa de relações sociais, políticas, cognitivas, tecnológicas
etc.) que se expressam com linguagem própria, mas que podem ser transcritas uma na outra,
em estado fluido. Seu ritmo é o da multiplicidade e conectividade. Sua dinâmica é a da reti-
desde que tenhamos as ferramentas cognitivas adequadas. Dadas as contingências do apa-
culação. Seu sentido está dado pelos movimentos de desterritorialização e pelos processos de
recimento da matéria e da vida, podemos considerar o artifício espontâneo como sendo as
reterritorialização, em devir constante, denotando o caráter nômade e plástico do rizoma.
formações que encontramos dadas, que constituem o universo à nossa volta, das galáxias às

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A C i d a d e p e l o A ve s s o Urbanismo em estado fluido

Não se trata mais de pensar em termos de subordinação hierárquica, cujo modelo é a árvore substrato, sub-jectum, fundamento, nos orientou por séculos, mediante a qual construímos a
e o processo de arborescência, com sua base fixa dando origem a múltiplos ramos. Neste uni- auto-imagem de ocuparmos posição central de base, espécie de cabine de comando central
verso, a organização e dinâmica das práticas e saberes, como uma raiz que cresce e se desen- de nossos atos e pensamentos.27
volve verticalmente, são pontos e nós individuais de uma estrutura, que se relacionam numa Ora, não é apenas com Deleuze&Guattari que aprendemos a desmontar antigas referên-
razão de reciprocidade necessária, binariedade e opositividade. O longe é longe, o perto é cias, tornando-nos aptos a entender e interagir com o mundo contemporâneo. Com Pierre
perto, o fora não é reversível com o dentro, público e privado são claramente discerníveis e Lévy, somos confrontados com o fato de que “o sujeito pensante também se encontra frag-
mutuamente excludentes. Em regime rizomático, ao contrário, qualquer ponto pode ligar-se a mentado em sua base, dissolvido do interior”28, disperso em uma “ecologia cognitiva”, que
qualquer outro, sem ordem ou valor prévios, sem coordenação centralizada e fixa, num mapa o engloba, fazendo valer a pluralidade e multiplicidade no lugar de forças unificadoras:
aberto, “conectável em todas as suas dimensões, desmontável, reversível, suscetível de rece- Quem pensa? Não há mais sujeito ou substância pensante, nem ‘material’, nem ‘-
ber modificações constantemente”.26 espiritual’. O pensamento se dá numa rede na qual neurônios, módulos cognitivos,
humanos, instituições de ensino, línguas, sistemas de escrita, livros e computado-
O estado fluido do espaço urbano ainda daria abrigo ao sujeito e ao indivíduo, habitan-
res se interconectam, transformam e traduzem as representações.29
tes da cidade planejada, previamente normatizada e cartesianamente setorializada consoan-
te funções específicas e não reversíveis entre si? Provavelmente já não conseguimos mais nos À subversão do pretenso eu – que se aninha na ilusão de centralidade e comando – rea-
lizada pelos conceitos de rizoma e ecologia cognitiva, vem se juntar o conceito de Pessoa, for-
imaginar na pele do cidadão ocupando posições estanques na família, no lazer, no trabalho,
jado pela Nova Psicanálise.30 Mas, em uma inversão original, a Nova Psicanálise equipara
no turismo das estações do ano, dependente exclusivo da comunicação cabeada, do guia
Pessoa a Eu. Estaríamos de volta à velha noção freudiana de Ego, que mal se disfarça sob a
rodoviário ou do jornal impresso. Contudo, esse mundo, outrora, forneceu significação a
roupagem nova do sujeito? Não. Parte-se do princípio de que Eu = Pessoa é processo resul-
milhões de pessoas no planeta, quando nos colocávamos como sujeitos autônomos e coor-
tante aqui e agora, de modo ad hoc, da infinidade de configurações que desenham a rede
denadores centrais de nossas ações, acompanhando, da mesma maneira, os acontecimentos
sintomática que uma Pessoa é. Nesse sentido, como afirma Magno, Pessoa “é mero carrefour,
do mundo, na política, na economia ou nas artes. Conceituados como indivíduos, carregáva-
mera confluência de uma quantidade enorme de coisas, inclusive da corporeidade que ali
mos a auto-imagem de sermos um ponto indiviso, unidade mínima e irredutível sustentada
está, com seus cacoetes e particularidades biológicas”31, rede em aberto que perdemos de
na figuração corporal, de que a imagem especular nos assegura de modo tão aparentemen-
vista quando a limitamos a um escopo que individualiza ou subjetiviza. A suposta subjetivi-
te inquestionável a individualidade. Átomos do tecido social, numericamente distintos e valo-
dade ou individualidade é tão somente efeito de existir “fechamentos que eliminam qualquer
rizados um a um, no âmago dessa existência provavelmente nos sentimos um dia intocados
possibilidade agoraqui de comunicação. Chamamos isso de subjetividade, ao invés de chamar
e protegidos dos avanços da esfera pública, ao mesmo tempo prontos a celebrar as conquis-
de particularidade de um conjunto fechado de formações”.32
tas sociais como vitória do indivíduo.
Portanto, estamos denominando Pessoa a rede em expansão, sem centro ou lugar defi-
Nada muito diferente se passa quando nos concebemos sujeitos, na boa e velha tradição nidos, apenas com a possibilidade de discernimento de situações focalizadas, como, por
ocidental. Dos antigos aos modernos, construímos a idéia de subjetividade a partir da idéia exemplo, a corporeidade, a língua ou o conhecimento arquivado por alguém (como memória,
de subsistência de si e de uma consciência unificadora disso, que afirma sua identidade no escrita impressa ou arquivo digital). Basta sair do foco de qualquer situação que ampliamos
tempo, suporte essencialmente imutável provido de características tão somente acidentais e a franja de uma Pessoa, isto é, a tomamos em perspectiva plena, sem separação, com dispo-
cambiáveis – percepções, gostos ou afetos. Garantida por ato divino ou não, fato é que a nibilidade para mobilidade, conectividade e comunicação. Então, “onde termina uma rede?
noção de sujeito como substância apta a existir por si, suporte de atribuição de qualidades, Ninguém sabe”, havendo “várias, senão infinitas, amplitudes do Eu, ou da Pessoa”. 33

