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AFEIÇÕES

RELIGIOSAS
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)Angélica Ilacqua CRB-8/7057
Edwards, Jonathan, 1703-1758
Afeições religiosas / Jonathan Edwards; tradução de Marcos Vasconcelos e Marcelo Cipolla. – São
Paulo : Vida Nova, 2018.
368 p.

ISBN 978-85-275-0782-0
Título original: Religious affections
1. Emoções – Aspectos religiosos – Cristianismo I. Título II. Vasconcelos, Marcos III. Cipolla, Marcelo

17-1072 CDD 248.2


AFEIÇÕES
RELIGIOSAS

Jonathan Edwards

Tradução
Marcos Vasconcelos
Marcelo Cipolla (Terceira parte)
©2018, de Edições Vida Nova
Título original: A treatise concerning religious affections: in three parts
edição publicada pela CHRISTIAN CLASSICS ETHEREAL LIBRARY (www.ccel.org).
Todos os direitos em língua portuguesa reservados por SOCIEDADE RELIGIOSA EDIÇÃES VIDA NOVA Rua
Antônio Carlos Tacconi, 63, São Paulo, SP, 04810-020
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1.a edição: 2018


Proibida a reprodução por quaisquer meios,
salvo em citações breves, com indicação de fonte.
Todas as citações bíblicas sem indicação da versão foram extraídas da Almeida Século 21. Para maior
clareza, as citações com indicação da versão in loco foram extraídas da Almeida Corrigida e Fiel (ACF), da
Almeida Revista e Atualizada (ARA), da Nova Versão Internacional (NVI), da Almeida Revista e Corrigida
(ARC) e da King James Version (KJV).

_____________________________________
DIREÇÃO EXECUTIVA
Kenneth Lee Davis
GERÊNCIA EDITORIAL
Fabiano Silveira Medeiros

EDIÇÃO DE TEXTO
Robinson Malkomes
REVISÃO DA TRADUÇÃO
Marcelo Cipolla (até a segunda parte)
Lenita Ananias

PREPARAÇÃO DE TEXTO
Marcia B. Medeiros
REVISÃO DE PROVAS
Aldo Menezes
GERÊNCIA DE PRODUÇÃO
Sérgio Siqueira Moura

DIAGRAMAÇÃO
Catia Soderi

CAPA
Osíris Designers Gráficos

_____________________________________
Sumário

Prefácio
PRIMEIRA PARTE
Sobre a natureza das afeições e sua importância na religião
SEGUNDA PARTE
Não há sinais inquestionáveis de que as afeições religiosas sejam cheias da
graça nem de que não sejam
I. As afeições religiosas serem mui grandiosas ou de nível elevado não
significa nem uma coisa nem outra
II. As afeições religiosas terem fortes efeitos no corpo não significa que
tenham a natureza da religião verdadeira nem que não a tenham
III. As afeições religiosas capacitarem aqueles que as têm a falar com
eloquência, fervor e prodigalidade das coisas da religião não significa que
sejam cheias da graça nem que não sejam
IV. As afeições religiosas não serem produzidas nem estimuladas mediante
artifícios e habilidades das pessoas não significa que sejam cheias da graça
nem que não sejam
V. As afeições religiosas virem acompanhadas de passagens das Escrituras
trazidas à mente de modo incomum não é nem deixa de ser indicação de
que tais afeições sejam de fato santas e espirituais
VI. As afeições religiosas terem aparência de amor não é prova de que sejam da
salvação nem de que não sejam
VII. As pessoas terem afeições religiosas de várias espécies, todas juntas, não é
suficiente para definir se elas têm alguma afeição da graça
VIII. Consolo e alegria acompanharem convicção e despertamento de
consciência, em determinada ordem, nada pode definir seguramente sobre
a natureza das afeições
IX. As afeições religiosas predisporem as pessoas a dedicar muito tempo à
religião e se envolverem com zelo nas obrigações exteriores do culto não é
nenhum sinal seguro de que as afeições dessas pessoas tenham a natureza
da religião verdadeira, nem de que não a tenham
X. As afeições religiosas causarem forte disposição nas pessoas para louvar e
glorificar a Deus com os lábios não permite saber nada ao certo sobre sua
natureza
XI. As afeições religiosas proporcionarem às pessoas confiança extraordinária
de que a experiência que estão vivendo é divina e de que elas se encontram
em boa condição não é sinal de que essas afeições sejam certas nem de que
não sejam
XII. As manifestações exteriores das afeições religiosas e seus relatos serem
mui tocantes e agradáveis para os piedosos autênticos e assim lhes
conquistar o coração e a generosidade não permite concluir nada acerca da
natureza dessas afeições
TERCEIRA PARTE
Apresentam-se os sinais característicos das afeições genuinamente santas e
cheias da graça
I. As afeições verdadeiramente espirituais e cheias da graça nascem das
influências e operações espirituais, sobrenaturais e divinas no coração
II. O primeiro fundamento objetivo das afeições da graça é a natureza de
amabilidade e excelência transcendentais das coisas divinas tais como estas
são em si mesmas, e não alguma suposta relação que tenham com o
indivíduo ou com seu próprio interesse
III. As afeições autenticamente santas se assentam sobretudo na amabilidade da
excelência moral das coisas divinas
IV. As afeições da graça nascem da mente iluminada rica e espiritualmente para
entender e perceber as coisas divinas
V. As afeições verdadeiramente oriundas da graça são acompanhadas de
sensata convicção espiritual do juízo, da realidade e da certeza das coisas
divinas
VI. As afeições da graça são acompanhadas da humilhação, ou mortificação,
evangélica
VII. Outro ponto em que as afeições da graça se distinguem das outras é o
serem acompanhadas de mudança de natureza
VIII. As afeições genuinamente oriundas da graça diferem das falsas e ilusórias
porque são acompanhadas do espírito semelhante ao do cordeiro e da
pomba e da índole de Jesus Cristo. Em outras palavras, elas geram e
promovem um espírito de amor, mansidão, tranquilidade, perdão e
misericórdia como o de Cristo .
IX. As afeições cheias da graça abrandam o coração e são acompanhadas da
ternura de espírito cristã
X. Outro ponto que difere as afeições verdadeiramente santas e cheias da
graça das afeições falsas é a beleza da simetria e das proporções
XI. Outra diferença importante e muito característica entre as afeições da graça
e as de outra natureza é que, quanto mais elevadas as afeições da graça,
maiores são o apetite e o anseio da alma pelo aumento de realizações
espirituais. As falsas afeições, pelo contrário, bastam-se a si mesmas.
XII. As afeições santas e cheias da graça têm ação e frutos na prática cristã; isto
é, têm sobre o crente que as vive influência e poder capazes de fazê-lo
adotar, como prática e profissão de vida, uma conduta absolutamente
harmoniosa com as normas cristãs e por elas regida.
Prefácio

N ão há pergunta mais importante para a humanidade, nem mais


preocupante para cada indivíduo bem responder, do que estas: “Quais as
características próprias de quem tem o favor de Deus e recebeu o direito às
recompensas eternas que ele concede?”. Ou, o que vem a ser o mesmo: Qual é a
natureza da verdadeira religião? Além disso, em que consistem os sinais
característicos dessa virtude e santidade aceitáveis aos olhos de Deus?”. A
despeito da sua importância e da luz clara e intensa com que a Palavra de Deus
nos orienta nessa questão, não há nenhum outro tema em que os cristãos
professos mais divirjam entre si. Seria interminável enumerar a variedade de
opiniões sobre esse assunto que divide o mundo cristão, o que põe em evidência
a veracidade da declaração de nosso Salvador: “A porta é estreita, e o caminho
que conduz à vida, apertado, e são poucos os que a encontram”.
A reflexão sobre essas questões há muito tem me levado a perscrutar
atentamente o tema com o máximo zelo e diligência de que tenho sido capaz e
com toda a precisão possível na busca e investigação. Trata-se de um assunto a
que minha mente tem se dedicado particularmente desde os primeiros dias em
que comecei o estudo de teologia. Mas o juízo quanto ao êxito de minhas
perquirições deve ser deixado ao critério do leitor deste tratado.
Tenho consciência de quanto é difícil julgar com isenção o objeto deste
discurso em meio à poeira e à fumaça de tal estado de controvérsia em que ora se
encontra a nação sobre problemas dessa natureza. Assim como é penoso escrever
sem parcialidade, também é difícil ler sem parcialidade. Muitos provavelmente
terão o espírito ferido ao descobrir condenada aqui grande parte do que diz
respeito às afeições religiosas. Já outros talvez se abalem com indignação e
desprezo ao encontrarem aqui tanta coisa justificada e demonstrada. É possível
também que alguns estejam prontos para me acusar de incoerente comigo
mesmo por aprovar com tal zelo algumas coisas e condenar com o mesmo zelo
outras tantas. Conforme vim a descobrir, tais são as objeções que alguns têm-me
apresentado desde o início de nossas últimas controvérsias sobre a religião. É
difícil ser amigo zeloso e sincero do que há de bom e glorioso nas recentes e
extraordinárias manifestações e muito regozijar-se nisso; e perceber, ao mesmo
tempo, a tendência maligna e perniciosa do que é mau e opor-se a isso
sinceramente. Todavia, estou plena e humildemente convicto de que jamais
estaremos no caminho da verdade, nem trilharemos uma via aceitável por Deus e
não estaremos dispostos a promover o progresso do reino de Cristo enquanto não
agirmos assim. Na verdade, há algo de muito misterioso nisto, que tanto bem e
tanto mal se mesclem na igreja de Deus, bem como misterioso é, e intriga e
espanta muitos bons cristãos, haver algo tão divino e precioso quanto a graça
salvadora de Deus e a nova e divina natureza habitando no mesmo coração, ao
lado de tanta corrupção, hipocrisia e iniquidade de um santo. No entanto, as duas
coisas são tão misteriosas quanto reais, e nenhuma é novidade nem raridade. Não
é nada novo que, numa época de grande avivamento da religião verdadeira,
prevaleça muito de falsa religião. Também não é novidade surgirem nesses
períodos multidões de hipócritas no meio dos santos genuínos. Assim foi na
grande reforma e avivamento da religião dos dias de Josias — como se lê em
Jeremias 3.10 e 4.3,4 — e também na desmedida apostasia que houve na terra
logo após o seu reinado. O mesmo ocorreu no profuso derramar do Espírito
sobre os judeus nos dias de João Batista, como se observa na enorme apostasia
desse povo logo depois de um despertar tão amplo e das efêmeras consolações e
alegrias religiosas de tantos: “... quisestes alegrar-vos por um pouco de tempo
com a sua luz” (Jo 5.35). Assim foi na notável comoção das multidões com a
pregação de Jesus Cristo: muitos foram os chamados na ocasião, mas poucos,
escolhidos. Da multidão despertada e tocada pela pregação e que vez ou outra se
mostrava fortemente comprometida, cheia de admiração por Cristo e enlevada de
alegria, poucos foram os verdadeiros discípulos que suportaram o golpe das
grandes provações subsequentes e resistiram até o final. Muitos eram como o
terreno pedregoso ou cheio de espinhos, mas relativamente poucos foram como
o solo bom. De toda a colheita, boa parte era palha, que o vento depois
dispersou; e o monte de trigo que restou era relativamente pequeno, como
mostra com largueza a história do Novo Testamento. O mesmo aconteceu no
grande derramamento do Espírito nos dias dos apóstolos, como se lê em Mateus
24.10-13; Gálatas 3.1; 4.11,15; Filipenses 2.21; 3.18,19; as duas epístolas aos
Coríntios; e muitas outras passagens do Novo Testamento. Também foi assim na
grande Reforma contra o papado. Nota-se claramente que em períodos de grande
avivamento da religião, de vez em quando, ocorre à igreja visível de Deus o
mesmo que às árvores frutíferas na primavera. Há miríades de flores, todas belas
e saudáveis e de aparência promissora de novos frutos; muitas, porém, pouco
duram, logo caem e jamais chegam à maturidade.
Não se deve supor, no entanto, que sempre será assim, pois, embora jamais
exista neste mundo nem nos santos aqui pureza absoluta, completamente livre de
qualquer mistura de corrupção, nem ainda na igreja de Deus, sem nenhuma
mescla de hipócritas com santos — ou a combinação de religião falsificada e
manifestações ilegítimas da graça com a religião autêntica e a santidade
verdadeira —, é evidente que chegará à igreja de Deus uma época de pureza
muito maior do que houve em eras passadas, conforme está claro nestes textos
da Escritura: Isaías 52.1; Ezequiel 44.6,7; Joel 3.17; Zacarias 14.21; Salmos
69.32,35,36; Isaías 35.8,10; 4.3,4; Ezequiel 20.38; Salmos 37.9,10,21,29. Uma
importante razão para ser assim é que, nessa ocasião, Deus concederá a seu povo
muito mais luz para distinguir entre a verdadeira religião e suas falsificações.
“Ele se assentará como refinador e purificador de prata; purificará os levitas e os
refinará como ouro e como prata, até que levem ao SENHOR ofertas com justiça”
(Ml 3.3); juntamente com o versículo 18, continuação da profecia do mesmo
bem-aventurado período: “Então vereis outra vez a diferença entre o justo e o
mau; entre o que serve a Deus e o que não o serve”.
É por causa da mistura de religião falsificada com a verdadeira, mistura não
percebida nem distinguida, que o Diabo tem tido, desde o início até hoje, a maior
vantagem contra a causa e o reino de Cristo. É sobretudo por isso que o Maligno
tem prevalecido contra todos os avivamentos da religião que já aconteceram
desde o estabelecimento da igreja cristã. Com tal artifício, ele prejudica muito
mais a causa do cristianismo, durante a era apostólica e depois dela, do que todas
as perseguições, tanto as promovidas por judeus quanto por pagãos. Em todas as
suas epístolas, os apóstolos mostram-se bem mais preocupados com a primeira
perversidade do que com esta última. Foi assim que Satanás prevaleceu contra a
Reforma iniciada por Lutero, Zuínglio e os demais reformadores, obstando o seu
progresso e fazendo-a cair em desgraça dez vezes maior que todas as cruéis,
sanguinárias e antes não conhecidas perseguições da igreja de Roma. Foi com
esse expediente maior que o Maligno prevaleceu contra os avivamentos da
religião ocorridos em nossa nação desde a Reforma. Assim foi que triunfou
contra a Nova Inglaterra, extinguindo o amor e deteriorando a felicidade de seus
defensores cerca de cem anos atrás. E creio ter tido oportunidade suficiente de
ver com clareza que desse modo o Diabo prevaleceu contra o recente grande
avivamento da religião na Nova Inglaterra, tão feliz e promissor no início. É
essa, com todas as evidências, a principal vantagem que Satanás teve sobre nós;
com esse expediente ele nos derrotou. Por causa disso, a Filha de Sião nesta terra
agora jaz ao chão, em circunstâncias tão dignas de pena como ora a
contemplamos: com as vestes rasgadas, o rosto desfigurado, a nudez exposta, as
pernas quebradas, encharcada no sangue das próprias feridas e absolutamente
incapaz de se levantar, e tudo isso logo depois de suas tão recentes alegrias e
esperanças: “Sião estende as mãos, não há quem a console; o SENHOR ordenou
que os vizinhos de Jacó se tornassem seus inimigos; Jerusalém se tornou uma
coisa impura entre eles” (Lm 1.17). Vi o Diabo prevalecer desse mesmo modo
contra dois grandes avivamentos da religião neste país. Satanás continua agindo
com a humanidade assim como agiu desde o princípio. Surgindo como aliado do
estado feliz e paradisíaco em que estavam nossos primeiros antepassados e
fingindo elevar esse estado a níveis ainda mais altos, triunfou sobre eles e os
lançou fora do Paraíso, pondo fim repentino em toda a felicidade e glória que
desfrutavam. Assim também a mesma serpente astuciosa, que com sua sutileza
enganara Eva, desviando-nos da simplicidade que há em Cristo, prevaleceu de
repente privando-nos da bela esperança que desfrutamos algum tempo atrás —
uma espécie de estado paradisíaco da igreja de Deus na Nova Inglaterra.
Depois que a religião é avivada na igreja de Deus, e surgem os inimigos, os
mais empenhados na defesa da causa normalmente têm seus pontos mais
vulneráveis expostos ao perigo. Com a atenção toda voltada para enfrentar a
oposição que se manifesta perante eles e sem dar a devida e zelosa atenção a
seus flancos, o Maligno os ataca por trás, sem ser visto, aplica-lhes uma
punhalada fatal e tem oportunidade de aplicar um golpe mais eficaz e ferir mais
fundo, pois ataca à vontade, livre de toda resistência ou guarda.
Portanto, é provável que continue sendo assim na igreja, toda vez que a
religião for vivificada de modo extraordinário, enquanto não aprendermos a
distinguir com lucidez entre a verdadeira e a falsa religião, entre as afeições e
experiências salvadoras e as multiformes ostentações de aparência esplendorosa
com que são falsificadas. Tais falsificações, quando não discernidas, amiúde têm
consequências extremamente pavorosas. Com isso, o Diabo se satisfaz, fazendo
que a adoração devida a Deus pelas multidões, com a intenção de ser-lhe um
culto agradável e aceitável, seja acima de tudo abominável ao Senhor. Com essas
falsificações, o Maligno engana multidões acerca do estado da alma de cada um,
fazendo as pessoas pensarem que são alguma coisa, quando não são nada. Desse
modo, arruína-as eternamente; e não apenas isso, mas também gera em muitos a
firme certeza de sua eminente santidade, conquanto, aos olhos de Deus, sejam os
hipócritas mais abjetos. Por esses meios, ele sufoca e fere de diversas maneiras a
religião no coração dos santos, obscurecendo-a e deformando com misturas
corrompidas, fazendo que suas afeições religiosas se degenerem
deploravelmente, e às vezes por um período considerável assemelhem-se ao
maná que criou vermes e ficou cheirando mal; além de enredar e perturbar
miseravelmente o entendimento de outros santos e os expor a sérias dificuldades
e tentações, enredando-os numa selva da qual não conseguem sair. Com tais
falsificações, Satanás anima e enche de vigor o coração dos inimigos declarados
da religião, fortalece-lhes as mãos, abastece-os de armas e lhes fortifica o
castelo; ao mesmo tempo, a religião e a igreja de Deus ficam expostas a eles
como uma cidade sem muros. Com isso, ele faz os homens praticarem a
iniquidade pensando que cultuam a Deus, e assim pecarem sem limites, com
fervorosa intrepidez e zelo, com todas as forças. Desse modo, ele leva até os
amigos da religião a fazer inadvertidamente o trabalho dos inimigos, destruindo
a religião de um modo muito mais eficiente que os inimigos declarados,
julgando que estão fazendo-a progredir. Assim o Diabo dispersa o rebanho de
Cristo e os joga uns contra os outros com intenso ardor espiritual, na intenção de
ser zelosos por Deus; e a religião degenera-se pouco a pouco em disputas vãs.
Em meio ao conflito, Satanás desvia as duas partes para longe do caminho reto,
conduzindo-as a extremos opostos, uma à direita e outra à esquerda, conforme as
inclinações de cada uma, ou conforme são mais facilmente levadas e agitadas,
até que a via média correta seja quase totalmente ignorada. Nessa confusão, o
Diabo tem a excelente oportunidade de promover seus próprios interesses e os
fortalecer de modos incontáveis, tomando em suas próprias mãos o governo de
todos e realizando sua vontade. Pelo que se vê das terríveis consequências de
não distinguir a religião falsa da verdadeira, o povo de Deus em geral passa a ter
a mente desequilibrada e perturbada nas coisas da religião sem saber onde firmar
o pé, nem o que pensar e fazer. Assim, muitos são induzidos a duvidar de que a
religião valha mesmo a pena; e a heresia, a infidelidade e o ateísmo prevalecem
com sucesso.
Portanto, cabe-nos a gigantesca incumbência de nos empenhar ao máximo
para discernir com clareza, definir e demonstrar em que consiste a verdadeira
religião. Enquanto não fizermos isso, é de esperar que os grandes avivamentos
da religião não durem muito tempo. Enquanto não fizermos isso, pouco há que
esperar de nossos apaixonados debates em conversas e nos escritos, sem saber
com plena clareza pelo que devemos lutar.
Meu intento é dar minha modesta contribuição e o melhor do meu trabalho
(embora diminuto) para este fim no tratado a seguir, deixando claro, porém, que
minha intenção atual é um pouco diferente da que publiquei antes.
Anteriormente eu pretendia mostrar os sinais característicos da obra do Espírito
de Deus, entre eles suas operações comuns e os salvíficos, mas agora almejo
mostrar a natureza e os sinais das operações da graça do Espírito de Deus,
mediante os quais elas devem distinguir-se de tudo quanto afete a mente dos
homens que não seja de natureza salvadora. Se tiver êxito em meu objetivo, com
um pouco de tolerância, espero que ele venha a promover os interesses da
religião. Além disso, quer eu consiga lançar alguma luz sobre essa matéria, quer
não, e embora minha tentativa corra o risco de ser reprovada nesses dias
capciosos e gravemente críticos, confio que o Deus cheio de misericórdia e graça
aceitará a sinceridade de meu empenho; conto também com a franqueza e as
orações dos verdadeiros discípulos do manso e bondoso Cordeiro de Deus.
PRIMEIRA PARTE
Sobre a natureza das afeições e sua importância
na religião

Pois, sem tê-lo visto, vós o amais e, sem vê-lo agora, crendo, exultais
com alegria inexprimível e cheia de glória (1Pe 1.8).

C om essas palavras, o apóstolo retrata o estado de espírito dos cristãos a


quem escreve, então sujeitos a perseguições. É a essas perseguições que
ele se refere nos dois versículos anteriores, quando fala da provação da fé desses
crentes e das múltiplas provações pelas quais estão sendo afligidos.
Tais provações constituem um benefício triplo para a verdadeira religião, por
elas a sua verdade se manifesta, e ela se mostra de fato a religião genuína. Acima
de tudo, as provações costumam distinguir entre a verdadeira e a falsa religião e
fazer que a diferença entre elas se manifeste com clareza meridiana. Por isso têm
o nome de provações no versículo imediatamente anterior ao texto e em outras
inumeráveis passagens. Elas põem à prova a fé e a religião dos professos para
verificar de que tipo são, assim como o que parece ouro é provado pelo fogo e se
manifesta verdadeiro ou falso. A fé do cristão genuíno, assim testada e
comprovada verdadeira, redunda em “louvor, glória e honra”, como afirma o
versículo precedente.
Desse modo, as provações são um benefício a mais para a verdadeira
religião, pois não somente revelam sua verdade, mas também lhe fazem
manifestar extraordinariamente a genuína beleza e atratividade. A verdadeira
virtude jamais parece tão bela como quando é mais oprimida, e a excelência
divina do verdadeiro cristianismo nunca se mostra tão benéfica como quando
passa pelas maiores provas. É nessas ocasiões que a fé autêntica se mostra muito
mais preciosa que o ouro. Também por causa disso ela redunda “em louvor,
glória e honra”.
Mais uma vez, outro benefício que as provações trazem à religião verdadeira
está em purificá-la e desenvolvê-la. As provações não só manifestam a religião
verdadeira, mas também costumam refiná-la e livrá-la das misturas de falsidade
— que a sobrecarregam e obstruem —, de tal modo que nada mais reste de
espúrio, mas somente o que é verdadeiro. Elas revelam da melhor maneira
possível a atratividade natural da verdadeira religião, como já se disse. E não
somente isso, mas também costumam aumentar-lhe a beleza, proclamando-a e
confirmando-a, tornando-a mais cheia de vida e vigorosa e purificando-a de tudo
quanto lhe obscurece o brilho e a glória. Assim como o ouro provado no fogo é
purificado das ligas com outros metais e de todos os refugos, tornando-se mais
sólido e mais belo, também a fé verdadeira, provada no fogo como o ouro, torna-
se mais preciosa e redunda “em louvor, glória e honra”. No versículo que
antecede o texto, o apóstolo parece ter em vista cada um desses benefícios que as
perseguições representam para a verdadeira religião.
Nessa passagem, o apóstolo observa como a religião verdadeira se
manifestava nos cristãos perseguidos a quem ele escreve e de que maneira os
benefícios da perseguição se mostravam neles; ou que modo de funcionamento
da religião verdadeira atuava neles, de sorte que, sob a perseguição, tal religião
revelava-se autêntica e patenteava-se absolutamente na beleza e atratividade
genuínas, mostrando-se também aumentada e purificada; e tudo isso para
“redundar em louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo”. Naqueles
cristãos em sofrimento, havia duas espécies de atuação, ou exercício, da religião
verdadeira, para as quais o apóstolo chama a atenção no texto, nas quais se viam
tais benefícios.

1. Amor por Cristo. “Pois, sem tê-lo visto, vós o amais.” O mundo se
perguntava que estranho princípio era esse que os levava a se expor a tamanhos
sofrimentos, a abrir mão das coisas visíveis, renunciar a tudo quanto lhes era
caro e agradável, qual era o objeto do sentido. Para as pessoas do mundo ao seu
redor, era como se eles estivessem fora de si, como se tivessem ódio por si
mesmos. Essas pessoas não conseguiam ver nada que as induzisse a sofrer assim,
nem que as fizesse passar por tais provações. Contudo, apesar de não haver nada
visível, nada que o mundo pudesse enxergar, nem nada que os próprios cristãos
vissem com os olhos físicos e, portanto, os inspirasse e sustentasse, ainda assim
eles tinham um princípio sobrenatural de amor por algo invisível; amavam Jesus
Cristo, pois enxergavam com olhos espirituais aquele que o mundo não
enxergava, a quem eles mesmos jamais tinham contemplado com os olhos
físicos.

2. Alegria em Cristo. Conquanto seus sofrimentos exteriores fossem muito


dolorosos, a alegria espiritual interior que sentiam era maior que os sofrimentos.
Essa alegria os sustentava e lhes permitia suportar o sofrimento com bom ânimo.
No que diz respeito a essa alegria, o apóstolo chama atenção para dois
aspectos na passagem: (1) O modo que ela surge, como Cristo, embora invisível,
é o seu fundamento, ou seja, pela fé, a prova das coisas que não se veem: “Pois,
sem tê-lo visto, vós o amais e, sem vê-lo agora, crendo, exultais”; (2) a natureza
dessa alegria: “inexprimível e cheia de glória”. De caráter “inefável”, muito
diferente das alegrias mundanas e dos deleites da carne; de natureza
infinitamente mais pura, sublime e celestial, sobrenatural, verdadeiramente
divina e inexplicavelmente excelente, cuja sublimidade e extraordinária doçura
não encontram palavras que as expressem. De grau também inexprimível, pois
aprouve a Deus conceder-lhes esse santo júbilo com mão generosa e em grande
medida na condição de perseguidos.
A alegria desses cristãos era “cheia de glória”. Embora inexprimível e sem
palavras que a definissem plenamente, algo, porém, podia-se dizer dessa alegria,
e não há frase mais apropriada para representar a sua excelência do que esta:
“cheia de glória”, ou, como está no original, “alegria glorificada”. Ao se
regozijarem com tal alegria, a mente deles se enchia de um brilho glorioso, por
assim dizer, e sua natureza era exaltada e aperfeiçoada. Era o júbilo mais digno e
mais nobre, que não corrompia nem degradava a mente, ao contrário de muitas
alegrias carnais. Antes, embelezava-a e dignificava ainda mais; era o antegozo
da alegria do céu que lhes elevava a alma ao grau de bem-aventurança celestial e
a enchia da luz da divina glória, fazendo-os resplandecer e transmitir um pouco
dessa glória.
Portanto, a proposição, ou doutrina, que extraio dessas palavras é esta:

DOUTRINA. A verdadeira religião, em grande medida, consiste em afeições


santas.
Ao observar e comentar a atuação e diligência religiosa dos cristãos a quem
escrevia, cristãos cuja religião se mostrou verdadeira e correta quando passou
por sua maior prova de qualidade, sendo testada pela perseguição — assim como
o ouro é provado no fogo — e se mostrado não apenas verdadeira, mas também
mais pura e expurgada de escórias e misturas de tudo quanto era falso; quando se
revelou neles no auge de sua genuína excelência e beleza natural e se achou em
louvor, honra e glória, o apóstolo escolhe e destaca as afeições religiosas do
amor e da alegria, que então se manifestavam neles. São essas as práticas
religiosas para as quais ele chama atenção, pelas quais a religião deles se revelou
verdadeira, pura e em sua devida glória.
Neste ponto, quero:

(1) mostrar o que se entende por afeições; e


(2) observar algumas coisas que deixam bem claro que grande parte da
verdadeira religião está nas afeições.

I. Pode-se indagar: o que são as afeições da mente?


Respondo que as afeições não são outra coisa senão as atividades mais
pujantes e sensatas da inclinação e da vontade da alma.
Deus dotou a alma de duas faculdades: uma é a que lhe dá a capacidade de
perceber e conjecturar, ou discernir, ver e julgar todas as coisas; esta se chama
entendimento. A outra é aquela com que a alma não apenas percebe e vê tudo,
mas também é de certo modo inclinada em relação às coisas que vê ou examina,
quer na direção delas, quer na direção oposta; é a faculdade pela qual a alma não
contempla as coisas como uma espectadora indiferente e alheia, mas gostando ou
não gostando, agradando-se ou desagradando-se, aprovando ou rejeitando. Essa
faculdade tem vários nomes. Às vezes é chamada de inclinação e, como diz
respeito às ações determinadas e governadas por ela, é chamada de vontade. A
mente, com relação ao exercício dessa faculdade, muitas vezes é chamada de
coração.
O exercício dessa faculdade é de dois tipos: aquele em que a alma é levada
na direção das coisas vistas, aprovando-as, agradando-se delas e inclinando-se
para elas; ou aquele em que a alma se opõe às coisas que vê, desaprovando-as,
desagradando-se delas, repugnando e rejeitando-as.
Assim como as manifestações da inclinação e da vontade da alma são
variadas, também são muito mais variados seus níveis. Há algumas reações de
agrado ou de desagrado, inclinação ou aversão, em que a alma quase não se
desloca para além do estado de indiferença. E há outros níveis acima desse em
que a aprovação ou a aversão, o prazer ou a repugnância, são mais fortes; são
níveis aos quais podemos cada vez mais nos elevar, até que a alma passe a agir
com vigor e sensatez, suas ações sejam investidas dessa força e (mediante as leis
da união entre corpo e alma estabelecidas pelo Criador) o fluxo do sangue e o
entusiasmo vital comecem a se alterar consideravelmente, de onde muitas vezes
surge uma sensação física, sobretudo no coração e nos órgãos vitais, que são a
fonte dos humores do corpo, de onde ocorre que, no tocante ao exercício dessa
faculdade, quiçá em todas as nações e épocas, a mente é chamada de coração. É
preciso assinalar que é esse exercício mais vigoroso e sensato dessa faculdade
que se chama de afeições.
A vontade e as afeições da alma não são duas faculdades separadas. As
afeições não são essencialmente distintas da vontade, nem diferem dos simples
atos da vontade e da inclinação da alma, mas apenas na vivacidade e no bom
senso do exercício.
É necessário confessar que neste ponto o vocabulário é um tanto imperfeito;
e o significado das palavras, consideravelmente frouxo e vago, não delimitado
com precisão pelo costume, que rege o uso do vocabulário. Em certo sentido, a
afeição da alma não difere em nada da vontade e da inclinação e, seja qual for a
ação, a vontade jamais vai além do grau em que é afetada. Ela não sai do estado
de perfeita indiferença à medida que é afetada de um jeito ou de outro, e não age
nem um pouco a mais do que o devido. Nada obstante, há muitos atos da
vontade e da inclinação que não são comumente chamados de afeições. Em tudo
que fazemos voluntariamente há uma atividade da vontade e da inclinação. É
nossa inclinação que dirige nossas ações, mas nem todas as expressões da
inclinação e da vontade nas ações comuns da vida são normalmente chamadas de
afeições. Todavia, aquilo que em geral se chama de afeições não difere delas em
essência, mas apenas em gradação e modo de expressão. Em todo ato da
vontade, seja qual for, a alma gosta ou não gosta, inclina-se ou não se inclina
para o que tem diante de si. Na essência, isso em nada difere das afeições de
amor e ódio. Se tal gosto ou inclinação da alma por algo tiver um grau elevado e
for vigoroso e cheio de vida, o mesmo ocorrerá com a afeição chamada amor; e a
antipatia e a aversão, se em alto grau, são idênticas à afeição chamada ódio. Em
todo ato da vontade favorável a algo não presente, a alma está inclinada em
alguma medida para esse algo; e essa inclinação, se considerável, é idêntica à
afeição do desejo. E em todo grau do ato da vontade, pelo qual a alma aprova o
que está presente, existe um grau de satisfação; sendo essa satisfação em grau
considerável, o mesmo ocorre com a afeição de alegria e do prazer. Se a vontade
desaprova o que está presente, a alma está em algum grau descontente, e se esse
descontentamento for grande, será idêntico à afeição de pesar e tristeza.
De tal sorte é nossa natureza, bem como as leis que unem corpo e alma, que
não existe nem um caso sequer, nem atividade animada e vigorosa da vontade,
nem inclinação da alma, sem efeito algum sobre o corpo, sem alteração alguma
do fluxo de seus humores nem sobretudo do entusiasmo vital. Por outro lado,
pelas mesmas leis da união entre corpo e alma, a constituição do organismo e o
fluxo de seus humores podem estimular o exercício das afeições. Todavia, a sede
própria das afeições não é o corpo, mas a mente e apenas ela. O corpo humano
não é mais capaz que o tronco de uma árvore de ser sujeito de amor ou ódio,
alegria ou pesar, temor ou esperança, assim como esse mesmo corpo é incapaz
de pensar e entender. Do mesmo modo que só a alma tem ideias, assim também
só a alma se agrada ou se desagrada de suas ideias. Assim como somente a alma
pensa, também somente ela ama ou odeia, alegra-se ou se entristece com seus
pensamentos. Tampouco esses mecanismos da vitalidade e dos humores do
organismo são algo que pertença propriamente à natureza das afeições, embora
sempre as acompanhem no presente estado, mas são apenas efeitos ou
movimentos concomitantes das afeições, completamente distintos das afeições
em si e de modo algum essenciais a elas, de tal modo que um espírito sem corpo
pode ser tão capaz de sentir amor ou ódio, alegria ou tristeza, esperança ou
temor, ou outras afeições, quanto um espírito unido ao corpo.
Fala-se muitas vezes de afeições e paixões como se fossem a mesma coisa.
Contudo, no uso mais comum e em certo aspecto, há uma diferença. Afeição é
uma palavra que, em seu sentido corriqueiro, é mais abrangente do que paixão. A
primeira é empregada para designar todo ato vigoroso e dinâmico da vontade ou
inclinação, ao passo que a segunda, paixão, usa-se para designar as atitudes mais
súbitas, cujos efeitos sobre o entusiasmo vital são mais violentos, em que a
mente está mais subjugada e tem menos autodomínio.
Assim como todas as atividades da inclinação e da vontade consistem em
aprovar e gostar ou desaprovar e rejeitar, as afeições também são de duas
espécies: aquelas em que a alma é atraída pelo que tem diante de si, ligando-se a
isso, ou buscando; ou aquelas em que a alma se antipatiza pelo que tem diante de
si e a isso se opõe.
Da primeira espécie são o amor, o desejo, a alegria, a gratidão e a
benevolência. Da segunda espécie são o ódio, o medo, a ira, o sofrimento e
congêneres, cuja definição é desnecessária agora.
Algumas outras afeições são um misto das espécies que acabei de mencionar
de atitudes da vontade. Assim como na afeição da compaixão, há algo da
primeira espécie em relação a quem sofre e algo da segunda espécie em relação a
quem o faz sofrer. O mesmo ocorre com o zelo, em que existe alta aprovação de
alguém ou de algo, juntamente com vigorosa oposição ao que se entende ser
contrário a ela.
Outras afeições mistas poderiam ser mencionadas, mas apresso-me na
direção do segundo ponto proposto:
II. Observar algumas coisas que deixam claro que a religião verdadeira, em
grande medida, consiste em afeições. E aqui:

1. O que se disse da natureza das afeições deixa isso evidente, e talvez baste,
sem nada acrescentar para extinguir toda e qualquer dúvida sobre a questão; pois
quem negará que a religião verdadeira consiste em grande medida em atos
enérgicos e animados da inclinação e da vontade da alma ou em manifestações
fervorosas do coração?
A religião que Deus exige e aceita não consiste em anseios débeis,
enfadonhos e sem vida, que pouco nos elevam acima do estado de indiferença.
Em sua Palavra, Deus nos insta com veemência que sejamos sinceramente bons,
de espírito fervoroso e de coração fortemente comprometido com a religião:
“Sede fervorosos no espírito. Servi ao Senhor” (Rm 12.11); “Ó Israel, o que é
que o SENHOR, teu Deus, exige de ti agora, exceto que temas o SENHOR, teu
Deus, que andes em todos os seus caminhos e ames e sirvas o SENHOR, teu Deus,
de todo o coração e de toda a alma?” (Dt 10.12); e “Ouve, ó Israel: O SENHOR,
nosso Deus, é o único SENHOR. Amarás o SENHOR, teu Deus, de todo o teu
coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças” (Dt 6.4,5). Esse
compromisso vigoroso e cheio de fervor do coração com a religião é o fruto da
verdadeira circuncisão do coração, ou a regeneração verdadeira, e tem consigo a
promessa de vida: “O SENHOR, teu Deus, circuncidará o teu coração, e o coração
da tua descendência, a fim de que ames o SENHOR, teu Deus, de todo o teu
coração e com toda a alma, para que vivas” (Dt 30.6).
Se não tivermos compromisso sério com a religião, e nossa vontade e
inclinação não atuarem com energia, não seremos nada. As coisas da religião são
tão grandiosas que as atividades do nosso coração só lhes são compatíveis em
natureza e importância se forem intensas e cheias de vigor. Em nada o vigor dos
atos de nossas inclinações é mais indispensável do que na religião; e em nada a
indiferença é mais odiosa. A verdadeira religião é sempre algo muito poderoso; e
o seu poder revela-se em primeiro lugar nas atividades internas de seu coração,
sua sede principal e original. Por isso a verdadeira religião se chama o poder da
piedade, diferentemente das aparências exteriores, que são a sua forma: “Com
aparência de religiosidade, mas rejeitando-lhe o poder” (2Tm 3.5). O Espírito de
Deus naqueles cuja religião é salutar e sólida é um espírito de santa e poderosa
afeição. Por isso se diz que Deus lhes deu o espírito “de poder, de amor e de
moderação” (2Tm 1.7). E se diz que tais pessoas, quando receberam o Espírito
de Deus com sua influência santificadora e salvadora, “foram batizadas com o
Espírito Santo e com fogo”. Por causa do poder e do fervor da ação que o
Espírito de Deus lhes desperta no coração, pode-se dizer que, quando a graça
age, o coração lhes “arde” dentro do peito — como se disse a respeito dos
discípulos (Lc 24.32).
A atividade da religião de tempos em tempos é comparada às práticas em
que os homens costumam ter consideravelmente empregados e comprometidos o
coração e a força, práticas tais como correr, lutar ou competir por um grande
prêmio ou uma coroa, combater inimigos poderosos que nos procuram tirar a
vida e fazer guerra à semelhança daqueles que conquistam uma cidade ou um
reino pela violência.
Conquanto a verdadeira graça tenha vários níveis e alguns cristãos sejam
apenas bebês em Cristo — crentes cujo exercício da inclinação e da vontade para
as coisas divinas e celestiais é relativamente fraco —, todo aquele que tem no
coração o poder da piedade tem as inclinações e o coração voltados para Deus e
as coisas divinas com tal força e vigor que essas santas atividades prevalecem
nele acima de todas as afeições naturais, ou da carne, e são eficientes para vencê-
las. Uma vez que todo discípulo verdadeiro de Cristo “ama-o mais do que a pai e
mãe, mulher e filhos, irmãos e irmãs, casas e terras; ama-o mais até do que a
própria vida”, é possível deduzir que, onde quer que haja a verdadeira religião,
haverá o exercício vigoroso da inclinação e da vontade em relação aos objetivos
divinos. Porém, pelo que já foi dito, as atividades vigorosas, intensas e
manifestas da vontade não são outra coisa senão as afeições da alma.

2. O Autor da natureza humana não só dotou os indivíduos de afeições, mas


também fez delas em grande parte a fonte das ações humanas. Assim como as
afeições não apenas pertencem necessariamente à natureza humana, mas
constituem boa parte dessa natureza, as afeições santas (tendo em vista que pela
regeneração os indivíduos são renovados em pessoas íntegras e completamente
santificadas) não só pertencem necessariamente à religião verdadeira, mas
também constituem boa parte dela. Além disso, como a religião verdadeira é de
natureza prática, e Deus constituiu a natureza humana de modo que as afeições
sejam a mola mestra das ações dos homens, isso também mostra que a religião
verdadeira tem de consistir em grande medida nas afeições.
A natureza do ser humano é tal que, se ele não for influenciado por alguma
afeição — quer de amor ou ódio, quer de desejo, de esperança, quer de temor ou
qualquer outra —, ele permanece inativo. Como vemos, essas afeições são a
mola que põe o ser humano em ação em todos os assuntos da vida e o faz
comprometer-se em todos os seus empreendimentos. São elas que o fazem
avançar e o conduzem em todos os seus negócios deste mundo; e o ser humano
fica particularmente empolgado e animado com elas, em todos os negócios em
que está seriamente envolvido e os busca com vigor. Observamos que o universo
humano é excessivamente ocupado e ativo, e as afeições de cada um são a mola
desse movimento. Eliminem-se todo o amor e ódio, toda a esperança e todo o
temor, toda a ira, todo o zelo e o desejo apaixonado, e o mundo será em grande
parte imóvel e morto; não haveria nenhuma dessas atividades na humanidade
nem busca zelosa por coisa alguma. As afeições fazem o cobiçoso e o sôfrego
por lucros mundanos empenharem-se em suas buscas; fazem o ambicioso
perseguir a glória mundana; e movem também os libidinosos em sua busca de
prazeres e deleites sensuais. De geração em geração, o mundo segue em
constante agitação e tumulto na busca dessas coisas; porém, excluídas todas as
afeições, a mola de todo esse movimento deixaria de existir, e o próprio
movimento cessaria. E assim como nos assuntos deste mundo, as afeições
próprias dele são a mola principal do movimento e das ações humanas, bem
como nas questões religiosas a mola de suas atividades são as afeições
religiosas. Aquele que só tem conhecimento doutrinal e especulativo, sem
afeições, jamais se comprometerá com a religião.
3. Com efeito, nada é mais patente do que as coisas da religião se
apoderarem da alma do ser humano tanto quanto a influenciam. Multidões
muitas vezes ouvem a Palavra de Deus e com isso tomam conhecimento de
coisas infinitamente grandiosas e importantes que muito de perto lhes dizem
respeito, e tudo quanto ouvem parece não ter efeito nenhum sobre elas nem lhes
causar a mínima mudança de disposição e conduta. Isso porque nenhuma dessas
pessoas é afetada pelo que ouve. Muita gente ouve amiúde sobre as gloriosas
perfeições de Deus, de sua onipotência e ilimitada sabedoria, de sua majestade
infinita e de sua santidade, pelo que ele é tão puro de olhos que não pode ver o
mal, nem contemplar a iniquidade; nem mesmo os céus são puros a seus olhos.
Essa gente ouve sobre a bondade e a misericórdia infinitas de Deus e sobre suas
excelentes obras de sabedoria, poder e benignidade, nas quais se veem as
manifestações admiráveis dessas perfeições; tais pessoas ouvem especialmente
sobre o inefável amor de Deus e de Cristo, e sobre os grandes feitos e
sofrimentos do Salvador, sobre as grandiosidades de outro mundo, sobre o
tormento eterno de suportar a fúria e a ira do Deus todo-poderoso, sobre a
infindável bem-aventurança e glória na presença de Deus e no fruir de seu terno
amor. Essa gente também ouve os mandamentos peremptórios de Deus, seus
conselhos e advertências graciosos e o doce convite do evangelho. Digo que tais
pessoas sempre ouvem tudo isso, mas continuam como antes sem nenhuma
alteração perceptível, seja no coração, seja em sua prática, pois não são
sensibilizadas pelo que ouvem, e sempre será assim até que sejam afetadas. Ouso
dizer que jamais ocorreu nenhuma mudança considerável na mente ou na
conduta de nenhuma delas, por nada de natureza religiosa que tenha lido, ouvido
ou visto, que não lhes tenha comovido as afeições. Nunca nenhum homem
natural buscou séria e diligentemente sua própria salvação, nunca nenhum
clamou por sabedoria, alçou a voz pedindo entendimento ou lutou com Deus em
oração suplicando misericórdia, tampouco nenhum jamais foi humilhado e
trazido aos pés de Deus por coisa alguma que tenha ouvido ou imaginado de sua
própria indignidade e de que merece a indignação de Deus. Nenhum, tampouco,
foi induzido a buscar refúgio em Cristo enquanto ainda tinha o coração
inalterado. Também nunca nenhum santo foi despertado da condição de chama
fria e exânime, nem se recuperou de um estado de decadência na religião e foi
trazido de volta de um lamentável afastamento de Deus sem que tenha tido o
coração afetado. Resumindo, jamais se realizou nada significativo, pelas coisas
da religião, no íntimo ou na existência de nenhum vivente cujo coração não
tenha sido profundamente afetado por tais coisas.

4. Em toda parte, as Sagradas Escrituras situam a religião principalmente nas


afeições, tais como o medo, a esperança, o amor, o ódio, o desejo, a alegria, o
pesar, a gratidão, a compaixão e o zelo.
As Escrituras situam muito da religião no temor piedoso, de tal modo que
este é muitas vezes identificado com o próprio caráter das pessoas
verdadeiramente religiosas, que tremem ao ouvir a Palavra de Deus, temem
perante ele e têm a carne trêmula de medo dele, pessoas que receiam o juízo de
Deus, cuja excelência lhes infunde assombro e seu terror cai sobre elas, entre
outras coisas. Além disso, uma designação comum atribuída aos santos nas
Escrituras é “tementes a Deus” ou “aqueles que temem o Senhor”. Uma vez que
o temor de Deus constitui grande parte da piedade verdadeira, em geral é muito
comum a piedade verdadeira ser chamada de o temor de Deus, como sabem
todos quantos conhecem um pouco da Bíblia.
Por isso as Escrituras muitas vezes tratam a esperança em Deus e nas
promessas da sua Palavra como parte considerável da religião verdadeira,
mencionando-a como um dos três importantes fatores em que a religião consiste
(1Co 13.13). A esperança no Senhor também é frequentemente apontada como o
caráter dos santos: “Bem-aventurado aquele que tem o Deus de Jacó como seu
auxílio e cuja esperança está no SENHOR, seu Deus” (Sl 146.5); “Bendito o
homem que confia no SENHOR, cuja esperança é o SENHOR” (Jr 17.7); “Sede
fortes e corajosos, todos vós que esperais no SENHOR” (Sl 31.24), e outras
referências semelhantes em outras partes. O temor religioso e a esperança muitas
vezes se juntam, como se a combinação deles constituísse o caráter dos
verdadeiros santos. “Os olhos do SENHOR estão sobre os que o temem, sobre os
que esperam pelo seu amor” (Sl 33.18). “O SENHOR se agrada dos que o temem,
dos que esperam no seu amor” (Sl 147.11). A esperança é uma porção tão
considerável da religião verdadeira que o apóstolo chega a afirmar que somos
“salvos na esperança” (Rm 8.24), à qual ele se refere como capacete do soldado
cristão: “Tendo por capacete a esperança da salvação” (1Ts 5.8). A esperança é a
âncora firme e segura da alma, que a impede de ir a pique nas tempestades deste
mundo maligno: “Essa esperança é para nós âncora da alma, segura e firme, que
entra no lugar interior, além do véu” (Hb 6.19). É mencionada como fruto e
benefício grandiosos, concedidos aos santos verdadeiros pela ressurreição de
Cristo: “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos
regenerou para uma viva esperança, segundo a sua grande misericórdia, pela
ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos” (1Pe 1.3).
As Escrituras atribuem à religião em grande medida a afeição do amor, do
amor a Deus e ao Senhor Jesus Cristo, e amor ao povo de Deus e à humanidade.
Os textos em que isso se expressa, tanto no Antigo Testamento quanto no Novo,
são inúmeros. Sobre isso veremos mais adiante.
A afeição oposta, o ódio, cujo alvo é o pecado, também é mencionada nas
Escrituras como parte não desprezível da religião verdadeira. O ódio é citado
como o meio pelo qual se pode conhecer e distinguir a religião verdadeira: “O
temor do SENHOR é odiar o mal” (Pv 8.13). Do mesmo modo, os santos são
convocados a dar provas de sua sinceridade mediante essa afeição: “Vós que
amais o SENHOR, detestai o mal” (Sl 97.10). O salmista muitas vezes o menciona
como prova de sua sinceridade: “Viverei em minha casa com o coração íntegro.
Nunca me voltarei para a desonestidade. Detesto o que os homens maus fazem;
não participarei disso!” (Sl 101.2,3); “... rejeito toda vereda de falsidade” (Sl
119.104). O mesmo no versículo 128. Novamente em Salmos 139.21: “SENHOR,
não odeio eu os que te odeiam? Não detesto os que se levantam contra ti?”.
O desejo santo, manifestado em anseios, fome e sede de Deus e de santidade,
também é mencionado com frequência nas Escrituras como parte essencial da
verdadeira religião: “SENHOR [...], o teu nome e a tua reputação são o desejo da
nossa alma” (Is 26.8); “Pedi uma coisa ao SENHOR, e a buscarei: que eu possa
morar na casa do SENHOR todos os dias da minha vida, para contemplar o
esplendor do SENHOR e meditar no seu templo” (Sl 27.4); “Assim como a corça
anseia pelas águas correntes, também minha alma anseia por ti, ó Deus! Minha
alma tem sede de Deus, do Deus vivo; quando irei e verei a face de Deus?” (Sl
42.1,2); “Minha alma tem sede de ti; meu ser anseia por ti em uma terra seca e
exaurida, onde não há água. Assim, eu te contemplo no santuário” (Sl 63.1,2);
“Ó SENHOR dos Exércitos, como os teus tabernáculos são amáveis! Minha alma
suspira e desfalece pelos átrios do SENHOR; meu coração e meu corpo clamam
pelo Deus vivo” (Sl 84.1,2); “Minha alma se consome no anseio constante por
tuas ordenanças” (Sl 119.20). O mesmo desejo é mencionado em Salmos 73.25,
143.6,7, 130.6 e Cântico dos Cânticos 3.1,2 e 6.8. No início do Sermão do
Monte, Cristo fala desse mesmo desejo e dessa mesma sede como algo que
caracteriza uma pessoa verdadeiramente abençoada: “Bem-aventurados os que
têm fome e sede de justiça, pois serão saciados” (Mt 5.6). Apocalipse 21.6
mostra que essa sede santa é excelente como condição para tomar parte das
bênçãos da vida eterna: “A quem tiver sede, darei de beber de graça da fonte da
água da vida”.
As Escrituras falam da alegria santa como parte fundamental da religião
verdadeira; é assim que o texto sagrado a representa. Como parte essencial da
religião, ela é sempre enfatizada e fomentada com vigor: “Agrada-te também do
SENHOR, e ele satisfará o desejo do teu coração” (Sl 37.4). “Ó justos, alegrai-vos
no SENHOR” (Sl 97.12). “Regozijai-vos no SENHOR, vós, justos” (Sl 33.1).
“Alegrai-vos e exultai” (Mt 5.12). “Meus irmãos [...], alegrai-vos no Senhor”
(Fp 3.1); e “Alegrai-vos sempre no Senhor; e digo outra vez: Alegrai-vos!” (Fp
4.4). “Alegrai-vos sempre” (1Ts 5.16). “Alegre-se Israel naquele que o fez;
regozijem-se os filhos de Sião no seu Rei” (Sl 149.2). A alegria é contada entre
os principais elementos do fruto do Espírito da graça: “Mas o fruto do Espírito é:
amor, alegria” etc. (Gl 5.22). O salmista menciona sua alegria santa como prova
de sua sinceridade: “Alegro-me tanto no caminho dos teus testemunhos quanto
em todas as riquezas” (Sl 119.14).
O pesar religioso, o pranto e o quebrantamento do coração também são
citados como parte significativa da religião verdadeira. Esses sentimentos são
quase sempre mencionados como qualidades características dos santos genuínos
e parte predominante do seu caráter: “Bem-aventurados os que choram, pois
serão consolados” (Mt 5.4); “O SENHOR está perto dos que têm o coração
quebrantado; ele salva os de espírito arrependido” (Sl 34.18); “o SENHOR me
ungiu para [...] restaurar os de coração abatido [...], consolar todos os tristes” (Is
61.1,2). Afirma-se com frequência que esses sentimentos piedosos de pesar e
quebrantamento de coração não são apenas algo excelente no caráter próprio dos
santos, mas também são em si mesmos particularmente aceitáveis e agradáveis a
Deus. “Sacrifício aceitável para Deus é o espírito quebrantado; ó Deus, tu não
desprezarás o coração quebrantado e arrependido” (Sl 51.17); “Porque assim diz
o Alto e o Sublime, que habita na eternidade e cujo nome é santo: Habito num
lugar alto e santo, e também com o contrito e humilde de espírito, para vivificar
o espírito dos humildes e o coração dos contritos” (Is 57.15); “Mas darei atenção
a este: ao humilde e contrito de espírito, que treme diante da minha palavra” (Is
66.2).
Outra afeição mencionada amiúde, por revelar muito da verdadeira religião
quando exercida, sobretudo na ação de graças e no louvor a Deus, é a gratidão.
Alude-se muito à gratidão no livro de Salmos e noutras partes das Sagradas
Escrituras, de modo que nem é preciso citar textos específicos. De novo,
reiteradas vezes as Sagradas Escrituras referem-se à compaixão, ou misericórdia,
como um elemento essencial e grandioso na religião verdadeira, de modo que as
pessoas boas são assim denominadas nas Escrituras. Homem misericordioso e
homem bom são termos equivalentes nas Escrituras. “Perece o justo, e não há
quem considere isso em seu coração, e os homens compassivos são recolhidos,
sem que alguém considere que o justo é levado antes do mal!” (Is 57.1, ACF). E
a Escritura escolhe especificamente essa qualidade como a que retrata de modo
particular um justo: “O justo se compadece e dá” (Sl 37.21) e “Ele é sempre
generoso e empresta” (v. 26); “Quem oprime o pobre insulta seu Criador, mas
dá-lhe honra quem se compadece do necessitado” (Pv 14.31); “Como santos e
amados eleitos de Deus, revesti-vos de um coração cheio de compaixão” (Cl
3.12) etc. Essa é uma das grandes virtudes com que nosso bendito Salvador
define os verdadeiramente abençoados: “Bem-aventurados os misericordiosos,
pois alcançarão misericórdia” (Mt 5.7). Também Cristo menciona a misericórdia
como uma das questões de maior importância da Lei: “Ai de vós, escribas e
fariseus, hipócritas! Porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, e
omitis o que há de mais importante na Lei: a justiça, a misericórdia e a
fidelidade; devíeis fazer estas coisas, sem omitir aquelas” (Mt 23.23). Com
propósito semelhante, Miqueias indaga: “Ó homem, ele te declarou o que é bom.
Por acaso o SENHOR exige de ti alguma coisa além disto: que pratiques a justiça,
ames a misericórdia e andes em humildade com o teu Deus?” (Mq 6.8). Oseias
igualmente menciona essa afeição: “Quero misericórdia e não sacrifícios” (Os
6.6) — texto que, segundo parece, muito agradava nosso Salvador, pelo seu
modo de o citar repetidas vezes, como em Mateus 9.13 e 12.7, por exemplo.
O zelo também é citado como elemento de essencial importância na religião
dos santos verdadeiros. Fala-se dele como atributo grandioso que Cristo tinha em
vista ao entregar-se por nossa redenção: “O qual a si mesmo se deu por nós, a
fim de remir-nos de toda iniquidade e purificar, para si mesmo, um povo
exclusivamente seu, zeloso de boas obras” (Tt 2.14, ARA). O zelo também é
mencionado como a qualidade sublime que faltava aos tíbios laodicenses (Ap
3.15,16,19).
De uma quantidade inumerável de textos por toda a Escritura, mencionei
apenas algumas passagens que situam em grande medida a religião nas afeições.
Contudo, o que foi observado talvez seja suficiente para mostrar que os
opositores, que negam que grande parte da religião verdadeira está nas afeições e
defendem o contrário, terão de jogar fora a Bíblia a que nos acostumamos
confessar, e arranjar alguma outra norma pela qual julgar a natureza da religião.

5. As Escrituras mostram a religião verdadeira resumida no amor, a principal


das afeições e fonte de todas as demais.
Em resposta ao doutor da lei que lhe perguntou qual seria o maior
mandamento da lei, eis como nosso Salvador bendito apresentou o assunto:
“Jesus lhe respondeu: Amarás o Senhor teu Deus de todo o coração, de toda a
alma e de todo o entendimento. Este é o maior e o primeiro mandamento. E o
segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Toda a
Lei e os Profetas dependem desses dois mandamentos” (Mt 22.37-40). As
últimas palavras dessa passagem significam muito, uma vez que esses dois
mandamentos compreendem todos os deveres estabelecidos e a religião ensinada
na Lei e nos Profetas. Também o apóstolo Paulo apresenta o assunto do mesmo
modo: “... pois quem ama o próximo tem cumprido a lei” (Rm 13.8) e “o amor é
o cumprimento da lei” (v. 10); “... pois toda a lei se resume numa só ordenança, a
saber: Amarás ao próximo como a ti mesmo” (Gl 5.14); de igual modo: “Esta
orientação tem como objetivo o amor que procede de um coração puro” (1Tm
1.5), entre outras referências. Do mesmo modo, o apóstolo fala do amor como a
maior de todas as virtudes da religião, seus órgãos vitais, sua alma e essência,
virtude sem a qual o conhecimento mais alto, os dons mais elevados, a profissão
de fé mais brilhante e tudo quanto concerne à religião é inútil e sem valor. Em
todo o capítulo 13 de 1Coríntios, o apóstolo define o amor como a fonte da qual
procede tudo que é bom. O que no original dessa passagem é ɑγɑπη foi
traduzido por “caridade”, cujo equivalente apropriado é “amor”.
Ora, conquanto seja verdade que o amor assim definido abarque
completamente a inclinação sincera e benevolente da alma para Deus e para o
homem, ainda assim pode-se considerar, pelo observado, que essa propensão ou
inclinação da alma é evidente quando se dá com sensatez e firmeza, converte-se
em afeição, que não é outra coisa senão o amor afeiçoado. Sem dúvida, esse é o
tipo de amor sólido e fervoroso a que Cristo se refere como o somatório de toda
a religião, quando fala em amar a Deus de todo o nosso coração, de toda a nossa
alma, de todo o nosso entendimento, e o nosso próximo como a nós mesmos,
como a síntese de tudo quanto foi ensinado e prescrito na Lei e nos Profetas.
Com efeito, não se deve supor, quando essa afeição do amor é mencionada
aqui e em outras passagens como o conjunto de toda a religião, que isso se refira
apenas ao ato, exclusivo do hábito, nem que o exercício do entendimento esteja
excluído, o que é implícito em toda afeição sensata. É, porém, indubitavelmente
verdade, e evidente nessas passagens, que a essência da religião verdadeira
reside no amor santo e que a religião como um todo consiste nessa afeição divina
e na disposição habitual para ela, e na luz que o alicerça e nos frutos que ele
produz.
Disso se conclui clara e seguramente que grande parte da religião verdadeira
consiste nas afeições, pois o amor não é apenas uma delas, mas é a primeira e
principal afeição, e a fonte de todas as demais. Do amor procede o ódio às coisas
contrárias ao que amamos ou que se nos opõem e nos impedem de usufruir as
agradáveis. Dos vários exercícios de amor e ódio, conforme as circunstâncias
dos objetos dessas afeições — presentes ou ausentes, certos ou incertos,
prováveis ou improváveis —, decorrem todas as outras afeições: de desejo,
esperança, medo, alegria, pesar, gratidão, ira etc. Do amor forte, intenso e
afeiçoado a Deus resultarão necessariamente outras afeições religiosas; dele
surgirão ódio e aversão intensos ao pecado; medo de pecar e pavor de incorrer
no desagrado divino; a gratidão a Deus por sua bondade e complacência e a
alegria nele quando se faz sábia e generosamente presente; o pesar quando ele
está ausente; a feliz esperança do futuro contentamento no Senhor e o zelo
apaixonado por sua glória. Também, semelhantemente, do amor intenso pela
humanidade surgirão todas as outras afeições virtuosas para com as pessoas.

6. A religião dos santos mais insignes, conforme nos relatam as Escrituras,


consistia sobretudo em afeições santas.
Farei menção especial a três santos eminentes que expressaram seu estado de
espírito e os sentimentos de seu próprio coração. Esses santos retrataram, nos
escritos que nos legaram, e que fazem parte do cânon sagrado, sua religião e a
relação com Deus.
O primeiro para quem chamarei a atenção é Davi, “o homem segundo o
coração de Deus”, que nos deu no livro de Salmos um vivo retrato de sua
religião. As composições sagradas que nos deixou nessa coletânea não são senão
a expressão e o anelo de afeições piedosas e santas, tais como seu amor humilde
e fervoroso por Deus; a admiração pela gloriosa perfeição e maravilha das obras
divinas; o forte anseio, a sede e as aspirações da alma por Deus; o prazer e o
regozijo em Deus; a doce e comovida gratidão a Deus por sua imensa bondade; a
santa exultação e o triunfo da alma na graça, suficiência e fidelidade de Deus; o
seu amor pelos santos e o regozijo neles; a excelência da terra; seu prazer
extraordinário na Palavra e nas ordenanças de Deus; o pesar por seus próprios
pecados e pelos dos outros; e seu zelo ardente por Deus e contrário aos inimigos
do Eterno e de sua igreja. Essas expressões de afeição santa, das quais os salmos
de Davi são completamente carregados, são da maior importância para o nosso
propósito aqui, pois tais salmos não são apenas as expressões da religião de tão
ilustre santo, em quem Deus se comprazia, mas também foram, pela direção do
Espírito Santo, escritos para o uso da igreja de Deus em seu culto público, não
apenas naquela época, mas também nas subsequentes, uma vez que são
apropriados para manifestar a religião de todos os santos em todas as épocas,
assim como a religião do salmista. Além disso, deve-se observar que, no livro de
Salmos, Davi fala não como um indivíduo em particular, mas como o salmista de
Israel, como cabeça subordinado da igreja de Deus e líder do culto e dos
louvores dos israelitas. Além disso, num grande número de salmos, ele fala em
nome de Cristo, personificando-o nessas exclamações de afeição santa; em
muitos outros, fala em nome da igreja.
Outro caso que devo examinar é o do apóstolo Paulo, que em muitos
aspectos foi o principal dos ministros do Novo Testamento. Acima de todos os
demais, foi vaso escolhido por Cristo para dar testemunho de seu nome perante
os gentios, transformado no instrumento essencial para promover e estabelecer a
igreja cristã no mundo, além de revelar clara e inequivocamente os gloriosos
mistérios do evangelho para instruir a igreja de todas as épocas. Foi o mais
notável servo de Cristo de todos os tempos (como alguns sem exagero o
consideram), recebido com as maiores recompensas no reino celestial de seu
Mestre. Pelo que as Escrituras dizem dele, parece que Paulo era um homem
cheio de afeições. A religião que ele expressa nas epístolas — vê-se com muita
clareza — consiste sobretudo em afeições santas. Todas as vezes que se refere a
si mesmo, fica claro que durante toda a vida o apóstolo foi totalmente consumido
pelo mais ardente amor por seu glorioso Senhor, considerando tudo perda em
comparação com a excelência do conhecimento de Cristo e estimando tudo
como esterco a fim de poder ganhar a Cristo. Paulo apresenta-se como que
subjugado por essa afeição santa, como se ela o compelisse a avançar no serviço
do Senhor em meio a todos os percalços e sofrimentos (Fp 3.8; 2Co 5.14,15).
Suas epístolas estão repletas de manifestações de uma afeição transbordante para
com o povo de Cristo. Ele fala de seu terno amor por eles (2Co 12.19; Fp 4.1;
2Tm 1.2); de seu “amor intenso” (2Co 2.4); da sua afeição e boa vontade, como
as afeições que uma mãe que amamenta tem pelos próprios filhos: “fomos
bondosos entre vós, como a mãe que acaricia os próprios filhos. Assim, devido
ao grande afeto por vós, estávamos preparados a dar-vos de boa vontade não
somente o evangelho de Deus, mas também a própria vida, visto que vos
tornastes muito amados para nós” (1Ts 2.7,8). Igualmente ele fala de seu coração
e seu amor visceral (Fp 1.8; Fm 12,20), de sua dedicação pelos outros (2Co
8.16), de “seu sentimento profundo” e de sua “compaixão” para com eles (Fp
2.1), de sua preocupação com os outros, a ponto de ter o coração angustiado: “...
vos escrevi em meio a muita tribulação e angústia de coração, com muitas
lágrimas, não para que vos entristecêsseis, mas para que soubésseis do amor
intenso que tenho por vós” (2Co 2.4). Paulo menciona a grande luta de sua alma
por eles (Cl 2.1); fala da grande tristeza e incessante dor no coração por causa da
compaixão pelos israelitas (Rm 9.2); diz que fala abertamente com os cristãos e
que seu coração está aberto: “Ó, coríntios, temos falado abertamente convosco;
nosso coração está aberto!” (2Co 6.11). Sempre comenta acerca de suas
saudades e afeições (1Ts 2.8; Rm 1.11; Fp 1.8; 4.1; 2Tm 1.4). Não é nada raro o
mesmo apóstolo expressar em suas epístolas a afeição da alegria (2Co 1.12;
7.7,9,16; Fp 1.4; 2.1,2; 3.3; Cl 1.24; 1Ts 3.9); falar de seu imenso regozijo e
alegria (Fp 4.10; Fm 1.7; Fp 2.1,7), de muito se alegrar (2Co 7.13) e de estar
“grandemente confortado e transbordante de júbilo” (2Co 7.4, ARA). Paulo
afirma estar “sempre alegre” (2Co 6.10); igualmente se refere aos triunfos da sua
alma (2Co 2.14), do gloriar-se nas tribulações (2Ts 1.4; Rm 5.3). Também
manifesta a afeição da esperança; em Filipenses 1.20, fala de sua “intensa
expectativa e esperança”. Além disso, ele também expressa a afeição do ciúme
piedoso (2Co 11.2,3). Parece também, por toda a sua história depois da
conversão, em Atos, bem como em todas as suas epístolas e nos relatos a
respeito de si nesses escritos, que a afeição do zelo, cujo objeto era a causa de
seu Mestre e o bem-estar e a prosperidade de sua igreja, era muito vigorosa nele
e lhe inflamava sem cessar o coração, fortemente engajado nos imensos e
constantes labores pelos quais passava quando instruía, exortava, advertia e
reprovava os outros, “sentindo as dores do parto por eles”; entrando em conflito
com os incontáveis e poderosos inimigos que a ele se opunham sem trégua,
combatendo contra principados e potestades, lutando não como quem esmurra o
ar, mas correndo a carreira que lhe estava proposta, esforçando-se sempre para
superar toda espécie de dificuldades e sofrimentos, de sorte que muitos achavam
que ele estava fora de si. E como ele estava tão cheio de afeição isso ficava ainda
mais evidente na multidão das suas lágrimas. Em 2Coríntios 2.4, esse apóstolo
fala de suas muitas lágrimas, bem como em Atos 20.19; e das “lágrimas que ele
vertia constantemente, noite e dia” (v. 31).
Ora, se alguém for capaz de analisar os relatos da Escritura sobre esse
grande apóstolo e sobre o que ele diz de si mesmo, e ainda assim tal pessoa não
perceber que a religião dele consistia consideravelmente em afeições, tal pessoa
tem a estranha capacidade de manipular os olhos e toldar a luz que brilha mui
plenamente em seu rosto.
O outro exemplo que mencionarei é o do apóstolo João, o discípulo amado,
o mais íntimo e mais querido de seu Mestre do que qualquer outro dos Doze, e
que recebeu dele, mais do que qualquer outro discípulo, os maiores privilégios,
tendo sido não somente um dos três que tiveram consentimento para estar
presente com o Salvador no monte da Transfiguração, na ressurreição da filha de
Jairo, e os quais o Mestre levou consigo quando estava com a alma angustiada.
Além disso, João é um dos três a quem Paulo se referiu como colunas
fundamentais da igreja cristã. Acima de tudo, recebeu o favor de poder reclinar-
se sobre o peito de seu Mestre na Última Ceia, além de ter sido escolhido por
Cristo para ser o discípulo a quem ele revelaria as suas maravilhosas
dispensações para a igreja no fim dos tempos, conforme o relato que temos no
livro de Apocalipse, e para fechar o cânon do Novo Testamento e de toda a
Escritura. Foi poupado, para viver muito mais tempo que os demais apóstolos, a
fim de pôr em ordem todas as coisas da igreja cristã, depois da morte dos outros.
É evidente em todos os textos de João (como os teólogos em geral
observam) que ele era extraordinariamente cheio de afeições. O modo que se
dirigia aos destinatários de seus textos era de uma ternura comovente, impossível
de explicar, expressando tão somente palavras do mais fervoroso amor, como se
ele próprio, João, fosse todo feito de doce e santa afeição. Se não
transcrevêssemos seus escritos na íntegra, as provas apresentadas não fariam jus
à realidade.

7. Aquele a quem Deus enviou a esta terra para ser a luz do mundo, cabeça
de toda a igreja e exemplo perfeito de verdadeira religião e virtude, para ser
imitado por todos, o Pastor a quem o rebanho inteiro deve seguir aonde quer que
ele vá, o próprio Senhor Jesus Cristo, era um homem de coração
extraordinariamente terno e cheio de afeição. Suas virtudes expressavam-se em
grande medida no exercício das afeições santas. Ele foi o maior exemplo que já
tivemos de amor fervoroso, vigoroso e forte, tanto por Deus quanto pelas
pessoas. Foram essas afeições que alcançaram a vitória no poderoso conflito e
embate que ele viveu em sua angústia, quando orou “mais intensamente; e o seu
suor tornou-se como gotas de sangue, que caíam no chão”. Tamanho era o poder
da ação do seu santo amor que foi mais forte que a morte; e naquele colossal
embate, quando a sua alma foi tomada por uma tristeza mortal, derrotou as ações
vigorosas das afeições naturais do medo e da aflição. Além disso, ele também se
mostrou cheio de afeições em toda a sua vida. Lemos sobre o seu imenso zelo ao
cumprir o que está no salmo 69: “O zelo pela tua casa me consumirá” (Jo 2.17).
Lemos sobre o seu pesar por causa dos pecados dos homens: “Olhando para eles
ao redor, indignado e muito triste por causa da dureza do coração deles” (Mc
3.5); e também lemos sobre as suas lágrimas e exclamações ao pensar no pecado
e na infelicidade dos ímpios e ao avistar a cidade de Jerusalém, cheia desse tipo
de habitantes: “E quando se aproximou e viu a cidade, chorou por ela; e disse:
Ah! Se tu conhecesses, ao menos neste dia, o que te poderia trazer a paz! Mas
agora isso está encoberto aos teus olhos” (Lc 19.41,42), e: “Jerusalém,
Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas
vezes eu quis ajuntar teus filhos, como a galinha ajunta seus filhotes debaixo das
asas, e não quiseste!” (13.34). Em Lucas 22.15, lemos sobre o imenso anseio de
Cristo: “E lhes disse: Tenho desejado muito comer esta Páscoa convosco, antes
do meu sofrimento” (Lc 22.15). Lemos várias vezes sobre a afeição da
misericórdia ou compaixão de Cristo (Mt 15.32; 18.34; Lc 7.13) e o vemos
movido pela compaixão (Mt 9.36; 14.14; Mc 6.34). Sabemos também quanta
sensibilidade de coração ele revelou na ocasião em que Marta e Maria, de luto
pelo irmão, foram até ele com seus lamentos e lágrimas! As lágrimas delas logo
lhe arrancaram lágrimas também. Ele se comoveu com a tristeza delas e chorou
com elas, mesmo sabendo que essa dor que sentiam logo se transformaria em
júbilo, pela ressurreição de Lázaro dentre os mortos; veja João 11. Quão inefável
foi a afeição refletida na última e angustiosa conversa de Jesus com os onze
discípulos na noite anterior à crucificação, quando lhes contou que os deixaria e
predisse as grandes dificuldades e o sofrimento que eles enfrentariam no mundo
depois da sua partida. Em seguida os consolou e lhes deu conselhos como a
filhinhos amados e deixou-lhes por herança o seu Espírito Santo, e com ele sua
paz, consolação e alegria, como, digamos, no seu testamento, registrado nos
capítulos 13, 14, 15 e 16 de João, e concluiu em João 17 com aquela apaixonada
oração sacerdotal em favor deles e de toda a sua igreja. De todos os discursos já
escritos ou proferidos por qualquer ser humano, esse é o mais amoroso e
comovente.

8. A religião celestial consiste sobretudo em afeições.


Não há dúvida de que no céu se encontra a religião verdadeira em seu mais
alto grau de pureza e perfeição. Contudo, de acordo com a representação bíblica
do estado celestial, a religião celeste consiste principalmente em amor e alegria
santos e poderosos, cuja expressão são os mais fervorosos e exaltados louvores.
De maneira que a religião dos santos no céu consiste nas mesmas coisas que a
religião dos santos na terra, a saber: amor e “alegria indizível e cheia de glória”.
Ora, seria muita tolice afirmar que a alegria e o amor imensos e infinitos dos
santos não são afeições porque no céu eles não estão ligados à carne e ao sangue,
e não têm mais os humores vitais para se comoverem com as fortes emoções da
alma (mediante as leis da união entre corpo e alma). Não estamos falando das
afeições do corpo, mas das da alma, das quais as principais são o amor e a
alegria. Quando essas afeições existem na alma, quer ainda no corpo, quer fora
dele, a alma é tocada e comovida. E quando elas existem na alma com o mesmo
vigor que têm nos santos do céu, essa alma é poderosamente sensibilizada e
comovida ou, o que dá no mesmo, tem grandes afeições. É bem verdade que não
sabemos por experiência própria o que o amor e a alegria são numa alma sem o
corpo ou no corpo glorificado — isto é, não experimentamos o amor e a alegria
na alma nessas circunstâncias —, mas os santos na terra sabem muito bem o que
são o amor e a alegria divinos na alma e sabem que o amor e a alegria são da
mesma espécie que o amor e a alegria que há no céu, nas almas que lá estão. O
amor e a alegria dos santos na terra são o princípio e o alvorecer da luz, da vida e
da bem-aventurança do céu e são semelhantes ao amor e à alegria dos que lá
estão; ou melhor, têm a mesma natureza, embora não sejam iguais nem
semelhantes a elas, nem em grau nem em circunstâncias. Isso é bem evidente em
muitas passagens das Escrituras, como Provérbios 4.18; João 4.14 e
6.40,47,50,51,54,58; 1João 3.16; e 1Coríntios 13.8-12. Portanto, é infundado
supor que o amor e a alegria dos santos no céu não somente sejam diferentes em
grau e circunstâncias da alegria e do amor sagrados dos santos na terra, mas que
também sejam de natureza tão completamente distinta que não sejam afeições —
e isso tão somente porque os santos no céu não têm sangue nem vitalidade que
os impulsionem, impulso do sangue e da vitalidade que, aliás, não é a essência
dessas afeições dos homens na terra, mas apenas o efeito delas (não obstante
possam, com suas reações, causar alguma diferença circunstancial na sensação
da mente). Há uma sensação da mente que ama e se alegra, que antecede
qualquer efeito sobre os humores do corpo; logo, essa sensação não depende
desses processos físicos e por isso pode estar presente na alma sem o corpo.
Sempre que se exercem o amor e a alegria há essa sensação da mente, quer esteja
no corpo, quer não mais. A essa sensação interior — ou essa espécie de sensação
ou sentimento espiritual, ou impulso da alma — é que se dá o nome de afeição.
Quando a alma sente isso (se é que posso dizer assim) e assim se comove, diz-se
que ela está afetada; mormente quando essa sensação e essa emoção interiores
ocorrem em grau muito elevado, como ocorrem nos santos do céu. Se podemos
saber algo sobre o estado celestial pelas Escrituras, é que o amor e a alegria dos
santos no céu são imensuráveis, estes lhes tangem o coração com a mais forte e
mais viva sensação de inexprimível dulçor, comovendo-os, animando e
envolvendo poderosamente, assemelhando-os a uma chama viva. Se esse amor e
essa alegria não são afeições, a palavra “afeição” de nada serve em nosso
vocabulário. Alguém diria que os santos do céu, ao olhar para o rosto de seu Pai
e para a glória de seu Redentor, e contemplar as suas obras maravilhosas, e
sobretudo ao considerar que Cristo deu a vida por eles, ficam com o coração
impassível e frio com tudo isso que contemplam e apreciam?
Por conseguinte, a religião do céu, por consistir sobretudo em alegria e amor
santos, constitui-se em grande medida de afeições; logo, sem dúvida, a
verdadeira religião consiste amplamente em afeições. O modo de conhecer a real
natureza de qualquer coisa é ir aonde se pode encontrá-la em estado de pureza e
perfeição. Para conhecer a natureza do ouro legítimo, temos de vê-lo não como
minério bruto, mas quando já estiver refinado. Para sabermos o que é religião
verdadeira, temos de ir aonde existe religião verdadeira, e nada mais senão essa
religião em sua perfeição mais alta, sem nenhum defeito ou mistura. Todos
quantos são verdadeiramente religiosos não são deste mundo, são estrangeiros
aqui e pertencem ao céu; nasceram do alto, o céu é sua terra natal; a natureza que
recebem graças a esse nascimento celestial também é celestial; eles recebem a
unção do alto; o princípio da religião verdadeira que neles reside é a
comunicação da religião celeste; a graça deles é o alvorecer da glória; e Deus os
prepara para aquele mundo conformando-os a ele.

9. Isso fica evidente pela natureza e estipulação de ordenanças e deveres que


Deus determinou como meios e expressão da religião verdadeira.
Por exemplo, no dever da oração está claro que ao orar não somos
encarregados de declarar as perfeições de Deus, sua majestade, santidade,
bondade e suficiência absoluta nem a nossa inferioridade, nosso vazio,
dependência e insignificância, além de nossas carências e desejos, para informar
essas coisas a Deus ou para inclinar-lhe o coração e persuadi-lo a ter
misericórdia de nós; mas, sim, para sensibilizar nosso coração apropriadamente
com o que expressamos e com isso nos preparar para receber as bênçãos que
pedimos. Além disso, tais gestos e modos exteriores de comportamento na
adoração de Deus, que o costume converteu em sinais de humildade e
reverência, só têm utilidade à medida que podem sensibilizar nosso coração ou o
de outros.
Ao que parece, o dever de cantar louvores a Deus foi ordenado com o fim
exclusivo de estimular e exprimir afeições religiosas. Não se pode atribuir
nenhuma outra razão por que devamos nos apresentar a Deus com versos, e não
em prosa, e fazer isso com música, senão porque, por nossa natureza e
disposição, essas coisas costumam despertar nossas afeições.
O mesmo é evidente na natureza e no plano dos sacramentos que Deus
ordenou. O Senhor, considerando a nossa disposição de ânimo, não somente
determinou que devíamos ser informados das grandes maravilhas do evangelho e
da redenção de Cristo, e instruídos nessas maravilhas pela divina Palavra, mas
também ordenou que elas devem ser expostas, por assim dizer, aos nossos olhos
em representações tangíveis, nos sacramentos, para nos sensibilizar ao máximo.
A impressão das realidades divinas no coração e nas afeições humanas é sem
nenhuma dúvida o principal fim para o qual Deus ordenou que a sua palavra
comunicada nas Escrituras Sagradas fosse aberta, aplicada e tocasse o íntimo dos
homens na pregação. Assim, para que o objetivo pretendido por Deus na
instituição da pregação seja atingido, não basta simplesmente aos homens terem
bons comentários, exposições das Escrituras e outros livros de teologia; pois,
conquanto tais recursos, tanto quanto a pregação, em geral lhes proporcionem
um bom entendimento doutrinário ou especulativo das questões da Palavra de
Deus, em geral não costumam imprimi-las igualmente no coração e nas afeições
do ser humano. Deus determinou na pregação a aplicação específica e viva da
sua Palavra às pessoas, como o meio apropriado para convencer os pecadores da
importância das verdades da religião, da condição desventurada em que se
encontram, da necessidade de um remédio para essa situação e da glória e
suficiência do remédio provido; também para despertar a mente purificada dos
santos e estimular suas afeições, trazendo-lhes sempre à memória as excelências
da religião e as expor diante deles tal como são, mesmo que já as conheçam e
tenham pleno ensinamento delas (2Pe 1.12,13). Sobretudo para promover neles
as duas afeições de que o texto fala, o amor e a alegria: “Ele [Cristo] designou
uns como apóstolos, outros como profetas, outros como evangelistas, e ainda
outros como pastores e mestres [...] para a edificação do corpo de Cristo [...] no
amor” (Ef 4.11,12,16). Ao instruir e aconselhar Timóteo acerca da obra do
ministério, o apóstolo informa-o de que o propósito maior da Palavra que o
ministro deve pregar é o amor ou caridade (1Tm 1.3-5). Deus também designou
a pregação como meio de promover nos santos outra afeição, a alegria. Por isso
os ministros são chamados de “cooperadores para a alegria” deles (2Co 1.24).

10. As Escrituras atribuírem o pecado do coração sobretudo ao


endurecimento deste é prova de que a verdadeira religião, ou a santidade de
alma, reside sobretudo nas afeições do coração. Em toda a sua extensão as
Escrituras mencionam isso. Foi a dureza de coração dos judeus que suscitou
contra eles a tristeza e a indignação de Cristo: “Olhando para eles ao redor,
indignado e muito triste por causa da dureza do coração deles” (Mc 3.5). É por
terem um coração assim tão inflexível que as pessoas entesouram ira para si
mesmas: “Mas, segundo tua teimosia e teu coração que não se arrepende,
acumulas ira sobre ti no dia da ira e da revelação do justo julgamento de Deus”
(Rm 2.5). O motivo por que a casa de Israel desobedecia a Deus era a renitência
do coração dos israelitas: “Mas a casa de Israel não te dará ouvidos, porque não
me quer dar ouvidos a mim; pois toda a casa de Israel é de fronte obstinada e
dura de coração” (Ez 3.7, ARA). A maldade da geração perversa e rebelde no
deserto é atribuída à dureza do seu coração: “Não endureçais o coração como em
Meribá, como no dia de Massá no deserto, quando vossos pais me tentaram,
pondo-me à prova ainda que tivessem visto minhas obras. Durante quarenta anos
indignei-me contra aquela geração e disse: É um povo de coração obstinado; não
anda nos meus caminhos” (Sl 95.8-10). O coração obstinado é mencionado
como o que impediu a volta de Zedequias para o Senhor: “Continuou inflexível e
obstinado para não voltar ao SENHOR, Deus de Israel” (2Cr 36.13). É por causa
desse princípio que os homens não temem a Deus e se afastam dos seus
caminhos: “Ó SENHOR, por que nos fazes andar longe dos teus caminhos? Por
que endureces o nosso coração, para que não te temamos?” (Is 63.17). As
pessoas rejeitarem a Cristo e se oporem ao cristianismo também se deve a esse
princípio: “Alguns deles se endureceram e se mostraram descrentes, falando mal
do Caminho diante da comunidade” (At 19.9). Deus deixar as pessoas entregues
ao poder do pecado e à corrupção do coração é uma atitude quase sempre
definida como o endurecimento de coração que ele lhes impôs: “Portanto, ele
[Deus] tem misericórdia de quem quer e endurece a quem quer” (Rm 9.18);
“Cegou-lhes os olhos e endureceu-lhes o coração” (Jo 12.40). Ao que tudo
indica, o apóstolo também fala de coração perverso e de coração endurecido
como se fossem a mesma coisa: “Não endureçais o coração, como na rebelião
[…] no deserto (Hb 3.8); “Irmãos, cuidado para que nunca se ache em qualquer
um de vós um coração perverso e incrédulo, que vos desvie do Deus vivo; antes,
exortai uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama Hoje, para
que nenhum de vós seja endurecido pelo engano do pecado” (v. 12,13). E a
excelente obra de Deus na conversão, que consiste em livrar o indivíduo do
poder do pecado e mortificar a degradação, é reiteradamente definida por Deus
tirar “deles o coração de pedra e lhes dar um coração de carne” (Ez 11.19;
36.26).
Ora, um coração duro significa sem dúvida um coração indiferente, difícil de
emocionar-se com afeições virtuosas, é como uma pedra, insensível, rude,
impassível e difícil de impressionar. Por isso se diz que o coração duro é um
coração petrificado, o oposto de um coração de carne, que tem emoções e se
sensibiliza e se comove com sabedoria. Nas Escrituras lemos acerca do coração
duro e do coração terno; devemos entender sem hesitar que eles são contrários
um ao outro. Mas o que é um coração terno senão aquele que se sensibiliza
facilmente com aquilo que deve afetá-lo? Deus elogiou Josias por causa da
ternura de seu coração. Pelo que é mencionado como expressão e demonstração
dessa ternura fica bem claro que o coração terno de Josias era um coração
facilmente tocado pela afeição religiosa e piedosa: “Porque teu coração se
moveu e te humilhaste diante do SENHOR, quando ouviste o que falei contra este
lugar e seus moradores, isto é, que se transformariam em devastação e maldição,
e rasgaste as vestes e choraste diante de mim, também eu te ouvi, diz o SENHOR”
(2Rs 22.19). Eis por que temos de ser como crianças para entrar no reino de
Deus, que tenhamos o coração brando, fácil de se sensibilizar e se comover com
as coisas espirituais e divinas, assim como as criancinhas o têm nas outras
coisas.
Alguns trechos das passagens deixam muito claro que a dureza de coração
significa um coração desprovido de afeições. Por isso, para dizer que a avestruz
não tem afeição natural por seus filhotes, a passagem da Escritura diz:
“Endurece-se para com seus filhos, como se não fossem seus” (Jó 39.16, ACF).
Por isso se diz que uma pessoa cujo coração não se afeta em tempo de perigo
tem o coração endurecido: “Feliz é o homem que sempre teme o SENHOR; mas o
que endurece o coração virá a cair em desgraça” (Pv 28.14).
Portanto, visto estar bem claro nas Escrituras que o coração endurecido
significa um coração desprovido de afeições piedosas, e visto também que as
mesmas Escrituras tantas vezes atribuem o pecado e a degradação do coração a
seu próprio endurecimento, é óbvio que a graça e a santidade de coração, pelo
contrário, devem consistir em grande medida num coração cheio de afeições
piedosas e ser mui suscetível a essas afeições. Os teólogos em geral concordam
que o pecado consiste radical e essencialmente em negação ou privação, e sua
origem e fundamento, na privação ou ausência de santidade. Sendo assim, sem
dúvida, o pecado consiste sobremodo na dureza de coração e, portanto, na
carência de afeições piedosas do coração; e a santidade consiste em grande
medida nessas afeições piedosas.
Longe de mim supor que todas as afeições de fato revelam um coração
afável. O ódio, a ira, a vanglória e outras afeições de egoísmo e presunção
podem imperar consideravelmente no mais duro coração. Ainda assim é evidente
que tanto a dureza quanto a ternura de coração são expressões relacionadas às
afeições deste e demonstram sua tendência para certas afeições e o repúdio por
outras, das quais terei oportunidade de falar mais adiante.
Em suma, parece-me clara e sobejamente óbvio que a verdadeira religião
reside em grande medida nas afeições. Não que eu considere tais argumentos
prova de que a religião no coração dos genuinamente piedosos tenha sempre a
proporção exata do grau de afeição e de emoção presentes na mente dessas
pessoas, pois sem dúvida há muitas afeições não espirituais nos santos
verdadeiros; suas afeições religiosas são muitas vezes misturadas. Nem tudo
provém da graça, mas em grande medida da natureza. Além disso, conquanto a
sede das afeições não esteja no corpo, ainda assim a constituição do organismo
pode contribuir muito para a emoção atual da mente. É melhor julgar o grau de
religião pela permanência e força do hábito exercido nas afeições — isso porque
a afeição santa é habitual —, e não pelo grau do exercício atual. Ademais, a
força desse hábito nem sempre é proporcional aos efeitos e manifestações
exteriores, ou efeitos interiores, na pressa, veemência e nas mudanças súbitas do
curso dos pensamentos. Mas ainda assim é evidente que a religião consiste tanto
nas afeições que, sem as afeições santas, não existe religião verdadeira.
Nenhuma luz do entendimento será boa se não produzir afeições santas no
coração; nenhum hábito ou princípio no coração será bom se não produzir tal
exercício; assim também nenhum fruto exterior será bom se não proceder desses
exercícios.
Havendo, portanto, refletido sobre as provas da proposição apresentada,
prossigo com algumas inferências:

1. Podemos, portanto, entender quão grande é o erro dos que são favoráveis
a descartar todas as afeições religiosas, como se nelas não houvesse nada de
sólido ou substancial.
Ao que tudo indica, essa é a disposição assaz predominante no país no
momento atual. Como muitas pessoas que manifestaram notáveis afeições
religiosas no último período extraordinário acabaram não demonstrando a
disposição mental correta e cometeram muitos erros no momento de suas
afeições e do entusiasmo de seu zelo, e visto que as elevadas afeições de muitos
logo se dissipou e alguns, que por um tempo pareciam altamente enlevados e
envolvidos por alegria e zelo, voltaram ao próprio vômito, como faz o cão — por
isso, as afeições religiosas em geral perderam credibilidade diante de muitas
pessoas, como se a verdadeira religião em absoluto não consistisse nessas
afeições. Por essa razão, com muita facilidade e naturalidade passamos de um
extremo para outro. Não há muito tempo, estávamos na outra extremidade.
Predominava a disposição de considerar todas as sublimes afeições religiosas
uma notável manifestação da graça verdadeira, sem nenhuma investigação da
natureza e origem dessas afeições nem de como surgiram. Que as pessoas se
mostrassem deveras emocionadas e enlevadas a ponto de terem abundância de
conversas religiosas, se exprimirem com muito fervor e seriedade e serem
cheias, ou muito cheias, como se dizia, bastava para que, sem análise mais
aprofundada, se concluísse que estavam repletas do Espírito de Deus e tinham
tido uma experiência notável com suas divinas influências graciosas. Esse era o
extremo predominante três ou quatro anos atrás. Recentemente, porém, ao invés
de estima e admiração por todas as afeições religiosas, sem distinção, o que mais
predomina é a rejeição e o descarte de todas, sem diferença — o que mostra a
sutileza de Satanás. Quando viu as afeições muito em voga e tendo ciência de
que a maior parte do país não tinha conhecimento desse tipo de coisa nem tinha
tido muita experiência com afeições religiosas importantes para poder julgá-las
adequadamente e distinguir as verdadeiras das falsas, ele soube que podia aplicar
melhor sua tática, semeando joio no meio do trigo e misturando falsas afeições
com as obras do Espírito de Deus. Ele sabia que esse era o meio mais provável
de iludir e arruinar eternamente muitas almas, ferir a fundo a religião nos santos
e enredá-los numa terrível confusão para em seguida pôr em descrédito toda a
religião.
Agora, porém, quando vêm à tona as consequências maléficas dessas falsas
afeições e fica claro que algumas emoções ostentadas com deslumbre e muito
admiradas por tantos não eram nada na verdade, o Diabo percebe que lhe é
proveitoso adotar outro modo de agir e empenha-se ao máximo para instaurar e
propagar a crença de que nenhuma afeição ou emoção a que a mente é suscetível
em se tratando de religião é digna de consideração alguma; antes, pelo contrário,
é preciso evitá-las e delas se proteger com muito cuidado, como algo pernicioso.
Ele sabe que esse é o meio de transformar toda a religião em mera formalidade
sem vida e excluir com eficiência o poder da piedade e de tudo quanto é
espiritual, deixando de fora todo o cristianismo verdadeiro. Porque, embora a
religião verdadeira de fato precise de algo mais, além de afeições, ela se
constitui em grande medida de afeições, tanto que não é possível haver religião
verdadeira sem elas. Quem não tem afeições religiosas está em estado de morte
espiritual, e seu coração está totalmente destituído das influências poderosas,
vivificantes e salvíficas do Espírito de Deus. Assim como não existe a religião
verdadeira onde não há nada mais além de afeições, também não existe a religião
verdadeira onde não há nenhuma afeição religiosa. Se por um lado é
indispensável que haja não somente um coração dotado de fervorosa afeição,
mas também luz no conhecimento, pois, onde há calor sem luz, nada pode haver
de divino ou celestial, assim também, por outro lado, onde há algum tipo de luz
sem calor, uma cabeça cheia de noções e especulações com um coração frio e
insensível, nada pode haver de divino nessa luz, pois tal conhecimento não é
verdadeiro conhecimento espiritual das coisas divinas. Se compreendidas
corretamente as grandiosas coisas da religião, elas sensibilizam o coração. O
motivo por que as pessoas não são afetadas por essas coisas infinitamente
grandiosas, importantes, cheias de glória e maravilhosas, quando muitas vezes
ouvem e leem sobre elas na Palavra de Deus, é sem dúvida sua cegueira. Se não
fossem cegas, seria impossível e absolutamente incompatível com a natureza
humana o coração delas reagir de outro modo, sem se impressionar nem se
emocionar poderosa e grandiosamente com tais coisas.
Esse modo de menosprezar todas as afeições religiosas é o meio mais
excelente de endurecer o coração das pessoas e lhes estimular a estultícia e a
insensatez, mantê-las no estado de morte espiritual, apesar de vivas, e levá-las
enfim à morte eterna. O preconceito predominante hoje em dia no país contra as
afeições religiosas tem o efeito notável e horrendo de endurecer o coração dos
pecadores, desalentar a graça de muitos santos, tolher a vida e o poder da
religião, impedir o efeito das ordenanças, deixar-nos deprimidos, em estado de
astenia e indiferença, e certamente levar muitas pessoas a ofender a Deus com
gravidade, alimentando pensamentos desprezíveis e rasteiros sobre a obra
extraordinária que ele tem realizado nos últimos dias neste lugar.
Ademais, quanto aos que desprezam e depreciam todas as afeições
religiosas, esse é o meio de excluir totalmente a religião do coração e fazer o
serviço completo de arruinar a própria alma.
Os que condenam as afeições elevadas nos outros de certo não as têm neles
mesmos. E, convenhamos, os que têm poucas afeições religiosas certamente
também têm pouca religião. Aquele que condena os outros por causa das
afeições religiosas e não tem nenhuma afeição, este também não tem religião
nenhuma.
Existem afeições verdadeiras e afeições falsas. Ter muitas afeições não é
prova de ter a religião verdadeira, mas não ter afeição alguma é prova de não ter
nem um pouco da religião verdadeira. O certo não é rejeitar todas as afeições
tampouco aprovar todas elas, mas saber distingui-las, aprovando algumas e
rejeitando outras, separando a palha do trigo, a escória do ouro e o precioso do
abominável.

