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FOLHA DE ROSTO

Título:
Princípio da indisponibilidade da saúde do trabalhador: primazia da vida em detrimento da
perversão do capital

Nome completo e um breve histórico do autor:


Wagson Lindolfo José Filho
Juiz do Trabalho Substituto do Tribunal Regional do Trabalho da 14ª Região. Pós-graduado
em Direito do Trabalho pela Universidade Católica Dom Bosco. Pós-graduado em Direito
Constitucional pela Universidade Federal de Goiás. Mestrando em Ciência Jurídica pela
UNIVALI-SC/Universidad de Alicante-España.
PRINCÍPIO DA INDISPONIBILIDADE DA SAÚDE DO TRABALHADOR:
PRIMAZIA DA VIDA EM DETRIMENTO DA PERVERSÃO DO CAPITAL

RESUMO
Pretende-se com o presente artigo traçar um breve esboço argumentativo do direito
fundamental do trabalhador de exercer a sua atividade laborativa em um contexto de meio
ambiente do trabalho digno, seguro e saudável, especificamente para definir a base conceitual
do relevante Princípio da Indisponibilidade da Saúde do Trabalhador. A questão relativa à
qualidade de vida no trabalho é preceito fundamental de um Estado Socioambiental e
Democrático de Direito em que a atividade empresarial deve primar, antes de tudo, pelo
respeito à vida em prejuízo de um lucro abusivo, sempre de forma constante e progressiva.
Busca-se uma nova visão de proteção prevencionista não mais calcada na monetização dos
riscos da produção.
PALAVRAS-CHAVE: Indisponibilidade. Saúde. Meio ambiente do trabalho.

INTRODUÇÃO

A saúde, sobretudo do elemento humano que presta serviços por conta alheia, é
alçada como valor fundamental a ser observado em todas as atividades empresariais, de
responsabilidade social do Estado, inclusive como vetor promocional de qualidade de vida no
trabalho. Daí tem-se a importância do estabelecimento das bases conceituais e axiológicas do
meio ambiente de trabalho equilibrado para se evitar o surgimento de acidentes e doenças
ocupacionais, bem como extirpar os efeitos deletérios do trabalho perverso (insalubre,
periculoso e penoso).

O presente artigo, portanto, pretende traçar um breve esboço argumentativo a


respeito de um dos princípios mais relevantes do Direito ambiental do trabalho, qual seja o
Princípio da Indisponibilidade da Saúde do Trabalhador, propondo uma reflexão sobre o seu
significado e alcance jurídico. Para tanto, quanto à metodologia adotada, seguem-se os
ensinamentos de Pasold1, utilizando-se na fase de investigação, o método indutivo, e na fase
de tratamento de dados o método cartesiano.

1 PASOLD, César. Metodologia da Pesquisa Científica. 11. ed. Florianópolis: Editora Conceito, 2008.
GENERALIDADES DO MEIO AMBIENTE

Ab initio, para um estudo mais profícuo que compreenda a complexa estrutura


fenomênica do chamado “meio ambiente”, é preciso lançar mão de uma compreensão mais
vasta e de inarredável perspectiva sistêmica. Trata-se de um instituto poliédrico e transversal,
abrangendo pesquisas temáticas de diversas áreas jurídicas, tanto de disciplinas de direito
público quanto de direito privado, revelando uma taxinomia bastante peculiar, cujo escopo
norteia-se na interação do homem com a natureza, tudo em prol da proteção da vida na Terra,
em todas as suas formas e nuanças.

Nessa coexistência simbiótica, e muitas vezes paradoxal, a ação humana promove


suas alterações no código-fonte natural para o atendimento das mais variadas necessidades e
interesses surgidos ao longo de sua existência. Para que se tenha um meio ambiente
ecologicamente equilibrado, é preciso compatibilizar o crescimento econômico com a
conservação ambiental2, mas sem se descurar do estabelecimento de uma verdadeira política
de equidade social.

