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Os bons morrem jovens?

Os seres humanos não são os únicos animais a exibir

comportamento altruísta (ou aparentemente altruísta). Alguns macacos e cervos,

por exemplo, emitem sinais de alarme para avisar os outros membros do grupo

sobre a aproximação de um predador, mesmo que isso os coloque em situação de

perigo. Entre os insetos sociais, como abelhas e formigas, algumas castas não se

reproduzem, devotando-se inteiramente ao bem-estar da colônia. Não importa que

esse comportamento seja instintivo e não deliberado; o fato importante é que tem o

efeito de promover o interesse dos outros à custa do agente.

A dificuldade em acomodar tal comportamento no âmbito da teoria da evolução de

Darwin é evidente. O principal mecanismo da evolução darwinista é a seleção

natural – a “sobrevivência dos mais aptos”: animais dotados de qualidades que

lhes permitem sobreviver por mais tempo e gerar mais descendentes (na média)

são “selecionados” pela natureza; consequentemente essas qualidades benéficas

(na medida em que são hereditárias) tendem a sobreviver e a se tornar mais

comuns entre a população. Em tais circunstâncias é de esperar que os animais se

comportem de forma a melhorar suas próprias perspectivas de vida, não a de

outros. Nenhuma forma de comportamento poderia ser mais improvável do que o

altruísmo e o autossacrifício para melhorar a perspectiva de sobrevivência de um

agente, por isso podemos imaginar que os animais dispostos a agir

altruisticamente teriam uma grande desvantagem seletiva e seriam rapidamente

eliminados da população pelos membros mais egoístas. O próprio Darwin,

consciente desse problema, resumiu-o em A descendência do homem (1871):

“É extremamente duvidoso que os descendentes de pais mais condescendentes e

benevolentes... fossem criados em maior número do que os filhos de pais egoístas e

traiçoeiros... Aquele que estava pronto a sacrificar a própria vida, em vez de trair

seus camaradas, geralmente não deixava descendentes que herdassem sua nobre

natureza.”

Uma tirania contra a natureza

Um dos mais virulentos e influentes ataques ao altruísmo (e à moralidade convencional em

geral) foi desfechado pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche perto do fim do século XIX. Para

ele, a benevolência era uma “tirania contra a natureza” – uma perversão ou inversão da ordem
natural. Estimulados pela Igreja cristã e movidos pelo ressentimento e pela inveja, o feio e o

fraco iniciaram uma “revolta do escravo” contra o belo e o forte. Intimidados por armas da

moralidade como a culpa e a vergonha, o melhor e o mais nobre são inconscientemente

coniventes com sua própria opressão e escravização, cegos quanto ao seu objetivo natural e

verdadeiro – a vontade de poder.

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