2. Se é assim, que a verdadeira religião reside em grande medida nas


afeições, podemos inferir, portanto, que esses recursos devem ser desejados por
serem propensos a incitar essas afeições. Os livros, o modo de pregar a Palavra,
a administração das ordenanças, o estilo de adorar a Deus em oração e de cantar
louvores são altamente desejáveis, pois costumam sensibilizar profundamente o
coração dos que a eles recorrem.
Outrora, esses recursos teriam sido altamente aprovados e aplaudidos pelo
povo deste país em geral, por serem os mais excelentes e proveitosos, e terem
forte pendor para promover os objetivos dos meios da graça. Contudo, parece
que o gosto predominante não há muito tempo foi estranhamente modificado.
Aquele modo apaixonado e comovente de orar e pregar, que antes seria
admirado e enaltecido, pois costumava estimular as afeições, agora desperta de
imediato a repugnância das grandes multidões e não suscita nada além das
afeições de insatisfação e desdém.
Anteriormente, talvez a generalidade (pelo menos das pessoas comuns)
estivesse no extremo de depender demais de sermões apaixonados em
apresentações públicas; agora, porém, um enorme grupo de pessoas parecer ter-
se deslocado para o extremo oposto. Com efeito, talvez haja tais meios com a
forte propensão para provocar as paixões de pessoas fracas e ignorantes, sem,
contudo, ter pendor algum para lhes beneficiar a alma; pois, apesar de
costumarem estimular afeições, esses meios pouco ou nada têm para provocar
afeições da graça nem afeição alguma inclinada para a graça. Sem dúvida,
porém, se com os meios empregados as coisas da religião forem tratadas de
acordo com a natureza delas e manifestadas conforme a verdade, a fim de
transmitir apreensões justas e o correto juízo sobre elas, quanto mais
despertarem as afeições, melhor.

3. Se a verdadeira religião jaz em grande medida nas afeições, logo,


podemos descobrir o grande motivo que temos para estar envergonhados e
desconcertados perante Deus: não somos mais sensibilizados pelas grandes
virtudes da religião. Vemos, pelo que foi dito, que tamanha insensibilidade se
deve à grande carência de religião verdadeira em nós.
Deus outorgou as afeições à humanidade pelo mesmo propósito que conferiu
todos os princípios e faculdades à alma humana, a saber, que fossem úteis ao
principal fim do homem e à importante responsabilidade para a qual este foi
criado: a obra da religião. Todavia, como é frequente entre os homens suas
afeições serem muito mais exercidas para outros assuntos e bem mais
comprometidas com tais assuntos do que com a religião! Naquilo que concerne
aos interesses mundanos dos seres humanos (sua honra e reputação, seus
prazeres descomprometidos, as relações naturais, desejos impacientes, apetites
vorazes, amor cálido e apaixonado, seu zelo ardente), o coração deles é sensível,
emocionável, impressionável, muito interessado, cheio de sentimentos e
fortemente dedicado; abate-se com a dor das perdas profanas e muito se enleva
com a alegria das realizações e prosperidade terrenas. Quão insensível e
indiferente, porém, é a maioria dos homens acerca das coisas grandiosas de outro
mundo! Como são embotadas suas afeições! Que pesado e duro é o coração
deles nessas questões! Nisso, o amor deles é frio, seus desejos, apáticos, o zelo é
vil e a gratidão, mínima. Como podem se assentar e ouvir comodamente sobre a
largura, o comprimento, a altura e a profundidade do amor de Deus em Cristo
Jesus; sobre o Pai oferecendo o Filho incomensuravelmente amado em sacrifício
pelo pecado dos homens; sobre o amor ímpar do inocente, santo e terno Cordeiro
de Deus manifestado na sua angústia de morte, no suor de sangue, nos brados
pungentes e no coração partido — tudo isso em favor de inimigos, para os
redimir da merecida chama eterna e conduzir à alegria e glória inefável e
sempiterna; mas, apesar de tudo isso, quedarem-se frios, torpes, insensíveis e
negligentes? Onde seria apropriada a manifestação de nossas afeições senão
aqui? O que mais necessita delas? Qual seria a ocasião oportuna para a
manifestação viva e vigorosa das afeições senão uma circunstância assim? Seria
possível apresentar-se à nossa vista algo maior e mais importante; algo mais
extraordinário e surpreendente? Algo mais próximo de nosso interesse, talvez? É
possível imaginar que o sábio Criador tenha implantado na natureza humana
princípios tais como as afeições para que nos sejam úteis e manifestas em
algumas ocasiões apropriadas, menos quedar-nos quietos numa oportunidade
como essa? Pode um cristão que crê na veracidade desses fatos alimentar ideias
como essas?
Se devemos sempre pôr em prática nossas afeições, e se não foi por falta de
sabedoria que o Criador dotou a natureza humana desses princípios e,
considerando que não são vãos nem inúteis, temos de concluir que eles devem
ser exercidos visando a seus propósitos mais dignos. Haverá no céu ou na terra
algo que os cristãos considerem tão digno de ser alvo de sua admiração e seu
amor, de seus desejos sinceros e ardorosos, de sua esperança, de seu regozijo e
de apaixonado zelo quanto tudo aquilo que nos prega o evangelho de Jesus
Cristo? Este é o evangelho em que os fatos não somente são declarados mais
dignos de nos impressionar, mas também são expostos do modo mais
comovente. A glória e a beleza do bendito Jeová, por si mesmas mui dignas de
ser o objeto de nosso amor e admiração, são expostas no evangelho com a
máxima sensibilidade concebível, uma vez que aparecem resplandecendo com
todo o seu brilho no semblante do Redentor encarnado, infinitamente amoroso,
manso, compassivo e agonizante. Todas as virtudes do Cordeiro de Deus —
humildade, paciência, mansidão, submissão, obediência, amor e compaixão —
são expostas diante de nós do modo mais propenso a estimular nossas afeições,
qualquer uma que se imagine, pois todas elas foram sujeitas à maior prova e
exercidas no mais alto nível, bem como tiveram sua manifestação mais
esplendorosa quando ele esteve nas circunstâncias mais comoventes, mesmo
quando padecia seus últimos sofrimentos, dores inexprimíveis e sem
precedentes, que ele suportou com seu terno amor e compaixão por nós. Nisso
também se revela com a maior veemência possível a natureza odiosa dos nossos
pecados, pois percebemos seus efeitos hediondos quando nosso Redentor, que
aceitou responder por nós, sofreu suas consequências. Também temos ali as
manifestações mais pungentes da aversão de Deus ao pecado e de sua ira e
justiça ao puni-lo — vemos a justiça na intransigência e no rigor que lhe são
próprios; e a ira na sua severidade intrínseca ao castigar nossos pecados naquele
que lhe era tão infinitamente caro e tão amoroso conosco. Assim Deus organizou
e dispôs para nós no evangelho toda a história de nossa redenção e de suas
gloriosas dispensações, como se tudo fora planejado propositadamente para nos
alcançar no ponto mais sensível do coração e despertar nossas afeições com a
maior sensibilidade e força. Que grande motivo temos, portanto, para nos
humilhar até o pó, por já não sermos mais sensibilizados!
SEGUNDA PARTE
Não há sinais inquestionáveis de que as
afeições religiosas sejam cheias da graça nem
de que não sejam

S e alguém, ao ler o que acabou de ser dito, procura exculpar-se dizendo:


“Não sou daqueles que não têm afeições religiosas; fico muito emocionado
quando penso nas coisas grandiosas da religião”, que tal pessoa não se vanglorie
de ter afeições religiosas, pois, como já observamos antes, assim como não
devemos repudiar nem condenar todas as afeições, como se a religião verdadeira
jamais consistisse em afeição, também não devemos aprovar todas elas, como se
todos os que tiveram a experiência dessas afeições tivessem a graça verdadeira e,
portanto, fossem sujeitos da influência salvadora do Espírito de Deus. A atitude
certa, portanto, é distinguir entre os diversos tipos de afeições religiosas. Desse
modo, vamos nos empenhar para isso; e, para tanto, vou fazer duas coisas.

I. Mencionarei alguns aspectos que não garantem que essas afeições sejam
caracterizantes da religião verdadeira, tampouco o contrário; devemos nos
acautelar de julgar as afeições por sinais falsos.

II. Chamarei a atenção para alguns aspectos em que as afeições espirituais e


cheias da graça diferem das que não são assim e, com isso, podem ser
distinguidas e reconhecidas.

Primeiro, destaco algumas características que não são indício algum de que
essas afeições sejam cheias da graça nem de que não sejam.

I. As afeições religiosas serem mui grandiosas ou de nível


elevado não significa nem uma coisa nem outra
Alguns são prontos a condenar toda e qualquer afeição elevada; se as pessoas
têm afeições de nível muito elevado, logo manifestam preconceito contra elas e,
sem nenhuma investigação, sentenciam que não passam de ilusões. Mas, como já
foi provado, se a religião verdadeira reside em grande parte em afeições
religiosas, segue-se que, havendo muita religião verdadeira, haverá afeições
religiosas grandiosas. Se a religião verdadeira do coração das pessoas se elevar a
um alto patamar, as afeições divinas e santas também se elevarão a grande altura.
O amor é uma afeição, mas algum cristão diria que as pessoas não devem
amar a Deus e Jesus Cristo em grau muito elevado? Quem afirmaria que não
devemos ter enorme aversão pelo pecado e sentir profunda tristeza por sua
causa; ou que não devemos ter profunda gratidão a Deus pelas misericórdias que
dele recebemos e pelos grandiosos atos que ele praticou para salvar os seres
humanos decaídos; ou que não devemos sentir grande e intenso desejo por Deus
e pela santidade? Acaso alguém declararia que tem afeições religiosas
suficientemente relevantes e ainda diga: “Não tenho por que me humilhar, pois
é-me impossível ser mais sensível do que sou às coisas da religião; nem tenho
motivo para me envergonhar, pois é-me impossível sentir maior amor por Deus,
maior pesar pelo pecado e maior gratidão pelas misericórdias que tenho
recebido”? Haverá indivíduo que bendiga a Deus por ter sido tocado pelo que
leu e ouviu do inefável amor divino dirigido a vermes rebeldes — amor que o
levou a entregar seu Filho unigênito para morrer por estes, e do amor abnegado
de Cristo, que o levou a entregar-se em sacrifício — e espere, tal indivíduo, não
ser tocado mais sublime e profundamente por essas afeições, porque afeições
elevadas são impróprias e desagradáveis para os cristãos, visto serem de natureza
passional e ruinosas à religião verdadeira?
Nosso versículo se refere claramente a afeições supinas e grandiosas quando
diz: “… exultais com alegria inexprimível e cheia de glória”. A passagem
emprega as expressões mais superlativas possíveis à língua. As Escrituras
sempre exigem que ponhamos em prática afeições muito elevadas. Tanto é assim
que, no primeiro e mais importante mandamento da Lei, há um acúmulo de
termos, como se as palavras fossem insuficientes para expressar a intensidade do
amor com que devemos amar a Deus: “Amarás o SENHOR, teu Deus, de todo o
teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças” (Dt 6.5). Assim os
santos são convocados a manifestar alegria em grau elevado: “Alegrai-vos e
exultai”, diz Cristo a seus discípulos (Mt 5.12); o mesmo se lê em Salmos 68.3:
“... alegrem-se os justos, regozijem-se na presença de Deus e se encham de
júbilo”; no mesmo livro de Salmos, os santos são quase sempre instados a cantar
com alegria; e Lucas 6.23 registra: “... saltem de alegria” (NVI). Desse modo, os
santos são copiosamente instados a render graças em grau muito elevado pelas
misericórdias divinas, a “louvar a Deus de todo o coração, com o coração alçado
aos caminhos do Senhor e com a alma a engrandecê-lo, cantando seus louvores,
anunciando suas prodigiosas obras, proclamando seus feitos” e assim por diante.
Descobrimos os santos mais eminentes das Escrituras quase sempre
declarando suas sublimes afeições. Assim, o salmista fala de seu amor indizível:
“Como amo tua lei!” (Sl 119.97). Igualmente, manifesta imenso ódio pelo
pecado em Salmos 139.21,22: “SENHOR, não odeio eu os que te odeiam? Não
detesto os que se levantam contra ti? Eu os odeio com ódio absoluto”; além de
exprimir profundo sofrimento por seus pecados, que lhe cobriam “a cabeça como
carga pesada” e insuportável; enquanto tais pecados permaneciam inconfessos,
ele gemia tanto, o dia todo, que seus ossos “se consumiam” e “seu vigor se
esgotou como no calor da seca” (Sl 32.3,4; 38.4). Por isso, ele manifesta tantas
vezes graus elevados de desejos espirituais, com profusão das mais fortes
expressões possíveis, tais como “eu te busco [a Deus] ansiosamente. Minha alma
tem sede de ti; meu ser anseia por ti em uma terra seca e exaurida, onde não há
água” (Sl 63.1), clama com suspiros, com a carne e o coração, revela a alma
abatida pelos anelos que tem, entre muitas outras declarações de quereres
espirituais. Em Salmos 119.136, ele exprime o extremo e imenso pesar pelos
pecados dos outros: “Meus olhos derramam rios de lágrimas, porque os homens
não guardam tua lei”; e no versículo 53 expõe sua repugnância pela iniquidade:
“Grande indignação apoderou-se de mim, por causa dos ímpios que abandonam
tua lei”. E manifesta elevados atos de alegria: “Ó SENHOR, o rei se alegra em tua
força; e se regozija intensamente em tua salvação!” (Sl 21.1); “Meus lábios [...]
exultarão quando eu cantar teus louvores” (Sl 71.23); “Meus lábios te louvarão,
pois teu amor é melhor que a vida. Assim eu te bendirei enquanto viver; em teu
nome levantarei as minhas mãos. A minha alma se farta, como numa mesa de
carnes; a minha boca te louva com alegria nos lábios, quando me lembro de ti no
meu leito e medito em ti nas vigílias da noite, pois tens sido meu auxílio; eu
canto de júbilo à sombra das tuas asas” (Sl 63.3-7).
O apóstolo Paulo exprime elevadas atitudes de afeição. Assim ele se refere
às práticas de piedade e à preocupação com o bem dos outros, a ponto de ter o
coração angustiado; ao amor enorme, intenso e abundante; a sérias e desejosas
aspirações, à alegria extraordinária; além de falar de seus triunfos e exultação
espiritual, da sincera expectativa e esperança, de suas muitas lágrimas, das dores
de parto da alma, em compaixão, tristeza, desejos sinceros, ciúme piedoso e
apaixonado zelo — em muitos trechos já citados que, portanto, não preciso
repetir. João Batista exultou de alegria (Jo 3.29). As Escrituras descrevem a
elevada atitude de afeição religiosa que, na ocasião da ressurreição do Senhor,
tiveram as abençoadas mulheres que lhe haviam ungido o corpo: “Elas, então,
saindo apressadamente do sepulcro, com temor e grande alegria, correram para
contar tudo aos discípulos” (Mt 28.8).
É bem frequente a predição de que a igreja de Deus, em seus felizes tempos
vindouros aqui na terra, há de fruir extraordinário júbilo: “Ó SENHOR, bem-
aventurado o povo que reconhece o som do louvor, que anda na luz da tua
presença, que se regozija em teu nome todo dia e na tua justiça é exaltado” (Sl
89.15,16); “Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém; o teu
rei vem a ti” (Zc 9.9), entre outras. Representa-se a mesma situação em inúmeras
outras passagens. Porque graus elevados de alegria são os frutos genuínos e
característicos do evangelho de Cristo, os anjos chamaram esse evangelho de
“novas de grande alegria para todo o povo” (Lc 2.10).
Os santos e os anjos no céu, cuja religião chegou ao mais alto grau de
excelência, são profundamente tocados pelo que veem e contemplam da
perfeição de Deus e do primor de suas obras. Eles são como chamas puras
celestes em amor, grandiosidade e no vigor de sua alegria e gratidão. Seus
louvores são retratados como “a voz de muitas águas e a voz de grande trovão”.
O único motivo por que as afeições deles são tão mais elevadas que as afeições
piedosas dos santos aqui na terra é que eles enxergam aquilo que os toca mais de
acordo com a verdade deles e têm suas afeições mais concordes com a natureza
dessas coisas. Se, por conseguinte, as afeições religiosas dos homens daqui deste
mundo forem da mesma natureza e espécie que as dos santos e anjos no céu,
quanto mais elevadas forem e mais próximas estiverem do nível das afeições
deles, melhor, pois nesse caso serão tão conformes com a verdade quanto as
deles.
Isso revela sem dúvida que afeições religiosas muito intensas não são prova
de que não sejam do tipo que tem a natureza da religião verdadeira. Logo, estão
completamente errados aqueles que acusam as pessoas de serem fanáticas só
porque elas têm afeições muito intensas.
Em contrapartida, o mero fato de serem intensas não é prova de que as
afeições religiosas sejam espirituais e provenientes da graça. As Sagradas
Escrituras, nossa regra precisa e infalível para julgar questões desse gênero,
deixam bem explícito que nem toda afeição religiosa intensa é espiritual ou
salvífica. O apóstolo Paulo fala das afeições dos gálatas, antes tão intensas, mas
no momento em que ele lhes escreve, como diz com absoluta franqueza, teme
que tenham sido em vão e não resultaram em nada: “Onde está aquela vossa
alegria? Porque eu mesmo sou testemunha de que, se fosse possível, teríeis
arrancado os próprios olhos para dá-los a mim” (Gl 4.15). No versículo 11, ele já
lamentava: “Temo que eu talvez tenha trabalhado inutilmente para convosco”.
Os israelitas também se comoveram igualmente com a misericórdia de Deus em
favor deles quando viram a maravilhosa obra do Senhor no gesto em favor deles
no mar Vermelho, onde lhe entoaram louvores. Apesar disso, logo se esqueceram
das obras divinas. Mais uma vez ficaram sobremodo comovidos ao pé do monte
Sinai, quando presenciaram as admiráveis manifestações do próprio Deus. Foi
como se tivessem a disposição de ânimo vigorosamente comprometida e, quando
Deus lhes propôs sua santa aliança, responderam com prontidão e intrepidez:
“Faremos tudo o que o SENHOR falou”. Com que brevidade, porém, se acabou
todo esse vigoroso e pronto zelo de afeições! Quão presto foram abandonados o
compromisso e toda a disposição! Quanto açodamento para seguirem outros
deuses, regozijar-se e clamar ao redor do bezerro de ouro! Assim também as
multidões impressionadas com o milagre da ressurreição de Lázaro ficaram tão
exaltadas e comovidas que, quando Jesus, não muito depois, entrou em
Jerusalém, elas o engrandeciam efusivamente. Muitos dentre esse enorme
contingente de pessoas do povo cortaram ramos de palmeira e espalharam pelo
caminho por onde ele passaria, como se aquele solo não fosse digno dos cascos
do jumento que ele montava. Não apenas isso, mas também desvestiram as capas
e as estenderam pelo chão, ao mesmo tempo que clamavam em alta voz:
“Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana nas
alturas!” (Mt 21.9). Tamanha era a agitação que causou nova comoção na cidade
inteira, alvoroçando os habitantes. O evangelista João nos diz que o alvoroço do
povo se deveu ao impacto do milagre da ressurreição de Lázaro (Jo 12.18).
Nessa oportunidade, uma enorme multidão clamava “hosana”, o que deu ensejo
ao queixume dos fariseus: “Vede que nada conseguistes! O mundo inteiro vai
atrás dele!” (Jo 12.19). Na ocasião, contudo, Cristo tinha bem poucos discípulos
verdadeiros. Quão rápido se acabou essa agitação! Todo esse ânimo é sufocado e
morto quando esse Jesus, amarrado e vestido com um falso manto real e uma
coroa de espinhos, foi ridicularizado, cuspido, açoitado, condenado e executado.
Na verdade, houve, sim, grande alarido por causa dele. A multidão, como fizera
antes, gritava, mas agora era diferente, já não era mais “hosana!, hosana!”, mas,
sim, “crucifica-o!, crucifica-o!”.
A voz unânime dos teólogos ortodoxos afirma que pode haver afeições
religiosas da mais alta intensidade, sem, entretanto, nada de religião verdadeira.1

II. As afeições religiosas terem fortes efeitos no corpo não


significa que tenham a natureza da religião verdadeira nem
que não a tenham
Toda afeição, seja qual for, tem efeito no corpo, de algum modo e em certa
medida. Como já se observou, nossa natureza e as leis da união entre alma e
corpo são tais que a mente não pode agir com ânimo e vigor sem nenhum efeito
sobre o resto do organismo. O corpo é tão sujeito à mente, e seus humores
participam de tal modo das atividades mentais, particularmente os da vivacidade
e alegria, que não pode haver nenhuma reflexão tão intensa sem efeito algum
sobre eles. Na verdade, não se sabe ao certo se, toda vez que a alma da pessoa
viva reflete sobre uma ideia ou exerce alguma atividade, ocorre algum
movimento ou mudança de movimento correspondente dos humores em alguma
parte do corpo. A experiência universal, contudo, revela que a atividade das
afeições costuma particularmente causar efeitos consideráveis no corpo. Sendo
assim — que as afeições têm efeito sobre o corpo —, podemos muito bem
imaginar que, quanto maiores essas afeições e mais vigorosa sua ação (mantidas
as mesmas condições), maiores serão os seus efeitos no corpo. Não é de admirar,
portanto, que atividades tão intensas das afeições tenham efeitos intensos no
corpo. Por conseguinte, visto haver muitas afeições intensas, tanto comuns
quanto espirituais, não espanta que surtam efeitos também intensos no corpo,
oriundos de ambas as espécies de afeições. Desse modo, tais efeitos não
garantem que as afeições que os produziram sejam de um tipo ou de outro.
Efeitos intensos no corpo certamente não são prova segura de que as
afeições sejam espirituais, pois vemos muitas vezes que tais efeitos resultam de
afeições intensas em relação a coisas temporais, com as quais a religião não
guarda relação. Se afeições intensas relacionadas com coisas seculares —
afeições tão somente naturais — podem causar esses efeitos, desconheço a regra
pela qual devamos decidir que as afeições elevadas relacionadas com as coisas
da religião, igualmente procedentes da natureza, não podem causar efeito
semelhante.
Em contrapartida, também não conheço nenhuma regra que determine se as
afeições santas e cheias da graça, elevadas à mesma altura de qualquer afeição
natural e igualmente intensas e vigorosas, não têm forte efeito no corpo.
Nenhuma norma assim pode partir da razão. Não sei de motivo algum por que
ser tocado pela visão da glória de Deus não deveria fazer o corpo desfalecer à
semelhança do corpo tocado pela glória de Salomão. Tampouco a Escritura já
produziu preceito desse tipo. Em nenhuma das recentes controvérsias acerca de
assuntos dessa natureza jamais se encontrou nenhuma norma do tipo. As
afeições espirituais têm enorme poder. Lemos a respeito do poder que atuou nos
cristãos,2 do Espírito de Deus habitando neles como o Espírito de Poder3 e da
ação eficaz do seu poder neles.4 Mas a natureza humana é fraca. As Escrituras
afirmam que a carne e o sangue são demasiado fracos, notadamente no tocante à
incompetência para operações e atividades espirituais e celestiais
importantíssimas (Mt 26.41; 1Co 15.43,50). O texto que estamos observando
fala de “alegria inexprimível e cheia de glória” (1Pe 1.8). E quem, ponderando
sobre a natureza humana e a natureza das afeições, pode ter alguma dúvida
razoável de que essa “alegria inexprimível e cheia de glória” talvez seja grande e
poderosa demais para o débil pó e as cinzas, a ponto de oprimir
consideravelmente a natureza humana? Fica evidente pela Escritura que as
verdadeiras descobertas divinas ou as contemplações da glória de Deus, quando
concedidas em grande medida, costumam, ao comover a mente, sobrecarregar o
corpo. A Sagrada Escritura nos ensina repetidas vezes que, se essas concepções
ou visões fossem dadas na mesma medida que são dadas no céu, a frágil
constituição do corpo não resistiria a elas, e nenhum ser humano pode ver a
Deus dessa maneira e continuar vivo. O conhecimento que os santos têm da
beleza e da glória de Deus neste mundo e as santas afeições provenientes desse
conhecimento são da mesma natureza daquilo que experimentam os santos no
céu, sendo as únicas diferenças a intensidade e as circunstâncias. O que Deus dá
aos santos ainda na terra é o antegozo da felicidade celestial e o penhor da sua
herança futura. Quem imporá limites a Deus na concessão desse penhor? Quem
lhe dirá qual parcela da herança deve dar como parte de sua recompensa futura
como garantia do todo? Visto que Deus nos ensina em sua Palavra que a
recompensa inteira é tão grande, a ponto de destruir o corpo num átimo, não
seria ousado demais de nossa parte impor limites ao Deus soberano, como dizer
que, ao conceder o penhor dessa recompensa neste mundo, ele não deve jamais
concedê-lo em quantidade tal que venha a reduzir o vigor do corpo? Ora, em
parte alguma se lê que o próprio Deus se haja imposto tais limites.
Referindo-se às suas veementes afeições religiosas, o salmista fala do efeito
delas sobre sua carne, o corpo, além do que sentia na alma, distinguindo uma da
outra expressamente e reiteradas vezes: “Minha alma suspira e desfalece pelos
átrios do SENHOR; meu coração e meu corpo clamam pelo Deus vivo” (Sl 84.2).
Temos aí uma distinção cristalina entre as afeições do coração e as da carne.
Igualmente, Salmos 63.1 deixa bem visível a diferença intencional entre alma e
carne: “A minha alma tem sede de ti; meu corpo te almeja, como terra árida,
exausta, sem água” (ARA).
O profeta Habacuque relata que seu corpo foi dominado pela percepção da
majestade de Deus: “Quando eu o ouvi, meu ventre se comoveu, meus lábios
tremeram diante do seu ruído; a fraqueza entrou nos meus ossos, os meus passos
vacilaram” (Hc 3.16). Também o salmista fala clara e explicitamente do tremor
de sua carne: “Tremo de temor por ti e tenho medo dos teus juízos” (Sl 119.120).
É evidente que tais contemplações da glória de Deus como às vezes são
dadas neste mundo costumam subjugar o corpo, porquanto a Escritura nos relata
que de fato esse foi o efeito das manifestações externas que Deus deu de si a
alguns de seus santos, as quais foram produzidas com esse propósito específico,
a saber, dar-lhes uma noção da majestade e da glória de Deus. Temos exemplos
dessas ocorrências no profeta Daniel e no apóstolo João. Ao relatar uma visão
externa da glória de Cristo, Daniel conta: “Senti-me enfraquecido; meu rosto
ficou pálido, e não retive força alguma” (Dn 10.8). O apóstolo João, narrando
manifestação semelhante que lhe ocorreu, diz: “Quando o vi, caí a seus pés
como se estivesse morto” (Ap 1.17). Inútil é dizer aqui que essas foram as únicas
manifestações ou os únicos símbolos da glória de Deus contempladas por esses
santos, pois embora seja verdade que essas tenham sido representações
exteriores da glória de Cristo vistas com os olhos físicos, o propósito e o uso
desses símbolos ou representações exteriores eram transmitir aos profetas uma
ideia daquilo que os símbolos indicavam, a saber, a verdadeira glória e majestade
de Cristo, sua glória espiritual. Essas visões foram empregadas tão somente
como representações dessa glória espiritual, e foi assim, sem dúvida, que eles as
receberam, aprimoraram e foram tocados por elas. De acordo com a intenção de
Deus para esses sinais exteriores, por meio deles os profetas tiveram
significativa e expressiva percepção da real glória e majestade da natureza divina
que tais símbolos representavam. Assim, eles ficaram profundamente afetados,
com a alma tragada e o corpo dominado. Por isso, considero muito ousados e
petulantes os que dizem que Deus não pode dar e não dará semelhantes
percepções comoventes e apreensões claras da mesma e real glória e majestade
de sua natureza a nenhum de seus santos sem a intervenção de nenhuma dessas
prefigurações.
Antes de sair deste tópico, quero ainda ressaltar que a Escritura recorre clara
e frequentemente a efeitos físicos para exprimir a força das afeições santas e
espirituais, tais como tremer,5 gemer,6 adoecer,7 clamar,8 suspirar9 e desfalecer.10
Ora, mesmo supondo que os termos usados para designar a intensidade das
afeições sejam apenas expressões metafóricas, espero que ninguém discorde de
tratar-se de figuras apropriadas e cabíveis empregadas pelo Espírito de Deus para
denotar o elevado grau dessas afeições espirituais. Não sei como essas
expressões seriam classificadas se tais afeições espirituais, mesmo em elevado
grau, não se inclinassem para nada disso, mas, ao contrário, fossem os efeitos
próprios e os tristes sinais de afeições falsas e engodo do Diabo. Não posso
imaginar que Deus fizesse uso de expressões tão alheias às afeições espirituais,
típicas da astúcia de Satanás, e com forte cheiro do abismo insondável, como
belas figuras para simbolizar a sublimidade das afeições santas.

III. As afeições religiosas capacitarem aqueles que as têm a


falar com eloquência, fervor e prodigalidade das coisas da
religião não significa que sejam cheias da graça nem que
não sejam
Muitos há que, ao testemunharem tais afeições nos outros, são tomados de forte
preconceito contra eles. Basta alguém ser eloquente para que estes o condenem,
chamando-o de fariseu e hipócrita pretensioso. Em compensação, há outros
tantos que, ao presenciar essas afeições em alguém, logo se precipitam,
carregados de ignorância e imprudência, a decidir que esse indivíduo é um
genuíno filho de Deus, sob a influência salvadora do seu Espírito, e a isso se
referem como provas consideráveis de que tal indivíduo é nova criatura. Dizem:
“A boca de fulano agora se abriu. Ele tinha dificuldade para falar, mas hoje está
pleno e livre. Agora é livre para abrir o coração, contar suas experiências e
proferir louvores a Deus, louvores que dele fluem como a água da fonte”, e
outras frases semelhantes. Sobretudo, esses tais são fascinados e atraídos para
uma pretensiosa e inquestionável certeza de que são alvo da obra salvadora, isso
quando não apenas falam livre e copiosamente, mas também com afeto e
seriedade.
Entretanto, isso é fruto de pouquíssima ponderação, de uma experiência
limitada e escassa, como os fatos demonstram sobejamente. É um erro em que as
pessoas incorrem muitas vezes por confiar em seu próprio discernimento e
sabedoria, e por tomar como norma suas próprias ideias em vez da Sagrada
Escritura. Embora contenha muitas regras sobre como devemos julgar nosso
próprio estado e como devemos orientar nossa opinião a respeito dos outros, a
Escritura não registra nenhuma mediante a qual possamos julgar a nossa
condição espiritual ou a de outras pessoas com base nisso. Porque isso não passa
de religião da boca para fora, representada na Escritura pelas folhas de uma
árvore, que, apesar de lhe serem indispensáveis, não são mencionadas em
nenhuma passagem como prova da boa qualidade da árvore.
Essas pessoas são predispostas a falar muito de coisas da religião, quer de
uma causa boa, quer de uma ruim. Isso pode ocorrer porque seu coração
transborda de afeições santas: “... pois a boca fala do que o coração está cheio”
(Mt 12.34; Lc 6.45); ou porque o coração delas está cheio de afeições religiosas
não santas, “pois”, ainda, “a boca fala do que o coração está cheio”. É bem
próprio da natureza das afeições, quando fortes e a despeito de sua espécie e do
objeto de sua ação, predispor as pessoas a falarem com prodigalidade daquilo
que as toca — não apenas falar muito, mas também com muito zelo e fervor. Por
isso, uma pessoa que fale pródiga e fervorosamente de assuntos de religião pode
ser prova tão somente de que está muito comovida com as questões de religião;
mas, como já se demonstrou, isso pode acontecer sem a presença da graça.
Enquanto duram as afeições elevadas que tocam significativamente as pessoas,
estas se ocupam delas com zelo e entusiasmo e são propensas a demonstrar esse
zelo e entusiasmo nas conversas e na conduta — como fez, por algum tempo, a
maioria dos judeus de toda a Judeia e Galileia em relação ao ensino e ao batismo
de João Batista, enquanto estava disposta a se regozijar na luz do precursor. Fez-
se grande alvoroço em toda a região e entre todo tipo de gente a respeito desse
grande profeta e de seu ministério. Assim, semelhantemente, as multidões quase
sempre manifestavam muita seriedade e forte envolvimento de espírito em tudo
o que era exterior acerca de Cristo, de sua pregação e de seus milagres, e
ficavam “maravilhadas com seu ensino” (Mt 7.28), logo recebendo a Palavra
“com alegria” (Mt 13.20), seguindo-o, às vezes dia e noite, deixando de beber,
comer e dormir para ouvi-lo. Uma vez a multidão o acompanhou no deserto,
jejuando três dias seguidos para ouvi-lo; às vezes o exaltavam, dizendo: “Nunca
ninguém falou como este homem” (Jo 7.46), e faziam isso com zelo e fervor.
Todavia, de modo geral, a que tudo isso levou?
Um indivíduo pode falar sobejamente das próprias experiências, referindo-se
a elas em toda parte e a todos os companheiros, mas, quando isso ocorre, é mau
sinal, em vez de bom. A árvore cheia de folhas raramente dá muitos frutos, assim
como é raro a nuvem, não obstante a aparência de carregada de muita água,
derramar chuvas abundantes sobre a terra seca e sedenta, se traz consigo muito
vento. São metáforas que o Espírito Santo às vezes se apraz em usar para
representar a demonstração exagerada de religião da boca para fora numa vida
sem frutos adequados: “Como nuvens e ventos que não trazem chuva, assim é o
homem que se gaba de presentes que não deu” (Pv 25.14). Também o apóstolo
Judas, referindo-se a certos homens de outrora que se infiltraram entre os santos
sem ser notados e tinham aparência de muita piedade, afirma que os tais “são
como nuvens sem água, levadas pelos ventos” (Jd 4,12); e o apóstolo Pedro,
comentando sobre o mesmo tipo de gente, diz: “São fontes sem água, névoas
levadas por tempestade” (2Pe 2.17). As afeições falsas, quando igualmente
fortes, são identificáveis com muito mais rapidez que as verdadeiras; pois é da
natureza da falsa religião ostentar-se e ser notada, como faziam os fariseus.11

IV. As afeições religiosas não serem produzidas nem


estimuladas mediante artifícios e habilidades das pessoas
não significa que sejam cheias da graça nem que não
sejam
Nos dias de hoje muitos condenam todas as afeições despertadas de modo que o
indivíduo sujeito delas não as consiga explicar, visto que essas afeições não são
fruto de nenhum esforço da pessoa nem consequência natural das faculdades e
princípios da natureza humana em tais circunstâncias e com tais meios, mas da
influência de algum poder extrínseco e sobrenatural atuante em sua mente.
Muitos têm reprovado e ridicularizado de forma exacerbada a doutrina da
experiência íntima ou da percepção sensível do poder e operação imediatos do
Espírito de Deus. Quanto se tem censurado e ridicularizado nos últimos tempos a
doutrina da experiência interior, ou percepção sensata do poder e atuação
imediatos do Espírito Santo! Esses tais dizem que a maneira de agir do Espírito
de Deus é cooperar de um jeito silencioso, discreto e impossível de discernir,
usando meios e o nosso próprio empenho de modo que os sentidos não
conseguem distinguir entre as influências do Espírito de Deus e as ações naturais
das nossas próprias faculdades mentais.
É verdade que esperar receber as influências salvadoras do Espírito de Deus
negligenciando ao mesmo tempo a diligente melhoria dos meios de graça
estabelecidos é presunção insensata. Esperar que o Espírito de Deus aja de modo
redentor na mente de alguém sem que o Espírito faça uso de meio, como se fosse
subordinado ao efeito, é fanatismo. Também é verdade, sem dúvida, que o
Espírito de Deus age de modo e em circunstâncias diversos e algumas vezes
opera com mais discrição e mais progressivamente que outras, a partir de um
começo mais modesto.
Entretanto, se de fato existe um poder completamente diferente e superior ao
nosso e ao poder de todos os meios e instrumentos, e acima do poder da
natureza, imprescindível para produzir a graça salvadora no coração, de acordo
com a profissão de fé geral do país, por certo não é nem um pouco insensato
supor que esse efeito deve ser assim produzido com muita frequência a fim de
deixar bem explícito, manifesto e assentado que é assim. Se a graça se deve de
fato à ação poderosa e eficaz de um agente extrínseco a nós, divino, por que não
seria razoável supor que deve parecer assim para os seus alvos? É estranho a
graça parecer tal como é? Se, com efeito, ela não é produzida no coração por
nosso próprio poder nem resulta da capacidade natural de nossas faculdades,
tampouco de nenhum meio ou instrumento, mas é propriamente obra e produto
do Espírito do Todo-Poderoso, será estranho e inexplicável que a mesma graça
pareça concorde com a verdade e não justamente contrária a ela aos que são seu
alvo; de tal modo que, se as pessoas dizem que os efeitos de que elas próprias
têm consciência lhes parecem não proceder de nenhuma capacidade ou ação
natural da mente, mas do poder sobrenatural de algum outro agente? Isso deveria
ser de pronto considerado prova inconteste de que esses estão iludidos, porque as
coisas lhes parecem do jeito que são? Eis, pois, a objeção apresentada:
considera-se prova clara de que as apreensões e afeições tidas por muitos não
são de fato provenientes de tal causa porque lhes parece provir dessa tal causa:
esses indivíduos afirmam que aquilo de que têm consciência lhes parece muito
bem não ter origem neles mesmos, mas, sim, no magnífico poder do Espírito de
Deus; por isso os outros os condenam e decidem que suas experiências não são
do Espírito de Deus, mas desses próprios indivíduos ou do Diabo. É assim que
hoje multidões inteiras têm sido tratadas injustamente por seus semelhantes.
Se de fato é assim, como a Escritura fartamente ensina, que a graça na alma
tanto é efeito do poder de Deus que pode ser com propriedade comparada aos
efeitos completamente impossíveis de ter origem em alguma capacidade do
indivíduo a eles sujeito (efeitos como a geração ou o ser gerado, a ressurreição
ou o ser ressuscitado dos mortos, a criação ou o ser trazido à existência a partir
do nada) e é um efeito em que o magnífico poder de Deus é mui glorificado e a
suprema grandeza de sua onipotência se manifesta,12 que justificativa, então, se
pode dar para que o Todo-poderoso, em tão grandiosa ação de seu poder, devesse
ocultá-lo com tanto zelo que os seus destinatários não pudessem distinguir nada
dele? Que motivo ou revelação alguém tem para decidir que Deus age assim? Se
podemos julgar pela Escritura que isso não se coaduna com a maneira de Deus
proceder em suas ações e dispensações, mas pelo contrário, o modo de Deus agir
nas grandes obras de seu poder e misericórdia em prol do seu povo é organizar
as coisas a fim de tornar visível a sua mão, revelar o seu poder notável e
explicitar ainda mais a dependência dos seres humanos de seu Criador, para que
nenhuma carne se glorie na sua presença,13 somente Deus seja exaltado,14 a
excelência do poder seja de Deus, não do homem,15 e o poder de Cristo seja
manifesto em nossa fraqueza16 — enfim, para que ninguém diga: “Minha
própria mão me livrou”.17 Foi assim na maioria dos livramentos temporais que
Deus deu ao Israel antigo, livramentos que eram tipos da salvação do povo de
Deus de seus inimigos espirituais. Assim foi na redenção de Israel do cativeiro
egípcio, o Senhor os resgatou com mão forte e braço estendido e, para que seu
poder fosse ainda mais notável, primeiro permitiu que os israelitas chegassem às
circunstâncias mais desvalidas e aflitivas. Assim foi na grande redenção de
Gideão, quando Deus reduziu seu exército a apenas um punhado de homens, sem
nenhuma outra arma a não ser trombetas e jarros com tochas acesas. Assim foi
quando livrou Israel de Golias com um rapaz armado de uma funda e uma pedra.
Assim foi na grande obra de Deus de chamar os gentios e converter o mundo
pagão depois da ascensão de Cristo, antes disso o mundo por sua própria
sabedoria não conhecia a Deus, todo o empenho dos filósofos, durante séculos,
para reformar o mundo mostrou-se infrutífero, e tudo deixara completamente
claro que o mundo estava em total desamparo se não fosse o grande poder de
Deus. E assim foi na maioria das conversões de determinadas pessoas, cujo
relato consta na história do Novo Testamento. Essas pessoas não passaram pela
conversão em silêncio, em segredo, nem gradual e inconscientemente, como
hoje em dia se insiste em afirmar; mas com as provas manifestas de um poder
sobrenatural que lhes causou repentina e maravilhosamente uma tremenda
mudança — evidências que, nos dias presentes, são consideradas sinais
inequívocos de delírio e fanatismo.
Em Efésios 1.18,19, o apóstolo afirma que Deus ilumina a mente dos
cristãos levando-os a crer em Cristo a fim de que possam conhecer a suprema
grandeza do seu poder para com os que creem. Literalmente: “... sendo
iluminados os olhos do vosso coração, para que saibais qual é a esperança do
chamado que ele vos fez, quais são as riquezas da glória da sua herança nos
santos e qual é a suprema grandeza do seu poder para conosco, os que cremos,
segundo a atuação da força do seu poder”. Ora, quando o apóstolo comenta que,
na iluminação e no chamado eficaz, eles são alvo do poder de Deus para que
conheçam a imensidão do seu poder para com os que creem, ele não pretende
dizer outra coisa senão que podem conhecer por experiência. Se os santos
conhecem esse poder por experiência, eles o sentem, discernem e têm
consciência dele de maneira sensivelmente distinta das operações naturais da
própria mente, o que está em desacordo com a ideia de Deus agir tão secreta e
imperceptivelmente que eles não conseguem saber que são alvo da influência de
algum poder extrínseco, a menos que pudessem justificar isso com declarações
da Escritura, coisa bem diferente de saber por experiência.
Portanto, não é lógico nem bíblico determinar que as afeições não são fruto
das ações da graça do Espírito de Deus, pois logicamente elas não provêm dos
próprios indivíduos alvos da ação delas.
Em contrapartida, as afeições não serem produzidas pelos indivíduos que são
alvos delas, nem lhes surgirem na mente de modo inexplicável, não é nenhuma
prova de que sejam obra da graça.
Muitos usam esse argumento em favor próprio. Quando se referem ao que
experimentaram, dizem: “Tenho certeza de que não fiz isso por mim mesmo.
Não foi fruto de nenhum artifício nem esforço de minha parte; surgiu sem que eu
sequer pensasse nessas afeições. Mesmo que tivesse todas as condições para
isso, eu não conseguiria repeti-lo quando me aprouvesse”. Assim, chegam à
indouta e infundada conclusão de que o que tiveram é de natureza salvadora e só
pode proceder da influência poderosa do Espírito de Deus. A ação de que foram
alvo pode, na verdade, não se haver originado neles, mas talvez tenha resultado
da ação de algum agente invisível, algum espírito que não seja o deles; isso,
porém, não implica que tal ação provenha do Espírito de Deus. Além do Espírito
Santo, há outros espíritos que têm influência na mente dos seres humanos.
Fomos orientados a não dar crédito a qualquer espírito, mas a avaliarmos se os
espíritos vêm de Deus. Há muitos espíritos falsos, tremendamente atarefados
com os seres humanos, que muitas vezes se transfiguram em anjos de luz e
simulam a ações do Espírito de Deus de várias e maravilhosas maneiras, com
grande astúcia e poder. Também há muitas ações de Satanás bem diferenciáveis
das atividades voluntárias da mente humana. Tais ações se avultam nas
horrendas e medonhas sugestões e insinuações blasfemas, e nos temores e
terrores inúteis e infrutuosos de sua autoria, com as quais ele persegue muita
gente. O poder de Satanás pode ser tão imediato e notável em consolações e
alegrias falsas quanto em terrores e insinuações assombrosas; muitas vezes é
assim de fato. Não está no poder das pessoas entrar nesses transes de
arrebatamento dos quais muitas têm sido alvo, como os anabatistas da Alemanha
e muitos outros fanáticos delirantes iguais a eles.
Além disso, deve-se levar em conta que é possível as pessoas terem essas
impressões mentais sem que elas próprias nem espírito maligno algum as tenham
produzido, mas, sim, o Espírito de Deus, apesar de não provenientes de nenhuma
influência salvadora, mas apenas da influência comum do Espírito. Os alvos
dessas impressões podem ser contados entre aqueles acerca de quem lemos em
Hebreus 6.4,5: “… que uma vez foram iluminados, experimentaram o dom
celestial e se tornaram participantes do Espírito Santo, e experimentaram a boa
palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro” e, todavia, podem não ter
nenhum conhecimento das “coisas melhores e relativas à salvação” a que se
refere o versículo 9.
Nos casos em que não há interferência imediata de nenhum espírito bom
nem de espírito mau algum, as pessoas — sobretudo as de constituição física
débil e deprimidas, de cérebro fraco e facilmente suscetíveis a impressões —
podem ter percepções e imaginações estranhas, associadas a inexplicáveis
afeições fortes não produzidas voluntariamente por elas. Vemos que tais pessoas
são suscetíveis a essas impressões relativas a coisas temporais, e pelo mesmo
motivo elas também podem ser suscetíveis a coisas espirituais. Assim como
quem dorme tem sonhos dos quais não é o autor voluntário, também muitas
pessoas são igualmente sujeitas a impressões involuntárias quando acordadas.

V. As afeições religiosas virem acompanhadas de passagens


das Escrituras trazidas à mente de modo incomum não é
nem deixa de ser indicação de que tais afeições sejam de
fato santas e espirituais
As afeições terem sido ocasionadas por passagens da Escritura vindas à mente
dessa maneira não é nenhum sinal de que elas sejam da graça — desde que o
fundamento dessas afeições seja a própria Escritura ou a verdade que ela traz e
ensina, não apenas nem principalmente a forma súbita e incomum como essas
passagens vieram à memória.
Em compensação, também não é nenhum sinal de que as afeições sejam da
graça por surgirem no momento em que passagens da Escritura vêm súbita e
extraordinariamente à memória; quer sejam elas afeições de temor, de esperança,
de alegria, quer sejam de pesar ou outra qualquer. Parece que alguns consideram
isso uma boa evidência de que suas afeições são salvíficas, sobretudo se os
sentimentos despertados forem de esperança ou alegria, ou quaisquer outros que
sejam agradáveis e prazerosos. Esses mencionam o fato como sinal de que tudo
está bem, de que a experiência deles veio acompanhada da Palavra e dizem:
“Vieram-me à mente tais e tais promessas. Chegaram de repente, como se me
fossem faladas. O surgimento de passagens da Escritura em minha mente não
teve nenhuma participação de minha parte. Eu não estava pensando em nada
relacionado a esse texto; veio de repente e me surpreendeu. Não pensava nele há
muito tempo. No início eu nem sabia que era uma passagem da Escritura, pois
não me recordo de tê-la lido alguma vez”. Essas pessoas talvez acrescentem: “As
passagens me vinham à mente uma atrás da outra, como uma torrente. Eram
textos de todas as partes da Bíblia: os mais doces e agradáveis, os mais
apropriados e convenientes imagináveis. Encheram-me à plenitude, até eu não
poder senão quedar-me pasmado. As lágrimas corriam soltas. Fui tomado pela
alegria e já não podia mais duvidar”. Por tudo isso, esses indivíduos acham que
têm prova incontestável de que suas afeições só podem proceder de Deus e são
corretas, e eles estão bem; tal conclusão não tem fundamento algum. De onde
eles tiraram tal regra — de que qualquer afeição ou experiência vinda
acompanhada de promessas e textos bíblicos consoladores, ou de versículos
aprazíveis encadeados uns nos outros, trazidos à memória sem o concurso do
esforço pessoal, são prova infalível do caráter salvífico de suas experiências? Em
que parte da Bíblia, magnífico e exclusivo manual seguro para coisas dessa
natureza, se encontra essa norma?
O que nesse assunto engana muita gente de menos entendimento e menos
ponderação talvez seja que, haja vista a Escritura ser a Palavra de Deus,
inerrante, pura e perfeita, as experiências que dela provêm só podem estar certas.
Todavia, é preciso levar em conta que as afeições podem surgir eventualmente
da Escritura, e não procederem propriamente dela, como seu fruto genuíno, pelo
seu correto emprego, mas, sim, de seu mau uso. No que diz respeito a
experiências, tudo que se pode alegar com base na pureza e perfeição da Palavra
de Deus é que as experiências concordes com a Palavra de Deus estão certas e
não podem deixar de estar, mas não que sempre sejam corretas as afeições
manifestadas na ocasião em que a Palavra de Deus vem à mente.
Que provas há de que o Diabo não pode trazer textos da Escritura à mente
das pessoas e fazer mau uso deles para enganá-las? Parece que nisso não há nada
que exceda a capacidade de Satanás. Não é nenhuma obra tão poderosa evocar
sons e palavras na mente das pessoas para termos razão de imaginar que nada
menos que a onipotência baste para isso. Se Satanás tem poder para infundir
palavras e sons na mente das pessoas, também tem o poder de lhes incutir
palavras da Bíblia. Os seres humanos não precisam de nenhuma capacidade mais
elevada para produzir os sons que exprimem as palavras de um texto da
Escritura do que para articular os sons que exprimem a letra de uma canção ou
de uma história banal. Logo, o mesmo poder de Satanás suficiente para reavivar
na memória um som dessa espécie basta para reavivar outros tipos. O sentido
diferente, que depende por completo do costume, não modifica em nada a
capacidade de produzir ou reavivar sons ou textos; ou alguém imagina que os
textos da Escritura são tão sagrados que o Diabo não se atreveria a tocá-los nem
a fazer mau uso deles? Nisso tais pessoas também estão equivocadas. Aquele
que teve insolência suficiente para segurar o próprio Cristo e o levar para cá e
para lá, ao deserto, ao topo do monte e ao pináculo do templo não teme tocar a
Escritura e fazer mau uso dela em prol de seus próprios objetivos, como
demonstrou na mesma ocasião que teve o desplante de apresentar mais de uma
passagem da Escritura para enganar e tentar o próprio Cristo. Se Satanás se
atreveu e teve autorização para trazer à memória do próprio Cristo textos da
Escritura para o tentar, o que nos faz pensar que ele não ousará nem terá
permissão para evocar textos da Escritura na memória de pessoas iníquas para as
tentar e enganar? E mais, se Satanás pode fazer mau emprego de um texto da
Escritura, também pode fazer de outro. Tratar-se de um trecho excelente da
Escritura, uma promessa preciosa e consoladora, por exemplo, não altera em
nada a coragem e a capacidade do Maligno. E se ele pode trazer à memória de
alguém um texto consolador, pode igualmente fazer isso com mil outros; e pode
escolher as passagens da Escritura mais favoráveis aos seus fins e amontoar
promessas bíblicas que, de acordo com as perversas aplicações que ele faz delas,
costumam afastar prodigiosamente qualquer dúvida surgida e confirmar a alegria
e a confiança falsas de um pobre pecador iludido.
Sabemos que os instrumentos do Diabo — os mestres corruptos e hereges —
podem deturpar a Escritura e a deturpam mesmo, “para sua própria perdição”
(2Pe 3.16, ARC) e a de outros. Vemos que eles usam a Escritura, toda ela, sem
escrúpulos, pois não há nenhum texto, por mais precioso e sagrado que seja, de
que eles não se permitam fazer mau uso, para a ruína eterna de multidões de
almas; e não há nenhuma arma do arsenal deles com a qual pratiquem mais
execuções do que essa. E não há razão nenhuma para concluir que o Diabo não
possa do mesmo modo usar a Escritura como instrumento seu; porque, quando
os falsos mestres ensinam heresias, agem como seus instrumentos e servos,
movidos pelo incitamento e a influência dele; por sua vez, ele, sem dúvida, faz o
mesmo que instiga os outros a fazer. Os servos do Diabo não fazem outra coisa
senão seguir seu mestre e praticar as mesmas obras que ele próprio pratica.
Assim como Satanás pode fazer mau uso da Escritura para enganar e destruir
os seres humanos, a insensatez e corrupção destes igualmente os pode destruir. O
pecado que está nos seres humanos age da mesma maneira que o pai dele. O
coração das pessoas é enganoso como o Diabo e recorre aos mesmos expedientes
para enganar.
É evidente, portanto, que qualquer pessoa pode sentir elevadas afeições de
esperança e alegria eventualmente surgidas de textos da Escritura. Promessas
preciosas do texto sagrado surgidas na memória extraordinária e repentinamente,
como se lhe fossem faladas de fato; um aluvião de passagens com esse tema
surgindo uma após outra de modo prodigioso. Nada disso, porém, é argumento
que sustente a origem divina dessas afeições nem prova de que não sejam nada
além de efeitos das ilusões de Satanás.
Eu observaria ainda que é possível ter afeições elevadas e alegres que não só
podem vir acompanhadas da Palavra de Deus, mas também dela procedem, não
vêm de Satanás tampouco da perversidade do coração, mas, sim, de alguma
influência do Espírito de Deus mediante a Palavra; e mesmo assim elas não
tenham nada da natureza da religião verdadeira e salvífica. Assim, os ouvintes
cuja alma era um solo pedregoso muito se alegraram com a Palavra, como se
fosse alegria proveniente da Palavra, como se brotada de uma semente. As
afeições dessas pessoas tinham aparência extremamente semelhante à semente
brotada no solo bom. A diferença só foi revelada pelas consequências no tempo
de provações; e não havia nada de religião salvadora nessas afeições.18

VI. As afeições religiosas terem aparência de amor não é


prova de que sejam da salvação nem de que não sejam
Nenhum cristão professo alegaria que esse argumento seja contrário à natureza
genuína e salvífica das afeições religiosas. Entretanto, alguns imaginam que se
trata de um forte indício de que as afeições provêm das influências salvadoras e
santificadoras do Espírito Santo. Alegam que Satanás é incapaz de amar e que
essas afeições são diametralmente opostas ao Maligno, cuja própria natureza é
inimizade e maldade. Também é verdade que nada é mais excelente, celestial
nem mais divino que o espírito de verdadeiro amor cristão por Deus e pelos seres
humanos. O amor é mais excelente que o conhecimento, a profecia, os milagres
e o falar a língua de homens e de anjos; é o principal dom do Espírito de Deus; é
a vida, a síntese e a essência da religião genuína. Pelo amor somos moldados
mais ao céu e nos tornamos mais contrários ao inferno e ao Diabo. Mas nem por
isso se deve sustentar que essas afeições não podem ser falsificadas. É preciso
notar que, quanto mais uma coisa é excelente, mais falsificações dela haverá. É
por isso que há muito mais falsificações de prata e ouro do que de ferro e cobre.
Existe abundância de diamantes e rubis falsos, mas quem haveria de querer
falsificar pedras comuns? Quanto mais excelentes as coisas são, mais difícil é
produzir algo parecido com elas, em natureza essencial e virtudes interiores,
ainda assim mais variadas serão as falsificações e mais habilidade e sutileza
serão demonstradas em uma imitação precisa dos aspectos exteriores. Por isso, o
maior perigo de ser ludibriado na compra dos supostos medicamentos mais
excelentes e mais eficazes, apesar da grande dificuldade de imitá-los com
qualquer outra substância de qualidade e eficiência semelhantes, é que, quando
ingerimos as falsificações, elas não surtem efeito nenhum. O mesmo acontece
com as virtudes e os dons cristãos. A sutileza de Satanás e o coração enganoso
do ser humano estão habituados sobretudo a falsificar as virtudes e os dons da
mais alta estima. Por isso, talvez não haja dons mais falsificados que o amor e a
humildade, virtudes em que mais se manifesta a beleza do cristão verdadeiro.
Contudo, no que tange ao amor, a Escritura é bem clara ao dizer que as
pessoas podem ter uma espécie de amor religioso, e ainda assim carecer da graça
salvadora. Cristo fala de muitos cristãos professos cujo amor não terá
continuidade e, por isso, não serão salvos. “E, por se multiplicar a maldade, o
amor de muitos esfriará. Mas quem perseverar até o fim será salvo” (Mt
24.12,13). Esta última declaração mostra claramente que esses mencionados
antes, cujo amor não resistirá até o fim e esfriará, não serão salvos.
É possível aparentar amor a Deus e a Cristo, ter afeições vigorosas e
robustas dessa natureza e, ainda assim, carecer da graça. Esse era obviamente o
caso de muitos judeus destituídos da graça, que enalteciam Jesus em público,
seguindo-o dia e noite sem comer, sem beber nem dormir; como os que
disseram: “Mestre, eu te seguirei aonde quer que fores”, ou o saudaram: “Hosana
ao Filho de Davi!”.19
O apóstolo Paulo dá a entender que em seus dias muitos tinham amor
fingido por Cristo: “A graça seja com todos os que amam a nosso Senhor Jesus
Cristo em sinceridade” (Ef 6.24). A palavra usada no original traduzida por
“sinceridade” significa “sem corrupção” e mostra que o apóstolo tinha
consciência de que muitos amavam a Cristo com amor não puro nem espiritual.
Assim também o amor cristão pelo povo de Deus pode ser falso. Está bem
claro na Escritura que pode haver afeições vigorosas desse tipo, destituída da
graça salvadora, como as afeições dos gálatas pelo apóstolo Paulo. Embora se
mostrassem prontos até a arrancar os próprios olhos para dá-los a ele, o apóstolo
manifesta seu temor de que as afeições deles resultem em nada e que em vão ele
tenha trabalhado em favor deles (Gl 4.11,15).

VII. As pessoas terem afeições religiosas de várias espécies,


todas juntas, não é suficiente para definir se elas têm
alguma afeição da graça
Apesar de normalmente desfigurada e monstruosa, e não ter a integridade e
simetria dos elementos vistos na religião verdadeira, ainda assim a religião falsa
pode ter um conjunto enorme de variadas falsas afeições que podem se
assemelhar às afeições da graça.
É evidente que existem falsificações de afeições da graça de todo tipo, como
o amor a Deus e aos irmãos — conforme acabamos de observar —, como o
piedoso pesar pelo pecado no faraó, em Saul, Acabe e nos filhos de Israel no
deserto (Êx 9.27; 1Sm 24.16,17; 26.21; 1Rs 21.27; Nm 14.39,40); o temor de
Deus dos samaritanos, que “temiam o SENHOR, mas também cultuavam seus
próprios deuses” (2Rs 17.32,33); e as dos inimigos de Deus que “se submetem a
ti [Deus] pela grandeza do teu poder” (Sl 66.3), ou, segundo está no hebraico,
“mentem para ele”, isto é, prestam-lhe reverência e submissão falsas. Igualmente
ocorre com o louvor de gratidão, como o dos filhos de Israel, que cantaram
louvores a Deus no mar Vermelho (Sl 106.12), e o de Naamã, o sírio, depois do
milagre da cura de sua lepra (2Rs 5.15).
O mesmo ocorre com a alegria espiritual, como a dos ouvintes de alma
semelhante ao solo pedregoso (Mt 13.20) e, em particular, a dos muitos ouvintes
de João Batista (Jo 5.35); com o zelo de Jeú (2Rs 10.16), o de Paulo antes da
conversão (Gl 1.14; Fp 3.6) e o dos judeus incrédulos (At 22.3; Rm 10.2). Com
efeito, é possível que pessoas privadas da graça tenham desejos religiosos sérios,
talvez parecidos com os de Balaão, que os exprimiu diante da visão
extraordinária do estado de felicidade do povo de Deus, diferente de todo o resto
do mundo (Nm 23.9,10). Essas pessoas também podem ter forte esperança de
vida eterna, como a que tinham os fariseus.
Uma vez que, no estado natural, as pessoas são capazes de ter afeições
semelhantes a todo tipo de afeições religiosas, nada as impede de ter muitas
delas ao mesmo tempo. Os fatos comprovam copiosamente que isso ocorre com
muita frequência. É comum acontecer que, quando falsas afeições se elevam
muito, elas são acompanhadas por várias outras afeições falsas. A multidão que
assistiu à entrada de Cristo em Jerusalém depois do grandioso milagre da
ressurreição de Lázaro se comoveu com muitas afeições religiosas simultâneas,
todas em grau elevado. As pessoas estavam cheias de admiração e
demonstravam muitas afeições de amor, além de um elevado grau de reverência,
ao estenderem suas capas no chão para que Cristo caminhasse sobre elas;
também lhe manifestavam profunda gratidão pelas boas e grandiosas obras que
realizara, louvando-o com alta voz pela salvação que ele trazia, além de ardoroso
anseio pela vinda do reino de Deus, que Jesus estava prestes a estabelecer,
segundo imaginavam; nutriam elevadas esperanças e expectativas do reino,
supondo que ele surgiria de imediato e, por isso, estavam cheias de júbilo, júbilo
que gerou as animadas aclamações, tanto que o seu alvoroço ecoou por toda a
cidade. Era grande a demonstração de zelo e açodamento para seguir a Jesus e,
sem demora, ajudá-lo a estabelecer seu reino naquela ocasião da grande festa da
Páscoa. Considerando a natureza humana e o caráter das afeições, não é difícil
explicar por que uma afeição, quando surge em elevado grau, é capaz de
desencadear outras; sobretudo se a afeição exaltada for de amor falsificado, a
exemplo da multidão que cantava “hosana”. Esta suscita naturalmente muitas
outras afeições. Porque, como já foi mencionado, o amor é a principal afeição, é
como se fosse a fonte de todas as outras. Imaginemos uma pessoa que tenha
passado algum tempo sob muita atividade mental por medo do inferno — com o
coração enfraquecido pela angústia e por apreensões terríveis, à beira do
desespero — e que seja libertada de uma só vez depois de ter sido vigorosamente
levada a crer, mediante alguma astúcia de Satanás, que Deus a perdoou, aceita-a
como alvo do seu precioso amor e lhe promete a vida eterna. Presumindo essa
pessoa, mediante alguma visão, ideia ou vívida imaginação nela despertada de
repente, de alguém com um belo semblante, que lhe sorri de braços abertos,
gotejando sangue e que ela imagina ser Cristo, sem nenhum outro
esclarecimento que a faça ver a excelência espiritual do Redentor, a sua
plenitude e o caminho da salvação revelado no evangelho; ou, quem sabe, essa
pessoa tenha ouvido alguma voz ou palavra, tais como: “Filho, tem bom ânimo,
teus pecados foram perdoados” ou “Não temas, aprouve ao Pai te conceder o
reino”, faladas, segundo julga, diretamente por Deus, embora sem nenhuma
aceitação prévia de Cristo nem nenhum relacionamento pessoal com ele. Nesse
caso, quantas paixões diversas se haveriam avolumado de uma vez, ou uma após
outra, na mente dessa pessoa? Não é difícil explicar, levando em conta simples
princípios naturais, que nessa ocasião seu coração, arrebatado pelo júbilo, suba
aos céus e se encha de afeições fervorosas por esse Deus ou Redentor imaginário
que supostamente a resgatou das garras da terrível destruição que tanto lhe
apavorava a alma e a recebeu com tamanho carinho, como alguém especialmente
querido. Agora ela está tomada de apreço e gratidão, tem os lábios prontos para
falar muito sobre a experiência vivida e, durante algum tempo, não conseguirá
pensar em outra coisa nem falar de outro assunto, parecendo exaltar o Deus que
tanto fez em seu favor e convidando outros a se alegrar com ela, com semblante
alegre e falando em voz alta. Apesar de, antes do livramento, viver cheia de
querelas contra a justiça de Deus, agora lhe é fácil submeter-se a ele e
reconhecer a própria indignidade, denunciar-se e mostrar-se muito humilde
diante de Deus, como um manso cordeiro aos pés dele. Tal pessoa agora
confessa não ter mérito algum e clama: “Por que eu? Por que eu?” (Como Saul,
quando soube por Samuel que Deus o havia designado para ser rei, pergunta:
“Por acaso não sou eu benjamita, da menor das tribos de Israel? E a minha
família não é a menor de todas as famílias da tribo de Benjamim? Por que me
falas dessa maneira?” [1Sm 9.21]. E mais ainda nas palavras de Davi, o
verdadeiro santo: “Quem sou eu, Senhor Deus, e quem é minha família, para que
me tenhas trazido até aqui?” [2Sm 7.18]). Não é de admirar que essa pessoa
agora tenha prazer de estar na companhia dos que reconhecem e aplaudem suas
circunstâncias felizes, e ame todos os que estimam e admiram tanto a ela quanto
à experiência que viveu; que alimente forte zelo contra todos quantos desprezem
tais coisas, esteja francamente disposta a cortar relações e até a declarar guerra
contra os que não se colocam a seu lado; também não surpreende que agora se
glorie nos próprios sofrimentos e seja bem favorável a condenar e censurar todos
quantos duvidam ou criam qualquer dificuldade em relação a tudo isso.
Enquanto durar o calor de suas afeições, não é de admirar que ela se revele
disposta e pronta a assumir dores, negar a si mesma, promover o interesse do
grupo que ela imagina ser favorável a tais coisas; além de se manifestar
seriamente desejosa de aumentar o número de membros desse grupo, assim
como os fariseus percorriam mar e terra para fazer um prosélito.20 Eu poderia
continuar mencionando muitas outras condutas que surgem naturalmente nessas
circunstâncias. Quem imagina que afeições e comportamentos como esses não
podem surgir assim, sem a intervenção sobrenatural do poder divino, deve ter
avaliado a natureza humana apenas superficialmente.
Assim como todas as afeições cristãs procedem do verdadeiro amor divino,
do amor falsificado igualmente procedem as afeições falsas. Em ambos os casos,
o amor é a fonte, e as demais afeições são o curso da água. Os diversos
princípios, faculdades e afeições da natureza humana são como muitos canais
provenientes de uma única fonte. Se houver água doce na fonte, dela fluirá água
doce para os vários canais; mas se a água da fonte for venenosa, torrentes de
água envenenada fluirão por todos esses canais. Portanto, os canais e as
correntes de água são semelhantes, correspondem uns aos outros, mas a grande
diferença está na natureza da água. A natureza humana também pode ser
comparada a uma árvore com muitos galhos provenientes de uma só raiz. Se a
seiva da raiz for boa, também será boa a seiva distribuída para os galhos, e os
frutos produzidos serão saborosos e saudáveis. Mas se a seiva da raiz e do tronco
for venenosa, assim também será nos galhos (como no outro caso), e os frutos
serão letais. Nos dois casos, as árvores podem ser semelhantes, podem ter exata
semelhança de formato; porém, a diferença entre elas será conhecida somente
quando se comerem os frutos. Muitas vezes é essa a diferença, pelo menos em
alguma medida, entre os santos e os hipócritas. Às vezes há muita semelhança
entre as experiências verdadeiras e as falsas quanto à aparência e àquilo que
relatam as pessoas a elas submetidas. Já a dessemelhança entre elas é muito mais
parecida com a diferença entre o sonho do copeiro-chefe do faraó e o do padeiro
do soberano. Os sonhos eram tão semelhantes que, quando José interpretou o do
copeiro, dizendo que este seria libertado da prisão e recuperaria o favor do rei e
o seu honroso ofício no palácio, o padeiro-chefe alimentou esperanças e
expectativas, e contou seu sonho a José. Porém, sofreu uma triste decepção. Seu
sonho, apesar de muito parecido com o sonho feliz e auspicioso de seu
companheiro, teve um desfecho bem contrário.

VIII.Consolo e alegria acompanharem convicção e


despertamento de consciência, em determinada ordem,
nada pode definir seguramente sobre a natureza das
afeições
Muitos têm preconceito contra afeições e experiências que se sucedem em
determinada sequência, conforme muitos teólogos têm insistido. Primeiro
ocorrem os despertamentos, os temores e as medonhas apreensões, seguidos de
postura de humildade perante a lei de Deus, consciência de total pecaminosidade
e impotência; depois surgem luz e consolação. As pessoas consideram invenção
humana esses planos em que se identificam métodos e sequências. Além disso,
sobretudo se as elevadas afeições de alegria vierem depois de muita angústia e
terror, muitos fazem disso um argumento contrário a tais afeições. Essa espécie
de preconceito e objeções, entretanto, não encontram fundamento na Escritura.
Por certo, não é despropositado supor que, antes de livrar uma pessoa do estado
de pecado e do perigo da ruína eterna, Deus lhe dê considerável consciência do
mal de que a está livrando, para que ela seja liberta de maneira consciente,
compreenda a própria salvação e tenha ideia do que Deus faz em seu favor. Haja
vista que as pessoas no momento da salvação se encontram em duas
circunstâncias muito diferentes — antes, em estado de condenação; depois, no
estado de justificação e bem-aventurança — e que na obra de salvação Deus
trata desses dois estados de modo adequado à natureza humana inteligente e
racional, parece lógico e concorde com a sabedoria divina que quem está sendo
salvo deva ter consciência dos dois estados. Primeiro, a pessoa deve ter
consciência de que está em estado de condenação e, portanto, em lastimável
calamidade e terrível aflição; em seguida, sabe igualmente de seu estado de
livramento e felicidade. A pessoa que está sendo salva deve primeiro ter
consciência de sua necessidade absoluta e extrema e, em seguida, da suficiência
de Cristo e da misericórdia de Deus para com ela.
O modo de Deus lidar com as pessoas — “levá-las para o deserto” antes de
“falar-lhes ao coração” (cf. Os 2.14) —, ordenar que sofram angústia e
enxerguem a própria impotência e absoluta dependência da graça e do poder
divinos antes de operar algum grande livramento em favor delas é sobejamente
registrado na Escritura. Em seguida, Deus costuma arrepender-se “em favor dos
seus servos, quando vir que o poder deles já se foi e não resta nem escravo nem
livre” e quando eles passam a entender que seus falsos deuses não os podem
socorrer, e a rocha em que confiavam é inútil (Dt 32.36,37). Antes de libertar e
tirar os filhos de Israel do Egito, Deus já os havia preparado para isso, fazendo-
os perceber a situação aflitiva em que estavam e clamar-lhe “por causa da
escravidão” (Êx 2.23; 5.19). Antes de Deus operar o grande livramento dos
israelitas através do mar Vermelho, ele os fez passar por muita angústia. O
deserto os confinara, não podiam fugir nem para um lado nem para outro, tinham
à frente o mar Vermelho e as hostes egípcias atrás. Assim, passaram a entender
que não podiam fazer nada em seu próprio socorro e que, se Deus não os
ajudasse, seriam imediatamente tragados; nesse instante, o Senhor veio em
auxílio deles e transformou seus clamores em cânticos. Portanto, antes que eles
entrassem no descanso e desfrutassem o leite e o mel de Canaã, Deus os fez
atravessar um grande e aterrador deserto para os humilhar, para saber o que
estava no coração deles e mais tarde fazer-lhes o bem (Dt 8.2,16). A mulher que
sofria de um fluxo de sangue havia doze anos foi curada apenas depois de gastar
“todos os seus bens com os médicos, mas não havia conseguido ser curada por
ninguém”. Essa mulher acabou ficando desamparada sem nenhum outro recurso
financeiro. Foi então que ela se aproximou do grande Médico, que, sem preço
nem dinheiro algum, curou-a prontamente (Lc 8.43,44). Antes de atender ao
pedido da mulher cananeia, parece que Cristo a rejeitara totalmente, humilhara e
fizera que ela mesma se achasse merecedora de ser chamada de cachorrinho. Em
seguida, foi misericordioso para com ela e a recebeu como a uma filha querida
(Mt 15.22-28). O apóstolo Paulo, antes de um livramento excepcional, passou
por uma grande tribulação, “muito acima de” suas “forças, de tal modo que”
chegou “a desesperar da própria vida, “tendo sobre” si “a sentença de morte,
para que não” confiasse em si mesmo, “mas em Deus, que ressuscita os mortos”
(2Co 1.8-10). Com os discípulos, primeiro houve uma grande tempestade, depois
o barco foi coberto pelas ondas e ficou prestes a afundar, o que os levou a clamar
a Jesus: “Salva-nos, Senhor! Vamos morrer”; então o Senhor repreendeu os
ventos e o mar, e houve grande calmaria (Mt 8.24-26). O leproso, antes de ser
purificado, precisava ter a boca coberta, com um tapulho no lábio superior, e
reconhecer sua enorme desgraça e completa impureza, deverá usar roupas
rasgadas e gritar: “Impuro, impuro” (Lv 13.45). Os israelitas desviados da lei,
antes que Deus os curasse, precisavam reconhecer que pecaram; não obedeceram
à voz do Senhor; deitaram-se na própria vergonha; cobriram-se com a própria
confusão; e que era inútil esperar a salvação vir das colinas ou dos muitos
montes; e que somente Deus os podia salvar (Jr 3.23-25). José, vendido pelos
próprios irmãos, e por isso foi um tipo de Cristo, gera enorme perplexidade e
aflição nos irmãos, fazendo-os refletir acerca do pecado que cometeram,
confessar a culpa e, por fim, render-se totalmente em suas mãos como servos; só
então revela que é o irmão e salvador deles.
Além disso, se levarmos em consideração as manifestações extraordinárias
que Deus fez de si aos santos de outrora, descobriremos que em geral ele
primeiro se apresenta de modo assombroso e só depois pelos aspectos
consoladores. Foi assim com Abraão; primeiro veio sobre ele o horror de densas
trevas, depois Deus se revelou a ele com promessas agradáveis (Gn 15.12,13). O
mesmo se deu com Moisés no monte Sinai; primeiro Deus apareceu-lhe com
todo o assombro de sua tremenda majestade, a ponto de Moisés dizer: “Estou
aterrorizado e trêmulo” (Hb 12.21), e depois o Senhor fez passar diante dele toda
a sua bondade e proclamou o seu nome: o SENHOR Deus, misericordioso e
compassivo (Êx 33.19). Assim foi com Elias; primeiro veio um vento
tempestuoso, em seguida, tremores de terra, depois um fogo devorador e, por
fim, uma voz mansa e suave (1Rs 19.11,12). Assim foi com Daniel; primeiro ele
viu o rosto de Cristo como um relâmpago, o que o deixou aterrorizado e o fez
perder os sentidos; depois, foi fortalecido e reanimado com palavras de conforto:
“Não temas, homem muito amado!” (Dn 10). Deu-se o mesmo com o apóstolo
João (Ap 1). Pode-se observar uma analogia nas dispensações e nos livramentos
que Deus opera em prol de seu povo e em suas manifestações a esse povo, tanto
comuns quanto extraordinárias.
Contudo, há muitos registros na Escritura mostrando mais diretamente que
esse é o modo corriqueiro de Deus operar a salvação da alma dos homens, e nas
manifestações que faz de si e de sua misericórdia em Cristo, nas ações comuns
de sua graça no coração dos pecadores. O servo que devia dez mil talentos a seu
príncipe primeiro é preso por causa da dívida, e o soberano o condena e ordena
que seja vendido como escravo, juntamente com a mulher e os filhos, a fim de
pagar o que deve; com isso o príncipe o humilha e o leva a confessar que a
condenação era justa, mas em seguida lhe perdoa totalmente (Mt 18.23-35). O
filho pródigo esbanja tudo quanto possui e acaba se vendo em péssimas
circunstâncias, isso o faz humilhar-se e reconhecer sua indignidade; ele passa
por tudo isso antes de ser socorrido e festejado pelo pai (Lc 15). É preciso
procurar as feridas antigas e empedernidas e examiná-las a fundo para curá-las.
É com esse tipo de figura que a Escritura compara o pecado, a ferida da alma, e
afirma que tratar da ferida sem examiná-la a fundo é ilusório e em vão (Jr 8.11).
Cristo, quando opera sua graça no coração dos homens, é comparado à chuva
que desce sobre a campina ceifada (Sl 72.6, ARA), o que simboliza suas
influências renovadoras e consoladoras no espírito ferido. Nossos primeiros pais,
depois de terem pecado, primeiro ficaram aterrorizados com a majestade e a
justiça de Deus, e tiveram seu pecado e as graves consequências expostos diante
deles pelo Juiz, antes de serem aliviados com a promessa da semente da mulher.
Os cristãos são mencionados como os que já correram para o refúgio a fim de
lançar mão da esperança proposta (Hb 6.18, ARA), metáfora que dá a entender
muito medo pela consciência de um perigo anterior. Com o mesmo propósito, a
Escritura promete que Cristo “servirá de abrigo contra o vento e de refúgio
contra a tempestade, servirá de ribeiros de águas em lugares secos e de sombra
de uma grande rocha em terra sedenta” (Is 32.2). Ao que parece, o sentido
natural da palavra evangelho, boas novas, é novas de livramento e salvação,
depois de muito medo e angústia. Também é razoável supor que Deus lida com
os crentes individualmente como lidou com sua igreja, que a fez primeiro ouvir
sua voz na Lei, com terríveis trovões e relâmpagos, e a manteve sob os cuidados
desse preceptor a fim de prepará-la para Cristo; depois a consolou com o som
jubiloso do evangelho que vem do monte Sião. João Batista igualmente veio
preparar o caminho de Cristo e pôr o coração dos homens em condições de
recebê-lo, mostrando-lhes os pecados deles, arrancando os judeus falsos
moralistas de sua justiça própria, chamando-os de “raça de víboras”, mostrando-
lhes o perigo da “ira vindoura” e anunciando-lhes que “o machado está posto à
raiz da árvore”.
Se de fato o modo de Deus agir (como acredito que as considerações
anteriores demonstram para além de qualquer dúvida) é, antes de dar aos homens
o alívio do livramento do pecado e da infelicidade, dar-lhes considerável
consciência da magnitude e do horror desses males e da tremenda desgraça por
causa do pecado, certamente não é ilógico supor que as pessoas, muitas vezes,
enquanto contemplam tal cenário, deviam sentir terrível angústia e apreensão,
sobretudo ao se levar em conta quais são os males de que elas tiveram o
panorama: nada mais que grandes e variados pecados contra a majestade infinita
do grande Jeová e o sofrimento da impetuosidade da sua ira por toda a
eternidade, ainda mais quando temos na Escritura muitos casos evidentes de
pessoas que sofreram tremenda angústia por essa convicção do pecado antes de
receberem as consolações salvadoras. Como a multidão em Jerusalém, de
pessoas vindas de vários lugares, que tiveram o coração compungido e
perguntaram a Pedro e aos demais apóstolos: “Irmãos, que faremos?” (At 2.37);
como o apóstolo Paulo, que tremeu e ficou perplexo antes de ser consolado; e o
carcereiro, que “pediu luz, correu para dentro [do cárcere] e, trêmulo, prostrou-
se diante de Paulo e Silas”, e depois de os tirar para fora disse: “Senhores, que
preciso fazer para ser salvo?” (At 16.29,30).
Parece muito insensato que cristãos professos façam disso objeção à
veracidade e à natureza espiritual das consolações e afeições jubilosas que
alguém tem, afeições que se sucedem às apreensões e angústias tal como foram
mencionadas.
Em contrapartida, não é prova nenhuma de que as consolações e alegrias são
justas porque se sucederam a terrores imensos e medo assombroso do inferno.21
Ao que parece, algumas pessoas dão muito crédito a isso; consideram a
ocorrência de grandes terrores prova da ação excepcional da lei no coração,
preparando com eficiência o caminho para a firme consolação, sem ponderar que
o terror e o convencimento da consciência são coisas diferentes. Embora quase
sempre cause pavor, a convicção de consciência não consiste nisso; e o terror
muitas vezes se deve a outras causas. A convicção da consciência mediante a
influência do Espírito de Deus consiste em convencimento da pecaminosidade
do coração e práticas de vida, além do horroroso pecado cometido contra um
Deus de tremenda majestade, santidade infinita, ódio ao pecado e que o pune
com rigorosa justiça. Algumas pessoas, porém, têm medonha inquietação quanto
ao inferno — o horrendo abismo pronto para tragá-las, chamas vorazes prestes a
tomar conta delas, com demônios em toda parte dispostos a agarrá-las —,
pessoas que, ao mesmo tempo, têm muito pouca elucidação da consciência que
as convença de fato da condição pecaminosa de seu coração e sua vida. O Diabo,
se for autorizado, pode atormentar as pessoas assim como o Espírito de Deus. É
uma atividade natural para ele, que tem vários meios de realizá-la, nunca para o
bem.
Ele pode amedrontar as pessoas imprimindo-lhes na mente imagens e ideias
de várias coisas exteriores, como a de um cenho franzido, uma espada em riste,
de densas nuvens de vingança, de palavras de condenação assustadoras,22 do
inferno escancarado, de demônios vindo até elas, e outras afins, não para
convencer essas pessoas da verdade revelada na Palavra de Deus, mas para
induzi-las a conclusões inúteis e infundadas, como de que o dia delas já passou,
que estão condenadas, que Deus é implacável e decidiu eliminá-las
imediatamente, entre outros pensamentos.
O terror que acomete algumas pessoas deve-se mais à constituição e ao
temperamento delas. Alguns indivíduos, mais que outros, têm temperamento e
estrutura tais que lhes tornam a imaginação mais fortemente impressionável com
tudo que os afeta, isso é bem evidente. A impressão sobre a imaginação se reflete
na afeição, que passa a ser ainda mais intensa; portanto, afeição e imaginação
agem reciprocamente até que a afeição fique elevadíssima. Nessa circunstância a
pessoa é tragada e perde o controle de si.23
Alguns falam da grande visão que tiveram de sua impiedade; porém, quando
a questão é mais bem examinada e ponderada mais a fundo, descobre-se que a
convicção de consciência desses indivíduos é pouca ou nenhuma. Dizem ter um
coração tremendamente inquebrantável, semelhante a uma pedra, quando na
verdade não têm nada disso na mente nem nos pensamentos, onde de fato reside
a dureza do coração humano. Falam de um fardo sórdido e terrível de pecados,
de asquerosas imundícies dentro deles; todavia, quando se investiga a questão
com cuidado, vê-se que não têm em mente nada daquilo em que de fato consiste
a corrupção da natureza, também não têm ideia nenhuma de nada que lhes
mostre a imperfeição e a pecaminosidade do coração, nem do que esse coração
carece, tampouco têm consciência da corrupção que neles age. Muitos também
acham que têm profunda convicção de seus verdadeiros pecados, mas, na
verdade, não têm nenhuma. Relatam que seus pecados são expostos em ordem
diante deles, veem-nos, um após outro, rodeá-los com aparência medonha,
quando na verdade não enxergam nem sequer um dos pecados de que são
realmente culpados durante toda a vida.
Mesmo que algumas pessoas tenham terrores imensos procedentes do
despertamento e da convicção gerados pelo Espírito de Deus, não se depreende
disso que seus medos devam necessariamente produzir consolo genuíno. A
perversão não mortificada do coração pode extinguir o Espírito de Deus (depois
dele ter operado nesse coração) induzindo nas pessoas jactância de esperanças e
alegrias presunçosas, bem como o contrário. Nem toda mulher em trabalho de
parto dá à luz uma criança saudável, mas o desfecho pode ser monstruoso,
desprovido de qualquer forma ou característica da natureza humana. O padeiro-
chefe do faraó, depois de ter estado na masmorra com José, teve uma visão que
lhe despertou as esperanças e, assim como o copeiro-chefe, foi libertado daquele
calabouço; mas, ao contrário do copeiro, ele foi solto para ser enforcado.
Se, contudo, depois dos medos intensos e despertamentos, não somente
venham consolo e alegria, mas também surjam tais convicções e humilhações
preliminares, produzidas com muita clareza em etapas e segundo um método
frequentemente observado em convertidos verdadeiros, isso não é nenhum sinal
de garantia de que a iluminação e o consolo surgidos em seguida são autênticos e
salvíficos, pelas seguintes razões:
Em primeiro lugar, assim como o Diabo é capaz de forjar todas as ações
salvadoras e a graça do Espírito Santo, também pode falsificar as ações
preparatórias para a graça. Se Satanás consegue simular com tanta semelhança
esses efeitos singulares, divinos e santificadores do Espírito Santo, possíveis de
ser observados pelos outros, então com muito mais facilidade ele poderá imitar
as obras comuns do Espírito de Deus nos homens, enquanto estes ainda são
filhos do Maligno. Essas obras falsificadas, assim como a outra, não estão de
modo algum além da capacidade dele. Não há obra de Deus mais elevada e
divina, acima das forças da natureza e fora do alcance da capacidade de qualquer
criatura, do que as obras do seu Espírito, mediante as quais ele forma a criatura à
sua própria imagem e semelhança e a faz participante da natureza divina.
Todavia, se o Diabo pode ser o autor de obras de aparência tão semelhante a
essas de que falamos, sem dúvida ele pode ser o autor das de espécie
infinitamente inferior. É assaz evidente na verdade que existem humilhações e
submissões falsas, bem como falsas consolações.24 Apesar de ser mui ímpio e de
espírito arrogante, a que ponto Saul chegou quando, mesmo sendo um grande
rei, foi levado pela convicção de seu pecado a quase prostrar-se em altos prantos
diante de Davi, seu próprio súdito — por quem nutria, havia muito tempo, ódio
mortal e a quem tratava abertamente como inimigo —, a culpar-se perante ele e
dizer em alta voz: “Tu és mais justo do que eu, pois me devolveste o bem, e eu te
devolvi o mal” (1Sm 24.17); e noutra ocasião: “Pequei [...] procedi como um
louco e cometi um grande erro” (1Sm 26.21). No entanto, nessa ocasião, parece
que Saul teve pouquíssima influência do Espírito de Deus, pois isso ocorreu
depois que o Espírito de Deus se retirara e desistira dele, e um espírito maligno
da parte do Senhor o perturbava. Se esse monarca arrogante, num golpe de
afeição, foi convencido a se humilhar e rebaixar-se diante de um súdito a quem
odiava e de quem ainda era inimigo, sem dúvida pode ocorrer nas pessoas a
aparência de profunda convicção de pecados e humilhação perante Deus mesmo
enquanto elas ainda são suas inimigas e continuem sendo. Nas pessoas
apavoradas com o medo do inferno, muitas vezes ocorre a forte aparência de que
se libertaram de sua justiça própria, apesar de não se haverem livrado de todos
os modos dela, mas somente no que ela tem de mais claro e visível. Apenas
substituíram algumas maneiras de confiar em sua justiça própria por outras mais
veladas e sutis. Muitas vezes, uma dose elevada de abatimento, relacionado a
muitas coisas de que dependiam, é tido como humilhação — chamada de
submissão a Deus, que não é submissão nenhuma, mas, sim, traz escondido
consigo algum trato difícil de ser revelado.
Em segundo lugar, se ação e os efeitos do Espírito de Deus na convicção de
pecados e consolação dos verdadeiros convertidos podem ser adulterados, é
natural que a ordem deles também pode ser imitada. Se Satanás consegue imitar
essas ações e seus efeitos, ele também pode com facilidade dispô-las uma após
outra em uma ordem específica. Se o Diabo consegue produzir A, B e C,
também não lhe é difícil pôr A em primeiro lugar, depois B e, em seguida, C,
bem como dispô-los em ordem contrária. Para ele, é mais difícil imitar a
natureza das ações divinas do que a sequência em que ocorrem. O Diabo não é
capaz de imitar com precisão a natureza das operações divinas, apesar de suas
falsificações poderem ter aparência muito semelhante à delas, mas consegue
imitar com precisão a ordem em que ocorrem. As falsificações produzidas não
carecem de nenhuma ação divina para que uma ocorra primeiro e outra, por
último. Por isso, nenhum método ou ordem de ações e experiências é prova de
sua origem divina. Só merecerão crédito como sinal seguro da graça as ações
que Satanás não consegue produzir e que jamais podem ser levadas a efeito por
nenhum poder senão o divino.
Em terceiro lugar, não dispomos de nenhuma norma infalível para
determinar até onde o próprio Espírito de Deus pode ir nessas ações e
convicções de pecado, que em si não são espirituais nem salvadoras, e ainda
assim a pessoa sujeita a elas jamais se converta e acabe por ficar sem salvação.
Na índole das coisas, não há nenhuma ligação obrigatória entre uma experiência
por que o homem natural passe nesse mesmo estado, por um lado, e a graça
salvadora do Espírito de Deus, por outro. E se não existe nenhuma relação na
índole das coisas, logo não pode haver nenhuma relação conhecida e certa, a
menos que seja por revelação divina. Porém, não há nenhuma relação certa e
explícita entre o estado de salvação e algo a que o homem natural seja sujeito
antes de crer em Cristo. A não ser a sua própria graça e seus frutos, Deus não
revelou nenhuma relação inquestionável entre a salvação e requisito algum do
ser humano. Portanto, não encontramos na Escritura nem uma referência sequer
a alguma convicção legítima de culpa e consolo que sucedam a tal convicção em
sequência ou ordem específica alguma como sinal determinado da graça, nem
nada peculiar aos santos. Entretanto, encontramos, sim, milhares de referências
às operações da graça e os próprios efeitos. Isso deveria ser motivo suficiente
para os cristãos dispostos a ter a Palavra de Deus, e não sua própria filosofia,
experiências e conjecturas, como guia eficiente e seguro em fatos desse gênero.
Em quarto lugar, a experiência confirma consideravelmente que a convicção
de pecados e o consolo, um acompanhando o outro em tal sequência e ordem,
conforme quase sempre se observam nos convertidos genuínos, não são nenhum
sinal seguro da graça.25 Apelo ao testemunho de todos os ministros deste país
que tiveram no último período extraordinário muita oportunidade de lidar com
almas que relataram com sinceridade suas experiências e pareciam convertidas
segundo a regra, i.e., com a sucessão distinta e exata de convencimento e
afeições na sequência e ordem usualmente considerada a ordem normal das
operações do Espírito de Deus na conversão — supondo não ter havido muitos
que malograram.
Assim como a aparência de ter essa peculiaridade de etapas e métodos não é
prova de que a pessoa é convertida, também a ausência dela não é prova alguma
de que não seja. Embora se possa demonstrar com base nos princípios bíblicos
que o pecador não pode sinceramente se persuadir de receber Cristo como seu
Salvador sem a convicção do pecado e de sua desgraça, de sua impotência, do
vazio e do justo merecimento da condenação eterna e, por isso, tal convicção
tenha de estar de algum modo contida no que é produzido em sua alma; nada
prova a necessidade de que todas essas coisas implícitas ou pressupostas no ato
de fé em Cristo devam ser operadas clara e distintamente na alma em tantas
obras do Espírito sucessivas e distintas, todas elas manifestas e claras, em todos
os genuinamente convertidos. Pelo contrário (segundo observa o sr. Shepard), às
vezes a mudança operada no santo parece de início um caos tão grande que ele
nem sabe o que fazer. A maneira como age o Espírito nos que são dele nascidos
é quase sempre muito misteriosa e insondável. Nós, por assim dizer, ouvimos o
seu som, cujo efeito é perceptível, mas pessoa nenhuma é capaz de dizer de onde
ele veio nem para onde foi. Na maioria das vezes é tão difícil identificar o
caminho do Espírito no novo nascimento quanto no primeiro: “Assim como não
sabes o caminho do vento, nem como se formam os ossos no ventre da que está
grávida, assim também não compreendes as obras de Deus, que faz todas as
coisas” (Ec 11.5). O engendramento de um princípio da graça na alma compara-
se, segundo a Escritura, à concepção de Cristo no ventre (Gl 4.19). Por isso a
igreja é chamada de mãe de Cristo (Ct 3.11), assim como cada crente em
particular (Mt 12.49,50). Ao que parece, a concepção de Cristo, pelo poder do
Espírito Santo, no ventre da virgem abençoada é uma semelhança intencional da
concepção de Cristo na alma do crente pelo poder do mesmo Espírito Santo. Não
sabemos qual é o meio do Espírito nem como os ossos se formam no ventre ou
no coração que concebe essa sagrada criança. A nova criatura pode se expressar
no mesmo estilo e com as mesmas palavras do salmista: “… fui formado de
modo tão admirável e maravilhoso! Tuas obras são maravilhosas, tenho plena
certeza disso! Meus ossos não te estavam ocultos, quando em segredo fui
formado” (Sl 139.4,5). A respeito da geração de Cristo, tanto ele em pessoa
quanto no coração do seu povo, pode-se dizer como o profeta Isaías: “… e a sua
descendência, quem a considerou? Pois ele foi tirado da terra dos viventes” (Is
53.8). Não conhecemos as obras de Deus, que tudo operam. “A glória de Deus é
encobrir as coisas” (Pv 25.2), ter suas “veredas pelas grandes águas” a fim de
seus “passos não serem conhecidos” (Sl 77.19) e sobretudo as ações do seu
Espírito no coração dos homens, as mais importantes e mais sublimes de suas
obras. Por isso se pergunta: “Quem guiou o Espírito do SENHOR, ou lhe ensinou
como conselheiro?” (Is 40.13). É de temer que alguns tenham ido longe demais a
ponto de orientar o Espírito do Senhor, demarcar os seus passos e restringi-lo a
determinadas sequências e etapas. A experiência mostra com meridiana clareza
que o modo de agir do Espírito de Deus na conversão de alguns dos melhores
cristãos é insondável e inescrutável. O Espírito de Deus também não age de
modo que possa ser identificado em etapas de algum plano particular definido,
nem metade das vezes que se imagine. Um plano de requisitos, conforme uma
regra já recebida e estabelecida pela opinião comum, tem ampla influência
(conquanto bem imperceptível, segundo muitos) na formação de noções que o
indivíduo tem das etapas e sequências de suas próprias experiências. Sei muito
bem qual é o meio delas, pois tive muitas oportunidades de observar. Com muita
frequência, as experiências dessas pessoas de início são semelhantes a um
profundo caos, como diz o sr. Shepard. Depois, entretanto, os episódios de suas
experiências mais parecidos com as etapas específicas em que se insiste serem
escolhidas, passam a remoer nos pensamentos e quando são comentados nos
relatos dessas pessoas. Esses trechos ficam cada vez mais vivos na visão dessas
pessoas, e os outros, sem atenção, vão ficando cada vez mais obscuros; a
experiência delas é forçada insensatamente para tudo ficar em perfeita
conformidade com o esquema definido. Para os ministros que têm de tratar com
essas pessoas e orientar as que insistem num método claro e distinto, isso
também passa a ser natural. Porém, ainda assim tem havido tanto a observar das
operações do Espírito de Deus ultimamente que, aqueles que têm muito a
trabalhar com almas, e não têm os olhos vendados pelo véu de sete camadas do
preconceito, têm de saber que o Espírito age de maneiras tão
extraordinariamente variadas que, em muitos casos, é impossível seguir seus
passos e descobrir o seu caminho.
Quando examinamos nosso próprio estado ou as orientações que damos a
outros, o que sobretudo nos importa é a natureza do efeito que Deus realizou na
alma. Quanto aos passos que o Espírito de Deus seguiu para produzir esse efeito,
melhor deixar a critério dele. Muitas são as vezes em que a Escritura nos orienta
expressamente a examinar a nós mesmos segundo a natureza dos frutos do
Espírito, mas em parte nenhuma ela orienta que nos examinemos segundo o
modo do Espírito de produzir esses frutos.26 Muitos estão profundamente
errados quanto a suas noções de obra de conversão clara e chamam de obra clara
quando as etapas sucessivas de influência e o modo da experiência são claros.
Considere-se que essa é de fato a obra mais clara, em que a natureza espiritual e
divina da ação realizada e o efeito produzido são mais claros (não naquela em
que a ordem do fazer é mais clara).

