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SINÉIA RANGEL

Rafani

NACIONAIS-ACHEROM
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Rafani ESTE LIVRO CONTÉM CENAS DE VIOLÊNCIA


SEXUAL E PEDOFILIA.
NÃO HÁ ROMANTIZAÇÃO DAS SITUAÇÕES DE ABUSO SEXUAL
E ESTUPROS.

Esta é uma obra de ficção.


Nomes, personagens e acontecimentos descritos sãos produtos da
imaginação da autora. Qualquer semelhança com nomes, datas e
acontecimentos reais é mera coincidência.

São proibidos o armazenamento e/ ou a reprodução de qualquer parte


dessa obra, através de quaisquer meios – tangível ou intangível – sem o
consentimento escrito da autora.

Copyright © 2016 Sinéia Rangel


Todos os direitos reservados.

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Para todas as mulheres que foram violentadas,


física ou psicologicamente, que em algum momento das
suas vidas se sentiram responsáveis pelo abuso a que
foram submetidas, que sofreram em silêncio, por medo e
vergonha, e que acreditaram que esquecer fosse a única
forma de continuar vivendo.

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NOTA DA AUTORA

Quando comecei a escrever esta história tinha uma vaga ideia que seria
uma tarefa difícil, porque um dos temas de fundo é um assunto delicado para
mim, enquanto pessoa.
A ideia nunca foi fazer do abuso sexual o tema central da narrativa, e
continua não sendo, mas há cenas detalhas de violência sexual e pedofilia,
que para alguns leitores pode ser chocante, mas é a realidade de centenas de
mulheres e crianças (incluindo garotos) e considero importante que o leitor
tenha dimensão do impacto psicológico que estas experiências têm sobre
essas pessoas, aqui representadas por personagens fictícios.
Você vai perceber que há muitos segredos que vão sendo revelados
com o avançar das páginas e em dado momento, uma personagem recorda
uma experiência que havia estado esquecida por muito tempo, esse foi o
momento que me permitir pela primeira vez reconhecer que sofri abuso
sexual.
Levei alguns anos para ser capaz de falar sobre essas experiências, foi
um segredo que guardei por toda a minha adolescência, vivia com medo e
desenvolvi respostas psicossomáticas, porque embora não fosse um familiar,
era alguém próximo e que frequentava a minha casa com muita frequência.
No entanto, quando me permiti falar sobre, inclusive em terapia, a
minha fala sempre foi: “sofri tentativas de abuso sexual”. Somente quando
estava escrevendo esta história, foi que percebi que na verdade, não há
tentativas de abuso sexual. Abuso é abuso, independente se há ou não
penetração.
Terminei esse livro com um sentimento de libertação tão grande e ele

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se tornou imensurável quando recebi mensagens, através do Wattpad e


Facebook, de leitoras que foram vítimas de violência sexual e pela primeira
vez se permitiram falar a respeito, porque se sentiram identificadas, porque
perceberam que elas são vítimas e não responsáveis ou cúmplices.

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AGRADECIMENTOS

Obrigada aos leitores do Wattpad, que caíram de paraquedas nessa


história, sem nenhum aviso ou advertência, obrigada por seguirem até o fim,
por aguentarem o tranco comigo;
Obrigada à Malu Oréfice, do blog “Quem Mexeu no Meu Livro?”, por
ter aceitado o convite para escrever o prefácio dessa história, por ter sido
umas das primeiras pessoas a ler este livro e por ter acreditado no Sam e na
Fani;
Obrigada à Cássia Pires, do blog “Meu Cantinho Literário”, por ter me
presenteado com a primeira resenha desse livro e por ter abraçado essa
história e os seus personagens; Obrigado à SCar Miranda, Cinthia Gutierrez e
Marília Lima, do blog “Lunáticas por Romance”, por terem aceitado fazer a
leitura crítica dessa história, por não terem desistindo, mesmo quando
perceberam que o livro tinha uma proposta completamente diferente do que
imaginaram à primeira vista, por terem pontuado a importância de alertar os
leitores sobre os conteúdos que serão abordados e por todos feedbacks, que
me ajudaram a aparar as arestas dessa história e trazer um livro sem excessos.
Scar e Cinthia, não tenho palavras para agradecer a disponibilidade e
atenção de vocês, foram horas durante a madrugada analisando imagens e
títulos, para que livro e capa estivessem em consonância.

Muito obrigada.^^

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Sumário

Prefácio
Prólogo
PARTE I
Capítulo 1
Capítulo 2
Capitulo 3
Capítulo 4
Capítulo 6
Capítulo 5
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16

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Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23
Capítulo 24
Capítulo 25
Capítulo 26
Capítulo 27
Capítulo 28
Capítulo 29
Capítulo 30
Capítulo 31
Capítulo 32
PARTE 2
Capítulo 33
Capítulo 34
Capítulo 35
Capítulo 36
Capítulo 37

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Capítulo 38
Capítulo 39
Capítulo 40
Capítulo 41
Capítulo 42
Capítulo 43
Capítulo 44
Capítulo 45
PARTE 3
Capítulo 46
Capítulo 47
Capítulo 48
Capítulo 49
Capítulo 50
Capítulo 51
Capítulo 53
Capítulo 54
Capítulo 55
Capítulo 56
Capítulo 57
Capítulo 58
Capítulo 59

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Capítulo 60
Capítulo 61
Capítulo 62
Capítulo 63
Capítulo 64
Capítulo 65
Capítulo 66
Capítulo 67
Capítulo 68
Capítulo 69
Capítulo 70
Capítulo 71
Capítulo 72
Capítulo 73
Capítulo 74
Capítulo 75
Capítulo 76
Epílogo

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Prefácio

O livro do Sam era o meu mais esperado por mim e não decepcionou
em nada. Entre todos os livros que já li com mulheres quebradas, Rafani foi o
melhor em disparada!
Sempre nos deparamos com livros onde o mocinho diz que não vai se
apaixonar, mas a gente sabe que ele se apaixona, mas o Sam era um desafio,
porque o amor que chegaria a sua vida, não era nada convencional.
Sinéia conseguiu colocar uma importância absoluta em todos os
personagens, fazendo com que os secundários se tornassem principais em
alguns momentos e isso não atrapalha a narrativa em absolutamente nada, ao
contrário, até que incorpora a história.
Eu queria muito poder contar todos os conflitos que aparecem, mas isso
estragaria a história para quem ainda vai ler, mas uma coisa aprendi com o
Sam e a Fani, o amor é tão mágico e todos merecemos uma segunda (ou até
terceira) basta confiar em si mesmo. Isso foi o que a Fani me passou.
O maior desafio do livro, para quem está acostumado aos clichês é criar
uma empatia com a personagem, porque ela é reflexo de todos os problemas
que enfrentou em sua vida e das suas consequências. Fiquem tranquilos, o
carisma e o amor que sentimos pela Fani vem logo após alguns capítulos. Ela
tem cicatrizes, mas ela é forte, muito forte.
Indico esse livro apenas para quem estiver disposto a encarar um bom
desafio, sair dos romances convencionais e mais que tudo, ficar com uma
p*ta ressaca literária.

Malu Oréfice Blog Quem Mexeu no Meu Livro?


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Prólogo

Carpe diem.
Minha vida, minhas regras. A primeira delas é que a única regra,
verdadeiramente importante, é viver o momento. Levo a sério essa regra, sou
um bon vivant, apaixonado pelas mulheres, por todas elas.
Não sou o tipo de homem que envia flores ou sai em encontros
amorosos, gosto muito mais de encontros casuais, daqueles que terminam
com corpos exaustos, exalando o peculiar perfume de sexo e suor.
Não tenho nada contra o amor, apenas nunca busquei por ele. Sabia que
um dia aconteceria, não acredito que seja possível escapar, meu único desejo
era que ele fosse paciente e me deixasse ser um moleque por mais tempo.
Minha família não tem o melhor dos históricos quando se trata de romances,
é como se para ser feliz, fosse preciso travar uma batalha contra o universo e
vencê-la. Minha esperança era que se conseguisse adiar o encontro com o
amor, poderia ultrapassar o sofrimento, e então poderíamos pular para o final
feliz.
Era um pensamento idiota, mas vocês entenderiam o porquê de me
agarrar a ele, com unhas e dentes, se estivessem estado lá quando o meu
irmão teve o seu coração partido. Lembro que quando entrei no seu quarto e o
vi sentado, olhando fixo para a parede, fiquei com medo da escuridão que
havia nos seus olhos. Eu tinha dez anos e foi naquele momento que decidi
que não iria dar mole para o amor.
Olhando para trás, começo a me perguntar se fui esperto ou medroso
quando lutei para evitar me apaixonar, por mais que tenha me convencido
que era uma decisão inteligente, a verdade é que nunca tive tanto medo de

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algo, como tenho do amor. Meu pai é fantástico, mas o meu irmão é o meu
herói, não consigo imaginar como foi suportar ter o coração partido duas
vezes, ser capaz de perdoar e continuar amando-a, até que ambos estivessem
prontos para estar juntos.
Ou talvez, esteja começando a entender.
Suspiro profundamente, peço licença a mulher sentada ao meu lado,
pego minha mochila embaixo do assento e levanto.
− Senhor, por favor, sente-se. Vamos decolar. – a comissária de bordo
avisa.
− Preciso sair.
− Por favor, o senhor não pode ficar em pé, sente-se e coloque o cinto.
− Não.
− Senhor, o senhor não pode... – a comissária para na minha frente.
− Exatamente, não posso ir embora. – afirmo, interrompendo-a. – Ela
não sabe, mas a amo.

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PARTE I

“A maior parte da nossa vida é uma série de imagens.


Elas passam pela gente como cidades numa estrada,
mas algumas vezes, um momento se congela, e algo acontece.
E nós sabemos que esse instante é mais do que uma imagem.
Sabemos que esse momento, e todas as partes dele
irão viver para sempre”.
One Tree Hill

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Capítulo 1

Sam Allencar Quem um dia irá dizer


Que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração?
E quem irá dizer
Que não existe razão?
Legião Urbana – Eduardo e Mônica

− Você não pode entrar aqui.


Giro nos calcanhares e os meus olhos encontram uma morena de seios
médios e belas pernas, usando apenas um conjunto de calcinha e sutiã preto;
sem renda, sem transparência, e sexy como o inferno.
− Que recepção! – estendo a mão para cumprimentá-la. – Prazer, sou o
Sam.
Ela tenta se esconder, segurando algumas peças de roupas em frente aos
seios.
− Você pode sair, por favor?
− Até poderia, se não estivesse me escondendo da minha irmã. –
umedeço os lábios. – Sem falar, que estou adorando a companhia.
A minha sinceridade a pega de surpresa e ela solta um suspiro de
irritação. Ela tem um tipo de beleza exótica, com seus longos cabelos
castanhos ondulados, lábios carnudos e com traços acentuados. Os olhos
grandes me observam com cautela, percebo que seus olhos têm tonalidades
diferentes; enquanto o direito é castanho claro, quase mel, o esquerdo é verde

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com um pequeno raio castanho claro próximo à pupila e suas sobrancelhas


são marcantes, deixando-a com um ar selvagem.
− Você não pode ficar aqui, é uma área restrita aos funcionários.
− Percebi. – dou de ombros, sem afastar os olhos dela. − O vestiário
feminino, suponho.
− Você pode parar de olhar os meus peitos?
− São lindos. – pisco. – Prefere que olhe as pernas? Ou você pode fazer
um giro, estou curioso quanto à sua bunda.
− Qual o seu problema? – ela revira os olhos.
− Você me deixou duro, mulher.
− Minha nossa, você é um tarado! – ela arregala os olhos. – É melhor
sair ou vou gritar.
− Não faça isso. – dou um passo à frente e ela um para trás. – Só
preciso me livrar da minha irmã, ok? Depois vou embora.
− Quantos anos você tem? Cinco?
− Vinte e cinco. Você pode me dizer o seu nome?
− Não.
− Você não é casada, nem noiva. – sinalizo para as suas mãos. −
Namorado?
− Não estamos tendo essa conversa. – balança a cabeça.
− Por que não?
− Porque não! Por que diabos você está se escondendo da sua irmã?
− Resumindo: peguei algumas das damas de honra, elas
compartilharam a experiência e não ficaram muito felizes quando

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descobriram que não tiveram exclusividade. Acabaram brigando e minha


irmã está bem nervosa.
− Não sei se entendi bem. Você tinha ficado com algumas das damas de
honra e elas só descobriram hoje?
− Algumas havia pego antes, mas elas estão resolvidas nesse ponto. O
que está pegando é o fato de ter fodido com elas hoje.
− Você fodeu as damas de honra da sua irmã? O casamento que vai
acontecer amanhã é dela?
− Sim e sim. Elas ficaram bem satisfeitas e todas sabem que comigo
não rola essa parada de exclusividade, estão de mimimi porque querem.
− Você acha mesmo que tudo bem fodê-las uma a uma no intervalo de
horas?
− Se elas quiserem podemos repetir os cinco, sem problemas. – sorrio.
– Se você quiser também...
− Você é um cafajeste!
− Cem por cento. – passo a mão no cabelo. – Qual o seu nome?
− O que te faz acreditar que vou dizer meu nome a um playboy
presunçoso?
− Playboy presunçoso? – aliso o cavanhaque. – Já fui chamado de coisa
pior.
− Você se importa de procurar outro local para se esconder? Preciso me
vestir ou irei me atrasar para o meu trabalho, diferente de você tenho que pôr
a mão na massa para pagar as minhas contas no final do mês.
− Ui. – finjo estar ofendido. – Você acha que sou um playboy que vive
às custas dos pais.

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− Seu terno Armani fala por si. – ela me lança um olhar de desdém.
Cara, essa mulher é difícil.
− Normalmente, meu terno Armani atrai as mulheres, não o contrário. –
digo para provocá-la, o que a faz revirar os olhos. – Vou embora se me disser
o seu nome.
− Que diferença faz?
− Se você não quiser que pense em você como a garota dos olhos
multicolores e seios tentadores, é melhor dizer seu nome.
− Garota? – ela gargalha.
− Pelo que posso ver você não tem um pênis. – empertigo os olhos nas
suas curvas sinuosas.
Ela curva o corpo, acompanhando a ondulação da gargalhada e os
seios, praticamente, saltam no meu colo; porra, eles parecem macios.
Primeiro a deixei irritada, agora ela está gargalhando, cadê a parte onde
ela fica excitada? Ela está mexendo com meu ego.
− O que tenho que fazer para você querer...
− Oh, não! – ela me interrompe. – Não vou foder com você, garoto. –
diz entre risos, enfatizando a última palavra.
− Vai dizer que não sou seu tipo? – provoco.
− Definitivamente, não.
− Você é lésbica?
− Você nunca ouviu um não? – pergunta incrédula, os olhos me
sondando.
− Não. – respondo. – Como posso não ser o seu tipo?

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− Você é um playboy presunçoso e egocêntrico. – diz ríspida. − E é só a


porra de um garoto que se acha o fodão.
− Sou só a porra de um garoto? – debocho. – Quer saber? Você é só a
porra de uma garota “mal comida”. − sorrio e saio, batendo a porta com
fúria.
Inferno! Estou acostumado com mulheres se jogando no meu colo,
implorando por mais e não rindo da minha cara. Porra! Ela é, absurdamente,
sexy sem fazer nenhum esforço. Não sei se é efeito dos grandes olhos
multicolores, os lábios carnudos e levemente entreabertos, como se
estivessem ansiando pelo meu pau, ou a sua pele de bronze perfeito. O que
sei é que as minhas bolas estão doendo de tão duras e meu pau está prestes a
rasgar minha boxer.
− Sam. – diz meu irmão.
Encontro JP e Hannah no corredor anterior ao salão onde está
acontecendo o jantar pré-casamento.
− Mel vai te matar, moleque. – acrescenta.
− Ela ainda está atrás de mim?
− Com certeza! – Hannah diz entre risos.
− Você não podia manter esse caralho dentro das calças até depois da
cerimônia?
− Todas as damas de honra, Sam? Você podia ter pego uma convidada.
− Todas não, peguei quatro de seis. – justifico.
− Sam, você não tem jeito! – Hannah sorri. – Sou sua cunhada, portanto
estou fora de suas conquistas.
− Não peguei Angel também.

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− Porque ela é nossa prima e Miguel te mataria por foder a irmã dele. –
JP dá um soco no meu bíceps. – Ou seja, você pegou as quatro damas de
honra acessíveis ao seu cacete.
− Não entendo o drama dessas mulheres, todas me conhecem e sabem
que é só sexo.
− O problema é você ter fodido todas elas hoje, imbecil! – JP dá risada.
− Se elas não querem compartilhar o mesmo pau, deveriam manter as
amigas atualizadas das suas fodas.
− Que bom que você se divertiu bastante, porque se Mel não arrancar
seu caralho fora, ela vai te deixar inutilizado por alguns dias. – JP provoca.
− SAM! – Mel exclama, atrás de mim. – Você vai desejar ter nascido
sem bolas quando eu terminar com você.
− Posso explicar. – cruzo as mãos sobre as minhas calças, protegendo a
minha espada Samurai.
Mel acerta um murro no meu peito antes do JP segurá-la e prendê-la em
um abraço, mantendo-a longe o suficiente dos meus países baixos.
− Você vai fazê-las parar de brigar até amanhã de manhã, não me
importo como. – diz Mel, com olhos ameaçadores. – Se elas aparecem
brigadas para a cerimônia do meu casamento, irei garantir que você nunca
mais tenha uma ereção na porra da sua vida. Entendeu, moleque?
− Só para confirmar, você disse que não importa como, certo?
− Não me importo, desde que elas estejam sorrindo no meu casamento.
− Prometo que elas vão estar sorrindo de orelha a orelha.
− Assim espero. – Mel grune. – JP, me solta.
− É a sua chance de fuga. – ele pisca e Hannah sorri.
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− Papai, papai! – João Guilherme, mais conhecido como Fera, meu


sobrinho de cinco anos, sai empurrando a porta do salão, seguido pela Maria,
minha sobrinha de dez anos.
− Oi, filho. – JP responde.
− A gente pode pegar meu tablet no quarto? – Fera olha para Mel
suspensa nos braços do pai. – Por que você está segurando a titia?
− Tio, você sumiu. – Maria me abraça. – Dança comigo?
− Claro, princesa. – beijo os cabelos loiros da Maria.
− Ela e o tio Sam estavam imitando você e os Terríveis. – JP diz entre
risos. – Para que o tablet?
− Falando em Terríveis. Mãe, acho que você não vai querer deixá-los
mais tempo com a vovó, ela está deixando eles comerem toneladas de açúcar.
− Quero jogar. – Fera sorri.
− Por Zeus, se eles comerem mais doces, vamos virar a noite
acordados, amor. – Hannah diz ao JP.
Meu irmão e cunhada desconhecem o conceito de contracepção, eles
têm quatro filhos. Os Terríveis são gêmeos, Théo e Thomás, e estão com dois
anos; o apelido não é mera coincidência, os pestinhas são terríveis, não param
nunca. Adoro crianças, os quatro são minha paixão, não aguento ficar longe
deles por muito tempo.
− Tenho outros planos para virarmos a noite acordados. – JP pisca para
Hannah e ela ruboriza. – Mel, você não pode dar mau exemplo aos seus
sobrinhos. – ele a coloca no chão. – Sam, vai com Maria e Fera buscar o
tablet, por favor? – me entrega o cartão do quarto.
− Feito. – digo. – Na volta dançamos, princesa. – digo a Maria e agarro

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o Fera pelas panturrilhas, deixando-o de cabeça para baixo.


− Tioooo!!! – Fera gargalha.
– Preciso salvar a minha madrugada. – JP enlaça a cintura de Hannah. –
Vamos manter os Terríveis longe da minha mãe, Sereia.
− Sam, não esqueça. – Mel avisa. – Sorrisos.
− Pode deixar. – pisco e solto um beijo para ela.

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Capítulo 2

Sam Allencar
Meu coração é tão tosco e tão pobre
Não sabe ainda os caminhos do mundo

Legião Urbana – Sete Cidades

− Princesa, podemos fazer uma pausa? – pergunto, girando Maria no


salão. − Preciso resolver um assunto, prometo que volto para dançar com
você.
− Tudo bem, tio, vou dançar com o vovô.
− Avise ao vovô que é só por algumas músicas.
Maria assente, beijo os seus cabelos e ela sai correndo em direção a
mesa onde meu pai está sentado.
Respiro profundamente, vou fazer algo que está fora do meu script,
mas tudo pela felicidade da minha irmã e, claro, pela integridade das minhas
bolas. Caminho até a varanda do salão e sigo para a mesa onde JP, Miguel,
Bruno e Andy estão conversando, enquanto os Terríveis correm de um lado
ao outro da varanda e batem os pequenos punhos na mão do pai, antes de
voltar a correr para o outro lado; aposto que JP está tentando fazer os dois
pestinhas gastarem a energia extra que ganharam com os doces.
− Sem zoeira, o quarto é um péssimo lugar para encarar quatro
mulheres raivosas?
− Vai virar homem? – JP provoca.

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− Sam, você é um péssimo cunhado. – diz Andy. – Por sua causa vou
encarar uma noiva furiosa na véspera do meu casamento, o que significa que
a minha despedida de solteiro será sem sexo.
− Cara, você está falando da minha irmã. – faço uma careta. – Menos
informação, por favor.
− Falou o cara que pegou minha irmã e mais três, só hoje. – Andy
acusa.
− Não saio contando, foram elas que deram com a língua nos dentes.
− Esperando a hora em que vai chegar a mulher que vai enfeitiçar o seu
pau.
− Sai pra lá, Miguel! Leva esse agouro para longe de mim. – bato na
mesa três vezes.
− Ati, papai! − Tom grita, se aproximado e JP levanta as mãos.
− Eu tamém! – diz Théo.
− Binca, titio? – Tom pergunta, após acertar o punho na palma da mão
do JP. – Coída.
− O titio não pode agora. – o pego no colo. − Amanhã a gente brinca,
ok?
− Tim. – ele balança a cabeça, concordando.
− Eu, titio!!! – Théo agarra a minha perna.
− Opa! − abaixo e o pego no colo também. – Vocês estão ficando
pesados, daqui a pouco o titio não vai conseguir pegar os dois no colo.
− Teíveis fotão. – Théo flexiona o braço, exibindo o bíceps.
− Quem ensinou isso? – sorrio. – Seu pai?

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− Papai e Fela. – Thomás responde.


− Vão brincar. – beijo a bochecha de ambos. Quando os coloco no
chão, eles saem correndo, recomeçando a brincadeira. – Estou te sacando. –
digo ao JP. − Essa brincadeira aí é para deixar os dois moídos, assim eles
pegam no sono, enquanto papai e mamãe brincam, né?
− Quatro filhos, preciso ter algumas cartas na manga. − JP diz entre
risos. – Quando tiver os seus, posso prestar consultoria.
− Vou ficar só com os sobrinhos, mantenho a vantagem de poder
estragá-los e não ter nenhum empata foda.
− Não conheço ninguém tão empenhado em manter as mulheres
afastadas. – Bruno comenta.
− Correção, meu objetivo é me manter afastado dos relacionamentos,
quanto às mulheres, podem vir com tudo. – digo e todos gargalhamos. –
Sério, suas putinhas, corro o risco de ser assassinado se marcar com as quatro
no quarto?
− Mel não vai deixar passar se você ferrar mais as coisas. – JP adverte.
− Vou bater um papo pós foda com as quatro, somos adultos, esse
mimimi parece coisa de adolescente. – argumento.
− Quatro mulheres com raiva? – Andy debocha.
− Boa sorte. – dizem em coro.
− Vocês não estão ajudando, porra. – pego a garrafa de whisky que eles
estavam bebendo e aceno em despedida.
A caminho do quarto, envio mensagem para as quatro, com o número
do quarto onde estou hospedado e um pedido para conversamos. Nenhuma
responde.

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Vinte minutos é o tempo que demora para ouvir gritos no corredor,


abro a porta porque os gritos de mulheres e xingamentos estão perto demais e
me arrependo no segundo seguinte, porque as quatro voltam-se para mim e
começam a me bater.
− Qual o problema com vocês? – pergunto, tentando me esquivar dos
tapas.
− Você marcou com as quatro? – inquere Chloe.
− Sim, quero conversar.
− Você bateu todos os records de cretinice, Sam. – diz Zoe.
− Vamos conversar como adultos.
− O que você quer? – pergunta Susie.
− Entender qual o problema com vocês. Entrem, por favor, e nada de
gritos.
− É bom que você tenha uma boa explicação, Sam. – Emma me dá um
empurrão e invade o quarto.
Todas entram, felizmente quietas.
Fecho a porta e me viro, encontrando quatro mulheres lindas olhando
para mim. Claro que percebo a postura inóspita, elas estão com os braços
cruzados e os olhares são frios como lâminas de gelo, contudo o meu pau é
alheio a essa observação. Não posso julgá-lo, tem quatro gostosas na porra do
meu quarto. Sinto uma fisgada nas minhas bolas e de repente não há espaço
suficiente nas minhas calças, o zíper é pressionado pelo volume crescente.
Porra, deveria ter ficado com o blazer.
Ignoro os olhares de ódio e passo entre as quatro. Coloco um
travesseiro encostado à cabeceira da cama, sento e puxo outro travesseiro

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para o meu colo, escondendo minha ereção.


− Sentem-se.
As quatro viram ao me ouvir, mas não fazem menção de sentar.
Chloe está do lado direito, ela é irmã do Andy, tem vinte e dois anos,
alta, pele clara, olhos azuis, cabelos cacheados e loiros, lábios rosados e
pequenos, seios e bunda pequenos, longas pernas e é um furacão na cama. Ao
lado dela está Zoe, ela é toda mignon, tem vinte e seis anos, baixinha, longos
cabelos castanhos, olhos escuros e vívidos, uma bela bunda empinada e
redonda, seios quase inexistentes, lábios grossos e famintos.
Emma tem vinte e três anos, alta, mas não tanto quanto Chloe, loira de
cabelos ondulados, olhos castanhos, lábios finos e boca grande, seios fartos,
bunda grande e pernas grossas. A mulher é insaciável e não faz doce, com ela
pode tudo. Susie é figurinha nova e estou louco para repetir; ela não é nem
alta e nem baixa, olhos pequenos e castanhos, cabelos ondulados, também
castanhos, seios médios, pernas sensacionais, lábios carnudos e sedutores,
tem vinte e sete anos.
− Vão ficar em pé? – pergunto depois de alguns segundos, me perdi
enquanto admirava o quarteto sexy.
− Você fodeu alguma de nós nessa cama? –pergunta Emma.
− Não, podem sentar na cama, no sofá, na poltrona, onde quiserem,
tudo limpo, não fodi ninguém aqui. Ainda. – pisco.
− Sério que você mandou mensagem para todas? – questiona Chloe.
− Na mensagem deixei claro que quero conversar, não mencionei sexo
em momento algum.
− Sexo está subentendido em tudo o que você diz, Sam. – Zoe comenta,
sentando-se na cama.
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− Verdade. – concordo. – Por que inferno vocês estão brigando?


− Você fodeu as quatro. – diz Susie e senta na poltrona.
− Sim, sou eu, qual a novidade? Fodo o tempo todo e todas sabem que
é apenas sexo. – argumento. − Fenomenal, mas é só sexo.
− Não é legal saber que suas amigas foderam o mesmo cara que você,
horas depois. – Emma pontua e senta na cama.
− Por quê? – pergunto.
− É estranho, Sam. – diz Chloe. – Eu fui a primeira, elas viram quando
saímos juntos e mesmo assim foram lá e foderam você. – ela olha para as
amigas e senta no sofá. – Podiam ter perguntado. Se tivéssemos combinado
algo para mais tarde?
− Se fosse esse o caso, nós iríamos foder de novo mais tarde. – pisco. −
Eu dou conta, garota.
− Só que agora queremos saber qual de nós é melhor. – Zoe sorri.
− Todas são quentes.
Susie e Emma reviram os olhos.
− Todas achamos que você estava nos convidando para uma segunda
rodada quando recebemos a sua mensagem. Neguem se estiver mentindo. –
Susie examina as amigas. – Escolha uma de nós para terminar a noite.
− Isso não vai acontecer. – afirmo. – Vocês são amigas, porra! Que
coisa estúpida é essa de saber quem é a melhor? Estamos falando de sexo,
não é uma competição, é prazer, e nós cinco nos divertimos. Querem mais?
Ótimo, também quero! – levanto. – Como quero, porra!
− Sam, você é um puto. –diz Zoe e seus olhos pairam sobre o meu pau.
− Como você consegue ficar excitado no meio de uma discussão? –
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Chloe umedece os lábios.


− Quatro mulheres gostosas discutindo qual delas quero foder? Meu
pau está latejando, caralho! Alguém vai se oferecer para me chupar ou vou ter
que bater uma? – puxo a camisa de dentro da calça. − Se vocês brigarem de
novo por causa dessa porra, já era, nunca mais fodo nenhuma das quatro. –
desabotoo a camisa.
− Por mim estamos numa boa. – declara Susie.
− Se estiver tudo certo, posso te ajudar. – Zoe morde o lábio.
− Você está se oferecendo para um boquete? – Emma arqueia a
sobrancelha.
− Vocês já viram o pau dele, sem chance de deixar passar. – Zoe
argumenta e solto uma gargalhada.
− Vem. – jogo a camisa na cama e ofereço a mão a Zoe. – Sem sexo,
minha sobrinha está me esperando para dançar.
Elas fazem um coro de suspiros. Mulheres são criaturas esquisitas.
− Como pode ser puto e fofo? – Chloe suspira.
− Não sou fofo.
− É sim! – todas exclamam.
− Não sou fofo, porra! – aperto a bunda de Zoe. − Garotas, estarei
disponível mais tarde. – conduzo Zoe ao banheiro. – Vou deixar a porta do
quarto aberta, certifiquem-se de combinar os horários entre si, não que vá
reclamar caso queiram compartilhar a cama ao mesmo tempo. – pisco e entro
no banheiro.

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Capitulo 3

Sam Allencar
Quero ser prudente
E sempre ser correto
Quero ser constante
E sempre tentar ser sincero
Legião Urbana – L´Avventura

Quando minha irmã me convidou para ser um dos seus padrinhos de


casamento, declamei o meu discurso de tédio sobre cerimônias de casamento
e deixei claro que estar ao lado dela no altar era algo pelo qual ela iria ficar
me devendo a alma.
Era o que pensava, até descobrir que a perspectiva muda tudo. Quando
era criança, casamentos me faziam revirar os olhos de irritação; porém nos
últimos dois dias em que estive trancafiado naquele hotel, participando de
todos os ritos cerimoniais que minha irmã inventou, me fizeram perceber o
verdadeiro harém escondido por trás das festas de casamento.
Algumas coisas continuam iguais, meus olhos reviraram muito, no
entanto por motivos muito mais interessantes. É verdade que minha farra
poderia ter acabado mal, mas como um bom cafajeste, contornar situações de
instabilidade feminina é um dom e satisfazê-las é o meu prazer. Portanto, não
vou reclamar de ter passado as últimas noites acordado, rolando na cama,
alternadamente, com quatro mulheres sexys como o inferno.
Adoraria repetir, contudo é segunda-feira e tenho trabalho a fazer.

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− Bom dia, Bárbara.


− Bom dia.
− Qual minha agenda do dia?
− Levo agora mesmo, só vou separar alguns documentos que precisam
da sua assinatura.
− Diga que o meu dia está tranquilo, por favor, garota.
Bárbara sorri, levantando de leve os ombros. Aceno e dou um pequeno
sorriso, sinalizando que entendi que esse é um daqueles dias de vinte e cinco
horas.
Entro no escritório, fecho a porta e coloco a pasta sobre a mesa. Paro
em frente à janela panorâmica, olho para a cidade em movimento.
− Seu café.
Viro e vejo Bárbara equilibrando várias pastas, minha agenda e uma
bandeja com uma xícara. Faço meu caminho ao encontro dela, pego a
bandeja, dou a volta na mesa e sento, colocando a bandeja sobre a mesa.
Bárbara é uma jovem e bela garota de dezenove anos, baixinha, olhos
castanho-esverdeados, cabelos castanhos, presos em um coque, combinando
com o seu look formal; que aprecio bastante, nada de decotes ou saias lápis, o
corpo magro e de poucas curvas está sempre alinhado a um par de calça
social e blusa de mangas três quartos.
− Você não precisa me trazer café, posso ir buscá-lo.
− Que tipo de secretária serei, se nem o café do meu chefe sou capaz de
trazer? –retruca, me entregando uma das pastas, enquanto organiza as outras
na mesa.
− Você não recebe para me trazer café. – abro a pasta que ela me

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entregou. – A propósito. – ergo o rosto. − Você é uma excelente secretária, a


melhor que já tive.
− Preciso desse trabalho, então é bom que esteja fazendo tudo correto. –
ela abre a agenda e folheia. – Você tem uma reunião às dez horas com o sr.
Takahashi, outras às dezesseis horas com o Sr. Veloso e um almoço às treze
horas com o grupo de investimento Shimizu-Sato.
− Por que diabos o Marcelo continua me enfiando nessas reuniões? –
passo a mão nos cabelos. – Quando escolhi fazer engenharia, pensei que seria
o homem por trás dos números e plantas.
− Você é o homem por trás dos números e plantas. – Bárbara sorri. – O
melhor deles, é por isso que tem tantas reuniões, sr. Diretor de Projetos.
− Você está sendo irônica, srta. Bárbara Lemos?
− Não. – ela me entrega um pen driver. – Suas apresentações para as
reuniões estão no arquivo Projeto Takahashi. Preciso desses documentos
assinados antes que o senhor vá para a reunião de dez horas.
− Senhor não! – a interrompo.
− Desculpe, foi automático. Nessas pastas – ela aponta para a pilha de
pastas na lateral esquerda da minha mesa – estão as últimas alterações feitas
no Projeto Novo Horizonte e Einloft, elas precisam da sua aprovação.
− Para quando?
− No máximo na quarta-feira ou vamos atrasar o desenvolvimento dos
projetos.
− Também quero licença casamento. – digo sério.
− Para isso terá que casar, Sam. – ela sorri zombeteira.
− É injusto, deveria haver licença para os padrinhos também.

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− Como foi o casamento?


− Você estava certa, não foi um tédio. – pisco, curvando levemente os
lábios. – Acho que preciso frequentar mais casamentos.
− Soube que você apreciou bastante as damas de honra.
− Qual o problema dessa empresa? – ergo as mãos. – Por que sou
sempre o assunto favorito para as conversas de corredor?
− É uma pergunta retórica ou devo listar?
− Listar? São tantos motivos assim?
− Você sabe que é conhecido pelo olhar de molhar calcinhas, certo? –
diz divertida.
O comentário me faz gargalhar.
Não é segredo a minha paixão por mulheres e sexo, entretanto, aprendi
a manter a devida distância entre a minha vida pessoal e profissional, o que
curiosamente é o motivo de ter um rodízio de secretárias no meu histórico.
Qualquer tipo de insinuação sexual e peço a transferência, gosto demais de
sexo para torná-lo um pesadelo, fodendo uma colega de trabalho.
− A fama faz o homem, em alguns casos o destrói.
− É verdade que você e a dra. Roberta... – ela abaixa os olhos, tímida.
− Roberta e Lilian são meus carmas. – passo a mão no cabelo. – Elas
me fizeram viver as situações mais embaraçosas da minha vida. Você não
tem ideia do que é ter que se esquivar de uma mulher quando seu corpo está
implorando para afundar entre as pernas dela.
− Então é verdade que elas tentaram? – Bárbara aperta os lábios,
impedindo-se de rir.
− Pode rir, eu teria rido se não fosse comigo. – balanço a cabeça. – Não
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posso pedir que as transfiram porque uma é diretora e a outra advogada,


então apenas fico longe. Por isso que você me acompanha em todas as
reuniões que tenho com elas.
− Além de secretária sou segurança? Vou querer adicional. − diz entre
risos.
− É justo. – sorrio. – Depois de ter sido aprovada em todos os testes que
fiz com você, acho que estou seguro.
Bárbara estreita os olhos, confusa.
− Que testes?
− Você nem percebeu. Fiz uma aposta muito grande quando decidi
contratar uma estudante de engenharia como secretária, e uma maior ainda
quando contratei uma universitária de dezenove anos, todos acharam que era
um erro e que iria sucumbir aos seus encantos.
− Eu nunca... – explica.
− Eu sei. Arriscaria dizer que você me vê como uma espécie de figura
paterna, se isso não me fizesse sentir um velho. – brinco. – Irmão mais velho,
talvez.
− Mentor, com certeza. – ela sorri. – Mais que história é essa de testes?
− Lembra quando pedi que você ficasse comigo organizando uns
arquivos até depois do expediente? – arqueio a sobrancelha.
− Era um teste?
− Sim. – assinto. – Acredite, a maioria entenderia como um convite, ou
no mínimo uma oportunidade, para algo mais.
− Minha mãe mandou tomar cuidado com você quando contei as
histórias que ouvi do sr. Olhar de Molhar Calcinha.

