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Poder Judiciário da União

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO DISTRITO FEDERAL E DOS TERRITÓRIOS

3VARCIVBSB
3ª Vara Cível de Brasília

Número do processo: 0717950-74.2021.8.07.0001

Classe judicial: PROCEDIMENTO COMUM CÍVEL (7)

REQUERENTE: CARLA ZAMBELLI SALGADO

REQUERIDO: FACEBOOK SERVICOS ONLINE DO BRASIL LTDA.

SENTENÇA

Trata-se de ação de obrigação de não fazer, cumulada com pedido de indenização por dano moral,
ajuizada por CARLA ZAMBELLI SALGADO em desfavor de FACEBOOK SERVIÇOS ONLINE DO
BRASIL LTDA, partes qualificadas nos autos.

Inicialmente, foi formulado pedido de tutela antecipada em caráter antecedente (ID 93067876) para que a
ré retirasse a restrição aplicada à página da autora e se abstivesse de impor novas limitações ou ameaças
de remoção de página de forma injustificada ou sem apresentação de forma clara das razões para
aplicação das medidas, com garantia de defesa prévia à aplicação das sanções. Junta documentos.

Decisão de ID 94521371 indeferiu a tutela de urgência pleiteada e determinou a apresentação de emenda


à inicial, a qual foi apresentada sob ID 95824322.

Narra a inicial que a autora possui conta na rede social Facebook identificada por meio do perfil Carla
Zambelli (https://www.facebook.com/ZambelliOficial/), por meio do qual a autora, no exercício de seu
mandato de parlamentar federal, mantém canal de comunicação com os cidadãos.

Aduz que tem se destacado como uma das parlamentares mais atuantes e presentes na comunicação
virtual e que, desde fevereiro/2021, destaca-se como a congressista mais influente das redes sociais.

Afirma que as mídias sociais da autora são um verdadeiro canal de comunicação direta entre a
parlamentar e mais de um milhão de brasileiros que acompanham os trabalhos por ela desenvolvidos,
especialmente no que se refere a aspectos de interesse público, e que sua presença nas redes sociais se
caracteriza por um alto engajamento de usuários que se identificam com o conteúdo por ela postado, o
que não se confunde com o número de seguidores.

Relata que, sem qualquer justificativa ou ordem judicial, a ré tem imposto de forma unilateral e sumária
restrição à conta da autora, o que significa que impôs o bloqueio de algumas funções, limitando assim a
utilização de seu serviço, sem que houvesse desobediência à política da ré e sem indicação das supostas
violações.

Sustenta que a ré promoveu censura a seu direito de manifestação, chegando até mesmo a enviar
notificações a usuários da rede social, indagando se possuíam interesse na diminuição na quantidade de
notificações do conteúdo produzido pela autora.

Número do documento: 21121318305437400000103365948


https://pje.tjdft.jus.br:443/consultapublica/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?nd=21121318305437400000103365948
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Discorre sobre o direito aplicável à espécie. Ao final, requer que a ré seja condenada a se abster de impor
limitações ou ameaças de remoção de página de forma injustificada às contas da autora, bem como ao
pagamento de indenização por dano moral no valor de R$ 5.000,00, valor atribuído à causa.

Decisão de ID 95859446 recebeu a emenda de ID 95824322 e determinou a citação da ré.

A ré foi citada e apresentou a contestação de ID 101504604. Suscita preliminar de inépcia da inicial e