Um dos grandes desafios das sociedades contemporâneas é, sem qualquer laivo de


dúvidas, compatibilizar o desenvolvimento econômico advindo da globalização com a
esgotabilidade dos recursos naturais do planeta. Primar por uma deturpada “visão
cornucopiana”3 demonstra uma incapacidade de temperança com os anseios presentes e
desapego a um altruísmo salutar para com as futuras gerações. A salvaguarda do meio
ambiente visa, portanto, regular a economia, impondo limites para uma degradação

2 Segundo o SNUC, conservação da natureza é o manejo do uso humano da natureza, compreendendo a


preservação, a manutenção, a utilização sustentável, a restauração e a recuperação do ambiente natural, para
que possa produzir o maior benefício, em bases sustentáveis, às atuais gerações, mantendo seu potencial de
satisfazer as necessidades e aspirações das gerações futuras, e garantindo a sobrevivência dos seres vivos em
geral. (BRASIL. Lei 9.985, de 18 de julho de 2000. Regulamenta o art. 225, § 1o, incisos I, II, III e VII da
Constituição Federal, institui o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza e dá outras
providências. Brasília-DF, 2000.)
3 BENJAMIN, Antônio Herman. Direito Constitucional Ambiental brasileiro. In: CANOTILHO, José
Joaquim Gomes; LEITE, José Rubens Morato (Org.). Direito Constitucional Ambiental Brasileiro. 5ª ed. São
Paulo: Saraiva, 2012, p. 135.
desenfreada e inconsequente (Derecho de límites)4, tudo em prol da própria manutenção da
vida humana e da chamada “função social e ecológica da propriedade”5.

Destarte, privilegia-se, neste artigo, por uma formulação holística do meio


ambiente, englobando todo o conjunto de interações entre o componente natural e o homem, o
que necessariamente induz a aceitação de um “antrocentrismo alargado”, espraiado por todo
ordenamento jurídico brasileiro, com a consequente manutenção e valorização da qualidade
de vida humana.

VALORIZAÇÃO DO MEIO AMBIENTE DO TRABALHO

O trabalho é energia ou atividade humana utilizada em prol da transformação da


matéria-prima em bens suscetíveis de consumo, visto como “produtor de valores de uso, é
expressão de uma relação metabólica entre o ser social e a natureza” 6. Tem-se, pois, que o
trabalho é algo intrínseco da “práxis social”, identificando-se com o estudo da vida em
sociedade, já que a natureza é amoldada para a própria subsistência do elemento humano.

Após as mazelas advindas do uso intensivo de mão de obra no período da


revolução industrial, etapa em que os acidentes e as doenças ocupacionais aumentaram em
proporção direta à evolução dos meios de produção, passou-se a dar maior ênfase à chamada
“questão social”, ou seja, “a repercussão social da transformação econômica das relações de
trabalho”7 O trabalho alheio, a partir daí, é visto como imprescindível fator de produção no
mundo capitalista, determinando o estilo de vida, as condições de saúde e, não raras vezes, a
forma de morte do indivíduo.

Hodiernamente, há uma constante ressignificação da categoria trabalho. Outrora


ligada às ideias de tortura8, passa-se, então, a dignificar o homem enquanto ser social,

4 FERRER, Gabriel Real. La construcción del Derecho Ambiental. In: Revista Aranzadi de Derecho
Ambiental. Pamplona (España), n. 1, v. 1, 2002, p. 73-93.
5 “Artículo 58. (…) La propiedad es una función social que implica obligaciones. Como tal, le es inherente
una función ecológica.” (COLÔMBIA. Constitución Política de Colombia. Bogotá, 1991.)
6 ANTUNES, Ricardo. Os sentidos do trabalho: ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. 10 ed. São
Paulo: Boitempo Editorial, 2009, p. 139.
7 PINTO, José Augusto Rodrigues. Tratado de Direito material do Trabalho. São Paulo: LTr, 2007, p. 5.
8 Origem etimológica da palavra “trabalho” deriva do latim vulgar “tripaliare”, que significa “martirizar com
tripalium” (instrumento de tortura composto de três paus). (BARROS, Alice Monteiro. Curso de Direito do
Trabalho. São Paulo: LTr, 2017, p. 45.)
transcendendo ao apelo meramente mercadológico9 para uma identificação valorativa
mundana. Trata-se de campo essencial para o desenvolvimento do próprio homem (cognição
subjetiva e social), que deixa marcas de sua inserção neste espaço natural, como um
“constructo sempre inacabado”.10

