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Chico Anísio
FEIJOADA NO COPA

Digitalização & Revisão:


ÐØØM SCANS

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Capa
ZIRALDO

Revisão
FRED PERROTTI

Copyright © 1976 by Chico Anísio.

Direitos desta edição reservados à Editora Roc-


co Ltda., Rua Visconde de Pirajá, 82, sala 1.003
Tel.: 287-1493, Rio de Janeiro / RJ — República
Federativa do Brasil.

Este livro foi composto na Compositora Hel-


vética Ltda., Rua Correia Vasquez, 25, Rio de Ja-
neiro/RJ e impresso na Editora Vecchi S.A., Rua
do Resende, 144, Rio de Janeiro / RJ, em Agosto
de 1976, para a Editora Rocco LTDA.

Parte desta tiragem foi confeccionada pela Edi-


tora Rocco Ltda. Especialmente para a Editora Co-
decri Ltda, Rua Saint Roman, 142, Rio de Janeiro,
RJ.

Printed in Brazil / Impresso no Brasil.

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ÍNDICE
ESTADO DE COMA......................................................................5
CRIME PERFEITO.........................................................................9
AMOR IMPOSSÍVEL...................................................................13
O HOMEM E O MAR...................................................................18
O HOMEM QUE NÃO DORMIA................................................22
CHANTAGEM..............................................................................26
COLUNISTA SOCIAL.................................................................30
OS CIRCUITOS ESTÃO OCUPADOS........................................34
CHUVA DECRESCENTE............................................................38
UM CAVALHEIRO E DUAS DAMAS.......................................42
O GRANDE ASSALTO................................................................46
OS SAPATOS DO LADRÃO.......................................................50
SAVE-YOUR-LIFE.......................................................................54
À BEIRA DO TÚMULO...............................................................58
BRUXINHA..................................................................................63
TREZE IGUAL A ZERO..............................................................67
QI 180............................................................................................72
O OVO É PRODUTO DO MEIO..................................................76
SARAVÁ.......................................................................................79
FEIJOADA NO COPA..................................................................86
PARTO COM DOR.......................................................................97
CASO DE CIRURGIA................................................................101
TAPETE DE PELE DE ONÇA...................................................105
DOIS SILVOS BREVES: PARE!...............................................109
DE PAI PARA FILHO DESDE..................................................113
O ATROPELAMENTO...............................................................117
O MACHO...................................................................................121
O SOBRINHO DO NARIZ ABSURDO.....................................125
A ESPOSA INSONE...................................................................129
O BILHETE DO CACHORRO...................................................135
A PEDRA DO FRADE................................................................139
O SINAL AMARELO.................................................................144
O PARQUE, O PARQUE............................................................148
O ESTRANHO DA RUA DO OUVIDOR..................................152

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ESTADO DE COMA

Quando entrou, a mulher parecia uma louca.


— Estou nas últimas.
— Calma — solicitou Dr. Novaes.
A mulher não obedeceu ao pedido. Num histe-
rismo preocupante começou a despir-se, mostrando
feridas inexistentes e mazelas prováveis. Falava
muito e muito depressa. Dr. Novaes não conseguia
acompanhar os sintomas que ela expunha.
— Isto, doutor, não pode ser câncer?
— Bem...
— Veja como está arroxeado. Eu já li muito so-
bre isso. Esta mancha escura não pode ser um me-
lanoma? Eu tenho pavor de câncer, doutor. E o meu
pulmão? Examine.
Tirou a blusa e o sutiã para que Dr. Novaes en-
costasse o ouvido nas suas costas, sem que nada o
obstasse.
— Seu pulmão — começou o doutor...
— Se eu ainda tiver pulmão. E as palpitações,
doutor, são constantes. Disritmia. Tem hora que o
coração parece ter parado. Fico fria, sinto um tor-
por no corpo, o braço dormente. Braço esquerdo.
Esquerdo, frisava, de olho rútilo. — Não é coisa de
coração? Quais são os sintomas do enfarte?
— O enfarte...
— E o fígado? Bata no meu fígado.
O doutor obedeceu por obedecer. Ressoou um
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“tum-tum” surdo.
— Se eu já não tiver com hepatite, ando por
perto.
— A senhora está nervosa.
— E deveria estar calma? E os rins, que não
funcionam direito? E nem falo na cistite, que não
me dá um dia de sossego.
Tirou a saia para mostrar melhor as varizes que
nasciam nos tornozelos e iam em frente.
O doutor, muito paciente, fazia o que ela man-
dava.
— Aperte aqui.
Ele apertava.
— Veja aqui.
Ele via.
— Empurre aqui.
Ele empurrava.
— Ausculte, pressione, experimente, observe.
Ele auscultava, pressionava, experimentava, ob-
servava, obedecia com muita tranquilidade, uma
calma que não era muito do agrado da mulher que,
neste momento, não usava no corpo nada além dos
sapatos que acabava de tirar.
— Já viu meu pé?
— Estou vendo.
— Pé chato. Isso pode ser a causa do cansaço.
Mas eu uso sapato ortopédico, o pé chato nada tem
a ver com o cansaço, tem?
— Não, não tem.
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— No entanto, parece que não há um palmo
cúbico de ar para que eu respire. Veja como suo
nas mãos.
Ele viu que ela suava realmente.
E tinha dores no estômago pela manhã, o intes-
tino não funcionava a contento, a vesícula devia es-
tar preguiçosa, o pâncreas ficava como se tivesse
comido brasa, a urina era escura um dia, averme-
lhada no outro.
Dr. Novaes não se abalou em nenhum instante.
A mulher, inteiramente desnuda, deliberada-
mente deitou-se na mesa para um exame mais deta-
lhado. Dr. Novaes fez.
— Pode-se vestir.
— Como? Sem que o senhor examine o baço?
Ele, com um dedo sobre o baço, bateu várias
vezes nele com o rígido médio.
— Vista-se agora.
Ela se disse impossibilitada. Sentia o tal sinto-
ma de prostração de que tanto falara. Viu? Ainda
bem que no consultório lhe tinha dado, para que o
Dr. Novaes não pensasse que se tratava de hipocon-
dria ou coisa semelhante.
Foi-lhe dado um pouco de água mexida com
uma colher. Nada havia além da água no copo, mas
o mexer da colher fez com que, ao beber a água
pura, ela chegasse a sentir um gosto muito ruim.
— O que foi que o senhor me deu pra beber?
— Nada — disse o Dr. Novaes.
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— Eu preciso saber o nome deste remédio. Em
dois minutos me deixou outra. Estou reanimada, re-
cuperada.
— Vista-se.
Ela começou a se vestir. Vestiu-se sem parar de
falar de doença. Dores de cabeça ao entardecer,
uma ponta de febre no começo da noite, insônia
progressiva — Mandrix já lhe sabia a Cibalena —
perda do apetite.
— Como isso, parece que comi um boi.
E a memória, não raro, lhe faltava. Seria amné-
sia? Essa doença existe mesmo, ou é coisa de fil-
me? E os olhos sempre vermelhos. Há uma mancha
num deles, vê? O olho direito. Não seria um carci-
noma? Ou seios doídos. As vezes, não suportava o
sutiã.
— A senhora está nervosa demais.
— Se fosse somente o sistema nervoso, era óti-
mo. Eu tomava uns sedativos, uns tranquilizantes,
pronto. O estado geral é que é o drama. Devo me
hospitalizar? Diga, doutor. Preciso ser operada? É
caso de cirurgia, ou... O que o senhor disser eu
faço.
— Então faça o seguinte — disse o Dr. Novaes.
— Procure um médico.
— Hein?
— Eu sou economista. O Dr. Dráulio, que tinha
consultório aqui mudou-se para a Rua Sorocaba.
Daí, ela apressou-se a vestir a roupa.
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*
* *

CRIME PERFEITO

Tanto os jornais falavam em assalto e, todos


eles com aparência de terem terminado bem-suce-
didos, que os três rapazes resolveram que assaltar o
banco de Valtinópolis não seria um mau negócio.
Assim é que marcaram encontro num casarão
abandonado nos arrabaldes da cidade, onde trama-
ram o plano, considerado perfeito.
Sob a luz de um candeeiro, Belo, Juca e Tenório
desenharam, do melhor modo possível, o mapa da
cidade, com suas ruas e becos, traçando, depois, o
trajeto a ser seguido pelo carro com o dinheiro tira-
do do banco. Calculavam que abiscoitassem cento e
cinquenta milhões antigos, dinheiro da municipali-
dade, tesouro em que botariam as mãos. Término
de misérias e problemas.
Belo viajou para São Paulo, aparentando ino-
cência de uma filha de Maria. Iria à capital comprar
as luvas que impediriam o descuido de impressões
digitais deixadas em algum ponto do banco. Juca
foi ao Paraná, onde entraria em contato com um tal
Liberato, que lhe cederia as armas — três pistolas
Mauser — com as quais trabalhariam. Quanto a Te-
nório, prepararia as máscaras, alfaiate que era.
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Máscaras que cobririam o rosto inteiro, de modo
que apenas os olhos ficassem de fora.
— E o carro?
— Roubamos um, quinze minutos antes do as-
salto e o abandonamos depois, na estrada para Ta-
tuis.
— Certo. Pelo mato voltamos ao nosso barraco,
exatamente no lado oposto a Tatuis.
— Perfeito. Enterramos o dinheiro e só botamos
a mão nele cinco meses depois.
Combinaram ainda que, a cada dois meses, um
deles mudaria para São Paulo, que fariam um de-
pósito trinta minutos antes do assalto (Belo seria o
depositante); que Juca iria ao banco vinte minutos
antes do roubo, para apanhar um talão de cheques,
e conversaria dois minutos com o caixa. Tenório,
encarregado de conseguir o carro, seria o único a
não ter o quase-alibi, mas aceitava isso com tran-
quilidade — olho a brilhar pelos milhões que lhe
caberiam.
Liberato, o do Paraná, receberia quinze por cen-
to da dinheirama, e, perito que era em assaltos, ti-
nha achado perfeito tudo que os três haviam imagi-
nado, o que lhe tinha sido exposto por Juca quando
fora apanhar as pistolas.
Belo e Juca voltaram de São Paulo e Curitiba
em dias separados. Tenório já tinha pronta as más-
caras que, experimentadas, ficaram perfeitas. Era
dia 4, véspera do dia. Nesta noite os três não dormi-
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ram.
Todo o dinheiro que possuíam — noventa cru-
zeiros antigos — foi levado por Belo ao banco.
— Eu queria fazer um depósito — falou alto
para se fazer notar.
Saiu na hora em que Juca entrava a pedir um
novo talão de cheques.
Da porta Belo pôde ver Juca conversando com o
caixa como o planejado.
Na esquina da Rua XV com Praça Olavo Bilac,
os três se encontraram.
Tenório, à direção do carro roubado, vinha mais
calmo do que era de se supor. Parecia um veterano.
No trajeto para o banco as máscaras foram coloca-
das.
O carro parou à porta do banco e os três masca-
rados desceram com a Mauser apontada para o
guarda, que foi obrigado a se pôr no chão, de bru-
ços, já sem a arma que trazia no coldre.
Não falavam para que a voz não os traísse.
Os funcionários do banco, temerosos de um
tiro, erguiam os braços especificamente. Dois ou
três clientes junto ao balcão aquietavam-se o mais
possível. O caixa entregou sem relutância todo o
dinheiro que tinha à mão, e o gerente, sob a ameaça
da arma de Tenório, abriu a caixa-forte de onde o
dinheiro graúdo pulou para as maletas que leva-
vam.
Dois minutos depois a Polícia chegou.
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Nesta hora, o carro já saía da estrada, embre-
nhando-se pelo mato crescido, onde foi abandona-
do. Três bicicletas, uma das quais com bagageiro,
ali os esperavam desde a noite anterior. No baga-
geiro socaram as maletas recheadas e, pelo cami-
nho de terra só usado por cavalos e charretes, peda-
laram loucos, à procura do barraco abandonado.
Liquidaram, então, uma a uma as provas do cri-
me e voltaram a pé para a cidade, onde chegaram já
à noite.
À porta da casa de Belo quatro homens o espe-
ravam e lhe deram voz de prisão, enquanto lhe co-
locavam algemas.
Quando Juca entrou em casa, seis homens salta-
ram sobre ele, imobilizando-o e levando-o preso
sem maiores explicações.
Tenório foi apanhado na esquina da sua alfaia-
taria e enfiado numa viatura da Polícia que o levou
à Delegacia de Valtinópolis.
Exatamente duas horas após o assalto sem erro,
Belo, Juca e Tenório, algemados e vencidos, escu-
taram a frase seca e autoritária do delegado.
— Muito bem. Onde está o dinheiro?
Os três não entendiam. Onde estava o erro? As
luvas, as máscaras, o depósito, o talão de cheques,
a conversa com o caixa, os álibis perfeitos, o carro
abandonado, a estradinha de terra percorrida de bi-
cicleta sem que vivalma os visse, o dinheiro e tudo
mais enterrado e bem enterrado, as bicicletas que
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jaziam no fundo do Rio Açu...
— O dinheiro, onde está?
Contaram tudo, para que as coisas não pioras-
sem. Mas não atinaram para o erro. Qual teria sido
o lapso?
Em Valtinópolis, sempre sem entender como ti-
nham sido descobertos, os três foram enviados para
cumprir pena em São Paulo.
Foram postos em celas separadas. Belo, Juca e
Tenório. Os três únicos anões da cidade, por acaso.

*
* *

AMOR IMPOSSÍVEL

— Outra vez pensando nela, não é?


Ricardo fala que não, que estava pensando no
jogo de logo mais, que já a tirou da cabeça, que já
viu que não é possível. Diz negações sem conta,
jura que não é nada disso, mas não convence a nin-
guém, principalmente à sua mãe, penalizada pelo
amor impossível que devora o filho.
— Tira isso da cabeça, Ricardo. Já se viu uma
coisa dessas?
Sai da janela e vai para seu quarto pensar nela.
Há dois meses está assim. Fecha os olhos para vê-
la. E ali está ela, por dentro dos olhos cerrados, lou-
ra e magra. Uma espiga dourada, uma espada de
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rei. A mulher que o enfeitiça, lhe corrói a alma, pe-
netra pelas veias, corre o corpo e lhe fecha a vida.
— Vamos ao jogo, Ricardo?
— Não. Vou ficar em casa, ouvindo um som.
O amigo vai ao campo, ele fica na cama, deita-
do sobre as mãos onde a nuca se apóia, olhar para-
do no plafonier do quarto onde nasce uma luz que
se filtra em riscos para os lados. Conta os traços da
luz que o plafonier fabrica.
— Um, dois, três, quatro....
Perde-se na conta. Marca um risco mais longo,
como sendo o primeiro, e recomeça. Perde-se outra
vez. Conta agora as dobradiças do armário embuti-
do. Três nas portas de baixo, duas nas portas de
cima. Há seis portas ao todo. Multiplica-as e depois
as soma, uma a uma.
— 15.
Das dobradiças, ele já sabe. Agora volta para
ela, de quem precisa saber mais. Onde andará ago-
ra? Com quem estará? Inventa que possa estar pen-
sando nele. Contando dobradiças também, quem
pode garantir que não? E parece que a vê agora, de
maiô, muitos amigos em volta, alguns deles com o
nome de Ricardo. Se houver um Ricardo entre os
amigos, ela não poderá deixar de lembrar dele. E
por que não lembrará, mesmo que os amigos sejam
Raul, Antônio ou Tomás?
— O almoço está na mesa—a empregada comu-
nica.
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Ameaça dizer que não tem fome, mas segura a
tempo a frase que irritaria os pais.
Come pouco. O mais que pode, para evitar os
reclamos inevitáveis da mãe ou do pai. Não aguen-
ta mais a chatice daquela frase imutável que não in-
ventou e que todos em casa repetem.
— Outra vez pensando nela, não é?
Idiotas. Gente que não ama não entende os apai-
xonados. Admite que não seja paixão o que sinta
por ela. Interesse diferente, talvez. O fato é que
pensar nela lhe faz bem. Dá-lhe uma sensação de
posse. De repente, ele é dono dela e ela faz o que
Ricardo manda. Ela agora é dócil, na sua imagina-
ção. Obedece às suas ordens, mansa como Ricardo
deseja. E lhe dá os beijos pedidos, os abraços orde-
nados e se dá a ele com um amor que queima.
Ricardo deita-se de bruços. Vez por outra tem
vontade de chorar. Homem não chora. Idiotas, tam-
bém. Homem chora, sim. O choro por amor é dever
do homem.
— Curtindo uma fossa, Romeu? — pergunta a
irmã, no corredor, de passagem para o quarto.
Ricardo lhe responde com um palavrão apenas
pensado. A irmã é mulher, não compreende o que
os homens sentem. É provável que em algum lugar
do Rio, neste domingo imbecil, algum imbecil
como ele esteja assim: deitado no quarto, perdendo
seu dia, pensando na sua irmã. E ela ali, sem ligar a
mínima importância ao seu provável apaixonado,
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preparando-se para sair com outro.
E ela? Ela pode estar comendo milho na Barra
com outro, também. É mulher, como a irmã, pode
ser igualmente traidora.
A palavra machuca. Traidora como, se nada
existe entre ela e Ricardo? Ela nem sequer se aper-
cebeu da importância que tem para ele. Quando se
falam não é de amor. E a coragem para lhe dizer o
que pensa, o que só diz no escuro do quarto, no si-
lêncio da vida?
Liga o rádio apenas pelo fato do rádio estar à
mão.
Pra você eu guardei o amor infinito... Pra você
procurei o lugar mais bonito...
Engraçado. Antes não era assim. Agora, no en-
tanto, todas as letras de todas as canções parece que
foram escritas para o seu amor.
É melhor sair. Andar um pouco, beber qualquer
coisa num lugar qualquer. Ver gente talvez seja
bom.
Ah, como odeia o domingo. O relógio lhe diz
que faltam seis horas para este domingo acabar.
Mas não resolve. A vida não pára. Outros domin-
gos virão. E o cruel: ele também não pode parar.
Tem que seguir na vida. Se parar, o mundo lhe pas-
sa por cima e o esmaga. Como se já não estivesse
esmagado.
— Um dia um cara vai pensar em mim assim
como você está pensando nela, Ro.
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Cala a irmã com o travesseiro que atira e se
choca contra o portal. Grita obscenidades à irmã,
que segue numa gargalhada. Escuta a porta da rua
bater.
Não dá ouvidos às recriminações que a mãe lhe
faz da porta. Diz “está bem”, a cada frase de repro-
vação da mãe. Está bem, não fará mais isto. Está
bem, não ofenderá mais à irmã. Está bem, não dirá
mais nomes feios dentro de casa. Está bem. Está
bem. Está bem.
Mas nada está bem.
O amigo voltou do jogo. Ricardo esforça-se
para demonstrar interesse nos lances que o amigo
conta. Faz que dorme. O amigo vai embora.
— Ricardo não vai com você? — pergunta a
mãe.
— Dormiu — o amigo diz e desaparece.
A mãe vai ao quarto, com passos macios, verifi-
car o sono do filho.
— É, dormiu.
Fecha as cortinas para que a luz do poste alto
com luz de mercúrio não interrompa seu sono. Co-
bre-lhe até o pescoço e lhe deposita um beijo na
testa. Ricardo já não faz-de-conta. Agora dorme,
realmente. Pela primeira vez, neste domingo, não
tem no rosto um ricto de preocupação. Há uma es-
pécie de sorriso no rosto de Ricardo, o jovem que
odeia os domingos. Ricardo já não pensa nela.
A mãe fecha a porta mansa e cuidadosamente e
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volta à sala onde o pai lê o jornal.
— Dormiu?
— Dormiu — responde a mãe. Está dormindo
tão bonitinho...
O pai sorri e acende o cachimbo. O pai entende
Ricardo. O pai também, um dia, teve 15 anos, tam-
bém um tempo viveu assim, perdendo os domin-
gos, pensando na professora.

*
* *

O HOMEM E O MAR

A mulher estava na sala costurando, ora a meia,


ora o dedo, ora o ovo de madeira, quando o marido
apareceu com um caniço e uma caixa metálica
cheia de iscas, anzóis e molinetes.
— Pra onde você vai? — perguntou a mulher,
furando o dedo, que levou à boca para chupar o
sangue.
— O que é que você acha? — perguntou tam-
bém o marido, levando 'à frente, aos olhos da mu-
lher, o caniço e a caixa metálica com os apetrechos
de pescaria.
— Acho que você vai pescar — respondeu a
mulher, costurando a meia que nem era dela, mas
do filho. — Mas o que eu quero saber é o seguinte:
por que vai pescar?
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— Por dois motivos: primeiro, porque eu quero,
e segundo, porque eu tenho, como você pode ver,
caniço, molinetes, anzóis e iscas.
E ainda se absteve de citar as duzentas milhas
de mar onde este direito lhe era dado, segundo re-
cente acordo.
— É uma resposta válida — admitia a mulher.
— Então, até logo.
— Muito bonito — provocou ela. — Sai pra
pescar e tudo que me diz é “até logo”.
— E o que mais deveria eu dizer? — indagou o
marido, depositando sobre a mesa a caixa metálica
que era, realmente, mais pesada do que o caniço.
— Deveria dizer a que horas volta, que peixe
traz...
— O.K. — repostou o marido. — Eu volto às
duas horas e vou trazer um robalo. Vamos ter uma
peixada hoje aqui Convide meus amigos e seus
amigos, meus parentes e seus parentes, meus inimi-
gos e seus inimigos. Diga-lhes que teremos hoje
uma peixada de robalo, quando aproveitaremos
para fazer inimizades com os amigos, tornar os ini-
migos parentes, e tentar amizades com os aparenta-
dos — embora eu considere isso uma coisa muito
difícil.
Beijaram-se, e o homem saiu.
A mulher, enquanto o marido se dirigia a um
hotel com a amante, telefonou para todos com uma
promessa de sensacional peixada. De robalo.
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Desde onze horas começaram a chegar os ami-
gos à casa do pescador.
Um pintor acadêmico (ainda usava Paredex),
um jornalista (com banca na Mem de Sá), um ban-
queiro (de bicho), um escritor (de oferecimento de
serviços para anúncios classificados), um operador
(de rádio), um contador (de velhas anedotas), um
capitão (do time do Maravilha Futebol Clube) e um
químico (de admiráveis misturas de água e leite).
Enquanto os amigos chegavam à casa do pesca-
dor, com água na boca e estômago roncando, o ho-
mem do mar pescava o seu peixão particular num
hotelzinho dos menos preferidos da Barra da Tiju-
ca. Hotel de mau gosto, como convém ao conto.
Ao mesmo tempo que aumentava a fome dos
convidados à peixada, a fome do pescador diminu-
ía, por desamor e idade. Assim é que ele pediu as
contas. Ao hotel e à amante, insaciável mulher.
Pago o hotel, largada a amante, tudo estava pra-
ticamente terminado. Faltava apenas o peixe, uma
vez que o homem saíra de casa às seis da manhã,
conduzindo uma caixa metálica com molinetes, is-
cas e anzóis, além de um caniço que lhe tinha sido
vendido como canadense.
Devido ao adiantado da hora, o pescador optou
pela pescaria indubitável.
Parou numa peixaria.
— Eu quero um robalo — comandou.
Após recolher das mãos do peixeiro o espéci-
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men centropomídeo, mandou-se para casa, onde to-
dos o aguardavam já à beira da inanição. Foi rece-
bido com frases gentis.
— Isso são horas, idiota?
— Quer matar a gente de fome, seu isso?
— Na próxima, avisa que eu venho almoçado,
seu aquilo.
Modestamente, o pescador limitou-se a jogar o
robalo sobre a mesa, sem se dar à gabolice habitual
dos pescadores.
— Taí a fera. Demorei uma hora e quinze com
ele no anzol. Ele puxava, eu dava linha, trazia o
bruto no bico. Ele saltava feito um marlim. Briguei
uma hora e vinte, como falei, dando colher de chá
pra ele. Ele amolecia o corpo, eu forçava no moli-
nete. Ele reagiu, que o bicho era teimoso. Eu deixa-
va ele ir. Uma hora e trinta e cinco nisso, como
contei a vocês. Ele de um lado e eu do outro. O ve-
lho e o mar. Uma hora e quarenta, nessa parada in-
digesta. Teve uma hora em que eu pensei que tives-
se perdido a peça. Puxei, não senti nada. De repen-
te, aquele solavanco. Acabei trazendo o bicho na
marra, depois de uma hora e cinquenta.
— Que sorte! — comentou a esposa envaideci-
da por se ter casado com um personagem de He-
mingway.
— Mas valeu a pena. O robalo é lindo.
— Deu trabalho, mas está aí — orgulhou-se o
pescador.
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— Você pescou o robalo mais difícil e mais
raro — acrescentou a esposa — porque já veio com
carimbo do Entreposto.
Isso arrefeceu muito os cumprimentos que rece-
bia pela tão rara proeza.