cerceamento de defesa. No mérito, sustenta que o usuário é responsável pelos conteúdos publicados; que a
aplicação de regras contratuais não configura censura ou violação ao direito à liberdade de expressão; que
atuou em exercício regular de direito como provedor de aplicações do Facebook diante da violação pela
autora aos termos e políticas da ré; que a ré possui regras muito claras de utilização, os Termos de Serviço
e os Padrões da Comunidade, sendo que todos os usuários estão submetidos a essas regras, sendo que, ao
criarem uma conta, tomam ciência de seus termos e com eles concordam; que os usuários se
comprometem a não publicar qualquer conteúdo de viole direitos de terceiros ou as políticas do serviço;
que são alertados de que qualquer conteúdo que viole os termos de serviço ou os padrões da comunidade
poderá ser removido e que as contas poderão sofrer restrições temporárias ou até mesmo ser
permanentemente desativadas; que a autora não comprovou a abusividade de nenhuma das cláusulas das
regras a que é submetida; que que não há nenhuma cláusula que coloque em desequilíbrio o contrato
firmado entre as partes; que é vedada a publicação de informações pessoais ou confidenciais de terceiros,
como números de telefones e documentos de identidade nacional ou digital; que a autora incorreu em
violações a essa política de privacidade ao divulgar informações sensíveis e pessoais de terceiros, o que
resultou na remoção dos conteúdos violadores; que a ré também implementou medidas específicas
voltadas à segurança e informação de seus usuários durante a pandemia, em combate à desinformação;
que adotou políticas específicas com relação a conteúdos que envolvam a Covid-19 e sua compatibilidade
com os termos de serviço e os padrões da comunidade; que as ações implementadas são transparentes e
podem ser consultadas na internet, em links que informa; que implementou o Centro de Informações
sobre o Coronavírus, de fácil acesso ao usuário; que pode haver a indisponibilização de conteúdo que
promova desinformação; que isso não caracteriza censura; que a autora não forneceu as URLs específicas
de conteúdos eventualmente removidos, o que impede que a defesa analise a questão e forneça resposta
individualizada a esse respeito; que a ré disponibiliza ao usuário e a seus administradores, no caso de
páginas, o histórico contendo a relação de violações cometidas e indicando o tempo de duração das
restrições; que os usuários podem apelar da decisão de remoção de conteúdo ou restrição à sua conta, caso
entendam pela ocorrência de equívoco; que há limites à intervenção do Estado na atividade econômica;
que não é possível impedir que a ré promova novas restrições em caso de violação aos termos de uso do
serviço; que a imunidade parlamentar não garante á autora o direito de infringir os termos e políticas da
ré; que não se fazem presentes os requisitos da responsabilidade civil, não havendo o dever de indenizar
por dano moral; e que os pedidos iniciais devem ser julgados improcedentes.

Réplica no ID 103905422, na qual a autora sustenta, dentre outras coisas, que não forneceu as URLs
específicas pois não se trata de remoção de conteúdo, mas de restrição indevida à conta da autora, a qual
tomou conhecimento acerca do fato por meio de terceiros, seguidores da autora nas redes sociais, que
informaram que a ré lhes teria sugerido a opção de receberem menos notificações de sua página e
informou que a página estaria perto de ser retirada do ar.

Em especificação de provas (ID 103954962), a ré se manifestou no ID 106336509, requerendo o


julgamento antecipado da lide, ao passo que a autora deixou de se manifestar (ID 106392248).

A autora se manifestou quanto à petição de ID 106336509 (ID 108808022).

Decisão de ID 108859320 entendeu não haver necessidade de produção de novas provas e determinou a
conclusão dos autos para julgamento.

Os autos vieram conclusos.

É O RELATÓRIO. DECIDO.

Número do documento: 21121318305437400000103365948


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Do julgamento antecipado da lide

O processo tem julgamento antecipado, uma vez que a questão suscitada no presente processo é
prevalentemente de direito, o que atrai o disposto no art. 355, inciso I, do CPC. Nesse caso, o julgamento
do processo no estado em que se encontra é medida que se impõe, não se fazendo necessária a dilação
probatória.

Da preliminar de inépcia da inicial e de cerceamento de defesa

A ré alega a ocorrência de inépcia da inicial e de cerceamento de defesa, uma vez que a autora teria
alegado de forma genérica ter sido excluída de sua página na plataforma Facebook por suposta publicação
que reproduzia pronunciamento do Presidente da República, mas não traria a indicação da URL da
publicação e não indicaria os motivos pelos quais o conteúdo da publicação não violaria os termos de
serviço ou padrões da comunidade do Facebook, além de não fazer prova da existência da publicação ou
de sua remoção.