O meio ambiente do trabalho integra o conceito mais amplo de ambiente, de modo


que deve ser considerado como um bem diferenciado e autônomo a ser protegido pelas
legislações para que o trabalhador possa usufruir de uma melhor qualidade de vida 11. A partir
da diretriz que guarda os valores sociais do trabalho como um dos vetores axiológicos mais
importantes do ordenamento jurídico-constitucional (art. 1º, IV, da CF/88), constata-se uma
opção política fundamental no sentido de se resguardar a saúde do indivíduo como um todo,
inclusive no que diz respeito às questões afetas ao labor.

Muito se discute sobre a definição mais adequada do meio ambiente do trabalho,


não havendo consenso doutrinário quanto ao tema, sobretudo por se cuidar de um “conceito
jurídico indeterminado”. Numa primeira ótica, há quem sustente apenas a percepção
geográfica deste instituto, ou seja, caracteriza-o como mero sinônimo de “local de prestação
de serviços”, onde o trabalhador efetivamente desenvolve suas atividades laborais. Nesse
sentido é o clássico escólio de Rodolfo de Camargo Mancuso:

Numa palavra, o meio ambiente do trabalho vem a ser o “habitat laboral”, isto é,
tudo que envolve e condiciona, direta e indiretamente, o local onde o homem obtém
os meios para prover o quanto necessário para a sua sobrevivência e
desenvolvimento, em equilíbrio com o ecossistema.12

Trata-se, entretanto, de realidade deveras complexa e com múltiplas matizes,


irradiando seus efeitos para além do espaço da consecução dos serviços. Assim, o meio
ambiente do trabalho pode ser concebido não apenas como o local estático em que se

9 A OIT afirmou, na Declaração de Filadélfia de 1944, como primeiro princípio fundamental: “O trabalho não
é uma mercadoria”.
10 BORGES, Livia de Oliveira; TAMAYO, Álvaro. A estrutura cognitiva do significado do trabalho. Revista
Psicologia: Organização e Trabalho, Brasília, DF, v. 1, n. 2, p. 11-44, jul./dez. 2001.
11 A qualidade de vida no trabalho (QVT) é “um conjunto de ações de uma empresa que envolve diagnóstico e
implantação de melhorias e inovações gerenciais, tecnológicas e estruturais dentro e fora do ambiente de
trabalho, visando propiciar condições plenas de desenvolvimento humano para e durante a realização do
trabalho”. (ALBUQUERQUE, Lindolfo Galvão e FRANÇA, Ana Cristina Limongi. Estratégias de Recursos
Humanos e Gestão da Qualidade de Vida no Trabalho: o stress e a expansão do conceito de qualidade total.
Revista de Administração, São Paulo, v.33, n.2, p. 40-51, abril/junho 1998.)
12 MANCUSO, Rodolfo de Camargo. Ação Civil Pública Trabalhista: Análise de alguns pontos controvertidos.
Revista do Ministério Público do Trabalho, Brasília, LTr, Ano VI, n. 12, setembro/96.
desenvolve a relação trabalhista “lato sensu”, como também o conjunto dinâmico de fatores
materiais e imateriais que compõe essa mesma atividade13, sendo que tais elementos devem
visar à manutenção da integridade física e da qualidade de vida do trabalhador. “O meio
ambiente do trabalho compreenderia, assim, a inter-relação da força do trabalho humano
(energia) e sua atividade no plano econômico através da produção (matéria), afetando o seu
meio (ecossistema)”.14

