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Agradecimentos
Juntos, expressamos nossa gratidão aos mais de 3 milhões de professores e
professoras do nosso país. Essa apostila é dedicada aos verdadeiros heróis e heroínas que atuam
todos os dias mudando as gerações e transformando o Brasil.

Vocês são nossos maiores Mestres. E é por cada um de vocês que sempre nos
dedicamos a aprimorar nosso trabalho!

“Não temos que ser perfeitos hoje. Não temos de ser melhores do que outra
pessoa. Tudo o que precisamos fazer é ser o melhor que pudermos.” Joseph B. Wirthlin

Podemos mudar a educação do nosso país se dermos o primeiro passo,


transformando um coração, um aluno de cada vez!

Bons Estudos!

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Sumário

Agradecimentos................................................................................................................................................3

Contexto Histórico da Alfabetização no Brasil.............................................................................................5

Concepções de: Ensino e Aprendizagem, Alfabetização e Letramento......................................................9

Como a Criança Aprende..............................................................................................................................11

Conceitos de Alfabetização............................................................................................................................15

Conceitos de Letramento...............................................................................................................................17

O Que a Legislação Vigente Fala Sobre Alfebetização................................................................................21

Por Dentro da BNCC – Base Nacional Comum Curricular......................................................................24

Métodos, Como Aplicar?...............................................................................................................................26

Métodos Sintéticos..........................................................................................................................................28

Métodos Analíticos.........................................................................................................................................32

Vejamos alguns passos do método GLOBAL – CONTOS/TEXTOS:.......................................................35

Ambiente Alfabetizador................................................................................................................................37

Estratégias Lúdicas Para Alfabetizar.............................................................................................................41

O Jogo e o Desenvolvimento da Língua Escrita..........................................................................................43

Rótulos, Jornais, Embalagens e Revistas......................................................................................................48

Prática e Avaliação na Alfabetização. ..........................................................................................................50

O Caminho Percorrido Pela Criança............................................................................................................53

Possibilidades de Intervenção e Práticas em Sala de Aula.........................................................................54

Sobre a Autora.................................................................................................................................................57

Quem Somos...................................................................................................................................................58

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Contexto Histórico da Alfabetização no Brasil

É de extrema importância iniciar nosso estudo conhecendo o percurso histórico


da alfabetização no Brasil, desde meados dos anos 1880 até os dias atuais, com a implementação
da Base Nacional Comum Curricular.

Fazendo um breve resumo da linha do tempo da alfabetização no Brasil, podemos


destacar os seguintes momentos: entre 1880 e 1920, houve um embate teórico entre métodos
sintéticos e analíticos. Entre 1920 e 1970 predominaram os testes ABC, e após imperou o
tecnicismo com uma brusca separação entre teoria e prática. Durante o período da Ditadura
Militar, 1964 e 1985, houve um sincretismo pedagógico, deixando de lado a pedagogia de Paulo
Freire, já as décadas de 1985 até 2000 são caracterizadas pelas influências construtivistas. Dos
meados dos anos 2000 até os dias atuais tem-se discutido teorias que levam em consideração
o alfabetizar em uma perspectiva do letramento, assim o significado da língua escrita deve
prevalecer sobre o simples ensino de um código.

Nos anos de 1880 até 1920 o ato de escrever era ligado diretamente ao fato de
se ter boa caligrafia, estar alfabetizado era sinônimo de ser civilizado, já o ato de ler significava
a possibilidades de adquirir novos conhecimentos, porém não se considerava as habilidades de
ler e escrever para comunicação dos indivíduos.

Em 1882, 80% da população brasileira era analfabeta, e com a lei Saraiva,


deste mesmo ano, foi proibido o voto de pessoas analfabetas, com um discurso idealizador de
incentivo a busca por escolarização. No ano de 1890 começaram a formar normalistas que logo
após assumiam salas para o ensino das primeiras letras. A partir da década de 1890, professores
eram instruídos a alfabetizar através dos métodos analítico (veremos as características de cada
método no módulo 4). Até 1920 houve um forte embate entre os defensores dos métodos
analíticos e sintéticos.

Na década de 1920 destacou-se no canário educacional brasileiro a difusão do


Movimento Escola Nova. Nesse período, criou-se os testes ABC, compostos por oito provas que
tinha como objetivo medir as capacidades dos alunos para iniciar o processo de alfabetização,
assim os alunos que possuíam tais habilidades eram encaminhados para as salas de alfabetização,
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criando turmas homogêneas, e aqueles que não atingiam tais objetivos eram encaminhados
para salas de pré-alfabetização. Este modelo durou até 1970, onde cabia aos professores aplicar
os testes e classificar os educandos, de acordo com objetivos e manuais pré-estabelecidos.

O período vivenciado durante a Ditadura Militar destaca-se classificado como


tecnicista, o que contribuiu muito para separar ainda mais a teoria da prática. Nesta mesma
época começaram a surgir rumores de uma Pedagogia Libertadora, de Paulo Freire. O autor
propunha um processo de alfabetização em que prevalecesse o significado das palavras, e que
além da leitura da palavra os alunos pudessem fazer uma leitura e compreensão de mundo.

O final da década de 1970 foi cercado por diversos movimentos sociais, após a
queda da Era Militar, iniciou-se a redemocratização do país, e com isso inicia-se também um
novo período na área educacional brasileira, principalmente no que diz respeito a alfabetização.
Os anos seguintes foram tumultuados, com um cenário político conturbado, os índices de
analfabetismo dos brasileiros chegavam aos 26% e o fracasso escolar atingia 19% dos alunos
das séries iniciais.

Aqui iniciou-se discursos fundamentados nas teorias construtivistas. Em 1986


“A Psicogênese da Língua Escrita” de Emília Ferreiro e Ana Teberosky, passa a fazer parte dos
discursos das normatizações para professores de turmas de alfabetização. No asno de 1990, a
educação brasileira ia de mal a pior, gerou-se uma ideia de que os professores das turmas de
alfabetização não possuíam habilidades suficientes para alfabetizar os alunos.

Em 1997, os Parâmetros Curriculares Nacionais foram fundamentados na teoria


construtivista de Piaget, e na alfabetização, Emilia Ferreiro e Ana Teberosky contribuíram de
forma significativa com o livro Psicogênese da Língua Escrita, que defende que a construção da
escrita deve ser realizada pelo sujeito em processo de alfabetização através da sua relação com
o objeto de conhecimento, mediada pelo professor.

Entre os anos de 2001 e 2005 as teorias destas autoras foram difundidas pelo
MEC através de cursos de capacitação para professores, como o Programa de Formação de
Professores Alfabetizadores. Mas não foi somente a teoria construtivista que permearam este
período, a partir do ano de 2000 o letramento passou a fazer parte do contexto educacional
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brasileiro. Assim o termo e as pesquisas ao Letramento passaram a conquistar um espaço
privilegiado, através dos estudos de Magda Soares e de cursos como o Pró Letramento (programa
de formação continuada do governo federal).

A partir de ano de 2010, todas as crianças com seis anos deveriam estar
matriculadas no primeiro ano do Ensino Fundamental nas escolas públicas e privadas de
todo o país, a entrada de crianças de seis anos no Ensino Fundamental aumentou o tempo de
escolarização para nove anos.

As teorias na perspectiva do letramento tornaram-se oficial e os livros didáticos


distribuídos pelo MEC, para serem aprovados, necessitam fazer uso deste termo. Em 2012 o
governo federal assinou o PNAIC – Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa e os
professores passaram a receber cursos de formação continuada. O PNAIC foi um compromisso
assumido por governos federal, estaduais, municipais e distrito federal para assegurar que todas
as crianças fossem alfabetizadas até os oitos anos de idade, ao final do terceiro ano do ensino
fundamental de nove anos.

De acordo com o MEC, o objetivo principal deve ser formar cidadãos mediante
a capacidade de aprender, tendo como meios básicos o pleno domínio da leitura, da escrita e
do cálculo; a compreensão do ambiente natural e social, do sistema político, da tecnologia, das
artes e dos valores em que se fundamenta a sociedade.

A proposta pedagógica deve ser coerente com os objetivos da segunda infância,


os conteúdos a serem abordados no primeiro ano do novo Ensino Fundamental não são os
abordados na antiga pré-escola. No primeiro ano do ensino fundamental de nove anos prioriza-
se antes de tudo a qualificação da alfabetização e do letramento, ou seja, o professor deve
reorganizar as estratégias e recursos pedagógicos para trabalhar a alfabetização, o letramento e
o raciocínio lógico de acordo com a faixa etária e as necessidades dos alunos de seis anos.

A BNCC – Base Nacional Comum Curricular – é outra ação que visa aumentar
os números de crianças alfabetizadas no Brasil e define que a alfabetização deverá ocorrer
até o término do segundo ano do ensino fundamental. Atuais textos divulgados pelo governo
federal junto ao Ministério da educação deixam claro que os alunos das turmas de alfabetização
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devem ter o domínio da leitura e da escrita, algo que é fundamental para o pleno exercício
da cidadania, alfabetizar e formar sujeitos que façam a leitura da realidade para muito além
das letras. A escrita não deve ser mais concebida apenas como código de transcrição gráfica
das letras. Escola e professores precisam proporcionar aos alunos um ambiente alfabetizador,
permitindo o contato com frequente e significativo com os livros e as mais variadas formas de
leitura e escrita, quanto mais situações de uso da leitura e da escrita os alunos forem expostos
mais rápidos e eficazes será o processo de alfabetização destes alunos.

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Concepções de: Ensino e Aprendizagem, Alfabetização e Letramento

Neste módulo, estudaremos sobre algumas concepções de como se estabelece


a aprendizagem da leitura e da escrita nos alunos. Esta compreensão de como ocorrem os
processos de ensino e aprendizagem em alunos de turmas de alfabetização irão definir suas
práticas pedagógicas como professor.

É muito importante que o professor conheça as concepções de alfabetização e


letramento, tais abordagens irão contribuir para a definição de objetivos claros e eficazes, que
favoreçam a aprendizagem dos alunos, assim como qual será o seu perfil enquanto profissional.

Caso você entenda que estar alfabetizado é saber codificar e decodificar, seu
método de trabalho seguirá por um caminho, mas se você entender que alfabetização inclui
também a compreensão do sistema alfabético, a participação em situações reais de leitura e de
escrita, a compreensão de mundo, sua prática pedagógica percorrerá outros caminhos.

A forma como o professor elabora seus objetivos e como prepara suas atividades
revela como esse entende aquele sujeito que aprende. A alfabetização não pode ser algo que
acontece fora de um contexto, por trás do que chamamos de ler e escrever existem competências
específicas para cada etapa do desenvolvimento infantil.

O espaço chamado de sala de aula é privilegiado, pois permitem troca de


experiências, conhecimentos e vivências. As rotinas, as relações e as representações que ali se
encontram são expressões de um sistema social.

Tudo aquilo que o aluno já sabe, sua história, sua cultura, suas especificidades
devem contemplar todas as situações de aprendizagens. Ao elaborar as atividades o professor
deve ter como objetivo permitir que seus alunos tenham a possibilidade de vivenciar experiências
múltiplas, estimular a criatividade, a imaginação e desenvolver as mais diversas linguagens.

Como foi possível verificar no módulo 1, nosso país possui uma longa história de
insucesso no que diz respeito à alfabetização, assim, o professor além de dar conta deste contexto
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desastroso, deve também levar em consideração as particularidades do aluno que aprende e os
novos paradigmas de alfabetização. Compreender os processos pelos quais a criança percorre
até, de fato, aprender a ler e a escrever é um grande desafio para professores alfabetizadores.

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Como a Criança Aprende

“O aluno constrói o seu desenvolvimento na interação com o meio em que vive.