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− Por favor, a tranquilize, não quero perder a minha secretária, só


aceito a sua ausência na função quando for para promovê-la à engenheira do
grupo.
− Não brinca.
− Você tem potencial, Bárbara. – assino os documentos. – Agora, hora
de trabalhar. Vou rever a apresentação para a reunião, ligue para a obra 245 e
628, confirme a vistoria para amanhã no final da tarde.
− Sim, senh...
− Nem complete. – aviso.

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Capítulo 4

Sam Allencar
Não façamos do amor
Algo desonesto
Legião Urbana – L´Avventura

Cama. Era o meu pedido para aquela noite.


Três reuniões no dia, é para matar.
Entrei no apartamento chutando os sapatos, tirei o blazer e deixei sobre
o sofá. Enquanto caminhava para a cozinha, afrouxei o nó da gravata, tirei as
abotoaduras e desabotoei alguns botões da camisa. Peguei uma taça no
armário e me inclinei, estendendo o braço para pegar uma garrafa de vinho na
adega projetada na lateral do balcão.
Meu apartamento é, tipicamente, masculino; não acredito que exista
uma mulher que iria curtir ter uma mesa de sinuca na sala de estar.
De volta à sala, joguei-me no sofá, deitando a cabeça no encosto.
Terminei de tirar a gravata com a mão esquerda, jogando-a de lado. Levei a
taça aos lábios, sentindo o aroma envolvente. Escolhi um Casa Marín Pinot
Noir, tomei um gole, degustando o sabor leve com toque de chocolate e café.
Afastei a taça dos lábios, sentindo as notas finais do vinho.
Tirei o celular do bolso da calça, abri o bloco de notas e comecei a
digitar um lembrete, ao mesmo tempo em que aproximava a taça para um
novo gole. Sou ambidestro, um bônus bastante útil. Li o lembrete me
certificando de não ter esquecido nada, mas principalmente de ter

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mencionado que preciso notificar o Marcelo que almoço de negócios estão


vetados. Os jantares posso até tolerar, mas almoço de jeito nenhum.
Deslizo o dedo pelo aplicativo de mensagens e sorrio ao ler a
mensagem da Chloe: “Despedida? Vou embora amanhã”. A memória
daqueles cabelos dourados caindo em ondas sobre os seios nus é o bastante
para fazer o meu pau latejar. Pressiono o botão para gravar áudio.
− Estou te esperando. Quanto menos roupa, melhor.
Levanto e destranco a porta da sala. Busco a garrafa de vinho e outra
taça na cozinha e sigo para o quarto. Coloco a garrafa e as taças na bancada
do banheiro, ligo a banheira e pingo algumas gotas do sabonete para espuma.
Paro em frente ao espelho, abro a gaveta da bancada e pego algumas
camisinhas.
Conecto o celular no amplificador de som, escolho a trilha sonora para
a noite e deslizo a camisa por meus ombros, jogando-a no cesto de roupa
suja; a calça e a boxer têm o mesmo destino.
Antes de desligar a banheira e mergulhar o meu corpo entre as camadas
de espuma, reponho o vinho na taça, pego algumas camisinhas e então sento-
me sob a água, relaxando à espera do furacão loiro que responde pelo nome
de Chloe.
Estava de olhos fechados quando ouvi a sua voz sobrepor-se a música.
− Posso?
Abri os olhos e a vi sorrir, vestida com um sobretudo e salto agulha.
Assenti, sem esconder o meu sorriso malicioso ao notar os botões aberto.
Chloe serviu-se do vinho. Deliberadamente, ela aproximou a taça dos lábios
rosados, sem desviar os olhos dos meus. Tomou um gole e depositou a taça
na bancada, levando as mãos ao cinto.

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− Assim está bom para você? – pergunta, deixando o sobretudo cair aos
seus pés, revelando o corpo nu.
− Perfeito. – murmuro, deixando minha taça na lateral da banheira. –
Imagino que não queira estragar os sapatos. – comento, quando ela para ao
lado da banheira.
− Acertou. – ela umedece os lábios e me entrega a sua taça.
Chloe virou de costas e se curvou para tirar os sapatos, deixando-me
louco de tesão com a sua bunda empinada, a míseros centímetros de
distância. Passei a taça para a outra mão e coloquei junto da minha, enquanto
com a mão esquerda apalpava sua bunda, deslizando meus dedos devagar por
entre suas pernas. Para me atiçar, ela remexeu os quadris, apoiou as mãos nos
joelhos e inclinou o rosto, olhando-me e mordendo os lábios. Se era assim
que ela queria começar, não seria eu a reclamar.
Fiquei sobre os joelhos, virado para lateral da banheira e a agarrei pelos
quadris, puxando-a para mais perto. Com as mãos espalmadas na sua bunda,
os dedos afundando em sua pele, pincelei a minha língua no seu botão,
lambuzando-o com a minha saliva e beijando-o.
Quanto mais lambidas, mais gemidos saiam dos seus lábios, deixei a
minha língua imergir, abrindo caminho para o que viria a seguir. Senti o seu
corpo ceder um pouco, sinal que o orgasmo estava se aproximando. Deslizei
a língua, lambendo-a do botão à fenda e me afastei.
− Sam.
− Entra aqui. – peço, puxando-a para a banheira.
− Você sabe que ia gozar? – resmunga, ofegante.
− Você vai gozar. – corrijo. – Apoia os cotovelos na borda da banheira.
– instruo, deixando os meus dedos invadirem-na. – Fique com o quadril
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acima da água. – peço. Chloe obedece e solta um suspiro de frustração


quando os meus dedos a deixam. − Calma. – sorrio.
Desenrolo uma camisinha, seguro-a firme pelos quadris e encaixo-me
entre as suas pernas. Ela arrebita a bunda, facilitando a penetração e me movo
sutilmente, permitindo que o seu corpo se acomode ao meu membro, pouco a
pouco. Quase gozo quando ela contrai a musculatura, sugando toda minha
extensão com um só movimento.
− Ahhh, Sam!!!!
− Vou dar o que você gosta. – sussurro, mantendo o controle do seu
quadril com uma mão e enlaçando os seus cabelos na outra. – Você vai gozar,
quando eu quiser.
− Ahh! Mais forte, cretin...ohhh!
Cravo os dedos no seu quadril e forço o puxão nos seus cabelos,
fazendo-a arquear. O choque da sua bunda na minha pélvis faz a água
chacoalhar. A música soa distante, abafada pelo som dos nossos gemidos,
respirações ofegantes, suspiros e o encontro dos nossos corpos sob a água.
O tesão é tamanho que o meu membro desliza em um vaivém apressado
e impetuoso, sendo consumido pelo calor e umidade do seu ânus. Movo a
mão do seu quadril, escorregando pelas suas coxas, infiltrando-a entre as suas
pernas e massageando seu clitóris com o polegar.
Ela rebola, empurrando o seu corpo de encontro ao meu. Invado sua
fenda com dois dedos, sem parar a carícia no seu clitóris e intensifico o ritmo
das investidas. Sinto as contrações da sua vulva apertando os meus dedos e a
pressão do seu ânus no meu pau, é a hora.
− Vem comigo, Chloe. – peço, antes de ser dominado pelos gemidos.
Meu gozo explode, acompanhando os seus gemidos e sinto os meus
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dedos serem inundados pelo seu orgasmo. Ela se abaixa, debruçando-se sobre
a borda da banheira e levando-me junto. Ainda sinto o meu pau pulsando, a
sensação do orgasmo se prologando em resposta as suas contrações.
− Tira devagar. – pede em um murmúrio.
− Na hora de entrar, você soube como engolir de uma vez. – brinco,
beijando suas costas. – Aliás, que porra foi aquela?
− Não vou entregar meus truques. – ela suspira quando meu membro
desliza para fora. – É bom ter alguma vantagem sobre você, Sam. – diz,
sorrindo e virando-se para me beijar.
− Você não precisa de vantagens. – jogo a camisinha na lixeira próxima
a banheira. – Chloe Campbell. – a envolvo pela cintura, colidindo seus seios
no meu corpo. – Você é um furacão.
− Um furacão pelo qual você sempre sai ileso, Sam Allencar.
− Sou uma exceção. – mordisco o seu lábio. − A maioria não sobrevive
a sua chave de coxa.
− Será que você tem uma exceção?
− Você pode tentar ser a minha exceção. – posiciono suas pernas no
meu quadril. – Depois dos cinquenta anos, ok? – levanto, com ela nos meus
braços, e saio da banheira.
− Não, obrigada. – ela transpassa os dedos nos meus cabelos, afagando-
os. – Se fosse aos trinta, até trinta e cinco, iria querer ser a sua exceção.
− Você é linda. – a coloco deitada na cama, debruçando-me sobre ela. –
Devem ter dezenas de caras apaixonados por você, apenas esperando por uma
chance.
− Me apaixonei pela exceção. – ela morde o lábio.

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− Sinto muito. – beijo a sua testa.


− Não sinta. – ela segura meu rosto entre as mãos. – Ele tem o dom de
amar a todas, o que significa que em alguma medida ele me ama.
− Amo. – sussurro, roçando os nossos lábios. – E vou te amar por toda
essa noite.

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Capítulo 6

Sam Allencar
Consegui meu equilíbrio cortejando a insanidade
Tudo está perdido, mas existem possibilidades
Legião Urbana – Sereníssima

Acordei com o som estridente do alarme do celular. De olhos fechados


tateei o criado-mudo, procurando-o e quando não encontrei, lembrei que devo
ter deixado no banheiro.
Chloe estava com metade do corpo sobre o meu, a coxa sobre o meu
pau, que estava duro apenas por sentir a suavidade da sua pele acobertando-o.
Segurei sua perna e braço, delicadamente, e rolei debaixo dela, colocando o
travesseiro no meu lugar.
Corri para o banheiro em busca do celular, para desativar o alarme
antes que ela despertasse. Aproveitei para tomar uma ducha, desfrutando da
imagem dela nua entre os meus lençóis, a pele clara contrastando com o
escuro do quarto.
Saí do banheiro com uma toalha enrolada nos quadris e com outra nas
mãos, secando os cabelos. Desenrolei a toalha e joguei na poltrona junto com
a outra, estava vestindo a boxer, quando a ouvi sussurrar o meu nome.
− Sam.
− Oi. – me aproximo e beijo sua têmpora.
− Onde você vai? – murmura.
− Trabalhar. – digo, alisando os seus cabelos. – Vou deixar uma chave
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na mesa de centro, pode ficar dormindo.


− Meu voo é hoje.
− Catorze horas, certo?
− É.
− Vou programar um alarme no seu celular para você não se atrasar. –
beijo o seu pescoço. – Volta a dormir e boa viagem.
− Obrigada.
− Próximo mês tenho uma viagem para Nova York, te ligo e a gente
combina algo.
− Ok. Bom trabalho, Sam.
Beijo o seu ombro e levanto. Antes de sair, preparei o café para quando
ela acordar.
Quando cheguei ao escritório, Bárbara me deu a boa notícia de que não
teria reuniões, apenas as vistorias no período da tarde e ela havia confirmado
ambas. Aproveitei o tempo livre para ler e analisar as alterações nos projetos
com calma e pedi que Bárbara agendasse um horário com Marcelo, para
passar o feedback das reuniões do dia anterior e pôr um ponto final nos tais
almoços de negócios.
A solução que Marcelo propôs é reverter todos os almoços em jantares.
Não é a melhor das soluções, mas como disse antes, é tolerável. Além do que,
ele é o homem dos jantares de negócios, suspeito que seja uma espécie de
hobby, ou que seja a desculpa que ele encontrou para ficar mais tempo longe
da mulher. Não o culpo, no lugar dele iria pedir transferência para Tóquio, a
mulher é insuportável, apesar de ser gostosa.
Marcelo Andrade é o presidente da empresa, um coroa de cinquenta e

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quatro anos, que mantém o corpo em forma, os cabelos com alguns fios
grisalhos, barba espessa e só um pouco menor que eu, cerca de um metro e
oitenta centímetros.
Ele tem duas filhas, ambas loiras: Alessandra de trinta e poucos anos,
casada, mãe de dois meninos, alta e magra, seios e bunda pequenos e olhos
negros; e Samantha, vinte e três anos, por volta de um metro e setenta
centímetros, curvas e curvas que não acabam mais, seios fartos, algumas
sardas no busto, olhos castanhos, cintura delicada, quadril largo e uma bunda
redonda e empinada, cabelos lisos, na altura dos ombros. Eu já disse que ela é
cheia de curvas? Oh, sim, adoraria me perder naquelas curvas.
Samantha é o tipo de mulher que conhece os seus atributos e sabe usá-
los como uma luva. O motivo de estar divagando sobre as suas curvas é que a
maldita estava saindo do elevador quando deixei o escritório do seu pai,
usando um vestido azul justo, perfeitamente alinhado ao corpo curvilíneo,
exibindo os seios em um decote generoso e evidenciando sua cintura e bunda.
Ela está na minha lista de sexo que pode se tornar pesadelo, por isso fujo dela
como o diabo foge da cruz, e ela sabe o quanto me deixa maluco.
− Sam! – joga os braços nos meus ombros, abraçando-me. – Você
nunca mais apareceu para o fim de semana. Ainda precisamos terminar
aquela partida de strip poker. – sussurra no meu ouvido.
Claro que não, da última vez ela pagou aos amigos para que nos
deixassem sozinhos no meio do jogo, e perdeu de propósito só para ficar de
calcinha e sutiã; ainda teve a indecência de inventar de buscar um whisky
apenas para que pudesse ver que ela usava uma merda de um fio dental.
Desde então tenho sempre uma desculpa afiada para recusar os convites para
um fim de semana na casa de praia da família Andrade Azevedo.
− Ando ocupado. – digo, afastando-a.
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− Hoje você não me escapa.


− Estou em horário de expediente, Samantha.
− Você vai almoçar em algum momento, certo? – sorri, umedecendo os
lábios. – Passei para ir almoçar com o papai, você pode ir conosco.
− Vai ficar para outro dia, estou cheio de trabalho.
− Sam! – ela bate o pé. Sim, ela bate o pé, igualzinha minha sobrinha
fazia, aos seis anos. – Por favor. – faz beicinho. – Se você não aceitar, vou
pedir para o papai te mandar ir almoçar comigo. − ela remexe os olhos e torce
o nariz. – Sozinho.
− Ok, Samantha, vou almoçar com você e o seu pai. – me rendo.
Ela é capaz de exigir que o pai nos mande ir almoçar sozinhos, e se
bobear em um motel. Marcelo faz tudo o que a filha quer; e um dos motivos
que me levam a não querer – apesar de querer muito – fazer sexo com ela, é
porque ele me dá inúmeras indiretas, me encorajando a desenvolver um
relacionamento com Samantha.
− Liga para minha secretária, avisa onde e o horário, por favor. –
completo, passando por ela e entrando no elevador.
É pedir muito querer almoçar sossegado?
Suspiro, sozinho no elevador, pensando no inferno que será o meu
almoço.
− Problema? – Bárbara pergunta, ao me ver caminhar cabisbaixo para o
escritório.
− Samantha. – murmuro.
− Ela passou aqui há alguns minutos, te procurando.
− Sendo assim, devo ficar feliz por tê-la encontrado no lobby do
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escritório do Marcelo. – suspiro. – Se algum dia ela aparecer aqui, você não
vai deixá-la sozinha comigo na sala, entendido?
− Está bem. – Bárbara faz uma expressão engraçada.
− Ela vai te ligar para dizer onde iremos almoçar, se ela pedir para
transferir a ligação, estou em outra ligação.
− Acho que não temos tempo para arranjar um sósia para ir ao almoço.
− Você se diverte, né?
− Um pouco. – ela sorri. – É que todos te descrevem com um cafajeste,
mas você tem princípios, Sam.
− Por favor, me defenda quando me difamarem por aí.
− Pode deixar.
Eram treze horas quando Samantha entrou no meu escritório jogando a
bolsa, e sendo seguida pela Bárbara, que me olhou aflita, pedindo desculpas
pela invasão. Acenei discretamente com a cabeça, para que ela entendesse
que tudo bem, ninguém consegue segurar Samantha quando ela quer algo.
Enquanto Samantha fazia a volta na mesa, debruçando-se sobre a
minha cadeira e apoiando as mãos nos meus ombros, Bárbara me olhava
nervosa, remexendo nos papeis sobre a mesa, procurando uma desculpa para
não nos deixar a sós.
− Vamos, Sam? – Samantha sussurra, com os lábios raspando minha
orelha e as mãos deslizando pelo meu tórax, esgueirando-se sob o blazer.
− Um instante, Samantha, preciso entregar alguns documentos à srta
Bárbara. – seguro seus punhos e afasto suas mãos, levantando rápido.
Sou muito ingênuo em acreditar que ela iria dar-se por satisfeita em nos
encontrarmos no restaurante. A maldita gostosa teve a brilhante ideia de

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pegar carona comigo, porque havia dispensado o motorista e queria


aproveitar para pôr o papo em dia.
Saímos do meu escritório, com ela atracada no meu braço. Samantha
adora se exibir e, no momento, sou o seu troféu. Ela sorri vitoriosa, rebolando
no seu salto agulha e com o nariz empinado, desdenhando de todos à nossa
volta. Sendo muito honesto, não entendo o porquê dela ter encarnado em
mim.
– Elas dariam qualquer coisa para ser eu. – cochicha, sorrindo em
desdém. – E dariam mais ainda para ter você. – completa, mordiscando o
lóbulo da minha orelha.
– Meu Deus, Samantha. – a repreendo. Ela me olha fingindo estar
ofendida. – Esse é o meu local de trabalho.
– Sou a filha do presidente. – diz petulante.
– Sou um funcionário, como qualquer outro. – argumento. – Ser
demitido por assédio não faz parte dos meus planos.
– Você não é como qualquer outro. – ela rebate. – Você sabe que é o
favorito do meu pai. Também é o genro dos sonhos dele.
– Quantas vezes tivemos essa conversa?
– Não fico contando. – ela dá de ombros.
– Não estou interessado em um relacionamento, muito menos em
casamento. – pressiono o botão do elevador. – Escolha outro. – completo,
conduzindo-a para o elevador e sentindo minha musculatura enrijecer ao
constatar que estaremos a sós pelos próximos minutos.
– Por que você não admite que morre de tesão por mim? – ela solta o
meu braço e palmeia o meu torso, afastando o blazer.

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Recuo alguns passos, desviando os meus olhos do seu decote.


Samantha solta a bolsa no chão e avança, segurando o colarinho do blazer em
ambas as mãos e me lançando um olhar desafiador.
Prendo a respiração quando ela leva às mãos aos seios e puxa o vestido,
quase revelando os mamilos. Fecho as mãos em punhos, me impedindo de
agarrá-la e assisto imóvel quando ela libera uma das abas do blazer e aperta a
minha ereção. Mordo o lábio, contendo um gemido.
– Podemos mudar os planos para o almoço.
O aviso de que chegamos a garagem soa.
A porta do elevador abre, renovando o ar quente que nos encarcerava.
– Não. – digo, me desvencilhando do seu corpo. – Seu pai está nos
esperando.

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Capítulo 5

Chloe Campbell
Quando me chamou eu vim
Quando dei por mim tava aqui
Quando lhe achei, me perdi
Quando vi você, me apaixonei
Chico César – À Primeira Vista

A primeira vez que vi o Sam, me apaixonei.


Meu irmão estava namorando Mel fazia alguns anos, mas seria a
primeira vez que nossas famílias estariam reunidas, também foi a minha
primeira visita ao Brasil. Lembro de estar sentada na sala de estar dos pais
dele, entediada com a conversa dos adultos e chateada por ter sido obrigada a
passar as férias em família, enquanto minhas amigas se divertiam em Malibu.
Havia recém completado dezessete anos e infernizar as férias dos meus
pais parecia ser a melhor forma de vingança por ter sido arrastada para essa
viagem, portanto quanto mais munição para minha raiva, mais forte os
atacaria.
Nada me deixaria mais irritada do que ver as centenas de fotos que
minhas amigas compartilhavam no nosso grupo. Havia a possibilidade real de
começar a chorar ao ver as fotos, ponderei por alguns minutos. Valeria a
pena, meu pai ficaria desolado ao me ver chorando.
Deslizei os dedos na tela do celular e entrei no nosso grupo de
mensagens. Vadias! Estavam querendo mesmo me torturar. As fotos

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pareciam não ter fim e podia sentia a raiva crescendo em mim, junto com
uma vontade imensa de chorar.
“Boa tarde”.
Um timbre rouco e jovial invadiu a sala de estar. Antes mesmo de
erguer os olhos, senti um calafrio na base da minha coluna.
“Sam, esses...”
As vozes eram apenas zunidos aleatórios, não seria capaz de diferenciar
se era um homem, uma mulher ou mesmo os meus pais falando. Eu queria
me beliscar para ter certeza que não estava sonhando, porque o gostoso de
pele bronzeada e usando uma sunga azul com duas linhas vermelhas na
lateral era a personificação dos meus sonhos.
Se fiz cara de boba, não sei dizer, assim como não sei se alguém notou
que a minha boca estava escancarada, porque a minha atenção estava
completamente focada nele. Ele estava secando os cabelos e havia gotículas
de água por todo seu corpo. Soltei um suspiro profundo. Os meus lábios
ficaram secos de repente, apesar da saliva que se acumulava na minha boca.
Os meus olhos mapeavam cada detalhe dele, era alto, largo, a
musculatura firme e enxuta, sem excessos. Eu poderia nomear cada músculo
do corpo humano, se ele fosse meu modelo vivo; biologia seria a minha
disciplina favorita.
Na época, ainda era virgem, mas não pude deixar de notar o volume
sob a sunga, e involuntariamente deslizei a língua sobre os lábios,
umedecendo-os.
O som da sua risada provocou uma onda de rubor na minha face.
Levantei os olhos e fiquei sem ar com aquele sorriso. Ele tem um puta de um
sorriso safado, algo como um sorriso largo que no último minuto virou

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provocação; os lábios finos sutilmente repuxados no canto esquerdo. Estava


perdida entre o sorriso, os olhos castanhos chocolate e os traços angulares do
seu rosto.
“Ei, quer ver um filme?” – perguntou, e era como imaginava que seria
a voz de um cara durante o sexo, rouca e sussurrada contra a minha pele.
“Chloe?” – minha mãe chamou.
“Oi?”
“Sam falou com você.” – ela me deu um sorriso, que conhecia bem, era
um aviso disfarçado, exigindo que fosse educada.
Sorri internamente, não estava sendo grossa, apenas estava distraída.
Nem lembrava mais o porquê de estar chateada.
“Desculpe, o que você falou?” – perguntei, tentando controlar a minha
empolgação.
“Perguntei se você quer ver um filme.”
“Sim.” – respondi, rápido demais, o que o fez sorrir. – “Não estou
fazendo nada mesmo.” − completei, tentando soar indiferente.
Nos tornamos amigos, embora estivesse interessada em mais do que
amizade. Morria de ciúmes, porque ele tinha sempre esquema para as noites e
brigamos quando ele me rejeitou, quer dizer, eu briguei e ele invadiu o meu
quarto de madrugada.
A esperança acendeu no meu peito, acreditando que ele havia mudado
de ideia, mas não, ele queria se desculpar e explicar que por mais que
quisesse ficar comigo, não seria certo.
“Por que meu irmão e sua irmã são namorados? O que isso...”
Ele colocou a mão sobre os meus lábios, pedindo silêncio.

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“Não.” – sussurrou. – “Porque você tem dezessete anos.”


“Você tem dezenove.” – protestei.
“Quase vinte.” – argumentou. – “Quando você tiver dezoito, a gente
fica.”
“Quando fizer dezoito, quero mais do que um beijo, Sam.”
“Eu também.” – ele me deu um selinho, levantou e saiu do quarto.
Ele nunca soube o que aquela promessa significou para mim.
Minha contagem regressiva para as próximas férias iniciou naquela
noite, e quando meus pais inventaram de ir para o México, liguei para Andy
implorando para ele me deixar viajar com ele e Mel; sabia que a família de
Mel passava as festas de final de ano sempre reunida e nem que fosse por
uma noite apenas, iria exigir que Sam cumprisse sua palavra.
Não foi preciso cobrar a dívida. Sam me recepcionou com um abraço
caloroso, daqueles de tirar os pés do chão e que deixam os nossos corpos tão
próximos quanto um abraço permite, acompanhado de um sussurro ao pé do
ouvido.
“Não vejo a hora de ficar a sós com você.”
“Nem eu.” – disse e beijei o canto dos seus lábios. – “Gostei do
cabelo.” – comentei, quando ele me colocou no chão. – “É sexy.”
“Sexy?” – ele estreitou os olhos, mordendo o lábio inferior. – “Sexy vai
ser quando estiver entre as suas pernas.”
“Se você continuar com essa provocação, meu irmão vai perceber.”
“Fiz uma reserva para essa noite e não é em um restaurante.”
“Imagino que o prato principal seja a minha virgindade.” – pisquei os
cílios, fingindo inocência.
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“Santo Deus!” – ele soltou uma lufada de ar.


“Vou cumprimentar sua família. Ah, é bom que você tenha uma boa
desculpa para convencer Andy a me deixar sair sozinha com você.”
“Puta que pariu, não estava lembrando do empata foda.” – ele passou
a mão nos cabelos e tive vontade de agarrá-lo. – “Vou dar um jeito.”
Enrolar meu irmão, não era uma missão simples, porque Andy conhecia
a malícia do Sam bem demais, afinal ele mesmo já foi um cafajeste, e se não
fosse pela intervenção de Mel, não teria conseguido escapar com o Sam,
usando uma desculpa muito da furada: iríamos ao teatro.
Por pouco não fomos pegos na mentira, meu irmão na malandragem
disse que queria ir também, a sorte é que Mel entendeu o meu olhar de
desespero e falou que estava cansada demais para sair.
Pensei que ele me levaria a um motel e a verdade é que não me
incomodava que não fôssemos à um encontro, queria apenas estar com ele,
afinal esperei um ano por esse dia.
Não fantasiava com romance, embora os meus sentimentos por ele
fossem inegáveis, e foi por essa razão que falhei em impedir as lágrimas
quando ele me levou a um jantar a dois, na varanda de um quarto de hotel,
com vista para a Tower Bridge.
“O que foi?” – ele me puxou para os seus braços.
Fechei os olhos, recostei o rosto no seu peito e apertei os lábios,
sentindo as lágrimas correrem livremente.
“Não estava esperando...” – dei de ombros, sem saber como
prosseguir.
“Onde você achou que iria te levar?” – ele sorriu e beijou os meus
cabelos. – “Chloe, você me escolheu, o mínimo que posso fazer é tornar esse
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momento especial.”
Sete anos passaram e continuo apaixonada por ele.
Sinto o gosto salgado das lágrimas nos meus lábios. Abro os olhos e
afago o travesseiro que ele colocou no seu lugar, enterro o rosto nos lençóis,
me apropriando do seu cheiro. Sei que ele não me ama como o amo, e deveria
ficar longe, para não me machucar e quem sabe esquecê-lo, mas alguma parte
estúpida e irracional insiste em querer estar com ele.
É sempre igual, ele me ama intensamente e, na manhã seguinte, fico
sozinha com as minhas lembranças.
“Olha para mim, Chloe.” – pediu. Abri os olhos e vi aquele sorriso
safado. “Quero estar olhando nos seus olhos enquanto te amo.” – ele me deu
um beijo suave. – “Pela primeira vez”. – completou.
Sorri e senti uma lágrima aquecer a lateral do meu rosto. Sam moveu o
corpo e tal como os nossos olhos, os nossos corpos se encontraram. Entreabri
os lábios em um suspiro, e prendi a respiração, sem perceber.
“Respira.” – ele instruiu.
Soltei a respiração e mordi o lábio, sentindo-o ir mais fundo,
provocando uma dor fina, gradativamente substituída por calafrios que
irradiavam a partir do feixe de nervos entre as minhas pernas, avançando pela
minha espinha e descarregando impulsos nervosos por todo o meu corpo.
“Isso, Chloe.” – ele gemeu e seus lábios uniram-se aos meus.
Rolo na enorme cama vazia, afasto os lençóis e sento, olhando o quarto
onde estive tantas vezes, e que adoraria chamar de nosso.
Como alguém pode ser capaz de nos fazer tão feliz, e ao mesmo tempo
tão infeliz?

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Passo a mão nos cabelos, prendendo-os em um coque mal feito.


− Nunca serei a sua exceção. − digo entre lágrimas. – Por que você
tinha que ser a minha, Sam?

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Capítulo 7

Samantha Andrade
No ar que eu respiro
Eu sinto prazer
De ser quem eu sou
De estar onde estou
Agora só falta você
Pitty – Agora Só Falta Você

Tenho tudo o que quero, com uma única exceção: Sam Allencar.
Por enquanto.
É só uma questão de tempo para que ele seja meu e todas as vadias
podem lamentar, porque não divido o que é meu.
Conheci o Sam quando namorava o Murilo. Eles estudavam no
Instituto de Tecnologia de Massachusetts e dividiam um apartamento. Não
sei como eles se conheceram e muito menos como se tornaram melhores
amigos, mas eles são como os dois lados de uma moeda. Ambos são grandes,
ombros e costas largas, mãos grandes, abdômen definido, veias
sobressalentes nos bíceps, panturrilhas e coxas grossas e com músculos
esculpidos.
Os dois juntos são o pecado mortal andando na terra, na versão loiro de
olhos verdes e moreno, naturalmente bronzeado, de olhos castanhos. Chega a
ser injusto com os meros mortais, sozinhos eles atraem todos os olhares,

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juntos eles são a atração principal de qualquer lugar.


Meu pai tinha me dado uma viagem com algumas amigas para
comemorar meu aniversário e pedi que incluísse alguns dias em Cambridge,
para que pudesse encontrar com Murilo. Nós estávamos namorando há um
ano e nos víamos raríssimas vezes, ele tinha vinte anos e estava focado na
universidade, eu era uma guria de dezesseis anos que queria pegação.
Naquela viagem, queria sexo com meu namorado gato e universitário.
Como não sou mulher de medir esforços para ter o que quero, dei uma festa
no hotel onde fiquei hospedada com minhas amigas e pedi que Murilo
levasse alguns amigos.
Quando abri a porta e vi loiro e moreno, lado a lado, soube que estava
diante do meu namorado e do meu futuro marido, porque de jeito nenhum iria
perder a chance de sentir o gosto daqueles lábios travessos que desenhavam
um sorriso safado.
Namorei Murilo por mais dois anos, meu pai ficou muito sentido
quando terminei o relacionamento, porque ele é filho de um grande amigo
dele, então sugeri que convidássemos Murilo para trabalhar na empresa,
afinal ele estava concluindo a universidade e seria uma forma de demonstrar
que a amizade entre nossas famílias não estava abalada com o rompimento.
Meu pai adorou a ideia, e nunca suspeitou que minha intenção por trás do
pedido era ter um gancho para trazer Sam para o alcance das minhas mãos.
Dois anos depois, Sam estava concluindo a universidade. Ele e Murilo
continuavam amigos e se encontravam de tempos em tempos, então muito
inocente perguntei ao Murilo porque ele não conversava com meu pai sobre
uma oportunidade para o Sam. Foi como mosca na sopa, ele caiu que nem
sentiu e assim dei mais um passo rumo ao meu objetivo: Sam Allencar.
O grande entrave para o sucesso da “Missão sra. Allencar” é a
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resistência do Sam à atração indiscutível que há entre nós. Têm sido dois
longos anos desde que ele entrou na empresa, há um ano foi promovido a
diretor de projetos, e o mais perto que estive de conseguir ir aos finalmentes
foi na festa de promoção que o meu pai deu para ele na nossa casa.
“Oi, sr. Diretor”. – falei, jogando o cabelo de lado e tranquei a porta
do lavabo.
Sam estava parado em frente à pia, me aproximei, abraçando-o por trás
e beijando o seu pescoço. Ele estava usando o cabelo comprido à pouco
tempo e estava terrivelmente gostoso com aquele coque samurai e um
smoking.
“O que você está fazendo?” – ele girou o corpo e suas mãos
repousaram na minha cintura. – “Preciso sair, devolva a chave”.
Neguei, movendo a cabeça de um lado ao outro e cruzei as minhas
mãos na sua nuca. Ele estava nas minhas mãos, podia sentir a sua ereção
pressionada contra o meu corpo. Fiquei o mais perto possível dos seus lábios,
sem tocá-los, e esperei com um sorriso provocante.
Ele não se moveu. Deslizei a ponta da língua sobre os meus lábios e
senti suas mãos se arrastarem para a minha bunda, os lábios chocaram-se com
os meus com fúria.
Foi um beijo violento, Sam me girou e empurrou de encontro a pia, os
dedos longos afastaram a fenda do vestido e afundaram na minha coxa. Seus
lábios desceram pelo meu pescoço, suas mãos agarraram os meus braços e
apoiaram as minhas mãos sobre o granito.
Ele voltou a beijar os meus lábios, circundou a minha cintura em uma
das mãos, fazendo-me sentar na pia. O vestido longo me impedia de colocar
as pernas ao redor do seu quadril, mas não impediam que a sua mão se

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infiltrasse através da fenda.


Arfei ao toque dos seus dedos na minha intimidade, estava sem
calcinha e ele gemeu nos meus lábios quando acariciou a umidade entre
minhas pernas. Abri as mãos, deixando a chave tilintar sobre o granito.
O cretino removeu a mão que estava na minha nuca e afanou a chave,
enquanto eu gemia com as suas carícias. Ele mordeu o meu lábio, se afastou e
balançou a chave entre os dedos, com um sorriso convencido.
“Foi bom enquanto durou”. – disse, indo destrancar a porta.
“Sam!” – esbravejei, descendo da pia.
“Joguei com as suas armas”. – ele piscou e me jogou a chave.
Sam Allencar é um cafajeste escroto e será o meu marido.
A “Missão sra. Allencar” não tem entraves, porque tenho a vantagem
de não ter concorrentes no meu nível. Roberta é uma advogadazinha que
posso demitir quando bem entender e Lilian, por mais eficiente que seja
como Diretora de Marketing, não tem peitos para competir comigo,
literalmente falando.
A coitada da Chloe Campbell morre de amores, mas não significa nada
para ele, só mais uma para ser descartada quando eu tomar o que é meu.
Quanto às outras, não há ninguém relevante. Todas vadias. Se surgir alguém
que desperte o mínimo de interesse nele, o que é muito pouco provável,
estarei dois passos à frente da vadia, porque meu detetive particular me
mantém a par de tudo e irei destruí-la se ela ficar no meu caminho.

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Capítulo 8

Sam Allencar
Não estatize meus sentimentos
Pra seu governo, o meu estado
É independente
Legião Urbana – Baarder-Meinhof Blues

Abro a porta do carro para Samantha. Ela entra, coloca a bolsa no


assoalho e sorri, cruzando as pernas lentamente e queixando-se por não ter
lhe dado atenção no casamento da minha irmã.
– Estive muito ocupado. – bato a porta.
Faço a volta por trás do carro para ajeitar o volume na minha calça sem
o olhar lascivo de Samantha me devorando. Aperto os músculos abaixo do
pescoço e ombros, dando algum alívio aos pontos de tensão. Olho para dentro
do carro e a vejo retocando o batom. Suspiro, pego um elástico no bolso
interno do blazer e prendo meu cabelo em um coque.
Quando finalmente entro no carro, os meus olhos encontram uma
calcinha azul, rendada e minúscula, exposta no volante. Minhas pálpebras
fecham, inspiro, conto até dez, solto uma respiração profunda e olho para a
minha carona.
– Samantha, o que significa isso?
– Não gostou? – ela aperta minha coxa.
– Você precisa parar.
– Ou você precisa ceder.
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Tiro a calcinha do volante e jogo no colo dela. Dou partida no carro,


fazendo o impossível para ignorar que há uma gostosa, sem calcinha, sentada
ao lado e massageando o meu pau, com a porra de uma mão que sabe muito
bem o que está fazendo.
Paro em frente ao restaurante para ela descer, porque teria que deixar o
carro no estacionamento que fica na rua de trás.
– Você vai me deixar entrar desacompanhada?
– Seu pai deve ter chegado.
– Não, vou com você.
– Não diga que te obriguei a dar a volta no quarteirão nesses saltos. –
aviso e retomo a direção.
Estaciono na vaga mais perto da saída que avistei. Estou tirando as
chaves quando Samantha se debruça sobre o meu colo, às mãos no zíper da
minha calça.
– Ficou maluca? – a seguro pelos ombros, empurrando-a de volta para
o assento.
– Você quer mesmo ir encontrar o meu pai, e seu chefe, com o pau
assim?
– Não estaria duro se você não tivesse se esforçado tanto. – ironizo.
– Não vem ao caso. – ela fica de joelhos no assento e segura minha
nuca, passando as pernas ao meu redor. – Prometo que não vou deixar
nenhuma gotinha cair no seu estofado.
– Isso não vai acontecer. – afirmo, e o desgraçado do meu pau nega,
enrijecendo mais ao senti-la rebolando no meu colo.
– Qual é, Sam? – ela puxa o elástico do meu cabelo. – Vou adorar

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sentir a sua barba arranhando a minha pele.