Por sua vez, Mônica Maria Lauzid de Moraes, agregando outros fatores à
formulação teórica supramencionada, propõe a seguinte definição:

Meio ambiente do trabalho é o local onde o homem realiza a prestação objeto da


relação jurídico-trabalhista, desenvolvendo atividade profissional em favor de uma
atividade econômica. O trabalhador participa da atividade econômica em interação
com os meios de produção e toda a infra-estrutura necessária ao desenvolvimento da
prestação laboral. Ao conjunto do espaço físico (local da prestação de trabalho ou
onde quer que se encontre o empregado, em função da atividade e à disposição do
empregador) e às condições existentes no local de trabalho (ferramentas de trabalho,
máquinas, equipamentos de proteção individual, temperatura, elementos químicos
etc. - meios de produção) nas quais se desenvolve a prestação laboral denominamos
meio ambiente de trabalho.15

Partindo da descrição geral contida no art. 3º, inc. I, da Lei 6.938/1981, Guilherme
Guimarães Feliciano conceitua, num viés global, o meio ambiente do trabalho como o
“conjunto (= sistema) de condições, leis, influências e interações de ordem física, química,
biológica e psicológica que incidem sobre o homem em sua atividade laboral, esteja ou não
submetido ao poder hierárquico de outrem”16. É uma definição assaz interessante na medida
em que supera aquela concepção enviesada apenas no aspecto físico desta ambiência.

O cenário laboral, como visto, apresenta-se como fenômeno complexo que


engloba uma miríade de elementos que se encontram concatenados em constante movimento,
e como tal necessita ser entendido por inteiro e em diferentes escalas. Assim, à luz da
psicodinâmica do trabalho, para que se possa entender a correta compreensão deste ambiente
singular, deve-se atentar para a subjetividade nas relações de trabalho e sua imbricação nos

13 BRANDÃO, Cláudio Mascarenhas. Acidente do trabalho e responsabilidade civil do empregador. 4. ed. São
Paulo: LTr, 2015, p. 68.
14 PADILHA, Norma Sueli. Do meio ambiente do trabalho equilibrado. São Paulo: LTr, 2002, p. 18.
15 MORAES, Mônica Maria Lauzid de. O direito à saúde e segurança no meio ambiente do trabalho. São
Paulo: LTr, 2002, p. 8.
16 FELICIANO, Guilherme Guimarães. Direito Ambiental do Trabalho: apontamentos para uma teoria geral.
São Paulo: LTr, 2013, p. 13.
fatores de risco (condições de trabalho17, organização do trabalho18 e relações interpessoais19),
tudo em favor de uma estruturação eficaz para a promoção da saúde.

De acordo com este raciocínio, prima-se por uma conceituação de maior


amplitude, conjugando tanto fatores naturais quanto humanos, com absorção do viés
sistêmico do ente ambiental, conforme perspicaz ensinamento de Ney Maranhão:

À vista de tudo o que até aqui se expôs, ousamos então registrar que, a nosso sentir,
juridicamente, meio ambiente do trabalho é a resultante da interação sistêmica de
fatores naturais, técnicos e psicológicos ligados às condições de trabalho, à
organização do trabalho e às relações interpessoais que condiciona a segurança e a
saúde física e mental do ser humano exposto a qualquer contexto jurídico-
laborativo.20

Destarte, no que se refere ao meio ambiente do trabalho, este possui guarida legal
prevista no art. 200, inc. VIII, da CF/88. É um conjunto antrópico singular que congrega
fatores materiais e imateriais relacionados à qualidade de vida no trabalho. Devido a sua
relevância, sobretudo na era da exploração do trabalho alheio no período pós-revolução
industrial, possui autonomia didática e científica, merecendo o devido respaldo jurídico.

