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SUMÁRIO
Capa
Rosto
Introdução
Vida e itinerário espiritual
Proposta de leitura
Meditações sobre a paixão
Apêndice - Paixão de nosso Senhor Jesus Cristo Segundo Marcos
Coleção
Ficha Catalográfica

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INTRODUÇÃO

A figura do irmão Carlos de Foucauld (irmão Carlos de Jesus) sempre exerceu


grande fascínio sobre muitos cristãos (e não cristãos). Com a vida, a ponto de
sacrificá-la, ele testemunha sua fé no Senhor pobre e misericordioso e seu amor
total aos menores dos irmãos.
Diversas associações de fiéis, comunidades religiosas e institutos seculares
lembram seu testemunho de vida e seus ensinamentos espirituais.
Irmão de Foucauld escreveu muito: reflexões, ensinamentos, cartas, tudo fruto
de longas meditações sobre a Palavra de Deus. Sua mensagem espiritual nasce da
imitação radical de Cristo pobre e obediente à vontade do Pai. O centro de sua
espiritualidade é o culto à Eucaristia e ao Sagrado Coração de Jesus.
Seu amor à Eucaristia se exprime no transcorrer longas horas, de dia e de noite,
ajoelhado em oração diante do Sacrário. Ele crê firmemente que é por meio da
presença de Jesus na Eucaristia que acontece a santificação dos que não têm fé em
Deus. É do Senhor Jesus que ele aprende a ser pequeno irmão universal, e é junto
ao Sacrário que encontra a força para ser caridoso para com todos. Quer levar o
amor do Senhor às pessoas que lhe estão ao redor, gente que vive na miséria e que
desconhece a Deus. Deseja “fazer o bem às almas. Não com a palavra, mas com a
oração, com a oferta do Santo Sacrifício, a penitência, a prática da caridade”.
O irmão Carlos está convencido de que a paixão e morte de Jesus Cristo na cruz
testemunham a concretude do seu infinito amor pela Igreja e por todos os homens,
pelos que têm fé e pelos que não a têm. A vida do Filho de Deus é vista como vida
crucificada, doada inteiramente. O sofrimento com Cristo na hora de sua doação
total não apenas torna puro e santo quem crê, mas principalmente o torna
participante da obra de santificação, seja dos que têm fé, seja dos que não
acreditam. Contemplando e aderindo ao Cristo, que se doa totalmente por amor
aos homens, o cristão sente-se impulsionado a responder com o mesmo gesto
radical de doação, na concretude do dia a dia.

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Vida e itinerário espiritual
Carlos de Foucauld nasceu em Estrasburgo, na França, em 15 de setembro de
1858, numa família nobre e profundamente cristã. Em 1876, se alistou no exército,
e frequentou a Academia militar de Saint-Cyr. Transcorreu a juventude no
ceticismo religioso e no positivismo, a ponto de perder a fé. Assim ele se exprimiu
sobre esse período: “Eu me afastava cada vez mais de ti, Senhor. A fé desapareceu
de minha vida”.
Em 1882, deixou o exército e se instalou na Argélia, para explorar o Marrocos.
Estudou árabe e hebraico.
Enquanto me encontrava em Paris e programava minha viagem para Marrocos, me encontrei com
pessoas muito inteligentes, muito virtuosas e muito cristãs. E dizia a mim mesmo que talvez essa
religião não fosse tão absurda. Ao mesmo tempo, uma graça interior extremamente forte me chamava.
Comecei a ir à igreja, sem crer. Aí me sentia bem e fazia esta prece estranha: “Meu Deus, se vós existis,
fazei que eu vos conheça...” Veio-me então a ideia de que devia instruir-me sobre essa religião, na qual
talvez se encontrasse aquela verdade pela qual me angustiava... Procurei um padre instruído que me
desse alguma informação sobre a religião católica... O sacerdote (padre Huvelin, ndc), tornou-se meu
confessor e meu melhor amigo, nos quinze anos que se passaram a partir daí.

Em outubro de 1886, entrou na igreja de Santo Agostinho, em Paris, para


solicitar ao padre Huvelin lições de religião. Padre Huvelin lhe pediu, então, que se
confessasse imediatamente e fizesse a comunhão. E assim aconteceu a conversão,
aos vinte e oito anos. Decidiu, em seguida, dedicar completamente a própria vida a
Deus:
Não apenas acreditei que havia um Deus. Compreendi que não podia fazer outra coisa senão viver por
ele. A minha vocação religiosa brotou na mesma hora da minha fé. Deus é tão grande! Existe tanta
diferença entre Deus e tudo o que não é ele!...

Durante uma peregrinação à Terra Santa, Carlos decidiu tornar-se monge e


entrar no mosteiro trapista de Nossa Senhora das Neves. Desejava imitar a pobreza
e a vida oculta de Nosso Senhor Jesus em Nazaré.
Depois de alguns meses de noviciado trapista, dirigiu-se ao priorado de Akbés,
na Síria, à procura de vida mais austera. Em seguida, transferiu-se para Nazaré,
junto ao mosteiro das Clarissas. Ali, durante três anos, trabalhou como doméstico.
Em 14 de abril de 1900, por ocasião de um retiro, decidiu tornar-se sacerdote.
Foi ordenado padre na diocese de Viviers, na França, em 9 de junho de 1901, aos
quarenta e três anos.
Em 28 de outubro de 1901, o irmão Carlos de Foucauld chegou a Beni-Abbés,
no Saara, para viver vida de oração e adoração. Mas logo sentiu que o Senhor o
impelia a passar da vida contemplativa para a vida ativa.
Sua vocação apostólica o levou a estabelecer-se na zona de Tamanrasset, no
extremo sul do Saara, onde moram os nômades muçulmanos Tuareg. O irmão
Carlos estudou a língua tamahaq e traduziu os santos evangelhos para o tamahaq.
Dedicou-se ao apostolado dos mais pobres e abandonados e ao anúncio da Palavra
de Deus, em particular do Evangelho.

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Vocês me perguntam qual é a minha vida. É uma vida de monge missionário fundada sobre estes três
princípios: imitação da vida oculta de Jesus em Nazaré, adoração ao Santíssimo Sacramento exposto,
morada em meio aos povos infiéis mais esquecidos, fazendo tudo o que é possível para a conversão
deles.

Sentiu, nesse período, que o Senhor o chamava para dar início a uma nova
família religiosa, centrada no Evangelho, na Eucaristia e na vida apostólica: os
Pequenos Irmãos do Sagrado Coração de Jesus. Pensava também na fundação das
Pequenas Irmãs do Sagrado Coração.
Na tarde de 1° de dezembro de 1916, ao ser morto por um bando de assaltantes
de passagem, realizou-se um dos seus maiores desejos – imitar o Senhor até o fim:
“O nosso aniquilamento é o meio mais poderoso que temos para nos unirmos a
Jesus e para fazermos o bem às almas”.
Em 13 de novembro de 2005, na basílica vaticana, o irmão Carlos de Foucauld
foi proclamado bem-aventurado. Então, o papa Bento XVI, no final da solene
celebração, disse sobre ele:
Ao longo de sua vida contemplativa e escondida em Nazaré, Carlos de Foucauld encontrou a verdade
da humanidade de Jesus, e nos convidou a contemplar o mistério da Encarnação. Nesse lugar,
aprendeu muito do Senhor, a quem ele queria seguir na humildade e na pobreza. Descobriu que Jesus,
vindo para partilhar a nossa humanidade, nos convida para a fraternidade universal, que Carlos viveria
mais tarde no Saara, e ao amor de que Cristo nos deu o exemplo. Como sacerdote, ele colocou a
Eucaristia e o Evangelho no centro de sua existência, as duas mesas da Palavra e do Pão, fonte da vida
cristã e da missão.

Os breves pensamentos a seguir querem atestar como era grande o desejo que o
irmão Carlos de Foucauld nutria de se configurar, o mais possível, ao Senhor,
especialmente na oferta total da vida por ele e para a santificação de todos os
homens.
Pense que você deve morrer mártir, despojado de tudo, estendido por terra, nu, irreconhecível, coberto
de sangue e ferimentos, violenta e dolorosamente assassinado... e tenha o desejo de que isso aconteça
hoje!... Para que eu lhe conceda esta graça infinita, seja fiel e vigilante ao carregar a cruz.

Se eu pudesse, mas não posso, fazer alguma outra coisa senão me perder totalmente na união com sua
divina vontade, eu preferiria, para mim, o insucesso total e a perpétua solidão e as falências em tudo.
Elegi abiectus esse (escolhi ser desprezado). Nessa união com o desprezo e com a Cruz do nosso divino
Bem-amado, existe algo que pareceu sempre desejável entre tantas coisas...
E para mim, eu pediria a vocês uma coisa: rezem para que eu ame. Rezem para que eu ame a Jesus.
Rezem para que eu ame a sua Cruz. Rezem para que eu ame a Cruz, não por ela mesma, e sim como o
único meio, o caminho único para glorificar a Jesus: “O grão de trigo não produz fruto, se não morre...
Quando eu for erguido, atrairei tudo para mim”. E como bem observa são João da Cruz, é na hora do
seu aniquilamento supremo, da sua morte, que Jesus faz o maior bem; foi então que ele salvou o
mundo...
Viva como se você tivesse de morrer mártir hoje.
Meu Senhor Jesus, vós dissestes: “Ninguém tem amor maior do que aquele que dá a própria vida pelos
amigos”. Pois eu desejo, de todo o coração, dar a minha vida por vós, e é o que eu vos peço de todo o
coração. No entanto, não se faça a minha vontade, mas a vossa. Eu vos ofereço a minha vida. Fazei-me
viver e morrer como mais vos agrada. Em vós, por meio de vós e por vós. Santa Virgem Maria, são José,
santa Madalena... ajudai-me! Meu Deus, perdoai os meus inimigos, dai-lhes a salvação! Amém.
Eu desejo, de todo o coração, dar a minha vida por vós.
Se os discípulos de Jesus pudessem desanimar, teria sido causa de desânimo para os cristãos de Roma a

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tarde do martírio de São Pedro e de São Paulo! Pensei muitas vezes sobre aquela tarde: que tristeza, e
como tudo teria parecido aniquilado, se não acontecesse, nos corações, a fé que havia! Sempre haverá
lutas, e sempre o triunfo régio da Cruz na aparente derrota.