– Samantha, não vou fazer sexo com você. – digo pausadamente,
segurando seu rosto entre minhas mãos. – Não é que não queira, você está
sentindo o quanto quero, mas não vai rolar.
– Por que não? – ela morde meu pescoço.
– Os motivos de sempre, você está interessada em compromisso, eu
não.
– Se você não fosse tão gostoso, faria meu pai te demitir.
– Não posso evitar. – dou de ombros.
– Cafajeste desgraçado! – ela me dá um tapa na cara. – Não faça esse
coque samurai se não quiser que te pegue. – sorri e contorna os meus lábios
com a ponta da língua.
– Não tire sua calcinha no meu carro.
– Não posso evitar. – ela dá de ombros e sai do meu colo.
Sabia que estava longe dessa guerra ter fim, Samantha não desiste fácil,
mas estava aliviado por vencer essa batalha. Ela não vestiu a calcinha, a
colocou no meu porta-luvas, exibindo um sorriso malicioso enquanto o
fechava. Segurei sua mão, impedindo-a de fechá-lo, e tateei o pequeno
espaço, procurando outro elástico. Quando encontrei, fechei o porta-luvas e
pisquei para ela, refazendo o coque no meu cabelo. Esperamos alguns
minutos até que o volume na minha calça estivesse sob controle e fomos para
o restaurante.
Como supôs, Marcelo estava nos aguardando. Samantha sentou-se ao
lado do pai, o que me fez estreitar os olhos, suspeitando das suas intenções.
Marcelo havia pedido um vinho para acompanhar o almoço.

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– Para mim, apenas uma água com gás.


– Apenas uma taça não será problema, Sam. – Marcelo insiste.
– Tenho duas vistorias para realizar em algumas horas, melhor não.
– Você não acha que o Sam é muito formal, papai?
– Por isso ele é tão bom, é importante ter consciência da sua
responsabilidade enquanto diretor.
– Ele é mesmo muito bom.
Samantha deixa no ar um sorriso travesso e de repente sinto o seu pé
alisando a minha coxa, sorrateiramente indo em direção ao meu pau. Minha
boca entreabre com a carícia inesperada, apoio o cotovelo na mesa e enterro
minha boca sobre o punho, engolindo os suspiros. Ela umedece os lábios e
abaixa os olhos, fitando os seios.
– Marcelo, estava conversando com meu pai e estou reavaliando aquela
proposta para assumir a diretoria executiva do escritório em Tóquio.
– O quê? – Samantha arregala os olhos.
– Nada me deixaria tão feliz. – Marcelo comenta.
– Papai! – ela tira o pé do meu colo. – Como assim você vai mandá-lo
para Tóquio?
– É uma oportunidade única, Samantha, e Sam tem demonstrado o
comprometimento esperado para o cargo de CEO.
– Você está pensando em ir para Tóquio? – ela arqueia a sobrancelha.
– Talvez.
– Há algo que deva saber? – Marcelo olha por um instante para
Samantha e depois para mim.

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– Não! – exclamo.
– Vocês sabem que não precisam esconder se estiver...
– Não, Marcelo. – o interrompo. – Não há nada entre nós.
– Ainda. – Samantha completa.
– Ela está brincando.
– Certamente, isso me faria mais feliz do que ter você como CEO em
Tóquio.
– Minha vida é o trabalho, não há espaço para um relacionamento.
Meu plano era surpreender Samantha e deixá-la com o foco em algo
além do meu pau, funcionou, ela parou de me cutucar com o pé e o almoço
seguiu sem inconvenientes. Marcelo se dispôs a levá-la em casa na saída do
restaurante, agradeci em pensamentos e apressei a despedida.
– Vou adiantar, porque preciso passar no escritório para pegar uma
papelada para a vistoria.
– Vamos combinar algo para o fim de semana. – Samantha propõe, me
abraçando.
– Ocupado, lembra?
– Não se assuste quando bater na sua porta. – ela sussurra, perto
demais. – Nua.
– Até mais, Samantha.
O dia foi intenso. Entre escapar das investidas de Samantha e duas
vistorias nas obras, meu corpo e mente precisavam de descanso. Estava a
duas quadras de casa, quando me dei conta que Judy só iria aparecer no
apartamento amanhã, o que significa que não terei um saboroso jantar me
esperando e não estou a fim de cozinhar.
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Tamborilo os dedos no volante, aguardando o sinal abrir e lembrei do


restaurante do hotel que fez todos os jantares e recepções do casamento de
Mel.
Faço observações mentais sobre o restaurante: a comida é excelente,
tem bons vinhos no menu, fica aberto vinte e quatro horas, posso ter a sorte
de encontrar companhia para essa noite.
Aprovado.
Paro o carro no estacionamento do hotel. Tiro o blazer e a gravata, jogo
no banco de trás, removo as abotoaduras e dobro as mangas da camisa, na
altura dos bíceps.
Na porta do restaurante, sondo o ambiente. Escolho uma mesa entre
algumas mulheres, perto o bastante para elas me notarem e longe o suficiente
para elas duvidarem do meu interesse. Peço uma taça de Château Haut-Brion
ao garçon que me entrega o menu – sei que eles têm esse vinho, pois fiz o
mesmo pedido há duas noites – e pergunto qual a sugestão do chef para o
jantar.
− Vou pedir que um dos garçons do restaurante venha atender o senhor, só cubro
o serviço de bar.
− Tudo bem.
Folheio o menu.
− Com licença, senhor.
Ergo os olhos. Reconheceria aquele olhar em qualquer lugar.
A garota dos olhos multicolores.
− À vontade. – sorrio.
Ela abaixa os olhos e dispõe a taça na mesa, servindo o vinho. Por um breve

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segundo, tive vontade de dar um esbarrão na sua mão e fazê-la derrubar a bebida na
minha camisa, mas resisti ao impulso.
− A sugestão do chef é uma massa, mas se me permite, o Entrecôte à la
Bordelaise vai oferecer uma melhor harmonização ao vinho que o senhor escolheu.
− Você entende de vinhos?
− Trabalho em um restaurante. – ela dá de ombros. – Precisa de mais alguma
coisa? Vou deixá-lo à vontade para escolher o seu prato.
− Entrecôte à la Bordelaise, correto?
− Sim, senhor. – ela responde com a cabeça baixa.
− Está escolhido, mas sim, quero outra coisa.
− Sim, senhor. – ela registra o meu pedido no bloco de notas e ergue os olhos,
aguardando.
− Seu nome. − curvo sutilmente os lábios. − Ainda não sei, garota dos olhos
multicolores.
− Não se preocupe, o senhor não precisa saber meu nome, estarei à sua
disposição.
− Ok. – respondo, sem desviar os olhos dela. – Que horas termina o seu turno?
− Senhor, vou pedir que não prossiga ou serei obrigada à recusar atendê-lo.
− Não posso convidá-la para jantar? É contra a política do restaurante?
− Não, senhor. Obrigada pelo convite, não posso aceitar.
− Um drink? – aliso o cavanhaque.
− Preciso fazer o seu pedido, com licença.

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Capítulo 9

Sam Allencar
Eu sei que você sabe
Quase sem querer
Que eu quero o mesmo que você
Legião Urbana – Quase Sem Querer

Meu novo restaurante favorito.


Levo a taça aos lábios, sem mover os olhos da mulher mais difícil que
já conheci até hoje, considerando que nem o seu nome consegui descobrir.
Ela tem uma bela bunda, sorrio em pensamentos.
Assisto o espetáculo que é vê-la desfilando sobre os saltos, não tão
altos, dentro de um vestido preto, formal, quatro dedos acima do joelho, justo
o suficiente para ter um vislumbre do que há por baixo daquele uniforme;
claro que minha ideia é bem mais apurada, tive o prazer de vê-la em peças
íntimas.
Ela estava falando sério quando disse que estaria à minha disposição.
Quando pensei em acenar para pedir uma segunda taça de vinho, ela apareceu
ao meu lado com a garrafa em mãos.
− Você está lendo meus pensamentos? – ergo a taça.
− Palpite de sorte.
− Que tal um jogo?
− Como?

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− Tenho uma chance de acertar a inicial do seu nome, se tiver sucesso, você aceita
jantar comigo amanhã à noite.
− Trabalho amanhã à noite.
− Na sua folga.
− Por que você acha que vai acertar?
− Deixamos o senhor de lado, estamos avançando. – sorrio.
− Desculpe, senhor, falha minha.
− Eu tenho cara de senhor? Vamos manter o você, por favor.
− É contra as regras me dirigir aos clientes pelo primeiro nome ou por você, ainda
mais quando eles pedem o vinho mais caro da casa.
− Se pedir uma cerveja? Ou uma dose de cinquenta e um? – brinco. Ela sorri,
deixando escapar um riso baixinho, mas imediatamente une os lábios, contendo o som
vibrante do seu sorriso. – Você não vai ter, né?
− Não, senhor.
− Um jantar. – insisto, dando a ela o meu olhar de pedinte. – Quero te ouvir sorrir,
sem medo de estar sendo inadequada.
− Jantar com o senhor é inadequado.
− É? – dou de ombros. – Para quem?
− Notou quantas mulheres não tiram os olhos do senhor?
− Estive ocupado, notando você. – tomo um gole do vinho.
− Não posso aceitar jantar com um garoto.
− Você vai de um extremo ao outro, quando não está me chamando de velho com
esse “senhor” irritante, está me chamando de garoto. Não tenho oito anos de idade.
− Pode não ter oito, mas é um garoto.
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Ela me dá as costas e sai andando.


Juro que queria ir atrás dela e jogá-la na porcaria dessa mesa, para ela ver o garoto
aqui em ação, mas me contento em vê-la ir de um lado ao outro, rebolando quase
imperceptivelmente. Dou uma boa secada nela, avaliando quantos anos deve ter, no
máximo uns trinta e dois, talvez trinta e cinco, não mais que isso.
− Seu jantar, senhor. – ela coloca o prato na minha frente.
− Trinta e dois?
− Cinco.
− Era o meu segundo palpite. – corto uma fatia da carne. − Dez anos de diferença
não é tanto assim.
− Não importa.
− É só um jantar, não precisa terminar em sexo. – arqueio a sobrancelha. – Alguns
amassos?
− Você sempre consegue o quer?
− Basicamente.
− Com esse joguinho de sedução de quinta?
− Assim você me ofende. – levo o garfo a boca, mastigo devagar, com os olhos
nela. – Bela tattoo. – comento displicente, abaixando os olhos para o prato.
− Como voc...
− Uma abelha, apropriado. – comento. Ela mantém os grandes olhos multicolores
fixos nos meus, um tanto confusa e surpresa com a minha observação sobre a minúscula
tatuagem no seu tornozelo. – Então, vai me dizer seu nome agora ou no nosso jantar,
abelha rainha?
− Você sabe que o zangão morre depois do sexo?

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− Morreria feliz, mas não estou te convidado para uma noitada de sexo, e sim
para um jantar. – sorrio. – E o nome da abelha rainha é...
− Rafani – murmura.
− Quando é a sua folga, Rafani?
− Amanhã.
− Você não disse que estava trabalhando amanhã? – estreito os olhos.
− Queria me livrar do senhor. – ela sorri e segue para outra mesa.
Pressiono os dentes no lábio inferior e giro o pescoço disfarçadamente, meu olhar
indo junto com o seu rebolado capcioso. Jurava que iria flagrá-la olhando por cima do
ombro, no entanto, ela não fez nem menção de se virar; e é ridículo o quanto a sua
indiferença estava me afetando, ao ponto de ficar feliz com um jantar sem sexo como
sobremesa.
− Outra taça de vinho, senhor? – pergunta ao retirar o prato.
− Não. – tiro uma caneta do bolso, escrevo meu telefone em um guardanapo e
deslizo na sua mão. Ela se assusta com meu toque e os seus grandes olhos parecem ficar
ainda maiores. − Vou deixar algumas taças para o nosso jantar. A conta, por favor.
− Sim, senhor.
− Ah. – toco os seus dedos. Sinto seu corpo se retesar e ela puxa rápido a mão. –
Antes da conta, quero um “oi” no meu celular, só para garantir que terei o seu telefone.
− Sério? – ela revira os olhos.
− Ou posso esperar até você terminar o turno e te acompanhar até sua casa. – dou
de ombros.
− Eu concordei com o jantar.
− Se fosse você teria certeza de estar enviando a mensagem do seu celular, pode
ser constrangedor se alguém ler a resposta.
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Ela suspira irritada e me dá as costas.


Estou gostando desse jogo. Não contive a gargalhada quando o celular vibrou e
abri a mensagem com um “oi”. Pagava para ver a cara dela quando lesse a minha
mensagem, me apressei em digitar e quem sabe teria a sorte dela ler antes de vir trazer a
conta.
“Não seja tão literal, mulher! Já sei que posso te deixar irritada e debochada,
gosto do seu humor e indiferença é o seu charme. Quero descobrir o que mais sou
capaz de fazer antes que você admita que sou muito mais do que o seu tipo e estou
disposto a pagar com a minha vida se os meus instintos estiverem corretos, Abelha
Rainha. Não será amanhã, mas você será minha e vou te degustar como o mais nobre
dos vinhos. Sam.”
Mensagem enviada, aproveito para checar e responder outras mensagens e e-
mails. Um “senhor” na voz delicada e de timbre médio, que agora tinha um nome,
soou ao meu lado.
Rafani.
Há algo nela que não seja exótico? Questiono, levantando os olhos para o seu
rosto. Santo Deus! O rubor nas maçãs do seu rosto tingiu a pele dourada de um
vermelho vivo que acentuou o semblante selvagem.
Engulo em seco.
− Algo mais? – inquere, entregando-me a pasta com a conta.
− Amanhã às dezenove está bom para você? – ignoro sua pergunta. Ela
assente. – Mande o endereço com o local onde devo buscá-la.
Queria deixar uma gorjeta extra, mas supus que ela não iria reagir muito bem e
me limitei aos dez por cento.
Entrei no carro, desabei a cabeça no encosto, olhando o céu com poucas estrelas e
comecei a rir sem motivo. Peguei o celular e enviei uma nova mensagem para Rafani.
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− “Endereço, por favor. Você tem alguma preferência? Alguma restrição que
deva saber, para não te levar numa churrascaria e descobrir que você é vegana, por
exemplo.”
Não esperei que ela me respondesse, afinal ela estava no horário de expediente.
Dirigi para casa e quando saí do banho e peguei o celular para verificar as últimas
mensagens, ela havia me respondido. Para a minha completa incredulidade, com algo
mais do que o endereço. Ela fez um comentário provocativo, me incitando a adivinhar
do que gosta.
“Porra! Sou observador, não vidente. Dê-me algo para trabalhar ou teremos que
partir para um delivery se a primeira opção der errado. Use calça, vamos dar uma
volta na minha Harley e sou um amante da velocidade”.
“O playboy engomadinho curte velocidade? Hum, surpreendente! Vou correr o
risco de comermos um cachorro quente numa barraquinha de rua”.
“Saquei e gostei. Primeiro foi playboy presunçoso, agora engomadinho?
Esqueça o playboy! Estava em um casamento, tinha que estar vestido de acordo com as
exigências da noiva insuportável, que também é minha irmã. Hoje, estava saindo do
trabalho e não estava tão engomadinho assim, vai. Foi o máximo que consegui fazer
com a roupa de executivo (que sou obrigado a usar), não posso ir trabalhar com jeans,
coturno e jaqueta de couro, mas é isso o que você vai ter amanhã. Me aguarde”.
“Ok”.
Escrevi um texto e ela me responde com um “ok”.
Puta que pariu!

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Capítulo 10

Sam Allencar
Todos os dias quando acordo
Não tenho mais o tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo
Legião Urbana – Tempo Perdido

Reuniões e reuniões ocuparam o meu dia.


Passei a manhã numa sala com Roberta, Bárbara e o sr. Portella, um
dos nossos principais clientes. O projeto que desenvolvemos para ele é
bilionário e ele faz questão de discutir todos os tópicos e alterações,
contratuais e das obras, pessoalmente, por isso tenho a incumbência de a cada
quinze dias sentar com ele e Roberta para analisarmos o andamento do
projeto.
− Tem companhia para o almoço, Sam? – Roberta pergunta na saída da
sala de reuniões.
− Tenho algumas pendências para resolver com a srta. Bárbara antes de
sair para almoçar.
− Nos vemos depois. – ela acena e vira no corredor à direita.
− Pendências? – Bárbara murmura entre risos. – Você não tinha uma
desculpa melhor?
− Sou péssimo em inventar desculpas. – confesso e pressiono o botão
do elevador. – Por que você acha que não tenho uma namorada? Iria me
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ferrar toda vez que pensasse em mentir.


− Achei que você não tinha namorada porque prefere relações casuais.
– ela franze a testa e dá um meio sorriso.
− Principalmente. – aliso o cavanhaque. − O segundo motivo é por ser
um péssimo mentiroso. É sério que tenho mais duas reuniões hoje?
− Sim.
− Não faça mais isso comigo, por favor. Limite suportável de reuniões
em um dia são três, ok?
− Você tem três reuniões amanhã e um jantar de negócios no mesmo
hotel que aconteceu o casamento da sua irmã.
− Isso vai ser interessante. – comento.
− Por que?
− Nada. – saio do elevador. − Pensei alto.
− Porra, está difícil te encontrar, meu filho. – Murilo levanta e me dá
um soco no bíceps.
− Ei seu caralho pega leve, estou dolorido.
− Sabe o que é isso, né? – ele apoia um braço sobre os meus ombros. –
Não dava para deixar uma dama de honra para mim?
− Murilo, vá se foder. Dei conta das quatro e muito bem. – empurro ele.
− Oh, porra, olha a Bárbara aqui. – levanto as mãos, pedindo desculpas.
− Faz tanto tempo assim que estive aqui ou você continua trocando de
secretária a cadamês? – ele ironiza.
− Ela está comigo há seis meses, você que só quer saber de ficar
passeando pelas obras e sumiu.

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− Passeando o meu...
− Murilo, porra!
Bárbara está vermelha, muito vermelha. Tenho vontade de rir, porque
ela está olhando para o Murilo bastante interessada, coisa que nunca a vi
fazer.
Minha mãe brinca dizendo que eu e o Murilo somos o yin e o yang,
farinha do mesmo saco como diz minha avó. Nos conhecemos no MIT, havia
acabado de chegar, e nos conhecemos numa aula, começamos a conversar e
surgiram vários amigos em comum, no final do dia passamos de estranhos
para melhores amigos.
Ele estava procurando alguém para dividir o apartamento, eu estava a
fim de ter mais espaço do que o alojamento do campus oferecia, fiz a
mudança para o apartamento naquele fim de semana e por dois anos fizemos
loucuras naquele lugar, era tanta mulher fazendo o caminho da vergonha pelo
nosso corredor que perdemos as contas. Sim, éramos babacas o suficiente
para termos uma lista de fodas.
Murilo é tão alto quanto eu e temos quase a mesma estrutura muscular,
além de termos adotado barba e cabelos nos ombros na mesma época. Não
foi mera coincidência, Lucca, um dos nossos melhores amigos, é gay e de
zoação disse que nos pegaria se deixássemos a barba e o cabelo crescer,
porque teríamos algo como um “sex appeal indestrutível”.
Apostamos que ele não nos veria com interesse sexual e aderimos às
longas madeixas; a barba me incomodou bastante no início, coçava como
uma porra, mas aposta é aposta. Ganhamos, porque a amizade que tínhamos
soterrou qualquer chance do Lucca ter algum tesão por nós, mas percebemos
que as mulheres triplicaram, motivo mais do que válido para manter a
mudança.
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Precisávamos nos diferenciar em algo, não que pudessem nos


confundir, afinal o branquelo é loiro de olhos verdes, mas queríamos que as
nossas personalidades estivessem visíveis, por isso sou o samurai no estilo
man bun, meio largado, despojado, mas penteado, e o Murilo é o Tarzan, com
os cabelos sempre livres, como se tivesse saído de casa sem nem olhar o
espelho. A verdade é que ele passa horas na frente do espelho para deixar o
cabelo no estilo selvagem sexy, como ele diz.
Analiso o semblante da Bárbara, pelo visto ela aprovou o visual
desleixado que o Murilo produz cuidadosamente.
− Desculpe, a culpa é do seu chefe. – ele estende a mão para
cumprimentá-la. – Murilo Valverde, coordenador externo de projetos.
− Bárbara. – diz tímida e abaixa os olhos.
− Bárbara faz engenharia mecânica. Ela está no quinto período.
− Gostando?
− Sim, muito. – ela passa a mão no pescoço, inquieta.
Os olhos girando pela sala, buscando algo em que se concentrar que
não seja o sorriso sem vergonha que o Murilo está jogando para ela.
− Ele é o cara da engenharia mecânica, Bárbara. Você olhando assim
não diz, né? – provoco. – Jeans, camisa básica, com outra dobrada nos
bíceps, exibindo a porra desses braços que ninguém que ver, está de férias?
− Você quer que rode as dezenas de obras que você me envia toda
semana vestido de pinguim? Nem fodendo. Agora, vamos logo almoçar e a
conta é sua.
− Você vem me chamar para almoçar e quem paga sou eu?
− É assim que funciona. Ela pode ir com a gente ou isso infringe a sua

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ética?
− Ah, não obrigada. – Bárbara se apressa em recusar o convite. – Tenho
algumas pendências e preciso deixar tudo pronto para a reunião ás catorze
horas.
− Pendências? – estreito os olhos.
Ela ruboriza e balança os ombros.
– Prometo que estará finalizado a tempo.
− Tenho certeza. – ironizo.
− Libera a menina para almoçar, Sam.
O tapado do Murilo não percebeu a careta que Bárbara fez quando ele
se referiu a ela como “menina”.
− Eu trouxe um sanduíche, como por aqui mesmo, rapidinho.
− Você é quem sabe, se quiser ir, de boa. – digo, autorizando-a, caso
ela esteja querendo ir e com medo que eu não vá gostar.
− Não, obrigada.
− Vamos, porque minha tarde vai ser longa e tenho um encontro hoje à
noite. – digo, entrando no escritório para deixar minha pasta.
− Ele falou encontro? – Murilo pergunta.
− Sim? – Bárbara parece em dúvida.
− Você disse encontro? – ele mete a cara na porta do escritório.
− Não. – respondo, sem virar para ele.
− Você falou! – ele acusa.
− Estou a fim de cair matando em um churrasco. – desconverso, saindo
do escritório.
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− Fala a verdade, você disse que tinha um encontro hoje à noite. – ele
vem no meu encalço, puxando o meu ombro. – Quem é? Eu conheço?
− Você dirige. – ignoro o inquérito e entro no elevador.
− Sam, porra! – ele me dá outro soco no bíceps. – Você não pode fingir
que não anunciou a última profecia do apocalipse.
− Não é um encontro como você está pensando, é só um encontro.
− Diga algo que faça sentido.
− Vou levar uma mulher que conheci para dar uma volta na Harley e
comer alguma coisa, sem flores, sexo ou o que mais você estiver imaginando.
− Você acabou de dizer sem sexo? – Murilo arregala os olhos.
− Não falei porra nenhuma. Onde está o seu carro?
− Você não vai se safar fácil assim. Onde você a conheceu? Como ela
é?
− Gostosa pra caralho! Agora vamos falar sobre o seu sorriso sem
vergonha para Bárbara.
− Quê?!
− Murilo, te conheço há sete anos, vi você dar aquele sorriso uma
centena de vezes e sei onde ele termina, as galhas que você deu na Samantha
são tantas que ela poderia reflorestar a Amazônia.
− Ela é interessante. – ele destrava o carro.
− Interessante é meu pau. – bato a porta do carro. – Não mexa com ela,
se não for sério.
− O que é isso? Além de passar pela aprovação do pai, preciso da
aprovação do chefe?

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− Ela não tem pai, então estou tomando os encargos e você não se meta
entre as pernas dela se não tiver intenção de um relacionamento.
− Ela é uma menina. Tem o que, dezoito?
− Dezenove, ela não teve uma vida fácil, e não vou deixar o meu
melhor amigo magoá-la.
− Não vou.
− Ela gostou de você. – comento um tempo depois, dando um meio
sorriso.
− Gostei dela. Posso convidá-la para sair?
− Mantenha o seu pau nas calças e está tudo bem.
Murilo dá uma risada alta e concorda.
− Você decidiu sobre Tóquio?
− Estou adiando essa decisão, tenho seis meses para dar uma reposta.
− Você sabe que Marcelo também não vai demorar muito para dar
entrada na aposentadoria junto ao conselho.
− Sei, ele mesmo me falou que aos sessenta deixa a cadeira, mas é
diferente. Você sabe o que significa assumir o cargo de CEO aos vinte e
cinco anos, minha meta de dez anos completa em apenas dois.
− Tóquio?
− Somos do mundo, esqueceu, meu filho?
− Se é assim, porque você não aceitou ainda?
− Porque é Tóquio, porra! – digo e gargalhamos.

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Capítulo 11

Sam Allencar
Não vá embora, fique um pouco mais
Ninguém sabe fazer o que você me faz
É exagero e pode até não ser
O que você consegue ninguém sabe fazer
Legião Urbana – Teorema

Paro em frente ao espelho, me olhando dos pés à cabeça, não quero dar
nenhuma brecha para Rafani me chamar de playboy.
A tinta preta da tatuagem no meu bíceps marca o tecido branco da
camisa, abaixo da manga uma pequena amostra da tatuagem, sakuras tingidas
em vermelho e uma mão. O desenho completo é de um samurai de perfil,
cabeça baixa, coque com alguns fios soltos, caindo sobre o rosto e sakuras
sendo arrastadas pelo vento, pairando sobre ele. Não é uma imagem de
batalha, é a imagem de um homem em sofrimento, como se houvesse perdido
tudo o que mais importa.
Apliquei um pouco de perfume nos punhos e pescoço, por fim peguei
um elástico e fiz um coque. Saí do banheiro, peguei a jaqueta em cima da
cama e vesti, foi quando vi que havia uma mensagem no celular.
“Sinto muito, não vou poder ir”.
O quê?!
Leio a mensagem de novo, ela está me zoando.
Digitei uma mensagem em resposta, olhei para a opção enviar, rolei o
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dedo na tela, descartando a mensagem e liguei. Chamou até cair na caixa,


tentei de novo. Cinco toques e ela atendeu.
− Oi.
− Qual o imprevisto?
− Oi, boa noite. Tudo bem com você?
− Não! – esbravejo. – Por que você não pode me encontrar?
− Por que você está irritado?
− Porque nós tínhamos um encontro.
− Não, nós íamos jantar.
− Para jantar precisamos nos encontrar.
− Foi mal, não vai ser possível.
− Por quê?
− Por que não.
− Suponho que o endereço que você me deu não seja o da sua casa, mas
é bom você ter uma desculpa convincente ou vou no seu trabalho e descubro
onde você mora.
− Meu filho está doente, estou na emergência com ele.
− Você tem um filho? – a pergunta saiu antes que pudesse controlar o
meu espanto. Ela tem trinta e cinco anos, deveria ter antecipado essa
informação. – Não que seja um problema você ter um filho, eu só...
− Imagino que você não tenha pensado nisso. Tenho dois filhos.
− Ele está bem? Onde vocês estão? Posso ir aí? – emendo uma pergunta
atrás da outra.
− Você quer vir numa emergência?
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− Posso ir?
− Não é necessário.
− Vocês já foram atendidos? Estão em qual hospital?
− Ainda aguardando, mas não deve demorar.
− Estou a caminho, mande o nome do hospital por mensagem.
− Não! O que...
Desligo o celular, deixando-a no vácuo.
“Ligando o carro” – digito e envio.
Mentira, ainda estava no elevador.
Passaram cinco minutos e nenhuma resposta.
“Vou ter que te procurar de hospital em hospital?”
Uma mensagem.
Apenas o nome do hospital.
Ela me irrita pra caralho com tanta literalidade.
Deixei escapar um “porra” quando pesquisei o endereço no GPS, mais
longe impossível, o que sugere que moramos em polos opostos da cidade.
O trânsito estava tranquilo, em trinta minutos estava no estacionamento
do hospital. Perguntei a um segurança onde ficava a entrada da emergência e
segui por onde ele indicou. Às vezes me pergunto porque diabos a
emergência fica no pior acesso, por uma questão lógica deveria ser o oposto.
Minha expressão de perdido deveria estar gritante, porque em
segundos, duas pessoas haviam me perguntado se poderiam ajudar. Não sabia
exatamente o que dizer para elas me ajudarem, dei um sorriso de paisagem e
continue vasculhando o lugar, então a vi sentada com a cabeça baixa,

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afagando os cabelos castanhos de um garoto que estava enroscado no seu


colo.
Fiquei parado, olhando para eles. Não sabia o que fazer, nem o porquê
tive a ideia de vir. Parecia ter sido uma péssima ideia.
O que estava pensando?
Olhei para a saída e de novo para eles. Ela estava com o queixo apoiado
na cabeça do garoto e olhava para mim, um sorriso singelo iluminou o seu
rosto e naquele minuto entendi o porquê de estar ali.
− Ei. – agacho na frente dela, colocando as mãos nos seus joelhos.
O garoto tem os olhos grandes iguais aos dela, mas eles são castanhos,
assim como seus cabelos encaracolados. Ele me olha como se estivesse
perguntando quem sou, acho que é o que ele perguntaria se não estivesse
meio sonolento, as bochechas e a testa estão avermelhadas, o que significa
que deve estar com febre.
− Oi. – a voz dela é só um murmúrio.
Não sei bem porque, mas parece que ela estava usando toda sua força
para não chorar, me pergunto se o que ele tem é algo grave. Ela fecha os
olhos e uma lágrima percorre seu rosto.
− Vocês estão aqui há muito tempo?
− Não sei. – abre a mão e olha um pedaço de papel amassado. – Aqui
diz que chegamos quatro e doze.
Pego o papel da sua mão e olho o número da senha, viro em direção ao
painel. Faltam onze atendimentos antes que seja a vez deles.
− O que ele tem?
− Achei que ele estava gripado, tem uns três dias que ele não come,

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nem dorme direito, além da tosse, teve um pouco de febre, mas hoje ele
acordou com dificuldade de respirar, dizendo que estava com dor na barriga e
a febre não cede, está com 39º o dia inteiro. – ela fecha os olhos e respira,
soltando o ar devagar.
− Ele vai ficar bem. – coloco minha mão sobre a sua.
− Você se incomoda de ir pegar algo para ele comer?
− O que ele gosta?
− Veja se tem chocolate quente ou pode ser um suco, mas sem gelo, e
um pão de batata ou pãozinho, pegue minha carteir...
− Não demoro.
A lanchonete do hospital não tinha chocolate quente, peguei o carro e
fui a uma cafeteria, não muito longe.
Voltei e o letreiro no painel só havia sido alterado em três números.
Havia uma cadeira vazia ao lado dela e sentei, segurando a bandeja com as
bebidas e a sacola com os lanches.
− Você não precisava ter saído para comprar, eles têm lanchonete aqui.
– ela sinaliza para a sacola em minhas mãos.
− Eles não têm chocolate quente.
− Obrigada. – ela sorri. – Não sei se você tem o hábito de correr para as
emergências para ajudar mulheres com seus filhos doentes, mas não lembro
de nenhuma vez onde alguém tenha feito algo assim por mim.
− É o nosso primeiro encontro, preciso causar uma boa impressão. –
dou de ombros. – Trouxe cappuccino para você.
− Não me faça admitir que estava enganada quando te chamei de
playboy.

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− Não precisa.
− Guga? – ela passa a mão nos cabelos dele, afastando-os da testa. –
Acorda, amorzinho.
− Não, mãe. – diz sonolento.
− Acorda, Gu, você precisa comer.
− Vamos, amigão, acorda ou vou tomar seu chocolate quente.
− Minha mãe não deixa.
− Estou nem aí para sua mãe. – balanço os ombros e afasto a bandeja.
− É meu! – ele ergue o tronco, senta com a cabeça encostada nos seios
da mãe e estica a mão.
− Só deixo você ficar com o chocolate, se um pão de queijo for meu.
− Um só. – ele negocia.
− Prometo. – pisco e entrego o copo de chocolate quente. – Cuidado
para não queimar a língua.
Coloco a bandeja no colo, tiro a embalagem da sacola e abro para ele
escolher o que vai comer. Ele pega um pãozinho, seria o que escolheria na
idade dele. Sorrio e levanto os olhos para a mãe dele. Seja lá o que signifique
essa expressão no rosto dela, gosto do vejo.
− Coloque ele sentado aqui. – levanto da cadeira. – Você precisa comer
também.
Gustavo tem cinco anos e nos tornamos amigos antes que ele tivesse
terminado de comer os dois pãezinhos, embora ele não saiba o meu nome,
porque Rafani me cortou quando ele perguntou “quem é você?”, dizendo um
“amigo da mamãe”, que soou como “sem mais perguntas”.
Vou confessar que o olhar que ela fez para ele, me fez lembrar o “isso
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não é conversa para criança” da minha mãe. Fiquei ofendido quando ela
demonstrou surpresa pela minha amizade instantânea com Guga.
Eles demoraram muito no consultório, estava preocupado e o tique
nervoso na perna esquerda atacou, o que me deixava mais nervoso, por isso
levantei e fiquei andando por toda sala. Estava parado em frente a saída com
as mãos entrelaçadas na nuca e senti uma mão no meu ombro.
− Vamos passar à noite aqui.
− Cadê ele?
− Na enfermaria, ele está com um quadro de pneumonia, vai ficar em
observação. Eu só queria te agradecer, preciso voltar, não quero deixá-lo
sozinho.
− Posso vê-lo?
Ela pensa por um instante.
– Pode, mas a minha filha deve estar chegando e não quero ter que
explicar quem é você e o que está fazendo aqui, mesmo porque não tenho
resposta para essas perguntas.
− Tudo bem, direi apenas tchau.
− Ele vai gostar. – ela faz um gesto para acompanhá-la.
Gustavo estava numa enfermaria de seis leitos e todos estavam
ocupados. Havia uma cadeira ao lado de cada uma das camas e em cada uma
delas alguém, a maioria parecia ser mãe; uma senhora idosa dormia e estava
roncando, Gustavo apontou para ela sorrindo e não me contive, ri também.
− Minha mãe falou que vou ter que dormir aqui.
− Toma os remédios sem fazer cara feia, come tudo o que sua mãe
mandar e eles te mandam para casa logo.

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− Quando tiver bom, posso ir correr com você?


Gustavo gosta de corrida de carros, comentei que também gosto e, às
vezes, faço corrida de kart, o que ele achou o máximo.
− Gustavo. – Rafani deu um olhar bravo para ele.
− Uma vez só, mãe. – ele levanta um dedo.
− Se sua mãe deixar, a gente vai.
− Ela vai deixar. – ele sorri, os olhos quase fechando.
− Tchau, moleque. – bagunço o cabelo dele.
− Tchau. – ele murmura e vira para o outro lado.
Olho para Rafani, ela está cansada.
− Eles esperam que você durma nisso? – aponto para a cadeira.
− Não vou dormir. – diz, massageando a perna do Gustavo. – Não até
ele estar bem e em casa.
− Se precisar de qualquer coisa, me liga. – beijo sua têmpora. – Melhor
ir antes que sua filha chegue. Boa noite.
− Boa noite.
O que tinha em mente quando a convidei para jantar passava longe de
ser tomar um café com pães de queijo na emergência de um hospital, tendo
como adendo um filho, e por mais estranho que tenha sido, foi uma boa noite.
Tomei um banho revigorante, com direito a uma taça de vinho, depois
só conseguia pensar em dormir. Desenrolei a toalha dos quadris, joguei na
poltrona e desabei nos lençóis. Estendi o braço para o criado-mudo e puxei o
celular para me certificar que o alarme estava ativo.
Havia uma mensagem de Rafani.

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“Você pode explicar como fomos transferidos para um apartamento?”


Antes de sair, fui a recepção e deixei os meus dados do cartão de
crédito para cobrir tudo o que não estivesse no plano de saúde dela, inclusive
acomodações em um apartamento. Um sofá é aceitável, diferente daquela
cadeira.
“Não sei nada sobre isso”.