*
* *

O HOMEM QUE NÃO DORMIA

O que o homem tinha de insólito é que não dor-


mia. Desde o anoitecer, deitava-se, ligava o ventila-
dor que ficava num ir e vir como o das cabeças em
negativa, abria a janela que dava para o vão do edi-
fício, ligava o volume do rádio o menos permissí-
vel, preparava-se para dormir... e não dormia.
No seu leito de mortificante insônia, ficava es-
cutando os ruídos da casa: os copos que se quebra-
vam na cozinha, a filha que se engalfinhava no sofá
da sala com o namorado, o deslizar do velocípede
do menino menor — corredor abaixo, corredor aci-
ma — a tosse da sogra no quarto contíguo, e não
conseguia dormir.
A mulher, ao deitar, perguntava infalivelmente:
— Já está dormindo, Guimarães?
— Quase... — vacilava o homem, virando o
rosto para o lado do ventilador que lhe refrescava a
insônia.
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Por não dormir, o homem sabia de tudo que
acontecia de noite na rua: o minuto em que o vizi-
nho chegava em casa, o momento exato em que o
vigilante noturno apitava para avisar aos ladrões
que se apressassem porque a lei vinha a caminho, a
hora do leiteiro, padeiro, jornaleiro e dos garotos
que surrupiavam leite, pão e jornal.
O homem sabia tudo da noite, menos como fa-
zer para conseguir dormir.
E a pergunta matinal da mulher, que não acor-
dava nem para fazer xixi, até o incomodava um
pouco.
— Dormiu bem, Guimarães?
— Mais ou menos — respondia, sem querer
preocupá-la, porque nem ela sabia que ele não dor-
mia nunca.
O mais incrível é que não sentia falta física do
sono. Quando não aguentou mais a falta psicológi-
ca foi que confessou à mulher o seu problema de
muitos anos.
— Sabe de uma coisa, Luzia? Eu não consigo
dormir.
— Toma um comprimido — sugeriu a mulher
com naturalidade, pensando que a insônia acontecia
naquela data querida.
— Você não entendeu — insistiu o homem. —
Faz oito anos que eu não durmo. Aliás, para ser
preciso: oito anos, nove dias e vinte e três horas.
Vinte e três — sublinhou, depois de conferir que
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eram onze da noite no despertador inútil como um
conselho de avô.
— Se está duvidando, fique acordada pra ver.
A mulher aceitou a sugestão e ficou sentada na
cama, repousando as costas no travesseiro dobrado
que colocou escorado à cabeceira.
E, nessa noite, os dois não dormiram. Ela, na vi-
gia. Ele, na dele. Somente ela bocejava, principian-
te que era na arte de não dormir, coisa que ele tira-
va de letra há oito anos e dez dias, agora.
Pela manhã, ele foi para o trabalho e ela ficou
dormindo, descansando para a noite longa que teria
a frente. E repetiu isso por quinze dias, momento
em que os filhos, fartos de pedir comida aos vizi-
nhos, sugeriram ser muito mais prático levar o pai a
um médico, para resolver o problema dele, e a mãe
fazer comida para solucionar o deles.
— Há quanto tempo não dorme? — indagou o
analista.
— Oito anos e muito! — exagerou o homem,
um pouco orgulhoso de viver acordado.
— E qual é o problema? O senhor, sem dormir
vive mais. Se é que, de fato, não fica cansado no
dia seguinte.
— Não, não fico. Mas de noite, doutor, fico es-
tafado, virando de um lado para o outro, tentando
dormir — explanou o homem.
— Pare de tentar. De noite, saia, ande pela rua,
passeie, escreva, leia um pouco. O senhor gosta de
24
ler?
— Não muito. Leio um pouco só para puxar o
sono — confessou o insone.
— Por que não para de ler? — arriscou o analis-
ta, altamente disposto a solucionar o antipático pro-
blema.
— Mas há livros tão bons...
— Já tentou os psicotrópicos?
— Já! — disse o homem — e enumerou seis de-
les.
— E os miorrelaxantes? Soníferos? Barbitúri-
cos?
— Tudo, como igualmente analgésicos e anties-
pasmódicos — completou o homem, citando sete
de cada.
— Mas não durmo.
— Cavalheiro, — diagnosticou o analista, num
tom de vitória — o senhor só tem um problema:
não dorme.
— Eu sei.
— E se já sabia — irritou-se o médico — por
que me procurou?
— Porque eu não durmo. Por mim, doutor, eu
não tenho muita queixa de não dormir. A minha fa-
mília é que insistiu para que eu o procurasse. O se-
nhor sabe como é família, não sabe?
— Não — decepcionou o doutor. — Eu sou ór-
fão e solteiro.
— E daí, como ficamos? — arguiu o homem
25
que não dormia.
— Daí, eu acho que o senhor deve comprar uma
televisão com a maior urgência.
Foi um santo remédio. Ele hoje dorme à cores.

*
* *

CHANTAGEM

— O senhor Romualdo ligou três vezes.


Não sabia quem era esse Romualdo que telefo-
nava seguidamente. Por isso não tinha o menor in-
teresse em atender.
— Se ligar novamente, diga que cheguei e saí.
Que eu nem sei se volto.
Quinze minutos depois Romualdo ligou. A se-
cretária deu o recado.
— Acho bom que ele volte antes das quatro.
Dezesseis horas, para ser mais claro. Vou ligar às
quatro em ponto. Se ele não estiver, pior pra ele.
Diga que eu tenho as fotografias.
— Como?
Romualdo já tinha desligado. A secretária preo-
cupou-se mais do que o lógico.
— Fotografias? — pensou.
Não era assunto seu, mas ficou preocupada.
Transmitiu a mensagem do tal Romualdo ao chefe.
— Que fotografias serão essas?
26
— Não sei. Ele disse apenas isso, que tem as fo-
tografias.
— O.K., quando ele ligar eu atendo.
Ficou, por alguns minutos, tentando adivinhar a
que fotos se referia esse Romualdo, que nem co-
nhecia.
O tempo demorou a passar, castigando-o. Esta-
va aflito. “Fotografias?” — perguntava-se seguida-
mente. A secretária, igualmente, também estava
nervosa. Em dado momento, ficaram a sós, no es-
critório. Falaram-se um pouco.
— O que é que você acha, Idalina?
— Não sei. Estou com medo.
— Esse negócio de fotografia me cheira a chan-
tagem.
Suavam. Queria descobrir, antes das quatro, o
que desejava esse Romualdo, a quem já chamavam
de cretino.
Quatro em ponto o telefone tocou.
— Romualdo — foi a primeira palavra que dis-
se o homem que telefonava.
— Pois não. Deseja falar com quem? — a se-
cretária esforçava-se para aparentar calma.
Tadeu, ao lado, enxugava as mãos na perna da
calça. Ouvia na extensão.
— Você sabe com quem quero falar. Não se
faça de idiota. Eu disse que ligava às quatro e sei
que ele está aí. Diga que é o Romualdo, e pronto. E
tenho pressa.
27
Fez um sinal à secretária. Respirou profundo,
chamando a calma. A seguir, voz estudadamente
tranquila, disse alô.
— Eu tenho as fotografias.
— Não sei a que o senhor se refere, cavalheiro
— disse cavalheiro forçando a natureza, travando o
cretino que preferia ter falado.
— Não tenho tempo a perder. Aliás, você já me
tomou tempo demais. Vou dizer tudo de uma vez e
sem repetir, ouviu? Preste atenção. Um apartamen-
to na
Gomes Carneiro, no quarto andar. Fotografei
com teleobjetiva. As fotografias estão nítidas. Acho
que você gostará de comprar os negativos. Quero
50 milhões.
— O quê?
— Eu disse que não repetia. Agora escute. No
Bar São Joaquim, na Rua da Alegria, eu estarei no
balcão. Lá, faremos a troca. Um amigo tem cópia
das fotografias. Se meter a polícia nisso, ele entrega
as fotos ao jornal e a quem mais possa interessar.
Se se comportar bem, depois mando as cópias.
Desligou, antes que Tadeu pudesse falar qual-
quer outra coisa.
Ficou calado, olhando a secretária. Não preci-
sou explicar. A extensão já contara tudo à moça.
— Cinquenta milhões. O pior é a incerteza de
receber as cópias. Isso pode ser um não mais acabar
de dinheiro.
28
— E se você ligar para a polícia, Tadeu? — in-
quiriu a secretária, íntima, certamente fotografada.
— Não. Eu vou lá. Sozinho.
Não havia muito movimento no Bar São Joa-
quim. Ele passou, de carro, vigiando o interior do
botequim. Viu pouca gente lá dentro e calculou que
Romualdo fosse o cara de cinza, chapéu de feltro,
cinicamente debruçado no balcão à frente de uma
água mineral. Parou vinte metros adiante. Preferiu
vir a pé.
Encostou-se ao balcão. O homem ao lado não se
moveu.
— Uma Fanta — comandou ao botequineiro.
Aberta a Fanta, ele puxou conversa com o vizi-
nho.
— Meu nome é Tadeu.
O vizinho não o olhou; limitou-se a perguntar.
— Quanto vale o seu nome?
Entendeu como senha.
— Dizem que vale cinquenta milhões.
— Em dinheiro, certamente.
— Cheque visado.
O vizinho calou-se algum tempo. Pediu um co-
nhaque. Na Fanta, ele não tocou. Romualdo bebeu
o conhaque em dois goles, fez careta, cuspiu.
— Vá lá — disse, aceitando.
Trocaram, sob o balcão, o cheque e um envelo-
pe. Antes de sair, certificou-se de que no envelope
estivessem negativos. Saiu depois de lembrar que
29
aguardava as cópias.
Foi ao apartamento da secretária, que o espera-
va aflitíssima. Sugeriu queimar os negativos. Ele
preferiu, antes, mandar revelar.
Recebeu as cópias no dia seguinte. Junto com a
secretária abriu o envelope amarelo da Kodak.
Ali estavam as fotos que haviam custado cin-
quenta milhões; em todas, sua mulher e um homem
moreno de costeletas. Tadeu era claro e careca.

*
* *

COLUNISTA SOCIAL

Tony bronzeia-se ao sol do Leblon. Chegou à


praia faz quinze minutos, quando batia duas e meia.
Os demais frequentadores da praia não lhe dedicam
nenhuma simpatia, mas precisam dissimular. Tony
prefere fingir que não percebe. É melífluo, é fláci-
do, é fluídico. Não anda. Flutua.
— Hello.
Cumprimenta um inglês, como em inglês se
despede.
— Bye, bye.
Falso como as notas de sua coluna. Usa-a para
superar os desforços físicos de que não é capaz. Os
milionários bajulam-no, imaginando a provável ci-
tação amanhã. É muito lido.
30
— Tony.
Ele finge não ouvir o chamado da mulher sob a
barraca azul com bolinhas brancas.
— Tony.
Ela insiste, necessitada de menções no jornal.
Ele concorda em cumprimentá-la na quinta tentati-
va.
— Hello.
— Amanhã, lá em casa às dez e meia... — con-
vida.
— Onde você mora, querida? — Há os que riem
do que ele chama de “esnobada”. Ela humilha-se,
revelando o endereço que ele sabe de cor, ela sabe
que ele sabe.
— Vieira Souto... — dá o endereço.
— O.K.
Veste-se numa sunga francesa e embebe-se de
óleo. O máximo que consegue é um tom averme-
lhado de queimadura, nunca o bronzeado que pro-
cura. Tem à sua volta os amigos que lhe servem o
que ele chama de gracinha. Divertem-se com as
coisas que ele diz, falando mal dos amigos comuns.
— Teteca foi de vermelho-hemorragia e Luci-
nha de amarelo-hepatite.
Gargalham daquilo, como se tivessem ouvido
uma piada de Groucho Marx. Precisam gargalhar.
Dependem dele, da coluna dele, do prestígio que
lhe deram. Fizeram do Tony o ditador da sociedade
e acreditam na importância das suas notas.
31
— Tony me citou...
Não são muitos os que têm direito a esta frase.
Escrever o nome de um é concessão. Geralmente
refere-se a alguém de modo subjetivo.
— A moça de azul, esposa do homem de cimen-
to...
Brinca de gato e rato com o pessoal do society,
pondo a pata sobre quem bem entender, soltando-o
um pouco, prendendo-o novamente.
O Sol começa a esfriar. Ninguém (falo dos inte-
ressados), saiu da praia desde que ele chegou. So-
mente depois que Tony for embora eles poderão ir.
Não é obrigatório, mas é como se fosse.
Dobra a toalha azul-vermelho com requinte.
Mete-a no pescoço e sai.
— Bye, bye...
— Bye, bye...
— Bye, bye...
Escuta bye byes até a calçada, onde a Fiat o es-
pera. O gerente-geral de uma classe social liga o
motor e some. Aí, sim. Dobram-se toalhas, fecham-
se barracas, calçam-se sandálias, vestem-se saídas,
esvazia-se a praia em frente ao Country. Cada um
imagina que amanhã será citado. O jornal não terá
sua tiragem aumentada por causa disso, mas Tony
se atribui a importância de um editorialista fazendo
ficar em close-up o charme que julga ter. É ridículo
e apequenado, enfeado pelo cabelo crescido que
usa, procurando juvenilizar-se.
32
Em casa, confere os telefonemas que recebeu.
— Ralé.
Refere-se à classe que o alimenta.
Toma um banho escaldante, esquecendo que é
verão. Perfuma-se. É, agora, um comercial ao vivo
do Bond-Street, como continua sendo um outdoor
da incompetência.
— O senhor almoça?
Dá ao mordomo uma resposta negativa. Está
sem fome, coisa que agradece ao céu. Precisa ema-
grecer, afinar-se. Está um bucho de tão gordo. Pre-
cisa fazer uma plástica.
— Traz o telefone, Rafael.
O mordomo espicha pela sala do apartamento o
fio branco do telefone verde. Ele se deita no sofá,
na pose e nos trajes da Maya Desnuda, de Goya.
— Alô.
— Chame o Felipe, por favor — ele pede.
Felipe não demora a se pôr do outro lado.
— Tony — anuncia-se ao telefone.
Agora está sentado. Seus olhos brilham. Vez
por outra dá gargalhadas. É notório que aprova as
coisas que Felipe lhe diz.
— Divino. Ma-ra-vi-lho-so — comenta, uma ou
outra hora deliciado.
O telefonema demora dez minutos. Desliga.
— Rafael, ponha o almoço.
Agora tem fome. Está feliz. Como das outras
vezes. Sempre se alegra quando escuta, de Felipe,
33
as notícias que ele escreverá amanhã, em nome de
Tony. Sem aumentar todavia, a tiragem do jornal.

*
* *

OS CIRCUITOS ESTÃO OCUPADOS

Tendo comprado um carro, o homem, que já


morava em casa própria, ficou a imaginar a alegria
de possuir um telefone. Estava inscrito na CTB e
também já se metera no Plano de Expansão.
— Esse negócio de plano de expansão, pra
mim, é marreta, mas sei lá. No fim pode sair um te-
lefone distraído e me quebra o galho.
Claro. Era, sempre, uma possibilidade. Por que
desperdiçá-la?
Um belo dia — belo pelo acontecido, porque
chovia paca — o telefone chegou.
O homem e a família receberam o telefone
como se recebe um tio rico e agonizante, sem her-
deiro por perto além de nós mesmos, papadores
únicos e universais da grana do bruto.
O telefone, por um tempo que não se pôde me-
dir, ficou lá, sobre a mesa de mogno, admirado
como um Oscar que tivesse sido conferido ao dono
da casa. Ninguém o tocou, por um prazo que pare-
ceu ter sido predeterminado. Admirado como um
primogênito.
34
Só aí o dono da casa resolveu utilizar — pela
vez primeira, aquela — agora — doce realidade.
Levantou, como quem não quer nada, espreguiçou-
se e disse, fingindo uma naturalidade que não dava
para ser acreditada:
— Acho que vou telefonar para o Ipiranga.
— Pra quê? — indagou a esposa, achando que o
telefonema era de todo desnecessário e que o mari-
do só o daria pelo infantil desejo de estrear o telefo-
ne.
— Pra falar com o Ipiranga, ora! — respondeu
o marido que era, diga-se de passagem o dono do
telefone, da casa e igualmente da esposa, coisa que
ela parecia esquecer.
— E você precisa falar com o Ipiranga?
— Se eu não precisasse não telefonaria — vol-
tou a responder, com menos paciência, o dono da
esposa, da casa e do telefone.
— E se a gente não tivesse telefone? — aventou
a esposa, a quem, positivamente, não agradava em
nada, a idéia.
— Se a gente não tivesse telefone? — inquiriu o
marido, simulando não ter entendido esta coisa tão
clara que a esposa — tez escura — lhe perguntara e
já voltando a sentar.
— É — insistiu a esposa escura do homem cla-
ro. — E se a gente não tivesse telefone?
— Mas a gente tem; sua pergunta fica anulada.
— Eu sei que a gente tem, mas...
35
— E se a gente tem, que mal há em que eu tele-
fone ao Ipiranga? — cortou o homem que achava
não haver mal algum em falar ao Ipiranga, já que
tinham telefone.
— Você simplesmente não precisa falar com o
Ipiranga. E não tem nada a falar com o Ipiranga.
Você quer falar unicamente para usar o telefone —
verdadeirou a esposa, inventando um verbo.
— Não é verdade! — mentiou o marido, inven-
tando outro verbo.
Após ligeiras verdadeirâncias e mentirosidades,
a esposa, numa atitude maquiavélica, propôs que fi-
zessem de conta que não tinham telefone. Heroica
maldade de mulher.
— Além do mais — ainda era ela quem falava
— se não existisse o telefone, você jamais quereria
telefonar. Estaria a está hora, lendo o jornal.
— Tem razão.
— E então?
— Mas há o telefone.
— Faz de conta que não há. Leia o jornal.
O marido fez uma pausa. Dois segundos que lhe
pareceram duas horas. Depois usou da palavra.
— E o Ipiranga?
— Esqueça o Ipiranga! — sugeriu a mulher, ir-
ritada, a ponto de sugerir ao marido, a quem tanto
obedecia, esta coisa, que, irritada, acabava de suge-
rir.
— Por que esquecer o Ipiranga, se o Ipiranga é
36
o ponto mais importante de tudo isto que estamos
discutindo.
— Mentira. O Ipiranga não tem importância al-
guma. O mais importante é o telefone.
— Não interessa. Eu vou levantar desta cadeira,
vou ao telefone e vou ligar para o Ipiranga. E acho
bom que nada, nem ninguém, se interponha entre
mim e o telefone, porque eu não serei responsável
pelos meus atos se tal acontecer — novelizou o ho-
mem.
— Você parece menino — satirizou a esposa —
querendo dar este telefonema inútil.
— Carlota — maneirou o homem — pra que
serve o telefone?
— Pra gente telefonar — confessou a esposa.
— E então?
— Mas não pro Ipiranga, Nicanor. Telefonar eu
admito mas não pro Ipiranga! — berrou a mulher,
num estofar de jugular sobremaneira preocupante.
— E por que não ao Ipiranga?— estrondou o
marido, com um aumento tão grande na circunfe-
rência do pescoço, que fez saltar na cozinha o botão
do colarinho.
— Porque o Ipiranga está aí atrás de você, sen-
tado no sofá — vociferou a esposa, fazendo rom-
per-se uma das suas varizes preferidas.
— Oh, Ipiranga — acalmou-se o marido, en-
quanto se voltava para o cunhado, que tinha um rá-
dio de pilha no colo e uma chave de fenda na mão.
37
— Eu preciso muito falar com você, Ipiranga.
— Tõe... tõe... tõe... tõe... tõe... — soou o Ipi-
ranga monotonamente.
Estava ocupado.

*
* *

CHUVA DECRESCENTE

Primeiro tomaram uma providência que julga-


vam salvadora: diminuir o preço.
— Faz uma comunicação à praça e ao povo em
geral. Em vez de 40, vamos cobrar 30 cruzeiros a
unidade.
— Ainda acho 30 muito caro — advertiu o só-
cio número dois.
— Menos de 30 é absurdo — contemporizou o
sócio número um, pai da idéia de diminuição do
preço.
— Então, está bem. Vamos cobrar 30. Mas, por
mim, 25 era um preço bem razoável.
— Eu estou com o Fúlvio — disse o sócio nú-
mero três. — Cobrar 25 é que é o certo. Não acha,
Sandro?
Sandro, o sócio número quatro, achou 25 uma
exorbitância e sugeriu que estabelecessem o preço
de unidade em 20 cruzeiros. Vender pela metade
era a única saída.
38
— A metade é desmoralizante.
— É o único modo de dar vazão ao estoque.
— Como está o estoque?
— Na mesma.
— As vendas?
— Que vendas?
Não havia vendas, simplesmente. Desde a aber-
tura da fábrica que nem mesmo uma única unidade
tinha sido vendida. O Almoxarifado abarrotado, o
depósito atopetado.
Ulisses, o sócio número 5, deu saída ao seu pes-
simismo.
— Isso, aliás, não é surpresa pra mim. Desde o
começo eu fui contra a fábrica.
— Ninguém lhe perguntou nada — reagiu o só-
cio número um.
— Por isso as coisas chegaram ao ponto em que
estão. Almoxarifado, depósito, armazéns, tudo lota-
do. Não se vende nada.
— Põe o preço em 20, e vamos ver.
Expediram para as lojas um comunicado con-
tando da redução do preço. Deram à redução o ape-
lido de “remarcação para ajudar o povo”. Os jor-
nais publicaram, em matéria paga, a medida toma-
da pela fábrica, pelo prazer de ajudar a população.
Esperaram dois meses pelo resultado. Na reuni-
ão marcada, 60 dias após, ficou-se sabendo dos
efeitos conseguidos pela diminuição do preço.
— Quantas unidades foram vendidas?
39
— Uma.
— Uma apenas? — estranhou o sócio número
um.
— E quem comprou fui eu — explicou o sócio
número 4 — para ver se incentivava uma senhora,
na loja onde eu estava. E ela nem te ligo.
— A produção, como está?
— Parada. Mandei parar tudo há 5 semanas. Já
não havia mais lugar para estocar o produto. Na ga-
ragem de minha casa já não tem lugar para mais um
sequer.
— Na minha casa tenho pra mais de mil unida-
des.
— Vamos vender na feira — palpitou o sócio
número 3. — Na feira pode ser que a gente consiga
vender qualquer coisa.
— Feira, não. Feira é demais.
— Demais é o prejuízo. Já estou com mais de
20 milhões enfiados nisso e quero ver se recupero
pelo menos uns 15 por cento desse dinheiro. Acho
que feira é um lugar como outro qualquer.
— Desmoraliza o produto, Ulisses.
— Eu estou pouco ligando para desmoralização.
Quero é sair do déficit. Aliás, não é bem sair, é di-
minuir, porque sair, mesmo, nunca mais.
— Quem está de acordo com a idéia da feira?
— perguntou o sócio número dois, ele próprio já le-
vantando o braço, e se pondo a favor.
Todos concordaram em que a feira poderia ser a
40
solução e que isso deveria ser tentado.
— E tem mais! — acrescentou Ulisses — o pes-
simista. — Na feira e ao preço de 10 cruzeiros.
— A vender por 10 é melhor dar — irritou-se o
sócio número sete que, até então, abstera-se de fa-
zer comentários.
— Luciano, não dá palpite. A idéia da fábrica
foi sua. Nós estamos nessa entalada por sua causa.
Agora vê se fica quieto e deixa a gente resolver o
que deve e. o que não deve ser feito.
— Ulisses tem razão. Feira e 10 cruzeiros. Por
mim, está aprovado.
Todos aprovaram, inclusive Luciano, pai da
idéia da fábrica, e que tinha enfiado nela mais de
15 milhões.
Tudo que foi levado para ser vendido na feira
foi trazido de volta.
Ninguém comprou nada. Ainda tentaram, como
tábua de salvação, a venda por 5 cruzeiros, que
também restou inútil. Então, resolveram tocar fogo
no estoque.
— Queima-se tudo. Prefiro o prejuízo total a
continuar sendo avacalhado, achincalhado pela ci-
dade, como se fosse um palhaço.
Juntaram todo o produto estocado e tocaram
fogo num ponto deserto, afastado da cidade.
Foi assim que acabou a menos vitoriosa das in-
dústrias jamais tentada.
Triste, o fim da Fábrica de Cobertores Venhane-
41
ve, sediada em Japaratingu, cidade 30 quilômetros
distante de Ambrósio, sertão do Piauí.