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A C i d a d e p e l o A ve s s o Urbanismo em estado fluido

Na topologia da rede o rizoma, a ecologia cognitiva e a Pessoa se encontram, na medi- significa, portanto, desenhar um percurso em uma rede que pode ser tão complica-
da de sua afinidade com a sociedade em rede, informacional, videótica e videófila, no stop, da quanto possível. Porque cada nó pode, por sua vez, conter uma rede inteira. 37

globalizada, controlada, digital, instantânea, e-tópica e distópica, em que vivemos. Em analogia a essa definição, podemos afirmar que Eu é rede que se comporta como
Pensemos, por exemplo, na rede profissional que constitui os personagens e fragmentos de hipertexto, sem fronteira entre capacidade auditiva/visual e manipulação de documentos
personagens que vestimos no cotidiano. No escritório, na visita a clientes, nos relatórios que
sonoros/escritos, envolvendo corpo, palavras, imagens, traços de memória, afetos, sensações,
precisamos apresentar, nas conferências para as quais se é escalado na última hora, nas ati-
mas também determinado pela rede social, política, cultural, estética, etc., que constitui Eu.
vidades em equipe, na sala de aula, no balcão... a todo momento somos requisitados a inte-
Como o próprio Lévy reconhece, “o hipertexto é talvez uma metáfora válida para todas as
grar novas informações e a nos desfazer de anteriores, de modo a dar fluxo e velocidade às
esferas da realidade em que significações estejam em jogo”.38
ações e tarefas de que estamos incumbidos. O teórico da comunicação Marshall McLuhan já
Estamos tratando do conceito de Eu múltiplo, Eu na definição de Pessoa, que não se con-
apontava na década de 1960 o aspecto do “tudoagora” do mundo na “era da eletricidade”.
funde com sujeito nem indivíduo. Pessoa que, aproveitando o que disseram Deleuze e
Com a idéia de “Aldeia Global”, insistia no fato de que os homens encontram-se doravante
Guattari, sempre é vários. Pessoa sempre sujeita a muitas influências, de lugares, coisas, gen-
entrelaçados uns aos outros pelo sistema de circuitos elétricos, que fazem as informações
“despencarem sobre nós, instantânea e continuamente”, de tal modo que “a comunicação tes, sensações, línguas, lembranças, equipamentos, sons. Pessoa cuja existência inclui as miría-

instantânea garante que todos os fatores ambientais e de experiência coexistem num esta- des de fios de marionetes que a sustentam; cuja árvore genealógica remonta à base carbo-
do de ativa interação”.34 Em outras palavras, a era da eletricidade fez com que reconhecês- no; cujo corpo tem extensões tão complexas que é impossível delimitá-lo, quando considera-
semos o grau de interação funcionando entre nossos artefatos culturalmente construídos e mos as implicações planetárias da ecologia e seu reflexo global; mas também corpo que res-
os apetrechos naturais de que somos constituídos espontaneamente. Por isso, McLuhan sente, com pesar, a morte de um ente querido, como se lhe arrancassem uma parte de si, pois
pôde falar da tecnologia eletrônica como extensão de nosso sistema nervoso central, Pessoa incorpora (faz corpo) tudo aquilo a que se vincula e a que é vinculada.
ampliando globalmente os efeitos dessa extensão, como algo afetando todo o complexo psí- A fluidez e permeabilidade entre conceitos e o apagamento de fronteiras entre natural e
quico e social do planeta.35 artificial, corpo e tecnologia, requerem modos inclusivos de pensar a realidade urbana con-
Com novos suportes de gravação, transmissão e processamento de informação, o mundo temporânea. Donde, a aplicação do conceito de Pessoa no sentido de dar nova inteligibilida-
desse início de século XXI está ampliando em notável velocidade as intuições de McLuhan. de à cidade, à medida que este conceito indica que Pessoa está impregnada de tudo que lhe
Ao mesmo tempo, o tratamento que alguns conceitos têm recebido, tal como abordamos possa fazer interface, tudo que nela se vincule e, portanto, a constitua. Podemos, dentro desta
anteriormente, traz problematizações novas e desafiadoras para o Urbanismo. É o caso, por perspectiva indiferenciante, afirmar que a Cidade Sou Eu.39
exemplo, da idéia de hipertexto, trabalhada por Pierre Lévy36, quando a articulamos com Eu
= Pessoa. Consideremos, primeiro, que hipertexto é:
um conjunto de nós ligados por conexões. Os nós podem ser palavras, páginas,
imagens, gráficos ou partes de gráficos, seqüências sonoras, documentos comple-
xos que podem eles mesmos ser hipertextos. Os itens de informação não são liga-
dos linearmente, como em uma corda com nós, mas cada um deles, ou a maioria,
estende suas conexões em estrela, de modo reticular. Navegar em um hipertexto

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A C i d a d e p e l o A ve s s o Urbanismo em estado fluido