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Proposta de leitura
A presente obra propõe uma série de meditações do irmão Carlos de Foucauld
sobre a paixão do Senhor. São extraídas da antologia Obras espirituais, organizada
por Denise Barrat (Edizioni San Paolo, 20038).
No pequeno volume, o leitor encontrará vinte e quatro trechos de comentários
sobre alguns versículos da paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo; e como
apêndice, a narrativa da paixão de Jesus segundo o evangelista Marcos.
Convidamos a tomar essas páginas como caminho de crescimento espiritual e
de meditação, em vista da grande festa cristã: a Páscoa.
Os comentários do irmão Carlos aprofundam o tema da oração, vista como
possibilidade de encontro com o Senhor, frente a frente, e como possibilidade de
imitação do Senhor, na plenitude de sua obediência à vontade do Pai. Eis algumas
chaves de leitura:
– Contemplar a Cristo, que, na hora da prova,
se abandona totalmente à vontade do Pai.
– Considerar a oração de Cristo no Getsêmani
como modelo da nossa.
– Viver o sofrimento no contexto de oração.
– Estar incessantemente vigilante na hora da prova,
juntamente com o Senhor.
– Considerar a oração como remédio
contra as tentações.
– Deixar que o Espírito nos guie na oração.
– Ter em mente os momentos de oração.
– Consolar a Cristo, fazendo tudo por ele...
e tudo pela salvação das almas.
– Abraçar com alegria e com amor qualquer cruz.
– Colher, na paixão e no Calvário de Cristo,
uma suprema declaração de amor.
– Amar, honrar e servir a Mãe do Senhor Jesus
e nossa.
– Pedir a graça de derramar com amor e coragem o próprio sangue por Jesus.

Propomos uma leitura por etapas, sem pressa. Sugerimos, para a meditação
dessas vinte e quatro passagens, dedicar-lhes ao menos meia hora por dia,
colhendo e lendo com calma. O texto evangélico de Marcos pode ser lido, do
primeiro ao último versículo, no Domingo de Ramos e na Sexta-feira Santa.
Convidamos a fixar a reflexão particularmente em Mc 15,22-39.

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MEDITAÇÕES SOBRE A PAIXÃO

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Levou consigo Pedro, Tiago e João, e começou


a ficar apavorado e angustiado. E lhes disse:
“Minha alma está em aflição de morte.
Fiquem aqui e vigiem” (Mc 14,33-34).

(...) Vós nos ensinais a escolher o sofrimento, amar o sofrimento para vos imitar
quando sofremos no interior de nossa alma. Sofrer de quê? De vermos a perda
eterna de tantos homens, membros vossos, e de sermos incapazes de impedi-lo.
Foi este, sem dúvida, o vosso sofrimento mais amargo... Sofrer por todos os
pecados do mundo que ofendem a Deus e mancham as almas, pelas dores pessoais
de nossos corações, pelas traições de nossos amigos, dos excessivos sofrimentos
corporais. Essas coisas, enquanto vivermos neste mundo, é inevitável que façam o
nosso coração sofrer, a não ser que sobrevenha um milagre espiritual. Sofrer pela
traição de nossos amigos, pela morte de nossos parentes, pela violência de nossas
excessivas dores corporais, nada disso é imperfeição, de modo absoluto. O que é
necessário, involuntário, não pode constituir imperfeição. Essa opressão do
coração, esse sofrimento interior é necessário, natural no homem, enquanto
passível, isto é, enquanto a alma está unida a este corpo mortal, e isso por vontade
de Deus. Não está em nosso poder o não sofrer por essas coisas, e não devemos
nem sequer procurar sabê-lo, porque buscar essa impassibilidade, um dia sonhada
pelos estoicos, equivaleria a procurar uma fuga diante da ordem estabelecida por
Deus.
Somente Deus pode colocar-nos em tal impassibilidade neste mundo, com
algum milagre espiritual. Nós, porém, não devemos nem desejar nem pedir esse
milagre, porque não seria mérito para nós, a partir do fato de que Deus não o fez
para Jesus...
Nós devemos seguir o exemplo de Jesus, e mesmo sofrendo com isso, e
sofrendo alguma vez até à morte uma dor que é agradável à vontade de Deus para
ele se unir com a nossa natureza, devemos conformar plenamente, e com
perfeição, a nossa vontade com a dele, e nunca deixar de lhe dizer, no mais
profundo do coração: “Faça-se a vossa vontade, e não a minha”.

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Afastou-se deles, à distância de um arremesso de pedra.


Então se pôs de joelhos e rezava:
“Pai, se queres, afasta de mim este cálice.
Porém, não se faça a minha vontade, e sim a tua”
(Lc 22,41-42).

(...) Esqueçamos a nossa pessoa, até mesmo em nossa agonia por Jesus, assim
como Jesus se esquece de si mesmo, até mesmo em sua agonia por nós.
Rezemos como ele nos ensina a rezar, “procurando sempre o lugar que leva ao
recolhimento”, como diz João da Cruz, ao assumir os ensinamentos de Nosso
Senhor; ora sozinhos em nossa cela, ora aqui junto com outros, mas conservando
cada um o silêncio, e até mesmo um pouco afastados de outros, para estarmos
mais solitários... Há também momentos em que rezamos juntos: Nosso Senhor
recomendou muito a oração comum! Mas não deixou de recomendar também a
oração solitária, ou a oração completamente solitária, ou aquela em que estamos
unidos a outros com o corpo, mas cada um em silêncio... Recomendou, deu o
exemplo de todas essas espécies de oração. Vamos todos imitá-lo...
Ele reza de joelhos: façamos a mesma coisa. Ele reza muito longamente, uma
hora pelo menos. Outras vezes durante a noite toda: façamos a mesma coisa. Mas
ele diz pouquíssimas palavras (maneira, aliás, que ele nos deu como preceito).
Exprime o seu desejo em duas palavras e o repete incessantemente (e nos manda
“rezar sem nunca nos cansarmos”... como não se cansou a pobre viúva, em Lc 18,1-
8). Façamos a mesma coisa: expressemos a Deus o nosso desejo, simplesmente
com duas palavras, e repitamos sem pausa, como grito! Após ter expressado seu
desejo, ele acrescenta: “Porém, não se faça a minha vontade, mas a tua”. E além de
exprimir o seu desejo, colocou esta restrição: “Se tu queres”. Façamos a mesma
coisa; após fazermos o nosso pedido ou enquanto o fazemos, acrescentemos
sempre esta restrição: “Que se cumpra a vossa vontade, e não a minha... Se esta é a
vossa vontade... Se vós o quereis”. Porque, na maior parte dos casos, sabemos
muito pouco se o que pedimos é para o bem, se é para a glória de Deus, se é a
vontade dele!

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Afasta de mim este cálice! Porém, não o que eu quero,


e sim o que tu queres (Mc 14,36).

(...) Na prova, na dor, no perigo, em qualquer acontecimento grave, rezemos!


Rezemos como Jesus no Getsêmani, como crianças, no mais completo
abandono, com familiaridade perfeita, sem nada estudado, “com poucas palavras”,
da maneira como ele ensinou, mas repetindo as mesmas palavras.
Façamos de tal modo que a nossa oração tenha duas partes: na primeira
expressamos a nossa necessidade, e na segunda dizemos: “Não o que eu quero, mas
o que vós quereis”. (É sempre assim que devem terminar todas as nossas orações.)
Como ele nos deu o exemplo. Ou mesmo digamos simplesmente de uma só vez:
“Meu Deus, seja feita a vossa vontade”.
Ele nos dá o exemplo dessa oração, também no Pai-nosso, oração que resume
tudo nessas poucas palavras... São esses dois gêneros de oração igualmente
perfeitos, porque de ambos é Deus mesmo quem nos dá o exemplo: foi o Espírito
Santo quem inspirou a Jesus tanto uma como a outra, de acordo com as
circunstâncias.
Façamos como Jesus. Digamos, sem diferença, tanto uma quanto a outra, de
acordo com a inspiração que nos dá o Espírito Santo. Não nos apeguemos nem à
oração de adesão precedida de pedidos, nem à oração de adesão sem pedidos:
amemos igualmente uma e outra, porque as duas são divinas. Façamos,
igualmente, esta ou aquela, de acordo com a inspiração que, no momento, o
Espírito Santo nos concede.

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Entrando em agonia,
orava mais intensamente... (Lc 22,44).

(...) Quanto mais sofremos, tanto mais devemos rezar. No entanto, o que em
geral acontece é exatamente o contrário: quanto mais sofremos, tanto mais somos
tentados e deixamos de rezar. A tática do demônio é de nos envolver numa nuvem,
é de nos afogar de alguma forma em nosso sofrimento ou em nossa tentação, e nos
impedir de elevar a voz e os olhos para o céu... Arrebentemos essa rede, essa
nuvem; não vamos cair nessa armadilha, porque tudo isso nós já conhecemos. E
quanto mais sofremos, quanto mais somos tentados, tanto mais ardorosamente,
tanto mais de coração nos atiremos em Deus, clamando a ele, com toda a fé e
amor, pedindo sua ajuda.

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Voltando, encontrou-os de novo dormindo.


E disse a Pedro: “Simão, você está dormindo?
Não conseguiu vigiar por uma hora?”
(Mc 14,37).

(...) Pobre de mim, pobre de mim, pobre de mim! É a mim, mais do que a outro
qualquer, que se aplica essa repreensão... Quantas vezes Nosso Senhor tinha razão
ao me dizer: “Não conseguiu vigiar uma hora comigo?”
Meu Senhor e meu Deus, eu não posso fazer outra coisa, senão prostrar-me aos
vossos pés, bater no peito, pedir-vos perdão do meu passado tão longo de
negligência, de preguiça e tibieza, agradecer-vos ter suportado tanto tempo um ser
tão malvado, suplicar-vos que me deis a força de nunca mais cair nessa culpa que
detesto, que é tão desprezível, a fim de vigiar sempre junto a vós, quando vós me
permitis fazê-lo; para me deitar tanto mais tarde, quanto mais me autorizardes...
Aos vossos pés, faço aqui um propósito, meu Senhor Jesus; abençoai-o e tornai-o
firme. Daqui para a frente, estarei sempre vigilante juntamente convosco, durante
o mais longo tempo que vos dignardes conceder-me. Vigiarei incessante junto a
vós, sem outros limites que não sejam os da obediência à vossa santa vontade, ó
meu amado Senhor Jesus! Amém.

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Vigiem e rezem, para não caírem na tentação.


Porque o espírito está pronto, mas a carne é fraca (Mc 14,38).

(...) Vigiemos e rezemos... acima de tudo por amor a Jesus. E também porque ele
assim nos ordena. Portanto, por obediência. Além disso, para não cairmos em
tentação, pois a vigilância afugenta muitas tentações, cansa o corpo e o torna
obediente ao Espírito, concede-nos mais tempo do que teríamos de outra maneira,
para rezar, adorar, contemplar.
A oração é o principal remédio contra todas as tentações; remédio durante a
tentação, para afugentá-la; remédio depois da tentação, para apagar suas marcas e
recordações, para nos fortalecer nos bons propósitos, na união com Deus, no amor
a Deus.

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Afastou-se novamente e orou,


dizendo as mesmas palavras (Mc 14,39).