IX. As afeições religiosas predisporem as pessoas a dedicar


muito tempo à religião e se envolverem com zelo nas
obrigações exteriores do culto não é nenhum sinal seguro
de que as afeições dessas pessoas tenham a natureza da
religião verdadeira, nem de que não a tenham
Nos últimos dias, tem-se considerado muito injustificadamente como argumento
contrário às afeições religiosas vividas por algumas pessoas elas passarem tanto
tempo lendo, orando, cantando, ouvindo sermões, entre outras coisas
semelhantes. A Escritura deixa claro que a graça verdadeira costuma fazer que as
pessoas tenham prazer nessas práticas religiosas. A graça verdadeira teve esse
efeito na profetisa Ana: “Ela não se afastava do templo, cultuando a Deus dia e
noite com jejuns e orações” (Lc 2.37). A graça teve esse efeito nos cristãos
primitivos de Jerusalém: “E perseverando de comum acordo todos os dias no
templo, e partindo o pão em casa, comiam com alegria e simplicidade de
coração, louvando a Deus” (At 2.46,47). A graça fez que Daniel se alegrasse no
dever da oração e o levou a orar solenemente três vezes ao dia, assim como
também fazia Davi: “À tarde, de manhã e ao meio-dia me queixarei e me
lamentarei; e ele ouvirá minha voz” (Sl 55.17). A graça faz os santos se
deleitarem em cantar louvores a Deus: “Louvai o SENHOR, pois o SENHOR é bom;
cantai louvores ao seu nome, porque ele é bondoso” (Sl 135.3); e “Aleluia!
Como é bom cantar louvores ao nosso Deus; quão agradável e apropriado é
louvá-lo” (Sl 147.1). A graça verdadeira também os faz ter prazer de ouvir a
pregação da Palavra de Deus, faz do evangelho um som agradável a eles (Sl
89.15) e aformoseia os pés dos que anunciam essas boas novas: “Como são belos
sobre os montes os pés do que anuncia as boas novas” (Is 52.7). A graça os faz
amar a adoração pública de Deus: “SENHOR, eu amo a tua habitação e o lugar
onde a tua glória reside” (Sl 26.8); “Pedi uma coisa ao SENHOR, e a buscarei: que
eu possa morar na casa do SENHOR todos os dias da minha vida, para contemplar
o esplendor do SENHOR e meditar no seu templo” (Sl 27.4); e ainda: “Ó SENHOR
dos Exércitos, como os teus tabernáculos são amáveis! Minha alma suspira e
desfalece pelos átrios do SENHOR [...] até o pardal encontrou casa, e a andorinha,
ninho para si, onde possa proteger seus filhotes, ó SENHOR dos Exércitos, meu
Rei e meu Deus. Bem-aventurados os que habitam em tua casa; louvam-te
continuamente. Bem-aventurados os homens cuja força está em ti, em cujo
coração se encontram os caminhos para Sião. Passando pelo vale de Baca, fazem
dele um manancial [...] Vão sempre aumentando a força; cada um deles
comparece perante Deus em Sião. [...] Um dia nos teus átrios é melhor do que
mil em outro lugar” (Sl 84. 1,2ss.).
Essa é a natureza da graça genuína. Em contrapartida, contudo, as pessoas
estarem dispostas a transbordar de zelo no envolvimento com as práticas
exteriores da religião e a investir muito tempo nelas não é prova da ação da
graça, pois essa disposição existe em muita gente totalmente desprovida da
graça. Foi assim com os israelitas do passado, cujos cultos eram abomináveis a
Deus. Eles observavam as luas novas, os sábados, as convocações de
assembleias e oravam de mãos estendidas ao alto (Is 1.2-5). Foi o mesmo com os
fariseus, que faziam longas orações e jejuavam duas vezes na semana. A falsa
religião torna as pessoas barulhentas e fervorosas na oração: “Se quiserdes que a
vossa voz se faça ouvir no alto, não jejueis como fazeis hoje” (Is 58.4). A
religião desprovida de espiritualidade e salvação pode levar as pessoas a terem
prazer nas obrigações e ordenanças religiosas: “Ainda assim eles me procuram
todo dia; têm prazer em conhecer os meus caminhos, como se fossem um povo
que pratica a justiça e que não abandonou a ordenança do seu Deus. Pedem-me
juízos corretos, têm prazer em se chegar a Deus!” (Is 58.2). A religião falsa pode
fazer que tenham prazer em ouvir a pregação da Palavra, como ocorria com os
ouvintes de Ezequiel: “Eles vêm a ti, como o povo costuma fazer, e se assentam
diante de ti para ouvir as tuas palavras, mas não as praticam; pois professam
muito amor com a boca, mas o seu coração busca o lucro. Mas tu és como uma
canção romântica para eles, canção de quem tem voz suave e canta bem; pois
ouvem as tuas palavras, mas não as praticam” (Ez 33.31,32). Foi assim com
Herodes, ele ouviu João Batista de bom grado (Mc 6.20). O mesmo se deu com
outros ouvintes de João: quiseram alegrar-se por um pouco de tempo com a sua
luz (Jo 5.35). Os ouvintes cujo coração era como o solo pedregoso agiram do
mesmo modo, ouviram a palavra com alegria.
A experiência mostra que as pessoas de religião falsa costumam realizar
copiosas práticas exteriores da religião. Entregam-se inteiramente a elas e lhe
consagram quase todo o tempo que têm. Antigamente, havia na igreja romana
uma quantidade bem grande de reclusos, indivíduos que renunciavam ao mundo
e abandonavam por completo a sociedade, encerravam-se numa cela estreita e
fechada com o voto de jamais sair de lá, tampouco olhar mais o rosto de ser
humano algum (a não ser em caso de necessitarem de atendimento médico), tudo
isso a fim de passarem todos os seus dias em práticas de devoção e comunhão
com Deus. Nesses tempos de outrora, também havia uma multidão de eremitas e
anacoretas, indivíduos que deixavam o mundo para viverem todos os seus dias
na solidão dos lugares ermos e se entregarem a contemplações religiosas e
práticas devocionais. Alguns deles não habitavam em casas, mas em cavernas e
grutas nos montes, sem alimento, a não ser o que a terra produz naturalmente.
Em determinada época, morei durante vários meses vizinho a um judeu (as casas
eram geminadas) e tive oportunidade de observá-lo diariamente. Ele me parecia
a pessoa mais devota que já vira em minha vida. Passava grande parte do tempo
em atos de devoção na sua janela oriental, que dava para a minha, parecendo
seriamente empenhado em suas práticas, não somente à luz do dia, mas também,
às vezes, noites inteiras.

X. As afeições religiosas causarem forte disposição nas


pessoas para louvar e glorificar a Deus com os lábios não
permite saber nada ao certo sobre sua natureza
Isso na verdade está implícito no que acabamos de observar a respeito de passar
muito tempo nas práticas religiosas externas, como já se havia discretamente
aludido antes. Entretanto, visto que muitos consideram prova clara de afeição da
graça as pessoas se mostrarem muito dispostas a louvar e engrandecer a Deus,
com a boca cheia de louvores, e a convidar apaixonadamente outros a louvar e
exaltá-lo, acredito que o assunto merece uma análise mais particularizada.
Nenhum cristão fará disso argumento contrário à pessoa que tem essa
disposição. Tampouco essa disposição pode ser sensatamente vista como
evidência favorável a quem a demonstra, caso seja devidamente levado em conta
tudo quanto já se comentou e provou, a saber, a possibilidade de pessoas
desprovidas da graça terem afeições elevadas para com Deus e Cristo, e essas
afeições, por serem intensas, poderem transbordar em seus lábios e as inclinar a
falar bastante e com muita seriedade acerca do que as influencia; enfim, a
possibilidade de falsificação de afeições da graça de toda espécie. Entretanto,
ficará visível mais clara e facilmente que essas manifestações não são sinal
inequívoco da graça se examinarmos os exemplos que a Escritura nos fornece da
ocorrência de afeições assim em pessoas destituídas da graça. Temos muitos
relatos disso na multidão que ouvia a pregação de Cristo e via os seus milagres.
“Então ele se levantou e, pegando logo a maca, saiu à vista de todos; de modo
que todos ficaram maravilhados e glorificavam a Deus, dizendo: Nunca vimos
coisa igual!” (Mc 2.12); bem como em Mateus 9.8 e Lucas 5.26, além de Mateus
15.31: “... de modo que as multidões se maravilharam ao ver os mudos falando,
os aleijados andando e os cegos vendo; e glorificaram o Deus de Israel”.
Também lemos que, quando Cristo ressuscitou o filho da viúva de Naim, “o
medo dominou a todos; e glorificavam a Deus, dizendo: Um grande profeta se
levantou entre nós; e: Deus visitou o seu povo” (Lc 7.16). Lemos igualmente que
as pessoas glorificavam a Cristo e falavam muito bem a seu respeito: “Ele
ensinava nas sinagogas e era elogiado por todos” (Lc 4.15). Além disso, lemos
que o louvavam em alta voz, clamando “Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que
vem em nome do Senhor! Hosana nas alturas!” (Mt 21.9) pouco antes de o
crucificarem! Depois da ascensão de Cristo, quando os apóstolos curaram o
paralítico, lemos que “todos glorificavam a Deus pelo que acontecera” (At 4.21).
Quando os gentios, em Antioquia da Pisídia, ouviram de Paulo e Barnabé que
Deus rejeitara os judeus e, em lugar deles, tomara os gentios para ser o seu povo,
ficaram comovidos pela bondade de Deus para com eles e glorificaram a Palavra
do Senhor; mas nem todos os que agiram assim eram crentes verdadeiros, senão
apenas determinado número de eleitos entre eles, de acordo com o relato de Atos
13.48: “Ouvindo isso, os gentios alegravam-se e glorificavam a palavra do
Senhor. E todos os que haviam sido destinados para a vida eterna creram” (At
13.48). Assim também no passado os filhos de Israel cantaram louvores a Deus
no mar Vermelho, mas logo se esqueceram das suas obras; os judeus dos dias de
Ezequiel demonstravam com a boca amor extremado, enquanto tinham o
coração voltado para suas cobiças. Enfim, a respeito dos falsos religiosos e
verdadeiros inimigos da religião, foi vaticinado que eles se apressariam a
glorificar a Deus: “Ouvi a palavra do SENHOR, vós que tremeis diante da sua
palavra: Vossos irmãos, que vos odeiam e vos lançam para longe por causa do
meu nome, disseram: Que o SENHOR seja glorificado” (Is 66.5).
Se alguém, em meio de suas esperanças e consolações, comove-se
profundamente com a imerecida misericórdia de Deus em seu favor, alguém tão
indigno, e por isso enaltece e exalta a livre graça, isso não é sinal irrefutável de
que foi realmente alcançado pela graça. Aqueles que ainda nutrem orgulho não
mortificado e inimizade contra Deus, quando imaginam ter recebido sua
excepcional misericórdia, podem clamar contra a própria indignidade e enaltecer
a imerecida bondade de Deus para com eles apenas movidos pela convicção de
sua falta de mérito e por um princípio nem um pouco mais elevado que o de
Saul, o qual, ainda nutrindo orgulho não dominado e inimizade contra Davi, foi
levado, mesmo sendo rei, a reconhecer a própria indignidade e bradar: “Procedi
como louco e cometi grande erro”, e a louvar e exaltar com muita afeição e
admiração a bondade ímpar de Davi para com ele, não merecedor (1Sm 25.16-
19; 26.21). Também não foi por nenhum princípio mais elevado que
Nabucodonosor se comoveu com as dispensações de Deus que lhe sobrevieram e
pelas quais louva, exalta e honra o Rei do céu. Tanto Nabucodonosor quanto
Dario, em meio a suas elevadas afeições, convocam as nações a louvar a Deus
(Dn 3.28,29; 4.1-3,34,35,37; 6.25-27).

XI. As afeições religiosas proporcionarem às pessoas


confiança extraordinária de que a experiência que estão
vivendo é divina e de que elas se encontram em boa
condição não é sinal de que essas afeições sejam certas
nem de que não sejam
Ao contrário da doutrina dos protestantes, defendida por seus mais célebres
escritores contra os papistas, e ao contrário das mais cristalinas evidências da
Escritura, alguns antagonistas consideram iludidos aqueles que supõem a certeza
de estar em boa condição e de que sem sombra de dúvida gozam do favor de
Deus; uma vez que, segundo presumem esses contrários, na igreja de Deus não
existe expectativa de certeza plena e absoluta da esperança, a não ser em
algumas circunstâncias muito extraordinárias, como o martírio. Ora, é evidente
que o sentimento de segurança era comum aos santos cuja história ou registro
particular temos na Escritura. Com a máxima clareza e simplicidade, Deus
revelou seu favor especial, e o atestou, a Noé, Abraão, Isaque, Jacó, Moisés e
Daniel, entre outros. Jó fala muitas vezes de sua sinceridade e retidão com
confiança e certeza nunca imaginadas, sempre invocando a Deus como
testemunha dessa certeza; ele afirma com toda a sinceridade: “Eu sei que o meu
Redentor vive e que por fim se levantará sobre a terra” (Jó 19.25). Por todo o
livro de Salmos, em quase toda parte, Davi afirma categoricamente e sem
nenhuma hesitação que Deus é o seu Deus, e nele se gloria por ser seu quinhão e
sua herança, sua confiança, sua rocha e seu escudo, sua salvação e torre forte,
entre outras metáforas semelhantes. Confiante em que Deus sabia de seu
proceder fiel e de coração íntegro perante o Senhor, Ezequias lhe suplica que se
lembre disso (2Rs 20.3). Jesus Cristo, na conversa de despedida com os
discípulos, nos capítulos 14, 15 e 16 do Evangelho de João (que foi, por assim
dizer, o seu testamento para os discípulos e toda a sua igreja), declara reiteradas
vezes o seu amor especial e eterno por eles com os termos mais claros e
inequívocos e promete-lhes plena participação futura de sua glória; ao mesmo
tempo garante-lhes que diz isso para que a alegria deles seja completa: “Eu vos
tenho dito essas coisas para que a minha alegria permaneça em vós, e a vossa
alegria seja plena” (Jo 15.11). Observe-se também a conclusão desse discurso:
“Eu vos tenho dito essas coisas para que tenhais paz em mim. No mundo tereis
tribulações; mas não vos desanimeis! Eu venci o mundo” (Jo 16.33). Cristo não
relutou em lhes dizer clara e categoricamente que não queria deixá-los com
dúvida alguma. Concluiu sua última conversa com eles com uma oração a seu
Pai em que fala francamente desses onze discípulos, considerando que todos eles
o conheciam para a salvação, criam nele, receberam a sua palavra e a obedeciam;
que eles não eram do mundo; que se santificava em favor deles; que desejava
estivessem com ele na sua glória; e diz ao Pai que pedia essas coisas em oração
para que a sua alegria se cumprisse neles (v. 13). Por tudo isso, é óbvio que está
de acordo com os desígnios de Cristo, e com o ordenamento e a disposição
deliberada que Cristo faz das coisas em sua igreja, que haja copiosa e suficiente
provisão para que os santos tenham plena certeza de sua glória futura.
O apóstolo Paulo, em todas as suas epístolas se expressa com a mais
absoluta confiança, sempre falando com muita segurança de sua relação especial
com Cristo, seu Senhor, Mestre e Redentor, de sua participação numa
recompensa futura e da expectativa de usufruí-la. Seria infindável destacar aqui
todas as referências que poderiam ser enumeradas. Mencionarei apenas três ou
quatro: “... é Cristo quem vive em mim. E essa vida que vivo agora no corpo,
vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gl 2.20);
“Para mim o viver é Cristo, e o morrer é lucro” (Fp 1.21); “... eu sei em quem
tenho crido e estou certo de que ele é poderoso para guardar o meu tesouro até
aquele dia” (2Tm 1.12); “Combati o bom combate, terminei a carreira, guardei a
fé. Desde agora a coroa da justiça me está reservada, a qual o Senhor, justo juiz,
me dará naquele dia” (2Tm 1.8).
Além disso, a natureza da aliança da graça e os objetivos declarados de Deus
de designar e constituir os termos dessa aliança mostram claramente que o seu
propósito é providenciar para que os santos, enquanto vivem aqui na terra,
tenham a esperança inabalável da vida eterna. Nessa aliança, portanto, todas as
coisas estão de tal maneira ordenadas e planejadas que têm a garantia da parte de
Deus. A aliança é “em tudo bem ordenada e segura” (2Sm 23.5). As promessas
são copiosas, repetidas com frequência e apresentadas de muitas maneiras; o
número de testemunhos e garantias é bem grande, e Deus confirmou suas
promessas com juramento. Em tudo isso, o seu propósito declarado é que os
herdeiros das promessas tenham esperança indubitável e pleno regozijo na
certeza da glória futura que os aguarda. “Assim, Deus, querendo mostrar mais
claramente aos herdeiros da promessa a imutabilidade de seu propósito, interveio
com juramento, para que nós, que nos refugiamos no acesso à esperança
proposta, tenhamos grande ânimo por meio de duas coisas imutáveis, nas quais é
impossível que Deus minta” (Hb 6.17,18). Tudo isso, entretanto, seria inútil para
o firme consolo e a esperança dos santos de obter a glória futura se a
participação deles nas seguras promessas fosse inalcançável aos crentes comuns,
visto que as promessas de Deus, por mais firmes que sejam, só podem dar
consolo e esperança inabalável a alguém que tenha o conhecimento de que tais
promessas lhe foram feitas individualmente. E, se a certeza da absolvição da
culpa do pecado fosse inalcançável, de nada serviria o penhor mediante Jesus
Cristo de que os crentes são perfeitos quanto à consciência, conforme indica
Hebreus 9.9.
Ademais, é evidente que essa convicção não se obtém apenas em alguns
casos muito excepcionais, mas que todos os cristãos são instados a se empenhar
com diligência a ter certeza de seu chamado e eleição, e são orientados como
proceder para isso (2Pe 1.5-8). Igualmente, considera-se impróprio e reprovável
os cristãos não reconhecerem que Cristo está neles: “Examinai a vós mesmos,
para ver se estais na fé. Provai a vós mesmos. Ou não reconheceis que Jesus
Cristo está em vós? A não ser que já estejais reprovados” (2Co 13.5). Está
implícito que é motivo de negligência muito condenável no cristão se ele vive a
vida cristã desse jeito, sem a certeza da recompensa: “Portanto, corro não como
quem não tem alvo” (1Co 9.26). Sem alongar mais o argumento, é evidente que
a certeza dos cristãos quanto à participação que têm nas bênçãos salvíficas do
cristianismo é atingível, porque o apóstolo nos informa o meio pelo qual os
cristãos (não somente os apóstolos e mártires) sabiam disso: “Não temos
recebido o espírito do mundo, mas, sim, o Espírito que vem de Deus, a fim de
compreendermos as coisas que nos foram dadas gratuitamente por Deus” (1Co
2.12); “E sabemos que o conhecemos, se guardarmos seus mandamentos” e
“Assim sabemos que estamos nele” (1Jo 2.3,5); “Nós sabemos que já passamos
da morte para a vida, porque amamos os irmãos” (1Jo 3.14); “Nisto
conheceremos que somos da verdade e tranquilizaremos nosso coração diante
dele” (1Jo 3.19); “E nisto conhecemos que ele permanece em nós: pelo Espírito
que nos tem dado” (1Jo 3.24); e ainda 1João 4.13 e 5.2,19.
Portanto, é absolutamente despropositado determinar que as pessoas são
hipócritas e suas afeições são erradas porque elas não têm dúvida de sua
salvação individual, e as afeições de que são alvo, ao que parece, elimina todo e
qualquer medo do inferno.
Em contrapartida, não é motivo justo determinar que as pessoas são santas e
suas afeições são da graça só porque estas trazem consigo a confiança exagerada
de que elas estão em bom estado e suas afeições são divinas.27 Não se pode
afirmar nada com certeza pela confiança que demonstram, por maior ou mais
forte que ela seja. Quando vemos alguém que chama intrepidamente Deus de Pai
e ora de costume com os termos e o estilo mais ousados, mais íntimos e mais
próprios da oração, como “Meu Pai, meu querido Redentor, meu terno Salvador,
meu Amado”, entre outros apelativos semelhantes, e diante dos outros recorre
usualmente às expressões mais confiantes acerca de seu bom estado, como, por
exemplo: “Sei, com toda a certeza, que Deus é meu Pai; tão certo como há um
Deus no céu, sei que ele é o meu Deus; sei tão bem que vou para o céu que é
como se já estivesse lá; sei que Deus agora se manifesta à minha alma e está
sorrindo para mim agora”; essa pessoa parece ter encerrado para sempre
qualquer questionamento ou exame de seu estado, considerando-o ponto pacífico
e indubitável, e desdenha de tudo que sequer dê a entender ou sugira a existência
de algum motivo para duvidar ou temer se tudo está bem — tais atitudes não
constituem nenhum sinal de que de fato tudo esteja bem como ela acredita
estar.28 Esse tipo de confiança arrogante, arbitrária e impetuosa, tão flagrante e
afetada à vista das pessoas, observada em muita gente, não tem a fisionomia da
verdadeira confiança cristã. Assemelha-se mais ao espírito dos fariseus, que
jamais duvidavam de ser os mais eminentes dos santos e se atreviam a
aproximar-se de Deus, erguer os olhos e agradecer-lhe a enorme diferença entre
eles e os demais seres humanos que lhes atribuíra. Quando Cristo deu a entender
que eles eram cegos e destituídos da graça, desdenharam da insinuação:
“Ouvindo isso, alguns fariseus, que ali estavam com ele, perguntaram-lhe: Será
que nós também somos cegos?” (Jo 9.40). Com toda essa confiança, se os
fariseus tivessem mais do espírito do publicano, que se manteve à distância,
ciente da própria indignidade, e não se atreveu a erguer os olhos para o céu, mas
bateu no peito e implorou misericórdia, reconhecendo sua condição de pecador
(Lc 18.13), tal segurança teria mais o aspecto daquela de quem confia e espera
humildemente em Cristo sem confiar nem um pouco em si mesmo.
Se tão somente levarmos em conta como é o coração do homem natural, os
princípios que o regem, a cegueira e a ilusão, a lisonja e exaltação próprias, e a
autoconfiança que nele imperam, não nos admiraria que sua elevada autoestima
e a confiança na tranquilidade de suas circunstâncias sejam tão elevadas e
vigorosas quanto os montes e impetuosas quanto a tempestade, uma vez que a
consciência foi cegada, as convicções foram assassinadas por falsas afeições
sublimes e os princípios mencionados, deixados à solta, alimentados e impelidos
por alegrias e consolações falsas, instigados por imaginações agradáveis
induzidas por Satanás, fazendo-se passar por anjo de luz.
Quando, portanto, o hipócrita está assim firmado numa falsa esperança,
faltam-lhe os requisitos para questionar essa esperança, requisitos que muitas
vezes provocam momentos de dúvida nos santos verdadeiros. Primeiro, falta ao
hipócrita o espírito de cautela, aquele excelente senso da enorme importância de
um alicerce seguro e o pavor de estar enganado. O consolo dos santos genuínos
aumenta-lhes a consciência, a prudência e a viva noção do imenso significado de
apresentar-se perante o Juiz infinitamente santo, justo e onisciente. A falsa
consolação, contudo, elimina esses escrúpulos e cauteriza a mente. Segundo, ao
contrário do santo autêntico, o hipócrita não tem consciência da própria
cegueira, não reconhece a ardileza de seu coração nem a pequenez de seu
entendimento. Os iludidos pelas descobertas e afeições falsas sempre são muito
convencidos de sua própria luz e de seu entendimento. Terceiro, o Diabo não
ataca a esperança do hipócrita como ataca a esperança do santo verdadeiro. Ele é
o maior inimigo da esperança do cristão genuíno, não só porque em geral ela
costuma dar muita comodidade a quem a tem, mas também porque é de natureza
santa e celestial, fortemente inclinada a promover e cultivar a graça no coração,
além de ser um grande incentivo à austeridade e à diligência na vida cristã. O
Diabo, porém, não é inimigo da esperança do hipócrita, esperança que além de
tudo firma sua vantagem sobre quem a tem. O hipócrita pode conservar a sua
esperança resguardada de toda oposição a vida inteira sem que o Diabo jamais
nem sequer tente perturbá-la. Contudo, talvez não haja nenhum cristão legítimo
cuja esperança não tenha sido assaltada por ele. Satanás investiu contra o próprio
Cristo com questionamentos acerca de sua filiação: ele era de fato o Filho de
Deus? Ora, o servo não está acima de seu Senhor, nem o discípulo acima de seu
Mestre. Basta ao discípulo, o mais privilegiado neste mundo, ser como o seu
Mestre. Quarto, quem tem esperança falsa não percebe, ao contrário dos santos,
suas próprias corrupções. O cristão verdadeiro tem dez vezes mais consciência
que o hipócrita do próprio coração e das corrupções que acalenta. As práticas e o
pecado do coração do cristão genuíno se mostram a ele em toda a sua
tenebrosidade, têm aparência medonha; e sempre parece um grande mistério que
haja alguma graça compatível com tanta corrupção ou que simplesmente ela
exista em tal coração. Mas a esperança falsa encobre totalmente a corrupção, e o
hipócrita parece limpo e luminoso a seus próprios olhos.
Há dois tipos de hipócritas: os iludidos por sua moralidade aparente e
religião exterior, muitos dos quais se professam arminianos relativamente à
doutrina da justificação; e os iludidos por falsas descobertas e arrebatamentos, os
quais em geral menosprezam as obras e a justiça dos homens e falam muito
sobre a livre graça, mas ao mesmo tempo consideram justiça suas próprias
descobertas e humilhações e com elas se exaltam ao céu. Em sua exposição da
Parábola das Dez Virgens, o senhor Shepard distingue esses dois tipos de
hipócritas pelos respectivos nomes de hipócritas legalistas e hipócritas
evangélicos e quase sempre se refere a estes últimos como os piores. E é claro
que estes são quase sempre, de longe, os mais confiantes em sua esperança e os
mais difíceis de ser demovidos dela. Até hoje, nunca soube de algum caso em
que um deles tenha sido despertado dessa ilusão. Os principais fundamentos da
confiança de muitos deles são exatamente os mesmos tipos de impulsos e
supostas revelações (às vezes amparados por textos da Escritura, às vezes não),
que nos últimos dias tantos têm tido a respeito de eventos futuros. Esse segundo
tipo chama tais impulsos acerca de sua boa condição de “testemunho do
Espírito”. Com isso, equivocam-se totalmente acerca da natureza do testemunho
do Espírito, como mostrarei em seguida. As visões e os impulsos relativos a
outras coisas que eles tiveram geralmente ocorreram para revelar tudo aquilo por
que ansiavam; e não admira que os atentos a esse tipo de coisa tenham o mesmo
tipo de visões ou impressões acerca de sua própria salvação eterna a lhes revelar
que seus pecados foram perdoados, seu nome está escrito no Livro da Vida e que
desfrutam o sublime favor de Deus, entre outras coisas; e sobretudo quando as
buscam, têm esperança e aguardam sinceramente evidências de sua eleição e
salvação por este meio, como se fossem essas evidências a prova mais segura e
mais gloriosa dessas dádivas. A copiosa experiência revela que os dirigidos por
impulsos e revelações imaginadas são extremamente confiantes. Eles supõem
que o grande Jeová lhes declarou isto e aquilo, e que ter seu testemunho
imediato e confiança inabalável é a virtude mais nobre. Por isso, afirmam com
intrepidez: “Conheço isso e aquilo — tenho plena certeza — tão certo quanto
existo tenho essa certeza”, entre outras alegações, além de desprezarem todo e
qualquer debate e investigação do caso. Além de tudo, é muito fácil considerar
as impressões e os impulsos associados a sensações tão agradáveis, tão
compatíveis com o amor-próprio e com o orgulho deles — como se fossem os
filhos diletos de Deus, diferenciados da maioria do mundo para receber seu favor
—, que os torna solidamente confiantes, sobretudo quando esses impulsos e
revelações despertam elevadas afeições, tidas por eles como as mais eminentes
manifestações da graça. Tive conhecimento de algumas pessoas que, tomadas de
apaixonado desejo por algo de caráter temporal e possuídos de ardente paixão,
empenharam-se seriamente para tornar realidade o objeto de seu desejo,
enfrentaram muitas dificuldades e inúmeras provações por ele, e por fim tiveram
a impressão ou suposta revelação de que deviam obter o que almejavam. E por
considerarem tal anseio uma promessa inabalável do Altíssimo, tornam-se
ridiculamente confiantes, avessos a toda espécie de explicação que os procurasse
convencer do contrário, por mais que todos os acontecimentos atuassem
desfavoravelmente contra eles. Também nada impede os que buscam a salvação
de serem logrados por impressões enganosas semelhantes e depositarem nelas
sua confiança.
A confiança de muitos hipócritas dessa espécie, a que o sr. Shepard chama
de hipócritas evangélicos, assemelha-se à convicção de alguns loucos que se
imaginam imperadores. Eles sustentam essa convicção contra todo tipo de
argumento e prova. Em um sentido, a confiança do hipócrita é mais arraigada
que a verdadeira segurança da graça. A verdadeira garantia persiste tão somente
à medida que a alma preserva uma santa disposição de espírito e mantém a graça
em atividade. Se as ações da graça se deterioram no cristão, e ele cair em estado
de desânimo, perderá sua certeza; mas a confiança dos hipócritas não se abalará
pelo pecado. Eles, pelo menos alguns, continuarão intrépidos na esperança, nos
mais iníquos estados de espírito e na conduta mais perversa, o que é prova clara
da ilusão que os domina.29
Não posso deixar de comentar aqui que algumas doutrinas em geral pregadas
devem ser apresentadas com mais cautela e elucidação do que frequentemente
são, pois, o modo que muitos as entendem colabora em grande medida para criar
essa ilusão e a confiança falsa dos hipócritas. As doutrinas a que aludo são
aquelas referentes “ao cristão viver pela fé, não por vista; render glória a Deus,
confiando nele nos momentos de trevas; viver na dependência de Cristo, não de
experiências; não fazer do seu bom ânimo o fundamento de sua fé”. Com efeito,
essas doutrinas são importantes e excelentes quando corretamente
compreendidas, mas, da forma que muitos as entendem, são corruptas e
destrutivas. Quando a Escritura fala de viver e andar pela fé, não por vista, quer
dizer tão somente que temos de ser regidos pelo respeito às realidades eternas, os
objetos invisíveis da fé, e não pelo respeito às coisas temporais, visíveis;
devemos crer nas coisas reveladas, que jamais vimos com os olhos físicos; viver
pela fé na promessa das bênçãos futuras, sem, contudo, ver nem usufruir os
benefícios prometidos nem saber como podem ser cumpridos. Isso é bastante
óbvio para qualquer um que examine as passagens da Escritura referentes à
oposição entre fé e visão, como 2Coríntios 4.18 e 5.7; Hebreus
11.1,8,13,17,27,29; Romanos 8.24; João 20.29. Essa doutrina, entretanto,
conforme o entendimento de muitos, preconiza que os cristãos devem crer e
confiar resolutos em Cristo, sem visão nem luz espiritual, mesmo em situação de
terríveis trevas e, no presente, não tenham nenhuma experiência ou descoberta
espiritual. Com efeito, o dever dos que se acham nessa escuridão é sair das
trevas para a luz e crer. Todavia, que eles devam crer e confiar com total
intrepidez enquanto ainda estão sem luz nem visão espiritual é uma doutrina
absurda e nada bíblica. A Escritura desconhece qualquer tipo de fé em Cristo,
operada por Deus, que não se alicerce na visão espiritual de Cristo. A fé em
Cristo que vem acompanhada do direito à vida eterna consiste em “ver o Filho e
crer nele” (Jo 6.40). A verdadeira fé em Cristo jamais é exercida além do ponto
em que a pessoa contempla como em “um espelho a glória do Senhor” e tem “o
conhecimento da glória de Deus na face de Cristo” (2Co 3.18; 4.6). Aquele em
cujo entendimento não resplandeceu “a luz do evangelho da glória de Cristo, o
qual é a imagem de Deus” (2Co 4.4) não pode crer. Essa fé, destituída de luz
espiritual, não é a fé dos filhos da luz e do dia, mas a presunção dos filhos das
trevas. Por isso, pressioná-los e instar a que creiam, sem nenhuma luz nem visão
espiritual, costuma colaborar bastante para o avanço dos engodos do príncipe das
trevas. Os seres humanos sem o mínimo de luz espiritual não conseguem exercer
fé, só conseguirão exercer fé na mesma proporção em que tiverem luz espiritual.
Não é possível confiar em Deus sem ter conhecimento dele; e as pessoas não
podem nele depositar fé nem um milímetro a mais daquilo que enxergam de sua
plenitude e fidelidade em ação. Tampouco podem exercer confiança em Deus
nem um pouco a mais do ponto em que se encontram na graça. Os que se acham
em um contexto carnal sem dúvida devem confiar em Deus, pois isso é o mesmo
que saírem de seu mau contexto e se voltarem para Deus. Porém, exortar as
pessoas a crer em Deus com toda a confiança, e assim conservar a esperança e a
paz, apesar de não estarem no contexto da graça e assim permanecerem, tem o
mesmo efeito que exortá-las a confiar firmemente em Deus mas sem a confiança
da graça. O que é isso senão uma presunção ímpia? Aos homens totalmente
despojados dos exercícios vivos da graça ou de experiências cristãs conscientes é
tão impossível confiar em Deus com vigor e ânimo quanto lhes é impossível
usufruir o exercício vivificante da graça sem os exercícios da graça.
É verdade que é dever do povo de Deus confiar nele quando se encontra em
trevas. Nesse sentido, os crentes devem confiar em Deus mesmo quando as
perspectivas de sua providência forem sombrias e parecer que ele os abandonou
e não lhes ouve as orações; quando assustadoramente as nuvens se acumulam e
os muitos inimigos os sitiam, ameaçando tragá-los, e todas as manifestações de
providência se mostram contrárias e todas as circunstâncias dificultam o
cumprimento das promessas de Deus, e confiar em Deus é impreterível mesmo
sem vê-lo, isto é, quando não se pode perceber qual o meio possível para ele
cumprir sua palavra — quando todas as coisas, menos a simples palavra de
Deus, fazem tudo parecer tão pouco provável que, para crer, é preciso esperar
contra toda a esperança. Foi assim que os patriarcas, Jó, o salmista, Jeremias,
Daniel, Sadraque, Mesaque, Abede-Nego e o apóstolo Paulo glorificaram a
Deus, confiando nele em plena escuridão — e o capítulo 11 de Hebreus
apresenta muitos exemplos dessa gloriosa e vitoriosa fé. Quanta diferença,
porém, existe entre confiar em Deus, sem visão espiritual, e ao mesmo tempo
estar num contexto carnal e sem vida!
Também é possível que a luz espiritual entre na alma de um modo, quando
não de outro; e por isso os santos confiam em Deus e também têm consciência
de seu bom estado mesmo quando desprovidos de alguns tipos de experiências.
Por exemplo, é possível que tenham visão clara da suficiência e fidelidade de
Deus, confiem nele com plena certeza e saibam que são seus filhos, mas ao
mesmo tempo não tenham a noção clara e tranquila de seu amor como em outros
momentos, pois também foi assim com o próprio Cristo em seu último
sofrimento. Também podem ter percepção de grande parte da soberania, da
santidade e da onipotência de Deus, o que lhes permite submeter-se a ele
tranquilamente e ter a doce e mais animadora esperança na plenitude de Deus,
quando não estão satisfeitos com seu próprio bom estado. Mas como isso é
diferente de confiar resolutamente em Deus sem luz espiritual nem experiência!
Os que assim insistem na possibilidade de alguém viver pela fé sem
nenhuma experiência e em péssimo contexto também têm uma noção absurda de
fé. Para eles, fé significa crer que estão em boa condição espiritual. Por isso,
consideram um pecado terrível duvidar de seu estado, não importa qual seja esse
estado de espírito nem os atos ímpios que praticam, porque esse é o enorme e
abominável pecado da incredulidade. Esse tipo é a melhor pessoa, é aquela que
mais glorifica a Deus e conserva a esperança no seu bom estado com absoluta
confiança e firmeza, mesmo com pouquíssima luz ou experiência, isto é, quando
se acha nas piores e mais ímpias condutas e disposições; pois, afinal, isso é sinal
de que ele é forte na fé, glorifica a Deus e que apesar de tudo crê na esperança.
De que Bíblia eles tiraram a ideia de que fé é a pessoa crer com segurança que
está em bom estado?30 Se isso for fé, os fariseus tinham fé em altíssimo grau —
embora alguns deles, conforme Cristo ensina, tenham cometido o pecado
imperdoável contra o Espírito Santo. A Escritura apresenta a fé como o meio
pelo qual as pessoas alcançam um bom estado. Logo, não pode ser o mesmo que
alguém crer que já está em bom estado. Imaginar que fé significa o indivíduo
crer que se encontra em bom estado é, na verdade, o mesmo que imaginar que fé
significa o indivíduo crer que têm fé, ou crer que crê.
Com efeito, as pessoas que duvidam de seu bom estado espiritual podem
despertar da incredulidade de várias maneiras. A falta de sinais positivos de sua
condição talvez se origine da incredulidade ou da pequena fé deles mesmos. Se
tivessem mais experiência dos atos de fé e, portanto, mais experiência da ação da
graça, teriam sinais mais claros de que estão em bom estado, e suas dúvidas
seriam dissipadas. A dúvida deles quanto ao próprio estado talvez se deva à
incredulidade, pois, apesar de muitos sinais claros e positivos da ação da graça
em sua vida, eles têm muita dúvida se de fato gozam do favor de Deus, já que
são tão indignos e tanto fizeram para despertar a ira divina contra eles mesmos.
Nesse caso, suas dúvidas surgem da incredulidade, assim como da falta de noção
das infinitas riquezas da graça de Deus e da suficiência de Cristo para o principal
dos pecadores. Tais dúvidas também podem ser fruto da incredulidade se essas
pessoas não têm certeza do próprio estado, por causa do mistério das
dispensações de Deus para com elas; se não são capazes de conciliar essas
dispensações com o favor de Deus por elas; ou se duvidam de que têm algum
benefício nas promessas, uma vez que estas, do ponto de vista da providência,
parecem muito improváveis de ser cumpridas — são muitas e grandes as
dificuldades no caminho. As dúvidas procedem da falta de confiança na
onipotência de Deus e em seu conhecimento e sabedoria, infinitamente além dos
nossos. No entanto, nessas pessoas, a incredulidade e as dúvidas acerca de seu
estado não são a mesma coisa, apesar de uma provir da outra.
Com base no que se acabou de mencionar, as pessoas podem culpar-se muito
por duvidarem de seu próprio estado; também podem culpar-se por não terem
mais da graça nem mais experiências e ações presentes dessa graça que lhes
sirvam de evidência da boa condição de seu estado. Sem dúvida, qualquer ser
humano deve culpar-se por se encontrar em estado de ânimo carnal e sem vida;
porém, quando estão nesse estado e não têm nenhuma experiência perceptível
das ações da graça, mas, pelo contrário, estão sob o domínio da concupiscência e
do espírito não cristão, não se culpam por duvidar da própria situação. Em tais
circunstâncias, pela própria natureza das coisas, é tão impossível manter viva a
santa esperança cristã com sua força e clareza quanto manter um cômodo
iluminado depois de apagada a lâmpada ou quanto manter o brilho do sol na
atmosfera depois que o astro se pôs. Experiências distantes, obscurecidas pelas
concupiscências e corrupções dominantes, jamais mantêm vivas a confiança e a
certeza da graça; antes, fazem-nas adoecer e se deteriorar tão inevitavelmente
quanto a uma criancinha ferida por repetidos golpes de martelo na cabeça.
Tampouco se deve lamentar que nessas circunstâncias as pessoas tenham
dúvidas quanto ao seu estado espiritual, mas, pelo contrário, é desejável e muito
melhor que duvidem. É conveniente para a sábia e compassiva constituição das
coisas estabelecidas por Deus que assim seja, pois Deus as concebeu e constituiu
em suas dispensações para com o seu povo de tal maneira que, se o amor deles
se deteriorar e sua prática deixar de existir ou se enfraquecer, surgirá o medo.
Portanto, essas pessoas precisam do medo para as refrear de pecar e motivá-las a
zelar pelo bem da própria alma e, com isso, serem instigadas à vigilância e
diligência na religião. Mas Deus ordenou tudo de tal modo que, quando o amor
surge e atua com vigor, o medo se dissipa e some; pois elas já não precisam dele,
visto contarem com um princípio mais elevado e mais excelente que lhes impõe
limite ao pecado e as anima para seus deveres. A natureza humana não está sob a
influência de nenhum outro princípio senão estes dois: o medo e o amor, que
sempre darão consciência e escrúpulos aos homens. Portanto, se um não
predominasse com a decadência do outro, o povo de Deus, quando dominado por
disposições carnais e sem vida, estando o amor adormecido, estaria
lamentavelmente vulnerável. Por isso, em sua sabedoria Deus ordenou que esses
dois princípios opostos, amor e medo, oscilassem como os dois pratos de uma
balança: quando um sobe, o outro desce. Assim como a luz e as trevas necessária
e inevitavelmente sucedem uma à outra — quando a luz predomina, as trevas
diminuem na mesma proporção; e se a luz diminui, a escuridão predomina
igualmente —, o mesmo também ocorre no coração de um filho de Deus. Se o
amor divino enfraquece e adormece, e a concupiscência predomina, a luz e a
alegria da esperança se retiram, e surgem o medo e a dúvida tenebrosa. Se,
porém, ao contrário, o amor divino prevalece e atua com vivacidade, isso traz o
brilho da esperança e lança fora as trevas da concupiscência, que levam com elas
o medo. O amor é o espírito de adoção ou o princípio da semelhança de filhos;
se ele adormece, as pessoas são subjugadas pelo medo, que é o espírito de
escravidão, ou o princípio servil; e o contrário também é verdadeiro. Se assim, o
amor, ou o espírito de adoção, for elevado a uma grande altura, ele elimina todo
medo e proporciona plena segurança. De acordo com o ensino do apóstolo: “No
amor não há medo, pelo contrário, o perfeito amor elimina o medo” (1Jo 4.18).
Esses dois princípios antagônicos, a concupiscência e o amor santo, trazem
esperança ou medo ao coração dos filhos de Deus, à medida que um dos dois
prevalece; isso quando deixados à sua própria influência natural, sem nenhum
imprevisto nem intervenção acidental alguma, como o mal-estar da melancolia, a
ignorância doutrinal, os preconceitos de educação, a instrução errada, os
princípios falsos, as tentações peculiares, entre outros.
O medo é expulso pelo Espírito de Deus mediante o predomínio do amor e
nada mais; tampouco o medo é conservado pelo Espírito, mas é, sim, alimentado
quando o amor adormece. Nessa ocasião, todo autoexame e qualquer
esquadrinhar da experiência passada a fim de obter segurança e ter sua paz
firmada é inútil ao santo, pois é contrário à natureza das coisas, segundo Deus as
constituiu, que o ser humano se sinta seguro nesse momento.
Portanto, aqueles que — escudados pela noção de viver pela fé, e não por
vista, de confiar em Deus em meio às trevas, e viver na dependência de Cristo,
não de experiências — exortam outros a permanecer confiantes na esperança
quando seu ânimo está abalado pelo medo e os incentivam a não ter dúvidas
acerca de seu bom estado, e por isso não incorrerem na culpa do terrível pecado
de incredulidade, frustram abertamente a sábia e graciosa constituição das coisas
de Deus. Isso costuma gerar os mais arrogantes hipócritas e os impede de
questionar sua condição espiritual, por mais que a impiedade viceje e reine no
coração deles e predomine em sua vida; tudo isso tem como base a ideia de
honrar a Deus, mantendo a esperança apesar das adversidades e confiando
resolutamente em Deus quando tudo estiver tenebroso. Essa conduta tem, sem
dúvida, causado um dano imensurável.
Não se pode dizer que as pessoas deixam Cristo de lado e vivem com base
em suas experiências dos exercícios da graça só porque elas usam essas
experiências como prova da graça — uma vez que não há nenhum outro sinal
que possam ou devam considerar. No entanto, pode-se dizer que as pessoas
vivem com base em suas experiências quando elas as transformam em retidão e,
em vez de fixarem os olhos na glória de Deus e na excelência de Cristo, elas se
distraem desses alvos e passam a olhar para si mesmas e entreterem a mente
contemplando suas próprias conquistas, suas experiências elevadas e as coisas
grandiosas que viram, tão belas e reluzentes aos seus próprios olhos, além de
ricas e boas segundo seu próprio entendimento, e quando tais pessoas imaginam
que, pelo mesmo motivo, Deus tem por elas estima tão admirável quanto elas
têm de si mesmas. Isso é viver pelas experiências, não por Cristo, e é mais
abominável aos olhos de Deus do que as imoralidades grosseiras daqueles que
não pretendem nem um pouco se passar por religioso. Isso, porém, é muito
diferente do simples aperfeiçoamento de experiências para serem usadas como
sinal de interesse no glorioso Redentor.
Voltando dessa digressão, quero mencionar mais uma coisa no contexto do
tópico geral de que estou tratando.

XII. As manifestações exteriores das afeições religiosas e seus


relatos serem mui tocantes e agradáveis para os piedosos
autênticos e assim lhes conquistar o coração e a
generosidade não permite concluir nada acerca da
natureza dessas afeições
Os santos verdadeiros não têm um espírito de discernimento que lhes permita
determinar sem dúvida quem é piedoso e quem não é, porque, apesar de saberem
por experiência o que é a verdadeira religião, pelas ações interiores dela, não
conseguem sentir nem ver o que existe no coração alheio.31 Não há nada nos
outros que esteja no alcance da visão deles, a não ser manifestações externas e
aparências; todavia a Escritura afirma com plena clareza que esse meio de julgar
o que há nas pessoas, pela aparência, é na melhor hipótese impreciso e passível
de engano: “Porque o SENHOR não vê como o homem vê, pois o homem olha
para a aparência, mas o SENHOR, para o coração” (1Sm 16.7); “Ele se inspirará
no temor do SENHOR; e não julgará pela aparência, nem decidirá pelo que ouvir
dizer” (Is 11.3).32 Esses tais normalmente não passam de juízes medíocres e
conselheiros temerários para as questões da alma. São apressados e peremptórios
em determinar o estado e a condição dos outros e se vangloriam de sua
extraordinária capacidade de discernimento nesses assuntos, como se tudo lhes
fosse franco e claro. Eles revelam uma destas três possibilidades: têm pouca
experiência; ou são pessoas de discernimento débil; ou têm alto grau de soberba
e autoconfiança, por isso são ignorantes a respeito de si mesmos. As pessoas
sábias e experientes procedem com muita cautela nesses casos.
Sempre que nos outros houver provável aparência de piedade, os santos têm
o dever de recebê-los com cordialidade na sua compaixão, amá-los e se
alegrarem neles como seus irmãos em Cristo Jesus. Contudo, mesmo o melhor
dos homens é passível de engano quando as aparências lhe dão a impressão de
ser justas e luminosas a ponto de obterem sua completa boa vontade e lhes
conquistar o coração. Não é raro na igreja de Deus alguns iluminados, acolhidos
como santos eminentes entre os santos, se desviarem e não darem em nada.33
Isso não é de admirar se levarmos em consideração tudo quanto já foi observado
e demostrado sobre as aparências que podem manifestar-se em pessoas
totalmente desprovidas da graça. Nada impede que tudo isso se reúna numa
pessoa, que mesmo assim não tenha a mínima centelha de graça no coração.
Podem reunir afeições religiosas de muitas espécies; talvez tenham algum tipo
de afeição para com Deus, muito semelhante a um especial amor por ele; e assim
também sintam alguma espécie de amor pelos irmãos e pareçam muito
maravilhados com as perfeições e obras de Deus, se entristeçam pelo pecado, e
demonstrem reverência, submissão, humildade, gratidão, alegria, anseios
religiosos, zelo pela religião e em prol das boas almas. Essas afeições podem
surgir depois de grandes despertamentos e convicção de pecados, e talvez haja
aspectos grandiosos de uma obra de humilhação; e o amor e a alegria
falsificados, além de outras afeições, talvez as acompanhem, bem como uma à
outra, na mesma ordem em geral observável nas afeições santas dos verdadeiros
convertidos. Essas afeições religiosas talvez se exaltem às maiores alturas,
provoquem profusão de lágrimas — são mesmo capazes de subjugar a natureza
dos que as têm, e os pode deixar entusiasmados, fervorosos e eloquentes ao
falarem das coisas de Deus, amparando-as com doces e incontáveis textos da
Escritura e promessas preciosas impressas com muita intensidade em sua mente,
o que as faz louvar e glorificar a Deus com os lábios com muito ardor e, tomadas
pelo fervor, convocar os outros para louvá-lo, confessando em voz alta a própria
indignidade, enaltecendo a livre graça. Podem, além disso, dispô-las a ser
pródigas nas obrigações externas da religião, como orar, ouvir a Palavra pregada,
cantar louvores e conversar sobre a religião, além de participar dessas práticas
com imensa semelhança da certeza cristã, em sua mais excelsa altura, como
quando os santos cavalgam sobre asas de águias, acima de toda escuridão e
dúvida. Acredito que já ficou claro que todos esses sinais podem estar presentes
e ainda assim decorrerem tão somente das influências corriqueiras do Espírito de
Deus, somadas às ilusões de Satanás e ao coração perverso e enganoso. Devo
também acrescentar que todas essas expressões podem vir acompanhadas de
índole mansa e suave, bom conhecimento doutrinário da religião e prolongada
convivência com a maneira pela qual os santos descrevem e se expressam acerca
de suas afeições e experiências, além da habilidade e astúcia naturais para
acomodar as expressões e o modo de falar às disposições e noções dos ouvintes,
mediante a adoção de termos e comportamentos decorosos, moldados por boa
formação. Portanto, quão grandiosa pode ser a semelhança, relativa a todas as
expressões e aparências exteriores, entre um hipócrita e um santo verdadeiro!
Sem dúvida, é a gloriosa prerrogativa do Deus onisciente, na qualidade de
profundo escrutinador de corações, o ser capaz de fazer a separação entre
ovelhas e bodes. E como é grande a indecência, a presunção e a arrogância de
obscuros mortais pobres e falíveis que se pretendem capazes de determinar e
saber quem são, ou não, as pessoas realmente sinceras e íntegras diante de Deus!
Além de entenderem que tais coisas determinam como se deve considerar a
piedade real dos outros, muitos parecem atribuir alto valor a que alguém, ao
descrever suas experiências, não só faça um relato verossímil, mas também
cause grande impressão pelo modo como encena e modula o seu discurso,
tornando possível sentir o que descreve — ou seja, quando o relato alheio parece
harmonizar-se com as experiências dos ouvintes, cujo coração, sensibilizado,
comovido e deleitado com o que ouvem, fica, por isso, mais à vontade para os
amar com terno amor. Mas tais coisas não implicam em si mesmas a certeza nem
a plena confiança que muitos imaginam. Um santo verdadeiro deleita-se
imensamente na santidade; aos seus olhos, ela é o que há de mais belo, e a obra
de Deus, ao salvar, renovar e tornar santa e feliz uma alma pobre e outrora
moribunda, lhes parece a mais gloriosa de todas. Logo, não é de admirar que o
santo tenha o coração tocado e se emocione ao ouvir alguém descrevendo uma
provável ocorrência dessa obra, operada em seu próprio coração, e ao vislumbrar
em tal pessoa alguma possível aparência de santidade; não importa se essas
impressões agradáveis correspondam a algo verdadeiro ou não. E se quem fala
vale-se de palavras usadas ordinariamente para expressar as afeições dos santos
verdadeiros, além de descrever muitas experiências ocorridas em determinada
ordem e sucessão, condizentes com o método da experiência do ouvinte (e em
tudo isso falando livre e ousadamente, com notável convicção), não admira que
quem ouve considere que as experiências de quem fala se harmonizam com as
suas próprias experiências. E se além de tudo isso, ao fazer seu relato, a pessoa
se expressa afetuosamente e, sobretudo, parece demonstrar simpatia por aqueles
a quem fala, uma simpatia semelhante à dos gálatas pelo apóstolo Paulo, é
natural que essas coisas tenham forte influência para afetar e atrair o coração dos
ouvintes, além de escancarar as portas da sua liberalidade. Davi se expressa
como quem havia desfrutado dos discursos de Aitofel, que antes exalavam suave
aroma e grande deleite. Por isso, enormes foram a surpresa e a decepção que
acompanharam a sua queda; eram-lhe quase insuportáveis. “Não é um inimigo
que me afronta; isso eu poderia suportar. [...] Mas és tu, meu colega, meu
companheiro e amigo chegado. Juntos tivemos momentos agradáveis;
caminhávamos com a multidão para a casa de Deus” (Sl 55.12-14).
Ocorre com os que se dizem religiosos, especialmente com os que assim se
tornam em períodos de derramamento do Espírito de Deus, o que ocorre com a
floração na primavera:34 há um número incontável de flores em cada árvore e
todas parecem boas e promissoras, mas muitíssimas jamais virão a ser alguma
coisa. E miríades de flores que logo mirram, caem e apodrecem ao pé das
árvores pareceram por algum tempo tão belas e alegres como as outras; mais
ainda, tinham também aroma suave e perfume agradável. Não somos capazes,
com nenhum de nossos sentidos, de distinguir com certeza as flores que trazem
em si a virtude secreta que depois aparecerá no fruto e a solidez e força
interiores que lhes permitem suportar e ser aperfeiçoadas pelo ardente sol do
verão, o mesmo que secará as outras. Devemos julgá-las pelo fruto maduro que
vem depois, não pelas belas cores e pelo aroma da flor. Assim, os novos
convertidos (os que assim se professam), em suas conversações sobre as coisas
da religião, talvez pareçam justos e agradabilíssimos, e os santos pensem que
eles falam com grande sentimento, apreciem seu discurso e imaginem perceber
neles um sabor divino e, apesar disso, tudo pode dar em nada.
É estranha a imensa dificuldade que os homens têm para se satisfazer com as
regras e direções que Cristo lhes dá. Antes, preferem seguir a custo outras regras,
inventadas por eles mesmos, as quais lhes parecem mais sábias e melhores.
Desconheço quais outros conselhos e direções dados por Cristo sejam mais
claros do que aqueles que ele nos concedeu para julgarmos a sinceridade alheia;
qual seja, o de que devemos julgar a árvore principalmente pelos frutos. Isso,
porém, não servirá aos homens, pois descobrem outras formas que imaginam ser
mais distintivas e infalíveis. Terríveis têm sido as malignas consequências de
estabelecer de forma arrogante a sabedoria humana acima da sabedoria de
Cristo. A esse respeito, creio que muitos santos se têm afastado demais do
caminho da palavra de Cristo; alguns deles foram castigados com açoites e
(quase eu dizia) escorpiões para retornarem ao rumo. Mas muitas coisas vistas
recentemente, e que ainda hoje se veem, servem para nos convencer de que, em
geral, aqueles que mais se distanciam desse caminho, os que mais se orgulham
da própria faculdade de discernimento para determinar de modo categórico e
súbito o estado da alma dos homens, não passam de hipócritas que nada sabem
da religião verdadeira.
A parábola do joio e do trigo relata que, “quando o trigo cresceu e começou
a dar espigas, apareceu também o joio” (Mt 13.26). Até então, o joio não se
distinguia do trigo nem era diferenciado dele, conforme observa o sr. Flavel, que
menciona o comentário de Jerônimo segundo o qual, até que surjam as espigas,
trigo e joio são tão semelhantes que é impossível diferençá-los. Nesse caso,
acrescenta o sr. Flavel:35 “Por mais difícil que seja discernir a diferença entre
trigo e joio, não há dúvida de que o olho corporal consegue discriminá-los com
muito mais facilidade do que o mais eficiente e penetrante olhar do homem é
capaz de discernir a diferença entre a graça especial e a comum. Todas as graças
salvadoras nos santos têm as suas falsificações nos hipócritas, nos quais há obras
tão semelhantes que mesmo um olho espiritual e perspicaz pode facilmente
confundi-las com os efeitos salvadores e genuínos de um espírito santificador”.
Assim como a espiga ou fruto serve para distinguir o trigo do joio, assim
também o verdadeiro xibolete, usado pelo juiz que vigia as passagens do Jordão,
serve para fazer distinção entre os que entrarão na verdadeira Canaã através
desse rio e aqueles que serão mortos nas suas passagens. A palavra hebraica
“xibolete” significa espiga, e talvez a pronúncia mais cheia dos amigos de Jefté
represente a espiga plena, carregada de grãos, tipificando os frutos dos amigos
de Cristo, o antítipo de Jefté; e a pronúncia mais mirrada dos efraimitas, seus
inimigos, represente espigas vazias, tipificando a religião apresentada pelos
hipócritas, sem substância nem fruto. Isso está de acordo com a doutrina
copiosamente ensinada nas Escrituras, qual seja: aquele que foi estabelecido para
julgar os que passam pela morte e determinar se têm o direito de entrar na Canaã
celestial ou se devem permanecer na morte, julgará cada pessoa segundo as suas
obras.
Segundo parece, recebemos o mesmo ensinamento das regras usadas pelos
sacerdotes para identificarem a lepra. Em muitos casos, pela inspeção rigorosa
do que havia na pessoa, não lhes era possível determinar se tinha lepra ou se
estava limpa enquanto não esperasse e visse que aparência a enfermidade
assumiria. A pessoa apresentada devia então ser isolada e mostrar-se ao
sacerdote após sete dias e, depois, mais sete. Ao julgar, ele devia decidir com
base na aparência do cabelo crescido na região apresentada à sua vista, como se
fosse o fruto que ela produzira.
E aqui, antes de terminar de explicar o que precisa ser dito quanto a esse
tópico, acrescentarei algo acerca da estranha noção com a qual alguns têm
recentemente se desencaminhado: a certeza de conhecerem o bom estado em que
os outros se acham, como se isso lhes fora revelado diretamente do céu, por
causa do amor que deles emana de modo extraordinário. Essas pessoas
argumentam que, quando o amor de alguém é sensível e grandioso, aqueles que
o sentem podem saber sem dúvida que se trata do verdadeiro amor cristão; e, em
sendo o verdadeiro amor cristão, o seu autor só poder ser o Espírito de Deus. Se
apraz ao Espírito de Deus — que é um Espírito de verdade e sabe com certeza
quem é ou não filho de Deus — influenciá-las de forma incomum, fazendo fluir
de modo extraordinário o amor delas por aquela pessoa, é certo que esse Espírito
infalível, que não ilude a ninguém, sabe que tal pessoa é filha de Deus. Aqueles
que assim pensam e agem talvez se convencessem da falsidade do seu
entendimento se levassem em consideração o dever que Deus lhes imputa: amar
como filhos de Deus aqueles a quem assim consideram e aqueles de quem não
têm razão para pensar de outra forma por tudo quanto podem ver neles, embora
somente Deus, que sonda os corações, saiba se são seus filhos ou não.
Se for esse o dever deles, ele é bom, e o seu descumprimento é pecado.
Nesse caso, é possível que o Espírito de Deus seja o autor de tal fenômeno. O
Espírito de Deus, não sendo um espírito de falsidade, pode auxiliar alguém a
cumprir seus deveres e guardá-lo de pecar. Mas os defensores daquela ideia
apelam ao argumento da intensidade incomum e da forma especial pela qual
deles brota o amor que sentem por esta ou aquela pessoa — amor que, segundo
pensam, o Espírito de Deus jamais causaria se soubesse que o seu alvo não era
um filho de Deus. Nesse caso, eu lhes pergunto se o dever deles não é amar a
quantos considerem tratar-se de filhos de Deus em razão de tudo o que podem
ver neles, embora Deus, em razão de outras coisas que vê e estão fora do alcance
da vista deles, saiba que não são seus filhos. É dever dos homens amar com um
afeto bem maior do que o costumeiro a quantos, em caridade, devem considerar
filhos de Deus. Assim como devemos amar a Cristo com a máxima capacidade
da nossa natureza, assim também temos o dever de amar aqueles que, segundo
entendemos, lhe são tão próximos e queridos como seus membros. Devemos
amá-los com uma afeição tão extraordinária quanto aquela com que Cristo nos
amou. Portanto, não os amar assim é pecado. Devemos orar a Deus para que,
pelo seu Espírito, nos livre de pecar e nos capacite a cumprir nosso dever. Acaso
não é possível que o seu Espírito responda às nossas orações e nos capacite para
cumprirmos a nossa obrigação, num caso particular, sem que ele minta? Se isso
não for possível, o Espírito de Deus não está obrigado a ajudar o seu povo a
cumprir seus deveres em alguns casos, porque não poderá fazê-lo sem ser
espírito de falsidade. Mas, sem dúvida, Deus é tão suficientemente soberano que
pode nos capacitar a cumprir o nosso dever quando for do seu agrado e na
ocasião que lhe aprouver. Quando as pessoas acham que os outros são filhos
dele, pode ser que Deus, ao fazê-las transbordarem de profundo amor por eles,
tenha outros objetivos além de lhes revelar se estão certas; talvez tenha nisso o
objetivo misericordioso de capacitá-las a cumprir seus deveres e livrá-las do
terrível mal infinito, o pecado. Será que elas dirão que, nesse caso, Deus não lhes
mostrará tal misericórdia? Se eu estivesse longe do lar e soubesse que na minha
ausência minha casa pegou fogo, mas minha família inteira escapou das chamas
de algum modo extraordinário, e todos os detalhes do relato parecessem
absolutamente verdadeiros, estaria pecando se, nesse caso, não sentisse profunda
gratidão para com Deus, embora a história, de fato, não fosse verdadeira. E Deus
não é tão soberano que, nessa ocasião, poderia, se assim lhe aprouvesse, mostrar-
me misericórdia e capacitar-me a cumprir meus deveres num grau bem superior
ao que eu costumava cumprir, e ainda assim não incorrer na acusação de
falsidade, em corroborar uma mentira?
Romanos 14.6 manifesta sobejamente que o erro ou o engano pode ser
ocasião para uma ação da graça e, por conseguinte, para uma influência graciosa
do Espírito de Deus: “E quem come, para o Senhor come, porque dá graças a
Deus; e quem não come, para o Senhor deixa de comer, e dá graças a Deus”. O
apóstolo se refere àqueles que, por escrúpulos errôneos ou desnecessários,
evitavam comer carne legalmente impura. Em razão disso, torna-se bem evidente
a possibilidade da existência de verdadeiras manifestações da graça, verdadeiro
respeito ao Senhor e, de modo particular, verdadeira gratidão, ocasionados tanto
por juízos como por práticas errôneas. Um erro, portanto, pode dar ocasião a
santos exercícios que procedem do infalível Espírito de Deus. Sendo assim, com
certeza ser-nos-ia demasiado determinar até que ponto o Espírito de Deus
poderia conceder esse santo exercício em tal ocasião.
A ideia de discernir com certeza qual é o estado de outrem em razão de um
amor transbordante não só não é encontrada nem na razão nem na Escritura, mas
também é antibíblica, contrária às regras da Palavra de Deus, que nada diz a
respeito dessa suposta maneira de julgar o estado de outrem, mas, ao contrário,
orienta-nos para que julguemos principalmente pelos frutos. É contrária à
doutrina da Escritura, que nos ensina que o estado da alma das outras pessoas
diante de Deus não pode ser conhecido por nós, como em Apocalipse 2.17: “Ao
vencedor darei do maná escondido e uma pedra branca, na qual está escrito um
novo nome que ninguém conhece, a não ser aquele que o recebe”; e Romanos
2.29: “... judeu é quem o é no interior, e circuncisão é a do coração, realizada
pelo Espírito, não pela letra, cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus”.
Com a expressão “cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus”, o
apóstolo refere-se à insuficiência das pessoas para julgá-lo, se era ou não judeu
no seu íntimo (já que, pelas marcas externas, poderiam ver com facilidade se os
homens eram judeus); Paulo queria dizer que, nessa questão, só a Deus pertence
a palavra definitiva, o que se confirma pelo modo como ele mesmo usa a
expressão em 1Coríntios 4.5: “Portanto, nada julgueis antes do tempo, até que
venha o Senhor, o qual não só trará à luz as coisas ocultas das trevas, mas
também manifestará os motivos dos corações”; e então todos deverão louvar a
Deus. Nos dois versículos anteriores, o apóstolo diz: “... pouco me importa se
sou julgado por vós, ou por qualquer tribunal humano; de fato, nem eu julgo a
mim mesmo. Pois, embora eu esteja consciente de que não há nada contra mim,
nem por isso me justifico, pois quem me julga é o Senhor”. A intenção do
apóstolo é confirmada pelo fato de que, nesse segundo capítulo da Carta aos
Romanos, ele se dirige diretamente a alguns que tinham um elevado conceito da
própria santidade, vangloriavam-se em Deus, confiavam no próprio
discernimento e supunham conhecer a vontade de Deus, aprovar as coisas
excelentes e pôr à prova as estranhas (conforme consta na margem) (Rm 2.18),
convencidos de serem guias de cegos, luz dos que estão nas trevas, instrutores de
ignorantes, mestres de crianças, pelo que se arrogavam o direito de julgar os
outros. Veja Romanos 2.1,17,18.
Ademais, quão arrogante é a noção dos que imaginam conhecer com certeza
a condição da piedade dos outros quando o grande apóstolo Pedro nada disse
acerca de Silvano senão que era um irmão fiel, segundo ele supunha (1Pe 5.12).
Não obstante, esse Silvano parece ter sido um eminente ministro de Cristo,
evangelista e célebre luz na igreja de Deus daqueles tempos, além de íntimo
companheiro dos apóstolos. Vejam-se 2Coríntios 1.19, 1Tessalonicenses 1.1 e
2Tessalonicenses 1.1.


1 O sr. Stoddard observa que as afeições comuns às vezes são mais fortes que as salvíficas (Solomon
Stoddard, A guide to Christ [Boston, 1735, 1. ed., 1714], p. 2).
2 Efésios 3.7.
3 2Timóteo 1.7.
4 Efésios 3.7,20.
5 Salmos 119.120; Esdras 9.4; Isaías 66.2,5; Habacuque 3.16.
6 Romanos 8.26.
7 Cântico dos Cânticos, 2.5; 5.8.
8 Salmos 84.2.
9 Salmos 38.10; 42.1; 119.131.
10 Salmos 84.2; 119.81.
11 O sr. Shepard, famoso teólogo empírico, diz: “A trombeta do fariseu será ouvida até as fronteiras
da cidade, ao passo que a simplicidade caminha pela cidade sem ser vista. É assim que um homem às vezes
irá enaltecer indiretamente a si mesmo (e “eu mesmo” será sempre o tópico de sua conversa) contando-nos
uma longa história sobre a sua conversão; e aposto cem contra um que pelo menos uma mentira se imiscuirá
em seu relato. O sentido secreto disso tudo não é outro senão ‘admira-me’. No mesmo sentido caminham as
queixas sobre as próprias imperfeições e fraquezas: ‘vê como meu coração cristão está alquebrado’”
(Thomas Shepard, The Parable of the Ten Virgins [London, 1695, 1. ed., 1660], parte I, p. 179-80).
E o santo sr. Flavel diz: “Ó leitor, se teu coração tivesse Deus em justa conta e não fraudasses a ti
mesmo com uma profissão vã, terias com Deus um trato frequente, acerca do qual mostrar-te-ias
pouquíssimo disposto a abrir-te em comentários com teu melhor amigo ou com a esposa do teu coração.
Non est religio, ubi omnia patent. A religião não se abre para todos, perante os olhos dos homens. Os
deveres cumpridos à frente de todos mantêm nossa reputação, mas os deveres secretos conservam-nos a
vida. Acerca de sua correspondência secreta com um amigo, disse um pagão: 'Que necessidade tem o
mundo de familiarizar-se com ela? Tu e eu somos público suficiente um para o outro’. Há prazeres secretos
na religião que não são compreendidos sensivelmente senão pelas almas renovadas e espirituais” (John
Flavel, Touchstone of sincerity [London, 1679], cap. 2, seção 2).
12 Efésios 1.17-20.
13 1Coríntios 1.27-29.
14 Isaías 2.11-17.
15 2Coríntios 4.7.
16 2Coríntios 12.9.
17 Juízes 7.2.
18 O sr. Stoddard, em seu A guide to Christ, diz que é coisa comum para as pessoas em seu estado
natural, antes ainda de terem verdadeiramente aceitado a Cristo, que recebam em sua mente promessas da
Escritura e sintam, em razão disso, grande refrigério. Tomam-nas como sinais do amor de Deus e alimentam
a esperança de que Deus as tenha acolhido; por isso, passam a crer com certeza que se encontram num
estado positivo (p. 8-9).
19 Nesse sentido, o sr. Stoddard observa em A guide to Christ que alguns pecadores sentem aflições
de afeição e relatam encontrar dentro de si um espírito de amor a Deus e de desejo da glória de Deus, tendo
portanto algo que muito se assemelha à graça salvadora; mas muitas vezes, no entanto, suas afeições são
mais fortes do que as afeições de salvação. O mesmo autor chega a supor que, às vezes, os homens naturais
podem ter tamanhos sentimentos de falsas afeições por Deus que podem considerar-se dispostos a ser
condenados (p. 21, 65).
20 “A permanência na companhia de homens piedosos não significa que um homem tenha a graça:
Aitofel foi companheiro de Davi. O sofrimento pelas aflições da igreja e o desejo da conversão das almas
tampouco são provas. Essas coisas se encontram igualmente em homens carnais, de modo que não são
prova alguma da presença da graça” (Solomon Stoddard, Nature of saving conversion [Boston, 1719], p.
82).
21 O sr. Shepard fala de homens “desalentados até a morte em razão do sofrimento, abatidos sob
pesadas correntes, tremendo apreensivos diante do terror futuro e, em seguida, enlevados até o céu em sua
alegria, incapazes de continuar vivos — e, mesmo assim, ainda apegados à luxúria [...] tais são agora
objetos de piedade e provavelmente serão objetos de terror no grande dia” (Parable, parte I, p. 125).
22 “O modo de operação do Espírito, quando convence os homens, consiste na iluminação da
consciência natural. O Espírito não opera dando testemunho, mas assistindo a consciência natural no seu
trabalho. A consciência natural é o instrumento de que Deus se vale para acusar, condenar, aterrar e chamar
ao dever. O Espírito de Deus leva os homens a considerar o perigo em que estão e produz neles um afeto em
razão disso. Provérbios 20.27: 'O espírito do homem é a lâmpada do SENHOR; ela esquadrinha
completamente o mais íntimo do coração’” (Stoddard, A guide to Christ, p. 44).
23 O famoso sr. Perkins distingue entre os sofrimentos decorrentes da convicção da consciência e as
paixões melancólicas que nascem de meras imaginações fortemente concebidas no cérebro, paixões que,
segundo ele, “geralmente sobrevêm de súbito, como um raio sobre uma casa”.
24 O venerável Stoddard observa: “Um homem dirá que agora é capaz de ver a justiça do modo
como Deus o trata, seja como for, e que Deus não se desvia da sua justiça; e alguns homens justificam a
Deus a partir de uma convicção parcial da justiça da sua condenação. A consciência percebe sua
pecaminosidade e lhes diz que, se eles forem condenados, isso será justo. É o caso do faraó, que deu razão a
Deus em Êxodo 9.27. Tais homens consentem com essa ideia, mas muitas vezes não lhe dão sequência.
Sofrem uma dor temporária, que geralmente se amortece depois de um pouco de tempo” (A guide to Christ,
p. 71).
25 O sr. Stoddard, que teve muita experiência de coisas dessa natureza, há muito observou que não
se podem distinguir com certeza os convertidos dos não convertidos com base no relato que fazem de suas
experiências. A mesma relação de experiências é comum a ambos, e muitas pessoas que fizeram belos
relatos da obra de sua conversão portaram-se bem aos olhos do mundo durante vários anos, mas, no fim,
malograram na fé (An appeal to the learned [Boston, 1709], p. 75-6).
26 O sr. Shepard, falando sobre a adesão da alma a Cristo, diz: “Assim como a criança não sabe
dizer como nem quando sua alma entrou nela, mas, depois, vê e sente essa vida, a tal ponto que teria de ser
má como um animal para ter coragem de negar sua alma imortal, assim também acontece neste caso”
(Parable, parte II, p. 171).
“Se o homem não conhece o momento da sua conversão ou da sua primeira adesão a Cristo, o
ministro não deve tirar daí a conclusão peremptória de que ele não seja de Deus” (Stoddard, A guide to
Christ, p. 83).
“Não penses que não haja contrição, nem sentido de pecado instilado na alma, pelo simples fato de
não conseguires vê-los e discerni-los ou de não saberes em que momento se operaram e iniciaram. Conheci
muitos que vieram se queixar de que jamais se haviam humilhado e nunca haviam sentido tal coisa, mas em
quem tal humilhação efetivamente se operara; hoje, olhando com outros olhos, eles a viram muitas vezes,
pelo que seja Deus bendito” (Thomas Shepard, The sound believer [Boston, 1742], p. 38).
27 “Ó tu que professas a fé, examina cuidadosamente teus fundamentos; não sejas arrogante, mas
teme. Talvez tenhas feito e sofrido muitas coisas na religião e por ela; talvez tenhas excelentes dons e
consolações, zelo ardente por Deus e alta confiança em tua integridade; por tudo quanto sei (ou tudo quanto
sabes tu), tudo isso pode ser verdade; mas também é possível que seja falso. Talvez te hajas julgado e te
hajas considerado inocente; lembra-te, porém, que a sentença final ainda não foi pronunciada por teu Juiz. E
se Deus vier a pesar-te novamente em sua balança de precisão e vier a dizer: Mene, Tequel — foste pesado
na balança e foste achado em falta? Como serás confundido sob tal sentença! Quae splendent in conspectu
hominis, sordent in conspectu judicis: coisas que os homens consideram preciosas são abomináveis à vista
de Deus, pois ele não vê como os homens veem. Teu coração talvez seja falso sem que o saibas; talvez seja
falso conquanto tenhas forte confiança em sua integridade” (Flavel, Touchstone of sincerity, cap. 2, seção 5,
p. 34-5).
28 “Acaso a obra da fé em alguns crentes ostenta em seus ramos superiores os frutos maduros de
uma bem-aventurada certeza e segurança? Eis que a forte confiança e a elevada convicção de participação
em Deus se encontram às vezes em almas não santificadas. A falsa segurança pode ser tão forte que elas se
afirmam prontas a defendê-la perante o tribunal de Deus. Acaso o Espírito de Deus enche de alegria
indizível e cheia de glória o coração do crente seguro, dando-lhe, por meio da fé, uma prelibação ou
antegosto do próprio Paraíso em suas primícias? Como se aproxima disso aquilo que, segundo o apóstolo,
pode se encontrar nos apóstatas!” (John Flavel, Husbandry spiritualized [3. ed., London, 1674; 1. ed.,
1669], p. 110). Também The whole works of Mr. John Flavel (Edinburgh, 1731), vol. 2, p. 653, 2 vols.
29 O sr. Shepard a identifica como uma paz presunçosa, que não é interrompida nem abalada pelas
más obras. Diz ainda que o espírito suspirará, em vez de cantar, num peito em que grassam as paixões e
disposições corruptas; e que, embora os homens nesse estado, a pretexto de confiança na misericórdia do
Senhor, deem a impressão de conservar a consolação do Espírito e de não suspeitar da própria hipocrisia,
não poderão evitar a condenação da Palavra (Parable, parte I, p. 139).
O dr. Ames aponta, como elemento pelo qual se pode distinguir entre a paz de um ímpio e a paz de
um homem piedoso, “que a paz do ímpio permanece quer ele cumpra com os deveres da piedade e da
justiça, quer não, desde que evite os crimes que pareçam horrendos aos olhos da própria natureza” (William
Ames, Conscience with the power and cases thereof [ed. em latim, 1631; 1. ed. em inglês, London, 1643],
livro III, cap. 7, p. 62-3).
30 “Não é pelo simples fato de se crerem piedosos que os homens adquirem a certeza de serem
piedosos. Muitas coisas sabemos pela fé, como em Hebreus 11.3: 'Pela fé, entendemos que o universo foi
criado pela palavra de Deus’; a fé é a prova das coisas que não se veem, Hebreus 11.1. É assim que os
homens conhecem a trindade de pessoas da Divindade; que Jesus Cristo é o Filho de Deus; que aquele que
nele crê terá a vida eterna; e a ressurreição dos mortos. E, caso Deus diga a um santo que este tem a graça,
ele talvez o saiba pela crença na Palavra de Deus. Porém, não é assim que os piedosos sabem que têm a
graça. Isso não foi revelado na Palavra, e o Espírito de Deus não dá esse testemunho com respeito a pessoas
particulares” (Stoddard, Treatise, p. 83-4).
31 “Os homens podem ter o conhecimento da sua própria conversão, mas o conhecimento que
outras pessoas têm dela é incerto, pois ninguém é capaz de esquadrinhar o coração de outrem e divisar ali as
operações da graça” (Stoddard, Treatise, p. 78).
32 O sr. Stoddard observa que todos os sinais visíveis — entre eles, o relato de determinadas
experiências — são comuns aos convertidos e aos não convertidos (Appeal to the learned, p. 75).
“Como é difícil ao olhar do homem discernir entre o joio e o trigo! Quantos corações justos, ora
censurados, serão inocentados por Deus! E quantos corações falsos, ora aprovados, serão então condenados!
Os homens, de ordinário, não têm acesso a provas conclusivas, mas somente a sintomas prováveis, que
produzem, na melhor das hipóteses, um conhecimento conjectural acerca do estado de outrem. Aqueles que
julgam peremptoriamente, quer num sentido, quer noutro, podem prejudicar injustamente a geração do justo
ou, alternativamente, absolver e justificar o ímpio. Em verdade, considerando-se o quanto já se disse, não
admira que perigosos erros sejam cometidos com tanta frequência nesta matéria” (John Flavel, Husbandry
spiritualized, p. 111). Também The whole works of Mr. John Flavel, vol. 2, p. 653.
33 “Não vos espantei se virdes grandes cedros caírem por terra, estrelas tombarem dos céus, cristãos
eminentes corromperem-se até a morte. Não penseis que eram o que pareciam ser nem chegueis à conclusão
de que os eleitos cairão. É bem verdade que alguns são tais que, quando caem, chegamos quase a pensar
que um homem verdadeiramente santificado possa cair, como creem os arminianos. Lede, porém, 1João
2.19: 'não eram dos nossos’. Digo isto porque o Senhor faz tremer a terra e grandes apostasias se
produzirão; pois Deus está provando todos os seus amigos em todo o mundo cristão. Como era grande a
profissão da fé na Alemanha! Quem poderia imaginá-lo? O Senhor, a quem apraz manifestar abertamente o
que estava oculto, envia sua espada e eles caem” (Shepard, Parable, parte I, p. 117-8).
“Pode ser que os santos te aprovem e Deus te condene, como em Apocalipse 3.1: ‘Tens fama de
estar vivo, mas estás morto’. Os homens dizem: ‘Eis ali um verdadeiro Natanael’; mas Deus não vê ali
senão um fariseu que engana a si mesmo. Leitor, ouviste falar de Judas, Demas, Ananias e Safira, Himeneu
e Fileto, todos os quais foram grandes e famosos professadores da fé; e ouviste falar de qual foi o fim de
cada um deles” (Flavel, Touchstone, cap. 2, seção 5, p. 35).
34 Um tempo de derramamento do Espírito de Deus, de avivamento da religião e de produção das
agradáveis aparências da religião nos novos convertidos é comparado na Escritura à estação da primavera,
quando as influências benignas dos céus fazem com que as plantas produzam flores (Ct 2.11,12).
35 Flavel, Husbandry spiritualized, p. 109. Também The whole works of Mr. John Flavel, vol. 2, p.
652.
TERCEIRA PARTE
Apresentam-se os sinais característicos das
afeições genuinamente santas e cheias da graça

C omeço agora a abordar o segundo elemento pertinente ao julgamento das


afeições religiosas, a saber, passo a dar atenção a alguns aspectos em que
as afeições espirituais e cheias da graça diferem das que não têm essa natureza.
Porém, antes de seguir diretamente para as características distintivas, devo
primeiro mencionar alguns pontos concernentes às marcas que vou especificar e
que desejo sejam observadas.

1. Longe estou de pretender que as marcas de afeições da graça aqui


apresentadas sejam suficientes para permitir a qualquer pessoa distinguir nos
outros as afeições verdadeiras das falsas, ou determinar categoricamente quais
dentre seus conhecidos professam a fé com sinceridade e quais são hipócritas. Se
fizesse isso, eu seria culpado da arrogância que tenho condenado. Embora esteja
bem claro que Cristo outorgou a todos os cristãos normas que lhes permitem
julgar os professantes da religião que os preocupam, à medida que isso seja
necessário e até onde for preciso para sua segurança, e para impedir que sejam
enredados pelos falsos mestres e farsantes da religião; e ainda, embora as
Escrituras sem sombra de dúvida sejam repletas de preceitos muito úteis para os
ministros aconselharem e orientarem as almas sob seus cuidados nos aspectos
relativos ao estado espiritual e eterno, apesar de tudo isso, é claro também que
Deus jamais pretendeu nos dar nenhuma norma mediante a qual soubéssemos ao
certo quais dentre nossos companheiros professos lhe pertencem, nem
fizéssemos distinção plena e clara entre ovelhas e bodes; antes, pelo contrário, o
desígnio de Deus foi reservar esse julgamento como sua prerrogativa. Portanto,
antes do fim dos tempos jamais se devem esperar tais marcas distintivas que
permitam aos cristãos ou seus ministros fazer essa distinção, pois nunca se deve
contar com nada além dos sinais que Cristo lhes atribuiu e que devem ser
encontrados na Palavra de Deus ou dela coligidos.

2. Não se espere que tais marcas sejam suficientes para permitir a esses
santos discernir com certeza sua própria situação das circunstâncias daqueles
carentes da graça ou há muito afastados de Deus e prostrados num estado de
espírito mortal, carnal e nada cristão. Não é conveniente para o plano de Deus
(como já se observou) que esses conheçam sua própria situação espiritual nem é
desejável que conheçam; antes, pelo contrário, em todos os sentidos é melhor
que não saibam. Devemos bendizer a Deus por não ter feito provisão alguma
para que saibam precisamente o estado em que se acham, a não ser primeiro
abandonar a má disposição e o mau caminho onde estão.
Com efeito, não é propriamente pela ausência de sinais na Palavra de Deus
que todos os santos vivos — fortes ou fracos —, os que estão em mau estado de
espírito, e os demais, não podem saber com clareza o seu estado de espírito.
Porque as regras em si são precisas e infalíveis, e todo santo tem ou teve em si
essas coisas, que são provas seguras da graça, pois todo ato da graça é assim, até
o menor deles. Mas os sinais são dados mediante a carência de cada um. O santo
carente da graça e ânimo espiritual tem dupla privação, a qual o impede de saber
ao certo se desfruta a graça verdadeira mediante os melhores sinais e regras que
lhe podem ser concedidos. Em primeiro lugar, ausência do objeto, ou do
requisito a ser observado e examinado. Não falo de nenhuma carência essencial,
pois suponho que a pessoa seja de fato um santo, mas de um grau de carência. Se
a graça for muito pequena, não poderá ser identificada e distinguida com nitidez
e certeza. Não conseguimos identificar claramente a forma das coisas muito
pequenas nem as distinguir umas das outras, embora possam ter em si formas
bem diferentes. Sem dúvida há uma grande diferença entre o corpo humano e o
corpo de outros animais já na concepção no ventre. No entanto, se víssemos os
diferentes embriões, talvez não nos fosse possível identificar a diferença por
causa do estado imperfeito do ser. Porém, quando este atinge maior perfeição, a
diferença torna-se óbvia. A diferença entre criaturas de características muito
contrárias, mesmo depois de nascidos tais seres, não pode ser tão bem percebida
nos filhotes muito novinhos quanto se percebe no estado de maior perfeição da
criatura. A diferença entre pombas e corvos, ou entre pombas e abutres, logo que
saem do ovo não é tão evidente. Contudo, à medida que crescem e vão chegando
à plenitude de sua forma, as diferenças passam a ser muito grandes e patentes.
Outra carência na graça daqueles de quem estou falando é ela estar misturada
com tanta corrupção, que a obscurece e esconde e a impede de ser conhecida
plenamente. Ainda que tenhamos diante de nós coisas diferentes, com inúmeras
marcas que as distinguem completamente umas das outras, se só as virmos
envoltas em espessa fumaça, será impossível diferençá-las. É fácil distinguir
entre uma estrela fixa e um cometa no céu desanuviado, contudo, se os
observarmos através de uma nuvem, talvez seja impossível notar a diferença.
Quando o cristão genuíno não está em bom estado espiritual, a culpa jaz em sua
consciência, o que lhe causa medo e assim o impede de fruir a paz e a alegria da
esperança inabalável.
Em segundo lugar, existe, nesse caso, uma deficiência no olhar de quem vê.
Assim como a tibieza da graça e o predomínio da corrupção obscurecem o
objeto, esses dois fatos também enfraquecem a visão, toldam-na para todos os
objetos espirituais, entre eles a graça. O pecado assemelha-se a algumas
enfermidades dos olhos que fazem as coisas parecerem ter cores diferentes das
que as caracterizam e, como várias outras moléstias, essa faz a boca perder o
paladar a ponto de não distinguir entre comida saudável e estragada, mas faz
tudo ter sabor amargo. Os sentidos espirituais das pessoas corrompidas e carnais
estão em péssima condição para julgar e distinguir as coisas espirituais.
Por tudo isso, nenhum sinal que se dê satisfará efetivamente as pessoas nessa
situação; os sinais dados jamais serão bons e infalíveis, e mesmo claramente
expostos não lhes servirão. É como ensinar uma pessoa a distinguir objetos
visíveis no escuro: os objetos em si podem ser muito diferentes, diferença que
pode ser muito bem e claramente descrita para ela, mas ainda assim nada é
suficiente para capacitá-la a distinguir esses objetos, porque ela está no escuro.
Por conseguinte, muitos nessa situação perdem tempo num trabalho infrutífero,
debruçados sobre experiências passadas e se autoavaliando pelos sinais que
ouviram da exposição do púlpito ou leram em alguns livros. No entanto, há outro
trabalho para cumprirem, muito mais esperado dessas pessoas e por elas
negligenciado, mas todos os seus autoexames provavelmente serão inúteis, como
se neles nunca devessem ter empregado tanto tempo. A coisa amaldiçoada deve
ser eliminada de seu acampamento, e Acã deve ser morto; enquanto isso não for
feito, eles estarão em apuros. Não é plano de Deus que as pessoas obtenham
segurança de outro modo senão mortificando a perversão, crescendo na graça e
dela alcançando as práticas vivas. Apesar de ser um dever importante, muito útil
e que não se deve negligenciar de jeito nenhum, o autoexame não é o principal
meio por que os santos tomam conhecimento de sua boa condição espiritual.
Essa convicção deve ser obtida não tanto pelo autoexame mas, sim, pela ação. O
apóstolo Paulo procurava certeza desse modo, acima de tudo, até esquecendo-se
“das coisas que ficam para trás e avançando para as que estão adiante”,
prosseguindo “para o alvo, pelo prêmio do chamado celestial de Deus em Cristo
Jesus”, “para ver se de algum modo consigo chegar à ressurreição dos mortos”
(Fp 3.13,14). E foi sobretudo por esse meio que ele obteve a certeza: “Portanto,
corro não como quem não tem alvo” (1Co 9.26). Ele obteve a garantia de ganhar
o prêmio mais por correr do que por refletir sobre o assunto. A celeridade de
seus passos fez mais pela sua certeza da vitória do que o rigor de seu autoexame.
Aplicar toda a diligência para crescer em graça, acrescentando virtude à fé (2Pe
1.5) — é a instrução que o apóstolo Pedro nos dá para “fazer firme” a nossa
“vocação e eleição [...] pois assim” nos “será dada largamente a entrada no reino
eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo”, indicando-nos que sem isso a
nossa visão será obscurecida e seremos como homens em meio às trevas,
incapazes de enxergar claramente as coisas passadas e as futuras: seja o perdão
de nossos pecados passados, seja a nossa herança celestial futura e distante (2Pe
1.4-11).1
Destarte, embora as boas regras para distinguir a graça verdadeira da falsa
possam em geral convencer os hipócritas e ser em muitos aspectos mui
proveitosas para os santos, e entre outros benefícios lhes serem muito úteis para
acabar com inquietações desnecessárias e lhes fortalecer a esperança, longe de
mim, porém, estabelecer regra alguma desse tipo, como se, sem nenhum outro
meio, fossem por si suficientes para capacitar todos os santos verdadeiros a
enxergar a boa condição de sua alma; também estou longe de supor que elas
sejam o meio principal para que fiquem satisfeitos.

3. Tampouco existe muito incentivo, nem nos dias de hoje nem em tempos
passados, para se estabelecerem regras ou marcas para distinguir entre afeições
genuínas e falsas com esperança de convencer um número considerável dessa
categoria de hipócritas, os quais foram ludibriados por magníficas descobertas e
afeições falsas e há muito tempo estão firmados numa falsa confiança e na alta
presunção de suas pretensas experiências extraordinárias e seus privilégios.
Esses hipócritas são tão convencidos e orgulhosos da própria sabedoria, tão
cegos e endurecidos pela desmedida confiança em sua justiça própria (muito
sutil e discreta, disfarçada de muita humildade) e de tão inquebrantável apego à
agradável presunção de sua própria extraordinária exaltação que, apresentar-lhes
as provas mais convincentes de sua hipocrisia, em geral, não significa
absolutamente nada. O estado deles é deveras deplorável, ao lado daqueles que
cometeram o pecado imperdoável. Ao que parece, algumas pessoas desse tipo
estão muito fora do alcance de meios de convicção de pecados e do
arrependimento. No entanto, o estabelecimento de boas regras pode ser um meio
de frustrar esses hipócritas e de convencer muitos outros tipos de hipócritas; e
Deus pode convencer até esses, sua graça não tem limite, tampouco nenhum
recurso deve ser ignorado. Ademais, essas regras podem ser úteis para os santos
verdadeiros detectarem as afeições falsas que porventura tenham confundido
com as genuínas e, quem sabe, sejam um meio de tornar mais pura sua religião,
como o ouro provado pelo fogo.
Havendo estabelecido essas premissas, prossigo, dando especial atenção às
coisas que distinguem as afeições religiosas genuínas das falsas.