O “Orbanismo” do Séc. XXI de criar trouxe maior ou menor poder de deslocamento, acesso a recursos materiais e conhe-
cimento, que transcendiam os limites de cada localidade delimitada.
As referências que sustentam o conceito de cidade estão em questão, sem que seja pos- O salto qualitativo que acontece na segunda metade do século XX liberou a conectivida-
sível uma definição a partir da hegemonia de qualquer um de seus elementos constituintes. de dos limites materiais, graças a tecnologias com poder de liquefação suficiente para insta-
A organização da produção, consumo, reprodução, transmissão, experiência e poder, em todas lar um regime de comunicação altamente flexível, adaptável e auto-reconfigurável.44 A natu-
as esferas em que as atividades humanas estão concernidas, está subvertida pelos códigos reza topológica da comunicação eletrônica é plenamente exibida pela capacidade contempo-
forjados pelas Novas Tecnologias da Informação e Comunicação. Na década de 1960, rânea de fluxo contínuo de informação interativa e em várias direções. Constituímos hoje uma
McLuhan já anunciava a mudança de paradigma ao dizer que “na era da eletricidade, o sociedade em rede cuja especificidade é a extensão “da mente e corpo humanos em redes de
homem volta, psíquica e socialmente, ao estado nômade (...). É um estado global, que igno- interação feitas por tecnologias de comunicação baseadas na microeletrônica e operadas
ra e substitui a forma da cidade – que tende a se tornar obsoleta”.40 mediante softwares”45, às quais, acrescentadas as tecnologias da engenharia genética, dis-
A localização espacial geográfica (cidades, empresas, governos, moradia) está relativiza- ponibilizam um complexo sistema de decodificação e recodificação da matéria viva. Do
da pelo espaço de fluxos, que impõe uma lógica que suspende a prioridade da contigüidade mesmo modo, conexões sem fio e dispositivos de acesso portáteis criam “um campo contí-
física na dinâmica das trocas. As cidades globais, por exemplo, desempenham papel ativo de nuo de presença que pode se estender através de prédios, outdoors, tanto em lugares públi-
centralidade na economia mundial. Mas não há mais uma relação imediata entre essa cos como em privados”.46 Isto denota também o caráter assincrônico da comunicação, pois
centralidade e entidades geográficas como centro ou bairro financeiro, pois a conectividade não é necessária a coincidência de tempo ou de espaço para que ela se estabeleça. Um exem-
eletrônica permite que a rede de transações circule independente da localização física de plo dessa situação é o teletrabalho móvel como modelo de trabalho que está se instalando.
empresas e praças de negócio. Por isso, a cidade como metápole é fundamentalmente um Esse modelo considera o trabalhador como nômade, isto é, que executa seu trabalho através
espaço de mobilidade, onde as hierarquias das trocas são dinâmicas, valendo sua capacida- de contato com seu escritório, via telefone celular, internet, fax, palmtops, em deslocamento,
de de gerar conhecimento e processar informação, compartilhando-os em redes.41 ao mesmo tempo em que está em viagens, visita a clientes ou em seu percurso corriqueiro,
Um mesmo espaço abriga superposições temporais diferentes, no mesmo instante se pre- criando a situação do escritório em movimento.47
sentificam espaços distintos, as diversas temporalidades da vida urbana não são mais sepa- Assim, quando pensamos no processo de expansão do corpo e mente humanos median-
radas com nitidez, pois muitas atividades podem se desenvolver ao mesmo tempo, tudo numa te tecnologia, fica mais fácil conceber que a cidade como rede equivale à rede que uma pes-
mesma realidade imbricada: eis a cidade contemporânea, espaço híbrido “onde tudo o que soa é. Com a explosão de máquinas portáteis, que fornecem comunicação ubíqua sem fio e
nos rodeia é uma composição de fontes heterogêneas.”42 capacidade computacional, pessoas, organizações e espaços interagem em qualquer lugar ou
Sabemos que a noção de rede não se restringe ao mundo do século XXI. As organizações tempo, enquanto simultaneamente dependem de infra-estrutura de suporte que gerencie os
humanas dependem de e se desenham por redes de troca e comunicação que são capazes de recursos materiais em uma rede de distribuição de informações. Ao mesmo tempo, com a
criar. Para François Ascher, por exemplo, o crescimento das cidades foi correlato histórico do nanotecnologia e a convergência entre microeletrônica e processos e materiais biológicos,
desenvolvimento dos meios e técnicas de transportes e de estocagem de bens (necessários ao as fronteiras entre vida humana e vida maquínica ficam borradas, de tal modo que
abastecimento de populações cada vez mais numerosas), de informações necessárias à orga- as redes estendem sua interação, do eu interior [ = inner self] ao conjunto da ati-
vidade humana, transcendendo barreiras de tempo e espaço.48
nização e divisão dos trabalhos e das trocas, e de pessoas (ocupadas com técnicas de cons-
trução, gestão urbana dos fluxos e proventos, proteção e controle).43 Consideradas as tecno- Não é o mundo que está se globalizando, somos nós. A tecnologia possibilita acesso físi-
logias disponíveis em cada época e lugar, a conectividade que cada grupo humano foi capaz co e deslocamento a distantes regiões, criando uma situação em que estamos contidos na