Vós nos ensinais a rezar, ó meu Deus, a orar sem discursos estudados, sem
frases, sem volteios, com simples grito do coração, uma palavra apenas que se
repete sem cessar, terminando-a com esta frase: “Todavia, seja feita não a minha,
mas a vossa vontade!”.
Há duas maneiras de rezar: deixando o coração gritar; com a simplicidade da
criança, deixando o coração pedir a Deus o que Deus deseja: qualquer graça para si
ou para outros, a cura de alguma dor, para si ou para o próximo. Esse grito se lança
ao Pai celeste com toda a simplicidade, e que seja sempre seguido desta frase:
“Porém, não a minha vontade, mas a vossa”. Outra maneira de rezar consiste em
dizer simplesmente a frase final, ou seja: Nesta circunstância, meu Pai, seja feita a
vossa vontade, seja esta qual for!”.
Essas duas orações são perfeitas, são divinas. Jesus nos dá o exemplo da
primeira às margens do Cédron e no Getsêmani. Ele dá o exemplo da segunda no
Pai-nosso... Tanto uma como a outra são igualmente perfeitas, divinas. Por isso,
não nos apeguemos de maneira especial nem a uma nem à outra dessas formas.
Empreguemos ora uma, ora a outra, quando o Espírito Santo nos inspirar.
Deixemos que o Espírito Santo nos guie. Talvez ele nos inspire sempre uma, ou
talvez sempre a outra, talvez ora uma, ora a outra dessas duas formas de oração.
Pouco importa, pois ambas são perfeitas e divinas.

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Foi pela terceira vez e lhes disse:


“Durmam agora e descansem” (Mc 14,41).

Terna repreensão aos prediletos do seu coração, a quem ele, em sua bondade, se
dignou conceder a graça de vigiar junto com ele. No entanto, ao invés de
aproveitarem essa grande graça, miseramente deixaram que o próprio espírito
sucumbisse sob o peso da carne, e dormiram, em lugar de fazerem companhia ao
Mestre na oração e na vigília.
(...) Ó Coração de Jesus, eu me lanço a vós. Eu vos suplico, fazei que eu nunca
mais mereça essa repreensão que vós dirigis aos vossos apóstolos e que
infelizmente tenho merecido tantas vezes!... Fazei que eu esteja vigilante junto
convosco, tantas vezes e durante tanto tempo quanto vós me permitirdes! Fazei
que eu não perca nenhum desses momentos felizes de íntimo diálogo convosco!...
Fazei que nunca mais me aconteça (nem me atrevo a dizer, de tão odioso que é)
que eu prefira o sono, mais que o permanecer em vossa companhia, ou que eu
julgue mais agradável dormir do que estar aos vossos pés para vos contemplar e
vos dizer o quanto vos amo!... Concedei-me a graça de vigiar com muita
frequência, e por longo tempo, aos vossos pés... Que minhas noites sejam o que
eram as noites da santa Virgem Maria e de são José: uma longa conversa íntima
convosco, um tempo de adoração, de contemplação, de iluminação interior (...).

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“Aquele em quem eu der um beijo... prendam”.


Então o prenderam. Todos o abandonaram e fugiram
(Mc 14,44.46.50).

(...) Vossa alma possuía maravilhosa conformidade com a vontade de Deus.


Tudo o que vós queríeis como Deus, o queríeis também de todo o coração como
humano. “Era vosso verdadeiro alimento o querer e o fazer a vontade divina”... Ao
mesmo tempo, porém, vossa alma e vosso corpo eram passíveis, e necessariamente,
e naturalmente, sofriam tudo aquilo em que Deus havia unido o sofrimento para a
natureza humana: a traição dos amigos, o abandono dos discípulos, a prisão brutal
e violenta, qualquer alma humana sofre tudo isso, se não acontece algum milagre.
Vós quisestes sofrer tudo por nós, ó meu Deus. E dessas cadeias, dessa brutalidade,
também o corpo sofre, se não acontece um milagre. E vós quisestes sofrer tudo isso
por nosso amor!
Como sois bom! Sem dúvida, foi em vista de Deus que sofrestes tais coisas; por
ele, para cumprir a vontade dele, por amor a ele. É em vista de Deus que
cumpristes todas as vossas ações, pensastes todos os vossos pensamentos, dissestes
todas as vossas palavras, passastes todos os vossos instantes... No entanto, fizestes
todas essas coisas, não somente por Deus, mas no Espírito de Deus, conformando
todos os vossos pensamentos aos pensamentos de Deus, o vosso coração ao
coração de Deus. Agora, tais coisas Deus vos ordena em seu Espírito de imenso
amor para com os homens: “Deus amou tanto o mundo que lhe ofereceu o seu
Filho único”. Por isso, se sofrestes assim em vista somente de Deus, sofrestes, ao
mesmo tempo, com o coração repleto de imenso amor para com os homens e de
imenso desejo de salvá-los e santificá-los... Sofrestes e cumpristes todas as ações
em vista somente de Deus, mas tendo, ao mesmo tempo, pelos homens aquele
amor que Deus mesmo tem por eles, aquele amor tão grande “com que Deus
ofereceu o seu Filho único em favor deles”.
Rejeição, afastamento, abandono, esquecimento! Quando formos desprezados,
maltratados, espancados, lançados na cadeia, digamos: “Amém! Aleluia!”.
“Alegremo-nos e exultemos de júbilo”, porque nessa hora estaremos nos
assemelhando a Nosso Senhor Jesus... Quando os nossos amigos nos traírem,
quando todos nos deixarem, se esquecerem de nós, nos abandonarem, “alegremo-
nos e exultemos de júbilo”, porque estaremos então assemelhando-nos a Nosso
Senhor Jesus...
Quando tais coisas acontecerem para nós, bendigamos sem cessar a Deus. São

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favores dulcíssimos, provas de suma ternura e amor, dons preciosíssimos do nosso
bem-amado irmão Jesus, indícios de nossa semelhança com ele! O que de melhor
ele nos poderia dar?
Fostes aprisionado, posto em ferros, ó meu bem-amado Senhor Jesus... E isso
por nosso amor, por mim, para minha salvação, para me resgatar, para meu
ensinamento, para enternecer o meu coração, para me ensinar o quanto vós me
amais, como é horrível o pecado, por causa do qual quisestes sofrer tantos
tormentos, e de que maneira é preciso suportar a injustiça, o opróbrio, a dor e a
morte... Tudo isso por amor a mim, ó meu Deus. Não me falta senão suplicar-vos
que torneis o meu coração repleto de amor tão forte quanto a morte, a fim de que
eu possa corresponder a tanto amor, não somente com alguma palavra, mas com
todos os atos da minha vida... Noites de trevas e de horror! Eles vos prendem,
lançam as mãos contra vós, mãos brutais e bocas grosseiras... em meio a golpes e
injúrias... No fundo desse vale sinistro, ao clarão de tochas, vos amarram e vos
fazem caminhar, aos empurrões, espancando-vos ao longo do caminho escuro,
junto aos muros da cidade, tudo por minha causa...
Nesse momento, vós me vedes, ó meu divino Mestre. Vós me vedes em todos os
momentos de minha vida: criança, adolescente, jovem, adulto. Vós me vedes com
meus grandes pecados, e o vosso Coração, repleto de amor, sofre com isso... Vós
me vedes convertido, mas tão triste – pobre de mim! – tão infiel... Hoje mesmo me
vedes enquanto cometo vilezas e tantas infidelidades, e com isso sofreis... E se eu
fizesse um pouco de bem, o vosso Coração ficaria consolado, ainda que em meio a
tão espantosos sofrimentos. Sim, meu Deus, a que ponto vós me amais!
Ante essa dor sobre-humana e essa noite de horror, passada pelo meu Bem-
amado por minha causa, seja meu primeiro propósito tentar, em todos os instantes
de minha vida, a melhor maneira de o consolar... Fazer sempre o que mais agrade a
ele, tudo por ele, nada para mim, nada por criatura nenhuma tomada em si
mesma... Tudo em vista somente dele. Então sim, uma vez posto esse fundamento,
fazer tudo por obediência, na obediência, tudo, tudo o que podemos fazer para a
santificação de todas as almas, da nossa e de todo nosso próximo, com todo o
nosso coração e com todas as nossas forças. Mas sempre em vista dele... Assim,
com todos os nossos pensamentos, nossas palavras, nossas ações, em todos os
instantes de nossa vida, que nesta noite de dor ele está vendo, procuremos consolar
da melhor maneira o seu Coração, no que ainda nos resta viver, nós que
infelizmente o entristecemos, ao menos eu, na parte da vida que já passou...
Quanto aos exemplos que podemos tirar do comportamento do nosso bem-
amado Jesus, são inumeráveis: coragem, calma, doçura, obediência à vontade
divina, fé nas sagradas Escrituras... Que amor pela mortificação devemos buscar na
visão das dores que o nosso Bem-amado sofre voluntariamente por nós! Quanto
amor pela rejeição, pelo desprezo, pelos opróbrios, ao vê-lo tratado, em nosso
favor, como malfeitor, injuriado e desprezado por essa tropa brutal... Quanto amor
pelas perseguições, quanta alegria nas cadeias e na prisão, à vista do nosso Bem-
amado perseguido, aprisionado, em cadeias, conduzido para a prisão por amor de

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todos nós.

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Alguns começaram a cuspir nele, a vedar-lhe o rosto,


a espancá-lo... E os servos o esbofeteavam (Mc 14,65).

(...) Aceitar com alegria, abençoando, agradecendo com prazer, qualquer


desprezo, qualquer zombaria, escárnio, violência, qualquer humilhação, qualquer
ultraje, qualquer maltrato, socos, tapas, porque todos esses são elementos de nossa
semelhança com o nosso bem-amado Jesus...
E não somente aceitá-los com amor, mas desejá-los sempre neste mundo,
porque fazem parte da imitação de Jesus que nós devemos desejar sempre, porque
imitação é exigência do amor, dado que a semelhança é o primeiro grau da união,
que é o fim para o qual tende necessariamente o amor, por sua própria natureza.
Não somente desejá-los sempre, mas sempre procurar por eles, neste mundo,
porque fazem parte da semelhança com Jesus, semelhança que devemos buscar
sem descanso (porque tal semelhança é exigência natural do amor, é condição para
a perfeição aqui na terra).
É preciso sempre não apenas desejá-los e procurá-los, mas sempre abraçá-los,
como em geral se abraça qualquer cruz, enquanto nos permitam a obediência a
Deus e a seus representantes. Essa obediência deve ser o único limite ao nosso zelo
ao desejar, ao buscar e ao abraçar as cruzes corporais e espirituais.
Realmente, ainda que desejando sempre as cruzes, é preciso fazer ao nosso
desejo essa restrição, que, aliás, fazemos a todos os nossos desejos, porque ela é o
primeiro ponto, o ponto mais importante, o mais necessário na imitação de Jesus:
“Contudo, não se faça a minha vontade, meu Deus, mas a vossa”...
Além disso, mesmo buscando e abraçando sempre todas as cruzes do corpo e
da alma (para nos assemelharmos a Jesus), é preciso não procurá-las nem abraçá-
las, senão enquanto Deus as permite, quer mediante a sua lei, quer através de seus
representantes. Nessa, como em qualquer outra coisa, é preciso permanecer na
obediência perfeita a Deus, porque o primeiro ponto, o primeiro e o mais
importante grau da semelhança com Jesus, consiste na obediência a Deus: “Meu
alimento é fazer a vontade do Pai que me enviou”.