CONCEITOS PRINCIPIOLÓGICOS

A palavra princípio deriva do latim “principium”, significando origem, fonte e


começo. Em sua acepção vulgar quer exprimir o primeiro momento da existência de algo, ou
seja, o próprio nascedouro (causa) de qualquer objeto que se pretende analisar.21

17 Por condição de trabalho é preciso entender, antes de tudo, ambiente físico (temperatura, pressão, barulho,
vibração, irradiação, altitude etc), ambiente químico (produtos manipulados, vapores e gases tóxicos, poeiras
fumaças etc), o ambiente biológico (vírus, bactérias, parasitas, fungos), as condições de higiene, de
segurança, e as características antropométricas do posto de trabalho. (DEJOURS, Christophe. A Loucura do
Trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. São Paulo: Cortez Oboré, 1992, p. 25.)
18 Por organização do trabalho designamos a divisão do trabalho, o conteúdo da tarefa (na medida em que ele
dela deriva), o sistema hierárquico, as modalidades de comando, as relações de poder, as questões de
responsabilidade etc. (DEJOURS, Christophe. A Loucura do Trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho.
São Paulo: Cortez Oboré, 1992, p. 25.)
19 São elementos interacionais que expressam as relações profissionais de trabalho. São integrantes dessa
dimensão: (a) as interações hierárquicas; (b) as interações coletivas entre membros da equipe de trabalho e
membros de outros grupos; e (c) as interações externas com usuários, consumidores, fornecedores. (VERAS,
Vanessa Sales; FERREIRA, Mário César. Lidar com gente é muito complicado: Relações Socioprofissionais
de Trabalho e Custo Humano da Atividade em Teleatendimento Governamental. Revista Brasileira de Saúde
Ocupacional, São Paulo, v. 31, n. 114, p. 135-148, 2006.)
20 MARANHÃO, Ney. Poluição Labor-ambiental: Abordagem conceitual da degradação das condições de
trabalho e das relações interpessoais travadas no contexto laborativo. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2017, p.
126.
21 SILVA, De Plácido e. Vocabulário Jurídico. 31. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2014, p. 1660.
Ao se deparar com a principiologia da matéria, o operador do direito deverá se
ater às bases fundamentais e proposições elementares sobre as quais se apoiam toda a
dogmática jurídica. É dizer que o princípio jurídico se trata da causa primeira (alicerce
estrutural) que fundamenta a racionalidade e a lógica do sistema normativo, verdadeira “pedra
de esquina” (angular) que lhe traz sustentação valorativa.

De acordo com as lições preliminares de Miguel Reale:

(...) podemos dizer que os princípios são “verdades fundantes” de um sistema de


conhecimento, como tais admitidas, por serem evidentes ou por terem sido
comprovadas, mas também por motivos de ordem prática de caráter operacional, isto
é, como pressupostos exigidos pelas necessidades de pesquisas e da práxis. 22

Toda a Ciência Jurídica se estrutura por meio de enunciados lógicos que lhe dão
validade, coerência e cadência metodológica. Não há como cogitar a solução de conflitos
judiciais sem o manejo dos princípios, de modo que a temperança nos julgamentos somente é
atingida quando da síntese reflexiva destes (investigação de juridicidade).

Também, segundo a clássica lição do professor Celso Antônio Bandeira de Mello,


princípio é:

Por definição, mandamento nuclear de um sistema, verdadeiro alicerce dele,


disposição fundamental que se irradia sobre diferentes normas, compondo-lhes o
espírito e servindo de critério para sua exata compreensão e inteligência, exatamente
por definir a lógica e a racionalidade do sistema normativo, no que lhe confere a
tônica e lhe dá sentido harmônico.23

Abstrai-se, portanto, de tal ensinamento que estes princípios podem ser definidos
como aqueles verdadeiros preceitos fundamentais que condicionam todas as estruturas
normativas subsequentes. Autênticos elementos vitais (molas propulsoras) do próprio Direito.

Cediço que os princípios gerais e demais enunciados imbuídos de conteúdo moral,


de acordo com doutrina neoconstitucional e pós-positivista, ostentam normatividade. De se
concluir, pois, que toda conduta está sujeita ao crivo do direito principiológico normativo.