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Capítulo 12

Sam Allencar
Nosso suor sagrado
É bem mais belo que esse sangue amargo
E tão sério
Legião Urbana – Tempo Perdido

Acordei, me vesti rápido e fui para a sala de musculação. Somente


quando retornei e estava me vestindo para o trabalho que verifiquei o celular.
Inúmeras mensagens que não serão lidas, porque foram enviadas ontem
enquanto estava numa emergência e se ninguém me ligou é porque não é
importante. Abri a única mensagem que importava naquele momento.
“Obrigada”.
Sorri.
Iria escrever para saber como Gustavo estava, mas não queria que ela
se sentisse em dívida comigo, por isso deixei a mensagem para depois, talvez
ligasse. Cheguei no escritório e encontrei Bárbara segurando uma tonelada de
papeis e um olhar de “desculpe” que me deixou apavorado.
− Fala.
− Dr. Andrade teve uma indisposição e como ele iria receber dois
clientes que vieram ao Brasil apenas para fechar os últimos detalhes e assinar
os contratos, tive que encaixá-los na sua agenda.
− Merda. – resmungo.
− A forma que encontrei para deixar menos desgastante foi transferir
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todas as reuniões para o mesmo local, assim você não precisa sair correndo
de uma sala para a outra. Esses são os documentos dos cinco clientes, estou
indo organizar as apresentações e vou deixar todos separados por ordem
cronológica. Dra Roberta estará na segunda e terceira reuniões.
− Você conseguiu agendar algum horário para eu respirar, ir ao
banheiro ou comer?
− Não até as onze horas e nada de estender a conversa, exatos cinquenta
e cinco minutos para cada cliente.
− Você cronometrou as apresentações e o tempo de discussão
estimado?
− Sim, dezesseis minutos de apresentação dos projetos, seis minutos
para dra. Roberta tratar das cláusulas, e...
− Vinte e três minutos para discussão. – completo.
− Exatamente, cinco minutos para tomar o seu café, deixei sobre a sua
mesa, junto com um resumo dos dois clientes não planejados, tente ler.
− Em cinco minutos? – estreito os olhos. − Vou mandar você fazer a
reunião no meu lugar.
Ela não estava exagerando quando disse que só teria uma pausa às onze
horas, foi o que de fato aconteceu e o máximo que deu tempo de fazer foi
esticar as pernas.
Quando encerrei a terceira reunião do dia era pouco mais de doze
horas, nem me dei ao trabalho de descer para a minha sala, abri o notebook e
comecei a responder os e-mails e analisar as planilhas de gastos e
faturamentos das obras, que Murilo me repassou ontem no final da tarde.
Os projetos que eu estava desenvolvendo teriam que ficar para amanhã,
ainda precisava fazer o levantamento e alterar a planta que seria discutida no
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jantar.
− É jogo sujo mandar você para o jantar com Mabel. Nenhuma mulher
é capaz de raciocinar na sua presença, quem dirá ter discernimento para
tomar uma decisão de negócios.
Movo os olhos do notebook para a porta e vejo Roberta recostada na
porta, os braços cruzados e os seios visíveis através dos botões abertos da
blusa. Tenho a impressão que ela estava usando um tailleur durante a
reunião.
Onde estar a peça que deveria está por cima dessa blusa?
Santo Deus!
Ela se aproxima da mesa e os bicos rosados dos seios fazem sua
aparição; ela está sem sutiã. Qual o problema dessas mulheres que ficam
tirando as peças íntimas quando não tenho intenção de fodê-las.
Roberta tem vinte e oito anos, é alta, longos cabelos pretos e lisos, pele
clara, seios grandes e suculentos. Perfeitos para uma espanhola, o diabo sopra
na minha cabeça, fazendo meu pau acenar em concordância.
− Roberta, preciso ir. – fecho o notebook e levanto.
− Hora do brunch, Sam. − ela abre outro botão da blusa.
− Não vamos voltar a esse ponto. – levanto as mãos, pedindo para ela
parar. – Você sabe que não vai acontecer.
− Não há ninguém no andar, somos os únicos. – ela abre mais um botão
e os seios nus dançam diante dos meus olhos, implorando para serem
devorados.
− Continua inapropriado.
− Que tipo de cafajeste você é, se não aproveitar a chance e me foder

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em cima dessa mesa?


− O tipo de cafajeste que não precisa fazer algo imoral para foder. −
passo por ela e saio da sala.
Saí do elevador puto da vida.
Porra de tanta mulher maluca na minha vida.
Bati a porta do escritório com força, coloquei o notebook na mesa e
sentei, soltando um longo e profundo suspiro de irritação. Peguei o post-it na
tela do meu computador, era um bilhete de Bárbara, avisando que precisou
sair para almoçar mais cedo. Amassei e joguei no lixo. Peguei o celular e
enviei uma mensagem. A reposta chegou no segundo seguinte.
“Motel de sempre”.
Uma boa foda, descomplicada, era o que precisava para relaxar e aliviar
o tesão que Roberta provocou.
Luana é meu contato de foda rápida, ela é uma velha amiga, estudamos
juntos no ensino médio. É uma negra de vinte e seis anos, um metro e oitenta
e corpo distribuído em proporções perfeitas, a mulher é um mulherão, de
parar o trânsito.
Minhas roupas voaram pelo quarto no instante que fechei a porta e
Luana prostrou-se de joelhos aos pés da cama, despida, esperando pelo meu
pau. Abaixei a boxer e antes de chutá-la para longe, senti sua língua quente
deslizando pela minha extensão. Segurei os seus cabelos e ela abocanhou-me
por inteiro; nunca conheci uma mulher tão hábil no deepthroat.
Empurrava o meu quadril e ela chupava incansavelmente, numa
velocidade que me fazia ver estrelas. Não demorou para o meu orgasmo
preencher a sua garganta. Ela se jogou na cama passando o dedo sobre os
lábios e caí de joelhos entre as suas pernas, mordendo e apertando as suas
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coxas.
− Estava com saudades dessa língua. – disse, gemendo e desfazendo
meu coque. – Adoro esse ar de homem das cavernas. – ela enterrou os dedos
nos meus cabelos e segurou minha cabeça no ponto que ela adora, rebolando
o quadril e forçando-me a ir mais fundo. – PUTA QUE PARIU!
Depois de proporcionar a réplica do prazer que me deu. Deitei de costas
na cama, trazendo-a para mim e reivindicando os seus lábios. Sem parar de
me beijar, me entregou o pacote de camisinha, que rasguei enquanto os seus
lábios se refestelavam no meu pescoço.
− Traz essa boca aqui, Lu.
Ela lambeu-me do pescoço ao queixo, abriu a boca e coloquei a
camisinha sobre a sua língua, então ela desceu para o meu pau, posicionou a
camisinha na minha glande e com maestria desenrolou-a usando apenas os
lábios, dando uma última ajustada com a mão, antes sentar no meu colo,
engolindo todo o meu comprimento.
− Melhor cacete. – ela mordeu o lábio, dando início a cavalgada.
Deixei que ela pensasse que estava no comando e quando não esperava,
a derrubei de costas na cama, segurei os seus braços, impedindo-a de
determinar o ritmo e ditei um compasso torturante, fazendo-a gemer de
expectativa e gritar, pedindo para meter com força. Cerrei os dentes no seu
mamilo e investi, violentamente, contra o seu corpo; sexo do jeito que ela
gosta.
− ISSO, PORRA! – disse entre gemidos.
Liberei as suas mãos, pincei ambos os mamilos entre os dedos,
torcendo-os e Luana riscou os meus ombros com as unhas. Seus lábios
formaram um “O” e os gemidos silenciaram, ela iria gozar. Agarrei a sua

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cintura e nos girei, deixando-a com o dedo no gatilho. Ela levou as mãos aos
seios, apertando-os e deu o golpe de misericórdia numa rebolada espetacular.
Fechei os olhos e sorri extasiado de prazer.
− Sam, quero casar com você. – disse entre risos e se jogou nos meus
braços.
− Foder assim todo dia? – sorri. – Em um mês você não iria mais poder
andar e meu pau estaria tão esfolado que teria perdido metade da
circunferência.
− Bem pensado, você será meu amante.
− Case com um homem que te faça dispensar o amante. – a beijei.
Tomamos banho, almoçamos e saímos correndo para as nossas
reuniões. Voltei ao escritório leve, pronto para encarar a tarde e a noite de
trabalho. A quarta reunião do dia começaria às três horas, o que me deu
tempo de finalizar a planta.
− Sam, as plantas que você pediu para imprimir.
− Pode colocar aí em cima. – aponto para a mesa de apoio. – Bárbara,
você conseguiu abrir o arquivo em autocad que enviei da última alteração do
Einloft?
− Sim, amanhã devo finalizar as anotações.
− Ótimo.
Abaixo os olhos para notebook, observo que Bárbara não se move.
Ergo os olhos, ela se vira para sair e desiste.
− Pode falar. – incentivo.
− Não sei se devo perguntar. – ela enrubesce.
− Não posso responder se não souber qual é a pergunta.
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− Murilo me convidou para sair, mas não sei se posso. Seria


inapropriado?
− Vocês não têm nenhum vínculo profissional direto, desde que não se
peguem pelos corredores da empresa, não vejo problema.
− Você pode não contar para ele que te perguntei isso? É que nem sei
se ele me convidou nesse sentido ou...
− Ele te convidou para sair como um homem convida uma mulher, sem
meio termo. – esclareço.
− Agora não sei se quero mais.
− Como é? – pergunto confuso.
− Ele vai me achar uma garota boba e sem graça.
− Bárbara, vocês se conheceram pessoalmente, aqui mesmo na
antessala. Ele sabe como você é.
− Se minha mãe souber que vou sair com um homem mais velho é
capaz dela me trancar no quarto.
− Murilo tem vinte e sete anos, não cinquenta.
− É complicado. – ela dá de ombros.
− Se tem algo que não serve para nada, não soma, nem diminui, é
complicação.

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Capítulo 13

Sam Allencar
Eu quis você e me perdi
Você não viu e eu não senti
Legião Urbana – As Flores do Mal

Na correria do dia, a ligação que planejei fazer para Rafani foi


esquecida, estava voltando para casa quando lembrei. Não tinha certeza se ela
estaria trabalhando, talvez estivesse com o filho, de qualquer forma estaria no
restaurante em pouco mais de uma hora, portanto deixei para procurá-la
pessoalmente; caso ela não estivesse, iria ao hospital.
Bárbara havia feito a reserva no restaurante do hotel a pedido do
Marcelo, pois era onde Mabel estava hospedada. Ela é diretora executiva de
um grupo de investimento com ações aplicadas em empresas espalhadas em
32 países, nós somos a empresa de engenharia responsável pelo
desenvolvimento de mais de 70% dos seus projetos; o contrato que está em
andamento é de um conjunto empresarial em Dubai.
Mabel é uma loba no mundo dos negócios e, aparentemente, na cama
também. É uma mulher de quarenta e poucos anos, porte médio, cabelo preto
e curto, corpo com belas curvas e um olhar provocante.
Nós nos encontramos antes, em dois ou três jantares, e a vi arrastar um
garçom para o banheiro certa vez, em outro jantar ela saiu para fumar e
retornou longos minutos depois com um chupão no pescoço, tentei não ser
indiscreto, mas ela não faz tipo, inclinou o pescoço e me perguntou se estava
marcado. Assenti e ela comentou, olhando dois caras que saíam da área de
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fumantes, entre vinte e vinte quatro anos: “garotos, ainda têm muito o que
aprender”.
Se existir um eu feminino, é a Mabel.
Cheguei ao restaurante dez minutos antes do horário agendado, fui
conduzido para a mesa, estrategicamente escolhida no espaço mais reservado,
para que pudéssemos discutir o contrato sem sermos incomodados pelo
barulho dos transeuntes.
Enquanto seguia para a mesa, vasculhava o restaurante, procurando por
Rafani, ela não estava no salão, olhei para o bar, também não a vi. Comecei a
pensar se o filho dela não havia melhorado e me senti culpado por ter
esquecido de fazer a ligação.
− Aqui, sr. Allencar. – diz a hostess, apontando para a mesa.
− Obrigado.
− O senhor quer que peça para um dos garçons vir trazer o menu ou
esperamos pela sua convidada?
− Pode esp... – pauso. Meus olhos são capturados pelo sorriso discreto
da Rafani e ela desvia os olhos, assim que a vejo. – Quero que ela me atenda.
– digo à hostess, que gira nos saltos para ver de quem estou falando. – Você
pode pedir que ela traga o menu, por favor.
− Sim, senhor. Mesmo se tiver muitos clientes...
− Não importa o quanto demore, quero ela.
Minha intenção era apenas deixar claro que queria ser atendido por ela,
mas a forma que falei, não soou muito inocente e a hostess deu um sorriso
mal disfarçado.
− Sim, senhor, pedirei que ela venha atendê-lo. Com licença.

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Não demorou muito para Rafani aparecer ao meu lado. Ela não está
com as longas madeixas soltas, mas também não está usando o coque da
primeira noite que a encontrei aqui, seus cabelos estão trançados e adornam o
ombro esquerdo.
− Obrigada por ter me feito companhia ontem e pelo quarto, mas não
faça as pessoas pensarem que está acontecendo algo entre nós, por favor. –
sussurra, estendendo o menu.
− Não fiz nada. – aceito o menu e abaixo os olhos, fingindo escolher. –
Pedi para ser atendido por você, nada demais.
− Tem certeza?
− Eu disse que queria você. – ergo o rosto do menu e encaro os seus
grandes olhos multicolores. – Ela que foi maldosa. – me refiro a hostess.
− Não posso perder esse emprego. – diz baixinho.
− Você não vai. – levanto a mão para tocá-la, mas me dou conta do erro
antes de fazê-lo e abaixo de volta. – Sinto muito, não tive a intenção de
sugerir qualquer coisa. Queria saber se o Guga está melhor.
− Ele foi para casa no final da tarde, não vai poder ir para a escola nos
próximos vinte dias, mas vai ficar bem, só precisa tomar os remédios direito e
repousar.
− Que bom.
− Você quer um tempo para fazer o pedido?
− Uma garrafa daquele vinho, por favor. O prato vou deixar que você
escolha por mim.
− Se escolher algo que você não goste?
− Vou arriscar, mas estou esperando uma pessoa, então deixe para fazer

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o pedido quando ela chegar.


− Sim, senhor. Com licença. – diz indiferente.
O que foi que perdi?
Fico olhando ela se afastar e recapitulando a nossa conversa.
Por que diabos ela abandonou o tom informal e reassumiu a postura de
rainha do gelo?
Não tenho muito tempo para desvendar o mistério, porque Mabel chega
logo em seguida e preciso me lembrar que esse é um jantar de negócios, por
isso quando Rafani volta com o vinho e nos serve, ignoro a vontade de
perguntar que porra fiz; na verdade evito olhar parar ela, para não correr o
risco de dizer algo impróprio na frente de Mabel.
Quando a chamei para pedir o jantar, o tom azedo em que ela perguntou
se iria aceitar a sugestão da casa me fez pensar se havia alguma chance dela
colocar veneno no meu prato. Assenti com um breve “sim, por favor”, Mabel
fez o pedido e depois que Rafani nos deixou a sós, ela estreitou os olhos e
sorriu como quem sabe mais do que deveria.
− Meu querido, vá atrás dela.
− Como?
− Ela está achando que estamos em um encontro, vá atrás dela e
desfaça o mal-entendido, não se preocupe, vou me divertir com aquele
senhor, enquanto você se acerta com a bela raivosa.
− Não é... – começo a justificar e desisto. − Ela está com ciúmes?
− Sim, meu querido, vá logo antes que ela cuspa no meu jantar. – diz
entre risos.
− Te devo uma, Mabel.

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− Você sempre foi discreto com as minhas escapulidas durante os


nossos jantares, estou retribuindo o favor.
Somente quando empurro a porta dupla e invado a cozinha, é que
percebo que estou fazendo algo que não deveria estar fazendo, porque ela
deixou claro que não deveria dar a entender que havia algo entre nós.
Porra, que se dane!
Ela precisa parar de me confundir, caralho, não pode dizer que não me
quer e ficar com ciúmes.
− Senhor, essa área é restrita para... – um homem grita.
− Precisamos conversar. – a seguro pelo braço, virando-a de frente para
mim.
− Mas o que... – ela fala, ao mesmo tempo que o homem repete que é
uma área restrita para funcionários.
− Visita técnica, vocês são obrigados a permitir. – argumento. –
Quando é seu intervalo? – pergunto, olhando-a nos olhos.
− Você precisa sair. – diz.
− Visita técnica precisa ser solicitada, o senhor precisa sair agora. – o
homem insiste, agora em pé ao meu lado.
− Estou solicitando agora, tenho o direito de conferir se o que estou
comendo está dentro do padrão de qualidade.
− Para mim, parece que sim. – diz debochado, os olhos subindo pelas
pernas de Rafani.
− Filho da puta! – vocifero, segurando-o pelo colarinho.
− Minha nossa! – ela exclama.
− Peça desculpas. – exijo.
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− Só fiz um comentário.
− Pede desculpa, filho da puta! – esbravejo. – Ou vou garantir que você
vá responder um processo por assédio.
− Desculpa, ma...
− Tudo bem. – Rafani o interrompe e segura o meu braço, me forçando
a soltá-lo. – Vem comigo! Nate, pede para Rose me cobrir, estou no
intervalo.
Ela me arrasta pela cozinha, empurra uma porta e me solta quando
alcançamos uma área externa.
− Que merda você pensa que está fazendo? – cruza os braços e me olha
furiosa. – Não fui clara o bastante quando disse que não posso perder esse
emprego? Por que você interrompeu a porcaria do seu jantar para vir atrás de
mim?
− Porque você entendeu errado, não é um encontro. Ela é uma cliente,
estamos discutindo um contrato.
− Não me interessa.
− Não? Por que você está irritada com a porcaria do meu jantar? – dou
um passo e toco o seu braço. – Me diz que não estou ficando louco, tem sim
algo rolando entre nós. – seguro ambos os seus braços, afagando-os. − Não
sei o que é, mas quero muito descobrir.
− Lamento. – ela descruza os braços e dá um passo para trás, se
livrando do meu carinho.
Essa mulher está embaralhando as minhas ideias.
Estou nos fundos de um restaurante, na penumbra, e estou fazendo
carinho?

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Porra, moleque, você está me decepcionando, meu pau diria, se pudesse


falar.
Por mais que queira puxá-la para mim e beijá-la, sinto que não é para
ser assim, ela merece mais do que um amasso em um canto escuro.
− Não me convenceu. – dou as costas para ela. Penso em voltar para a
mesa, mas algo me impede e volto a olhá-la. – Por que você insiste em negar?
− Você entendeu errado. – ela abaixa os olhos. – Gostei da sensação de
ter um garoto como você atraído por mim, nunca me senti desejada desse
jeito.
− É isso? – me aproximo, toco o seu queixo e ergo o seu rosto. – Sou
um afago no seu ego? – seus olhos desviam dos meus. – Você mexe demais
comigo. – confesso. − Talvez tenha entendido errado mesmo, sinto muito se
invadi o seu espaço, achei... – beijo sua testa. – Deixa pra lá.

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Capítulo 14

Sam Allencar
E mesmo com tudo diferente, veio mesmo, de repente
Uma vontade de se ver

E os dois se encontravam todo dia E a vontade crescia, como tinha de


ser

Legião Urbana – Eduardo e Mônica

– Como foi? – Mabel pergunta.


– Ela não está interessada.
– Você acreditou?
– Com licença. – Rafani nos interrompe, para servir o jantar. – Mais
vinho?
– Sim, obrigada. – Mabel responde.
– Por favor. – digo.
Depois de nos servir, Rafani sai.
Mabel retoma a conversa e pede que conte o que de fato aconteceu
enquanto jantamos, deixando o motivo do nosso jantar para discutirmos
degustando as últimas taças do vinho. Explico por alto como a conheci, sobre
o nosso reencontro por acaso no restaurante, o jantar que terminou virando
uma visita no hospital e a conversa de minutos atrás.
– Vai desistir no primeiro obstáculo?
– Mabel, saltei mais obstáculos para descobrir o nome dessa mulher do

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que os que desviei para levar todas as outras para cama.


– Você foi mais longe com ela do que esteve com qualquer outra. – ela
comenta e dá uma gargalhada. – Vocês homens são uns tolinhos, meu
querido.
– Não tenho dúvida. – concordo. – Depois de confundir carência com
tesão, assinei o certificado de amador na arte da cafajestagem.
– Não tem nada a ver com cafajestagem, Sam, é por isso que você não
sabe o que fazer.
– Vamos pular para o projeto em Dubai, porque tomei vinho demais
para ter essa conversa. – dou uma garfada. Mabel estreita os olhos e sorri
insinuando que tenho sentimentos por Rafani. – Não, você está enganada,
acho que o vinho está nublando seus pensamentos.
– Quanto antes você admitir, melhor.
– Certo, a alteração no prazo para início das obras vai...
– Juro que não toco mais no assunto, se você me deixar terminar de
comer antes de começar a falar de números e prazos.
– Posso fazer isso. – sorrio.
Encerramos a noite com mais alguns drinks no bar do restaurante. Não
estava bêbado, mas sóbrio também não seria o termo adequado para o meu
estado.
Sentamos em um sofá na recepção do hotel e ficamos conversando,
enquanto decidia se conseguiria dirigir. Concluí que era mais seguro pedir
um táxi, o inconveniente era que ficaria sem carro amanhã e teria que vir ao
hotel antes de ir para o escritório.
Mabel foi para o quarto depois de me fazer prometer que iria de táxi.

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Fiquei no sofá, contudo dormiria se ficasse mais um minuto sentado e com


cabeça apoiada no estofado macio. Levantei e fui para a entrada do hotel,
sentei na escada lateral, folguei a gravata e fiquei girando a chave do carro no
dedo.
– Você não devia dirigir.
– Não vou, estou esperando pelo táxi. – digo, fitando o chão.
– Bom. – ela senta ao meu lado.
– Não quero ficar perto de você. – comento, virando para olhá-la.
Seus olhos revelam choque diante da minha sinceridade, está escuro e
não consigo distinguir a tonalidade entre eles, ambos parecem iguais sob a
meia-luz.
– Desculpa. – ela impulsiona o corpo para levantar.
– Espera. – seguro sua mão. Ela não está com o uniforme, seus cabelos
estão soltos e usa uma touca, as ondas cor de chocolate emolduram o rosto. –
Você já se apaixonou?
– Que tipo de pergunta é essa?
– Sei lá. Nunca me apaixonei, não sei como é.
– Nem eu.
– Você foi casada?
– Não.
– Morou junto?
– Não.
– Ele te abandonou?
– Não tive ninguém assim como você está pensando, tenho dois filhos,

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mas nunca houve um homem. Acho que é vadia o nome que dão para
mulheres como eu.
– Duvido.
– Você é doce.
– Porra, já me chamaram de um monte de coisa, doce é a primeira vez.
Não sei se devo ficar feliz ou puto.
– É um elogio. – ela coloca a mão sobre o meu joelho. – Nunca tive a
chance de me apaixonar, porque aprendi a temer os homens.
– Ele te machucou?
– Mais do que você pode imaginar.
– Você... – coloco minha mão sobre a sua, envolvendo-a. – É uma
pergunta idiota. Você ficaria comigo se fosse mais velho? – jogo a cabeça
para trás e olho o céu. – Não parecia tão idiota assim na minha cabeça. Você
pode fingir que não ouviu, por favor.
– Não é a sua idade, apenas não somos compatíveis.
– Ah tá, excelente desculpa. – debocho.
– Posso fazer uma lista de incompatibilidade.
– Ou você pode dar uma chance para nos conhecermos e faço uma lista
de compatibilidade.
– O primeiro item da minha lista de incompatibilidade vai te fazer
correr.
– Manda.
– Sexo.
– Como sexo pode ser um item de incompatibilidade?

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– É complicado.
– Você tem que me dar mais do que isso, mulher!
– Digamos apenas que não sou uma jogadora apta para entrar em
campo.
– Preciso dizer que meu pau discorda cem por cento da sua inaptidão.
– Seu pau não sabe de nada.
– Santo Deus! – transpasso os dedos no cabelo. – Você não pode falar
do meu pau se formos ficar na amizade sem sexo.
– Seu táxi não deveria ter chegado? – ela libera sua mão da minha.
– Caralho, esqueci de ligar!
– Vamos, te deixo em casa.
– Isso significa que você concordou que devemos nos conhecer?
– Significa que não vou te deixar dormir numa escada e nem dirigir
depois de tomar uma garrafa de vinho mais cinco doses de whisky. – ela
levanta e começa a descer os degraus.
– Metade da garrafa ou menos, porque Mabel também bebeu. – levanto
e a acompanho.
– Você entendeu, garoto. – provoca, me dando um sorriso travesso.
Estico o braço, abraçando-a pela cintura e trazendo-a para mim. Ela
arfa e me olha assustada, mas sua expressão suaviza quando abro um sorriso.
– Vamos esclarecer um ponto. – deslizo os dedos por seus cabelos,
jogando-os para trás dos ombros. – Quando você me chama de garoto, fico
louco para te pegar de jeito. Entendido? – pergunto, com o rosto a
centímetros do seu, nossos narizes quase se tocando.

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Olhos nos olhos, perto o bastante para ver a sua pupila dilatar.
– Acho que sim. – ela sorri e inclina o rosto, colocando os lábios
próximos ao meu ouvido. – Não posso falar do seu pau ou te chamar de
garoto.
– A não ser que você queira uma amizade colorida. – digo baixinho,
soprando minha respiração no seu pescoço.
– Você não pode me segurar assim. – pontua, espalmando as mãos nos
meus bíceps. – Vai contra as regras de amizade.
– Não contra as minhas.
– É pegar ou largar.
– Aceito, se você pagar o jantar que está me devendo.
– Tecnicamente, nós jantamos juntos. – comenta.
Ela move as mãos pelos meus braços e sinto uma onda de calor se
espalhar sob o tecido da camisa. Aperto o enlace na sua cintura, numa
resposta instintual.
– Pão de queijo e cappuccino. – ela segura os meus punhos e me afasta.
– Você tem razão, mas está esquecendo que o motivo do jantar era para
te ver sorrir e as circunstâncias não permitiram, logo você ainda me deve um
jantar.
– Tive que mudar meus horários para não deixar Guga sozinho, não
tenho folga pelo próximo mês. – ela volta a caminhar.
– Que tal agora?
Não consigo evitar sorrir da expressão que ela faz ao meu convite.
Rafani para abruptamente e gira, encarando-me com os grandes olhos
arregalados e os lábios desenhando uma linha muito próxima a um sorriso.
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– Você sabe que é madrugada? – ela arqueia a sobrancelha.


– O que importa? – dou de ombros. – Estamos aqui, você não precisa se
preocupar porque seus filhos estão dormindo, posso preparar algo, sanduíche,
massa, alguns queijos, o que você quiser.
– Não me olha assim. – ela balança a cabeça, enfaticamente, e vira de
costas. – Você não pode fazer esse olhar. – resmunga, parecendo brava.
– Por que você está irritada? – pergunto confuso. – O que diabos fiz
agora? – a seguro pelo braço, fazendo-a parar. – Que olhar, Rafani?
– Como se pudesse me curar. – ela abaixa os olhos.
– Estou bêbado ou você não está fazendo sentido?
– Esquece. – diz em meio a um suspiro, afastando-se. – Meu carro está
logo ali.
– Não, me diz. – insisto. – O que você quis dizer?
– É complicado. – ela desativa o alarme do carro.
– Porra, mulher! – digo exasperado. – É complicado é a sua resposta
padrão de fuga?
– É complicado é a única resposta que posso te dar. Acredite, você sabe
mais de mim do que a maioria das pessoas com quem convivo. – diz e entra
no carro.
– Isso é alguma tentativa de me fazer perder o interesse? – pergunto,
me jogando no banco carona. – Se for, não está funcionando.
– Isso sou eu sendo o mais honesta possível. – ela dá a partida. – Onde
você mora?
Digo o endereço e ficamos em silêncio o percurso até o meu
apartamento.
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– Boa noite. – diz, quando estaciona em frente ao prédio.


– Você não vai aceitar meu convite?
– Não vou entrar no apartamento de um homem que não conheço.
– Você acha que vou fazer quê? Te obrigar a fazer sexo comigo? –
pergunto irritado. Ela desvia os olhos dos meus e aperta as mãos no volante.
– Espera, você acha mesmo que posso... Puta merda!
Deixo escapar um suspiro profundo e deito a cabeça no encosto do
banco. Rafani continua apertando o volante, os olhos fixos no painel. O som
da sua respiração pesada me aflige.
Minha mente elabora milhares de hipóteses para o que pode ter
acontecido e todas me levam para a mesma pergunta, por fim desisto de
reprimi-la.
– O que ele te fez?
Ela permanece em silêncio, move a cabeça quase imperceptivelmente,
numa negativa que leio como uma recusa em falar.
– Nada. – murmura. – Não me obrigue a lembrar.
A frase sai entrecortada e percebo que ela está tremendo. Lágrimas
silenciosas percorrem o seu rosto. Por instinto, movo o meu corpo no assento,
aproximando-me dela, mas paro ante de tocá-la.
– Só vou te abraçar. – deslizo os meus dedos pelo seu cabelo. – Sinto
muito. – passo um braço por trás dos seus ombros e a aconchego ao meu
corpo. – Não sei como consertar isso, desculpa.
– Não é sua culpa.
– É sim, fiz a merda de um comentário infeliz. – afago as suas costas. –
Não vou deixar você dirigir nesse estado, vamos subir um pouco, você fica

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no sofá e sento no outro extremo da sala, prometo.


– Não é necessário, dirigir me ajuda a limpar os pensamentos.
– Tem um sofá na portaria, podem...
– Viu? – ela me interrompe.
– O quê?!
– O jeito que você me enxergava mudou.
– Não. – afasto-me, tomando o seu rosto em minhas mãos. – Só não
vou dar em cima de você enquanto está chorando. Sou cafajeste, não um
monstro sem coração. – explico. – Me dê um jantar e vai ver que continuo
maluco para ter você.
– Preciso ir. – ela me dá um selinho. – Obrigada, Sam. – diz, colocando
as mãos no volante.
Fico atordoado com o selinho, sem saber se devo puxá-la e beijá-la ou
ignorar que seus lábios acabaram de acariciar os meus.
– Cai fora, garoto. – ela sorri e faz um gesto com a cabeça, me
mandando descer do carro.

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Capítulo 15

Sam Allencar
Mudaram as estações
E nada mudou
Mas eu sei que alguma coisa aconteceu
Está tudo assim tão diferente

Legião Urbana – Por Enquanto

Fora do prédio, assisto o carro sumir no final da rua.


– Mas que porra. – passo a mão no cabelo e os meus lábios se curvam
em um sorriso. – Você me deve um beijo! – grito para o vazio da noite.
Apaguei tão rápido quanto caí na cama.
Acordei o que pareceu ser cinco minutos depois, com o alarme apitando
em algum lugar. Levantei sonolento, tentando identificar de onde vinha o
som e levei um tempo para perceber que o celular estava no bolso da calça,
que ainda estava usando.
Banho, musculação, banho e somente quando peguei a chave do carro
sobre o criado-mudo lembrei que estava sem carro. Soltei um “puta que
pariu” e solicitei um táxi pelo aplicativo; felizmente tinha um a menos de
cinco minutos. Cheguei ao escritório um pouco atrasado, por sorte, minha
agenda estava livre de reuniões.
Passei a amanhã trabalhando na planta de dois projetos que assino
como engenheiro responsável, um localizado em Manhattan, outro em São

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Paulo. Essa é a parte que mais gosto do meu trabalho, construir um projeto do
zero, é uma sensação de poder bem maior do que apenas corrigir, analisar e
supervisionar projetos desenvolvidos por terceiros, que é basicamente o que
deveria fazer como diretor executivo; por essa razão optei por conciliar
ambas as funções.
Poder.
Sexo.
Mulheres.
Rafani.
É inacreditável como o cérebro é capaz de criar um atalho que me
direciona para ela, mesmo estando cercado por esboços, plantas e números.
Olhei o celular sobre a mesa, pensando em ligar. Abandonei a ideia e
meio segundo depois deslizei o dedo sobre a tela, abrindo na foto dela. Fechei
rápido, antes que fizesse alguma merda e enviei uma mensagem para o
Murilo, perguntando se podíamos nos encontrar no almoço.
Ainda estava entretido, fazendo ajustes na planta, quando Murilo entra
no escritório.
– Qual a encrenca que você se meteu?
– Virou médium?
– Você só envia mensagens sem um palavrão quando está em alguma
enrascada.
– Sério que você fica analisando minhas mensagens, porra?
– Vamos logo, vou te ajudar a sair da forca.
– Se fizer piada, te arrebento.
– Caralho, a porra é séria. – ele abaixa a tela do notebook. – Só por
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curiosidade, cadê Bárbara?


– Horário de almoço.
– Ela ainda não me deu uma resposta.
– Disse que por mim tudo bem, não posso fazer mais nada. – digo,
acompanhando-o para fora do escritório.
– Pode dizer como sou um cara legal, amigo, fiel, essas paradas.
– Fiel? Não vou mentir para Bárbara.
– Sou fiel. – ele aperta o botão do elevador. – Samantha que é um pé no
saco.
– Qual foi a outra namorada mesmo? – ironizo.
– Estou dizendo que posso ser fiel, se tiver a fim.
– Murilo, se resolva com Bárbara e me deixa fora desse assunto.
– Pede para ela aceitar sair comigo uma vez, o resto pode deixar
comigo.
– Não. – digo, entrando no elevador.
– Encontro duplo. – ele sugere.
– Sem chance.
– Cacete, Sam, me ajuda!
– Você está mesmo a fim dela. – comento entre risos.
– O que é engraçado? – ele me olha confuso.
– A ligação que nós dois temos.
– Isso foi meio gay, cara. Você não vai confessar que está apaixonado
por mim, não né? Eu te amo, mas não vai rolar.

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– Você admitiu que me ama primeiro. – gargalho.


Fomos para o restaurante cada um no seu carro, porque ele vai viajar
depois do almoço; Murilo tem algumas visitas para fazer em obras no litoral,
durante a próxima semana, e aproveitou para curtir o fim de semana na praia.
– Primeiro quero o nome, segundo quero detalhes do encontro.
– Rafani e não teve nenhum encontro, porque ela teve um imprevisto. –
explico. Não quero contar ao Murilo que ela tem dois filhos, porque ele pode
me mandar pular fora e não é o que quero ouvir. – O que vou falar, vai
morrer aqui.
– Sempre, cara.
– Ela sofreu abuso, não sei como ou quando, suspeito que... – pauso.
Por pouco não deixo escapar sobre os filhos. – Não sei bem, cara. Ela disse
que não estava interessada, não sei se o problema sou eu, o fato de ser mais
jovem do que ela, ou algum trauma.
– Mais jovem quanto? – Murilo estreita os olhos.
– Dez anos. – repouso o cotovelo na mesa e apoio o queixo. – Não seja
hipócrita, Bárbara é oito anos mais nova...
– Não, cara. – ele me interrompe. – Só eu que estou achando meio
assustador o quanto a nossa ligação é forte? Duas mulheres mexendo com a
nossa cabeça ao mesmo tempo e ambas com uma diferença considerável de
idade entre nós?
– Se só um de nós estivesse nessa furada, o outro iria zoar até a morte,
então o cara deu um jeito de zoar com os dois.
– Nos fodemos. – Murilo diz rindo. – Pensa, Sam, é a chance perfeita
para um encontro duplo.

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– Não esqueça que nenhum de nós conseguiu um encontro ainda.


– Se sairmos os quatro, elas não vão se sentir intimidadas.
– Bárbara é minha secretária, Murilo. – pontuo. – Ela iria ficar
desconfortável. Sem falar que isso não me ajudaria em nada com Rafani, ela
iria se sentir inadequada de estar comigo, quando o meu melhor amigo
aparecer com uma garota de dezenove anos.
– Por que tenho a sensação que perdemos o controle?
– Porque perdermos, meu irmão. – suspiro. – Ontem ela me deu um
selinho. Que diabos isso significa?
– Que ela te vê apenas como um amigo? – ele dá de ombros, incerto
sobre a sua interpretação.
– Você troca mensagens com Bárbara?
– Preferia ligar, mas ela não deixa, não quer que a mãe faça perguntas.
– Acho que vou me limitar a fazer o mesmo. – abro o aplicativo de
mensagens no celular e deslizo o dedo na foto de Rafani.
– O quanto você está a fim?
– A ponto de implorar por um encontro. – confesso. – Porra, um
encontro?! Quando que fui a um encontro na vida? Nunca!
– Você podia mandar Bárbara me entregar algum documento e quando
ela chegar, estarei esperando por ela com um jantar, almoço, o que for.
– Ela não é office boy, Murilo.
– Coopera comigo, porra. – ele pede. –Te ajudo a descolar um
encontro, sabe-se Deus como. Posso quase atropelá-la e você aparece para
salvá-la, deixo até você me bater.
– Pensei que estava fodido, mas você está me deixando no chinelo.
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Apaixonou, meu filho?