Sem razão. Não há inépcia da inicial quando o previsto no art. 319 do CPC resta atendido. É o caso, visto
que a narrativa fática trazida pela autora propiciou a impugnação de seus argumentos, em exercício do
contraditório e da ampla defesa.

Além disso, a autora não alega a exclusão de publicação de sua conta, mas sua restrição, de modo que os
argumentos da ré sequer se contrapõem à alegação da autora.

Por fim, as alegações da ré dizem respeito à matéria de mérito, devendo ser apreciadas no momento
oportuno.

Ante o exposto, rejeito a preliminar.

Não havendo outras questões preliminares pendentes de apreciação, passo à análise do mérito.

DO MÉRITO

A autora alega a restrição injustificada de sua conta, sem que tenha descumprido alguma política da ré e
sem prévia notificação acerca da restrição e das supostas violações cometidas.

Nesse sentido, afirma ter tomado conhecimento das restrições por terceiros, que teriam narrado o
recebimento de notificações questionando se possuiriam interesse na diminuição da quantidade de
conteúdo produzido pela autora a ser recebida por eles, sugerindo a opção de recebimento de menos
notificações de sua página e informando que esta estaria para ser retirada do ar, o que seria inadmissível e
constituiria censura.

Compulsando os autos, verifico que a autora junta diferentes telas sistêmicas, em que a ré informa que a
página da autora estaria em risco de ser tirada do ar (ID 95824322 - Pág. 4), questiona se o usuário
desejaria receber menos notificações de vídeo de sua página e se o usuário desejaria deixar de seguir
outras páginas, oferecendo como opção a da autora e a de Bia Kicis (ID 95824322 - Pág. 5). Além disso,
consta relato de usuário informando ter recebido a sugestão de deixar de seguir a autora e Bia Kicis (ID
95824322 - Pág. 5).

Em sua defesa, a ré se refere à remoção de conteúdo, alegação que não foi feita pela autora, tecendo
considerações acerca dos motivos que teriam levado à remoção do conteúdo, como divulgação de
informações de terceiros e promoção de desinformação, o que violaria os termos de serviço e padrões da
comunidade, podendo ensejar a aplicação de restrições temporárias ou até mesmo a desativação
permanente da conta.

Na análise das alegações das partes, tenho que os fatos narrados não constituem censura, já que esta
ocorre de forma prévia e impede a ocorrência de manifestação, o que não ocorreu, já que somente houve
consulta acerca do desejo de o usuário receber menos notificações acerca das publicações da autora ou se

Número do documento: 21121318305437400000103365948


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ele desejaria deixar de segui-la. A informação quanto à próxima saída do ar da página tampouco
constituiu censura. Ressalto que não houve, em nenhum momento, censura, visto que a autora não foi
impedida de publicar conteúdos, mas alega a restrição de sua conta.

Tampouco houve a alegada restrição de conta, visto que a indagação acerca do desejo do usuário de
receber menos notificações de determinada página ou de deixar de segui-la não constituem restrições, mas
meros questionamentos, sendo certo que eventual diminuição no recebimento das notificações ou do
número de seguidores depende da resposta positiva dos usuários, a qual não se pode imputar à ré.

Ressalto que tais notificações são disponibilizadas a todos os usuários, mediante configuração em
“Configurações de notificação”, possibilitando-os optar por receberem ou não notificações da plataforma,
bem como, em caso de opção positiva, acerca de quais conteúdos desejam ser notificados. Assim, o
questionamento acerca da vontade do usuário de receber ou não notificações acerca dos conteúdos
publicados pela autora não constitui restrição, conforme alegado, e tampouco possui viés ideológico, mas
tão-somente reflete o comportamento programado e esperado da plataforma, segundo foi projetado pela ré
de forma uniforme para todos os usuários e segundo as opções personalizadas e configuradas de cada
usuário, dentro do campo de opções permitidas pela plataforma.