Portanto, depende das condições desse meio, da vivência de objetos e situações, para ultrapassar
determinados estágios de desenvolvimento e ser capaz de estabelecer relações cada vez mais
complexas e abstratas. Os entendimentos dos alunos são decorrentes do seu desenvolvimento
próprio frente a uma e outras áreas de conhecimento.”
Jussara Hoffman

Estudos da Psicolinguística, que dão continuidade aos estudos de Piaget sobre


Psicogenética, vem ao longo dos anos tentando responder como a criança constrói este processo
que é o sistema da escrita, por isso torna-se tão importante entender o que e como a criança
aprende quando aprende a ler e a escrever. Já vimos que ao longo dos anos houve muitas
mudanças na forma de ensinar a ler e a escrever (mais adiante falaremos sobre os métodos de
alfabetização).

É preciso ter em mente que ler e escrever é um processo contínuo que envolve a
construção e reconstrução de normas próprias de um código linguístico. O aluno constrói como
sujeito ativo, seu conhecimento sobre leitura e escrita. O processo de aprendizagem da leitura e
da escrita não é fácil, nem simples. Trata-se de uma evolução complexa, individual e subjetiva,
porém exige estímulo, motivação e troca de informações.

Para estabelecer uma correta e completa relação entre os sistemas de fala e escrita
o aluno carece de uma diversificada interação com leitura e escrita, assim baseando-se nos
modelos que o meio lhe oferece o aluno vai construindo seu próprio entendimento do que é ler
e escrever.

Antes de apropriar-se de um sistema convencional, a criança cria e recria, e utiliza


de normas e sinais próprios para reapresentar a sua forma de escrita. Nesse caso, o aluno vai
formulando hipóteses, confronta diferenças da sua produção pessoal com a que encontra no
ambiente alfabetizador e social.

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Quando começa a aprender escrever a criança rabisca, mistura letras, símbolos e
números, cria, experimenta e assim passa a ajustar a sua escrita à de um adulto, até se apropriar
de fato do sistema convencional de escrita. Para que estas experiências sejam positivas, é
necessário que haja o “erro”, esses são o que chamamos de erros construtivos e serviram como
alavanca no processo de aquisição da escrita.

A criança deve ser vista pelo professor como um sujeito capaz de pensar e fazer
relações em atividades de leitura e escrita mesmo antes de estar alfabetizada, ao ser confrontada
com experiências diversificadas surgem conflitos cognitivos que podemos nomear de motor da
aprendizagem.

Para chegar ao patamar de alfabetizada a criança percorre um caminho de muitas


descobertas, onde deve ser desafiada a pensar e procurar respostas cada vez mais próximas do
conceito alfabético da escrita. A partir do momento em que o professor acredita na capacidade
da criança de reformular suas ideias ele dá condições para que ela evolua.

O processo de alfabetização demanda que a criança perceba para que serve a


leitura e a escrita, não perdendo a função comunicativa e social destas habilidades. As práticas
pedagógicas devem priorizar um trabalho que desenvolva competências, como, para que se
escreve, o que se deseja que o outro saiba, quais sentimentos e experiências serão utilizadas,
qual o formato de “texto” adequado.

Durante o processo de alfabetização a criança deve ser estimulada a experimentar


ler e escrever de diversas maneiras, exercitando sua autonomia, sem censuras ou correções
constantes e constrangedoras, maiores serão as possibilidades de sucesso ao concluir esse
processo.

Além de aprender a escrever, a criança precisa conhecer a ideia de função social


da escrita, compreender que a escrita serve para comunicar, informar, divertir, ou seja, fazer
registros sociais, e a leitura estará diretamente ligada a estas mesmas funções.

O processo de alfabetização precisa ser prazeroso e instigante, o aluno precisa

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receber motivação para construir seu conhecimento. As práticas pedagógicas devem promover
atividades dinâmicas e lúdicas, com problemas a serem resolvidos e com informações
contextualizadas, nesse sentido as cópias mecânicas e as repetições infinitas das famílias silábicas
devem ser dispensadas.

Estudos mostram que para a aprendizagem da escrita e da leitura revela a


importância da atenção do cérebro e da motivação, para aprender conhecimentos formais,
como a escrita a criança depende de processos complexo de atenção. A atenção é necessária
para perceber as informações presentes no contexto, como para realizar processos internos do
pensamento que caracterizam a dinâmica da aprendizagem e a formação de memórias.

A motivação é um componente importante no processo de aprendizagem, a


motivação está articulada diretamente ao sistema emocional, a percepção do contexto que
cerca o aluno e a visão de si mesmo. Cabe ao professor propor situações didáticas que motivem
seus alunos garantindo seu interesse pelo tema proposto, e sua disposição de realizar atividades
que elevem os conhecimentos das crianças.

O papel do professor é fundamental no desenvolvimento de seus alunos, tanto no


momento de organizar e planejar as atividades como nos tipos de intervenções que irá oferecer
para as crianças diante de situações que sejam desafiadoras.

Para que a evolução do aluno ocorra o professor precisa entender como ocorre
a construção individual de cada um, colocando-se no ponto de vista do ser que aprende e
verificar como e por que ele pensa e faz a sua escrita de determinada maneira, nessa direção o
professor destaca-se como mediador entre o aluno e o objeto de conhecimento. As intervenções
devem ser planejadas para favorecer a atuação do aluno sobre aquilo que ele escreve.

Nesse contexto, o professor precisa de domínio do conteúdo teórico e estabelecer


constante intercâmbio entre teoria e prática, o professor mediador não limita-se a dar atividades
e corrigi-las, mas sim de identificar os avanços dos alunos e qual o momento e maneira correta
de fazer intervenções. Esse tipo de trabalho requer um profissional seguro, capaz de contribuir
para que a criança consiga adquirir todos os conhecimentos necessários para ler e escrever com
autonomia a partir de suas próprias ideias e construções.
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Estudos recentes da neurociência revelam que as funções executivas do cérebro são
fundamentais para aprendizagem, estas funções são definidas como um conjunto de habilidades
e capacidades que nos permitem identificar objetivos, planejar e executar ações para atingi-los.

Os processos de aprimoramento das funções executivas corresponde ao


desenvolvimento do córtex frontal do cérebro, região que amadurece lentamente, mas que tem
surtos de evolução entre 7 e 9 anos, em termos práticos, após os 7 anos de idade, a criança
está apta a definir metas e organizar pensamentos, servindo-se de conhecimentos previamente
acumulados e de recuperação de memória de suas experiências.

Para aprendizagem da leitura e da escrita o aluno necessita ter estas habilidades,


para ter contato com conceitos linguísticos mais sistematizados que exigem organização,
planejamento para enfrentar atividades desafiadoras. É importante destacar que os objetivos
a serem alcançados devem ser sempre relacionados aquilo que é valorizado pela cultura que a
criança está inserida e podem ser internalizadas por ela através de observações de modelos pré-
estabelecidos pelo seu grupo social.

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Conceitos de Alfabetização

O que é alfabetização? Devemos considerar alfabetizada a pessoa que lê e escreve?


Para muitas pessoas ler e escrever resume-se ao ato de codificar e decodificar? Ao procurarmos
a palavra analfabetismo no dicionário encontraremos que se trata de pessoas que não sabem
ler e escrever.


Por muito tempo se diferenciava o indivíduo alfabetizado do analfabeto
exclusivamente pela consciência fonológica, ou seja, pela capacidade de associação entre sons e
letras para a construção de palavras.

Atualmente a alfabetização não se restringe apenas ao fato do sujeito saber ler e


escrever ou fazer adaptações de códigos, mas envolve um processo complexo sobre representação
da fala. Para aprender a ler e escrever a criança precisa pensar sobre a escrita e como funciona
graficamente no uso da linguagem.

No decorrer a história da humanidade o conceito de alfabetização passou por


diferentes perspectivas. Vejamos o que pensam sobre alfabetização alguns autores conceituados
sobre o assunto, de acordo com Ferreiro (1999, p. 47):

Alfabetização não é um estado ao qual se chega, mas um processo cujo início é,


na maioria dos casos, anterior a escola e que não termina ao finalizar a escola primária.

Magda Soares 2004 nos coloca que:


Alfabetização é dar acesso ao mundo da leitura. Alfabetizar é propiciar condições
para que o indivíduo tenha acesso ao mundo da escrita, tornando-se capaz não só de ler e
escrever, enquanto habilidades de decodificação e codificação do sistema da escrita, mas,
sobretudo, de fazer uso real e adequado da escrita e todas as funções que ela tem em nossa
sociedade e, também como instrumento na luta pela conquista da cidadania plena.

Freire (1994, p.32) aponta que alfabetização é:


É construir um conhecimento. Alfabetizar-se é adquirir uma língua escrita através
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de um processo de construção do conhecimento com uma visão crítica da realidade. A criança
é o sujeito do processo educativo, não havendo dicotomia entre o aspecto cognitivo e afetivo,
mas uma relação dinâmica, prazerosa, dirigida para o ato de conhecer o mundo.

Ao analisarmos os trechos citados acima podemos notar que o termo alfabetização


perpassa diferentes aspectos, porém todos eles enfatizam o fato que alfabetizar se trata de um
processo de construção do conhecimento, que vai além da decifração de códigos e não possui
um fim, mas um processo que está em constante reconstrução.

Alfabetização é aprender o alfabeto e saber como utilizá-lo como um código


de comunicação, podemos ainda incluir o aprendizado e construção da gramática em seus
diferentes níveis. Ler significa interpretar, compreender e contestar para que a produção de
conhecimento seja adquirida e para isso é preciso que tenha acesso gradativamente a diferentes
tipos de textos.

A alfabetização é responsável pela socialização das pessoas por possibilitar trocas


de informações simbólicas com outros indivíduos e outras culturas. Por isso, é considerada
como um fator que estimula o exercício de cidadania e o desenvolvimento da sociedade como
um todo. Nos dois primeiros anos do ensino fundamental a alfabetização formal é assimilada.
Após esse período de fixação, o aluno já poderá ser considerado um leitor. Começa então a fase
de interpretação de textos.

A aquisição do sistema de escrita, alfabetização, envolve conhecimentos que o


aluno já possui sobre esse objeto ao chegar à escola, quanto a intervenção do professor que
alfabetiza, a maior ou menor eficiência no uso da leitura e da escrita e na organização de
pensamentos depende das experiências positivas ou negativas de leitura e de escrita vivenciadas
pela criança dentro e fora do contexto escolar.

Entendida como o domínio de uma tecnologia, a alfabetização é um processo


pontual, cujo término pode ser identificado. É a ação “de ensinar ler e escrever, que leva o
aprendiz a conhecer o alfabeto, a mecânica da escrita/leitura, a se tornar alfabetizado” (ROJO,
2009, p.10). Já o processo de letramento é constante e deve iniciar quando a criança ainda não
está alfabetizada, o letramento continua seu curso de desenvolvimento além da alfabetização.
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Conceitos de Letramento

Podemos considerar Letramento um termo novo, ele surgiu entre os pesquisadores


e linguístas em meados dos anos 1985. O termo no Brasil como tradução de literacy – que
denota a condição, estado, fato de ser, aquele que aprende a ler e escrever. Assim, a palavra
letramento surgiu para nomear o processo que acontece para além de aprender a ler e escrever.

No Brasil , há diversos teóricos que discutem e buscam contribuir para a


compreensão do letramento na alfabetização, um trecho de Rojo (2009, p.11) reproduz:
“Defendo que um dos objetivos principais da escola é possibilitar que os alunos participem das
várias práticas sociais que se utilizam da leitura e da escrita (letramentos) na vida da cidade, de
maneira ética, crítica e democrática”.