21
11

Eles conduziram Jesus a Pilatos...


E Pilatos o enviou a Herodes...
Então Herodes também o insultou, o desprezou...
e o mandou de volta para Pilatos (Lc 23,1.7.11).

(...) Abracemos de todo o coração qualquer sofrimento, qualquer opróbrio,


qualquer violência, qualquer palavra má e tratamento perverso. Agradeçamo-los a
Deus e os aceitemos com alegria, oferecendo-os a ele em sacrifício, felizes de
receber esse elemento de semelhança com o nosso bem-amado Jesus!
E por nossa conta nos imponhamos todos os sofrimentos, todas as humilhações,
todos os rebaixamentos possíveis, isto é, tudo quanto nos permite a santa
obediência ao pai espiritual... Jamais atingiremos as dores, os rebaixamentos do
nosso Bem-amado... Nunca devemos dizer por nossa conta “chega”, quando se
trata de mortificações, de sofrimentos, porque jamais alcançaremos as dores do
Calvário, do Getsêmani, do pretório. Jamais atingiremos os sofrimentos do nosso
Bem-amado...” Por nossa conta, nunca digamos “chega”; digamos só e sempre
“ainda”. Somente a obediência é que nos faça dizer “chega”. Faltando uma
obrigação de obediência, existem sempre as normas que nos indicam a vontade de
Deus a esse respeito, normas que devemos seguir, mas apenas quando falta o pai
espiritual, enquanto esperamos e solicitamos a decisão dele, que deve ser a única,
de maneira absoluta e mais certa, a vontade de Deus para nós: “Quem escuta vocês,
está escutando a mim”...
Portanto, diante dos sofrimentos, por nossa conta digamos sempre “ainda”, e
nunca digamos “chega”.
Porque nunca, nos sofrimentos, como em qualquer outra coisa, por mais que
façamos, jamais poderemos alcançar o nosso divino Modelo.

22
12

“Para isto eu nasci, e para isto eu vim ao mundo:


para dar testemunho da verdade”...
“Não este, mas Barrabás!”
(Jo 18,37.40).

(...) Procuremos, em tudo e sempre, fazer o bem às almas. Para isso, antes de
tudo, santifiquemos a nós mesmos e não nos esqueçamos nunca de que não
podemos fazer nenhum bem aos outros, a não ser sob a condição de sermos santos
nós mesmos. Se formos santos, faremos natural e necessariamente o bem às almas,
ainda que sem nenhuma ação visível diante delas, como fizeram a elas santa
Madalena, em Sainte Baume, e José, em Nazaré. Ao invés, se não formos santos,
todos os nossos esforços, por maiores que forem, não poderão produzir nem
sequer uma aparência de bem.
Para dar, é preciso ter; para produzir santos, é preciso que o sejamos nós. Para
que Deus conceda a nossas obras interiores e exteriores aquela bênção que sozinha
as torna fecundas, é preciso amá-lo, merecer essa bênção com o nosso amor, o
amor no qual consiste a santidade. Demos testemunho da verdade, mas não é
preciso dizê-lo a todos, porque muitas vezes se pode e se deve calar. Jesus em geral
se cala: permanece calado diante de Herodes. Ele diz: “Não atirem suas pérolas aos
porcos”. Diz também: “Isso por enquanto eu não lhes digo. Mais tarde o Espírito
lhes dirá”. Mas, quando for necessário dizer a verdade, digamos sem temor, como
fez ele, sem hesitação, assim como Nosso Senhor disse aos sacerdotes que ele era o
Messias e a Pilatos disse que era o Rei.
Aceitemos com alegria e bendigamos com gratidão e amor cada desprezo, cada
ofensa, cada humilhação, qualquer palavra má e quaisquer maus-tratos, a exemplo
de Jesus, oferecendo a ele com amor este sacrifício, felizes de podermos oferecê-lo
a ele, e desejosos de lhe oferecer sempre e cada vez mais.

23
13

Pilatos entregou Jesus a eles,


depois de fazer que fosse flagelado
(Mc 15,15).

(...) “Amemos a Deus, porque ele primeiro nos amou”. A Paixão, o Calvário, é a
suprema declaração de amor. Não foi para nos remir que vós sofrestes tanto,
Jesus!... O menor dos vossos atos tem valor infinito, pois é ato de um Deus, e teria
sido suficiente, mais ainda, superabundante, para remir mil mundos, todos os
mundos possíveis... Foi para nos santificar, para nos induzir, para nos impelir a
amar-vos livremente, pois o amor é o meio mais poderoso para fazer alguém ser
amado... E também porque sofrer por alguém que ama é o meio mais invencível
para demonstrar que existe amor... E quanto maiores forem os sofrimentos, mais a
prova convence, e mais profundo é o amor do qual se faz uma demonstração.
Mas, o que é esse amor de Jesus que o leva a sofrer tão grande Paixão e tal
morte? Será suficientemente forte a prova que ele nos dá de seu amor? Será que
nós vamos amar a quem nos ama até esse ponto, e que, além disso, é infinitamente
amável? Se o amamos, que o amemos como ele merece, infinitamente...
Demonstremos a ele o nosso amor, seguindo a lição que ele nos deu primeiro,
sofrendo por ele...
Visto que ele nos fez dessa maneira a sua declaração de amor, imitemo-lo,
fazendo-lhe a nossa, assim como ele nos fez a sua. Tanto mais que não nos é
possível amá-lo sem o imitar, sem querermos ser o que ele foi, sem darmos o que
ele fez, sofrendo e morrendo em meio a tormentos, pois foi em meio a tormentos
que ele sofreu e foi morto. Não nos é possível amá-lo e, ao mesmo tempo,
desejarmos ser coroados de rosas, quando ele foi coroado de espinhos... Imitemo-
lo como ele nos amou, imitando-o da mesma forma, isto é, sofrendo para lhe
declararmos o nosso amor, assim como ele sofreu para nos declarar o seu amor...

24
14

Trançaram uma coroa de espinhos


e a puseram na cabeça dele...
E com um caniço lhe batiam na cabeça,
e lhe cuspiam no rosto (Mc 15,17.19).

Meu Deus, eis a que ponto vos leva o vosso Coração, eis até onde vos levou o
vosso amor por nós!... Por que estais aí, meu Senhor Jesus, senão porque Deus
amou tanto os homens que deu em favor deles o seu Filho único e quis que ele
sofresse assim para o bem da alma deles?... Sim, foi para o bem de nossas almas que
o Pai quis que vós aí estivésseis, coroado de espinhos, espancado, cuspido, a fim de
podermos ver o amor dele, o vosso amor, a fim de que também nós pudéssemos
amar Aquele que tanto nos amou... A fim de sabermos, graças ao exemplo dele,
como é que se prova o amor por alguém... de que maneira se faz por esse alguém
ardorosa declaração de amor... e a fim de que façamos, de nosso lado, a nossa
declaração de amor a Quem se dignou fazê-la primeiro!
Amemos a Deus, pois Deus nos amou primeiro... Ele, tão belo, tão amável, o
absoluto e suficiente por si, dignou-se fazer-nos tal declaração de amor, a nós tão
pobres, tão deformados, tão necessitados... Vamos retribuir a sua declaração de
amor, tiremos proveito de sua lição, em retribuição imitando a sua declaração. Ele
nos fez ver que o amor se declara com o sofrimento em favor da pessoa a quem
damos amor, abraçando os piores sofrimentos sem outro motivo senão a
demonstração do próprio amor ao Ente a quem amamos...
Vamos aproveitar essa lição... Abracemos o sofrimento, e, a exemplo de Jesus,
abracemos os maiores sofrimentos, os piores opróbrios, as piores formas de
desprezo e até mesmo a morte, unicamente para lhe demonstrarmos que nós o
amamos... Vamos acumular sobre nós, sem outros limites senão os impostos pela
santa obediência, sofrimentos físicos, morais, humilhações, dores de toda espécie e,
se Deus assim o quiser, também a morte cruenta, sem outro motivo ou utilidade
que não o de declarar a Jesus que nós o amamos...
Qualquer coisa que façamos, a nossa declaração de amor será sempre
imensamente inferior à declaração que Jesus fez a nós; inferior sim, porque os
nossos sofrimentos jamais se igualarão aos dele; inferior, porque a nossa
declaração não será mais que uma resposta, já que não será feita por nós antes
dele; inferior sim, porque será a declaração própria de uma criatura deformada e
necessitada, e não a declaração gratuita do Criador sumamente amável e perfeito.
Façamos, pois, de todo o coração, demos como resposta, com todo o nosso

25
coração, a nossa declaração a Jesus, sofrendo o mais que nos for possível, em nossa
alma e em nosso corpo, em nossa vida e em nossa morte, sem outro motivo e sem
outra utilidade senão o de gritar para ele que nós o amamos... Porque ele sofreu
tanto, unicamente para bradar a nós que ele nos ama...

26
15

“Crucifica-o! Crucifica-o!”
Pilatos então entregou Jesus ao arbítrio deles
(Lc 23,21.25).

Meu Deus, como sois bom! Quantas violências, quantas calúnias, quantos
maus-tratos sofrestes por nós! A quantas ingratidões ficastes exposto! Quanto nos
amastes, ó meu Deus, que por nós quisestes escutar aqueles mesmos pelos quais
estáveis derramando vosso sangue, que estáveis salvando, a quem estáveis
cumulando de graças, a quem tratáveis como vossos filhos muito amados,
enquanto gritavam: “Crucifica-o!”. Além disso, o que continham estas palavras:
“Pilatos entregou Jesus ao arbítrio deles”! Vontade deles era a flagelação, a
coroação de espinhos, o carregar a cruz... Tudo isso, meu Deus, vós sofrestes por
amor, por amor de nós, para nos santificar, para nos induzir a vos amar, ao vermos
o vosso imenso amor, para nos induzir com o vosso exemplo a abraçarmos o
sofrimento (coisa que é necessária para nos desapegar da terra e assim nos unir a
Deus)... Quanto nos amais, ó meu Deus!
Abracemos com amor, com reconhecimento, com coragem, com prazer,
qualquer dor, qualquer opróbrio, qualquer injúria, quaisquer maus-tratos e
qualquer palavra má, por amor a Deus e de acordo com o exemplo dele... Vamos
aceitá-los, bendizendo todos os que nos serão impostos... E por nós mesmos
entremos na mortificação, sem outros limites senão os da obediência ao nosso
diretor. (Na falta do julgamento do nosso diretor, e enquanto o aguardamos, nos
submeteremos às nossas mortificações, a não ser quando: 1°) elas forem causa de
prejuízo para nossa alma; 2°) causarem o enfraquecimento do nosso espírito; 3°)
tornarem o nosso corpo incapaz de cumprir os deveres da nossa vocação.)