*
* *

UM CAVALHEIRO E DUAS DAMAS

Eram três e pouco da manhã.


Nos salões do Botafogo a orquestra tocava Es-
trela d’Alva, no fim da terça-feira gorda.
Na portaria, além do lógico porteiro, um folião
que preferia ficar batendo papo com o homem que
tomava conta da entrada, a participar da festa.
Até que o porteiro confessou que estava com di-
arréia.
— Será que o senhor podia ficar aqui um pouco
enquanto eu vou ao banheiro? Dois minutinhos?
— Claro, claro. Pode ir — consentiu o rapaz, ao
mesmo tempo em que o porteiro, pegando um fo-
lheto no chão, dirigia-se, amassando o panfleto, à
entrada do banheiro.
Foi quando um casal — ela de longo, ele de
smoking — parou à porta do clube.
— A festa ainda não acabou, Teté — comentou
o marido.
— E parece que está boa — juntou a esposa;
com um sorriso tão convidativo, que o marido con-
cordou que seria bom dar uma entradinha para ver
42
como ia o baile.
E teriam entrado se o rapaz, com a mão e o bra-
ço estendidos, não os impedisse.
— A carteirinha, por favor — pediu ao casal.
— Como carteirinha?
— O senhor não é sócio? Todo sócio não recebe
uma carteirinha? É dessa carteirinha que eu falo.
— Olhe, meu amigo — exasperou-se o homem
de smoking — sou sócio deste clube desde muitos
anos antes do senhor ter nascido. — Entro e saio do
clube há mais de 45 anos sem mostrar carteirinhas
a ninguém.
— Acredito. Mas o regulamento é claro: o só-
cio, para ter entrada nas dependências dó clube,
tem que exibir, quando solicitado, a carteirinha —
explicou calmamente o rapaz substituto do porteiro
que, àquela hora, no banheiro, tinha a mão no quei-
xo, pensando na vida.
— Vamos embora, Moreira — sugeriu a espo-
sa..
— Não — gritou ele —, agora eu vou entrar na
marra. — Sabe que eu já fui presidente do clube em
duas ocasiões? Já fui diretor de finanças, de espor-
tes amadores, do patrimônio? Eu trouxe o Geninho
para o clube, o senhor sabia?
— Então, mais do que eu, o senhor sabe que é
proibido entrar sem mostrar a carteirinha — disse o
rapaz que, cada vez que falava a palavra carteiri-
nha, fazia um pequeno gesto com os dedos como a
43
mostrar que a carteira merecia o diminutivo.
— Moreira, deixa essa festa pra lá — pediu no-
vamente a esposa.
— Agora é ponto de honra. Vá lá dentro e cha-
me o presidente — ordenou o homem ao rapaz. —
Diga que o Moreira está aqui.
— Infelizmente, eu não posso sair da portaria
— desculpou-se o rapaz. — Se eu me ausentar um
minuto que seja começa a entrar gente sem carteira.
— Eu fico tomando conta.
— E o senhor acha que é certo eu deixar na por-
taria um homem que não é sócio?
— Quem não é sócio? — vociferou o homem já
tirando a gravata a rigor. — Eu sou troço à beça
nesse clube, rapazinho!
— Prove — pediu, manso, o rapaz.
— Provar... Provar... Provar... Provar, como?
— O senhor me mostra a carteirinha, e pronto.
— A carteirinha está em casa, menino.
— Mas tem que estar no bolso. Se eu estou con-
trariando o regulamento me diga. O regulamento
diz que...
— Diz — concordou o homem — mas o regula-
mento...
— Moreira — vamos embora — solicitou mais
uma vez a esposa.
— Eu vou entrar. E não me chateia mais, Sofia.
Um homem que é quase fundador do clube ter que
exibir a carteira? Está certo isso?
44
— Se estiver errado, a culpa não é minha, é dos
estatutos, que são claros...
— Eu quero que os estatutos se danem! — la-
drou o homem, que não mais se continha.
Segundos após voltava o porteiro enfiando o
cinto num dos passadores. Bateu a mão no ombro
do rapaz num agradecimento surdo e abriu um sor-
riso para o casal.
— Como é, Dr. Moreira? Não vai entrar um
pouco pra pegar o fim do baile?
O homem de smoking e a mulher de longo en-
treolharam-se, fitando em seguida o rapaz que, sor-
rindo, cuidava de acender um cigarrinho.
— Quem é você? — perguntou ao porteiro.
— Sou o porteiro — falou o porteiro.
— E esse cara, quem é? — indagou ao porteiro.
— Um sócio, apenas — informou o porteiro, o
que provocou indignação do rapaz.
— Sócio, não. Eu ia passando aqui, comecei a
levar um papo com ele (apontou o porteiro), ele me
pediu pra ficar no lugar dele enquanto ele ia ao ba-
nheiro, aí eu fiquei.
E, enquanto se afastava com os pés arrastando-
se pela calçada, ainda mandou uma frase pior do
que o caso criado.
— Inclusive, eu sou Flamengo, doutor!
E seguiu na direção do Pinei, assobiando um
trecho de ópera. IL PAGLIACCIO, parece.

45
*
* *

O GRANDE ASSALTO

Eram três além do chefe.


Cada um sabia o que lhe tinha sido entregue no
plano a ser posto em prática, mas o chefe achou por
bem que, naquela reunião, as coisas fossem recor-
dadas. Passava a limpo o dever a cumprir. ^
— Tatu...
— Eu fico na porta, tomando conta de quem
possa querer entrar ou sair.
— Certo. Só use violência em último caso. Bi-
luca...
— Eu pego a muamba.
— Sabe de quanto tempo dispõe para pegar a
muamba e desaparecer?
— Você já disse chefe: um minuto e trinta e
cinco segundos.
— Um segundo a mais poderá pôr tudo a per-
der.
— Não demorarei mais do que um minuto e
trinta e cinco segundos, chefe. Acho que antes disto
a muamba já estará na sacola. Conte comigo.
— OK. E você, Miguelzinho?
— Eu recebo a sacola do Biluca e sumo com
ela.
— Sabe para onde leva a sacola?
46
— Para a casa do Peru, onde depois nos encon-
traremos para dividir o negócio.
— Muito bem. Vamos acertar os nossos reló-
gios.
Os ponteiros foram ajustados. O trabalhinho se-
ria daí a dois dias e, durante estas 48 horas, um não
deveria falar com o outro. Teriam que evitar encon-
tros, aparentar serem desconhecidos.
Decorridas 48 horas, chegou o momento.
Tatu fez a sua parte. Ficou na porta, numa atitu-
de displicente, um palito no canto da boca, outro a
limpar as unhas, e de olho aberto no vigia.
Não contraiu um músculo, não se denunciou
num esgar sequer quando Biluca entrou, passando
por ele como se cruzasse por uma estátua.
Lá dentro, muito silêncio.
Tatu, da porta, viu Biluca debruçar-se sobre a
mesa e calmamente abrir a gaveta sem ruído de
modo a não chamar a atenção de ninguém. Os
olhos de Tatu brilharam quando ele viu a muamba
ser mergulhada na sacola cinzenta que Biluca leva-
va sob o braço.
Nada de ser notado.
Biluca saiu com a discrição com que entrara.
Miguelzinho, dez metros adiante, o esperava, pé
encostado na parede. A sacola cinzenta foi passada
por Biluca às mãos de Miguelzinho que, sem cor-
rer, passo firme e descontraído, sumiu no elevador
que o levou ao rés do chão, primeira etapa da cami-
47
nhada até a casa do Peru.
Biluca desceu pelas escadas com um ar inocente
de frade. Tatu tentava o elevador quando o dono,
abrindo a gaveta, deu por falta da muamba que ali
estava há menos de três minutos.
— Fui roubado!
A porta do elevador fechou-se, enquanto em
Tatu abria-se um sorriso.
— roubado! Fui roubado...
O grito repetiu-se pelo prédio, num desespero
inútil, começo de loucura.
Na casa do Peru os quatro reuniram-se.
— Ninguém mexe na sacola — o chefe orde-
nou, sendo obedecido.
A sacola cinzenta, pousada na mesa, pesava
apenas na consciência dos quatro. Peru estava ex-
cluído. Ele tinha somente cedido sua casa para as
reuniões. Como não estava presente em nenhuma
delas, tinha, em sua defesa, o argumento de que ali
entravam sem o seu conhecimento.
O chefe começou.
— Como eu prometi, isto será dividido igual-
mente. Nem eu nem ninguém receberá isto a mais
que o outro. Dividiremos em quatro partes iguais e
depois, cada um dará ao Peru o que achar que ele
merece, por nos ter cedido a casa.
Combinaram que seria mais justo dividir por
cinco. Peru tinha sido muito legal.
— OK — disse o chefe, vaidoso — eu não es-
48
perava outra atitude de vocês, mas não quis que a
idéia partisse de mim. Me dê a sacola, Tatu.
Sacola aberta, a muamba apareceu aos quatro
pares de olhos que cresceram. Miguelzinho deu um
assobio exclamativo. Não calculava que chegasse a
tanto!
— Aí deve ter... — começou Biluca.
— Não interessa! — calou-se o chefe. Não va-
mos contar para dividir depois. Serão dois traba-
lhos. Iremos contando ao mesmo tempo em que for
feita a divisão.
Assim disse, assim fez.
— Pra você... pra você... pra você...
Entregava uma parte a cada um, fazendo a mu-
amba sobre a mesa, diminuir de tamanho.
Coube 130 a cada um, incluindo a parte do
Peru, que o chefe punha de lado. Dar conta redonda
evitava uma possível desavença pelos quebrados.
— Agora — falou o chefe, pondo-se de pé —
quem der com a língua nos dentes...
— Fique tranquilo — disse Tatu, embolsando a
sua parte, língua banhando os lábios na alegria do
ganho — ninguém vai falar nada.
Peru chegou poucos minutos depois. Guardou
sob o colchão a parte que lhe coubera. Os outros
quatro — Tatu, Biluca, Miguelzinho e o chefe —
um à sua vez saíram, voltaram para casa.
Cada um trazia no bolso 130 figurinhas, en-
quanto Lilico, o irmão menor, chorava no ombro da
49
mãe.
— Fui roubado, mãe... Fui roubado!

*
* *

OS SAPATOS DO LADRÃO

— Anda logo, mulher! — gritou Evaristo, já na


porta, malas ao lado, capa de chuva sobre o braço,
chapéu na cabeça. — O ônibus sai às sete, e já são
quase seis e quinze.
A mulher embonecava-se no banheiro, usando
um pouco de rouge além do necessário, riscando
mal um traço que lhe alongava o olho, esfregando
um lábio no outro com exagero, para melhor espa-
lhar o batom grená, de gosto duvidoso.
— Já estou indo, Juju!
Juju consultou seu relógio de pulso, conferindo-
o com o da parede, e insistiu no chamamento à mu-
lher que se retardava.
— Seis e vinte, Beatriz!
Beatriz, em cima do bidê, girava em torno de si
mesma, na tentativa de ver as pernas por trás, veri-
ficando se a costura da meia seguia na vertical im-
pecável que desejava. A pluma levou um pouco de
pó para amenizar o rouge no qual exorbitava.
— Já vou, Juju.
Dois anos mais velha do que ele, era oito anos
50
mais vivida, e isto lhe garantia o domínio da casa e
de Juju.
Não tinham filhos porque Beatriz no tempo em
que dançava profissionalmente tinha tomado provi-
dências cirúrgicas que a proibiam de engravidar.
— Eu vou perder o ônibus! — avisou Evaristo,
esfregando o sapato direito na perna esquerda da
calça, procurando um brilho melhor.
No banheiro, Beatriz — ex-Monique — dava os
últimos e definitivos retoques na maquilagem exa-
gerada, hábito que não conseguira perder, resquício
que ficava da vida antiga.
Apareceu, finalmente, no seu vestido ciclâmem,
pondo-se de costas, a fim de que Evaristo lhe pren-
desse ao pescoço o colar de pérolas falsas.
— Quase seis e meia.
— Calma, que o Brasil é nosso.
— Se eu perder o ônibus...
— Não ponha a culpa em mim. Sabe o que
mais? Vá sozinho. — Eu vou ao cinema.
Ele ainda tentou contornar, mas a mulher mos-
trou-se irredutível. Que fazer? Beatriz era assim
mesmo. Por qualquer bobagem explodia, ele já es-
tava acostumado. Despediram-se sem o beijinho
habitual, após o que Evaristo (Juju) tomou um ôni-
bus para a rodoviária, e ela pegou outro para o ci-
nema. Ah, quem podia com o gênio briguento da
Beatriz?
Sais e cinquenta ele desceu na rodoviária. Atra-
51
vés do megafone de pilha uma voz insistia em in-
formar que uma barreira caíra na estrada e que não
sairiam ônibus naquele domingo para Belo Hori-
zonte.
— Ora, ainda mais essa — limitou-se a comen-
tar, recolhendo as malas que depositara sobre o bal-
cão, voltando a levar ao bolso o ticket da viagem.
Tudo que lhe restava a fazer era voltar para
casa. O banco teria que entender que ele não tivera
culpa.
Quando chegou em casa estranhou a luz acesa.
Tinha a impressão de ter deixado tudo apagado, e à
esposa, àquela hora, ainda deveria estar no cinema.
— Será que entrou um ladrão?
Pensou em chamar um guarda, idéia que cuidou
de tirar da cabeça. Afinal, ele era ou não era um ho-
mem? O melhor seria entrar fazendo barulho. Os
ruídos espantam os ladrões.
Meteu a chave na porta com força e, proposita-
damente, abriu e fechou três vezes, fingindo defeito
na fechadura. Afinal, escancarou a porta e, da solei-
ra, percebeu a sala vazia e as janelas fechadas.
No alto da escada, o quarto do casal. Uma fresta
de luz saía filtrada por baixo da porta. Engraçado.
De repente, a luz sumiu. Alguém, no quarto, devia
ter apagado a luz, por pressentir sua presença. O la-
drão estava, então, no seu quarto.
— As jóias de Beatriz — pensou, nervoso.
Tossiu forte para confirmar ao larápio que tinha
52
gente em casa. Com espalhafato subiu os degraus,
marcando o mais possível cada passo. À porta do
quarto hesitou. Será que o ladrão já tinha escutado?
Ou seria um ladrão corajoso? Podia estar atrás da
porta, como no filme dos Intocáveis.
— Vou meter o pé na porta — imaginou.
Primeiro girou o trinco com força, como que-
rendo arrancar a maçaneta. Abriu a porta um centí-
metro e, então, com o pé a fez arreganhar-se de
modo a tocar a parede.
Beatriz, na cama, lençol até o pescoço, dormia.
Correu o olhar pelo quarto e, em seguida, acendeu
a luz de cima, obrigando a mulher a abrir um olho
pela metade.
— Ué. Não viajou?
— Ué. Não foi ao cinema?
As frases, faladas simultâneas, não deram tem-
po a respostas. Beatriz explicou que já tinha visto o
filme que escolhera. Ele contou da barreira caída.
Iria amanhã, de avião.
Tirou a roupa, que jogou sobre a poltrona, e me-
teu-se no pijama de listras. Enfiou os pés nos chine-
los, conferiu as janelas — fechadas — deitando-se
em seguida, puxando também para si o lençol. Per-
cebeu, sob a coberta, a nudez da mulher.
— Está sem roupa? — não conseguiu conter a
pergunta.
— Com esse calor — ela respondeu, virada para
o outro lado — quem é que aguenta dormir vesti-
53
da? Anda. Dorme.
Ele ainda rezou o costumeiro padre-nosso, deu
um beijo na mulher e virou-se para o lado da cômo-
da, habituado que estava a dormir sobre o lado es-
querdo, braço sob o travesseiro. Dali via a cortina
da janela. Embaixo da cortina, dois sapatos mar-
rons não conseguiam se esconder. Evaristo forçou a
vista e percebeu que os sapatos não eram seus.
Muito silencioso, respiração contida, cobriu o rosto
com o lençol.
Dentro dos sapatos estava o homem que ele ti-
nha certeza de ser o ladrão, o homem que, mais do
que o próprio Evaristo, lamentava a barreira caída
na estrada.

*
* *

SAVE-YOUR-LIFE

— Cavalheiro, eu sou da companhia de seguros


Save-Your-Life — apresentou-se o homem magro,
eletrificado, cabeleira brilhantinada e voz de um
metálico meio sobre o chato.
Não ouvindo convite para entrar, começou, ali
mesmo na porta, a fazer a apologia da sua empresa,
com sede em Cinocinati, Ohio, e que agora estendia
seu campo de operações ao Brasil. O morador do
apartamento não mostrou interesse em escutar e o
54
agenciador, com pequena discrição, adiantou o pé
os centímetros suficientes para impedir o fecha-
mento da porta e apresentou as armas.
— Trata-se de uma companhia de maior idonei-
dade e que tem como segurados expressões do qui-
late de Frank Sinatra, Sammy Davis Jr., Joe Frasier
e seu empresário Jean Negulescu, Shirley Mac Lai-
ne, Sophia Loren (somente seios) e Robert Young
que, como o senhor sabe, é o Marcus Welby da te-
levisão.
— Sei, mas, no momento — arriscou o dono da
casa que, de calça de pijama e peito nu, não estava
realmente a fim.
— O inevitável não se evita — disse, pensando
falar algo antológico. — Eu próprio tenho o meu
segurozinho (e mostrou a apólice). De quanto o se-
nhor vai fazer o seu? 600 milhões?
— Eu não vou fazer seguro nenhum — repetiu,
sem a menor irritação, o morador.
— Onde está a sua sensatez? — irritou-se um
pouco o inculcador. — Não se dispa da prudência.
Não é homem em quem se creia, quem não se veste
se cordura.
— Cordura?
— Bom-senso — traduziu o corretor. — Como
é o seu nome?
— Paulo Fernando Magalhães de Araújo — fa-
lou monótono.
— Com um nome desses e sem seguro de vida!
55
Acha 600 milhões elevado? Pensemos num seguro
de 500 que é, assim julgo, um quantum acima do
razoável.
— Nem quantum nem tantum. Eu não quero.
— Fiquemos num de quatrocentos. Quatrocen-
tos milhões resolvem suficientemente. Sua profis-
são?
— No momento eu estou desempregado — con-
fessou o homem que, até aquele instante, não abrira
a porta por completo e não se mostrara mais do que
50 por cento ao falante corretor.
— Não, não. Vamos colocar na ficha que o se-
nhor trabalha na bolsa. Medida pró-forma. Apenas
pra que os homens, lá, não impliquem. Security,
my dear friend, como diz Mr. Billock, nosso pu-
blic-relations. Contorna-se daqui e dali, mas, veja,
deixar a família desamparada, nunca. Never! A gra-
ça da sua esposa, por favor.
— Lourdes.
— That’s a beautiful name! O nome da minha
avó. E onde está Dona Lourdes? Quero parabenizá-
la.
— Fugiu ontem com o meu irmão — murmurou
o homem sem a menor contração no rosto.
— Mas volta! — cresceu o chato. — E, ao vol-
tar, mais se arrependerá da aventurazinha, ao ver a
apólice. E que segunda lua-de-mel terão! Quisera
eu dar uma alegria dessas à minha mulher e meus
filhos. O senhor tem quantos filhos? Três?
56
— Tinha dois. Ela levou os dois com ela.
— Melhor. Até as crianças terão uma surpresa.
Para isto também as companhias de seguro são fun-
dadas: garantir os clientes, além da tranquilidade, a
alegria. Happiness. Quatrocentos milhões. Mais de
70 mil dólares ao câmbio atual. Conte aos amigos.
Pegue seu carro...
— Meu carro foi roubado anteontem, no estaci-
onamento do Aterro.
— Estava no seguro?
— Não.
— I’m sorry. Não leve a mal que eu use o seu
drama para reforço dos meus argumentos. Tivesse
o veículo segurado... Deve-se pôr tudo no seguro.
Jóias, também. As suas jóias...
— Estão no prego. E, inclusive, perdi a cautela.
— Lastimo não o ter procurado antes. Onde é a
sua firma?
— Não é mais. Faliu.
— Não exagere. Deve ter sido concordata. Isto
é válido. Concordata é uma operação comercial que
não deslustra a ninguém. Estou vendo que 300 mi-
lhões ficam de bom tamanho. E sugiro que também
a senhora sua mãe seja beneficiária...
— Mamãe morreu na semana passada, atropela-
da.
— Como foi ela, podia ter sido o senhor. Está
percebendo? Da fatalidade não se escapa. O ônibus
perde a direção, entra pelo seu apartamento... o
57
apartamento é próprio, pois não?
— Alugado. Estou com ação de despejo.
— O senhor resolverá isto, estou seguro. Não se
abata por qualquer tolice. A vida, meu querido cli-
ente, é uma só. O senhor, apesar de 45 anos... ou
errei?
— 36.
— Bem vividos! Um homem cônscio, experien-
te, responsável. Não o julgo velho, apenas o adivi-
nhei um típico businessman.
— Escute — pediu a palavra o inquilino do 101.
— Pois não — conseguiu calar-se o vendedor
de seguros.
— Nesse seguro da sua companhia há cobertura
para suicídio?
— Infelizmente, não, porque a Save-Your-Life,
como as congêneres...
— Então cancela, porque o meu caso é precisa-
mente este.
Então, fechou a porta e deu dois tiros na cabeça.
At last!

*
* *

À BEIRA DO TÚMULO

— Não passa de hoje.


Ao ouvir o parecer do médico, a mulher explo-
58
diu num pranto incontrolável. Fariam, no mês se-
guinte, 17 anos de casados.
— Tenha paciência, Mirinha... — pediu o com-
padre, contendo o choro.
— Ele vai morrer, Vespasiano... Ele vai mor-
rer... — era tudo que conseguia dizer D. Mirinha.
Deram-lhe calmantes e aplicaram-lhe injeções.
Ela dormiu. Soluçou várias vezes durante o sono.
No quarto, o marido agonizou. Da veia, subia o
tubo através do qual lhe era ministrado o soro e, do
nariz, saía um canudo marciano. De dez em dez mi-
nutos uma enfermeira tirava-lhe a pulsação, inje-
tava-lhe um líquido róseo. Poucas esperanças. A
pressão lá embaixo.
— E, Dona Mirinha? — perguntavam na ante-
sala os amigos.
— Está dormindo.
Preocupavam-se, aparentemente, mais com o
estado da esposa do que mesmo com o do doente,
já que, segundo os últimos boletins, o pobre Eusé-
bio não tinha mesmo nada de agradável a esperá-lo.
Dona Mirinha acordou noite alta. Tinham-na
colocado no aposento contíguo ao do marido em
coma.
— Eusebinho...
— Está vivo ainda — informou a enfermeira,
sem esquecer de lhe tirar as esperanças, com a con-
junção que sublinhou após — mas...
— Quero falar com ele.
59
Aconselharam o contrário. Fizeram-lhe ver que
tudo só serviria para piorar a situação dele. Não va-
lia a pena obrigá-lo a um esforço. Tinha, segundo
Dr. Pontes, poucas horas de vida: minutos, quem
sabe? Era um milagre ainda estar vivo.
— Eu quero ver Eusebinho... Eusebinho não
pode morrer. Eu quero.
Deixaram.
Eusebinho, na estrada da morte, vestia seu rosto
com a cor do pijama. As olheiras profundas mais
enegreciam-se pelo contraste do rosto pálido, quase
esverdecido. No quarto, já um cheiro esquisito.
— Eusebinho — disse ela, baixo.
Eusebinho quis abrir os olhos. Agitou suave-
mente a cabeça, ergueu a mão uns poucos centíme-
tros. Dava talvez, a máxima prova de que vivia, de
que escutava.
— Você vai ficar bom, Eusebinho...
Ele não se moveu. A enfermeira, ao lado, voltou
o rosto. Dona Mirinha consultou-a, junto à janela.
— Ele sabe?
— Sabe. Está resistindo mais do que o presumí-
vel. Está clinicamente morto.
Mostrou a ficha do enfermo. A pressão já, por
duas vezes, andara em volta de sete por dois.
Dona Mirinha chorou baixo. Não queria trans-
mitir ao marido a sensação de desesperança de que
estava possuída. Pensou nos filhos, na casa que fi-
caria vazia sem a presença de Eusebinho, sempre
60
tão cheio de vida, sempre com uma pilhéria — as-
sim definia as gracinhas do marido — sempre irra-
diando felicidade.
Eusebinho, imóvel, já podia falar. Ela tentava
obter uma palavra dele. Um ai, que fosse.
— Eusebinho... como é que você está se sentin-
do?
Silêncio.
— Eusebinho... oh, meu Deus. Fala com a tua
Mirinha. Eusebinho.
Eusebinho mudo, inerte.
Colocou o ouvido sobre o peito. Demorou a es-
cutar as batidas fraquíssimas do coração, que se
desligava pouco a pouco.
— Ele não pode mais falar, madame. Sabe, o
doutor fez uma traqueotomia...
Não sabia a que se referia a enfermeira, mas ou-
viu aquilo com dor.
— Traq... — não pronunciou a palavra toda por
incapacidade, mas conseguiu transmitir uma emo-
ção louvável.
Pediu para ficar só, com o marido. A enfermeira
relutou. — Tinha ordens de não o abandonar um
segundo. O médico apareceu, providencialmente.
Concordou.
— Deixe, Ester — disse à enfermeira. — Mais
um pouco, menos um pouco... já fizemos tudo que
podia ser feito...
Saíram o médico e a enfermeira. Dona Mirinha
61
trancou a porta por dentro. Eusebinho parecia já ter
morrido, tão imóvel que estava. Dona Mirinha sen-
tou na beira da cama.
— Eusebinho, você não pode morrer sem que
eu te faça uma confissão. É uma pena que você não
possa falar, mas eu sei que você está me escutando.
Eusebinho inerte.
— Sabe, Eusébio? Preciso lhe falar de um ho-
mem — ela começava. — Eu e ele vamos casar
logo depois que você morrer. Já há algum tempo tí-
nhamos pensado nisso. Nós nos damos tão bem que
só faltava, mesmo, você morrer. Se você vivesse,
não valia a pena. Quem tem dinheiro é você. Ele
vive de salário. Mas agora, não. Eu sou sua herdei-
ra. Agora...
Bateram na porta.
Abriu. Já tinha dito tudo que tinha a dizer. Re-
compôs, no rosto, a expressão de tristeza. Saiu do
quarto, dando entrada à enfermeira e dois médicos.
Sentou na ante-sala ao lado do compadre Vespasia-
no.
— Que tal?
— Sem jeito.
— O quê?
— Já está praticamente morto. Nem pode falar.
Só escuta. E, assim mesmo, nem sei se consegue
mesmo escutar... E também contei que vou casar.
— Dona Mirinha — gritou-lhe a enfermeira.
Levantou-se, autômata.
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— Ele começou a reagir. Acho que vai esca-
par... O doutor não garante, mas parece que não vai
morrer...
Quem chorou, desta vez, foi o compadre Vespa-
siano.