Segundo Kleiman (1995) e Soares (1998), o termo Letramento começou a ser


utilizado no Brasil por especialistas educacionais a partir de 1989, com uma publicação de
Mary Kato. De acordo com Soares (1998) quando se verificou que não bastava saber ler e
escrever, e sim fazer usos sociais da leitura e da escrita , surgiu o termo letramento para se
contrapor à alfabetização no sentido de apenas codificar/decodificar a linguagem verbal.

O conceito de letramento entra no cenário educacional e amplia a visão de


alfabetização, destacando não apenas o domínio da prática de ler e escrever, mas sim, o uso
que o sujeito faz destas habilidades em práticas sociais. Magda Soares (1998) define letramento
como:

Letramento é o resultado da ação de ensinar e aprender as práticas sociais


de leitura e escrita; é o estado ou condição que adquire um grupo social ou indivíduo com
conseqüência de ter-se apropriado da escrita e de suas práticas sociais.


A autora considera que o termo letramento traz consequências políticas,
econômicas e culturais para os sujeitos e indivíduos que se apropriam da escrita, fazendo com
que tais habilidades se tornem parte de suas vidas como meio de expressão e comunicação. Mas
afinal, qual é a diferença entre estar alfabetizado e letrado?

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Para Soares (2000), letramento é mais que alfabetização, é o estado que vive o
indivíduo que não somente sabe ler e escrever, mas exerce as práticas sociais de leitura e escrita
que circulam na sociedade em que vivem.

A diferença está centrada na dimensão e na qualidade do domínio da leitura e


da escrita. Ao considerarmos uma pessoa alfabetizada, entendemos que esta domina o código
alfabético, conhece os sons das letras, é capaz de ler e de escrever textos simples, mas não é
necessariamente um usuário da leitura e da escrita na sua vida social.

Este processo tem início quando a criança começa a conviver com as diferentes
manifestações de escrita, como rótulos, placas, revistas, jornais, sinalização de trânsito, e continua
durante toda a sua vida. A alfabetização e letramento são processos distintos, cada um com
suas particularidades, porém ambos devem ser levados em consideração para aprendizagem da
leitura e da escrita.

O professor alfabetizador não pode perder a especificidade da alfabetização


como o domínio do sistema. Em se tratando de letramento, a atenção deste professor deve estar
voltada ao fato de fazer com que o aluno se aproprie e se envolva em práticas sociais fazendo
uso do sistema alfabético.

Letramento vai além do conceito de escolaridade e de alfabetização. O fenômeno


de letramento perpassa o mundo da escrita, assim a escola como o fator mais importante
neste processo focaliza não o letramento como prática social, mas apenas uma das práticas de
letramento: a alfabetização, o processo de aquisição dos códigos é concebido como competência
necessária para a promoção e sucesso escolar.

Ao tomar consciência do termo letramento, torna-se maior o compromisso em


assumir uma dimensão sócio-histórica em nossas práticas de letramento, pois conceber cidadania
em uma sociedade letrada requer oferecer condições para que os indivíduos possam lidar com
autonomia com a palavra escrita, de modo que consigam atender as suas necessidades humanas
e sociais, ocupando o espaço que lhes cabe na sociedade de que fazem parte.

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Reconhecendo a importância e as características de cada um desses processos,
o professor precisa combinar a alfabetização com letramento, garantindo aos alunos tanto
a apropriação do sistema de escrita, como o domínio de práticas sociais de leitura e escrita.
O professor como mediador deste contexto de construção de conhecimentos deve aceitar o
desafio de “alfabetizar letrando”, possibilitar que o processo se desenvolva em um ambiente
alfabetizador, onde a criança se relacione com diversos tipos de textos ao mesmo tempo que
constrói sua base alfabética.

Rojo (2009, p. 98) nos explica que o termo letramento “busca recobrir os usos
e práticas sociais de linguagem que envolvem a escrita de uma ou de outro maneira, sejam
eles valorizados ou não valorizados, locais ou globais, recobrindo textos sociais diversos
(família, igreja, trabalho, mídias, escola, etc.) numa perspectiva sociológica, antropológica e
sociocultural”. Para sintetizar esse tema, seguem algumas considerações de Soares (2004).

O que se propõe é, em primeiro lugar, a necessidade de reconhecimento da


especificidade da alfabetização, entendida como processo de aquisição do sistema da escrita,
alfabético e ortográfico; em segundo lugar, e como decorrência, a importância de que a
alfabetização ocorra num contexto de letramento – entendido este, no que se refere à etapa
inicial da aprendizagem da escrita, como a participação em eventos variados de leitura e escrita,
e o consequente desenvolvimento de habilidades de uso da leitura e da escrita nas práticas sociais
que envolvem a língua escrita, e de atitudes positivas em relação a essas práticas; em terceiro
lugar , o reconhecimento de que tanto a alfabetização quanto o letramento têm diferentes
dimensões ou facetas, a natureza de cada um deles demanda uma metodologia diferente, de
modo que a aprendizagem inicial da língua escrita exige múltiplas metodologias, algumas
caracterizadas por ensino direto, explícito e sistemático – particularmente a alfabetização, em
suas diferentes facetas – outras caracterizadas por ensino incidental, indiretas e subordinados a
possibilidades e motivações das crianças; em quarto lugar, a necessidade de rever e reformular a
formação de professores das séries iniciais do ensino fundamental, de modo a torná-los capazes
de enfrentar o grave e reiterado fracasso escolar na aprendizagem inicial da língua escrita nas
escolas brasileiras.

É possível perceber que o conceito do termo letramento pressupõe uma visão mais
ampla do termo alfabetização, discute a necessidade de entendermos as práticas pedagógicas
como um conjunto de atividades manifestadas por determinado grupo social, em diferentes
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esferas da vida, demonstrando a demanda por diferentes atividades para os mais diversos
grupos por meio do uso da linguagem.

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O Que a Legislação Vigente Fala Sobre Alfebetização

A partir de ano de 2010, todas as crianças com seis anos deveriam estar
matriculadas no primeiro ano do Ensino Fundamental nas escolas públicas e privadas de
todo o país, a entrada de crianças de seis anos no Ensino Fundamental aumentou o tempo de
escolarização para nove anos.

A Lei de Diretrizes e Bases Nacionais da Educação, a LDB nº 9.394 de 20 de


dezembro de 1996 sinalizou para um ensino obrigatório de nove anos de duração. A Lei
nº 10.172/2001 aprovou o Plano Decenal da Educação, visando estabelecer um conjunto de
diretrizes e metas para todos os níveis e modalidades de ensino, uma das ações previstas no
plano decenal é a ampliação do Ensino Fundamental de oito para nove anos. A Lei nº 11.274 de
6 de fevereiro de 2006 altera a redação dos artigos 29, 30, 32, 87 da Lei nº 9.394/96, dispondo
sobre a duração de nove anos para o Ensino Fundamental com matrícula obrigatória a partir
dos seis anos de idade. Os sistemas municipais e estaduais teriam o prazo de cinco anos para
implantar a obrigatoriedade da ampliação do Ensino Fundamental, ou seja, o ano de 2010. O
PNE expõe sobre o atendimento as crianças de 06 anos no ensino fundamental que:

...requer planejamento e diretrizes norteadoras para o atendimento integral da


criança em seu aspecto físico, psicológico, intelectual e social, além de metas para a expansão
do atendimento, com garantia de qualidade. Essa qualidade implica assegurar um processo
educativo respeitoso e construído com base nas múltiplas dimensões e na especificidade do
tempo da infância.

As leis determinam que o Ensino Fundamental de nove anos inicie-se aos seis
anos de idade, de acordo com o MEC o objetivo é formar cidadãos mediante a capacidade
de aprender, tendo como meios básicos o pleno domínio da leitura, da escrita e do cálculo; a
compreensão do ambiente natural e social, do sistema político, da tecnologia, das artes e dos
valores em que se fundamenta a sociedade.

Com objetivo de que todas as crianças fossem alfabetizadas em Português e


Matemática até o final do terceiro ano do ensino fundamenta, em 2012 instituiu-se, através da
portaria 867 do MEC o Pacto pela Alfabetização na Idade Certa – PNAIC. Em 2017, o PNAIC
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passou por algumas alterações e passou a abranger coordenadores e professores da Educação
Infantil. O projeto pretendia capacitar todos professores alfabetizadores que atuassem na
educação infantil até o terceiro ano do ensino fundamental.

A proposta pedagógica deve ser coerente com os objetivos da segunda infância,


os conteúdos a serem abordados no primeiro ano do novo Ensino Fundamental não são os
abordados na antiga pré-escola. No primeiro ano do ensino fundamental de nove anos prioriza-
se antes de tudo a qualificação da alfabetização e do letramento, ou seja, o professor deve
reorganizar as estratégias e recursos pedagógicos para trabalhar a alfabetização, o letramento e
o raciocínio lógico de acordo com a faixa etária e as necessidades dos alunos de seis anos.

O domínio da leitura e da escrita é fundamental para o pleno exercício da


cidadania, alfabetizar significa formar sujeitos que façam a leitura da realidade para muito além
das letras. A escrita não é mais concebida apenas como código de transcrição gráfica das letras.

Fazem-se necessário uma atenção especial para como se devem avaliar os alunos
do primeiro ano do Ensino Fundamental, levando em consideração as necessidades e realidades
em que todos os alunos se encontram. A avaliação no processo de alfabetização se da em
uma dimensão formativa continuada e terá a função diagnostica capaz de indicar os níveis, os
conhecimentos e as dificuldades ao longo do processo de alfabetização e quais as estratégias de
intervenção necessárias para os avanços dos alunos.

Conforme a LDB nº 9.394/96 é direito das crianças com seis anos uma educação
que garanta seu desenvolvimento integral, em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social.
De acordo com o Art.31 da LDB nº 9.394/96: a avaliação far-se-á mediante o acompanhamento
e registro de seu desenvolvimento, sem o objetivo de promoção, mesmo para o acesso ao ensino
fundamental. De acordo com o Parecer CNE/CEB nº4/2008 a avaliação deve ser:

Processual, participativa, formativa, cumulativa e diagnostica. Não pode repetir


a prática pedagógica, tradicional, limitada a avaliar os resultados finais traduzidos em notas ou
conceitos. Não pode ser adotada como mera verificação de conhecimentos visando o caráter
classificatório.

22
O objetivo da ampliação do ensino Fundamental para nove anos é assegurar a
todas crianças um tempo mais longo de convívio escolar, maiores oportunidades de aprender e
com isso uma aprendizagem significativa. Portando é necessário que esta ampliação seja feita
com cuidado, é preciso ter claro que ampliação não é sinônimo de antecipação, professores,
coordenação, supervisão e direção precisam de estratégias adequadas para que este processo
seja feito de maneira correta sem prejudicar a aprendizagem e o desenvolvimento cognitivo dos
alunos. Sendo assim torna-se indispensável à verificação de como este processo vem acontecendo
na prática, nas salas de aula.

No dia 11 de abril, o decreto nº 9.765, que instituiu a Política Nacional de


Alfabetização (PNA), meta do Ministério da Educação lançou o PNA, considerado por muitos
um marco para a educação brasileira. Depois de dezesseis anos da publicação do relatório final
“Alfabetização Infantil: os novos caminhos”, elaborado a pedido da Comissão de Educação e
Cultura da Câmara dos Deputados, o Brasil deu o primeiro passo para ingressar no rol de países
que buscam fundamentar em evidências científicas suas políticas públicas para a alfabetização. 
(acesso ao link ofical em: http://www.brasil.gov.br/100dias/arquivos_pdf/acao-12-decreto-no-9-765-de-11-de-abril-de-2019.

pdf)

A PNA tem como um dos seus princípios a ênfase no ensino dos seis componentes
essenciais para a alfabetização: consciência fonêmica, instrução fônica sistemática, fluência em
leitura oral, desenvolvimento de vocabulário, compreensão de textos e produção escrita. Por
meio da PNA deverão ser implementados programas e ações para a promoção da alfabetização
com base em evidências das ciências cognitivas, aos quais os entes federativos poderão aderir
voluntariamente. A finalidade é melhorar a qualidade da alfabetização no território brasileiro e
combater o analfabetismo absoluto e o analfabetismo funcional.