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Urbanismo em estado fluido

esfera global. Quando pensamos globalmente, nos comunicamos e fazemos trocas a partir do dade. Manuel Castells. A sociedade em rede, op. cit., pp. 457- 492.
12 Castells, apoiando-se em um ensaio de Barbara Adam sobre tempo e teoria social, afirma existir
lugar que ocupamos, contemos a esfera global internamente, “contemos a Terra nas nossas
uma tendência para adoção de um conceito contextual do tempo humano: o tempo é local. Ibid., p. 458.
mentes e redes”.49
13 François Ascher. Les nouvaux principes de l’urbanisme. Paris: L’Aube, 2004.
Ao invés de cidadão ou citadino, nesse contexto é mais apropriado retomar o antigo con- 14 La Ville Virtuelle III: espace public/espace privé. Magazine Éléctronique, n. 22, juin 2005. Edição
ceito de cosmopolita, cidadão do mundo.50 As trocas materiais, pessoais, mentais e financei- da revista do Centro de Arte Contemporânea de Montreal. http://www.ciac.ca/magazine.
ras, o estabelecimento de vínculos sociais, de inserção social, política e econômica se darão 15 Lançado pela Agência Estado quando aconteceu o encontro em Istambul - 1996 da “II
mediante a interface gerada pela disponibilidade mental, social, pessoal e dos equipamentos Conferência das Nações Unidas sobre Assentamentos Humanos, Habitat II”.
16 Stephen Graham e Simon Marvin. “Rumo a cidade em tempo real“in Telecommunications and
disponíveis. Como a cidade é o local destes acontecimentos, podemos dizer que ela estará
the city: Electronic Spaces, Urban Spaces
onde o cosmopolita estiver. Urbanismo, neste caso, seria o “Orbanismo”51 do século XXI: não
apud http://www.eesc.sc.usp.br/nomads/tics_arq_urb/cidtempo.doc
tendo mais como referência fronteiras ou limitações, estaríamos tratando como cidade não 17 Carlos García Vazquez. Ciudad hojaldre: visiones urbanas del siglo XXI. Barcelona: Editorial
só o mundo, mas também o universo conhecido e por conhecer. Está por ser construída uma Gustavo Gili, 2004, p. 191.
nova humanidade, que representará conseqüentemente uma nova sociedade e uma inédita 18 Manuel Castells (ed.). The network society: a cross-cultural perspective. Massachusetts: Edward
concepção de cidade. Elgar Publishing Ltd., 2004, p. 3.
19 Ulrich Beck, Anthony Giddens e Scott Lash. Modernização reflexiva. São Paulo: Editora UNESP,
1995, p. 8.
Notas 20 Castells. A sociedade em rede, op. cit., p. 505.
1 Ignasi Solà-Morales. Territorios. Barcelona: Editorial Gustavo Gili, 2002, p. 126. 21 Castells (ed.). The network society: a cross-cultural perspective, op. cit., p. 6.
2 Ibid, p.130. 22 John Gray. Cachorros de palha: reflexões sobre humanos e outros animais. Rio de Janeiro:
3 Solà-Morales, op. cit., p. 127. Mais adiante explicamos o conceito de ‘arquitetura líquida’. Record, 2005, pp. 32-33.
23 MD Magno. Arte&Fato. A Nova Psicanálise: da Arte Total à Clínica Geral. Rio de Janeiro:
4 Thomas Horan apud, Manuel Castells, A galáxia da Internet: reflexões sobre a internet, os negó-
Novamente Editora, 2001. Desde os anos 1970, o campo psicanalítico, na linhagem de Freud e Lacan,
cios e a sociedade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001, p. 195.
tem ganhado fôlego no Brasil com sua reformulação trazida pelo trabalho de MD Magno. Nova
5 William J. Mitchell. E-topía: “vida urbana, Jim, pero no la que nosotros conocemos”. Barcelona:
Psicanálise é a expressão que passa a denominar, a partir de 1986, a resultante desse esforço teórico-
Editorial Gustavo Gili, 2001, p. 19. clínico, ao mesmo tempo antenado com o design tecnológico e artificialista da contemporaneidade e
6 Como dão testemunho, por exemplo, o trabalho do matemático Auguste Ferdinand Moebius, de atento às questões que as elaborações freudianas e lacanianas não estavam à altura de responder.
artistas como Escher e Magritte, do psicanalista Jacques Lacan e seu uso da banda de Moebius para 24 Gilles Deleuze e Felix Guattari. Mil Platôs. São Paulo: Editora 34, 1995, p. 11.
explicar seu conceito de Sujeito. 25 Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa.
7 Entre as diversas noções que têm sido relativizadas, podemos destacar: espaço público e priva-
26 Deleuze e Guattarri, op. cit., p. 22.
do, dentro e fora, perto e longe, global e local, moradia e trabalho, real e virtual.
27 Cf. verbetes “indivíduo”, “substância” e “sujeito” in Nicola Abbagnano. Dicionário de Filosofia. São
8 Solà-Morales, op. cit., p. 125. O autor se refere aos princípios vitruvianos da utilitas (comodida-
Paulo: Martins Fontes, 2003 e José Ferrater Mora. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Edições Loyola, 2001.
de/utilidade), firmitas (firmeza) e venustas (formosura).
28 Pierre Lévy. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. São
9 Ibid., p. 126.
Paulo; Editora 34, 2000, p. 135.
10 Ibid.
29 Ibid.
11 Segundo Castells o uso das tecnologias propicia a existência de um tempo intemporal sem refe-
30 Este conceito de Pessoa foi desenvolvido de forma original e abrangente por MD Magno, em
rência cronológica. O espaço de fluxos dissolve o tempo, eliminando a seqüência dos eventos tornan-
seu Falatório de 2004, intitulado Economia Fundamental: MetaMorfoses da Pulsão, e no Falatório de
do-os simultâneos. Cria, assim, um tempo não-diferenciado que possibilita um presente eterno.
2005, intitulado Clavis Universalis. Da Cura em Psicanálise ou Revisão da Clínica, sendo o primeiro iné-
Passado, presente e futuro e as modalidades escrita, oral e audiovisual da comunicação interagem
dito.
numa mesma informação multimediada. O tempo é transformado pela simultaneidade e intemporali-

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31 MD Magno. Psicanálise: Arreligião. Rio de Janeiro: Editora Novamente, 2005, p. 97.