– Algo entre atração e paixão. – ele passa a mão nos cabelos.
– Vou dizer para Bárbara que você está me infernizando para saber se
ela vai ou não sair com você, não posso interferir mais do que isso.
– Faça parecer que estou desesperado.
– Você está desesperado, Murilo. – debocho.
– Deixa ver quem é a gostosa? – ele puxa o celular da minha mão. –
Cacete! Se ela for tão selvagem quanto o olhar faz parecer...
– Estou imaginando isso desde a primeira vez que a vi. – mordo o lábio.
– Juro por Deus, cara, se ela for para minha cama, vou amá-la mais do que
amei qualquer outra, ela vai esquecer que um dia um filho da puta a tratou
mal.
– E depois? – ele me devolve o celular.
– Essa arte eu domino. – sorrio. – Seremos amigos que se pegam
quando estão a fim.
– Você acha que ela vai topar?
– Um problema de cada vez, primeiro preciso convencê-la a sair
comigo.
Quando saímos do restaurante, Murilo me fez ir com ele até uma loja
de chocolates. Ele comprou uma caixa de bombons para Bárbara, escreveu
um cartão que não me deixou ler e pediu que entregasse a ela. Argumentei
que não podia aparecer na empresa com uma caixa de bombons para Bárbara,
porque se alguém visse iria imaginar que estava tendo um caso com ela, mas
o moleque me encheu tanto a paciência que concordei.
– Não me pergunte. – digo baixo, colocando a caixa na mesa de

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Bárbara.
Ela levanta o rosto e os seus olhos não conseguem esconder a
ansiedade.
Cinco minutos depois, Bárbara entra no escritório, segurando um papel;
grande demais para ser um cartão.
– Ele é maluco. – diz brava.
– Ele quem?
– Murilo! – ela exclama, nervosa. – Ele reservou um voo para ir
encontrá-lo nesse fim de semana.
– Como é?
– Você não sabia?
– Não!
– Onde ele conseguiu as minhas informações pessoais?
– Com alguém do RH, porque comigo que não foi.
– Idiota. – ela revira os olhos. – Ele acha que sou o quê?
– Não acho que ele...
– Diga ao seu amigo que não sou uma puta que ele diz onde e quando
quer foder.
Santo Deus.
Ela está furiosa. Não sabia que uma mulher tão pequena poderia conter
tanta raiva, ela seria capaz de meter a mão na cara do Murilo se ele estivesse
presente. Limito minha resposta a um pequeno aceno em consentimento, não
quero virar o alvo da sua irritação.
– Mande ele engolir ou enfiar...

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– Entendi. – a interrompo, pegando a bolinha de papel que ela fez com


o bilhete aéreo e arremessou na minha mesa.
– Minha mãe está certa, homens só querem um buraco para enfiar o
pau. – diz entredentes e sai, batendo a porta.
Puta que pariu. Pego o celular, tiro uma foto da bolinha de papel e
envio para o Murilo, com a legenda: “se fodeu”.

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Capítulo 16

Sam Allencar
Quem me dera ao menos uma vez
Explicar o que ninguém consegue entender
Legião Urbana – Índios

“O que é isso?”
“Está dirigindo?”
“Acabei de parar em um posto para abastecer”.
“Então posso falar, sem que você bata o carro. Isso é a passagem que
você comprou para Bárbara. Ela mandou você engolir ou enfiar, você sabe
onde”.
“Por quê?”
“Porque ela não é uma puta que você pode dizer onde e quando foder.
Palavras dela. Se tivesse me dito o que estava planejando, teria impedido,
ela está querendo decepar a sua cabeça, as duas”.
“Queria fazer uma surpresa, algo romântico, como que ela pode ter
entendido o oposto?”
“Eu que vou saber?”
“PORRA”.
Se antes achava melhor me manter afastado dessa história entre Murilo
e Bárbara, agora tenho certeza.
Minha tarde estava sem compromissos agendados e minha mente não
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estava exatamente focada no trabalho, por isso decidi ir para casa, relaxar um
pouco e depois voltar ao trabalho, degustando um vinho. Avisei à Bárbara
que poderia me contatar, caso surgisse alguma urgência.
Depois de um banho, coloquei uma boxer e sentei na cama com o
notebook e uma taça de vinho, seria o homem mais feliz do mundo se
pudesse trabalhar assim todos os dias.
Nem vi o tempo passar, era noite quando desliguei o notebook e fui
procurar algo para comer. Estava lavando a louça quando o celular tocou.
Chamada do Murilo.
– Fala, viado.
– Preciso do endereço dela.
– Endereço de quem? – pergunto, me negando a acreditar que ele esteja
falando sobre Bárbara.
– Bárbara.
– Puta merda, Murilo! Não vai me dizer que você voltou para Curitiba?
– Voltei, porra. – ele suspira.
– Que merda, cara.
– Tentei seguir viagem, até me forcei a continuar dirigindo, mas
quando dei por mim estava pegando um retorno.
– Não tenho o endereço dela e não daria se tivesse. Você não pode
perseguir a garota, porra, ficou maluco?
– Ela me bloqueou, liguei e não atendeu. Só preciso explicar que estava
tentando ser romântico, não um cretino imbecil.
– Romantismo não é para homens como nós.

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– Aprendi a lição. Quebra essa para mim, Sam.


– Como?
– Estou indo para o seu apartamento, se ligar do seu celular, ela vai
atender, então posso me explicar.
– Vou te socar. – fecho a mão e acerto sobre a bancada. – Se esse é
você entre atração e paixão, quero estar em Tóquio quando você estiver
apaixonado.
– Não sei se posso evitar.
– Sei que falei para você se aproximar apenas se estivesse realmente
interessado, mas não precisa pedir em casamento.
– No dia que você me ver usando uma algema pode me internar.
– Vou lembrar disso. – provoco.
– Não precisa, se um dia me casar, vou te arrastar comigo.
– Meu filho, sei que você me ama, mas menos amor, por favor. Vai
querer dividir a mulher também?
– Não divido puta, vou dividir mulher?
– Sendo assim, se enforque sozinho. – comento e nós dois gargalhamos.
– Abre a porta, estou saindo do elevador.
– Preciso avisar na portaria que você não tem carta branca para invadir
meu apartamento quando bem quer.
– Boa sorte. – ele diz entre risos.
– Você é chato para caralho. – abro a porta. – Plena sexta-feira e o que
você faz? – pergunto, desligando o celular. – Liga convidando para pegar
umas gostosas? Não. Liga chorando feito uma putinha.

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– Cara, está quinze graus, veste uma roupa. – ele reclama e se joga no
sofá.
– Se você não percebeu, estava curtindo a privacidade do meu lar, se
tem algo errado nessa cena é você.
– Passa esse celular para cá. – ele estende a mão.
– Murilo, o que você vai falar?
– Relaxa, só quero pedir desculpas.
– Estou indo no quarto e estou esquecendo meu celular no sofá, você
nunca me contou sobre essa ligação.
Deveria ter dito não quando Murilo perguntou se podia convidar
Bárbara para sair. Posso ver o céu fechando sobre a minha cabeça se essa
história der merda.
Vesti uma calça moletom e me acomodei na cama. Peguei o livro sobre
o criado-mudo e iniciei a leitura, quanto menos soubesse da conversa entre
eles, melhor.
A desculpa deve ter funcionado, porque quando ele me gritou, estava
terminando o capítulo dezesseis e eram capítulos longos. Guardei o livro e
voltei para sala, encontrando-o esparramado no sofá, com os pés apoiados na
mesa de centro.
− Ela topou sair comigo no próximo fim de semana.
− Não a leve para um motel, por favor.
− Vamos almoçar e assistir um filme.
Juro que tentei, mas foi impossível não gargalhar. Imaginar Murilo no
cinema era surreal em níveis astronômicos, desde que o conheço ele só faz
programas que incluam balada e pegação.

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− Não entendi. – ele joga uma almofada em mim.


− Você vai ao cinema? – prendo o riso. Ele dá de ombros. – Quando foi
a última vez que você esteve numa sala de cinema?
− Não lembro. – ele diz rindo.
− Me avisa qual sessão e os assentos, por favor – sento na poltrona,
jogando as pernas sobre os braços. − Porque não posso perder esse momento.
− Vá se foder, Sam!
− Bárbara te laçou. – debocho.
− Falou o homem que está implorando por um encontro. – ele rebate.
− Falando nisso, me dá aí o celular.
Murilo pega o celular no braço do sofá, levanta e me entrega.
– Tem o que para comer aí? – pergunta, indo para a cozinha. − Estou
varado de fome.
− Dá para escolher, ter Judi como funcionária é o mesmo que ter um
restaurante particular.
− Porra! – ele exclama, segundos depois. – Vou oferecer o dobro para
ela te abandonar e ir trabalhar comigo.
− Judi é meu anjo da guarda, ela não vai me trair com você.
− Vou me mudar para cá então.
− Deus é mais ver essa cara feia todo dia.
Digito uma mensagem para Rafani.
“Ainda aguardando o nosso jantar”.
“O que você quer comigo?”
“A princípio, apenas um jantar”.
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“Você quer jantar comigo mesmo sabendo que não vamos fazer sexo?”
“Pode não parecer, mas sou mais do que meu pau”.
“Ok”.
“Sim?”
“Sim”.
“Porra, mulher, demonstre um pouco de empolgação. Posso te ligar?”
“Não. Estou assistindo filme com meus filhos e eles estão reclamando
que não estou prestando atenção. Boa noite”.
“Boa noite e bom filme”.
Havia algumas mensagens novas, a maioria eram de amigas,
perguntando se queria encontrá-las em alguma balada, uma mensagem de
Samantha me convidando para passar o fim de semana com ela e uma
mensagem de Chloe.
Ignorei a mensagem de Samantha. respondi geral com um “cansado,
marcamos depois” e Chloe, como sempre, preciso pensar no que responder,
porque ela gosta de mim e tenho um carinho imenso por ela, odeio não
corresponder aos seus sentimentos. Se pudesse escolher por quem me
apaixonar, seria ela.
“Ainda não sei a data, final do mês, provavelmente. Te aviso com
antecedência. Talvez consiga ir para o desfile da sua nova coleção, prometo
que não vou te deixar para passar a noite com uma ou algumas modelos.
Não posso prometer nada sobre o restante do dia, haha. Também sinto sua
falta. Sim, é verdade (Mel é uma linguaruda), mas ainda não decidi. Fiquei
muito feliz por você e vai ser bom te ter por perto, se decidir me mudar para
o outro lado do mundo. Não vou mais me sentir sozinho. Beijos”.

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“Você nunca fica sozinho”.


“Não falei nesse sentido, mente poluída. Vai ser legal ter uma amiga
por perto, somando ao fato dela ser um furacão, é um argumento bastante
convincente. Talvez te faça companhia em Tóquio, não vá me trair com um
japonês de pau pequeno. Mantenha o nível, haha”.
− Comida boa do caralho, vou vir serrar o rango mais vezes. – Murilo
comenta. − Cerveja ou vinho?
− Está em casa? – perturbo.
− Claro. – ele diz rindo.
− Cerveja, já que você está em casa, prepara uma porção de calabresa
na cachaça e bruchetta.
− Arruma o lugar para colocar, perto da mesa de sinuca.
− Folgado.
– Ela respondeu?
− Aceitou, sem data ainda.
− Você está marcando bobeira, Sam.
− Ela está assistindo filme com os filhos, não quero atrapalhar,
amanhã...
− Filhos? – Murilo me interrompe. – Você disse filhos? No plural?
– Dois. – confirmo. Levanto e vou para a mesa de sinuca.
– Cara, não terminamos. – ele pontua. – Vai me dizer que ela é casada
também? Ou tem um ex marido psicopata?
– Traz o caralho da cerveja, Murilo.
– Calma. Ela não é casada, né? Por favor, diga que não.

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– Não. Agora vai buscar a cerveja e os aperitivos.


– Quero mais detalhes e você vai me contar essa porra toda.
Não queria contar sobre os filhos de Rafani, porque sabia que Murilo
iria me azucrinar sobre esse assunto. Agora que deixei escapar, não dava para
voltar atrás. Empurrei a mesa de centro para perto da sinuca e enquanto
arrumava as bolas na mesa, decidia até onde deveria contar.
– Pega as cervejas, doze logo, porque a noite vai ser longa. – pede,
segurando duas travessas com os aperitivos.
Vou à cozinha, pego dois kits de Amstel long neck no freezer e coloco
em um balde com gelo. Retorno com as cervejas e começamos a partida.
Desde que nos conhecemos, a sinuca é o nosso setting terapêutico, é como se
a diversão do jogo e a possibilidade de extravasar as emoções a cada tacada,
nos permitissem falar sobre aquilo que nos aflige ou nos deixa tristes.
A primeira vez que tivemos uma conversa intensa foi quando meu avô
João sofreu um acidente de carro, era madrugada quando recebi a ligação do
meu pai, me senti impotente e com raiva, não podia aceitar que algo ruim
pudesse acontecer com meu avô. Lembro de ter desligado o celular e
levantado sem saber o que fazer, parei na mesa de sinuca, peguei um taco e
comecei a descontar minha frustração nas bolas. Murilo acordou com o
barulho e ao invés de reclamar, ele pegou um taco e pediu a vez.
Ficamos jogando por um tempo em silêncio, então ele perguntou o que
havia acontecido, contei sobre o meu avô, e passamos toda a madrugada
conversando, entre uma tacada e outra. Um ano depois o pai dele faleceu,
cheguei da universidade e ele estava em pé, com as mãos apoiadas na sinuca,
calado e com a postura tensa; joguei um taco na frente dele e mandei ele
começar. De lá para cá, tem sido assim, todas as nossas conversas mais
significativas acontecem durante uma partida de sinuca. Nunca pensei sobre,
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mas acho que é por isso que ambos temos uma sinuca na sala de estar.
Contei ao Murilo tudo, desde o encontro inusitado no casamento da
Mel, a visita no hospital, como me senti quando ela disse que não estava
interessada, mas sim satisfeita por ter atraído um garoto; enfatizando a minha
irritação com o vocativo escolhido. Ele não comentou nada, colocou o taco
sobre a mesa, abriu outra cerveja e tomou um gole.
– Por que você foi atrás dela no hospital?
– Não sei, queria saber se eles estavam bem. – faço a jogada e encaçapo
três bolas.
– Você nem os conhece, Sam.
– Você quer que diga o que? – me reposiciono, inclino o corpo e
calculo a próxima jogada. – Fiquei preocupado e não queria que ela estivesse
sozinha com o filho doente.
– Não te preocupa que ela queira te esconder da filha? Se o pai deles
estiver atrás dela?
– Achei bem normal ela não querer me apresentar para filha, Gustavo
engoliu que era um amigo sem mais perguntas, mas ele estava doente,
cansado e com sono, não acho que a menina aceitaria a mesma resposta.
– Você quer entrar na vida deles e depois ir embora como se nada
tivesse acontecido? – pergunta, assumindo sua vez na sinuca. – Ela tem dois
filhos, Sam.
–Não vou entrar na vida deles e bagunçar tudo, não é como se fôssemos
morar juntos ou fazer programas em família. – viro a garrafa e tomo um gole
longo. – Ela não pode sair com ninguém porque tem filhos? É o que você está
dizendo?
– Não, estou dizendo que você ultrapassou a linha do sexo casual no
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momento em que foi ao hospital. Você convidou o garoto para passear com
você, Sam!
– Gostei do moleque. – dou de ombros.
– Digamos que vocês se peguem. – ele coloca o taco em pé e me
observa. – Uma, duas, vinte vezes, sei lá. Como vai ser? Você vai levar os
filhos dela para passear e explicar que a mãe deles é sua amiga de foda?
– Posso dizer que ela é minha amiga.
– Não posso afirmar, mas pelas informações que você trouxe, não acho
que ela tenha muitos amigos do sexo masculino. – diz, sentando na sinuca. –
Criança tem muita imaginação, eles vão criar expectativas, fantasiar que
vocês serão uma família.
Suspiro, porque Murilo tem razão de muitas formas.
Jogo o taco de lado e sento ao lado dele.
– Não consigo tirá-la da minha cabeça. – confesso. – Quero demais
estar com ela, Murilo. – aceito a cerveja que ele me entrega. – Me diz que
não vou ferrar com essa família, não posso arriscar tornar as coisas ainda
piores para ela.
– Sei que você tem boa intenção e que a última coisa que quer é magoar
ela ou os filhos, mas a gente não pode controlar tudo, Sam.

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Capítulo 17

Sam Allencar
Comparamos nossas vidas
E esperamos que um dia
Nossas vidas possam se encontrar
Legião Urbana – Teatro dos Vampiros

Não liguei e nem enviei mensagem para Rafani no fim de semana, nem
em qualquer outro dia da semana. O sábado chegou e ela não entrou em
contato, nem eu.
Estava em conflito, me sentindo um cretino por não ligar, mas depois
do que Murilo falou fiquei pensando no quanto poderia fazê-los sofrer e seria
muito egoísmo me envolver com ela. Mesmo que esteja claro que o nosso
jantar não irá terminar entre lençóis, o motivo que me fez querer sair com ela
é, em última instância, sexo. Adoraria tê-la nos meus braços e ensiná-la como
pode ser bom ser amada por um homem que a vê como a mulher sexy e
envolvente que é.
Adoraria.
Não posso.
Não devo.
Nunca havia pensado que ser sincero pode não ser o suficiente, é fácil
manter relações casuais com mulheres que esperam pelo mesmo que você, a
gente se diverte e no dia seguinte cada um segue o seu caminho, quando
surge outra oportunidade, ou vontade, repetimos a dose, quantas vezes ambos

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estiverem a fim, o que geralmente termina na despedida de solteira delas; e


mesmo depois continuamos amigos.
Não sou hipócrita de dizer que nunca fodi com uma mulher
desconhecida, algumas vezes, e todas restritas ao ato, sem telefones e sem
conhecer a história de vida delas, logo não posso enquadrar Rafani nesse
grupo.
Sem entrar em detalhes, perguntei aos meus pais o que pensavam sobre
a situação e a opinião deles corresponde a do Murilo. “Não a deixe se
envolver, se não tiver intenção de encarar um relacionamento”, foi o que
meu pai disse. Minha mãe foi bem mais enfática e ameaçadora: “Sam, você
não ouse iludir essa mulher e seus filhos, porque arranco seu caralho fora,
sem dó. Se quer sexo, tem um monte de mulher querendo isso, você bem sabe,
se contente com elas”.
Esquecer o jantar parecia uma boa alternativa, não havíamos
combinando quando ou onde iríamos, no entanto, insisti tanto para ela
aceitar, não seria correto da minha parte dispensá-la assim, como se não
significasse nada; tampouco seria honesto, estava ansioso para vê-la,
conversarmos, fazê-la sorrir, tocá-la.
Não.
Não posso.
Somente por isso não havia ligado.
Precisava estar firme na minha decisão, seria apenas um jantar e
terminaria ali, não poderia convidá-la para sair comigo outra vez. Santo Deus,
não sou forte o bastante para estar perto dela sem interesse. O jantar será o
nosso único momento e quero aproveitar sem culpa, mas o caralho é que não
sei mesmo como devo agir.

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Você é um homem, porra! – digo em pensamentos.


Chamada para Rafani.
Ando pelo quarto, esperando que ela atenda, torcendo que ela não
atenda. Não sei o que é pior. Paro em frente à janela. Não há nuvens no céu, e
o sol aparece tímido.
− Oi. – atende.
− Oi. Tudo bem?
− Sim e você?
− De boa. Foi mal não ter ligado antes, é que...
− Você não precisa pedir desculpas, não é como se tivesse ficado
sentada esperando sua ligação.
− Você está sendo irônica?
− Não.
− Você pode almoçar comigo?
− Quando?
− Em uma hora?
− Minha filha saiu, não posso deixar o Guga sozinho.
− Ele não pode vir?
− Pneumonia bacteriana, risco de contágio.
− Posso ir na sua casa? Compro comida no caminho.
− Não. – ela ri nervosa. – Sério que as mulheres deixam você entrar na
casa delas assim? Sem saber nada a seu respeito.
− Entro em lugares mais íntimos. – brinco.

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− Ai, meu Deus!


− Foi uma piada.
− Sei bem. Vou ver se minha amiga pode ficar com ele, te aviso.
− Ok. Beijos.
− Tchau.
Ri com o “tchau”.
Iria sair para almoçar, com ou sem Rafani, por isso fui tomar banho,
enquanto aguardava a resposta dela. Uma mensagem objetiva, como é
característico dela, estava no celular quando verifiquei, ao sair do banheiro.
“Me pega às 13h, mesmo local. Ainda tem o endereço?”
“Sim, estarei à sua espera”.
Na rua de trás ao meu apartamento, tem um restaurante que gosto
bastante, tranquilo e comida excelente. Eles têm uma varanda e um salão
interno, com espaços mais reservados. Não seria hoje que ela teria o Samurai
versão rock in roll, está calor para jaqueta de couro e coturnos, por isso optei
por um jeans, camisa polo branca e sapatênis, acompanhado pelo habitual
coque.
Alguém avisa ao meu pau para se controlar, porque meus olhos bateram
nela e ele hasteou a bandeira, querendo aparecer. A avistei de longe, os
cabelos soltos, salto e um vestido bege, soltinho, na altura das coxas. Respirei
fundo antes de estacionar para ela entrar e mantive meus olhos pregados no
painel, porque se eles descessem por aquelas pernas, estava fodido.
− Oi. – diz baixinho.
− Você está linda. – digo, olhando-a rapidamente.
− Obrigada, você não está nada mal. – ela sorri. − Nem parece o
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playboy que conheci.


− Você não me provoca. – pisco. − Pensei em um restaurante que gosto,
é pequeno e bem aconchegante.
− Perfeito.
− Preciso me apresentar, certo? – olho de soslaio e ela está com uma
expressão confusa. − Afinal, você acabou de entrar no carro de um homem
que não sabe nada a respeito.
− Se você tentar algo, pulo do carro.
− Por favor, não faça isso. – digo entre risos. – Nasci e cresci aqui em
Curitiba, tenho uma irmã e um irmão, ambos mais velhos. Quatro sobrinhos
que são meus maiores amores. Morei por quatro anos fora do país, estudei
engenharia civil no MIT e fiz pós na PUC, trabalho na área e é o que gosto de
fazer. Mulheres, sexo e vinho são as paixões da minha vida.
− Sam é seu nome ou apelido?
− Sam, Mel e JP, minha mãe gosta de nomes que não podem ser
alterados. JP na verdade é João Pedro, mas acho que com exceção da minha
cunhada, ninguém o chama pelo nome.
− Gostei. Só que deve ser bem ruim brigar com vocês, o nome não
permite que a gente soe bravo.
− Verdade. – sorrio.
O trajeto até o restaurante foi preenchido por risos e uma conversa
descontraída. Adoro o som do sorriso dela e amo ser capaz de fazê-la rir à
vontade.
Chegamos ao restaurante e sem perceber coloco uma mão na sua
lombar, sinto ela prender a respiração com o contato, mas antes que tenha

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tempo de me afastar, ela relaxa. Movo o meu polegar de leve, acarinhando-a


e a conduzo para uma mesa na área interna.
Puxo a cadeira para ela sentar, o que a faz me olhar com uma expressão
engraçada. Percebo que ela está inibida. Seguro sua mão sobre a mesa e
dispenso o garçom que se aproximava, com um olhar.
Rafani respira profundamente, não só posso ver o seu peito arfando,
como posso ouvir sua respiração.
− Tudo bem? – sondo.
− As pessoas estão nos olhando? – ela aperta os lábios.
− Não. – sorrio. – Qual o problema se olharem?
− Vão ver como sou ridícula em sair com um garoto que poderia ser
namorado da minha filha.
− Tenho vinte cinco anos, Rafani. Não tenho idade para sair com
adolescentes.
− Minha filha tem dezenove anos. – suspira.
Meus olhos arregalaram e meu cérebro fazia cálculos, sem acreditar
que ela poderia ter uma filha adulta. Sim, poderia, constatei, tentando me
refazer do susto.
Ela teve a filha aos dezesseis anos. Se o Gustavo tem seis, eles não
devem ter o mesmo pai, pelo menos espero que ela não tenha ficado nas mãos
do monstro que a machucou por tanto tempo.
− Estou surpreso. – confesso.
− Deveria ter contado antes.
− Não faria diferença, e daí que sua filha tem dezenove anos? É com
você que quero sair.
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As palavras saem da minha boca sem nenhum filtro.


Que merda é essa?
Estou me sabotando.
Você não pode querer sair com ela.
Você vai magoá-la.
Você só quer sexo.
Ela merece mais.
Não a destrua.
Os pensamentos giram na minha cabeça. Não deveria deixá-la criar
expectativa. Por que não consigo evitar? Olho para ela e quero protegê-la.
Como posso protegê-la, se estou fadado a magoá-la? Não posso dar mais do
que sexo e ela merece mais do que o amor de uma noite.
− Esquece os outros. – peço, apertando sua mão. – Quero estar com
você, e se você quiser estar comigo, foda-se o mundo.
Foda-se o meu juízo, isso sim.
Ela assentiu com um sorriso.
Santo Deus!
Ela tinha que concordar logo agora?
Puta Merda!
Sorrio, mesmo que meus instintos me digam que peguei o caminho
errado. Quero fazer isso, quero conhecê-la. Por que não? Não fiz promessas,
fui sincero. Somos adultos, o que acontecer é por nossa conta e risco, não
estou enganando-a.
− Vinho? – pergunto, acenando para o garçom.

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− Não, obrigada, não bebo.


− Nem uma taça?
− Nunca.
O vinho e o suco de abacaxi com hortelã chegaram e minutos depois os
nossos pratos. Comíamos e conversávamos, falando sobre nossos hobbys e
preferências, temos alguns gostos semelhantes, outros nada a ver. Ela sorria
sem inibições, como no carro.
Gosto demais de vê-la sorrindo.
− Mãe?
O sorriso de Rafani murchou e ela olhou para a moça em pé ao lado da
nossa mesa. Meus olhos seguiram o mesmo curso e fiquei sem reação ao ver
Bárbara; ela estava fumegando de raiva.
− O que você está fazendo com minha mãe? – pergunta ríspida.
− Bárbara, posso explicar.
− Vocês se conhecem? – Rafani me olha sobressaltada.
− Ela é minha secretária. – explico, antes que ela entenda errado.
− Você é o sr. Olhar de Molhar Calcinha? – Rafani leva às mãos aos
lábios. – Sabia que ele era jovem, mas não tanto.
− O que está acontecendo? – Bárbara olha aflita para a mãe.
Meu Deus, elas são mãe e filha!
− Bárbara, senta, por favor. – peço.
− Não, Sam! – ela grita, chamando a atenção.
− Filha, por favor, se controle.
− Bárbara, senta e vamos conversar.
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− O que houve? – Murilo surge ao lado de Bárbara.


Porra, essa conexão nossa está insuportável.
Mãe e filha.
Mesmo restaurante.
Que merda.

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Capítulo 18

Sam Allencar
E nossa história
Não estará
Pelo avesso assim
Sem final feliz
Legião Urbana – Metal Contra As Nuvens

− Estou tentando entender por que meu chefe está em um encontro com
minha mãe.
− Eu não sabia que ela era sua mãe.
− Agora que sabe, fique longe. – diz, puxando o braço de Rafani. –
Vamos embora.
− Bárbara, calma. – Murilo intervém.
− Fica fora dessa conversa, Murilo. – ela dá um olhar severo para ele. –
Você sabe como ele funciona. – aponta para mim. – Ele é seu melhor amigo,
vai me dizer que tudo bem se ele fodesse sua mãe?
− Bárbara, já chega! – Rafani se exalta e puxa o braço. – É um almoço,
não tem motivo para você fazer uma cena.
− Mãe! – ela exclama. – Estou tentando te proteger. O que você acha
que ele quer de você?
− Bárbara, esse não é o lugar para termos essa conversa. – argumento.
− Não teremos nenhuma conversa, estamos indo embora. – diz ríspida.

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– Por favor, mãe. – pede, o olhar aflito pairando sobre Rafani.


− Obrigada pelo almoço. – diz Rafani, levantando. – Sinto muito.
− Vamos conversar, por favor. – peço, segurando sua mão.
− Ai, meu Deus! – Bárbara olha para nossas mãos juntas. – Desde
quando isso está acontecendo? Foi ele? – ela balança a cabeça. − Foi ele
quem pagou o hospital para o Guga?
Rafani abaixa à cabeça.
− Responde, mãe!
− Sim, fui eu. – confirmo. – Rafani não... – levanto.
− O quê? – ela olha para Rafani, o rosto assumindo uma tonalidade
avermelhada. − Você contou? O que mais você contou?
− Bárb... – Rafani tenta intervir.
− Você nunca fala sobre isso, mãe. – ela murmura, as lágrimas caindo.
Murilo toca nos seus ombros, mas ela o afasta. – Por quê?
− Vamos para casa. – Rafani a abraça.
– Não quero que aconteça de novo, não quero viver aquilo de novo. –
Bárbara diz entre lágrimas. − Por favor, mãe, você é tudo o que tenho.
− Não sei porque contei, me perdoa. – Rafani alisa os cabelos de
Bárbara. − Juro que essa é a primeira vez que saímos. – ela busca os meus
olhos e sussurra um “sinto muito” quase inaudível. − Você se incomoda de
nos levar em casa? – pergunta ao Murilo.
− Claro que não. Vou acertar a conta e vam...
− Deixa que resolvo isso, cara. – digo, dando um tapa no ombro dele.
– Te encontro depois. – Murilo me dá um soco leve no peito.

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− Acho que preciso terminar aquela partida. – comento. – Se cuida. –


sussurro para Rafani, deslizando meus dedos sobre uma mecha de cabelo que
cobre a maçã do seu rosto, do lado oposto ao que Bárbara está recostada.
Ela assente e passa a mão pela cintura de Bárbara, conduzindo-a para
fora do restaurante. Murilo segue logo atrás delas. Passo a mão no cabelo,
deixando um suspiro de frustração me vencer e sento, ignorando os olhares
curiosos.
Olho o nada diante de mim e a minha mente vagueia por um
emaranhado de pensamentos desconexos. Sinto como se estivesse sido
engolido por um vórtice e tudo a minha volta se transformou em um vasto e
tenebroso vazio.
É irônico e cômico, porque há dois anos tenho evitado e fugido de
qualquer envolvimento com mulheres, direta ou indiretamente, relacionadas
ao meu trabalho, e agora sinto como se nada simbolizasse tão bem a minha
vida quanto um oroboro, início e fim são um só.
Dizer que estava em estado de torpor parecia apropriado, meu cérebro
estava operando no automático, não lembro nem de ter deixado o restaurante,
somente quando ouvi batidas na porta foi que percebi que estava sentando no
sofá de casa, segurando uma garrafa de wiskhy. Abri a porta e Murilo entrou,
pegando a garrafa e se jogando no sofá.
− Você bebeu tudo? – ele vira a garrafa de cabeça para baixo.
− Não lembro. – admito.
− Quer jogar aquela partida agora?
− Vou tomar um banho, estou meio confuso.
− Bêbado você quer dizer.
− Algo assim. – murmuro, indo para o quarto.
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Jogo as roupas pelo quarto e entro no box. A água cai sobre os meus
ombros, ergo a cabeça e deixo o jato gelado escorrer pelos meus cabelos,
infiltro os dedos entre os fios, jogando-os para trás. Aos poucos, minhas
sinapses voltam a operar e recordo dos gritos e da raiva de Bárbara, o pesar
que se assentou sobre o sorriso de Rafani, a minha perplexidade diante da
situação mais desastrosa da minha vida.
Murilo está jogando quando retorno para a sala. Ele abriu a janela
panorâmica que fica em frente à mesa de sinuca e os raios solares refletem
nas bolas, recobrindo a mesa em pequenos feixes de luminosidade. Pego um
taco e espero ele finalizar a jogada, para fazer a minha.
− Ela falou algo?
− Não sobre você. – ele acerta uma jogada triangular com cinco
finalizações. – Não planejava conhecer a mãe da Bárbara no nosso primeiro
encontro e só escapei ileso, porque você tinha causado o suficiente por um
dia.
− Estou fodido, Murilo. Por que não te ouvi e deixei para lá? –
posiciono o taco. − Quero vê-la, mais do que queria uma semana atrás.
– Estamos fodidos, nós dois. – ele suspira. – Bárbara nem se despediu.
− Ela está com raiva de mim, não de você, só precisa de tempo.
− Foi um primeiro encontro e tanto. – ele ironiza.
− Inesquecível. – completo.
Nós nos entreolhamos e gargalhamos. Cansados de lutar para entender
como nos tornamos protagonistas dessa história, o que nos resta é rir.
Quando a noite se sobrepôs ao dia, as luzes da cidade eram pequenos
pontos na janela, deixamos a sinuca de lado e fomos para a cozinha. Nenhum
de nós estava disposto a manter o clima tenso da conversa, comemos em
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silêncio e quando terminamos, perguntamos ao mesmo tempo se outro estava


a fim de uma balada.
Depois de avaliarmos as opções, decidimos que se o objetivo era sexo,
não precisávamos sair de casa, ligamos para algumas amigas e ela toparam
nos encontrar no meu apartamento. Antes de chegarmos a esse consenso,
Murilo levantou o assunto Bárbara, todavia como eles não haviam sequer se
beijado, concordamos que eles não estavam juntos, logo não precisaria
cumprir a minha promessa de quebrar a cara dele se a iludisse.
Meu estômago revirou com o sentimento paternal que tenho pela
Bárbara; mesmo ciente que não tem nenhuma relação com Rafani, de alguma
forma se tornou estranho.
Preciso esquecer essa mulher!
Nada como quatro gostosas, cheias de tesão, para me fazer esquecer a
insanidade que assolou o meu sábado. Laís, Márcia, Teff e Luanda são
mulheres lindas, nos conhecemos numa balada há pouco mais de um ano,
Márcia havia se separado depois de ser corneada pelo marido e as amigas
estavam querendo animá-la, aconteceu de esbarrarmos e terminamos a noite
em um motel.
Murilo ficou com Teff e Laís, dois exemplares exuberantes da beleza
negra e loira; enquanto a ruiva e a morena ficaram comigo, Márcia estava
indecisa no início, mas assim que me viu na cama com Luanda a ruiva
divorciada e deliciosa entrou na brincadeira.
Desde então nos vemos as vezes. Fomos a uma despedida de solteira da
irmã da Laís, no final do ano passado, e foi uma loucura. Foram três dias de
muita sacanagem, no final tínhamos transado com todas e a noiva foi
premiada com uma dupla penetração; resistimos em concordar, mas elas
disseram que seria o presente de despedida de solteira e aceitamos.
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Entretanto, apesar de ter sido uma experiência interessante, não pretendo


repetir; ver o pau do Murilo, ou qualquer outro homem, não é algo pelo qual
anseie.
Assim que chegaram, e puseram os olhos na mesa de sinuca, sugeriram
uma partida, cada tacada perdida, elas tirariam uma peça de roupa. Peguei
uma garrafa de vinho, nos servi e começamos o jogo. Em trinta minutos,
haviam quatro mulheres apenas de calcinha na minha sala de estar, Márcia e
Murilo estavam no maior amasso no sofá, Teff e Laís dançavam em cima da
sinuca, trocando beijos quentes e Luanda rebolava, roçando a bunda no meu
pau.
− Garotas, estou no quarto. – aviso, levantando Luanda e jogando-a nos
meus ombros.
− A banheira é minha. – diz Teff, pulando da sinuca e correndo para o
quarto.
− A sinuca é minha. – Laís sorri. – Márcia, hora do intervalo. – diz alto.
− O Tarzan agora é meu.
− Viado, se gozar na minha mesa de sinuca, vai ter que mandar trocar o
forro.
− Sou menino? – Murilo diz entre risos e dá um tapa na bunda de
Márcia que rebola, sentada no colo dele.
Acordei com o som do meu celular, gritando pelos cômodos, levantei
para procurá-lo e encontrei Murilo dormindo pelado no meu sofá, a bunda
branquela virada para cima.
− Caralho, veste uma boxer!
− Para de gritar. – ele resmunga. – Desliga essa música, porra.
− É meu celular, cacete. Não encontro.
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− Por que você não desligou o alarme?


− Não é o alarme, é alguém me ligando.
− Meu pau está vibrando.
− Puta que pariu, Murilo! – dou um chute na bunda dele. – É meu
celular!

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Capítulo 19

Sam Allencar
Tudo é dor
E toda dor vem do desejo
De não sentirmos dor
Legião Urbana – Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto

Era Rafani me ligando.