23
Por Dentro da BNCC – Base Nacional Comum Curricular

A Base nacional Comum Curricular é um documento de nível federal que


determina as competências gerais e específicas essenciais para todos os alunos durantes as
etapas da educação básica (educação infantil, ensino fundamental e ensino médio).

A BNCC deve ser vista como um conjunto de orientação com o objetivo de


nortear as equipes pedagógicas na elaboração de cada currículo local. Este documento tem como
objetivo garantir a todos os estudantes o direito de aprender habilidades para a construção do
conhecimento em todo o território nacional. Assim pretende-se reduzir as desigualdades sociais,
elevando a qualidade do ensino brasileiro.

A Base mantém os principais objetivos previstos em documentos anteriores, como


os Parâmetros Nacionais Curriculares- (PCNs), oficialmente a Base não trás quais abordagens
pedagógicas específicas devem ser trabalhadas, porém deixa bem explícito algumas relações
com o trabalho entre fala e escrita. O documento coloca em destaque a apropriação do sistema
alfabético de escrita e suas especificidades, colocando em foco as ações pedagógicas nos anos
iniciais do ensino fundamental.

O documento também aponta para uma continuidade do trabalho desenvolvido


na Educação Infantil, deixando claro que há uma ligação entre os dois segmentos. É necessário
compreender que ambos estão interligados e, nos anos iniciais do Fundamental, será possível
intensificar e estruturar as experiências com a língua oral e escrita iniciadas na Educação Infantil.

A BNCC, assim como os PCNs, assume a perspectiva enunciativa discursiva de


linguagem, reconhecendo que ela é uma atividade que faz parte de um processo de interação
entre os sujeitos. Estabelece a centralidade no texto como unidade de trabalho e indica a
necessidade de sempre considerar a função social dos textos utilizados. Durante a alfabetização,
isso sinaliza para a importância de que os alunos com textos reais, que partem do contexto
social de cada aluno.

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A partir deste documento, a especificidade da alfabetização é reconhecida e
propõe a mescla de duas linhas de ensino: a primeira indica para a centralidade do texto e para
o trabalho com as práticas sociais de leitura e escrita, a segunda soma a isso o planejamento de
atividades que permitam aos alunos refletir sobre o sistema de escrita alfabética. Ao assumir essa
postura, o documento considera as contribuições da perspectiva construtivista, principalmente
os estudos sobre os processos pelos quais as crianças passam para se apropriar da escrita. Mas
também aponta ser preciso um trabalho com a consciência fonológica e com conhecimento das
letras para ajudar a criança a evoluir em suas hipóteses de escrita.

O ano de escolaridade limite para uma pessoa aprender a ler e escrever foi
uma das questões mais discutidas durante a elaboração da BNCC. O Pacto Nacional pela
Alfabetização na Idade Certa (Pnaic), que é a diretriz anterior, coloca como prazo-limite o 3º
ano. A BNCC antecipou para o 2º ano e aponta que, no 3º ano, o processo continua com mais
foco na ortografia.

A BNCC estabelece cinco eixos para o ensino da Língua Portuguesa, sendo eles:
Oralidade, Leitura, Escrita, Conhecimentos Linguísticos e Gramaticais e Educação Literária.
Assim a alfabetização deve proporcionar que os alunos dominem o sistema de escrita alfabética
e se aproprie de aspectos lingüísticos e no decorrer do ensino fundamental aconteça a progressão
dos conhecimentos, consolidando aprendizagens anteriores e a ampliação de práticas de
linguagem.

25
Métodos, Como Aplicar?

Existem diferentes teorias de aprendizagem que se propõe a explicar como as


crianças aprendem: por associação (estímulo-resposta), pela ação do sujeito sobre o objeto
do conhecimento (construtivismo), pela interação do aprendiz com o objeto do conhecimento
intermediado por outros sujeitos (sociointeracionismo). Estas teorias assumem formação de
professores e embasam métodos e técnicas de alfabetização.

Para professores, assumir uma turma de alfabetização, muitas vezes é uma


responsabilidade que assusta. Muitos professores consideram a tarefa de ensinar a ler e escrever
muito difícil. E realmente, não podemos afirmar que se trata de uma tarefa fácil, porém e
gratificante acompanhar a evolução dos alunos e verificar o quanto eles se desenvolvem e se
encantam quando se descobre leitores e escritores.

Alfabetizar uma turma com 25, 30 alunos, com ritmos de aprendizagens diferentes,
e experiências leitoras e culturais completamente diversas torna esse processo complexo, mas
não é impossível. O professor precisa ter objetivos claros, conhecer os caminhos que devem
ser percorridos, ter calma e fazer intervenções significativas, assim conseguirá alfabetizar sua
turma, de uma maneira agradável.

Existem algumas questões que circulam entre os professores alfabetizadores,


principalmente entre aqueles que irão assumir sua primeira turma. Como iniciar o trabalho com
alfabetização? Como selecionar, organizar e transmitir os conteúdos? Qual método utilizar?

Nem sempre as teorias educacionais e os métodos transmitidos nos cursos normais


e nas faculdades de educação respondem estas questões de forma clara, como realizar, de fato
este trabalho na prática diária.

A questão da metodologia a ser usada em sala de aula não deve ser discutida como
uma questão mais ou menos importante na área da alfabetização, mas aquele profissional que se
propõe a alfabetizar deve possuir um conhecimento teórico-metodológico sobre alfabetização.

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O construtivismo na prática de sala de aula, muitas vezes limita-se a pontos muitos
específicos: trabalhar com o nome das crianças, ensinar o alfabeto associado a esses nomes, ser
mais tolerante com os erros dos alunos em fase de alfabetização e classificar as crianças em
fases. Mas infelizmente isso é muito pouco para dar conta das especificidades que exigem todo
o processo de alfabetização.

O que professores precisam saber é que uma receita mágica, em que todos os
alunos irão aprender a ler e escrever ao mesmo tempo, no mesmo nível, não existe. Cada
professor deve adaptar seus conhecimentos e seus métodos de acordo com a realidade dos
seus alunos, do contexto em que a escola que trabalha está inserida, assim o professor deve ter
criatividade para criar recursos, inovar a prática, realizar intervenções, auxiliando seus alunos
a construir caminhos necessários para chegarem ao final do processo alfabetizadas.

Há muito, discute-se qual método é mais eficaz para alfabetizar os alunos: os


sintéticos (que partem da letra, da relação letra-som, ou da sílaba, para chegar à palavra), ou
os analíticos, também chamados de globais (que tem como ponto de partida unidades maior da
língua, como um poema, parlenda, música, conto ou frase).

Ao longo dos anos criaram-se muitas variações dos métodos de alfabetização


tradicionais. Pesquisadores passaram a propor que as letras e os sons que estas representam fossem
relacionados a personagens, desenhos, cores. Muitos destes métodos foram experimentados em
diferentes contextos, porém o que se verifica é que muitas vezes da certo, mas com algumas
crianças não é eficaz. E agora, a culpa é do professor que não soube ensinar ou aplicar
determinado método corretamente? Ou a criança que não esta apta para tal processo?

Nenhuma das duas opções, o que acontece é que para aprender a criança precisa
de condições básicas, de disponibilidade de um material interessante, que faça sentido e esteja de
acordo com o contexto sociocultural do aluno e orientações e intervenções específicas, que sirva
como uma mola propulsora, levando o aluno a evoluir no processo de ensino aprendizagem, o
professor deve assumir este desafio, e desenvolver um trabalho explícito no que diz respeito ao
alfabetizar.

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Métodos Sintéticos

Pesquisas permitem supor que os primeiros métodos utilizados no ensino da


escrita foram os sintéticos, muitos são utilizados atualmente. Os métodos sintéticos se baseiam
num mesmo pressuposto: o de que a compreensão do sistema de escrita se faz sintetizando/
juntando unidades menores, que são analisadas para estabelecer a relação entre a fala e sua
representação escrita, ou seja, a análise fonológica.

Dependendo do método, essas unidades de análise podem ser escolhidas entre letras,
fonemas ou sílabas, que se junta para formar um todo. A aprendizagem pelos métodos sintéticos
leva à decodificação ou decifração. A proposta dos métodos denominados SINTÉTICOS partia
de uma proposta do ensino das unidades menores, ou seja, primeiro apresenta-se as letras, após
os fonemas, sílabas, até chegar na unidades mais complexas, como palavras e frases.

Nos métodos sintéticos o enfoque se da principalmente no processo CODIFICAÇÃO


E DECODIFICAÇÃO, análise fonológica, onde o aluno faz relação de cada grafema (letra) e
seu fonema (som). Com a utilização do método sintético é possível o desenvolvimento do que
chamamos de CONSCIÊNCIA FONOLÓGICA e os processos de codificação (escrita) e leitura
(decodificação). Porém desconsidera os usos e funções sociais da escrita, pois em determinado
momento o aluno terá que se desvincular da fala para ler/escrever frases e textos, já que em alguns
casos a escrita não representa os sons da fala. O método sintético divide-se em: ALFABÉTICO
(soletração), FÔNICO E SILÁBICO. Vale ressaltar que cada método utilizado caracteriza-se
por contexto histórico do cenário educacional.

Dentre os métodos sintéticos, o mais antigo, que foi utilizado em massa até o
início do século XX, é o método alfabético. Consistia em apresentar partes mínimas da escrita,
as letras do alfabeto, que, ao se juntarem umas às outras, formavam as sílabas ou partes que
dariam origem às palavras. Os aprendizes, primeiro, deveriam decorar o alfabeto, letra por
letra, para encontrar as partes que formariam a sílaba ou outro segmento da palavra; somente
depois viriam a entender que esses elementos poderiam se transformar numa palavra. Mais
tarde, criou-se o procedimento de soletração, que gerou exaustivos exercícios e também o treino
com possíveis combinações de letras em silabários. 

28
Essas atividades eram sem sentido, porque se demorava a chegar ao significado.
Os alunos decoravam combinações (be-a-ba, be-e-be, etc.) e soletrando para tentar decifrar a
palavra bola: “be-o-bo, a-la = bola”.

O material que pode ser citado, que coincide com o uso do método alfabético,
são as Cartilhas de ABC e os silabários. O método alfabético trazia uma vantagem: o próprio
nome de cada letra do alfabeto (com algumas exceções) remete a pelo menos um dos fonemas
que ela representa na escrita.

Entretanto, no momento de leitura das palavras, na junção das partes feita


mediante a pronúncia do nome da letra, ocorria um percurso torturoso. Era preciso pronunciar
primeiro o nome da letra, mas também tentar abstrair os outros sons existentes em seu nome.
Isso era necessário porque, ao se pronunciar o nome da letra, entravam sons que não pertenciam
à sílaba ou à palavra. Tente imaginar a abstração necessária ao aprendiz, para retirar o excesso
de sons na palavra que se soletra assim: “bê-a-ba, ene-a-na, ene-a-na = banana”. O método
alfabético resume-se em:

1º. Memorização dos nomes das letras;


2º. Representação gráfica;
3º. Representação das famílias silábicas (B+A=BA. B+E=BE...)
4º. Início com palavras monossílabas, dissílabas, trissílabas, polissílabas e sílabas não
canônicas.
5º Textos segmentados: (A-CA-AS-A-MA-RE-LA-NA-FLO-RES-TA)

» Elas podem ser formadas somente por vogal (V) ou por vogal e consoante (V + C), entre
outras opções, tal como acontece com os encontros consonantais.Exemplos: ad-je-ti-vo, ca-ne-
ta, e-la, es-co-la.
» São sílabas canônicas: -je, -ti, -vo (da palavra adjetivo); ca-,-ne,-ta (da palavra caneta);
-la (da palavra ela); -co,-la (da palavra escola).
» São sílabas não canônicas: ad- (da palavra adjetivo); e-(da palavra ela).