32 Ibid. Um tempo-lugar para o cultivo
33 MD.Magno. Clavis Universalis. Da Cura em Psicanálise ou Revisão da Clínica. Rio de Janeiro:
Editora Novamente, 2007.
dos corpos e do espírito
34 Marshall McLuhan. O meio são as massa-gens. 2a ed. Rio de Janeiro: Record, 1969, p. 91.
35 Marshall McLuhan. Os meios de comunicação como extensão do homem. 10a ed. São Paulo: Cristovão Fernandes Duarte
Cultrix, 2000.
36 Lévy, op. cit., pp. 28-42.
37 Ibid. p. 33.
38 Ibid. p. 25.
39 Rosane Araujo. “La Ville, C’est Moi: l’orbanisme du XXIème siècle”. In GRELET, Gilles (org.).
Théorie-rebellion: um ultimatum. Paris: L’Harmattan, 2005, pp. 104-107. A “Cidade sou eu” é título da
pesquisa de doutoramento da autora atualmente em curso no PROURB-UFRJ.
40 McLuhan. Os meios de comunicação como extensões do homem, op. cit. pp. 385-6.
41 Para François Ascher, as sociedades ocidentais começam a sair do industrialismo, ingressando
numa economia cognitiva, cujos fundamentos são a produção, apropriação da venda e uso de conhe-
cimento, de informação e de procedimentos, num processo que privilegia conhecimento e tecnologia – Um dos maiores teóricos da arquitetura do século XX e, certamente, o mais influente de
o que exige capital e pessoal qualificado, venha de onde vier –, relegando a segundo plano a produ- todos eles, propôs que as cidades modernas fossem concebidas para atender quatro funções
ção material. Cf. François Ascher. Les nouveaux principes de l’urbanisme: la fin des villes n’est pas à
l’ordre du jour. Paris: Ed. de l’Aube, 2001. básicas: a habitação, o trabalho, a circulação e o lazer. Trata-se do arquiteto franco-suíço Le
42 A idéia da cidade como um grande espaço ‘híbrido’ é uma ampliação da noção de ‘espaços Corbusier (1887-1965) que, além de produtor de teorias e projetos, foi um notável homem de
híbridos’, apresentada por Muntadas, no sentido de que vivemos numa sociedade híbrida cuja hetero- marketing, divulgando e propagandeando suas idéias pelos quatro cantos do mundo.
gênese se reflete na arquitetura com os ‘edifícios híbridos’, que combinam funções e usos díspares, a
ponto de podermos pensá-los como exemplares de uma ‘anti-tipologia’. Cf. Muntadas. “Consideraciones Só ao Brasil, Corbusier veio três vezes: a primeira em 1929, quando proferiu uma série
sobre espaços híbridos”. in Solà-Morales e Xavier Costa (eds.). Metrópolis. Barcelona: Editorial Gustavo de palestras no Rio e em São Paulo, a segunda em 36, a convite de Lúcio Costa para riscar o
Gili, 2004, pp. 94-95.
43 Ascher, op. cit. Cf. também Castells, A galáxia da Internet, op. cit., p. 7.
projeto do Ministério da Educação e Saúde1, no Rio de Janeiro, e a terceira, depois da cons-
44 Castells (ed.), op. cit., p. 5. trução de Brasília, para contemplar não apenas o fruto mais emblemático da adesão dos
45 Ibid., p. 7. arquitetos e urbanistas brasileiros às suas idéias, mas também, e é bom que se diga, a reco-
46 William Mitchell apud Castells (ed.), op. cit., p. 11. nhecida e ousada inventividade de seus pupilos desta banda de cá.
47 Castells, A galáxia da Internet, op. cit., p. 192. Duas razões, em especial, nos fazem lembrar Corbusier neste con(texto). A primeira,
48 Castells (ed.), op. cit., p. 6.
obviamente, refere-se ao tema do lazer, por ele enfatizado como uma das funções primordiais
49 Derrick de Kerckhove. A pele da cultura, op. cit., p. 193.
da cidade moderna. A segunda razão desta lembrança decorre do fato de que, em sua obra,
50 Ibid.
51 Urbe = cidade; Orbe = globo, mundo, universo. O conceito de Orbanismo foi articulado dessa o autor raramente usa o termo lazer (loisir, no francês), preferindo na maior parte das vezes
forma em nossa dissertação de mestrado. Cf. Rosane Araujo. A cidade contemporânea e as novas tec- escrever com todas as letras: cultiver le corps et l’esprit.2 O interesse com que se reveste este
nologias segundo Paul Virilio, Manuel Castells e François Ascher. Dissertação de mestrado Rio de
fato reside na nossa intenção de retomar a tradução literal do enunciado de Corbusier, pois
Janeiro: PROURB-UFRJ, 2001.
é, justamente, essa noção ampliada de lazer, como o ato de cultivar o corpo e o espírito, que

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A C i d a d e p e l o A ve s s o Um tempo-lugar para o cultivo dos corpos e do espírito

pretendemos adotar e explorar, neste trabalho. E nisso, ao que tudo indica, estamos ampara- a progressiva homogeneização do espaço urbano e a ampliação dos mecanismos de segre-
dos pela oportuna reflexão de Marcellino, que vê o lazer “como a cultura compreendida no gação e controle sobre o espaço.
seu sentido mais amplo – vivenciada (praticada ou fruída), no tempo disponível”.3 As propostas concretas então desenvolvidas para a cidade visavam redesenhá-la integral-
A primeira conseqüência importante que se pode fazer derivar daquela definição consis- mente, de modo a promover sua adequação aos princípios, inclusive estéticos, de estandarti-
te na impossibilidade de se pensar o ato de cultivar o corpo e o espírito como uma função zação e mecanização, inerentes ao novo tempo. Assim é que, sob o pretexto de criar “um ins-
urbana restrita ao lazer e isolada das demais, quais sejam, habitar, trabalhar e circular. E aqui trumental de urbanismo para uso da Sociedade Maquinista”5, Corbusier propõe transplantar

