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Reflexões Diárias de Richard Rohr

Semana 47: Carl Jung


segunda-feira 22 de novembro de 2021.

O Arquétipo de Deus

Pe. Richard compartilha conosco a importância que os arquétipos têm para o


encontro da alma com Deus, que Jung explora em grande profundidade.

A psicologia das profundezas nos diz que nossas vidas são guiadas por imagens
reinantes e subconscientes a que Jung chama de arquétipos. Os arquétipos
junguianos incluem o pai, a mãe, a eterna criança, o herói, a virgem, o velho
sábio, o malandro, o diabo, e a imagem de Deus. De diferentes maneiras esses
arquétipos mantêm-se recorrentes em todo o mundo, e compõem uma parte
daquilo a que chamamos de inconsciente coletivo. Esses padrões fundamentais se
mostram nos sonhos e no comportamento, em todas as culturas, fascinam a
alma, e aparecem em símbolos e estórias que remontam às origens conhecidas da
civilização.
O arquétipo de Deus de Jung é a função da alma que promove a inteireza, que
nos conduz na direção da total autodoação (a algo ou a alguém), e dá início ao
nosso desejo pelo absoluto. Isso nos diz: “Torne-se quem você é. Torne-se tudo o
que você é. Ainda há mais de você a ser descoberto, perdoado e amado”. Nessa
jornada em direção à inteireza psíquica Jung enfatiza o necessário papel da
religião, ou do arquétipo de Deus, na integração dos pares de opostos, incluindo
o consciente e o inconsciente, o um e os muitos, o bem (abraçando-o) e o mal
(perdoando-o), o masculino e o feminino, o eu menor e o Eu Superior. A esse
profundo centro da psique dou o nome de Verdadeiro Eu, o Eu do Cristo, que
aprendeu a habitar conscientemente em união com a Presença em nosso interior
(Jo 14, 17).
Jung entende o inconsciente como sendo a sede do “numinoso” onde vive o Deus
arquetípico. O termo numen do Latim é na verdade um outro termo para o
Divino. Algo que seja numinoso é uma experiência incrível e maravilhosa que te
puxa para um momento de transcendência. Dessa maneira, Jung promove uma
fundação para a redescoberta da alma, e para o duplo reconhecimento de que
essa alma é interior, ainda que seja compartilhada com uma realidade muito
maior. Deus não está apenas aí fora! Esse discernimento essencial supera o hiato
entre a transcendência e a imanência.
Agostinho (354 – 430) dizia praticamente a mesma coisa: “Deus me é mais íntimo
do que sou para mim mesmo”. [1] Mestre Eckhart (1260 – 1327) pregava: “Entre
Deus e a alma ‘não há estranheza, nem distância’.” [2] No entanto, a maioria das
pessoas nunca ouviu ninguém lhe dizer que existe um lugar para onde podemos ir
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que se chama a alma. A alma é o projeto que no interior de todas as coisas
viventes lhes diz o que são, e o que ainda podem vir a se tornar. Quando
conhecemos nesse nível qualquer coisa que seja, nós a respeitamos, protegemos
e amamos. Lamento dizer que grande parte da religião não nos ensina, nem nos
oferece, essa luz essencial. Não nos ajuda a compreender o caráter profundo da
Encarnação, e como Deus escolheu nossa alma para ser o lugar que Deus habita
em modo duradouro. Teríamos feito muito melhor em ajudar outros cristãos a
descobrirem suas almas, em vez de sempre tentar “salvá-los”.

[1] Agostinho, Confissões, III.6.11.

[2] Mestre Eckhart, Induimini Dominum Jesum Christum (Vista-se com o Senhor Jesus
Cristo), Sermão sobre Romanos 13:14.

Adaptado de Richard Rohr, unpublished “Rhine” talk (Center for Action and Contemplation:
2015).

Original em inglês:
Reflexões Diárias de Richard Rohr
Semana 47: Carl Jung

Monday, November 22nd, 2021

The God Archetype


Father Richard shares the importance of archetypes for the soul’s encounter with God,
which Jung explored in great depth.

Depth psychology tells us that our lives are guided by subconscious, ruling images which
Jung calls archetypes. Jungian archetypes include the father, the mother, the eternal child,
the hero, the virgin, the wise old man, the trickster, the devil, and the God image. These
worldwide archetypes just keep recurring in different ways and form part of what he called
“the collective unconscious.” These fundamental patterns show up in dreams and behavior
in every culture, fascinate the soul, and appear in symbols and stories that go as far back in
time as we can go.

For Jung, the God archetype is the soul’s whole-making function that drives us toward
giving ourselves totally to something or someone, and initiates our desire for the absolute.
It says to us: “Become who you are. Become all that you are. There is still more of you to be
discovered, forgiven, and loved.” In the journey toward psychic wholeness, Jung stresses
the necessary role of religion or the God archetype in integrating opposites, including the
conscious and the unconscious, the one and the many, good (by embracing it) and evil (by
forgiving it), masculine and feminine, the small self and the Big Self. I call this deep center
of the psyche the True Self, the Christ Self, which has learned to consciously abide in union
with the Presence within us (John 14:17).

Jung sees the unconscious as the seat of the “numinous,” where the God archetype lives.
The Latin word numen is actually another word for the Divine. Something numinous is an
awesome, wondrous experience that pulls you into a transcendent moment. Jung thus
offers a foundation for rediscovering the soul and recognizing that soul both as within and
yet shared with a much greater reality. God is not just out there! This essential insight
overcomes the gap between transcendence and immanence.

Augustine (354–430) said much the same: “God is more intimate to me than I am to
myself.” [1] Meister Eckhart (1260–1327) preached: Between God and the soul “there is
neither strangeness nor distance.” [2] Yet most people have never been told there is a place
to go to that’s called the soul. Soul is the blueprint inside of every living thing that tells it
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what it is and what it can still become. When we meet anything at that level, we will
respect, protect, and love it. Much of religion, I’m sorry to say, doesn’t teach us or give us
this essential light. It doesn’t help us understand the deep character of the Incarnation and
how God has chosen our soul as God’s enduring dwelling place. We would have done much
better to help other Christians discover their souls instead of always trying to “save” them.

[1] Augustine, Confessions, III.6.11.

[2] Meister Eckhart, Induimini Dominum Jesum Christum (Put on the Lord Jesus Christ),
Sermon on Romans 13:14.

Adapted from Richard Rohr, unpublished “Rhine” talk (Center for Action and Contemplation:
2015).

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