No método FÔNICO ou FONÉTICO destaca-se pelo uso das correspondências


grafofônicas. Seu princípio organizativo é a ênfase na relação direta entre fonema e grafema, ou
29
seja, entre o som da fala e a escrita.

Neste método o ensino se inicia pela forma e pelo som das vogais, seguidas pelas
consoantes. Cada letra (grafema) é aprendida como um som (fonema) que, junto a outros
fonemas, pode formar sílabas e palavras. Para o ensino dos sons, há uma sequência que deve
ser respeitada – dos mais simples para os mais complexos.

Para atenuar a falta de sentido e aproximar os alunos de algum significado, foram


criadas variações do método fônico, com diversas formas de apresentação dos sons: seja a partir
de uma palavra significativa, de uma palavra vinculada à imagem e ao som, de um personagem
associado a um fonema, de uma onomatopeia ou de uma história.

O destaque ao fonema isolado é ainda hoje empregado em alguns materiais que


utilizam cartazes com figuras que ajudem a destacar a letra e seu som em posição inicial e o
fonema em posição final, sendo que este é emitido várias vezes pelos alunos e pelo professor (ao
ver a letra M, pronunciam mmmmm…). Uma das principais críticas dirigidas a esse método de
alfabetização refere-se à impossibilidade de que um fonema que aparece na corrente da fala de
forma contextualizada seja pronunciado sem apoio de uma vogal. Em resumo o método fônico
funciona da seguinte maneira:

1º. Vogais, nome das letra e o seu som são iguais;


2º. Palavras formadas apenas por vogais;
3º. Apresentação dos fonemas regulares, de forma isolada: (d, b, f, j, m, n);
4º. Junção dos fonemas regulares e os irregulares, formando sílabas;
5º. Formação de palavras;
6º. Formação de frases;
7º. Formação de textos.

Já o método SILÁBICO caracteriza-se pela apresentação visual de sílabas prontas,


sem forçar a articulação das consoantes com as vogais, e sem destacar as partes que compõem
a sílaba. O princípio básico é que a consoante só pode ser emitida se apoiada na vogal; logo,
somente a sílaba (e não as letras) pode servir como unidade linguística para o ensino inicial da
leitura.

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No desenvolvimento do método, geralmente é escolhida uma ordem de
apresentação “do mais fácil para o mais difícil”, ou seja, das sílabas “simples” para as
“complexas”. Em várias cartilhas, o trabalho inicial deste método centra-se nas vogais e em
seus encontros, como uma das condições para a sistematização posterior das sílabas. Muitas
delas apresentam desenhos e palavras-chave cujas sílabas iniciais, realçadas em outras cores
e tipos gráficos, são apenas apresentadas e depois destacadas das palavras e memorizadas em
grupos silábicos. As famílias silábicas são inicialmente compostas por consoante e vogal (da, de,
di, do, du) e recompostas para formar novas palavras. Gradativamente, pequenas frases e textos
são propostos, a partir de combinações entre sílabas já estudadas. Em geral, a preocupação
em focar a sílaba é maior do que a preocupação com o sentido e as estruturas das frases e dos
textos. O método silábico resume-se em:

1º. Apresentam-se aos alunos as vogais com imagens e palavras, como A de abelha, E de
elefante e assim por diante;
2º. Apresenta-se as sílabas simples, utilizando como recurso imagens e destacando o MA
macaco, o NA de navio, o PA de pato;
3º. Após inicia-se o trabalho da família silábica da silaba que foi destacada na imagem;
4º. Formação de palavras;
5º. Formação de frases;
6º. Formação de textos;

Podemos destacar nos métodos citados acima a insistência na correspondência


entre o oral e o escrito, ou seja, grafia e som, estabelecendo um processo que inicia nas unidades
menores até chegar ao todo. A estratégia perceptiva utilizada é a auditiva, o que torna o processo
de leitura algo mecânico.

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Métodos Analíticos

A proposta dos métodos analíticos parte das unidades mais amplas, como palavras,
frases e textos e assim, após a decomposição em sílabas, grafemas e fonemas. O método tem
como objetivo levar os alunos a uma compreensão visual e o conhecimento global das palavras,
possibilitando a leitura de unidades com sentido.

Em alguns momentos, caso não haja uma correta orientação por parte do professor
o aluno pode ter dificuldades, utilizando da memorização sem observar que as palavras são
compostas de unidades menores (sílabas e letras).

Os métodos analíticos ou globais priorizam como unidade a palavra, a frase ou o


texto, podemos destacar os seguintes processos: PALAVRAÇÃO, SETENCIAÇÃO E GLOBAL
– CONTOS/TEXTOS. Vejamos como eles acontecem na prática.

O método de PALAVRAÇÃO parte de unidades de significado, a ênfase recai


na palavra, portanto as palavras são apresentadas em agrupamentos e os alunos aprendem
a reconhecê-las pela visualização e pela configuração gráfica. Os defensores da memorização
pelo perfil gráfico acreditam ser essa estratégia cognitiva algo “natural” no ser humano. Para o
desenvolvimento de atividades, são utilizados como procedimentos cartões para fixação, com
palavras de um lado e figuras de outro; exercícios para o ensino do movimento de escrita de
cada palavra, entre outros. Assim se resume o método da palavração:

1º. Apresentação de palavras ilustradas que fazem parte do universo infantil;


2º. Memorização (leitura e escrita das palavras);
3º. Divisão silábica das palavras;
4º. Formação de novas palavras com as sílabas estudadas;
5º. Estudo e análise de grafemas e fonemas;
6º. Formação de frases;
7º. Formação de textos;

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A atenção do aluno pode ser dirigida a componentes da palavra escrita ou falada,
como letras, sílabas e sons. Essas duas estratégias reunidas garantiriam o enfrentamento de
textos novos. Para o desenvolvimento de atividades, são utilizados cartões para fixação, com
palavras de um lado e gravuras de outro, exercícios cinestésicos para o ensino do movimento
de escrita de cada palavra, entre outros recursos e procedimentos. A ênfase no significado e em
ações inteligentes de busca de leitura como fonte de prazer e informação e a crença na ligação
entre a percepção de idéias e formas na aprendizagem.

Como principais desvantagens, aparecem as dificuldades em enfrentar palavras


novas, quando os professores se limitam à simples visualização, sem incentivar a análise e o
reconhecimento de partes da palavra. Um segundo desdobramento do princípio global levou
à criação do método de SENTENCIAÇÃO que consiste no uso da frase, destacando que se faz
nele o uso de um grupo de palavras com sentido desde o começo da alfabetização.

O ponto de partida são atividades de expressão oral das crianças, cujos enunciados
são transformados em orações simples e escritos em faixas de distintos tamanhos, exibidas na
sala de aula para que as crianças possam ilustrá-las, conservando-as numa certa ordem. Essas
frases podem depois ser consultadas para que as crianças encontrem nelas novas palavras e
combinações. Os passos seriam os seguintes:

1º. Apresentação de palavras ilustradas que fazem parte do universo infantil;


2º. Memorização (leitura e escrita das palavras);
3º.Observação de palavras semelhantes dentro da sentença;
4º. Formação de grupo palavras;
5º. Isolamento de elementos conhecidos dentro de cada palavra (sílaba);
6º. Estudo e análise dos grafemas e fonemas;

Algumas vezes é possível observar algumas dificuldades na aprendizagem de


palavras novas, se os professores mantêm a simples visualização, sem incentivar a análise
e o reconhecimento de partes da palavra. Atualmente, é comum a utilização, nas classes de
alfabetização, de palavras estáveis, como os nomes próprios, nomes de personagens, expressões
de parlendas e outras mais frequentes, que posteriormente podem ser usadas para análise e
comparação de segmentos menores como letras, sílabas e palavras.

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O método global integra o conjunto dos métodos analíticos que se orientam no
sentido do todo para as partes. Defende que a criança percebe as coisas e a linguagem em seu
aspecto global, que a leitura é uma atividade de interpretação de ideias e que a análise de partes
deve ser um processo posterior.

É possível verificar pontos comuns entre os defensores dos métodos denominados


analíticos/globais: 1) a linguagem funciona como um todo e as partes somente têm sentido em
função de uma unidade; 2) existe um princípio de sincretismo no pensamento infantil: primeiro
percebe-se o  todo e depois as     partes; 3) os métodos de alfabetização devem priorizar a
compreensão; 4) no ato da leitura, o leitor  utiliza  estratégias globais de reconhecimento; 5) o
aprendizado da escrita não pode ser feito por fragmentos de palavras, mas por seu significado;  6)
a escola tem que acompanhar os interesses, a linguagem e o universo infantil e, portanto, as
palavras percebidas globalmente também devem ser  familiares e ter sentido  para a criança.

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Vejamos alguns passos do método GLOBAL – CONTOS/TEXTOS:

1º. Apresentação das partes do texto como sentido completo, em cartazes;


2º. Memorização, escrita e leitura do texto;
3º. Decomposição do texto estudado em frases;
4º. Decomposição de frases em palavras;
5º. Decomposição das palavras em sílabas;
6º. Formação de novas palavras com as sílabas estudas;
7º. Estudo e análise de grafemas e fonemas;

Na atualidade, enfatiza-se  que os textos têm que ser aqueles que circulam na
sociedade e não inventados para efeitos de ensino; as crianças devem ler e escrever na escola
para desenvolver diferentes funções sociais e gêneros da escrita. Os professores têm recuperado
metodologias semelhantes às do método global, utilizando a apresentação de histórias,
parlendas, advinhas e outros textos para que as crianças memorizem, montem e desmontem
frases e depois identifiquem palavras que serão decompostas.

Com foco na memorização global, possibilita que os alunos não se percam na


tentativa de decodificação e que leiam com rapidez palavras conhecidas. Contudo, há também
desvantagens. Se os alunos não aprenderem a decodificar, como lerão palavras novas? Como o
professor pode saber se os alunos estão realmente lendo ou recitando palavras e textos decorados?
Em síntese, poderíamos dizer que os métodos globais, tal como foram popularizados, seguem
a marcha analítica (do todo para as partes, da síntese para a análise), pretendem priorizar
o sentido e estabelecem algum tipo de progressão na fragmentação das unidades que serão
analisadas. Essa progressão também define a intervenção do professor.

Antes do professor se perguntar: Afinal, qual é o melhor método? Qual devo


utilizar? É necessário que haja reflexão sobre o sentido do processo de alfabetização, o ensino
da leitura e da escrita deve ser intencional e explícito, mas de uma maneira agradável, sem
exageros em atividades de repetição, centradas apenas na memorização.

O professor deve estar atento a realidade a sua volta para encontrar assuntos que
sejam interessantes aos seus alunos, assim despertará a curiosidade, com o ensino de palavras
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que façam sentido e posteriormente transformadas em frases e textos criados pelos próprios
alunos.

Algo importante que dever ser levado em consideração é o interesse do aluno


em aprender determinada letra/palavra, a melhor estratégia é sanar a curiosidade do aluno
no momento em que ela se manifesta. Independente do método escolhido o professor teve ter
objetivos claros, planejamento, atenção, observação e registros diários dos avanços dos seus
alunos, assim será possível verificar as dificuldades individuais e procurar soluções eficazes para
auxiliar os alunos.