27
16

Carregando a cruz, Jesus se encaminhou


para o lugar chamado Calvário, lugar do Crânio...
(Jo 19,17).

Por nós, pelo amor para conosco, vós carregais essa cruz, caminhando
lentamente, arrastando-vos, vacilando, caindo, e em cima de vós caindo a cruz,
ferindo-vos, esmagando-vos, estraçalhando-vos! Encontrais vossa Mãe, encontrais
Madalena, encontrais Verônica; um grupo de mulheres que vos seguem chorando.
E vós caminhais sempre... Mal conseguis ver, pois o sangue desce da testa e vos
enche os olhos, inunda o vosso olhar! Vós que sois o mais belo entre os filhos dos
homens, ó Deus da glória, ó meu Senhor e meu Deus, em que estado vos
encontrais! Angeli pacis amare flebant (os anjos da paz choravam amargamente).
Ó meu Deus, fazei que eu chore de dor por vós, fazei que eu chore também por
gratidão e amor, e fazei que eu chore sobre mim mesmo e sobre os meus pecados,
que vós expiastes com tão grandes tormentos!
Amemos a Jesus, que nos amou a ponto de sofrer tanto por nosso amor, a ponto
de sofrer tanto para nos remir e nos santificar!... Amemos a Jesus, para
cumprirmos todos os atos de amor: “É com ações, mais do que com palavras, que
se mostra o amor” (Santo Inácio). Amemos a Jesus com a obediência a ele,
imitando-o, contemplando-o sem cessar. Amemos a Jesus, recebendo-o na santa
Eucaristia com a maior frequência que nos for possível, entregando-nos a ele,
como a esposa se entrega ao esposo e abraçando, por seu amor, os maiores
sacrifícios, provando-lhe o nosso amor, assim como ele nos provou o seu amor,
sofrendo, e se for sua vontade, morrendo por ele. Que ele nos torne dignos dessa
graça! Amém, amém, amém!

28
17

Aí o crucificaram (Mc 15,25).

Vós nos amastes imensamente, ó meu Deus, vós que por nosso amor, para nos
demonstrar, para nos declarar o vosso amor e para nos induzir dessa forma a
retribuir-vos esse amor (único meio, para nós, de sermos perfeitos e felizes, tanto
nesta vida como na outra), quisestes sofrer e ser rejeitado até esse ponto!...
Sofrer para ser rejeitado sem medida em favor de alguém, eis o meio para
provar a essa pessoa que existe por ela amor sem medida... Eis o que nos ensinais,
eis a lição que vós nos dais no alto do Calvário... E, ao mesmo tempo, nos dizeis:
“Eu amei vocês a tal ponto, e assim provei e declarei... Vocês também tenham amor
por mim dessa mesma forma, e o comprovem, e o declarem, assim como eu o fiz
por vocês”.
Ouçamos esse convite, o mais doce, o mais suave que se possa fazer e que nos
vem daquele ente infinitamente amável, daquela beleza suprema que é o próprio
Deus. E tiremos proveito da lição que nos é dada pela sabedoria infinita, por aquele
que é o único que tem o poder de amar infinitamente, o único que sabe tudo o que
o perfeito amor requer... Soframos e deixemos que nos desprezem por seu amor,
acolhamos, aceitemos, desejemos, procuremos e abracemos qualquer sofrimento e
qualquer desprezo, na maior medida possível, sem outro limite que não seja a santa
obediência a Deus e aos que o representam junto a nós, para demonstrar, para
declarar a Jesus o nosso amor, para lhe darmos amor, retribuindo o seu amor...
Ó meu Senhor Jesus, fazei-me ver sempre mais claramente essa verdade
essencial e tão necessária, que o demônio procura continuamente esconder aos
nossos olhos... Fazei resplandecer diante do meu olhar essa doutrina da cruz, e
fazei que eu lhe dê o meu abraço, assim como vós quereis de mim... Fazei que
também eu possa dizer que só uma coisa eu conheço: “Jesus, e Jesus crucificado”...
Ó meu Deus, “fazei que eu veja”, fazei que essas verdades brilhem sempre diante de
meus olhos, e fazei que a elas eu conforme a minha vida, em vós, por meio de vós e
por vós! Amém. E concedei as mesmas graças a todos os homens, em vista de vós.

29
18

Eles o crucificaram... Tomaram as vestes dele...


(Jo 19,18.23).

Por mim, por meu amor! Para me redimir e para me santificar, forçando-me a
vos amar. (É nisso que consiste qualquer santidade, é o que contém e comporta
qualquer santidade.) Para me forçar a amar-vos, tanto ao fazer que eu veja o vosso
amor para comigo, demonstrado com tais sofrimentos, quanto ao induzir-me a
abraçar, por minha vez, os sofrimentos, a fim de vos imitar (pois os sofrimentos, os
sacrifícios abraçados por causa da pessoa amada preparam para o amor e o
reforçam)... Como sois bom, ó meu Deus, quanto me amais, vós que sofreis tais
dores para adquirir duas coisas: a minha alma e o meu amor!
Amemos a Jesus, que adquiriu nossas almas e nosso amor, a preço tão alto! Ele
que deu todo o seu sangue para salvar nossas almas e para adquirir nosso amor!...
Amemos a Jesus, obedecendo a ele (“quem me ama observará a minha palavra”),
imitando-o (“sigam-me”), contemplando-o (“venham e vejam”, isto é, imitem e
contemplem)... E reforcemos esse nosso amor, unindo-nos a ele na santa
Eucaristia, com mais frequência e da melhor maneira que podemos (seja
entregando-nos a ele como a esposa ao Esposo, seja fazendo por ele os maiores
sacrifícios, todos os que ele nos apresentar, todos os que nos forem permitidos)...
Meu Deus, concedei-me a graça de vos amar assim, de vos amar o mais que eu
possa, e assim vos glorificar o mais que eu possa, a vós que adquiristes minha alma
e meu amor a preço tão alto!

30
19

Com ele crucificaram também dois ladrões...


E aqueles que por aí passavam o insultavam...
o desprezavam... (Mc 15,27.32).

Meu Deus, quanto nos amais, vós que por nosso amor quisestes mergulhar no
mais profundo abismo de sofrimentos e desprezo, vós que desse modo quisestes
dar-nos tantas lições. Mas, acima de tudo, mais do que tudo, quisestes demonstrar-
nos o vosso amor inaudito, graças ao qual o Pai deu o seu único Filho, e o deu em
meio a tais sofrimentos e a tais humilhações, com o intuito de nos induzir, com a
visão, com a certeza de um amor tão grande, demonstrado e declarado de maneira
tão comovente, com o intuito de nos induzir, com isso, a amarmos a Deus,
também nós, a amarmos ao ente tão amável que tanto nos ama.
“Amemos a Deus, pois ele nos amou primeiro”. Vamos amá-lo com o máximo
amor... Aprendamos dele aquilo que alguém faz quando ama. Quando alguém ama,
declara o próprio amor, abre o coração e procura demonstrar que realmente ama.
E o meio mais persuasivo, o mais forte, para demonstrar que ama, é o de sofrer
pela pessoa amada as maiores dores e as piores formas de desprezo, unicamente
para lhe demonstrar que lhe tem amor sem pressão nenhuma, livremente... Como
diz Saint-Jure: “pagando cem mil reais por algo que se pode adquirir por um real
apenas, demonstra-se atribuir grande valor... É o que fez o Senhor Jesus...”
Também nós poderíamos adquirir a possibilidade de ver Jesus, com apenas um
real, com uma vida cristã comum, mas não queremos adquirir o nosso Bem-amado
por preço tão pequeno. Queremos adquiri-lo pagando por ele o mais caro que for
possível, com o preço dos maiores sofrimentos e com as formas de desprezo mais
horríveis, a fim de lhe mostrar quanto valor lhe atribuímos... Nós queremos amá-lo
como ele nos tem amado, tirando proveito da lição que ele nos deu e, aprendendo
o amor na sua escola, lhe declarar e demonstrar o nosso amor da maneira como ele
nos declarou e demonstrou o seu amor, e desejando, buscando, abraçando por ele
os maiores sofrimentos e as piores formas de desprezo, sem outros limites que os
impostos pela santa obediência.

31
20

Jesus dizia: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem


o que estão fazendo” (Lc 23,34).

Meu Deus, como sois bom! Que dores sobre-humanas! Ó Jesus, vós que estais
dentro de mim, fostes estendido sobre o lenho da cruz. Depois de terem arrancado
de vossos membros as vestes e até pedaços de carne presos no pano por causa da
flagelação, vos atiram por terra todo ensanguentado, vos atiram com violência, vos
arrastam, de tal modo que vossos membros feridos, lívidos, ressecados, esfregando
no chão, ficam ainda mais machucados. Em seguida, vos estendem sobre a cruz, e
eis que, de repente, os pregos se cravam em vossas mãos e em vossos pés... Cada
golpe de martelo abre sempre mais as carnes, atravessa as veias, provocando dor
indizível e fazendo escorrer córregos de sangue...
Erguem e endireitam a cruz. Eis, então, estais agora suspenso entre o céu e a
terra...
Vossos ferimentos, sob o peso do corpo, se tornam maiores, a dor aumenta a
cada instante, o sangue se derrama sempre mais... O peso dos braços e das pernas
pesa todo sobre vossos ferimentos! Que dor horrível!
E, durante esse tempo, dois ladrões, um em cada lado vosso: que humilhação!
Fostes posto no mesmo número dos malfeitores...
Vossa mãe aí está junto aos vossos pés... Que sofrimento ver o martírio dessa
mãe tão querida!
Os carrascos são vossos filhos prediletos. Estais morrendo em favor deles. Que
dor ver tamanha ingratidão!... Todas essas dores por nós, meu Deus! Todos esses
sofrimentos, vós os abraçais voluntariamente por nosso amor! E para levar ao
máximo o vosso amor, rezais pelos vossos carrascos e implorais ao vosso Pai que
lhes perdoe...
Aceitamos com amor, com reconhecimento, coragem e total predileção,
qualquer sofrimento, bendizendo-o, qualquer dor do corpo e da alma, qualquer
humilhação, qualquer despojamento, a morte, tudo por amor a Nosso Senhor
Jesus, imitando-o assim e tudo oferecendo a ele em sacrifício. E não nos
contentamos de ficar esperando por eles, e abraçamos, por nossa própria conta,
mas com permissão de nosso diretor, todas as mortificações que ele nos permitir,
sem colocar outros limites a nossas penitências, a não ser aqueles que a santa
obediência nos impõe...
Oramos pelos nossos algozes, pelos nossos inimigos. Auguramos e fazemos

32
para eles todo bem, com todos os meios que Deus coloca à nossa disposição.

33
21

“Em verdade eu lhe digo:


Hoje mesmo você estará comigo no paraíso”
(Lc 23,43).