estamos, de certa forma, usando o feitiço contra o feiticeiro. a racionalidade industrial para a cidade, concebida, metaforicamente, como uma linha de
montagem para a produção do homem urbano moderno. A circulação funcionando como a
Poder-se-ia certamente alegar, em defesa do mestre, que a enunciação das quatro fun-
esteira rolante que levaria o homem-produto a percorrer os diversos setores de produção,
ções cumpre apenas uma função analítico-pedagógica, sem que isso implique em considerá-
basicamente representados pela habitação, o trabalho e o lazer.
las como isoladas ou estanques. Não é isso, entretanto, o que se constata nas suas proposi-
Impulsionada pelo advento dos meios de locomoção motorizados, a circulação assume,
ções urbanísticas, que preconizavam uma clara separação das funções em espaços especial-
então, um papel decisivo entre as demais funções urbanas nas propostas de estruturação da
mente desenhados para abrigá-las.
cidade. A facilidade de movimentação e a aceleração do movimento mecânico impõem-se
Não podemos esquecer que Corbusier, não obstante suas indiscutíveis qualidades como
como marcos distintivos da cidade moderna, condicionando e submetendo o espaço público.
arquiteto e pensador do espaço urbano, foi um homem açodado pela vertigem dos Tempos Os automóveis tomam de assalto as cidades, reduzindo ou, até mesmo, excluindo as demais
Modernos. Percebe-se em seus escritos uma urgência em anunciar, precocemente, a morte possibilidades de uso das ruas. A disputa pelo espaço público fez prevalecer os direitos dos
da cidade tradicional como conseqüência inexorável da ruptura histórica produzida pela Era motoristas, confrontando a fragilidade do corpo humano com a prepotência da máquina,
da Máquina, que abriria caminho para o surgimento da cidade moderna. como extensão protética do corpo dos motoristas.6
Com a criação dos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna – CIAM (a partir O distanciamento crítico de que hoje dispomos, bem como as conseqüências reconheci-
de 1928) e, em especial, com a publicação, em 1943, da Carta de Atenas (resultante do damente negativas da aplicação daquele modelo às nossas cidades, nos facultam atestar os
CIAM de 1933), da qual Corbusier foi inspirador e signatário, o pensamento urbano moder- seus equívocos. Não se trata de atribuir exclusivamente às idéias de Corbusier todos os males
nista difunde-se pelo mundo de forma hegemônica, postulando, entre outras coisas: o des- presentes na cidade contemporânea, mas de constatar, para além disso, a própria falência da
prezo pela cidade antiga; a abolição da rua, considerada anacrônica e perigosa; a exigência utopia da sociedade do trabalho que alicerçava aquelas premissas teóricas, todas baseadas

para que os imóveis fossem implantados longe dos fluxos de circulação; e a proposição do na crença de que o progresso tecnológico iria se encarregar de, por si só, libertar o homem
do jugo ancestral da miséria e da opressão.
zoning funcional, que inspirou, durante décadas, o aparato normativo da grande maioria das
Segundo Habermas, os conteúdos utópicos da sociedade do trabalho induziam à ilusória
cidades do mundo.
convicção de que “a razão instrumental desencadeada dentro das forças produtivas (...) desen-
A fragmentação do território em zonas separadas e monofuncionais, aumentando as dis-
volvida na capacidade de organizar e planejar deveria preparar o caminho para vidas dignas do
tâncias entre a moradia, o trabalho e o lazer, acarreta, como nos mostra Krier, “uma mobili-
homem, igualitárias e, ao mesmo tempo, libertárias”.7 Entretanto, “a ambigüidade da moder-
zação efetiva e habitual da sociedade inteira para a realização das funções básicas da vida”.4
nização capitalista está em que esse aumento de autonomia e de reflexividade teria sobrecar-
Entre as principais conseqüências deste processo sobre as práticas sócio-espaciais destacam-
regado a capacidade comunicativa do mundo moderno”8, gerando uma “colonização do
se a eliminação da idéia do bairro como unidade (relativamente) autônoma e individualizada, mundo da vida pelos imperativos de sistemas econômicos e administrativos autonomizados”.9