I. As afeições verdadeiramente espirituais e cheias da graça


nascem das influências e operações espirituais,
sobrenaturais e divinas no coração
Explico o que quero dizer com esses termos cujo emprego serve para distinguir
entre as afeições espirituais e as não espirituais.
Descobrimos que os santos genuínos, ou as pessoas santificadas pelo
Espírito de Deus, são classificados no Novo Testamento como pessoas
espirituais. Serem espirituais é uma referência a seu caráter peculiar, que as
distingue dos não santificados. Isso é evidente porque o homem espiritual é
contraposto ao homem natural, o homem carnal. Dessarte, o homem espiritual e
o homem natural são postos em oposição um ao outro: “O homem natural não
aceita as coisas do Espírito de Deus, pois lhe são absurdas; e não pode entendê-
las, pois se compreendem espiritualmente. Mas aquele que é espiritual
compreende todas as coisas” (1Co 2.14,15). A própria Escritura explica que o
homem natural é o ímpio, o homem falto da graça. Por isso, o apóstolo Judas,
referindo-se em sua epístola (v. 4) a certos homens malignos que se haviam
infiltrado entre os santos, denuncia no versículo 19 (ARA): “São estes os que
promovem divisões, sensuais, que não têm o Espírito”. Esse é o motivo que o
apóstolo dá para a conduta maligna desses infiltrados, conforme mencionara.
Aqui a palavra traduzida por sensual, no original ψυχικοι [psychikoi], é a mesma
que em 1Coríntios 2 se traduz por “natural”. De modo semelhante, na
continuação do mesmo discurso, no capítulo seguinte, o homem espiritual se
opõe ao carnal, correlação que mostra claramente ter o mesmo sentido que a
oposição entre o homem espiritual e o homem natural nos versículos
precedentes: “Irmãos, não vos pude falar como a pessoas espirituais, mas como a
pessoas carnais” [3.1], ou seja, como a pessoas em grande medida não
santificadas. Está sobejamente claro que, com carnal, o apóstolo quer dizer
corrompido e profano — como em Romanos 7.25 e 8.1,4,5,6,7,8,9,19,13;
Gálatas 5.16ss.; e Colossenses 2.18. Agora, pois, se com “natural” e “carnal”
nesses textos se pretende dizer “não santificado”, então, sem dúvida alguma,
“espiritual”, que é o oposto disso, quer dizer “santificado” e “cheio da graça”.
Assim como na Escritura os santos são chamados de espirituais, nós
descobrimos também que certas propriedades, qualidades e princípios recebem o
mesmo qualificativo. Por isso lemos acerca da “mente espiritual” (Rm 8.6,7), da
“sabedoria espiritual” (Cl 1.9) e da “bênção espiritual” (Ef 1.3).
Agora, pode-se observar que esses e outros textos paralelos do Novo
Testamento absolutamente não empregam o qualificativo “espiritual” para
designar relação de pessoas ou coisas com o espírito ou alma do homem,
considerado como a parte espiritual do homem, em oposição ao corpo, sua parte
material. As qualidades não são chamadas de espirituais porque têm sua sede na
alma, não no corpo, pois há propriedades que a Escritura chama de “sensuais” ou
“carnais”, cuja sede também é a alma, assim como as propriedades chamadas de
“espirituais”. É o que ocorre com “soberba” e “superioridade moral”, e com a
confiança do indivíduo em sua própria sabedoria, a que o apóstolo chama de
“carnal” (Cl 2.18). Tampouco as coisas são chamadas de espirituais porque têm
relação com o imaterial, e não com o corpóreo. Assim, pois, relativamente a
espíritos e seres imateriais, esta era a sabedoria dos sábios e príncipes deste
mundo, aos quais o apóstolo se refere como homens naturais, totalmente
ignorantes das coisas espirituais (1Co 2). Contudo, é em relação ao Espírito
Santo, ou Espírito de Deus, que pessoas e coisas são denominadas espirituais no
Novo Testamento. Nas Sagradas Escrituras, a palavra “Espírito”, quando
empregada para designar a terceira pessoa da Trindade, é o substantivo do qual
deriva o adjetivo “espiritual”. Os cristãos, portanto, são chamados espirituais
porque são nascidos do Espírito e por causa da habitação e das santas influências
do Espírito Santo nelas. Coisas são chamadas espirituais quando relacionadas ao
Espírito de Deus: “Falamos dessas coisas, não com palavras ensinadas pela
sabedoria humana, mas com palavras ensinadas pelo Espírito Santo, comparando
coisas espirituais com espirituais. O homem natural não aceita as coisas do
Espírito de Deus” (1Co 2.13,14). Aqui, o apóstolo afirma expressamente que,
com “coisas espirituais”, refere-se às coisas do Espírito de Deus e às coisas que
o Espírito Santo ensina. A mesma ideia é ainda muito mais explícita quando se
examina todo o contexto. Uma vez mais, em Romanos 8.6: “A mentalidade da
carne é morte; mas a mentalidade do Espírito é vida e paz”. Paulo explica o que
quer dizer com “mentalidade da carne e mentalidade do Espírito” no versículo 9
e mostra que ter mentalidade espiritual significa ter no coração as santas
influências e a habitação do Espírito de Deus: “Vós, porém, não estais sob o
domínio da carne, mas do Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós.
(Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo, não pertence a Cristo)”. Em todo o
contexto, a mesma coisa é evidente, mas nos falta tempo para apresentar todas as
provas disso no Novo Testamento.
É preciso observar aqui que, apesar de ser relativamente ao Espírito de Deus
que pessoas e coisas são denominadas espirituais, nem todos os que estão
sujeitos a algum tipo de influência do Espírito de Deus são normalmente
chamados de espirituais no Novo Testamento. Os que têm apenas as influências
comuns do Espírito de Deus não são chamados espirituais nas referências citadas
acima, mas somente os que têm as influências especiais, cheias da graça e
salvíficas do Espírito de Deus. Isso é evidente porque, como já se provou,
“homens espirituais” significa homens piedosos, em oposição a “homens
naturais, carnais e faltos de santificação”. Ademais, está muito claro que, para o
apóstolo, “ter a mentalidade do Espírito”, em Romanos 8.6, significa “ter a
mentalidade da graça”. Além disso, os dons extraordinários do Espírito, os quais
o homem natural pode ter, são às vezes chamados de espirituais, pois procedem
do Espírito. No entanto, quaisquer que tenham sido os dons do Espírito que os
homens naturais tiveram, não foram chamados de espirituais na linguagem usual
do Novo Testamento, pois não foi por terem os dons do Espírito, mas, sim, por
terem as virtudes do Espírito, que foram chamados espirituais. Conforme é
evidente em Gálatas 6.1: “Irmãos, se alguém for surpreendido em algum pecado,
vós, que sois espirituais, deveis restaurar essa pessoa com espírito de
humildade”. Humildade é uma das virtudes de que o apóstolo acabara de falar
nos versículos anteriores, mostrando quais são os frutos do Espírito. As
qualidades deveras santas, cheias da graça e típicas dos santos são chamadas de
espirituais no vocabulário do Novo Testamento.
Por isso, quando lemos acerca da sabedoria e do entendimento espirituais
(como em Colossenses 1.9: “Não cessamos de orar por vós e de pedir que sejais
cheios do pleno conhecimento da sua vontade, em toda sabedoria e entendimento
espiritual”) no Novo Testamento, devemos entender tratar-se da sabedoria cheia
da graça e procedente das influências santificadoras do Espírito de Deus. Porque,
sem dúvida, com “sabedoria espiritual” se quer dizer tudo quanto se opõe ao que
a Escritura chama de sabedoria natural, assim como o homem espiritual se opõe
ao homem natural. Portanto, não há dúvida, a sabedoria espiritual é a mesma
sabedoria que vem do alto, acerca da qual fala o apóstolo Tiago: “A sabedoria
que vem do alto é, em primeiro lugar, pura, depois pacífica, moderada”, entre
outros atributos (3.17), pois o apóstolo a contrapõe à sabedoria natural: “Essa
não é a sabedoria que vem do alto, mas é terrena, animal...” (v. 15). No texto
original, essa última palavra é a mesma traduzida por “natural” em 1Coríntios
2.14.
Embora o homem natural possa estar sujeito a muitas influências do Espírito
de Deus — conforme evidenciam muitas passagens da Escritura, como Números
24.2, 1Samuel 10.10; 11.6 e 16.14; 1Coríntios 13.1-3; Hebreus 6.4-6, entre
outras —, no sentido bíblico ele não é espiritual; tampouco nenhum dos efeitos,
dons comuns, qualidades ou afeições decorrentes da influência do Espírito de
Deus sobre ele são chamados de espirituais. A grande diferença está nestes dois
argumentos:

1. O Espírito de Deus é concedido aos santos verdadeiros para neles habitar


como sua morada própria e permanente e influenciar-lhes o coração, como um
princípio da nova natureza ou de fonte divina e sobrenatural de vida e ação. A
Escritura diz que o Espírito Santo não somente move e, de vez em quando,
influencia os santos, mas também habita neles como seu templo, morada própria
e lugar perpétuo (1Co 3.16; 2Co 6.16; Jo 14.16,17). A Escritura afirma que o
Espírito está nessa morada tão unido às faculdades da alma que passa a ser aí um
princípio ou uma fonte de nova natureza e vida.
Por isso se diz que os santos vivem por Cristo, que neles vive (Gl 2.20). Por
intermédio de seu Espírito, Cristo não só está neles, mas também vive neles, para
que vivam mediante a vida de Cristo; o seu Espírito está de tal modo unido a eles
como princípio de vida dentro deles que esses santos não apenas bebem a água
viva, mas também “essa água viva se tornará” na alma deles um manancial ou
fonte de água “a jorrar para a vida” espiritual e “eterna” (Jo 4.14), sendo,
portanto, um princípio de vida no interior deles. O próprio evangelista explica
que essa água viva significa o Espírito de Deus (Jo 7.38,39). A luz do sol da
justiça não só brilha sobre eles, mas também lhes é comunicada para que brilhem
igualmente e se tornem pequenas imagens desse sol que sobre eles resplandece;
a seiva da videira verdadeira não só é transportada no interior deles como a seiva
de uma árvore é transportada no interior de um vaso, mas também circula como
a seiva que sai do tronco da árvore para um de seus galhos vivos, onde passa a
ser um princípio de vida. Uma vez que o Espírito de Deus é comunicado e unido
aos santos, estes passam a ser chamados espirituais.
Em contrapartida, conquanto influencie os homens naturais de muitas
maneiras, o Espírito de Deus não lhes é transmitido como princípio residente no
interior deles, por isso tais homens não podem receber dele nenhuma designação
nem qualificativo algum. Uma vez que não existe nenhuma união entre homens
naturais e o Espírito, este não lhes pertence. A luz pode brilhar sobre um objeto
muito escuro ou preto e iluminá-lo, contudo, porque ela não passa a ser nesse
objeto nenhum princípio luminoso que o faça brilhar, ele não pode receber
propriamente o nome desse princípio, isto é, não pode ser chamado de objeto
luminoso. Logo, se o Espírito de Deus somente agir sobre a alma, sem se
transmitir para o interior dessa alma como princípio nela atuante, ela não pode
ser chamada espiritual. Sobre um objeto que permanece preto pode-se afirmar
que não tem luz, embora esta brilhe sobre ele; por isso se diz que os homens
naturais “não têm o Espírito” (Jd 19), são “sensuais” ou “concupiscentes” (a
palavra é traduzida alhures por “natural”), por não terem o Espírito.

2. Outro motivo (o principal) por que os santos e suas virtudes são chamados
de espirituais é que, permanecendo na alma deles como princípio de vida, o
Espírito de Deus produz aí os efeitos com os quais se manifesta e se comunica
na sua própria natureza. Santidade é a natureza do Espírito de Deus, por isso a
Escritura o chama de Espírito Santo. A santidade é como se fora a beleza e o
dulçor da natureza divina; é a própria natureza do Espírito Santo, assim como o
calor é a natureza do fogo, ou como o perfume era a natureza do óleo da santa
unção — o tipo principal do Espírito de Deus na dispensação mosaica. Seria
melhor dizer que a santidade é a própria natureza do Espírito Santo assim como
o dulçor era a natureza do doce aroma daquela unção. O Espírito de Deus habita
no coração dos santos de modo tal que, no seu interior, como semente ou fonte
de vida, se manifesta e se comunica em sua natureza suave e divina,
transformando a alma em participante da beleza de Deus e da alegria de Cristo,
de modo que o santo desfruta comunhão verdadeira com o Pai e com seu Filho,
Jesus Cristo, tendo, portanto, a comunhão, ou a participação, do Espírito Santo.
A graça que está no coração dos santos é da mesma natureza da santidade
divina, até onde lhe é possível, mas em grau infinitamente menor — assim como
o brilho de um diamante sobre o qual fulgura o sol tem a mesma natureza do
brilho desse astro, mas de intensidade nula quando comparada à dele. Por isso
Cristo afirma em João 3.6: “... o que é nascido do Espírito é espírito”, isto é, a
graça gerada no coração dos santos é da mesma natureza do Espírito, por isso é
corretamente chamada natureza espiritual. Segundo esse princípio, o que nasce
da carne é carne e o que nasce da natureza corrompida é natureza corrompida.
Porém, o Espírito de Deus nunca influencia desse modo a mente do homem
natural. Embora possa influenciá-lo de muitas maneiras, ele jamais, em nenhuma
de suas influências, transfere-se para esse homem em sua natureza própria. Com
efeito, o Espírito nunca age em desacordo com a sua natureza, quer na mente dos
santos, quer na dos pecadores; mas o Espírito de Deus pode agir nos homens em
conformidade com a sua própria natureza sem manifestar sua natureza própria
nos atos e práticas da mente desses homens. O Espírito de Deus pode agir de tal
modo que seus atos sejam conformes à sua natureza e, ainda assim, não se
transmitir em sua natureza própria no efeito dessa ação. Assim, por exemplo, o
Espírito de Deus movia-se sobre a face das águas, e nisso não havia nada
contrário à sua natureza. Contudo, ainda assim, ele não comunicou nada de si
nessa ação, não havia nada da natureza própria do Espírito Santo no mover
dessas águas. Do mesmo modo, o Espírito Santo também pode agir na mente dos
homens de várias maneiras sem, contudo, transferir-se, assim como não se
transfere quando age nos seres inanimados.
Logo, não só o modo da relação do Espírito — o operador — com o objeto
de suas operações é diferente, uma vez que o Espírito opera nos santos
habitando-os como princípio de ação permanente, ao passo que não opera do
mesmo modo nos pecadores, mas a influência e a operação em si são diferentes,
e o efeito produzido é muito diverso. Assim, não só as pessoas são chamadas
espirituais, por terem o Espírito de Deus habitando-as, mas também as
qualidades, afeições e experiências nelas produzidas pelo Espírito são
igualmente espirituais; nisso são muito diferentes em natureza e espécie de tudo
aquilo a que o homem natural é ou pode ser sujeito enquanto permanece no
estado natural; e também são diferentes de tudo quanto homens ou demônios
podem ser autores. É uma obra espiritual no sentido elevado e, por isso, acima
de todas as outras obras, é peculiar ao Espírito de Deus. Não há obra mais
sublime e mais excelente, pois não há obra em que Deus mais se comunique e
em que a simples criatura participe de Deus em sentido tão sublime. Por isso a
Escritura registra o que dizem os santos, feitos “participantes da natureza divina”
(2Pe 1.4); em quem “Deus permanece”, e eles em Deus” (1Jo 4.12,15,16; 3.24);
têm Cristo neles (Jo 17.21; Rm 8.10); são “santuário do Deus vivo” (2Co 6.16);
vivem mediante a vida de Cristo (Gl 2.20), são feitos participantes da santidade
de Deus (Hb 12.10); têm o amor de Cristo permanente neles (Jo 17.26); “têm a
alegria de Cristo em plenitude” (Jo 17.13); veem a luz na luz de Deus e beberão
do rio das delícias de Deus (Sl 36.8,9); têm comunhão com o Pai e com seu
Filho Jesus Cristo, ou participação com ele (1Jo 1.3). Não que os santos venham
a ser participantes da essência de Deus e assim deificados com Deus e
cristificados com Cristo, de acordo com os termos abomináveis e blasfemos e as
noções de alguns hereges. Mas, empregando a expressão da Escritura, eles são
feitos participantes da plenitude de Deus (Ef 3.17-19; Jo 1.16), isto é, da beleza e
da felicidade espirituais de Deus, de acordo com a medida e a capacidade da
criatura, pois é esse o significado evidente da palavra “plenitude” no vocabulário
da Escritura. A graça no coração dos santos — sendo, portanto, a obra mais
gloriosa de Deus, pela qual ele comunica a bondade da sua natureza — é sem
dúvida a sua obra peculiar e está eminentemente acima do poder de todas as
criaturas. As influências do Espírito de Deus nisso são, pois, peculiares a Deus,
mediante as quais ele se transmite de maneira tão excelsa e torna a criatura
participante da natureza divina (o Espírito de Deus transmite-se em sua natureza
própria). É isso o que quero dizer quando falo das influências divinas e afirmo
que “as afeições verdadeiramente cheias da graça surgem das influências
espirituais e divinas”.
Apenas os santos verdadeiros têm o que é espiritual; os outros não têm nada
de divino, no sentido em que se disse aqui. Eles não somente não têm essa
comunicação do Espírito de Deus em tão elevado grau quanto os santos, mas
também não têm nada dessa natureza ou espécie. O apóstolo Tiago nos diz que o
homem natural não tem o Espírito, e Cristo adverte sobre a necessidade do novo
nascimento, ou de nascer do Espírito. Assim, aquele que é nascido da carne é
apenas carne e não espírito (Jo 3.6). Tais pessoas não têm dentro de si a
habitação do Espírito de Deus, pois o apóstolo [Paulo] ensina que todos quantos
têm a habitação do Espírito de Deus, esses tais lhe pertencem (Rm 8.9-11). Além
disso, a Escritura afirma que ter o Espírito de Deus é sinal seguro de vir a ter a
herança eterna, pois a Escritura também afirma que ele é o penhor do Espírito
(2Co 1.22; 5.5; Ef 1.14), e ter o Espírito é mencionado como sinal seguro de
estar em Cristo: “Assim, sabemos que permanecemos nele, e ele em nós, por ele
nos haver dado do seu Espírito” (1Jo 4.13). Os ímpios não só não têm o mesmo
tanto da natureza divina quanto os santos, mas também não são partícipes dela, o
que indica que eles nada têm dela. Ser participante da natureza divina é
mencionado na Escritura como o privilégio próprio dos santos autênticos (2Pe
1.4). Os ímpios não são “participantes da santidade de Deus” (Hb 12.10). O
homem natural não tem nenhuma experiência das coisas espirituais. O apóstolo
nos ensina que esse homem está tão longe delas que ignora tudo que lhes diz
respeito e é para elas um perfeito estranho. Para esse homem, falar dessas coisas
não tem sentido algum e é pura tolice; ele não sabe o que significam: “O homem
natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, pois lhe são absurdas; e não
pode entendê-las, pois se compreendem espiritualmente” (1Co 2.14). Com igual
propósito, Cristo ensina-nos que o mundo é completamente desconhecedor do
Espírito de Deus: “... o Espírito da verdade, o qual o mundo não pode receber,
porque não o vê nem o conhece” (Jo 14.17). É ainda mais evidente que o homem
natural não tem nada consigo da mesma natureza da verdadeira graça dos santos,
pois o apóstolo nos ensina que, dentre esses homens, os que mais se aprofundam
na religião não têm a caridade, ou o amor cristão genuíno (1Co 13). Em outra
passagem Cristo também repreende os fariseus — grandes presunçosos e
aspirantes a religiosos — porque não tinham neles o amor de Deus (Jo 5.42).
Logo, o homem natural não tem nenhuma comunhão, ou união, com Cristo nem
participação nele (visto que é esse o significado dessas palavras), pois essa
coparticipação é mencionada como privilégio peculiar dos santos (1Jo 1.3,6,7;
1Co 1.8,9). A Escritura também se refere à existência real de um princípio da
graça na alma, embora incipiente, parecido com uma semente aí plantada,
contrário ao ser pecador do homem (1Jo 3.9). O homem natural é representado
na Escritura como totalmente desprovido de luz e vida espirituais. É por isso que
a conversão é muitas vezes comparada ao abrir os olhos do cego, à ressurreição
dos mortos, à obra da criação (em que as criaturas são feitas inteiramente novas),
e ao tornar-se um recém-nascido.
Disso fica evidente que as influências da graça a que os santos estão sujeitos
e os efeitos do Espírito de Deus que eles experimentam são completamente
superiores ao natural e em tudo diferentes de qualquer coisa que os homens
encontrem dentro de si pela natureza ou apenas pela prática de princípios
naturais; jamais serão causadas no homem por aperfeiçoamento algum de suas
qualidades ou princípios naturais, por nenhum progresso ou intensificação desses
princípios a níveis mais elevados nem por nenhum tipo de combinação de tudo
isso, pois não é só em grau e circunstâncias que diferem do natural e de tudo
quanto o homem experimenta naturalmente, mas também em espécie elas são de
natureza bem superior. É isso que quero dizer com sobrenatural quando afirmo
que as afeições cheias da graça procedem dessas influências sobrenaturais.
Conclui-se daí que nessas ações e afeições da graça produzidas na mente dos
santos pelas influências salvadoras do Espírito de Deus existe no íntimo uma
nova percepção, ou sensação, de caráter e espécie absolutamente diferentes de
tudo a quanto a mente deles foi submetida antes de terem sido santificados.
Porque, sem dúvida, se Deus, por seu grande poder, produz algo novo não só em
grau e circunstância, mas em toda a sua natureza, algo que não podia ser
produzido por nenhuma exaltação, variação ou composição do que já havia,
tampouco por acréscimo de nada semelhante — quer dizer, se Deus produz algo
assim novo na mente humana, algo perceptivo, pensante e consciente, é
indubitável que algo totalmente novo também será sentido, percebido ou
pensado, ou que haverá na mente a sensação ou percepção de espécie totalmente
nova, impossível de ser produzida pela exaltação, variação ou composição das
percepções ou sensações já havidas pela mente; ou haverá o que alguns
metafísicos chamam de uma nova ideia simples. Se, no sentido há pouco
mencionado, a graça for um tipo de princípio inteiramente novo, as suas
atividades também são de tipo inteiramente novo. Se houver na alma uma nova
espécie de atividade de que ela tem consciência, sobre a qual nada sabia antes,
algo que não podia ser produzido por nenhum aprimoramento, composição ou
administração do que ela antes tinha consciência ou sabia, segue-se, portanto,
que a mente tem um tipo inteiramente novo de percepção ou sensação. E eis, por
assim dizer, uma nova faculdade espiritual da mente, ou o princípio de um novo
tipo de percepção, ou sensação espiritual, cuja natureza é totalmente diversa de
qualquer tipo anterior de sensação da mente, assim como o paladar é diferente
dos outros sentidos; e o santo verdadeiro percebe na ação dessa nova faculdade
da mente nas coisas espirituais e divinas algo totalmente distinto de tudo quanto
o homem natural pode perceber nelas, assim como o sabor doce do mel é
diferente das ideias que os homens têm do mel por observação e pressuposição.
De modo que as percepções espirituais da pessoa santificada e espiritual não são
apenas diferentes das percepções do homem natural como as ideias e percepções
do mesmo sentido podem diferir umas das outras, mas, sim, como as ideias e
sensações de sentidos diferentes de fato diferem. Por isso, a obra do Espírito de
Deus na regeneração é comparada amiúde com o dar um novo sentido, dar olhos
para ver e ouvidos para ouvir, desobstruir os ouvidos do surdo, com o abrir os
olhos dos cegos de nascença, o mudar das trevas para a luz, porque esse sentido
espiritual é grandiosamente o mais nobre e bem superior, sem o qual todos os
demais princípios de percepção e todas as nossas faculdades são inúteis e vãos.
Portanto, a concessão desse novo sentido, com seus benditos frutos e efeitos na
alma, é comparada à ressurreição dos mortos e à nova criação.
Esse novo sentido espiritual, e as novas disposições que lhe assistem, não
são novas faculdades, mas novos princípios da natureza. Emprego a palavra
“princípios” por falta de outra com significado mais preciso. Com a expressão
“princípio da natureza”, refiro-me aqui ao alicerce assentado na natureza, novo
ou velho, por qualquer modo ou tipo particular de exercício das faculdades da
alma; ou hábito natural, ou fundamento para a ação, que dê ao indivíduo
capacidade e disposição para aplicar as faculdades em ações de determinada
espécie, de modo que se pode considerar o exercício das faculdades nessa
espécie de ação como a natureza desse indivíduo. Por conseguinte, esse novo
sentido espiritual não é uma nova faculdade do entendimento, mas um novo
fundamento assentado na natureza da alma para um novo tipo de atividade da
mesma faculdade de entendimento. Assim, a nova e santa disposição do coração
que socorre esse novo sentido não é uma nova faculdade da vontade, mas um
fundamento assentado na natureza da alma para um novo tipo de atividade da
mesma faculdade volitiva.
O Espírito de Deus, em todas as suas operações na mente do homem natural,
limita-se a mover, impressionar, assistir, aperfeiçoar ou agir de alguma maneira
com base em princípios naturais, todavia sem lhes conceder nenhum novo
princípio espiritual. Portanto, quando o Espírito de Deus dá visões ao homem
natural, como fez a Balaão, ele apenas imprime um princípio natural, a saber, o
sentido da visão, que estimula de pronto as ideias desse sentido, sem, contudo,
conceder nenhum novo sentido; tampouco há nisso nada de sobrenatural,
espiritual ou divino. Logo, se o Espírito de Deus imprime na imaginação do
homem, quer em sonho, quer em estado de vigília, algumas ideias extrínsecas de
algum dos sentidos, quer sejam vozes, quer formas e cores, elas não passam de
ideias estimulantes do mesmo tipo que tal homem tem mediante os princípios e
sentidos naturais. Desse modo, se Deus revela a qualquer homem natural algum
fato secreto, como, por exemplo, algo que ele verá ou ouvirá em seguida, isso
não é infundir nem praticar nenhum princípio espiritual novo, tampouco é dar a
noção de nenhum sentido espiritual novo; é tão somente imprimir de modo
inusitado as ideias que serão recebidas em seguida mediante visão ou audição.
Portanto, nas influências mais comuns do Espírito de Deus no coração de
pecadores, ele apenas auxilia os princípios naturais a fazer em grau intensificado
a mesma obra que fazem por natureza. Dessarte, o Espírito de Deus pode assistir
mediante suas influências comuns a engenhosidade natural dos homens, assim
como auxiliou a Bezalel e Aoliabe nas obras surpreendentes do tabernáculo (Êx
36.1,2). Da mesma maneira, o Espírito pode auxiliar as capacidades naturais dos
homens nos assuntos políticos, e lhes aperfeiçoar a coragem e outras
competências naturais, visto que se diz que ele pôs o seu Espírito nos setenta
anciãos (Nm 11.25), e em Saul, com o propósito de dar-lhe outro coração (1Sm
10.10). Assim, pois, Deus pode socorrer grandemente o raciocínio do homem
natural quando este refletir acerca das coisas seculares ou das doutrinas da
religião, e pode fazer avançar em muitos aspectos a clareza de suas percepções e
noções das coisas da religião, sem lhes dar nenhum sentido espiritual. Por isso,
nos despertamentos e na convicção de pecados que o homem natural venha a ter,
Deus apenas ajuda a sua consciência, que é um princípio natural, a realizar esse
trabalho em profundidade bem maior do que a do princípio natural. A
consciência dá naturalmente ao homem entendimento do que é certo e errado e
dá uma ideia da relação entre o certo e o errado, por um lado, e retribuição, por
outro: o Espírito de Deus ajuda a consciência dos homens a fazer isso em
profundidade bem maior; vai em socorro da consciência contra a influência
entorpecedora das coisas mundanas e suas concupiscências. Podem-se também
mencionar muitos outros meios pelos quais o Espírito influencia, auxilia e move
os princípios naturais. Ao cabo de tudo, porém, isso não é senão a natureza
mudada, acionada e aprimorada. Não há nada de sobrenatural nem divino nisso.
Porém, o Espírito de Deus, mediante suas influências espirituais no coração de
seus santos, opera infundindo ou aplicando princípios novos, divinos e
sobrenaturais, princípios que são na verdade uma natureza nova e espiritual e
muito mais nobres e excelentes do que todos os princípios do homem natural.
Do que foi dito, segue-se que todas as afeições espirituais e cheias da graça
surgem de algum entendimento, ideia ou sensação da mente — e destes são
acompanhadas —, de natureza totalmente diferente de tudo quanto há ou pode
haver na mente do homem natural. O homem natural nada pode discernir nem ter
a mínima ideia acerca dessas coisas (conforme 1Co 2.14), tampouco pode
conceber algo sobre elas assim como alguém sem paladar é incapaz de conceber
o doce sabor do mel, ou como o surdo é incapaz de conceber a melodia de uma
canção, ou como um cego de nascença é incapaz de ter noção da beleza do arco-
íris.
Todavia, é preciso observar aqui dois fatos para entender isso corretamente.

1. Por um lado, é preciso observar que nem tudo quanto em algum aspecto se
refere às afeições espirituais é novo ou completamente diferente daquilo que o
homem natural pode conceber ou experimentar. Algumas coisas são comuns
tanto às afeições da graça quanto às outras afeições; muitas circunstâncias,
acréscimos e efeitos são comuns. Logo, o amor de um santo a Deus tem muitos
aspectos em comum com o amor natural de um homem por alguém que lhe é
próximo. Amar a Deus faz o homem ansiar pela sua grandeza e glória, e por
agradá-lo, assim como o amor natural de alguém por um amigo o faz ansiar pela
honra desse amigo e ansiar por agradá-lo; amar a Deus faz o homem se regozijar
nos pensamentos de Deus, a deleitar-se em sua presença, a desejar a semelhança
com ele e o contentamento divino. Assim também ocorre com o amor de um
homem por um amigo seu; e poderiam ser mencionados muitos outros aspectos
comuns a ambos. No entanto, a ideia que o santo tem da amabilidade2 de Deus,
essa sensação, e o tipo de prazer que tem nisso, que é como se fosse o cerne, a
quintessência do seu amor, é peculiar e totalmente diferente de toda e qualquer
noção que o homem natural tem ou pode ter desses aspectos divinos. Mesmo
nisso que parece comum, há algo peculiar. Tanto o amor espiritual quanto o amor
natural causam o desejo pelo objeto amado, mas não se trata do mesmo tipo de
desejos. Nos desejos espirituais de alguém que ama a Deus há uma sensação de
alma totalmente diversa de todos os desejos naturais. Tanto o amor espiritual
quanto o amor natural acompanham-se do prazer no objeto amado, mas as
sensações de prazer não são as mesmas; antes, são extrema e completamente
diversas. O homem natural pode ter várias concepções acerca de muita coisa das
afeições espirituais; contudo, elas têm algo semelhante a um núcleo, ou cerne, do
qual eles têm tanta noção quanto um cego de nascença tem das cores.
Pode-se fazer uma analogia muito clara do que acabei de dizer. Suponhamos
dois homens; um nasceu sem o sentido do paladar; o outro nasceu dotado desse
sentido. Este adora mel e se delicia com o alimento, pois conhece o seu doce
sabor. O outro adora certos sons e cores. O amor de cada um tem suas
peculiaridades, fato normal. Esse amor faz que ambos desejem o respectivo
objeto amado e neste tenham prazer, e os deixa tristes quando o objeto está
ausente. No entanto, a ideia ou sensação do que conhece o sabor do mel, sua
excelência e doçura, que são a base do seu amor por esse alimento, é
completamente diferente de tudo que o outro tem ou pode ter; e o prazer que ele
tem no mel é totalmente diverso de tudo que o outro possa conceber, embora
ambos se deleitem nos respectivos objetos de seu amor. Por conseguinte, essas
duas pessoas podem, em alguns aspectos, amar o mesmo objeto. Um pode gostar
muito de determinada fruta, agradável aos olhos e de sabor delicioso, não só
porque enxerga as cores agradáveis dessa fruta, mas também porque conhece o
seu sabor doce. O outro, desconhecendo todas essas qualidades, gosta da fruta
tão somente por suas belas cores. Em muitos aspectos, há muito em comum
entre os dois homens. Os dois amam, os dois desejam e os dois sentem prazer;
mas o amor, o desejo e o prazer de um são totalmente diversos dos do outro. A
diferença entre o amor do homem natural e o do homem espiritual pode ser
comparada a essa diferença. Contudo, é preciso apenas destacar que em um
aspecto a diferença é muito maior, isto é, as espécies de excelência que ambas as
pessoas percebem nos objetos espirituais são em si muito mais diversas do que
as diferentes espécies de excelência percebidas na fruta saborosa tanto pelo
homem nascido com paladar quanto por aquele privado desse sentido. Noutro
aspecto, a diferença pode não ser tão grande, isto é, o homem espiritual pode ter
o sentido ou paladar espiritual para perceber essa excelência divina e muito
peculiar, mas em estado incipiente e grau bastante imperfeito.

2. Por outro lado, é preciso observar que o homem natural pode ter essas
percepções e afeições religiosas, que em vários aspectos podem lhe ser muito
novas e surpreendentes, percepções e afeições das quais ele não tinha noção
antes. Ainda assim, o que ele experimenta talvez não seja nada semelhante às
manifestações do princípio de uma nova natureza nem às sensações de um novo
sentido espiritual. Suas afeições podem ser bem inusitadas por fazerem os
princípios naturais avançar extraordinariamente em novíssimo grau, com muitas
circunstâncias novas e grandiosas, além de nova cooperação de afeições naturais
e nova composição de ideias; isso pode ocorrer em consequência de alguma
influência extraordinária e poderosa de Satanás ou de um imenso engano, mas
não há nada além disso, da natureza acionada de modo extraordinário. É como se
um pobre camponês que sempre morou num pequeno chalé e nunca saiu do
obscuro vilarejo onde nasceu fosse levado por brincadeira a uma cidade
majestosa e à corte de um príncipe e, chegando lá, fosse vestido com faustosas
roupas principescas, assentado no trono com a coroa real na cabeça, e seus pares
e nobres se curvassem perante ele, levando-o a crer que agora ele era um
monarca glorioso. As ideias que ele teria e as afeições que experimentaria seriam
novíssimas em muitos aspectos e jamais imaginadas antes. Tudo isso, porém,
não é nada mais que elevar e estimular sobremaneira os princípios naturais e de
modo novo exaltar, variar e dispor esse tipo de ideias que ele tem por natureza.
Isso, contudo, não é nada semelhante a lhe dar um sentido novo.
Considerando tudo, acredito estar bem patente que todas as verdadeiras
afeições cheias da graça nascem de influências especiais e peculiares do Espírito,
o qual opera na alma dos santos essa sensação ou efeito sensato, que é
totalmente diferente de tudo quanto o homem natural experimentaria, diferente
não apenas em grau e circunstâncias, mas também em toda a sua natureza. De
modo que o homem natural não só não pode ter a mesma experiência singular a
um indivíduo, mas também não pode experimentar nada senão algo
excepcionalmente diverso e sobremodo inferior a ela; e o poder de homens ou
demônios não é capaz de produzir experiência semelhante, nem nada de mesma
natureza.
Tenho insistido muito nessa questão por causa de sua enorme importância e
utilidade para revelar e demonstrar de forma patente os enganos de Satanás em
muitos tipos de falsas afeições religiosas com que multidões têm sido iludidas —
o que talvez tenha ocorrido em todas as eras da igreja cristã — e para decidir e
determinar muitos artigos de doutrina concernentes às operações do Espírito de
Deus e à natureza da verdadeira graça.
Agora, portanto, apliquemos essas coisas ao propósito do presente discurso.
Disso é possível concluir que as impressões produzidas por algumas pessoas
na própria imaginação, ou as ideias imaginárias que têm de Deus, de Cristo, do
céu ou de qualquer coisa referente à religião, não têm nelas nada de espiritual
nem da natureza da graça verdadeira. Conquanto tais efeitos possam acompanhar
o que é espiritual e estarem mesclados com o espiritual, eles nada têm em si de
espiritual nem fazem parte da experiência da graça.
Neste ponto, em consideração às pessoas comuns, explico o que se pretende
afirmar com impressões na imaginação e ideias imaginárias. Imaginação é a
faculdade pela qual a mente pode ter uma concepção ou ideia de coisas de
natureza exterior (isto é, daquilo que é alvo dos sentidos exteriores) quando estas
não estão presentes nem são percebidas pelos sentidos. Chama-se imaginação
porque se origina da palavra “imagem”. Pela imaginação pode-se ter na mente a
imagem de alguma coisa exterior quando tal coisa nem nada semelhante a ela
está presente de fato. Tudo quanto percebemos com os cinco sentidos exteriores,
visão, audição, olfato, paladar e tato, são objetos exteriores. Imaginar é ter na
mente a ideia ou imagem de qualquer um desses objetos quando eles não estão
presentes nem são de fato vistos, ouvidos, cheirados, degustados ou tocados; isso
é ter a imaginação de tais objetos, e essas ideias são ideias imaginárias. Quando
ideias desse tipo são firmemente impressas na mente e sua imagem é muito
nítida aí, quase como se fossem vistas, ou ouvidas etc., a isso chamamos de
impressão na imaginação. Destarte, cores e formas, e a aparência de um
semblante são realidades exteriores, pois fazem parte da espécie de coisas que
são objeto do sentido exterior da visão. Portanto, ter a imaginação dessas coisas
é ter na mente a ideia nítida de alguma cor, forma ou aparência de um rosto —
isso é ter a imaginação dessas coisas. Por isso, ter uma ideia de luz ou de
escuridão, tal como elas são percebidas pelo sentido da visão, é ter uma ideia da
luz exterior e, portanto, é uma imaginação. Assim, ter uma ideia de marcas feitas
sobre o papel, supor letras e palavras escritas em um livro, é ter uma ideia
exterior e imaginária dessa espécie de coisas como às vezes percebemos com os
olhos físicos. Quando temos a ideia dessas coisas que percebemos com algum
dos outros sentidos — como sons, vozes ou palavras faladas —, trata-se tão
somente de ter ideias de coisas exteriores, a saber, de coisas percebidas pelo
sentido externo da audição, de modo que isso também é imaginação. Quando
essas ideias são vividamente impressas na mente, quase como se tivessem sido
ouvidas de fato com os ouvidos, isso significa ter uma impressão na imaginação.
E assim eu poderia prosseguir, dando exemplos de ideias de coisas pertinentes
aos outros três sentidos — olfato, paladar e tato.
Muitos que tiveram experiências desse tipo pensaram, por desconhecimento,
que elas eram da natureza de descobertas espirituais. Esses indivíduos tiveram
ideias vívidas de alguma forma exterior e da beleza de um rosto, e a isso
chamaram de enxergar Cristo espiritualmente. Em alguns houve a impressão da
ideia de uma grandiosa luz exterior, a que chamaram de descoberta espiritual da
glória de Deus ou de Cristo. Alguns tiveram a ideia de Cristo pendurado na cruz
e do sangue escorrendo-lhe das feridas; chamaram essa experiência de visão
espiritual de Cristo crucificado e do caminho da salvação mediante seu sangue.
Alguns o viram de braços abertos, pronto para abraçá-los; e disseram ter
descoberto a suficiência da graça e do amor de Cristo. Alguns tiveram ideias
vívidas do céu, de Cristo em seu trono e esplendentes fileiras de santos e anjos; e
disseram ter visto o céu aberto para eles. Alguns às vezes tiveram a nítida ideia
de uma pessoa com belo semblante, sorrindo para eles; e a isso chamaram de
descoberta espiritual do amor de Cristo pela alma deles e de sentir o gosto do
amor de Cristo. Tais pessoas consideram suas experiências prova suficiente de
que são descobertas espirituais e de que as enxergam espiritualmente; afirmam
que não as veem com os olhos físicos, mas com o coração, pois podem vê-las
quando estão de olhos fechados. Semelhantemente, a imaginação de alguns foi
impressionada com ideias do sentido da audição. Essas pessoas tiveram ideias de
palavras, como se lhes tivessem sido sussurradas. Às vezes eram palavras da
Escritura, às vezes eram outras. Elas tiveram ideia de Cristo lhes dirigindo
palavras de consolo. Sobre isso, disseram que era o chamado interior de Cristo,
que ouviram espiritualmente no coração a voz de Cristo, tiveram o testemunho
do Espírito e o testemunho interior do amor de Cristo, entre outras coisas.
As pessoas mais comuns, menos ponderadas e sem muito conhecimento são
levadas com mais facilidade a aceitar que tais experiências são espirituais,
porque as coisas do espírito, por serem invisíveis e impossíveis de apontar com o
dedo, forçam-nos a empregar linguagem figurada e a tomar emprestados nomes
de objetos exteriores e sensíveis para designá-las. Dessarte, chamamos a
apreensão clara das coisas espirituais pelo nome de “luz”; e a essa apreensão de
coisas referimo-nos como “ver” essas coisas; e à convicção do juízo e a
persuasão da vontade pela palavra de Cristo no evangelho designamos “ouvir
espiritualmente o chamado de Cristo”. A própria Escritura está repleta de
expressões figuradas semelhantes. As pessoas que ouvem esses termos e
expressões com frequência e têm sobre elas a imposição da necessidade de ter os
olhos abertos para descobrir as coisas espirituais e ver Cristo em sua glória e
terem o chamado interior, entre outras coisas semelhantes, por ignorância
procuram e esperam algumas dessas descobertas exteriores e visões imaginárias
conforme lhes foram ditas. Quando as obtêm, adquirem a certeza de que agora
seus olhos estão abertos, agora Cristo se revelou a elas e são filhas dele. Por isso,
ficam influenciadas demais, comovidas e elevadas com o livramento e a
felicidade, e muitas espécies de afeições de pronto passam a atuar nelas em
violento alvoroço.
É muito evidente, porém, que essas ideias nada têm em si de espirituais e
divinas — no sentido já demonstrado de que todas as experiências da graça são
espirituais e divinas. Essas ideias exteriores não são de modo algum desse tipo,
pois elas são em todo o seu caráter totalmente diversas de tudo quanto os
homens têm por natureza; são perfeitamente diferentes de qualquer sensação
possível a um ser humano — e mui superior a qualquer sensação dessa sorte —
mediante qualquer sentido ou princípio natural, pois para as ter, o homem precisa
necessariamente ter recebido um novo sentido espiritual e divino desse tipo.
Muito longe disso, são sensações do mesmo tipo das que temos pelos sentidos
externos, uma das faculdades inferiores da natureza humana; são meras ideias de
objetos exteriores, ou ideias dessa natureza, do mesmo tipo sensível exterior;
pertencem à mesma espécie de sensações mentais (diferentes não em grau, mas
apenas em circunstâncias) que temos mediante os princípios naturais comuns a
nós e aos animais, a saber, os cinco sentidos exteriores. Trata-se de uma noção
baixa e infeliz do sentido espiritual supor que ele não passa de uma concepção
ou imagem das ideias que temos através de nossos sentidos físicos, sentidos que
os bichos têm com a mesma perfeição que nós. Isso é, por assim dizer,
transformar Cristo, ou a natureza divina da alma, em um simples animal. A alma,
em sua condição natural, é capaz de ser objeto de todas essas ideias exteriores
sem a necessidade de nenhum princípio novo. O homem natural é tão capaz de
conceber ideias, e ideias vívidas com formas, cores e sons, quanto o homem
regenerado — mesmo quando essas qualidades estão ausentes. Logo, elas não
têm nada de sobrenatural. Por copiosa experiência, sabe-se que não é o progresso
ou o aperfeiçoamento da natureza humana o que torna as pessoas mais capazes
de ter ideias imaginárias tão nítidas e fortes, mas, pelo contrário, as debilidades
do corpo e da mente, aliadas às enfermidades do organismo, deixam as pessoas
muito mais suscetíveis a tais impressões.3
No que tange à sensação espiritual verdadeira, não somente o modo em que
ela acorre à mente é extraordinário, mas também a própria sensação é
completamente diferente de tantas quantas os homens têm, ou podem ter, no
estado natural, como foi demonstrado. Quanto a essas ideias exteriores, porém,
apesar de às vezes chegarem à mente de modo incomum, as ideias em si não são
melhores por causa disso. Não são nem um pouco mais elevadas nem melhores
que as ideias que os homens têm mediante os sentidos. Por exemplo, a ideia
exterior que um ser humano agora tem de Cristo pregado na cruz, derramando
sangue, não é em si nem um pouco melhor que a ideia exterior que tinham seus
inimigos judeus, os quais permaneceram ao redor da cruz e viram a cena com os
próprios olhos. A ideia imaginária que os homens têm hoje do brilho e da glória
exteriores de Deus não é em nada melhor do que a ideia que a iníqua
congregação teve da glória exterior do Senhor no monte Sinai, no deserto,
quando esse povo enxergou com os próprios olhos da carne. Tampouco em nada
é melhor do que a ideia que milhões de réprobos condenados terão da glória
exterior de Cristo no dia do juízo. Eles verão e terão uma ideia muito vívida, dez
mil vezes mais grandiosa que a glória exterior de Cristo, jamais concebida na
imaginação de homem algum.4 Com efeito, a imagem de Cristo concebida na
imaginação das pessoas não é por sua natureza própria nem um pouco superior à
ideia de Cristo concebida pelos papistas com suas belas e comoventes imagens
dele vistas em suas igrejas (embora o modo que recebem a ideia talvez não seja
tão ruim). Tampouco as afeições que essas pessoas sentem — se construídas
sobretudo com base nessa imaginação — não são em nada melhores do que as
afeições despertadas nos ignorantes pela visão dessas imagens, afeições muitas
vezes grandiosas; especialmente quando tais imagens, pela artimanha dos
padres, se movimentam, falam, choram, entre outras mirabolâncias.5 Só o modo
que as pessoas recebem essas ideias imaginárias não altera a natureza das ideias
recebidas em si. Não importa como sejam recebidas, elas continuam sendo tão
somente ideias exteriores, ou ideias de aspectos exteriores e, portanto, não são
espirituais. Na verdade, mesmo que os homens recebessem essas ideias
exteriores pelo poder imediato do Deus altíssimo em sua mente, elas não seriam
espirituais, seriam nada mais que obra comum do Espírito de Deus. Como, de
fato, fica evidente no caso de Balaão, que teve imprimida na mente, pelo próprio
Deus, uma representação exterior clara e viva, ou ideia, de Jesus Cristo como a
estrela que viria de Jacó, e proferiu seu oráculo: “... fala aquele que ouve as
palavras de Deus e conhece os planos do Altíssimo, que vê a visão do Todo-
poderoso” e “cai em transe com os olhos abertos” (Nm 24.16,17). Ainda assim,
não teve nenhuma descoberta espiritual de Cristo, aquela Estrela Matutina
jamais nasceu espiritualmente em seu coração, visto ser ele tão somente homem
natural.
Uma vez que por natureza essas ideias exteriores nada têm de divinas nem
de espirituais e nada além do que o homem natural, sem nenhum princípio novo,
consegue ter, também a natureza delas não tem nada que, para serem produzidas,
exija o exercício peculiar, inimitável e sem igual do glorioso poder de Deus —
cuja ação na produção da graça verdadeira já foi demonstrada. Segundo parece,
nada há na natureza dessas ideias além do poder do Diabo. Sem dúvida, faz parte
do poder de Satanás sugerir pensamentos aos seres humanos, caso contrário, ele
não conseguiria tentá-los a pecar. Se ele pode sugerir todo tipo de pensamentos e
ideias, é claro que insinuar ideias imaginárias ou de coisas externas não está
além de seu poder,6 pois as ideias externas das pessoas são do tipo mais baixo
possível. Tais ideias só podem surgir de impressões feitas no corpo, que
estimulam entusiasmo e impressionam o cérebro. A experiência nos prova para
além de qualquer dúvida que alterações no corpo provocam na mente ideias
imaginárias ou exteriores, como é comum ocorrer nos casos de febre alta e
melancolia, entre outras alterações do organismo. Essas ideias exteriores são tão
inferiores às atividades mais intelectuais da alma quanto o corpo é uma parte
humana menos nobre que a alma.
Não só não há nada na índole dessas ideias externas ou imaginações de
aparências exteriores que nos permita inferir que elas estejam além do poder do
Diabo, mas também é inquestionável que ele pode estimular, e muitas vezes
estimulou, tais ideias. São ideias exteriores causadas pelo Maligno nos sonhos e
visões dos falsos profetas de antigamente, que estavam sob a influência de
espíritos enganadores, sobre os quais lemos amiúde na Escritura (como em Dt
13.1; 1Rs 22.22; Is 28.7; Ez 13.7; Zc 13.4). Eram ideias externas que com
frequência ele incutia na mente dos sacerdotes pagãos, magos e feiticeiros em
visões e nos estados de êxtase. Também foram ideias exteriores que ele incitou
na mente do homem Cristo Jesus, quando lhe mostrou todos os reinos do mundo
com toda a glória, reinos que na verdade não eram vistos.
Se Satanás, ou qualquer ser criado, tem poder para imprimir na mente
representações exteriores, nenhum tipo de representação exterior pode ser prova
de poder divino. A onipotência não é mais requisito para apresentar à
imaginação a forma de um homem ou de qualquer outra coisa. Não é necessário
nenhum tipo de poder superior para criar no cérebro a forma de um corpo ou
uma cor. Não é preciso poder mais glorioso para representar a forma do corpo
humano do que para representar a forma de uma simples lasca ou de um bloco
de algum material, mesmo que seja um corpo humano muito belo, com sorriso
suave no semblante, os braços abertos, e pés, mãos e o flanco sangrando. Esse
tipo de poder capaz de produzir na imaginação a cor preta e a escuridão também
pode produzir o branco e o brilho resplendente. A aptidão e maestria capazes de
pintar tão bem e com precisão um fiapo de palha ou uma vareta de madeira
numa folha de papel ou sobre uma tela, essa mesma capacidade, apenas um
pouco mais aperfeiçoada, quem sabe, é suficiente para a representação artística
do corpo de um homem com muita beleza e majestade ou de uma cidade
magnífica, pavimentada com ouro, cheia de esplendor e um trono glorioso, entre
tantas representações. Logo, não é necessário nada mais que o mesmo tipo de
competência para pintar no cérebro qualquer uma dessas imagens. A mesma
capacidade de pôr tinta sobre o papel também pode folheá-lo com ouro. Assim,
se pensarmos que está na competência do Diabo produzir qualquer tipo de
representação externa na imaginação (como seguramente é, e ninguém que
acredita na existência do Diabo e que ele tem influência sobre a humanidade
jamais questionou isso), pode-se provar com clareza que um poder criado pode
se estender a todo tipo de aparências e ideias externas na mente. Por isso, está
bem claro, mais uma vez, que isso tudo não tem em si nada de espiritual,
sobrenatural, nem divino, no sentido já demonstrado de que todas as
experiências autênticas da graça têm.
Até certo ponto é comum as ideias exteriores decorrentes da constituição e
da disposição mental do homem acompanharem as experiências espirituais,
contudo elas não fazem parte destas experiências espirituais, como também não
fazem a circulação do sangue e os batimentos do coração que as acompanham,
apesar de inegável que, pela fragilidade do homem no presente estado e
sobretudo pela frágil constituição de alguns, as afeições da graça muito
vigorosas provocam ideias muito vívidas na imaginação; todavia, também não
há dúvida de que, quando as afeições das pessoas estão alicerçadas em
imaginações, como quase sempre ocorre, tais afeições são pura e tão somente
naturais e comuns, pois são edificadas sobre fundamento não espiritual e,
portanto, em tudo são diferentes das afeições cheias da graça, as quais, como se
demonstrou, surgem sempre de ações espirituais e divinas.
Imaginações assim amiúde elevam as afeições carnais das pessoas a uma
altura muito importante.7 Por conseguinte, não é de admirar que, quando os que
são alvo delas abraçam a convicção ignorante, mas inabalável, de que tais
manifestações são divinas, produzidas pelo grande Jeová diretamente na alma,
com isso dando-lhes extraordinário testemunho de seu sublime e particular favor.
Do mesmo modo, aquilo que já se disse e demonstrou a respeito de como a
ação e os efeitos da graça no coração são espirituais, sobrenaturais e divinos nos
permite concluir que a sugestão de passagens da Escritura à mente de alguém
nada tem de espiritual.
Já tive a ocasião de comentar algo a esse respeito, e o que já foi dito talvez
seja suficiente como prova; porém, se o leitor tiver em mente o que se
mencionou acerca da natureza das influências e dos efeitos espirituais, ficará
bem mais evidente que tal efeito não é espiritual. Suponho que ninguém de bom
senso dirá ou imaginará que as palavras trazidas à mente (quaisquer palavras)
sejam efeito dessa natureza, efeito esse impossível de ser experimentado pela
mente do homem natural, permanecendo ele ainda nesse estado; nem que
pressuponha a existência de algum novo sentido divino na alma; ou que os sons
ou letras trazidos à mente sejam efeito de natureza tão excelente, sublime e santa
que não possa ser causado por poder criado algum.
A sugestão de palavras da Escritura à mente é apenas o estímulo, na própria
mente, de ideias de determinados sons e letras; logo, trata-se tão somente de um
modo de estimular ideias na imaginação, pois letras e sons são elementos
externos, objetos dos sentidos externos da visão e da audição. A ideia de marcas
sobre o papel — de qualquer letra do alfabeto, em qualquer ordem — ou de sons
da voz são tão externas quanto qualquer outra forma ou som. Portanto, pelo que
já se disse a respeito dessas ideias externas é evidente que elas nada têm de
espiritual. Se em algum momento o Espírito de Deus sugerir à mente tais letras
ou sons, trata-se de uma influência comum do Espírito, não de nenhuma
influência especial ou graciosa. Por isso, do que já foi provado, pode-se concluir
que as afeições com fundamento nesse efeito não são afeições da graça nem
espirituais. Entretanto, atente-se para o que digo, a saber, quando esse efeito —
inclusive o modo imediato e extraordinário pelo qual as palavras da Escritura
vêm à mente — é o que estimula as afeições e é precisamente o fundamento
delas, essas afeições não são espirituais. É possível que pessoas tenham afeições
da graça acompanhadas de passagens da Escritura vindas à mente, e que o
Espírito de Deus faça uso dessas passagens para provocar tais afeições. Isso
ocorre quando o que estimula as afeições é algum sentimento espiritual, gosto ou
prazer espiritual nas coisas divinas e excelentes contidas nessas passagens da
Escritura, e não o modo extraordinário e súbito com que as palavras lhe surgem à
mente. As pessoas são afetadas pelas instruções que recebem das palavras e pela
visão das coisas gloriosas de Deus ou de Cristo, ou relativas a eles, que essas
palavras contêm e ensinam; não porque as palavras lhes vieram à mente de
súbito, como se alguém lhes tivesse falado — de onde concluem que Deus lhes
falou diretamente, sem mediação alguma. Muitas vezes as pessoas são
exageradamente afetadas com base nisso; os termos de algumas promessas
grandiosas e sublimes da Escritura lhes vêm à mente de súbito, e elas
consideram esses termos, a mensagem, como dirigidos diretamente a elas por
Deus, como se naquele momento as palavras tivessem vindo da boca de Deus e
as tivessem por destinatárias exclusivas. Por isso, elas as entendem como a voz
de Deus, que lhes revela imediatamente sua feliz condição e promete tais e tais
feitos grandiosos — e é isso que tem efeito sobre elas e as enleva. Não há
nenhum novo entendimento espiritual dos assuntos divinos contidos no trecho da
Escritura, tampouco nova percepção espiritual das coisas gloriosas ensinadas
nessa passagem da Bíblia que lhes anteceda as afeições e delas sejam o
fundamento. O novo entendimento que essas pessoas têm, ou imaginam ter, é
que as palavras são dirigidas a elas, pois chegam muito de repente e de modo
extraordinário. Assim, essa afeição é construída totalmente sobre a areia, pois se
ergue sobre uma conclusão sem nenhum fundamento. Como se demonstrou, o
surgimento repentino das palavras na mente dessas pessoas não é nenhuma prova
de que esse aparecimento dessa forma tenha sido de Deus. Mesmo se tivesse
sido Deus a introduzi-las, e essas pessoas soubessem disso com certeza, não se
trataria de conhecimento espiritual; pode ter acontecido sem nenhum senso
espiritual. Balaão podia saber que as palavras que lhe vinham à mente eram-lhe
sugeridas de fato por Deus, contudo ele não tinha conhecimento espiritual
algum. Portanto, as afeições construídas sobre a noção de que textos da Escritura
são comunicados diretamente por Deus não têm nenhum fundamento espiritual e
são vãs e enganadoras. As pessoas cujas afeições surgiram desse jeito, se
indagadas se obtiveram novo entendimento da excelência do conteúdo dessas
passagens da Escritura, provavelmente responderão “sim” sem hesitar. A
verdade, porém, não é outra coisa a não ser que tais pessoas assumiram a ideia
de que as palavras lhes foram dirigidas diretamente, o que fez com que lhes
parecessem agradáveis, e elas reconheceram que a mensagem dessas passagens
era maravilhosa e excelente. Suponhamos, por exemplo, que surjam de súbito na
mente de alguém estas palavras: “Não temas, é do agrado de teu Pai dar-te o
reino”. Com plena convicção de que as palavras lhe foram dirigidas diretamente
do céu como a revelação de que Deus é seu pai e lhe deu o reino, esse indivíduo
é profundamente afetado, e as palavras lhe parecem doces; e então exclama:
“Que mensagem excelente essas palavras contêm!”. Contudo, o motivo por que
a promessa lhe parece excelente é apenas ele achar que esta lhe foi feita
particular e diretamente. Todo o senso de glória que essa pessoa tem da
promessa procede tão só de seu amor-próprio e de seus próprios interesses
imaginados nessas palavras. Não que o indivíduo tivesse previamente algum
senso ou percepção da santa e gloriosa natureza do reino do céu, da glória
espiritual do Deus que fez a promessa nem de sua excelente graça para com os
pecadores, por lhes oferecer e dar esse reino de bom grado. Ao contrário, ele
primeiro imagina que está interessado, em seguida é profundamente afetado com
isso e depois consegue reconhecer que essas coisas são excelentes. Isto é, está
bem evidente que o fundamento de todo o processo é o modo súbito e
extraordinário pelo qual a passagem da Escritura lhe vem à mente; e isso é prova
clara de que ela está sob o jugo de uma lamentável ilusão.
O primeiro consolo de muitas pessoas, o que elas entendem como sua
conversão, ocorre da seguinte maneira: depois do despertamento e do terror, uma
promessa doce e consoladora lhes vem à mente repentina e maravilhosamente, e
o modo do surgimento dessa promessa as leva a concluir que ela vem
diretamente de Deus. E é exatamente esse o inteiro fundamento da fé, da
esperança e do consolo delas. Disso elas tiram o primeiro incentivo para confiar
em Deus e em Cristo — pois acham que Deus, mediante a passagem da Escritura
surgida desse modo, já revelou que as ama e lhes prometeu a vida eterna. Isso é
um absurdo, pois qualquer pessoa dotada de mediano conhecimento dos
princípios da religião sabe que é costume de Deus revelar seu amor aos homens
e a participação deles nas promessas depois que eles creram, não antes. Porque
primeiro precisam crer para só depois terem participação nas promessas a ser
reveladas. O Espírito de Deus é espírito da verdade, não de mentiras. Ele não faz
vir à mente das pessoas passagens da Escritura para revelar-lhes que têm
participação do favor e das promessas de Deus quando elas não têm participação
de nada disso se ainda não creram. Seria esse o caso se Deus lhes fizesse vir à
mente passagens da Escritura que revelassem o perdão de seus pecados ou o
prazer que tem em lhes dar seu reino, ou bênção semelhante, antes de tudo, e
isso servisse de fundamento para a fé dessas pessoas. Nenhuma promessa da
aliança da graça pertence a ser humano algum enquanto não tenha primeiro crido
em Cristo; pois é pela fé somente que passamos a nos interessar por Cristo e
pelas promessas da nova aliança que nele foram feitas. Portanto, qualquer
espírito que aplique as promessas dessa aliança a uma pessoa que ainda não creu,
como se ela já lhe pertencesse, é necessariamente um espírito mentiroso; e a fé
que se constrói sobre tal aplicação das promessas se assenta sobre uma mentira.
O método de Deus não é apresentar textos agradáveis da Escritura para dar aos
seres humanos garantia de seu amor e de que serão felizes antes que estes
venham a ter fé de confiança e dependência.8 Se a passagem que vem à mente da
pessoa não é exatamente uma promessa, mas um convite; e se mesmo assim ela
faz do caráter súbito e incomum do surgimento do convite o fundamento de sua
convicção de que está sendo convidada, não é fé verdadeira, pois se constrói
sobre o que não é o verdadeiro fundamento da fé. A fé verdadeira não se assenta
em alicerces precários. Porém, a ideia de que as palavras de determinado texto
foram sugeridas à mente de alguém pelo poder imediato de Deus, faladas por
Deus como se fossem dirigidas a essa pessoa, nesse momento, só porque as
palavras surgiram de tal modo, é completamente incerta e precária, como acabou
de ser demonstrado. Por isso, é um alicerce arenoso e falso para a fé. O único
fundamento sólido que uma pessoa tem para crer que foi convidada a participar
das bênçãos do evangelho é a afirmação da Palavra de Deus de que qualquer um
com os requisitos que ela tem é convidado; e o Deus que afirma isso é
verdadeiro e não pode mentir. Se em algum momento o pecador se convencer da
veracidade de Deus e de que as Escrituras são a sua Palavra, não precisará de
mais nada para ter certeza de que foi convidado; pois as Escrituras estão repletas
de convites aos pecadores — mesmo ao principal deles — para que venham e
participem das bênçãos do evangelho. Esse pecador não precisará mais que Deus
lhe fale outra vez; o que ele já lhe falou é suficiente.
Assim como o consolo inicial e as afeições do momento da suposta
conversão de muitas pessoas se fundamentam em bases semelhantes às já
mencionadas, o mesmo também ocorrerá de vez em quando com suas alegrias,
esperanças e outras afeições a partir daí. Reiteradamente lhes serão sugeridas
determinadas palavras da Escritura, declarações e promessas agradáveis, as
quais, pelo modo que surgem, parecem-lhes enviadas diretamente por Deus, o
que lhes serve de garantia para aceitá-las; e na verdade fazem disso o principal
fundamento para delas se apropriar, obter consolo e segurança. Desse modo,
essas pessoas imaginam uma espécie de diálogo entre Deus e elas e que de
tempos em tempos ele lhes fala, por assim dizer, diretamente, aplaca-lhes as
dúvidas, dá testemunho do seu amor, promete amparo e provisões, além de sua
bênção em tais e tais casos, e lhes revela claramente sua participação nas
bênçãos eternas. Por isso, estão quase sempre elevadas e têm uma sucessão de
alegrias súbitas e tumultuadas, mescladas com firme convicção e elevada
autoestima. Contudo, o principal fundamento dessas alegrias e convicção não
está contido nessas passagens tal qual elas se encontram na Bíblia, mas no modo
por que os textos bíblicos lhes vêm à mente, o que é prova segura da ilusão
delas. Não há na Palavra de Deus nenhuma promessa que se aplique
particularmente a um santo nem nada feito ou declarado a ele de outro modo
além de que todas as promessas da aliança da graça são dele, feitas e declaradas
a ele,9 apesar de ser verdade que algumas dessas promessas talvez sejam mais
apropriadas ao seu caso que ao de outros; e Deus, mediante seu Espírito, pode
capacitá-lo a entender algumas melhor do que outras e ter maior percepção da
preciosidade, da glória e da idoneidade das bênçãos contidas nessas promessas.
A esta altura, entretanto, alguns talvez estejam perguntando: O quê? Não
existe nenhuma aplicação espiritual particular das promessas da Escritura pelo
Espírito de Deus? Minha resposta é: sem dúvida existe aplicação espiritual e
salvífica dos convites e promessas da Escritura à alma dos homens; mas também
é certo que sua natureza é completamente mal-entendida por muita gente, para
grande prejuízo de suas almas e enorme vantagem de Satanás contra elas e
contra os interesses da religião e da igreja de Deus. A aplicação espiritual de
uma promessa da Escritura não consiste em tal promessa ser sugerida ao
pensamento diretamente por algum agente extrínseco e transmitida à mente com
o forte entendimento de que é falada particular e diretamente a determinada
pessoa naquele momento; esse efeito não é prova da ação de Deus, como
demonstraram os fatos em muitos casos célebres. Isso é uma ideia medíocre de
aplicação espiritual da Escritura. Não há absolutamente nada em sua natureza
além do poder do Diabo (se Deus não o restringir), pois não há nada nesse efeito
que seja de natureza espiritual e implique alguma comunicação vital de Deus. A
verdadeira aplicação espiritual da Palavra de Deus é de ordem muito mais
elevada; tão superior ao poder do Diabo quanto empregar a Palavra de Deus a
um cadáver para o ressuscitar, ou a uma pedra para a transformar num anjo. A
aplicação espiritual da Palavra de Deus consiste em aplicá-la ao coração com
influência espiritualmente esclarecedora e santificadora. A aplicação espiritual
do convite ao evangelho ou da oferta das boas novas consiste em dar à alma
percepção ou sabor espiritual das divinas e santas bênçãos oferecidas e da suave
e maravilhosa graça do ofertante por tão generosa dádiva e de sua santa
excelência e fidelidade em cumprir o que promete, bem como sua gloriosa
suficiência para tal, assim expondo e dirigindo o coração para receber a oferta e
dando ao homem prova de seu direito à coisa oferecida. Desse modo, a aplicação
espiritual das promessas da Escritura, para consolo dos santos, consiste em
iluminar-lhes a mente para enxergar a santa excelência e o dulçor das bênçãos
prometidas, bem como a santa excelência do promitente e sua fidelidade e
suficiência, expondo assim o coração das pessoas para receber o promitente e a
promessa. Com isso, promove as ações sensatas da graça e os capacita a
enxergar a graça que neles age e assim seu direito à promessa. Toda aplicação
que não consista na percepção divina e no esclarecimento da mente, mas sejam
tão somente palavras transmitidas ao pensamento, como se pronunciadas
diretamente à pessoa, fazendo-a crer (sem nenhum outro fundamento) que a
promessa lhe pertence, é uma aplicação cega, própria do espírito das trevas, não
da luz.
Quando as afeições são suscitadas dessa maneira nas pessoas, com efeito,
isso não ocorre por ação da Palavra de Deus; a Escritura não é o fundamento
delas. Não é o conteúdo dos textos que lhes vêm à mente que suscita suas
afeições, mas, sim, o estranho modo como as palavras lhes são sugeridas e a
ideia adotada com base nele, ideia essa, aliás, não contida nessa passagem da
Escritura nem em nenhuma outra; como, por exemplo, de que seus pecados lhe
foram perdoados, ou que foi do agrado do Pai dar-lhe particularmente o reino, ou
algo do tipo. A Bíblia tem afirmações de que indivíduos com tais e tais
características recebem o perdão de Deus e são amados dele. Entretanto, não se
encontra na Bíblia nenhuma declaração de que essa ou aquela pessoa em
particular, independentemente de conhecimento prévio de qualquer qualificação,
recebeu o perdão de Deus e é amada dele. Por conseguinte, quando qualquer
pessoa é consolada e afetada por qualquer ideia desse tipo, isso ocorre por outra
palavra, uma palavra recém-cunhada, não alguma palavra de Deus contida na
Bíblia.10 Assim, muita gente se comove e é iludida em vão.
Mais uma vez, de tudo quanto foi demonstrado, percebe-se claramente que
nenhuma revelação de fatos secretos por sugestão imediata é coisa espiritual e
divina no mesmo sentido em que são os efeitos e as ações da graça.
Quando digo fatos secretos, refiro-me aos que já aconteceram, estão
acontecendo ou ainda acontecerão e são secretos à medida que não se
manifestam aos sentidos nem se conhecem por argumentação, prova racional
nem nenhum outro modo, mas tão só por essa revelação por sugestão direta de
ideias à mente. Por exemplo, se me fosse revelado que no próximo ano este país
seria invadido por uma frota francesa, ou tais e tais pessoas se converteriam no
ano vindouro, ou eu mesmo me converteria, tudo isso sem haver nada que me
permitisse chegar a essas conclusões a partir de algo que ora se manifesta em
previdência, mas sugerindo e incutindo-me extraordinária e diretamente no
pensamento a apreensão ou as ideias desses fatos com forte sugestão ou
impressão em minha mente — sem nenhuma participação minha — de que essas
coisas iam acontecer; ou se me fosse revelado que neste dia está sendo travada
uma batalha entre os exércitos de tais e tais potências da Europa, ou que tal
príncipe europeu se converteu hoje ou já se havia convertido antes, ou que um de
meus vizinhos se converteu, ou eu mesmo me converti; isso sem nenhuma outra
evidência de qualquer desses fatos que me permita defendê-los razoavelmente, a
não ser a sugestão ou estímulo imediato e extraordinário dessas ideias e a forte
impressão delas em minha mente — tudo isso são revelações de fatos secretos
por sugestão direta, quer os fatos sejam presentes, quer sejam futuros. Os fatos
serem passados, presentes ou futuros em nada altera o caso, desde que sejam
secretos e ocultos aos meus sentidos e à minha razão, não sejam mencionados na
Escritura nem me sejam conhecidos de outro modo a não ser por sugestão direta.
Se me fosse revelado que ocorreu tal revolução hoje no Império Otomano, seria
o mesmo tipo de revelação como se me houvesse sido revelado que tal revolução
aconteceria naquela região daqui a doze meses; pois, apesar de uma ser presente
e a outra futura, ambas me são igualmente ocultas, a não ser pela revelação
direta. Quando Samuel revelou a Saul que as jumentas que este procurava
haviam sido encontradas, e seu pai deixara de se preocupar com elas e passara a
se preocupar com ele, foi o mesmo tipo de revelação daquela pela qual dissera a
Saul que, na planície do Tabor, ele encontraria três homens subindo para cultuar
a Deus em Betel (1Sm 10.2,3), embora um dos fatos fosse futuro e o outro não.
Do mesmo modo, quando Eliseu contava ao rei de Israel as palavras que o rei da
Síria pronunciava em seu quarto, tratava-se do mesmo tipo de revelação que lhe
permitia prever muitos acontecimentos futuros.
É evidente que essa revelação de fatos secretos por sugestão direta não tem
nada de ação espiritual e divina no sentido já mencionado. Não há absolutamente
nada no feitio das percepções e ideias, em si mesmas, estimuladas na mente que
tenha excelência divina e, por isso, esteja muito além de todas as ideias do
homem natural, conquanto seja extraordinário o modo de estimulação das ideias.
Nas coisas espirituais, como já foi demonstrado, não só o modo de produzir o
efeito, mas também o próprio efeito é divino e imensamente superior a tudo
quanto possa haver numa mente não santificada. Apenas ter uma ideia de fatos,
deixando de lado o modo que essa ideia é produzida, não é nada além do que
aquilo para o que a mente de indivíduos iníquos está propensa, sem nada de bom
consigo; e todos eles têm ou terão o conhecimento da verdade dos fatos maiores
e mais importantes que já ocorreram, estão ocorrendo ou ainda vão ocorrer.
Quanto à excepcionalidade do modo como essas ideias ou percepções de
fatos são produzidas — até por sugestão imediata —, não há nada nele a não ser
a capacidade da mente do homem natural ainda nesta condição, como se vê em
Balaão e em outros mencionados na Escritura. Tudo indica, portanto, que nessa
sugestão direta de fatos secretos não há nada de espiritual no mesmo sentido, já
provado, das operações da graça. Se as ideias de per si não têm nada de
santidade nem de divindade e, portanto, nada além do que pode haver numa
mente profana, Deus pode inseri-las na mente por seu poder imediato sem
santificá-la. Assim como na ideia em si de um arco-íris não há nada que seja de
natureza santa e divina, a fim de que nada impeça uma mente profana de receber
essa ideia, Deus pode, se e quando lhe aprouver, estimular essa ideia direta e
extraordinariamente numa mente não santificada. Assim como na ideia ou no
conhecimento de que tais e tais pessoas são perdoadas, acolhidas por Deus e
adquirem direito ao céu não há nada que mentes não santificadas possam ter, e
terão, em relação a muita gente no Dia do Juízo, Deus também pode, se quiser,
sugerir essa ideia e imprimi-la extraordinária e diretamente a uma mente não
santificada agora mesmo; à mente não santificada não falta princípio algum que
a capacite para essa sugestão ou impressão, tampouco nada existe que exclua ou
necessariamente obste esse tipo de sugestão.
Se tais sugestões de fatos secretos são acompanhadas de textos da Escritura,
incutidos na mente extraordinária e diretamente, textos sobre outros fatos que
parecem semelhantes em alguns aspectos, isso não confere à operação uma
natureza espiritual e divina, porque essa sugestão de palavras da Escritura não é
mais divina que a sugestão dos próprios fatos, como se demonstrou agora. Além
do mais, a união de dois efeitos não espirituais não pode gerar um efeito
complexo, espiritual.
De tudo quanto já se disse — e se repetiu muitas vezes — segue-se que as
afeições devidamente alicerçadas nessas sugestões imediatas, ou supostas
sugestões, de fatos secretos não são afeições da graça. Não são, mas é possível
que tais sugestões sejam a oportunidade ou a causa acidental de afeições da
graça, pois o mesmo se aplica a um erro e a uma ilusão; mas jamais são o
fundamento próprio das afeições da graça, pois estas, como já se demonstrou,
são todas efeito de uma influência e ação espiritual, sobrenatural e divina.
Porém, muitas afeições, até afeições elevadas, vividas por alguns indivíduos têm
por fundamento esse tipo de sugestão ou revelação, tais pessoas as consideram
descobertas espirituais, o que é um crasso engano, uma ilusão que é na verdade a
fonte de onde fluem suas afeições.
Aqui talvez valha a pena observar que, de tudo quanto se disse, está claro
como o sol do meio-dia que não há nada de espiritual ou divino naquilo que
muitas pessoas chamam de testemunho do Espírito de que elas são filhas de
Deus. Por conseguinte, as afeições construídas sobre esse fundamento são vãs e
ilusórias. O que muitos chamam de testemunho do Espírito outra coisa não é
senão sugestão e impressão imediatas do fato (oculto não fosse por essa
sugestão) de que foram convertidos ou se tornaram filhos de Deus e, por isso,
seus pecados foram perdoados e Deus lhes deu direito ao céu. Esse tipo de
conhecimento — ou seja, saber que determinada pessoa se converteu, libertou-se
do inferno e ganhou direito ao céu — não é por si nenhum conhecimento divino.
Para imprimir-se na mente, esse tipo de fato não requer nenhuma sugestão mais
elevada ou mais divina do que a que imprimiu na mente de Balaão os fatos de
que ele teve conhecimento. Para uma pessoa ter imprimido na mente o
entendimento de sua própria conversão, não é preciso nenhuma ideia ou
sensação superior à necessária para ela ter ciência da conversão de seu próximo,
impressa do mesmo modo. Deus, porém, se lhe aprouvesse, poderia imprimir na
mente de alguém o conhecimento de que perdoou os pecados do seu próximo e
deu-lhe o direito ao céu, assim como o de qualquer outro fato, sem transmitir
nada de sua santidade. A excelência e a importância do fato não impedem nem
um pouco a mente do homem natural de receber a sugestão e a impressão
imediatas desse fato. Balaão teve diretamente impressos na mente fatos tão
excelentes, importantes e gloriosos quanto esse sem nenhuma influência da
graça, semelhantes, particularmente, à vinda de Cristo com o estabelecimento de
seu reino glorioso, a bem-aventurança do Israel espiritual como beneficiário do
favor particular divino e a felicidade do povo, quer vivendo, quer morrendo.
Mesmo Abimeleque, rei dos filisteus, teve uma revelação do favor especial de
Deus para com determinada pessoa, o próprio Abraão (Gn 20.6,7). Ao que
parece, Deus também revelou a Labão seu favor especial para com Jacó (Gn
31.14; Sl 105.15). Se um homem verdadeiramente bom viesse a ter desse mesmo
modo uma revelação ou uma sugestão direta da parte de Deus a respeito do favor
divino para com seu próximo ou ele próprio, não haveria aí nenhum tipo superior
de influência; não seria mais que uma influência comum do Espírito de Deus,
assim como o dom de profecia e todas as revelações por sugestão imediata —
veja 1Coríntios 13.2. Conquanto seja verdade que um homem natural não pode
receber do Espírito de Deus a sugestão de que está convertido, porque isso não é
verdade, essa impossibilidade não decorre da natureza da influência nem se deve
à espécie de influência que sugere fatos tão excelentes ser elevada demais para
que ele seja seu alvo; decorre simplesmente da inverdade do fato a ser revelado.
A influência que sugere esse fato diretamente, quando verdadeiro, não é
diferente da que sugere diretamente outros fatos verdadeiros. Assim, o tipo e a
natureza da influência não estão acima do que o homem natural tem em comum
com o homem piedoso.
Contudo, trata-se de uma noção mesquinha e ignóbil do testemunho do
Espírito de Deus dado a seus filhos queridos supor que o tipo e a natureza da
influência do Espírito de Deus ao comunicar esse benefício sublime e glorioso
não têm nada mais do que é comum ao homem natural ou de que o ser humano é
capaz, apesar de completamente profano e filho do inferno, e, portanto, supor
que o benefício ou dom nada tem em si da natureza santa do Espírito de Deus,
nada de transmissão vital desse Espírito. Essa noção avilta tremendamente a
sublime e excelsa influência e ação do Espírito presentes no seu testemunho
verdadeiro.11 O que se chama testemunho do Espírito (Rm 8) é chamado em
outras passagens do Novo Testamento de selo do Espírito (2Co 1.22; Ef 1.13;
4.13). É uma alusão ao selo dos príncipes, aposto ao documento pelo qual
concediam maior honra, dignidade ou privilégios a um de seus súditos como
sinal de favor especial. Isso evidencia que a influência do Espírito, do Príncipe
dos príncipes, ao selar seus favoritos, está muito longe de ser comum. Prova
também que não há absolutamente nenhum efeito do Espírito de Deus de
natureza mais divina; nada de mais santo, mais peculiar, inimitável e mais
característico da divindade — assim como, dentre as coisas que pertencem a um
príncipe, nada é mais augusto que o selo real, nada mais sagrado, nada que
denote com tanta peculiaridade o que lhe pertence. Seu propósito é ser a
chancela mais peculiar e confirmação da autoridade real, um sinal de grande
distinção, mediante o qual o que procede do rei ou a ele pertence possa ser
diferenciado de tudo o mais. Assim, não resta dúvida de que o selo do grande
Rei do céu e da terra impresso no coração é sublime e santo por natureza, a
comunicação de um pouco da excelência da infinita fonte de glória e da beleza
divina. Não se trata em absoluto da mera informação de um fato secreto por
revelação ou sugestão, que é um tipo de influência do Espírito de Deus da qual
muitos filhos do Diabo têm sido alvo com frequência. O selo do Espírito é uma
espécie de efeito do Espírito de Deus no coração, e o homem natural, enquanto
permanece nessa condição, está tão longe de ter capacidade para ser alvo desse
efeito específico que não pode sequer ter noção ou ideia do que seja esse selo.
Isso está de acordo com Apocalipse 2.17: “Ao vencedor darei do maná
escondido e uma pedra branca, na qual está escrito um novo nome que ninguém
conhece, a não ser aquele que o recebe”. Temos todos os motivos para supor que
aqui se fala da mesma marca, garantia ou símbolo bendito do favor especial, que
em outras passagens é chamado de selo do Espírito.
O que tem enganado muitos na noção dessa influência do Espírito de Deus
de que estamos falando é a palavra “testemunho”, é o ser chamada de
testemunho do Espírito. Por isso, esses indivíduos a entenderam não como efeito
ou obra do Espírito no coração, efeito que lhes dá provas com as quais podem
afirmar que são filhos de Deus, mas, sim, como sugestão interior imediata —
como se Deus falasse interiormente ao indivíduo e lhe atestasse, com uma voz
secreta ou impressão, que este é seu filho. Tais pessoas deixaram de observar
como a palavra “testemunho” (e seu verbo correspondente, “testemunhar”)
costuma ser empregada no Novo Testamento. Na maioria das vezes, o termo não
significa a mera declaração de que algo é verdadeiro, mas, sim, refere-se à
apresentação de provas com as quais se pode concluir com certeza que é
verdadeiro. Por isso Hebreus 2.4 relata que Deus deu testemunho por meio de
sinais e prodígios, diversos milagres e dons do Espírito Santo. Ora, os milagres
de que se trata aqui são chamados testemunhos de Deus não porque têm natureza
de declarações, mas, sim, de indícios e provas. Por isso, lê-se em Atos 14.3:
“Entretanto, eles se demoraram ali por muito tempo, falando corajosamente
acerca do Senhor, que confirmava a palavra da sua graça, concedendo que por
suas mãos se realizassem sinais e feitos extraordinários”. E em João 5.36: “Mas
o testemunho que eu tenho é maior que o de João; porque as obras que o Pai me
concedeu realizar, essas mesmas obras que realizo, dão testemunho de que o Pai
me enviou”. E outra vez em 10.25: “As obras que eu faço em nome de meu Pai
dão testemunho de mim”. Do mesmo modo, 1João 5.8 afirma que a água e o
sangue dão testemunho não porque disseram ou afirmaram coisa alguma, mas
porque eram evidência e prova. Igualmente, as obras da providência de Deus, na
chuva e na estação dos frutos, são mencionadas como testemunho do ser e da
bondade de Deus, isto é, são evidências dessas coisas. Quando a Escritura fala
do selo do Espírito, trata-se de expressão que denota propriamente não uma voz
ou sugestão imediata, mas, sim, alguma obra ou efeito do Espírito deixada como
marca divina na alma, a fim de ser sinal inequívoco mediante o qual os filhos de
Deus sejam conhecidos. O selo dos príncipes era a marca característica de
príncipes; e o selo de Deus é mencionado como a marca de Deus: “Não
danifiqueis a terra, nem o mar, nem as árvores, até que selemos a testa dos servos
do nosso Deus” (Ap 7.3); “marca com um sinal a testa dos homens que suspiram
e gemem por causa de todas as abominações que se cometem no meio dela” (Ez
9.4). Quando Deus, mediante o Espírito, apõe seu selo no coração de um
homem, o Espírito imprime uma estampilha sagrada no coração desse indivíduo,
como se fosse o selo sobre a cera. E esse timbre sagrado, ou imagem impressa,
dá mostras claras à consciência de que seu portador é filho de Deus; é
exatamente isso que a Escritura chama de selo do Espírito, é o testemunho ou
prova do Espírito. Essa imagem estampada pelo Espírito no coração dos filhos
de Deus é a própria imagem de Deus. Esta é a prova pela qual eles são
reconhecidos como filhos de Deus: terem a imagem de seu Pai gravada no
coração pelo Espírito de adoção. Os selos antigos traziam gravados a imagem e o
nome da pessoa a quem pertenciam. Portanto, quando Cristo diz a sua esposa:
“Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço” (Ct 8.6), é
como se dissesse: deixa que meu nome e minha imagem permaneçam impressos
no teu coração e no teu braço. Era costume o selo desses nobres trazer consigo
sua imagem principesca, de modo que tudo quanto recebia o selo e a marca régia
ficava com a gravação da imagem do nobre. Esse era o meio pelo qual um
príncipe de outrora tinha sua imagem gravada nas joias e pedras preciosas de seu
acervo. No tempo de Cristo e dos apóstolos, a imagem de Augusto gravada
numa pedra preciosa era empregada como selo dos imperadores romanos.12 Os
santos são as joias de Jesus Cristo, o grande soberano, detentor e dono do
império universal. Tais joias têm estampadas em si o sinete real de Cristo, que é
o Espírito Santo. É isso indiscutivelmente que a Escritura quer dizer com a
expressão selo do Espírito, sobretudo quando é estampado com tanta clareza e
beleza a fim de deixar evidente aos olhos da consciência — que a Escritura
chama de “nosso espírito”. Trata-se de um efeito verdadeiramente espiritual,
sobrenatural e divino, de natureza santa, a transmissão da natureza e da beleza
divinas. O tipo de influência do Espírito que apõe e imprime esse selo no
coração é tal que homem natural nenhum pode receber coisa alguma de
semelhante natureza. É o mais sublime testemunho do Espírito que a alma pode
ter. Se pudesse haver um testemunho do Espírito por sugestão ou revelação
direta à alma, este não chegaria nem aos pés da imensa excelência e nobreza
desse tipo de influência mencionada, que lhe é tão superior quanto o céu é
superior à terra. Isso o Diabo não consegue imitar. Já no que diz respeito a uma
sugestão interior do Espírito de Deus, por uma espécie de voz secreta íntima
afirmando e revelando diretamente um fato, ele é capaz de fazer uma imitação
mil vezes mais convincente do que a imitação desse santo e divino efeito ou obra
do Espírito de Deus de que estamos falando.
Outra prova perficiente de que o selo do Espírito não é revelação alguma de
fato nenhum mediante sugestão direta, mas, sim, a própria presença da graça na
alma, é a Escritura chamá-lo de garantia do Espírito. Em 2Coríntios 1.22 está
bem claro que o selo do Espírito e a garantia do Espírito são a mesma coisa: “Foi
ele também quem nos selou e pôs o Espírito como garantia em nosso coração”. E
mais: “Nele, também vós, tendo ouvido a palavra da verdade, o evangelho da
vossa salvação, e nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da
promessa, que é a garantia da nossa herança, para a redenção da propriedade de
Deus, para o louvor da sua glória” (Ef 1.13,14). Ora, a garantia é parte adiantada
do dinheiro combinado, entregue em mãos, como sinal da quantia total, a ser
paga no devido tempo: uma parte da herança prometida dada agora em sinal da
plena posse futura do todo. Pois bem, essa espécie de transmissão do Espírito de
Deus, da natureza da glória eterna, é sem dúvida a comunicação mais excelsa e
mais excelente, é espiritual, santa e divina por natureza própria, muito além de
tudo quanto é corriqueiro e, portanto, muito acima de qualquer coisa semelhante
a inspiração ou revelação de fatos ocultos pelo Espírito de Deus, que muitos
homens naturais tiveram. Qual é a garantia e a instauração da glória senão a
própria graça, sobretudo em sua atividade mais expressiva e mais clara? Não é
profecia nem línguas, nem conhecimento, mas essa coisa divina mais excelente,
a “caridade que jamais se acaba”, ela é a prelibação e o início da luz, do dulçor e
da bem-aventurança do céu, aquele mundo de amor, ou caridade. A graça é a
semente da glória e o raiar dessa glória no coração; por isso, a graça é a garantia
da herança futura. O que é o começo e a garantia da vida eterna na alma senão a
vida espiritual; e o que é a vida espiritual senão a graça? A herança que Cristo
comprou para os eleitos é o Espírito de Deus — não em dons extraordinários,
mas em sua habitação essencial no coração, empenhando-se e compartilhando aí
segundo a sua própria natureza justa, santa e divina. Esse é o total da herança
que Cristo comprou para os eleitos, pois, no que tange à nossa redenção, as
coisas se constituem de tal modo que o Pai provê o Salvador, ou comprador, e a
compra se constitui nesse mesmo Salvador; o Filho é o comprador e o preço; e o
Espírito Santo é a grande bênção ou herança comprada, como se depreende de
Gálatas 3.13,14. Por isso, frequentemente se menciona o Espírito como a soma
das bênçãos prometidas no evangelho (Lc 24.49; At 1.4, 2.38,39; Gl 3.14; Ef
1.13). Essa herança foi o grandioso patrimônio que Cristo deixou para seus
discípulos e para a igreja em sua última vontade e testamento (Jo 14—16). É o
conjunto de todas as bênçãos da vida eterna que será entregue no céu
(Comparem-se João 7.37-39 e 4.14 com Apocalipse 21.6 e 22.1,17.). É mediante
a comunicação e a habitação essencial do Espírito que os santos têm toda a luz,
vida, santidade, beleza e alegria no céu; e é mediante a comunicação e habitação
vital desse Espírito que os santos têm toda a luz, vida, santidade, beleza e
consolação na terra — mas transferidas apenas em menor medida. A habitação
essencial do Espírito nos santos, em menor medida e começo modesto, é a
garantia, ou penhor, do Espírito, a garantia da herança futura e as primícias do
Espírito, como o apóstolo as designa em Romanos 8.22. Com a expressão
primícias do Espírito, sem dúvida o apóstolo se refere ao mesmo princípio
essencial da graça do qual vem falando em todo o trecho anterior do capítulo, e
chama de Espírito, em oposição à carne, ou corrupção [decadência]. Portanto,
essa garantia do Espírito e as primícias do Espírito — que, como se demonstrou,
são o mesmo que o selo do Espírito — são a comunicação e a influência
essencial, graciosa e santificadora do Espírito, e não alguma sugestão ou
revelação direta de fatos pelo Espírito.13
Com efeito, quando afirma em Romanos 8.16 que o Espírito testifica com o
nosso espírito que somos filhos de Deus, o apóstolo já se faz entender muito
bem, se tão somente atentarmos para suas palavras. O que se exprime nesse
segmento está ligado aos dois versículos precedentes e resulta do que o apóstolo
aí disse, como qualquer leitor pode perceber. Os versículos juntos afirmam:
“Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. Porque
não recebestes o espírito de escravidão, para viverdes, outra vez, atemorizados,
mas recebestes o espírito de adoção, baseados no qual clamamos: Aba, Pai. O
próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus”
(ARA). O que o apóstolo diz aqui, se tomarmos as declarações em conjunto,
mostra com clareza que, quando fala do testemunho ou prova do Espírito de que
somos filhos de Deus, ele se refere à habitação do Espírito em nós, o qual, como
espírito de adoção, nos leva a ter o espírito de filhos, induzindo-nos a comportar-
nos perante Deus como diante de um Pai. Esse é o testemunho, ou prova,
mencionado pelo apóstolo: de que somos filhos, temos o espírito de filhos, ou
espírito de adoção. O que é isso senão o espírito de amor? O apóstolo fala de
dois tipos de espírito: o espírito de escravo, ou espírito de servidão, que é o
medo; e o espírito de filho, ou espírito de adoção, que é o amor. Diz ele que não
recebemos o espírito de servidão, isto é, de escravos, que é espírito de medo;
mas recebemos o mais nobre e cândido espírito de filhos, espírito de amor, que
nos estimula a recorrer naturalmente a Deus como crianças pequenas a um pai e
a nos comportar como filhos em relação a Deus. Essa é a prova, ou testemunho,
que o Espírito de Deus nos dá de que somos filhos seus. Esse é o sentido claro
das palavras do apóstolo. Aqui também, por certo, ele está se referindo
exatamente ao mesmo meio de lançar fora a dúvida, o medo e o espírito de
escravidão de que o apóstolo João fala em sua primeira epístola, a saber, pelo
predomínio do amor, que é o espírito de filho (1Jo 4.18). O espírito de
escravidão age por medo, pois o escravo teme a vara; mas o amor clama “Aba,
Pai”, estimula-nos a procurar Deus e a nos comportar como crianças pequenas
perante ele; o amor nos dá prova clara de nossa união com Deus, na condição de
filhos seus, e assim lança fora o medo. Logo, pelo que se percebe, o testemunho
do Espírito que o apóstolo menciona está longe de ser um sussurro, uma
sugestão ou revelação direta, mas é aquele efeito santo e cheio de graça do
Espírito de Deus no coração dos santos, a disposição e o estado de ânimo de
filhos, os quais se manifestam num doce amor filial a Deus, amor que lança fora
o medo e o espírito de escravidão.
O mesmo fica evidente em todo o contexto: o apóstolo afirma clara e
reiteradamente que o Espírito habita o coração dos santos como princípio da
graça em oposição à carne, ou corrupção. Ele faz o mesmo nas breves palavras
introdutórias da passagem que estamos analisando, o versículo 13: “Porque, se
viverdes segundo a carne, morrereis; mas, se pelo Espírito mortificardes as
práticas do corpo, vivereis” (Rm 8.13).
Com efeito, não me resta mais dúvida de que o apóstolo tem respeito
especial pelas ações mais vigorosas do espírito da graça, ou espírito de amor, ou
espírito de filho, pois é somente o perfeito amor, ou o amor sólido, que
testemunha ou prova que somos filhos, a fim de lançar fora o medo e nos libertar
completamente do espírito de escravidão. O exercício vigoroso e vivaz do
espírito de amor pueril, evangélico e humilde por Deus dá prova clara da atitude
filial da alma para com ele, atitude que dá muito contentamento a essa alma.
Além disso, apesar de muito longe de ser verdade que a alma nesse caso julga
somente por um testemunho imediato, direto, sem nenhum sinal ou prova —
pois ela julga segundo o maior sinal e a prova mais clara, e com a garantia de
ambos —, neste caso, porém, o santo não tem necessidade de múltiplos sinais
nem de longos raciocínios sobre eles. Embora a perspectiva de sua união de
dependência com Deus e do favor divino para com ele não deixem de ter um
veículo, a saber, o próprio amor de Deus, ainda assim sua perspectiva da união
do seu coração com Deus é imediata. O amor, o vínculo da união, é visto
intuitivamente: o santo enxerga e percebe com clareza a união entre sua alma e
Deus; é uma união tão forte e tão cheia de vida que lhe é impossível duvidar.
Como pode duvidar, se tem com Deus uma relação de filho; se percebe
nitidamente a união filial entre Deus e sua alma, e por isso clama sem medo e,
por assim dizer, natural e inevitavelmente: “Aba, Pai”?
Quando o apóstolo afirma que o Espírito testifica com o nosso espírito, aqui
“nosso espírito” significa a nossa consciência, que Provérbios 20.17 chama de
“espírito do homem”: “O espírito do homem é a lâmpada do SENHOR; ela
esquadrinha completamente o mais íntimo do coração”. Em outra parte, lemos
sobre o testemunho desse nosso espírito: “Porque a nossa glória é esta: o
testemunho da nossa consciência” (2Co 1.12, ARA). Também 1João 3.19,20 e
21 afirmam: “Nisto conheceremos que somos da verdade e tranquilizaremos
nosso coração diante dele; pois, se o coração nos condena, Deus é maior que
nosso coração; ele conhece todas as coisas. Amados, se o coração não nos
condena, temos confiança para com Deus”. Quando o apóstolo Paulo diz que o
Espírito de Deus testifica com o nosso espírito, não se deve entender que há dois
espíritos separados e independentes que testificam (dão testemunho) separada e
independentemente, mas, sim, que por meio de um recebemos o testemunho do
outro. O Espírito de Deus dá prova infundindo e espalhando no coração o amor
de Deus, o espírito de filho; e o nosso espírito, ou nossa consciência, recebe e
declara esse testemunho para o nosso regozijo.
Muitos têm sido os males decorrentes dessa noção falsa e enganadora do
testemunho do Espírito — de que este seria uma espécie de voz interior, sugestão
ou declaração divina interna a um homem de que este é amado dele, está
perdoado e é eleito, ou algo assim, às vezes acompanhada de um texto da
Escritura, às vezes não; e muitas têm sido as afeições falsas e vãs (conquanto
intensas) que nasceram disso. É de lamentar que multidões de almas se hajam
perdido eternamente por causa disso. Por esse motivo insisti neste tema.
Mas agora passo a considerar uma segunda característica das afeições da
graça.