*
* *

BRUXINHA

— Bruxinha!
Ela se volta, no atendimento incrível ao modo
grotesco como é chamada. Não há ódio no seu
olhar, que parece amortecido por uma nuvem cinza
que supostamente lhe caí sobre os olhos.
— Hum? — pergunta, sem abrir os olhos.
— Hoje tem festa no clube. Você não vai faltar,
vai?
A pergunta esconde um riso de mofa, é quase
um estilete com que procura ferir a amiga bonita.
— A que horas?
— Às dez, como sempre.
Separam-se. São diferentes os caminhos que to-
mam. Agora, como na vida: Débora é bonita; de
loirice invejável, cabelos lisos, tombando indecisos
sobre os ombros desnudos. Os seios miúdos pare-
cem enfeitar o bustier importado. Solange é a bru-
xinha, de olho sem brilho, de riso ausente.
63
Escolhe um vestido que parece o melhor. Co-
loca-o sobre o corpo e se mira no espelho. O rosto
se contrai no esgar de decepção. Nova tentativa
com um vestido azulado. Também é de desagrado a
sensação que lhe assalta.
No armário, portas escancaradas, não há muitos
a escolher. Ela se deita na cama, com o travesseiro
dobrado recebendo seu abraço.
— Será que ele vai?
Ele é Maurício, de quem todas gostam. Por um
momento arrepende-se de admitir que Maurício
opte por ela, tão magra, tão feia. Maurício e a Bru-
xinha? Que atrevimento.
Rola na cama e se deita de costas, fixando sem
razão o lustre onde há uma lâmpada queimada.
Senta e cruza as pernas à moda de Buda. Há des-
consolo em Solange, a moça nunca preferida.
Fez dezoito anos na semana passada e, nem as-
sim, ousou ir à festa das debutantes. A festa era
dela, e ela não foi. Pra quê? Para ficar sozinha,
como sempre? Mas hoje, não sabe explicar. Há al-
guma coisa que a instiga a ir. Uma esperança dife-
rente, um impulso intempestivo, algo como um
pressentimento.
Levanta-se de golpe. A ducha enche o banheiro
de neblina. É junho. Faz com a toalha uma proteção
para os cabelos. Deixa-se ficar sob o chuveiro, mo-
lhando-se fartamente dos ombros para baixo.
Em vinte minutos está sentada a penteadeira ris-
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cando o olho, colorindo a pálpebra. Despreza o ba-
tom. Engraçado. Parece sentir-se bonita naquele
instante; Menos bruxa, nada feia. Aceitável. Uma
moça como as outras ou, pelo menos, parecida com
as amigas. As amigas! Delas nasceu o apelido, por
causa delas cresceu o desprezo que lhe dão os rapa-
zes. Bruxinha. Quem se atreve a sair com Solange?
— Vou ao clube, mamãe.
Avisa e sai, levada pelas mãos da incerteza, ca-
minhando na estrada do quem dera.
É festa de disco. Ray Conniff enche o salão com
o som esperado. Há moças nas mesas e rapazes de
longe, olhando, escolhendo. De repente há Maurí-
cio, vestido num blazer de talho impecável. Seu
perfume vem a Solange, mesmo assim, de tão lon-
ge. É a presença subliminar do homem que espera,
daquele que, quem sabe...?
Os mais atirados vão às mesas e fazem os con-
vites para que as moças dancem. Outros, de longe,
apenas exibem um aceno de giro, com o indicador
indeciso. Foi este o aceno que Maurício lhe fez.
Na cabeça de Solange gira o mundo, gira. Ela
responde que sim, num meneio discreto. Tremem-
se-lhe os lábios, o olhar se contrai, apesar da tenta-
tiva de não deixar que se perceba.
Maurício caminha sorrindo, a vida vibrando no
branco dos dentes, o amor florescendo nos olhos
molhados.
Solange não sabe se conseguirá dançar, mas é
65
preciso que sim, que o faça melhor do que nunca,
mais lindo do que todas.
Maurício não nota a perplexidade, que é geral.
Seu passo decidido vai de encontro à mesa onde
Solange, sozinha, levanta, apoiando-se no espaldar
da cadeira.
Talvez seja melhor ficar sentada e esperar que
ele chegue. Não há tempo.
— Você dança comigo? — a pergunta vem num
sorriso.
Solange se entrega naquele par de braços que se
abrem à sua frente. Esconde-se no corpo de Maurí-
cio, enquanto rodopiam embalados pelo estéreo. A
Bruxa e o Príncipe. E ainda dançam outra e mais
outra, e o par não se desfaz pela noite inteira.
— Até amanhã — ela diz, já à porta do prédio,
esperando o convite para um cinema amanhã, uma
praia, um passeio.
— Não, Solange. Nem amanhã nem nunca
mais. Vou dizer pra todos que você me deu o fora.
Não fique triste. Não, não chore. Era apenas para
que nunca mais chamassem você de bruxa. Eu tele-
fono amanhã e você me diz não.
Beija-a na testa, entra no carro e se vai. Solan-
ge, na portaria, acompanha o carro que leva Maurí-
cio, destruindo com as rodas o sonho da bruxa.
— Bom dia — disse o homem que lavava o hall
do prédio.
Solange não respondeu. O elevador estava no
66
térreo. Mesmo assim, subiu pela escada os dois lan-
ces que a conduziam à sua casa.
O rosto, molhado pelo choro, mas a alma lava-
da, esperança brotando, viçando.
Dormiu mais bonita, Solange Bruxinha.

*
* *

TREZE IGUAL A ZERO

No caminho para a caixa econômica, onde bota-


ria a mão no tutu, tudo fervia na cabeça.
Agora, tinha 30 milhões de motivos para melho-
rar. O café seria servido por uma empregada de
vestidinho preto com debruns brancos na gola e nos
punhos, e se os filhos não estudassem, podia botar
professor particular. A mulher nunca mais ia esfre-
gar bom-bril nas panelas e podia até mudar para
uma casa melhor. Um apartamento no Rio Compri-
do, quem sabe?
Ah, que arrependimento de ter falado da vida!
13 pontos! Com quatro continhos. Dava para
abrir um crediário na José Silva e vestir-se, com os
filhos. Bendita loteria.
Do cheque ele fez dinheiro. Em notas grandes.
30 milhões que não ocupavam no bolso um espaço
maior do que os caraminguás de cédulas velhas que
recebia mensalmente. 30 milhões. Antigos.
67
Não foi direto para casa, inicialmente sua inten-
ção. Era a primeira vez que, rico, andava pela rua.
Podia, agora, olhar as vitrinas com possibilidade de
compra. Diferente de antes, quando olhar era tudo
que lhe era permitido.
Gostou de um paletó quadriculado de vermelho.
Meteu-se no paletó como se vestisse um fraque.
Trocou os velhos sapatos gastos nas andanças atrás
dos devedores por um par novo, de camurça. An-
dou algumas quadras olhando para os pés. A cami-
sa nova era azul, como a vida que tinha pela frente.
A calça, verde, como a esperança antiga, agora rea-
lizada.
Tinha a mão sempre no bolso, acarinhando os
três pacotes com cédulas. Queria andar beijando
cada uma, mas o contato lhe bastava. Era gostoso
sentir aquele dinheiro seu.
Na esquina onde existiu a Americana, na boca
da Cinelândia, apareceu a mulher.
Ela estava olhando as revistas da banca e se en-
tregou a ele com um sorriso vem cá. Ah, o que ele
sentiu. Se estivesse com a roupa antiga, os sapatos
comidos no calcanhar, aquela camisa cerzida nos
punhos, será que o olhar seria o mesmo? E que dia-
bo de mulher tão linda! De cabelo vermelho como
o inferno, de olhos rasgados, um olho de pecado e
de promessas.
Ela parou na banca, fingindo espiar a capa da
Manchete. Da mulher vinha um cheiro de mulher.
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Um cheiro diferente do que lhe dava a sua, que lhe
fazia aspirar gordura de coco, ou banha Uru. Ele
olhava a banca, e ela o olhava. Sempre com aquele
sorriso de banda, mostrando uma parte dos dentes
que eram brancos, tão dentes, tão diferentes dos
dentes da família, todos precisados de reparo.
Ela sorria com o olho rasgado pra melhor mos-
trar o verde de dentro. E o cheiro de cheiro francês,
diabo! E a pele tão alva, e o jeito tão manso, e a
vida tão curta!
Arriscou um olhar pra baixo, fingindo ler a re-
vista alemã do pé da banca e veio subindo pelas
pernas da ruiva que se quedava deixando... deixan-
do... e o joelho redondo, o começo da coxa. “Quan-
do sentar, Deus me guarde.” Mas e a coragem pra
falar, pra saber como se chamava?
— Helena — disse a mulher, sem que ele per-
guntasse.
— O quê?
— Eu sou Helena. Você parece que está com
vergonha de me perguntar? Vai ver você acha que
eu mordo.
Ele não falou, mas se riu.
Enquanto, mergulhava nos olhos rasgados, num
acelerado palpitar de coração, a mão se contraía,
sufocando as notas, e o pensamento embarafustava.
Helena, olho verde, cabelo vermelho, joelho redon-
do, Helena, Helena, Helena, Helena...
— Eu me chamo Esdras.
69
— Lindo.
Ele se arrumou melhor na roupa, num agradeci-
mento calado.
— Lindo nome.
Ele se desajeitou, arrependido da vaidade.
— Lindo, como você.
Cadê canto de botar a mão? Cadê jeito de es-
conder o rubor? Cadê cara de olhar na cara da moça
vermelha?
Convidou para um café, foi convidado para um
uísque. Aceitou. Andou em jantares nos restauran-
tes que só conhecia de ler no jornal. Viu gente de
quem os colunistas falavam, dançou, bebeu, embri-
agou-se.
De loja e de farra gastou perto de seiscentos
contos.
Mais táxi, mais hotel, mais champanha, que a
mulher era dada a esses luxos, mais gorjeta, seis-
centos e tantos. E que fosse um milhão. Não se sen-
tia pecando, porque era a primeira e a última vez.
Amou, naquela noite, como não sabia que era
possível. O diabo da mulher era o Diabo em figura
de gente. Não lhe deu sossego, de tanto que não
queria ficar sossegada. E tinha espelho no quarto! E
a cama era redonda, coisa de rico.
Pegou no sono, estafado, semimorto, semideus.
Acordou, o sol ia alto. Quis achar Helena para
um beijo de bom dia e encontrou o travesseiro
amassado, repudiado, num desconsolo de inutilida-
70
de.
— Helena! — chamou com carinho, olhando o
banheiro, de onde não vinha ruído de ducha nem
possibilidade de vida. — Helena!
O silêncio aumentava, ao tempo em que com-
provava a ausência de Helena. Levantou e abriu a
porta do banheiro vazio. Nem recado, nem bilhete,
nem Helena, nem...
Correu à calça amarfanhada, que deixara, à noi-
te, de mau jeito sobre a poltrona com pele de zebra.
A mão, sôfrega, procurou o bolso. Vazio como o
banheiro; oco como aquele amor de mentira; inútil
como os 13 pontos.
— Helena! — berrou desesperado, com a cara
na porta que se abria para o corredor.
O garçom deu notícia de que a moça de cabelo
vermelho tinha saído cedinho e deixado um beijo.
Ele cuspiu o beijo provável. Voltou à calça, de
cada bolso tirando apenas a mão que vasculhava.
Abriu a janela de onde viu nada. Andou pelo quarto
sem saber por quê. No paletó quadriculado, uma
nota de dez. O dinheiro do táxi, que achou melhor
economizar. Voltou de ônibus.

*
* *

71
QI 180

Baixo, mais para gordo, óculos de aro de tarta-


ruga, cuja ponta que sempre mastiga, já não os
prende à orelha. Erasmo é gerente, de profissão.
Gerenciou bancos, agências de turismo, indústrias
pequenas, lojas comerciais. Hoje é gerente-geral da
casa de eletrodomésticos.
— Vou te dizer um troço.
Sempre começa assim, e sempre tem algo a di-
zer. Sabe mais do que todos, na sua própria opini-
ão. Discute qualquer assunto como se fosse um
mestre que debatesse.
— Vou te dizer um troço.
Antes de dizer, puxa o elástico do suspensório
que não dispensa, como também não dispensa o pa-
letó e a gravata. Mesmo quando sai à noite com a
namorada, 15 anos mais jovem, minissaia, contras-
tante com aquela cara parecendo boneco de vitrina.
E veste-se mal: calças maiores do que o necessário,
afuniladas na boca.
— Vou te dizer um troço.
Fala de campeonato mundial de xadrez, conde-
nando jogadas de Spassky e Fischer, como se fosse,
na pior das hipóteses, um Mequinho. A namorada
bebe o que ele fala.
— Erasmo é gênio — diz às amigas.
— Gênio? O que ele é, é um chato.
A verdade pertence às amigas, mas Olívia não
72
se importa. Erasmo tão pouco. Ele não sabe do con-
ceito em que o têm. Pensa que brilha quando pede a
palavra.
— Vou te dizer um troço: esse negócio de
moda...
Critica os reis da costura francesa e sempre sabe
de alguém superior. O mundo está errado. Se o
consultassem, certamente os valores certos estariam
nos lugares devidos.
Agora aprendeu outra frase:
— Se eu fosse presidente...
Sua plataforma, aos poucos vai ficando conhe-
cida por todos; É um deslocado na roda em que
vive. Os rapazes fazem pouco do que ele fala, sem
que ele perceba.
— Mas oh Seu Erasmo... e o Ministro da Edu-
cação?
— Se eu fosse presidente...
Os rapazes curtem com a cara dele, puxam as-
sunto, obrigam-no a dizer como deve ser atacado o
problema da educação no País.
— E a Inglaterra no Mercado Comum Europeu?
— Vou te dizer um troço.
Por ele entrava a Rússia. E o mercado seria co-
mum ao mundo e não apenas à Europa.
Gozam-no sem que ele note.
— O senhor nunca foi senador?
— Candidato a deputado, apenas.
— E não se elegeu? — finge uma surpresa sem
73
tamanho.
— Não. Peguei a suplência — mente.
— Eleitorado burro.
Xingam os eleitores algum tempo, até encontrar
outro assunto do qual somente Erasmo possa enten-
der.
— E a seleção? Gostou?
Disserta quinze minutos, destruindo Zagalo,
elogiando Gérson, que, na sua opinião, deveria ser
o técnico.
— O senhor jogava? — pergunta um, catucando
o outro, saboreando o prato com que vão se ban-
quetear.
Erasmo jogou futebol, foi campeão de vela, pes-
ca submarina, salto com vara. Ajudou Delfim Neto
no Ministério da Fazenda e foi conselheiro de Ro-
berto Campos, no BIG-Univest, segundo sua pró-
pria informação.
— O senhor já fez transplante?
A rapaziada entreolha-se, criticando o exagero
de Vitor. Transplante é demais.
— Não, mas sei como se faz.
— Como é?
Ele descreve em modo que julga ser o certo, de-
fendendo o que diz, como se tivesse certeza de es-
tar correto.
— E o Doutor Zerbini?
— Fraco. Eu conheço um médico do Getúlio
Vargas que, no dia em que tiver oportunidade...
74
Olívia não tira os olhos dele, durante as pales-
tras. Acha os rapazes uns bobocas. Sabe que eles
estão experimentando os conhecimentos de Eras-
mo, mas sabe — principalmente — que Erasmo os
derrota, com a sua cultura de padre.
Até amanhã.
Saem todos à procura dos carros. A festa aca-
bou.
Erasmo leva o paletó no braço. O calor sufoca.
— Por que você não põe camisa esporte, meu
bem?
— Não faz meu gênero.
— Sair de noite de paletó e gravata.
É a única coisa que Olívia não gosta em Eras-
mo. Mas nem isso ele concede. Não faz o seu gêne-
ro. Fim.
Abre a porta para ela. Olívia acomoda-se no
Oldsmobile 1959.
— Vamos para onde?
— Para casa. Estou cansada.
Ele sabe uma coisa que tira o cansaço, mas ela
insiste. Quer dormir cedo, está estourada. À praia, a
tarde na Floresta da Tijuca, o passeio no Zoológico
— onde Erasmo explicou tudo sobre a criação certa
dos hipopótamos — e a festa, agora na casa de Ro-
binho...
— Quero ir dormir.
Ele engrena primeira no Oldsmobile, ele canta
os pneus na arrancada vigorosa, hidramática.
75
— Devagar.
Dali até a casa dela, ele explicou todos os defei-
tos do Emerson Fittipaldi.

*
* *

O OVO É PRODUTO DO MEIO

O homem reuniu a imprensa escrita, falada e te-


levisada, para que o vissem realizar a grande proe-
za.
Na pérgula do Copacabana Palace ajuntaram-se
os homens das notícias e a transmissão, em cores e
via satélite, levaria ao Brasil as imagens do feito
raro do homem que se chamava Euclides.
Cada fotógrafo lutava para ficar na frente, numa
posição ioga, enquanto o grupo menos feliz ganha-
va o direito à fila subsequente (de cócoras) e uma
terceira linha de homens de Rolleiflex, de joelhos,
antecedia a quarta bateria, de pé, e ainda havia a
quinta coluna de câmaras nos intervalos das cabe-
ças. Num palanque, à direita, os repórteres. No pal-
cozinho, à esquerda, as autoridades civis e milita-
res. Lá atrás, elevada por um praticável de dois me-
tros e meio, a câmara da televisão. Locutores das
rádios misturavam-se com o público, colhendo opi-
niões.
— Por favor, pra rádio tal. Acha que ele conse-
76
gue?
— Não sei. Eu não acredito, mas não sei.
— E o senhor?
— Ah, sei lá..
— A senhora aí, dê a sua opinião.
— Ah, não tenho.
— Muito bem. Estamos aqui, na pérgula do Co-
pacabana, colhendo interessantíssimas opiniões dos
populares presentes. Você meu jovem, o que acha
da promessa do homem?
— Acho que isso é uma afronta capitalista, visi-
velmente dirigida à classe proletária e que...
— Muito obrigado.
E assim o magnífico repórter ia colhendo opini-
ões e pareceres bastante esclarecedores.
O estranho é que ninguém sabia exatamente o
que o homem faria. Ele apenas comunicara que rea-
lizaria, à vista do público, no dia tal, às tantas ho-
ras, uma coisa que um único homem em toda a His-
tória conseguira realizar.
Nisso, a orquestra atacou Eu te amo meu Brasil,
que foi cantada pelo coral do Maestro Stefanini, e
assomou ao palanque a mulher do futuro herói. Pe-
diu silêncio num gesto leve. Conseguiu calar a tur-
ba.
— Boa tarde. Apesar do tempo não se apresen-
tar propício, meu marido fará o que prometeu. Se-
nhoras e senhores... meu marido Euclides!
As palmas rebentaram e o homem subiu ao pa-
77
lanque principal.
— Dá close! Dá close — gritava do caminhão
de externa, o direito de tevê.
E tinha que ser close, porque o homem vestia
unicamente sapatos mocassim e uma touca do Vas-
co. Quanto ao mais, nu como a verdade o é, quando
cruz.
— Nu? Ele vai fazer o que, nu?
— Sei lá. Eu, quando fico nu...
— Muito obrigado — cortou o repórter a frase
de mais um entrevistado.
O homem nu começou a ficar vermelho. Encos-
tou-se a uma das pilastras da pérgula, averme-
lhando-se ainda mais.
— Vai derrubar o Copa! — gritou um.
— Ele vai fazer o que o Sansão fez — advertiu
outro.
— Vamos morrer soterrados! — avisou um ter-
ceiro.
Espocavam vários flashes, calaram-se os locuto-
res por um momento (de temor), as câmaras, em
plano americano, um pouco ousado, porém justo, já
mostravam o homem numa posição meio vergada.
O esforço que fazia era o de um bicho. Gemia e ru-
gia, sob os atônitos olhares da plateia presente e a
torcida visível da esposa que, baixinho, incentivava
o marido.
— Vamos, Euclides, eu confio em você.
E o homem se contorce, se enrosca, se esforça.
78
As autoridades põem-se de pé. Metade sem en-
tender e a outra metade sem perceber.
O homem dobra-se, desdobra-se, estufam-se as
veias e dilatam-se os músculos. Como se o vozerio
fosse dirigido por uma mão invisível, os murmúrios
do público vão sumindo... sumindo...
Agora, pode-se escutar o arfar do homem, os
arghs e... ughs que ele emite.
— Força, Euclides. (Argh). Eu creio em ti, Eu-
clides (Ugh). Deus existe (Arff). Você conseguirá.
— Inc... Inc... uncr....
Aí o homem volta ao normal e, visivelmente de-
cepcionado, dirige-se à massa presente.
— Desisto. Pensei que pudesse, mas o que Co-
lombo fez eu não vou poder fazer. Nem sentado.
Desculpem tomar o tempo de todos.
Vestiu-se e foi embora sob os apupos da plateia
que não entende os heróis.