No que se refere à mensagem acerca do risco de retirada do ar da página, tal mensagem se dá de forma
automática quando há a denúncia da página por parte dos usuários. Tendo em vista a atuação política da
autora, é certo que, assim como há inúmeros adeptos dos pensamentos e ideias por ela partilhados,
também há opositores, notadamente nos tempos atuais, em que se vivencia uma clara divisão da
sociedade, no que tange às opções políticas e ideológicas. Assim, tal aviso tampouco pode ser imputado à
parte ré, também sendo mero funcionamento programado da plataforma em razão de fato imputável a
outrem (denúncia da página por usuários). Contudo, vale ressaltar que não houve qualquer implementação
da retirada da página, bem como que os termos de serviço trazem previsão acerca da possibilidade de
recurso nessa hipótese.

Vale esclarecer que a resposta programada da ré às denúncias da página por parte dos usuários se dá em
perfeita conformidade ao previsto na lei n. 12.965/2014, marco civil da internet, no inciso V do art. 2º:

“Art. 2º A disciplina do uso da internet no Brasil tem como fundamento o respeito à liberdade de
expressão, bem como:

(...)

V - a livre iniciativa, a livre concorrência e a defesa do consumidor”.

Assim, a ré é plataforma privada, não sendo possível a alteração de suas políticas e regras apenas para
determinada pessoa, regras estas que são as mesmas no mundo todo. Ademais, a possibilidade de criação
de regras flexíveis de acordo com o perfil ou a identidade do usuário é configuraria quebra de isonomia e
daria margem a violações de direito indesculpáveis. Nesse sentido, o art. 3º, inciso IV, da lei supracitada,
traz como princípio da disciplina de uso da internet a preservação e garantia da neutralidade de rede, o
que somente é possível mediante regras aplicáveis uniformemente e indiscriminadamente a todos os
usuários.

Assim, não restou configurado que tais regras tenham violado qualquer princípio previsto no art. 3º ou
qualquer direito previsto no art. 7º da Lei n. 12.965/2014.

Ao contrário, verifico que houve atendimento ao disposto na lei supracitada, notadamente no que se refere
à “publicidade e clareza de eventuais políticas de uso dos provedores de conexão à internet e de
aplicações de internet” (art. 7º, inciso XI, da Lei n. 12.965/2014).

Ademais, o art. 8º da Lei n. 12.965/2014 trata das hipóteses de nulidade de pleno direito de cláusulas
contratuais, as quais não se mostram presentes no caso em apreço, em que as regras previstas nos termos
de serviço e padrões da comunidade não são ilícitas e não violaram direitos da autora. Dessa forma, sendo
regras válidas e lícitas, não há óbices à sua aplicação a todos os usuários, inclusive à autora.

Número do documento: 21121318305437400000103365948


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Ressalto que, ao contrário do alegado na inicial, as notificações lá descritas não comprometem a
capacidade de comunicação da autora, a qual também pode se comunicar com seus eleitores e o público
em geral por meio de outras plataformas de comunicação, como Instagram, bem como por meio de blogs
e outros.

A autora também requer a condenação da ré ao pagamento de indenização por dano moral em razão dos
fatos alegados. No entanto, conforme acima exposto, não se verifica qualquer ilicitude na conduta da ré
ou falha na prestação de serviço por parte dela. Ainda, não foi demonstrada a ocorrência de qualquer
dano, visto que as telas coladas na inicial se limitavam a informar sobre breve retirada do ar, não ocorrida,
e a questionar sobre o desejo de recebimento de menos notificações ou de deixar de seguir a página.

Assim, ausente o requisito da responsabilidade civil, o pedido indenizatório deve ser julgado
improcedente.

DO DISPOSITIVO

Forte nessas razões, resolvo o mérito da demanda, com fundamento no art. 487, inciso I, do CPC, e
JULGO IMPROCEDENTES os pedidos iniciais.

Condeno a autora ao pagamento de custas processuais e honorários advocatícios, que fixo em R$ 2.000,00
(art. 85, § 8º, do CPC).

Transitada em julgado, e não havendo requerimentos, arquivem-se os autos, com as cautelas de praxe.

Sentença registrada eletronicamente. Publique-se. Intimem-se.

BRASÍLIA, DF, 13 de dezembro de 2021 12:48:56.

GEILZA FÁTIMA CAVALCANTI DINIZ

Juíza de Direito

Número do documento: 21121318305437400000103365948


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