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Ambiente Alfabetizador

Ambiente alfabetizador “é aquele em que há uma cultura letrada, com livros,


textos – digitais ou em papel – um mundo de escritos que circulam socialmente. A comunidade
que usa a todo o momento esses escritos, que faz circular idéias que eles contêm, é chamada
alfabetizadora”.
Ana Teberosky


Desde que passou a considerar um AMBIENTE ALFABETIZADOR que
facilitasse a aprendizagem da leitura e da escrita muitos professores passaram a acreditar que
bastava “rechear” as paredes das salas de aula com letras, cartazes, imagens, etiquetas e estariam
proporcionando aos seus alunos um ambiente adequado para o ensino da escrita e leitura.

Foram acrescentados itens e mais itens, uma verdadeira enxurrada de materiais


nas salas de alfabetização, como famílias silábicas de diversos tipos, cartazes com vogais
e consoantes, crachás, listas de alunos, listas de materiais escolares, e passou-se a crer que
pela simples exposição constante desses materiais os alunos iriam aprender a ler de “forma
acidental”.

A questão central é que somente a exposição ao escrito não fará com que se
compreenda o sistema de escrita, mas sim a participação em práticas de leitura e escrita, nas
quais se pode observar o professor como um leitor e escritor realizando tais habilidades, aquele
que o aluno pode perguntar sobre as práticas de linguagem, tirar dúvidas.

Assim, um ambiente alfabetizador não pode ser compreendido apenas como um


lugar com muitos escritos expostos, mas um lugar onde se pratica a leitura e a escrita, onde se
podem fazer perguntas a respeito do funcionamento, da organização, das funções e tudo mais
que as crianças queiram saber sobre esse sistema.

A organização adequada da sala de aula pode facilitar o processo de ensino


aprendizagem dos alunos, a convivência da criança com diferentes tipos de materiais e textos
auxilia no desenvolvimento da língua escrita.

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Ensinar os alunos a ler e escrever é deixá-los vivenciar situações cotidianas de
leitura e escrita, criar espaços que seja possível brincar, manusear materiais, ler e escrever de
forma espontânea. Como sugestão, o professor pode organizar uma caixa com diferentes tipos
de histórias, jornais, revistas, gibis, rótulos, proporcionando aos alunos contato com diversos
gêneros textuais, mesmo para os alunos que ainda não estão alfabetizados, aguçar a curiosidades
das crianças sobre a escrita e a leitura é um excelente recurso.

O professor, por meio de propostas pedagógicas, ajuda seus alunos a encontrarem


respostas para suas dúvidas, a praticar e a pensar sobre a escrita. A exposição só faz sentido
se puder informar sobre a escrita e seus usos sociais efetivos. Um ambiente alfabetizador
não é simplesmente um lugar onde se expõem cartazes com textos, famílias de sílabas, mas
onde os alunos participam das práticas de linguagem: lêem livros de contos de fadas, jornal,
textos científicos ou referenciais; escrevem regras de jogos, cartas para alguém, registram suas
atividades.

Mas afinal, o que deve ter na minha sala de aula? Você, enquanto professor deve
estar atento a realidade dos seus alunos e ao contexto sociocultural que a escola que você
trabalha se encontra, tudo que inicialmente faz sentido para o aluno é abstraído com mais
facilidade.

Outro aspecto a ser considerado são os objetivos de cada material, quais aspectos
serão trabalhados, quais os procedimentos, por exemplo, qual a finalidade de levar um calendário
para a sala de aula se os alunos não poderão manusear, marcar os dias que já passaram, contar
quantos dias ainda faltam, para determinada data? Tudo isso deve ser pensado pelo professor,
mais uma vez vamos falar na intencionalidade de cada etapa.

Todo material pode ser útil, desde que os alunos tenham a oportunidade de
conhecer, tirar suas dúvidas e colocar em prática tais habilidades em seu contexto diário. Do
que adianta uma sala cheia de informações que não fazem sentido, onde os alunos não têm
oportunidade de realizar experiências práticas, se somente visualizam tais materiais, estas
são algumas reflexões que professor deve levar em consideração ao preparar um ambiente
alfabetizador para sua turma.

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Segue algumas sugestões de materiais que podem ser organizados na sala de aula:

Alfabeto
» É a referência da criança para a escrita e a leitura;
» Em letra bastão (inicialmente) com imagens que fazem relação entre o grafema e o
fonema;
» Alfabeto de bolso (ou concreto) – com objetos que podem ser manipulados.

Canto de Leitura
» Livros de vários gêneros diferentes;
» Fichas de leitura com textos curtos que as crianças já tem de memória, como poesias,
parlendas, trava-línguas e palavras que reconhecem;
» Decoração bacana e aconchegante para ler, onde será realizada a hora do conto e onde
as crianças têm prazer em estar;
» Lista de histórias que serão lidas durante a semana – os títulos não são colocados,
necessariamente, na ordem que serão lidos. O ajudante do dia tem a função de riscar o nome
da obra que foi lida. É um ótimo momento para fazer uma atividade coletiva de leitura com
intervenções da professora.

Listas de Referência
» Listas que contêm palavras que as crianças já tem de memória. Por exemplo: lista de
nomes dos alunos e palavras que estão sendo trabalhadas (banco de palavras).

Calendários
» Importante para construir os conceitos de ano, mês, semana, dias… Pode incluir o clima
(como está o tempo hoje?).

Canto da Matemática
» Espaço para manipulação dos números, materiais de contagem, atividades de relações
entre números e quantidades…

39
Canto do Dia a Dia
» Estimulação da motricidade: abrir e fechar zípers, amarrar cadarços, usar um conta-
gotas, traçados, massinha de modelar…
» Em todos os espaços e materiais, os alunos podem auxiliar na confecção, a fim de que se
sintam pertencidas ao ambiente.

Trabalhando com Nomes Próprios


» O trabalho com os nomes próprios é muito importante durante o primeiro ano, já que
os nomes são as primeiras referências de palavras que as crianças têm.

E Por que Essa Estratégia é Tão Relevante?


» Apropriar-se da escrita do seu nome;
» Ampliar o repertório de letras;
» Identificar e grafar o nome dos colegas;
» Mostrar interesse pela leitura e pela escrita;
» Copiar;
» Comparar os sons e os grafemas;
» Refletir sobre a escrita;
» Utilizar-se de modelos para escrita de novas palavras.

Como Podemos Trabalhar com Nomes Próprios?


» Bingo de nomes;
» Identificação de materiais pessoais (cadernos, lápis…);
» Formação de grupos (fichas com nomes em cima das mesas e cada um procura o seu);
» Produção de agenda telefônica;
» Quadros com os aniversariantes;
» Rodas de chamada;
» Trabalho com fotos dos colegas, fazendo a relação com os nomes;
» Recorte letras de jornais e revistas, montando os nomes;
» Contagem de número de letras;
» Associação letras iniciais dos nomes com letras iniciais de outros objetos (Ex: Marina /
Mesa);
» Todas as atividades de alfabetização que costumamos fazer com outras palavras, podem
ser adaptadas para serem usadas com os nomes próprios da turma.
40
Estratégias Lúdicas Para Alfabetizar

A ludicidade tem origem na palavra latina ludus, que significa jogo. Se


considerarmos apenas a etimologia da palavra, o termo lúdico está diretamente relacionado ao
jogo, ao brincar e ao movimento espontâneo. Além disso, o lúdico é uma necessidade do corpo
e da mente no comportamento humano, as implicações que envolvem ações lúdicas perpassam
o simples brincar espontâneo, assim a definição de lúdico, com o passar do tempo, deixou de
ser somente sinônimo de jogo.

Dentro deste contexto, é necessário entendermos o conceito de algumas palavras


específicas que norteiam as atividades relacionadas ao lúdico no processo de aprendizagem das
crianças como, jogo, brinquedo e brincadeira.

Jogo: é a ação pela qual se estabelecem regras específicas, convencionadas antes


de iniciar o jogo, que devem ser cumpridas. O jogo pode acontecem individualmente ou em
grupo.

Brinquedo: é o objeto manipulado, ele pode ser um objeto concreto como bola,
carrinho, boneca, ou então, fruto da imaginação, ou seja, objeto criado pelo sujeito e sua
imaginação.

Brincadeira: é uma atividade agradável, no qual o mundo real se mistura ao


imaginário, não é necessária a obrigatoriedade de um objeto para manipulação, como por
exemplo, brinquedos. Não há regras específicas a serem seguidas, nesse contexto a criança cria,
constrói e inventa, esta ação envolve a espontaneidade e é caracterizada pelo faz de conta.

Jogos, brincadeiras e cantigas são alguns dos recursos lúdicos que podem ser
trabalhados no contexto escolar com o objetivo de desenvolver determinados aspectos e
habilidades nos alunos. Os jogos e brincadeiras são atividades preferidas pelas crianças,
principalmente aquelas que se encontra em turmas de alfabetização devido à faixa etária, pois
ao mesmo tempo em que se diverte, desenvolvem habilidades cognitivas que facilitam o processo
de ensino aprendizagem.

41
Através da ludicidade é possível estimular a aprendizagem com enriquecimento
de experiências, possibilitando assim um trabalho interdisciplinar, desenvolvendo inúmeras
habilidades de reflexão, cooperação, produtividade e o imaginário da criança.

A ludicidade é um mundo em que a criança está em constante exercício, é o


mundo da fantasia, do faz de conta, do jogo e da brincadeira. Pode-se afirmar o lúdico um
recurso pedagógico fundamental, principalmente em turmas de alfabetização, onde as crianças
estão em fases de descobertas e reflexões sobre os processos de leitura e escrita.

O brincar e o jogo vão além da recreação, pois perpassam por contextos que
ressignificam o contexto da criança, é possível afirmar que a aprendizagem se dá com maior
facilidade dentro de uma perspectiva lúdica, proporcionando aos alunos oportunidades de
desenvolverem novas habilidades, seja elas regras, valores ou conceitos.

Através do lúdico a criança envolve-se de acordo com a sua forma de entender


o mundo e a sua linguagem, manifesta seus sentimentos, suas habilidades e cognição. Sabendo
disso o professor deve desenvolver atividades lúdicas, atento a cada detalhe, para compreender
comportamentos que possam auxiliar no processo de aprendizagem dos alunos.

É através de momentos lúdicos que percebe na criança a sua criatividade,


inteligência, afetividade, motricidade, sociabilidade entre outros aspectos que facilitarão o
desenvolvimento de determinadas habilidades como leitura e escrita. Faz-se necessário conhecer
como as estratégias lúdicas podem auxiliar nos processos de alfabetização, assim como
identificar qual o papel do professor frente aos desafios de trabalhar em turma de alfabetização,
respeitando as características dos alunos desta faixa etária.

42
O Jogo e o Desenvolvimento da Língua Escrita

Através de jogos é possível oferecer aos alunos excelentes oportunidades de


interação social, troca de ideias, experiências e informações, além disso, ao utilizar jogos em
sala de aula o professor proporciona para as crianças momentos para exercitar a memória,
desenvolver o raciocínio lógico, e ainda criam situações concretas de necessidades de leitura
eescrita.

Piaget descreve quatro estruturas básicas de jogos infantis, que vão se sucedendo
e se sobrepondo nesta ordem: Jogo de exercício, Jogo simbólico/dramático, Jogo de construção
e Jogo de regras. O Jogo simbólico é a representação corporal do imaginário onde predomina
a fantasia e a atividade psico-motora exercida acaba por prender a criança à realidade. Na sua
imaginação, a criança pode modificar sua vontade, usando o faz de conta. Mas quando expressa
corporalmente as atividades, ela respeita a realidade concreta e as relações do mundo real.