*
* *

SARAVÁ

— Isso só se resolve no espiritismo — disse a


voz de Tomás, a voz da experiência. — Mas meter
espiritismo nisso é até um pecado.. E, depois, eu
não acredito.
— Então não tem jeito. Ou espiritismo ou vai
79
continuar assim até...
Continuar assim significava o que já se tornara
habitual; Regina não chegava em casa antes do Sol.
— A vizinhança não pára de comentar.
Nem podia ser diferente. Moravam — o casal e
a filha única — num apartamento modesto de Vila
Isabel. Regina vivia as noites da Zona Sul, do
modo que melhor lhe apetecia. Não tinha namorado
fixo, mas não lhe faltavam namorados acidentais.
— Já saiu com a Regininha?
— Não.
— Então falta você porque o resto da turma...
Regininha em 21 anos, já viveu mais de 30. O
maiô cavado põe na vitrina a celulite inexplicável,
mas ela não se importa, o que lhe interessa é este
momento, é hoje, agora.
— Vamos para Petrópolis? — sugere um de
carro.
Ela concorda. O Porsche é maravilhoso.
— Que amiga? — inquire a mãe, pelo telefone.
— Vera, você não conhece. Vou dormir com ela
hoje e amanhã: tem duas festinhas pra gente ir.
A mãe diz que sim. Regina vai para Petrópolis
com o Porsche do moço, fazer qualquer coisa, me-
nos a guerra.
O pai desconfia, a mãe tem certeza, os vizinhos
cochicham.
— Aquela, minha santinha, já não tem jeito.
— E faz tempo, Dona Dolores! Faz tempo!
80
Por isso, Tomás sugeriu o espiritismo.
— Será que dá certo? — perguntou a mãe, já
admitindo o que Tomás propõe.
— Eu faço uma aposta. Quer botar uma nota?
A mãe pede tempo. É católica demais para acei-
tar de repente outra solução que não seja através do
milagre pedido à Nossa Senhora da Aparecida. En-
quanto não resolve, Regina dorme três fins-de-
semana nas casas das amigas. Reaparece às segun-
das-feiras, com olheiras e cansaço.
— Dancei até morrer — diz sempre, para expli-
car.
Trabalhava na Sloper, de onde se demitiu sem
maiores explicações. O pai, funcionário da Tele-
fônica, lhe dá o dinheiro possível, com o qual Regi-
na consegue bem mais que o incrível. Veste-se aci-
ma do permissível pelos magros cruzeiros.
— Você faz milagres com a sua mesada — diz
a mãe, inocente por conveniência.
— Meu dinheiro é fêmea, dá cria — mente Re-
gina. Tranquila, sabedora mais do que ninguém de
que não lhe faltarão os cruzeiros costumeiros saí-
dos do bolso do homem do banco.
Por isso, Tomás insiste no espiritismo.
— É, Tomás — a mãe titubeia — eu acho me-
lhor.
Marcam a sessão para terça-feira. Queriam a sá-
bado, mas neste fim de semana Regina dormirá na
casa de outra amiga.
81
Tudo é preparado de modo a não dar na vista.
Têm que simular qualquer coisa de ocasional.
O médium é Vicente, um negro espadaúdo, ca-
belo rapado a navalha. Compram velas e charutos.
Um copo virgem, com água, colocado atrás da por-
ta. Defumam a sala e molham a casa com cerveja
branca, fazendo cruz nos cantos.
— A senhora vai ver, Dona Geralda! — assegu-
ra Tomás, vestido de branco, competente e compe-
netrado.
Regina acorda quando tudo já está preparado.
— Que babado é esse?
— Uma sessão. O Tomás conhece um moço
que diz que é uma coisa do outro mundo. Fica, pra
você ver.
Regina sorri. Mas concorda em ficar para assis-
tir àquele barato.
Vicente pede silêncio e concentra-se. A luz é di-
minuída e as cortinas fechadas dão cara de noite à
tarde da Vila.
— Oxalá, meu pai, tem pena de nós, tem dó. A
volta do mundo é grande. Teu poder ainda é maior.
Tomás canta sozinho o ponto de abertura e sozi-
nho canta os pontos seguintes.
Regina já não vê na cessão o barato de antes.
Está séria, quase compenetrada. Esquisito.
— Ogum Iara, Ogum Megê. Olha Ogum Rom-
pe Mato auê.
Tomás canta agudo de não se poder acompa-
82
nhar seu tom. Vicente balança, escorando-se numa
perna, ora noutra. Regina por um tempo arrepia-se.
Tem as mãos suadas e a cabeça dói um pouco.
— Ogum Iara, Ogum Megê.
O médium cai com um joelho no chão, uma per-
na entendida à frente, a mão simulando segurar
uma flecha. Dá um grito agudo que parece dizer
“quiô” e repete o grito de um jeito que parece não
terminar. Dona Geralda, persigna-se, pedindo per-
dão a Nossa Senhora da Aparecida. Pensa “é pelo
bem dela” e volta a fazer o sinal da cruz.
Ogum está na terra.
Caminha pela casa, fumando o charuto que To-
más lhe acendeu. Corre todos os cômodos, jogando
baforada nos cantos das paredes, defuma os presen-
tes e diz coisas numa língua estranha. Regina espia
de olho comprido, mas não vê com clareza, parece
ter uma neblina a lhe descer nos olhos.
— Vem cá, fia.
Regina vai.
Ogum segura nas suas mãos transpirantes, olhos
quase fechados, charuto mordido no canto da boca.
Puxa baforadas que são jogadas nos cabelos curtos
daquela moça que dorme nas casas das amigas.
— Minha fia é média.
A mãe reza baixo. O pai, de longe, limita-se a
olhar, aguardando o desfecho. Tomás despeja numa
cuia pequena um pouco de Moscatel que Ogum re-
cusa.
83
— Minha fia tem que trabaiá.
Agora Ogum bebe o Moscatel. Aconselha e
conta coisas que Regina não imagina como aquele
crioulo pode saber. Revela a mentira do pernoite
com as amigas. A mãe faz que não ouve. Ogum
pede a Tomás um ponto de Iansã. Regina bambeia.
— É, Dona Geralda... ela é média.
— Deus me perdoe, Deus me perdoe — a mãe
insiste, penitenciando-se.
Ogum convida para a sessão de sábado.
— Sábado? — Regina sofre a possibilidade de
estragar o seu fim-de-semana.
— Tem que ser. Quer ver o que tá com a mia
fia?
Ogum segura a mão da moça e dá a outra a To-
más.
Num grito, Tomás cai no chão enrodilhado, as
mãos retorcidas, viradas para as costas, emitindo
grunhidos.
— Desses aí tem sete falange com a minha fia.
Regina chora. Acredita. Sofre. Irá à sessão no
sábado. Não. Vicente não estará no centro. Outro
Ogum a receberá. Vicente não é daquele centro e
aos sábados tem trabalho a fazer. Ela vai gostar,
Ogum garante. Regina irá. Promete.
Tomás não é um homem, agora. Tomás é um
amontoado no canto da sala, rugindo. Ogum lhe
põe um pano branco sobre o corpo e, num grito, faz
Tomás voltar ao normal, ao puxar o morim.
84
— O que foi? — pergunta Tomás, fingindo não
saber.
— Um obsessor, meu fio... Minha fia tá muito
carregada.
— Eu não disse? — fala Tomás à Dona Geral-
da, procurando um copo com água.
— É mesmo, Tomás. Que coisa!
Regina é posta de pé, olhos fechados. A mão do
crioulo desliza em volta do seu corpo sem o tocar,
terminando cada deslizar com um estalar de dedos.
Faz-lhe ficar de costas e repete os movimentos.
— Sábado, minha fia... Meu cambono dá o en-
dereço.
Tomás confirma calado. Ogum se estende no
chão, batendo a cabeça três vezes junto à vela que
tremula.
De pé dá um grito que parece “quiô” e se treme
de desintegrar. Tomás o segura para que ele não
caia. Acabou.
Abrem-se as cortinas, apagam-se as velas, des-
peja-se a água dos copos, recolhem-se as cinzas ca-
ídas, escancaram-se as janelas.
— Disponha sempre, dona.
Levam Vicente e Tomás à porta. Regina, cala-
da, senta-se na poltrona surrada, mãos entrelaçadas
entre as pernas morenas, olho parado no rodapé,
fervura na cabeça.
— Não sabia que o teu santo era tão forte, Vi-
cente — comenta Tomás, já no ponto do ônibus.
85
— Que santo? Eu não recebo ninguém.
— E Ogum?
— Que Ogum? Cascata. É que tu me contou o
caso da moça, eu tenho uma filha da mesma idade,
em quem um Ogum deu jeito. Procurei o cara, ele
tinha ido pra Cachoeiro do Itapemirim, então eu in-
ventei essa de receber Ogum, pra dar jeito na meni-
na. A mãe me contou uns troços e...
Tomás se aborreceu, mas Ogum deve ter rido.
Principalmente quando Regina começou a costurar
um vestido branco, com saia rodada e renda na bar-
ra.
Saravá.

*
* *

FEIJOADA NO COPA

A mercedes-benz azul, 280-s, rangeu os pneus


no asfalto defronte do Copacabana. Bob Lucena
desceu. Calça branca de flanela, mocassins italia-
nos, camisa de seda francesa, com o colarinho dis-
plicente caindo sobre as lapelas — do blazer made
in London. Soube, pelo Boucheron que consultou
no seu pulso, já ser quase onze horas, horário previ-
amente marcado para o encontro com o amigo.
Bob Lucena pousou os óculos no alto da cabeça
e olhou em todo a volta, procurando o carro do
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amigo, um Mercedes igual ao seu. Não o encon-
trando, seguiu e entrou na pérgula do Copa.
— Bom dia, Senhor Bob — cumprimentou o
garçom.
— Alô, Justo. Um campari — comandou ao se
sentar na mesa, à beira-piscina.
Brancos ingleses, de calções sobre o mau gosto,
mergulhavam e nadavam, apesar da manhã fria. Al-
guns, vestindo roupões, atravessavam a piscina pre-
ferindo ir à praia, onde a falta de banhistas mostra-
va que, em junho, praia não é bom negócio. Mas
pra quem vem de Liverpool...
Um ou outro conhecido acenava de outras me-
sas ao homem que chacoalhava o gelo do seu Cam-
pari, onde a casca de limão, a mesma usada outras
vezes, em muitos outros camparis, acidava sua be-
bida.
Bob Lucena abriu um maço dourado de Benson
& Hedges e fez a chama do seu Dupont de prata
acender seu cigarro, soprando a fumaça em rodi-
nhas que, tentadas, não foram feitas.
Era sábado, dia que o carioca combinou ser o
ideal para comer feijoada.
Ao lado da Mercedes azul estacionou a verde,
com Júlio Landes a bordo. Camisa de gola olímpi-
ca, jaqueta marrom de camurça, sapatos comprados
no Magli da Via Veneto, Piaget azul no pulso.
Júlio Landes tinha, talvez, quatro anos a mais
que Bob e era seu companheiro de jogos de pólo e
87
de golfe, sendo, os dois, velhos sócios do Gávea e
do Itanhangá.
Notou o carro do amigo e, por se descobrir em
atraso, apertou o passo, firme, sumindo pela porta
de vidro do Copacabana Palace.
— Estou atrasado, não é? I'm sorry.
— Que nada. Toma um drinque.
Pediu uísque on the rocks, exigindo Royal Salu-
te.
Aquele frio de junho trazia-lhes depressão. Dis-
so, os dois tinham falado na noite anterior, em meio
à festa da Lagoa, na casa de Hugo Penna.
Marcaram aquele encontro para lamentações
mútuas: dinheiro que não valia o que marcava, a
queda brusca da bolsa, a enorme dificuldade de fa-
zer um bom negócio.
— Minha casa da Riviera está à venda há seis
meses. Quem andou quase comprando foi o Willi-
am Holden, conhece?
Conhecia de vista, por ter encontrado o ator um
dia no aeroporto de Orly. Se mesmo na Riviera ha-
via problema financeiro — pedia uma ninharia pela
casa avantajada que se debruçava sobre a praia de
Juan-Les-Pins — imagine no Brasil, onde os di-
nheiros valem menos.
— Justo, outro Campari. Quer outro uísque?
— Pode ser. On the rocks.
Júlio Landes pretendia ficar fora uns tempos. O
vôo da Lufthansa que o levaria a Frankfurt estava
88
transferido por defeitos no avião. Pensou em deixar
de lado aquela passagem para outra ocasião, e com-
prar uma no jato da Air France, que sairia hoje, mas
a mulher tinha cisma de não começar viagem por
Paris. Manias.
— É meio excêntrica — justificou.
— Eu sei, eu conheço Jane.
Júlio pensava ficar uns quatro meses na Europa.
Não que quisesse comprar roupas na Via Condotti
ou nas boutiques francesas. Tudo por lá anda tão
caro! Bob bem podia imaginar. Camisas que, antes,
comprava por 30 dólares, custavam, agora, 35, um
verdadeiro descalabro.
— Este meu blazer. Comprei, há uns quatro me-
ses, no Paul Landau, em Oxford Street, por 16 li-
bras. O Amaral chegou ontem, com um idêntico ao
meu pelo qual pagou 20 libras. Há quem possa vi-
ver?
O novo campari chegou, trazido pela mão trê-
mula do garçom Justo, do Copa, 32 anos de casa,
funcionário antigo, como os demais do hotel.
A água de uma inglesa, de mau mergulho e pior
corpo, molhou um pouco o sapato de Júlio Landes,
obrigando-o a enxugá-lo com o guardanapo.
— Talvez nos encontremos em Paris — admitiu
Bob Lucena, espiando, interessado, a moça de cor-
po magro que aparecia na piscina, saindo, certa-
mente, de um profano apartamento do Anexo, onde
fizera, na noite anterior, companhia interessante a
89
um deputado nortista, o mesmo que, de short de
shantung, a acompanhava, encabulado.
— Você, em Paris, fica onde?
— Eu gosto do Georges V.
— Agora está medíocre. Eu preferi alugar um
apartamento no centro. Fica numa transversal do
Boulevard des Capucines, perto do Café de la Paix.
Apartamentozinho simpático. Tenho empregada
fixa.
O uísque sabia mal, depois do tanto tomado na
noite anterior. A festa de Hugo Penna estivera mes-
mo chata. A frequência imutável, os assuntos inva-
riáveis, a mesma espera pelo fim. Bob Lucena en-
tendia o tédio do seu amigo, também ele se sentin-
do neste abatimento.
— Aquele uísque não era Chivas.
— Também senti que não era. Por isso, fiquei
no champanha. No champanha ninguém me enga-
na.
A frequência heterogênea da piscina do Copa os
irritava. Deputados, comerciantes, mocinhas de
olho em dinheiro, artistas, gordos banqueiros, os
garçons de muita idade encostados à porta do Bife
de Ouro, esperando os mesmos fregueses das eter-
nas feijoadas.
— Júlio, o Brasil já era.
Júlio Landes se riu da gíria que o amigo usou.
Pediu-lhe repetição.
— O Brasil o que, Bob? O Brasil o quê? Repita.
90
— Eu disse, meu caro Júlio, que o nosso Brasil-
zinho já era.
— Já era? É muito boa.
Era a primeira vez que Júlio Landes escutava
uma definição que, por sinal, lhe servia como luva.
Riu-se, de sentir tosse.
O garçom, acorreu aflito, tentando impedir o
acesso que atribuía ao uísque, tentando, inclusive,
trocá-lo.
— Deixe, Justo. O Júlio está engasgado por
uma joke que eu lhe disse.
O garçom fingiu entender e afastou-se três pas-
sos, de onde seguia vigiando a mesa dos inconsolá-
veis sofredores que curtiam, ao meio-dia, uma fos-
sa formidável.
Prometiam, um ao outro, cancelar os negoci-
nhos que tinham no Brasil: o banco, a indústria de
acrílico, a laminação de metais, a firma de constru-
ções...
— Não há dinheiro, Julinho.
— E é a mim que o dizes!
Pediram uns canapés. Qualquer coisinha servia.
Era só para mastigar um salgado após o campari e o
uísque. Podia ser caviar, salmão, ostrinhas sobre
torradas, qualquer coisa serviria, era só pra beliscar.
Acidentalmente passava um conhecido dos dois.
— Oi.
— Alô, Belanguer...
E faziam comentários sobre o Belanguer tran-
91
sante por entre as mesas armadas à beira da piscina,
procurando, certamente, uma companhia pra noite.
A noite deles seria uma noite a mais de enfado.
Tinham a festa de Bob Lucena, pelos anos de Vivi-
nha, sua quarta esposa, que fora a segunda de Júlio.
— Você vai dar a festa aqui, na cobertura da
praia?
— Não. Aqui é muito pequeno, e você conhece
Vivinha. Preferimos receber na casa da Gávea Pe-
quena.
— Lá é mais tropical.
E quanto aos gostos de Vivinha, Júlio sabia de-
mais.
Casaram-se em Las Vegas, num setembro não
recente e desquitaram-se em Roma, após chegarem
a este acordo, em meio ao antepasto comido na Ce-
sarina.
Vivinha ficou em Roma, Júlio voltou ao Brasil,
casando um mês depois com a ex-mulher de Tuli-
nho.
Vivinha, em Roma, um dia, em plena Piazza di
Spagna, encontrou Bob Lucena, que a convidou,
como amigo, para um jantarzinho informal na Hos-
taria Del'Orso. De lá, mudaram para o Excelsior e
voltaram casados, coisa muito interessante para Jú-
lio Landes, que via no pai de seus filhos um ho-
mem de caráter.
— E os meninos, como vão? — lembrou-se de
perguntar.
92
— Devem ir bem. Quase não os vejo.
— Imagino.
Vida terrível, a de Bob Lucena e Júlio. Vida de
cartas marcadas, sem suspense, sem mistério. E o
staff não ajudava. Haja vista que um cheque de
7.300 dólares, contra o Chase Manhattan Bank, ain-
da não fora descontado. Esquecimento do gerente.
— Felizmente, são só 7.300. Podia ser coisa
grande.
— Se fosse, era a mesma coisa. Aquele gerente
é o fim.
Não o despedia em respeito aos anos que o ve-
lho Martins servira ao seu pai, hoje aposentado vi-
vendo numa vila, na Suíça, casado com uma sueca
chamada Annie.
— Bonita?
— Sueca.
A mesa da feijoada estava servida. Os dois le-
vantaram, lentos. Júlio Landes, finamente arrumou
os seus pertences num posto melhor da calça, com
um ligeiro alçar da perna e, acompanhando o ami-
go, entrou no Bife de Ouro, onde três garçons, em
fila, os esperavam na mesa.
Puxar de cadeiras, assentar de traseiras, abrir de
guardanapos.
— E para beber?
— Cerveja.
— Skol, Antártica, Pilsen...
— Não tem Tuborg?
93
Tinha.
O puxar da alça na lata da Tuborg fez Júlio lem-
brar o cancelamento do vôo da Lufthansa. As cer-
vejarias de Munique, com a alegre cantoria da qual
ele participava, fingindo também cantar. Mais uma
noite e um dia sem ter nada que fazer. Um dia a
mais no Brasil.
— Sabe de uma coisa, Bob? Você é quem está
certo. O Brasil, realmente, já era.
Repetiu a gíria rindo, como se tivesse dito uma
coisa muito engraçada.
O garçom mostrara a lata de cerveja estrangeira
como quem mostra um colar; o outro exibiu o fei-
jão com meneios de artista; o terceiro serviçal de-
positou nos seus pratos duas colheres de arroz, com
um carinho excessivo, como se o arroz se partisse,
se fosse posto no prato de maneira mais normal.
Na mesa ao lado, a família inglesa comia filé de
peixe.
— Seu carro é muito bonito. O verde é uma cor
que cresce. Eu ia comprar o meu verde, mas demo-
rava uma semana...
— O azul também é lindo.
— Você importou?
— Não me lembro. Acho que não. Importei o
sport. Este, comprei numa loja aqui na Atlântica.
Paguei 170.
— Vê só? Um roubo. Não se pode mais viver.
— É aquilo que conversamos.
94
Comiam feijoada com mímica de strogonof.
Sorviam os goles de cerveja com gestos de Beaujo-
lais. Apagavam os cantos da boca como se fossem
Luíses (um XV, o outro XVI), deixando no guarda-
napo um quase nada de mancha.
— Por que você não aparece hoje? Jane vai se
divertir.
— E verdade. Ela e Vivinha se dão muito bem,
se gostam tanto!
Não era uma má idéia. Aproveitaria e festa e da-
ria uma olhada nos filhos, Maurício e Marcelo, a
quem não via desde que os encontrara numa esta-
ção de inverno em Gstaad, num desses acasos da
vida.
Pagaram a conta com Diner’s, deixando a farta
gorjeta que já era esperada, a ponto de motivar as
milhões de rapapés desde o primeiro campari.
A rua, vestida de névoa, uma neblina extempo-
rânea que se estendia do Leme até o Leblon, fê-los
pensar em Londres.
— Taí, Bob, tive uma idéia. Por que não nos en-
contramos em Londres, digamos, em setembro?
— Não sei...
— Ora, Bob, não seja chato.
— Eu estava pensando em dar um pulinho no
Japão em setembro. Quero entrar em contato com
Sakiro Tichinogo, com quem pretendo abrir um ne-
gócio em Ontario.
— Deixa o Sakiro pra outubro. Eu prometo ir a
95
Tóquio com você. Encontramos em setembro, em
Londres.
O outro tentou deixar o assentamento final para
ser tratado à noite, mas Júlio Landes insistiu, e tan-
to e tanto insistiu que, ali no calçadão, apertaram-se
as mãos, com um encontro combinado para setem-
bro, dia 15, no Grosvenor House, em Londres.
Os dois Mercedes reluzentes, lado a lado estaci-
onados, faziam biombo ao vento, protegendo João
de Tal, mendigo muito barbado que, sentado ao
meio-fio, mastigava meio pão, ganho num aparta-
mento ou num bar, quem é que sabe?
A presença do mendigo irritou ainda mais os
donos dos dois Mercedes, mas o contraste foi inte-
ressante.
— Não deixa de ser curioso. Você sabe: adoro
contrastes.
Abriram as portas dos carros e se acenaram um
adeus, dizendo, ao mesmo tempo, um bye-bye in-
color.
Bob Lucena entrou no carro e do seu maço de
Benson & Hedges caíram, por descuido, quatro ci-
garros.
A marcha à ré dos dois Mercedes foi tão simul-
tânea que parecia partida em corrida de Les Mans.
Viraram as direções, tomando o rumo do sul.
O mendigo João de Tal antes olhou para os la-
dos. Pegou, então, os cigarros, fabricados na Ingla-
terra. Três guardou no bolso sujo, o outro levou aos
96
lábios. Guardou a côdea de pão no fundo do bolso
enorme. Caminhou acelerado para o guardador de
carros, que agora conferia os 20 cruzeiros ganhos
(dez de Bob, dez de Júlio).
— Quer me dar o fogo?
O fósforo do guardador acendeu-lhe o Benson
& Hedges, e João de Tal, com a mão no bolso, to-
mando conta dos três cigarros guardados, soprou
uma baforada vigorosa, murmurando, ao mesmo
tempo: “Oh, vida boa!”
E se meteu na neblina que começava no Leme.

*
* *

PARTO COM DOR

Anda com dificuldade, pelo ventre crescido na


gravidez. O filho mais velho, sempre ao lado, cami-
nha pela casa, ajudando-a, pensa ele, a suportar os
dias ou as horas que faltam para o parto. Acomoda-
se, cansada, no sofá, arfando.
— Deve ser, hoje. De hoje não passa — comen-
ta Joana, observando o arfar de Ângela, encolhida
no sofá, expressão no sofrimento no olhar compri-
do que dirige ao filho.
— É, acho que sim. Já está tudo providenciado?
— Tudo.
Ângela não escuta o que falam os patrões. Por
97
certo está agradecida pelo fato de eles terem con-
sentido que ficasse na casa depois de engravidar e,
ainda por cima, tratarem com carinho tanto a ela
quanto ao filho de dois anos.
— Coitadinha. Pela cara a gente sente o que ela
está sofrendo... — comenta Francisco, observando
de longe o arfar cansado de Ângela, agora encosta-
da à soleira da porta que dá para o quintal. O filho,
ao lado, deixa-lhe um beijo no lugar que alcança,
naquele corpo arredondado.
— O doutor foi avisado.
— Estou com o telefone aqui — diz Joana, exi-
bindo o papel com um número e um nome.
— Olha como se torce.
O sol do quintal a convida a um passeio. Ângela
caminha por caminhar. Não tem — e nem podia ser
diferente — a mesma desenvoltura de antes, quan-
do chegou de Piracicaba. Aquieta-se sob a man-
gueira, aproveitando o resto da sombra. Vai escure-
cer dentro de pouco. São cinco e meia da tarde. É
São Paulo, é o último dia do ano.
— Hoje tem a festa do Rafael — lembra Fran-
cisco.
— Eu não vou.
— Mas meu bem...
— Não vou — Joana corta, crescendo na voz.
— Se você quer ir vá. Eu fico com ela.
Francisco desiste, também. Vão para a janela
observar o resto do dia da grávida. Está deitada na
98
relva, sob o mangueiral. O filho, ao lado, altamente
ocupado. Foi assim até a noite, quando chegou a
hora do parto.
— Francisco! — gritou Joana com voz diferen-
te, preocupada.
O gemido forte de Ângela explicou do que se
tratava. Começava.
— O médico!
— Liguei! Expliquei que não dava tempo de
levá-la. Ela não pode andar, não deixa que lhe to-
quem.
— E aí?
— Ele está vindo pra cá.
— Tire o filho de perto dela.
— Tente tirar.
O filho, junto, não permitia que ninguém se
aproximasse. Ela o aceitava ali, acariciando-o nas
pausas das contrações. Gente do interior.
— Que horas são? — Joana quis saber.
— Onze e quarenta.
— Vai nascer junto com o ano. Não demora
mais 15 minutos. E o doutor? E se ele não chegar?
— Ela se vira — anuiu Francisco.
Poderia ser assim. Gente do interior. A cama de
Ângela estava a cinco metros do local onde o casal
conversava. Lá, o filho sempre ao lado, Ângela
contorcia-se a cada contração.
— As dores estão vindo mais fortes.
— E mais seguidas — juntou Joana, experiente
99
no caso, pelos três filhos, que já tivera.
— Vou ligar para o doutor novamente.
Francisco disse e discou.
— Ele saiu há uns dez minutos.
Da Aclimação ao Pacaembu não se demora
mais do que isso. Já deveria estar chegando.
Para Ângela também já chegava. Ela se enrosca
e se espicha, na dor incrível. Parece um bicho, pe-
los ruídos que solta. Aos gemidos mais fortes o fi-
lho se afasta alguns centímetros. Um pouco por
medo, um pouco por respeito. O casal está na jane-
la, olhando a esquina por onde deverá surgir o
Aero-Willys do médico.
— Liga de novo.
— Liguei. Ele já saiu.
— Mas não chega! — comenta Joana, nervosa.
— E se ele não vier? Esses médicos...
Ângela não pensa no médico, certamente. Pensa
no filho que a faz sofrer desde antes de nascer. O
ventre sobe e desce pela respiração difícil, sofri-
mento de parto.
— Quase meia-noite.
Os relógios mais adiantados provocam o espo-
car dos primeiros foguetes anunciando o Ano
Novo. O casal se abraça sem maior efusão. Há mais
preocupação por Ângela do que alegria pela entra-
da ao ano.
O Aero-Willys surge.
— Depressa, doutor... o senhor demorou...
100
— O trânsito — explica o médico. — Muita
gente na rua. É um inferno. E há a corrida de São
Silvestre. Tive que vir por outro caminho. Onde ela
está?
— Felizmente, cheguei a tempo, não é? — diz o
médico.
Enganava-se. Ao entrarem no quarto, a gata já
dera cria. Lambia o gatinho, maternal. O filho de
dois anos olhava de longe, enciumado, debruçado
nas patas dianteiras.