II. O primeiro fundamento objetivo das afeições da graça é a


natureza de amabilidade e excelência transcendentais das
coisas divinas tais como estas são em si mesmas, e não
alguma suposta relação que tenham com o indivíduo ou
com seu próprio interesse
Digo que a natureza de excelência suprema das coisas divinas é o primeiro,
principal e original fundamento objetivo das afeições espirituais dos santos
verdadeiros porque não creio que toda relação das coisas divinas com elas
mesmas e com seus interesses particulares sejam de todo excluídas de qualquer
influência nas afeições da graça, porque essas relações podem ter, e de fato têm,
influência secundária e subsidiária sobre as afeições genuinamente santas e
espirituais, como demonstrarei a seguir.
Já foi dito anteriormente que a afeição do amor é, por assim dizer, a origem
de todas as afeições e, sobretudo, que o amor cristão é a origem de todas as
afeições da graça. A excelência divina e a glória de Deus e de Jesus Cristo, o
Verbo de Deus, as obras de Deus e os caminhos dele, entre outros bens, são o
principal motivo por que o santo verdadeiro ama essas coisas, e não nenhum
suposto interesse que tenha por elas, tampouco benefício algum que delas tenha
recebido ou venha a receber, nem alguma outra suposta relação que elas tenham
com algum interesse particular — enfim nada que se possa afirmar com
propriedade tratar-se de amor-próprio o fundamento primeiro de seu amor por
tais coisas.
Dizem alguns que todo amor nasce do amor-próprio e que, pela natureza das
coisas, é impossível homem algum ter amor a Deus ou a qualquer outro ser se
esse amor não tiver por fundamento o amor-próprio. Com toda humildade,
porém, ouso afirmar que é por falta de reflexão que dizem uma coisa dessas.
Alegam que quem ama a Deus e, por isso, deseja a glória e o contentamento que
nele há, tão somente os deseja para sua felicidade própria. Para tal indivíduo, a
glória de Deus, bem como a contemplação e o fruir de suas perfeições, são-lhe
agradáveis e costumam fazê-lo feliz; ele deposita nelas a sua felicidade e as
deseja como coisas que, se obtidas, lhe serão prazerosas ou o encherão de
satisfação e alegria, tornando-o feliz. Por isso, afirmam, é por amor-próprio ou
por anseio pela própria felicidade que essa pessoa anela seja Deus glorificado e
ela contemple e frua as gloriosas perfeições divinas. Nesse caso, porém, os que
assim pensam deveriam refletir um pouco mais e indagar de que modo o homem
veio a depositar sua felicidade na glorificação de Deus e no contemplar e fruir as
perfeições divinas. Sem dúvida, a busca da glória de Deus e a contemplação de
suas perfeições lhe são tão agradáveis que ele deposita nelas sua maior
felicidade, por isso as deseja assim como deseja sua própria felicidade. Mas
como essas coisas vieram a ser tão agradáveis para esse indivíduo a ponto de o
fazer pensar que sua maior felicidade é glorificar a Deus, e mais outras atitudes
semelhantes? Isso não é fruto do amor? O ser humano precisa primeiro amar a
Deus, ou ter o coração unido ao dele, para poder apreciar e julgar o bem de Deus
como se fora seu próprio bem e anelar o glorificar a Deus e o alegrar-se nele
como anela sua própria felicidade. Não tem peso a alegação de que, por ter o
coração unido ao de Deus em amor, o indivíduo passa, em consequência disso, a
desejar a glória e o contentamento de Deus como se estes fossem sua própria
felicidade e, por conseguinte, o anelo dessa felicidade própria é necessariamente
a causa e o fundamento desse amor, a não ser que seja um argumento de peso
que, por ter o pai gerado um filho, seu filho certamente o gerou. Se uma pessoa
ama a Deus e tem o coração tão unido ao dele a ponto de considerar Deus o seu
principal bem e o bem de Deus como seu próprio bem, disso será consequência e
fruto que até o amor-próprio, ou o amor por sua própria felicidade, a fará desejar
glorificar e fruir a Deus. Não se depreende disso que esse exercício de amor-
próprio precedeu seu amor a Deus nem que seu amor a Deus foi fruto e
consequência desse exercício. Algo completamente diferente de amor-próprio
talvez tenha sido a causa como, por exemplo, uma mudança de suas concepções
e dos prazeres de seu coração mediante a qual o indivíduo percebe a beleza, a
glória e o supremo bem da natureza divina tal como ela é em si mesma. Isso
pode ser o que em primeiro lugar lhe atraia o coração para Deus e o una ao
coração de Deus antes de qualquer reflexão acerca de seu próprio interesse ou
felicidade, conquanto, depois, e em consequência disso, ele necessariamente
busque em Deus seu interesse e sua felicidade.
Existe um tipo de amor, ou afeição, que o ser humano pode ter por pessoas
ou coisas que nasce tão somente do amor-próprio. É uma relação preconcebida
com ele mesmo, o respeito que alguém já lhe tenha manifestado, algum
benefício já recebido ou prometido — algo que é na verdade o fundamento
primeiro de seu amor e a fonte de onde brota toda sua afeição. É algo que vem
antes de todo e qualquer deleite ou prazer nas qualidades e natureza inerente do
ser amado, como beleza e atratividade. Quando o primeiro elemento que
estimula a benevolência de uma pessoa para com outra é a admiração nesta de
qualidades e propriedades que lhe parecem amáveis por si mesmas, e a detentora
delas, por causa disso, é digna de estima e boa vontade, o amor surge de maneira
muito diferente da que nasce de um presente que a outra lhe deu ou prometeu —
assim como um juiz ama e favorece aquele que o subornou — ou surge da
ligação que a pessoa imagina a outra tenha com ela, como alguém que ama outro
alguém porque o considera como filho. Quando o amor pelo outro nasce assim,
na verdade nasce pura e simplesmente do amor-próprio.
Essa espécie de afeição por Deus ou por Jesus Cristo, que nasce tão só do
amor-próprio, não pode ser um amor genuinamente espiritual, da graça, como se
depreende do que já foi dito; pois o amor-próprio é um princípio de todo natural,
presente tanto no coração de anjos quanto de demônios; portanto, é impossível
que algo que resulte dele seja sobrenatural e divino, tal como foi mencionado
antes.14 Sobre essa espécie de amor, Cristo afirma categoricamente que não é
nem um pouco superior ao amor dos ímpios. Lemos em Lucas 6.32: “Se amardes
quem vos ama, que mérito há nisso? Pois os pecadores também amam quem os
ama”. E o próprio Diabo sabia que esse respeito tão mercenário por Deus, com
base apenas em benefícios recebidos ou prometidos (o que dá no mesmo), não
tem valor nenhum aos olhos do próprio Deus. Doutra guisa, ele jamais teria
apresentado diante de Deus tamanha calúnia contra Jó, como lemos em Jó
1.9,10: “Será que Jó teme a Deus sem intenções? Por acaso tu não o tens
protegido de todos os modos, a ele, sua família e tudo que ele tem?” Deus
tampouco jamais teria admitido implicitamente a pertinência da objeção se a
acusação fosse verdadeira, permitindo que a questão fosse a julgamento e que Jó
fosse tratado assim, revelando-se então se o respeito dele por Deus tinha
motivações mercenárias ou não, e pondo sobre essa questão a prova da
sinceridade e da bondade do respeito de Jó.
Não faz sentido pensar nada diferente de que o fundamento principal do
verdadeiro amor a Deus é que ele é amável por si mesmo, ou digno de ser
amado, ou a suprema amabilidade de sua natureza. É isso sem dúvida que o faz
atrativo acima de tudo. O que faz uma pessoa, ou qualquer outra criatura,
sobremodo amável é a sua excelência. Logo, o que faz Deus amável acima de
qualquer coisa, e indiscutivelmente deve ser a base principal do verdadeiro amor,
é sua excelência. A natureza de Deus, ou sua divindade, é infinitamente
excelente, é a própria beleza, a própria luz e a própria glória em infinitude.
Como, entretanto, pode ser verdadeiro um amor dessa natureza excelente e
amável que não se assente sobre o alicerce de sua verdadeira amabilidade?
Como pode ser verdadeiro o amor à beleza e ao esplendor se ele não tiver como
causa beleza e esplendor? Como pode ser verdadeira a estima por algo
infinitamente digno e precioso se não for por causa de sua dignidade e
preciosidade? A excelência infinita da natureza divina tal como é em si mesma é
o verdadeiro fundamento de tudo o que é bom na pessoa de Deus, em todos os
sentidos; mas como alguém pode amar a Deus de verdade e com retidão sem o
amar por causa de sua excelência, que é a base de tudo quanto nele há de bom e
desejável? A afeição por Deus daqueles cujo interesse está sobretudo no que de
bom podem receber dele é uma afeição que começou pelo lado contrário. O
interesse deles por Deus se restringe apenas ao máximo do que provém da
torrente do bem divino, no ponto em que ela lhes tange e atende seus desejos;
eles não têm consideração nenhuma pela glória infinita da natureza divina, que é
o bem original e a verdadeira origem de todo bem, a fonte primeira de toda
amabilidade e, portanto, o fundamento primeiro de todo amor verdadeiro.
O princípio natural do amor-próprio pode ser o fundamento de afeições
intensas por Deus e por Cristo, mesmo sem contemplar nada da beleza e da
glória da natureza divina. Existe certa gratidão que não passa de mera qualidade
natural. A gratidão, assim como a ira, é uma das afeições naturais da alma
humana; existe a gratidão que provém do amor-próprio, exatamente como
provém a ira. A ira do ser humano é uma afeição suscitada contra o outro, ou em
oposição ao outro, por algo no outro que lhe fira o amor-próprio; a gratidão é
uma afeição do ser humano pelo outro por causa do amor deste, pelo bem que
ele proporciona ou algo dele que lhe satisfaça o amor-próprio. Também pode
haver um tipo de gratidão sem nenhum amor verdadeiro, assim como pode haver
ira sem ódio, como a dos pais que se enfurecem com os filhos e, ao mesmo
tempo, não deixam de ter constante e forte amor por eles. Essa gratidão é o
princípio que atua nos homens maus, segundo a palavra de Cristo a esse respeito
no capítulo 6 de Lucas, onde afirma que os pecadores também amam quem os
ama. Nas palavras de Jesus, essa gratidão ocorre até aos publicanos, que eram o
tipo de homens mais carnais e decadentes (Mt 5.46). É exatamente esse o
princípio em que se baseia a propina dada aos juízes injustos, e é um princípio
que até os animais exercem: o cão ama o dono que o trata bem. E vemos
inúmeros exemplos em que a simples natureza basta para provocar gratidão nas
pessoas ou para lhes afetar o coração com agradecimento às outras por gentilezas
recebidas; às vezes até por pessoas de quem são normalmente inimigas. Saul foi
influenciado fortemente várias vezes pela gratidão para com Davi por este ter-lhe
poupado a vida, mas nem por isso deixou de ser seu inimigo. Assim como os
seres humanos, pela simples natureza, podem ter esse tipo de afeição por seus
semelhantes, também podem tê-lo por Deus. Nada impede que o mesmo amor-
próprio funcione do mesmo modo em relação a Deus e em relação aos homens.
De fato, temos exemplos claros na Escritura, como o dos filhos de Israel, que
cantaram louvores a Deus na margem do mar Vermelho, mas logo se esqueceram
das obras dele; e o de Naamã, o sírio, cujo impacto da cura milagrosa de sua
lepra o levou a empenhar o coração a partir de então em adorar somente o Deus
que o curara, exceto quando a adoração o deixasse vulnerável a ter seus
interesses temporais arruinados. Nabucodonosor também foi fortemente afetado
pela bondade de Deus para com ele, tendo lhe devolvido o juízo e o reino depois
de fazê-lo habitar com os animais selvagens.
Sendo, portanto, um princípio natural, a gratidão torna a ingratidão ainda
mais vil e hedionda, pois manifesta a assustadora prevalência da maldade, uma
vez que esta supera e suprime os melhores princípios da natureza humana —
Romanos 2.31 menciona como prova de alto grau de iniquidade de muitos
pagãos que eles não têm afeições naturais. A falta de gratidão, ou afeição natural,
ser evidência de alto grau de decadência moral não prova que toda gratidão e
toda afeição naturais têm o caráter de virtude ou de graça salvadora.
O amor-próprio, mediante o exercício de gratidão meramente natural, pode
ser em muitos aspectos o fundamento de uma espécie de amor a Deus. De uma
noção falsa acerca de Deus, adquirida pela educação ou de algum outro modo
absorvida, pode surgir uma espécie de amor — por exemplo, como se Deus fosse
somente bondade e misericórdia, sem nada de justiça e vingança; ou como se o
exercício de sua bondade fosse obrigatório, e não livre e soberano; ou como se a
bondade de Deus dependesse do que há nas pessoas, como se estas pudessem
forçá-la. Com base em princípios como esses, as pessoas podem amar a um Deus
criado na imaginação delas mesmas e, por isso, estar longe de amar o Deus que
reina nos céus.
De novo, o amor-próprio pode ser o alicerce de alguma afeição dos seres
humanos a Deus por causa da falta de conhecimento de seu verdadeiro estado
perante ele e por ausência de acusação da consciência que os faça entender
quanto e com que gravidade provocaram a ira de Deus; eles não têm noção
alguma da hediondez do pecado contra Deus nem da tremenda e infinita
oposição da santa natureza de Deus contra ele. Por isso, tendo formado na mente
um Deus que lhes convém, um Deus semelhante a eles, que os favorece e
concorda com eles, podem até gostar muito dele e ter-lhe algum tipo de amor.
Porém, estão muito longe de amar o Deus verdadeiro. As afeições humanas
podem inclinar-se para Deus por amor-próprio, por causa de benefícios externos
extraordinários dele recebidos, como ocorreu com Naamã, Nabucodonosor e
com os filhos de Israel no mar Vermelho.
Repita-se mais uma vez que a afeição muito elevada das pessoas por Deus
pode nascer, e muitas vezes de fato nasce, da opinião delas acerca do favor e do
amor de Deus por elas como principal fundamento da afeição que têm por ele.
Depois do despertamento e da angústia causados pelo medo do inferno, muitas
têm repentina consciência — por impressão na mente, sugestão direta, ou
qualquer outra maneira, acompanhada ou não de textos da Escritura — de que
Deus as ama, perdoou-lhes os pecados e as fez filhas dele. Essa é a causa
principal de derramarem suas afeições para Deus e Jesus Cristo. A partir daí, e
com base nessa ideia, talvez Cristo lhes pareça excelente, e muito de Deus venha
a lhes ser adorável. Indagadas se Deus é adorável e atrativo de per si, essas
pessoas talvez respondam prontamente que sim. Na verdade, contudo, se a
questão fosse analisada a fundo, esse bom conceito acerca de Deus foi comprado
e pago sem que elas sequer tivessem condições para isso, mediante as dádivas
típicas e infinitas que imaginavam ter recebido de Deus. Elas concedem que
Deus seja amável de per si por nenhum outro motivo a não ser que lhes perdoou
os pecados, aceita-as e ama acima de muitas outras no mundo; que ele se
empenha para fazer o melhor uso de toda sua sabedoria e seu poder infinitos para
as preferir, dignificar e exaltar, e fará por elas o que desejarem. Uma vez que
estão firmes nesse entendimento, é fácil reconhecerem que Deus e Cristo são
adoráveis e gloriosos, e assim os admirar e exaltar. É-lhes fácil reconhecer que
Cristo é uma pessoa amável, a melhor do mundo, se estão cheias de convicção
de que ele, embora Senhor do universo, está tomado de amor por elas, tem o
coração consumido por elas, estima-as muito mais do que à maioria de seus
semelhantes, ama-as desde a eternidade, morreu por elas e fará que reinem com
ele na glória eterna do céu. Quando isso ocorre a pessoas carnais, a
concupiscência delas fará Cristo lhes parecer adorável. O próprio orgulho as
tornará favoráveis àquilo a que chamam Cristo, pois o ser humano egoísta e
orgulhoso naturalmente considera amável tudo quanto contribui para seus
interesses e satisfaz suas ambições.
Tal como começam, as pessoas desse jaez continuam. Têm as afeições
aumentadas de tempos em tempos, apoiadas sobretudo no fundamento do amor-
próprio e da presunção do amor de Deus por elas. Muitas têm uma noção falsa
da comunhão com Deus, como se esta acontecesse por impulsos, sussurros e
representações externas, surgidos diretamente na imaginação delas. Elas têm
tudo isso com frequência e entendem tratar-se de manifestações do grande amor
de Deus por elas, evidências de sua exaltação acima do resto da humanidade; por
isso as afeições delas são constantemente avivadas.
Nos santos, por sua vez, a prática do amor genuíno e piedoso surge de outra
maneira. Eles não entendem primeiro que Deus os ama e depois percebem que
ele é amável, mas, sim, primeiro percebem que Deus é amável, e Cristo,
excelente e glorioso, têm o coração tomado por essa percepção e, a partir daí,
sua prática do amor, nascida sobretudo desse entendimento, costuma ser
constante. Só depois, por conseguinte, eles percebem o amor de Deus e seu
imenso favor para com eles.15 As afeições do santo começam com Deus; o amor-
próprio delas participa apenas por consequência, secundariamente. As falsas
afeições, pelo contrário, começam no eu; o reconhecimento de excelência em
Deus e a influência dessa excelência são apenas consequência acessória. Deus é
o alicerce mais profundo do amor do santo verdadeiro; o amor pela excelência
da natureza divina é o fundamento de todas as afeições que vêm depois, em
relação às quais o amor-próprio tem o papel de servo. O hipócrita, ao contrário,
põe-se na base de tudo, como principal alicerce, e acrescenta Deus como uma
superestrutura; mesmo o próprio reconhecimento da glória de Deus depende da
consideração por seus interesses particulares.
A influência do amor-próprio não somente faz que as pessoas se inclinem
para a bondade de Deus com elas individualmente, mas também para a bondade
de Deus com elas como participantes de uma comunidade. O princípio natural
do amor-próprio, sem mais nenhum outro, é suficiente para fazer alguém se
preocupar com nação a que pertence. Por exemplo, na guerra atual o amor-
próprio pode levar o homem natural a regozijar-se com os êxitos de nossa nação
e a lamentar-se pelos reveses, sendo eles interessados como membros de um
corpo. Assim, os mesmos princípios naturais podem estender-se mais além, até à
humanidade inteira, e o indivíduo pode importar-se com os benefícios que os
habitantes da Terra têm a mais que os habitantes de outros planetas, se
soubéssemos da existência deles e como vivem. Do mesmo modo, esse princípio
pode fazer o homem natural se comover pelos benefícios que a humanidade
recebeu em comparação com os anjos caídos. Logo, por esse princípio, as
pessoas podem ficar bastante comovidas com a maravilhosa bondade de Deus
para com a humanidade, sua imensa bondade de ter entregado o Filho para
morrer pelo homem decaído, com o maravilhoso amor de Cristo ao padecer
tantos sofrimentos por nós, com tamanha glória, como sabem, que Deus
preparou no céu para nós. Percebendo-se como pessoas preocupadas e
interessadas, por serem algumas dessas espécies de criaturas tão grandemente
favorecidas, o mesmo princípio de gratidão natural as pode influenciar nesse
caso, como influencia em relação aos benefícios individuais.
Tudo o que acabei de dizer, porém, não significa de modo algum que toda
gratidão a Deus seja meramente natural e que não existe gratidão espiritual, esta
uma afeição santa e divina. Significa apenas que existe uma gratidão meramente
natural e que, quando uma pessoa tem afeições por Deus única ou
principalmente por causa dos benefícios recebidos, suas afeições nada mais são
que o exercício dessa gratidão natural. Sem dúvida, existe a gratidão da graça,
que é muito diferente de toda essa gratidão que o homem natural sente. Difere
nos aspectos a seguir:

1. A verdadeira gratidão ou reconhecimento a Deus por sua bondade conosco


provém de um fundamento lançado antes, o fundamento do amor a Deus pelo
que ele é em si; mas a gratidão natural não tem esse alicerce prévio. As moções
da graça de afeição por gratidão a Deus pela bondade recebida sempre vêm de
uma reserva de amor já existente no coração, criada em primeiro lugar sobre
outras bases, a saber, a própria excelência de Deus; por isso as afeições são
predispostas a fluir nas manifestações da bondade de Deus. Uma vez que viu a
glória de Deus, teve o coração tomado por ela e, por isso, foi cativado pelo amor
a Deus, o coração do santo se enternece e facilmente se comove com a bondade
recebida. Mesmo que um ser humano não tenha amor algum por outro, ainda
assim a gratidão pode ser provocada por alguma extraordinária bondade, como
ocorreu a Saul em relação a Davi. Não se trata, porém, do mesmo tipo de
gratidão tido por uma pessoa cujo coração já estava tomado de grande estima e
amor por um amigo querido. Esse coração já pleno de estima e amor se torna,
por isso mesmo, enternecido para com o amigo e se deixa tomar com mais
facilidade pela gratidão e por outras afeições. O amor-próprio não está excluído
da gratidão da graça; os santos amam a Deus por causa de sua bondade para com
eles: “Amo o SENHOR, pois ele ouve o clamor da minha súplica” (Sl 116.1).
Entretanto, algo mais está incluído, e outro amor prepara o caminho e lança os
fundamentos para essas afeições da graça.

2. Na gratidão proveniente da graça, as pessoas são movidas pelos atributos


da bondade e da livre graça de Deus não só por estarem nelas inseridas ou por
essas lhes influenciarem os interesses, mas por serem parte da glória e da beleza
da natureza de Deus. A maravilhosa e inigualável graça de Deus, que se
manifesta na obra da redenção e fulgura na face de Jesus Cristo, é infinitamente
gloriosa de per si e assim se manifesta aos anjos; é parte excelente da perfeição
moral e da beleza da natureza de Deus. A graça divina é gloriosa quer seja
exercida para conosco, quer não. O santo que tem por ela reconhecimento e
gratidão sabe que é assim e nisso se apraz, conquanto sua participação dessa
graça ajude ainda mais a fazê-lo comprometer a mente e estimular sua atenção e
afeições. Nisso o amor-próprio ajuda como um servo subordinado a princípios
mais elevados, levando a mente adiante na visão e contemplação, captando e
fixando a atenção e aumentando a alegria e o amor. A bondade de Deus para com
os santos é um espelho posto por Deus mesmo diante deles para que contemplem
a beleza do atributo de sua bondade. Por esse meio, as ações e demonstrações do
atributo são aproximadas dos santos e postas diante de seus olhos, de modo que,
na santa gratidão a Deus, a relação que nosso interesse tem com a bondade
divina não é a principal causa de sentirmos afeição por ela; esse alicerce já havia
sido posto antes no coração, naquela reserva de amor a Deus por sua própria
excelência, alicerce que enternece o coração e o faz suscetível de receber as
impressões da bondade divina para conosco. Nossos interesses particulares ou os
benefícios que recebemos não são nem sequer a principal razão objetiva da
presente manifestação de afeições; a bondade de Deus, sim, é a principal causa,
pois é parte da beleza de sua natureza. Contudo as manifestações desse adorável
atributo posto diretamente diante dos nossos olhos, atuando em nosso favor, é
que são a verdadeira e especial causa da atenção da mente para essa beleza,
nesse momento, e servem para fixar a atenção e elevar as afeições.
Quiçá alguns estejam prontos para se opor a tudo que acabou de ser dito com
base em 1João 4.19: “Nós amamos porque ele nos amou primeiro”, como se isso
quisesse dizer que o amor de Deus pelos santos genuínos é o fundamento
primeiro do amor a Deus por parte desses santos.
Respondendo à objeção, digo que a ideia do apóstolo João nessa assertiva é
engrandecer o amor de Deus por nós, mostrando que ele nos amou enquanto nós
não tínhamos amor nenhum por ele, como fica patente para qualquer um que
compare esse versículo e os dois subsequentes com os versículos 9, 10 e 11 do
mesmo capítulo. O apóstolo prova que Deus nos amava quando ainda não o
amávamos alegando que o amor de Deus pelos eleitos é o fundamento do amor
destes por ele. A saber: (1) O amor dos santos por Deus é fruto do amor de Deus
por eles, pois é dom deste amor. Deus lhes deu espírito de amor por ele porque
os amava desde a eternidade. Nesse aspecto, o amor de Deus por seus eleitos é o
fundamento primeiro do amor deles por ele, pois é a base da regeneração e de
toda a obra da redenção deles. (2) As ações de seu amor maravilhoso por seres
pecadores reveladas por Deus por meio de Jesus Cristo na obra de redenção
constituem uma das principais manifestações da glória de sua perfeição moral,
tanto para os anjos quanto para os seres humanos; por isso é o principal
fundamento objetivo do amor de ambos os seres a Deus; e isso é bem coerente
com o que foi dito antes. (3) O amor de Deus por um eleito, descoberto no
momento da conversão, é para essa pessoa uma grande manifestação da
perfeição moral e da glória de Deus, bem como a ocasião certa do surgimento da
gratidão santa, de acordo com o que já foi dito. Que os santos, no que isso diz
respeito, amem a Deus porque ele os amou primeiro responde plenamente à
dúvida quanto ao propósito do apóstolo nessa passagem. Desse modo, não se
pode extrair daí nenhum bom arrazoado contra a afirmação de que o amor da
graça e espiritual no coração dos santos nasce sobretudo da excelência das coisas
divinas, tal como são por si mesmas, não de nenhuma suposta relação que estas
tenham com os interesses particulares dos santos.
Assim, tal como é com o amor dos santos, também é com a alegria, a
satisfação e o prazer espiritual deles: o fundamento primeiro não é nenhum
conceito ou consideração do interesse deles pelas coisas divinas, mas consiste
antes de tudo no doce regozijo que têm na mente com a ideia da contemplação
da divina e santa beleza das coisas divinas como elas são em si. Esta, com efeito,
é a principal diferença entre a alegria do hipócrita e a alegria do verdadeiro
santo. O primeiro se alegra em si mesmo, seu eu é o fundamento essencial de sua
alegria; o segundo se alegra em Deus. A mente do hipócrita se agrada e se deleita
acima de tudo com seus próprios privilégios e com a felicidade que ele supõe ter
alcançado ou virá a alcançar. A mente dos santos verdadeiros tem inefável prazer
na suave ideia da natureza atrativa e gloriosa das coisas de Deus. Essa é a origem
de toda a sua satisfação e a nata dos seus prazeres; é a alegria de suas alegrias.
Essa doce e entusiástica ocupação da atenção dos santos na contemplação da
bela e prazerosa natureza das coisas divinas é o fundamento da alegria que eles
têm em seguida, depois de perceber que elas lhes pertencem. As afeições dos
hipócritas, entretanto, ocorrem em ordem oposta: eles primeiro se regozijam e se
animam porque Deus os fez assim tão especiais, favorecidos por ele; em seguida,
com base nisso, Deus lhes parece, de certo modo, amável.
O fundamento primeiro do prazer que o santo verdadeiro tem em Deus é a
própria perfeição deste, e o fundamento primeiro do prazer que ele tem em
Cristo é a própria beleza do Mestre. Para o santo, Cristo é de per si o principal, o
mais amável e completamente adorável, entre milhares e milhares. O caminho da
salvação por meio de Cristo é um percurso prazeroso para o verdadeiro santo,
pois nele encontra as doces e admiráveis manifestações da perfeição divina: a
santa doutrina do evangelho, mediante as quais Deus é exaltado, e o homem,
humilhado; a santidade é honrada e incentivada, e o pecado, completamente
aviltado e desestimulado; e o amor independente e soberano se manifesta —
todas essas doutrinas lhes são gloriosas aos olhos e doces ao paladar, antes
mesmo de qualquer noção de seu interesse particular nessas coisas. Com efeito,
os santos se regozijam no interesse que têm em Deus e no conhecimento de que
Cristo é deles; nisso têm plena razão, mas essa não é a origem primeira da
alegria deles. Os santos se alegram primeiro em Deus por ele ser glorioso e
excelente em si mesmo, e depois, secundariamente, se alegram porque um Deus
tão glorioso é deles. Primeiro têm o coração tomado pela suavidade e pelo dulçor
ao contemplarem a excelência de Cristo e de sua graça, e a beleza do meio de
salvação, que é ele; depois encontram uma alegria subsidiária porque tão
excelente Salvador e tão excelente graça lhes pertencem.16 Porém, o que para o
santo é a superestrutura, para o hipócrita é o alicerce. Quando os hipócritas
ouvem falar das maravilhas do evangelho, do imenso amor de Deus por ter
enviado seu Filho, do amor de Cristo capaz de entregar-se à morte pelos
pecadores e das excelentes bênçãos que Cristo comprou com seu sangue e
prometeu aos santos; quando eles ouvem tudo isso ser proclamado com
eloquência e paixão, podem mesmo escutar com muito prazer e enlevar-se com a
mensagem. No entanto, quando se analisa sua alegria, descobre-se que ela não
tem outro fundamento senão este: eles consideram deles todas essas coisas, e
isso os exalta, porque gostam muito de ouvir falar do grande amor de Cristo, que
tão imensamente diferencia alguns dos outros, pois o amor-próprio, e mesmo o
orgulho, faz que tenham afeição por essa grande diferença entre eles e os outros.
Não é de admirar, diante dessa confiante opinião que têm sobre a condição da
própria alma, que eles se sintam bem com tal doutrina e se agradem ao máximo
de saber quanto Deus e Cristo os consideram. Portanto, a alegria deles é na
verdade uma alegria neles mesmos, não em Deus.
Visto que os hipócritas se alegram neles mesmos, disso se depreende que,
em seus regozijos e enlevos, eles em geral olham para si próprios. Depois de
receber o que chamam de revelações ou experiências espirituais, têm a alma
arrebatada e passam a admirar as próprias experiências. O que os comove e os
enleva em primeiro lugar não é a glória de Deus nem a beleza de Cristo, mas a
beleza da experiência deles. Não param de pensar consigo: Que bela
experiência! Que grande revelação eu tive! Que coisas maravilhosas conheci! E
assim põem as experiências no lugar de Cristo e de sua beleza e plenitude, em
vez de se regozijarem em Cristo Jesus, regozijam-se nas suas próprias
experiências admiráveis; em vez de alimentar e banquetear a alma com as coisas
que estão fora deles — a saber, a atratividade intrínseca, renovadora e agradável
das verdades apresentadas no evangelho —, desviam os olhos delas ou, no
máximo, consideram-nas secundárias, pois o objeto que lhes atrai a
contemplação é a experiência deles. Alimentam a alma e banqueteiam-se em um
princípio egoísta com a convicção de suas descobertas; têm mais consolo em
suas revelações que no Cristo revelado — trata-se da verdadeira noção de
depender de experiências e estados de espírito, em vez de usar as experiências
como sinais que provam seu bom estado de alma, o que alguns chamam de viver
de experiências; apesar de ser bem visível que alguns dos que assim agem são
mais famosos por depender de experiências, de acordo com o próprio conceito
delas.
As afeições dos hipócritas muitas vezes seguem este padrão: primeiro, são
muito influenciados por alguma impressão na imaginação, ou algum impulso,
que entendem como sugestão ou testemunho direto de Deus de seu amor por eles
e da felicidade e os altos privilégios que têm em alguns aspectos, quer
acompanhado de um texto da Escritura, quer não; são fortemente arrebatados por
isso, que consideram uma grande revelação, e disso nascem as altas afeições.
Quando essas afeições são provocadas, eles as observam e chamam de grandes e
maravilhosas experiências. A noção deles é de que Deus se agrada sobremaneira
com essas afeições, e isso os comove ainda mais; logo, esses hipócritas são
movidos por suas próprias afeições. Tais afeições vão-se intensificando cada vez
mais até que, em alguns casos, eles são completamente tragados por elas.
Contudo, surgem também a presunção e um ardor virulento, tudo construído
como um castelo de cartas, sem alicerce nenhum a não ser a imaginação, o amor-
próprio e o orgulho.
Por conseguinte, assim como são os pensamentos desse tipo de pessoas,
também são suas conversas, pois a boca fala do que está cheio o coração. Em
suas elevadas afeições, têm os olhos fixos na beleza de suas experiências e na
grandeza de suas realizações, por isso falam muito de si mesmos. Sob o efeito de
intensas afeições espirituais, o genuíno santo está disposto e preparado para, da
plenitude de seu coração, falar muito de Deus, de suas gloriosas perfeições e
obras, da beleza e atratividade de Cristo, dos gloriosos ensinamentos do
evangelho. Os hipócritas, porém, em suas exaltadas afeições, falam mais da
revelação do que das coisas reveladas; são cheios de conversas acerca das
grandiosidades que encontraram, das revelações maravilhosas, da certeza do
amor de Deus por eles, da segurança da condição de sua alma e de que sabem
que irão para o céu, e de tantas outras certezas.
O verdadeiro santo, ao desfrutar as legítimas revelações da doce glória de
Deus e de Cristo, tem a mente tão cativada e envolvida pelo que vê fora dele
mesmo que não consegue voltar os olhos para si e suas realizações. Para ele,
seriam distração e perda insuportáveis tirar os olhos do objeto encantador de sua
contemplação a fim de analisar sua própria experiência e perder tempo pensando
consigo “que grande realização esta e que história boa para contar aos outros”.
Tampouco o prazer e o dulçor que lhe enchem a mente nesse momento nascem
acima de tudo da reflexão acerca da segurança de seu estado ou de opinião
alguma que tenha acerca de suas próprias qualificações, experiências e
circunstâncias, mas, sim, da beleza divina e suprema daquilo que vê diretamente
fora dele mesmo; algo que lhe entretém docemente o espírito e vigorosamente o
detém.
Tal qual o amor e a alegria dos hipócritas nascem da fonte do amor-próprio,
assim também ocorre com suas outras afeições: a tristeza pelo pecado, a
humildade e submissão, seus desejos e zelos religiosos — tudo isso já foi, por
assim dizer, pago de antemão, porque Deus lhes satisfez em alto grau o amor-
próprio e os desejos, tendo-os em alta consideração e sobremaneira exaltando-os,
segundo a imaginação deles. Sendo a natureza corrupta como é, não é difícil
para essas pessoas — diante da ideia de já se encontrarem entre as mais queridas
do céu e de terem um Deus que as protege e lhes é propício quanto aos pecados
— amar esse Deus imaginário que tanto lhes convém, exaltá-lo, submeter-se a
ele e ter-lhe zelo intenso e ardente. As afeições de muitos se assentam na
hipótese de que eles são santos insignes. Se essa presunção acerca de si mesmos
lhes fosse tirada, se pensassem que fazem parte da hierarquia mais baixa de
santos (mas ainda se considerassem santos de verdade), suas elevadas afeições
despencariam. Se essas pessoas tivessem sequer um vislumbre da
pecaminosidade e vileza do seu coração e da odiosidade no meio de suas
melhores afeições e seus melhores deveres, essas afeições seriam arrasadas,
porque se baseiam no eu, o autoconhecimento as destruiria. As afeições que
verdadeiramente procedem da graça se assentam em outras bases: seus alicerces
são exteriores ao ego, estão em Deus e em Jesus Cristo. Por isso, quando os
santos verdadeiros descobrem como são e contemplam a própria odiosidade e a
mesquinhez de suas experiências, isso lhes depura as afeições, sem as destruir, e
as torna, em alguns aspectos, mais agradáveis e mais intensas.

III. As afeições autenticamente santas se assentam sobretudo


na amabilidade da excelência moral das coisas divinas
Ou, declarado de modo inverso, o amor às coisas divinas por causa da beleza e
do deleite de sua excelência moral é o primeiro princípio e origem de todas as
afeições piedosas.
Em atenção aos leitores com menos conhecimento, explicarei a seguir o que
quero dizer com “excelência moral das coisas divinas”.
É preciso observar que neste contexto a palavra “moral” não deve ser
entendida em sua acepção popular comum, de quando homens falam de
moralidade e de comportamento moral, isto é, significando conformidade
externa com deveres da lei moral e, sobretudo, com os deveres da segunda tábua
dos Dez Mandamentos; ou no máximo referindo-se a tais virtudes procedentes
de princípios naturais, em oposição às virtudes mais internas, espirituais e
divinas; assim como a honestidade, a justiça, a generosidade, a cortesia e o
espírito público de muitos pagãos são chamados virtudes morais, à diferença da
fé, do amor, da humildade e da mentalidade celestial dos verdadeiros cristãos.
Afirmo que a palavra “moral” não deve ser entendida nesse sentido aqui.
Para entender corretamente o que se quer dizer, é preciso notar que os
teólogos geralmente fazem distinção entre bem e mal moral e bem e mal natural.
Quando falam de mal moral, referem-se ao mal do pecado ou ao mal contrário
ao dever, contrário ao que é e tem de ser certo. Quando dizem mal natural, não
se referem ao mal completamente oposto ao dever, mas ao que é contrário tão
somente à natureza, sem nenhuma relação com regra de conduta alguma. Assim,
o mal do sofrimento é chamado de mal natural; por exemplo, a dor, o tormento e
a desgraça, entre outros, são simplesmente contrários à natureza, tanto à natureza
dos bons quanto à dos maus, são odiosos não só para os homens de bem e os
anjos, mas também para os ímpios e os demônios. Do mesmo modo, os defeitos
naturais são chamados males naturais. Por exemplo, quando uma criança nasce
com alguma deformidade física ou com deficiência mental, esses males são
naturais, não males morais, pois não têm propriamente o caráter do mal do
pecado. Por outro lado, quando falam de mal moral, os teólogos se referem ao
mal do pecado, ou aquilo que vai contra o que é certo; logo, com bem moral,
eles se referem ao que é contrário ao pecado, ao bem próprio dos seres que,
dotados de vontade e escolha, agem e são como convém que ajam e sejam, isto
é, da maneira mais adequada, correta e bela. Com bem natural, eles se referem a
um bem de tipo totalmente distinto de santidade ou virtude, a saber, o bem que
aperfeiçoa a natureza ou a satisfaz, considerando a natureza em si, sem nenhuma
característica de piedade ou impiedade nem relação com norma ou medida
alguma de certo e errado.
Considerando tudo isso, o prazer é um bem natural, assim como são a honra,
a força, o conhecimento teórico, a cultura humana e a política. Portanto, é
preciso distinguir entre o bem natural de que os homens são dotados e o seu bem
moral, além de também distinguir entre o bem natural e o bem moral dos anjos
no céu. A grande capacidade de entendimento, a notável força, as circunstâncias
honrosas em que estes se encontram na qualidade de excelentes ministros do
reino de Deus (por isso chamados de tronos, domínios, principados e potestades)
são o bem natural de que são dotados, enquanto a perfeita e gloriosa santidade, a
bondade e o amor puro e fervoroso a Deus, aos santos e de uns pelos outros
constituem seu bem moral. Assim também, os teólogos fazem distinção entre as
perfeições naturais de Deus e as morais. Com perfeições morais de Deus, eles se
referem aos atributos que Deus manifesta como agente moral, pelos quais
podemos afirmar que o coração e a vontade de Deus são bons, corretos e
infinitamente belos e amáveis — tais como sua justiça, veracidade, fidelidade e
bondade ou, em uma só palavra, sua santidade. Quando se referem a atributos ou
perfeições naturais de Deus, eles querem dizer os atributos que, segundo nosso
modo de conceber Deus, consistem não em sua santidade ou bondade moral,
mas, sim, na excelência dele — tais como seu poder; seu conhecimento, que
abarca todas as coisas; sua eternidade, por todos os séculos dos séculos; sua
onipresença e sua tremenda e espantosa majestade.
A sede imediata da excelência moral de um ser inteligente e dotado de
vontade é o coração, ou a vontade dos agentes morais. O ser inteligente cuja
vontade é genuinamente correta e adorável é moralmente bom e excelente.
A excelência moral de um ser inteligente, quando autêntica e real, não
apenas externa, aparente e fingida, é a santidade. Portanto, a santidade
compreende toda a verdadeira excelência moral dos seres inteligentes: não há
outra virtude autêntica a não ser a legítima santidade. A santidade abarca todas
as virtudes genuínas de um homem bom: o amor a Deus, o amor proveniente da
graça para com os outros homens, a justiça, a caridade, as misericórdias, a
mansidão da graça, a amabilidade e todas as outras virtudes cristãs de que é
dotado fazem parte de sua santidade. Logo, a santidade de Deus no sentido mais
lato da palavra, e no sentido com que ela é empregada em geral, se não
universalmente, no que diz respeito a Deus na Escritura, é idêntica à excelência
moral da natureza divina, ou sua pureza e beleza como agente moral, e abrange
todas as suas perfeições morais, sua justiça, fidelidade e sua bondade. Assim
como nos santos a caridade, a bondade cristã e a misericórdia fazem parte da sua
santidade, também a bondade e a misericórdia de Deus fazem parte da sua
santidade. A santidade do homem nada mais é que a imagem da santidade de
Deus. Não há mais virtudes na imagem do que as pertencentes ao original; a
santidade derivada não tem nada além do que tem a santidade original, sua fonte;
não há senão graça por graça, ou seja, a graça na imagem correspondente
exatamente à graça do original.
Assim como Deus tem dois tipos de atributos, segundo a concepção que dele
temos — os atributos morais, resumidos em sua santidade, e os atributos naturais
de força, conhecimento etc., que constituem a sua grandeza —, a imagem de
Deus no homem também tem dois aspectos: a imagem moral ou espiritual, que é
a sua santidade, isto é, a imagem da excelência moral de Deus (perdida na
Queda); e a imagem natural de Deus, que consiste na razão e no entendimento
do homem, nas suas capacidades naturais e no seu domínio sobre as criaturas,
que são a imagem dos atributos naturais de Deus.
Disso pode-se entender facilmente o que tenho em mente quando digo que o
amor às coisas divinas devido à beleza de sua excelência moral é o começo e a
fonte de todas as afeições santas. Já se demonstrou no tópico anterior que o
principal fundamento objetivo de todas as afeições santas é a excelência suprema
das coisas divinas tais como elas são em si, por sua própria natureza. Agora vou
além, dizendo mais especificamente que o tipo de excelência da natureza das
coisas divinas, que é o principal fundamento objetivo de todas as afeições santas,
é a excelência moral, ou a santidade, das coisas divinas. As pessoas santas, ao
colocarem em prática as afeições santas, amam as coisas divinas acima de tudo
pela santidade dessas coisas. Amam a Deus em primeiro lugar pela beleza de sua
santidade, ou perfeição moral, que por si só é extremamente atrativa. Não que os
santos, no exercício de afeições da graça, amem a Deus apenas pela santidade
deste. Todos os atributos divinos são gloriosos e atrativos aos olhos dos santos,
que se deleitam com todas as perfeições divinas; a contemplação da grandeza, do
poder e do conhecimento infinitos e da majestade tremenda de Deus é-lhes
agradável. Contudo, o amor a Deus por causa de sua santidade, é o que há de
mais fundamental e essencial no amor dos santos por Deus. É nisso que tem
origem o verdadeiro amor a Deus; todos os outros amores santos pelas coisas
divinas defluem daí. No que diz respeito aos fundamentos do amor piedoso a
Deus, este é, pois, o seu elemento mais essencial e mais característico. O amor a
Deus por causa da beleza de seus atributos morais produz e causa
necessariamente o prazer em Deus por todos os seus atributos, pois seus
atributos morais não podem existir sem seus atributos naturais. A santidade
infinita pressupõe a sabedoria infinita, a grandeza e a capacidade infinitas. Todos
os atributos de Deus pressupõem uns aos outros.
A verdadeira beleza e amabilidade de todos os seres inteligentes reside
sobretudo e essencialmente em sua excelência moral, ou santidade. Nisso
consiste a amabilidade dos anjos, sem a qual, a despeito de todas as suas
perfeições naturais — o vigor e o conhecimento —, não seriam mais dignos de
amor do que os demônios. É a excelência moral tão somente, isto é, em si e de
per si, que constitui a excelência dos seres inteligentes; é ela que dá beleza, ou
melhor, é a própria beleza de suas perfeições e qualidades naturais. A excelência
moral é a excelência das excelências naturais. As qualidades naturais são
excelentes ou não são, conforme estejam associadas, ou não, à excelência moral.
Força e conhecimento não tornam amável nenhum ser se não estiverem
associados com a santidade; pelo contrário, tornam-no mais odioso. Quando
acompanhados da santidade, no entanto, tornam amável o ser. Por isso, os anjos
eleitos são gloriosos por sua força e seu conhecimento porque essas suas
perfeições naturais são santificadas por sua perfeição moral. Os demônios, por
sua vez, embora fortes e dotados de excelente entendimento natural, não são
belos e adoráveis por isso; na verdade, são terríveis. Não são mais amáveis, pelo
contrário, são mais odiosos. A santidade de uma criatura inteligente é a beleza de
todas as suas perfeições naturais. Assim também é com Deus, de acordo com a
nossa concepção do Ser divino. A santidade é particularmente a beleza da
natureza divina. Por isso muitas vezes lemos sobre a beleza da santidade (Sl
29.2; 96.9; e 110.3); a santidade torna gloriosos e belos todos os seus outros
atributos. A glória da sabedoria divina está em ser sabedoria santa, não astúcia e
sutileza malignas. Por ser santa, a majestade de Deus é adorável, não
simplesmente espantosa e tremenda. A glória da imutabilidade de Deus está em
ser imutabilidade santa, não obstinação inflexível na maldade.
É necessário, portanto, que a visão da amabilidade de Deus comece por aqui.
O verdadeiro amor a Deus tem de começar com o prazer em sua santidade, não
em algum outro atributo, pois nenhum outro é verdadeiramente amável sem a
santidade e (de acordo com nossa concepção de Deus) é da santidade que todos
eles derivam sua amabilidade. Logo, é impossível que os outros atributos
pareçam amáveis, com amabilidade verdadeira, enquanto a santidade não seja
vista; e é impossível que qualquer perfeição da natureza divina seja amada com
verdadeiro amor enquanto a santidade não seja amada. Se a verdadeira
amabilidade de todas as perfeições de Deus nasce da amabilidade de sua
santidade, o verdadeiro amor de todas as suas perfeições nasce do amor da sua
santidade. Os que não enxergam a glória da santidade de Deus não podem
enxergar a verdadeira glória da sua graça e misericórdia. Eles não veem nada da
glória desses atributos como nenhuma excelência da natureza de Deus em si,
embora sejam afetados por esses atributos e até os amem à medida que
promovem seus interesses particulares; pois tais atributos só fazem parte da
excelência da natureza divina, excelente de per si, à medida que estão incluídos
na santidade divina entendida em sentido lato, ou seja, à medida que fazem parte
da perfeição moral de Deus.
Do mesmo modo que a beleza da natureza divina consiste sobretudo na
santidade de Deus, assim também ocorre com a beleza de todas as coisas
divinas. A beleza dos santos consiste em serem santos; sua beleza é a imagem
moral de Deus neles, e essa é a santidade deles. Nisto consistem a beleza e o
brilho dos anjos do céu: eles serem santos e, portanto, não são demônios (Dn
4.13; 17.23; Mt 25.31; Mc 8.38; At 10.22; Ap 14.10). A beleza da religião cristã,
acima de todas as outras religiões, consiste em ser uma religião tão santa. A
excelência da Palavra de Deus está em ser tão santa: “Tua palavra é fiel a toda
prova, por isso teu servo a ama” (Sl 119.140); “Por isso, tenho, em tudo, como
retos todos os teus preceitos e aborreço toda falsa vereda” (Sl 119.128, ARC);
“Ordenaste teus testemunhos com justiça, e com toda fidelidade” (Sl 119.138); e
“Que minha língua celebre tua palavra, pois todos os teus mandamentos são
justos” (Sl 119.172). E ainda: “A lei do SENHOR é perfeita e restaura a alma; o
testemunho do SENHOR é fiel e dá sabedoria aos simples. Os preceitos do SENHOR
são retos e alegram o coração; o mandamento do SENHOR é puro e ilumina os
olhos. O temor do SENHOR é limpo e permanece para sempre; os juízos do
SENHOR são verdadeiros e inteiramente justos. São mais desejáveis que o ouro,
sim, do que muito ouro puro, mais doces do que o mel que goteja dos favos” (Sl
19.7-10). A atratividade e a beleza do Senhor Jesus, que o fazem o principal e
completamente amável entre milhares e milhares, consistem em ser ele o santo
de Deus (At 3.14) e o santo Filho de Deus (At 4.27), e “aquele que é santo,
verdadeiro” (Ap 3.7). Toda a beleza espiritual de sua natureza humana —
mansidão, humildade, paciência, piedade, amor a Deus, amor aos homens,
magnanimidade em relação aos mesquinhos e ignóbeis, compaixão pelos
sofredores etc. — resume-se em sua santidade. E a beleza de sua natureza divina,
da qual a beleza de sua natureza humana é imagem e reflexo, também consiste
essencialmente na sua santidade. A glória do evangelho também consiste
sobretudo na sua santidade, o evangelho é uma fulgurante emanação da beleza
santa de Deus e de Jesus Cristo. A beleza espiritual de suas doutrinas consiste
em serem doutrinas santas, isto é, doutrinas em harmonia com a piedade. A
beleza espiritual do caminho da salvação em Jesus Cristo é que se trata de um
caminho mui santo; a glória do céu é ser uma cidade santa, a santa Jerusalém,
morada da santidade de Deus e, portanto, também de sua glória (Is 63.15). Todas
as belezas da nova Jerusalém, tal como descrita nos dois últimos capítulos do
Apocalipse, são apenas representações diversas dessa. Leiam-se Apocalipse
21.2,10,11,18,21,27; 22.1,3.
Portanto, é sobretudo por esse tipo de excelência que os santos amam todas
essas coisas. Amam a Palavra de Deus, porque ela é toda pura; amam os santos;
por causa disso principalmente, o céu lhes é atrativo e os santos tabernáculos de
Deus são belos aos seus olhos; por isso amam a Deus; e sobretudo por isso
amam Cristo e o coração deles tem prazer nas doutrinas do evangelho e aceitam
com docilidade o caminho da salvação nele revelado.17
Na seção dedicada à primeira característica distintiva das afeições da graça,
observei que os regenerados recebem um novo sentido sobrenatural que se
assemelha de certo modo a um paladar espiritual e divino. Esse sentido espiritual
é por natureza totalmente diverso de todo tipo anterior de sensação da mente,
assim com o paladar é diverso dos demais sentidos exteriores. Quando aplica
esse novo sentido da mente, o verdadeiro santo percebe nas coisas espirituais e
divinas algo completamente diferente de qualquer coisa nelas percebida pelos
homens naturais, assim como o doce sabor do mel é diferente de qualquer ideia
que os homens concebam do mel quando o veem e ou o provam. Ora, isso que
acabei de abordar — a saber, a beleza da santidade — é exatamente o aspecto
das coisas espirituais e divinas percebido mediante esse sentido espiritual e tão
diferente de tudo quanto os homens naturais percebem nelas. Essa espécie de
beleza é o objeto imediato desse sentido espiritual; esse dulçor é o objeto próprio
do paladar espiritual. A Escritura quase sempre representa a beleza e o dulçor da
santidade como objetos por excelência do sentido e apetite espirituais. Eles
foram representados no doce alimento da alma santa de Jesus Cristo: “Tenho
uma comida para comer que não conheceis [...] A minha comida é fazer a
vontade daquele que me enviou e completar a sua obra” (Jo 4.32,34). Não sei de
nenhuma outra parte das Sagradas Escrituras em que a natureza e as evidências
da genuína e sincera piedade sejam tão claramente determinadas e tão plena e
amplamente delineadas e reafirmadas quanto no salmo 119; o salmista declara
sua intenção nos primeiros versículos do salmo e mantém os olhos nesse
propósito, seguindo-o até o fim. Nesse salmo, porém, a excelência da santidade é
apresentada como objeto imediato do paladar espiritual, do apetite e do regozijo
espirituais na lei de Deus. A lei do Senhor, essa magnífica expressão e emanação
da santidade de sua natureza e preceito de santidade para a criatura, é
apresentada ao longo de todo o salmo como alimento e banquete, o grandioso
objeto do amor, do apetite, da satisfação e da alegria da natureza da graça, que
preza os mandamentos de Deus mais que ao ouro, o ouro mais fino, e para quem
eles são mais doces que o mel que goteja do favo — tudo isso, como já observei
antes, por causa da sua santidade. O mesmo salmista declara que esse é o dulçor
saboreado pelo paladar espiritual na lei de Deus: “A lei do SENHOR é perfeita e
restaura a alma; o testemunho do SENHOR é fiel e dá sabedoria aos simples. Os
preceitos do SENHOR são retos e alegram o coração; o mandamento do SENHOR é
puro e ilumina os olhos. O temor do SENHOR é limpo e permanece para sempre;
os juízos do SENHOR são verdadeiros e inteiramente justos. São mais desejáveis
que o ouro, sim, do que muito ouro puro, mais doces do que o mel que goteja
dos favos” (Sl 19.7-10).
O amor santo tem um alvo santo. A santidade do amor está sobretudo em se
tratar de amor às coisas santas, por serem santas, pela santidade delas. Por isso, a
santidade do objeto é a qualidade em que ele se estabelece e permanece. A
natureza santa precisa amar nas coisas santas sobretudo aquilo que lhe é mais
agradável. Seguramente, nas coisas divinas, o que agrada sobremaneira uma
natureza santa é a santidade. Nada pode ser mais agradável à santidade do que a
própria santidade, pois nada pode ser mais agradável a qualquer natureza do que
essa mesma natureza. A natureza santa tem de estar acima de tudo quanto é
agradável à natureza santa. Desse modo, a natureza santa de Deus e de Cristo, da
Palavra de Deus e das demais coisas divinas deve estar acima de todas as outras
coisas agradáveis à natureza santa presente nos santos.
De novo, a natureza santa ama as coisas santas sobretudo pelos aspectos
destas contra os quais a natureza pecadora alimenta inimizade; mas o principal
motivo da inimizade da natureza pecadora pelas coisas santas é a santidade
destas. É por isso que a mente carnal é inimiga de Deus, da lei de Deus e do
povo de Deus. Ora, este é apenas um argumento que, a partir de causas
contrárias, procura mostrar que os efeitos são igualmente contrários; a partir de
naturezas opostas, procura mostrar que os costumes dessas naturezas são
igualmente opostos. Sabemos que a santidade é de natureza diametralmente
oposta à iniquidade; por isso, é da natureza da iniquidade opor-se à santidade e
odiá-la acima de tudo. Portanto, é próprio da natureza da santidade acima de
tudo cuidar da santidade e nela deleitar-se.
A natureza santa dos santos e anjos no céu (onde melhor se revela sua
verdadeira inclinação) é atraída acima de tudo pela santidade das coisas divinas.
Essa é a beleza divina que atrai principalmente a atenção, a admiração e o louvor
dos serafins esplendentes e abrasadores. “Clamavam uns para os outros, dizendo:
Santo, santo, santo é o SENHOR dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua
glória” (Is 6.3). Apocalipse 4.8 reitera: “... não têm descanso, nem de dia nem de
noite, proclamando: Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus, o Todo-Poderoso,
aquele que era, que é e que há de vir”. Em Apocalipse 15.4, os santos
glorificados fazem o mesmo: “Quem não temerá e não glorificará o teu nome, ó
Senhor? Pois só tu és santo”.
As Escrituras mostram os santos na terra adorando a Deus sobretudo por
isso. Eles admiram e exaltam todos os atributos de Deus tanto por obterem sua
amabilidade da santidade divina quanto por fazerem parte dela. Desse modo,
quando eles louvam a Deus por seu poder, a santidade dele é a beleza que os
atrai: “Cantai um cântico novo ao SENHOR, porque ele tem feito maravilhas; sua
mão direita e seu braço santo lhe alcançaram a vitória” (Sl 98.1). Assim também
quando o louvam por sua justiça e sua majestade tremenda: “O SENHOR é grande
em Sião; exaltado acima de todos os povos. Louvem teu grande e tremendo
nome, pois tu és santo” (Sl 99.2,3); “Exaltai o SENHOR, nosso Deus, e prostrai-
vos diante do estrado de seus pés, pois ele é santo” (Sl 99.5); “SENHOR, nosso
Deus, tu os ouviste; foste para eles um Deus perdoador, ainda que os punisse por
seus atos. Exaltai o SENHOR, nosso Deus, e adorai-o no seu santo monte, pois o
SENHOR, nosso Deus, é santo” (Sl 99.8,9). Assim também quando louvam a Deus
por sua misericórdia e fidelidade: “A luz brilha para o justo, e a alegria, para os
de coração reto. Ó justos, alegrai-vos no SENHOR e rendei graças ao seu santo
nome” (Sl 97.11,12); “Não há ninguém santo como o SENHOR; não há outro além
de ti; não há rocha como o nosso Deus” (1Sm 2.2).
Com isso, portanto, todos podem pôr a prova suas afeições, especialmente o
amor e a alegria. As diversas espécies de criaturas manifestam a diferença de sua
respectiva natureza em grande medida nos diferentes objetos de seu regozijo e de
seu bem conveniente; uma tem prazer naquilo que a outra abomina. Essa
diferença existe entre santos verdadeiros e homens naturais. O homem natural
não tem noção da bondade e da excelência das coisas santas, nem sequer da
santidade delas. Não é atraído por esse tipo de bem; por isso pode-se dizer que
não o conhece ou não o vê; está completamente oculto a seus olhos. Por sua vez,
os santos o têm revelado diante de si pelo imenso poder de Deus. Contam com o
nobre e divino sentido sobrenatural que lhes foi dado e com o qual percebem
esse bem, que lhes cativa o coração e, como nenhuma outra coisa, os faz
deleitar-se. É a coisa mais doce e mais atrativa que o coração do verdadeiro
santo encontra na terra ou no céu; é o que lhe atrai e envolve a alma, acima de
tudo o mais. Nesse bem, não em nenhum outro, o santo deposita sua felicidade;
nele busca consolo e descanso da mente neste mundo e plena satisfação e bem-
aventurança no outro. Com isso, você pode avaliar seu amor a Deus, a Jesus
Cristo e à Palavra de Deus, bem como a alegria que encontra neles; pode avaliar
seu amor pelo povo de Deus e o seu anseio pelo céu e saber se procedem da
alegria suprema nessa espécie de beleza, sem que seja estimulada primeiro por
suposto interesse que você tem neles nem por expectativas alimentadas em
relação a eles. Muitas afeições elevadas, muitos grandes amores aparentes e
alegrias arrebatadoras não têm nada desse santo regozijo.
Particularmente, pelo que foi dito, você poderá pôr a prova suas revelações
da glória da graça e do amor de Deus, e as afeições que esses atributos lhe fazem
brotar na alma. A graça de Deus pode parecer adorável de duas maneiras; quer
como bonum utile, um bem proveitoso para mim, que atende muito a meus
interesses e, portanto, satisfaz o meu amor-próprio; quer como bonum formosum,
um bem belo em si mesmo, parte das excelências morais e espirituais da
natureza divina. Este último é o que primeiro sensibiliza o coração dos
verdadeiros santos e lhes conquista o amor com a livre graça de Deus.
De tudo que foi dito, parece que, se as pessoas têm um senso apurado das
perfeições naturais de Deus e são muito sensibilizadas por elas, ou têm alguma
outra visão ou percepção de Deus que não constitua nem indique a noção da
beleza das divinas perfeições morais, isso não é nenhum sinal seguro da graça.
Refiro-me particularmente às pessoas terem intensa noção da assombrosa
grandeza e da tremenda majestade de Deus, pois esses atributos são apenas
perfeições naturais de Deus e estão entre as características que elas podem
perceber estando ao mesmo tempo completamente cegas para a beleza da
perfeição moral de Deus, sem ter nem um pouco do paladar espiritual que se
apraz com esse divino dulçor.
Com o que se disse sobre a primeira marca distintiva das afeições da graça já
ficou provado que o espiritual é de natureza completamente distinta de tudo
quanto um indivíduo destituído da graça pode ser sujeito enquanto permanece
nesse estado. É possível, entretanto, que pessoas totalmente desprovidas da graça
tenham visão clara e percepção marcante e comovente da grandeza de Deus, do
seu imenso poder e da sua tremenda majestade. É isso, pois, que os demônios
têm, apesar de terem perdido o conhecimento espiritual de Deus, que consiste na
percepção da atratividade das suas perfeições morais. Esses seres são totalmente
desprovidos de qualquer senso desse tipo de beleza, tampouco têm prazer algum
nela, não obstante tenham muito conhecimento da glória natural de Deus (se é
que posso me expressar assim) e de sua assombrosa grandeza e majestade.
Observam tudo isso, são tocados pelo medo e, por isso, tremem perante Deus.
Todos contemplarão a glória de Deus no Dia do Juízo. Com efeito, ele fará todos
os seres racionais — anjos e demônios, santos e pecadores — contemplarem-na
em grau muito elevado. Cristo manifestará sua grandeza infinita e terrível
majestade a todos do modo mais franco, mais claro e mais convincente, com
uma luz a que ninguém pode resistir — quando ele vier na glória de seu Pai, e
todos os olhos o virem, quando os condenados clamarem aos montes que caiam
sobre eles para os esconder da face daquele que está assentado sobre o trono. As
Escrituras fazem referência em Isaías 2.10; 19.21 ao momento em que esses
verão a glória da majestade de Deus. Ele fará todos os seus inimigos enxergarem
sua glória e majestade, e os fará viver por toda a eternidade no inferno com a
percepção bem nítida desses seus gloriosos atributos. Deus sempre manifestou
seu propósito imutável de fazer com que todos os seus inimigos o conheçam
nesse aspecto, com frequência acrescentando a declaração “e saberão que sou o
Senhor” às ameaças que lhes dirige. Chegou mesmo a jurar que todos os seres
humanos verão esse aspecto da sua glória: “Mas, tão certo como eu vivo, e como
a glória do SENHOR encherá toda a terra” (Nm 14.21). A Escritura menciona
muitas vezes que esse tipo de manifestação de Deus ocorreu ou ocorrerá à vista
de seus inimigos neste mundo (Êx 9.16; 14.18; 15.16; Sl 66.3; 46.10 — e em
várias outras passagens). Foi essa manifestação que Deus fez de si diante da
perversa congregação reunida no monte Sinai. O povo ficou profundamente
abalado; todos os que estavam no acampamento temeram e tremeram. Os ímpios
e os demônios verão e terão a noção bem clara de tudo quanto diz respeito à
glória de Deus, menos a beleza da sua perfeição moral. Verão sua grandeza e
majestade infinitas, seu poder infinito, e ficarão plenamente convictos de sua
onisciência, eternidade e de sua imutabilidade; verão e saberão tudo o que diz
respeito ao atributos morais de Deus, menos a sua beleza e atratividade; verão e
saberão que ele é perfeitamente justo, reto e verdadeiro; que é um Deus santo,
cujos olhos são puros demais para olhar o mal, contemplar o pecado e a
iniquidade; e verão as manifestações maravilhosas de sua infinita bondade e de
sua livre graça para com os santos; nada lhes ficará oculto dos olhos, a não ser a
beleza desses atributos morais e a beleza dos outros atributos que deles
decorrem. Do mesmo modo, o homem natural neste mundo é capaz de ter uma
noção bem comovente de tudo quanto diz respeito a Deus, mas apenas isso.
Nabucodonosor teve uma forte noção, e foi profundamente afetado por isso, da
infinita excelência e tremenda majestade de Deus, do seu domínio supremo e
absoluto, do seu imenso e irresistível poder e soberania; de que ele e todos os
habitantes da terra não são nada perante Deus. Também foi tremendamente
convencido da justiça de Deus e sensibilizado pela noção de sua imensa bondade
(Dn 4.1-3,34,35,37). Ao que parece, a consciência que Dario teve das perfeições
de Deus foi muito semelhante à de Nabucodonosor (Dn 6.25ss.). Os santos e os
anjos, porém, contemplam a glória de Deus e sabem que ela consiste na beleza
da sua santidade; somente essa percepção é capaz de comover e tornar humilde o
coração dos homens, apartá-lo do mundo, atraí-lo para Deus e o transformar
verdadeiramente. A visão da terrível grandeza de Deus pode sobrepujar as forças
humanas e superar a capacidade de resistência de qualquer um; mas, se a beleza
moral de Deus permanecer oculta, a inimizade do coração conservará toda a sua
força, não haverá nenhuma centelha de amor e nada aproveitará para conquistar
a vontade, a qual, pelo contrário, permanecerá inflexível. Por outro lado, o
primeiro vislumbre da glória moral e espiritual de Deus que brilhe no coração
produz todos esses efeitos como se fosse um poder onipotente, ao qual nada é
capaz de se opor.
A noção que o homem natural tem da terrível grandeza de Deus pode afetá-
lo de várias maneiras. Pode não somente aterrorizá-los, mas também elevá-los e
suscitar neles alegria e louvores, conforme as circunstâncias de cada um. Dada a
influência dos meros princípios da natureza, será esse o efeito natural de um
pouco da extraordinária misericórdia de Deus sobre quem a recebe ou imagina
que recebe. Já se demonstrou que receber bondade pode, por influência de
princípios naturais, sensibilizar o coração com gratidão e louvor a Deus. Se,
porém, a pessoa que é alvo de uma bondade notável da parte de Deus, ao mesmo
tempo tiver também noção da infinita grandeza dele e de que ela própria não é
nada comparada a ele, isso sem dúvida exaltará sua gratidão e seus louvores pela
bondade para com alguém tão inferior. A noção da grandeza de Deus teve esse
efeito sobre Nabucodonosor quando este recebeu o extraordinário favor de ser
restaurado depois de ter sido retirado do convívio com os seres humanos e ter
sido forçado a habitar entre animais selvagens. A consciência da grandeza de
Deus elevou-lhe tremendamente a gratidão, a ponto de exaltar e engrandecer a
Deus nos termos mais excelsos e convocar o mundo inteiro a juntar-se a ele
nessa exaltação. Esse princípio terá muito mais efeito se o homem natural,
movido pela percepção da infinita grandeza e majestade de Deus, for tomado
pela forte consciência de que esse Deus grandioso o fez seu filho especial,
prometendo-lhe a glória eterna em seu mais sublime amor. De acordo com o
curso da natureza, essa ideia costuma elevar às maiores alturas a alegria e os
louvores desse filho abençoado.
Portanto, não resta nenhuma dúvida de que ultimamente muitos têm dado
importância demais às revelações da grandeza de Deus, de sua tremenda
majestade e de suas perfeições naturais, agindo de acordo com essas descobertas
sem nenhuma visão real da santa majestade de Deus. A experiência atesta
copiosamente o que a razão e as Escrituras declaram a esse respeito. Muitas
pessoas que pareciam dominadas e subjugadas pela excelência e majestade de
Deus e por isso deram mostras de grande elevação espiritual da maneira já
relatada acabaram por revelar-se muito distantes de todo e qualquer espírito,
conduta e temperamento cristão e na prática não chegaram a produzir nenhum
fruto agradável; pelo contrário, suas experiências acabaram tendo consequências
contrárias às das revelações espirituais verdadeiras.
Não que a noção da grandeza e dos atributos naturais de Deus não seja
extremamente útil e necessária, visto que, como já observei, tudo isso está
implícito nas manifestações da beleza da santidade de Deus. Conquanto esta seja
superior às perfeições naturais de Deus, ela as pressupõe assim como o maior
pressupõe o menor. Embora o homem natural possa ter uma noção das
perfeições naturais de Deus, ainda assim, sem dúvida, isso é mais comum e mais
frequente nos santos; a graça costuma capacitar os santos a enxergar essas
qualidades com mais nitidez que o homem natural. Além de os capacitar a
enxergar os atributos naturais de Deus, também os capacita a enxergar a beleza
dos atributos que (de acordo com a nossa concepção de Deus) derivam de sua
santidade.

IV. As afeições da graça nascem da mente iluminada rica e


espiritualmente para entender e perceber as coisas divinas
As afeições santas não são calor sem luz. Ao contrário, sempre decorrem de
informações do conhecimento, de alguma instrução espiritual que a mente
recebe, alguma luz ou conhecimento verdadeiro. A pessoa que é filha de Deus é
tocada pela graça porque enxerga e tem mais conhecimento das coisas divinas do
que enxergava e entendia antes; enxerga e compreende mais de Deus, de Cristo e
das coisas gloriosas do evangelho. Tem visão mais nítida e melhor do que antes,
quando não tinha sido tocado, quer recebendo entendimento das coisas divinas
que lhe são novas, quer tendo o entendimento antigo renovado depois de ter
esquecido a visão: “Todo aquele que ama [...] conhece a Deus” (1Jo 4.7); “E
peço isto em oração: Que o vosso amor aumente cada vez mais no pleno
conhecimento e em todo entendimento” (Fp 1.9); “Eles têm zelo por Deus, mas
não com entendimento” (Rm 10.2); “E vos revestistes do novo homem, que se
renova para o pleno conhecimento” (Cl 3.10); “Envia tua luz e tua verdade, para
que me guiem e me levem ao teu santo monte e à tua habitação” (Sl 43.3); “Está
escrito nos Profetas: E serão todos ensinados por Deus. Portanto, todo aquele
que ouviu e aprendeu do Pai vem a mim” (Jo 6.45); “Retivestes a chave do
conhecimento” (Lc 11.52).
Muitas afeições, contudo, não nascem de nenhuma iluminação do
entendimento. Isso é um sinal seguro de que elas não são espirituais, por mais
intensas que sejam.18 Com efeito, as pessoas têm percepções novas, que antes
não tinham. Dada a natureza do ser humano, é impossível influenciar sua mente
com algo que ela não tenha percebido ou concebido. Contudo, as percepções e
concepções que influenciam muita gente nada têm em si da natureza de
conhecimento e instrução. Isso ocorre, por exemplo, quando um indivíduo é
tocado por uma ideia muito viva, surgida de súbito em sua mente, de alguma
figura ou de uma fisionomia muito bela e agradável, de uma luz brilhante ou de
outra aparência exterior gloriosa. Trata-se de algo percebido ou concebido pela
mente mas que não tem nada da natureza da instrução. As pessoas jamais ficam
mais sábias por causa disso, nem mais conhecedoras de Deus, de um Mediador
entre Deus e os homens, do caminho da salvação em Cristo, nem de coisa
alguma pertinente a qualquer doutrina do evangelho. Essas ideias externas não
dão conhecimento mais aprofundado de nenhum dos atributos, perfeições nem
da natureza de Deus a quem as tem; tampouco lhes dão entendimento maior de
sua palavra, de seus caminhos ou de suas obras. As verdadeiras afeições
espirituais da graça não surgem desse modo; elas nascem da iluminação do
entendimento para que a pessoa compreenda de um jeito novo as coisas
ensinadas acerca de Deus e de Cristo e assim chegue a uma nova compreensão
da excelente natureza de Deus e de suas maravilhosas perfeições, uma nova
concepção das excelências e da plenitude espiritual de Cristo, para que se lhe
revele de maneira nova tudo quanto diz respeito ao caminho da salvação por
meio de Cristo, mediante o qual ela agora vê e compreende as doutrinas
espirituais divinas que outrora lhe pareciam loucura. Essas iluminações do
entendimento são de natureza totalmente diferente de toda e qualquer ideia
vigorosa de formas e cores, de brilho e glória exteriores, de sons e vozes. Que
todas as afeições da graça surjam de algum ensino ou de alguma iluminação do
entendimento é, portanto, mais uma prova de que essas afeições nascidas de
impressões da imaginação não provêm da graça, conforme tudo que se observou
antes, que deixam isso bem claro.
Disso também se depreende que as afeições originadas de sugestão de textos
bíblicos na mente são vãs quando seus fundamentos não são nenhuma instrução
que o entendimento tenha recebido desses textos nem nada que estes ensinem, a
não ser o modo que elas surgem na mente. Quando Cristo faz das Escrituras um
meio para o coração arder com as afeições da graça, ele abre as Escrituras a fim
de que sejam compreendidas: “Acaso o nosso coração não ardia pelo caminho,
quando ele nos falava e nos abria as Escrituras?” (Lc 24.32). Ao que também
parece, a afeição ocasionada pela vinda à mente de um trecho da Escritura é
sempre vã quando ela se assenta em algo supostamente ensinado pelo trecho em
questão, mas na realidade não está nesse texto nem em nenhuma outra passagem
da Escritura, porque a suposta instrução não é instrução de fato, mas, sim, um
erro, um equívoco da mente. É o que ocorre, por exemplo, quando uma pessoa
supõe que está sendo expressamente informada por alguma passagem da
Escritura vinda à sua mente de que ela em particular é amada de Deus, ou de que
os seus pecados são perdoados, que Deus é seu pai, ou algo desse gênero. Isso é
erro, é interpretação equivocada, pois a Escritura não revela em parte alguma
quais são as pessoas particularmente amadas de Deus. Essa condição se revela
tão somente por consequência, quando se enumeram os atributos dos amados de
Deus. Essa questão, portanto, não se aprende pela Escritura de nenhum outro
modo a não ser secundariamente, por esses atributos, pois não se pode aprender
nada da Escritura de modo diferente do que a própria Escritura ensina.
Nesses casos mencionados, como em outros que vamos mencionar, as
afeições na verdade nascem da ignorância, ao invés da instrução. É o que ocorre,
por exemplo, quando alguns se veem falando copiosamente na oração. Afirmam
tais indivíduos que Deus está com eles, o que os comove ainda mais, por isso
suas afeições se desencadeiam e continuam num crescendo. Eles não procuram
saber qual é a causa desse discurso abundante na oração, que pode surgir de
muitos outros meios além da presença espiritual de Deus. Assim, alguns são
muito influenciados por pensamentos convenientes que lhes vêm à mente acerca
das Escrituras e afirmam que o Espírito de Deus está lhes ensinando. Atribuem
muitas atividades de sua própria mente, que as agradam e envolvem, às
influências especiais e diretas do Espírito de Deus, por isso ficam fortemente
sensibilizados pelo privilégio que têm. Em alguns casos é patente nas pessoas
que o principal fundamento de suas afeições é uma sensação corporal. Por algum
motivo (muita vez pelo Diabo, quem sabe), todo o ânimo e toda a vitalidade da
pessoa, de repente e sem explicação, são despertados e provocam um movimento
muito agradável e que lhe dá muito prazer físico. Tal ação de ânimo e vitalidade
costuma ser relacionada com a euforia da mente. A alma, por conseguinte, de
acordo com as leis da união de alma e corpo, também sente prazer. O impulso do
ânimo vital não nasce primeiro de nenhuma afeição ou percepção da mente. A
primeira percepção, contudo, é a euforia do ânimo vital e uma sensação externa
prazerosa, possivelmente no peito. Assim, por ignorância, a pessoa se surpreende
e começa a pensar sem hesitação que o Espírito Santo está vindo sobre ela.
Desse modo, a mente começa a se emocionar e se exaltar. Primeiro ocorre
grande alegria; depois muitas outras afeições se sucedem de maneira tumultuosa,
causando forte agitação em toda a natureza, tanto corpo quanto mente. Como
observei antes, a sede das afeições é a alma e somente ela; isso, contudo, não
impede que as sensações do corpo sejam, dessa maneira, ocasião para afeições
da mente.
Mesmo que as afeições religiosas do homem de fato surjam de uma
instrução ou iluminação do entendimento, ainda assim essas afeições não serão
da graça se a luz que lhes serve de alicerce não for espiritual. As afeições podem
ser provocadas pelo entendimento das coisas obtido simplesmente por
ensinamentos humanos, com o aperfeiçoamento comum das faculdades mentais.
Os seres humanos podem ficar muito comovidos pelo conhecimento das coisas
da religião obtido desse modo, assim como alguns filósofos ficaram fortemente
comovidos e quase arrebatados pelas descobertas que fizeram na matemática e
na filosofia natural, por exemplo. Destarte, os homens podem ser muito
comovidos por iluminações comuns do Espírito de Deus, em que Deus assiste as
faculdades humanas com grau bem maior desse tipo de entendimento de
assuntos religiosos, entendimento que os seres humanos têm em certa medida,
tão só pelo exercício corriqueiro e pelo aperfeiçoamento de suas próprias
faculdades. Essas iluminações talvez influenciem muito a mente, como ocorreu
com muitos acerca dos quais lemos na Escritura, que tiveram uma iluminação.
Essas afeições, no entanto, não são espirituais.
Se as Escrituras servem para nos ensinar algo como o entendimento
espiritual e sobrenatural das coisas divinas, isso é uma atribuição peculiar aos
santos, os indivíduos que não são santos não têm nem sequer um pouco dessa
particularidade. Trata-se, por certo, de uma espécie de entendimento, percepção
e discernimento das coisas divinas que o homem natural, de que o apóstolo fala,
não tem: “O homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, pois lhe
são absurdas; e não pode entendê-las, pois se compreendem espiritualmente”
(1Co 2.14). Indiscutivelmente, é uma espécie de visão ou discernimento das
coisas divinas peculiar aos santos, o que é tema de algumas passagens como:
“Todo o que vive pecando não o viu nem o conheceu” (1Jo 3.6); “Quem faz o
mal não viu a Deus” (3Jo 11); “Porque esta é a vontade de meu Pai: que todo
aquele que vê o Filho e nele crê tenha a vida eterna” (Jo 6.40); “O mundo não
me verá mais, mas vós me vereis” (Jo 14.19); “E a vida eterna é esta: que
conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, que enviaste” (Jo
17.3); “Ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão
o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mt 11.27); “Quem me vê, vê
aquele que me enviou” (Jo 12.45); “Os que conhecem teu nome confiam em ti”
(Sl 9.10); “Considero todas as coisas como perda, comparadas com a
superioridade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor” (Fp 3.8); “Para
conhecer Cristo” (Fp 3.10), e inúmeras outras passagens por toda a Bíblia que
mostram o mesmo. Que existe esse entendimento das coisas divinas de espécie e
natureza totalmente diferente de todo e qualquer conhecimento que o homem
natural possa ter fica bem claro no que a Escritura chama de “entendimento
espiritual”: “Também não cessamos de orar por vós e de pedir que sejais cheios
do pleno conhecimento da sua vontade, em toda sabedoria e entendimento
espiritual” (Cl 1.9). Já foi demonstrado que o que é espiritual, no sentido
corriqueiro em que a palavra é empregada no Novo Testamento, é de espécie e
natureza completamente distintas de tudo o que o homem natural pode ser ou de
que possa ser sujeito.
Disso se pode inferir com certeza qual é a natureza do entendimento
espiritual. Se os santos têm um tipo de entendimento ou percepção de natureza
totalmente diversa de tudo quanto o homem natural tem ou pode ter — enquanto
não receber uma nova natureza —, esse entendimento ou percepção por certo
consiste em ter determinadas ideias, ou sensações da mente, que sejam
simplesmente distintas de tudo quanto há ou pode haver na mente do homem
natural. Isso equivale a dizer que tal entendimento ou percepção consiste nas
sensações de um sentido espiritual novo, que a alma do homem natural não tem,
conforme está explícito em tudo quanto já foi reiteradamente comentado.
Também já demonstrei o que é esse sentido espiritual novo que os santos
recebem na regeneração e qual é o seu objeto. Expliquei que seu objeto imediato
são a suprema beleza e a excelência da natureza das coisas divinas tal como são
em si mesmas. Isso está de acordo com a passagem da Escritura onde o apóstolo
ensina com muita clareza que a melhor coisa descoberta pela luz espiritual e
entendida pelo conhecimento espiritual é a glória das coisas divinas: “Se o nosso
evangelho está encoberto, é para os que estão perecendo que está encoberto,
entre os quais o deus deste século cegou a mente dos incrédulos, para que não
vejam a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus” (2Co
4.3,4); juntamente com o versículo 6: “Porque Deus, que disse: Das trevas
brilhará a luz, foi ele mesmo quem brilhou em nosso coração, para iluminação
do conhecimento da glória de Deus na face de Cristo” (2Co 4.6); e, antes, em
2Coríntios 3.18: “Mas todos nós, com o rosto descoberto, refletindo como um
espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma
imagem, que vem do Espírito do Senhor”. E é necessário que seja assim, pois,
como falado antes, a Escritura ensina com frequência que a religião verdadeira,
resumidamente, consiste toda no amor das coisas divinas. Portanto, essa espécie
de entendimento ou conhecimento que é o fundamento autêntico da religião
verdadeira tem necessariamente de ser o conhecimento da amabilidade das
coisas divinas. É indiscutível, pois, que o conhecimento que é o autêntico
alicerce do amor é o conhecimento da amabilidade. A constituição da beleza e
amabilidade das coisas divinas — o objeto próprio e imediato do sentido
espiritual da mente — foi demonstrada na última seção, a saber, essa beleza e
amabilidade consistem na beleza de sua perfeição moral. Portanto, o
entendimento espiritual consiste fundamental e mais imediatamente nessa noção
ou percepção. É claro, com efeito, que não podia ser nada mais, pois (como foi
explicado antes), afora a beleza de sua excelência moral e todas as outras
propriedades e qualidades de que essa beleza é fundamento, não há nada
pertinente às coisas divinas que não possa ser visto e conhecido pelo homem
natural e pelos demônios, que o hão de conhecer plena e claramente por toda a
eternidade.
De tudo quanto se disse, portanto, chegamos necessariamente a esta
conclusão a respeito da constituição do entendimento espiritual, a saber, esse
entendimento consiste no coração perceber a suprema beleza e o supremo dulçor
da santidade ou perfeição moral das coisas divinas, juntamente com todo o
discernimento e conhecimento das coisas da religião, que dependem e fluem
dessa percepção.
O entendimento espiritual consiste sobretudo no senso que o coração tem
dessa beleza espiritual. Digo senso do coração porque o que diz respeito a esse
tipo de entendimento não é mera especulação, tampouco se pode fazer, nesse
assunto, distinção clara entre as faculdades do entendimento e da vontade, como
se agissem distinta e separadamente. Quando a mente é sensível à doce beleza e
à atratividade de uma coisa, isso indica sensibilidade pela doçura dessa coisa e o
prazer diante da ideia de sua presença. A sensibilidade pela natureza atrativa e
prazerosa da beleza traz consigo a própria natureza do senso do coração, isto é, o
efeito e a impressão na alma de uma substância dotada de paladar, inclinação e
vontade.
É preciso fazer distinção entre o simples entendimento nocional, com o qual
a mente apenas contempla as coisas pela atividade de uma faculdade
especulativa, e o senso do coração, com o qual a mente não se limita a especular
e contemplar, mas também percebe e se compraz. Esse tipo de conhecimento,
pelo qual o homem tem a percepção consciente da atratividade ou da
repugnância, do dulçor ou da asquerosidade, não é do mesmo tipo daquele com
que reconhece um triângulo ou um quadrado. Um é conhecimento meramente
teórico; o outro é sensível e se relaciona não apenas ao intelecto. A sede
inequívoca desse último é o coração, ou a alma, como ente que não só
contempla, mas também tem inclinação e se agrada ou se desagrada. Não
obstante, esse conhecimento também tem natureza de instrução, visto que quem
provou o doce sabor do mel tem muito mais conhecimento dele do que quem
apenas o observou e tocou.
Ao que parece, o apóstolo faz distinção entre o conhecimento meramente
teórico das coisas da religião e o conhecimento espiritual, chamando o primeiro
de forma do conhecimento e da verdade na lei: “que tens a forma da ciência e da
verdade na lei” (Rm 2.20, ARC). O segundo tipo de conhecimento, por sua vez,
é muitas vezes representado por sentir prazer, perceber odor e perceber o gosto:
“Graças a Deus, que em Cristo sempre nos conduz em triunfo e por meio de nós
manifesta em todo lugar o aroma do seu conhecimento” (2Co 2.14); “Não sabes
as coisas de Deus, mas as dos homens” (Mt 16.23 tradução livre; um dos
sentidos do verbo “saber” é “sentir por meio do gosto”); “Desejai o puro leite
espiritual, como bebês recém-nascidos, a fim de crescerdes por meio dele para a
salvação, se é que já provastes que o Senhor é bom” (1Pe 2.2,3); “Suave é o
aroma dos teus unguentos, como unguento derramado é o teu nome; por isso, as
donzelas te amam” (Ct 1.3) comparado com “Ora, vós tendes a unção da parte
do Santo, e todos tendes conhecimento” (1Jo 2.20).
O entendimento espiritual consiste essencialmente nesse sentido do sabor da
beleza moral das coisas divinas. Desse modo, nenhum conhecimento pode ser
chamado de espiritual a não ser que surja disso ou tenha em si esse sentido.
Contudo, o entendimento espiritual encerra de modo suplementar todo
discernimento e conhecimento das coisas da religião que dependem e emanam
desse sentido.
Quando a verdadeira beleza e atratividade da santidade ou o verdadeiro bem
moral das coisas divinas se revela à alma, é como se um mundo novo se abrisse
para sua compreensão. Revela-se a glória de todas as perfeições de Deus e de
tudo que diz respeito ao Ser divino, pois, como observamos antes, a beleza de
tudo provém da perfeição moral de Deus. Revela-se a glória de todas as obras de
Deus, tanto da criação quanto da providência, pois a glória especial delas
consiste em assim se manifestarem nelas a santidade, a justiça, a fidelidade e a
bondade de Deus. Sem essas perfeições morais, não haveria glória no poder e na
habilidade com que são forjadas. A glorificação das perfeições morais de Deus é
o propósito especial de todas as obras das mãos divinas. Pelo sentido da beleza
moral das coisas divinas entende-se a suficiência de Cristo como mediador, pois
é somente com a revelação da beleza da sua perfeição moral que o crente pode
ter acesso ao conhecimento da excelência da pessoa de Cristo, a fim de saber
mais sobre ela do que sabem os demônios. É só pelo conhecimento da excelência
da pessoa de Cristo que se pode conhecer sua suficiência como mediador, pois
esta depende e provém daquela. É percebendo a excelência da pessoa de Cristo
que os santos adquirem a consciência da preciosidade de seu sangue e da
suficiência desse sangue para expiar pecados, pois a preciosidade do sangue de
Cristo consiste exatamente nisso, em ser o sangue de uma pessoa tão excelente e
atrativa. Nisso se assenta o merecimento da obediência de Cristo e da suficiência
e preponderância de sua intercessão. Mediante essa percepção da beleza moral
das coisas divinas enxerga-se a beleza do caminho da salvação em Cristo, pois
esta consiste na beleza das perfeições morais de Deus, que resplandece em cada
passo de seu meio de salvação, do início ao fim. Com ela se enxergam a
pertinência e a idoneidade desse caminho, pois ele consiste inteiramente na sua
disposição de nos libertar do pecado e do inferno e nos conduzir à alegria de ter
e fruir um bem moral, em suave e doce harmonia com as perfeições morais de
Deus. A perfeita sabedoria desse caminho está em ter sido ele concebido e
planejado para atingir esse objetivo. Com isso se enxerga a excelência da Palavra
de Deus. Retirem-se toda a beleza moral e a atratividade dessa palavra, e a Bíblia
não passará de letra morta, seca, sem vida e sem sabor. Com ela se enxerga o
verdadeiro fundamento de nosso dever, que é estimar, honrar e amar a dignidade
de Deus, servi-la e nos submeter a ela, como ele nos ordena, além de perceber
também a atratividade das próprias obrigações que de nós se exigem. Ela
permite enxergar o verdadeiro mal do pecado, uma vez que quem vê a beleza da
santidade necessariamente percebe a odiosidade do pecado, seu oposto absoluto.
Ela permite que as pessoas entendam a verdadeira glória do céu, que consiste na
beleza e na felicidade da santidade. Com ela se percebe a atratividade e a
felicidade dos santos e dos anjos. Quem vê a beleza da santidade, do verdadeiro
bem moral, vê a coisa mais importante e mais excelente do mundo, que é a
plenitude de todas as coisas, sem a qual o mundo inteiro seria vazio, como se
fosse nada, ou pior do que nada. Se essa beleza não for percebida, não se percebe
nada que valha a pena ser visto, pois não existe nenhuma outra beleza ou
excelência verdadeira. A menos que se entenda essa beleza, não se entenderá
nada que mereça o exercício da nobre faculdade do entendimento. Essa é a
beleza da Trindade e a divindade da divindade (se é que posso dizer assim), o
bem da infinita fonte do bem, sem o qual o próprio Deus seria um mal infinito
(se isso fosse possível); sem o qual melhor nos seria jamais ter existido; e sem o
qual melhor seria não existir nenhum ser. Portanto, quem não conhece esse
atributo não sabe nada, seu conhecimento não passa de sombra do
conhecimento, ou de “forma do conhecimento”, como o chama o apóstolo. É por
isso, portanto, que a Escritura representa os destituídos desse senso espiritual
com que se percebe a beleza da santidade como totalmente cegos, surdos e
desprovidos de sentidos, mortos na verdade. E a regeneração, mediante a qual a
alma recebe de seu Criador esse divino sentido, pode muito bem ser representada
pelo abrir dos olhos aos cegos, pelo ressuscitar dos mortos e pela introdução de
uma pessoa em um mundo novo. Se meditarmos no que foi dito, ficará patente
que, quando uma pessoa recebe esse sentido e esse conhecimento, ela não vê
mais nada como via antes. Se antes conhecia todas as coisas “segundo a carne”,
agora não as conhecerá mais assim; tornou-se “nova criação; as coisas velhas já
passaram, e surgiram coisas novas”, de acordo com 2Coríntios 5.16,17.
Além de tudo quanto já foi dito, desse sentido da beleza espiritual nasce todo
o verdadeiro conhecimento prático da religião, que é por si só como um novo
mundo de conhecimento. Quem não enxerga a beleza da santidade não sabe nem
sequer o que são as graças do Espírito de Deus, está destituído de toda noção ou
ideia das ações da alma provenientes da graça, de todas as consolações e
prazeres santos e de todos os efeitos das influências salvíficas do Espírito de
Deus no coração. Por conseguinte, não tem o menor conhecimento da mais
grandiosa obra de Deus, dos efeitos mais gloriosos e importantes de seu poder
sobre a criatura, ignora completamente os santos como tais, não sabe nada sobre
eles nem o que são e, na verdade, ignora o mundo espiritual todo.
Sendo assim, fica bem claro que, quando Deus infunde numa pessoa esse
sentido espiritual sobrenatural de que se falou, opera-se uma grande mudança
nessa pessoa. Não fosse o grau bem incompleto em que geralmente esse sentido
é dado no início e a reduzida intensidade dessa luz gloriosa quando raia pela
primeira vez na alma, a mudança operada pelo abrir dos olhos espirituais na
conversão seria muito maior e mais notável em todos os aspectos do que seria no
caso de um cego de nascença que tivesse vivido durante muito tempo apenas
com quatro sentidos e recebesse de repente o sentido da visão em plena luz do
sol e descobrisse um mundo inteiro de objetos visíveis, porque, embora a visão
seja mais nobre que todos os outros sentidos externos, o sentido espiritual de que
falamos é infinitamente mais nobre que ela ou qualquer outro princípio de
discernimento que o ser humano tenha naturalmente; e o objeto desse sentido é
infinitamente superior e mais importante.
Esse tipo de entendimento, ou conhecimento, é o conhecimento das coisas
divinas do qual procedem todas as legítimas afeições da graça e cuja presença é,
portanto, a pedra de toque de todos as afeições. As afeições que nascem
inteiramente de qualquer outra espécie de conhecimento ou resultam de qualquer
outro tipo de percepção da mente são vãs.
Por tudo que dissemos, é possível saber onde jaz a diferença mais essencial
entre a luz, ou entendimento, dada pelas influências comuns do Espírito de Deus
ao coração do homem natural e a instrução salvífica dada aos santos. Esta última
reside sobretudo e mais essencialmente em contemplar a santa beleza das coisas
divinas, beleza essa que é o único bem moral verdadeiro e à qual a alma do ser
humano caído é, por natureza, totalmente cega. A primeira consiste tão somente
no melhor entendimento, com o auxílio de princípios naturais, daquilo que o ser
humano consegue entender em alguma medida pelo simples exercício
corriqueiro de suas faculdades. Esse conhecimento consiste no conhecimento
apenas das coisas naturais da religião. Assim, por exemplo, nos despertamentos
de consciência a que o homem natural é muita vez sujeito, o Espírito de Deus
não lhe dá nenhum conhecimento da verdadeira beleza moral existente nas
coisas divinas, mas apenas ajuda a sua mente a ter uma ideia mais clara da culpa
do pecado ou da relação deste com o castigo, do vínculo do pecado com o mal
do sofrimento (sem nenhuma percepção de seu mal moral, nem da odiosidade do
pecado) e ideia mais clara das perfeições naturais de Deus, nas quais consistem
não a sua santa beleza e glória, mas a sua tremenda e assombrosa grandeza. A
nítida percepção dessa grandeza é que despertará plenamente a consciência dos
ímpios no Dia do Juízo, sem nenhuma luz espiritual. Um grau menor dessa
percepção desperta neste mundo a consciência do homem natural, sem nenhuma
luz espiritual. Em alguma medida, neste mundo são feitas à consciência de um
pecador despertado as mesmas revelações que se farão em plenitude no Dia do
Juízo à consciência dos pecadores. O mesmo tipo de visão ou percepção de Deus
dá aos pecadores despertos neste mundo, em grau menor, a consciência da
terrível culpa do pecado contra tão grandioso e tremendo Deus. Tais pecadores
do mesmo modo obtêm a noção do horrível castigo do pecado, noção que os
enche de temerosas apreensões quanto à ira divina. Isso convencerá cabalmente
todos os ímpios da culpa e da natureza infinitamente horrenda do pecado, e os
aturdirá com o medo da ira na vinda de Cristo com toda a sua glória e todo o seu
poder e majestade, quando todo olho o verá e todas as tribos da terra se
lamentarão por causa dele. E nas iluminações comuns dadas aos homens naturais
de vez em quando e que lhes suscita algum tipo de anelo religioso, amor e
alegria, a mente apenas é auxiliada a ter uma percepção mais clara do bem
natural existente nas coisas divinas. Desse modo, às vezes, sob o efeito de
iluminações comuns, os homens se enlevam com a ideia do bem natural do
paraíso, como, por exemplo, a glória exterior, a tranquilidade da vida, a honra e a
perfeição, a condição de objeto de tão elevado favor de Deus, o excelente
respeito dos homens e dos anjos, entre tantas outras maravilhas. Logo, muitas
coisas mostradas no evangelho a respeito de Deus, de Cristo e do caminho da
salvação têm em si um bem natural que satisfaz o princípio natural de amor-
próprio. Assim, nessa tão grande bondade de Deus para com os pecadores e no
maravilhoso amor de Cristo em se entregar para morrer pelos pecadores, existe
um bem natural que todos os seres humanos amam, como amam a si mesmos;
existe igualmente uma beleza espiritual e santa enxergada apenas pelos
regenerados. Logo, muitas coisas pertinentes à graça do Verbo de Deus relatadas
no evangelho podem fazer que o homem natural, ao saber delas, prontamente as
receba com alegria. Todo o amor que o homem natural tem a Deus, a Cristo, às
virtudes cristãs e aos homens bons não vem de nenhuma percepção da
afabilidade da santidade dessas coisas nem da verdadeira excelência moral delas,
mas tão somente do bem natural que nelas existe. Todo o ódio do homem natural
pelo pecado provém igualmente de princípios da natureza, assim como o ódio de
alguém a um animal selvagem por causa de sua rapacidade ou a aversão a uma
serpente por causa de seu veneno e nocividade, bem como todo o seu amor às
virtudes cristãs não provém de nenhum princípio mais elevado que o amor
originado da boa índole de um ser humano, qualidade atrativa aos olhos do
homem natural. Isso não é nada diferente de como um mercador enxerga o ouro
e a prata, que lhes parecem atrativos aos olhos; nem de como o agricultor vê a
cor do bom solo, que lhe parece boa e agradável aos olhos.
De tudo quanto já se disse sobre a natureza do entendimento espiritual,
pode-se depreender que o entendimento espiritual não é nenhum conhecimento
doutrinário novo nem a sugestão à mente de nenhum conceito jamais lido ou
ouvido; pois é claro que a sugestão de novos conceitos é completamente distinta
de dar à mente um sabor novo, ou o prazer de fruir o dulçor e a beleza.19
Também é evidente que o conhecimento espiritual não é nenhuma nova
explicação de doutrina de parte alguma da Escritura, pois isso ainda não é senão
conhecimento doutrinário, ou conhecimento de conceitos. A explicação
doutrinária de qualquer parte da Escritura tão somente nos faz entender quais são
os conceitos contidos ou ensinados nessa passagem da Escritura.
Disso se conclui que o entendimento espiritual da Escritura não consiste em
revelar à mente o significado místico das Escrituras, em suas parábolas, tipos e
alegorias, pois tudo isso é tão somente explicação doutrinal da Escritura. Quem
explica o que significam o solo pedregoso, o pronto brotar da semente e sua
rápida marcescência explica tão somente os conceitos ou doutrinas ensinados na
parábola. Do mesmo modo, quem explica o que a escada de Jacó e os anjos de
Deus subindo e descendo por essa escada tipificam ou quem explica o que a
liderança de Josué na travessia do Jordão tipifica apenas mostra que ideias estão
escondidas nessas passagens. Muita gente sem conhecimento espiritual algum
pode explicar esses tipos. É possível alguém saber interpretar todos os tipos,
parábolas, enigmas e alegorias da Bíblia e não ter nem sequer um raio de luz
espiritual na mente, porque pode não ter a mínima dose do sentido espiritual da
santa beleza das coisas divinas de que já falamos e talvez não enxergue esse tipo
de glória em nada que esses mistérios contenham e em nenhuma outra parte da
Escritura. Fica claro, pelo que diz o apóstolo, que uma pessoa pode entender
todos esses mistérios e não ter a graça salvadora: “Mesmo que eu tivesse o dom
de profecia, e conhecesse todos os mistérios, e tivesse todo o conhecimento, e
mesmo que tivesse fé suficiente para mover montanhas, mas não tivesse amor,
eu nada seria” (1Co 13.2). São muito tolos, portanto, aqueles que têm opinião
elevada sobre suas próprias realizações espirituais pelas noções que lhes vêm à
mente do significado místico desta ou daquela passagem da Escritura, como se
se tratasse de entendimento espiritual das passagens que lhes é dado diretamente
pelo Espírito de Deus, e por isso têm suas afeições altamente elevadas. O que foi
dito demonstra a vanidade de tais afeições.
De tudo quanto foi dito, também fica evidente que as pessoas serem
informadas de sua obrigação porque lhes veio à mente a sugestão direta de que
essa ou aquela atitude ou feito exterior são a vontade de Deus não é
conhecimento espiritual. Se imaginarmos que esse é o verdadeiro modo de Deus
mostrar sua vontade ao seu povo, isto é, por sugestões interiores diretas, tais
sugestões nada têm da natureza da luz espiritual. Essa espécie de conhecimento
seria tão somente um tipo de conhecimento doutrinário. Um conceito a respeito
da vontade de Deus é a rigor uma doutrina da religião, assim como é o conceito
referente à sua natureza ou a uma obra sua. Alguém ter tido a revelação de um
desses conceitos ou de qualquer outro, quer por fala, quer por sugestão interior, é
muito diferente de ter manifestada à sua alma a santa beleza das coisas divinas,
que é essencialmente o conhecimento espiritual. Logo, em Balaão não havia
nenhuma luz espiritual, embora de tempos em tempos o Espírito de Deus lhe
sugerisse diretamente qual era a vontade de Deus referente ao caminho que devia
tomar e o que devia fazer e dizer.
É patente, portanto, que esse tipo de orientação e direção não é a orientação
santa e espiritual do Espírito de Deus, peculiar aos santos e marca característica
dos filhos de Deus de que fala o apóstolo em Romanos: “Pois todos os que são
guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8.14); e em Gálatas:
“Mas, se sois guiados pelo Espírito, já não estais debaixo da lei” (Gl 5.18).
Se uma pessoa têm a vontade de Deus referente a uma atitude que ela deve
tomar sugerida à sua mente de modo súbito e fora do comum por uma passagem
da Escritura, e a mensagem desse texto diz respeito à ação e conduta de outro
indivíduo e já estava na Bíblia antes de lhe vir à mente, mas tal pessoa acha que
Deus, por ter-lhe enviado tal passagem, pretendia algo mais com essas palavras e
quis indicar-lhe uma conduta a ser seguida, isso não muda nada. A sugestão ser
acompanhada de um texto bíblico pertinente não muda sua natureza de sugestão,
não a transforma em instrução espiritual. Por exemplo, se em determinada
ocasião uma pessoa na Nova Inglaterra estivesse em dúvida se seria sua
obrigação ir para um país papista ou pagão onde provavelmente estaria sujeita a
muitos perigos e dificuldades, se ela orasse a Deus para que lhe mostrasse como
cumprir esse dever e, depois de ter orado com sinceridade, viessem-lhe à mente
de modo súbito e fora do comum, como se dirigidas particularmente a ela, as
palavras que Deus disse a Jacó em Gênesis 46: “Não temas descer para o Egito
[...]. Descerei contigo para o Egito e certamente te farei voltar”. Embora essas
palavras já estivessem na Bíblia bem antes de lhe ocorrerem à mente e digam
respeito só a Jacó e à sua conduta, ainda assim ela supõe que Deus tem um
significado a mais com elas, uma vez que lhe foram trazidas à mente e se
aplicam a seu caso. Por isso, imagina tal pessoa, essa mensagem deve ser
entendida com um novo sentido. Isto é, em seu caso particular, Egito deve ser
entendido como o país que ela tem em mente, e a conduta pretendida é sua ida
para lá, e o sentido da promessa é que Deus a trará de volta à Nova Inglaterra.
Essa experiência não tem nada da natureza da orientação espiritual da graça, pois
não tem nada da natureza do entendimento espiritual. Logo, entender textos das
Escrituras não é ter entendimento espiritual delas. Entender as Escrituras
espiritualmente é compreender corretamente o que está nas Escrituras e que já
estava nelas antes de ser entendido; é compreender corretamente o que já estava
contido em seu significado, não a criação de um novo significado. Quando a
mente recebe a correta iluminação espiritual para compreender a Escritura, ela
adquire a capacidade de ver o que já estava na Escritura mas não enxergava
antes por causa da cegueira. Se, contudo, isso acontecia por causa da cegueira, é
prova de que o mesmo sentido estava lá antes, não fosse assim não teria sido por
cegueira não o ter enxergado, afinal, não é cegueira não enxergar o que não
existe. Ter os olhos espiritualmente iluminados para entender a Escritura é ter os
olhos abertos por Deus: “Abre os meus olhos para que eu veja as maravilhas da
tua lei” (Sl 119.18, NVI). Isso mostra o motivo de não se enxergar o mesmo que
já estava antes nas Escrituras: é porque os olhos estavam fechados, o que não
seria o caso se o significado agora entendido não estivesse ali antes, mas fosse
acrescentado à Escritura ex novo quando esta vem à mente de alguém. Essa
criação de novo significado para a Escritura equivale à criação de uma nova
Escritura. Trata-se exatamente de acrescentar à Palavra de Deus o que ela não
diz, uma prática passível de terrível maldição. Entender espiritualmente a
Escritura é ter os olhos da mente abertos para contemplar a maravilhosa
excelência espiritual das coisas gloriosas contidas no seu verdadeiro significado
— que sempre estiveram na Escritura, desde que foi escrita; é contemplar as
manifestações claras e atrativas das perfeições divinas e da excelência e
suficiência de Cristo; é contemplar a excelência e a perfeição do caminho da
salvação em Cristo, a glória espiritual dos preceitos e promessas da Escritura, e
assim por diante. Essas coisas estão e sempre estiveram na Bíblia e, não fosse a
cegueira, teriam sido enxergadas antes, sem nenhum sentido novo acrescentado
por palavras enviadas por Deus a determinado indivíduo, pronunciadas de novo
para ele com um novo significado.
No que diz respeito à orientação da graça do Espírito, pode-se dizer que
consiste em duas ações: instruir a pessoa quanto a seu dever; e com poder
induzi-la a obedecer à instrução. Porém, visto que a orientação graciosa do
Espírito está na instrução, ela consiste na direção do indivíduo pelo sabor
espiritual e distintivo de tudo que traz consigo a verdadeira beleza moral. Eu
disse antes que o conhecimento espiritual consiste sobretudo no prazer ou gosto
pela atratividade e beleza do que é verdadeiramente bom e santo. Esse senso de
prazer santo é o que identifica e distingue entre o bem e o mal, entre o santo e o
profano, sem se preocupar com uma linha de raciocínio. Do mesmo modo, quem
tem o verdadeiro senso de beleza exterior sabe o que é belo apenas pelo olhar,
não precisa de uma linha de raciocínio acerca das proporções de traços para
determinar se o que vê é um rosto bonito ou não; não precisa de nada mais além
de seu próprio olhar. Quem tem ouvido musical apurado sabe se os sons que
ouve compõem uma harmonia verdadeira, não precisa se preocupar com as
explicações de um matemático sobre as proporções das notas. Quem tem o
paladar refinado conhece a boa comida apenas ao prová-la, sem precisar do
raciocínio de um médico sobre o que é um bom alimento. Existem beleza e
dulçor santos nas palavras e ações assim como há beleza natural nos rostos e nos
sons, e assim como nos alimentos existe o dulçor natural: “Por acaso o ouvido
não prova as palavras, como o paladar prova o alimento?” (Jó 12.11). Quando
uma ação santa e atrativa é aventada no pensamento de uma alma santa, esta
alma, se estiver no pleno exercício de seu paladar espiritual, de imediato percebe
a beleza dessa ação e por isso se inclina para ela e com ela se envolve. Do
contrário, se lhe vem à mente uma ação profana e indigna, seus olhos
santificados não veem nela beleza alguma e dela não se agradam; seu paladar
santificado não percebe nenhum dulçor nessa ação, antes, pelo contrário, sente-
se nauseado. O apetite e o paladar santos dessa alma a fazem pensar no que é
realmente belo e o sugerem naturalmente assim como o apetite e o paladar
saudáveis também sugerem naturalmente a ideia de seu objeto próprio. Desse
modo, a pessoa santa é guiada pelo Espírito, uma vez que é instruída e guiada
por seu paladar santo e pela santa disposição de seu coração. No vivo exercício
da graça, ela distingue facilmente entre o bem e o mal e sabe de imediato qual é
o comportamento atrativo e adequado para com Deus e para com os homens,
tanto num caso como no outro. Julga e decide o que é certo por si mesma,
espontaneamente, por assim dizer, sem deduções específicas nem outros
argumentos a não ser a beleza vista e a bondade provada. Por isso, Cristo culpa
os fariseus de não julgarem por eles mesmos o que é bom (“Por que não julgais
também por vós mesmos o que é justo?”), mas precisavam de milagres que lhes
provassem (Lc 12.57). Ao que parece em Romanos 12.2, o apóstolo tem claro
respeito por esse método de julgar a beleza espiritual: “Sede transformados pela
renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e
perfeita vontade de Deus”.
Existe o bom gosto pela beleza natural (e os eruditos falam disso muitas
vezes) que se exerce em relação a coisas temporais para julgá-las quanto, por
exemplo, à imparcialidade de um discurso, a boa qualidade de um estilo, a
beleza de um poema, a elegância de uma conduta, entre outros atributos. Um
grande filósofo desta nação, já falecido, assim escreveu sobre o assunto:20 “Ter
gosto é dar às coisas seu real valor, emocionar-se com o bem e chocar-se com o
mal; é não se deslumbrar com falsos brilhos, a despeito de todas as cores e de
tudo quanto possa enganar ou distrair, para poder julgar com sensatez. Gosto e
julgamento, portanto, deveriam ser a mesma coisa; no entanto, é fácil discernir
uma diferença. O julgamento forma suas opiniões a partir da reflexão. Nessa
oportunidade, a razão busca uma espécie de circuito para chegar a sua
conclusão; conjectura princípios, faz inferências e julga, mas não sem
conhecimento profundo do caso, de modo que, depois de ter-se pronunciado,
esteja pronta para dar o motivo de seus decretos. O bom gosto não observa
nenhuma dessas formalidades. Antes mesmo de ter tempo para refletir, ele já
tomou partido tão logo o objeto lhe foi apresentado, a impressão se fez e se
formou o sentimento, sem mais nenhuma pergunta. Assim como o ouvido se fere
com um som desagradável e o olfato se acalma com um aroma agradável antes
mesmo que a razão tenha tempo de se envolver com esses objetos para os julgar,
também o gosto se revela prontamente e impede toda e qualquer reflexão. As
reflexões podem vir depois para confirmar o gosto e revelar os motivos secretos
de sua conduta, mas não está em seu poder esperá-las. Quase sempre acontece de
não conhecer nenhum deles e, por mais que se esforce, não consegue descobrir o
que o fez pensar assim. Essa conduta é muito diferente da que o juízo segue em
suas decisões, a não ser que se prefira dizer que o bom gosto é, por assim dizer,
um primeiro movimento, ou uma espécie de instinto da razão correta que segue à
frente com rapidez e age com mais segurança do que poderiam fazer todos os
raciocínios. É o primeiro golpe de vista que nos revela a natureza e as relações
das coisas num instante”.
Ora, assim como existe esse gosto da mente de que falam os filósofos,
mediante o qual as pessoas se orientam para julgar a beleza, a elegância, a
probidade, a nobreza e a sublimidade naturais de palavras e ações, com as quais
elas julgam com um golpe de vista, por assim dizer, ou por uma sensação interior
e a primeira impressão do objeto, também existe um gosto divino introduzido e
mantido pelo Espírito de Deus no coração dos santos, com o qual estes são
igualmente orientados e guiados para discernir e distinguir a verdadeira beleza
espiritual e santa das ações — e isso ocorre com mais facilidade, presteza e
precisão na mesma medida em que têm neles a habitação do Espírito de Deus.
Assim, os filhos de Deus são guiados pelo Espírito de Deus em sua conduta
neste mundo.
Quando a graça é vigorosa e viva, a disposição santa e o gosto espiritual
capacitam a alma a identificar que ações são corretas e dignas de um cristão não
somente com mais rapidez, mas também com muito mais precisão que as
maiores habilidades sem esse gosto e disposição. Exemplo disso é o modo que
alguns hábitos da mente e disposições do coração, por natureza inferiores à graça
verdadeira, ensinam e orientam as ações do homem. A saber, se uma pessoa tem
índole muito boa, sua boa índole a instruirá a agir com benevolência em meio a
seus semelhantes, e em todas as ocasiões haverá de guiá-la às palavras e ações
conformes com as regras da bondade, muito melhor do que o mais forte
raciocínio orientaria alguém de temperamento insociável. Logo, se o coração de
uma pessoa tomada de amizade íntegra e da mais encarecida afeição por outra,
ainda que não tenha grandes capacidades, esse seu hábito mental haverá de
dirigi-la com muito mais presteza e precisão ao discurso e procedimento, ou
modo de conduta, amável, bondoso e, em todos os aspectos, concorde com a boa
disposição de coração, melhor do que faria alguém dotado de excelente
capacidade, mas sem esses sentimentos. Esse indivíduo tem consigo, por assim
dizer, um espírito que o guia; seu costume mental é acompanhado do sentido que
lhe permite imediatamente desfrutar o ar e o semblante benévolos, repugnar o
contrário disso e distinguir entre um e o outro de imediato com mais precisão
que a argumentação mais exata consegue descobrir em muitas horas. Assim, a
tendência intrínseca de uma pedra, ou de outro corpo pesado, em queda livre
desde o alto indica o caminho para o centro da terra num instante, com muito
mais precisão do que faria o mais hábil matemático com suas observações mais
apuradas de um dia inteiro de trabalho. É assim que o gosto e a disposição
espirituais ensinam e guiam o comportamento do homem nesse mundo. Assim a
disposição eminentemente humilde, mansa e caridosa guiará uma pessoa de
capacidade mediana a tal comportamento consoante com as normas cristãs de
humildade, mansidão e caridade com muito mais presteza e precisão que o
estudo mais diligente e os mais elaborados raciocínios de uma pessoa de
competência mais elevada que não tenha dentro de si o espírito cristão. Também
é assim que a disposição celeste, o espírito de amor a Deus, o santo temor e
reverência a Deus e a confiança filial nele orientam e dirigem o comportamento
de uma pessoa.
É extremamente difícil ao ímpio, cujo coração é destituído da orientação de
princípios cristãos, saber humilhar-se, como o cristão, com a vida, a beleza e a
amabilidade celestial de um comportamento humilde, verdadeiramente santo e
semelhante a Cristo. O ímpio não sabe vestir essas roupas, e elas não lhe caem
bem: “O coração do sábio o inclina para a direita, mas o coração do tolo o
inclina para a esquerda. Mesmo quando anda pelo caminho, falta entendimento
ao tolo, e ele mostra a todos que é tolo” (Ec 10.2,3); “O trabalho do tolo o deixa
tão exausto que não consegue ir à cidade” (Ec 10.15); “Os lábios do justo sabem
o que agrada, mas a boca dos ímpios fala perversidades” (Pv 10.32); “A língua
dos sábios destila conhecimento, mas a boca dos tolos derrama tolice” (Pv 15.2);
e “O coração do sábio instrui sua boca e aumenta em seus lábios o
conhecimento” (Pv 16.23). Portanto, ao julgar as ações segundo o seu sentido
espiritual, os santos não buscam nenhum recurso particular para exprimir as
regras da Palavra de Deus no que diz respeito a cada palavra e ação que têm
diante de si, o bem ou o mal de cada uma delas; mas o gosto deles, em geral, está
sujeito à lei da Palavra de Deus e deve ser julgado por ela e pelo raciocínio
correto a seu respeito, assim como um homem de gosto refinado julga
determinados alimentos mediante seu paladar, e no entanto seu próprio paladar
deve ser julgado por normas e razões inquestionáveis quanto a estar certo ou
não. O gosto espiritual da alma, porém, ajuda-a poderosamente a raciocinar
sobre a Palavra de Deus e julgar o significado verdadeiro de suas regras, pois
remove os preconceitos do apetite depravado e dirige naturalmente os
pensamentos pelos caminhos corretos. Lança luz sobre a Palavra de Deus e faz
vir à mente com muita naturalidade o significado verdadeiro mediante a
harmonia existente entre a disposição e o prazer de uma alma santificada e o
verdadeiro significado das regras da Palavra. Essa mesma harmonia costuma
trazer os textos à mente nas oportunidades certas, assim como um estado
específico do estômago e do paladar costuma sugerir à mente determinados
alimentos e bebidas de acordo com esse estado. Do mesmo modo, os filhos de
Deus são dirigidos pelo Espírito de Deus quando julgam suas próprias ações,
bem como em suas meditações na Palavra de Deus e na aplicação das regras de
sua santa Palavra. Assim Deus lhes ensina seus estatutos e os faz entender o
caminho de seus preceitos, entendimento que o salmista pede com tanta
frequência e insistência em suas orações.
Essa orientação do Espírito, porém, é totalmente diferente daquilo que
alguns chamam de orientação do Espírito e não consiste em ensinar-lhes os
estatutos e preceitos de Deus, os quais o Senhor já deu, mas consiste, sim, em
receberem novos preceitos, mediante sugestão direta, por voz interior, sem
nenhum gosto da verdadeira excelência das coisas, tampouco juízo e
discernimento da natureza das coisas. Tais pessoas não identificam a vontade de
Deus por gosto nem paladar algum, nem por nenhum tipo de juízo acerca da
natureza das coisas, mas, sim, por uma ordem direta relativa ao que deve ser
feito; não há nesse caso nada de discernimento nem sabedoria, ao passo que, na
direção do Espírito, peculiar aos filhos de Deus, são transmitidos a verdadeira
sabedoria e o discernimento santo mencionados com tanta frequência na Palavra
de Deus. Essa direção do Espírito é tão superior à outra quanto os astros são
mais elevados que um vaga-lume. Balaão e Saul (que às vezes eram dirigidos
pelo Espírito) jamais a tiveram, e homem natural nenhum pode tê-la sem
mudança de natureza.
O que foi dito acerca da natureza do entendimento espiritual — que consiste
essencialmente no prazer e no senso sobrenatural divino do coração — não só
demonstra que nada disso existe nessa suposta direção do Espírito de que
acabamos de falar, mas também mostra a diferença entre o entendimento
espiritual e todas as espécies e formas de entusiasmo, todas as visões imaginárias
de Deus, de Cristo e do céu, todos os supostos testemunhos do Espírito e
testemunhos do amor de Deus por sugestão interior direta, todas as impressões
de acontecimentos futuros e revelações diretas de quaisquer fatos secretos, todas
as impressões entusiásticas e as aplicações inusitadas de palavras da Escritura —
como se estas fossem palavras novas, pronunciadas agora por Deus a uma
pessoa em particular, com um significado novo, como se contivessem nelas algo
mais do que as palavras já registradas na Bíblia — e todas as interpretações do
significado místico da Escritura por suposta revelação imediata. Nada disso é o
senso nem o prazer divino do coração pela santa beleza e excelência das coisas
divinas; tampouco essas coisas têm relação com esse sentido espiritual; mas
todas consistem tão somente em impressões da mente e são apenas ideias
externas estimuladas na mente, quer se trate de ideias de formas e cores
exteriores, quer de palavras proferidas, quer de letras escritas, quer de imagens
de qualquer objeto exterior e sensível relacionadas com ações já praticadas, com
eventos ocorridos ou ainda por ocorrer. Uma suposta manifestação entusiástica
do amor de Deus é causada pela ideia emocionante de um rosto sorridente ou de
alguma outra aparência externa agradável, ou pela ideia de palavras agradáveis
ditas ou escritas provocadas na imaginação, ou ainda alguma sensação física
agradável. Desse modo, quando as pessoas têm uma revelação imaginária de
algum fato secreto, isso ocorre pela provocação de ideias externas, quer de
palavras que sugiram a declaração desse fato, quer de circunstâncias visíveis ou
sensíveis do fato. Logo, a suposta direção do Espírito para que a pessoa faça com
sua conduta exterior a vontade de Deus ocorre ou pela provocação em sua mente
da ideia de palavras (que são coisas exteriores), palavras da Escritura ou outras
quaisquer, que ela toma como ordem direta de Deus, ou pela forte instigação e
impressão das ideias das próprias ações exteriores; portanto, quando uma
interpretação de um tipo ou de uma alegoria da Escritura é sugerida direta e
fortemente, e de um modo fora do comum, pela recordação de palavras, como se
alguém as sussurrasse secretamente e lhes revelasse o sentido ou provocasse
outras ideias na imaginação.
Experiências e revelações como essas em geral elevam a grandes alturas as
afeições daqueles que por elas são iludidos e lhes causam um enorme tumulto na
alma e no corpo. Boa parte da falsa religião que tem havido no mundo através
dos séculos consiste em falsas revelações como essas e nas afeições que delas
decorrem. Em coisas desse tipo consistiam as experiências dos antigos
pitagóricos e de muitos outros pagãos, que tinham estranhos êxtases e
arrebatamentos e fingiam receber inspiração divina e revelações imediatas do
céu. Ao que parece, também em coisas como essas consistiam as experiências
dos essênios, seita judaica da época dos apóstolos e de pouco depois dela.
Nessas coisas consistiam as experiências de muitos gnósticos, montanistas e
muitas outras antigas seitas heréticas dos primórdios da igreja cristã. Em coisas
como essas consistiam as pretensas conversas diretas com Deus, com Cristo,
com os santos e com os anjos do céu, conversas alegadas por monges, anacoretas
e enclausurados, outrora abundantes na Igreja de Roma. Em coisas como essas
consistiam as pretensas experiências elevadas e a grandiosa espiritualidade de
muitas seitas de fanáticos que pulularam no mundo após a Reforma; tais como
os anabatistas, os antinomianos, os familistas, os seguidores de N. Stork, T.
Muncer, J. Becold, Henry Pfeifer, Dabid George, Casper Schwenckfeld, Henry
Nicholas, Johannes Agricola Eislebius e muitos entusiastas fanáticos que havia
na Inglaterra na época de Oliver Cromwell, bem como os seguidores da sra.
Hutchinson na Nova Inglaterra — como parece pelos extensos e
circunstanciados relatos produzidos pelo sr. Samuel Rutherford, eminente
homem de Deus, em Display of the spiritual Antichrist [Exposição do Anticristo
espiritual]. Em coisas como essas consistiam as experiências dos profetas
franceses de ultimamente e seus seguidores. Por fim, também em coisas como
essas parece residir a religião de muitos tipos de fanáticos dos dias atuais. É
sobretudo por esse tipo de religião que Satanás se transforma em anjo de luz. É
disso que ele sempre se valeu com muito êxito para confundir os felizes e
esperançosos avivamentos da religião desde o início da igreja cristã até os dias
de hoje. Quando o Espírito de Deus se derrama para começar uma obra gloriosa,
a antiga serpente aí introduz, o mais rápido possível e por todos os meios, essa
religião bastarda e a mescla com a religião verdadeira, o que de tempos em
tempos logo põe tudo em confusão. Não é fácil imaginar nem conceber as
consequências perniciosas de tudo isso enquanto não vemos e não nos
assombramos com seus terríveis efeitos, os estragos e a triste desolação que
causam. Ainda que o reavivamento da religião verdadeira seja muito bom no
início, se essa religião bastarda entrar em cena, existe o perigo de que ela faça o
mesmo que o filho bastardo de Gideão, Abimeleque, o qual não desistiu
enquanto não matou os setenta filhos legítimos de seu pai, exceto um que foi
obrigado a fugir. Por isso, a vigilância dos ministros contra essas coisas deve ser
intensa e rigorosa, sobretudo num tempo de grande despertamento, pois as
pessoas, principalmente o povo comum, são facilmente enfeitiçadas por esse tipo
de coisa, de aspecto brilhante e deslumbrante da religião elevada. O Diabo oculta
sua própria forma e surge como anjo de luz, para que os homens não tenham
medo dele, mas, sim, o adorem.
Ao que parece, é na imaginação ou fantasia que se formam todas as ilusões
de Satanás, as quais arrebatam quem está sob a influência da falsa religião e de
graças e afeições espúrias. Aí está o grande esconderijo do Diabo, o ninho por
excelência dos espíritos imundos e enganadores. É muito improvável que o
Diabo seja capaz de chegar à alma do homem para afetá-la de alguma maneira
ou provocar-lhe algum pensamento ou comoção, ou nela produzir qualquer
efeito que seja, a não ser mediante a fantasia. Fantasia é a faculdade da alma que
lhe permite receber ideias e aparências de coisas exteriores e sensíveis e a elas
sujeitar-se. No que diz respeito às leis e aos meios que o Criador estabeleceu
para o intercâmbio e a comunicação de espíritos incorpóreos, não sabemos nada
sobre eles; não sabemos por que meios eles manifestam suas ideias uns aos
outros nem como provocam pensamentos uns nos outros. Contudo, no que se
refere aos espíritos unidos ao corpo, esse corpo a que Deus os uniu é o seu meio
de comunicação. Eles não têm nenhum outro meio de agir sobre outras criaturas
nem de sofrer a ação delas a não ser o corpo. Portanto, não se deve supor que
Satanás seja capaz de instigar qualquer pensamento ou produzir qualquer efeito
na alma do ser humano a não ser mediante alguma comoção dos humores vitais
ou causando alguma emoção ou alteração em algo pertinente ao corpo. Existe
razão para crer que o Diabo é incapaz de produzir pensamentos na alma
diretamente ou de qualquer outro modo a não ser por meio do corpo, isto é, ele
não é capaz de ver nem de conhecer os pensamentos da alma sem intermediário.
A Escritura declara prodigamente que isso é atributo exclusivo do Deus
onisciente. Não é possível que o Diabo consiga produzir diretamente algum
efeito fora do alcance de sua visão imediata. Parece pouco razoável imaginar que
sua ação imediata ocorra fora de seu campo de visão ou que lhe seria impossível
enxergar o que ele próprio faz sem intermediários. Por acaso não seria
desarrazoado imaginar que algum espírito ou agente inteligente, por um ato de
sua vontade, pudesse sem nenhum intermediário produzir efeitos segundo o seu
entendimento, ou agradáveis a seus próprios pensamentos, e ainda assim os
efeitos produzidos estivessem além do alcance do seu entendimento ou em
algum lugar onde esse agente não pudesse ter percepção direta nem
discernimento? Nesse caso, entretanto, o Diabo não pode produzir ideias na alma
diretamente nem de nenhum outro modo que não seja pela mediação dos
humores vitais ou do corpo. Disso se segue que ele jamais realiza nada na alma a
não ser pela imaginação ou fantasia, ou pelo estímulo de ideias externas. Porque
sabemos que as alterações no corpo não estimulam diretamente nenhum tipo de
ideia na mente senão ideias externas, ideias dos sentidos externos ou ideias da
mesma natureza exterior. No que diz respeito à reflexão, à abstração, ao
raciocínio etc. e às ideias e emoções interiores que são frutos desses atos da
mente, eles não são efeitos próximos das impressões corpóreas. Isso significa
que somente pela imaginação Satanás tem acesso à alma, para a enganar e tentar
ou lhe sugerir alguma coisa.21 Tudo indica que esse é o motivo por que as
pessoas sob o efeito da enfermidade da melancolia são em geral patente e
extraordinariamente sujeitas às sugestões e tentações de Satanás. Isso ocorre
porque a melancolia é uma enfermidade que afeta em particular o ânimo e a
vitalidade e é acompanhada de fraqueza da parte do organismo que é a fonte dos
humores vitais, inclusive o cérebro, que é, por assim dizer, a sede da fantasia. É
mediante impressões no cérebro que toda ideia é estimulada na mente pelo
mecanismo dos humores vitais ou qualquer outra mudança no organismo.
Quando o cérebro está enfraquecido e enfermo, fica menos sujeito ao controle
das faculdades mais elevadas da alma e, por isso, cede mais facilmente às
impressões extrínsecas e é dominado pelo funcionamento desordenado dos
humores vitais, de modo que o Diabo se vê com mais vantagem para influenciar
a mente, trabalhando na imaginação. Assim, quando Satanás instila sugestões
horrendas na mente de muitos melancólicos, que não têm participação nenhuma
nelas, ele age estimulando ideias imaginárias de palavras ou frases aterrorizantes
ou de outras ideias exteriores horrendas. Quando tenta pessoas que não são
melancólicas, faz isso apresentando-lhes à imaginação, de um jeito vivo e
atraente, os objetos dos desejos pecaminosos dessas pessoas, ou estimulando
ideias de palavras e, assim, instigando com elas pensamentos; ou ainda
promovendo a imaginação de ações, eventos, circunstâncias, entre outras coisas
externas. Inúmeros são os meios pelos quais a mente pode ser conduzida a
pensamentos malignos de toda espécie mediante a instilação de ideias externas
na imaginação.
Se as pessoas não se mantiverem vigilantes em relação a esses métodos
pelos quais Satanás tem acesso à alma para as enganar e tentar, é bem provável
que ele as sature com isso, sobretudo se, ao invés de se defenderem, elas abrirem
a guarda para ele, procurando-o e convidando a entrar, pois ele se manifesta
como anjo de luz e falsifica as iluminações e as graças do Espírito de Deus com
sussurros interiores, sugestões diretas de fato e eventos, vozes agradáveis, belas
imagens e outras impressões na imaginação. Muitos se iludem com essas coisas,
sentem-se enlevados por elas e as buscam a ponto de as ter continuamente e
quase sempre que quiserem — sobretudo quando o orgulho e a vanglória lhes
dão mais oportunidade para exibi-las perante os outros. Ocorre com eles o
mesmo que com os mestres na arte de encontrar coisas perdidas mediante
impressões na imaginação: deixam-se abertos para o Diabo, que está sempre
disponível para lhes dar a impressão desejada.
Antes de concluir o que tenho a dizer acerca deste tópico sobre imaginações,
luz espiritual falsificada e as afeições que delas decorrem, reitero, para evitar
mal-entendidos sobre o que foi dito, meu desejo de que se observe que estou
longe de afirmar categoricamente que nenhuma afeição acompanhada de ideias
imaginárias é espiritual. A natureza do ser humano é tal que ele mal consegue
pensar intensamente em uma coisa sem nenhum tipo de ideias externas. Estas
surgem e se interpõem inescapavelmente no curso dos pensamentos do
indivíduo, apesar de muitas vezes serem muito confusas, não aquilo que a mente
considera. Quando a mente está muito concentrada, e os pensamentos são
intensos, muitas vezes a imaginação é mais forte e a ideia externa é mais vívida,
sobretudo em pessoas de alguns tipos de compleição física. Contudo é bem
grande a diferença entre essas duas situações — a saber, imaginações vivas que
nascem de afeições intensas e afeições intensas que nascem de imaginações
vivas. A primeira situação pode ocorrer, e sem dúvida ocorre com frequência, no
caso de afeições legitimamente oriundas da graça. As afeições não nascem da
imaginação nem dependem dela em nada; pelo contrário, a imaginação é apenas
o efeito acidental, ou consequência da afeição, por causa da debilidade da
natureza humana. Quando, porém, como é frequente, as afeições nascem da
imaginação e têm nela o alicerce em vez de se fundamentarem em iluminação
espiritual ou revelação, essas afeições, por mais elevadas que sejam, não têm
valor e são vãs. É esse o sentido do que acabou de ser dito acerca das impressões
na imaginação. Feitas essas considerações, passo a tratar de outra característica
das afeições oriundas da graça.