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O ideário da sociedade do trabalho implicava, mediante a repartição dos ganhos de pro- vés do Plano de Metas do governo Kubitschek, fez do sistema rodoviário a sua opção prefe-
dutividade decorrentes da industrialização, na possibilidade de redução progressiva da jorna- rencial, impulsionando o crescimento da indústria automobilística brasileira.
da de trabalho e no conseqüente aumento do tempo livre; esse cenário apontando, no limi- A oferta de transportes públicos não ocorreu, entretanto, na mesma proporção em que
te, para o fim mesmo do trabalho e para a realização de uma sociedade do lazer. Leia-se: uma crescia a demanda. A precarização do transporte ferroviário e o desmantelamento das linhas
sociedade dedicada ao cultivo dos corpos e do espírito. Está fora também, diga-se de passa- de bondes existentes nas grandes cidades brasileiras, consagraram o ônibus como modalida-
gem, uma das apostas para superação do capitalismo, implícita nos escritos de Marx.10 de principal do transporte púbico de passageiros. Além disso, as concessões para a explora-
Tamanha era a convicção de Corbusier com relação a esses princípios que chegou a ção das linhas de ônibus não se fizeram acompanhar dos indispensáveis investimentos e
escrever, profeticamente, que “uma ocupação racional de um território permitiria à sua popu- mecanismos de controle, por parte do poder público, que assegurassem a boa qualidade do
lação trabalhar duas vezes menos”.11 Para isso, acreditava o autor, bastaria aplicar às cida- serviço prestado à população. Desta forma, não obstante a falta de outras opções (ou talvez
des o ordenamento dos espaços por ele idealizado. por isso mesmo), o sistema de transporte por ônibus transformou-se num serviço de baixa
Não foi bem assim, entretanto, que as coisas se passaram. A aplicação indiscriminada qualidade, caracterizado pela irregularidade e pelo desconforto, destinado, preferencialmen-
deste modelo, efetivada principalmente após a Segunda Grande Guerra, foi responsável pela
te, ao atendimento das classes trabalhadoras, sem acesso ao transporte particular.13
tecnificação generalizada do ambiente construído, com a produção de um espaço público
Em algumas cidades brasileiras o tempo médio desperdiçado nos deslocamentos diários
vazio e sem vitalidade às expensas da destruição massiva do tecido urbano tradicional.
casa-trabalho-casa, em função da precariedade dos transportes urbanos e com os engarrafa-
Além disso, e a partir de então, outras estratégias de dominação do espaço-tempo se
mentos de trânsito, chega a ultrapassar 35% da jornada de trabalho. No caso extremo de São
fizeram presentes na cena urbana cotidiana. De acordo com Lefebvre, ao lado do tempo livre
Paulo, dados de 1997 mostram que 20% das viagens realizadas nos transportes públicos con-
e do tempo do trabalho, assumiu grande relevância o “tempo imposto”. Tal modalidade de
somem de 2 a 3 horas/dia, enquanto 17,5% das viagens ultrapassam a marca de 3
uso compulsório e dirigido do tempo corresponderia a novas e diversas exigências da vida
horas/dia.14 Claro está que se trata de um tempo roubado ao tempo livre, nunca ao tempo
moderna fora da esfera do trabalho, como transporte, deslocamentos, formalidades, consumo,
do trabalho.
entre outras. Ainda segundo o autor, “o tempo imposto [que aumenta mais rápido que o
O tempo do consumo improdutivo, por sua vez, é o tempo que gasta para comprar tudo
tempo dos lazeres] se inscreve na cotidianidade e tende a definir o cotidiano pela soma das
aquilo que a ideologia do consumo, propagandeada pelos meios de comunicação, nos impin-
imposições (pelo conjunto delas)”.12
ge diuturnamente como imprescindível para usufruir uma vida melhor. Multiplicam-se, por
Abordaremos a noção de tempo imposto subdividindo-a em duas outras modalidades
todos os lados, os shopping-centers, como uma das marcas emblemáticas da cidade contem-
aqui designadas de tempo improdutivamente consumido e tempo do consumo improdutivo.
porânea. É curioso notar como esses novos templos do consumo reproduzem, internamente,
Não se trata de um mero jogo de palavras, mas da tentativa de aproximar o foco sobre os
a mesma sintaxe espacial urbana da cidade tradicional, baseada na articulação das ruas (for-
fenômenos em estudo para melhor compreendê-los.
madas pelo correr das fachadas), das quadras e das praças, funcionando para o usufruto das
O tempo improdutivamente consumido é, para efeito desta abordagem, aquele que se
pessoas e não dos veículos motorizados. Tratam-se, no entanto, de entidades anti-urbanas
gasta com os deslocamentos diários nas grandes cidades. No caso brasileiro, a tendência de
(segregadas e apartadas do corpo-espaço coletivo da cidade), concebidas, construídas e con-
crescimento das cidades, acompanhada pelo aumento exponencial da frota de automóveis,
troladas pela iniciativa privada para potencializar o consumo. Dentro dos shoppings não exis-
concorre para o agravamento deste problema. Trata-se de um processo historicamente indu-
te a pobreza, a miséria e a escassez, presentes na cidade contemporânea. Estas, juntamente,
zido. No Brasil, o modelo desenvolvimentista adotado a partir do final da década de 50, atra-
com a violência generalizada que é imposta à cidade, foram deixadas trancadas do lado de

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fora. Na cidade em miniatura, recriada artificialmente dentro dos shoppings, tudo deve girar expropriar os tempos livres constituem, intrinsecamente, parte das estratégias de dominação
em torno do consumo, até a simulação da experiência de estar dentro de uma cidade de ver- em curso.
dade.15 Das considerações iniciais feitas sobre o espaço passamos a falar do tempo. Não há como
No consumo desenfreado e perdulário gasta-se, muitas vezes, aquilo que ainda se vai evitar essa interface, sob pena de errar o alvo. Os usos do espaço se desdobram nos usos do
ganhar com o trabalho de amanhã e depois. Assim, o tempo do consumo improdutivo com- tempo e vice-versa. Ao tempo abstrato corresponde, também, um espaço abstrato.
promete também o tempo livre futuro, já que mais horas de trabalho serão necessárias para A racionalidade industrial submete a cidade à lógica do lucro capitalista. Transforma a
compensar o endividamento gerado pelas prestações postergadas. Sobre esta questão, vale cidade-obra, entendida como domínio do valor de uso e da livre fruição, à condição de cida-
acompanhar o raciocínio de Kurz, quando diz que “as formas raquíticas de descanso foram de-produto para o consumo, como instrumento do valor de troca.19 O espaço e o tempo pas-
substituídas por um hedonismo enfurecido de idiotas do consumo, um hedonismo que com- sam a ser condições gerais de produção; devidamente medidos e quantificados, tornam-se
prime o tempo livre da mesma forma que, antes, o horário de trabalho”.16 mercadorias valiosas e escassas. A lógica da equivalência abstrata (que se estabelece entre as
Como se vê, ao contrário do que profetizaram os ideólogos da sociedade do lazer, nunca mercadorias) busca eliminar as diferenças, dissipando a diversidade sócio-espacial constituti-
o tempo livre foi tão exíguo como nos dias atuais. Se ainda, ao resíduo de tempo suposta- va da vida urbana.20 A abstração implica numa violência que lhe é inerente; ela age pela
mente livre subtrairmos o tempo em que se está cuidando de afazeres inadiáveis e cotidianos devastação, pela destruição.21 Este é, como se sabe, o modus operandis do capitalismo: a vio-
como cuidar daqueles que dependem de nós, pagar as contas ou cumprir outras tantas obri- lência da abstração do valor de troca, generalizada na forma do dinheiro.
gações que extrapolam a esfera do trabalho, descobriremos, estarrecidos, que o pouco tempo O espaço-tempo abstrato é, conseqüentemente, o espaço unificado, racionalizado e
que sobra (quando sobra!) para cultivar o corpo e o espírito se resumirá, na melhor das hipó- controlado pela produção capitalista. A expropriação e o controle do espaço e do tempo
teses, às refeições, ao sono e, eventualmente, ao sexo. (que correspondem a formas veladas de privatização do espaço-tempo) implicam na segre-
Não capitulemos, entretanto, por antecipação. Nossa constatação de que o tempo livre é gação sócio-espacial, obtida através de um duplo processo de fragmentação e homogenei-
uma ficção, apesar de óbvia, nos permitirá retomar o argumento principal desta exposição, zação do tecido social e urbano. Assim, a instauração do espaço-tempo abstrato equivale à
que consiste justamente na impossibilidade de se pensar o tempo livre como uma entidade eliminação das diferenças, isto é, à negação da cidade e da vida urbana, tal como foram his-
autônoma, desligada dos tempos da vida cotidiana. toricamente instituídas.
A moderna distinção entre o tempo do trabalho e o tempo livre não passa de uma abs- A nova escassez do espaço-tempo produzida (e imposta) pelo poder econômico se afir-
tração vazia e, portanto ilusória, engendrada pela economia capitalista. Ao reduzir o tempo ma, portanto, como uma das chaves para a compreensão da problemática do urbano, focali-
a uma mercadoria, a racionalidade dominante instituiu o tempo abstrato, ou seja, o tempo zada aqui através da consideração do lazer e do tempo livre na sociedade contemporânea.
linear, repetitivo e uniforme da produção capitalista. Trata-se do tempo-mercadoria, definido A cidade, tomada de assalto, saqueada, expropriada, negada, não é, entretanto, elimina-
por Guy Debord como sendo “uma acumulação infinita de intervalos equivalentes”17, ou da de uma vez por todas. Ela resiste ao se transformar. O valor de uso do espaço-tempo não
ainda, “a temporalidade do inferno, do eternamente idêntico”, de que nos fala Walter desaparece.22 Os usos do espaço e do tempo, que implicam em apropriação, reaparecem nas
Benjamin.18 práticas sócio-espaciais cotidianas mediadas pelo corpo, em contradição dialética com o valor
Confrontado com o tempo do trabalho, o tempo livre do trabalhador é representado de troca, que implica em propriedade.23
como vazio e inútil, passível, portanto, de se tornar um tempo disrruptivo que ameaçaria a Falar de um tempo-lugar para o cultivo dos corpos e do espírito é, portanto, falar de uma
estabilidade e a previsibilidade dos ritmos da produção. Dessa forma, minimizar, controlar e trincheira de resistência às estratégias de opressão instituídas pelo espaço-tempo abstrato.