*
* *

CASO DE CIRURGIA

— Fi-bro-ma — insistiu, dividindo a palavra,


dando-lhe a importância que julgava merecida.
— Mas isso não é nada grave.
— Só que no caso dela, parece que... — e impôs
a reticência com cara triste, insinuando alguma coi-
sa de pior no tumor que informava ter a filha.
A amiga, religiosa profissional, persignou-se ar-
repiada.
— Valha-me, Nossa Senhora.
Nossa Senhora, na estante da sala, tinha um sor-
riso de condescendência. As nossas senhoras de
louça, aliás, são dadas a este sentimento.
— O médico, o que diz?
101
— Tem que ser operada.
— Tadinha. Tão menina.
— 17.
— Mas, se Deus quiser, não há de ser nada ruim
— admitiu e desejou a fervorosa amiga.
— Não sei. Pelo modo como o médico falou,
não sei. Só te digo uma coisa: não sei.
O pai, em viagem de negócios para o Norte, foi
informado pela Western. Voltou, todavia, no dia
em que deveria voltar, sem cuidar de antecipações
que — era de se supor, o fibroma em questão deve-
ria precipitar.
— Fibroma? Que diabo é isso? — perguntou ao
chegar em casa, vindo já não do aeroporto, mas da
casa de uma jovem que costumava apresentar como
secretária.
A mãe explicou. Disse, no fim, da terrível pos-
sibilidade.
— O tumor pode ser... — e deixou a conclusão
aos cuidados da inteligência do marido.
— Câncer? — ele disse a palavra que a mãe
ainda não falara, apesar de gostar muito de a insi-
nuar.
Chorou, como resposta.
— Ela sabe?
— Não, mas eu acho que desconfia. Eu não
consigo me controlar. Ela lê nos meus olhos que eu
estou preocupada.
Da janela se virou. Atirou o charuto para trás,
102
sem se importar com o sítio onde caiu. Mordeu os
lábios e esfregou a mão com força no rosto, dando
à boca formas esquisitas.
— É fogo! — foi o que comentou.
Esfregou as mãos forte e rapidamente, voltando
ao sofá, onde se sentou cruzando as pernas, dobran-
do os braços, curvando-se para a frente. Soprou for-
te e sem necessidade. Sem encarar a mulher, foi fa-
lando.
— Pode morrer, né?
— Se for mesmo...
— E operando?
— Não sei, não sei... — e chorou forte.
Ele levantou e lhe fez carinhos na cabeça, onde
já os cabelos brancos davam o ar de sua desgraça.
Tinha, também, vontade de chorar, mas sentia que
não era o momento.
— A gente arranja um médico bom, ela faz a
operação e fica boa. Foi descoberto em começo...
— fez uma pausa e cresceu de preocupação. — O
que é que o médico diz? Em começo?
Assentiu com a cabeça, soluçando e enxugando
o choro na ponta do avental. Assoou-se com o len-
ço que lhe foi estendido. Nem percebeu que no len-
ço havia o perfume da secretária.
A empregada, calada, de acordo com a situação,
ofereceu a bandeja onde fumaçavam duas xícaras.
— Cafezinho, Dr. Martins?
Ele aceitou, tomou em muitos goles o café forte,
103
como gostava. Tinha o olhar voltado para o hori-
zonte. Da janela via o mar, por onde o navio corria,
saindo da barra.
— Vou mandar para a Europa.
— Acho melhor.
Aí a moça chegou. Pálida e magra, ambas as
coisas aumentadas, pelo preto que vestia.
— Fez boa viagem, pai?
— Ótima.
A mãe retirou-se, para que a filha não visse que
voltava a chorar.
— E você, minha filha, como vai?
— Mais ou menos. Mamãe já lhe disse? Estou
com um probleminha. O doutor acha que é um
quisto.
— Isso é bobagem.
— Se for mesmo quisto, é... — falou, ressabia-
da, experimentando a reação do pai.
— Se for, não. É. É um quisto. O médico não
disse que é quisto?
— Disse, mas...
— Se disse, é.
Pela janela, a nesga de mar que lhes era dada
ver, mostrava que havia um banho de mar agradá-
vel.
— Vou pegar uma praia.
— Acho que vou com você.
Ela não gostou, mas não deixou que o pai ficas-
se sabendo. Saíram como dois irmãos. Ou dois na-
104
morados. Estava resolvido a, na praia, começar a
preparar o espírito dela para a viagem que havia de-
cidido. A mãe ficou com a amiga religiosa.
Voltaram às duas e meia.
— Mamãe, adivinha o que eu ganhei do papai.
— Não sei.
— Uma viagem! — disse, muito contente.
Os pais se entenderam com um olhar, a mãe
programou um sorriso.
Foi mandada para Amsterdã. A mãe a acompa-
nhou. De lá mandava notícias. Tudo corria bem.
Regressaram bastante tempo depois do previsto. Ao
fibroma deram o nome de Paulo Roberto. Era lou-
ro.

*
* *

TAPETE DE PELE DE ONÇA

O grito da mulher foi tão alto que os vizinhos


vieram à janela.
— Na frente do sofá, não!
— E porque não à frente do sofá? — gritou o
marido, em resposta à gritaria negativa da mulher.
— Porque é cafona, porque é mau gosto, porque
isso é coisa de mulher da vida.
— Você não entende nada de decoração — ber-
rou o marido, dando-lhe as costas.
105
— Quem não entende é você, seu bestalhão.
O ambiente estava mais para boxeur do que
para sacristão. Marido e mulher ameaçavam engal-
finhar-se por motivo idiota: a colocação ou não de
um tapete de pele de onça no meio da sala, sob a
mesinha de centro, junto à frente do sofá.
Chegou um vizinho.
— Que é isso, Dona Haydée?
— Foi bom você ter vindo, Urbano. O Manduca
quer botar o tapete de pele de onça em frente ao
sofá.
— Claro — completou o marido, com um olhar
que pedia a concordância do vizinho, o que certa-
mente lhe daria a vitória na discussão.
— Pode? — insistia a mulher, veemente, desca-
belada, roupa em cima do corpo, algo de interes-
sante aparecendo sob o vestido transparente. —
Pode? Um tapete de pele de onça é o símbolo da
cafonice. Depois disso, meto um pinguim em cima
da geladeira, um São Jorge iluminado por luz ver-
melha no alto da porta, uma flâmula do Flamengo
na sala e ponho, na porta, um capacho com as mi-
nhas iniciais.
— Você é idiota — sintetizou o marido.
— Sou. Veja com quem eu casei e realmente
não mereço outro adjetivo.
— Urbano, eu dou um tapa nessa mulher — dis-
se o marido ao vizinho, que já se colocava entre os
dois.
106
— Sabe o que eu penso? — disse o vizinho me-
diador. — Eu acho que tapete de pele de onça é
uma coisa de muito valor. O certo é vender o tapete
e, com o dinheiro, comprar alguma coisa útil.
— Concordo — concordou a mulher.
— Discordo — discordou o marido.
— “Discordo” por quê? — ladrou a mulher, re-
começando a briga.
— Porque uma onça caçada por mim, transfor-
mada em tapete, não é apenas decoração, é uma re-
líquia. É uma prova de que eu sou um caçador. É o
testemunho de que eu matei a onça.
— Nesse ponto ele tem razão — disse o vizi-
nho.
— Não se meta — ordenou Dona Haydée ao vi-
zinho, que tentava ajeitar as coisas de modo a evitar
qualquer troço mais sério. — Vamos vender o tape-
te e comprar um liquidificador.
— Pra vender o tapete, Haydée — ameaçou o
marido, dedo em riste, cara tensa — você vai pas-
sar por cima do meu cadáver. O tapete vai ficar
aqui.
De quatro, ridiculamente de quatro, batia com a
mão aberta no chão, mostrando o local exato onde
o tapete seria colocado, por fim na força.
— No dia em que o tapete ficar aqui, no mo-
mento em que você ofender minha casa... minha
casa — sublinhou, acintosa — com essa monstruo-
sidade eu vou embora.
107
— A porta da rua é a serventia da casa — falou
o marido, aos berros.
— Calma — ponderou o vizinho.
— Repita — pediu a mulher de mãos nas cadei-
ras, pernas separadas, cabelo na venta.
— Eu disse, Dona Haydée — repetiu o marido,
de punhos fechados e rosto pra frente em desacato
evidente — que a porta é a serventia da casa. Os in-
comodados que se mudem.
E apontava, frenético, para a porta de entrada do
lar, com a voz enrouquecida pelo berro que exage-
rava.
— Quer ir embora, já vai tarde.
O vizinho o segurou pelo braço. Ele tentou des-
vencilhar-se. Ela ia, mesmo.
— Me solte, Urbano.
— Vamos resolver isso como gente. Vocês pa-
recem cão e gato, brigando por uma bobagem. Um
tapete de pele de onça é um negócio que vale di-
nheiro, concordo, mas não vale uma flâmula. Vocês
têm filhos, gente. Onde já se viu um caso desse ta-
manho por causa de uma baboseira?
— Chame minha onça de baboseira de novo —
ameaçou o marido.
A vila inteira já estava na sala onde a guerra ia
crescendo. Urbano, o vizinho, com grande diplo-
macia, tirou da cabeça de Dona Haydée a idéia de
ir embora, fez com que o Manduca maneirasse no
seu modo de falar. Pouco a pouco, a calma voltou
108
àquela casa. Os vizinhos foram embora. Ficaram
apenas os três: o casal e Urbano, o feliz mediador.
— Pronto. Assim é que é certo. Agora, como
dois seres humanos, como dois civilizados, com
tranquilidade, com cabeça fresca, vocês resolvem
tudo. E não esqueçam que a família vale quinhentas
mil vezes mais do que um tapete de pele de onça.
— Tem razão, tem razão — concordaram Dona
Haydée e Seu Manduca, já abraçados, pazes feitas,
bastante felizinhos.
Urbano despediu-se e o casal ficou só. Não ha-
veria mais brigas. Manduca, inclusive, telefonou
para o Viveiros, cancelando a caçada que tinham
combinado, no Mato Grosso, onde ele pretendia
matar uma onça para, com a pele dela, fazer um ta-
pete.

*
* *

DOIS SILVOS BREVES: PARE!

A estória aconteceu naquele período em que,


neste país, era possível conseguir-se pistolão. Airo-
sa época de padrinhos deputados que nos davam
merecidos empregos vitalícios e polpudos acrésci-
mos salariais.
Hoje, é esta imoralidade de tudo nas regras,
tudo de acordo com os cruéis regulamentos e cor-
109
rendo os antipáticos trâmites legais. De que vale,
neste tempo indecente que atravessamos um tio se-
nador ou general?
Este País já deu o que tinha que dar. Ah, aquele
tempo!
— Vou fazer exame de motorista e preciso que
você fale com os homens para mim — pediu o can-
didato à motorista.
— Por quê? — perguntou o deputado de incon-
táveis amigos no Departamento de Trânsito desde
que se elegera.
— É que eu não sei dirigir — explicou o futuro
empistolado, numa meiga e sórdida confissão de in-
capacidade para o que pedia.
— Não sabe dirigir, certo. E que mais? — inda-
gou o deputado que apreciava as coisas claras e,
por isso, fez e pergunta com clara naturalidade.
— Bem. Eu não saber dirigir já era o bastante
para precisar de um empurrãozinho seu pra passar
no exame, mas você adivinhou. Tem mais: eu sou
cego.
— Quantos dedos tem aqui? — perguntou o de-
putado, ao mesmo tempo em que erguia dois dedos
a meio metrô dos olhos do afilhado.
— Aí? Aí tem... aí tem três dedos — disse, em
dúvida, o candidato a chofer.
— Então, como vem dizendo que é cego? Você
só errou por um. Você tem, apenas, uma ligeira de-
ficiência visual, não é caso para ser reprovado.
110
— Eu sei, eu sei. Mas você sabe, deputado,
como são esses caras do Departamento de Trânsito.
Só porque a gente bate num postezinho, já vêm
querendo reprovar.
— Me diga: você conseguiria enxergar um pos-
te? — quis saber o deputado, num momento de in-
crível lucidez.
— O senhor fala de dia? — questionou o candi-
dato a matar pedestres, já num tom menos íntimo,
tanto que o tratou de senhor.
— De dia ou de noite, tanto faz — perdeu a pa-
ciência o deputado.
— Tanto faz, não. De dia dá pra ver a sombra,
mas de noite, só sendo poste branco.
— Então, como você me diz que é cego? Você
enxerga mais do que o normal. Você é o próprio
“olho de Moscou”. Vou fazer um cartãozinho para
o Santo Cristo, que é chefe do exame de direção,
um para o Ibsen, do exame de vista, e um para o...
Você sabe esse negócio de mão das ruas? — lem-
brou de perguntar o legislador. — Por exemplo:
Av. Rio Branco. Dá mão de onde pra onde?
— Da Barata Ribeiro para Andradas, até altura
de Arquias Cordeiro, de Riachuelo para o Largo do
Machado, até a altura de Barão de Bom Retiro e daí
até a Avenida Suburbana, nos dois sentidos.
— Então para o Nelson, do exame oral, nem
precisava um cartão, mas de qualquer modo vou fa-
zer — concluiu o deputado — co-autor do delito
111
culposo.
— É bom — anuiu o Lampião da Fórmula-2 —
pra ele não se sentir humilhado. Se um recebe, to-
dos devem receber, né?
— Claro. Eu sou pela justiça. Dura lex sed lex,
como dizia César nas Termópilas, ao enfrentar
Gengis Khan — encerrou o deputado que, por coin-
cidência, tinha uma banca de jogo-de-bicho além
da de deputado.
Redigidos os cartões, o matador dirigiu-se ao
exame onde se houve com brilhantismo ímpar.
Na direção, em apenas quinze minutos, conse-
guiu não botar o carro na vaga: no exame de vista,
ao lhe ser mostrada uma folha com várias bolinhas
coloridas, onde as vermelhas formavam nitidamen-
te o número 8, ele exclamou, convicto:
— 37.
E, no exame de ruas, o sucesso que se pode cal-
cular, pela demonstração dada ao padrinho deputa-
do, quando tudo explicou sobre as mãos e contra-
mãos da Avenida Rio Branco.
Na sua primeira saída teve a infelicidade de ba-
ter num Oldsmobile último tipo que estava estacio-
nado numa vaga da Constante Ramos.
O proprietário do Oldsmobile desceu furioso,
para ver o que tinha sobrado do seu carro zero qui-
lômetro, e, depois de constatar que a mala do carro
só seria reaberta se o veículo fosse mandado para
Detroit, para um reparo na fábrica, dirigiu-se ao
112
Scarface da direção.
— Sabe de uma coisa curta e certa? O senhor é
cego!
— Ah, é? Me chamando de cego? Vou contar
ao deputado.
E, unindo o gesto à palavra, desceu do carro e,
de táxi, dirigiu-se à Câmara dos Deputados, onde
conseguiu, com a maior tranquilidade, isenção de
multa, desobrigação do pagamento do conserto e
um bico na Petrobrás.

*
* *

DE PAI PARA FILHO DESDE...

O loteamento ficou quase em família. Os 14 lo-


tes foram vendidos quando não a parentes, a ínti-
mos amigos, de modo que aquela área se tomava
muito familiar. Os lotes seis e sete, por serem vizi-
nhos e terem a mesma metragem, compraram o pai
e o filho. Cada lote media 1.600 metros quadrados
e, juntos, bem davam uma chácara.
O velho deixou para fazer sua casa mais tarde,
que os velhos não têm pressa. Rogério, o filho, mal
passada a escritura, arranjou arquiteto, escolheu o
projeto, comprou material e três meses depois o es-
queleto da casa já estava levantado.
Aos sábados ia com a mulher e os meninos ver
113
o andamento da obra.
— Estou achando esta sala pequena — ele co-
mentava.
— O senhor não sabe o que é uma obra. No ali-
cerce, parece casa de boneca. Depois de tudo pron-
to é outra coisa — lembrou o arquiteto.
— Podíamos, ao lado, fazer outra sala, um es-
critoriozinho pra mim.
— Mas o terreno... — começava a argumentar o
arquiteto...
— O terreno não seria problema. O lote ao lado
não era o sete? Ele falaria com o velho, e este lhe
cederia de bom gosto um metro ou um metro e
meio dos 32 de frente que tinha.
— Mas por que você não faz uma casa no seu
terreno? Ora.
— A planta de minha casa já está aprovada —
mentiu o velho — e eu não vou fazer modificações
na planta só porque você...
— É pra fazer uma salinha pros meninos.
Ah, pra que falou nos netos? O velho, muito
mais avô do que pai, abriu mão, até com um sorri-
so, do metro e cinquenta pedido, porque, ao ter a
concordância do pai, Rogério aproveitou para tirar
mais vinte centímetros, fazendo sua casa, à custa
dos pequenos roubos, aumentar de lado e nos fun-
dos. Deu até para fazer uma piscininha simpática
— em formato de rim — como as piscinas de mau
gosto.
114
— Podia ter um vestiário perto da piscina — in-
sinuou a esposa, um dia.
— Não tem jeito — cortou o arquiteto — por-
que do lado de lá fizemos as dependências dos em-
pregados que a senhora quis que ficassem separa-
das, e, deste lado, tem o muro.
— Afasta-se o muro! — solucionou Rogério
que, se não era dono do muro, era dono dos filhos,
que eram donos do avô.
Levou o filho mais velho, botou o menino na
frente do pai e pediu mais um metro e trinta, dos
trinta e quebrados que o velho tinha. “Dá um beiji-
nho no vovô, o vestiário foi idéia dos meninos...”
Rogério voltou com dois metros a mais. Dois
que, na hora da medição, transformaram-se em três.
O pai não aparecia por lá. Tinha muito o que fa-
zer. A obra do lote oito, já começada, mostrava a
evidência do desmilinguido terreno que sobrava ao
velho. A casa do filho, uma infinita mansão de sa-
las e quartos e copas e saletas.
— Quando dá pra gente mudar? — perguntou a
esposa ao arquiteto, num dos sábados de visita.
— Se não forem feitas mais modificações...
— Modificações, como? Nós fazemos melhora-
mentos. Eu agora estava pensando uma coisa — fa-
lou Rogério. — “Sabe o que a gente podia fazer ali
do lado?”
E voltava à casa do pai, levando o filho e a fi-
lha.
115
— Dá um beijinho no vovô, Rogerinho. Fica
com o vovô um pouco, Sandrinha. Senta no colo do
vovô.
E o vovô, babando com os netos, cedia dois me-
tros para que o filho transformasse em cinco.
A casa do lote oito, embora começada dois me-
ses depois, ficou pronta antes. Bem que Rogério fez
tudo para que o pai não aceitasse o convite do de-
sembargador para a inauguração da casa do lote 8.
Mas o velho foi. E o que viu nem foi a casa do de-
sembargador — aberta aos amigos — nem a casa
do filho que, linda e larga, estendia pelo lote seis e
adjacências. Entre a casa do filho e a do desembar-
gador o velho viu um beco. Com boa vontade, va-
mos dizer que medisse três e meio por 48.
— O que é isso? — perguntou o velho.
— Seu lote — respondeu, baixo, o filho, já cha-
mando o neto para o colo do vovô.
— Não quero neto nenhum. Meu lote é esse
corredor?
— Oh, pai... eu peguei só a terra que o senhor
deu.
No dia seguinte o velho mandou construir um
muro no seu lote.
E não cabia mais do que isso.
Pelo menos, assim garantia que o filho não en-
trasse pelas terras do desembargador, homem a
quem o velho muito respeitava e com quem não
queria atrito.
116
O que ele esquecia é que seu filho Rogério era
casado com a filha do desembargador que, graças
aos “dá um beijinho no vovô”, tinha avançado pe-
los fundos do terreno, nuns fartos 32 metros qua-
drados, para a futura construção de uma sauna.

*
* *

O ATROPELAMENTO

— Sua mulher foi atropelada. Está no Sousa


Aguiar. Vá lá o mais depressa possível. A notícia o
pegou desprevenido. Explicou ao chefe e recebeu
licença de sair. Vestia o paletó no elevador, en-
quanto começava a imaginar o que lhe esperava.
— Atropelada. Mas como...?
A mulher tinha 30 anos, ele, 24. Casara-se há
sete meses e há cinco estava arrependido. Foi apa-
nhado pela inexperiência, iludido pelo sexo fácil,
jamais encontrado.
— Sou viúva — ela disse quando o conheceu.
— Com sede — acrescentou, guardando um sorriso
sem vontade.
Achou isso erótico. Pouco tempo depois estava
envolvido. Os amigos aconselhavam a que pensas-
se melhor.
— Seis anos mais velha do que você.
— Mas não aparenta.
117
— Pode não aparentar, mas é. E quando você ti-
ver 40? Ela terá 46, Gustavinho.
Não sabia porque insistiam em adverti-lo quan-
to à idade de Creusa. Ele era maior, sabia o que fa-
zia.
— Táxi!
Deu o endereço do hospital. O trânsito parecia
ter piorado, querendo que ele chegasse atrasado,
quem sabe com a mulher já...
— Deus queira que não seja tarde.
Disse, lembrando que esta mesma frase tinha
sido dita a ele por um amigo quando participou o
noivado.
— Tarde, por quê?
— Porque se você resolver abrir os olhos...
Mostrou que os olhos estavam abertos, quase
brigaram. Chamava de idiotas aqueles que lhe da-
vam os conselhos imbecis.
— Acaba com isso, Gustavinho.
— Vocês não sabem o que é amor...
Casou na igreja Nossa Senhora do Salete, no
Catumbi. Poucos amigos compareceram. A maioria
achava que não valia a pena ser testemunha de um
suicídio.
Não houve lua-de-mel. Gustavinho queria ir
para Friburgo, mas o pagamento atrasado proibiu
este sonho. Creusa foi compreensiva.
— Lua-de-mel... para que isso? Lua-de-mel é a
vida inteira.
118
A frase caiu bem. Valeu-lhe um beijo. Tudo tão
lindo. Estavam próximos do dia em que comprari-
am um carro.
— Carro! — a palavra o trouxe à realidade.
Seria um carro quem a atropelara? Imaginou um
ônibus e sofreu mais. Se fosse ônibus, dificilmente
poderia escapar.
— Deus me livre.
Bateu na cabeça, querendo afugentar o pensa-
mento ruim. Não admitia a mulher morta. Já não ti-
nha o mesmo encanto antigo, já lhe descobrira de-
feitos, aceitava pareceres contrários, adicionava os
seus aos comentários dos amigos...
— ...e ronca.
— Mentira.
— Quem sabe sou eu, que durmo com ela.
— Eu não disse que...
— Mas não estou arrependido. Ela é bacana co-
migo, é boa pra mim, gosta de mim.
— Tá certo, mas e você — o amigo instigava.
— Você gosta dela?
Demorava a responder que sim, confirmando
que não. Iludia-se, certamente. Mas também era
certo que se acomodava. E a mulher era bamba no
fogão, como sempre dizia.
— Bamba! Um dia você vai lá em casa comer o
cozido que ela faz.
Talvez nunca mais houvesse esta chance. Atro-
pelada. E nem sabia se tinha sido na rua onde mo-
119
rava, na saída do supermercado. Era quinta-feira,
dia de fazer as compras maiores.
— Mais depressa, amigo — pediu ao chofer.
— Só botando asa, gente boa...
O carro de praça cortava o possível, no trânsito
emaranhado, das quatro horas da tarde.
Na Rua de Santana avistou Pereirinha, seu ami-
go do peito. Gritou da janela:
— Pereira! Estás fazendo alguma coisa?
Contou da mulher atropelada, pediu que o ami-
go o acompanhasse ao hospital. Pereira tinha o que
fazer, mas concordou em ir com ele.
— É coisa grave?
— Ninguém sabe.
Pereirinha aventou a possibilidade de a mulher
morrer como grande vantagem para o amigo.
— Bate na boca, Pereira.
— Tá bom, desculpe. É que eu pensei que...
— Não pensa, não pensa, tá falado?
Pereirinha calou-se.
No hospital informaram que Dona Creusa esta-
va na enfermaria 29.
Quis maiores detalhes.
— E... há perigo?
O enfermeiro não se esforçou para disfarçar.
— Perigo? Não há chance de escapar. Fratura
do crânio, com afundamento.
Feito um desesperado, correu em busca da en-
fermaria. Uma servente o conteve à porta.
120
— Não pode entrar.
— Minha mulher vai morrer.
Disse quem era, o nome da esposa, deram-lhe
entrada.
— Aqui.
Havia uma negra na cama indicada.
— Minha mulher é branca.
— A Creusa atropelada foi essa. Se não é essa,
não foi sua mulher que foi atropelada.
Gustavo chorava. Somente Pereirinha percebeu
que o choro não era de alegria.