22 REALE, Miguel. Lições Preliminares de Direito. 22. ed. São Paulo: Saraiva, 2005, p. 303.
23 MELLO, Celso Antônio Bandeira de. Curso de Direito Administrativo. 30 ed. São Paulo: Malheiros, 2013,
p. 54.
Assim, como autênticos mandamentos de otimização, estes devem ser aplicados da melhor
forma possível, de acordo com as possibilidades fáticas e jurídicas existentes no caso
concreto, sem o comprometimento de sua essência normativa24.

PRINCÍPIO DA INDISPONIBILIDADE DA SAÚDE DO TRABALHADOR

A compreensão fenomênica e o referencial de saúde possuem acentuado toque


subjetivo, variando de acordo com cada momento histórico, sem se descurar inclusive das
possíveis influências culturais a que todo indivíduo se encontra vinculado. Todavia, a
Organização Mundial de Saúde (OMS), inspirada em um modelo holístico, embora não
infenso a diversas críticas e dificuldades de compatibilização prática25, elaborou em 1947 o
conceito contemporâneo de saúde como “o estado de completo bem-estar físico, mental e
social e não apenas a ausência de doença”26.

De acordo com previsão normativa contida no art. 196 da CF/88, a saúde, como
um todo (física, mental e social), é direito de todos cidadãos e dever primordial do Estado,
“garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e
de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção,
proteção e recuperação”27. Trata-se de bem intrínseco ao direito à vida, o que o faz merecer a
adequada e efetiva tutela estatal, na forma preconizada por Marcelene Carvalho da Silva
Ramos:

Oportuno destacar que o direito à saúde tem duas faces: uma, a da preservação da
saúde; outra, a da proteção e recuperação da saúde. O direito à preservação da saúde
tem como contrapartida as políticas que visam à redução do risco de doença,
situando-se o próprio direito a um meio ambiente sadio. Está aqui uma prevenção
genérica, não individualizável, da doença. O direito à proteção e recuperação da
saúde é o direito individual à prevenção da doença e seu tratamento traduz-se no
acesso aos serviços e ações destinados à recuperação do doente. Enquanto o
primeiro é típico direito de solidariedade, o segundo é típico direito fundamental à
prestação positiva.28

24 ALEXY, Robert. Teoria dos direitos fundamentais. Trad. Virgílio Afonso da Silva. 2. ed. São Paulo:
Malheiros, 2008, p. 90.
25 SEGRE, Marco; FERRAZ, Flávio Carvalho. O conceito de saúde. Rev. Saúde Pública, São Paulo, v. 31, n. 5,
p. 538-542, Oct. 1997.
26 OMS. Constituição da Organização Mundial da Saúde. Documentos básicos, suplemento da 45ª edição,
outubro de 2006. Disponível em espanhol: <http://www.who.int/governance/eb/who_constitution_sp.pdf>.
27 BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília-DF, 1988.
28 RAMOS, Marcelene Carvalho da Silva. O direito fundamental à saúde na perspectiva da Constituição
Federal: uma análise comparada. Revista Jurídica da Procuradoria Geral do Estado do Paraná, Curitiba, n. 1,
p. 53-92, 2010.
Com a modernização e a transformação qualitativa do Direito Constitucional, que
se deu propriamente com o advento de nossa atual Carta Magna, a tutela jurídica da saúde do
trabalhador ganhou nova abordagem metodológica, incrementando ainda mais a política de
proteção da vida, sobretudo em virtude da consagração da dignidade da pessoa humana e dos
valores sociais do trabalho como autênticos princípios fundamentais da República Federativa
do Brasil (art. 1º, incisos III e IV, da CF/88).

O princípio da indisponibilidade da saúde do trabalhador se fundamenta na


diretriz essencial de que as normas de medicina e segurança do trabalho são parcelas
imantadas por uma tutela de interesse público primário29, sintetizando-se na promoção do
bem-estar social, a qual um Estado Socioambiental de Direito não concebe ver reduzida em
qualquer segmento econômico-profissional, sob pena de afronta direta à valorização mínima
deferível ao trabalho (arts. 1º, inciso IV e 170, caput, da CF/88).