V. As afeições verdadeiramente oriundas da graça são


acompanhadas de sensata convicção espiritual do juízo, da
realidade e da certeza das coisas divinas
Isso parece implícito no texto posto como fundamento deste raciocínio: “Pois,
sem tê-lo visto, vós o amais e, sem vê-lo agora, crendo, exultais com alegria
inexprimível e cheia de glória”.
Todas as pessoas verdadeiramente dotadas da graça têm a convicção firme,
plena, cabal e eficaz da verdade das coisas grandiosas do evangelho. Quero
dizer, elas já não balançam entre duas opiniões; as excelentes doutrinas do
evangelho deixam de ser-lhes assuntos incertos ou questão de opinião, deixam
de ser algo que, embora comprovável, ainda é passível de questionamento. Para
as pessoas dotadas da graça, essas doutrinas são pontos estabelecidos e
determinados, indiscutíveis e irrefutáveis, a ponto de elas não terem medo de
arriscar a vida e tudo o que têm por essa verdade. A convicção delas é eficaz, de
modo que as coisas invisíveis, espirituais, misteriosas e excelentes do evangelho
têm sobre elas a influência de coisas reais e certas; no coração delas, as verdades
do evangelho têm o peso e o poder de coisas reais e, por conseguinte, regem suas
afeições e as governam por toda a vida. No que concerne a Cristo ser o Filho de
Deus e o Salvador do mundo, e às coisas excelentes que ele revelou de si
mesmo, de seu Pai e do outro mundo, essas pessoas não têm apenas a opinião
predominante de que tudo isso é verdade, e por isso dão sua anuência como a
dão a muitas outras matérias de especulação duvidosa; antes, elas entendem que
de fato é assim mesmo; elas têm os olhos abertos, por isso realmente entendem
que Jesus é o Cristo, o Filho do Deus vivo. Quanto a tudo que Cristo revelou
sobre os desígnios e propósitos eternos de Deus para o homem decaído e sobre
as realidades gloriosas e permanentes preparadas para os santos no outro mundo,
elas entendem que de fato tudo é assim mesmo. Por isso, essas verdades têm um
elevado valor para elas e muito poder sobre o seu coração, forte influência sobre
sua prática de vida, em certa medida correspondente à infinita importância de
tudo isso.
Que todos os cristãos verdadeiros têm esse tipo de convicção da verdade das
coisas do evangelho está copiosamente explícito nas Escrituras Sagradas.
Menciono apenas algumas dentre muitas passagens: “Mas vós, quem dizeis que
eu sou? Respondendo, Simão Pedro disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.
E Jesus lhe disse: Simão Barjonas, tu és bem-aventurado, pois não foi carne e
sangue que te revelaram isso, mas meu Pai, que está no céu” (Mt 16.15-17); “Tu
tens as palavras de vida eterna. E nós cremos e sabemos que tu és o Santo de
Deus” (Jo 6.68,69); “Manifestei o teu nome aos homens que do mundo me deste.
[...] Agora sabem que tudo quanto me deste vem de ti; porque lhes transmiti as
palavras que tu me deste, e eles as acolheram e verdadeiramente reconheceram
que vim de ti e creram que tu me enviaste” (Jo 17.6-8); “É permitido, se crês de
todo o coração” (At 8.37); “Pois nós, que vivemos, somos sempre entregues à
morte por causa de Jesus [...]. De modo que em nós atua a morte [...]. Todavia,
uma vez que temos o mesmo espírito de fé, conforme está escrito: Cri, por isso
falei; também nós cremos, por isso também falamos. Sabemos que aquele que
ressuscitou Jesus também nos ressuscitará com ele e nos apresentará convosco”
(2Co 4.11-14); juntamente com: “Por isso não nos desanimamos” (v. 16); e “pois
não fixamos o olhar nas coisas visíveis” (v. 18), entre outros. E ainda: “Sabemos
que, se esta nossa tenda, nossa casa terrena, for destruída, temos um edifício da
parte de Deus” (2Co 5.1); “Portanto, estamos sempre confiantes, sabendo que,
enquanto presentes no corpo, estamos ausentes do Senhor; porque vivemos pela
fé e não pelo que vemos. Assim, estamos confiantes e preferimos estar ausentes
do corpo e presentes com o Senhor” (v. 6-8); “Por essa razão sofro também essas
coisas, mas não me envergonho; porque eu sei em quem tenho crido e estou
certo de que ele é poderoso para guardar o meu tesouro até aquele dia” (2Tm
1.12); “… casa que somos nós, se conservarmos firmes até o fim a nossa
confiança e a glória da esperança” (Hb 3.6); “A fé é a garantia do que se espera e
a prova do que não se vê” (Hb 11.1), e todo o restante do capítulo; “Assim,
sabemos que permanecemos nele, e ele em nós, por ele nos haver dado do seu
Espírito. E nós temos visto e testemunhado que o Pai enviou seu Filho como
Salvador do mundo. Todo aquele que confessa que Jesus é o Filho de Deus,
Deus permanece nele, e ele em Deus. E conhecemos o amor que Deus tem por
nós” (1Jo 4.13-16); e “... pois todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e
esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé. Quem vence o mundo, senão
aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus?” (1Jo 5.4,5).
Portanto, as afeições verdadeiramente oriundas da graça são acompanhadas
da convicção e persuasão da verdade das coisas do evangelho e da percepção de
quanto elas são evidentes e reais, como dizem essas e outras passagens da
Escritura.
Muitas afeições religiosas não são acompanhadas dessa espécie de
convicção. Alguns têm muitas percepções e ideias, a que chamam de “revelações
divinas”. Essas tais revelações afetam essas pessoas, mas não as convencem.
Apesar de, por um breve período, elas se perceberem mais persuadidas da
verdade das coisas da religião do que eram antes e talvez manifestarem
anuência, como faziam muitos dos ouvintes de Cristo, que creram durante algum
tempo, essas pessoas não têm a convicção plena e eficaz, tampouco sofrem
mudança substancial e permanente a esse respeito. Não ocorre a transformação
que as faz perceber, ao contrário de antes, as coisas grandiosas do evangelho e
enxergar e contemplar essas coisas com olhos novos, convictos e certos de sua
realidade. Muita gente já se exaltou sobremaneira com afeições religiosas e
acredita ter-se convertido, mas tais pessoas não estão mais convictas da verdade
do evangelho do que antes. Pelo menos, essas pessoas não demonstram nenhuma
alteração marcante; não vivem sob a influência e o poder da convicção
consciente das coisas infinitas e eternas reveladas pelo evangelho. Se tivessem
essa consciência, seria impossível viverem como vivem. Uma vez que as
afeições desses indivíduos não são acompanhadas da profunda convicção da
mente, não se pode confiar nelas nem um pouco, por maior que seja o barulho e
o espalhafato que façam. Essas afeições se assemelham ao fogo de palha ou ao
crepitar do espinheiro. São como a planta que brota rapidamente em solo
pedregoso, mas não tem raízes nem profundidade de terra que lhe sustentem a
vida e por isso fenece tão rápido como brotou.
Sob a influência de afeições intensas e da confiante persuasão de seu bom
estado espiritual, algumas pessoas têm, o que, com rematada ignorância,
chamam de visão da verdade da Palavra de Deus, mas que não poderia estar
mais distante disso. Vem-lhes à mente de modo súbito e extraordinário algum
texto da Escritura declarando-lhes diretamente, sem intermediário (como elas
presumem), que seus pecados foram perdoados, ou que Deus as ama e as salvará.
Às vezes pode vir uma sequência de passagens com o mesmo propósito, e tais
pessoas se convencem de que é a verdade, ou seja, elas se convencem de que
isso ocorreu mesmo, seus pecados foram perdoados, Deus as ama, e assim por
diante. Afirmam que sabem que é assim e, quando as palavras da passagem da
Escritura lhes são sugeridas e, como elas supõem, são-lhes declaradas
diretamente por Deus com esse significado, elas estão prontas para gritar:
“Verdade, verdade, verdade! Sem dúvida é verdade! A palavra de Deus é
verdadeira!”. Chamam a esse fenômeno de “enxergar a verdade da Palavra de
Deus”, ao passo que o todo de sua fé se resume a nada mais que apenas forte
confiança de seu bom estado e, portanto, a confiança de que são autênticas essas
palavras que supostamente lhes garantem seu bom estado — quando na
realidade (como foi demonstrado antes) não há nenhuma passagem da Escritura
que declare diretamente, nem de qualquer outro modo, que determinada pessoa
se encontra em bom estado espiritual, a não ser por consequência. Logo, tal
episódio, ao invés de revelação autêntica da verdade da palavra de Deus, é uma
revelação de nada mais que uma quimera, pura ilusão. Enxergar genuinamente a
verdade da Palavra de Deus é enxergar a verdade do evangelho, que é a gloriosa
doutrina contida na Palavra de Deus acerca de Deus, de Jesus Cristo, do caminho
da salvação por intermédio de Cristo e do mundo de glória onde ele entrou e que
adquiriu para todos quantos nele creem; não é ter a revelação de que esta ou
aquela pessoa é verdadeiramente cristã e vai para o céu. Portanto, as afeições
que não nascem unicamente da persuasão da verdade da Palavra de Deus nascem
de ilusão, e não de convicção autêntica; por conseguinte, elas próprias são
ilusórias e vãs.
Contudo, mesmo que as afeições religiosas de algumas pessoas de fato
provenham de forte persuasão da veracidade da religião cristã, não por isso elas
são as melhores, se a persuasão delas não for persuasão, ou convicção, lógica.
Quando digo “convicção lógica”, refiro-me à convicção baseada em dados reais
ou sobre uma boa razão ou justo motivo de convicção. As pessoas podem ter
forte convicção de que a religião cristã é verdadeira embora essa convicção não
se assente em dados sólidos, mas tão somente na sua formação e na opinião de
outros — assim como muitos maometanos são fortemente convencidos da
verdade da religião maometana porque seus pais, seus vizinhos e amigos, e sua
nação creem nela. A crença na veracidade da religião cristã e a crença dos
maometanos na religião maometana, se sustentadas pelos mesmos alicerces, são
o mesmo tipo de crença. Ainda que o objeto da crença venha a ser melhor, isso
não faz que a crença em si seja de espécie melhor; pois, embora o objeto da
crença venha a ser verdadeiro, crer nele não se deve a sua verdade, mas à criação
de quem crê. Assim como a convicção não é melhor que a convicção dos
maometanos, de igual modo as afeições que dela fluem não são em si mesmas
melhores que as afeições religiosas dos maometanos.
Todavia, se essa crença nas doutrinas cristãs que dá origem às afeições das
pessoas não se deve simplesmente à formação de tais pessoas, mas provém na
verdade de razões e argumentos, disso não segue necessariamente que as
afeições dessas pessoas provêm de fato da graça. Para isso, é preciso não só que
a crença da qual suas afeições nascem seja razoável, mas também que seja uma
crença ou convicção espiritual. Suponho que ninguém duvide que alguns
homens naturais demonstrem em alguma medida anuência com a verdade da
religião cristã a partir das provas ou argumentos racionais oferecidos por
testemunho sobre ela. Judas, sem dúvida, cria que Jesus é o Messias, por tudo
que via e ouvia; mas ainda assim foi o tempo todo um demônio. Por isso em
João 2.23-25 lemos sobre muitos que creram no nome de Cristo quando viram os
milagres que ele fez, mas que Cristo sabia não terem em si nada em que se
pudesse confiar. Do mesmo modo, Simão, o mago, quando viu os milagres e
sinais que eram realizados, creu; mas permaneceu preso no fel da amargura e nos
grilhões da iniquidade (At 8.13,23). Se alguns homens naturais têm tal crença ou
anuência, ninguém há de duvidar de que dela podem nascer afeições religiosas;
conforme lemos sobre alguns que creram por um tempo, comoveram-se muito e
receberam a palavra pronta e alegremente.
É evidente que existe a crença ou convicção espiritual da verdade das coisas
do evangelho, ou uma crença peculiar às pessoas espirituais, que são regeneradas
e têm o Espírito de Deus em suas santas comunicações, habitando-as como
princípio vital. Desse modo, a convicção dessas pessoas não é diferente da
convicção do homem natural no que diz respeito àquilo que a acompanha, isto é,
as boas obras, mas a própria fé é diferente, a anuência e a convicção das pessoas
espirituais é de uma espécie peculiar a elas e completamente ausente no homem
natural. Se as Escrituras deixam uma coisa bem clara, é isso: “... creram que tu
me enviaste” (Jo 17.8); “... para promover a fé que é dos eleitos de Deus e o
pleno conhecimento da verdade segundo a piedade” (Tt 1.1, ARA); “o próprio
Pai vos ama, visto que me amastes e crestes que vim de Deus” (Jo 16.27); “Todo
aquele que confessa que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece nele, e ele em
Deus” (1Jo 4.15); “Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo é nascido de Deus”
(1Jo 5.1); “Quem crê no Filho de Deus tem o testemunho em si mesmo” (1Jo
5.10).
Somos levados naturalmente a definir o que é convicção espiritual do juízo
pelo que já foi dito na seção anterior sobre o entendimento espiritual. A
convicção do juízo nasce da iluminação do entendimento. O juízo correto das
coisas depende da percepção, ou ideia, correta dessas coisas. Disso decorre que a
convicção espiritual da verdade das coisas grandiosas do evangelho é esse tipo
de convicção, pois nasce da percepção espiritual dessas coisas na mente. Isso
também está claro nas Escrituras, que afirmam que a fé salvífica da realidade e
divindade das coisas que nos são propostas e mostradas no evangelho procede da
iluminação do Espírito de Deus na mente para que esta tenha a correta percepção
da natureza dessas coisas, como se elas lhes fossem desveladas ou reveladas; e
tenha a capacidade de enxergar e percebê-las como elas de fato são. “Graças te
dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, pois ocultaste essas coisas aos sábios e
eruditos e as revelaste aos pequeninos; sim, ó Pai, porque assim o quiseste.
Todas as coisas me foram entregues por meu Pai; e ninguém conhece quem é o
Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o
quiser revelar” (Lc 10.21,22); “Porque esta é a vontade de meu Pai: que todo
aquele que vê o Filho e nele crê tenha a vida eterna” (Jo 6.40); “Manifestei o teu
nome aos homens que do mundo me deste. [...] Agora sabem que tudo quanto
me deste vem de ti; porque lhes transmiti as palavras que tu me deste, e eles as
acolheram e verdadeiramente reconheceram que vim de ti e creram que tu me
enviaste” (Jo 17.6-8). Cristo ter manifestado o nome de Deus aos discípulos, ou
ter-lhes dado verdadeira percepção e visão das coisas divinas, foi o que lhes
permitiu saber que a doutrina de Cristo era de Deus e que o próprio Cristo era de
Deus e fora enviado por ele. “Simão Pedro disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus
vivo. E Jesus lhe disse: Simão Barjonas, tu és bem-aventurado, pois não foi
carne e sangue que te revelaram isso, mas meu Pai, que está no céu” (Mt
16.16,17); “Quem crê no Filho de Deus tem o testemunho em si mesmo” (1Jo
5.10); “Sendo extremamente zeloso das tradições de meus pais. Quando, porém,
ao que me separou antes de eu nascer e me chamou pela sua graça, aprouve
revelar seu Filho em mim, para que eu o pregasse entre os gentios, sem detença,
não consultei carne e sangue” (Gl 1.14-16, ARA).
Sendo assim, a convicção espiritual da divindade e realidade das coisas
expostas no evangelho nasce da compreensão espiritual dessas coisas; já
expliquei o que é isso, a saber, o senso e o paladar da beleza e excelência divina,
suprema e santa dessas coisas. A mente é convencida espiritualmente da
divindade e verdade das coisas grandiosas do evangelho quando essa convicção
nasce, direta ou remotamente, desse senso ou percepção da divina excelência e
da glória dessas coisas ali expostas. Isso decorre claramente do que já foi dito; e
quanto a isso as Escrituras são explícitas e bem claras: “Se o nosso evangelho
está encoberto, é para os que estão perecendo que está encoberto, entre os quais
o deus deste século cegou a mente dos incrédulos, para que não vejam a luz do
evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus. Pois não pregamos a
nós mesmos, mas a Jesus Cristo, o Senhor, e a nós mesmos como vossos servos
por causa de Jesus. Porque Deus, que disse: Das trevas brilhará a luz, foi ele
mesmo quem brilhou em nosso coração, para iluminação do conhecimento da
glória de Deus na face de Cristo” (2Co 4.3-6). E, juntamente com o último
versículo do capítulo anterior, que introduz: “Mas todos nós, com o rosto
descoberto, refletindo como um espelho a glória do Senhor, somos
transformados de glória em glória na mesma imagem, que vem do Espírito do
Senhor”. Nada pode ser mais evidente do que isto: a fé salvadora do evangelho,
aqui mencionada pelo apóstolo, nasce da iluminação da mente para contemplar a
glória divina das coisas ali expostas.
Essa percepção ou sentido da glória divina e da incomparável beleza das
coisas que nos são expostas no evangelho tem o objetivo de convencer a mente
acerca de sua divindade de duas maneiras, diretamente e mais indireta ou
remotamente.

1. A percepção direta dessa divina glória convence a mente da divindade


dessas coisas, pois essa glória é de per si prova direta e clara, irrefutável,
sobretudo quando é claramente revelada ou quando esse sentido sobrenatural é
dado em boa medida.
Quem tem o juízo diretamente convencido e assegurado da divindade das
coisas do evangelho pelo entendimento claro de sua glória divina tem a
convicção lógica; sua fé e garantia são completamente harmônicas com a razão,
porque a glória divina e a beleza divina das coisas por si mesmas são prova real
da divindade, a prova mais direta e mais forte. Quem percebe verdadeiramente a
divina, transcendente e suprema glória das coisas divinas conhece a divindade
delas intuitivamente, por assim dizer. Não só alega serem divinas, mas também
as percebe assim; vê que é nelas que a divindade consiste acima de tudo, pois
nessa glória, tão imensa e inexprimivelmente distinta da glória das coisas
artificiais e de toda e qualquer outra glória, consiste principalmente a verdadeira
noção de divindade. Deus é Deus, distinto de todos os outros seres, exaltado
acima deles, sobretudo por sua divina beleza, infinitamente distinto de todas as
outras belezas. Os que, portanto, veem o selo dessa glória nas coisas divinas
enxergam Deus nelas e, assim, percebem que são divinas, pois veem que nelas
está a ideia mais verdadeira da divindade. Desse modo, a alma pode ter uma
espécie de conhecimento intuitivo da divindade das coisas expostas no
evangelho. Não que julgue que as doutrinas do evangelho são de Deus sem
nenhum questionamento ou dedução, mas faz isso sem uma longa cadeia de
argumentos. O argumento é um só, e a prova é direta; a mente ascende à verdade
do evangelho numa só etapa, que é a sua divina glória.
Seria muito estranho um cristão professo negar que é possível haver nas
coisas divinas excelência tão transcendente e tão distinta da excelência das
outras coisas que, quando vista, as distingue com perfeita clareza. Não podemos
racionalmente duvidar de que as coisas divinas, respeitantes ao Ser Supremo, são
imensamente diferentes das humanas; que elas têm excelência divina sublime e
gloriosa capaz de as distinguir das coisas humanas; tampouco podemos duvidar
racionalmente de que essa diferença é inefável e, portanto, quando vistas, essas
coisas convencem satisfatoriamente qualquer um de que são divinas de fato. Sem
dúvida, o Ser Divino tem a glória e a excelência que o distinguem infinitamente
de todos os outros seres e que, uma vez vistas, permitem que o caráter dele seja
conhecido por meio delas. Seria, portanto, muito ilógico negar que é impossível
a Deus dar demonstrações dessa excelência característica naquilo que lhe apraz
dar-se a conhecer e que essa excelência distintiva seja vista nitidamente nessas
coisas. Há excelências naturais de sujeitos ou autores muito características deles
e nitidamente visíveis a qualquer um que as observe. Que enorme diferença
existe entre a fala de uma pessoa com entendimento e a de uma criancinha! Quão
distinto é o discurso de alguns indivíduos de excelente talento, como Homero,
Cícero, Milton, Locke, Addison e outros, em comparação com o discurso de
tantas outras pessoas com entendimento! Não se podem impor limites ao grau de
manifestação de excelência mental que pode transparecer na fala. Contudo, a
aparência das perfeições naturais de Deus nas manifestações que ele dá de si
pode ser, sem dúvida, inefavelmente mais própria e característica do que as
aparências de excelência das minhocas, que distinguem esses vermes uns dos
outros. Quem conhece bem a humanidade e suas obras saberá, ao ver o sol, que
ele não é obra humana. E é razoável supor que, quando Cristo, no fim do mundo,
vier na glória de seu Pai, ele terá tão grandiosa e inefável aparência de divindade
que não deixará dúvida alguma para os habitantes da terra, mesmo os céticos
mais obstinados, de que quem está surgindo é uma pessoa divina. Acima de
tudo, porém, as manifestações da glória moral e espiritual do Ser Divino (glória
essa que é a beleza própria da divindade) têm consigo suas próprias evidências e
costumam dar segurança ao coração. Foi assim que os discípulos tiveram certeza
de que Jesus era o Filho de Deus, pois, como registra o evangelho, “vimos a sua
glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1.14,
ARC). Quando Cristo apareceu aos discípulos na glória da transfiguração, essa
glória exterior para os olhos físicos deles, que era símbolo e semelhança doce e
admirável de sua glória espiritual, ao lado de sua glória espiritual propriamente,
manifestada à mente deles, a manifestação da glória foi tamanha que os
convenceu perfeitamente da divindade do Mestre e com boa razão. Isso se deduz
do que o apóstolo Pedro, um dos discípulos presentes na transfiguração, diz:
“Porque não seguimos fábulas engenhosas quando vos fizemos conhecer o poder
e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, pois fomos testemunhas oculares da sua
majestade. Porque ele recebeu honra e glória de Deus Pai quando, pela glória
majestosa, a seguinte voz lhe foi dirigida: Este é o meu Filho amado de quem me
agrado. E nós mesmos ouvimos essa voz, dirigida do céu, quando estávamos
com ele no monte santo” (2Pe 1.16-18). O apóstolo chama esse monte de monte
santo porque as manifestações de Cristo ali realizadas a ele e a seus
companheiros, que ficaram extraordinariamente impressas na mente deles e os
arrebataram, eram a glória da santidade de Jesus, ou a beleza de sua excelência
moral, ou ainda, como expressa outro dos discípulos que a presenciou, eram a
“sua glória” como a de alguém “cheio de graça e de verdade”.
Ora, essa glória característica exclusiva do Ser Divino tem sua manifestação
e aparência mais brilhante nas coisas a nós propostas e expostas no evangelho, as
doutrinas ali ensinadas, as palavras ali ditas e os divinos conselhos, atos e obras
ali revelados. Tudo isso tem as representações e demonstrações mais claras, mais
admiráveis e características da glória das perfeições morais de Deus já reveladas
ao mundo. E, se há no evangelho uma manifestação tão característica e evidente
da glória divina, é razoável imaginar que essa manifestação pode ser vista. O que
a poderia impedir de ser contemplada? Que alguns não a veem, apesar de serem
muitos deles pessoas de discernimento em assuntos temporais, não é razão para
que não possa ser vista. Se no evangelho há excelências tão inefáveis,
características e evidentes, é razoável supor que elas sejam do tipo que não
podem ser identificadas a não ser pela influência e iluminação especiais do
Espírito de Deus. É preciso uma força mental incomum para identificar as
excelências características das obras dos autores de gênio excelente — aqueles
aspectos em Milton que, para os juízos medíocres, parecem insípidos ou
imperfeitos são excelências inimitáveis aos olhos de pessoas de melhor
discernimento e mais bom gosto. Assim, se existe um livro cujo autor é Deus, é
mais do que razoável supor que as glórias características de sua Palavra sejam
tais que o pecado e a corrupção do coração humano — os quais, acima de
qualquer outra coisa, afastam os homens da Divindade e lhe tornam o coração
estúpido e insensível a qualquer sentido ou paladar característico da glória moral
das divinas perfeições — impeçam os homens de discernir as belezas de tal
livro. Portanto, os seres humanos não conseguem vê-las a não ser que Deus se
agrade de iluminá-los e lhes restaure o paladar santo para identificar e desfrutar
as belezas divinas.
O sentido da excelência e da beleza espiritual das coisas divinas também
costuma convencer a mente da verdade do evangelho. Como muitas das coisas
mais importantes do evangelho estão ocultas aos olhos do homem natural, coisas
cuja verdade de fato consiste nessa excelência, ou dela depende e decorre
diretamente, o que se vê nessa excelência é a verdade dessas coisas. Tão logo os
olhos se abrem para divisar a santa beleza e atratividade das coisas divinas, uma
multidão de doutrinas importantes do evangelho que delas dependem (que
parecem todas estranhas e obscuras para o homem natural) é imediatamente
percebida e considerada verdadeira. É assim, por exemplo, que se evidencia a
verdade do que a Palavra de Deus declara acerca do tremendo mal do pecado. Os
mesmos olhos que identificam a beleza transcendente da santidade
necessariamente enxergam a hediondez do pecado; o mesmo paladar que se
apraz na doçura do bem moral percebe o amargor do mal moral. Por esse meio o
homem enxerga sua própria pecaminosidade e repugnância, pois agora tem o
sentido que identifica objetos com essa natureza, enxerga a verdade, a que
outrora era cego, do que a Palavra de Deus declara sobre a horrenda
pecaminosidade do ser humano. Ele agora vê com outros olhos a terrível
imundície de seu coração e a extrema depravação de sua natureza, pois sua alma
agora tem um sentido capaz de perceber a dor dessa doença; e isso lhe mostra a
verdade do que a Escritura revela acerca da corrupção da natureza humana, do
pecado original, do estado ruinoso e perdido em que o homem se encontra, de
sua necessidade de um Salvador, do quanto precisa da poderosa obra de Deus
para renovar-lhe o coração e transformar sua natureza. Ao ver a verdadeira
excelência da santidade, o homem contempla a glória de todos os atributos que
tanto a razão quanto as Escrituras mostram haver no Ser Divino, pois já foi
demonstrado que tal glória depende dessa excelência e, através desta, ele
enxerga a verdade de tudo quanto a Escritura declara acerca da gloriosa
excelência e majestade de Deus, a fonte de todo o bem, a única felicidade da
criatura, e tudo o mais. De novo, isso mostra à mente a verdade do que a
Escritura ensina acerca do mal do pecado contra um Deus tão glorioso, acerca do
justo merecimento do terrível castigo do pecado, e acerca de nossa incapacidade
de oferecer satisfação ou expiação por algo tão infinitamente mau e abominável.
Por sua vez, isso volta a mostrar a verdade do que a Escritura revela acerca da
necessidade de um Salvador para oferecer uma expiação de valor infinito pelo
pecado humano. O senso da beleza espiritual de que falamos capacita a alma a
ver a glória das coisas que o evangelho revela acerca da pessoa de Cristo;
capacita-a, portanto, a enxergar a imensa beleza e dignidade de sua pessoa,
beleza e dignidade que transparecem no que o evangelho mostra de seus atos,
palavras, obras e de sua vida. A percepção da dignidade superlativa da pessoa de
Cristo expõe a verdade do que o evangelho declara acerca do valor do seu
sangue e da sua justiça e, portanto, da excelência infinita do sacrifício que ele
ofereceu a Deus por nós e da sua suficiência para expiar nossos pecados e nos
recomendar ao Pai. Assim o Espírito de Deus revela o caminho da salvação por
meio de Cristo; assim a alma enxerga a pertinência e idoneidade do caminho da
salvação, a admirável sabedoria da concepção do plano e a perfeita adequação
das provisões para nossas necessidades expostas no evangelho. Uma vez dado à
alma o senso da verdadeira beleza divina, ela identifica a beleza de todos os
componentes do plano do evangelho. Ele também mostra à alma a verdade do
que a Palavra de Deus declara acerca da suma felicidade do homem, que consiste
em atividades e satisfações santas. Dá-lhe a conhecer a verdade do que o
evangelho declara sobre a glória indizível do estado celestial e do que as
profecias do Antigo Testamento e os escritos dos apóstolos declaram sobre a
glória do reino do Messias, bem como sobre as razões e fundamentos dos nossos
deveres. A verdade de todas essas coisas e de muitas outras que poderiam ser
mencionadas, reveladas na Escritura, se mostra à alma tão somente pela
concessão do paladar espiritual da beleza divina sobre o qual já discorremos.
Antes, sem esse paladar, todas essas coisas estavam ocultas à alma.
Além de tudo isso, a verdade do que a Escritura diz sobre a religião com
base em experiências é conhecida por esse sentido, que agora permite à alma
experimentar. Ele convence a alma de que o autor das Escrituras é aquele que
conhece o coração humano melhor do que o próprio ser humano e conhece
perfeitamente a natureza da virtude e da santidade. A revelação tão clara desse
universo de verdade gloriosa e maravilhosa do evangelho, outrora desconhecido
e bem além do alcance dos olhos naturais e agora exposto com meridiana luz e
esplendor, exerce influência poderosa e inexpugnável sobre a alma para a
convencer da divindade do evangelho.
Se os homens não pudessem chegar ao convencimento são e racional e à
convicção da verdade do evangelho pelas evidências internas dessa verdade,
conforme mencionado antes, isto é, mediante a visão da glória dessa verdade,
seria impossível aos iletrados e ignorantes da história chegar à convicção cabal e
eficaz de todas essas coisas. Sem ela, talvez eles pudessem perceber muita
probabilidade no evangelho. Quem sabe lhes seria razoável dar muito crédito ao
que homens instruídos e conhecedores da história lhes dissessem; e estes
poderiam lhes contar tanta coisa que lhes pareceria muito provável e razoável a
religião cristã ser verdadeira; e esses homens lhes falariam tanto que esses
ouvintes seriam muito insensatos de não acolher tal opinião. Entretanto, para ter
uma convicção tão clara, evidente, segura e suficiente para os persuadir a
ousadamente vender tudo quanto têm, destemida e confiadamente correr o risco
de perder tudo, a suportar os mais amargos e longos tormentos, a desprezar o
mundo e considerar todas as coisas como esterco por causa de Cristo — não, as
evidências que obtêm da história não são suficientes para tanto. É impossível a
qualquer pessoa sem alguma visão geral do mundo antigo, ou da sequência da
história através dos séculos, e pela força de argumentos históricos favoráveis à
veracidade do cristianismo, chegar a ponto de arriscar tudo por essa verdade.
Depois de ouvir tudo o que homens instruídos lhe contaram, inúmeras dúvidas
ainda lhe restarão na mente. Quando fosse afligida por uma grande provação que
lhe testasse a fé, essa pessoa estaria pronta para questionar: Como sei disso ou
daquilo? Como posso saber quando essas histórias foram escritas? Os estudiosos
me dizem que elas foram atestadas assim e assim em suas épocas, mas como
posso saber se naquela época havia esse tipo de comprovação? Eles me dizem
que a razão para acreditar nesses fatos é a mesma de qualquer outra história
igualmente distante. Mas como posso ter certeza de que outros fatos relatados
daqueles tempos aconteceram mesmo? Os que não têm visão geral da sequência
dos acontecimentos históricos e do estado da humanidade através das épocas não
conseguem enxergar os sinais claros que a história dá sobre a verdade dos fatos
de épocas remotas. Sempre haverá dúvidas e inquietações intermináveis.
Todavia, o evangelho não foi dado somente a homens instruídos. Pelo menos
dezenove entre vinte, senão 99 de cem, daqueles para quem as Escrituras foram
registradas não são capazes de chegar à convicção certa e eficaz da autoridade
divina das Escrituras a partir dos argumentos usados pelos eruditos. Se as
pessoas criadas no paganismo, para ter convicção clara e segura da verdade do
cristianismo, tivessem de esperar até adquirir conhecimento e familiaridade com
a história de nações mais cultas suficientes para perceber com clareza a força
desse tipo de argumentos, a evidência do evangelho se tornaria para tais pessoas
imensamente complicada, e a propagação do evangelho entre elas seria
infinitamente difícil. Infeliz é a condição dos índios houssatunnuck, e de outros,
que recentemente manifestaram o desejo de ser instruídos no cristianismo, se
eles não conseguem chegar a nenhuma evidência da verdade do cristianismo
suficiente para os induzir a renunciar tudo por Cristo por nenhum outro meio
senão esse.
Não faz sentido supor que Deus tenha provido para seu povo não mais que
indícios prováveis da verdade do evangelho. Com imenso cuidado, ele proveu
abundantemente e lhe deu as mais convincentes, seguras, satisfatórias e
múltiplas evidências de sua fidelidade na aliança da graça; como diz Davi,
“estabeleceu comigo uma aliança eterna, em tudo bem definida e segura” (2Sm
23.5). Portanto, é lógico imaginar que, ao mesmo tempo, ele não deixaria de
ordenar o assunto de tal modo que não faltassem sinais tão vultosos e claros de
que essa aliança e essas promessas são suas ou, igualmente, de que a religião
cristã é verdadeira, e o evangelho é a sua Palavra. Não fosse assim, seriam em
vão as muitas garantias que ele deu de sua fidelidade na sua aliança,
confirmando-a com seu juramento e comprovando de vários modos com selos e
promessas, pois as indicações de que se trata da aliança de Deus são o
fundamento sobre o qual se assentam toda a força e o efeito das outras garantias.
Podemos, portanto, supor e concluir incontestavelmente que existe um tipo de
sinal dado por Deus de que essa aliança e as promessas são suas, um sinal muito
além de qualquer mera probabilidade. Podemos crer que existem algumas bases
de garantia do que foi exposto, que, se não estivermos cegos para elas, em geral
produzem em nós convicção mais forte que qualquer argumento da história, das
tradições humanas etc., bases que os iletrados e sem conhecimento da história
são capazes de perceber e entender sejam bom fundamento da mais alta e mais
perfeita garantia que a humanidade pode ter em todo e qualquer caso, e de
acordo com aquelas sublimes expressões do apóstolo: “Aproximemo-nos com
coração sincero, com a plena certeza da fé” (Hb 10.22); e “Para que o coração
deles seja animado, estando vós unidos em amor e enriquecidos da plenitude do
entendimento para o pleno conhecimento do mistério de Deus, Cristo” (Cl 2.2).
Faz sentido pensar que Deus reservaria as provas mais incontestáveis das coisas
mais grandiosas e da verdade que, para nós, supera todas as outras em
importância e em relação à qual, portanto, se formos sensatos e agirmos com
racionalidade, desejaremos ter a mais plena, inquestionável e perfeita garantia.
Contudo, é claro que, para a maioria dos que vivem de acordo com o evangelho,
tal garantia não se obtém por argumentos extraídos de antigas tradições, histórias
e monumentos.
Em se tratando de fato e experiência, não há o menor motivo para pensar que
sequer um por cento dos que eram cristãos sinceros e tiveram coragem de vender
tudo por Cristo chegaram por essa via à sua convicção da verdade do evangelho.
Quando lemos a história dos tantos milhares de mártires que morreram por
Cristo desde o começo da Reforma e, confiantes no evangelho, enfrentaram
torturas extremas sem se abalar, e se considerarmos suas circunstâncias, quão
poucos não foram os que chegaram à sua firme convicção por esse meio? Ou,
aliás, quem conseguiria receber uma segurança tão plena e forte de tais
argumentos? Muitos deles eram mulheres frágeis e crianças, e a maior parte era
de analfabetos; muitos haviam sido criados na ignorância e nas trevas do
papismo, viveram e morreram numa época em que os argumentos em prol do
cristianismo baseados na Antiguidade e na história foram apresentados apenas de
modo muito imperfeito. Com efeito, faz muito pouco tempo que esses
argumentos foram postos sob uma luz clara e convincente, mesmo por homens
instruídos. E, desde que isso ocorreu, nunca houve crentes menos profundos
entre os que foram instruídos na verdadeira religião. A infidelidade nunca foi tão
predominante em tempo algum quanto nessa época em que esses argumentos são
esgrimidos como a maior vantagem.
Os verdadeiros mártires de Jesus Cristo não são aqueles que só eram fortes
na opinião de que o evangelho de Cristo é verdadeiro, mas, sim, os que
enxergaram a verdade do evangelho, como, aliás, indica o próprio nome
“mártires”, ou testemunhas — como as Escrituras os chamam —, indica. Os que
apenas declaram ter muita opinião de que tal coisa é verdadeira são
indevidamente chamados testemunhas da verdade. Testemunhas verdadeiras são
apenas as que podem testificar que enxergaram a verdade daquilo que afirmam:
“Dizemos o que conhecemos e testemunhamos o que vimos” (Jo 3.11); “Eu
mesmo vi e já vos dei testemunho de que este é o Filho de Deus” (Jo 1.34); “E
nós temos visto e testemunhado que o Pai enviou seu Filho como Salvador do
mundo” (1Jo 4.14); “O Deus de nossos pais te designou de antemão para
conhecer a sua vontade, ver o Justo e ouvir a voz da sua boca. Pois serás sua
testemunha do que tens visto e ouvido para todos os homens” (At 22.14,15). Os
verdadeiros mártires de Jesus Cristo são chamados suas testemunhas; e todos os
santos, que, em meio a terríveis provações, mantêm a santa conduta e declaram
essa fé, que é a substância “das coisas que se esperam e a prova das coisas que
não se veem” (Hb 11.1; 12.1), são chamados testemunhas. Porque estes, por
confissão e prática, declaram certeza da verdade e da divindade do evangelho,
pois tiveram os olhos da mente iluminados para ver a divindade do evangelho e
contemplar nele o brilho daquela glória ímpar, excelente, inefável e
verdadeiramente divina, totalmente peculiar, comprobatória e convincente — de
modo que se pode afirmar categoricamente que enxergaram Deus no evangelho e
viram que ele é realmente divino, e por isso podem falar como testemunhas, não
apenas dizer que acreditam que o evangelho é divino, mas podem afirmar
peremptoriamente que é divino, podem dizer isso como testemunho porque
viram que é assim. Sem dúvida, Pedro, Tiago e João, depois de terem visto a
excelente glória de Cristo no monte, ao descer já estavam prontos para falar
como falam as testemunhas e declarar categoricamente que Jesus é o Filho de
Deus; como diz Pedro, foram testemunhas oculares (2Pe 1.16). Do mesmo
modo, todas as nações estarão preparadas para afirmar isso categoricamente
quando contemplarem a glória dele no Dia do Juízo, embora o que então será
visto por todo o mundo será apenas a glória natural, não a sua glória moral e
espiritual, que é muito mais peculiar.
Não obstante, é preciso observar que, entre os que têm a visão espiritual da
divina glória do evangelho, há uma grande variedade de graus de vigor de fé,
assim como há uma grande variedade de graus de clareza da visão dessa glória;
mas não há fé verdadeira e salvadora, nem convicção espiritual do juízo e da
verdade do evangelho que não traga em si um pouco dessa manifestação de sua
evidência interna. Ao contrário do que alguns imaginam, o evangelho do Deus
bendito não bate de porta em porta mendigando que se apresentem indícios em
seu favor. Não, ele traz em si mesmo sua prova mais elevada e mais perfeita.
Não obstante se possa fazer bom uso de argumentos externos, que não devem ser
ignorados mas estimados e valorizados, pois podem ser muito úteis para
despertar os descrentes e levá-los a considerar a sério o evangelho, além de
confirmar a fé dos santos verdadeiros, tais argumentos podem em alguns
aspectos servir como suplemento para desencadear no homem a fé salvadora.
Contudo, o que foi dito antes continua sendo verdadeiro: não há convicção
espiritual senão a que nasce da percepção da beleza e da glória espirituais das
coisas divinas. Porque, como já se observou, essa percepção ou entendimento em
geral convence a mente da verdade do evangelho de duas maneiras: direta ou
indiretamente. Tendo já tratado de como essa percepção faz isso diretamente,
passo agora a tratar de

2. Como a percepção dessa glória divina convence a mente da verdade do


cristianismo mais indiretamente.
Em primeiro lugar, ela remove os preconceitos do coração contra a verdade
das coisas divinas, de modo que a mente se abre para a força das razões
propostas. A mente humana se encontra por natureza em estado de plena
inimizade contra as doutrinas do evangelho, o que é desvantajoso para os
argumentos que provam a verdade dessas doutrinas e lhes reduzem a força de
persuasão da mente. Quando, porém, a uma pessoa é revelada a divina
excelência das doutrinas cristãs, a inimizade é destruída; os preconceitos são
eliminados; a razão é santificada; e sua mente se abre e se liberta. Isso explica a
diferença tão grande no que diz respeito à força que os argumentos têm para
convencer a mente. Também por isso se explica a grande diferença do efeito dos
milagres de Cristo em relação aos discípulos e em relação aos escribas e fariseus.
Não que os discípulos tivessem motivo mais forte nem que a razão deles tivesse
sido aprimorada, mas ela fora santificada, e os preconceitos, que cegavam os
escribas e os fariseus, nos discípulos foram eliminados pela percepção que eles
tiveram da excelência de Cristo e de sua doutrina.
Em segundo lugar, a percepção da gloria divina não somente remove os
obstáculos, mas também ajuda a razão. Ela dá mais vida até às noções teóricas.
Auxilia e envolve a atenção com esses objetos, o que lhe permite percebê-los
com mais clareza e enxergar bem as suas relações mútuas. As próprias ideias,
que sem esse meio seriam pálidas e obscuras, ganham luz e são impressas na
mente com mais intensidade, de modo que esta consegue melhor julgá-las, assim
como quem contempla os objetos na superfície da terra sob a luz do sol consegue
identificar tais objetos e perceber-lhes as formas verdadeiras e relações mútuas, e
enxergar os sinais da sabedoria e da maestria divina na concepção deles com
mais vantagem do que alguém que os observa sob a tênue luz das estrelas ou do
crepúsculo.
O que foi dito talvez sirva até certo ponto para demonstrar a natureza da
convicção espiritual da verdade e realidade das coisas divinas e, assim, distinguir
as afeições legitimamente oriundas da graça de outras; pois as afeições da graça
são sempre acompanhadas dessa convicção do juízo.
Porém, antes de deixar este tópico para trás, é necessário observar os meios
com que alguns são enganados sobre este assunto, bem como notar algumas
atitudes que às vezes são confundidas com a fé espiritual e salvadora na verdade
das coisas da religião, mas na realidade são muito diferentes dessa fé.

(1) Há um grau de convicção da verdade das coisas grandiosas da religião


nascido dos esclarecimentos comuns do Espírito de Deus. A percepção mais viva
e mais sensata das coisas da religião que o homem natural tem nos avivamentos
e nas iluminações comuns lhe dá um grau de convicção da verdade das coisas
divinas maior do que tinha antes de ter sido assim iluminado. Por esse meio, ele
enxerga as revelações existentes nas Sagradas Escrituras e no que é exposto
nessa revelação das perfeições naturais de Deus, como sua grandeza, seu poder e
sua assombrosa majestade. Isso em geral convence a mente de que essa é a
Palavra de um Deus imenso e terrível. Pelos sinais da grandeza e da majestade
de Deus expostos em sua Palavra e em suas obras, das quais tem grande senso
pela influência comum do Espírito de Deus, o homem pode ter uma convicção
muito mais vigorosa de que essas palavras e feitos são realmente obra de um Ser
invisível mui grandioso. A viva percepção da grandeza de Deus que o homem
natural pode ter em geral o torna consciente da grande culpa que acompanha o
pecado contra esse Deus tamanho e do horror da ira divina pelo pecado. Isso em
geral permite que o homem creia com mais facilidade e mais plenamente na
revelação que a Escritura dá acerca de outro mundo e do extremo tormento com
que ela ameaça os pecadores. Portanto, com essa percepção do grande bem
natural presente nas coisas da religião, que às vezes é dada em iluminações
comuns, o homem pode ser mais motivado a crer na verdade da religião. As
pessoas podem ter tudo isso e, ainda assim, não ter nenhuma percepção da
beleza e da atratividade da excelência moral e santa das coisas da religião e,
portanto, nenhuma convicção espiritual da verdade dessas coisas. Apesar disso,
tal convicção às vezes é confundida com a convicção salvadora, e as afeições
que dela brotam são confundidas com afeições de salvação.

(2) As impressões extraordinárias que sobrevêm à imaginação de algumas


pessoas, em visões, impulsos e sugestões diretas e fortes, como se tivessem
visões e ouvissem palavras a elas dirigidas, podem gerar, e em geral de fato
geram, uma forte persuasão da verdade das coisas invisíveis. Embora o propósito
definitivo disso tudo normalmente seja afastar as pessoas da Palavra de Deus,
fazê-las rejeitar o evangelho e instaurar a incredulidade e o ateísmo, ainda assim,
essas coisas no momento talvez produzam — e em geral produzem — a
confiante persuasão da verdade de algumas revelações das Escrituras. Contudo,
essa confiança é fundada em ilusão e, portanto, nada vale. Se, por exemplo, uma
pessoa recebe na imaginação, diretamente de um agente invisível, uma forte
impressão do aparecimento de uma luz brilhante e da forma gloriosa de alguém
assentado num trono com grandiosa majestade e beleza exterior, pronunciando
algumas palavras marcantes com energia e ênfase, a pessoa sujeita a essa ação,
pela experiência que está tendo, talvez se sinta segura de que existem agentes
invisíveis, seres espirituais. Sabendo que não teve nenhuma participação nesse
efeito extraordinário que viveu, essa pessoa também pode se sentir segura de que
o alguém a quem viu e ouviu é Cristo. Isso tudo pode deixá-la segura de que
existe esse Cristo e que ele reina de seu trono no céu, do modo que o viu. Talvez
ela tenha certeza de que as palavras dele ouvidas são verdadeiras, e tudo o mais,
do mesmo modo que os milagres mentirosos dos papistas podem, no momento,
gerar na mente dos ignorantes iludidos um forte convencimento da verdade de
muitas coisas declaradas no Novo Testamento. Assim, quando em ocasiões
extraordinárias, pela astúcia dos sacerdotes, as imagens de Cristo nas igrejas
papistas aparecem para os fiéis como se estivessem chorando, derramando
sangue vivo e como se estivessem se movimentando, pronunciam tais e tais
palavras, talvez as pessoas sejam bastante persuadidas de que se trata de um
milagre operado pelo próprio Cristo e com isso talvez fiquem certas e seguras de
que Cristo existe e de que é verdade tudo quanto aprenderam sobre seu
sofrimento, morte, ressurreição, ascensão e seu atual governo sobre o mundo. O
povo pode entender esse milagre como sinal certo de todos esses fatos acerca de
Cristo e como uma espécie de demonstração visível de tudo isso. Essa pode ser a
influência de momento desses prodígios mentirosos, embora a finalidade deles
em geral não seja convencer de que Jesus Cristo veio em carne e osso, mas
enfim promover o ateísmo. Até os tratos que Satanás tem com as bruxas e as
experiências frequentes delas diretamente com o seu poder em geral as
convencem da verdade de algumas doutrinas da religião, em particular a da
existência de um mundo invisível, ou mundo dos espíritos, ao contrário da
doutrina dos saduceus. A finalidade geral das influências de Satanás é iludir, mas
ele pode misturar um pouco de verdade com as suas mentiras para que estas não
sejam tão facilmente descobertas.
Grandes multidões se iludem com uma fé falsificada graças às impressões na
imaginação das pessoas, como acabou de ser explicado. Elas dizem saber que
Deus existe, pois o viram; sabem que Cristo é o Filho de Deus, pois o viram em
sua glória; sabem que Cristo morreu pelos pecadores, pois o viram pendurado na
cruz com o sangue escorrendo das chagas; sabem que existem o céu e o inferno,
pois viram o tormento das almas condenadas no inferno e a glória dos santos e
dos anjos no céu (referindo-se a representações externas fortemente impressas
em sua imaginação); elas sabem que as Escrituras são a Palavra de Deus e que
tais e tais promessas particulares também são palavra dele, porque o ouviram
pronunciá-las para elas, vindas súbita e diretamente da parte de Deus, sem que
nisso elas tivessem participação alguma.

(3) Pode parecer que as pessoas tiveram grande aumento de sua fé na


verdade das coisas da religião, mas, na realidade, o fundamento disso não é outro
senão a persuasão que obtiveram do interesse delas por essas coisas. Primeiro,
elas adquirem, por um meio ou outro, a confiança de que, se Cristo e o céu
existem, eles lhes pertencem. Isso as predispõe mais favoravelmente em relação
à verdade dessas coisas. Quando ouvem falar das coisas grandiosas e gloriosas
da religião, logo lhes vem a noção de que tudo isso lhes pertence; e assim
facilmente passam a ter segurança de que essas coisas gloriosas são verdadeiras.
Têm muita consideração por elas por causa do interesse que têm em que sejam
verdadeiras. É muito óbvia a forte influência que os interesses e inclinações das
pessoas têm sobre seus julgamentos. Se o homem natural pensa que céu e
inferno existem e que este, não aquele, lhe pertence, ele dificilmente será
convencido de que existem céu e inferno, mas se for convencido de que o
inferno é para os outros, não para ele, poderá facilmente reconhecer a realidade
do inferno e chorar diante da estupidez e insensatez daqueles que negligenciam
os meios de escapar dele. Seguro de que é um filho de Deus e de que Deus lhe
prometeu o céu, talvez aparente ser forte na fé dessa realidade e ser muito rígido
contra a infidelidade que o nega.
Posto isso, passo a tratar de outro sinal identificador das afeições vindas da
graça.

VI. As afeições da graça são acompanhadas da humilhação,


ou mortificação, evangélica
A mortificação evangélica é o senso que o cristão tem de sua insuficiência,
insignificância e odiosidade, acompanhado da disposição de ânimo
correspondente.
É preciso distinguir entre a humilhação, ou mortificação, judicial, ou da lei,
e a humilhação, ou mortificação, evangélica. A primeira é a que pode acometer
os homens enquanto ainda se encontram em estado natural e não têm nenhuma
afeição da graça; a segunda é peculiar aos santos. A primeira procede da
influência comum do Espírito de Deus, que assiste os princípios naturais e
particularmente a consciência natural; a segunda procede das influências
especiais do Espírito de Deus, que implanta e põe em funcionamento princípios
sobrenaturais e divinos. A primeira ocorre quando a mente adquire noção mais
clara das propriedades e qualidades naturais das coisas da religião, em particular
das perfeições naturais de Deus, como sua grande e tremenda majestade, entre
outros aspectos, que se manifestaram à congregação de Israel na outorga da lei
no monte Sinai; a segunda decorre da percepção da beleza transcendente das
coisas divinas em suas qualidades morais. Na primeira, o senso da terrível
grandeza e das perfeições naturais de Deus e do rigor da sua lei convence o ser
humano de que é completamente pecador, culpado e está debaixo da ira de Deus,
como estarão os perversos e os anjos caídos no Dia do Juízo, mas não percebe a
própria hediondez por causa do pecado; não enxerga a natureza odiosa do
pecado. Na humilhação evangélica, ocorre essa percepção pela descoberta da
beleza da santidade e da perfeição moral de Deus. Na humilhação da lei, as
pessoas adquirem consciência de que são pequenas e insignificantes diante do
Deus grande e tremendo, de que estão perdidas e são completamente incapazes
de salvar-se, como igualmente ocorrerá com os ímpios no Dia do Juízo; mas elas
não têm no coração a disposição de ânimo de se humilhar perante Deus e
somente a ele exaltar. Somente a humilhação evangélica produz tal disposição,
que subjuga o coração e lhe altera a inclinação pela descoberta da santa beleza
de Deus. Na humilhação judicial, a consciência se convence, como se
convencerá a consciência de todos no Dia do Juízo; porém, como não há
entendimento espiritual, a vontade não se dobra nem a inclinação se altera —
isso só ocorre na humilhação, ou mortificação, evangélica. A humilhação
judicial faz as pessoas se desesperarem procurando salvar-se; a humilhação
evangélica as leva a negar-se e renunciar voluntariamente a si mesmas. Na
primeira, são subjugadas e levadas ao chão; na segunda, são suavemente
convencidas a render-se e alegre e espontaneamente prostrar-se aos pés de Deus.
A humilhação da lei não traz consigo nenhum bem espiritual e nada tem da
natureza da verdadeira virtude, enquanto a humilhação evangélica é aquela em
que consiste a excelente beleza da graça cristã acima de tudo. A humilhação
judicial é útil como meio para chegar à humilhação evangélica, assim como o
conhecimento comum das coisas da religião é um meio necessário para obter o
conhecimento espiritual. Um homem pode ser humilhado pela lei e não ter
humildade, como os ímpios no Dia do Juízo. Estes serão completamente
convencidos de que não têm justiça nem retidão alguma, mas, sim, são
absolutamente pecadores e culpados e serão justamente lançados para a
condenação eterna, com plena consciência da própria incapacidade de se
salvarem, e sem a menor mortificação do coração orgulhoso. Por sua vez, a
essência da humilhação evangélica consiste nessa humildade conveniente à
criatura que, sabendo-se pecadora, recebe a dispensação da graça. É o senso de
pouca estima por si mesma, de não ser nada em si e totalmente desprezível e
odiosa, acompanhado da mortificação da disposição de exaltar-se a si mesma e
da renúncia espontânea à glória própria.
Essa humilhação, ou mortificação, é uma das coisas mais essenciais e
grandiosas da verdadeira religião. O arcabouço inteiro do evangelho, tudo o que
diz respeito à nova aliança e todas as dispensações de Deus para os homens
caídos são planejados para produzir essa mortificação no coração humano.
Quem não a tem também não tem a religião verdadeira, não importa o que
professe com os lábios nem quão elevadas sejam suas afeições religiosas: “Vede
o arrogante! A sua alma não é correta; mas o justo viverá por sua fé” (Hc 2.4),
isto é, viverá por sua fé na justiça e na graça de Deus, não por sua própria
bondade e excelência. Deus manifestou em sua Palavra que é especificamente
essa marca que ele observa em seus santos, sem a qual nada é aceitável: “O
SENHOR está perto dos que têm o coração quebrantado; ele salva os de espírito
arrependido” (Sl 34.18); “Sacrifício aceitável para Deus é o espírito
quebrantado; ó Deus, tu não desprezarás o coração quebrantado e arrependido”
(Sl 51.17); “Embora o SENHOR seja sublime, ele atenta para o humilde” (Sl
138.6); “Ele zomba dos zombadores, mas concede graça aos humildes” (Pv
3.34); “Porque assim diz o Alto e o Sublime, que habita na eternidade e cujo
nome é santo: Habito num lugar alto e santo, e também com o contrito e humilde
de espírito, para vivificar o espírito dos humildes e o coração dos contritos” (Is
57.15); “Assim diz o SENHOR: O céu é o meu trono, e a terra é o estrado dos
meus pés. [...] Mas darei atenção a este: ao humilde e contrito de espírito, que
treme diante da minha palavra” (Is 66.1,2); “Ó homem, ele te declarou o que é
bom. Por acaso o SENHOR exige de ti alguma coisa além disto: que pratiques a
justiça, ames a misericórdia e andes em humildade com o teu Deus?” (Mq 6.8);
“Bem-aventurados os pobres em espírito, pois deles é o reino do céu” (Mt 5.3);
“Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como
crianças, nunca entrareis no reino do céu. Portanto, quem se tornar humilde
como esta criança, esse será o maior no reino do céu” (Mt 18.3,4); “Em verdade
vos digo que qualquer pessoa que não receber o reino de Deus como uma
criança, jamais entrará nele” (Mc 10.15). O centurião cujo relato lemos em
Lucas 7 reconheceu não ser digno de Cristo entrar em sua casa nem de ele
mesmo ir até Cristo. Também em Lucas 7 notamos o modo que a mulher
pecadora se aproximou de Cristo: “E havia uma mulher pecadora na cidade.
Quando soube que Jesus estava à mesa na casa do fariseu, ela trouxe um vaso de
alabastro com perfume; e, pondo-se atrás dele e chorando aos seus pés, começou
a molhar-lhe os pés com as lágrimas e a enxugá-los com os cabelos” (Lc
7.37ss.). Não se preocupou com os cabelos, coroa e glória naturais da mulher
(1Co 11.15). Não achou que eles fossem belos demais para enxugar os pés de
Cristo com eles. Jesus, cheio da graça, aceitou-a e disse-lhe: “A tua fé te salvou;
vai em paz”. A cananeia submeteu-se ao que Cristo lhe disse: “Não é justo tomar
o pão dos filhos e jogá-lo para os cachorrinhos”, e agiu reconhecendo que era
digna de ser comparada a um cachorro; ao que Cristo reage: “Mulher, grande é a
tua fé! Seja feito a ti como queres” (Mt 15.26-28). O filho pródigo disse: “Vou
me levantar, irei até meu pai e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e contra ti; não
sou mais digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus
empregados” (Lc 15.18ss.). Leia-se também: “Contou também esta parábola a
alguns que confiavam em si mesmos, achando-se justos, e desprezavam os
outros: [...] Mas o publicano, em pé e de longe, nem mesmo levantava os olhos
ao céu, mas lamentava-se profundamente, dizendo: Ó Deus, tem misericórdia de
mim, um pecador! Digo-vos que este desceu justificado para casa, e não o outro;
pois todo o que se exaltar será humilhado; mas o que se humilhar será exaltado”
(Lc 18.9ss.); “E elas, aproximando-se, abraçaram-lhe os pés e o adoraram” (Mt
28.9); “Então, como santos e amados eleitos de Deus, revesti-vos de [...]
humildade” (Cl 3.12); “Eu vos aceitarei como aroma suave, quando eu vos tirar
dentre os povos [...]. Ali vos lembrareis de vossos caminhos e de todos os atos
com que vos tendes contaminado; e tereis nojo de vós mesmos, por causa de
todas as maldades que tendes cometido” (Ez 20.41-43); “Também vos darei um
coração novo e porei um espírito novo dentro de vós [...]. Também porei o meu
Espírito dentro de vós e farei com que andeis nos meus estatutos; e obedecereis
aos meus mandamentos e os praticareis”; e “Então vos lembrareis dos vossos
maus atos e dos vossos feitos que não foram bons; e vós mesmos tereis nojo dos
vossos pecados e das vossas abominações” (Ez 36.26,27,31); “Para que te
lembres e te envergonhes, e nunca mais abras a boca, por causa da tua vergonha,
quando eu te perdoar tudo quanto fizeste, diz o SENHOR Deus” (Ez 16.63); “Por
isso me desprezo e me arrependo no pó e na cinza” (Jó 42.6).
Visto que temos de fazer das Sagradas Escrituras nossa regra de juízo da
natureza da verdadeira religião, de nosso estado e de nossos próprios atributos
religiosos, muito nos importa olhar para essa mortificação e observar que ela é
um dos componentes mais essenciais pertinentes ao cristianismo verdadeiro.22 É
a parte principal do grandioso dever cristão da abnegação. Duas atitudes
compõem esse dever: primeira, o homem negar suas inclinações mundanas,
abandonar e renunciar a todos os objetos e prazeres deste mundo; segunda, negar
a natural exaltação de si, renunciar à própria dignidade e glória e se autoesvaziar
a fim de renunciar a si mesmo, e aniquilar-se espontânea e sinceramente. É assim
que o cristão faz na humilhação evangélica. A segunda parte mais importante e
mais difícil é a autonegação. Apesar de andarem sempre juntas e uma jamais
existir verdadeiramente sem a outra, o homem natural pode se aproximar muito
mais da primeira que da segunda. Muitos anacoretas e reclusos abandonaram a
riqueza, os prazeres e as alegrias comuns do mundo (embora sem nenhuma
mortificação verdadeira), mas ficaram longe de renunciar à dignidade e justiça
próprias. Jamais se negaram a si mesmos por Cristo, mas apenas venderam uma
paixão para alimentar outra, venderam uma paixão animal para sustentar uma
paixão diabólica. Assim, nunca se aprimoraram, mas seu estado final foi pior
que o inicial; deitaram fora um demônio negro para deixar entrar sete brancos
que, embora mais belos, eram piores que o primeiro. É inexprimível e quase
inconcebível a força da disposição natural do homem para a justiça própria, ou
farisaísmo, e para a autoexaltação. O que não fará e quanto não sofrerá para
alimentá-la! A que extremos não chegou a abnegação dos essênios e dos fariseus
entre os judeus; dos papistas e de muitas seitas heréticas e fanáticas entre os que
se professam cristãos; de muitos maometanos; dos filósofos pitagóricos e de
outros entre os pagãos — tudo isso oferecido em sacrifício ao Moloque do
orgulho espiritual, ou justiça própria, e para terem algo com que se exaltar
perante o Criador e ser mais elevados que as outras criaturas, suas semelhantes!
A humilhação de que falamos é aquilo em que fracassam clamorosamente os
hipócritas mais gloriosos, aqueles que exibem ao mundo o espetáculo mais
esplendoroso de mortificação e as mais elevadas afeições religiosas. Não
insistissem tanto as Escrituras que esse é o elemento mais essencial da
verdadeira graça, alguém seria tentado a pensar que muitos filósofos pagãos, de
tão brilhante aparência de virtudes várias e de iluminações e fervor interno,
elevações da mente, como se fossem mesmo sujeitos de fluxos divinos e
comunicações celestiais, eram de fato cheios da graça.23 É verdade que muitos
hipócritas ostentam a aparência de humildade e de outras graças; e muitas vezes
não há nenhuma outra virtude que eles tanto finjam possuir. Esforçam-se para
dar boas demonstrações de humildade nos discursos e no comportamento, mas,
apesar de seus olhos enxergarem uma obra gloriosa, na maioria das vezes não
demonstram senão incompetência. Não conseguem saber o que são discurso e
conduta humildes, nem falar e agir como se de fato pudesse haver um sabor de
humildade cristã no que dizem. Aquele ar doce de humildade está além de seus
artifícios, por não serem dirigidos pelo Espírito nem guiados naturalmente, pelo
vigor de um espírito mortificado, a uma conduta compatível com a humildade
santa. Por isso, muitos deles não encontram outra saída a não ser declarar
ostensivamente que são humildes e relatarem que foram humilhados até o pó da
terra em tal e tal ocasião e multiplicarem expressões de desgosto com relação a
si mesmos, tais como: “Sou o último de todos os santos, sou uma criatura pobre
e vil, não sou digno da menor misericórdia, nem de que Deus olhe para mim.
Ah, meu coração é terrivelmente mau! Meu coração é pior que o Diabo! Ah,
maldito este meu coração” — e por aí afora. Tais expressões são usadas com
muita frequência não com o coração contrito, nem com pesar espiritual ou com o
choro daquela cujas lágrimas lavaram os pés de Jesus, tampouco para se
lembrarem e se envergonharem, e nunca mais abrirem a boca, por causa da
vergonha quando Deus houver perdoado tudo o que fizeram, conforme a
expressão do profeta em Ezequiel 16.63. Não, pelo contrário, fazem isso com ar
sereno, sorriso no rosto ou afetação farisaica; e temos de acreditar que são tão
humildes, e eles se consideram vis simplesmente porque assim se declararam,
porque nada neles tem sabor algum de humildade, quer no comportamento, quer
nos atos. Muitos têm sempre na boca uma palavra que dê a entender sua vileza,
mas esperam, como direito deles, que os outros os vejam como santos brilhantes
e eminentes; e ai de quem sequer dê a entender o contrário ou que se porte para
com eles como se não os contasse entre os melhores cristãos. Muitos há que não
cessam de queixar-se do próprio coração perverso, de suas imensas faltas, da
inutilidade, não cessam de falar como se consideram os mais medíocres dos
santos — mas caso um ministro lhes conte a sério essas mesmas coisas em
particular e dê a entender que infelizmente eles são cristãos muito fracos, e
sugira que devem meditar solenemente sobre sua esterilidade e a inutilidade de
seus esforços, isso lhes seria por demais indigesto; considerariam uma tremenda
ofensa, e o ministro correria o risco de ser alvo do arraigado preconceito deles.
Muitos falam sem cessar contra as doutrinas legalistas, a pregação legalista e
o espírito legalista, mas mal compreendem aquilo contra que pregam. O espírito
legalista é algo mais sutil do que imaginam — é, aliás, sutil demais para eles.
Fica à espreita, age e prevalece no coração deles. Quando o censuram, tornam-se
mais culpados de ostentá-lo. Uma vez que o homem não se esvaziou de si, de
sua justiça e bondade próprias, não importa de que forma sejam, ele tem espírito
legalista. O espírito que se orgulha da justiça própria, da moralidade, da
santidade, das afeições, da experiência, da fé, da mortificação ou de qualquer
outro bem é espírito legalista. Adão ter espírito legalista antes da Queda não era
sinal de orgulho. Por causa de suas circunstâncias, ele podia buscar aceitação por
sua própria justiça. Numa criatura caída e pecadora, contudo, o espírito legalista
outra coisa não é senão orgulho espiritual; do mesmo modo, um espírito cheio de
orgulho espiritual é um espírito legalista. Não há homem vivo que se embriague
com a presunção de suas experiências e descobertas e, graças a estas, não brilhe
aos próprios olhos e não deposite sua confiança em suas próprias experiências e
as conte como justiça. Por mais que empregue palavras humildes, por mais que
se refira às suas experiências como “as coisas grandiosas que Deus fez por ele” e
até conclame os outros a dar glória a Deus por elas, o fato é que ele está
orgulhoso de suas experiências e se arroga parte do mérito por elas, como se
representassem alguma dignidade. Se as considera de seu próprio mérito,
necessariamente acredita que Deus também as considera assim, pois
inevitavelmente pensa que sua própria opinião a respeito delas é verdadeira e,
por conseguinte, julga que Deus as enxerga assim como ele; por isso,
inevitavelmente imagina que Deus considera suas experiências uma honra
própria dele, como ele mesmo as vê; e assim acredita que tem aos olhos de Deus
o mesmo brilho que seus próprios olhos enxergam. Por isso, confia no que tem
de inerente em si para brilhar aos olhos de Deus e a ele recomendar-se. Com essa
coragem, põe-se perante Deus em oração, algo que o faz esperar muito de Deus,
o que, por sua vez, leva-o a pensar que Cristo o ama e está disposto a revesti-lo
com sua justiça própria — porque imagina que Cristo está encantado com suas
experiências e suas graças. Isso é um alto grau de vida vivida por sua própria
justiça e obras. Pessoas assim estão na estrada para o inferno a passo acelerado.
Pobres miseráveis iludidos, pensam que brilham aos olhos de Deus quando na
verdade são fumaça em suas narinas, e muitos são mais odiosos para Deus do
que a besta mais impura de Sodoma, que não tinha pretensão religiosa nenhuma!
Fazer o que eles fazem é viver de experiências, de acordo com a noção real do
que isso vem a ser, e não agir como quem tão somente faz uso das experiências
espirituais como sinais de estado de graça e desse modo recebem delas esperança
e consolação.
Uma categoria de homens despreza consideravelmente as obras e exalta a fé
em oposição às obras. Tais homens muito se põem de pessoas evangélicas em
oposição às de espírito legalista e fazem um espetáculo da apresentação de
Cristo, do evangelho e do caminho da livre graça, mas eles na verdade estão
entre os maiores inimigos do caminho evangélico da livre graça e são os mais
perigosos opositores do cristianismo puro e humilde.
Uma das atitudes mais exaltadas do mundo é a pretensa humilhação, a falsa
atitude de estar morto para a lei e esvaziado do eu. Alguns fizeram grandiosa
confissão da experiência de uma ação profunda da lei em seu coração e se gabam
de ter sido completamente libertados das obras, mas suas conversas refletem
mais um espírito de justiça própria do que qualquer outra coisa que eu já tenha
tido a oportunidade de ouvir. Alguns que se consideram totalmente esvaziados
de si e têm certeza de que estão rebaixados ao pó e às cinzas estão cheios até o
limite com a glória da própria humildade e exaltados às alturas com a alta estima
que têm pela própria humilhação. Sua humildade é uma humildade altiva,
pretensiosa, segura de si, exibida, barulhenta e presunçosa. Parece que é próprio
do orgulho espiritual deixar as pessoas presunçosas e ostentosas de sua
humildade. Isso se vê no filho primogênito do orgulho entre os homens, que
gosta de ser chamado de “sua santidade” — o homem do pecado, que se exalta
acima de tudo o que é adorado e que se chama Deus. Ele se denomina “Servo
dos servos” e, para dar um espetáculo de humildade, lava os pés de alguns
pobres quando ascende ao trono.
Ser verdadeiramente pobre em espírito, esvaziado de si mesmo e ter o
coração quebrantado é uma condição completamente diferente e com efeitos
diversos do que muitos imaginam. É espantosa a quantidade de gente que se
engana acerca de si mesma nessa questão e se imagina o suprassumo da
humildade quando, na verdade, são pessoas muito soberbas, de comportamento o
mais arrogante possível. A falsidade do coração humano em nada se manifesta
tanto quanto na soberba espiritual e na justiça própria. A sutileza de Satanás
chega ao apogeu no seu trato com as pessoas relativamente a esse pecado. Quiçá
um dos motivos seja ele ter mais experiência nisso. Ele sabe como o orgulho
entra nas pessoas e está familiarizado com suas origens secretas, pois foi esse o
seu próprio pecado. A experiência confere imensa vantagem na orientação das
almas, quer para o bem, quer para o mal.
Contudo, apesar de ser uma iniquidade tão sutil e secreta e de manifestar-se
normalmente sob um manto de grande humildade, o orgulho espiritual pode ser
revelado e identificado por duas características (talvez segura e universalmente).