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E essa forma de resistência coloca o corpo-espírito no centro da cena.24 O corpo, afirman- 18 Apud. Sérgio Paulo Rouanet, A razão nômade. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1993, p. 55.

do-se simultaneamente como sujeito e objeto, reivindica o direito à diferença e o direito à 19 Henri Lefebvre. O direito à cidade. São Paulo: Ed. Moraes, 1991, pp. 81-2.

apropriação do tempo e do espaço, modalidade superior da liberdade.25 20 Milton Santos. A natureza do espaço: espaço e tempo: razão e emoção. São Paulo: Hucitec,
1999, p. 259.
21 Henri Lefebvre. La production de l’espace. Paris: Anthropos, 2000, p. 333.
Notas 22 Ana Fani Alessandri Carlos. Espaço-tempo na metrópole: a fragmentação da vida cotidiana. São
1 Atualmente denominado Palácio Gustavo Capanema, este prédio, inaugurado em 1945, foi o pri- Paulo: Contexto, 2001, p. 38.
meiro arranha-céu assumidamente modernista construído no mundo. 23 Lefebvre, op. cit., 2000, p. 411.
2 Le Corbusier. Manière de penser l’urbanisme. Éditions Gonthier: Paris, 1966, pp. 82 e 153. 24 Ana Clara Torres Ribeiro. “O sujeito corporificado e bioética, caminhos da democracia”
3 Nelson Carvalho Marcellino. Pedagogia da animação. 5ª ed., Campinas: Papirus, 2003, p. 31. 25 Henri Lefebvre. La revolucion urbana. Madri: Alianza Editorial, 1972, p. 147.
4 Leon Krier. Tradition - Modernisme - Modernite, in Archives d’Architecture Moderne, 1987, no.
35/36.
5 Le Corbusier. Op. cit., 1966, pp. 59-91.
6 Cristovão Fernandes Duarte. Forma e movimento. Rio de Janeiro: PROURB-FAU-UFRJ, 2006.
7 Juergen Habermas. A nova intransparência, in Novos Estudos CEBRAP no. 18, set. 87, p.114.
8 Sérgio Paulo Rouanet. As razões do iluminismo , São Paulo: Cia da Letras, 1987, p.163.
9 Juergen Habermas. Arquitetura moderna e pós-moderna, in Novos Estudos CEBRAP no. 18, set.
87, p.124.
10 Karl Marx. Elementos fundamentales para la critica de la economia política (Grundisse) 1857-
58, México, Siglo XXI, 1986.
11 Le Corbusier, op. cit., p. 8. Cumpre esclarecer que Corbusier, ao contrário de Marx, trabalhava
com uma perspectiva assumidamente reformista, como fica claro nas palavras finais do livro Towards a
new architecture.: “Arquitetura ou revolução. A revolução pode ser evitada”; ver Le Corbusier. Towards
a new architecture. New York: Dover Publications, 1986.
12 Henri Lefebvre. A vida cotidiana no mundo moderno. São Paulo: Ática, 1991, p. 61.
13 Eduardo Vasconcellos. Transporte urbano, espaço e equidade: análise das políticas públicas.
São Paulo: Annablume, 2001, pp. 172-4.
14 Região Metropolitana de São Paulo – RMSP, 1997. Ver também relatório produzido pela
Associação Nacional de Transporte Público - ANTP: O transporte na cidade do século XXI. ANTP, 12º
Congresso Brasileiro de Transportes e Trânsito. Olinda - PE, 1999.
15 Duarte. op. cit.
16 Roberto Kurz. A expropriação do tempo. Folha de São Paulo, Caderno MAIS! (Edição 25.477),
Domingo, 03/01/1999.
17 Guy Debord. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997, p. 103.

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