Por causa do Murilo que dormiu com o pau em cima do meu celular,
não pude retornar à ligação do único número que ela conhecia; quando liguei
do celular dele, ela não atendeu, nem quando liguei do fixo.
Não deixei Murilo voltar a dormir, ele levantou resmungando, vestiu a
maldita boxer e ficou gargalhando das marcas de esperma que tinha deixado
no meu celular; é claro que nunca mais irei tocar no aparelho, por isso o
obriguei a ir comigo no shopping para poder comprar outro celular e fazer a
portabilidade do meu número, vai que a porra dele tivesse se infiltrado pelas
gretas do aparelho e alcançado o chip. Ele gargalhou tanto que não aguentei e
acertei um soco forte o bastante para fazê-lo esbravejar.
Assim que meu número ficou disponível, liguei para Rafani, no entanto
ela não atendeu. Bárbara não havia respondido a mensagem do Murilo e o
impedi de enchê-la de mensagens, da mesma forma que ele me impediu de
ligar uma segunda vez, me lembrando que ela poderia estar com a filha e
poderia trazer problemas para a relação delas. Concordei, sem esconder
minha frustração e uma pontada de irritação, afinal a reação de Bárbara foi
desproporcional.
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Almoçamos no shopping e fomos para o boliche encontrar um grupo de


amigos, só não esperava encontrar Samantha entre eles. Quando a vi, parei,
tentado a ir embora e se não fosse por Cami ter surgido, sabe-se lá de onde, e
pulado nas minhas costas, teria saído à francesa.
− Samurai. – ela me beija o pescoço. – Você é do meu time.
− Desde que Samantha seja do time adversário. – levo minhas mãos
para suas coxas, sustentando-a nas minhas costas.
− Desde que ela me veja de amasso com você. – morde a minha orelha.
– Aquela loira azeda ainda me deve por ter roubado esse cretino. – dá um
tapa no Murilo.
− Cami, confie em mim quando digo que foi melhor assim, ela ficou
com todos os chifres. – Murilo argumenta, nos fazendo rir. – Vem cá, minha
gostosa. – ele abre os braços.
− Sam, não fica com ciúmes. – ela salta das minhas costas e se joga nos
braços do Murilo. – Pelos velhos tempos. – diz e dá um selinho nele.
− Bem que podia ser mais do que um selinho. – ele desliza as mãos pela
bunda dela.
− Foi namorar a loira azeda, perdeu a vez na excursão da Cami. – ela
sorri e fica entre nós, as mãos apoiadas sobre os nossos ombros. – Vamos
matar a vadia de ciúmes, gêmeos da paudurescência.
Samantha veio nos cumprimentar entusiasticamente, empurrou a mão
de Cami do meu ombro e abraçou-me pelo pescoço, me dando um selinho,
depois fez o mesmo no Murilo, parou na nossa frente e fez um gesto com as
mãos, expulsando Cami, que soltou uma gargalhada alta, no mesmo instante
que apertei minha mão na sua cintura, avisando que iria puxá-la e a trouxe
para os meus braços, tomando seus lábios em um beijo voraz.

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− Alguém sobrou. – Murilo provoca Samantha.


− Como se isso significasse algo para ele. – ela retruca e ouço o som
dos saltos se afastando.
A tarde de boliche foi longa com Samantha se jogando em cima de
mim a cada oportunidade, ela até trancou Cami no banheiro. Por sorte
estávamos numa galera e as investidas eram mais sutis do que pendurar a
calcinha no meu volante. No final da tarde, fui com Cami para o seu
apartamento, depois do sexo pedimos um delivery, enquanto esperávamos,
mais sexo, jantamos e fui embora.
Com o barulho de música e gritos no boliche, mais os amassos em
Cami e o toque despersonalizado do celular novo, não o ouvi tocar. Quando
entrei no carro, que o tirei do bolso, havia duas chamadas perdidas de Rafani.
Olhei o relógio, era vinte e uma horas, uma das chamadas foi às dezesseis e
outras às vinte horas.
Retornei a ligação.
Um, dois, três toques.
Giro a chave na ignição.
Quatro, cinco, seis toques.
O motor ronca.
Sete toques.
Espero.
Oitavo toque e ela atende.
− Oi. – diz.
− Oi.
− Desculpa ter te ligado tantas vezes.
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− Tudo bem.
− Sei que não tenho esse direito, mas... – ela suspira. – Não demita
Bárbara, por favor.
− Não estava pensando em demiti-la.
− Obrigada, esse emprego é muito importante pa...
− Não se preocupe. – a interrompo. – Ela é ótima, não tenho motivos
para demiti-la, o que aconteceu entre nós não diz respeito à empresa. – deito a
cabeça no volante. – O que está acontecendo entre nós?
− Nada.
− Não é o que sinto. – bato a cabeça no volante. Por que digo essas
coisas quando converso com ela? − Quero continuar te vendo.
− Não é certo.
− Por quê?
− Porque você é o chefe da minha filha e ela está saindo com o seu
melhor amigo, que é mais velho do que você, e também porque não
correspondo às suas expectativas sexuais. – ela faz uma pausa e fico em
silêncio. – São tantos porquês, a minha vida é complicada.
− Matemática é complicada para a maioria das pessoas, não para mim.
– comento e a ouço rir baixinho. – Posso descomplicar sua vida.
− Duvido.
− Talvez possa complicá-la mais, é verdade. – fecho os olhos. – Não
vamos saber se você não deixar terminar a minha lista de compatibilidade.
− Adeus, Sam.
− Rafani?

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− Sim.
− É o que você quer?
− Você é gentil, divertido, sedutor, um tesão. – ela ri. – Não vou negar
que iria adorar descobrir como é ter prazer com você, mas não posso.
− Tudo bem. – endireito o corpo no assento. – Você também é um
tesão.
− Boa noite. – encerra a ligação.
Joguei o celular no banco carona e deitei a cabeça no encosto, fixando o
olhar no teto do carro.
A sensação era de estar pisando em areia movediça, quanto mais
tentava escapar, mais rápido afundava, e nem saberia dizer de onde veio
aquela areia, era uma angústia inominável e queimava no meu peito.
Estava irritado, meu corpo exigia um escape, fechei as mãos em punho
e soquei o volante repetidas vezes, não surtia efeito. Frustrado chutei o
assoalho e no segundo seguinte o carro havia se chocado com uma pilastra,
que deveria estar a cinco metros de onde estava estacionado.
− Maravilha. – ironizo. Passo a mão a testa e analiso o sangue nos meus
dedos. – Que merda!
Depois de encontrar o celular embaixo do banco, liguei para meu
mecânico, que também é um amigo, e ele ficou me zoando quando falei onde
o carro estava, disse que deveria me certificar de desligar o carro antes de
começar a putaria. Combinamos que ele pegaria o carro de manhã e me
devolveria o quanto antes.
É verdade que havia um pouco de sangue na minha testa, mas o
porteiro e o taxista me fizeram acreditar que estava tendo uma hemorragia, e
me convenceram a ir ao hospital.
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Odeio hospitais, doenças e tudo relacionado à morte. Minha visita à


Rafani e o filho doente foi uma atitude impensada, o que não vai se repetir
pelos próximos cem anos. Voltando à minha fatídica entrada no pronto
socorro, além de levar dois pontos na testa, eles me obrigaram a ficar em
observação e fazer alguns exames. Argumentei que havia sido uma simples
batida e com o impacto minha cabeça se chocou contra o volante, mas nem
todos os argumentos do mundo seriam suficientes para fazê-los desistir e só
fui liberado após duas horas, sendo orientado a observar a ocorrência de
dores de cabeça, vômitos e náuseas.
A Harley não é uma boa companheira para o trabalho, entretanto, dormi
demais, o que deve ser efeito dos medicamentos que tomei. Como não queria
chegar atrasado no escritório, aceitei que o meu visual do dia estaria mais
selvagem. Não estava desarrumado, apenas não iria perder tempo com roupas
com vincos alinhados, quando estaria amarrotado ao descer da moto. Assim,
cheguei à empresa com os cabelos soltos, uma band-aid na testa, o blazer
pendurado no braço e a camisa social com as mangas dobradas nos bíceps, o
que imediatamente tornou-se a atração do dia.
− Bom dia, dr. Allencar. A sua agenda está na sua mesa, assim como
todas as pastas e plantas que dependem da sua...
Olho confuso para Bárbara. Ela acabou de me chamar de doutor?
− Como? – estreito os olhos.
− Organizei as pastas e plantas em ordem cronológica, da direita para a
esquerda, o senhor precisa revisá-las até...
Bati a cabeça mais forte do que imaginei.
− Bárbara, voc...
− Srta. Bárbara, senhor. – ela me corrige.

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− Na minha sala. – digo irritado e sigo para o escritório.


Por que estou tão mal-humorado?
− Dr. Allencar, como disse, deixei tudo pronto, tenho algumas ligações
par... – ela argumenta.
Giro no calcanhar e a observo, sentada com a expressão fechada.
− Bárbara, quero falar com você.
− É uma ordem? – ela ergue a sobrancelha.
− Sim, é uma ordem.

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Capítulo 20

Sam Allencar
Se lembra quando a gente
Chegou um dia a acreditar
Que tudo era pra sempre
Sem saber
Que o pra sempre sempre acaba
Legião Urbana – Por Enquanto

Minha mesa estava parecendo um arquivo, pastas e post-its organizados


obsessivamente. Ela está realmente determinada a falar o estritamente
necessário comigo. Sento e fico em silêncio, olhando a garota em pé na porta,
de braços cruzados. Aguardo que ela entre e feche a porta, mas ela não se
move.
− Feche a porta e sente-se.
− É necessário?
Confirmo. Ela me obedece. A postura em que ela senta me faz pensar
se em algum momento enfiei agulhas nas cadeiras.
− Qual o assunto? – pergunta, por fim, após longos minutos.
− O que você acha?
− Não sei, dr. Allencar.
− Desde quando você me chama de dr. Allencar?
− Fiz uma autorreflexão e não estava sendo muito profissional, por isso

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estou corrigindo o meu erro.


− Não tem nada a ver com o que aconteceu no sábado?
− Esse assunto está encerrado.
− Não sabia que você é advogada, promotora, juíza e júri. Deveria fazer
um estágio com Roberta.
− Se quiser me demitir, faça logo.
− Bárbara, você está sendo infantil.
− Não vou deixar você magoar a minha mãe. – ela eleva a voz uma
oitava. – Você não sabe o que vivemos ou o que temos que enfrentar todos os
dias por causa de homens que acham que podem sair por aí fodendo quem
quiser, sem se importar se para isso vão ferir ou destruir a vida de alguém.
− Não sei. – assinto. – O pouco que sei me deixa puto.
− Se é assim, deixe minha mãe em paz. – Bárbara enxuga uma lágrima.
– Nunca iria obrig ...
− Sam, você não entende. – ela aperta os lábios. – O dia mais feliz da
minha vida será quando minha mãe encontrar um homem que a ame, sem... –
inspira devagar. − Esse homem não é você. – completa, secando as lágrimas
com ambas as mãos. – Você pularia fora assim que... Por favor, não permita
que ela se apaixone, quando você sabe que não quer o mesmo. – ela funga. –
Posso sair?
− Sim.
Bárbara levanta e sai em silêncio.
Ela não mentiu, nem exagerou.
Cada palavra que saiu da sua boca é verdade.

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Por que estou com raiva por ela está sendo sincera?
− Desgraça. – acerto um soco lateral no monitor.
Fecho os olhos e ignoro o baque provocado pelo meu acesso de fúria, a
abertura repentina da porta e qualquer coisa que Bárbara tenha dito sobre
limpeza.
Permaneci de olhos fechados o tempo necessário para canalizar a fonte
de angústia que tem me atormentando e descobrir como cortar o mal pela
raiz.
Peguei o blazer no encosto da cadeira, pedi que o rapaz que estava
recolhendo os destroços do monitor encaminhasse para Bárbara os custos e
informações para compra de um novo e deixei o escritório.
− Reorganize a minha agenda, estou antecipando a viagem para Nova
York. – aviso a Bárbara.
− Para quando?
− Hoje.
− Como? – ela arregala os olhos.
− Estarei no aeroporto em uma hora.
− Mas...
− Reverta todas as minhas reuniões das próximas duas semanas para
videoconferência e envie os contratos e plantas por email.
Bárbara ainda estava me olhando com os olhos arregalados quando o
elevador fechou. Como não notei as semelhanças? Elas têm os olhos no
mesmo formato, os mesmos cabelos.
Passei no apartamento, joguei umas roupas na mala e pedi um táxi para
o aeroporto. Consegui um voo para às quatorze horas, chegarei em Nova
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York de madrugada.
Enviei uma mensagem para Doris pedindo que ela desse uma geral no
apartamento e fizesse compras, ela é a minha Judi nova-iorquina, fica com
uma chave do apartamento para fazer a limpeza mensal e quando estou por lá,
ela vai uma vez na semana ajeitar tudo. Liguei para Chloe e ela disse que iria
me buscar no aeroporto, recusei e combinamos que iria direto para o
apartamento dela.
Chloe deixou uma chave para o porteiro me entregar. O conheço há um
par de anos, ele deve pensar que somos namorados, porque Chloe não traz
outros homens para casa e apareço com certa frequência.
Entrei na surdina, pisando leve para não acordá-la e sorri ao abrir a
porta do quarto. Haviam velas decorando o ambiente, uma garrafa de vinho e
morangos no criado-mudo, mas a melhor parte era o furacão loiro deitado no
meio da cama, numa lingerie vermelha, com direito a venda sobre os olhos.
Eu casaria com ela, digo em pensamentos.
− Santo Deus! – exclamo, segurando a gola da camisa e puxando-a pela
minha cabeça. – Vou ficar mal-acostumado. – comento, chutando os sapatos
e tirando a calça.
− Não me importo. – ela flexiona as pernas, abrindo-as sutilmente e
exibindo a abertura na calcinha. Por mais mulheres usando calcinhas assim,
obrigado. – Se isso te trouxer mais vezes para mim, posso até gostar.
− Como é mesmo o meu nome? – brinco, deslizando minhas mãos por
suas pernas. – O nome dessa calcinha deve ser "enfarto fulminante", porque
puta que pariu. – beijo a renda que cobre o monte de vênus e contorno a
abertura de renda, evitando tocar os seus grandes lábios.
− Sam, não provoca. – murmura, quase gemendo. – Amanhã você pode

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me torturar, mas hoje... – ela morde os lábios.


− Hoje o que? – deslizo a ponta da língua na sua fenda.
− Sam. – ela agarra os meus cabelos. – Me chupa logo, cretino!
− Assim? – escorrego minha língua devagar da sua fenda ao ânus e de
volta a fenda. – Ou assim? – selo os meus lábios na sua intimidade, beijando-
a e pressionando a língua no seu clitóris.
− Ohhh, isso seu cretino gostoso!
Estava cansado da viagem, mas com uma recepção daquela, não
poderia desapontá-la; depois do segundo round, apaguei. Acordei com as
ondas loiras cobrindo o meu rosto, estávamos ambos nus, apertei os meus
braços ao redor do seu corpo, afunilando o espaço entre nós e beijei o seu
ombro.
− Você não vai trabalhar?
− Tirei o dia de folga. – ela se vira e ficamos de frente. − As meninas
estão trabalhando na montagem dos últimos croquis que desenhei. – explica,
afastando os meus cabelos. – Tem trabalho hoje?
− Minha secretária deve ter montado a agenda a partir de amanhã ou
meu celular estaria apitando por aí. – a beijo. − Temos que conversar.
− Não. – ela me olha séria. – Diz que você está brincando, por favor.
Estamos na metade do seu prazo, não posso acreditar.
− Não estou apaixonado, mas...
− Ela é mais importante do que eu.
Chloe fecha os olhos por longos minutos e deixo que ela absorva a
informação. Nós fizemos um acordo, quando ela contou que estava
apaixonada por mim, se um dia outra mulher despertasse em mim mais do

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que sinto por ela, iria contar. Afundo o meu rosto no seu pescoço, puxando-a
para mais perto e a beijo delicadamente.
− No fundo achei que esse dia nunca fosse acontecer. – sussurra.
Afasto o meu rosto da sua pele e parte o meu coração quando vejo as
lágrimas que ela tenta evitar se aglomerarem no canto dos seus olhos.
− Chloe. – acaricio o seu rosto. – Você é muito importante para mim, te
amo muito, só não tanto quando você merece.
− Eu sei. – ela me dá um selinho. – Quem é ela?
− Alguém que conheci recentemente.
− Por que você está fugindo? – ela alisa os meus cabelos.
− Como você sabe que estou fugindo?
− Você só deveria vir no final do mês.
− Quer mesmo conversar sobre esse assunto?
− Somos amigos, Sam. – ela me empurra, me fazendo deitar de costas.
– Apenas vista uma boxer, porque é estranho ouvir você falando de outra
mulher, enquanto seu pau me cutuca.
− Desculpe. – digo, sem conseguir evitar a gargalhada.
− Podemos adiar a conversa para depois do banho? – pergunta,
levantando e dando uma manjada no meu pau.
− Aliciadora de paus. – provoco, saltando da cama e agarrando-a pela
cintura.
− Depois que ele me der um orgasmo matinal, sou toda ouvidos.
− Vamos lá. – dou um tapa na sua bunda.
Depois do banho intercalado com sexo, e devidamente vestidos, não tão

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vestidos assim, afinal estava de boxer e ela de camiseta e calcinha, fomos


para cozinha preparar o café da manhã e contei sobre Rafani.
− Ela não quer sair com você por causa da filha? Como assim? E quem
essa garota pensa que é? Se quiser, posso fazer uma visitinha e dar umas
bofetadas nessa Bárbara para ela deixar de ser infantil.
− Obrigado, mas vamos lembrar que ela é filha da Rafani, logo tapas
não são uma saída válida.
− Ela admitiu que te quer, por que você está pulando fora? – ela me dá
o prato com waffles.
− Não, ela disse que iria gostar, não que quer.
− Sam. – Chloe arqueia a sobrancelha. – Se tem alguma chance de ser
ela a sua exceção, não a deixe ir tão fácil. Não é esse o significado dessa
tattoo? − ela contorna o samurai no meu bíceps.

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Capítulo 21

Garota dos Olhos Multicolores


Quando já não tinha espaço, pequena fui
Onde a vida me cabia apertada
Em um canto qualquer acomodei
Minha dança, os meu traços de chuva
Maria Gadu – Quando fui chuva

Sou a prova real que uma mentira dita mil vezes se torna verdade. Há
tanto tempo minto sobre quem sou, que quando olho no espelho, não
reconheço a mulher refletida.
No início foi uma pequena mentira para me manter a salvo, depois veio
Bárbara e era a única forma de garantir que ela ficaria comigo. Então, o que
era uma mentira inofensiva, tornou-se a verdade das nossas vidas, porque se
alguém descobrisse, iria presa e minha filha seria abandonada em um
orfanato; ou pior, se eles soubessem sobre ela, a levariam e fariam o mesmo
que fizeram comigo e com minha irmã.
Sempre fui cuidadosa, esperei que Bárbara tivesse idade suficiente para
entender que aquele segredo deveria morrer conosco para revelar a verdade,
por alguns anos pensei que esconder dela as minhas mentiras fosse o melhor,
no entanto, querendo ou não, o meu passado é parte da história dela, seria
cruel negar a minha filha a verdade sobre quem ela é.
Ela tinha doze anos e aquela foi a primeira vez que falei sobre o que
tinha acontecido desde que fugi de casa, aos quinzes anos. Não sabia que
lembrava de todos os detalhes até começar a falar, a verdade vinha em ondas
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de soluços e tremores, Bárbara me abraçou apertado.


“Está tudo bem, mãe, estamos bem”.
Quando contei aquelas monstruosidades à minha filha, esperava que
isso fosse o mais próximo que ela fosse estar da maldade humana, não
poderia estar mais enganada. O pior momento da minha vida estava por vir, e
sou incapaz de expurgar aquela cena das minhas memórias, ela me persegue a
cada maldito dia, em pequenos lembretes que tomo em doses diárias.
Não repeti a história da minha vida para mais ninguém, além daqueles
que me acolheram, e não pretendia fazê-lo, não sei o que abaixou as minhas
defesas e me fez contar ao Sam.
Não deveria ter dito nada, nem mesmo o meu nome, não sei se foi culpa
do sorriso safado em contraste com o maxilar retangular, do olhar de molhar
calcinha com que ele percorria o meu corpo, ou da sinceridade inesperada
que soava em tom de flerte na sua voz grave e divertida, ou ainda do
equilíbrio entre determinação e sutileza que está implícito em todas as suas
ações.
Sam Allencar tem o semblante de garoto e o porte de homem, não
precisava tê-lo visto com uma camisa social perfeitamente ajustada ao tórax e
arregaçada nos bíceps para saber que ele poderia ser um espartano. Ele é
grande e, tenho quase certeza que compra roupas sob medida, porque é
inadmissível como tudo veste bem nele, desde o terno Armani à camisa polo
e jeans que ele usou no nosso almoço. Não que tenha prestado atenção aos
detalhes, é que não dá para passar batido quando tem um homem de quase
um metro e noventa na sua frente, com uma musculatura de fazer babar e,
como se fosse pouco, barba e cabelo grande preso em um coque estilo
intelectual despojado.
Ele pode ter o que quiser, quem quiser.
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Não acho possível que alguém seja capaz de dizer não para esse
homem; eu teria dito, eu disse, não mais.
Não consigo.
Não posso evitar o desejo que sinto por ele.
Apenas estar perto dele pode destruir toda a minha vida. Ele sabe
demais, ele sabe o que ninguém deveria saber. Enquanto desço as escadas,
tentando ignorá-lo, imagino o que pode acontecer comigo se a verdade
aparecer. Não é justo comigo que ele esteja tão sexy na Harley, numa maldita
jaqueta de couro, coturnos e camisa vermelha, com o corpo relaxado, um
braço apoiado sobre a coxa e outro no guidão, girando uma chave entre os
dedos.
Eles não estão em perigo, eles vão ficar bem, mesmo se o pior
acontecer, eles estão seguros. – digo em pensamentos.
Bárbara é maior de idade, ela pode ficar com o Gustavo. – a insanidade
argumenta.
Sei que busco desculpas para aceitar a companhia dele, mesmo quando
o meu cérebro emite alertas de “perigo” todas as vezes que o vejo. Conheço
todos os finais possíveis para essa história e todos são miseravelmente
terríveis, não há final feliz na minha vida, deveria ter aprendido essa lição há
oito anos.
No instante que desço o último degrau, Sam salta da Harley e os olhos
cor de chocolate me observam com cautela.
– Por favor, me dá alguns minutos.
– Não podemos. – murmuro, apertando os lábios e contendo a vontade
de chorar e abraçá-lo.
Por que diabos quero abraçá-lo?
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Ele é um garoto.
Ele poderia ser namorado da minha filha.
Ele é o melhor amigo do namorado da minha filha.
Deus, ele é chefe da minha filha!
Ele tem todos os requisitos para tornar-se o pior e maior erro da minha
vida, ele pode ser o meu fim, ou posso ser o dele.
– Rafani. – ele dá um passo. – Entendo que os seus filhos são sua
prioridade e não te julgo por escolher não magoá-los, porque provavelmente
seria o que faria. – ele passa a mão no cabelo. – Quer dizer, não tenho filhos,
mas sou capaz de qualquer inferno pelos meus sobrinhos, o que me faz
pensar que não haverá limites para o que posso fazer pelos meus filhos. – ele
sorri e olha para o céu. – Filhos. Nunca falei em ter filhos, nunca nem pensei
e agora estou aqui falando deles como se... Sei lá. – suspira. – Você é uma
equação que não consigo resolver, a única merda de equação que me faz
perder o sono, porque não sei o que diabos fazer para ter mais tempo com
você. Não estou falando de sexo e, acredite, tudo o que quero é te conhecer e
provar que a sua lista de incompatibilidade é insignificante, porque nunca
desejei tanto estar com uma mulher. Não vou dizer que estou apaixonado ou
que não consigo ir para cama com outra mulher por sua causa, seria mentira.
Contudo, sinto algo por você, algo que não sei explicar e mesmo tendo
passado os últimos quinze dias pensando sobre esse sentimento, não sei o que
é, só sei que quero cuidar de você, não posso te deixar ir sem saber o que isso
significa. – ele afaga a minha bochecha. – Se você me mandar ir embora, irei,
mas quero muito que você me convide para ficar. Eu nunca fiz isso antes,
então não sei se deve ser assim ou se deveria esperar que a gente se beijasse
primeiro. – ele sorri e morde o lábio inferior. – Quer namorar comigo?
Meus olhos se arregalaram.
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Inspirei profundamente e esqueci o que fazer a seguir.


Cerrei os lábios e meus olhos buscavam qualquer sinal de escárnio.
O que ele está fazendo?
Por quê?
– O quê? – pergunto, exalando uma lufada de ar.
– Não sei como ser mais claro. – ele entrelaça as nossas mãos. – Não
sou um garoto, não sou como o cara que te machucou, sou um homem e estou
implorando por uma chance. – ele ergue as nossas mãos e encosta no seu
peito. – Essa é a coisa mais ridícula que já fiz na vida e não dou a mínima. –
sorri. – Responde, mulher, você aceita ser minha namorada?
– E-eu... – gaguejo. – Você quer namorar? Comigo? Por quê?
– Você não ouviu nada do que falei?
– Isso é loucura.
– Você sente vontade de ficar comigo? – ele olha nos meus olhos. –
Você pensou em mim alguma vez desde o nosso almoço? Releu as
mensagens que trocamos? Quis me escrever? Ou torceu para acordar com
uma mensagem minha no seu celular? – ele aperta as minhas mãos. – Se sua
resposta for sim para uma, apenas uma dessas perguntas, não me manda ir
embora, fica comigo.
– Se minha resposta for sim para todas as perguntas?
– Vem comigo? – ele convida, apontando para a Harley. – Te devolvo
em uma hora, no máximo.
– Não sei se devo.
– Você está tornando isso mais difícil do que deveria ser ou sou eu
quem não entende nada de namoro? – ele libera as minhas mãos e alisa o
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cabelo.
– Nunca me pediram em namoro antes, então não sei. – dou de ombros.
– O mundo está mesmo perdido, só tem caralho de homem cego nessa
merda, mas estou feliz que você não tenha como comparar, porque devo ser
péssimo nesse lance de namoro.
– Que motivador. – ironizo.
– É melhor manter as expectativas em baixa e surpreender. – ele pisca.
– Agora vem comigo. – diz em meio a um sorriso.
Sam me agarra pela cintura, tirando meus pés do chão e meio segundo
depois estou sentada na Harley, com ele abraçando-me por trás e me
entregando um capacete. Antes que tivesse tempo de enfiar o capacete pela
cabeça ou reclamar, ele estava dando partida na moto.
A velocidade, o silêncio da noite e o contato do seu corpo no meu,
fazem o meu coração acelerar. Minhas mãos repousam sobre as dele e posso
sentir cada movimento dos nós dos seus dedos na aceleração da Harley. Em
algum ponto no percurso, ele apoiou o queixo no meu ombro, talvez tenha
sido apenas para facilitar a sua visualização, mas esse simples gesto provocou
uma onda de calor sem fim.
– O que estamos fazendo aqui? – pergunto, aceitando a sua ajuda para
descer da Harley.
– Não gosta? – ele estreita os olhos.
– Gosto, só estou curiosa.
– Você vai descobrir o porquê. – ele sorri e me dá a mão.
Deixo que ele me guie.
Estive no Parque Tanguá algumas dezenas de vezes, mas essa é de

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longe a minha favorita. Não sei explicar como ele me faz bem, está além da
minha compreensão.
Sinto como se pudesse voltar a sonhar, como aquela menina de seis
anos que se perdeu ao longo de uma vida de sofrimento e mentiras.
– Aqui é um bom lugar. – comenta, colocando a mão na minha cintura.
– Para quê?
– Te beijar. – ele me puxa para perto e sinto sua mão desenhando a
minha coluna, da lombar ao pescoço.
– Atravessamos a cidade por um beijo? – arqueio a sobrancelha.
– É o nosso primeiro beijo. – ele leva uma das mãos ao meu rosto,
deslizando em direção à minha nuca, enquanto com o polegar afaga os meus
lábios. – Queria te dar um beijo digno de Hollywood.
– Onde ficou a ideia de menos expect....
– Shhh. – ele inclina o rosto e seus lábios aconchegam-se aos meus.

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Capítulo 22

Sam Allencar

Quando me vi tendo de viver


Comigo apenas e com o mundo
Você me veio como um sonho bom
E me assustei
Não sou perfeito

Legião Urbana – Teatro de Vampiros

Meus sentidos estavam em alerta máximo, tinha medo que um


movimento precipitado pudesse assustá-la. Quando deslizei a minha mão nas
suas costas, vi um lampejo de medo nos seus olhos, os ombros tensionaram
por meio segundo, suavizei a pressão do meu toque, dedilhando sutilmente a
sua coluna e ela voltou a relaxar.
O vento soprava forte, gelando os meus lábios e a ponta dos meus
dedos, mas no instante em que afaguei o seu rosto, senti uma pequena chama
arder sob a minha pele.
Estávamos no mirante do Parque Tanguá, meus olhos ainda não haviam
se desviado dela, mas sabia que havia um céu de estrelas e uma grande lua
cheia a nossa frente; passei quase uma hora sentado sobre a Harley,
admirando a beleza dessa noite e esperando por ela. Não tinha nada em
mente, a não ser tentar encontrar as palavras que a fizessem entender como
me sinto, e quando percebi que ela havia pensando em mim, tanto quanto

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estive pensando em nós, não podia mais esperar, precisava beijá-la e teria que
ser como ela merece.
Acariciei os seus lábios com o polegar e inclinei o rosto devagar, assisti
suas pálpebras piscarem indecisas com a minha aproximação, então as nossas
respirações convergiram e pude sentir o arrepio na sua nuca. Enfim, ela
cerrou as pálpebras, fiz o mesmo, e os nossos lábios se encontraram. Por mais
que quisesse controlar as minhas ações, fui dominado pela textura suave dos
seus lábios, e nos minutos seguintes estive perdido, imerso no seu corpo, no
seu gosto, no seu cheiro.
Foi ela quem impôs uma pausa ao beijo. Ofegávamos. Sorri ao perceber
que suas mãos estavam no meu pescoço, enredadas nos fios do meu cabelo.
Algumas mechas haviam se soltado do coque e caíam sobre meu rosto. Eu a
abraçava, apertando seu corpo frágil entre os meus braços, percorrendo suas
curvas delicadas. Ela não me soltou, manteve os olhos fechados e os lábios
recostados nos meus, recuperando o fôlego. Prendi seu lábio inferior entre os
dentes, apertando-o e os seus olhos abriram-se assustados.
− Desculpa, não quis te assustar.
− Sem mordidas. – pede e encosta o rosto no meu peito.
− Prometo. – digo, beijando o seu cabelo. Percebo que ela está
tremendo e me xingo mentalmente, não posso ser impulsivo com ela, tenho
que manter o controle, porque não sou exatamente sutil quando o assunto é
pegação. – Você está bem? – pergunto, afagando suas costas. – Foi mal, sou
meio...
− Não precisa se desculpar, fui eu. – ela se afasta, sem remover as mãos
do meu pescoço, e olha nos meus olhos. – Estraguei o momento?
− De jeito nenhum. – beijo a ponta do seu nariz. – Você só precisa dizer

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sim e está tudo bem.


− Sam. – ela suspira. – A gen...
− Sim, somos compatíveis. – a impeço de continuar. – Eu não estava
beijando sozinho, né? – zombo. − Você estava aqui comigo, mulher. Esse foi
um beijo do caralho! – exclamo, o que a faz sorrir.
− Sim. – diz entre risos.
− Sim?
− Sim. – ela aperta os lábios.
− Santo Deus! – a levanto pela cintura. – Você diz assim? Preciso te
ensinar a ser menos literal, é sério.
Rafani está sorrindo.
Gosto quando ela sorri.
Gosto muito desse sorriso.
– Não sei como isso vai funcionar. – ela estreita os olhos.
− Vamos descobrir. – a trago de volta para o meu abraço. – Quando o
sol nascer, pensamos como, agora vem cá.
Afasto os fios de cabelo do seu rosto e ela faz o mesmo com os meus,
mordo os lábios, olhando os seus grandes olhos multicolores. Ela sorri
tímida. Inclino o meu rosto, o bastante para beijar a curva do seu pescoço e
sigo beijando-a e arranhando a sua pele com minha barba.
Sua respiração vacila e suspiros entrecortados inundam os meus
ouvidos. Espalmo as mãos na sua bunda e apalpo forte, trazendo o seu corpo
para junto do meu. Rafani tem as mãos nas minhas costas, sinto os seus dedos
afundando no tecido da jaqueta e o meu corpo anseia pelo seu toque, pelo
calor do seu corpo. Percorro o seu pescoço com a língua, até alcançar os seus
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lábios. As nossas línguas se enlaçam, ela invade a minha jaqueta com as


mãos pequenas, apertando as minhas omoplatas.
Se alguém me oferecesse um milhão para responder quando foi a
última vez que fiquei só no amasso, assumiria a minha derrota sem nem
tentar adivinhar. Quinze, dezesseis anos. Dezessete, talvez. Faz tempo, muito
tempo, é só o que sei. Vou ter que reaprender a ficar na mão, e pelo visto vai
ser difícil
Não sei o que está pulsando mais depressa, meu pau ou o coração. Ela
está usando um jeans justo e tenho que agradecer, porque as minhas mãos
resvalaram pelas suas coxas uma centena de vezes nos últimos minutos. Se
pudesse tocar a sua pele, minha tortura seria exponencialmente pior.
Os seus batimentos cardíacos replicam os meus, os seios golpeiam o
meu tórax. Avanço com uma das mãos sob o seu casaco, meus dedos flertam
na bainha da sua blusa, acariciando-a na base da lombar e, sutilmente, se
arrastam para baixo do tecido.
Ela estremece com o meu toque. Paraliso. As suas mãos repuxam a
minha camisa e sinto as suas unhas perfazendo os músculos das minhas
costas.
− Preciso ir. – murmura.
− Vamos. – entrelaço nossas mãos. − Quer que te leve em casa ou de
volta para o estacionamento do hotel?
− Preciso buscar o carro ou Bárbara vai querer saber como cheguei em
casa. – explica. – Ela não vai aceitar. – murmura, com os olhos tristes.
− Nós faremos com que ela aceite. – solto sua mão e envolvo o braço
na sua cintura. – Posso conversar com ela?
− É minha obrigação. – ela dá um meio sorriso. – Obrigada por essa
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noite. – olha para trás, sobre o ombro, para o céu de estrelas que foi figura de
fundo no nosso beijo. – Digno de Hollywood, com certeza.
− Faço o que posso.
Pisco quando ela me olha sorrindo. Um puxão e o seu corpo colide com
o meu, face a face, corpo a corpo. Um suspiro sobressaltado revela a sua
surpresa, suas pupilas estão dilatadas, mas não vejo medo nos seus olhos. Ela
arfa, a ponta da língua perpassa os lábios, umedecendo-os. Seu olhar é firme,
reflete desejo e expectativa, assim como o meu.
Ela tem olhos lindos.
Grandes e vívidos.
Olhos multicolores.
Seguro firme sua nuca e uno os nossos lábios. A beijo suavemente,
inalando o doce aroma da sua respiração. Aperto o abraço na sua cintura, o
corpo pequeno aconchega-se ao meu, ela apoia as mãos nos meus ombros,
abraçando-me pelo pescoço.
Eu me curvo sobre seu corpo, aprofundando o beijo, seu pescoço
repousa na palma da minha mão e a sua cintura acomoda-se perfeitamente na
curvatura do meu braço. Ela move os dedos a partir da minha nuca,
infiltrando-se entre os meus cabelos, puxando-os e massageando-os na
mesma medida.
Estou terrivelmente duro.
Afrouxo um pouco o abraço, dando algum espaço entre nós, de modo
que ela não sinta como se meu pau quisesse parti-la ao meio. A última coisa
que quero é que meu pau a intimide, é melhor que ela se acostume com a sua
proporção aos poucos.
− Sam. – murmura entre beijos.
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− Hum.
− E-eu. Ah! – ela arqueja. – Ir. Hum. Bora.
− Sim. – sussurro, sem parar de beijá-la. – Ahh... Só. Ohh. Mais.
Uhumm.
− Humhum. – concorda, sorrindo e sugando os meus lábios.
Depois de mais alguns minutos de beijos, conseguimos fazer uma pausa
e voltar para a Harley. Dessa vez ela montou na minha garupa, cruzou as
mãos sobre o meu abdômen e recostou a cabeça nas minhas costas, fomos
assim até o estacionamento do restaurante.
Mesmo ela dizendo que não era necessário, a acompanhei até sua casa.
Rafani estacionou na garagem e subiu os degraus da casa, enquanto a
observava há alguns metros. Ela parou com a chave na porta e se virou para
mim.
Meu peito doeu.
Uma sensação estranha inundou-me.
Saltei da Harley.
Hesitei.
FODA-SE!
Caminhei até em frente à sua casa. Parei na entrada da garagem, ela me
olhava confusa. Meneie a cabeça e sorri, mordendo o canto do lábio. Ela deu
um sorriso largo e refez o trajeto até a garagem. Não trocamos nenhuma
palavra, segurei seu rosto entre as minhas mãos e ela abraçou-me,
envolvendo-me tanto quanto podia entre seus braços.
Nos beijamos mais uma vez.
Um beijo calmo.
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Capítulo 23

Sam Allencar
Temos muito ainda por fazer
Não olhe pra trás
Apenas começamos
O mundo começa agora, ahh!
Legião Urbana – Metal Contra As Nuvens

Pela primeira vez desde que a contratei, Bárbara estava atrasada.


Era o meu retorno após quinze dias em Nova York, pedi que ela
mantivesse o dia livre de reuniões, gosto de ter um dia para me organizar e
analisar todos os projetos em andamento após uma viagem.
Abri o notebook, depois de pegar uma xícara de café na copa, e
comecei a responder os e-mails. Ouvi o telefone tocar na antessala e transferi
a ligação para o escritório, era Samantha.
Praguejei em pensamentos.
Ela queria combinar de almoçar comigo, queria que a acompanhasse no
casamento de uma amiga, ou algo assim, não prestei muita atenção, só queria
encerrar a chamada e ficar livre dela.
− Sam, não posso ir sozinha ao casamento, você é o braço direito do
meu pai, o seu futuro genro, encare como parte do seu trabalho.
− Não é parte do meu trabalho ser o seu troféu, Samantha. Esqueça.
− Vamos discutir os detalhes no almoço.