1. Eis a primeira: quem está sob o domínio desse mal é inclinado a ter
elevado apreço por seus êxitos na religião quando se compara aos outros. Para
ele é natural cair na armadilha de se achar um santo eminente, muito mais
elevado entre os demais santos, e ter experiências distintamente boas e
grandiosas. O discurso secreto de seu coração é: “Ó Deus, graças te dou porque
não sou como os outros homens” (Lc 18.11) e “Sou mais santo do que tu” (Is
65.5). Por isso, esses costumam se apresentar entre o povo de Deus e, por assim
dizer, tomarem assento elevado entre eles, como se não houvesse dúvida de que
esse lugar lhes pertence por direito. Fazem naturalmente, por assim dizer, o que
Cristo condena (Lc 14.7ss.): escolhem os lugares de honra. Fazem isso
adiantando-se para assumir o lugar e as atividades de líder, a saber, orientar,
ensinar, dirigir e administrar. Estão “convencidos de que são guias dos cegos, luz
dos que estão nas trevas, instrutores de ignorantes, mestres de crianças” (Rm
2.19,20). Para essas pessoas é natural pressupor que lhes cabe o papel de ditar
regras e ser mestres em questões de religião; e assim implicitamente pretendem
ser chamados de Rabi, que significa mestre, como faziam os fariseus (Mt
23.6,7); isto é, ainda esperam que os outros os considerem mestres da religião e
se rendam a eles.24
Porém, aquele cujo coração está tomado pela humildade cristã tem a
disposição contrária. Se as Escrituras são dignas de confiança, tal pessoa é
inclinada a considerar suas realizações religiosas relativamente medíocres e a
estimar-se pequeno entre os santos, um dos menores dentre eles. A humildade,
ou a verdadeira singeleza de espírito, predispõe as pessoas a considerar os outros
melhores do que elas: “Com humildade [...] cada um considere os outros
superiores a si mesmo” (Fp 2.3). Por isso são inclinados a pensar que o lugar que
lhes cabe é o mais baixo; e sua disposição interior naturalmente os leva a
obedecer ao preceito de nosso Salvador (Lc 14.10). Não lhes é natural tomar
para si o papel de mestres; ao contrário, costumam pensar que os outros são mais
adequados que eles para assumir essa função, como ocorreu com Moisés e
Jeremias (Êx 3.11; Jr 1.6), conquanto fossem santos eminentes e homens de
grande conhecimento. Para eles não é natural pensar que lhes cabe ensinar, mas,
ao contrário, serem ensinados; estão sempre muito mais dispostos a ouvir e a
receber instruções do que ditá-las aos outros: “Todo homem deve estar pronto a
ouvir, ser tardio para falar” (Tg 1.19). Quando falam, não lhes é natural assumir
ares de mestres confiantes, mas, antes, a humildade os dispõe a falar com temor
e tremor: “Quando Efraim falava, havia tremor; foi exaltado em Israel, mas se
tornou culpado por causa de Baal e morreu” (Os 13.1). Não costumam assumir
posições de autoridade nem se arrogar a posição de administradores e mestres,
mas antes costumam sujeitar-se aos outros: “Muitos de vós não devem ser
mestres” (Tg 3.1); “Sede todos sujeitos uns aos outros, e revesti-vos de
humildade” (1Pe 5.5, ACF); “Sujeitando-vos uns aos outros no temor de Cristo”
(Ef 5.21).
As experiências de alguns funcionam naturalmente desse modo, fazem-nos
ter alta consideração por elas, e eles mesmos com frequência se referem a suas
experiências como grandiosas e extraordinárias; falam sem reservas sobre as
grandiosidades que conheceram. Isso talvez seja dito com boa intenção. Em
certo sentido, qualquer grau da graça salvadora é algo grandioso. Certamente,
Deus dar uma migalha ínfima do pão dos filhos aos cãezinhos que somos é com
efeito um ato mui grandioso, infinitamente excelente. Quanto mais humilde a
pessoa que espera ter recebido tamanha graça de Deus, mais inclinada ela será a
chamar o que lhe aconteceu de grandioso. Entretanto, se alguém chama de
“coisas grandiosas” experiências espirituais relativamente grandiosas, isto é,
grandiosas comparadas com experiências de outros, ou para além do comum, o
que sem dúvida ocorre na maioria das vezes, então, essa pessoa declarar que
encontrou coisas grandiosas é exatamente o mesmo que dizer “sou um grande
santo e tenho mais da graça que o comum dos santos”. Porque ter grandes
experiências, se elas são verdadeiras e valem a pena ser relatadas, é o mesmo
que ter muita graça: não existe experiência verdadeira senão por obra da graça,
de modo que o grau da experiência verdadeira corresponde igualmente ao grau
de graça e santidade. As pessoas que falam assim de suas experiências quando as
contam esperam que os outros as admirem. Com efeito, elas não chamam de
vangloriar-se falar desse jeito de suas experiências, nem consideram sinal de
orgulho, porque afirmam ter conhecimento de que não foram elas as autoras das
experiências, foi tudo obra da graça franca, foram ações que Deus fez por em seu
favor, e elas querem apenas reconhecer a extraordinária misericórdia de Deus
por elas, e não fazer pouco caso dessas ações. Todavia, o fariseu que Cristo
menciona em Lucas 18 também falava assim. Com suas palavras, dava glória a
Deus por fazê-lo diferente dos outros homens: “Ó Deus, graças te dou”, ele diz,
“porque não sou como os outros homens”.25 Eles atribuírem verbalmente à graça
de Deus que são mais santos que os outros santos não lhes detém a petulância de
terem sua própria santidade em tão alta estima, o que é um sinal certeiro de sua
soberba e vaidade de espírito. Se agissem por influência do espírito humilde,
suas conquistas na religião não se prestariam a brilhar tanto a seus próprios
olhos, tampouco seriam tão dados a admirar a própria beleza. Os cristãos que de
fato são os santos mais eminentes e, portanto, têm as experiências mais
excelentes e são os maiores no reino do céu, têm a humildade de uma criança
(Mt 18.4), porque se consideram apenas crianças na graça, veem as próprias
conquistas como realizações de bebês em Cristo e ficam desconcertados e
envergonhados por seu pouco amor, sua pouca gratidão e o pouco conhecimento
de Deus. Quando Moisés acabara de conversar com Deus no monte, seu rosto
brilhava tanto que quase cegou os olhos dos outros hebreus, mas ele mesmo não
percebia que seu rosto brilhava. Algumas pessoas são tidas como altamente
religiosas e outras se consideram assim elas mesmas. Todavia, os santos
eminentemente humildes, que serão os mais resplandecentes no céu, não são
nem um pouco dados a alardear seu alto nível de religião. Não creio que haja no
mundo nem um santo eminente que faça questão de se gabar de sua
religiosidade. É muito mais provável que alguém tão santo se declare o menor de
todos os santos e considere as experiências e realizações dos outros santos
maiores do que as suas.26
Tal é a natureza da graça e da verdadeira luz espiritual que elas naturalmente
predispõem os santos no estado atual a considerar pequenas sua graça e sua
bondade e tão grande sua imperfeição moral. Os mais iluminados de espírito e
mais cheios da graça neste mundo são os que mais têm essa disposição, como
ficará mais claro e mais visível para qualquer um que pondere com sobriedade e
profundidade a natureza e a razão das coisas e analise as considerações a seguir.
A graça e a santidade são dignas de ser consideradas poucas, isto é, poucas
em comparação com o que deveriam ser. E assim parece para quem é
verdadeiramente cheio da graça, pois tal indivíduo mantém os olhos fixos na
regra do seu dever; almeja estar de acordo com ela, sua alma se empenha e
procura cumpri-la, e por ela avalia e julga tudo o que faz e tudo quanto tem. Para
uma alma cheia da graça, e sobretudo para uma alma sobejamente agraciada,
essa santidade parece pequena, pequena diante do que deveria ser, pequena
diante do que considera sua infinita razão e obrigação. Se para esse indivíduo
sua santidade lhe parece muito distante disso, é natural que pareça desprezível a
seus olhos e não seja digna de ser mencionada como beleza nem atratividade de
seu caráter. Pelo mesmo motivo um homem faminto naturalmente considera
pouca a comida posta diante dele, insignificante em comparação com o tamanho
do seu apetite. Assim também o filho de um grande príncipe, zeloso da honra de
seu pai e do respeito que os homens lhe devem, naturalmente há de considerar
poucos e insignificantes a honra e o respeito demonstrados ao pai, em
comparação com a honra e o respeito exigidos por sua dignidade.
Essa é a natureza da verdadeira graça e da luz espiritual, descortinar aos
olhos da pessoa a razão infinita que ela tem para ser profundamente santa.
Quanto mais graça ela tiver, mais essa infinita razão se revelará a seus olhos,
mais consciência ela terá da infinita excelência e glória do Ser Divino, da infinita
dignidade da pessoa de Cristo e da grandeza do comprimento, da largura, da
profundidade e da altura do amor de Cristo pelos pecadores. À medida que a
graça aumenta, seu campo de visão se abre para o que está mais distante, até que
a alma seja tragada pela vastidão do que contempla, de modo que a pessoa fica
perplexa ao pensar em quanto ela tem de amar esse Deus e glorioso Redentor
que tanto amou o homem e quão pouco ela o ama de fato. Quanto mais percebe
isso, mais a pequenez de sua graça e de seu amor lhe parece estanha e espantosa;
por isso, mais disposta a pensar que os outros estão além dela nesses atributos.
Refletindo acerca da pequenez de sua graça, ela mal consegue acreditar que algo
tão estranho também acontece com outros santos: é inacreditável para ela que
um verdadeiro filho de Deus, que recebeu de fato os benefícios salvíficos do
inefável amor de Cristo, não tenha amor maior; e se inclina a pensar nisso como
uma particularidade sua, como um exemplo estranho e fora do comum; porque
vê apenas o exterior dos outros cristãos, mas enxerga seu próprio interior.
Aqui os leitores talvez objetem que o amor a Deus aumenta na mesma
proporção em que o conhecimento dele aumenta. Logo, como pode o aumento
do conhecimento num santo fazer seu amor parecer menor em comparação com
o que ele conhece? Eu respondo que, embora a graça e o amor de Deus nos
santos correspondam ao grau de conhecimento ou percepção que eles têm de
Deus, elas não são proporcionais ao objeto percebido ou conhecido. Tendo
descortinado um pouco de Deus, a alma do santo se convence de muito mais do
que vê. Ela vê algo maravilhoso, e essa visão traz consigo a forte convicção de
algo muito maior não visto imediatamente. Ao mesmo tempo, a alma se
surpreende com sua própria ignorância e por conhecer e amar tão pouco. Assim
como na visão espiritual a alma se convence de que o objeto contemplado tem
infinitamente mais do que ela consegue ver, ela também se convence de sua
própria capacidade de conhecer muito mais, se tão somente forem removidas as
nuvens e a escuridão. Por isso, no prazer da visão espiritual, a alma se lamenta
tanto de sua ignorância e falta de amor, e anseia por mais amor e mais
conhecimento.
A graça e o amor de Deus nos santos mais eminentes neste mundo são de
fato bem parcos comparados ao que devem ser. Isso porque o maior amor que se
pode alcançar nesta vida é pobre, frio, fraco e indigno de ser mencionado em
comparação com nossas obrigações, as quais podem ser mensuradas
considerando duas coisas: (1) o motivo que Deus nos deu, nas manifestações de
sua infinita glória em sua Palavra e em suas obras, para amá-lo; e (2) a
capacidade da alma humana, graças às faculdades intelectuais com que Deus a
dotou, de perceber e compreender as razões que Deus nos deu para amá-lo. Que
ínfimo é na realidade o amor do mais eminente santo da face da terra em
comparação com o que exigem esses dois dados juntos! E a graça, sobretudo a
graça eminente, em geral convence o homem disso, pois a graça tem a natureza
da luz e traz a verdade à luz. Portanto, quem tem mais graça percebe muito mais
que os outros a grande altura a que seu amor deve ascender; e enxerga melhor
que os outros quão pequeno foi o caminho que seu amor trilhou nessa direção.
Assim, avaliando seu amor em relação à altura de seu dever, seu amor lhe parece
desconcertantemente pequeno e fraco a seus olhos.
O santo eminente, tendo essa convicção do alto grau em que deve amar a
Deus, percebe não só a exiguidade da sua graça, mas também a imensidão da
corrupção que ainda permanece nele. Para avaliar o quanto ainda temos em nós
de corrupção e pecado, temos de tomar como padrão a altura a que se estende a
regra do nosso dever. Toda a extensão que nos distancia desse alto padrão é o
pecado, pois deixar de cumprir o dever é pecado — se assim não fora, nosso
dever não seria o nosso dever — e quanto mais deixamos de cumprir nosso
dever, tal é a medida do nosso pecado. O pecado outra coisa não é senão a ofensa
de um agente moral à lei ou à norma do seu dever. Portanto, o grau do pecado
deve ser medido de acordo com essa norma: quanto mais ofensa à norma, maior
o pecado, quer por excesso, quer por falta. Logo, se o amor das pessoas a Deus
não chega à metade da altura que o dever exige, elas têm no coração mais
perversão que graça, pois a bondade que lhes falta é maior que a que têm. Toda
essa falta é pecado, é um defeito abominável, e é assim que os santos percebem,
sobretudo os mais eminentes. Parece-lhes demais abominável que Cristo seja tão
pouco amado e receba tão pouca gratidão por seu amor sacrificial; aos olhos
desses santos, trata-se de uma ingratidão hedionda.
O aumento da graça se inclina para outro caminho, faz os santos
considerarem sua imperfeição moral muito maior que sua bondade. Esse
aumento não só os costuma convencer de que sua bondade é muito menor que
sua perversão, o que é verdade, mas também costuma fazer que a imperfeição
moral presente no menor dos pecados ou no menor grau de perversão pareça
imenso a ponto de pesar mais que toda a beleza existente em sua grande
santidade — pois isso também é verdade.
O mais ínfimo pecado contra um Deus infinito tem odiosidade e imperfeição
moral igualmente infinitas; por sua vez, o maior grau de santidade de uma
criatura não tem amabilidade infinita; portanto, a amabilidade que nela há é
como nada em comparação com a imperfeição moral do mais ínfimo pecado.
Cada pecado ter em si hediondez e imperfeição moral infinitas é prova mais que
evidente, pois o mal, ou a iniquidade, ou a odiosidade do pecado, consiste na
violação de uma obrigação, ou em ser ou agir contrariamente ao que devemos ou
somos obrigados a ser ou fazer. Assim, quanto mais importante a obrigação
violada, maior a iniquidade e maior a hediondez da violação. É certo, ainda, que
nossa obrigação de amar e honrar qualquer ser é proporcional à sua amabilidade
e honorabilidade, ou seja, a quanto ele é digno de ser amado e honrado por nós
— que são a mesma coisa. Não resta dúvida de que temos muito mais obrigação
de amar um ser mais amável que um ser menos amável. Se um Ser é
infinitamente amável e digno de ser amado por nós, nossa obrigação de amá-lo é
infinitamente grande. Portanto, tudo o que é contrário a esse amor tem em si
iniquidade, indignidade e imperfeição moral infinitas. Por outro lado, a nossa
santidade ou o amor que temos por Deus não têm dignidade e valor infinitos. O
pecado da criatura contra Deus é tão indigno e tão odioso quanto é grande a
distância entre Deus e a criatura. A grandiosidade do objeto e a vileza e
inferioridade do sujeito o agravam. Entretanto, ocorre o oposto quanto ao valor
do respeito da criatura por Deus: não tem valor e não é digno na proporção da
vileza do sujeito. Quanto maior a distância entre Deus e a criatura, menor o
respeito da criatura é merecedor da atenção ou do cuidado de Deus. O imenso
grau de superioridade aumenta a obrigação do inferior em relação ao superior e,
assim, torna a falta de atenção mais odiosa. Por outro lado, o imenso grau de
inferioridade diminui o valor da consideração do inferior pelo superior, pois,
quanto mais inferior ele é, menos é digno de atenção; quanto menos ele é, menos
vale o que ele tem a oferecer, pois, por mais que faça, não pode oferecer nada
mais que a si próprio; logo, por ser pequeno e valer pouco, seu respeito também
pouco vale. Quanto mais uma pessoa tem da verdadeira graça e da luz espiritual,
tanto mais as coisas lhe parecerão ser assim; mais infinitamente deformada pelo
pecado ela parecerá para si mesma e menor a bondade presente em sua graça, ou
em suas boas experiências, parecerá em relação ao pecado, porque, em
comparação com o pecado, elas nada são, são menores que uma gota em relação
ao oceano: não há comparação entre o finito e o infinito. Contudo, quanto mais o
indivíduo tem da luz espiritual, mais essas coisas, nesse aspecto, lhe parecem
como de fato são. Por isso, fica mais evidente que a verdadeira graça tem tal
natureza: quanto mais dela a pessoa tem (e sendo essa pessoa ainda corrupta em
certa medida), menores a sua bondade e a sua graça lhe parecerão em relação à
sua imperfeição moral — e não me refiro aqui somente à sua imperfeição moral
do passado, mas também à sua imperfeição moral atual, ao pecado que aparece
agora em seu coração e às abomináveis imperfeições de suas melhores e mais
elevadas afeições e de suas mais brilhantes experiências.
Em diversas pessoas que conheci, a índole de muitas de suas sublimes
afeições religiosas e grandes revelações (como as chamam) é esconder e
encobrir a perversidade de seu coração e dar-lhes a impressão de que todo o seu
pecado se foi e as deixou livres de queixa em relação a qualquer mal odioso que
nelas houvesse restado (conquanto ainda se lamuriem de sua antiga indignidade);
e isso é sinal certo e seguro de que suas revelações (como elas as chamam) são
trevas, não luz. São as trevas que escondem a imundície e as imperfeições
morais dos seres humanos. Porém, quando a luz penetrante da santidade e da
glória de Deus — essa luz que tudo rastreia — entra no coração, revela essas
imperfeições morais, sonda-as nos cantos mais secretos e as põe completamente
às claras. É verdade que em certo sentido as revelações salvadoras podem, pelo
presente, ocultar a decadência. Elas lhe restringem a ação franca, tais como a
crueldade, a inveja, a cobiça, a luxúria, as murmurações, entre outras, mas
trazem à luz a perversidade no que há de mais íntimo, isto é, mostram que não
existe mais amor, humildade nem gratidão, e essas imperfeições parecem mais
odiosas aos olhos daqueles em quem a atividade da graça é mais eminente. São
muito vexatórias e fazem os santos chorarem por sua mediocridade e por seu
orgulho e ingratidão odiosos. Além disso, se a qualquer tempo um ato franco de
perversidade surgir e se imiscuir com atos eminentes da graça, esta haverá de
ampliar sobremaneira a vista desse ato perverso, tornando sua aparência muito
mais hedionda.
Quanto mais um santo é eminente e quanto mais a luz do céu está presente
em sua alma, mais ele tem por si mesmo a impressão que os santos e anjos do
céu têm dos mais eminentes santos deste mundo. Como podemos imaginar
racionalmente que os mais eminentes santos da terra parecem para eles se estes
não contemplam outra coisa senão a justiça de Cristo, e suas imperfeições
morais foram tragadas e escondidas pelo fulgor dos raios da prodigalidade de sua
glória e seu amor? Como imaginar o nosso amor e os nossos louvores mais
fervorosos observados por aqueles que contemplam sem véu a beleza e a glória
de Deus? Como a nossa mais elevada gratidão pelo amor sacrificial de Cristo
parece para aqueles que contemplam Cristo como ele é, que conhecem e são
conhecidos e contemplam sem nenhuma nuvem a glória da pessoa daquele que
foi morto e as maravilhas de seu amor? E como eles reputam a mais profunda
reverência e humildade com que os vermes rastejantes se aproximam da
Majestade infinita que eles contemplam? Será que elas lhes parecem grandes ou
tão dignas do nome de reverência e humildade em pessoas que eles percebem
estar a tão infinita distância do Deus grandioso e santo em cuja gloriosa presença
se encontram? As maiores realizações dos santos da terra parecem tão medíocres
para os anjos e santos do céu porque estes habitam na luz da glória de Deus e
enxergam Deus tal como ele é. Nesse sentido, o mesmo que acontece com os
santos do céu acontece com os santos da terra na medida que aqueles são mais
eminentes na graça.
Não quero dizer que os santos da terra em todos os aspectos têm a pior
opinião de si mesmos quando a graça é mais atuante neles. Em muitos aspectos é
o contrário. No que se refere aos atos francos de perversidade, talvez lhes
pareçam melhores e mais livres quando a graça está mais ativa e piores quando a
atividade da graça é menor. Quando se comparam a si mesmos em momentos
diferentes, talvez entendam que, quando a graça está ativa, eles se encontram em
melhor estado do que antes (embora antes não enxergassem em si tanta maldade
quanto enxergam agora); e quando depois afundam de novo no estado habitual
de sua mente, talvez percebam que afundam e assim tenham uma nova
explicação para a decadência que neles ainda se encontra e tenham a convicção
racional de uma vileza maior do que antes viam; e talvez tenham mais
sentimento de culpa e uma espécie de noção jurídica de sua pecaminosidade
muito mais do que quando a graça se encontrava em elevada atividade. No
entanto, também é certo, e demonstrável pelas considerações mencionadas, que
os filhos de Deus jamais têm convicção tão sensata e espiritual de suas
imperfeições morais nem tão rápida, tão grande e tão humilhante noção de sua
vileza e odiosidade atuais do que quando a graça se encontra neles na mais
elevada, mais verdadeira e mais pura atividade. É nesse momento que eles estão
mais dispostos a se colocar entre os menores dos cristãos. Desse modo, o maior
no reino ou o mais eminente na igreja de Cristo é o mesmo que se humilha à
condição da menor criancinha, de acordo com a célebre fala de Cristo em
Mateus 18.4.
O verdadeiro santo pode saber que tem um pouco da graça verdadeira e que,
quanto mais graça, mais facilmente ela é conhecida, como antes se observou e
ficou provado. Disso, porém, não se depreende que um santo eminente perceba
com facilidade essa sua condição comparado aos outros. Não nego a
possibilidade de que quem tem muita graça e é um santo eminente tenha
consciência disso, mas esse indivíduo não será inclinado a saber disso, nem lhe
será óbvio. Ser melhor que os outros e ter experiências e realizações mais
elevadas não é um pensamento relevante na sua vida; na verdade, é uma ideia
muito distante, tão longe de suas preocupações que ele precisaria se esforçar
para se convencer disso. Seriam necessários um exercício concentrado da razão e
uma argumentação rigorosa para ele se convencer. E se ele se convencer
racionalmente, por uma comparação rigorosa de suas experiências com as
grandiosas aparências da graça rarefeita em outros santos, dificilmente lhe
parecerá real ter mais graça que os outros, e estará pronto a perder a convicção
que com dificuldade obteve; tampouco lhe parecerá natural agir de acordo com
essa hipótese. Pode-se estabelecer como princípio infalível que “aquele que,
quando se compara aos outros, costuma se considerar um santo muito eminente,
muito distinto em experiência cristã, alguém em quem esse é o primeiro
pensamento que surge e se apresenta naturalmente, tal indivíduo está
completamente enganado, não é nenhum santo relevante, mas está tomado pelos
poderes de um espírito soberbo e cheio de justiça própria”. E se esse pensamento
for habitual e predominante na mente desse indivíduo, ele não é santo; e, tão
certo quanto a Palavra de Deus é verdadeira, ele não tem nem um pouco de
experiência cristã legítima.
Essa espécie de experiência com tal inclinação e que de tempos em tempos
costuma produzir em seu sujeito muita presunção de tê-la é certamente vã e
enganadora. As supostas revelações que deixam o indivíduo enfatuado de
admiração de si mesmo pela importância de as ter recebido, e o enchem de
vaidade porque agora ele viu e sabe mais que a maioria dos outros cristãos, não
têm nada da natureza da verdadeira luz espiritual. Toda a natureza do
conhecimento espiritual verdadeiro se revela na consciência da própria
ignorância, isto é, quanto maior o conhecimento espiritual verdadeiro, mais
consciência de sua própria ignorância o cristão tem, conforme se vê em
1Coríntios 8.2: “Se alguém supõe conhecer alguma coisa, ainda não conhece até
o ponto em que é necessário conhecer”. Quando Agur teve uma grande
revelação de Deus e percebeu a maravilhosa sublimidade de sua glória e de suas
prodigiosas obras, e proclamou a grandiosidade e inescrutabilidade de Deus, ele
teve ao mesmo tempo a mais profunda consciência de sua colossal ignorância e
reputou-se o mais ignorante de todos os santos: “Na verdade sou o mais tolo de
todos, não tenho o entendimento do homem; não aprendi a sabedoria, nem tenho
o conhecimento do Santo. Quem subiu ao céu e desceu? Quem segurou os
ventos em punho? Quem amarrou as águas nas suas vestes? Quem fixou todas as
extremidades da terra? Qual é o seu nome, e qual é o nome de seu filho?
Certamente sabes!” (Pv 30.2-4).
Alguém altamente presunçoso de seu conhecimento espiritual e divino é
alguém sábio a seus próprios olhos. Portanto, enquadra-se nestas proibições:
“Não sejas sábio a teus próprios olhos” (Pv 3.7); “Não sejais sábios aos vossos
próprios olhos” (Rm 12.16). Além disso, sujeita o homem a esta angústia: “Ai
dos que são sábios aos seus próprios olhos e inteligentes em seu próprio
conceito!” (Is 5.21). Logo, os sábios aos próprios olhos estão entre os menos
propensos ao bem neste mundo. A experiência comprova a verdade de
Provérbios 26.12: “Vês um homem que é sábio a seus próprios olhos? Há mais
esperança para o tolo do que para ele” (Pv 26.12).
Alguns poderiam argumentar que o salmista, num momento em que se
encontrava, imaginemos, em espírito de santidade, fala de seu conhecimento
como se este fosse eminentemente grande e muito maior que o dos outros santos:
“Tenho mais entendimento do que todos os meus mestres, porque teus
testemunhos são minha meditação. Sou mais instruído do que os anciãos, pois
tenho guardado teus preceitos” (Sl 119.99,100).
Minha resposta a essa pergunta tem duas partes:
Primeira, para o benefício da igreja de Deus, não há restrição nenhuma ao
que o Espírito Santo deve revelar ao profeta que fala ou escreve sob sua
inspiração direta. O Espírito de Deus pode revelar a esse profeta e ordenar-lhe
que declare aos outros coisas secretas que lhe seriam impossíveis em outras
circunstâncias. Pode revelar-lhe mistérios, que de outro modo estariam além do
alcance de seu entendimento; ou coisas num lugar distante, que ele não pode ver;
ou acontecimentos futuros, que ele jamais poderia saber e declarar se não lhe
fossem extraordinariamente revelados. Desse modo, o Espírito de Deus pôde
revelar esse peculiar benefício a Davi — que o recebeu por estar sempre em
comunhão com Deus, dedicando-se a seus mandamentos — e usá-lo como
instrumento seu para o registrar em benefício dos outros, a fim de os estimular
para semelhante dever e para usar os mesmos meios para obter conhecimento.
Do que Davi declarou de seu peculiar conhecimento sob a influência
extraordinária do Espírito de Deus ditando-lhe diretamente, por inspiração, o
pensamento divino, e usando-o como instrumento para registrar a sua vontade
para o bem de sua igreja, não se pode concluir nada relativamente à tendência
natural das influências da graça comum do Espírito de Deus; assim como não
podemos de bom senso alegar que é tendência natural da graça predispor os
homens a amaldiçoar os outros e lhes desejar os sofrimentos mais horrendos
imagináveis porque Davi, sob inspiração, muitas vezes amaldiçoava os outros e
orava para que lhes sobreviesse tamanho sofrimento.
Segunda, não se sabe ao certo se o conhecimento a que Davi aqui se refere é
o conhecimento espiritual em que a santidade consiste essencialmente. Talvez se
trate da revelação que Deus lhe fizera a respeito do Messias e das coisas do seu
futuro reino, e do conhecimento muito mais amplo e mais claro que ele tinha dos
mistérios e doutrinas do evangelho, em comparação com o conhecimento dos
outros, como recompensa por ter guardado os mandamentos de Deus. O livro de
Salmos deixa claro que, nesse aspecto, Davi excedia em muito todos os que o
haviam precedido.

2. Outro sinal infalível de orgulho espiritual é as pessoas serem inclinadas a


ter elevada estima de sua própria humildade. As falsas experiências
normalmente são acompanhadas de falsa humildade, e é próprio da falsa
humildade ser altamente presunçosa de si. As falsas afeições religiosas,
sobretudo quando se exaltam a grandes alturas, costumam fazer as pessoas
considerar muito grande a humildade de quem as tem e, por conseguinte, prestar
mais atenção nas realizações desse indivíduo sob esse aspecto e admirá-lo.
Contudo, as afeições eminentemente provindas da graça (e digo isso sem
hesitação nenhuma) sempre têm inclinação contrária e provocam efeito
totalmente diverso nos que as têm. Na verdade, essas afeições os tornam muito
conscientes do motivo por que deveriam se humilhar profundamente e os fazem
desejar a humildade com todas as suas forças; no entanto, fazem também que sua
humildade atual, ou a que já alcançaram, pareça-lhes pouca, enquanto o orgulho
ainda remanescente parece grande e demais abominável.
O motivo que leva um orgulhoso a considerar grande sua própria humildade
e uma pessoa humilde a achar que é pouco humilde pode ser facilmente
percebido se for levado em conta que é natural as pessoas, quando julgam o grau
de sua humildade, tomarem como base o nível ou a dignidade que estimam
pertencer-lhes por direito. Desse modo, o que para um não é humilhação
nenhuma é humilhação extrema para o outro, porque o nível de honra e
consideração em que cada um se encontra é muito diferente. Para um grande
homem, curvar-se para desatar o laço dos sapatos de outro grande homem, seu
par, ou lavar-lhe os pés, será notado como um ato que o rebaixa; e ele próprio,
consciente de sua dignidade, também acharia a mesma coisa. Contudo, se um
pobre escravo for visto curvando-se para desatar o laço dos sapatos de um
grande príncipe, ninguém verá isso como ato de humilhação ou sinal de muita
humildade, nem o próprio escravo pensaria nisso, a menos que fosse muito
orgulhoso e ridiculamente convencido. E se, depois de fazer isso, mostrasse com
palavras e atos que achava ter-se rebaixado e falasse daquilo como prova de sua
grande humildade, todos o questionariam: “Quem você pensa que é para achar
que fez um gesto de tão profunda humilhação?” Isso deixaria bem claro que o
escravo estava enfatuado com uma grande dose de orgulho e vaidade. Seria
como se ele declarasse com toda simplicidade: “Considero-me um grande
homem”. E a questão não é menos clara e certa quando vermes rastejantes,
inúteis, vis e abomináveis interpretam desse modo seus atos de humilhação
perante Deus e consideram sinal de muita humildade se disporem, movidos por
grande afeição, a reconhecer-se vis e indignos, e comportarem-se como se
fossem inferiores. Esses atos exteriores e os exercícios interiores parecem tanta
humildade para essas pessoas porque elas são altamente presunçosas. Se
pensassem a seu próprio respeito com mais justiça, esses atos não lhes
pareceriam nada, e a humildade delas não mereceria atenção alguma; antes,
ficariam perplexas com seu orgulho, que seres tão infinitamente desprezíveis e
vis não se humilhem ainda mais perante Deus. Quando uma pessoa assim diz no
seu coração: “Isso é um gesto de humildade. Sem dúvida eu me sentir assim e
fazer tal coisa é sinal da minha humildade”, o que ela realmente quer dizer é:
“Isto é muita humilhação para mim; eu, que sou tão digno e merecedor de
consideração”. Esse indivíduo está pensando no quanto se rebaixou na ocasião e
compara esse estado com a altura da dignidade que ele, no íntimo, considera ter;
a distância lhe parece muito grande, e ele chama isso de humildade e a admira
como tal. Em contrapartida, para a pessoa verdadeiramente humilde, que de fato
percebe sua baixeza e abominação diante de Deus, essa distância parece o
oposto. Quando se rebaixa ao menor grau, não imagina ter-se rebaixado além de
sua devida posição. Pelo contrário, parece-lhe não ter chegado ainda a posição
tão baixa. Ela ainda se vê muito acima de seu lugar natural e anela rebaixar-se
ainda mais a fim de poder encontrar-se na condição certa, que lhe parece bem
distante. Essa distância ela chama de orgulho. Portanto, o que lhe parece grande
é seu orgulho, não sua humildade, pois, apesar de ter chegado a uma posição
muito mais baixa do que a sua habitual, ainda assim não lhe parece digno
chamar de humilhação que ela, tão infinitamente vil e detestável, tenha sido
rebaixada a um status que, conquanto mais baixo do que ela antes imaginava, é
muito mais alto do que o status que lhe cabe. Do mesmo modo, os homens
dificilmente chamariam de humilhação um escravo desprezível, outrora com
pretensões de ser um príncipe, depois de ter tido o espírito tão diminuído,
assumir o lugar de um nobre, quando este lugar está muito além de seu status de
direito.
Todo o mundo ao julgar o nível de humildade que seus próprios atos e os de
outras pessoas demonstram leva em consideração dois aspectos, a saber, o seu
verdadeiro grau de dignidade e o seu grau de rebaixamento em relação a essa
real dignidade. Assim, a anuência com o lugar inferior ou com o gesto de
diminuição pode ser sinal de muita humildade em uma pessoa, mas de pouca ou
nenhuma em outra. Os cristãos verdadeiramente humildes, no entanto, têm a
própria dignidade em estima tão baixa que todos os seus atos de diminuição de si
mesmos, quando comparados com ela, parecem-lhes pequenos demais. Não lhes
parece muita humildade nem diminuição digna de nota que criaturas tão
miseráveis, vis e abjetas como eles se prostrem aos pés do Senhor do universo.
O grau de humildade deve ser julgado pelo nível de humilhação e o nível da
causa da humilhação. Porém, quem é verdadeira e relevantemente humilde, ao
julgar a causa de sua humilhação, jamais a considera grande. A causa por que
deve ser humilhado lhe parece tão excelente, e a vileza de seu coração tão maior
que o grau de rebaixamento a que chegou, que essa pessoa percebe muito mais
seu orgulho que sua humildade.
Todos os que tiveram comunhão com almas convencidas de pecado sabem
que quem é imensamente convicto do pecado não costuma se considerar tão
convicto assim, pois os homens julgam o grau da sua convicção de pecado por
dois aspectos considerados em conjunto: o grau de sua consciência de culpa e
degradação e o grau do motivo de terem essa consciência do nível de sua
verdadeira pecaminosidade. Que alguns homens se considerem muito pecadores,
bem mais que os outros, não é na verdade explicação nenhuma de muito
convencimento de pecado, pois é público e notório que eles são, sim, pecadores.
Por isso, a convicção de pecado de uma pessoa não precisa ser tão grande quanto
a de outra para ela se considerar muito pecadora. Tal pessoa precisaria ser
completamente cega para não enxergar isso. Porém, a pessoa que está de fato
convicta de seu pecado naturalmente percebe o quanto é pecadora. Entende que
o que a faz enxergar seu pecado e perversidade é maior que o de outras pessoas,
por isso atribui sua consciência de culpa à enormidade de seu pecado, não à
excelência de sua percepção. É natural que alguém por muita convicção se
considere um dos maiores pecadores e que veja isso com muita clareza, pois
quanto maior a sua convicção, mais evidente sua condição pecaminosa lhe
parece. Logo, necessariamente o quadro se lhe apresenta tão simples e claro que
poderia ser visto sem grande convicção. O homem cuja convicção é grande
comparada a seu pecado é um homem que está sob convicções importantes.
Todavia, nenhum homem que esteja passando por relevantes convicções acha
que sua convicção é grande comparada a seu pecado. Caso pense isso, já será um
sinal seguro de que ele no íntimo considera seu pecado pequeno. Nesse caso,
isso é sinal seguro de que sua convicção é pequena. E é esse, aliás, o principal
motivo por que as pessoas, quando sob a ação da obra de humilhação, não têm
consciência dela no momento.
Assim como ocorre na convicção de pecado, também ocorre, por igual
motivo, na convicção ou consciência da própria mesquinhez, vileza, cegueira e
impotência, e toda essa pouca estima que, quando pratica a humilhação
evangélica, o cristão tem de si. Assim, quando têm alto grau de convicção, os
santos jamais se inclinam a pensar que essa noção da própria mesquinhez,
imundície, impotência e de outros males, é grande, porque, considerada a causa,
essa consciência nunca lhes parece grande.
O santo eminente não costuma considerar-se eminente em coisa alguma.
Todas as suas graças e experiências logo lhe parecem relativamente pequenas,
sobretudo a sua humildade. Não há nada referente à experiência cristã e à
piedade verdadeira que esteja tão longe de seu campo de visão quanto sua
humildade. Ele percebe e identifica mil vezes mais rápido o seu orgulho do que
sua humildade. Ele é inclinado a identificar com muita facilidade o orgulho, mas
dificilmente percebe sua humildade. Em contrapartida, o hipócrita iludido,
tomado pelo poder da soberba espiritual, só é cego para seu orgulho e tem olhos
muito prontos para identificar seus próprios indícios de humildade.
O cristão humilde é muito mais inclinado a encontrar a culpa no seu próprio
orgulho do que no de outras pessoas. É disposto a ver com os melhores olhos
possíveis os atos e as palavras alheios e a pensar que ninguém é tão orgulhoso
quanto ele próprio. Por sua vez, o hipócrita orgulhoso é célere em perceber o
cisco no olho de seu irmão, enquanto ignora a trave do seu próprio olho. Está
sempre falando do orgulho alheio e encontra defeito nas roupas e no modo de
viver dos outros; e é dez vezes mais afetado pelo anel ou pelos adornos do seu
próximo do que por toda a imundície do seu próprio coração.
Da disposição dos hipócritas para ter em alta estima sua humildade, sucede
que a falsa humildade se apressa em se exibir. Os falsamente humildes não
economizam palavras a respeito de suas humilhações, decantando-as em prosa e
verso e pomposamente ostentando-as, em olhares, gestos e modos de falar
afetados, na aparatosa simplicidade das roupas ou em alguma afetada
singularidade. Era assim antigamente com os falsos profetas (Zc 13.4); era assim
também com os judeus hipócritas (Is 57.5); e Cristo nos diz que também foi
assim com os fariseus (Mt 6.16). Com a humildade verdadeira, porém, ocorre o
contrário. Os humildes não são dispostos a exibir seus dons de retórica para
mostrá-la nem a falar em termos vigorosos de seu grau de auto-humilhação.27 A
verdadeira humildade não se preocupa em exibir-se mediante peculiar
simplicidade de vestimentas nem de modo de vida, conforme implícito em
Mateus 6.17: “Tu, porém, quando jejuares, põe óleo na cabeça e lava o rosto”;
nem se coaduna com o que diz Colossenses 2.23: “[normas que] têm aparência
de sabedoria em falsa devoção, falsa humildade e severidade para com o corpo”.
Do mesmo modo, a humildade verdadeira não é ruidosa, não é espalhafatosa
nem estrepitosa. A Escritura mostra que sua natureza é oposta a isso tudo.
Quando tomado de certa humildade exterior, que se assemelhava um pouco à
verdadeira humildade, Acabe agiu com mansidão (1Rs 21.27). O penitente, no
exercício da verdadeira humilhação, é representado na Escritura como estático e
silencioso: “Que se assente sozinho e fique calado” (Lm 3.28). E a Escritura
menciona que o silêncio acompanha a humildade: “Se procedeste loucamente em
te exaltar, ou se maquinaste o mal, põe a mão sobre a boca” (Pv 30.32).
Desse modo, demonstrei específica e amplamente a natureza da humildade
verdadeira, que acompanha as afeições santas, como ela se manifesta na
inclinação de levar as pessoas a pensar modestamente acerca de suas realizações
na religião comparadas às realizações dos outros e, em particular, acerca de seus
êxitos na humildade. Também mostrei a inclinação contrária do orgulho
espiritual de predispor as pessoas a pensar que nesses aspectos suas realizações
são grandiosas. Insisti muito nesse assunto porque o considero muito importante,
uma vez que permite distinguir com segurança entre a humildade verdadeira e a
falsa; além disso, a disposição dos hipócritas de se considerarem melhores que
os outros é algo que Deus declarou ser-lhe particularmente odioso, fumaça em
suas narinas e fogo que arde o dia todo (Is 65.5). A Escritura menciona como
exemplo do orgulho dos habitantes da cidade santa (como era chamada),
Jerusalém, que eles se consideravam muito melhores que a população de
Sodoma e, portanto, consideravam-na merecedora de desprezo e desdém: “Nem
mesmo Sodoma, tua irmã, foi mencionada pela tua boca, no dia da tua soberba”
(Ez 16.56, ARC).
Não passe o leitor por cima dessas coisas nem deixe de as aplicar a si
mesmo. Se já assimilou que é mau sinal alguém se dispor a considerar-se um
santo melhor que os outros, surgirá em você um preconceito ofuscante em seu
próprio favor; e provavelmente haverá a necessidade de um autoexame rigoroso
para determinar se isso lhe acontece. Se, a propósito da pergunta, você
responder: “Não. Parece-me que ninguém é tão mau quanto eu”, não deixe a
questão passar assim, mas faça um novo exame para saber se essa resposta — se
você se acha ou não melhor que os outros nessa questão — vem de você
imaginar ter tão pouca estima a seu próprio respeito. Será que você não tem uma
estima muito elevada a respeito dessa humildade? E se mais uma vez responder:
“Não, não tenho estima elevada acerca da minha própria humildade; eu me acho
tão orgulhoso quanto o Diabo”, repita o autoexame para verificar se a presunção
não surge debaixo desse disfarce, se não é por isso mesmo, considerar-se
orgulhoso como o próprio Diabo, que você se considera tão humilde.
Dessa oposição entre a natureza da verdadeira humildade e a da falsa —
relativamente à avaliação que seus respectivos sujeitos fazem de si mesmos —
surgem múltiplas contrariedades de índole e comportamento.
A pessoa verdadeiramente humilde, por ter opinião tão modesta acerca de
sua justiça e santidade, é pobre em espírito. A pessoa pobre em espírito é aquela
que, por noção e consciência próprias, é pobre em tudo o que lhe diz respeito, e
sua disposição corresponde a sua consciência. Por isso, quem é de fato humilde,
sobretudo notoriamente humilde, comporta-se espontaneamente em muitos
aspectos como um pobre. “O pobre implora, mas o rico responde com dureza”
(Pv 18.23). O pobre não costuma se ressentir prontamente quando está entre os
ricos, costuma ceder, pois sabe que os outros lhe são superiores. Não é rígido e
intransigente, suporta as dificuldades com paciência; tem por certo que será
desprezado e suporta o desprezo com longanimidade; não toma por maldade ser
ignorado e desconsiderado; está preparado para ocupar posição inferior; honra
seus superiores sem hesitação; aceita a repreensão com tranquilidade; é pronto a
honrar os outros acima de si mesmo; cede facilmente ao ensino, não faz questão
de impor seu conhecimento a seu juízo; não é melindrado nem dado a caprichos,
pois seu espírito está acostumado às dificuldades; não é pretensioso, nem
disposto a se dar muita importância, mas para ele é natural submeter-se aos
outros. Assim é o cristão humilde. A humildade é uma espécie de pusilanimidade
santa (como o grande Mastricht a define).
O homem muito pobre é um mendigo, e assim é o pobre em espírito. Há uma
diferença muito grande entre as afeições da graça e as falsas afeições: no
primeiro caso, o indivíduo continua sendo um pobre mendigo batendo à porta de
Deus, completamente sem nada e totalmente necessitado; no segundo, porém, as
afeições fazem as pessoas parecerem a seus próprios olhos ricas e cheias de
bens, não necessitadas, elas imaginam que têm muita coisa em estoque para sua
subsistência.28
O pobre é moderado em conversas e na conduta. Igualmente e muito mais, e
com mais certeza e mais frequência, é o pobre em espírito. Ele é humilde e
moderado na conduta entre as outras pessoas. É inútil fingir ser humilde como
uma criancinha diante de Deus quando se é arrogante, pretensioso e se comporta
de modo insolente diante das pessoas. O apóstolo informa que o propósito do
evangelho é não nos gloriarmos, não somente diante de Deus, mas também
diante dos homens (Rm 4.1,2). Aqueles que fingem muita humilhação, mas são
muito altivos, audaciosos e presunçosos — na aparência e na conduta —, devem
refletir sobre as seguintes passagens da Escritura: “SENHOR, meu coração não é
arrogante, nem meus olhos são altivos; não busco coisas grandiosas e
maravilhosas demais para mim” (Sl 131.1); “Seis coisas o SENHOR detesta, sim,
sete ele abomina: olhos arrogantes…” (Pv 6.16,17); “Pecado são olhar arrogante
e coração orgulhoso” (Pv 21.4); “Os olhos arrogantes, tu os abates” (Sl 18.27); e
“Não hei de tolerar o que tem olhar altivo e coração arrogante” (Sl 101.5). “O
amor [...] não se vangloria, não se orgulha” (1Co 13.4). A Escritura fala muitas
vezes da mansidão e do temor que nascem da humildade e caracterizam o
comportamento do cristão entre os homens: “Estai sempre preparados para
responder a todo o que vos pedir a razão da esperança que há em vós, mas fazei
isso com mansidão e temor” (1Pe 3.15,16); “A quem temor, temor” (Rm 13.7);
“Ao lembrar-se da obediência de todos vós e de como o recebestes com temor e
tremor” (2Co 7.15); “Vós, escravos, obedecei a vossos senhores deste mundo,
com temor e tremor” (Ef 6.5); “Servos, sujeitai-vos com todo temor aos vossos
senhores” (1Pe 2.18); “Ao observarem vossa conduta pura em temor” (1Pe 3.2);
“Que as mulheres se vistam com decência, modéstia e discrição” (1Tm 2.9).
Nesse aspecto, o cristão é como uma criancinha; a criancinha é simples diante
dos adultos, e seu coração é inclinado a ser tomado de temor e tremor.
O mesmo espírito dispõe o cristão a honrar todos os homens. “Honrai a
todos” (1Pe 2.17). O cristão humilde não se dispõe a honrar somente os santos
com sua conduta, mas também aos demais, em todos os modos que não
demonstrem aprovação dos pecados deles. Assim Abraão, o grande modelo dos
crentes, honrou os filhos de Hete: “Então, se levantou Abraão e se inclinou
diante do povo da terra, diante dos filhos de Hete” (Gn 23.7, ARA). Isso foi um
exemplo notável de comportamento humilde para com os que estavam fora de
Cristo e que Abraão sabia estarem condenados e, por isso não permitiria de
modo algum que seu servo escolhesse entre eles uma esposa para seu filho; e as
mulheres de Esaú, sendo filhas de Hete, eram um tormento para Isaque e
Rebeca. Paulo honrou a Festo: “Não estou louco, ó excelentíssimo Festo” (At
26.25). A humildade cristã dispõe os crentes a honrar não somente os maus que
estão fora da igreja visível, mas também os falsos irmãos e perseguidores. Assim
como Jacó, que, num estado excelente, depois de lutar com Deus a noite inteira e
de receber a bênção, honrou Esaú, seu irmão traidor e perseguidor: “Inclinou-se
ao chão sete vezes, até chegar perto de seu irmão” (Gn 33.3). Além disso,
chamou-o “senhor” e mandou que toda a sua família o honrasse do mesmo
modo.
Procurei, pois, empenhar-me em traçar o perfil do coração e da conduta de
uma pessoa regida pela humildade legitimamente oriunda da graça do modo
mais conforme às Escrituras que pude.
É de um coração como esse que fluem todas as afeições provindas
verdadeiramente da graça. As afeições cristãs são como o precioso óleo que
Maria derramou sobre a cabeça de Cristo e que encheu toda a casa com o suave
aroma. Esse óleo foi derramado de um vaso de alabastro; igualmente as afeições
da graça fluem de um coração puro para Cristo. O bálsamo foi derramado de um
vaso quebrado. Enquanto o vaso não foi quebrado, o bálsamo não pôde ser
derramado, nem difundir seu perfume; do mesmo modo, as afeições da graça se
derramam de um coração despedaçado. As afeições oriundas da graça também se
assemelham às de Maria Madalena (Lc 7, final), que, de um vaso de alabastro
quebrado, também derramou sobre Cristo um perfume caro e com ele ungiu os
pés de Jesus depois de havê-los lavado com suas lágrimas e enxugado com os
cabelos. Todas as afeições da graça, que são para Cristo suave aroma e enchem a
alma do cristão de celestial fragrância e dulçor, são afeições de um coração
quebrantado. O verdadeiro amor cristão, quer por Deus, quer pelos homens, é o
amor humilde de um coração quebrantado. Os desejos dos santos, por mais
zelosos e profundos que sejam, são desejos humildes. A esperança dos santos é
uma esperança humilde; e a alegria deles, mesmo quando indizível e cheia de
glória, é a alegria humilde de um coração quebrado; e deixam o cristão mais
pobre em espírito e mais semelhante a uma criancinha, mais disposto a se
comportar habitualmente com humildade.

VII. Outro ponto em que as afeições da graça se distinguem


das outras é o serem acompanhadas de mudança de
natureza
Todas as afeições da graça brotam, como já demonstrado, de um entendimento
espiritual em que se revelam à alma a excelência e a glória das coisas divinas.
Porém, todas as descobertas espirituais são transformadoras. Elas não operam
apenas alteração na atividade, sensação e estado atuais da alma, mas também
têm tanto poder e eficácia que provocam alteração na própria natureza da alma:
“Mas todos nós, com rosto sem véu, contemplando como em espelho a glória do
Senhor, somos transformados na mesma imagem de glória em glória, como pelo
Espírito do Senhor” (2Co 3.18, ARA). Um poder como esse é propriamente o
poder divino, peculiar ao Espírito do Senhor. Outro poder pode realizar
alterações no estado de alma e nos sentimentos atuais de um homem, mas só o
poder do Criador pode mudar sua natureza ou dar-lhe uma nova. Tampouco
nenhuma revelação ou iluminação, a não ser a divina e sobrenatural, terá esse
efeito sobrenatural. Esse, pois, é o efeito que todas essas revelações
verdadeiramente divinas têm. A alma é profundamente tangida por essas
descobertas, tangida a ponto de transformar-se.
Logo, é a essas afeições que a alma é sujeita na sua conversão. As
representações bíblicas da conversão indicam fortemente e simbolizam a
mudança de natureza por meio das ideias de “ser nascido de novo; vir a ser nova
criatura; ressuscitar dos mortos; ser transformado pela renovação da mente;
morrer para o pecado e viver para a justiça; despir-se do velho homem e revestir-
se do novo; ser enxertado num novo tronco; ter a semente divina plantada no
coração; ser feito participante da natureza divina” — entre outras
transformações.
Portanto, se não houver nenhuma mudança permanente e notável na pessoa
que acredita ter passado por uma obra de conversão, inúteis são suas pretensões
e imaginações, por mais que tenha sido afetada.29 A conversão é uma mudança
tremenda e total do homem, ela o faz virar as costas para o pecado e se voltar
para Deus. Antes de se converter, alguém pode conter-se para não pecar. Porém,
quando se converte, ele não só se contém em relação ao pecado, mas tem o
coração e a natureza afastados dele e voltados para a santidade, de modo que, daí
em diante se torna uma pessoa santa e inimiga do pecado. Se depois das elevadas
afeições de sua suposta conversão, por conseguinte, em breve tempo não houver
nesse indivíduo nenhuma alteração sensata e notável no que diz respeito às más
qualidades e aos maus hábitos outrora tão visíveis, e ele ainda permanecer
normalmente sob o jugo das mesmas disposições de antes e com os mesmos
traços de caráter, se continuar sendo egoísta, carnal, estúpido, perverso,
descortês e desonroso como sempre foi, tudo isso será prova muito maior contra
ele do que a mais brilhante história de experiências já contada poderia
testemunhar em seu favor. Porque em Jesus Cristo nem a circuncisão, nem a
incircuncisão, nem confissões sublimes nem modestas, nem histórias belas nem
imperfeitas, valem coisa alguma; o que vale em Cristo é ser nova criatura.
Se durante algum tempo o indivíduo mostrar uma grande alteração, mas esta
não durar, e afinal ele voltar declaradamente a ser tal qual era antes, conclui-se
que não houve mudança de natureza, porque natureza é coisa permanente. O
porco, sujo por natureza, pode lavar-se, mas sua natureza suína permanece; e a
pomba, de natureza pura, pode sujar-se, mas sua natureza pura permanece.30
Com efeito, é preciso levar em conta a índole natural, pois ela não é de todo
erradicada pela conversão. A pessoa talvez ainda seja inclinada a cair nos
pecados em que mais caía antes de se converter, por causa de sua constituição
natural. Ainda assim a conversão realizará notável mudança, mesmo em relação
a esses pecados. Conquanto a graça ainda imperfeita não erradique a má índole
natural, ela tem muito poder e eficácia sobre ele e pode corrigi-lo. A mudança
operada na conversão é total. A graça muda o indivíduo em tudo que nele há de
pecaminoso; ele se despe do velho homem e se reveste do novo homem; é
santificado por inteiro e se torna nova criatura; as coisas antigas se passaram e
tudo se fez novo; todos os pecados são mortificados, os pecados da índole
natural assim como os outros. Se antes da conversão alguém, pela índole natural,
era dado à lascívia, à embriaguez ou à maleficência, a graça transformadora
realizará nele enorme alteração quanto a essas inclinações malignas, de tal modo
que, apesar de ainda correr o risco de cair nesses pecados, estes já não terão
domínio sobre ele nem propriamente farão mais parte de seu caráter. O
verdadeiro arrependimento em alguns aspectos faz a pessoa se voltar contra sua
própria iniquidade, sobretudo contra aquilo em que ela mais desonrou a Deus.
Quem abandona todos os pecados, mas poupa o seu principal pecado, a
iniquidade a que é mais inclinado, é semelhante a Saul. Quando partiu em
campanha contra os amalequitas, inimigos de Deus, com a ordem rigorosa de
não poupar nenhum deles, mas, sim, matá-los todos, pequenos e grandes, Saul
destruiu o povo inteiro, mas poupou a vida do rei, chefe de todos eles.
Alguns tolamente defendem suas revelações e afeições. Alegam que, depois
que elas passaram, eles ficaram completamente sem vida nem sentido, sem nada
além do que tinham antes. Para esses, isso é prova de que a experiência que
tiveram era totalmente de Deus, e não deles, porque (dizem) quando Deus se vai,
tudo se vai: eles não conseguem ver nem sentir nada e não ficam melhores do
que estavam.
A pura verdade é que toda a graça e toda a bondade no coração dos santos
vêm tão somente de Deus, e os santos dependem completa e diretamente dele
para tê-las. Essas pessoas, porém, estão equivocadas quanto ao modo de Deus se
comunicar, ele mesmo e seu Espírito Santo, quando concede a graça salvadora à
alma. Ele dá seu Espírito para que este se una às faculdades da alma e a habite
como se fora um princípio natural, a fim de que a alma, sendo dotada da graça,
seja dotada de nova natureza; e natureza é permanente. Todas as ações da graça
procedem inteiramente de Cristo, mas essas ações não são de Cristo por serem
como se fossem algo vivo, que se move e se agita, ou algo sem vida que
permanece sem vida, mas, sim, por terem a vida que ele lhes transmite; assim
como, mediante o poder de Cristo, têm inerente a elas mesmas uma natureza
vital. Na alma em que se encontra a presença salvadora de Cristo, aí ele vive.
Não que ele tão somente viva fora dela, acionando-a com poder, mas vive dentro
dela, de modo que ela também é viva. A graça na alma procede de Cristo da
mesma maneira que a luz num espelho exposto aos raios solares procede do sol.
Essa ideia representa apenas em parte o modo de comunicação da graça à alma,
porque o espelho permanece tal como era antes, sua natureza não muda; ele
permanece sem luminosidade nenhuma como antes. A alma do santo, porém,
recebe a luz do sol da justiça de tal modo que sua natureza é transformada e ela
se torna luminosa. Não somente o sol brilha nos santos, mas também estes
passam a ser pequenos sóis, participantes da natureza da fonte de sua luz. Nesse
aspecto, o modo que recebem sua luz se assemelha mais ao das lâmpadas do
tabernáculo que ao do espelho. As lâmpadas do tabernáculo, embora acesas por
fogo do céu, elas mesmas se tornaram objetos luminosos e incandescentes. Os
santos não só bebem a água da vida, que flui da fonte original, mas também essa
água se torna neles uma fonte de água que flui para a vida eterna (Jo 4.14;
7.38,39). A graça se compara a uma semente plantada no solo que, não só se
aloja nele, mas também aí cria raízes e cresce, e também é um princípio
permanente de vida e natureza.
Assim como ocorre com as revelações e afeições espirituais dadas na
conversão, também ocorre com todas as iluminações e afeições desse tipo a que
as pessoas são sujeitas depois: todas elas são transformadoras. Elas têm poder e
energia divinos, como nas primeiras revelações, e ainda chegam ao fundo do
coração e afetam e alteram a própria natureza da alma na mesma proporção em
que são dadas. A transformação da natureza prossegue sendo realizada por elas
até o fim da vida, até chegar à perfeição na glória. Por conseguinte, o progresso
da obra da graça no coração dos santos é apresentado na Escritura como
conversão e renovação contínuas da natureza. Por isso, o apóstolo exorta os
cristãos de Roma, “amados de Deus, chamados para ser santos” e sujeitos da
misericórdia redentora de Deus, a se transformarem pela renovação de sua
mente: “Portanto, irmãos, exorto-vos pelas compaixões de Deus que apresenteis
o vosso corpo como sacrifício vivo [...] e não vos amoldeis ao esquema deste
mundo, mas sede transformados pela renovação da vossa mente” (Rm 12.1,2) —
compare-se com Romanos 1.7. Do mesmo modo, escrevendo aos santos e fiéis
em Cristo Jesus que estavam em Éfeso (Ef 1.1) e àqueles que antes estavam
mortos em transgressões e pecados, mas foram depois vivificados, ressuscitados
e assentados nas regiões celestiais em Cristo, e criados em Cristo Jesus para as
boas obras; àqueles que antes estavam longe, mas se aproximaram pelo sangue
de Cristo; àqueles que não eram mais estrangeiros e imigrantes, mas concidadãos
dos santos e membros da família de Deus; àqueles que foram edificados juntos
para morada de Deus no Espírito — ao escrever-lhes, o apóstolo lhes diz que não
cessa de orar por eles para que Deus lhes dê o espírito de sabedoria e revelação
no conhecimento de Cristo, para terem iluminados os olhos do coração a fim de
saberem e provarem a suprema grandeza do poder de Deus para com os crentes,
segundo a força da atuação do seu poder, que atuou em Cristo quando o
ressuscitou dos mortos e o fez assentar-se à sua destra nas regiões celestiais (Ef
1.16—2.22). Com isso, o apóstolo se refere à obra e ao poder glorioso de Deus
na conversão e renovação da alma, como a sequência do texto deixa bem claro.
Assim também o apóstolo exorta os mesmos indivíduos “a despir-se do velho
homem, que se corrompe por desejos enganosos, a serem renovados no modo de
pensar e a revestir-se do novo homem, criado para ser semelhante a Deus em
justiça e santidade provenientes da verdade” (Ef 4.22-24, NVI).
Algumas pessoas de vez em quando têm certo tipo de afeições elevadas que
depois que passam não deixam nenhum sinal de efeito permanente. Essas
afeições desaparecem de repente, de modo tal que, do auge da emoção e do
aparente arrebatamento, as pessoas imediatamente passam para um estado de
completo desânimo e de ausência de toda e qualquer percepção e atividade.
Certamente não costuma ser assim com as afeições sublimes da graça;31 elas
deixam no coração o doce sabor e o prazer das coisas divinas e dispõem mais
vigorosamente a alma para Deus e para a santidade. O rosto de Moisés não
brilhou apenas quando ele estava no monte em extraordinária comunhão com
Deus, mas também continuou brilhando quando ele desceu do monte. Quando os
homens ficam em extraordinária comunhão com Cristo, um efeito considerável
dessa comunhão permanece neles; vemos algo notável em sua disposição e
humor que, se observarmos e buscarmos a causa, descobriremos que isso
acontece porque eles estiveram com Jesus (At 4.13).

VIII.As afeições genuinamente oriundas da graça diferem das


falsas e ilusórias porque são acompanhadas do espírito
semelhante ao do cordeiro e da pomba e da índole de
Jesus Cristo. Em outras palavras, elas geram e promovem
espírito de amor, mansidão, tranquilidade, perdão e
misericórdia como o de Cristo.
A Escritura prova isso fartamente. Se julgarmos a natureza do cristianismo e o
espírito do evangelho pela Palavra de Deus, esse espírito é o que se pode chamar,
por excelência, espírito cristão. E pode ser considerado a disposição verdadeira e
característica do coração dos cristãos, que os distingue como tais. Quando os
discípulos de Cristo, por leviandade e fraqueza, falavam algo em desacordo com
esse espírito, Cristo lhes dizia que eles não sabiam de que espírito eram (Lc
9.55), o que dá a entender que esse espírito de que estou falando é o genuíno
espírito de sua religião e do seu reino. Todos os que são verdadeiramente
piedosos e discípulos autênticos de Cristo têm esse espírito; e não somente isso,
eles pertencem a esse espírito, este é o espírito que os tem e dirige, que é o
caráter próprio e verdadeiro deles. Isso fica claro pelo que diz o sábio (referindo-
se nitidamente a um espírito assim): “O sereno de espírito é homem de
entendimento” (Pv 17.27); e também pela descrição particular que Cristo faz das
qualidades e da índole dos verdadeiramente bem-aventurados, que obterão
misericórdia e são filhos e herdeiros de Deus: “Bem-aventurados os humildes,
pois herdarão a terra [...]; Bem-aventurados os misericordiosos, pois alcançarão
misericórdia [...]; Bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados filhos
de Deus” (Mt 5.5,7,9). Que esse espírito é o caráter especial dos eleitos de Deus
está registrado em Colossenses 3.12: “Então, como santos e amados eleitos de
Deus, revesti-vos de um coração cheio de compaixão, bondade, humildade,
mansidão e paciência, suportando e perdoando uns aos outros”. Além disso, o
apóstolo, falando da índole e da disposição que ele menciona como a
característica mais excelente e essencial do cristianismo, sem a qual ninguém é
cristão verdadeiro, e as mais gloriosas palavras e dons nada são (denominando
esse espírito como caridade [ou amor]), refere-se a ele assim: “O amor é
paciente; o amor é benigno. Não é invejoso; não se vangloria, não se orgulha,
não se porta com indecência, não busca os próprios interesses, não se enfurece,
não guarda ressentimento do mal” (1Co 13.4,5). O mesmo apóstolo, declarando
explicitamente em Gálatas 5 as características e os frutos da verdadeira graça
cristã, insiste acima de tudo no que diz respeito à índole e ao espírito de que
estou falando: “Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, paciência,
benignidade, bondade, fidelidade, amabilidade e domínio próprio” (22,23). O
apóstolo Tiago, referindo-se à verdadeira graça, ou sabedoria que vem do alto,
com o explícito objetivo de garantir que os de espírito contrário não se enganem
nem mintam contra a verdade, professando ser cristãos, apesar de não serem,
exorta: “Mas não vos orgulheis, nem mintais contra a verdade, se tendes inveja
amarga e sentimento ambicioso no coração. Essa não é a sabedoria que vem do
alto, mas é terrena, animal e demoníaca. Pois onde há inveja e sentimento
ambicioso, aí há confusão e todo tipo de práticas nocivas. Mas a sabedoria que
vem do alto é, em primeiro lugar, pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia
de misericórdia e de bons frutos” (Tg 3.14-17).
Tudo quanto é pertinente à santidade de coração pertence com efeito à
natureza do cristianismo verdadeiro e ao caráter dos cristãos, mas o espírito de
santidade que se manifesta em algumas graças particulares pode ser chamado
mais especificamente de espírito cristão, ou índole cristã. Algumas qualidades
atrativas e virtudes concordam mais particularmente com a natureza da
constituição do evangelho e da profissão de fé cristã, porque têm afinidade
especial com os atributos divinos que Deus manifestou e glorificou com mais
singularidade na obra de redenção em Jesus Cristo, o grande tema da revelação
cristã, além de afinidade específica com as virtudes tão admiravelmente
exercidas por Jesus Cristo para conosco nesse seu proceder e com o exemplo
bendito que ele assim nos deu; e também porque elas são particularmente
harmônicas com a especial inclinação e o propósito da obra da redenção, e com
os benefícios que desse modo recebemos, com a relação que ela institui entre nós
e Deus e entre todos nós (uns com os outros). Essas virtudes são, por exemplo, a
humildade, a mansidão, o amor, o perdão e a misericórdia. Tudo isso, portanto,
pertence ao caráter dos cristãos como tal.
Todas essas virtudes são mencionadas como o que é particularmente especial
no caráter do próprio Jesus Cristo, a notável cabeça da igreja cristã. São
mencionadas assim nas profecias do Antigo Testamento, como na citada em
Mateus 21.5: “Dizei à filha de Sião: Eis que o teu Rei vem a ti, humilde e
montado num jumento, num jumentinho, cria de animal de carga”. O próprio
Cristo também fala delas: “Aprendei de mim, que sou manso e humilde de
coração” (Mt 11.19). A mesma ideia transparece no nome pelo qual Cristo é
muitas vezes chamado na Escritura, isto é, o Cordeiro. E assim como essas
virtudes formam especialmente o caráter de Cristo, da mesma forma especial
formam o caráter dos cristãos. Os cristãos são feitos à semelhança de Cristo, e
não merece o nome de cristão quem não tiver essas virtudes predominantes em
seu caráter. O homem novo é renovado “à imagem daquele que o criou” (Cl
3.10). Todo cristão verdadeiro contempla como que em espelho a glória do
Senhor e é transformado na mesma imagem pelo seu Espírito (2Co 3.18). Todos
os eleitos são predestinados a se conformarem à imagem do Filho de Deus, para
que ele seja o primogênito de muitos irmãos (Rm 8.29). Assim como éramos
portadores da imagem do primeiro homem, que é terreno, também temos de
portar conosco a imagem do homem celestial; pois assim como é o homem
terreno, assim também são os da terra; e assim como é o homem celestial, assim
também são os do céu (1Co 15.47-49). Cristo é cheio da graça e todo cristão
recebe graça sobre graça da plenitude de Cristo, isto é, a graça dos cristãos
corresponde à graça de Cristo, numa correspondência semelhante à que existe
entre a cera e o selo; o caráter deles é semelhante ao caráter de Cristo: o mesmo
tipo de graça, o mesmo espírito e a mesma índole, as mesmas marcas que
pertencem ao caráter de Cristo também pertencem ao caráter dos cristãos. A
disposição em que consiste o caráter de Cristo é a mesma em que também
consiste o caráter de sua imagem. Os cristãos que brilham refletindo a luz do sol
da justiça brilham com o mesmo brilho, os mesmos raios brandos, suaves e
agradáveis. Essas lâmpadas do templo espiritual, acesas pelo fogo dos céus,
ardem com o mesmo tipo de chama. O ramo tem a mesma natureza do tronco e
da raiz, tem a mesma seiva e produz o mesmo tipo de fruto. Os membros do
corpo têm a mesma vida que a cabeça. Seria estranho se os cristãos não tivessem
a mesma natureza e o mesmo espírito de Jesus Cristo, uma vez que são sua carne
e seus ossos, um só espírito (1Co 6.17), e vivem de tal modo que não são mais
eles que vivem, mas Cristo que vive neles. O espírito cristão é a marca de Cristo,
que ele apõe às almas do seu povo; é seu selo na testa deles, selo que carrega a
imagem e o nome dele. Os cristãos são os seguidores de Cristo, e eles o seguem
porque são obedientes ao seu chamado: “Vinde a mim, todos os que estais
cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. [...] aprendei de mim, que sou
manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma” (Mt
11.28,29). O cristão segue Cristo, o Cordeiro: “São os que seguem o Cordeiro
onde quer que vá” (Ap 14.4). Os verdadeiros cristãos são como que revestidos
da natureza mansa, tranquila e amorosa de Cristo, pois todo aquele que está em
Cristo se revestiu de Cristo. Nesse aspecto, a igreja está vestida com o sol, não
somente por estar revestida da justiça imputada a Cristo, mas também por estar
adornada com as graças dele (Rm 13.14). Cristo, o grande Pastor, é ele próprio
um Cordeiro, e os crentes também são cordeiros; o rebanho todo são cordeiros:
“Apascenta os meus cordeiros” (Jo 21.15 ARC); “Eu vos envio como cordeiros
para o meio de lobos” (Lc 10.3). A redenção da igreja por meio de Cristo, que a
resgatou do poder do Diabo, foi tipificada na antiguidade por Davi livrando o
cordeiro da boca do leão e do urso.
Que esse tipo de virtude a que me referi é a própria natureza do espírito
cristão, ou do Espírito que opera em Cristo e em seus membros e na natureza
distintiva deles, é evidente por isto: a pomba é o símbolo, ou emblema, escolhido
por Deus para representá-lo. Os emblemas mais apropriados são os que
representam melhor o que há de característico e distintivo na coisa representada.
O Espírito que desceu sobre Cristo quando este foi ungido pelo Pai desceu sobre
ele na forma de pomba. A pomba é um símbolo notório de mansidão, inocência,
paz e amor. O mesmo Espírito que desceu sobre a Cabeça da igreja também
desce sobre seus membros. Deus enviou o Espírito de seu Filho ao coração deles
(Gl 4.6) e, “se alguém não tem o Espírito de Cristo, não pertence a Cristo” (Rm
8.9). Há somente um Espírito para todo o corpo místico, cabeça e membros (1Co
6.17; Ef 4.4). Cristo sopra seu próprio Espírito sobre seus discípulos (Jo 20.22).
Assim como Cristo foi ungido com o Espírito Santo, que desceu sobre ele na
forma de pomba, assim também os cristãos recebem a unção do Santo (1Jo
2.20,27) e são ungidos com o mesmo óleo; o mesmo óleo precioso que é
derramado sobre a cabeça e desce até a orla das vestes; nos dois é o espírito de
paz e amor: “Oh! Quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união! É
como o óleo precioso sobre a cabeça, que desce sobre a barba, a barba de Arão, e
que desce à orla das suas vestes” (Sl 133.1,2 ARC). O óleo nas vestes de Arão
tinha o mesmo aroma suave e inimitável que o de sua cabeça. O aroma das
mesmas doces e suaves especiarias, as afeições cristãs e a conduta cristã, não são
nada mais que o fluir do aroma do suave bálsamo de Cristo. Porque a igreja tem
índole e disposição semelhantes aos da pomba, afirma-se que ela tem olhos de
pomba: “Como és bela, ó minha amada! Ah, como és bela! Os teus olhos são
como pombas” (Ct 1.15); “Como és linda, amada minha! Ah, como és linda! Os
teus olhos são como pombas por trás do teu véu” (4.1). O mesmo se diz de
Cristo: “Os seus olhos são como pombas” (5.12). E a igreja é muitas vezes
comparada a uma pomba: “Pomba minha, que andas pelas fendas da rocha”
(2.14); “Abre-me a porta, minha irmã, amada minha, minha pomba perfeita”
(5.2); “Mas única é a minha pomba perfeita” (6.9); “Quando estais descansando
no curral, as asas da pomba estão cobertas de prata, e suas penas, de ouro
brilhante” (Sl 68.13); “Não entregues a vida da tua pomba aos animais
selvagens” (74.19). A pomba que Noé soltou e que não encontrou repouso para
os pés enquanto não retornou à arca era um tipo do verdadeiro santo.
Tanto a mansidão é o caráter dos santos que os adjetivos “manso (ou
humilde)” e “piedoso” são empregados como sinônimos na Escritura. Por
exemplo, em Salmos 37.10,11, o ímpio e o manso aparecem em oposição: “Mais
um pouco de tempo, e já não existirá o ímpio; procurarás o seu lugar e não o
acharás. Mas os mansos herdarão a terra” (Sl 37.10,11, ARA). O mesmo ocorre
em Salmos 147.6: “O SENHOR ampara os humildes e rebaixa os perversos ao
nível do chão”.
Sem dúvida é por isso que Cristo descreve todos os seus discípulos, todos os
herdeiros do céu, como criancinhas, pequeninos e filhinhos: “Deixai os
pequeninos, não os embaraceis de vir a mim, porque dos tais é o reino dos céus”
(Mt 19.14, ARA). “E aquele que der até mesmo um copo de água fresca a um
destes pequeninos, porque é meu discípulo, em verdade vos digo que de modo
algum perderá a sua recompensa” (Mt 10.42); “Mas a quem fizer tropeçar um
destes pequeninos...” (Mt 18.6); “Atenção! Não desprezeis nenhum destes
pequeninos” (18.10); “Não é da vontade de vosso Pai, que está no céu, que um
só destes pequeninos pereça” (18.14); “Filhinhos, estarei convosco apenas mais
um pouco” (Jo 13.33). As criancinhas são inocentes e inofensivas; não fazem
grande mal no mundo e ninguém precisa ter medo delas; não são perigosas e sua
ira não dura muito; não guardam ressentimentos pelas ofensas sofridas nem
cultivam maldade profunda e arraigada. Assim, quanto à maldade, os cristãos
são criancinhas (1Co 14.20). As criancinhas não são enganadoras nem ardilosas,
mas simples; não são versadas nas artes da dissimulação e do engano e são
estranhas a todo disfarce e artificialidade. São dóceis e flexíveis, não
voluntariosas e obstinadas; não confiam em seu próprio entendimento, mas
confiam na instrução dos pais e de outras pessoas com mais entendimento. Eis,
portanto, um emblema adequado e vivo dos seguidores do Cordeiro. As pessoas
adultas serem como criancinhas, portanto, não é somente algo muito
recomendável, aprovado pelos cristãos, almejado por eles e alcançado por alguns
de extraordinária proficiência, mas também é o caráter universal do cristão e
absolutamente necessário para a entrada no reino do céu. “Em verdade vos digo
que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, nunca entrareis
no reino do céu” (Mt 18.3); “Em verdade vos digo que qualquer pessoa que não
receber o reino de Deus como uma criança, jamais entrará nele” (Mc 10.15).
Aqui, porém, alguns estarão prontos a contestar: “Acaso não há fortaleza
moral cristã, ousadia por Cristo, não há na guerra cristã bons soldados, que
investem brava e intrepidamente contra os inimigos de Cristo e de seu povo?
Respondo que sem dúvida tudo isso existe. A vida cristã inteira é comparada,
com muita propriedade, a uma guerra. Os cristãos mais relevantes são os
melhores soldados, dotados do maior grau de fortaleza cristã. E é dever do povo
de Deus ser perseverante e vigoroso na oposição aos propósitos e meios dos que
procuram derrubar o reino de Cristo e a importância da religião. Contudo, muita
gente parece estar bastante enganada a respeito da natureza da fortaleza cristã.
Trata-se de coisa completamente diferente de fúria brutal ou da ousadia de
animais de rapina. A verdadeira fortaleza cristã consiste no fortalecimento da
mente, por meio da graça, praticado em duas ações: dominar e suprimir o mal e
as paixões e as afeições desregradas da mente; e seguindo e exercendo com
liberdade e firmeza as boas afeições e disposições, sem se deixar deter pelo
medo pecaminoso nem pela oposição dos inimigos. Todavia, as paixões
refreadas e sujeitadas no exercício dessa fortitude cristã são as mesmas exercidas
vigorosa e impetuosamente na falsa intrepidez por Cristo. Por sua vez, as
afeições exercidas com vigor na verdadeira fortaleza são as afeições santas
cristãs, diametralmente opostas àquelas. Embora a força cristã se manifeste em
rechaçar e neutralizar os inimigos exteriores a nós, ela se manifesta muito mais
em rechaçar e eliminar os inimigos de nosso interior, porque estes são os nossos
piores inimigos, os mais aguerridos e mais fortes, e têm considerável vantagem
sobre nós. A força do bom saldado de Jesus Cristo se manifesta em sua melhor
forma quando ele se mantém perseverante na santa calma, mansidão, suavidade
e benevolência da mente em meio a todas as tempestades, ofensas, condutas
estranhas e atos e acontecimentos inesperados e assombrosos deste mundo
desarrazoado e mau. A Escritura parece declarar que a verdadeira fortaleza
consiste sobretudo no que diz Provérbios: “Quem tem paciência é melhor que o
guerreiro; quem tem domínio próprio é melhor que aquele que conquista uma
cidade” (Pv 16.32).
O meio mais direto e mais garantido para bem entender o que é a santa
fortaleza na luta contra os inimigos de Deus é olhar para o Capitão de todas as
tropas do exército de Deus, o nosso exemplo e excelente líder, e observar como
se manifestaram sua fortaleza e seu valor no seu principal conflito, na ocasião da
maior batalha jamais travada contra esses inimigos, quando ele combateu contra
eles sozinho, abandonado de todos os seus, e exerceu sua fortaleza no grau mais
alto que já exercera e obteve a gloriosa vitória que será comemorada nos
louvores e triunfo de todos os exércitos celestiais por toda a eternidade: Jesus
Cristo no momento de seus últimos sofrimentos, quando seus inimigos da terra e
do inferno lançaram contra ele o mais violento ataque, rodeando-o de todos os
lados como leões rugindo prontos para dilacerar. É inquestionável que aqui
vemos na mais alta perfeição e no maior brilho a fortaleza de um santo guerreiro
e paladino na causa de Deus, um exemplo adequado a ser imitado pelos soldados
sob o comando do Capitão. Como ele demonstrou sua santa intrepidez e seu
valor naquele momento? Não foi no exercício de paixões impetuosas, não em
discursos inflamados e furiosos, em declamações veementes e gritos de denúncia
contra a intolerável maldade dos adversários, retribuindo-lhes o seu mal na
mesma medida. Não, mas em manter-se calado enquanto era afligido e oprimido,
em deixar-se conduzir como um cordeiro para o matadouro, sem abrir a boca,
mudo, como a ovelha perante o tosquiador, mas orando para que o Pai perdoasse
a seus cruéis inimigos, pois estes não sabiam o que estavam fazendo; em não
derramar o sangue de outro, mas em derramar o seu próprio sangue com
paciência e amor que a tudo vencem. Com efeito, um de seus discípulos se
adiantou com pretensiosa audácia em defesa de Cristo e, cheio de coragem, logo
declarou que preferia antes morrer com Cristo a negá-lo, começou a cercar o
adversário com uma espada, mas Cristo o repreendeu com mansidão e curou o
ferimento que o discípulo provocara. A paciência, a mansidão, o amor e a
misericórdia de Cristo nunca se manifestaram com tanta glória quanto naquele
momento. Ele jamais se pareceu tanto com um cordeiro nem jamais demonstrou
tanto o espírito semelhante ao das pombas quanto naquela ocasião. Logo,
quando virmos algum dos seguidores de Cristo em meio à oposição mais
violenta, mais irracional e mais maligna da parte de seus inimigos e inimigos de
Deus, conservando o silêncio e a mansidão de um cordeiro, e a natureza
inofensiva, o amor e a doçura de uma pomba, mesmo debaixo de toda essa
tentação, poderemos considerar que estamos diante de um bom soldado de Jesus
Cristo.
Quando as pessoas são cruéis e furiosas e põem em prática suas paixões
mais amargas e mais cortantes, isso demonstra fraqueza ao invés de força e
fortaleza. “Irmãos, não vos pude falar como a pessoas espirituais, mas como a
pessoas carnais, como a crianças em Cristo [...] porque ainda sois carnais. Uma
vez que há inveja e discórdias entre vós, por acaso não estais sendo carnais,
vivendo segundo padrões puramente humanos?” (1Co 3).
A pretensa intrepidez em favor de Cristo não nasce de nenhum outro
princípio senão o orgulho. Alguém pode se apressar a expor-se à desaprovação
do mundo e até provocar-lhe irritação por puro orgulho, porque é da natureza do
orgulho espiritual fazer as pessoas buscarem distinção e singularidade. Por isso,
elas costumam com tanta frequência declarar guerra contra aqueles a quem
chamam carnais, a fim de serem mais exaltadas entre os de seu próprio partido.
A verdadeira intrepidez por Cristo está presente em todas as ocasiões, vence tudo
e eleva o indivíduo acima do descontentamento dos amigos e dos inimigos, de
modo que ele prefere antes abandonar todos a abandonar Cristo, e ofender todos,
e ser recriminado por todos, a ofender Cristo. E esse dever moral de uma pessoa
estar disposta a ser desprezada pelos de seu próprio grupo e a ser considerada a
menos digna de respeito entre eles é uma prova muito mais adequada de sua
ousadia por Cristo do que a sua prontidão para se expor às recriminações dos
adversários. O apóstolo não buscava glória entre os pagãos, nem entre os judeus,
tampouco entre os cristãos, como ele declara em 1Tessalonicenses 2.6.32
Intrépido por Cristo é quem tem força moral cristã bastante para confessar
abertamente seu pecado, quando tiver cometido pecado que exija confissão
pública, e se dispõe a cair de joelhos, por assim dizer, perante seus opositores.
Essas atitudes são provas muito mais claras da ousadia santa do que a
confrontação resoluta e inflamada dos adversários.
Assim como muitos se enganam acerca da natureza da verdadeira intrepidez
por Cristo, assim também se enganam a respeito do zelo cristão. O zelo é de fato
uma chama, mas uma chama branda, ou melhor, é o calor e o fervor de uma
chama branda. O zelo é o calor do amor divino, ou caridade cristã, que é a
virtude mais suave e mais benevolente que pode existir no coração de um
homem ou de um anjo. O zelo é o fervor dessa chama à medida que, com vigor e
ardor, ele vai na direção do bem, seu objeto, ansiando por ele e buscando-o. Por
conseguinte, opõe-se ao mal, que lhe é contrário e o atrapalha. De fato, a
oposição, oposição vigorosa na verdade, faz parte do zelo, ou melhor, a oposição
acompanha o zelo; mas trata-se de uma oposição a fatos, não a pessoas. A
amargura contra esta ou aquela pessoa não faz parte do zelo, antes lhe é
contrária; quanto mais fervoroso o zelo verdadeiro, mais sublime ele é, mais
afasta as pessoas dessa amargura e mais as enche de amor, tanto pelos bons
quanto pelos maus. Do que há pouco se observou, depreende-se que tal zelo, em
sua verdadeira natureza e essência, não é outra coisa senão o fervor do espírito
de amor cristão. Quanto a sua oposição a coisas, trata-se em primeiro lugar e
sobretudo de oposição contra o mal existente no próprio indivíduo zeloso,
oposição que se manifesta contra os inimigos de Deus e da santidade que habita
o coração zeloso (uma vez que estes são os mais visíveis e que mais lhe dizem
respeito), mas também secundariamente contra os pecados dos outros. Portanto,
não há nada no verdadeiro zelo cristão que seja contrário ao espírito de
mansidão, brandura e amor — o espírito de uma criancinha, de um cordeiro ou
de uma pomba, de que falamos antes —; pelo contrário, ele é completamente
concorde com esse espírito e costuma promovê-lo.
Contudo, para dizer algo de particular acerca desse espírito cristão que
venho observando e que se exerce nestas três virtudes principais, a saber, o
perdão, o amor e a misericórdia, eu diria que a Escritura é muito clara e explícita
no que se refere à absoluta necessidade de cada uma dessas três virtudes como
componentes do caráter e da índole de todo cristão. É assim como um espírito de
perdão, ou a disposição para relevar e perdoar ofensas.
Cristo nos dá tanto provas positivas quanto negativas do espírito de perdão e
nos ensina claramente que, se temos esse espírito, é sinal de que estamos nós
mesmos em estado de perdão e favor, e que, se não temos tal espírito, não
estamos perdoados por Deus. Além disso, temos de ter especial cuidado e
atenção quanto a isso e sempre ter em mente o que diz Mateus 6.12,14-15:
“Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como também temos perdoado aos nossos
devedores [...]. Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também
vosso Pai celestial vos perdoará; se, porém, não perdoardes aos homens,
tampouco vosso Pai perdoará vossas ofensas”. Cristo diz o mesmo em outra
ocasião, em Marcos 11.25,26, e repete em Mateus 18.22 até o final do capítulo,
na parábola do servo que devia dez mil talentos a seu senhor, mas não estava
disposto a perdoar a um colega a dívida de cem denários e, por isso, foi entregue
aos carrascos. Na aplicação da parábola, Cristo afirma: “Assim também vos fará
meu Pai celestial, se cada um de vós não perdoar de coração ao seu irmão” (Mt
18.35).
A Escritura é clara e pródiga quando mostra que todos os santos verdadeiros
têm índole amorosa, benevolente e beneficente. Sem essa índole, ensina o
apóstolo, podemos falar a língua dos homens e a dos anjos, mas seremos como o
bronze que soa, ou o címbalo que retine; e ainda que tivéssemos o dom de
profecia e entendêssemos todos os mistérios e tivéssemos todo o conhecimento,
sem esse espírito nada seríamos. Nenhuma outra virtude ou disposição da mente
é tão mencionada e reiterada com tanta veemência entre os sinais estabelecidos
no Novo Testamento pelos quais os cristãos podem ser conhecidos. Muitas vezes
é dado como sinal particularmente característico dos discípulos de Cristo,
mediante o qual todos podem conhecê-los, e eles próprios também podem
conhecer-se uns aos outros; e é muitas vezes apresentado como sinal negativo ou
positivo. Cristo chama de a lei do amor, por excelência, o seu mandamento em
João 13.34: “Eu vos dou um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros;
assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros”; e, em João
15.12: “O meu mandamento é este: Amai-vos uns aos outros, assim como eu vos
amei”; e no v. 17: “Isto vos ordeno: Amai-vos uns aos outros”; em 13.35: “Nisto
todos saberão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros”. E ainda,
em João 14.21 (referindo-se especialmente ao que chama de seu mandamento):
“Aquele que tem os meus mandamentos e a eles obedece, esse é o que me ama”.
O discípulo amado, que tinha em tão larga medida essa mesma índole branda,
insiste reiteradamente nisso em suas epístolas. Nenhum outro apóstolo faz tanta
questão de declarar os sinais expressos da graça com os quais os professantes da
fé possam provar-se a si mesmos; entre esses sinais, não há nenhum outro em
que ele insista tanto quanto no espírito do amor cristão e na prática condizente
com tal espírito: “Aquele que diz estar na luz, mas odeia seu irmão, até agora
está nas trevas. Aquele que ama seu irmão permanece na luz, e nele não há
tropeço” (1Jo 2.9,10); “Nós sabemos que já passamos da morte para a vida,
porque amamos os irmãos. Quem não ama permanece na morte” (3.14);
“Filhinhos, não amemos de palavra, nem de boca, mas em ações e em verdade.
Nisto conheceremos que somos da verdade e tranquilizaremos nosso coração
diante dele” (3.18,19); “Ora, seu mandamento é este: que [...] amemos uns aos
outros [...] Quem guarda seus mandamentos permanece em Deus, e Deus nele. E
nisto conhecemos que ele permanece em nós: pelo Espírito que nos tem dado”
(3.23,24); “Amados, amemos uns aos outros, porque o amor é de Deus, e todo
aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não
conhece a Deus, porque Deus é amor” (4.7,8); “Ninguém jamais viu a Deus; se
amamos uns aos outros, Deus permanece em nós, e seu amor é em nós
aperfeiçoado. Assim, sabemos que permanecemos nele, e ele em nós, por ele nos
haver dado do seu Espírito” (4.12,13); “Deus é amor; quem permanece no amor
permanece em Deus, e Deus nele” (4.16); “Se alguém diz: Eu amo a Deus, e
odeia seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama seu irmão, a quem viu, não
pode amar a Deus, a quem não viu” (4.20).
E a Escritura é o mais clara possível ao afirmar que ninguém é
verdadeiramente santo se não tiver o caráter disposto a se compadecer dos
sofrimentos de seus semelhantes pobres, indigentes e aflitos e a aliviá-los: “O
justo se compadece e dá” (Sl 37.21); “Ele é sempre generoso e empresta”
(37.26); “Bom é o homem que se compadece e empresta” (112.5); “Distribuiu
livremente aos necessitados” (112.9); “Quem oprime o pobre insulta seu Criador,
mas dá-lhe honra quem se compadece do necessitado” (Pv 14.31); “O justo dá
sem reter” (21.26); “Julgou a causa do necessitado e do pobre; e as coisas iam
bem. Por acaso não é isso o que significa conhecer-me?, diz o SENHOR” (Jr
22.16); “A religião pura e imaculada diante do nosso Deus e Pai é esta: visitar os
órfãos e as viúvas nas suas dificuldades” (Tg 1.27); “Pois quero misericórdia e
não sacrifícios; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos” (Os
6.6); “Bem-aventurados os misericordiosos, pois alcançarão misericórdia” (Mt
5.7); “Não digo isso como quem dá ordens, mas para provar a sinceridade de
vosso amor, mediante a comparação com a dedicação de outros” (2Co 8.8.);
“Porque o juízo será sem misericórdia para quem não usou de misericórdia [...]
Meus irmãos, que vantagem há se alguém disser que tem fé e não tiver obras?
Essa fé poderá salvá-lo? Se um irmão ou irmã estiver necessitado de roupas e do
alimento de cada dia, e algum de vós lhe disser: Ide em paz, aquecei-vos e
saciai-vos, e não lhes derdes as coisas necessárias para o corpo, que vantagem há
nisso?” (Tg 2.13-16); “Quem, pois, tiver bens do mundo e, vendo seu irmão em
necessidade, fechar-lhe o coração, como o amor de Deus pode permanecer
nele?” (1Jo 3.17). Na descrição que nos dá do Dia do Juízo em Mateus 25 (que é
a mais detalhada de toda a Bíblia), Cristo afirma que, naquele dia, os homens
serão julgados conforme forem achados com o espírito e a prática da
misericórdia ou sem esse espírito. O propósito de Cristo ao fazer essa descrição
do processo daquele dia é claramente incutir em todos os seus seguidores o
entendimento de que não haverá nenhuma esperança de ser aceito por ele
naquele dia para quem não tem esse espírito e essa prática. Portanto, devemos
ser tomados dessa ideia. Na Escritura, percebemos que “justo” e “compassivo”
são empregados como sinônimos: “Perece o justo, e não há quem considere isso
em seu coração, e os homens compassivos são recolhidos, sem que alguém
considere que o justo é levado antes do mal” (Is 57.1, ARC).
Assim, percebemos quanto são claras e abundantes as evidências da
Escritura de que os verdadeiramente cheios da graça estão sob o governo do
espírito de Jesus Cristo, semelhante ao da pomba e ao do cordeiro; e de que essa
é essencial e eminentemente a natureza da graça salvadora do evangelho e o
próprio espírito do cristianismo verdadeiro. Podemos, assim, definir sem medo
de errar que todos as afeições verdadeiramente cristãs são acompanhadas desse
espírito e que essa é a inclinação natural do temor e da esperança, da tristeza e da
alegria, da confiança e do zelo do verdadeiro cristão.
Que ninguém me compreenda mal, achando que os verdadeiros cristãos não
têm nenhum resquício do espírito contrário e jamais possam, em caso algum, ser
culpados de alguma conduta incompatível com o espírito de santidade. Isto,
porém, eu afirmo, e continuarei afirmando enquanto não vier a negar que a
Bíblia tem algum valor: nos cristãos, tudo que pertence ao verdadeiro
cristianismo tem essa inclinação e assim funciona; e não há na face da terra
nenhum cristão verdadeiro que não esteja sob o poder prevalecente desse
espírito, que não receba dele o nome que o distingue e que não o tenha, de modo
verdadeiro e justo, como centro do seu caráter. Por isso, nem os ministros nem
qualquer outra pessoa têm mandado de Cristo para estimular pessoas de caráter e
comportamento contrários a pensar que são convertidas só porque relatam uma
bela história de iluminações e revelações. Se fizerem isso, estarão contrapondo a
sabedoria deles próprios à de Cristo e julgando contrariamente à norma pela qual
Cristo declarou que todos os homens devem conhecer seus discípulos. Alguns
identificam a tal ponto a religião com certas iluminações e impressões
transitórias (sobretudo se estas seguirem determinado método e ordem) e do
mesmo modo a dissociam do espírito e da índole dos crentes, que chegam a
deformar completamente a religião e criar uma noção de cristianismo muito
diferente da que é descrita nas Escrituras. As Escrituras em nenhuma parte
reconhecem como cristão verdadeiro quem tem espírito sórdido, avarento,
egoísta, iracundo e contencioso. Não se pode inventar absurdo maior do que um
cristão verdadeiro mal-humorado, duro, fechado, arrogante e rancoroso. Temos
de aprender a trazer os homens para as normas ao invés de trazer as normas para
os homens e com isso afrouxar e esticar a Palavra de Deus para amoldá-la a nós
e a alguns de nossos semelhantes e acabar por deixá-la sem efeito nenhum.
É verdade que se há de fazer concessões à índole natural das pessoas quanto
a isso e ainda outras coisas, mas não concessões que permitam que antigos lobos
e serpentes se declarem agora convertidos sem nenhuma mudança notável de
espírito e de mentalidade. A mudança operada pela conversão verdadeira
costuma ser mais notável e manifesta em relação àquele pecado mais hediondo
de que a pessoa antes era culpada. A graça não só costuma refrear e mortificar de
modo excelente pecados como a bebedeira e a lascívia, mas também refreia e
mortifica os pecados contrários ao espírito sobre o qual até agora falamos. Com
efeito, a Escritura mostra que a mudança operada pela graça do evangelho se
manifesta especialmente na alteração desse último: “O lobo habitará com o
cordeiro, e o leopardo se deitará com o cabrito. O bezerro, o leão e o animal de
engorda viverão juntos; e um menino pequeno os conduzirá. A vaca e a ursa
pastarão juntas, e as suas crias se deitarão juntas; e o leão comerá palha como o
boi. A criança de peito brincará sobre a toca da cobra, e a desmamada porá a
mão na cova da víbora. Não se fará mal nem dano algum em todo o meu santo
monte, porque a terra se encherá do conhecimento do SENHOR, como as águas
cobrem o mar” (Is 11.6-9). E o texto de Isaías 65.25 tem a mesma mensagem.
Por conseguinte, vemos que nos primeiros tempos da igreja cristã os convertidos
mudavam drasticamente nesse aspecto: “Porque antes também éramos
insensatos, desobedientes, desencaminhados, servíamos a várias paixões e
prazeres, vivíamos na maldade e na inveja, éramos rancorosos e odiávamos uns
aos outros. Mas quando apareceu a bondade de Deus, nosso Salvador, e o seu
amor para com os homens [...], ele nos salvou mediante o lavar da regeneração e
da renovação realizadas pelo Espírito Santo” (Tt 3.3ss.). E “nelas também
andastes no passado, quando ainda vivíeis nessas coisas; mas, agora, livrai-vos
de tudo isto: raiva, ódio, maldade, difamação, palavras indecentes do falar” (Cl
3.7,8).