Como sois bom, meu Deus! Quanto nos amais! Vós que abraçais
voluntariamente tantas dores por nosso amor, pela nossa santificação, para nos
induzir a vos amar, fazendo-nos ver o vosso amor, e para nos induzir a abraçar os
sofrimentos (que são necessários para nós, a fim de nos desapegar das criaturas, e
com isso dispor nossa alma a se apegar somente a Deus; que são necessários para
conservar em nós a caridade e o amor de Deus, como diz São Bento). Assim nos
dais o exemplo, fazendo com que, enfim, os desejem todos os corações que vos
amam, como condição essencial para serem semelhantes a vós. E como sois bom,
sendo clemente até o final, pensando, mesmo no alto da cruz, em favor de vossos
algozes, rezando por eles, em favor de vosso companheiro de tortura, dando-lhe o
céu, pensando em vossa Mãe, em vosso discípulo, em todos os homens!
Amemos a Jesus que tanto nos amou, “que primeiro nos amou”. Ele,
absolutamente amável, e nós, miseráveis. Mais do que qualquer outro coração
humano possa amar-nos, mais do que possamos imaginar, ele nos demonstrou o
seu amor com delicadezas tão celestes e suportando tormentos tão assustadores.
Abracemos o sofrimento, aceitemos, por amor a Jesus, segundo o seu exemplo,
abençoando e oferecendo a ele qualquer sofrimento que nos possa atingir. E não
nos contentemos apenas com isso, mas procuremos tal sofrimento, para imitarmos
assim o nosso Bem-amado, para segui-lo, para partilhar a sua sorte.
Voluntariamente nos mortifiquemos na maior das medidas, sem outra medida que
não seja a obediência ao nosso diretor... Vamos nos esquecer de nós mesmos por
amor a Jesus, acima de tudo consagrando-lhe todos os instantes de nossa vida... E
depois, em favor de todos os homens, seus filhos caríssimos, consagrando a eles os
instantes todos que Jesus quer que consagremos a eles, e amando-os “como Jesus
mesmo os amou”, “como a nós mesmos”, pela mesma razão e na medida igual com
que amamos a nós mesmos, a eles e a nós, sempre e igualmente em vista de Jesus
tão somente!

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22

“Mulher, eis aí o seu filho!...


Discípulo, eis aí a sua mãe!” (Jo 19,26-27).

(...) “Eis aí o seu filho”. Essas palavras se dirigem à santíssima Virgem. Nosso
Senhor lhe confia todos os seres humanos como filhos, mandando que ela tenha
coração de mãe para com todos... Ela cumpriu, e na eternidade continuará
cumprindo, com perfeição incomparável, essa ordem de Deus, como a todas as
outras ordens. Estamos, portanto, absolutamente certos de que ela tem coração
materno para com todos os seres humanos. E nos dirigimos a essa Mãe dileta e tão
poderosa em todas as nossas necessidades, com tanta confiança quanto é grande a
confiança que uma criança tem na própria mãe. E nos dirigimos a esta mãe que
ama infinitamente mais do que possa amar qualquer mãe terrena, a esta mãe que
pode alcançar de Deus absolutamente tudo o que é verdadeiramente útil para
nossa alma...
“Eis aí a sua mãe”. Essas palavras se dirigem a cada alma. Todos nós que
devemos tratar a santíssima Virgem como nossa mãe, cumprir para com ela os
deveres que o bom filho tem para com sua mãe: afeto, honra, serviço, confiança,
numa palavra, tudo o que Nosso Senhor mesmo tributava à santíssima Virgem.
Vamos ter por ela amor, vamos honrá-la, fazendo-lhe uma coroa, entretendo-nos
com ela na oração, prestando serviço a ela, colaborando, da melhor maneira que
nos for possível, com todas as obras que ela nos concede fazer, com todas aquelas
que são assumidas em sua honra. Tenhamos nela confiança absoluta, e a
invoquemos, sem hesitar, com toda essa confiança, em todas as nossas
necessidades, em todos os nossos desejos, em todas as nossas ações. Em poucas
palavras, façamos por ela tudo o que fazia Nosso Senhor quando estava neste
mundo, na medida em que nos for possível. Demonstremos a ela que somos filhos
muito ternos, lembrando-nos de que este é o ponto essencial da obediência a Jesus
e da imitação de Jesus. Sim, da obediência, pois é ele quem assim nos ordena, de
maneira tão clara e tão solene, do alto da cruz. Sim, da imitação, porque ele foi
sempre, para com sua mãe, o modelo de todos os filhos... (É evidente, por outro
lado, que nós, aspirando a ser irmãos de Jesus, tais não podemos tornar-nos, se não
nos mostrarmos verdadeiramente filhos de Maria. Para sermos irmãos de Jesus, é
absolutamente necessário que sejamos filhos de Maria.)

35
23

“Elí, Elí, lemá sabactáni?...” (Mt 27,46).

Ó meu Deus, dignai-vos fazer que eu compreenda o que quereis que eu


compreenda dessas palavras... Vós sabeis, meu Deus, que o Pai não vos abandona
jamais, que ele está sempre convosco, porque vós fazeis tudo o que é agradável a
ele. Vós o vedes. Vós estais unido a ele sem limites. Então, por que dizeis tais
palavras?
Meu filho, essas palavras são de obediência. Eu sofro assim para obedecer ao
ideal que Deus tem no Messias, no conceito do Messias que estava na mente divina
antes da criação da minha alma humana, que Deus descreveu nas profecias, que
me revelou desde o primeiro momento da criação de minha alma. A esse conceito
eu imediatamente me submeti com todo o coração. Ecce... venio ut faciam
voluntatem tuam (Eis... eu venho para fazer a tua vontade). Abraçando-a nos
mínimos detalhes, com minha união perfeita aos desígnios de Deus...
O salmo 21 começa com estas palavras: “Elí, Elí, lemá sabactáni?” (Meu Deus,
meu Deus, por que me abandonaste?). É um daqueles salmos em que a minha
Paixão foi predita da maneira mais exata. Suspenso na cruz por obediência, em
conformidade com a vontade divina, para realizar perfeitamente o tipo concebido
por meu Pai desde a eternidade, eu manifesto a minha obediência a ele, a minha
conformidade de coração e de ação com a sua divina vontade, citando os primeiros
versos de uma predição que cumpro voluntariamente no mesmo instante... É como
se eu dissesse: “Eis, ó Pai, o que predisseste de mim... Eis que eu o cumpro... Eis-me
aqui presente, no alto da minha cruz, diante de tua profecia, para me conformar a
ela. Eis a tua ordem, que eu estou citando, e eis-me aqui cumprindo-a. Foi escrito
no início do livro que eu devo fazer a tua vontade. Eis-me aqui, olha para mim, eu a
estou fazendo...”
A minha palavra é, portanto, palavra de obediência. Eu brado ao meu Pai: “Eis o
que tu quiseste de mim. Olha para mim. Eu te obedeço”...
É palavra semelhante àquela outra que eu mesmo direi dentro de instantes:
“Tudo está consumado”. Palavra esta que parte do meu espírito de obediência,
palavra que me pregou na cruz: 1°) para obedecer ao chamado do Pai, ao conceito
que desde a eternidade ele tinha do Messias e que me chamava a realizar, sem me
obrigar sob pena de pecado algum; 2°) pelos mesmos motivos que meu Pai o
queria, motivos que minha alma conhecia e abraçava com todas as forças.
Como Deus que sou, eu quis estar pregado na cruz pelos motivos que, desde a

36
eternidade, eu tive ao conceber o Messias, tal como eu mesmo o concebi em minha
mente divina... Será uma palavra que parte desse espírito de obediência que me
fará dizer dentro de um momento: “Tenho sede”. É meu intuito cumprir ainda
outra predição, isto é, outro desejo do Pai.
Com essas palavras, eu brado ao meu Pai: “Vê, Pai, como eu obedeço!” É o meu
grito em voz alta, para que seja de exemplo para os homens, para que eles vejam
que é por obediência que estou pregado na cruz, e para que obedeçam, também
eles, sem medidas, pois eu mesmo obedeço sem medidas. (...)

37
24

Inclinando a cabeça, entregou o espírito (Jo 19,30).

Santa Virgem Maria, santa Madalena, são João, santas piedosas mulheres, fazei
que eu esteja aí convosco aos pés da cruz de nosso Deus bem-amado Jesus. Fazei-
me ajoelhar entre vocês, fazei-me entrar em vossa adoração, em vossa dor, em
vosso senso de gratidão, em vosso abatimento. Fazei que eu possa morrer convosco
aos pés do Bem-amado, que está morrendo, recebendo o último olhar dele,
ouvindo seu último suspiro. Fazei-me desmaiar, junto convosco, de amor, de dor,
de vergonha, de penitência... Fazei-me desmaiar, perder-me, cair no abismo do
amor e da dor, tão grandes como o mar, afogando-me aí nessas ondas,
submergindo, sem saber mais nada, sem sentir mais nada, perdido, morrendo aos
pés do meu Jesus que está expirando! Ó Jesus, eis que “vós nos amastes até o fim”.
“O maior amor consiste em dar a própria vida por aqueles a quem a gente ama”.
Assim dissestes ontem à tarde, ó Bem-amado! Eis que, poucas horas depois de
dizer essas palavras, destes a vossa vida por mim, ó meu Esposo! Concedei-me a
graça de dar também eu a minha vida por vós. Assim vos suplico com todas as
forças. Sei que sou muito covarde para assim fazer e indigno dessa honra, mas
“tudo posso naquele que me fortalece”. Vós dissestes: “Peçam, que vocês
receberão”. Pois eu peço, em vosso nome, ó meu Bem-amado, a graça de derramar
o meu sangue por vós, com amor e coragem, de tal modo que eu possa glorificar-
vos o quanto me for possível, ó meu Esposo”.
No entanto, nisso e em tudo o mais, faça-se a vossa vontade e não a minha!
Fazei de mim o que for para vossa maior glória! Eu me entrego a vós sem reservas,
para ser, fazer, sofrer tudo o que for do vosso agrado, não tendo nada mais que um
desejo, um pedido: glorificar-vos o mais que eu possa, ó meu Bem-amado, ó meu
Esposo. Vós que estais, aí, morto por mim, na cruz, aos pés da qual eu me prostro,
e onde eu gostaria de morrer!

38
Apêndice

39
PAIXÃO DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO SEGUNDO
MARCOS
(Mc 14,1-16,8)

14 Complô para matar Jesus (Mt 26,1-5; Lc 22,1s; Jo 11,45-57) – 1Faltavam dois dias para a Páscoa e
para a festa dos Pães Sem Fermento. Os chefes dos sacerdotes e os doutores da Lei procuravam alguma
cilada para prender Jesus e matá-lo. 2Diziam, de fato: “Não durante a festa, para que não haja tumulto
entre o povo”.