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− Tenho compromisso no almoço.


− Adie a reunião, peça para aquela sua secretariazinha fazer algo de
útil.
− Não é uma reunião, Samantha. Vou almoçar com minha namorada.
Ela gargalha.
Ignoro o deboche.
A porta do escritório abre, revelando uma Bárbara com olhos
vermelhos e esbaforida.
− Tchau, Samantha.
Bárbara fecha a porta.
− Esteja pronto às treze horas.
− Já disse, tenho compromisso. – desligo. − Bárbara, o que...
− O que você está fazendo? – ela me interrompe. – Namorada? – ri em
tom de deboche. – Um motivo, me dê a merda de um motivo!
− Gosto dela, quero protegê-la.
− O que você sabe sobre ela? Você não sabe porra nenhuma e vai pular
fora assim que souber.
− Bárbara, foi por causa dela que fiquei fora nas últimas semanas, achei
que pudesse esquecê-la, mas não posso e não quero.
− Por que ela representa um desafio para você, uma conquista, diferente
das centenas de vadias que se jogam na sua cama. – ela morde o lábio. −
Quando tiver o que você quer, irá embora e ela terá que se reerguer, mais
uma vez.
− Não será assim, prometo. Não vou embora, vou ficar, nada me fará

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abandoná-la, acredite em mim.


− Não diga que vai ficar, porque não vai. – ela balança a cabeça. − Sei
que não. Você não vai querer lidar com os pedaços dela.
− Bárbara, vou lidar com o que for.
− Não diga que não avisei. – ela esfrega as mãos nos olhos. – Serei eu
ajoelhada no chão ao lado dela, limpando a sua bagunça. – diz e sai do
escritório.
Não vou embora.
Não vou magoá-la.
Não vou, repito em meus pensamentos.
Fechei o notebook e virei a cadeira para a direita, posicionando-me em
frente ao monitor. Liguei o computador e abri um dos projetos que estou
desenvolvendo. Preciso desligar e só conheço uma forma de fazer isso,
mergulhando no meu universo de números e ângulos. Se ficar pensando que
irei magoá-la, não serei capaz de ir adiante com esse relacionamento, o que
significa magoá-la antes de tentar.
É mentira que irei almoçar com Rafani, ela tinha que buscar Guga na
escola, por isso marcamos de nos encontrarmos no final da tarde, teríamos
cerca de uma hora entre o fim do meu expediente e início do dela. Com muita
relutância, ela concordou que fosse buscá-la, assim teríamos mais alguns
minutos quando fosse pegá-la no hotel e levá-la de volta para casa.
Sabíamos que esse esquema não poderia ser mantido, mas até
pensarmos em algo melhor, era a única forma de nos vermos. Não vou
reclamar, porque como um completo leigo em namoro, terei tempo de
pesquisar onde devo levá-la quando sairmos, não acho que ela queira ir ao
meu apartamento, muito menos me levar para sua casa, o que me deixa com a
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missão de encontrar locais que possamos nos pegar em público sem causar
constrangimento aos trausentes, até lá vamos ficar com os amassos no carro.
Acabei entretendo-me com os projetos. Bárbara não me passou
nenhuma ligação, apenas entrou na sala para deixar algumas plantas e saiu
sem me dirigir a palavra. Decidi dar tempo para ela perceber que as minhas
intenções são sinceras. Só esqueci de levar em conta que mulheres irritadas
são verdadeiros demônios e a filha da... Caralho!
Nem posso xingar a miserável, porque é a filha da minha namorada,
enfim... Bárbara deixou Samantha entrar na minha sala e foi escrota o
bastante para avisar que iria almoçar, dar um sorriso cretino e fechar a porta.
Samantha contornou a mesa, empurrou meus papeis de lado e sentou-
se, colocando uma das pernas no meu colo. O salto forçava o tecido da minha
calça, logo abaixo da virilha. Ela apoiou as mãos na mesa, empinou os seios e
mordeu os lábios, manjando minha ereção. Não tenho culpa, porra! Ela é
gostosa e está usando um vestido mínimo, com as pernas abertas sobre a
minha mesa, sem calcinha, exibindo uma depilação total e lábios inchados de
excitação.
Engulo em seco.
Forço os meus olhos a desviarem da sua intimidade.
− Gostou? – ela abre mais as pernas e coloca ambos os pés sobre os
braços da minha cadeira.
− Que diabos você quer? – empurro minha cadeira para trás. Levanto e
paro em frente à janela, expulsando os pensamentos obscenos.
− Você. – diz, em alto e bom som, para não restar dúvidas.
− Esse jogo está ficando cansativo, Samantha. – comento, observando o
parque, quase na linha do horizonte. – Nunca vai haver algo entre nós, no
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momento há alguém na minha vida e quero fazer dar certo, então pare. – viro
para olhá-la. – Apenas pare.
– Você está mesmo namorando? – ela desce da mesa. – Impossível!
Desde quando? Quem? Não me diga que ficou com pena da Chloe.
– Chloe é minha amiga e a amo muito, nunca sentiria pena dela.
– Foi por isso que você estava em Nova York? Por causa da vadia?
– Samantha, você não deveria perder tempo ficando a par da minha
vida.
– Vou acabar com ela. – diz entredentes. – Você será meu, Sam. MEU.
– ela pega a bolsa, ajeita o vestido e vai embora.
Viro novamente para a janela e solto uma respiração profunda.
Samantha é capaz de tudo, não posso permitir que ela descubra sobre
Rafani.
Se ela descobrir que namoro a mãe de Bárbara, isso aqui vai virar um
inferno.
Por que tinha que abrir minha boca?
Ela não vai sossegar enquanto não tiver mais detalhes sobre o meu
relacionamento.
Pego o celular e envio uma mensagem para Murilo, perguntando se está
livre para almoçar. Ele responde com o nome de uma churrascaria. Quinze
minutos depois estamos devorando uma picanha, enquanto imploro para ele
dar um jeito de Bárbara aceitar que não quero apenas foder a mãe dela.
− Você precisava ver o prazer dela em me entregar aos lobos.
− Loba, no caso. – ele debocha. – Loira, curvilínea e um pé no saco.
− Não fode, Murilo. – resmungo. – A parada é séria, Bárbara quer me
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ver com a corda no pescoço.


− Sam, você precisa esperar ela engolir esse namoro. Ela ouviu
horrores sobre você nesse tempo que é sua secretária.
− Nunca escondi nada, Murilo. Ela não pode me dar um voto de
confiança? Precisa agir como se fosse um monstro?
− É a mãe dela, porra!
− Viado, você é meu amigo antes de ser namorado dela, dá para ficar
do meu lado, por favor?
− Estou do seu lado, cara, mas Bárbara não vai aceitar que você está
pegando a mãe dela da noite para o dia. Nem eu estou dando conta da rapidez
que esse namoro aconteceu.
− Vá se foder, Murilo! Como se fosse muito diferente do que rolou
entre você e Bárbara.
− Sei que é a mesma coisa, mas estou pegando a filha, você ficou com a
parte complicada dessa história.
− Ela te contou algo sobre o passado delas?
− Não, só sei do abuso porque você me contou, Bárbara não gosta de
falar sobre o passado. – ele faz uma pausa, deixando escapar um suspiro. –
Você acha que ela também foi abusada?
− Nunca tinha pensando nessa possibilidade, mas agora que você falou.
– trocamos um olhar de preocupação. – Me pergunto como um homem pode
ser capaz de ferir uma mulher desse jeito. Rafani é tão frágil, ela é doce e...
sei lá, cara, ela...
− Ela bagunçou a porra do seu coração.
− Cacete, ela bagunçou a porra toda.

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Capítulo 24

Sam Allencar
Mas nada vai conseguir mudar
O que ficou
Quando penso em alguém, só penso em você
E aí então estamos bem

Legião Urbana – Por Enquanto

Eu tenho um problema grave em guardar segredos, estava no telefone


com minha mãe, combinando um jantar na casa dos meus avós, quando ela
pergunta se posso ajudar na reforma da sala de música no sábado, e conto que
posso ajudar no período da manhã, porque vou almoçar com Rafani e Guga, e
levá-los ao Kart.
− É ela?
− Como? – pergunto, confuso.
− Você disse que vai almoçar com Rafani e Guga e levá-los ao Kart. É
ela a mulher que você nos falou?
− Ah. É. O jantar na casa da vó é que horas?
− Sam Allencar, não mude de assunto. Vocês estão juntos?
− Mais ou menos, mãe.
− Como alguém pode estar mais ou menos junto?
− Estamos nos vendo há pouco mais de um mês.

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− Você iria me contar quando?


− Sem drama, mãe. Estamos tentando contornar a implicância da filha
dela, achei melhor manter em off, nossa família não é muito discreta, e a
verdade é que nós nem tivemos um momento nosso ainda, todos nossos
encontros foram na saída ou entrada dela no trabalho, alguns beijos no banco
do carro ou na Harley, mensagens e só.
− Leve-a para o jantar na casa dos seus avôs.
− Como é? Não!
− Por que não?
− Mãe, nós precisamos conversar primeiro.
− Fala logo, moleque! Ela é casada? É isso, né?
− Não, mãe! Santo Deus! – passo a mão no cabelo. − Ela tem um
passado complicado e a filha dela é minha secretária.
− Como isso aconteceu, Sam?
− Não sabíamos, nos conhecemos no trabalho dela.
− Quero conhecê-la. Não vou constrangê-la, filho. É um jantar de
família, bom que ela vai se acostumando com a nossa loucura, porque quando
for a vez de conhecer JP e Mel... – ela pausa, propositadamente, e dá uma
risada abafada, como se tentasse não rir. − Mande ela vir com os filhos.
− Só se for para Bárbara enfiar o talher na minha jugular, ela mal olha
na minha cara desde que comecei a sair com Rafani.
− Não me diga que ela está a fim de você, Sam.
− Não, mãe, ela está namorando o Murilo.
− Murilo também está namorando?

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− Sim. – sorrio. – Reclame com ele por não ter contado.


− Dois cretinos, pode deixar que puxo a orelha de ambos. Sério, Sam,
venha com ela, seus avós vão adorar.
− Numa escala de um a dez, onde um jantar em família se encaixa no
início de um relacionamento?
− Você não estaria com ela se não estivesse envolvido emocionalmente,
o que é um dez na escala de relacionamento da família Allencar, portanto um
jantar é só um jantar. Guga tem quantos anos?
− Cinco. Quando o conheci não estávamos juntos, então sábado será o
test drive, espero que ele continue gostando de mim.
− Difícil uma criança não gostar de você. Sempre um moleque,
esqueceu?
− Assim espero, mãe.
− Vou preparar uma sobremesa especial para o Guga.
− Mãe, não sei se...
− Sam, a convide.
Se você não conhece a minha mãe, precisa saber que ela sempre
consegue o quer, seria inútil me negar a atender o seu pedido, quando sei que
os seus argumentos para me convencer são infinitos e, em um momento ou
outro, iria concordar com a sua lógica argumentativa, por mais absurdo que
ela soasse.
Coloquei o celular sobre o balcão da cozinha e olhei para o relógio.
Rafani está trabalhando no turno vespertino, às vinte horas ela está livre, irei
buscá-la para jantarmos e teremos, pela primeira vez, uma noite a dois, sem
precisar interromper o amasso para checar o horário. Vinte minutos para ela

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sair, preciso me apressar.


Falar sobre um jantar em família não estava nos planos.
O que diabos ela vai pensar se a convidar para jantar na casa dos meus
avós?
Definitivamente, não tenho tempo para pensar sobre as possíveis
reações a esse convite.
Estou no estacionamento do hotel, dentro do carro, a cabeça apoiada no
recosto do assento, pensando em como inserir o assunto jantar e família na
mesma maldita frase.
Uma batida leve na janela do carona me lembra que tenho uma
preocupação mais urgente, afinal não mencionei que a levaria para o meu
apartamento. Viro e a vejo sorrir. Destravo a porta, ela entra e senta, girando
o corpo na minha direção. Inclino o rosto e a beijo.
− Não avisei para você vir de calça? – pergunto, dando-lhe alguns
selinhos. – Adorei o vestido. – sussurro, beijando seu pescoço.
− Vamos praticar algum tipo de esporte radical?
A resposta sacana estava na ponta da língua. Mordo o lábio, me
impedindo de dizer merda. Rafani coloca a mão no meu peito e me afasta,
perscrutando os meus olhos.
− Sei que você pensou merda. – ela segura a gola da minha camisa. –
Fala qual foi o pensamento sórdido que passou pela sua cabeça, Sam.
− Você montada no meu pau. – confesso. Ela abaixa os olhos
envergonhada. – Foi involuntário. – seguro o seu queixo e ergo o seu rosto. –
Vamos devagar e estou bem com isso.
− Até quando?

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− Até estarmos na mesma página. – beijo o seu queixo. – Sobre hoje,


sem segundas intenções. – esclareço, olhando-a nos olhos. – Pensei que
podíamos jantar no meu apartamento.
Ela não responde de imediato.
Ouço a sua respiração acelerar, assim como o coração.
Insegurança e dúvida fulguram nos grandes olhos multicolores.
− Fiz reserva em um restaurante, vamos lá. – digo, rompendo o silêncio
e tirando-lhe o peso da decisão.
Ela não diz que sim, nem que não.
A beijo rápido, me reposiciono e quando estou dando partida, ela
segura minha mão. Viro-me e ela me dá um beijo singelo.
− Podemos ir para o seu apartamento.
− Você...
− Sim. – confirma, me impedindo de terminar a pergunta.
Se ela estava assustada, disfarçou bem.
Entramos no elevador e envolvi seu corpo entre meus braços, cruzando
minhas mãos na sua lombar. Ela sempre parecia frágil, mas quando estava
dentro do meu abraço sentia como se ela pudesse quebrar com um simples
toque.
Não havia preparado uma noite romântica, nem nada assim.
Destranquei a porta e a conduzi pela sala de estar, acomodando-a no sofá,
antes de ir à cozinha colocar o nosso jantar no forno.
Abri um vinho, me servi e retornei para sala. Arrastei a mesa de centro
para perto do sofá, coloquei a taça de vinho em cima e sentei, abraçando-a.
− Hoje você vai me acompanhar no vinho? – sussurro, beijando o
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lóbulo da sua orelha.


− Nada de álcool para mim. – ela joga a cabeça para trás, abrindo o
caminho para os beijos no seu pescoço. – Você tem uma sinuca na sala de
estar. – comenta, depois de alguns segundos.
Meus lábios se curvam em um sorriso e os beijos convertem-se em
risos impressos na sua pele. Deito a cabeça no estofado e gargalho alto. Ela
vira e cobre minha barba de beijos.
− Tenho uma parede inteira de livros e você vai me julgar pela sinuca?
– provoco, puxando-a para o meu colo.
− Quem tem uma sinuca na sala de estar? – debocha.
− Eu. – beijo o seu nariz. – E o namorado da sua filha também.
− É tão estranho saber que namoro o melhor amigo do namorado da
minha filha.
− Bobagem. Se Bárbara não estivesse sendo intransigente, podíamos
sair os quatro para jantar.
− É difícil para Bárbara.
− Ela está sendo infantil, Rafani.
− Ela está assustada. – argumenta, fitando o teto. – Ela sabe tudo o que
aconteceu, assistiu parte da minha tragédia. – aperta os lábios. − Ainda
assiste. – murmura, quase inaudível.
− Espero que Guga continue meu amigo depois que contarmos que
estamos juntos.
− Ele não para de falar sobre o kart e te adora, nem entendo como, ele
não é de se afeiçoar com facilidade.
− Sou irresistível, você ainda não entendeu? – perturbo.
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− Se acha, garoto! – ela me dá um tapa no peito.


− Eu sou. – pisco. – Tem uma coisa que quero falar com você.
− Também preciso contar algo.
− Você primeiro.
− Não, por favor, não sei como você vai reagir.
− Nem eu. Vou tirar nosso jantar do forno, um minuto.
Ela levanta do meu colo e vou correndo na cozinha, tiro a travessa do
forno, coloco sobre a bancada e volto.
− Podemos adiar a conversa para depois do jantar? – ela arqueia a
sobrancelha.
− Ia propor o mesmo.
− Vamos. – ela pega o vinho e levanta. – Isso é seu. – diz, me
oferecendo a taça.
− Quero descobrir como fica o seu beijo combinado com o meu vinho
favorito.
Aproximo a taça do nariz e circundo sua cintura. Sinto o aroma do
vinho, em seguida afundo o meu rosto no seu pescoço, absorvendo o seu
perfume. Levo a taça aos lábios, tomo um gole do vinho, degustando a
textura e suavidade de suas notas, então repouso os meus lábios nos seus,
enovelando sua língua numa teia de carícias lascivas.

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Capítulo 25

Sam Allencar
Já me acostumei com a tua voz
Com teu rosto e teu olhar
Me partiram em dois
E procuro agora o que é minha metade

Legião Urbana – Sete Cidades

− É melhor ficar longe do vinho essa noite. – palmeio sua bunda. –


Você e vinho. – beijo a curva do seu pescoço. – Meu pecado mortal.
− Você não faz ideia do quanto está certo.
− Já disse que aceito o preço, abelha-rainha. – entrelaço nossas mãos. –
Vou logo avisando que não fui eu quem cozinhou, pode comer sem medo.
− Você acaba de ganhar mais cem pontos na escala playboy. – ela sorri.
− Devagar com essa escala. Sei cozinhar, mas estava em reunião
durante toda a tarde, não teria tempo de preparar o nosso jantar.
− Você sabe cozinhar? – ela arqueia a sobrancelha. – Miojo?
− Minha credibilidade está em alta. – debocho. – Da próxima vez, irei
cozinhar e você será minha assistente.
− Não perco por nada.
Terminamos o jantar e cá estou, parado, com os braços cruzados, de
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costas para pia, impedindo-a de lavar a louça. Rafani me empurra, me


forçando a sair, inutilmente; seu corpo é minúsculo em comparação ao meu.
Minha risada é alta e ela faz cara de brava.
− Finja que estamos em um restaurante.
− São apena dois pratos e uma travessa, nem vou quebrar minhas
unhas. – diz, em tom de deboche.
− Juro que vou acumular a louça da semana para sua próxima vinda
aqui. − provoco, passando meus braços em volta da sua cintura. – Ou posso
deixar você lavar a louça no jantar de sábado, na casa dos meus avós.
− O que você disse? – ela arregala os olhos.
− Vai comigo, por favor. – peço, beijando-a nos ombros.
− Jantar com sua família?
− Eles são bem legais, um pouco intrometidos, mas vão ser gentis com
você e com Guga.
− Isso é tão complicado. – suspira.
Rafani afaga o meu rosto.
Seus olhos revelam pesar e incerteza.
Afasto os cabelos do seu rosto e beijo sua têmpora. Quero que ela saiba
que estou ao seu lado, independente do quão complicado for. Ela segura
minha mão e caminhamos para sala. Sentamo-nos no sofá, ela abaixa os
olhos e aperta minha mão.
− Quero que você saiba que não tinha dimensão da encrenca que estava
me metendo quando essa mentira teve início, mas se alguém descobrir, posso
ir presa, Sam.
− Do que você está falando?
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− Eu tinha uma irmã mais velha, o nome dela era Maressah. – ela
inspira forte. – Roubei os documentos dela e finjo ser ela há anos. Rafani não
existe há muito tempo. Maressah estava morta e essa foi a única saída que
encontrei para continuar viva.
Lágrimas percorrem sua face. Seu olhar é amedrontado, como se
esperasse por uma condenação. Estendo o braço, envolvendo-a, e ela deita no
meu peito, soluçando. Massageio as suas costas e beijo os seus cabelos,
repetidamente. Aos poucos o choro foi diminuindo, restando apenas as
lágrimas.
− Guga não sabe. – diz baixinho. – Vou dizer a verdade quando ele
tiver idade para entender.
− Devo te chamar de Maressah, então? Ou posso te dar um apelido,
para não correr o risco de cometer um ato falho.
– Você está pensando em como me chamar? − ela sorri em meio as
lágrimas, se afasta do meu peito e acaricia o meu rosto. − Você namora uma
fraude, Sam.
− Você fez o que precisava ser feito, não vou te julgar por lutar por sua
vida. – beijo os seus lábios. – Não quero que Rafani deixe de existir.
− Existo com você.
− Fani. – roço o nariz na sua bochecha. – Posso dizer ao Guga que é um
apelido carinhoso.
− Maressah me chamava assim. – ela me dá um selinho. – Minha
pequena Fani.
− O que aconteceu com ela?
− Não sei, não exatamente. – ela dá de ombros. – Sua mãe sabe minha
idade?
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− Sim. Isso significa que você aceita o convite?


– Você vai me apresentar como? – estreita os olhos.
− Fani. – digo, derrubando-a de costas no sofá. − Minha namorada.
Meu movimento rápido a surpreende, as pupilas dilatam, os lábios
entreabrem e os seios evidenciam a respiração pesada. Apoio o cotovelo no
estofado, sustentando meu corpo e posiciono os meus lábios na base do seu
pescoço, beijando-a lentamente, enquanto escorrego minha mão por sua
perna.
Os seus dedos movem-se entre meus ombros e bíceps. Um dos meus
joelhos repousa entre suas pernas, soerguendo a bainha do vestido. Ela
suspira ofegante, arranca o elástico do meu cabelo e corre os dedos por entre
os fios anelados, puxando-os de um jeito que me faz perder a cabeça.
Espalmo a mão na sua coxa, envolvendo-a tanto quanto é possível, e
afundo os dedos na sua pele. Rafani geme e serpenteia o corpo sob o meu,
diminuindo a distância entre nós. Meu joelho fricciona entre suas pernas.
Meu pau pulsa, implorando para sentir sua umidade engolindo-o.
É oficial, essa mulher é a minha morte.
Ela empertiga os dedos na bainha da minha camisa, deixando um rastro
de brasa nas minhas costas. Fico sobre os joelhos e tiro a camisa, atirando-a
sabe-se lá onde.
Os meus olhos recaem sobre o seu decote, o vestido repuxado exibe a
renda preta do sutiã, levo ambas as mãos aos seus seios e apalpo-os. As alças
finas do vestido caem nos seus ombros, desnudando sua clavícula. Encontro
um par de olhos cheio de tesão. A vejo umedecer os lábios e as sobrancelhas
arquearem, deixando-a selvagem.
− Santo Deus! – expiro devagar.
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Com suas mãos contornando os músculos das minhas costas, abaixo-me


e ponho a língua entre os seus seios. Encaixo o indicador sob a renda fina e
revelo parte do seu seio. Ela inspira alto e solta um suspiro profundo quando
os meus lábios incidem sobre o seu mamilo, sugando-o lentamente. Beijo e
chupo, com enlevo, ambos os seios, e minhas mãos sobem e descem por suas
pernas, apertando e alisando-as, sem parar, adorando a sua reação as minhas
carícias.
O seu corpo inteiro transborda de excitação, o que me deixa mais e
mais excitado. Meu pau está tão duro que a compressão do jeans está
machucando, mas que se foda, essa noite não é sobre o meu prazer, hoje é
tudo por ela.
Beijo sua clavícula, ombros, pescoço, queixo, e enfim chego a sua
boca. Ela me recebe com um beijo incendiário, línguas emaranhadas, lábios
sendo sugados com ferocidade, desejo fervendo sob a nossa pele. As unhas
percorrem minha coluna, de cima a baixo, e então ela palmeia minha bunda.
Minha mão avança por sua coxa, acariciando-a na parte interna e
puxando mais o vestido. O beijo continua quente, ela gemendo nos meus
lábios, segurando-me junto ao seu corpo.
Transcorro a mão pelo desenho da sua calcinha, a partir do quadril,
preguiçosamente. Infiltro um dedo sob o elástico e deslizo-o na sua
intimidade; lisura, calidez e umidade imperam sobre o meu dedo. Como ela
vai comigo, puxo sua calcinha de lado e acaricio seu clitóris.
Ela separa os nossos lábios e ondas de gemidos se libertam. Não paro
de beijá-la, ocupo-me do seu pescoço e resvalo um dedo entre a sua fenda,
sem penetrá-la, apenas massageando-a.
Rafani arqueia as costas e, com o movimento, sinto o meu dedo imergir
na sua umidade. Mantenho-me imóvel, somente meus lábios rastejando sobre
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sua pele, esperando por ela, e meu coração bate na garganta quando ela
remexe o quadril, engolindo mais do meu dedo. Devagar, imponho um ritmo
contínuo e suave, acrescentando um segundo dedo.
A cabeça do meu pau está lambuzada de tesão, se não gozar na porra da
boxer é bom. E se gozar, foda-se! Uma coisa é certa, irei fazê-la gozar nos
meus dedos, não importa quanto tempo demore.
Estava deixando os seios para iniciar um oral, mas ela me parou,
puxando-me para os seus lábios, ao que atendi prontamente, embora estivesse
louco para enfiar minha língua entre suas pernas.
Ela tinha uma mão traçada entre meus cabelos e outra perfurando meu
bíceps, mas ela não conseguia conter os gemidos e pediu que voltasse a
chupar os seus seios. Não precisou de mais nada, gozei. Sim caralho, gozei!
Meus dedos afundaram mais nela, enquanto gemia e sentia o meu corpo
relaxar. Selei meus lábios sobre o seu mamilo, apertando-os, sem morder, e
ela puxou forte os meus cabelos, gemendo e suspirando, ao mesmo tempo em
que sentia o seu prazer inundar os meus dedos.
Sorri e deitei sobre os seus seios, levando os dedos com seu gozo aos
meus lábios.
− Sam. – diz, segurando minha mão.
− Quero degustar o seu gozo.
− Por favor, não.
Queria explicar que não é nojento, ao contrário, é afrodisíaco, mas
lembro que sexo está associado a dor e violência na vida dela, então abaixo a
mão e beijo os seus seios.

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Capítulo 26

Sam Allencar
E já me acostumei com a tua voz
Quando estou contigo estou em paz

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− Preciso tomar uma ducha. – levanto. − Estou todo grudento de porra.


− Você me mata de vergonha. – Rafani cruza os braços sobre o rosto.
− Devo te avisar que você fica sensualmente selvagem quando está
envergonhada. – agacho ao lado do sofá e a pego no colo. – Me espera na
minha cama?
− Posso usar o banheiro? Também preciso me limpar. – diz tímida.
− Vou adorar sua companhia no banho. – provoco.
− Não foi o que quis dizer, Sam. – ela esmurra o meu peito.
– Vai que cola. – pisco. – O banheiro é no quarto, você pode usar
primeiro.
− Pode tomar seu banho, espero.
− Você primeiro. – a coloco em pé na minha cama. − Se quiser tomar
um banho. – aponto para o banheiro. − Te empresto uma camisa e não ligo se
você ficar sem calcinha, mas querendo, pode usar uma boxer.
− Podemos puxar a cortina? – ela frisa os dedos na minha nuca.
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− Enquanto você estiver no banheiro sim, quando eu estiver não, quero


te ver na minha cama.
− E você sem roupas?
− Costumo tomar banho pelado. – mordo o lábio.
−Vou ficar virada de costas para o banheiro.
− Vou sair apenas de boxer, acostume-se com isso. – aperto sua cintura.
– Deixa pegar uma toalha e uma camisa para você. – beijo o seu pescoço. –
Sem boxer, certo? − pergunto, indo em direção ao closet.
− Um moletom está ótimo.
− Minha calça vai te engolir. – zombo.
− Samba-canção?
− Nem meu avô usa isso. – abro o closet. – Camisa básica, branca
porque quero apreciar os contornos do seu corpo, e uma boxer.
Resmunguei quando ela fechou a cortina, antes de entrar no banheiro.
Removi os sapatos e a calça. Deitei, vasculhando o celular em busca de uma
playlist que não me fizesse pensar em sexo; quando encontrei algo mais
tranquilo, selecionei, conectei o celular na entrada do amplificador abaixo do
criado-mudo e afundei nos travesseiros, tentando ignorar que ela estava nua
no meu banheiro; o que, lógico, não funcionou, por isso puxei o livro que
estava na cabeceira da cama e prossegui a leitura da noite anterior.
Os conflitos que Franz Kafka aborda em “Carta ao pai” me
envolveram o bastante para adentrar na leitura e manter meu pau sossegado,
pelo menos até o instante que ela saiu do banheiro vestida com minha camisa
e os cabelos presos em um coque, alguns fios soltos, caindo sobre o rosto.
Fecho o livro e empurro sobre o criado-mudo, meus olhos examinando-a
minuciosamente.
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− Você realmente gosta de ler?


− Não diga que você achou que aquela parede de livros na sala de estar
era decorativa, vou ficar ofendido.
− Bom. – ela franze o cenho. – Podia ser para impressionar as mulheres
que você traz aqui.
− A maioria nem deve ter notado. Até porque. – pauso de propósito.
Abaixo os olhos e aperto o meu pau. – Tenho algo mais impressionante bem
aqui. – pisco. Ela abre a boca e a fecha em seguida, as bochechas assumindo
uma tonalidade rubra. – Santo Deus! – sento rápido e a agarro pela cintura,
deslizando uma mão por baixo da camisa. – Vou tomar um banho e você
pode escolher um filme para assistirmos, a senha do notebook é 311215.
– Dia importante? – ela arqueia a sobrancelha.
– Dias importantes. – a faço deitar, – São as datas de aniversários dos
meus sobrinhos, 31 de dezembro, 12 de agosto e 15 de maio.
– Eu te vi brincando com os gêmeos no casamento. – comenta,
afagando os meus cabelos. – Você estava sendo muito fofo.
– Quer dizer que você andou me observando. – sorrio com malícia.
– Não, estava pass...
– Sei que causo esse efeito nas mulheres, não precisa explicar. – beijo o
seu pescoço.
– Você se acha, garoto! – ela bate no meu peito.
– Não me acho. – sussurro contra sua pele. – Eu sou. – completo,
guiando suas pernas para o meu quadril. – Vai negar que curtiu o Samurai
aqui logo de cara? Mesmo com o terno Armani. – provoco.
– Vá tomar um banho frio, o tesão está afetando o seu raciocínio. – diz

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entre risos. – Teria acertado um tapa na sua cara se não estivesse trabalhando.
– Não sei. – finjo pensar. – Acho que não, você ficou intimidada com a
minha sinceridade.
– Você pediu para ver minha bunda nos primeiros três segundos e me
convidou para uma suruba em menos de cinco minutos.
– Culpado. – sorrio. – Você me deixou irritado pra caralho.
– Você deixou bem explícita sua irritação.
– Fui grosso, foi mal. – beijo o seu queixo.
– Você foi sexy de um jeito irritante. – ela dedilha minha coluna.
– Agora você está me provocando. – apalpo sua bunda, puxando-a de
encontro a minha pélvis.
– Banheiro, agora. – ela me empurra.
Assim que abri a cortina, ela rolou na cama e deitou de costas para o
box de vidro. O banho frio foi perda de tempo, o pau nem abaixou. Ela estava
deitada atravessada na cama, mexendo no notebook, de barriga para baixo e
com as pernas viradas para o box. Como ela estava apoiada nos cotovelos, a
blusa subiu, revelando sua bunda, que mesmo numa boxer, é um tesão.
Ela estava distraída e não me viu sair do banho, pulei na cama,
abraçando-a e deslizei meus lábios sobre os seus, iniciando uma sessão de
beijos que terminou com seus seios nus e ela sentada no meu colo, as pernas
ladeando o meu corpo, as mãos apertando as minhas costas, puxando-me, e as
minhas envolvendo-a, fortemente, enredando entre os fios dos seus cabelos e
nuca.
– Sam, tenho que ir. – diz, quando pausamos o beijo para respirar.
– Dorme comigo. – sussurro baixinho.

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– Não posso.
– Guga não está na casa da sua amiga? – pergunto, dando selinhos nos
seus lábios.
– Bárbara. – murmura.
– Ela tem dezenove anos, acho que pode ficar sozinha por uma noite.
– Não é isso, ela não vai entender.
– Ela não entende de qualquer jeito. Fica comigo essa noite, Fani.
– Sem sexo? – pergunta sem jeito.
– Prometo. – seguro seu rosto entre as mãos. – Só fica comigo.
– Então é melhor começarmos a ver o filme.
– Por mim, tudo bem.
Filme.
Pause.
Amassos.
Filme.
Pause.
Amassos.
Esquecemos o filme e assim seguimos madrugada a fora.
Quando Rafani desligou a TV, horas depois do filme ter acabado, ela
poderia ter deitado no travesseiro, mas foi no meu bíceps que ela apoiou a
cabeça, e esse simples gesto fez uma bagunça no meu coração, espantando o
meu sono para a puta que o pariu.
Eu a vi adormecer e continuei acariciando o seu rosto, pensando no
quanto ela sofreu nessa vida e se um dia ela irá me contar todos os seus
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traumas. Quero ser capaz de fazê-la esquecer todo sofrimento.


Queria ter a certeza que nunca irei magoá-la.
E foi com esse pensamento que adormeci.
Acordamos com o celular de Rafani chamando, era Bárbara. Não sei o
que ela disse, mas não deve ter sido um “bom dia”, porque Rafani encerrou a
ligação, enfiando o vestido pela cabeça. Perguntei se havia acontecido algo,
algum problema com Guga, mas ela apenas negou, disse que precisava ir e
foi saindo do quarto.
Levantei rápido, peguei uma calça de moletom e estava vestindo
quando ouvi a porta bater, saí apressado, peguei as chaves e a encontrei no
corredor, esperando o elevador.
– Fani, qual o problema?
– Não deveria ter ficado.
– O que Bárbara te disse? Você é adulta, dormiu na casa do seu
namorado, ela não tem o direito de...
– Você não vai entender, Sam. – ela afaga o meu rosto. – Desculpa,
preciso ir.
– Eu te levo.
– Não precisa, volte para cama. – ela me dá um selinho.
– De jeito nenhum, vou te levar em casa.
O elevador chega, coloco a mão na sua cintura e entramos. Estou
descalço, sem camisa e com uma juba de leão. Foda-se! Não irei deixá-la ir
embora sozinha. O silêncio nos acompanha por todo o trajeto, penso no que
Bárbara pode ter dito para deixá-la angustiada, mas não consigo pensar em
nada plausível.

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Porra, o que tem demais dela dormir comigo?


– Ainda vamos almoçar juntos? – pergunto, quando estaciono em frente
à sua casa.
– Você não fez nada de errado, Sam. Fui eu.
– Não, Fani. – entrelaço nossas mãos. – Não foi errado.
– Quando estou com você, vivo o momento e... – suspira. – Tem
algumas coisas que não posso esquecer, nunca. – ela fecha os olhos, inclina o
rosto e me beija. – Até daqui a pouco. – diz e desce do carro.

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Capítulo 27

Sam Allencar
Vem cá, meu bem, que é bom lhe ver
O mundo anda tão complicado
Que hoje eu quero fazer tudo por você.
Legião Urbana – O Mundo Anda Tão Complicado

O almoço e a tarde no kart foram a maior diversão. Rafani ficou na


arquibancada, enquanto, eu e Guga gastamos hora na pista de corrida.
Não havíamos trocado nenhum beijo durante todo o passeio, porque
decidimos que seria melhor conversar com Guga depois de termos tido um
tempo juntos.
Saímos do kart e paramos numa cafeteria para fazer um lanche e termos
a terrível conversa com um garoto de cinco anos que poderia determinar o
fim do meu relacionamento. Eu precisava ter um dos filhos do meu lado ou
dançaria feio nessa história.
– Sam, posso perguntar uma coisa?
– Claro, Guga.
– Tem uma menina na minha sala, ela é a mais bonita de todas, como
digo que gosto dela?
– Como é, Gustavo? – Rafani pergunta, visivelmente surpresa.
– Mãe, coisa de homem. Desculpa. – Guga levanta a mão, pedindo para
ela ficar fora da conversa. Quero rir, mas me seguro, para ele não ficar com
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vergonha. – Eu fiz um bilhete e joguei na mochila dela, mas ela não sabe que
fui eu.
Rafani olha boquiaberta para Guga, mas ele está de costas para ela,
literalmente a excluindo da conversa.
– Você pode fazer um novo bilhete e assinar, ou sentar ao lado dela no
recreio e começar a conversa com ela, perguntar sobre o que ela gosta.
– Hum. – ele bate o indicador na lateral do olho e aperta os olhos. –
Valeu, vou sentar perto dela. – diz, depois de alguns segundos.
– Guga, também preciso da sua ajuda, tem uma mulher que gosto
muito.
– Tudo bem, você pode namorar minha mãe.
Eu e Rafani nos entreolhamos confusos, sem entender como ele pode
saber que estava falando dela.
– Valeu, amigão. – levanto o punho, ele faz o mesmo e trocamos um
soco de punhos. – Como você sabia que era a sua mãe?
– Você cuidou da gente no hospital. – ele balança os ombros. – A gente
cuida de quem gosta, né? – completa.
– Você é esperto. – bagunço os cabelos dele.
– Eu sei. – ele sorri.
Guga ficou animado com o jantar na casa dos meus avôs, e nem
precisei mencionar a sobremesa especial da minha mãe. Ele perguntou se
Bárbara poderia ir também, o que fez Rafani abaixar os olhos e soltar um
suspiro. Passei o braço em torno do seu corpo, afagando o seu ombro.
– Acho que Bárbara tinha combinado de sair com Murilo, Guga. Outro
dia nós a convidamos.