IX. As afeições da graça abrandam o coração e são


acompanhadas da ternura de espírito cristã
As falsas afeições, por mais que as pessoas pareçam derreter-se por elas quando
são novas, no final costumam endurecer o coração. Podem criar a disposição
para alguns tipos de paixões, como as que implicam a busca dos próprios
interesses, a autoexaltação e a oposição aos outros. As falsas afeições, com a
ilusão que as acompanha, costumam enfim emparvecer a mente e fechá-la para
as afeições constituídas de ternura de coração. Seu efeito derradeiro é tornar as
pessoas, no estado mental que nelas se estabeleceu, menos sensíveis a seus
pecados passados e presentes; menos conscientes e despertas em relação a seus
pecados futuros; menos tocadas pelos alertas e avisos da Palavra de Deus ou
pelos castigos que ele, em sua providência, lhes aplica; mais descuidadas de seu
estado de alma e de seus atos e hábitos de comportamento; menos prontas a
discernir o que é pecado; e menos temerosas da aparência do mal do que eram
quando lhes sobreveio o despertar para a lei de Deus e o temor do inferno.
Depois de terem tais e tais impressões e afeições, essas pessoas agora têm-se em
alta estima e sentem-se em segurança; com muito mais facilidade do que antes,
costumam negligenciar os deveres que lhes parecem pesados e inconvenientes;
são muito mais lentas e parciais na obediência a mandamentos difíceis; não se
sentem tão alarmadas com a manifestação de seus defeitos e transgressões; têm
coragem de relaxar na labuta, no escrúpulo e na perfeição de sua conduta; cedem
mais facilmente às tentações e ao clamor das paixões; e têm pouco cuidado com
a conduta quando entram na santa presença de Deus por ocasião do culto privado
ou público. Pode até ser que antes, convencidas pela lei, elas se hajam esforçado
na religião e negado a si próprias muitas coisas; mas agora que se creem fora de
perigo em relação ao inferno, tiram dos ombros o fardo da cruz, poupam-se dos
deveres difíceis e se entregam mais ao prazer de sua comodidade e de suas
paixões.
Tais pessoas, em vez de receberem Cristo como aquele que as salva do
pecado, confiam nele como aquele que salva seus pecados. Em vez de correrem
para ele como refúgio contra os inimigos espirituais, usam-no como defesa e
fortalecimento de seus inimigos espirituais contra Deus. Fazem de Cristo o
ministro do pecado, chefe de gabinete e vice-regente do Diabo, para fortalecer os
interesses deste e entronizá-lo acima de todas as coisas do mundo contra Jeová;
assim podem pecar contra Deus com bom ânimo e sem medo, sentindo-se
imunes às restrições impostas pelos seus mais solenes avisos e pelas mais
terríveis ameaças. Confiam em Cristo para lhes garantir que desfrutem
tranquilamente seus pecados, para ser o escudo que os defende da indignação de
Deus; ao mesmo tempo aproximam-se dele, perto de seu seio, o lugar reservado
aos filhos de Deus, a fim de lutar contra ele com as armas mortais escondidas
sob as vestes.33 No entanto, alguns desses fazem ao mesmo tempo exaltadas
declarações de amor a Deus, da garantia de seu favor e da enorme alegria de
provar da doçura do seu amor.
Confiam em Cristo à maneira daqueles de quem fala o apóstolo Judas, que se
infiltraram entre os santos sem serem notados, mas eram na verdade ímpios que
mudaram a graça de Deus em libertinagem (Jd 4). São aqueles que confiam na
justiça própria; e porque Deus prometeu que os justos certamente viverão e serão
salvos, sentem-se seguros e ousados para cometer iniquidade, como aquele a
quem Deus ameaça em Ezequiel 33.13: “Quando eu disser ao justo que
certamente viverá, e ele, confiando na sua justiça, praticar maldade, nenhuma
das suas obras de justiça será lembrada; mas morrerá na maldade que praticou”.
As afeições da graça têm efeito completamente contrário. Elas transformam
o coração de pedra cada vez mais em coração de carne. O amor e a esperança
santos são princípios muito mais eficientes do que o medo servil do inferno para
abrandar e amolecer o coração, enchê-lo de medo do pecado e de tudo quanto
desagrada e ofende a Deus e engajá-lo na vigilância, no cuidado e no rigor. As
afeições da graça, como antes se observou, fluem de um coração contrito ou
(segundo o significado original dessa palavra) de um coração ferido — ferido e
quebrantado pela santa tristeza, que torna o coração tão sensível quanto a carne
ferida é sensível à dor. A santa tristeza é muito mais poderosa para sensibilizar o
coração que a tristeza meramente legalista, nascida de princípios egoístas.
A sensibilidade do coração do verdadeiro cristão é comparada por nosso
Salvador de um modo muito simples e claro quando ele compara o crente
verdadeiro a uma criancinha. A carne da criancinha é muito sensível, assim
como é o coração do nascido de novo em Cristo. A cura da lepra de Naamã na
lavagem no rio Jordão representa esse novo nascimento e é sem dúvida um tipo
da renovação da alma pela lavagem no banho da regeneração. A passagem de
2Reis 5.14 relata: “Então ele desceu e mergulhou no Jordão sete vezes, conforme
a palavra do homem de Deus; e a sua pele tornou-se como a pele de um menino,
e ficou purificado”. Não só a pele do menino é macia e suave, mas também a sua
mente é terna e mansa. A criancinha tem o coração facilmente afetado, formado
e moldado, assim como o cristão nas coisas espirituais. A criancinha costuma ter
compaixão, chorar com os que choram, e não suporta ver outra pessoa sofrer,
assim também é com o cristão (Jo 11.35; Rm 12.15; 1Co 12.26). A criancinha é
facilmente convencida pela bondade, assim também o cristão. Na presença de
males temporais, a criancinha sofre com facilidade, seu coração se derrete, e ela
chora, assim como o coração do cristão também é sensível ao mal do pecado. A
criancinha facilmente sente medo diante de males externos ou de qualquer coisa
que a ameace: assim o cristão se alarma com a aparência do mal moral e de
qualquer coisa que ameace a integridade da sua alma. A criancinha, quando se vê
diante de inimigos ou de um animal feroz, não confia em sua própria força, mas
corre para seus pais em busca de refúgio; assim também o santo não confia em si
ao enfrentar seus inimigos espirituais, mas corre para Cristo. A criancinha em
geral suspeita do mal em lugares perigosos, tem medo do escuro, tem medo
quando fica sozinha ou quando está longe de casa; assim também o santo
costuma suspeitar de seus males espirituais, ter zelo de si, costuma ficar
apavorado quando não consegue enxergar o caminho à sua frente e tem medo de
ficar sozinho e de ficar longe de Deus — “Feliz é o homem que sempre teme o
SENHOR; mas o que endurece o coração virá a cair em desgraça” (Pv 28.14). A
criancinha teme os superiores, e tem medo da ira deles, do cenho sombrio e das
ameaças deles, e assim é o verdadeiro santo com respeito a Deus: “Tremo de
temor por ti e tenho medo dos teus juízos” (Sl 119.120); “Mas darei atenção a
este: ao humilde e contrito de espírito, que treme diante da minha palavra” (Is
66.2); “Ouvi a palavra do SENHOR, vós que tremeis diante da sua palavra” (66.5);
“Então os que tremiam diante das palavras do Deus de Israel por causa da
transgressão dos exilados se reuniram a mim” (Ed 9.4); “Conforme o conselho
do meu Senhor e dos que tremem diante dos mandamentos do nosso Deus”
(10.3). A criancinha se aproxima dos superiores cheia de temor, reverência e
admiração; assim se aproximam os santos de Deus com santo temor e reverência
— “A majestade de Deus não os intimidará? E não cairá sobre vós o seu terror?”
(Jó 13.11). O santo temor tanto é a natureza da verdadeira piedade que o nome
pelo qual esta é mais chamada na Escritura é “temor de Deus”.
Portanto, as afeições da graça não costumam deixar os homens audaciosos,
despudorados, ruidosos e fanfarrões, mas, sim, fazem-nos falar com tremor (Os
13.1: “Quando Efraim falava com tremor, era exaltado em Israel; mas, quando se
tornou culpado por causa de Baal, morreu” (KJV). As afeições da graça levam
os homens a se revestir de uma espécie de santo temor em todo o seu trato com
Deus e com os homens, conforme Salmos 2.11, 1Pedro 3.15, 2Coríntios 7.15,
Efésios 6.5, 1Pedro 3.2 e Romanos 11.20.
Aqui alguns talvez se oponham e perguntem: não existe a ousadia santa na
oração e nos deveres da adoração divina? A isso respondo que sim, sem dúvida
existe isso, e se encontra sobretudo em santos eminentes, pessoas com elevado
grau de fé e amor. Essa ousadia santa, porém, não se opõe de maneira alguma à
reverência, mas se opõe à desunião e ao servilismo. Anula ou diminui a
disposição que nasce da distância ou alienação moral ou ainda da distância de
relação, como a do escravo com seu senhor; mas não elimina nem um pouco a
distância natural que nos faz infinitamente inferiores a Deus. Nenhuma ousadia
permitirá que pobres vermes pecadores, que tenham uma visão correta de Deus e
de si próprios, se aproximem de Deus com menos temor e reverência que os
anjos imaculados do céu, os quais cobrem o rosto diante do seu trono, conforme
o início de Isaías 6. Quando encontrou Isaque, Rebeca (que em quase todas as
circunstâncias no casamento com Isaque é um excelente tipo da igreja, a noiva
de Cristo) desmontou-se do camelo, tomou um véu e se cobriu, apesar de ter-lhe
sido trazida como sua noiva, para estar junto a ele na relação mais próxima e na
união mais íntima que pode existir entre dois seres humanos.34 O grande profeta
Elias, que tinha tanta intimidade santa com Deus, cobriu o rosto com a capa num
momento de especial proximidade de Deus, mesmo quando esteve em comunhão
íntima com ele no monte. E não fez isso porque estivesse aterrorizado por medo
servil por causa do vento terrível, do terremoto e do fogo; mas fez isso depois de
tudo isso ter passado e Deus ter falado com ele como amigo, com voz mansa e
suave: “E depois do fogo veio uma voz mansa e suave. Ao ouvi-la, Elias cobriu
o rosto com a capa” (1Rs 19.12,13). Moisés, com quem Deus falava face a face,
como um homem fala com seu amigo, e que se distinguiu de todos os demais
profetas por causa da intimidade que Deus lhe concedera, no momento em que
mais se aproximou de Deus, quando este lhe mostrou sua glória no mesmo
monte onde depois falou a Elias, curvou-se até o chão e adorou (Êx 34.8). Certos
homens têm uma ousadia inconveniente e insuportável no modo de se dirigir ao
grande Jeová — uma afetação de ousadia santa e ostentação de relevante
intimidade, embora a simples ideia dessas coisas bastasse para reduzi-los a nada,
tomados de horror e confusão, se de fato enxergassem a distância que existe
entre Deus e eles. São como o fariseu que, confiante, aproximou-se de Deus para
confessar sua própria eminência na santidade. Se tais homens percebessem o
quanto são vis, seriam mais parecidos com o publicano, que ficou de pé ao longe
e nem sequer ousava levantar os olhos ao céu, mas batia no peito e dizia: Deus,
tem misericórdia de mim, que sou pecador. Para criaturas pecaminosas como
nós, o mais adequado é aproximar-se de um Deus santo (com fé e sem terror)
com contrição, arrependimento envergonhado e perplexidade. A profecia é que
esse será o estado de espírito da igreja na época em que tiver mais privilégios na
terra, nos seus últimos dias de glória, quando Deus a consolará notavelmente,
revelando-lhe a misericórdia de sua aliança: “Firmarei contigo uma aliança
eterna. Então te lembrarás dos teus caminhos e ficarás envergonhada [...].
Firmarei a minha aliança contigo, e saberás que eu sou o SENHOR; para que te
lembres e te envergonhes, e nunca mais abras a boca, por causa da tua vergonha,
quando eu te perdoar tudo quanto fizeste, diz o SENHOR Deus” (Ez 16.60ss.). A
mulher de que fala Lucas 7, uma santa eminente e, segundo o testemunho do
próprio Cristo (Lc 7.47), alguém que tinha uma grande medida do amor perfeito,
o amor que lança fora o medo, aproximou-se de Cristo de modo atrativo e
aceitável, quando, com humilde modéstia, reverência e decoro, prostrada a seus
pés, chorando atrás dele sem se considerar digna de aparecer perante sua face,
lavou-lhe os pés com as lágrimas.
Um motivo por que as afeições da graça são acompanhadas dessa ternura de
espírito de que falamos é que a graça verdadeira em geral provoca convicção na
consciência. As pessoas costumam ter convicções de consciência antes de ter
qualquer medida da graça. Se, depois disso, convertem-se verdadeiramente, com
genuíno arrependimento, alegria e paz na fé, isso geralmente põe fim aos erros,
mas não à convicção de pecado, pois esta costuma aumentar. A graça não
emparvoece a consciência do homem, antes a torna mais sensata e capaz de
identificar com mais facilidade e plenamente a pecaminosidade no que é
pecaminoso e de ter convicção mais profunda da natureza hedionda e terrível do
pecado; torna-a mais suscetível à pronta e profunda percepção do pecado, mais
convicta de sua própria pecaminosidade e da maldade do seu coração. Por
conseguinte, torna o homem mais zeloso de seu próprio coração. A graça
costuma dar à alma convicção melhor e mais ampla das mesmas coisas relativas
ao pecado de que ela já tinha noção quando submetida à ação jurídica e legal do
Espírito de Deus — a saber, o quanto ela se opõe à vontade, à lei e à honra de
Deus, o quanto é grande o ódio que Deus tem dessas coisas e sua indignação
contra elas, e como é terrível o castigo que elas atraem e merecem. Mais ainda,
convence a alma de outra coisa relativa ao pecado, algo que ela não enxergava
nem um pouco quando estava sob o jugo da convicção legalista: a natureza
infinitamente odiosa do pecado e o quanto ele é horrendo por causa disso. Com
isso, o coração se torna tão sensível ao pecado quanto era o coração de Davi, que
o recriminou quando este cortou parte do manto de Saul. O coração do indivíduo
genuinamente arrependido é como a criança que se queimou e aprendeu a temer
o fogo. O que finge arrependimento e se gaba de seus falsos confortos e alegrias,
ao contrário, é como o ferro rápida e bruscamente aquecido e resfriado; torna-se
muito mais duro que antes. A falsa conversão põe fim à convicção da
consciência e, assim, elimina ou diminui o escrúpulo de consciência que se
manifestava na vigência da lei.
Todos as afeições da graça costumam promover essa sensibilidade de
coração cristã de que falamos, não somente um sofrimento piedoso, mas também
uma alegria cheia da graça: “Cultuai o SENHOR com temor e regozijai-vos com
tremor” (Sl 2.11), além da esperança oriunda da graça, como em Salmos 33.18:
“Os olhos do SENHOR estão sobre os que o temem, sobre os que esperam pelo
seu amor”; e Salmos 147.11: “O SENHOR se agrada dos que o temem, dos que
esperam no seu amor”. Com efeito, essa é a esperança mais confiante e segura, a
esperança verdadeiramente nascida da graça. Quanto mais a esperança aumenta,
mais ela se caracteriza por essa sensibilidade cristã. A expulsão do medo servil
pela santa segurança é acompanhada do aumento proporcional do temor
reverencial. A diminuição do medo das consequências da indignação de Deus no
castigo futuro é acompanhada do aumento proporcional do medo dessa própria
indignação; a diminuição do medo do inferno é acompanhada do aumento do
medo do pecado. O desaparecimento do zelo pelos bens deste mundo é
acompanhado do aumento do zelo da pessoa pelo seu próprio coração, da
desconfiança em sua própria força, de sabedoria, estabilidade, fidelidade etc.
Quanto menos a pessoa tem medo dos males naturais, “tendo o coração firme,
confiante no Senhor, [...] sem medo das más notícias”, mais ela costuma se
alarmar com o surgimento do mal moral, ou seja, do mal do pecado. Quanto
mais é marcada pela ousadia santa, menos arrogância e impudência tem e mais
decoro. Na mesma medida em que, mais que as outras pessoas, sente-se segura
de ter sido salva do inferno, também percebe mais do que as outras que o inferno
seria o seu merecido destino. Em geral tem menos abalos de fé que os outros,
mas se deixa mover mais que os outros pelos avisos solenes, pelas ameaças de
Deus e pelas calamidades que sobrevêm a outras pessoas. Tem o conforto mais
firme e o coração mais brando; é mais rica que todos, mas é de todos a mais
pobre em espírito; é o santo mais sublime e mais forte, mas é entre todos o
menor e a criancinha mais nova.
X. Outro ponto que difere as afeições verdadeiramente
santas e cheias da graça das afeições falsas é a beleza da
simetria e das proporções
Não que a simetria das virtudes e das afeições da graça dos santos seja perfeita
nesta vida. Muitas vezes ela é imprecisa em muitos aspectos, quer pela graça
ainda imperfeita, quer por falta de instruções adequadas, quer por erros de
discernimento, quer por alguma infelicidade da índole natural, quer por falhas de
educação, quer ainda por muitas outras desvantagens que poderiam ser
mencionadas. De jeito nenhum, porém, existe nas afeições da graça e nos vários
aspectos da verdadeira religião manifestados nos santos algo daquela
desproporção monstruosa que em geral se observa na falsa religião e na graça
falsificada dos hipócritas.
Nas afeições santas dos santos encontra-se a proporção que é consequência
natural da totalidade da sua santificação. Eles carregam consigo a imagem inteira
de Cristo; despiram-se do velho homem e revestiram-se do novo por completo,
em todas as suas partes e membros. “Foi do agrado do Pai que toda a plenitude
nele habitasse” (Cl 1.19, ARC), toda a graça habita nele, ele é “cheio de graça e
de verdade”, e os que estão em Cristo recebem “da sua plenitude e graça sobre
graça” (Jo 1.14,16). Isso significa que há neles toda a graça que há em Cristo:
“graça sobre graça”, isto é, graça correspondente a graça. Não há graça em
Cristo que não encontre graça correspondente naquele que crê. A imagem é
verdadeira e leva em si um pouco da mesma relação de beleza do original: a
cada traço corresponde um traço; e a cada membro, um membro. A obra das
mãos de Deus tem simetria e beleza. O corpo natural que Deus criou consiste de
muitos membros, e todos eles foram feitos em bela proporção; o mesmo se dá
com o novo homem, constituído de várias graças e afeições. O corpo de alguém
que nasceu perfeito pode perder a harmonia das proporções por causa de doença,
fraqueza ou de mutilação de algum membro; ainda assim, a desproporção não é
de modo algum semelhante à de pessoas que nasceram com alguma deformação
monstruosa.
Ocorre com os hipócritas o que ocorreu a Efraim outrora, num tempo em que
Deus os acusou de hipocrisia: “Efraim é um bolo que não foi virado” (Os 7.8),
meio assado e meio cru. Em geral, não há nenhuma harmonia nas afeições deles.
Em muitos deles é grande a parcialidade em relação aos diversos tipos de
afeições religiosas: grandes afeições em poucas coisas e nem um pouco em
outras. A esperança e o temor santos andam de braços dados nos santos, como se
observa em Salmos 33.18 e 147.11. Alguns hipócritas, porém, têm esperança
confiante ao mesmo tempo que são vazios de reverência, têm zelo e cuidado com
eles mesmos e em grande medida lançam fora o medo. Nos santos, a alegria e o
santo temor andam de braços dados, embora a alegria não seja tão grande quanto
foi a dos discípulos naquela feliz manhã da ressurreição de Cristo: “Elas, então,
saindo apressadamente do sepulcro, com temor e grande alegria, correram” (Mt
28.8).35 Muitos hipócritas, contudo, regozijam-se sem tremor; o tipo de alegria
deles é completamente oposto ao temor piedoso.
Em particular, uma notável diferença entre os santos e os hipócritas é que a
alegria e o consolo dos primeiros são acompanhados de tristeza piedosa e pesar
pelo pecado. O sofrimento deles não se limita a prepará-los para seu consolo,
mas permanece depois que são consolados e que sua alegria se estabelece. Como
foi profetizado acerca da igreja de Deus, que ela prantearia e se abominaria por
causa de seus pecados depois de voltar do cativeiro e de estabelecer-se na terra
de Canaã, a terra do descanso que mana leite e mel: “E sabereis que eu sou o
SENHOR, quando eu vos fizer entrar na terra de Israel, na terra que jurei dar a
vossos pais. Ali vos lembrareis de vossos caminhos e de todos os atos com que
vos tendes contaminado; e tereis nojo de vós mesmos, por causa de todas as
maldades que tendes cometido” (Ez 20.42,43); o mesmo em Ezequiel 16.61-63.
O verdadeiro santo nesse aspecto é semelhante à criancinha. Jamais teve santo
pesar antes de nascer de novo, mas depois o tem com frequência; assim como a
criança, que vivendo na escuridão antes de nascer, não chora, mas começa a
chorar tão logo vê a luz e daí em diante chora muitas vezes. Apesar de Cristo ter
suportado nossos pesares e carregado nossas tristezas, de modo que agora
estamos livres do sofrimento do castigo e podemos nos alimentar do doce
consolo que ele adquiriu para nós, isso não impede que esses consolos sejam
acompanhados do pesar do arrependimento, assim como os filhos de Israel na
antiguidade receberam o mandamento perpétuo de comer o cordeiro pascal
acompanhado de ervas amargas.
A Escritura não só fala dos verdadeiros santos como os que choraram pelos
pecados, mas também como os que ainda choram, ainda têm o hábito de chorar:
“Bem-aventurados os que choram, pois serão consolados” (Mt 5.4).
Nos hipócritas verifica-se com frequência não só a carência essencial dos
diversos tipos de afeições religiosas, mas também se nota neles uma estranha
incompletude e desarmonia das mesmas afeições em relação a diferentes alvos.
Desse modo, no que diz respeito à afeição do amor, alguns se presumem e se
mostram cheios de muito amor a Deus e a Cristo e talvez tenham sido muito
comovidos pelo que ouviram ou pensaram a respeito deles; contudo, não têm
espírito de amor e benevolência para com os homens, mas, sim, são afeitos a
discussões, inveja, vingança e à maledicência. Às vezes carregam no coração
ressentimento contra o próximo durante sete anos, quando não duas vezes sete,
dedicando-lhe permanente má vontade e amargura de espírito; e talvez no trato
deles com os semelhantes, nem sempre sejam rigorosos e conscienciosos em
observar a regra de fazer aos outros assim como gostariam que se lhe fizessem:
“Se alguém diz: Eu amo a Deus, e odeia seu irmão, é mentiroso. Pois quem não
ama seu irmão, a quem viu, não pode amar a Deus, a quem não viu” (1Jo 4.20).
Por sua vez, há aqueles que parecem ter muita benevolência para com os homens
e, a seu modo, têm boa índole e são generosos, mas não têm amor a Deus.
Quanto ao amor aos homens, há quem se derrame de afeições por alguns,
mas seu amor está longe de ser extenso e total, como é o amor verdadeiramente
cristão. São cheios de afeições caras por alguns e cheios de amargor para com
outros. São unidos a seu próprio partido, o grupo daqueles que os aprovam,
amam e admiram; mas são virulentos contra os que a eles se opõem e não os
apreciam. “Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos
perseguem, para que vos torneis filhos do vosso Pai que está no céu; porque ele
faz nascer o sol sobre maus e bons e faz chover sobre justos e injustos. Pois, se
amardes quem vos ama, que recompensa tereis? Os publicanos também não
fazem o mesmo?” (Mt 5.44-46). Alguns demonstram muita afeição por seus
companheiros e se passam por muito contentes com a companhia dos filhos de
Deus de todas as partes, mas ao mesmo tempo são duros e mal-humorados com a
esposa e com os outros membros da família e negligentes com os deveres para
com os parentes. Quanto ao grande amor que alguns parecem ter pelos pecadores
e adversários da religião e ao grande zelo pela alma destes, às vezes chegam a
extremos de sofrimento e agonia e escolhem como único alvo de seus cuidados
uma pessoa no meio da multidão, mas ao mesmo tempo não mostram nenhuma
compaixão pelos pecadores que vivem em circunstâncias igualmente miseráveis,
mas em monstruosa desproporção; ao que parece isso não é da natureza das
afeições religiosas. Não que eu considere de todo estranho que a compaixão
pelas almas dos pecadores nos cause algum grau de agonia, desde que tudo o
mais seja correspondente; ou que a verdadeira compaixão da graça pelas almas
se deva manifestar mais por algumas pessoas que por outras igualmente
infelizes, sobretudo em algumas ocasiões particulares. Pode acontecer muita
coisa que chame a atenção da mente e toque o coração no que diz respeito a
determinada pessoa em dada ocasião, e alguns santos sem dúvida sentem muito
pesar pela alma de algumas pessoas, a ponto de se sentirem como que em
trabalho de parto por elas; mas quando parece que alguém em determinado
momento sofre atroz agonia pela alma de uma única pessoa, muito além do que
normalmente se ouve ou se lê acerca de santos eminentes, e esse alguém parece
ter espírito de mansidão e amor fervoroso, cheio de caridade e compaixão pela
humanidade em geral em grau muito menor que o dos outros santos, afirmo que
devemos suspeitar muito dessas angústias e pesares, pelos motivos já
mencionados, a saber, o Espírito de Deus costuma conceder graças e afeições
cheias da graça em proporção bela e simétrica.
Além disso, assim como existe uma monstruosa desproporção no amor de
alguns quando exercido para com pessoas diferentes, também existe uma
desproporção monstruosa no exercício do amor para com as mesmas pessoas.
Alguns demonstram amor pelos outros como que pelo seu homem exterior, são
generosos com seus bens e costumam fazer doações aos pobres, mas não têm
nem amor nem zelo pela alma dos homens. Outros dão a impressão de imenso
amor pela alma dos homens, mas não são compassivos nem caridosos com o
aspecto físico deles. Fazer ostentosas demonstrações de amor, pena e sofrimento
pelas almas não lhes custa nada, porém, a fim de demonstrar amor pelo aspecto
material desses homens, eles precisam desembolsar dinheiro. Por sua vez, o
verdadeiro amor cristão por nossos irmãos dirige-se à alma e ao corpo deles, e
nisso se assemelha ao amor e à compaixão de Jesus Cristo. Ele demonstrava
amor pela alma dos homens trabalhando por eles, pregando-lhes o evangelho; e
demonstrava amor pelo aspecto físico deles porque andava fazendo o bem,
curando toda sorte de enfermidade e males entre o povo. Em Marcos 6.34ss.,
temos um memorável exemplo de Cristo demonstrando compaixão pela alma e
pelo corpo das pessoas quando ele alimenta esses dois aspectos da multidão: “Ao
desembarcar, Jesus viu uma grande multidão e teve compaixão dela, pois eram
como ovelhas que não têm pastor; e começou a ensinar-lhes muitas coisas”. Aqui
se manifesta sua compaixão pela alma dessas pessoas. Em seguida, temos o
relato de sua compaixão pelo organismo delas, porque o estavam acompanhando
havia bastante tempo sem nada para comer. Ele deu de comer a cinco mil
homens com cinco pães e dois peixes. Se a compaixão dos que se professam
cristãos para com os outros não funcionar do mesmo modo, isso é sinal de que
ela não é a verdadeira compaixão cristã.
Além disso, quando as pessoas se mostram muito impressionadas com as
más qualidades de seus companheiros cristãos — tais como a frieza e a falta de
vida de outros santos —, mas não se impressionam na mesma medida com seus
próprios defeitos e maldades, isso é sinal de que suas afeições não são do tipo
certo. O cristão verdadeiro pode impressionar-se muito com a frieza e a
imoralidade de outros santos e pode deplorar essas coisas; porém, ao mesmo
tempo, a maldade que mais o impressiona é a de seu próprio coração. É isso que
ele mais vê, que identifica com mais prontidão, é o que mais o ofende e mais o
predispõe a chorar. Um grau menor de virtude o fará deplorar-se e preocupar-se
com suas próprias calamidades em vez de se deixar afetar pelas dos outros. E se
os homens não se atêm ao menor, podemos afirmar terminantemente que nunca
se aterão ao maior.
Aqui, a propósito, eu diria que se pode estabelecer como regra que, se
alguém acha ter obtido grandes êxitos na religião, mas nunca alcançou
realizações menores, isso é sinal de pretensão vazia. É o caso de quem julga ter
ido além da mera moralidade e estar vivendo uma vida espiritual e divina, mas
de fato jamais chegou a ter uma vida assim tão moral; ou de quem julga ser
muito comovido pela maldade do próprio coração, mas não se deixa comover
pelas visíveis violações dos mandamentos de Deus na sua conduta, que é uma
realização de menor monta; ou de quem alega estar disposto a sofrer horrores
pela glória de Deus, mas não demonstra inclinação alguma para sofrer nem
sequer um pouco de prejuízo de seus bens, de sua reputação nem de suas
comodidades mundanas em favor de seu dever; ou de quem afirma não ter medo
de arriscar a vida por Cristo e entregar todo seu ser a Deus, confiando tão
somente em sua palavra e na fidelidade de suas promessas de bem-estar eterno,
mas ao mesmo tempo não tem confiança suficiente em Deus para ousar dedicar
nem sequer uma pequena fração dos bens recebidos para obras de caridade.
Afirmo que, quando alguém age assim, suas alegações são obviamente vazias.
Quem está numa jornada e imagina ter chegado muito além de determinado
ponto da caminhada, mas jamais chegou àquele ponto, está muito enganado.
Quem não trilhou nem a metade do caminho até o topo da colina ainda não
chegou lá. Isso é líquido e certo.
O mesmo que se observou a respeito da afeição do amor também vale para
as outras afeições religiosas. As afeições verdadeiras se estendem na mesma
medida às a seus vários objetos próprios e devidos; quando porém são falsas, em
geral são estranhamente desproporcionadas. Assim também ocorre com os
desejos e anseios religiosos; nos santos, estes têm por objeto as coisas espirituais
e excelentes em geral, e sua intensidade é proporcional à excelência, importância
ou necessidade de seus objetos, ou à sua utilidade imediata; nos falsos anseios,
porém, quase sempre se vê o contrário. Correm de modo estranho, com
impaciente veemência atrás de algo de menor importância enquanto
negligenciam o mais importante. Assim, por exemplo, algumas pessoas de
tempos em tempos se deixam tomar por uma pressão insuportavelmente
incontrolável e pela veemente propensão a comunicar suas próprias experiências
e exortar os outros; ao mesmo tempo, não mostram a menor inclinação para
fazer outras coisas consideradas tão ou mais importantes pelo cristianismo
verdadeiro, como derramar a alma perante Deus em oração individual e
particular, louvá-lo, conformar-se a ele, viver mais para a sua glória, entre outras
disciplinas. A Escritura nos fala muito mais vezes de gemidos inexprimíveis, do
sofrimento da alma por seus anelos, sede e anseios do que daquelas coisas antes
mencionadas.
O mesmo também vale para o ódio e o zelo. Quando estes decorrem de
princípios corretos, eles se dirigem contra o pecado em geral, e sua intensidade é
proporcional ao grau do pecado: “Rejeito toda vereda de falsidade” (Sl 119.104;
também v. 128). Todavia, o ódio e zelo falsos contra o pecado se exercem contra
um pecado específico somente. Por isso, alguns se mostram muito zelosos contra
o linguajar vulgar e a soberba relativa às vestimentas, mas eles próprios são
famosos por cobiça, rigorismo, maledicência, inveja dos superiores, sedição
contra os governantes e ressentimento enraizado contra quem lhes fez mal. O
falso zelo é aquele voltado contra os pecados alheios, enquanto o falso zeloso
não tem zelo algum contra seus próprios pecados. O zeloso verdadeiro, porém,
exerce-o principalmente contra seus próprios pecados, embora demonstre zelo
correto contra a iniquidade alheia, quando perigosa. Alguns fingem se aborrecer
muito com os pecados de seu próprio coração e choram muito por causa de sua
iniquidade interior, mas na prática tratam com leviandade os pecados e parecem
cometê-los sem muito constrangimento nem remorso, embora isso implique
pecado tanto no coração quanto na vida.
Assim como a disparidade no exercício das falsas afeições é bem maior que
no exercício das verdadeiras em relação a diferentes alvos, assim também a
disparidade também é muito maior em relação a diferentes momentos. Porque,
embora um cristão verdadeiro não seja sempre igual — pelo contrário, apresenta
grandes diferenças em momentos distintos, e os melhores têm razão de ter muita
vergonha dessa instabilidade —, o coração daqueles verdadeiramente castos,
“que seguem o cordeiro para onde quer que vá” (Ap 14.4, ARC), não abriga essa
instabilidade e inconstância próprias dos professantes de coração enganoso. Com
razão se diz que o coração do justo é firme, confiante em Deus (Sl 112.7) e
fortificado pela graça (Hb 13.9) para prosseguir no caminho. “O justo prossegue
no seu caminho e o que tem mãos puras vai se fortalecendo” (Jó 17.9).
Menciona-se como uma das notas de hipocrisia da igreja judaica que ela era
semelhante a um dromedário ligeiro atravessando os caminhos.
Se, portanto, as pessoas são religiosas apenas de vez em quando; se a toda
hora parece que se elevam às nuvens com suas afeições e depois tornam a cair de
repente, perdem tudo e se tornam descuidadas e carnais; se é assim que vivem
habitualmente a religião; se parecem muito comovidas e profundamente
dedicadas à religião apenas em momentos extraordinários, em épocas de notável
derramamento do Espírito e de outras dispensações incomuns da providência, ou
no recebimento, verdadeiro ou suposto, de grande misericórdia, quando recebem
alguma misericórdia temporal extraordinária ou supõem-se recém-convertidas,
ou tiveram recentemente o que chamam de grande revelação, mas logo retornam
ao estado em que seu coração se volta principalmente para outras coisas, de tal
modo que a disposição predominante de sua alma e o fluir de suas afeições têm
habitualmente como alvo as coisas do mundo; quando são semelhantes aos filhos
de Israel no deserto, que tiveram as afeições sobremodo exaltadas pelo que Deus
fizera por eles no mar Vermelho e cantaram louvores a ele, mas logo caíram na
cobiça pelas panelas de carne do Egito; e de novo, quando chegaram ao monte
Sinai e viram as grandiosas manifestações de Deus, pareceram muito
comprometidos novamente e fortemente dispostos a fazer aliança com Deus,
dizendo: “Faremos em obediência tudo o que o SENHOR falou”, mas logo depois
construíram um bezerro de ouro; então, sobre tudo isso, afirmo que, quando as
pessoas se comportam assim, é sinal de que suas afeições não são verdadeiras.36
São como as águas de uma pancada de chuva que correm por algum tempo como
um regato e fluem em abundância, mas em seguida secam por completo e voltam
a correr só quando chega outra pancada de chuva. Por sua vez, o santo
verdadeiro é como o rio que vem de uma nascente viva, que, embora tenha o
fluxo aumentado na época das chuvas e reduzido na seca, flui sem parar; como
se lê em João 4.14: “A água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água a
jorrar”; ou ainda como uma árvore plantada ao lado de um rio, que tem
suprimento constante de água nas raízes e permanece sempre verde, mesmo no
período de maior seca: “Bendito o homem que confia no SENHOR, cuja esperança
é o SENHOR. Ele é como a árvore plantada junto às águas, que estende suas raízes
para o riacho; não temerá quando vier o calor, pois sua folhagem sempre estará
verde, e no ano da seca não ficará preocupada, nem deixará de dar fruto” (Jr
17.7,8). Muitos hipócritas são como cometas, que aparecem durante pouco
tempo com brilho fulgurante, mas são inconstantes e irregulares (e por isso são
chamados astros errantes em Judas 13), logo perdem o brilho e só voltam a
aparecer depois de muito tempo. Os verdadeiros santos, por sua vez, são como as
estrelas fixas, que, apesar de nascerem e se porem, e vez por outra serem
encobertas por nuvens, permanecem firmes em sua órbita e fulguram com brilho
constante. As afeições hipócritas são semelhantes a movimentos violentos, como
o do ar agitado pelos ventos (Jd 12); mas as afeições cheias da graça são
movimentos mais naturais, como o fluir de um rio, que, embora tenha seus
meandros, encontre obstáculos e corra mais rápido em alguns trechos que em
outros, segue no geral um curso constante e prossegue na mesma direção até
chegar ao oceano.
Assim como há uma estranha desigualdade e desproporção nas falsas
afeições em diferentes momentos, assim também há em diferentes lugares.
Alguns são muito afetados de vez em quando, quando estão na companhia de
outras pessoas, mas não têm nada de proporcional quando estão sozinhos,
orando, meditando e em comunhão com Deus, separados do mundo.37 O cristão
verdadeiro sem dúvida tem prazer na amizade religiosa e na comunhão cristã, e
encontra aí muito que lhe afete o coração, mas ele também tem prazer nos
momentos em que se separa de toda a humanidade para ter comunhão com Deus
em lugares solitários. E isso também tem suas vantagens peculiares para
consertar seu coração, comprometendo suas afeições. A verdadeira religião
dispõe as pessoas a procurar lugares isolados para a santa meditação e oração.
Foi assim com Isaque (Gn 24.63) e muito mais com Jesus Cristo. Quantas vezes
não lemos que ele se retirou para os montes e lugares ermos a fim de ter santa
comunhão com seu Pai? É difícil ocultar afeições grandes, mas as afeições
cheias da graça são de natureza muito mais silenciosa e secreta que as falsas.
Assim também é o sofrimento oriundo da graça nos santos; assim é a tristeza
deles pelos próprios pecados. Desse modo, o futuro pranto da graça nos
verdadeiramente arrependidos no começo da glória dos últimos dias é
representado como tão secreto que está oculto até aos próprios companheiros
mais íntimos dos verdadeiros arrependidos: “Todas as famílias da terra
prantearão em separado: a família de Davi e suas mulheres; a família de Natã e
suas mulheres; a família de Levi e suas mulheres; a família de Simei e suas
mulheres; todas as demais famílias e suas mulheres em separado” (Zc 12.12-14).
O mesmo ocorre com a tristeza deles pelos pecados dos outros. As labutas e os
sofrimentos dos santos pela alma dos pecadores ocorrem sobretudo em lugares
secretos: “Mas, se não ouvirdes, chorarei secretamente, por causa do vosso
orgulho; e os meus olhos chorarão amargamente e se desfarão em lágrimas,
porque o rebanho do SENHOR foi levado cativo” (Jr 13.17). O mesmo também se
dá com as alegrias da graça: elas são o maná oculto, nesse e em outros aspectos
(Ap 2.17). O salmista parece dizer que seus mais ternos consolos foram os que
lhe vieram em segredo: “A minha alma se fartará, como de tutano e de gordura; e
a minha boca te louvará com alegres lábios, quando me lembrar de ti na minha
cama, e meditar em ti nas vigílias da noite” (Sl 63.5,6). Cristo convida sua
esposa a sair do mundo e acompanhá-lo a lugares retirados, a fim de lhe dar seu
mais terno amor: “Vem, meu amado, vamos para o campo, passemos a noite nos
povoados [...] ali eu te darei o meu amor” (Ct 7.11,12). Os mais excelentes
favores divinos que os santos obtiveram, sobre os quais lemos na Escritura,
foram concedidos em recolhimento. As principais manifestações que Deus fez
de si e da misericórdia de sua aliança com Abraão ocorreram quando este estava
sozinho, isolado de sua numerosa família, como poderá perceber qualquer um
que ler atentamente a história do patriarca. Isaque recebeu de Deus sua dádiva
especial, Rebeca, que foi para ele um excelente bálsamo e por ela obteve o
herdeiro prometido, quando caminhava sozinho e meditava pelo campo. Jacó se
retirara para orar em segredo quando recebeu a visita de Cristo; lutou com ele e
recebeu a bênção. Deus se revelou a Moisés na sarça, quando estava num lugar
solitário no deserto, no monte Horebe (Êx 3). Noutra ocasião, quando Deus lhe
mostrou sua glória, e ele foi admitido ao mais alto grau de comunhão com Deus
que jamais desfrutara, estava sozinho no mesmo monte, onde permaneceu por
quarenta dias e quarenta noites e de onde desceu com o rosto brilhante. Deus se
manifestava aos grandes profetas Elias e Eliseu e falava abertamente com eles,
em especial quando estavam afastados de todos. Elias conversou sozinho com
Deus no monte Sinai, assim como Moisés. Quando teve a maior prelibação de
sua glória futura, a transfiguração, Jesus não estava no meio de uma multidão
nem sequer junto dos doze discípulos, mas retirado num monte solitário com três
discípulos eleitos, instando com eles para que não relatassem isso a homem
nenhum até que ele fosse ressuscitado dos mortos”. Quando o anjo Gabriel foi à
virgem bendita e quando o Espírito Santo a visitou, e o poder do Altíssimo a
cobriu, ao que tudo indica ela estava sozinha e completamente afastada do
mundo; seu mais caro e mais chegado amigo terreno, José, que a desposara
(conquanto justo), nada sabia do assunto. E aquela que foi a primeira a participar
da alegria da ressurreição de Cristo estava sozinha com ele no sepulcro (Jo 20).
Quando o discípulo amado foi agraciado com as maravilhosas visões de Cristo e
de suas dispensações futuras para a igreja e o mundo, estava sozinho na ilha de
Patmos. Não que não haja casos de maravilhosos privilégios recebidos pelos
santos em companhia de outras pessoas nem que não haja muitos aspectos da
conversação cristã e do culto coletivo e público que não costumem consolar e
regozijar o coração dos santos. Pelo que disse acima, tudo o que almejo é
mostrar que, embora aprecie muito a vida social cristã no seu lugar, a natureza da
verdadeira graça se deleita especialmente na solidão e na comunhão privada com
Deus. De modo que, se alguém parece muito dedicado à religião social mas
pouco afeito à religião em oculto, ou tem grandes afeições na companhia de
outros, mas se comove pouco quando não tem senão Deus e Cristo para ter
comunhão, este é um sinal muito sombrio no que diz respeito à sua religião.

XI. Outra diferença importante e muito característica entre as


afeições da graça e as de outra natureza é que, quanto
mais elevadas as afeições da graça, maiores são o apetite
e o anseio da alma pelo aumento de realizações espirituais.
As falsas afeições, pelo contrário, bastam-se a si
mesmas.38
Quanto mais o verdadeiro santo ama a Deus com amor cheio da graça, mais
deseja amá-lo e mais se inquieta com sua falta de amor; quanto mais odeia o
pecado, mais deseja odiá-lo e se lamenta por ainda o amar tanto; quanto mais se
entristece por seus pecados, mais almeja se entristecer por eles; quanto mais tem
o coração quebrantado, mais deseja que ele continue sendo quebrantado; quanto
mais anseia por Deus e pela santidade, mais anseia por ansiar e por render a
própria alma em seu anseio por Deus. Acender e levantar as afeições da graça é
como acender uma chama: quanto mais ela sobe, mais arde e quanto mais
queima, com mais veemência procura e deseja queimar. O apetite espiritual pela
santidade e pelo aumento das afeições santas é muito mais vivo e mais aguçado
nos santos eminentes do que nos outros; e é mais aguçado quando a graça e as
afeições santas estão em atividade mais viva do que em outros momentos. É da
natureza do recém-nascido espiritual ter sede de crescer em santidade como é da
natureza do bebê recém-nascido ter fome do leite materno; quanto melhor a
saúde, melhor o apetite: “Desejai o puro leite espiritual, como bebês recém-
nascidos, a fim de crescerdes por meio dele para a salvação, se é que já provastes
que o Senhor é bom” (1Pe 2.2,3). O máximo que os santos alcançam neste
mundo é tão somente um antegozo, uma prelibação da glória futura, que é sua
própria plenitude; é apenas o penhor da herança futura (2Co 1.22 e 5.5; Ef 1.14).
Os santos mais eminentes nesse estado são apenas crianças em comparação com
seu futuro, que é seu estado próprio de maturidade e perfeição, como observa o
apóstolo (1Co 13.10,11). A maior excelência e perfeição que os santos alcançam
neste mundo não costuma produzir neles a saciedade nem reduzir seus desejos;
ao contrário, aumenta-lhes ainda mais o anseio de seguir em frente. Isso se
evidencia nas palavras do apóstolo: “Esquecendo-me das coisas que ficaram para
trás e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo [...] Por isso,
todos os que somos aperfeiçoados tenhamos esse mesmo modo de pensar” (Fp
3.13-15).
O motivo disso é que, quanto mais as pessoas têm afeições santas, mais elas
têm daquele paladar espiritual de que já falei, com o qual percebem a excelência
e se aprazem com o divino dulçor da santidade. Quanto mais têm a graça nesse
estado de imperfeição, mais percebem suas próprias deficiências, seu vazio e a
distância que estão do lugar onde devem chegar — e, por isso, mais entendem a
necessidade da graça, como já demonstrei em toda a sua extensão quando falei
sobre a humildade evangélica. Além disso, a graça, enquanto imperfeita, por
natureza tende a crescer e se desenvolver. Vemos que isso também ocorre com
todas os seres vivos: enquanto se encontram em estado de imperfeição e
crescimento, sua natureza busca o crescimento, sobretudo quando essa natureza
é saudável e próspera. Portanto, o clamor de toda graça verdadeira é igual ao
clamor de toda fé verdadeira: “Eu creio! Ajuda-me na minha incredulidade” (Mc
9.24). Quanto mais revelações e afeições espirituais tem o verdadeiro cristão,
mais ele se assemelha a um mendigo inoportuno, suplicando por fé e alimento
espiritual para poder crescer, e mais séria e sinceramente se dedica a essa busca,
usando os meios e expedientes adequados. O anseio de santidade, quando
verdadeiro e cheio da graça, não é nenhum desejo ocioso e ineficaz.
Alguns, porém, talvez se oponham, perguntando: Como isso pode ser
compatível com o que todos reconhecem: que o regozijo espiritual, por natureza,
sacia a alma?
Respondo. Essa natureza não é nem um pouco incompatível com o que já se
disse. Considere-se o modo pelo qual o regozijo espiritual sacia a alma. Por certo
não no sentido de ter tanto poder de saciar que os que dele provam um pouco,
ainda que em grau muito imperfeito, não desejam mais nada. Pelo contrário, os
regozijos espirituais têm a natureza de saciar a alma de acordo com os aspectos a
seguir. (1) Tanto pela espécie quanto pela natureza, eles são plenamente
adaptados à natureza, à capacidade e às necessidades da alma humana, de modo
que quem os encontra não deseja nenhum outro tipo de regozijo; sente-se
plenamente satisfeito com o tipo de felicidade que já têm, não deseja mudança
alguma e não se inclina mais a vagar sem rumo, indagando “quem me mostrará o
bem?” A alma nunca se cansa, nunca se farta; ao contrário, entrega-se
perpetuamente a essa felicidade com todas as suas forças. Isso, porém, não
significa que quem tem um pouco dessa felicidade não a deseja mais. (2)
Satisfazem a alma também porque saciam o apetite. Quando o apetite é grande,
também são grandes as expectativas. O apetite por determinado objeto implica
uma expectativa relacionada à natureza desse objeto. A expectativa dos prazeres
mundanos jamais se satisfaz; o homem tem a expectativa de obter mediante
esses prazeres uma grande felicidade, mas infalivelmente se decepciona. Já os
regozijos espirituais atendem plenamente à expectativa e a satisfazem. (3) A
satisfação e a fruição dos prazeres espirituais são permanentes. O mesmo não
ocorre com os prazeres mundanos. Estes, em certo sentido, satisfazem apetites
particulares. Porém, quando o apetite se sacia, ele se cansa do bem que havia
buscado, e o prazer cessa. Tão logo cessa, retorna o apetite geral da natureza
humana pela felicidade; mas continua vazio, nada o satisfaz. Isto é, a satisfação
de determinado apetite não elimina absolutamente toda a sede da natureza. (4) O
bem espiritual satisfaz porque traz em si o suficiente para satisfazer a alma na
mesma medida em que os obstáculos são removidos e a faculdade que o desfruta
é devidamente aplicada. Ele deixa espaço suficiente para a alma se expandir; é
um oceano infinito. Se os homens não se satisfazem com ele em grau de
felicidade, a causa está neles, que não abrem bem a boca para se saciar.
Isso tudo, porém, não prova que a alma que provou deles um pouquinho não
tenha seu apetite estimulado para querer mais, nem que esse apetite não aumente
na mesma medida em que prova do seu objeto até chegar à plenitude da
satisfação, como objetos que, atraídos pelo orbe terrestre, vão com mais força
em sua direção quanto mais se aproximam do corpo que os atrai, até finalmente
encontrarem repouso no centro. O bem espiritual tem a natureza de satisfazer;
por essa mesma razão, a alma que o prova e conhece sua natureza sente sede
dele e da sua plenitude para se satisfazer. Quanto mais prova desse bem, quanto
mais conhece seu excelente, primoroso, satisfatório e inigualável dulçor, com
mais veemência o quer cada vez mais, até chegar à perfeição. Portanto, esta é a
natureza das afeições espirituais: quanto maiores são, maiores o apetite e o
anseio pela graça e pela santidade.
Com a alegria falsa e outras afeições igualmente falsas ou falsificadas,
ocorre o contrário. Se antes deles a pessoa tinha algum tipo de desejo pela graça,
esse desejo cessa ou diminui quando tal afeição sobrevém. Pode ser que antes,
quando estava sob a convicção da lei e tinha muito medo do inferno, o homem
tivesse o desejo sincero de obter entendimento pela luz espiritual, a fé em Cristo
e o amor a Deus; mas agora, quando surgem as falsas e enganosas afeições
espirituais que o fazem acreditar já ser convertido e que seu estado é bom, já não
existe o desejo ardente da luz e da graça, pois o que ele buscava aparentemente
já obteve: tem confiança de que teve os pecados perdoados e de que vai para o
céu e, por isso, está satisfeito. Sobretudo quando muito se exaltam, as falsas
afeições põem fim ao anseio por graça e santidade. Depois de ter essas afeições a
pessoa está longe de se enxergar como criatura pobre e vazia. Pelo contrário, vê-
se rica e cheia de bens, e mal consegue pensar em coisa mais excelente do que o
que já alcançou.
Desse modo chega ao fim o empenho de muitos na busca, depois de obterem
o que chamam de conversão — ou pelo menos depois de alcançarem aquelas
afeições exaltadas que os fazem crer-se já convertidos. Antes, quando se viam no
estado de natureza, dedicavam-se à busca de Deus e de Cristo, clamavam
sinceramente pela graça e empenhavam-se no uso dos meios necessários para
obtê-la; agora agem como se já não houvesse mais trabalho a fazer. Vivem de
suas primeiras obras ou de experiências passadas e deixaram de se empenhar e
clamar por Deus e pela graça. Já os santos princípios que movem os verdadeiros
santos têm influência muito mais poderosa de despertar neles não o medo servil,
mas o empenho na busca de Deus e da santidade. Por isso, a busca de Deus é
mencionada como uma das características distintivas dos santos. “Aqueles que
buscam a Deus” é um dos epítetos pelos quais são chamados na Escritura:
“Assim é a geração dos que o buscam, dos que buscam tua presença, ó Deus de
Jacó” (Sl 24.6); “Não passem vexame por minha causa os que te buscam, ó Deus
de Israel” (69.6); “Vejam isso os humildes e se alegrem; vós, que buscais a Deus,
animai o coração” (69.32); “Regozijem-se e alegrem-se em ti todos os que te
buscam; e aqueles que amam tua salvação digam continuamente: Seja Deus
engrandecido” (70.4). Em toda parte, a Escritura afirma que a busca, o empenho
e a labuta dos cristãos ocorrem essencialmente depois da conversão, que é
apenas o início de seu trabalho. Quase tudo o que se diz no Novo Testamento
acerca da vigilância do homem, de sua atenta autoanálise, de seu agir com
perseverança, de seu trabalho e luta, de que ele não combate contra a carne e
contra o sangue, mas contra os principados e as potestades, de sua batalha, do
vestir a armadura de Deus, da firme permanência após haver feito tudo, do
avanço para o alvo, para as coisas que estão adiante, da perseverança na oração,
no clamar a Deus dia e noite — quase tudo o que o Novo Testamento afirma
sobre isso se refere aos santos e a eles se dirige. Quando isso é aplicado à busca
dos pecadores de outrora pela conversão, refere-se dez vezes ao zelo dos santos
na atividade de sua sublime vocação. Em nossos dias, contudo, muitos
adquiriram o estranho hábito antibíblico de pôr de lado todo emprenho e luta
depois da conversão. Depois de convertidos, acalmam-se e acomodam-se,
desfrutando sua preguiça e indolência, como se tivessem suprimentos
armazenados para muitos anos e fossem ricos e cheios de bens. No entanto,
quando o Senhor encher de bens os famintos, é provável que estes ricos sejam
mandados embora de mãos vazias (Lc 1.53).
Sem dúvida, porém, alguns hipócritas, que não têm senão falsas afeições,
acreditam que conseguirão suportar essa provação. Dizem prontamente que não
desejam satisfazer-se com as realizações passadas, mas querem seguir em frente
rumo ao alvo, desejam mais, anseiam por Deus e por Cristo, anelam mais
santidade e se dedicam a buscá-la. A verdade, no entanto, é que não desejam a
santidade pelo que ela é, isto é, moralmente excelente e de doce pureza; mas,
sim, a desejam como meio para outro fim. Anseiam por contemplações mais
iluminadas a fim de melhor se satisfazer com o estado de sua alma. Uma vez que
nessas contemplações a alma se gratifica ao sentir-se amada e cuidada por Deus
e exaltada acima do comum dos mortais, esses hipócritas desejam mais provar
do amor de Deus (como dizem) do que ter mais amor por Deus. Pode ser
também que tenham anseios forçados, imaginários ou fingidos, pois pensam que,
se não anelarem mais graça, isso lhes manchará a reputação. Contudo, essas
coisas são muito diferentes da fome e da sede espontâneas e necessárias, por
assim dizer, que o novo homem sente por Deus e pela santidade. O santo tem em
seu interior o desejo ardente pela santidade tão natural para a nova criatura
quanto o calor vital é para o corpo. O anseio e o ardente anelo pelo Espírito de
Deus e pelo aumento de santidade é tão natural para a natureza santa quanto a
respiração é natural para o corpo vivo. O alvo dessa aspiração é muito mais a
santidade ou a santificação do que qualquer manifestação do amor e do favor
divinos. Eis a comida e a bebida de quem tem fome e sede, o apetite espiritual:
“A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou e completar a sua
obra” (Jo 4.34). Quando a Escritura nos fala dos desejos, anseios e anelos dos
santos, a justiça e as leis de Deus são mencionadas com muito mais frequência
como seu alvo do que qualquer outra coisa. Os santos desejam o puro leite da
Palavra não tanto para que dê testemunho do amor que Deus tem por eles, mas,
sim, para poderem crescer em santidade. Já demonstrei que a santidade é o alvo
imediato do paladar espiritual. Ora, por certo, o mesmo dulçor que é o principal
objeto do paladar espiritual é também o principal objeto do apetite espiritual. A
graça é o tesouro dos piedosos: “O temor do SENHOR será o seu tesouro” (Is
33.6). Eles são cobiçosos e ávidos pela piedade (1Tm 6.6). Os hipócritas
anseiam por revelações e contemplações por causa do conforto imediato que elas
lhes dão e da manifestação do amor de Deus nelas, mas não por sua influência
santificadora. No entanto, nem o anseio por grandes revelações, ou grandes
provas do amor de Deus, nem o anseio pelo paraíso, nem o anseio pela morte são
em medida alguma marcas características dos santos verdadeiros tanto quanto o
anseio por coração e vida mais puros.
Chegamos agora ao último sinal distintivo das afeições santas que me
proponho mencionar.

XII. As afeições santas e cheias da graça têm ação e frutos na


prática cristã; isto é, têm sobre o crente que as vive
influência e poder capazes de fazê-lo adotar, como prática
e profissão de vida, uma conduta absolutamente
harmoniosa com as normas cristãs e por elas regida.
Isso tem três implicações: (1) Que sua conduta ou prática no mundo seja
absolutamente conforme às normas cristãs e por elas regida; (2) que o crentes se
dediquem a essa santa prática acima de tudo o mais, ou seja, essa prática deve
ser o principal empenho do crente, aquilo a que mais se devota, que busca com a
máxima veemência e diligência — de tal modo que se diga que a prática da
religião é sua conduta e ocupação por excelência; e (3) que o crente persista
nessa prática até o fim da vida, de modo que se possa dizer que ela não é sua
ocupação somente em certas ocasiões, no dia de descanso semanal ou em épocas
extraordinárias, nem que seja sua ocupação de um mês, um ano ou sete anos, ou
somente em determinadas circunstâncias — mas que seja a ocupação de sua
vida, a ocupação em que ele persevera em todos os seus estados e debaixo de
toda e qualquer provação enquanto aqui viver.
A necessidade de cada uma dessas condições em todos os cristãos
verdadeiros é mais clara e plenamente ensinada na Palavra de Deus.

1. É necessário que todos sejam em tudo obedientes: “E todo o que tem nele
essa esperança purifica a si mesmo, assim como ele é puro. [...] E bem sabeis
que ele se manifestou para tirar os pecados; e não há pecado nele. Todo o que
permanece nele não vive pecando; todo o que vive pecando não o viu nem o
conheceu. [...] quem pratica a justiça é justo, assim como ele é justo; quem vive
habitualmente no pecado é do Diabo” (1Jo 3.3ss.); “Sabemos que todo o que é
nascido de Deus não vive pecando; pelo contrário, aquele que nasceu de Deus o
guarda, e o Maligno não o toca” (5.18); “Vós sois meus amigos se fizerdes o que
vos mando” (Jo 15.14).
Se um único membro estiver corrompido e não o cortarmos fora, ele
arrastará o corpo inteiro para o inferno (Mt 5.29,30). Saul recebeu a ordem de
matar todos os amalequitas, inimigos de Deus; matou a todos, exceto a Agague,
e ter-lhe poupado a vida causou sua própria ruína. Josué e Calebe entraram no
descanso prometido de Deus porque em tudo seguiram o Senhor (Nm 14.24; Nm
32.11,12; Dt 1.36; Js 14.6-9,14). A hipocrisia de Naamã se manifestou em ter-se
mostrado ele muito grato a Deus pela cura de sua lepra e dado a impressão de ser
dedicado no seu serviço, mas ter desejado obter licença para um único ato de
desobediência. Herodes, por sua vez, conquanto temesse João e o observasse e
ouvisse com alegria e fizesse muitas outras coisas, foi condenado porque não
obedeceu em uma coisa: não se separou da amada Herodias. Assim, é necessário
que os homens cortem suas iniquidades preferidas, como se estas fossem sua
mão direita e seus olhos, os pecados em que caem com mais frequência e a que
são mais vulneráveis por suas inclinações naturais, os maus costumes, as
circunstâncias particulares, entre outros. Assim como José não se deu a conhecer
aos irmãos que o haviam vendido, enquanto não lhe entregaram Benjamim, o
caçula e mais amado dos irmãos, de quem era mais difícil se separarem, assim
também o amor de Cristo não nos será revelado se não rompermos com as
concupiscências que mais nos atraem e não começarmos a obedecer aos deveres
mais difíceis e que mais nos causam aversão.
É importante observar que, para um homem ser de fato considerado
completamente obediente, ele deve obedecer não apenas aos mandamentos
proibitivos, mas também sua obediência deve ser plena no que diz respeito aos
mandamentos em que a religião ordena-lhe que aja ou se conduza de
determinado modo. Os pecados de omissão são violações da lei de Deus tanto
quanto os de comissão. Em Mateus 25, Cristo diz que os homens que estiverem à
sua esquerda serão condenados ao fogo eterno por pecados de omissão: “Tive
fome e não me destes de comer”. Portanto, não se pode afirmar que o homem é
obediente em todas as coisas, nem se pode reputar que tenha conduta cristã
verdadeira apenas por não ser ladrão, opressor, fraudador ou bêbado, não viver
em tavernas ou prostíbulos, não ser arruaceiro nem vagar pelas ruas à noite, não
ser impuro nem profano no falar, nem caluniador, mentiroso, dado à ira, maldoso
ou vingativo. É com falsidade que se alega ser tal homem convertido e
evangélico, aquele que chegou até esse ponto e não vai além. Para ter de fato a
conduta conforme ao evangelho, é preciso também que o homem seja digno,
religioso, devoto, humilde, manso, dado ao perdão, pacífico, respeitoso,
magnânimo, benevolente, misericordioso e bondoso em atos e palavras. Sem
essas coisas, ele não obedece às leis de Cristo, sobre as quais o próprio Cristo e
seus apóstolos reiteradamente afirmaram ser as mais importantes e necessárias.

2. Para ser um cristão verdadeiro, o homem tem de se ocupar da religião e do


serviço de Deus com muita determinação e diligência, como se fossem a obra a
que ele se dedica em primeiro lugar e acima de tudo na vida. Todo o povo de
propriedade exclusiva de Cristo não só pratica boas obras, mas também as
executa com zelo (Tt 2.14). Ninguém pode servir a dois senhores. Os
verdadeiros servos de Deus entregam-se a seu serviço e fazem disso toda a sua
conduta, empenhando aí todo o coração e a maior parte de suas forças: “Uma
coisa faço” (Fp 3.13, ARC). O cristão não é chamado para o ócio, mas para
trabalhar na vinha de Deus e passar todo o dia prestando um serviço excelente e
laborioso. Todo cristão verdadeiro atende a esse chamado (um chamado eficaz,
como é implícito) e cumpre a obra cristã, que em todo o Novo Testamento é
comparada aos exercícios aos quais os homens aplicam suas forças com mais
dedicação, como, por exemplo, correr ou lutar, tanto com as mãos desarmadas
quanto armadas. Todo verdadeiro cristão é um bom e fiel soldado de Jesus Cristo
e combate o bom combate da fé; pois somente assim obtém a vida eterna.
Aqueles que combatem como quem golpeia o ar nunca conquistam a coroa da
vitória. Muitos correm a corrida, mas um só ganha o prêmio; e os preguiçosos e
negligentes na corrida não correm como quem tem alvo. O reino do céu só se
conquista à força. Sem dedicação, não há como avançar no caminho estreito que
conduz à vida e, portanto, não há como chegar à felicidade e à vida gloriosa a
que esse caminho conduz. Sem trabalho árduo, não há como escalar a íngreme e
altaneira colina de Sião; e não há como chegar à cidade celestial que a coroa.
Sem labor constante, não há como nadar contra a corrente para chegar à fonte da
água da vida onde nasce essa corrente. É necessário vigiar e orar sempre a fim de
escapar às coisas terríveis que acontecerão aos ímpios e para sermos
considerados dignos de estar na presença do Filho do Homem. É preciso vestir a
armadura de Deus e, havendo feito tudo, permanecer firmes a fim de evitar a
derrota completa e a destruição total pelos dardos inflamados do Maligno. É
preciso esquecer tudo o que ficou para trás e avançar para as coisas que estão
adiante, prosseguindo para o alvo do chamado celestial de Deus em Cristo Jesus,
nosso Senhor, a fim de ganhar esse prêmio. Quando atinge um dos que se
chamam servos de Cristo, a preguiça no serviço de Deus é tão maligna quanto a
rebeldia declarada, pois o servo preguiçoso é mau e será lançado nas trevas
exteriores e contado como um dos inimigos declarados de Deus (Mt 25.26-28).
Os preguiçosos não são seguidores dos que, pela fé e paciência, herdam as
promessas. “E desejamos que cada um de vós mostre o mesmo esforço dedicado
até o fim, para a completa certeza da esperança, para que não vos torneis
indiferentes, mas sejais imitadores dos que herdam as promessas por meio da fé
e da paciência” (Hb 6.11,12). E todos os que seguem a nuvem de testemunhas
que os precederam no céu põem de lado tudo o que os impede de prosseguir,
bem como o pecado que facilmente os assedia, para correr com perseverança a
corrida que lhes está proposta (Hb 12.1). A fé verdadeira, mediante a qual as
pessoas confiam na justiça de Cristo e na obra que ele cumpriu por elas e que
verdadeiramente dele se alimentam e por ele vivem, é sempre acompanhada de
espírito de dedicação à obra e à corrida cristã. Isso foi tipificado na antiguidade
no modo que os filhos de Israel comeram o cordeiro pascal: foram instruídos a
comê-lo como quem tem pressa, com os lombos cingidos, as sandálias nos pés e
o cajado na mão: “E vós o comereis assim: com vossos cintos na cintura, vossos
sapatos nos pés e vosso cajado na mão; e o comereis às pressas. Esta é a Páscoa
do SENHOR” (Êx 12.11).

3. Todo verdadeiro cristão persevera nesse caminho de total obediência e


serviço diligente e dedicado a Deus até o fim da vida, em meio às diversas
tribulações que lhe sobrevêm. Todo santo verdadeiro, todo aquele que recebe a
vida eterna, deve perseverar assim na prática da religião e no serviço de Deus,
pois essa é uma doutrina ensinada na Escritura com tanta insistência que citar
um a um os textos específicos que a encerram seria uma tarefa quase infindável.
Dou-me por satisfeito em mencionar alguns em nota de rodapé.39
Contudo, a perseverança na obediência, sobremodo exigida na Escritura
como nota especial da verdade da graça, é a continuidade da prática do dever por
parte de quem professa a religião e sua permanência na jornada santa em meio às
várias provações que se lhes apresentam.
Com “provações” me refiro aqui a tudo o que acontece ao crente, as coisas
com as quais ele depara no decorrer da vida e torna a observância do dever e da
fidelidade a Deus especialmente difíceis para sua natureza. Às vezes, a Escritura
chama essas coisas de “provações”, ou “tentações” (palavras de significado
semelhante). Elas são de vários tipos. Muitas, pela inclinação a acalentar,
fomentar, despertar ou provocar a concupiscência e a corrupção, dificultam a
observância do dever. Algumas apresentam essa dificuldade porque são
sedutoras e inclinadas a estimular as pessoas a pecar ou porque costumam tirar-
lhes o domínio próprio e deixá-las corajosas para cometer a iniquidade. Outras
põem à prova a firmeza e a perseverança do crente porque costumam fazer o
dever parecer-lhe terrível e assim o atemorizam e afastam da perseverança e
firmeza, como, por exemplo, os sofrimentos a que o dever o expõe, a dor, a má
vontade, o desdém, as recriminações ou a perda de bens ou confortos materiais.
Se as pessoas, depois de terem feito profissão da religião, vivem por tempo
suficiente neste mundo tão mutável e tão cheio de maldades, verão ser
impossível não encontrarem muitas situações que lhes põem à prova a
sinceridade e a perseverança. Além disso, é da natureza de Deus, por sua
providência, impor provações a seus amigos e servos a fim de lhes manifestar o
estado em que se encontram e dar mostras suficientes da convicção deles, muitas
vezes também para o mundo ver. Isso é comprovado por inúmeras passagens da
Escritura.
Os santos verdadeiros podem até ser culpados de alguns tipos e graus de
reincidência no erro, ser frustrados por determinadas tentações e cair em pecado,
até mesmo em grandes pecados, mas nunca podem cair a ponto de se cansarem
da religião e do serviço de Deus e passar a detestá-los e negligenciá-los como
hábito, quer por si mesmos, quer pelas dificuldades próprias dessas
circunstâncias, conforme deixam claro os textos de Gálatas 6.9, Romanos 2.7,
Hebreus 10.36, Isaías 43.22 e Malaquias 1.13. Os santos não podem jamais
retroceder e reincidir no erro a ponto de abandonarem o caminho da obediência
total ou de deixarem de observar todas as leis do cristianismo e cumprir todos os
deveres que deles se exigem, inclusive os mais difíceis e nas mais difíceis
circunstâncias. Isso está copiosamente expresso em tudo que já observamos.
Tampouco eles jamais podem cair a ponto de adquirir o hábito de se ocupar mais
de outras atividades e menos da religião, ou de adquirir o hábito de servir mais a
outros senhores que a Deus; ou ainda de deixar de servir a Deus com a dedicação
e a diligência que normalmente se devem devotar ao serviço da religião. Se
assim não fosse, cairiam por terra as palavras de Cristo: “Ninguém pode servir a
dois senhores”, bem como as do apóstolo: “Quem quiser ser amigo do mundo se
põe na posição de inimigo de Deus”; se assim não fosse, o santo poderia trocar
de Deus e não obstante ser um santo verdadeiro. O santo verdadeiro também não
pode jamais cair a ponto de não haver nenhuma diferença notável em sua
caminhada e conduta entre os dias seguintes à sua conversão e os dias que a
antecederam. Quem é verdadeiramente convertido é novo homem, nova criatura,
não apenas interiormente, mas também por fora. É santificado em todo o seu ser,
espírito, alma e corpo. As coisas velhas já passaram, e surgiram coisas novas; o
convertido genuíno tem um novo coração, novos olhos, novos ouvidos, nova
língua, novas mãos e novos pés, ou seja, tem palavras novas nos lábios e novos
atos; ele caminha nessa vida nova e nela persevera até o fim de sua existência
terrena. Por sua vez, os que caem e abandonam expressamente esse proceder
mostram que jamais ressuscitaram com Cristo. Quando, sobretudo, isso ocorre
por acharem que já são convertidos e, portanto, seguros, trata-se de sinal
evidente de hipocrisia, quer tornem a cair nos antigos pecados, quer caiam em
algum tipo novo de maldade — caso em que a natureza corrompida, em vez de
se mortificar, simplesmente passa a correr num novo leito. É o caso daqueles que
se supõem convertidos e, embora não recaiam na libertinagem nem no mau
proceder que antes os caracterizavam, acabam, pela alta estima que têm de suas
experiências, graças e privilégios, endurecendo-se cada vez mais, numa
mentalidade de orgulho espiritual e confiança nas próprias obras, atos e palavras
que brotam naturalmente dessa mentalidade. Quando isso ocorre a alguém, é
suficiente para condená-lo, por mais distante que essa pessoa pareça de suas
práticas malignas anteriores; e pode deixar seu último estado muito pior que o
primeiro. É o que parece ter acontecido com os judeus da geração perversa de
que Cristo fala (Mt 12.43-45), os quais, despertos pela pregação de João Batista
e instados a reformar seus costumes licenciosos, lançaram fora o espírito
maligno, limparam e arrumaram a casa; no entanto, vazios de Deus e da graça,
enfatuaram-se, formaram opinião elevada acerca de sua justiça própria e
relevante santidade, e habituaram-se à conduta de autoexaltação, trocando os
pecados dos publicanos e das prostitutas pelos pecados dos fariseus e, no fim,
levando para dentro de casa sete demônios piores que o primeiro.
Com isso expliquei a que prática e frutos me refiro quando digo que as
afeições da graça mostram suas ações e seus frutos na prática cristã.
O motivo por que as afeições da graça têm essa inclinação e esse efeito
evidencia-se em muito do que já foi observado nas seções anteriores deste
tratado.
É porque as afeições da graça nascem das ações e influências espirituais e
porque o princípio interior do qual fluem é divino, comunicado por Deus, é
participação da natureza divina, é Cristo vivendo no coração, o Espírito Santo
habitando-o, em união com as faculdades da alma como princípio vital interior
manifestando sua natureza própria no exercício dessas faculdades. Isso basta
para nos mostrar por que a graça verdadeira tem essa atividade, esse poder e
eficácia; ela tem a onipotência a seu favor. Se Deus habita o coração e está
crucialmente unido a ele, demonstrará que é Deus pela eficácia de sua ação.
Cristo não habita o coração de um santo como se habitasse um sepulcro ou como
se fora um Salvador morto, que nada faz, mas habita-o como num templo e
como quem ressuscitou dos mortos. No coração em que habita sua presença
salvadora, Cristo vive e age com o poder da vida eterna que recebeu na
ressurreição. Por isso, todo santo que recebe os benefícios dos sofrimentos de
Cristo conhece e vive o poder da sua ressurreição. O espírito de Cristo, fonte
imediata da graça no coração, é todo vida, poder e ato: “Em demonstração do
poder do Espírito” (1Co 2.4); “O nosso evangelho não chegou a vós somente
com palavras, mas também com poder, com o Espírito Santo” (1Ts 1.5); “Porque
o reino de Deus não consiste em palavras, mas em poder” (1Co 4.20). Por isso,
as afeições salvadoras, conquanto às vezes não sejam tão ruidosas e
espalhafatosas quanto as outras, são sólidas, têm vida e força oculta mediante as
quais tomam o coração e o arrebatam, fazendo-o como se cativo fosse (2Co
10.5) e dando à vontade a plena e perseverante determinação de buscar a Deus e
a santidade: “Teu povo se apresentará de livre vontade no dia das tuas batalhas”
(Sl 110.3). É assim que as afeições santas têm o poder de dirigir o curso da vida
do homem. Conforme se apresenta aos olhos, uma estátua pode até se parecer
com uma pessoa real, mesmo uma pessoa bela; pode assemelhar-se a uma pessoa
bem viva, forte e ativa, mas lhe falta um princípio interior de vida e vigor, por
isso ela nada faz, nada produz, não age nem opera conforme sua aparência. As
falsas revelações e afeições não têm profundidade suficiente para alcançar e
dirigir a fonte das ações e práticas do homem. A semente em solo pedregoso não
pôde atingir a profundidade do solo, por isso sua raiz não penetrou na terra o
suficiente para que ela se nutrisse e produzisse frutos. As afeições da graça, por
sua vez, alcançam o fundo do coração e tomam posse das mais íntimas fontes de
vida e atividade. Nisso se manifesta sobretudo o poder da verdadeira piedade, a
saber, na eficiência e prática. Nesse aspecto, a eficiência da piedade é aquilo que
o apóstolo menciona quando fala do poder da religiosidade (2Tm 3.5), como se
percebe com facilidade, pois aí ele é específico ao declarar que certas pessoas,
meras professantes da religião, deixam escandalosamente de praticá-la. Em
seguida, no versículo 5, observa que, com essa prática profana, elas negam o
poder da piedade, conquanto tenham aparência de piedosas. Com efeito, o poder
da piedade se exerce em primeiro lugar dentro da própria alma, na atividade viva
e perceptível das afeições da graça. Não obstante, a principal evidência do poder
da piedade está na atividade e nas práticas das afeições santas. As afeições santas
vencem a vontade do homem, subjugam suas concupiscências e iniquidades, e o
dirigem no caminho da santidade em meio a todas as tentações, dificuldades e
oposições.
De novo, o motivo por que as afeições da graça têm efeito e são exercidas na
prática cristã é que (como já foi mencionado) o primeiro fundamento objetivo
das afeições da graça é a natureza de excelência transcendental e atrativa das
coisas divinas tais como são em si mesmas, e não uma possível relação que elas
tenham ou venham a ter com o eu ou com o interesse próprio. Isso explica por
que as afeições santas tornam o homem santo em toda a sua conduta. O que faz
os homens praticarem a religião apenas em parte é eles buscarem a si mesmos na
religião, não a Deus, e seguirem a religião não pela excelência de sua natureza,
mas tão somente para obterem alguma vantagem. Quem segue a religião apenas
para obter vantagem seguirá só os aspectos da religião que acredita servirem a
tal propósito; mas quem segue a religião por causa da sua natureza excelente e
amável, segue tudo quanto tem essa natureza. Em suma, quem abraça a religião
pela religião a abraça por inteiro. Isso também explica por que as afeições da
graça levam os homens a praticar a religião a todo tempo e com perseverança. A
religião pode se alterar em muitos aspectos com o passar do tempo no que se
refere à compatibilidade com os interesses particulares dos homens. Por isso,
quem obedece somente por interesse egoísta é propenso, com a mudança dos
tempos, a abandoná-la. Mas a natureza excelente da religião tal como é em si é
invariável; é sempre a mesma em qualquer tempo e em todos os aspectos.
O motivo por que as afeições da graça redundam em prática santa também
tem relação com a excelência das coisas divinas que, como observamos, é o
fundamento de todas as afeições santas, isto é, a excelência moral, ou a beleza de
sua santidade. Não admira que um amor puro pela santidade disponha as pessoas
a praticar a santidade e tudo o que é santo. Uma vez que a santidade é o objeto
principal que estimula, atrai e rege todas as afeições da graça, não admira que
essas afeições também, elas próprias, se inclinem para a santidade. O que os
homens amam é o que também desejam ter, a ele se unir e por ele ser tomados. A
beleza que apraz aos homens é a beleza com que desejam adornar-se; os homens
necessariamente se inclinam a praticar os atos em que se deleitam.
O que antes foi dito acerca do ensino divino e da direção do Espírito de
Deus, o que existe nas afeições da graça, mostra por que essas afeições se
inclinam na direção de uma prática absolutamente santa. Como se observou, o
Espírito Santo, no seu divino ensinamento e direção, dá à alma o senso natural
do dulçor das coisas santas, de modo que, quando age, produz desgosto e
repugnância por tudo o que é profano.
O mesmo também se aplica ao que já foi observado a respeito da natureza do
conhecimento espiritual, que é o fundamento de todas as afeições santas, uma
vez que consiste no senso e na percepção da excelência suprema e transcendente
da santidade das coisas divinas. Por meio desse conhecimento, tais coisas
parecem, mais que quaisquer outras, dignas da escolha e da devoção do homem.
Ao contemplar a glória transcendente de Cristo, os verdadeiros cristãos
entendem que ele é digno de ser seguido e, assim, são poderosamente atraídos
por ele. Entendem que ele é digno de abandonarem tudo por ele; ao contemplar
sua superlativa atratividade, eles se dispõem a sujeitar-se a ele por completo,
dedicam-se a trabalhar com afinco em seu serviço e, em nome dele, aceitam
suportar qualquer dificuldade. A revelação dessa divina excelência em Cristo os
faz ter por ele um amor imarcescível. A impressão que essa excelência lhes
provoca na mente é tão profunda que eles já não podem esquecê-lo e o seguirão
aonde quer que vá, de modo que todas as tentativas de os afastar dele estão
fadadas ao fracasso.
O motivo dessa inclinação prática e da produção das afeições da graça tem
relação, ainda, com algo que já se observou: essas afeições são acompanhadas de
plena convicção do juízo e da certeza das coisas divinas. Não é de admirar que
quem jamais teve plena convicção da realidade das coisas da religião não se dê o
trabalho de a praticar assídua, perseverante e completamente em meio às
dificuldades, renúncias e sofrimentos; alguém assim não confia em nada daquilo
de que não tem convicção. Por outro lado, quem está plenamente convicto da
verdade dessas coisas é necessariamente dirigido por elas na prática. As coisas
reveladas na Palavra de Deus são tão grandes e tão infinitamente mais
importantes que todas as outras, que à natureza do homem é incoerente acreditar
plenamente na verdade delas, mas não se influenciar por elas acima de tudo na
conduta de vida.
Mais uma vez, o motivo dessa expressão e do efeito das afeições santas na
prática tem relação com o que se observou acerca da mudança de natureza que
acompanha tais afeições. Sem mudança de natureza, a prática do homem não
muda cabalmente. Enquanto a árvore não for transformada para ser boa, seu
fruto não será bom. Não se colhem uvas dos espinheiros nem figos dos abrolhos.
O porco pode ser lavado e parecer limpo por um tempo, mas, se sua natureza não
mudar, voltará a chafurdar na lama. A natureza é o princípio de ação mais
poderoso do que todos a que a ela se opõe; embora seja temporariamente contida
pela violência, acabará por fim superando o que a restringe. Como a torrente de
um rio, pode ser contida por um tempo com uma barragem, mas, se nada for
feito para secar a nascente, o curso da água não ficará retido para sempre, voltará
a fluir, quer no leito original, quer num leito novo. A natureza é mais constante e
mais permanente do que tudo quanto serve de fundamento para a reforma e a
retidão dos homens carnais. Quando o homem natural nega sua concupiscência,
leva uma vida religiosa austera e parece humilde, minucioso e sério com a
religião, isso não é natural. É uma força que se opõe à natureza, como quando se
lança com muito ímpeto uma pedra para o alto, mas essa força aos poucos
enfraquece e se esgota, ao passo que a natureza, sem perder nem um pouco de
força, acaba prevalecendo, mas a pedra volta e cai. Enquanto a natureza
corrompida não for mortificada, mas, ao contrário, permanecer intacta dentro do
homem, é vão ter esperança de que ela não passe a governar a pessoa. Porém, se
a velha natureza for mortificada e uma natureza nova e celestial for infundida,
pode-se esperar que os homens andem em novidade de vida e continuem assim
até o fim de seus dias.
Outra razão desse exercício prático e do efeito das afeições santas pode ser
observada em parte no que já foi dito acerca do espírito de humildade que
acompanha essas afeições. Humildade é o componente principal do espírito de
obediência. O espírito soberbo é um espírito rebelde, enquanto o espírito
humilde é dócil, submisso e obediente. Entre os homens vemos que o servo de
espírito arrogante não costuma ser submisso e obediente em tudo à vontade do
senhor; com o servo de espírito humilde é o contrário.
O espírito de cordeiro ou de pomba, já mencionado, que acompanha todas as
afeições religiosas, cumpre todos os deveres da segunda tábua da Lei (como
observa o apóstolo em Romanos 13.8-10 e Gálatas 5.14). A moralidade cristã e a
prática externa do cristianismo consistem em grande medida nesses deveres.
O motivo por que as afeições da graça são acompanhadas dessa obediência
rigorosa, total e constante de que falamos tem relação com o que já foi
observado acerca da sensibilidade de espírito que acompanha as afeições dos
verdadeiros santos e lhes provoca uma sensação rápida e viva de dor na presença
do mal moral, bem como de pavor ante a aparência do mal.
Um importante motivo por que a prática cristã oriunda das afeições da graça
é completa, constante e perseverante decorre do que já se observou acerca dessas
mesmas afeições: elas são plenas e constantes em todas as suas santas atividades,
em relação a todos os objetos, em todas as circunstâncias e em todas as épocas,
sendo caracterizadas pela beleza da simetria e das proporções.
Por fim, boa parte dos motivos por que as afeições santas se expressam e se
manifestam nessa dedicação, atividade, empenho e perseverança na vida santa
tem relação, como já se observou, com o apetite espiritual e o anseio por novos
êxitos na religião, apetite e anseio que sempre acompanham as afeições
verdadeiras e não diminuem, mas, sim, aumentam à medida que as afeições
também aumentam.
Logo, vemos que o pendor das afeições santas para a prática cristã, como já
foi explicado, decorre de cada uma das características dessas afeições
anteriormente comentadas neste tratado.
E esse ponto pode ser mais bem exemplificado e confirmado se for levado
em conta que as Sagradas Escrituras atribuem prodigamente sinceridade e
solidez à religião quando se decide escolher Deus plenamente como nosso
Senhor e nosso quinhão, e abandonar tudo por ele com plena determinação da
vontade de seguir a Deus e a Cristo, com disposição para pagar o preço; elas
identificam essa sinceridade e essa solidez com a adoção em nosso coração da
religião de Jesus Cristo e com a obediência prestada a todo o seu conteúdo,
abraçando-a com todas as suas dificuldades e menosprezando os prazeres
terrenos que nos são mais caros, odiando até a nossa própria vida em favor de
Cristo, entregando-nos a Cristo total e definitivamente com tudo o que temos e
somos, sem poupar nada nem guardar nenhuma reserva para nós mesmos; ou,
resumindo, com o grandioso dever de negar a nós mesmos por Cristo, isto é, nos
desapossar de tudo e renunciar a nós mesmos por ele, transformando-nos em
nada para que ele seja tudo. Sobre isso, consultem-se os textos indicados na nota
de rodapé.40 Ora, ter a coragem de abandonar tudo por Cristo implica abandonar
realmente tudo por ele se formos deparados com essa necessidade e prova. Ter
coragem de negar a nós mesmos por Cristo implica nos negarmos de fato quando
Cristo e o nosso interesse próprio estiverem em lados opostos. Entregar-se sem
reservas, com tudo o que se tem no coração, significa comportar-se totalmente
como alguém que pertence a Cristo, é sujeito à sua vontade e se dedica à
realização dos objetivos dele. Nosso coração abraçar por inteiro a religião de
Jesus, com tudo o que a acompanha e com todas as suas dificuldades, aceitando
deliberadamente os custos disso, implica nos dedicarmos plenamente a essa
religião com nossos atos e palavras e suportar com paciência e perseverança
todas as dificuldades que encontrarmos em nossa prática.
A inclinação da graça no coração para a prática santa é muito direta, e é a
ligação mais natural, mais íntima e necessária. A graça verdadeira não é algo
inativo. Pelo contrário, não há nada no céu ou na terra mais ativo, pois ela é a
própria vida do tipo mais ativo: a vida espiritual e divina. Não é estéril, pois não
há nada no universo que por natureza seja mais apto a frutificar. A piedade do
coração tem relação tão direta com a prática quanto a nascente tem relação com
o rio ou quanto a natureza radiante do sol tem que ver com os seus raios, ou
quanto a vida tem relação com a respiração ou com o pulsar do coração ou
qualquer outra função vital, ou ainda quanto qualquer hábito ou princípio de
ação tem que ver com a própria ação. Faz parte da própria natureza e ideia da
graça como princípio de prática ou ação santa. A regeneração, que é obra de
Deus mediante a qual a graça se infunde, tem relação direta com a prática, pois
esta é a sua finalidade, é aquilo por que toda a obra é constituída. Nessa
mudança poderosa e multifacetada que se opera na alma, tudo é calculado e
constituído para se dirigir diretamente a esse fim: “Pois fomos feitos por ele,
criados em Cristo Jesus para as boas obras” (Ef 2.10). Essa é a própria finalidade
da redenção em Cristo, “que se entregou a si mesmo por nós para nos remir de
toda a maldade e purificar para si um povo todo seu, consagrado às boas obras”
(Tt 2.14). “Ele morreu por todos para que os que vivem não vivam mais para si
mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou” (2Co 5.15);
“quanto mais o sangue de Cristo, que, imaculado, por meio do Espírito eterno
ofereceu-se a si mesmo a Deus, purificará das obras mortas a vossa consciência,
para servirdes o Deus vivo!” (Hb 9.14); “A vós também, que no passado éreis
estrangeiros e inimigos no entendimento por causa das vossas obras más, agora
ele vos reconciliou no corpo da sua carne, pela morte, a fim de vos apresentar
santos, inculpáveis e irrepreensíveis diante dele” (Cl 1.21,22). “Sabendo que não
foi com coisas perecíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa
maneira fútil de viver” (1Pe 1.18); “de conceder-nos que, libertados da mão de
nossos inimigos, o cultuássemos sem medo, em santidade e justiça em sua
presença, todos os dias da nossa vida” (Lc 1.74,75). Deus reiteradamente
menciona a santa prática como a finalidade do grande tipo da redenção que foi a
libertação dos cativos do Egito. É o que lemos em Êxodo 4.23: “Deixa meu filho
ir, para que me cultue”, assim como em 7.16, 8.1, 8.20, 9.1, 9.13 e 10.3. João
15.16 também declara que essa é a finalidade da eleição: “Não fostes vós que me
escolhestes; pelo contrário, eu vos escolhi e vos designei a ir e dar fruto, e fruto
que permaneça”; “Como também nos elegeu nele, antes da fundação do mundo,
para sermos santos e irrepreensíveis diante dele em amor” (Ef 1.4); “Fomos
feitos por ele, criados em Cristo Jesus para as boas obras, previamente
preparadas por Deus para que andássemos nelas” (2.10). A prática santa é a
finalidade de tudo o que Deus faz por seus santos, do mesmo modo que o fruto é
a finalidade de tudo o que o agricultor faz pelo crescimento de sua vinha — essa,
aliás, é uma representação reiterada da questão na Escritura (Mt 3.10;
13.8,23,24-30,38; 21.19,33,34; Lc 13.6; Jo 15.1,2,4-6,8; 1Co 3.9; Hb 6.7,8; Is
5.1-8; Ct 8.11,12; Is 27.2,3).41 Portanto, tudo o que existe no verdadeiro cristão é
planejado para alcançar essa finalidade. O fruto da prática santa é a finalidade
primeira de todas as graças, todas as revelações e todos os elementos da
experiência cristã.
A relação constante e indissolúvel entre o princípio cristão e a profissão da
fé cristã dos verdadeiros santos, de um lado, e o fruto da prática santa na vida
deles, de outro, foi tipificada na antiguidade pelo candelabro de ouro no templo.
Esse candelabro de ouro, com sete braços e sete lâmpadas, sem dúvida era um
tipo da igreja de Cristo. O próprio Espírito Santo se dignou eliminar toda dúvida
a esse respeito representando sua igreja com um candelabro de ouro com sete
lâmpadas no capítulo 4 de Zacarias e representando as sete igrejas da Ásia com
sete candelabros de ouro no capítulo 1 de Apocalipse. O candelabro de ouro do
templo era todo recoberto, em todas as partes, de cálices e botões (Êx 25.31ss. e
Êx 37.17-24). No original, a palavra traduzida por “botão” significa maçã ou
romã. O padrão era um cálice e um botão de flor, um cálice e um botão de flor;
sempre que houvesse um botão de flor, havia com ele uma maçã ou romã. Isto é,
era constante e infalível a relação entre a flor e o fruto. A flor continha os
princípios do fruto e, com sua bela aparência, sinalizava sua promessa. Essa
aparência jamais enganava: o princípio ou primeira manifestação do fruto era
sempre acompanhado ou sucedido por um fruto efetivo.
O mesmo ocorre na igreja de Cristo. O princípio do fruto é a graça no
coração; a profissão agradável de ouvir são os botões de flor no candelabro; e o
fruto é a prática cristã, que sempre acompanha esse princípio e a profissão.
Cada ramo do candelabro, composto de maçãs e flores de ouro, era coroado
por uma lâmpada ardente e brilhante. É assim que os santos brilham como luzes
no universo: professando a religião com beleza e bondade e associando para
sempre a essa profissão os frutos da prática, de acordo com o que diz nosso
Salvador: “Nem os que acendem uma candeia a colocam debaixo de um cesto,
mas no velador, e assim ilumina a todos que estão na casa. Assim resplandeça a
vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem
vosso Pai, que está no céu” (Mt 5.15,16). Desse modo, constatamos que as
maçãs e as flores não adornavam apenas o candelabro do templo, mas também o
próprio templo, que é um tipo da igreja — e esta, segundo o apóstolo, é o templo
do Deus vivo. Observe 1Reis 6.18: “O interior do templo era de cedro, com
figuras entalhadas de frutos e flores abertas” (NVI). Os ornamentos e capitéis
das colunas na entrada do templo eram do mesmo tipo: havia lírios e romãs, ou
seja, flores e frutos juntamente (1Rs 7.18,19). O mesmo ocorre com todos os que
são colunas no templo de Deus, dele nunca mais sairão nem serão expulsos por
serem intrusos; assim ocorre com todos os santos verdadeiros: “Farei do
vencedor uma coluna no templo do meu Deus, de onde jamais sairá” (Ap 3.12).
Ao que tudo indica, essas coisas também são representadas pelos
ornamentos no manto do colete, as vestes do sumo sacerdote Arão; também
esses ornamentos eram romãs e campainhas de ouro. Está claro que o manto do
colete de Arão representava a igreja ou os santos (que são o manto de Cristo),
pois isso é expresso com meridiana clareza: “Como é bom e agradável os irmãos
viverem em união! É como o óleo precioso sobre a cabeça, que desce para a
barba, a barba de Arão, e desce sobre a gola das suas vestes” (Sl 133.1,2). O
colete de Arão tinha o mesmo significado da túnica inconsútil de Cristo, nosso
sumo sacerdote. Assim como a túnica de Cristo não tinha costura, mas era toda
tecida de alto a baixo, assim também era o colete (Êx 39.22). E assim como
Deus, em sua providência, cuidou para que a túnica de Cristo não fosse rasgada,
assim também cuidou para que o colete não se rompesse (Êx 28.32; 39.23). As
campainhas de ouro no colete representam, pelo material precioso e pelo som
agradável, a profissão de fé dos santos; e as romãs representam o fruto que eles
dão. Assim como as campainhas e as romãs se intercalavam na borla do colete
— observa-se que havia sempre uma campainha de ouro e uma romã, uma
campainha de ouro e uma romã (Êx 28.34; 39.26) — assim também ocorre nos
verdadeiros santos: sua profissão de fé e seus bons frutos andam constantemente
de mãos dadas. O fruto que produzem na vida corresponde sempre ao som
agradável da profissão de fé que fazem com a boca.
Mais uma vez, a mesma coisa é representada pela descrição que Cristo faz
de sua esposa: “A tua cintura é como um monte de trigo, cercado de lírios” (Ct
7.2). Aqui, de novo se veem as belas flores e o bom fruto acompanhando uns aos
outros. Os lírios eram belas flores; e o trigo, bom fruto.
Assim como esse fruto da prática cristã sempre se