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PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DA PARAÍBA

5ª VARA DA FAZENDA PÚBLICA DA CAPITAL

Processo Nº : 2002012110682-3
Natureza : Ação Ordinária de Cobrança
Autor(a) : RENATA CRISTIANE DE ALMEIDA LIMA
Réu : ESTADO DA PARAÍBA

SENTENÇA

ORDINÁRIA. Policial Civil. Décimo terceiro salá rio.


Antecipaçã o. Base de cá lculo indevida. Prejuízo. Dezembro.
Mês de referência. Procedência parcial do pedido.

Vistos, etc.

RENATA CRISTIANE DE ALMEIDA LIMA, qualificada nos


autos, através de advogado, ajuizou AÇÃ O ORDINÁ RIA em face do Estado da Paraíba, por
seu representante legal.

Alega, em resumo, que recebeu seu 13º salá rio do ano de


2008 com base no mês de novembro, quando deveria ter sido utilizado o mês de
dezembro como referência, mês no qual ocorreu aumento salarial.
Ao final, requer a condenaçã o do Estado no pagamento da
diferença entre o valor pago e o devido como 13º salá rio, em dobro.
Juntou documentos de fls..
Citado (fls.), o Estado da Paraíba apresentou contestaçã o
(fls.), onde argumenta que a antecipaçã o de 13º salá rio deve usar o salá rio vigente como
base de cá lculo, por força do art. 24 da Lei Federal 8.880/94, conforme já decidido nos
tribunais.
Foi apresentada réplica (fls. ).

É o relatório. Decido.

Do julgamento antecipado da lide

Apesar de a causa nã o ser exclusivamente de direito, nã o


observo a necessidade de produçã o de provas em audiência.

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Deste modo, apresenta-se como dever o julgamento
antecipado da lide, conforme previsto no Novo Có digo de Processo Civil, expressamente:

Art. 355.  O juiz julgará antecipadamente o pedido, proferindo sentença


com resoluçã o de mérito, quando:

I - nã o houver necessidade de produçã o de outras provas;

Do mérito

O Estatuto da Polícia Civil (Lei Complementar Estadual


85/08) prevê em seu art. 87 que a gratificaçã o natalina terá como base de cá lculo a
remuneraçã o devida no mês de dezembro.

Além disso, o art. 88 dispõ e que a gratificaçã o deverá ser


paga até o fim do mês dezembro, sem criar dispor sobre possibilidade de antecipaçã o.

A antecipaçã o do 13º salá rio, a princípio, consiste em


benesse para o servidor pú blico, haja vista que o dinheiro com mesmo valor nominal
perde poder de compra, no decorrer do tempo, em funçã o da inflaçã o.

Todavia, no caso em aná lise, o 13º salá rio foi antecipado


desprezando o aumento salarial já previsto em lei, com data certa. Com efeito, a Lei
Estadual 8.558/2008, Anexo I, previa considerá vel aumento nos vencimentos dos
membros da Polícia Civil.

Neste contexto, a antecipaçã o do 13º do salá rio causou


prejuízo aos servidores e rompeu com a expectativa que possuíam de receber a
gratificaçã o natalina devidamente atualizada.

Ressalto, ainda, que o art. 24 da Lei Federal 8.880/94 nã o


possui aplicabilidade ao caso. Além disso, o Estado possui autonomia de disciplinar o
regime jurídico de seus servidores pú blicos.

Por fim, ressalto que o TJPB já apreciou a matéria, chegando


a conclusõ es semelhantes, como se observa:

REMESSA OFICIAL E APELAÇÃ O. AÇÃ O ORDINÁ RIA DE


COBRANÇA. DIFERENÇA REMUNERATÓ RIA. SERVIDORES
PÚ BLICOS ESTADUAIS. INTEGRANTES DA POLÍCIA CIVIL. 13º
SALÁ RIO. ANTECIPAÇÃ O. AUMENTO SALARIAL NO MÊ S DE
DEZEMBRO. DIFERENÇA DEVIDA. INTELIGÊ NCIA DA LEI

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COMPLEMENTAR Nº 58/2003 E DA LEI COMPLEMENTAR N°
85/2008. MANUTENÇÃ O DA SENTENÇA. APLICAÇÃ O DO ART.
557, DO CÓ DIGO DE PROCESSO CIVIL E DA SÚ MULA Nº 253, DO
SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. SEGUIMENTO NEGADO AO
APELO E À REMESSA. - Nos termos do art. 59, da Lei
Complementar nº 58/2003, e do art. 87, da Lei Complementar nº
85/2008, ¿A gratificaçã o natalina corresponde a 1/12 (um doze
avos) da remuneraçã o a que o servidor fizer jus no mês de
dezembro, por mês no de exercício no respectivo ano¿. - Na
hipó tese de pagamento antecipado, se o valor recebido pelo
servidor a título de décimo terceiro salá rio, em razã o de eventual
aumento salarial, nã o corresponder à quele que faria jus no mês de
dezembro do ano respectivo, o mesmo tem direito à diferença
entre remuneraçã o paga e a efetivamente devida. - O art. 557,
caput, do Có digo de Processo Civil, permite ao relator, de forma
isolada, negar seguimento a recurso, conferindo à parte prestaçã o
jurisdicional equivalente a que seria concedida, caso a demanda
fosse julgada pelo ó rgã o colegiado. - De acordo com a Sú mula nº
253, do Superior Tribunal de Justiça, o art. 557 do Diploma
Processual (TJPB - ACÓ RDÃ O/DECISÃ O do Processo Nº
01276113620128152001, - Nã o possui -, Relator DES FREDERICO
MARTINHO DA NOBREGA COUTINHO , j. em 03-10-2014)