A proteção legal conferida pelo estuário normativo trabalhista é irrenunciável de


pleno direito, incidindo em benefício de seu detentor, mesmo contra a sua vontade. Devido à
assincronia clássica típica da relação empregatícia, existe certo dirigismo contratual que tem
por finalidade garantir a eficácia diagonal dos direitos fundamentais no contexto
empresarial30. Assim, as normas que encerram as questões de saúde e segurança no trabalho,
sobretudo no que se refere ao núcleo essencial, são infensas à redução ou supressão por
particulares e categorias.

A saúde do trabalhador é, pois, bem jurídico fundamental e constitucionalmente


protegido (art. 200, inc. II, da CF/88)31, possuindo visivo aspecto multifuncional, traduzindo-
se tanto em um dever de concretização pelo Estado, em sua dimensão objetiva de proteção,
bem como na consequente obrigação do empregador em zelar pela incolumidade do
patrimônio físico, psicológico e moral do material humano sob sua subordinação. Essa
salvaguarda se amolda com a previsão do “caput” do art. 7°, da Constituição, que prevê, em

29 ALESSI, Renato. Sistema instituzionale Del diritto amministrativo. 3a Ed. Milano: Giuffè, 1960, p. 197.
30 CONTRERAS, Sergio Gamonal. Cidadania na empresa e eficácia diagonal dos direitos fundamentais. Trad.
Jorge Alberto Araújo. São Paulo: LTr, 2011.
31 “Art. 200. Ao sistema único de saúde compete, além de outras atribuições, nos termos da lei: (…) II -
executar as ações de vigilância sanitária e epidemiológica, bem como as de saúde do trabalhador;”
(BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília-DF, 1988.)
cláusula aberta, a melhoria da condição social do trabalhador, assegurando-lhe a
implementação de um patamar mínimo civilizatório.32

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O meio ambiente do trabalho faz parte do conceito mais amplo de ambiente, de


forma que deve ser considerado como bem a ser protegido pelas legislações para que o
trabalhador possa usufruir de uma melhor qualidade de vida, em todos os seus aspectos físicos
e mentais. Neste viés, percebe-se que o meio ambiente sustentável e sadio do trabalho é um
direito transindividual por ser um direito de todo trabalhador, sem qualquer tipo de predileção
e independentemente de sua vinculação contratual à dinâmica empresarial.

A preservação da incolumidade física e mental de cada trabalhador, além de se


revestir de nítido dever jurídico do empregador, deve nortear uma política prevencionista por
parte do aparato estatal a fim de se garantir o direito fundamental a uma vida digna, segura e
saudável. Assim, a partir de uma interpretação prospectiva e calcada nos valores sociais do
trabalho, o princípio da indisponibilidade da saúde do trabalhador merece ser aplicado na sua
máxima potencialidade para instaurar qualitativamente condições plenas de desenvolvimento
humano para a realização adequada do ofício laboral.

Depreende-se, portanto, que a questão relativa à saúde do trabalhador é


preceito fundamental de um Estado Socioambiental e Democrático de Direito em que a
atividade empresarial deve primar, antes de tudo, pelo respeito à primazia da vida em
detrimento de um lucro abusivo, sempre de forma constante e progressiva. Busca-se uma nova
visão de proteção prevencionista não mais calcada na monetização dos riscos da produção. É
dizer, em outras palavras, que o bem-estar do componente humano prevalece sobre a
perversão do capital.

REFERÊNCIAS DAS FONTES CITADAS

32 DELGADO, Maurício Godinho. Curso de Direito do Trabalho. 17. ed. São Paulo: LTr, 2018, p. 546.
ALBUQUERQUE, Lindolfo Galvão e FRANÇA, Ana Cristina Limongi. Estratégias de
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conceito de qualidade total. Revista de Administração, São Paulo, v.33, n.2, abril/junho 1998.

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