No jogo simbólico a criança sofre modificações, à medida que vai progredindo em


seu desenvolvimento rumo à intuição e a operação, a criança busca coerência com a realidade.
No início da escolarização o raciocínio lógico ainda não é suficiente para que a criança dê
explicações coerentes a respeito de certas coisas, o poder da fantasia prepondera sobre o poder
de explicar. Então é através do jogo simbólico que a criança não exercita somente sua capacidade
de pensar, mas de representar simbolicamente suas ações e exercita também suas habilidades
motoras, já que corre, salta, grita, rola, empurra, etc.

A importância do jogo de regras é quando a criança aprende a lidar com a


delimitação no espaço, no tempo, no tipo de atividade válida, o que pode e o que não pode fazer,
garante-se certa regularidade que organiza a ação tornando-a orgânica. O valor do conteúdo de
um jogo deve ser considerado em relação ao estágio de desenvolvimento em que se encontra a
criança, ou seja, como a criança adquire conhecimento e raciocina.

Existem alguns critérios para que um jogo possa ser útil no processo educacional,
proposição de algo interessante e desafiador para as crianças resolverem, permitir que as
crianças possam se auto-avaliar quanto ao seu desempenho, permitir que todos os jogadores
possam participar ativamente, do começo ao fim do jogo são algumas estratégias que devem ser
43
seguidas para que ao final do jogo todos possam ter alcançados os objetivos de aprendizagem
que o mesmo proporciona. Na imagem abaixo é possível verificar uma atividade lúdica para
utilizar com alunos que estão no processo de alfabetização.

FIGURA 1: IMAGEM DE UM JOGO DA MÉMORIA DE VOGAIS

FONTE: http://www.sabrina.blog.br/2012/08/jogo-da-memoria-vogais.html

A atividade a ser desenvolvia com o jogo da figura1 é muito conhecida por todos
nós, Jogo da Memória que pode ser jogado em duplas ou grupo maiores. Este jogo consiste em
encontrar a figura e a vogal inicial, formando assim um par. O aluno precisa de atenção e observar
todas as jogadas, através desta atividade é possível desenvolver habilidades como concentração,
estratégias, consciência fonológica da inicial de cada palavra e paciência. A atividade lúdica com
intencionalidade especifica, nesse caso, conhecer as vogais, deve ser observada pelo professor,
para que o mesmo consiga perceber se os objetivos estão sendo alcançados.

De acordo com Vygotsky (1979, p. 138) existe uma estreita relação entre jogo
e a aprendizagem, atribuindo-lhe uma grande importância. Para melhor entendermos esta
importância faz-se necessário recordarmos algumas idéias de sua teoria do desenvolvimento
cognitivo. A principal é que o desenvolvimento resulta da interação entre a criança e as pessoas
com quem mantém contato regulares. Convém lembrar que o principal conceito da teoria de
Vygotsky é o da Zona de Desenvolvimento Proximal em que ele define a diferença entre o
desenvolvimento atual da criança e o nível que atinge quando resolve problemas com auxílio.
44
Neste sentido as estratégias lúdicas que possuem em seu objetivo central ensinar
algum conceito ou conteúdo específico devem ser trabalhadas com a observação, orientação e,
em algumas vezes, a intervenção do professor, assim é possível elevar o conhecimento do aluno,
partindo daquilo que ele já sabe e ir em direção ao novo, facilitando o alcance dos objetivos
propostos.

FIGURA2: CAÇA-PALAVRAS DE TAMPINHAS

FONTE: http://oincrivelze.com.br/2015/10/professor-ensina-como-fazer-jogos-de-alfabetizacao-com-material-

reciclado/

Com a atividade da figura 2 é possível trabalhar com os alunos, de maneira lúdica,


leitura de palavras, separação silábica, número de letras e sílabas. Nesta atividade o professor
sorteia a palavra e o aluno deve procurar e laçar a palavra com o elástico, a cada palavra
encontrada o professor pode fazer perguntas como qual o números de letras, qual o número de
sílabas e assim identificar quais os conhecimentos que o aluno já possui. A partir do momento
em que o professor tem consciência do que o aluno já sabe facilita o planejamento de novas
atividades que venham fazer com que o aluno avance no processo de alfabetização.

Para Vygotsky (1989, p. 84) o jogo proporciona alteração nas estruturas, de


acordo com o autor, uma prática pedagógica adequada. O autor ainda salienta que “as crianças
formam estruturas mentais pelo uso de instrumentos e sinais. A brincadeira, a criação de
45
situações imaginárias surge da tensão do individuo e a sociedade. O lúdico liberta a criança
das amarras da realidade”. As atividades lúdicas propiciam à criança a possibilidade de
conviver com diferentes sentimentos os quais fazem parte de seu interior, elas demonstram
através das brincadeiras como vê e constrói o mundo, como gostaria que ele fosse quais as suas
preocupações e que problemas a estão atormentando, ou seja, se expressa na brincadeira o que
tem dificuldade de expressar com palavras.

O professor deve proporcionar diferentes momentos lúdicos, tendo em mente


os objetivos que pretende alcançar com determinada atividade, além disso, os momentos
lúdicos devem ser observados constantemente. Deve ficar claro que a criança necessita de
momentos livres para as brincadeiras sem regras, onde ela possa criar suas próprias fantasias,
e nos momentos lúdicos em que se define um objetivo pedagógico o professor deve organizar,
observar, fazer anotações e em determinados casos fazer intervenções levando o aluno a evoluir
no seu processo de aprendizagem.

Brincar e jogar são atividades diárias na vida das crianças. O jogo, o brincar e o
brinquedo desempenham um papel de extrema importância no processo de aprendizagem, e
negar o seu papel na escola é, sem dúvida, dificultar os processos de aprendizagem. O brincar
existe na vida dos indivíduos, embora ao passar dos anos tenha diminuído o espaço físico
e o tempo destinado ao jogo, provocado pelo aparecimento de brinquedos cada vez mais
sofisticados e pela influência da tecnologia.

É importante salientar nesse momento os benefícios que o jogo fornece à


aprendizagem das crianças no que diz respeito ao desenvolvimento físico–motor envolvendo as
características de sociabilidade, como trocas, as atitudes, reações e emoções que envolvem as
crianças e os objetivos utilizados. Apesar de tantas teorias defenderem uma aprendizagem por
meio dos jogos e dos movimentos espontâneos da criança, elas estão longe de usufruir de uma
pedagogia fundamentada na ludicidade, criatividade e na expressividade livre dos atos. Para
que isso ocorra de maneira proveitosa torna-se necessário aliar os benefícios da ludicidade aos
processos de ensino aprendizagem da alfabetização.

Usufruir dos benefícios de atividades lúdicas para alfabetizar os alunos é respeitar


suas características, sua identidade e facilitar o processo de aprendizagem. Neste sentido faz-se

46
necessário salientar que o sucesso pedagógico de qualquer atividade lúdica não depende somente
do aluno, mas sim, da postura do professor durante as atividades pedagógicas, propondo uma
pedagogia baseada na interação coletiva, na criatividade, na ludicidade envolvendo todo o
contexto escolar, valorizando os conhecimento que o aluno já possui e suas estratégias.

O jogo implica para a criança mais que o simples ato de jogar, é através dos
jogos que ela se expressa e conseqüentemente se comunica com o mundo; ao jogar a criança
aprende e investiga o mundo que a cerca, toda e qualquer atividade lúdica deve ser respeitada.
O papel do professor durante o processo lúdico-pedagógico é provocar participação coletiva
e desafiar o aluno a buscar soluções. Através do jogo que se pode despertar na criança um
espírito de companheirismo, cooperação e autonomia. A criança precisa interagir de forma
coletiva, ou seja, precisa apresentar seu ponto de vista, discordar, apresentar suas soluções, é
necessário também criar ambiente propício e incentivar as crianças a terem pensamento crítico
e participativo, fazendo parte das decisões do grupo.

Em relação ao jogo, a criança passa por diversas etapas, sendo que cada uma delas
possui esquemas específicos para assimilação do meio. O jogo representa sempre uma situação-
problema a ser resolvida pela criança, e a solução deve ser construída pela mesma, sendo,
portanto, uma boa proposta o jogo na sala de aula, pois propicia a relação entre parceiros e
grupos, e nestas relações, podemos observar a diversidade de comportamento das crianças para
construir estratégias para a vitória, e as relações diante das derrotas.

O lúdico é uma ferramenta de trabalho muito proveitosa tanto para o educando


quanto para o educador, que visa facilitar não somente os processos de alfabetização, mas
para qualquer objetivo que se possua. Através da ludicidade o professor pode introduzir os
conteúdos de forma diferenciada e bastante ativa, com um simples jogo o professor poderá
proporcionar apreensão de conteúdos de maneira agradável e o aluno nem perceberá que está
aprendendo.

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Rótulos, Jornais, Embalagens e Revistas

A prática pedagógica do professor se realiza no planejamento das atividades


que aplica em sua turma, quando bem planejadas, as atividades proporcionam situações de
aprendizagem significativas e eficazes. Ao planejar o professor deve observar algumas condições:
a) os desafios apresentados devem estar ajustados às possibilidades de aprendizagem dos
alunos; b) a interação entre aluno/professor devem proporcionar a mobilização de esforços para
resolver as questões sobre escrita; c) as intervenções devem ser problematizadoras, colocando
problemas que os alunos consigam solucionar.

Os rótulos e embalagens são portadores de textos que cumprem a função de


informar, veiculando textos escritos curtos com imagens. Ser capaz de compreender esses textos
é fundamental para o exercício da cidadania e, se bem trabalhados na alfabetização podem
trazer contribuições importantes também para os avanços dos alunos no processo de aquisição
da leitura e escrita.

Através da leitura de rótulos é possível comparar letras, sílabas e palavras, com o


próprio nome, com o nome do amigo ou com outras palavras. Pode ser estimuladas trocas de
sílabas das palavras do rótulo e produção de textos com palavras-chaves.

O professor deve explorar em sala de aula diferentes materiais, como rótulos,


embalagens, revistas e jornais, esse tipo de recurso oferece muitas possibilidades, além da
identificação e recorte de letras e palavras, podem Sr elaboradas muitas atividades de leitura e
escrita a partir desse material.

Por se tratar de um material de fácil acesso, jornais, revistas, embalagem e rótulos


são descartados e podem fazer parte da sucata que será reaproveitada em sala de aula de forma
produtiva e interessante.


O recorte de letras e palavras facilita a manipulação e oferece à criança
oportunidades de interagir com diversas formas gráficas da escrita, levando ao reconhecimento
de letra e palavras independentes da sua alteração estética.

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Através dos rótulos das embalagens o professor pode estimular seus alunos
a produzirem textos a partir do que já esta impresso nesse material. Promover situações de
leitura, observando a forma gráfica e a combinação de letras e sílabas de cada item também é
uma ótima atividade.

O aluno deve ser levado a pensar sobre em qual situação determinado rótulo ou
embalagem aparece no contexto fora da sala de aula, por exemplo, rótulos de itens de higiene,
embalagens de alimentos ou bebidas, e assim o professor deve contextualizar as atividades
realizadas em sala de aula com a vida do aluno, trazendo sentido para cada aprendizagem.

49
Prática e Avaliação na Alfabetização.

“Avaliação é ação transformada em ação e não uma mera medição. Ação essa,
que nos impulsiona para novas relações. Reflexão permanente do educador sobre a realidade, e
acompanhamentos, passo a passo do educando, na sua trajetória de construção do conhecimento”
Jussara Hoffmann

O processo de alfabetização requer avaliação e acompanhamento do que é


planejado, das ações pedagógicas do professor e da aprendizagem dos alunos, nesse caso devem
ser usados instrumentos variados que permitem analisar tanto os alunos quanto o próprio
trabalho do professor e para isso, o professor precisar traçar os objetivos claros de aprendizagem.