*
* *

O MACHO

O diálogo não era esclarecedor para ninguém


mais que os dois que o realizavam. Eram marido e
mulher.
— É hoje! — disse o marido.
— Você vai?
— Claro — resumiu a resposta de maneira inci-
siva sem parar para pensar.
— Está com medo?
— E se eu estiver? — inquiriu, desafiante.
— Não faz mal. Eu confio em você.
Ele vestia o paletó sob a observação envaideci-
da da mulher. Era, inquestionavelmente, um ho-
121
mem fora de série. Não que tivesse um físico privi-
legiado ou mente de gênio, mas pela fibra. Era o
homem que nós pensamos ser quando saímos de
um filme da Charles Bronson. Porque há homens
assim, além dos que são filmados em Hollywood.
Ele era um desses.
— Que horas são? — perguntou, enquanto fixa-
va o relógio de bolso.
A mulher informou o minuto exato, e ele saiu
não sem antes a beijar.
— Seja o que Deus quiser... — escutou a mu-
lher dizer em prece, quando já fechava a porta.
O ambiente não predispunha à briga. Pelo con-
trário. Respirava-se uma atmosfera de calma e ha-
via mesmo uma fragrância de lavanda ou coisa pa-
recida que, dependendo da aragem reticente, chega-
va e sumia.
— Alô — foi tudo que disse o outro ao vê-lo.
— Eu vim — falou ele, rebarbativo, como é
costume em todos.
Era como o cumprimento que se dão os boxea-
dores antes da luta. O que era válido, porque ali ha-
veria uma disputa. Os dois devem ter-se dito “que
vença o melhor”, mas nada disseram que se pudes-
se escutar.
Por perto, ninguém. Os motivos para a briga,
aparentemente, não os havia. Eles até pareciam
amigos. Há mesmo quem afirme que os viu juntos
não faz três dias, num bar da cidade, tomando o
122
costumeiro chope do sábado; outros garantem que
costumam pescar e jogar buraco aos domingos com
as esposas em gloriosas e intermináveis parceiradas
a dez centavos o ponto e cinco cruzeiros a partida.
Mas agora, ali naquele momento, nem mulher,
nem caniço, nem chope, nem sorrisos. O morto do
buraco poderia ser trocado por um de verdade, e
este “um” poderia ser ele. Que importava?
E fora tão pouco o que se falaram.
— Alô.
— Eu vim.
Havia uma luz que os romancistas chamam de
tênue, invadindo a sala por uma fresta da janela que
dava para o que os escritores policiais chamam de
principal artéria da cidade.
Ele teve tempo de chegar à janela, de onde espi-
ou a rua.
Lá embaixo a vida corria para o trabalho. Gente
escorria pelas avenidas em volta, pulsando vida nas
veias dos que iam e vinham, sem saber que no déci-
mo oitavo andar de um daqueles prédios, o que ia
começar.
— Alô.
— Eu vim.
— E então?
— Quando quiser...
Não se negue ao contendor — o outro — a co-
ragem e o destemor.
Não é um, são dois bravos. Uma briga sem tes-
123
temunhas. E por que tudo isto? Antipatia gratuita,
talvez; problemas passionais, quem sabe? Esqueça-
mos os motivos. São dois machos. “Made in
Hollywood, of course.” Dois machos, com vanta-
gem para o desarmado, porque tinha em grifo a sua
macheza.
— Pode ser agora — diz o outro, sorrindo, por
ter uma arma a lhe dar confiança para o sorriso que
ostenta.
— Agora — aceita o macho, desarmado, cora-
joso.
O que tem a arma tem a convicção da superiori-
dade.
Mostra uma sensação de gozo por sentir o ho-
mem impossibilitado de uma defesa melhor. Por
isso toma a iniciativa. E nem poderia ser diferente.
Ele o macho maior, desarmado, como já disse, cir-
cunda a mesa. Seus olhos faíscam como que tentan-
do, neste olhar, derrubar o inimigo.
— Nervoso? — indaga, sorrindo, o da arma.
— Por quê? Você está? — responde o macho,
perguntando.
O que tem a arma não se move. O desarmado
encosta-se numa cadeira. Procura o quê? Uma brin-
cadeira? O da arma avança um passo; o sem arma
titubeia um segundo. São duas feras. Uma acua, a
outra luta por não se deixar acuar. O sem arma é
muito valente, mas que adianta se a arma está com
o outro? De que vale seu caratê, se eu tenho uma
124
Mauser?
Há uma batida de carro, na avenida lá embaixo.
Os dois não escutam os ruídos dos ferros que se re-
torcem. Escutam seus corações.
O da arma avança mais um passo, e tudo se
consuma.
— Aiii...
— Tinha que ser. Não dava mais para obturar.
Extrair era a única solução.
Eu, que era o macho, entendi.

*
* *

O SOBRINHO DO NARIZ ABSURDO

Desde que o pai tinha falecido e o tio o abriga-


ra, sistematicamente, à hora do café, do lanche ou
do banheiro, o menino sofria críticas ao seu nariz.
Não era um nariz que se assemelhasse ao de Cyra-
no, nem desses narizes chatos que fazem suas ex-
tremidades buscar um encontro com os lóbulos das
orelhas. Era, apenas, um nariz diferente, que irrita-
va o tio.
— Olha o nariz desse idiota! — criticava o tio à
beira da raiva.
— Que é que tem o meu nariz?
— Tem um buraco a mais, você não sabe? —
voltava o tio, mais irado e mais histérico. — Os na-
125
rizes têm duas narinas; você tem uma narina em ex-
cesso. Isso me incomoda.
Olhando-o, o tio parecia estar vendo um venusi-
ano e, em momento algum, admitia como vantagem
aquele nariz de Science Fiction. Ainda mais na sua
família.
As lágrimas do sobrinho não o convenciam de
que não havia problema naquela narina, digamos
auxiliar.
— Não faz mal, tio. E depois — argumentava o
sobrinho sem querer ofender — só o senhor recla-
ma do meu nariz.
— É que os outros não têm intimidade, não que-
rem meter o nariz onde não são chamados.
— Então me leve a um médico e vamos fechar
este terceiro buraquinho, se o senhor acha que eu
posso viver só com dois.
A idéia foi aceita, e o menino foi levado a um
cirurgião plástico, com o tio entrando na frente para
preparar o terreno e evitar, por parte do médico,
uma surpresa maior diante do nariz absurdo.
— O cliente é meu sobrinho, doutor. Prepare-se
para ver uma coisa incrível, absurda. Uma anoma-
lia.
— Mande entrar o seu sobrinho — ordenou o
cirurgião.
E o menino de três buracos no nariz adentrou-se
pela sala, pondo-se à frente do médico como a exi-
bir orgulhosamente o defeito físico que, apesar de
126
ser congênito, mais parecia uma coisa criada por
artista iniciante.
O médico olhou o menino algum tempo, vi-
rando-lhe o rosto para todos os lados com o leve
auxílio da extremidade dos dedos.
— Muito bem. Qual é o caso dele? — pergun-
tou depois.
— O nariz — respondeu o tio, ao mesmo tempo
em que o menino apontava a terceira narina que
possuía.
— Belo nariz! — elogiou o facultativo.
— O senhor acha? — inquiriu, vaidoso, o meni-
no das três narinas. — É, hoje eu estou resfriado.
— Deixe-me ver mais de perto — pediu o dou-
tor. — Hum... que nariz, meu filho. Olhe que en-
tendo disso, porque opero três, quatro por semana,
mas o seu... Fique de lado. Divino. Vire pra cá. Ma-
jestoso.
— E as narinas? — alertou o tio, numa pergunta
a meia voz. — Já notou as narinas? São três. Três,
já viu?
— É, são três. Que beleza. Você é um privilegi-
ado, meu filho — continuava o doutor, com a cara
enfiada na cara do menino, a observar a inflação
das narinas, todas infladas de fatuidade — um pri-
vilegiado. As flores, para você, têm o aroma verda-
deiro porque nós, pobres possuidores de duas nari-
nas, não temos, nem jamais viremos a ter, a sua ca-
pacidade olfativa. Aspire forte. Que cheiro está
127
sentindo?
— Éter — disse o menino.
— Vê? — disse o médico. — Nós não passa-
mos do álcool.
— É — falou o tio, intrometendo-se na curtição
— mas eu não gosto. Eu o trouxe aqui exatamente
para tapar esta terceira narina.
— Por quê?
— Porque me desagrada — justificou o tio.
— Mas a opinião dele é que importa — senten-
ciou o médico, voltando-se para o menino com uma
pergunta: — “A você desagrada essa narina núme-
ro três?”
— Um pouco, doutor. Não por mim, que já es-
tou acostumado, mas porque não quero ser desagra-
dável para o meu tio. O que o senhor pode fazer em
mim, pelo bem-estar dele?
— Fechar este buraco imoral — sugeriu o tio, a
quem nada tinha sido perguntado.
— Isto, não. Se há o problema da narina, a úni-
ca solução cirúrgica para o caso é a remoção do na-
riz.
— Remova-se-o! — ordenou o tio.
O menino operado reapareceu ao tio somente
quatro semanas após a intervenção, depois de eli-
minadas as bandagens e defeitos dos resquícios
operatórios.
Exibiu-se com vaidade, mostrando seu rosto
desnarigado.
128
— Enstam anquim, tintinho. Enspenro quem o
senhonr tenham gostando dom trabalho dom doun-
tor. — Disse o menino que passava a falar com til
sem agradar o tio.

*
* *

A ESPOSA INSONE

Dona Cândida estava sem sono. Aquela noite


era um videotape das últimas quinze. E, mesmo
acordando cedo, como sempre o fazia, ao começar
o anoitecer o sono ia passando. O marido chamava
de cisma aquela desvontade de dormir.
— Cisma, porque não é com você — reagia
Dona Cândida, realmente cismada.
— Claro que é, Candinha — insistia o marido,
que tratava a mulher no diminutivo, mas sem pôr
nisto carinho.
— Só pode ser cisma. Às seis, sete horas, você
está caindo de sono. Deita pra dormir, o sono passa.
É cuca. Apaga a luz e dá uma forçadinha. Puxa o
sono.
Ela apagou a luz, depois de dobrar o canto da
página de Seleções, marcando o lugar de onde de-
via continuar a leitura amanhã.
Primeiro fechou os olhos com muita pressão.
Depois, aliviou o aperto que imprimia às pálpebras
129
e forçou um relaxamento. Ah, se tivesse tempo fa-
ria ioga.
O marido roncou, poucos minutos depois. Aliás,
já roncava antes da primeira conversa acima descri-
ta. Acordara um instante para tecer suas considera-
ções acerca da cuca da mulher e, luz apagada, vol-
tara aos braços de Morfeu, com cara de anjo. Ele
dormia sorrindo. Dormia muito bonitinho, o marido
de Dona Cândida. Pena, realmente, que ela, mais
uma vez estivesse sem sono.
O marido roncando ao lado incomodava-a um
pouco. Ela religou a luz e retomou a Seleções, onde
se informava sobre a pesca de baleia.
No momento em que a revista ensinava como se
arpoar o mamífero, Dona Cândida escutou o pri-
meiro barulho no andar de baixo. Moravam numa
casa de altos e baixos, na Tijuca. Ela sentiu que era
um ladrão mas, por medo ou comodidade, preferiu
outra hipótese.
— Deve ser um rato — pensou.
De qualquer modo, achou prudente depositar a
revista na mesa de cabeceira e aguçar o ouvido à
espera de novo ruído que, de modo algum, deseja-
va, que se repetisse.
Repetiu-se.
A porta da cozinha, com aquele ruído caracte-
rístico, denunciou que fora aberta, o que eliminava
a hipótese do rato. Em seguida algo tilintou. Já não
poderia haver dúvidas.
130
— Horácio... — ela encostou de leve o cotovelo
no marido, temendo, sabe-se lá, chamar a atenção
do ladrão, se o encostasse com força, como, aliás,
ele merecia.
O marido apenas aconchegou-se melhor. Ela in-
sistiu na catucada, agora de maneira menos cari-
nhosa.
— Horácio! Acorda!
— Hum? — fez o marido, mais dormindo do
que acordado.
— Tem gente lá embaixo — informou Dona
Cândida, num fio de voz. — Ouviu Horácio?
Ele ouvira, mas não valia a pena dizer que sim.
Proferiu novo “hum”, virando para o lado.
— Horácio — perseverou Dona Cândida com
muito medo—, escutei um barulho lá embaixo.
Um tilintar de copo, pareceu.
— Diz agora que não escutou.
— Vai ver os meninos não se deram bem em
Parati e, em vez de voltarem na segunda-feira, vol-
taram hoje — experimentou Seu Horácio.
Não colou. Dona Candinha destruiu a hipótese.
— Se tivessem voltado hoje, não voltariam a
esta hora.
O despertador ao lado avisava que eram quatro
horas da manhã. Ao escutar o ruído seguinte — ar-
rastar leve de cadeira — Dona Cândida fez a suges-
tão.
— Desce, Horácio. Vai ver, senão eu não dur-
131
mo. Ele pensou em dizer que, de qualquer modo,
ela não dormia, mas, felizmente, travou a frase a
tempo. Disse outra.
— Devem ter voltado cedo. Não vieram aqui
porque pensaram que nós estivéssemos dormindo.
Deu fome, um deles desceu para comer qualquer
coisa… — disse com tanta convicção que quase ele
próprio acreditou no que falava.
Lá embaixo uma gaveta foi aberta. O ruído che-
gou com nitidez absoluta. Dona Cândida não falou
nada. Limitou-se a olhar o marido e apontar para o
possível lugar da gaveta aberta lá embaixo. Olhava
numa indagação de “e agora o que me diz disto?”
— Ladrão não faz barulho, Candinha — expli-
cou Seu Horácio, homem de excepcionais argu-
mentos. — Tenha medo do silêncio.
Dona Cândida não podia mais suportar. Tomou
uma deliberação que, aliás, já era repeteco.
— Desce, Horácio. Vai ver, senão eu não dur-
mo.
— Oh, Candinha, se eu levantar, perco o sono, e
amanhã tenho que estar cedo na loja. Isto é uma de-
sumanidade.
— Psiu — pediu Dona Cândida, com o dedo
nos lábios e a mão em concha no ouvido, à cata de
novos barulhinhos. Não demoraram. Escutou pas-
sos no primeiro andar.
— Ouviu? — perguntou com ar de vitória para
sua tese.
132
— Nada — mentiu Seu Horácio. — Você está
ouvindo demais, Candinha.
E ainda bateu com o indicador na própria fron-
te, por preguiça de repetir “cuca”, como, aliás, já
começava a se tornar monótono.
Os passos que Dona Cândida imaginava come-
çaram a subir a escada de madeira. Eram passos de
homem, os que ela imaginava ouvir.
— É um homem.
— E nossos filhos são o quê? Meninas? —
aborreceu-se Seu Horácio, abraçando o travesseiro.
Dona Cândida estava atemorizada. Os passos
cresciam. Eram insofismáveis. Não entendia como
o marido não os escutava. Tentou convencê-lo de
outra forma.
— Horácio, não estou certa de ter passado a
tranca na porta da frente.
— Claro que não passou. Por isso os meninos
puderam entrar — repostou Seu Horácio, argumen-
tador de eficiência louvabilíssima. — Anda, Candi-
nha, dorme.
Os passos chegaram ao andar de cima. Ela sen-
tiu e advertiu.
— Ele já está aqui no corredor, Horácio.
— E do corredor vai entrar no quarto dele. Se
não for o Claudinho é o Walmir. Apaga essa luz,
encucadinha — disse ele, sem resistir ao adjetivo.
Ela obedeceu. Luz apagada, pôs-se de pé, já que
o marido continuava abraçado ao travesseiro, dan-
133
do a impressão de não crer no ladrão, tão claramen-
te em casa. Dona Cândida, em pé no meio do quar-
to, curvava o corpo na direção da porta, perscrutan-
do o corredor por onde vinham os passos na dire-
ção do seu quarto. Os passos pararam.
— Ele vem pra cá. Tem um homem aqui.
— Que livro você está lendo? — perguntou Seu
Horácio, sem se dar ao trabalho de voltar-se para a
mulher. — Aposto que é Agatha Christie de novo.
— Psiu...
— Dorme.
— Tem um homem aqui — insistia a mulher,
lívida, trêmula, falando com voz opaca e o menos
projetada possível. — Tem um homem aqui.
Os passos voltaram a se fazer ouvir no corredor.
Dona Cândida olhou em volta. Escolheu o abajur
de metal. Pôs-se ao lado da porta que esperava ser
aberta a qualquer momento. Podia-se ouvir a sôfre-
ga e sofrida respiração da mulher, embora ela ten-
tasse respirar apenas pela boca, para não denunciar
sua presença ali, junto à porta, abajur levantado,
pronta para o golpe.
O trinco da porta girou devagar. Ela esfriou por
dentro. A porta, começou a se abrir. Dona Cândida
desistiu do abajur. Abaixou a mão que o segurava.
Era incapaz de uma violência.
Escancarou-se a porta, e o filho entrou.
— Oi, mãe! Ué, cadê o pai?
Ela correu à janela e olhou para a calçada, onde
134
Horácio gemia, pela fratura do perônio.

*
* *

O BILHETE DO CACHORRO

Foi visível que o vendedor deixou cair de pro-


pósito aquele bilhete aos seus pés. Fingindo casua-
lidade, o camelô da sorte afrouxou os dedos, e o bi-
lhete 15.719 caiu à frente do José.
— Moço — disse José com muita pureza —
caiu um bilhete do senhor.
O camelô agradeceu, comovido, e, seguindo o
que havia há muito tramado, começou sua conver-
sa.
— A sorte está procurando o senhor. Está ven-
do? O senhor com a sua honestidade, vai ser premi-
ado. É um bilhete que lhe dará o grande prêmio.
— Eu não jogo — repeliu educadamente o ho-
mem.
— Mas isto não é jogo, cavalheiro, é recompen-
sa. É o bilhete do cachorro. O senhor, sendo meu
amigo ao evitar o meu prejuízo, vai ser gratificado
pelo cachorro, o maior amigo do homem.
— E por duas quadras o camelô seguiu — ca-
chorro fidelíssimo — ao lado do homem, com ar-
gumentos e tentativas.
O homem, com a recusa peremptória, atraves-
135
sou a rua, rumo ao banco onde trabalhava.
— Oh maluco! — gritou o motorista do carro
que só não o atropelou graças aos excelentes freios
que possuía. — Não enxerga? Quer morrer, idiota?
— Desculpe — desculpou-se, olhando o carro
cuja placa era KM-0017, dezena do cachorro.
— Cachorro! — ainda acrescentou o motorista,
seguindo seu caminho, deixando o homem com um
cachorro a lhe latir na idéia. Cachorro que o perse-
guiu em incríveis coincidências pelo restante do
dia.
O primeiro cheque que pagou tinha seu número
terminado em 19 (cachorro); a primeira ficha que
entregou a um correntista era de número 20 (ca-
chorro); ele transformou em dinheiro exatamente
2l7 (cachorro) cheques e o último que pagou era
simplesmente cinco milhões.
— Cinquinho. Grupo do cachorro — murmurou
o recebedor do cheque, enquanto enfiava os cruzei-
ros no bolso.
— Este cachorro — monologou o homem a
quem o cão perseguia tentadoramente.
Na ida para casa foi tomando conta das coisas
que lhe vinham acontecendo. Em tudo havia um ca-
chorro — em grupo ou dezena — pelas bandas. Ti-
nha cinco filhos, com o mais velho completando
nesta semana dezoito anos. Dezessete de casado.
Os três filhos menores (meninas) somavam, na ida-
de, vinte anos. Tudo isso era dezena do cachorro. O
136
regime que vinha fazendo lhe garantia uma fome
canina. Levava vida de cão, pois trabalhava há de-
zenove anos e, por estar gripado, a mulher o acusa-
ra de ter tosse de cachorro.
Pela janela do ônibus (número 50.017), José
deu fé do terrível número de cães existentes na ci-
dade. Em cada canto, em todas as esquinas, em inú-
meros postes, incontáveis coleiras, virando latas e
mais latas, cruzando ruas e ladrando aos carros, um
número incontável de caninos.
O dia seguinte era o da loteria. Foi a mulher
quem esclareceu.
— Que dia é amanhã?
— Dia 19.
José sorriu. Sentiu-se um pouco Eduardo de
Madureira, cercado de boxeres e perdigueiros.
Sonhou com cachorros de todas as raças: fox-
terrier, galpo, policial alemão, dálmata, cocker-spa-
niel, basset. Um grande são-bernardo lhe trouxe vi-
nho e uma pequenês muito mansa e muito parecida
com a Betty Davis, foi quem o acordou.
Levantou-se cansado de tantos cachorros a per-
segui-lo em sonho.
— Que horas são?
A mulher informou que eram oito e dez. Ele so-
mou.
— Dezoito.
Da cozinha chegou a voz da cozinheira recla-
mando da filha menor que lhe derramara água
137
quente na mão.
— Esta menina é o diabo!
— Diabo é o cão e o cão é cachorro — ele de-
duziu.
Vestiu a calça sobre o pijama e disparou para a
banca de jornais da esquina, onde sempre havia
muitos bilhetes presos às revistas por pregadores de
roupa. O primeiro que viu o fez tremer: 15.720. O
jornaleiro — que nunca lhe oferecia outra coisa que
jornais e revistas — pela primeira vez fez-lhe um
oferecimento diferente.
— Não vai querer levar o rabo desse cachorri-
nho?
Comprou o bilhete inteiro.
Pelo rádio (faltou ao banco) ficou tomando con-
ta da extração da Federal. No quinto prêmio, leão;
no quarto, borboleta; no terceiro, avestruz, no se-
gundo, vaca...
Primeiro prêmio! — anunciou o locutor, dando
maior ênfase agora — bilhete número quinze mil...
setecentos e quarenta e três. Cavalo!
Daí, ele começou a ficar vermelho, rasgou o bi-
lhete e chorou de raiva.
Na rua, ao sair, a primeira coisa que viu foi um
vira-lata escorando-se num poste e chhhh...
Respingou nele.