Jesus é ungido (Mt 26,6-13; Jo 12,1-8) – 3Em Betânia, Jesus estava à mesa na casa de Simão, o leproso.
Aproximou-se dele uma mulher, levando um frasco de alabastro cheio de perfume de nardo puro e muito
caro. Quebrando o frasco, ela derramou o perfume na cabeça de Jesus. 4Mas alguns ficaram indignados e
diziam entre si: “Para que esse desperdício de perfume? 5Esse perfume poderia ser vendido pelo preço de
trezentas diárias de trabalho, e ser dado aos pobres. E a repreendiam. 6Jesus, porém, disse: “Deixem-na.
Por que vocês a incomodam? Ela me fez uma boa ação. 7Pois os pobres sempre estão com vocês, e vocês
podem fazer-lhes o bem quando quiserem. Mas eu não estou sempre com vocês. 8Ela fez o que podia:
antecipou-se para ungir meu corpo para a sepultura. 9Eu lhes garanto: No mundo inteiro, por toda parte
onde o evangelho for anunciado, também o que ela fez será contado, em memória dela”.

Pacto de Judas (Mt 26,14-16; Lc 22,3-6) – 10Judas Iscariotes, um dos Doze, foi aos chefes dos sacerdotes
para lhes entregar Jesus. 11Ao ouvi-lo, eles se alegraram e prometeram dar-lhe dinheiro. E Judas procurava
oportunidade para entregar Jesus.

Preparando a Páscoa (Mt 26,17-25; Lc 22,7-13) – 12No primeiro dia dos Pães Sem Fermento, quando se
imolavam os cordeiros para a Páscoa, os discípulos perguntaram a Jesus: “Onde queres que façamos os
preparativos para comeres a Páscoa?” 13Então Jesus enviou dois de seus discípulos e lhes disse: “Vão à
cidade. Certo homem carregando uma vasilha de água virá ao encontro de vocês. Sigam-no. 14Na casa
onde ele entrar, digam ao dono: ‘O Mestre pergunta: onde está a minha sala, na qual poderei comer a ceia
de Páscoa com meus discípulos?’ 15E ele vai lhes mostrar uma grande sala arrumada com almofadas, no
andar de cima. Preparem aí a ceia para nós”. 16Os discípulos partiram e foram à cidade. Encontraram tudo
como Jesus lhes havia dito, e prepararam a Páscoa.

Ceia: traição e solidariedade (Mt 26,20-30; Lc 22,14-23; Jo 13,21-30; 1Cor 11,23-25) – 17Ao anoitecer,
Jesus chegou com os Doze. 18Quando estavam à mesa comendo, Jesus disse: “Eu lhes garanto: Um de
vocês, que come comigo, vai me entregar”. 19Eles começaram a ficar tristes e a perguntar a Jesus, um
depois do outro: “Acaso sou eu?” 20Jesus respondeu: “Um dos Doze, que põe a mão no prato comigo.
21Porque o Filho do Homem se vai, como está escrito sobre ele. Mas ai daquele homem por quem o Filho
do Homem é entregue! Seria melhor para esse homem não ter nascido”.
22Enquanto comiam, Jesus tomou um pão e, abençoando, partiu e entregou a eles, dizendo: “Tomem,

isto é o meu corpo”. 23Depois tomou um cálice e, dando graças, entregou-lhes, e todos beberam dele. 24E
lhes disse: “Isto é o meu sangue da Aliança, que é derramado em favor de muitos. 25Eu lhes garanto: Não
beberei mais do fruto da videira, até aquele dia em que beberei o vinho novo no Reino de Deus”. 26E,
tendo cantado o hino, saíram para o monte das Oliveiras.

40
Jesus prediz a negação de Pedro (Mt 26,31-35; Lc 22,31-34; Jo 13,36-38) – 27Então Jesus lhes disse: “Todos
vocês tropeçarão e cairão, porque está escrito: ‘Ferirei o pastor e as ovelhas se dispersarão’. 28Mas, depois
de ressuscitar, irei para a Galileia na frente de vocês”. 29Pedro lhe respondeu: “Ainda que todos tropecem
e caiam, eu não!” 30Jesus lhe disse: “Eu lhe garanto: Hoje mesmo, nesta noite, você vai me negar três vezes,
antes que o galo cante duas vezes”. 31Mas ele insistia, dizendo: “Ainda que eu tenha de morrer contigo,
não te negarei”. E todos diziam o mesmo.

Jesus reza e os discípulos dormem (Mt 26,36-46; Lc 22,39-46) – 32E foram a um lugar chamado
Getsêmani. Jesus disse a seus discípulos: “Fiquem aqui sentados, enquanto eu rezo”. 33Levou consigo
Pedro, Tiago e João, e começou a ficar apavorado e angustiado. 34E lhes disse: “Minha alma está em aflição
de morte. Fiquem aqui e vigiem”. 35E, indo um pouco adiante, caiu por terra, e rezava para que passasse
dele aquela hora, se fosse possível. 36E dizia: “Abba, Pai! Para ti tudo é possível. Afasta de mim este cálice.
Porém, não o que eu quero, mas o que tu queres”. 37Voltando, encontrou-os dormindo e disse a Pedro:
“Simão, você está dormindo? Não conseguiu vigiar por uma hora? 38Vigiem e rezem, para não caírem na
tentação. Porque o espírito está pronto, mas a carne é fraca”. 39E, afastando-se de novo, rezava dizendo a
mesma coisa. 40Voltando, encontrou-os de novo dormindo, porque os olhos deles estavam pesados de
sono. E não sabiam o que responder a Jesus. 41Voltou pela terceira vez e lhes disse: “Vocês ainda estão
dormindo e descansando? Basta! A hora chegou! Eis que o Filho do Homem é entregue nas mãos dos
pecadores. 42Levantem-se! Vamos! Vejam: aquele que vai me entregar está perto”.

Jesus é preso e abandonado (Mt 26,47-56; Lc 22,47-53; Jo 18,1-12) – 43Jesus ainda falava e logo chegou
Judas, um dos Doze, e com ele uma multidão com espadas e paus. Vinham da parte dos chefes dos
sacerdotes, doutores da Lei e anciãos. 44Aquele que o entregava tinha combinado com eles um sinal,
dizendo: “É aquele que eu beijar. Vocês o prendam e o levem bem seguro”. 45Judas chegou e logo se
aproximou de Jesus, dizendo-lhe: “Mestre!” E lhe deu um beijo. 46Então eles lançaram as mãos sobre Jesus
e o prenderam. 47Um dos que estavam presentes, puxando da espada, feriu o servo do sumo sacerdote e
cortou-lhe a orelha. 48Jesus lhes respondeu dizendo: “Vocês saíram para me prender com espadas e paus,
como se faz a um bandido. 49Eu estive com vocês no Templo, ensinando todos os dias, e vocês não me
prenderam. Mas é para que as Escrituras se cumpram”. 50Então, abandonando Jesus, todos fugiram. 51Um
jovem seguia a Jesus, vestido apenas com um lençol enrolado no corpo. Foram agarrá-lo, 52mas ele,
largando o lençol, fugiu nu.

Jesus diante das autoridades judaicas (Mt 26,57-68; Lc 22,54s.63-71; Jo 18,13s.19-24) – 53Levaram Jesus ao
sumo sacerdote, e aí se reuniram todos os chefes dos sacerdotes, os anciãos e os doutores da Lei. 54Pedro
tinha seguido Jesus de longe, até dentro do pátio do sumo sacerdote. Sentado com os criados, aquecia-se
junto ao fogo. 55Os chefes dos sacerdotes e todo o Sinédrio procuravam algum testemunho contra Jesus,
para matá-lo, mas não encontravam. 56Porque muitos davam falso testemunho contra ele, mas os
testemunhos não coincidiam. 57Então alguns, levantando-se, deram falso testemunho contra ele, dizendo:
58“Nós o ouvimos dizer: ‘Eu vou destruir este Templo feito por mãos humanas, e em três dias vou

construir outro, não feito por mãos humanas’”. 59Mas nem assim o testemunho deles coincidia. 60Então o
sumo sacerdote, levantando-se no centro do Sinédrio, perguntou a Jesus: “Não respondes nada? O que é
que estes testemunham contra ti?” 61Mas Jesus ficou calado, e não respondeu nada. De novo o sumo
sacerdote lhe perguntou: “Tu és o Messias, o Filho do Bendito?” 62Jesus disse: “Eu sou, e vocês verão o
Filho do Homem sentado à direita do Poder e vindo com as nuvens do céu”. 63O sumo sacerdote rasgou as
próprias vestes e disse: “Para que precisamos de mais testemunhas? 64Vocês ouviram a blasfêmia! O que

41
lhes parece?” E todos o julgaram culpado de morte. 65Então alguns começaram a cuspir nele, a cobrir-lhe
o rosto e a bater nele, dizendo: “Profetiza!” E os criados lhe davam bofetadas.

Negações de Pedro (Mt 26,69-75; Lc 22,56-62; Jo 18,15-18.25-27) – 66Estando Pedro no pátio, veio uma
das criadas do sumo sacerdote. 67Vendo Pedro, que se aquecia, olhou bem para ele e disse: “Você também
estava com Jesus Nazareno”. 68Pedro negou, dizendo: “Não sei nem entendo o que você está dizendo”. E
foi para fora, na entrada do pátio, e um galo cantou. 69Mas a criada o viu, e começou a dizer de novo para
os que estavam aí: “Este é um deles”. 70Ele negou de novo. Pouco depois, os que estavam aí disseram de
novo a Pedro: “Sem dúvida você é um deles, pois também é galileu”. 71Pedro começou a maldizer e a jurar:
“Não conheço esse homem de quem vocês estão falando”. 72Imediatamente um galo cantou pela segunda
vez. E Pedro se lembrou da palavra que Jesus lhe havia dito: “Antes que o galo cante duas vezes, você me
negará três vezes”. E começou a chorar.

15 Jesus diante do poderio romano (Mt 27,1s.11-26; Lc 23,1-25; Jo 18,28-19,16a) – 1Logo pela manhã,
os chefes dos sacerdotes se reuniram em conselho com os anciãos, os doutores da Lei e todo o Sinédrio. E,
amarrando as mãos de Jesus, o levaram e o entregaram a Pilatos. 2E Pilatos o interrogou: “Tu és o rei dos
judeus?” Jesus lhe respondeu: “Você está dizendo isso”. 3E os chefes dos sacerdotes o acusavam de muitas
coisas. 4Pilatos o interrogou de novo, dizendo: “Não respondes nada? Vê de quantas coisas te acusam”.
5Jesus, porém, não respondeu mais nada, de modo que Pilatos ficou impressionado.
6Por ocasião da Festa, Pilatos costumava libertar um preso que lhe pedissem. 7Havia um tal chamado

Barrabás, preso com outros rebeldes que, numa revolta, tinham assassinado uma pessoa. 8A multidão
subiu e começou a pedir que Pilatos lhes fizesse como sempre fazia. 9Pilatos lhes respondeu, dizendo:
“Querem que eu lhes solte o rei dos judeus?” 10Porque ele bem sabia que por inveja é que os chefes dos
sacerdotes tinham entregue Jesus. 11Porém, os chefes dos sacerdotes atiçaram a multidão para que, em vez
disso, ele lhes soltasse Barrabás. 12Pilatos lhes perguntou novamente: “Então o que vocês querem que eu
faça com este que vocês chamam de rei dos judeus?” 13Eles gritaram de novo: “Crucifique-o!” 14Pilatos
lhes disse: “Mas que mal fez ele?” E gritavam ainda mais: “Crucifique-o!” 15Então Pilatos, querendo
agradar a multidão, soltou-lhes Barrabás. Mandou açoitar Jesus e o entregou para ser crucificado.