A ação docente deve sempre priorizar uma avaliação diagnóstica que permita que
o professor conheça seus alunos e a partir disso organizar e traçar metas que atendam as reais
necessidades dos alunos. Além disso, é necessário que exista uma avaliação contínua, que avalie
o processo, a fim de que o professor reflita sobre suas ações e caso seja necessário, reveja suas
ações e estratégias.

É importante compreender o objetivo da avaliação como forma de acompanhar


o caminho que o aluno está percorrendo para se apropriar da escrita e da leitura. Portanto,
podemos definir a avaliação como um instrumento de diagnóstico do processo de ensino
aprendizagem, que orienta o professor.

O processo de avaliação deve ter como referencia a concepção de ensino que


norteia a pratica pedagógica diária, é preciso ter clareza sobre o que é ensinado para definir o
que será avaliado, ou seja, a avaliações não podem exigir dos alunos competências e habilidades
diferentes das trabalhadas até em tão em sala de aula, mas sim, atividades que retratem a prática
do dia a dia. Observe algumas sugestões:

» A avaliação não precisa ter dia e hora marcada. Os alunos das turmas de alfabetização
podem ficar nervosos, recomenda-se não usar o termo PROVA.
» Acompanhar a prática do aluno nos exercícios diários, observar o desempenho
diariamente.
50
» Observar o desempenho dos alunos em atividades em duplas, ou grupo.
» Os instrumentos de avaliação devem ser diversificados.

Estabelecer objetivos como indicadores para verificar o desempenho dos alunos


e o que são capazes de realizar sozinhos ou com a intervenção do professor pode facilitar o
processo de avaliação, veja a tabela abaixo:

CAPACIDADES 1 ANO 2 ANO 3 ANO

Reconhecer a finalidade do texto X X X


Localizar informações X X X
Identificar tema e sentido do texto X X X
Elaborar inferência X X X
Estabelecer ralações entre as partes do texto X
Compreender o sentido de expressões X
Estabelecer relação e intertextualidade X

Sugestões de Critérios de Avaliação na Oralidade:


» O aluno expõe suas ideias, oralmente, com clareza?
» Conta uma história vivenciada sem e com auxílio?
» Elabora uma narrativa mantendo a sequência de fatos?
» Fala de modo compreensível?
» Participa dos questionamentos sobre uma história que ouviu?
» Apropria-se progressivamente de novas palavras, ampliando seu vocabulário?
» Formula perguntas?
» Reconstrói uma narração aceitável, com autonomia?
» Dá opiniões e faz comentários sobre assuntos comentados em sala de aula?

Sugestões de Critérios de Avaliação na Leitura:


» O aluno compreende o que lê?
» Mostra interesse em compreender o que está escrito?
» Identifica seu nome escrito?
» Identifica outros nomes escritos, como de colegas, professor?
» Identifica rótulos e logotipos;
» Os enunciados são compreendidos?
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» Utiliza de seus conhecimentos prévios para formular hipóteses e antecipação?
» Após a leitura consegue identificar os aspectos mais significativos do texto?

Sugestões de Critérios de Avaliação na Escrita:


» O aluno estabelece diferença entre desenho e letra?
» Consegue diferenciar letra e números?
» Utiliza o desenho como representação e registro de suas ideias, compreendendo como
uma das formas de representação gráfica?
» Compreende as diferenças entre a modalidade oral e escrita da língua?
» Escreve seu nome?
» Escreve o nome de outras pessoas?
» Escreve sem copiar?
» Reconhece os aspectos mais relevantes do texto?
» Dá opinião e faz comentários pessoais sobre o que leu?
» Escreve pequenos textos, mesmo sem atender às convenções referentes à ortografia,
pontuação etc.?
» Procura utilizar espaços entre as palavras?
» Sabe o que é título?
» Escreve pequenos textos relacionados a uma imagem?
» Escreve fatos e ideias com sequência lógica?
» Transmite ideias com clareza?
» Respeita as características do tipo de texto indicado?

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O Caminho Percorrido Pela Criança

Nos anos de 1974 a 1976, Ferreiro e Teberosky realizaram pesquisas com crianças
não alfabetizadas denominada “Psicogênese da Língua Escrita” e comprovaram que para se
apropriar do sistema de representação da escrita a criança constrói hipóteses e respostas para
suas perguntas. Veja algumas características de cada um dos níveis do processo de alfabetização.

PRÉ-SILÁBICA SILÁBICA SILÁBICO ALFABÉTICO ALFABÉTICO


Escrever e desenhar Já supões que a escrita Compreende que a escrita Compreende o uso
tem o mesmo signifi- representa a fala; corresponde a sons da fala. social da escrita;
cado.
Usa uma letra para Percebe a necessidade de Conhece o valor so-
Não relaciona a escrita representar cada fone- mais de uma letra para a noro de praticamen-
com a fala; ma; maioria das sílabas; te todas as letras;

Caracteriza uma pala- Pode ou não retribuir Pode dar ênfase para a es- Apresenta estabili-
vra como letra inicial; valor sono às letras; crita só de consoantes ou dade na escrita das
de vogais; palavras;
Não diferencia letras e Usa muitas letras para
números; escrever; Atribui valor sonoro para Compreende que
algumas letras; cada letra corres-
Reproduz traços de Ao fazer a leitura ponde aos mesmos
forma descoordenada; aponta uma letra para valores sonoros das
cada fonema; sílabas;
Supõe que a palavra
representa o objeto e Ao escrever frases Procura adequar a
não o seu nome; pode usar uma letra escrita à fala;
para cada palavra.
Acredita que coisas Já realiza leituras;
grandes possui nomes
grandes e coisas pe- Inicia a preocupação
quenos nomes meno- com as questões or-
res; tográficas;

Usa letras do seu nome Não escreve fra-


para escrever tudo; ses com as palavras
aglutinadas;
Não aceita que seja
possível ler e escrever Produz texto de for-
com menos de três le- ma convencional;
tras;

Faz a leitura das pala-


vras como um todo;

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ICÔNICA Desenho e símbolos
GARATUJA Traços e imitam a escrita
PRÉ-SILÁBICA ATHSDFRTOD
SILÁBICA SEM VALOR SONRO APL (CADELA)
SILÁBICA COM VALOR SONORO KDA (CADELA)
SILÁBICO ALFABÉTICO KDLA (CADELA)
ALFABÉTICO KADELA (CADELA)
ORTOGRÁFICO CADELA

Possibilidades de Intervenção e Práticas em Sala de Aula

seus alunos no dia a dia. As atividades quando bem planejadas facilita o processo
de aprendizagem dos alunos. Ao planejar o professor precisa observar alguns aspectos, como:
a) os desafios planejados devem estar ajustados às possibilidades de aprendizagem dos alunos.
b) As intervenções realizadas pelo professor devem mobilizar o aluno o aluno a realizar esforços
para resolver questões sobre a leitura e a escrita. c) os alunos devem ser levados a resolver
situações problemas.

As propostas de atividades devem ser ajustadas ao que o aluno já sabe e aonde se


quer chegar com estas crianças. As salas de aula são compostas por alunos em diferentes níveis,
de realidades e contextos diferentes, por isso é o professor precisa fazer observações diárias,
anotações e planejamentos que atendam as necessidades de cada aluno.

Para uma atividade de alfabetização ser considerada boa deve promover a reflexão
sobre a escrita e a leitura. O professor deve promover situações em que o aluno coloque em
jogo tudo o que ele já sabe para resolver determinada atividade, o aluno precisa pensar, colocar
suas ideias em ordem e organizar estratégias, assim estará desenvolvendo-se no processo de
aprendizagem.

Ao mediar o processo de aprendizagem o professor deve: propor perguntas que


requeiram níveis de esforços diferentes, oferecer informações que provoque novas concepções
aos alunos, ouvir o aluno e saber o que ele pensou até chegar a sua resposta, entre outros.

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A sondagem é um importante recurso a ser utilizado, principalmente com alunos
no início do processo de alfabetização. Através das atividades de sondagem o professor tem a
oportunidade de conhecer as hipóteses que os alunos possuem a respeito da escrita.

As atividades de sondagem devem ser feitas no mínimo três vezes ao ano, com
intervalos de tempo considerável, assim o professor tem a oportunidade de acompanhar a
evolução dos alunos, identificar quais as dificuldades e os aspectos eu ainda merecem atenção.
Veja um exemplo da tabela que pode auxiliar o professor nos registros das atividades de
sondagem:

Data:___/___/___

Descrição da atividade desenvolvida:

Silábico sem Silábico com Silábico


Aluno Pré-silábico Alfabético Observações
valor sonoro valor sonoro alfabético

Existem algumas estratégias que podem ser usadas para facilitar, tanto trabalho
do professor, como o processo de aprendizagem dos alunos, são elas:

Trabalhos Com Agrupamentos


O professor deve considerar que os alunos possuem saberes diferentes e deve
proporcionar momentos para que estes saberes sejam compartilhados, discutidos e modificados
quando necessário, assim o trabalho em duplas, trios ou grupos pode facilitar a prática
pedagógica em sala de aula.

Trabalhar Com Textos que os Alunos Sabem de Memória


Oferecer textos que os alunos já sabem (músicas, parlendas, poemas) pode ser
uma ótima situação de aprendizagem. assim surge a possibilidade de reflexão sobre escrita
e fala. Com esse recurso o professor pode solicitar que os alunos identifiquem determinadas
palavras ou frases.

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Portfólio
Para facilitar o processo de avaliação do caminho percorrido pela criança,
o portfólio mostra-se um grande aliado do professor. Esse recurso auxilia o professor na
elaboração de um diagnóstico e no planejamento de intervenções a serem feitas, e permite que
o aluno e a família consigam visualizar os avanços e refletir sobre o percurso ocorrido.

Recursos Pedagógicos
Sabe-se da importância do concreto para facilitar o processo de aprendizagem
dos alunos e na alfabetização isso não é diferente. É de essencial que o aluno tenha a sua
disposição materiais que facilitem sua aprendizagem, sendo eles: letras móveis (de borracha,
papel...), sílabas móveis, fichas com palavras para consulta, jogos pedagógicos (memória,
dominó, bingo...).

Projetos
Uma das prioridades do professor em turmas de alfabetização é ensinar a ler e
escrever convencionalmente e de modo relacionado às práticas sociais. Trabalhar com projetos
requer uma atenção especial para que os objetivos sejam cumpridos com clareza, o que significa
fazer as crianças avançarem na escrita e na leitura, independentemente do produto final. É
necessário ainda que a rotina seja organizada com clareza e variedade para fazer das aulas
momentos muitos produtivos. Os projetos não se bastam, embora contemplem dois eixos tão
importantes, como a aquisição do sistema de escrita e a reflexão sobre a língua.

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Sobre a Autora

Caren Silva
Pedagoga com Especialização em Supervisão Escolar, atua como professora dos
anos iniciais e professora da Sala de Recursos Multifuncionais com alunos que apresentam
dificuldades de aprendizagem.

Acompanhar o percurso de uma criança até ela estar alfabetizada é, sem dúvidas,
uma experiência sem igual, complexa, cheio de beleza e intensa. É exatamente isso que me
fascina nesse processo, suas peculiaridades.

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Quem Somos

A Professorizando é a maior escola na área de Pedagógia do país em parceria com


a Valecup no ensino a distancia, com 5 (estrelas) sendo a maior instituição particular mais bem
conceituada do Brasil na área de Pedagógia com diversas opções de cursos.

São 10 anos de tradição em ensino de qualidade!

Todos os cursos são aprovados e reconhecidos com honra ao mérito pelas melho-
res instituições e faculdades.

Com sede em Brasília e atuação em todo o território nacional, tem sua história
marcada pela ajuda aos professores e professoras de nosso país. Atualmente a Professorizando
conta com 200 Mil alunos matriculados em todo o país.

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