AGRAVO INTERNO. REMESSA OFICIAL E APELAÇÃ O CÍVEL.


AÇÃ O DE COBRANÇA. POLICIAIS CIVIS. GRATIFICAÇÃ O
NATALINA. PAGAMENTO REALIZADO MENOR, EM
DESREPEITO AO VENCIMENTO DO MÊ S DE DEZEMBRO.
PRETENSÃ O PREVISTA NAS LEIS COMPLEMENTARES N°
58/2003 E 85/2008. ILEGALIDADE. PRECEDENTES DESTA
CORTE EM CASOS IDÊ NTICOS. APLICAÇÃ O DO ART. 557 DA
LEI ADJETIVA CIVIL. NEGATIVA DE SEGUIMENTO AO
REEXAME NECESSÁ RIO E AO RECURSO APELATÓ RIO.
MANUTENÇÃ O DA DECISÃ O ORA AGRAVADA. SÚ PLICA
MANIFESTAMENTE INFUNDADA. INSISTÊ NCIA.
DESPROVIMENTO DA INSATISFAÇÃ O REGIMENTAL, COM
APLICAÇÃ O DA MULTA DE 10% (DEZ POR CENTO)
PREVISTA NO ART. 557, ~ 2°, DO CÓ DIGO DE PROCESSO
CIVIL. .Art. 87. A gratificaçã o natalina corresponde a 1/12
(um doze avos) da " remuneraçã o a que o servidor fizer jus
no mês de dezembro, por mês de exercício no respectivo
ano." ( Lei Estadual n. 85/2008- Estatuto da Polícia Civil do
Estado da Paraíba). (TJPB - ACÓ RDÃ O/DECISÃ O do Processo
Nº 00358340420118152001, 1ª Câ mara cível, Relator Dr
Ricardo Vital de Almeida ( Juiz Convocado) , j. em 25-03-
2014)

Por fim, inaplicá vel ao caso o pagamento em dobro, com


absoluta ausência de regra nesse sentido.

ANTE O EXPOSTO, atento ao que mais dos autos consta e


aos princípios de Direito aplicá veis à espécie, nos termos do art. 487, I, do NCPC, JULGO

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PARCIALMENTE PROCEDENTE O PEDIDO, nos seguintes termos:

a) CONDENO o ESTADO DA PARAÍBA a pagar à parte


autora a diferença entre o valor recebido como 13º salá rio em 2008 e o que deveria ter
sido pago, considerando como base de cá lculo a remuneraçã o do mês de dezembro de
2008;

b) CONDENO a parte promovida em verba honorá ria na


ordem de 10% (dez por cento) sobre o valor atualizado da causa, nos moldes do art. 85,
§ 4º, III, do NCPC;

c) Considerando a sucumbência parcial, condeno a parte


autora ao pagamento das custas e demais despesas processuais; bem como honorá rios
advocatícios, que arbitro proporcionalmente, com arrimo no art. 85, § 4.º, III do NCPC,
em 10% (dez por cento) do valor atualizado da causa, mas com observâ ncia do art. 98, §
3º, do NCPC (suspensã o condicional do pagamento), devido à gratuidade processual
deferida.

d) Os valores devem ser atualizados pelo IPCA, desde o


pagamento a menor, e acrescidos dos juros aplicados à caderneta de poupança, desde a
citaçã o, nos termos do art. 1º-F, da Lei 9.494/97.1

Sem custas, por ser o sucumbente ente pú blico.

Sentença sujeita reexame necessá rio.

Apó s o decurso do prazo para recurso voluntá rio, remetam-


se os autos ao TJPB.

P. R. I.

Joã o Pessoa, 21 de junho de 2016.

JOSÉ GUTEMBERG GOMES LACERDA


Juiz de Direito Auxiliar

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O art. 1º-F da Lei 9.494/97 foi declarado parcialmente inconstitucional por arrastamento na ADI 4357, quanto
ao índice de correção monetária a ser utilizado. Assim, a partir do julgamento do STF, o STJ (REsp
1.356.120/RS, julg. 14/08/2013, rel. Min. Castro Meira) decidiu que os juros de mora continuam regidos pela
Lei 9.494/97, incidentes desde a citação; mas foi alterada a correção monetária, devendo incidir o IPCA.

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