A zombaria dos soldados (Mt 27,27-31; Jo 19,2s) – 16Os soldados levaram Jesus para dentro do palácio, ou
seja, ao Pretório, e convocaram toda a tropa. 17Vestiram-no de púrpura e, tendo feito uma coroa de
espinhos, a puseram nele. 18E começaram a saudá-lo: “Salve, rei dos judeus!” 19Batiam na cabeça dele com
uma vara, cuspiam nele e, dobrando os joelhos, o adoravam. 20Depois de terem caçoado dele, tiraram-lhe
a púrpura e o vestiram com as roupas dele. E o levaram para fora, a fim de o crucificarem.

A crucifixão (Mt 27,32-44; Lc 23,26-43; Jo 19,17-24) – 21Passava por aí certo Simão de Cirene, pai de
Alexandre e Rufo. Ele vinha do campo, e o obrigaram a carregar a cruz de Jesus. 22E levaram Jesus ao lugar
denominado Gólgota, que traduzido significa Lugar da Caveira. 23E lhe deram para beber vinho misturado
com mirra, mas ele não tomou. 24Então o crucificaram e repartiram suas roupas, sorteando para ver o que
cada um levaria. 25Eram nove horas da manhã, e o crucificaram. 26E havia a inscrição com o motivo da
condenação, que trazia escrito: “O Rei dos Judeus”. 27E com Jesus crucificaram dois bandidos, um à direita
e outro à esquerda dele. [28] 29Os que passavam o insultavam, balançando a cabeça e dizendo: “Ah, tu que
destróis o Templo e o reconstróis em três dias! 30Salva-te a ti mesmo, descendo da cruz!” 31Do mesmo
modo, também os chefes dos sacerdotes com os doutores da Lei o ridicularizavam, dizendo entre si:
“Salvou os outros, e não consegue salvar a si mesmo. 32O Messias, o Rei de Israel... que ele desça agora da
cruz, para que vejamos e acreditemos”. E também os que tinham sido crucificados com ele o insultavam.

42
Morte de Jesus (Mt 27,45-56; Lc 23,44-49; Jo 19,25-30) – 33Do meio-dia até as três horas da tarde, houve
escuridão sobre toda a terra. 34Às três da tarde, Jesus deu um grande grito: “Eloi, Eloi, lamá sabactâni”, que
traduzido significa: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” 35Alguns dos que estavam aí, ao
ouvirem isso, diziam: “Veja! Ele está chamando Elias”. 36Um deles correu para ensopar uma esponja em
vinagre e, prendendo-a numa vara, dava-lhe de beber, dizendo: “Deixem! Vamos ver se Elias vem descê-lo”.
37Então Jesus, dando um grande grito, expirou. 38E o véu do Santuário foi rasgado em dois, de alto a

baixo. 39O centurião que estava diante de Jesus, vendo-o expirar desse modo, disse: “Realmente este
homem era Filho de Deus!”
40Também algumas mulheres estavam aí, olhando de longe, entre elas Maria Madalena, Maria mãe de

Tiago Menor e de Joset, e Salomé. 41Elas seguiam e serviam Jesus, quando ele estava na Galileia. E muitas
outras, que tinham subido com ele para Jerusalém.

O sepultamento (Mt 27,57-61; Lc 23,50-56; Jo 19,38-42) – 42Quando era já o final da tarde, sendo o Dia da
Preparação, ou seja, a véspera do sábado, 43chegou José de Arimateia, um respeitado membro do
Conselho. Ele também esperava o Reino de Deus. Corajosamente, entrou onde Pilatos estava e lhe pediu o
corpo de Jesus. 44Pilatos se admirou de que já estivesse morto. Chamando o centurião, perguntou-lhe se
fazia tempo que tinha morrido. 45Informado pelo oficial, concedeu o cadáver a José. 46Tendo comprado
um lençol, José o desceu, envolveu-o no lençol e o colocou num túmulo que tinha sido escavado na rocha.
Depois fez rolar uma pedra na entrada do túmulo. 47Maria Madalena e Maria de Joset observavam onde
ele tinha sido colocado.

16 O túmulo vazio: recomeçar, fazendo o caminho de Jesus (Mt 28,1-8; Lc 24,1-12; Jo 20,1-10) –
1Passado o sábado, Maria Madalena, Maria de Tiago, e Salomé compraram perfumes para ir ungi-

lo. 2De madrugada, no primeiro dia da semana, elas foram ao túmulo ao nascer do sol. 3Diziam entre si:
“Quem vai rolar para nós a pedra da entrada do túmulo?” 4Quando levantaram os olhos, viram que a pedra
tinha sido removida. Ela era, de fato, muito grande. 5Entrando no túmulo, viram um jovem sentado à
direita, vestido com uma túnica branca. E se espantaram. 6Mas ele lhes disse: “Não se assustem. Vocês
procuram Jesus de Nazaré, o Crucificado. Ressuscitou. Não está aqui. Vejam o lugar onde o puseram.
7Mas vão e digam aos discípulos dele e a Pedro que ele vai na frente de vocês para a Galileia. Aí vocês o

verão, tal como ele lhes disse”. 8Saindo, elas fugiram do túmulo, pois estavam tomadas de tremor e
espanto. E não contaram nada a ninguém, porque tinham medo.

43
Coleção Meditações

• Meditações sobre a paixão do Senhor, Charles de Foucauld


• Momento de Cristo (O): a trilha da meditação, John Main
• Orai sem cessar: reflexões sobre a oração, Sérgio Raupp
• Palavra que leva ao silêncio (A), John Main
• Prática diária da meditação cristã, Laurence Freeman

44
Direção editorial:
Claudiano Avelino dos Santos
Capa:
Marcelo Campanhã
Coordenação de desenvolvimento digital:
Guilherme César da Silva
Desenvolvimento digital:
Daniela Kovacs
Conversão EPUB:
PAULUS
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Meditações sobre a Paixão do Senhor [livro eletrônico]; / Charles de Foucauld [organizador]. – São Paulo:
Paulus, 2017 – Coleção Meditações.
3,1Mb; ePUB
Título original: MEDITAZIONI SULLA PASSIONE DEL SIGNORE
ISBN 978-88-215-7700-0
© 2013 Edizioni San Paolo s.r.l. – Cinisello Balsamo (MI)
Tradução: José Dias Goulart
Texto bíblico (Mc 14,1–16,8) extraído da Nova Bíblia Pastoral, São Paulo: Paulus, 2014.

© PAULUS – 2017
Rua Francisco Cruz, 229 • 04117-091 – São Paulo (Brasil)
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46
Scivias
de Bingen, Hildegarda
9788534946025
776 páginas

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Scivias, a obra religiosa mais importante da santa e doutora da Igreja


Hildegarda de Bingen, compõe-se de vinte e seis visões, que são
primeiramente escritas de maneira literal, tal como ela as teve, sendo, a
seguir, explicadas exegeticamente. Alguns dos tópicos presentes nas visões
são a caridade de Cristo, a natureza do universo, o reino de Deus, a queda
do ser humano, a santifi cação e o fi m do mundo. Ênfase especial é dada
aos sacramentos do matrimônio e da eucaristia, em resposta à heresia
cátara. Como grupo, as visões formam uma summa teológica da doutrina
cristã. No fi nal de Scivias, encontram-se hinos de louvor e uma peça curta,
provavelmente um rascunho primitivo de Ordo virtutum, a primeira obra de
moral conhecida. Hildegarda é notável por ser capaz de unir "visão com
doutrina, religião com ciência, júbilo carismático com indignação profética, e
anseio por ordem social com a busca por justiça social". Este livro é
especialmente significativo para historiadores e teólogas feministas. Elucida a
vida das mulheres medievais, e é um exemplo impressionante de certa forma
especial de espiritualidade cristã.

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47
48
Santa Gemma Galgani - Diário
Galgani, Gemma
9788534945714
248 páginas

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Primeiro, ao vê-la, causou-me um pouco de medo; fiz de tudo para me


assegurar de que era verdadeiramente a Mãe de Jesus: deu-me sinal para
me orientar. Depois de um momento, fiquei toda contente; mas foi tamanha
a comoção que me senti muito pequena diante dela, e tamanho o
contentamento que não pude pronunciar palavra, senão dizer,
repetidamente, o nome de 'Mãe'. [...] Enquanto juntas conversávamos, e me
tinha sempre pela mão, deixou-me; eu não queria que fosse, estava quase
chorando, e então me disse: 'Minha filha, agora basta; Jesus pede-lhe este
sacrifício, por ora convém que a deixe'. A sua palavra deixou-me em paz;
repousei tranquilamente: 'Pois bem, o sacrifício foi feito'. Deixou-me. Quem
poderia descrever em detalhes quão bela, quão querida é a Mãe celeste?
Não, certamente não existe comparação. Quando terei a felicidade de vê-la
novamente?

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49
50
DOCAT
Vv.Aa.
9788534945059
320 páginas

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Dando continuidade ao projeto do YOUCAT, o presente livro apresenta a


Doutrina Social da Igreja numa linguagem jovem. Esta obra conta ainda com
prefácio do Papa Francisco, que manifesta o sonho de ter um milhão de
jovens leitores da Doutrina Social da Igreja, convidando-os a ser Doutrina
Social em movimento.

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51
52
Bíblia Sagrada: Novo Testamento - Edição Pastoral
Vv.Aa.
9788534945226
576 páginas

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A Bíblia Sagrada: Novo Testamento - Edição Pastoral oferece um texto


acessível, principalmente às comunidades de base, círculos bíblicos,
catequese e celebrações. Com introdução para cada livro e notas explicativas,
a proposta desta edição é renovar a vida cristã à luz da Palavra de Deus.

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53
54
A origem da Bíblia
McDonald, Lee Martin
9788534936583
264 páginas

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Este é um grandioso trabalho que oferece respostas e explica os caminhos


percorridos pela Bíblia até os dias atuais. Em estilo acessível, o autor
descreve como a Bíblia cristã teve seu início, desenvolveu-se e por fim, se
fixou. Lee Martin McDonald analisa textos desde a Bíblia hebraica até a
literatura patrística.

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55
Índice
Rosto 2
Introdução 4
Vida e itinerário espiritual 5
Proposta de leitura 8
Meditações sobre a paixão 9
Apêndice - Paixão de nosso Senhor Jesus Cristo Segundo Marcos 40
Coleção 44
Ficha Catalográfica 45

56

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