*
* *
138
A PEDRA DO FRADE

— Chegaram!
Vítor largou o livro sobre o sofá e correu à jane-
la para observar. De fato, as duas desciam do táxi e
atravessavam a rua, à procura da porta de entrada
do edifício.
— Duas graças. A morena, hoje, está demais.
Vítor não adicionou qualquer comentário ao fei-
to pelo amigo. Limitava-se a pôr seu olho conside-
rado clínico nas vizinhas de Ivan.
— São ou não são o que eu te falei? Olha o par
de pernas. E o charme, amigão. Pára no charme das
duas. Da mais morena, principalmente.
Vítor balançou a cabeça levemente, numa con-
cordância parcial. As duas já desapareciam, entran-
do no prédio. Ivan, com o peito fora da janela, pro-
curava seguir o último passo das vizinhas, já im-
possível de ser observado. Voltou-se quando Vítor
já tinha nas mãos o livro de Carlinhos de Oliveira,
desiludido como o pavão do Cronista de Ipanema.
— Vai me dizer que não gostou das menini-
nhas?
Vítor sentiu que não podia continuar a leitura,
Fez uma pequena dobra no alto da página, deposi-
tou o livro sobre a mesa de cobre fronteiriça ao sofá
e levantou. Era um catedrático quem ia falar. Ivan
sentou para ouvir.
139
— Sabe o que eu acho, Ivan? São menininhas
demais pra mim ou pra você. A mais moça deve ter
16, se tiver. A tua morena nem 20 tem. Acho que
perdi meu tempo. Eu não trabalho com essas
armas.
— Porre — comentou Ivan, dissimulando em
sarcasmo a sua irritação. — Você está de porre, co-
lega. Hoje em dia o negócio não é mais por idade,
companheiro, é por peso. Acima de 45 quilos dá pé.
É por peso, cidadão.
— Infanticídio.
— A vida mudou, distinto. Isso é selva, doutor.
É de quem chegar primeiro, gente fina.
Discutiram meia hora. Ivan destruía o tanto que
lhe convinha os argumentos de Vítor. Tomaram os
uísques que prepararam e, numa incessante troca de
lugares pelos bancos da sala, argumentaram e rear-
gumentaram sobre se era certo ou não jogar a rede
sobre as vizinhas que não conheciam, a não ser de
vista. Sendo que Vítor só as vira naquela tarde,
pelo convite de Ivan.
— Mudaram para o prédio duas menininhas que
são duas joinhas, conterrâneo.
Já era noite quando decidiram comer um fetuc-
cine no Antonio’s.
Ao abrir a porta para sair, a surpresa. As duas
de pé preparando-se para tocar a campainha. O sus-
to foi dos quatro.
— Oh, desculpe — disse a mais morena, aver-
140
melhando-se.
— Não há o que desculpar — falou Ivan, pondo
mel na voz.
— A gente podia usar o telefone? — pediu a
outra.
— Inclusive. Usar o telefone inclusive — ele já
começava.
Deram entrada às vizinhas que se dirigiram ao
telefone, no corredor.
— Vê agora — sugeriu Ivan, falando sem me-
tal.
Vítor observou. O contorno das pernas, o qua-
dril de cada uma, o pescoço fino onde se prendia
uma corrente de prata. A mais morena, de cabelos
curtos, realmente era bem interessante. Quanto à
outra, que Vítor não vira de frente o suficiente, pelo
menos de costas mostrava alguma coisa de simpáti-
co. E os cabelos cortados retos no meio das costas,
lisos e castanhos, eram engraçados, numa definição
portuguesa.
— Dá o maior pé, elegante. E eu já vi na praia,
camarada. Na praia é que estraçalham, caríssimo.
— É... pra quem está parado...
— Pra qualquer um — enfatizava Ivan —, pra
qualquer um, potência.
Desligaram o telefone e mostraram que se iam.
— Já falaram? — era Vítor quem perguntava.
— Está sempre ocupado.
— Espera um pouco e liga depois — sugeriu
141
Ivan, já com a cabeça produzindo coisinhas prová-
veis, agradáveis.
— A gente não quer incomodar — mentiu a
menos morena, agora de frente, num sorriso de
dentes impecáveis.
Vítor, já de opinião mudada, olhava nos olhos
que se fechavam pelo sorriso juvenil. Os olhos
eram traços, no sorriso dela.
Daí, começaram. Ofereceram o sofá e o uísqui-
nho, enquanto davam um tempo para que o telefone
desocupasse. Ficaram as duas no sofá e eles nas
poltronas de frente.
— Aliás — era Ivan — já nos conhecemos há
15 anos e ainda não sabemos nem os nossos nomes.
E é preciso, irmãzinha, porque estamos nesta ilha
deserta, isolados do mundo, não sabemos quando e
nem se um dia um navio nos encontrará, santinha.
As duas acharam graça. Cruzaram as pernas e
se recostaram no sofá.
— Vão ficar — Ivan pensou.
Vítor levantou e foi à janela, representando.
— Nada em volta. Apenas o mar e o céu. Nós
quatro nesta ilha, no meio do Pacífico...
— Não é o Índico? — perguntou a mais morena
com os mesmos dentes, o mesmo risco no lugar do
olho, um pouco de cabelo cobrindo o rosto.
— Que importa, Princesa? — voltou Ivan, dra-
mático. — Nada importa ou interessa nesta hora.
Tudo que há é a ilha de nós, rainha.
142
— A ilha... a ilha é linda — falou a menos mo-
rena, que agora já podia ser indicada como “a do
Ivan”.
— Venha, donzela. Eu vou lhe mostrar tudo da
ilha. Hoje de manhã, enquanto vocês dormiam, per-
corri a ilha toda. É pequena e tem recantos maravi-
lhosos. Vou levá-la à Pedra do Frade.
Tomou-lhe a mão e fez menção de a conduzir
para o interior da casa. A outra estava na janela e
gritou que, ao longe, via uma coisa que parecia um
barco. Ninguém acreditou. Argumentaram que era
impossível, que de noite nada poderia ver. Mas re-
sultaram inúteis os argumentos. Já da porta ela fa-
lou que amanhã voltariam, outro dia voltariam.
— Não podemos sair da ilha. É fatal que nos
encontraremos novamente. Várias vezes teremos
que nos encontrar — disse uma delas.
Foram embora. Os dois se olharam uma fração
de minuto e juntos disseram: “É isso aí”.
— Antes da terça-feira estão na Pedra do Frade,
professor. Mais três dias e já era, catedrático!
Riram-se. Apagaram as luzes e ganharam apeti-
te maior para o fetuccine previsto. Rumaram para o
Antonio’s, não sem antes jogar um beijo mudo para
a porta do apartamento onde as vizinhas moravam.
Eles já sabiam de muitas coisas: da ilha, do navio
que jamais passaria, dos encantos da Pedra do Fra-
de. Apenas ignoravam que da ilha só o telefone em-
prestado importava às vizinhas. Quanto ao mais,
143
uma era suficientemente bastante para a outra.

*
* *

O SINAL AMARELO

Ninguém sabia quem era o culpado. Os dois


carros, com os motores confundidos, numa mistura
de ferros e fios ocasionada pela violenta colisão,
não apenas atravancavam o trânsito, como chama-
vam curiosos ao local.
Eram figuras da maior importância os dois mo-
toristas que, aos berros, discutiam inocência, culpa,
imprudência e imperícia.
— Você é um barbeiro.
— Você é que é um navalha.
Um guarda cem metros à frente, multava o car-
ro de uma senhora estacionado com duas rodas so-
bre o meio-fio.
— Não viu que eu ia dobrar à esquerda?
— Deixei de saber. O sinal estava pra mim.
— Verde com amarelo, sinal de que o sinal ia
fechar. Tanto que pra mim já estava amarelo com
vermelho.
A combinação de cores do semáforo fora a cau-
sadora do choque, era evidente, mas nunca se pode-
ria resolver, naquele momento e naquele local, qual
a combinação válida, se a patriótica (verde com
144
amarelo) ou a alemã (vermelho com amarelo), pois
a isto deve-se juntar o preto em que as coisas fica-
ram.
— Vai pagar o conserto do meu carro.
— Quem vai pagar é você.
Cem metros o guarda entregava o talão à senho-
ra que tinha estacionado com duas rodas sobre o
meio-fio, tempo de entrar na loja e receber um pa-
cote.
— Todos aqui são testemunhas.
Todos deram as costas ao abalroamento, mos-
trando que não era verdade a opinião de um dos im-
plicados na trombada.
Os carros, passando com marcha diminuída, bu-
zinavam e eram buzinados pelos que vinham atrás e
tinham pressa de chegar ao local para também apre-
ciar o desastre.
— Dão carteira a qualquer um! — falou, irrita-
do, o dono do Volkswagen branco.
Um cara sugeriu que se chamasse a perícia, coi-
sa que foi considerada por todos como alta demons-
tração de imperícia por parte do palpiteiro.
— Cada um paga o seu prejuízo, e pronto — in-
sinuou o pedestre.
— Aqui, ó! — responderam, juntos, os dois mo-
toristas, já em mangas de camisa.
Cada um queria que o outro pagasse, o que
mostra que era um acidente igual a milhares que se
dão semanalmente.
145
— E tem uma coisa: se não pagar, meu pai vai
tomar providências — falou um dos implicados na
colisão.
— Pai por pai, eu sou mais eu, meu velho — re-
plicou o outro avermelhando-se.
O guarda, a 50 metros, pediu os documentos a
um chofer de caminhão cujo motor, enguiçado, o
obrigara a parar em local não permitido.
— Meu pai é General, meu chapa.
A frase provocou entreolhares significativos por
parte dos presentes e até alguns comentários.
— Ih, agora engrossou.
— Agora ficou ruim pro verde.
Como não sabiam os nomes dos motoristas, os
presentes tinham resolvido chamá-los pela cor dos
carros. Uma era o verde, o outro, o branco.
— General meu pai também é — disse o bran-
co.
Novos olhares significativos e mais comentá-
rios.
— Agora é que eu quero ver como é que fica.
Havia muitas coincidências. O sinal com amare-
lo para os dois, os fuscas do mesmo ano, a idade
semelhante dos motoristas e a paternidade militar.
O guarda aproximou-se, deixando para multar
mais tarde o Aero-Willys do pneu furado na esqui-
na.
— Qual o problema aí?
Contaram-lhe tudo, falando ao mesmo tempo.
146
Disseram do sinal, do verde, do amarelo double-
face, da imprudência, prejuízo e, afinal, de quem
eram filhos. Falaram juntos, para complicar a solu-
ção que o guarda, por ser autoridade, teria que
achar.
— Sou filho de um General!
A torcida olhou o guarda, cada um tentando adi-
vinhar a resolução que o guarda tomaria.
— Vai dar empate — calculou um cara em rou-
pa de banho de mar.
— Empate não vale! — berrou um crioulo, es-
condendo-se atrás de um senhor gordo, para que
não soubessem ser dele o grito que piorava a situa-
ção do guarda.
— Seu pai é General, né? — perguntou o guar-
da ao verde.
— General-de-Divisão — acrescentou o verde.
— O meu também é General-de-Divisão —
complicou o branco, voltando a empatar a peleja.
— Da ativa — disseram os dois, juntos como se
tivessem combinado falar ao mesmo tempo.
— Agora a porca vai torcer o rabo — falou um
velho de suspensórios e ligas.
O guarda, muito carioca, decidiu.
— Não tem grilo, vamos ver quem é mais Ge-
neral.
Chamou um a um no canto, cochichou. Voltou,
levou o outro para o lado cochichou. Retomou ao
centro dos acontecimentos com a solução, pela qual
147
teria que medir qual dos Generais merecia a vitória.
Com voz elevada comunicou:
— Mede-se!
Os dois (verde e branco) entraram cada um num
táxi e fugiram para evitar o flagrante.

*
* *

O PARQUE, O PARQUE

O homem à janela está impaciente. Consulta o


relógio cada vinte segundos, imaginando que foram
minutos que se passaram.
— Está demorando...
Está. O habitual é a filha chegar antes das qua-
tro e, no entanto, passa de quatro e meia. Pensa em
telefonar para saber da menina. Desiste.
— Não. Vai parecer que...
O homem volta à janela, seu posto de plantão,
olhar travado na esquina por onde deverá surgir,
como sempre, o carro com a filha. Acende o último
cigarro do segundo maço e fica vigiando a chama
que engole o palito. Recusa o refresco que a empre-
gada lhe oferece. É melhor sentar um pouco —
pensa. E o faz, pondo-se inconfortável, sem jeito,
na poltrona de couro. Coça a barba, sob o queixo,
entrelaça as mãos e as aperta entre as pernas, num
quase espreguiçar. Ainda fica nervoso nesses dias.
148
— Quanto tempo faz? — pergunta-se.
Finge ter necessidade de contar nos dedos o que
sabe de cor. Mas conta, até chegar à conclusão des-
necessária. Sempre soube que já faz dois anos.
— Tanta gente se desquita que...
Volta à janela e vê o carro parado à sua porta. A
campainha avisa que alguém chegou.
— Coisa mais linda do pai!
Diz e afoga a menina num abraço comprido,
doido, entrecortado de gemidos agudos. Repete:
— Coisa mais linda do pai!
— Tem bolo de chocolate?
A filha pergunta e ouve a resposta afirmativa,
ao mesmo tempo que a mãe, na frieza habitual quer
saber o costumeiro:
— Ela dorme aqui?
— Quer, minha filha? (A menina faz que sim)
Então, dorme, claro, dorme aqui.
— A que horas você leva a menina amanhã?
— Às dez, está bem?
— Às nove. Ela tem dentista.
E já lhe dá as costas, entrando no elevador, sem
perder tempo de fazer um carinho na filha que só
não é dela aos sábados.
O homem segura a menina pelos ombros e faz
seu olhar penetrar no dela, o que a incomoda um
pouquinho. A filha percebe aquele olhar do pai,
vermelho e molhado. Preocupa-se.
— Que é, pai?
149
— Vamos ao parque — ele diz, levantando-se e
tomando a mãozinha miúda e fria.
— Oba! — ela grita e aperta as perninhas na
cintura dele, como se fosse um menino.
Dois anos!
Parece que foi ontem. Ou parece que foi há vin-
te anos? Não tem importância. Agora, de fato, o
que interessa é o parque, onde as crianças brincam,
felizes como crianças.
— Vamos começar por onde?
— A roda-gigante, papai... eu quero a roda-
gigante, pode?
Vão ao bilheteiro.
— Duas.
— Duas.
Falaram simultaneamente: ele e a jovem senho-
ra com o filho pela mão.
— A senhora primeiro.
— Obrigada.
Ela fala e já se retira com os dois tíquetes na
mão a caminho da entrada da roda-gigante. Ele a
acompanha com o olhar.
— Anda, pai!
Na fila, entre ele e a mulher há um casal abraça-
do. A filha espia, de olho aumentado, o algodão-
doce que o menino come, sujando-se a começar da
testa.
— Quer algodão-doce? — ele propõe à filha.
A menina faz que sim, com água na boca. A
150
mãe do menino vê nisto o momento de retribuir a
gentileza de lhe ter sido cedida a vez no guichê.
— Dá um pouquinho pra ela, Marcelo.
Marcelo obedece. A menina titubeia.
— Aceita, Lina.
Marcelo estende o braço, e Lina faz seus dedos
sumirem no algodão-doce de onde retira farta por-
ção. Lambuza-se. Os pais riem. Olham-se, no sorri-
so.
— Sobrinho? — ele quer saber.
— Filho; sou desquitada — ela tranquiliza.
Embaixo, o algodão-doce é devorado pelos me-
ninos.
Em cima, os pais se devoram no olhar quente
que agora trocam.
— O próximo.
A mulher e o filho sentam no banco que lhes é
apontado. O casal que se beijava percebe e cede a
vez para que o homem e a filha fiquem no banco
imediatamente a seguir. O motor ronca e a terra se
afasta. O banco balança. As crianças fazem pergun-
tas que já não são respondidas. A mulher resiste à
vontade de olhar para trás, de onde o homem a cha-
ma pelo fitar insistente que ela sente na nuca.
— Pode descer, dona.
Obedecem à ordem do rapaz que toma conta da
roda-gigante. Há muito o que falar, mas nenhum
dos dois sabe por onde começar.
— Vou comprar algodão-doce para eles — o
151
homem arrisca, corado.
— Ora.
Ela diz e não insiste na negativa. O homem vol-
ta com três pacotinhos de algodão-doce. Dá um a
cada criança e fica com o outro na mão que treme
um pouco.
— Para mim? — a mulher pergunta, encabula-
da.
— Para nós — o homem responde, temeroso.
O sorriso dela o acalma. Comem sem embara-
ços, com naturalidade e alegria. Como se já fossem
o que somente virão a ser dentro de dois meses.

*
* *

O ESTRANHO DA RUA DO OUVIDOR

— O senhor me permite um segundo?


O homem, bem-posto, aparência de vida tran-
quila e situação financeira estável, recebeu aquela
pergunta de outro homem de roupa modesta, surra-
da. Não pôde evitar a concordância.
— Eu queria a sua atenção por um instante.
Tinha cara simpática e a aparência inescondível
de gente boa.
O homem bem-vestido, abordado em frente à
Tabacaria Pará, na Rua do Ouvidor, concedeu.
— O senhor deseja o que de mim?
152
Lineu hesitou um certo tempo e, então, falou.
— Dinheiro.
— Hein? — foi o que Olavo conseguiu murmu-
rar, apanhado de surpresa pela inesperada franque-
za.
— Dinheiro. Desejo dinheiro. Antes de negar,
só peço que me escute.
Falava manso, fluente, com segurança, apesar
de ter humildade na voz.
Olavo concordou em ouvir.
— Eu parei no quarto ano de Direito. Perdi meu
pai e minha mãe num desastre de automóvel e fi-
quei sozinho no mundo. Não quero que o senhor te-
nha piedade de mim e se conto a morte dos meus
pais é apenas para melhor expor o meu problema.
— Sei, sei. Continue.
Lineu continuou.
— Parei os estudos por falta de recursos. Por in-
crível que lhe possa parecer, não consegui arranjar
um emprego decente. Resolvi, então, depois de tan-
tas frustrações, que o melhor para mim seria ir em-
bora do Brasil. Pretendo viajar para Nova Iorque,
onde tenho amigos com quem troco correspondên-
cia, e obtive, por parte deles, a esperança de conse-
guir por lá qualquer coisa de proveitoso. Por aqui,
confesso, estou desencantado e desalentado.
— Estou ouvindo. Continue.
— O dinheiro de que preciso é para completar
minha passagem para os Estados Unidos. O senhor
153
deve estar achando um abuso eu lhe pedir isso, mas
eu prefiro usar de sinceridade a ficar inventando
mentiras: mulher doente, filho no hospital, morte
de parentes.
Olavo não disse, mas era patente que concorda-
va. Ficou calado um instante, examinando aquele
homem muito estranho, que lhe fazia um pedido
quase inacreditável.
— Prometo que um dia eu pagarei. Não quero
que me dê o dinheiro. Imploro um empréstimo. O
dinheiro, o senhor o terá de volta. E com juros, pos-
so garantir.
Havia, nos olhos do homem que pedia, uma
franqueza quase emocionante. Lisura total. Olavo
acreditou.
— De quanto precisa?
— Faltam-me 125 dólares. Mas não quero que o
senhor me entregue o dinheiro. Eu preferia — no
caso de querer me ajudar — que o senhor fosse co-
migo à companhia de aviação. Os outros dólares
estão comigo — disse — e mostrou um maço de
notas verdes, enquanto as contava.
Foram à Pan American, onde Olavo preencheu
um cheque em cruzeiros correspondente aos 125
dólares.

***

Quinze anos mais tarde, na Rua Gonçalves


154
Dias, Olavo botou atenção num homem que o espi-
ava da calçada oposta. Um homem que não lhe era
estranho. Bem vestido, gravata de seda, sapatos en-
graxados, óculos com aros de prata.
— Aquele cara...
O homem que também o observava partia na
sua direção, exibindo um sorriso de muitos dentes,
mão estendida em atitude amigável, quase fraterna.
— Lembra de mim? — perguntou o homem de
gravata de seda e óculos de aros de prata, com o
sorriso aumentado.
— Acho que sim, mas...
— Eu sou o Lineu.
Recordou ser o mesmo que há quinze anos o as-
sediara na rua pedindo um dinheiro. Olavo já lem-
brava perfeitamente, mas o homem lhe deu maiores
detalhes.
— ...uns dólares para completar a minha passa-
gem para os Estados Unidos, recorda? Lembra que
eu lhe disse que tinha certeza de que seria feliz na
América do Norte?
— Claro, claro — falou Olavo, examinando-o
agora mais detalhadamente, olho no tropical inglês
do terno impecavelmente confeccionado, olho no
colete trespassado, olho na seda da gravata discreta,
olho nos sapatos de couro provavelmente italianos.
— Claro que me lembro muito bem.
— Como vai o senhor? — Lineu perguntou,
com um aperto de mão vigoroso, cumprimento for-
155
te, de quem venceu na vida.
— Vou muito bem.
Olavo quase abriu o bolso onde entrariam, de
volta, não apenas os 125 dólares emprestados, mas
— quem sabe? — muitos outros, entregues como
juros prometidos ou como o agradecimento de que
se julgava merecedor. Era cristalino que aquele
com quem agora falava não era o mesmo Lineu
derrotado de tantos anos passados, mas um vence-
dor. O sorriso, no rosto de Lineu, era imutável,
como se alguém lhe tivesse desenhado a alegria na
cara.
— Muito bem e muito feliz — acrescentou Ola-
vo. — Vejo que o senhor se deu maravilhosamente
nos Estados Unidos.
— Estupendamente. Es-tu-pen-da-men-te —
disse, dividindo as sílabas propositalmente. — E
não devo agradecimentos a ninguém. Somente ao
senhor. Graças aos seus 125 dólares tudo me correu
divinamente.
Olavo achou por bem ser modesto.
— Ora, o que é isso? Eu apenas achei que devia
acreditar no senhor, foi tudo.
— Muito obrigado.
E repetia, emocionado, choro nascendo.
— Muito, muito, muito obrigado.
Houve uma pequena pausa, durante a qual os
dois se estudaram.
Daí, Lineu falou, mais emocionado do que nun-
156
ca, mais simpático do que o imaginável:
— Pois é. Eu agora estou precisando de 380 dó-
lares para ir pra Londres.

*
* *

FEIJOADA NO COPA

CHICO e humor são sinônimos para a maioria


dos brasileiros que o aprecia na televisão, teatro,
cinema, rádio e, desde 1972, em livro também.
A comunicação que se estabeleceu entre o es-
critor e seu público fez com que a cada novo livro
sejam batidos recordes de vendagem, revelando
um novo talento nas letras, como atestam vários
críticos e grandes escritores.
Chico cria personagens em seus contos com a
mesma habilidade de seus tipos dos outros meios
de comunicação, fazendo a ligação imediata entre
o leitor-espectador e o escritor-humorista, ambos
com vida própria, independentes, mas igualmente
brilhantes.
Neste livro as histórias ligeiras predominam,
recolhidas no cotidiano, onde o hábil observador
das situações do dia-a-dia transforma-as em con-
tos, engraçados, melancólicos, anedóticos, pren-
dendo o leitor no prosear simples, de conversa de
esquina, que somente os bons escritores conse-
157
guem fazer.

SOBRE CHICO ANÍSIO ESCREVERAM:

José Cândido de Carvalho

“Seu prosear, sem ipsilones e poréns, vai direto


ao assunto. É simples como um bom dia e alegre
mais que duas bateladas de pardais em fim de tar-
de. Mas com que força segura o leitor pela gola do
paletó! (...) Cá entre nós, Anísio é muito Anísio, de
dar leveza de asa de borboleta aos relatórios da
Caixa Econômica ou aos balancetes da Light. Arti-
manhoso como ele só! Parece um mágico, capaz
de extrair da cartola farelos de luar ou estilhaços
de arco-íris.”

Rachel De Queiroz

“(...); é a capacidade de desenhar às vezes com


um gesto, com uma palavra, com uma simples li-
nha de diálogo, algum tipo humano inesquecível;
esse dom do homem do palco, Chico Anísio o
transporta integral para o livro, onde igualmente
vem a representar um dos seus grandes trunfos.”

Jorge Amado

“Não se trata do humorista Chico Anísio, um


158
dos homens mais importantes do Brasil, figura nu-
merosa multiplicada em dezenas de personagens,
cada qual com personalidade e vida próprias,
hábitos, tom de voz, fisionomia, cacoetes, paixões,
idiossincrasias, uma cidade inteira. (...) Trata-se
de outro Chico Anísio — o escritor, o contista, e
não menos importante que o primeiro. Não menos
importante que o humorista, desejo repetir. Para
saber quem é e o que vale Chico Anísio, sua com-
pleta significação, já agora é necessário somar as
duas faces da criação do fabuloso cearense, a ar-
tística e a literária. (...) Trata-se de um escritor de
indiscutível vocação, contista da melhor estirpe,
excelente. (...) Ficcionista de primeira ordem, do-
tado de extrema sensibilidade, de uma prosa límpi-
da, pleno de amor ao ser humano e à vida.”

*
* *

ÐØØM SCANS
https://doom-scans.blogspot.com.br

159

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