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– Você conhece o Tarzan?


– Ele é meu amigo.
– Ele é engraçado.
– Qualquer dia a gente combina de sair eu, você e ele.
– Vai ser legal. – diz animado. – Posso, mãe?
– Vamos ver. – ela alisa os cabelos dele.
Por mim emendaríamos o passeio com o jantar, mas Rafani disse não
iria conhecer minha família sem antes passar em casa para tomar um banho e
ficar apresentável. Argumentei que não era necessário, afinal ela estava linda,
o que ela rebateu afirmando que de jeito nenhum apareceria de jeans e
camiseta básica no primeiro encontro com meus pais. Desisti de tentar
convencê-la, os deixei em casa e passei no apartamento para tomar um
banho.
Quando voltei para buscá-los, enviei uma mensagem avisando que
havia chegado e alguns minutos depois Guga apareceu na porta e acenou, me
chamando. Fiquei indeciso, esse era um terreno novo, por causa de Bárbara
sempre esperava por Rafani no carro, contudo, Guga continuou acenando e
fui encontrá-lo. Depois de perguntar sobre sua irmã e ele ter dito que ela não
estava, concordei em entrar.
Guga me conduziu por um corredor e avisou que deveria dizer que sua
mãe estava linda, porque ela havia vestido cinco vestidos diferente, então ele
me deixou sozinho, em frente a porta do quarto dela. Bati de leve.
− O que foi, Guga?
− Sou eu.
− Sam?

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− Posso entrar?
− Sim, como você... – diz, abrindo a porta.
− Guga. – explico, interrompendo-a.
− O que ele te disse?
− Para dizer que você está linda, porque esse é o quinto vestido que
você experimenta e ele quer ir logo. – sorrio. – Você está muito mais do que
linda. – comento, deslizando a mão na sua cintura.
− Sexto. – ela sussurra.
− Certamente você estava linda em cada um deles.
− Como é a sua família?
− Eles vão te adorar, Fani.
− Eles vão se perguntar o porquê você está comigo.
− Não, minha família é de boa. Capaz deles te santificarem. – afago o
seu rosto. – Eu era o último dos putos da família. Você me transformou em
uma das putinhas, eles vão me zoar até a próxima geração ter idade para cair
na putaria.
Rafani pediu que esperasse na sala e trocou de roupa mais uma vez.
Quando saiu do quarto, Guga revirou os olhos.
– Mãe, esse foi o primeiro que você vestiu. – resmungou, me fazendo
rir.
A abracei e beijei os seus lábios com ternura, em seguida perguntei se
podíamos ir e ela concordou, para alegria do Guga, que soltou um suspiro de
alívio.
No prédio dos meus avós, estacionei e enquanto Guga desafivelava a
cadeirinha, Rafani dizia que ele deveria se comportar; aproveitei e enviei uma
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mensagem para minha mãe.


“Mãe, pega leve”.
“Não vou morder sua namorada, Sam. Vem logo”.
“Na garagem”.
Minha mãe deve ter ficado em pé ao lado da porta nos esperando, pois
na primeira batida, ela abriu a porta. Apresentei Rafani e Guga, ela os
abraçou, falou que estava muito feliz em conhecê-los e foi logo mandando-
nos entrar, pois estavam todos na sala de jantar. Ela colocou uma mão no
ombro do Guga e seguiu com ele na nossa frente, contando sobre todos os
doces que havia feito só para ele.
− Pessoal, digam boa noite para o Guga. – diz minha mãe.
− Boa noite, Guga. – todos cumprimentam.
− Boa noite. – ele responde.
− Deixaram vinho para mim? – pergunto, entrando na sala de jantar.
− O seu favorito. – diz meu avô João.
− Te amo, vô. – solto a mão de Rafani e circundo sua cintura,
abraçando-a. – Esse que vocês acabaram de conhecer é o Guga, ele é meu
amigo, portanto sejam bonzinhos com ele. – pisco para Guga. – Essa é Fani,
mãe do Guga e minha namorada, finjam que são normais só por hoje, pode
ser?
− Namorada, é? – Miguel sorri. – Bem-vinda a família, Fani.
Miguel é meu primo, e embora seja neto apenas da vó Aly, sempre teve
pela vó Chris e o vó João um carinho enorme; além do que, para nós, a
família Barcellar e Allencar são uma grande família.
− Sentem-se. – vó Chris convida. – Vinho, Fani?
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− Não, obrigada, não bebo.


− Vamos assaltar a geladeira, Guga. – diz minha mãe.
− Lizzie, prepare um coquetel para Fani. – pede.vó Aly − Não se
preocupe comigo.
− Em cinco minutos vou trazer o melhor coquetel que você já
experimentou, Fani. Fazer filhos bem dotados é só um dos meus talentos. –
minha mãe comenta, provocando uma onda risos.
Rafani enrubesce.
− Liz! – meu pai exclama. – Fani, desculpe por isso. Logo você se
acostuma com as loucuras da minha mulher.
− Fani, sou assim mesmo, não liga. – minha mãe sorri.
− Eles são assim o tempo todo. – explico, puxando uma cadeira para ela
sentar. – Você vai me achar normal depois desse jantar.
Após os aperitivos, veio o jantar e a seguir nos sentamos na sala de
estar para ouvir minha mãe tocar e cantar com o meu pai. Rafani recostou-se
no meu peito e Guga deitou no seu colo, dormindo minutos depois; para não
acordá-lo, o levei para um dos quartos, e quando retornei, aninhei Rafani no
meu colo, furtando alguns beijos, os quais ela correspondia tímida.
Música e conversa se estenderam pela madrugada, em pouco tempo
Rafani estava à vontade e claro que foi mencionado o meu discurso “nada de
relacionamento antes dos cinquenta anos”, o que rendeu muitas piadas e
gargalhadas de todos; sabia que esse seria apenas o início da zoação.
Convidei Rafani para dormir no meu apartamento, mas ela recusou.
Guga estava dormindo, o moleque tem um sono pesado como a porra, o tirei
do carro e levei no colo até a porta de casa; não entrei, porque Bárbara
poderia nos ver e tudo o que não queria era que um dia tão tranquilo
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terminasse em confusão. Despedimo-nos com um selinho e combinei de vir


buscá-la algumas horas antes do seu turno no hotel.
No apartamento, tomei um banho e desabei na cama, só fui ver as
mensagens que meus pais haviam enviado falando sobre o quanto haviam
gostado de Rafani quando acordei com o barulho de mensagens e mais
mensagens.
Tateei o criado-mudo em busca do celular e esfreguei os olhos para
confirmar que haviam centenas de mensagens e outras tantas chegando.

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Capítulo 28

Sam Allencar
E é só você que tem a
Cura pro meu vício de insistir
Nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi
Legião Urbana – Índios

Eu: QUE PORRA É ESSA?


JP: Cadê a foto, Miguel?
Andy: Sam, a coleira está confortável?
Miguel: Não dava para tirar foto, porra! Mas está bem servido, gostosa
pra caralho.
Bruno: Miguel, detalhes, porra!
Eu: Gostoso é meu pau!
JP alterou o grupo de “Putos” para “Os dominados”
Miguel: Vocês precisam ver, caralho, todo apaixonado.
Eu: VÃO SE FODER!
Bruno: A chave de coxa deve ser das boas, kkkkk.
Você alterou o grupo de “Os dominados” para “FODAM-SE,
VIADOS”
Andy: Assume que está dominado, Sam.

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Miguel alterou o grupo de “FODAM-SE, VIADOS” para “Aceita que


dói menos”
Eu: Fani é minha namorada, mas minhas bolas continuam livres.
Andy: Pronome possessivo?
Miguel: Printei e esse é para a história.
Andy: PUTA QUE PARIU!!! É ISSO MESMO? SAM ALLENCAR
ACABOU DE ESCREVER “MINHA NAMORADA”?
Eu: Andy, minha irmã deve estar sentindo sua falta debaixo dos pés
dela, vai lá antes que ela decida te pôr de castigo.
Andy: A paixão te deixou afásico, Sam. Você quis dizer entre as pernas
dela.
JP: PUTA MERDA, ANDY! É minha irmã, cacete.
Bruno: kkkkkkkkkk.
Miguel: JP, tô contigo. Também dispenso os detalhes, é minha prima,
caralho.
Eu: Agora que as putinhas se aquietaram, vou voltar a dormir.
Andy: Volta aqui, Sam!
JP: Sério, como foi isso?
Bruno: Tem quanto tempo, Sam?
Eu: Não faz pergunta difícil, JP. Aconteceu, porra, não sei explicar
como. Um mês e meio.
Você alterou o grupo de “Aceita que dói menos” para “Os dominados”.
Bruno: O moleque assumiu, kkkk.
Eu: Virei um de vocês.
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Andy: Bem-vindo ao clube.


Bruno: O momento mais esperado aconteceu, Sam Allencar está
apaixonado.
Eu: Vocês são exagerados pra caralho, não estou apaixonado.
Miguel: Se isso não é paixão é o que?
JP: Você está namorando, moleque! NAMORANDO!
Andy: Seu pau te deixou na mão com quantas gostosas até você admitir
que estava interessado na Fani?
Eu: Meu pau nunca me deixa na mão!
Bruno: Pode até subir, mas se não for entre as pernas dela, vai dar para
trás.
Miguel: É uma maldição de família, cara.
JP: Sexo nunca mais será igual, e não importa quantas você foda, com
ela é sempre único.
Eu: Ainda tenho chances de me safar, nunca transamos.
JP: QUÊ?
Andy: WTF?
Bruno: Como?
Miguel: Fala sério!
Eu: Nada a declarar.
Bruno: Nem vem, Sam.
Andy: Virgem?
JP: Quantos anos, porra?

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Miguel: Ela tem um filho. Buguei.


Eu: Ela tem dois filhos, 35 anos e, obviamente, não é virgem, mas
ainda não rolou. Estou indo com calma e, para falar a verdade, estou
gostando.
JP: Minha cunhada é 4 anos mais velha do que eu? Isso está
funcionando? Sem zoação, Sam, mas você é muito moleque.
Bruno: Estou me perguntando o mesmo, JP. Sam em um
relacionamento sério é estranho, acrescentando filhos a essa balança, não sei
o que esperar.
Eu: Fani teve uma vida complicada, obscura para dizer o mínimo, então
acho que sou o que ela precisa, alguém para trazer um pouco de leveza para
as merdas que ela precisa enfrentar todos os dias.
Andy: E você, cara? Está mesmo pronto para encarar uma mulher com
tantos problemas?
Miguel: Eles pareciam uma família, e Guga parece o Sam quando
criança.
Eu: Só quero cuidar deles, não me importo como.
JP: Te amo, Sam. Tenho muito orgulho de ser seu irmão, estou feliz pra
caralho por você. Sei o que é ter alguém que faz você dar o seu melhor todos
os dias, sem se importar quantas batalhas tenham que enfrentar.
Bruno: JP melodramático é foda.
JP: Vá se FODER, Bruno!
Eu: Também te amo, pra caralho! Bruno, vá se foder. Preciso sair
agora, suas putinhas.
Miguel: Vai lá, não esquece de usar bem a língua quando tiver

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lambendo o chão.
Bruno: Também tenho que ir. Abraços.
Eu: Essa é sua função, Miguel. Minha língua tem outras preferências.
Andy: Já falei para arrumar outro hobby, Sam. Chupar caralho pega
mal.
Eu: Por acaso me chamo Andy?
Miguel: Beijo, vadias.
JP: Tchau, seus putos.

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Capítulo 29

Sam Allencar
Não é desejo, nem é saudade
Sinceramente, nem é verdade
Legião Urbana – L´Avventura

Tenho bastante tempo livre até ir encontrá-la, nenhum programa para


ocupar o meu domingo, portanto decido queimar um pouco de energia.
Ducha, musculação, ducha, leitura, vinho, almoço, mais vinho, cama.
Despertei com o celular vibrando, era Lucca, me convidando para uma
partida de airsoft. Em trinta minutos estava encontrando a galera, dividimo-
nos em duas equipes, colocamos os equipamentos de proteção, escolhemos as
armas e entramos em campo.
− Esse é o tipo de coisa que só acontece com vocês. – Lucca comenta. –
Vou pela direita.
− Nem fala, quis esmurrar esse puto. – analiso o campo, em busca da
equipe adversária. − Cubro o leste.
− Meu filho, sou eu quem tenho que lidar com uma namorada furiosa a
cada vez que você encontra com a mãe dela. Felipe, cobre minha retaguarda?
− Tamo junto! – diz Felipe.
− Eu tenho que lidar com uma secretária furiosa... – abaixo para desviar
do tiro. − Cinco dias na semana. – completo, me esgueirando para atacar o
adversário. – Lucca, à sua esquerda!
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− Na mira. – Lucca exclama, a voz sendo abafada pelo som do tiro –


Merda. – resmunga, quando outro adversário quase o atinge.
− Dividir para conquistar! – Murilo exclama.
− Nos vemos quando o último deles cair. – digo, acertando a mira e
disparo. – O Samurai aqui é o novo Hitman.
− MORTO! – o adversário que atingi, grita.
− Menos um, viados. – diz Lucca.
A partida terminou com a nossa vitória, saímos do campo de airsoft
para o sítio do Felipe, que fica próximo. Sabia que além da piscina, churrasco
e cerveja, haveria muitas mulheres, e provavelmente Samantha estaria entre
elas; Felipe paga todos os paus do universo para pegar Samantha, o que até
entendo, ela pode ser chata pra cacete, mas é gostosa pra caralho. Bem que
ela poderia cair de amores por ele e sair do meu pé.
Estava na churrasqueira quando senti alguém me abraçando por trás e
uma mordida no meu pescoço. Dei um passo para o lado, me desvencilhando
das mãos que desciam pelo meu abdômen e colocando o prato de carne entre
nós. Samantha estava usando um biquíni branco, mal cobria os seus mamilos;
nem quero ver o tamanho da parte de baixo.
− Você não sabe cumprimentar as pessoas com um “olá”?
− Não precisa ficar com ciúme. – ela escorrega o dedo pelo meu peito.
− Esse cumprimento é especial para você.
− Nem consigo viver com tanto ciúme. – ironizo. – Tchau, Samantha. –
caminho de volta para a piscina.
− Você não pode me fazer companhia? – ela anda ao meu lado.
− Não o tipo de companhia que você quer.

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− É você quem só pensa em sexo, Sam. – ela aperta minha bunda.


− Engano seu.
Paro um instante olhando a piscina, a paisagem mudou para melhor
desde a minha ida à churrasqueira, há cinco mulheres lindas, em biquínis
mínimos. Em segundos, relembro como cada uma delas curte o sexo, sei
quais topariam um ménage, qual iria me fazer fodê-la na piscina, quem sairia
de fininho e estaria me esperando no estábulo, bem como qual delas me
acompanharia para o quarto.
Uma das garotas pisca e sorri para mim.
Balanço a cabeça, afastando os pensamentos que fizeram meu pau
despertar. Desvio os olhos da piscina, empurro o prato na mesa e sento na
companhia de Murilo, Lucca e Fred.
− Da próxima vez, me mandem para casa depois do jogo.
− Digo o mesmo. – Murilo toma um gole da cerveja.
− Ou vocês podem trazê-las. – diz Lucca. Eu e Murilo o encaramos. –
Péssima ideia. – ele completa.
− Com certeza! – dizemos em uníssono.
− Ei, rapazes. – Luana chega, puxando uma cadeira e senta conosco. –
Então é sério, perdi meu PA?
− Uma hora tinha que acontecer, Lu. – Fred comenta entre risos.
− Ainda bem que guardei meu coração bem longe de você, Samurai.
Aliás, longe dos dois.
Fred estudou comigo e Luana no ensino médio. Ele e Lucca estão
juntos há cerca de um ano, até então ele sempre tinha se relacionado com
mulheres, incluindo Luana; eles tiveram um namoro rápido no colégio.

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− Você sabe que te amo, Lu. – Fred sorri.


− Não comecem. – Lucca olha feio para Fred. − Tenho ciúme da Luana,
ok? Por uma mulher dessa, até meu pau sobe. – diz sério, o que nos faz
gargalhar.
− Lucca, também te amo. – Luana solta um beijo no ar. – Quem sabe
um dia a gente não se diverte em três.
− Eita, porra! – Murilo exclama.
− Quem sabe não planejamos uma surpresa no aniversário dele. –
Lucca afaga o ombro de Fred. – Não prometo nada.
− Estava brincando, seus safados!
− Jogou na roda, agora tem que cumprir, Lu. – Murilo perturba.
− Ficou quieto assim por que, Frederico? – Lucca esmurra o bíceps de
Fred. – Está fantasiando essa porra?
− Preciso de outra cerveja! – Fred levanta, saindo pela tangente.
− Vocês vão deixar ele com bolas azuis. – digo entre risos.
− Se ele demorar, foi bater uma. – Murilo comenta.
− Vocês são uns cretinos. – Luana declara.
− Vou aliviar o fogo do meu namorado. – Lucca diz, levantando.
− Engole ou cospe? – pergunto.
− Melhor que vinho, Sam. – Lucca sorri com malícia.
− Até parece! – gargalho.
− Pense com carinho no presente do Fred. – Lucca comenta e sai.
− Ele está falando sério? – Luana pergunta.
− Sim! – eu e Murilo respondemos.
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− Que louco. – ela balança a cabeça e levanta. – Vou cair na piscina.


− Nunca pensei que chegaria o dia em que ficaria em abstinência
sexual.
− Nem me fala. – Murilo murmura. – O pau nem desce mais.
− Você também?
– Fico sem saber até onde ir sem pressionar. − ele passa a mão no
cabelo.
− Somos dois. – solto um suspiro profundo. – Ela dormiu lá em casa na
quinta-feira, aí sua namorada surtou logo cedo, então suspeito que não vai
acontecer de novo.
− Bárbara fecha a cara quando menciono o seu nome, não sei como
ajudar.
− Faça sexo com ela, por favor! Quem sabe assim o mau humor vai
embora.
− Acho que ela é virgem.
− Tem como nos fodermos mais?
− Oi, Murilo. – Samantha senta na minha perna. – A piscina está uma
delícia, vem comigo. – ela alisa os meus cabelos.
− Não precisa responder. – digo ao Murilo.
− Você não cansa? – Murilo pergunta.
− Sem ressentimentos, Lilo, nossa história ficou lá atrás, agora é a vez
do Sam.
− Se ele te quisesse. – Murilo debocha.
− Murilo, vai procurar quem te queira e nos deixa em paz.

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− Samantha, siga o seu próprio conselho. – a faço levantar do meu colo.


− Faça-nos o favor, Samantha. – Murilo aponta para a piscina. – Cai
fora!
− Sam Allencar, você não deveria me tratar assim. – ela cruza os
braços.
− Você pede por isso. – dou de ombros.
− Sua namorada sabe que você está aqui? – ela arqueia a sobrancelha.
− Ela confia em mim.
− Você não deveria confiar nela, Sam. – ela faz beicinho. – Ou será que
a filhinha do papai te contou quem é? Será que você sabe quem é o pai da
filha dela? Ah, sim, por acaso o meu pai sabe que você contratou a filha da
sua namorada como secretária?
− Samantha, não se meta com Bárbara! – Murilo diz exaltado.
− Como diabos você sabe...
− Sei tudo sobre você, Sam. – ela me interrompe. – Posso mandar as
duas e o pivete de volta para a casa do papai, você ficaria surpreso se
soubesse...
− Fica longe deles. – esbravejo, calando-a.
Levanto, com os punhos cerrados, arfando de raiva.
– Sam. – Murilo coloca a mão no meu ombro.
− Eu aguento todas suas merdas, sempre ignorei seus joguinhos, porque
achava que era coisa de menina mimada, mas você está indo longe demais.
Apenas, fique longe.

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Capítulo 30

Sam Allencar

Se lembra quando a gente


Chegou um dia a acreditar
Que tudo era pra sempre
Sem saber
Que o pra sempre sempre acaba

Legião Urbana – Por Enquanto

− Vamos embora, Sam. – Murilo me afasta de Samantha.


− É ela quem precisa ficar longe do que é meu. – Samantha resmunga.
− Ignora. – Murilo diz.
Nós entramos em casa, pegamos as nossas mochilas e sapatos, nem
calçamos, e fomos para os carros; caminhando em silêncio, minha mente
ruminando as palavras de Samantha.
− O que diabos ela quis dizer com filhinha do papai? – pergunto,
desativando o alarme do carro. − Será que...
− Ela estava blefando, Sam.
− Ela sabe sobre Bárbara e Guga, ela não estava blefando, Murilo. –
argumento. – Você acha que... – pauso.
− Não sei, cara. Faz diferença?
− Puta merda! – passo a mão no cabelo, desfazendo o coque. − Preciso
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socar algo. – jogo a mochila e os sapatos no chão. Olho ao redor, procurando


uma válvula para minha raiva. – Que sentimento ruim, cara. – coloco a mão
no peito e respiro devagar.
− Socaria o filho da puta sem dó.
− Eu o mataria, Murilo. – dobro os joelhos, enterrando-os na grama e
afundo os dedos na terra. – Eu mataria o desgraçado, sem nenhum
arrependimento. – digo entredentes. Murilo agacha ao meu lado e aperta o
meu ombro. – Ela disse que não poderia curá-la. Pensei que seria capaz de
fazê-la esquecer qualquer merda que tenha passado, mas não posso. Bárbara
está certa, não posso juntar os pedaços dela. Como poderia fazê-la esquecer
quando o seu próprio pai foi o monstro que a violentou?
− Sam, você a fez querer esquecer, é o mais importante. – ele encosta a
testa na minha. – Ela está tentando, Sam. – dá um tapa no meu rosto. – Faça
valer a pena!
− Quero socar e não o contrário, porra! – revido o tapa. – Tudo sobre
ela é um agente dificultador. Primeiro, soube do abuso, depois descobri que
Bárbara é filha dela, a falsidade ideológica, agora suspeito que ela tenha sido
estuprada pelo pai. O que mais vem por aí? Tenho medo de não ser o
bastante.
− Você está apaixonado, meu filho. – ele bate no meu ombro. − É o
bastante. – diz, levantando.
− Se não estiver, Murilo? – fico em pé. − Se meu interesse acabar
quando fizermos sexo?
− Para de tentar explicar o que você está sentindo, assuma essa porra.
− Estar apaixonado não deveria me impedir de querer foder outras
mulheres? Vou ser honesto, meu pau está implorando por sexo, quando bati o

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olho na piscina e vi cinco gostosas seminuas, meus pensamentos não tinham


absolutamente nada de apaixonados.
− Sabe quando falam que coração e cérebro vivem em pé de guerra? No
nosso caso, o pau é um terceiro elemento na disputa.
− Minha última foda foi em Nova York, o que significa dois meses sem
sexo. Sabe quando foi que fiquei uma semana sem sexo?
− Estamos na mesma situação. – ele encosta no carro. − Mesmo louco
para foder, não liguei para nenhuma amiga, nem aceitei nenhum dos convites
que recebi, assim como você.
− Nem estou abrindo as mensagens, porque dependendo do que vier,
não sei se resisto. – cruzo os braços sobre o teto do carro. – Vou encontrá-la
hoje à noite, você acha que devo falar sobre Samantha?
− Não, só vai assustá-la e forçá-la a relembrar algo que ainda a
machuca.
Dirigimos de volta para a cidade, cada um no seu carro; fiz uma parada
no apartamento do Murilo, tomamos algumas doses de whisky, jogando
sinuca e fui embora.
O restante da noite estava dentro do script, levei Rafani ao trabalho, nos
pegamos um pouco no banco de trás do carro, ela saiu com os lábios inchados
e os cabelos bagunçados, ajeitando a blusa, tudo nos conformes. Entretanto,
ela estava diferente quando voltei para buscá-la, depois do seu turno, entrou
no carro em silêncio, seus olhos estavam vermelhos, como se tivesse
chorado, me deu um selinho tão rápido que nem senti o calor dos seus lábios
e afundou a cabeça no assento, fitando o vazio da noite.
Esperei que ela me contasse o que havia acontecido, no entanto, ela não
disse uma única palavra todo o caminho até sua casa. Quando parei em frente

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à sua garagem, ela abriu a porta do carro e saltou, murmurando um boa noite
indiferente e se afastando.
− Fani.
− Desculpa. – ela vira e vejo um mar de lágrimas nas maçãs do seu
rosto. − Não posso continuar.
− Fani. – desço do carro e faço a volta, envolvendo-a em um abraço. –
O que houve?
− Vá embora, Sam. – ela me afasta. – Não volte aqui, nem no hotel, por
favor.
− Você está terminando comigo?
Passo a mão no cabelo, sem acreditar no que ela está fazendo.
Rafani enxuga as lágrimas e move a cabeça, confirmando.
Sim, ela está terminando comigo.
− Por quê? – pergunto perplexo.
− Somos incompatíveis.
− Você está me zoando, porra?
− Não, Sam. Apenas não consigo mais fingir que sou essa pessoa que
você quer.
− Fingir? – aliso a barba. – Quero você, com todas suas merdas, é dessa
Rafani que gosto, é ela quem quero.
− Sou a Maressah, desculpa. Boa noite.
Contorno o carro, abro a porta e a observo por alguns segundos, antes
de entrar, bater à porta com raiva e cair fora. Não olho para trás, não penso no
que estou fazendo, estou com ódio dela e de mim mesmo, porque permiti que

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ela pudesse me magoar.


A madrugada é um borrão.
Lembro de ter parado em um bar.
Ainda posso ouvir a música alta, martelando o meu cérebro.
− Alguém faz essa merda parar!
− É o seu celular, moreno.
Abro os olhos. Imediatamente reconheço a janela panorâmica, estou no
meu quarto. Menos mal.
Mas quem diabos é ela?
Abaixo os olhos e vejo suas pernas entrelaçadas nas minhas, os cabelos
no meu peito. Puta merda! Quem são elas?
− Desliga e volta para cama.
− Preciso de um minuto. – levanto, jogando o cabelo para trás. – Onde
está a porra do meu celular? – resmungo, vasculhando por baixo das roupas
espalhadas no chão do quarto.
Há camisinhas usadas no chão.
Quando finalmente encontro o celular há três chamadas perdidas e uma
mensagem que me lembra que sou um maldito cafajeste, não pelo assunto,
mas porque foi enviada pela filha da minha namorada. Ou ex, que seja.
“Devo cancelar sua reunião?”

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Capítulo 31

Sam Allencar
Me fiz em mil pedaços
Pra você juntar
E queria sempre achar
Explicação pro que eu sentia
Legião Urbana – Quase Sem Querer

O que diabos aconteceu comigo?


Em plena segunda-feira e além de estar atrasado, estou de resseca e não
lembro de ter conhecido as duas mulheres que acordaram na minha cama,
mas julgando pelo entusiasmo delas, tivemos uma noite louca de sexo; o que
não irá se repetir, porque nem deveria ter acontecido. Mando ambas embora o
quanto antes, ligo para Bárbara avisando para cancelar todos meus
compromissos do dia, pois tenho que resolver algo fora do escritório.
Paro em frente à casa de Rafani, a janela está entreaberta. Nesse horário
Guga está na escola, então podemos conversar sem interrupções. Não sei que
merda devo dizer, mas preciso me desculpar por ter ido embora daquele jeito.
Eu a traí.
SANTO DEUS!
Prometi que não ia magoá-la e, na nossa primeira briga, vou rastejando
atrás de sexo. É oficial, sou dependente de sexo.
Ela não esperava me encontrar quando abriu a porta. Seus olhos
sobressaltaram-se e ela ficou sem ação por milésimos de segundo, os lábios
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levemente entreabertos, deixando escapar uma respiração apressada.


− Sou um filho da puta escroto, mas quero ser melhor para você. –
seguro sua mão. − Me perdoa, Fani.
− Sam, nã...
− Eu te traí. – confesso. − Fodi duas garotas que nem sei o nome,
porque estava com raiva por você ter terminado comigo, o que só prova que
você fez bem em me deixar.
− Não tem nada a ver com você o fato de ter terminado, Sam. – ela
suspira e abre a porta. – Entra.
Ela me olha e desvia os olhos, repetidas vezes. Estamos no sofá,
virados de frente um para o outro. Dou tempo para ela processar a minha
confissão, quero que ela me perdoe, mas entendo que não deve ser fácil.
− Se pudesse apagar a merda que fiz ontem, faria sem...
− Sam. – ela segura minha mão. – Você não me traiu, não estou
chateada. Estou com um pouco de ciúmes, é verdade. – sorri tímida − Queria
ser capaz de me entregar para você desse jeito. – ela afaga minha barba. − Há
muito que você não sabe sobre mim, coisas que não tenho coragem de contar,
porque me fazem sentir imunda.
− Nada do que aconteceu é sua culpa, Fani.
− Ontem à noite, uma garota me procurou no restaurante do hotel e me
mandou ficar longe de você. Ela sabe sobre a identidade falsa, tem fotos de
quando era criança, da casa dos meus pais e deles, fotos recentes. Eles não
podem me encontrar, se for presa e pegarem Bárbara e Guga. – ela pausa, a
voz sendo engolida pelo choro. – Eles vão machucá-los, vão se vingar por ter
fugido fazendo com eles o que faziam comigo e Maressah.
− Podemos denunciá-los, Fani. – a abraço.
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− Ninguém iria acreditar, meu pai é idolatrado naquela cidade, era


prefeito e delegado. A quem poderia recorrer? Minha irmã desapareceu e eles
fizeram toda cidade acreditar que ela havia fugido, até eu pensei que ela tinha
me abandonado. − ela deita o rosto no meu ombro e chora. Acaricio suas
costas e beijo os seus cabelos, sentindo o seu perfume nos envolver. – Tenho
vergonha, porque deixei ele fazer aquelas coisas comigo. – diz entre soluços.
– Não sabia que estava grávida quando fugi.
− Foi o seu pai? – sussurro.
− Tinha seis anos na primeira vez que ele entrou no meu quarto à noite,
ele deitou na minha cama e me acordou, mandou tirar a camisola e pediu para
fazer coisas nele.

Vinte Nove anos atrás...

Olho assustada para o papai deitado na minha cama, a calça


abaixada, mexendo numa torneirinha.
− Vem, filhinha, coloca a boca aqui.
− O que é isso, papai?
− Você vai chupar feito um pirulito, colocando todo na boca, se fizer
direito, vai ganhar um presente de manhã.
− Não quero, papai. – choramingo.
− O papai está mandando, chupa gostoso que vai sair leite quentinho
para você, engole tudo.
− Quero dormir, papai. Cadê a mamãe?

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− Anda logo, vadia!


O papai segura minha cabeça com força.
Dói, choro, mas ele grita, manda abrir a boca e enfia a torneirinha.
Tusso.
Não consigo respirar.
Ele não me solta e fica gritando para chupar.
Queria a mamãe. Por que ela não vem? Será que ela não ouve os
gritos do papai?
− Solta ela!
Não é a mamãe, é a Mah.
Ela briga com o papai.
Ele me solta e fico feliz porque posso respirar.
Ele bate na Mah e fico triste, porque ela cai no chão e não me
responde.
− Mah? Mamah? – chamo, ajoelhada ao lado dela.
O papai me puxa pelos cabelos e me leva de novo para cama.
− Chupa logo ou vou bater na sua irmã até ela sangrar.
− Não, papai.
− Abre a boca, quero você chupando ele todo.
Não quero que o papai bata na Mah, então obedeço.
Ele segura bem apertado minha cabeça e quero vomitar várias vezes,
mas não vomito, continuo fazendo o que o papai manda até que ele geme,
como se tivesse dodói. Paro, com medo de ter machucado o papai, mas ele
grita e empurra minha cabeça mais forte, mandando chupar mais.
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O papai mentiu, não tem leite, é uma gosma.


Não gosto.
Quero vomitar.
O papai bate no meu rosto, segura minha boca e manda engolir.
Engulo.
Ele levanta e vai embora.
Sento do lado da Mah, peço por favorzinho para ela acordar, mas ela
continua dormindo, então pego o cobertor e deito no chão com ela.
− Fani?
Abro o olho e vejo Mah me sacudindo.
Ela me abraça apertado e chora, beijando os meus cabelos.
Choro também.
− Prometo que vou te levar embora dessa casa, Fani.

Dias atuais...

− Maressah era apenas três anos mais velha, mas era ela quem me
protegia. Minha mãe era cúmplice dele, ela nos filmava, fazia fotos e eles
compartilhavam os suvenires com um grupo de homens que frequentavam
nossa casa, eles se reuniam pelo menos uma vez na semana para fumar
charutos e apreciar os vídeos que minha mãe fazia das suas filhas sendo
abusadas pelo próprio pai. Depois da primeira noite, Maressah passou a
dormir no meu quarto, em um colchão ao lado da minha cama, então quando
a porta rangia, ela apertava a minha mão e dizia que não deixaria que ele me
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machucasse mais. Por sete anos fomos abusadas lado a lado, primeiro ele me
fazia chupá-lo, depois a penetrava, gozava em nossos rostos, então beijava
minha mãe e iam para o seu quarto, aos risos.
Os olhos multicolores encontram os meus, aperto sua mão e espero que
ela continue; sei que ela tem medo que possa julgá-la.
Será que ela não percebe que é vítima?
− Um dia, Maressah desapareceu. Eu tinha treze anos, não sabia que a
dor que sentia era insignificante diante da que estava por vir. Estava chorosa,
com raiva por Maressah ter me deixado para trás, no instante que a porta
rangeu, engoli o choro e fingi que estava dormindo. Havia algo errado, soube
quando ele não me chamou, senti sua mão na minha calcinha e gelei, apertei
as pernas, mas ele estava debruçando-se sobre mim, forçando os meus
joelhos para os lados, me obrigando a abrir as pernas. Chorei, implorei para
ele parar, pedi para minha mãe me ajudar e tudo o que ela fazia era rir e
filmar o meu desespero. Ele forçou entre as minhas pernas e senti uma dor
que achei que fosse morrer; rezei para morrer, assim estaria livre. Quanto
mais chorava e gritava de dor, mais forte ele empurrava contra mim, até que
gozou e foram embora. Não consegui dormir, me enrosquei nos lençóis e
chorei por toda noite. O sol nasceu, levantei ainda sentindo o meu corpo
dolorido e vi a mancha de sangue na cama. Por um mês, dor era tudo o que
sentia quando ele me tocava, não sei como os vizinhos não ouviam meu
choro, depois a dor foi anestesiada e foi quando entendi porque Maressah
parecia em transe quando ele a tocava, porque era exatamente como ficava,
isolava minha mente do corpo e não sentia nada enquanto ele gemia dentro
do meu corpo. Estava com quinze anos quando descobri que eles não tinham
limite e que minha irmã havia sido assassinada.
− Fani. – encosto minha testa no seu ombro. – Sinto muito.

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− Tudo bem, Sam. – ela funga.


− O que aconteceu?
− Cheguei do colégio e havia um dos homens que frequentava o clube
macabro na sala de estar, fumando e bebendo com meus pais. Passei direto,
como sempre fazia, mas o meu pai me chamou. Ele mandou tirar minhas
roupas e quando me neguei a obedecer, o homem puxou um revólver e
apontou para minha cabeça, disse que era melhor ser boazinha se não
quisesse virar ração para os seus cachorros, como minha irmã. Despi as
roupas aos prantos. Nua, minha mãe me exibiu para o homem, então ele abriu
a calça, colocou o membro para fora e mandou que o chupasse. Olhei para os
lados, procurando uma saída, mas não tinha o que fazer ou para onde ir. Meu
pai levantou, agarrou-me pelos cabelos, me fez ajoelhar e em tom de deboche
disse: “chupa como o papai ensinou, vadia”. Não satisfeito com o boquete, o
homem me jogou no sofá, abriu minhas pernas e me fodeu como quis, na
frente dos monstros que chamava de pais, e ainda convidou o meu pai para
me dividir.
− Não consigo mais ouvir, desculpa. – levanto. Punhos cerrados,
respiração acelerada. Soco a parede com raiva. – Puta merda, se você me diz
quem são os seus pais, vou atrás deles e...
− Estou livre deles, isso me basta, Sam. – diz, secando as lágrimas. –
Fugi naquela noite, só descobri que estava grávida meses depois.
− Então Bárbara pode...
− Ser filha de qualquer um dos dois. – completo.

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Capítulo 32

Sam Allencar
Esse é o nosso mundo
O que é demais nunca é o bastante
E a primeira vez é sempre a última chance
Legião Urbana – Teatro dos Vampiros

– Você é uma fortaleza. – sento, puxando-a para os meus braços.


− Você entende que não podemos ficar juntos?
− Samantha é assunto meu. − seguro seu rosto entre as minhas mãos. −
Não se preocupe com ela.
− Sempre fui cuidadosa, mas se ela descobriu, outras pessoas também
podem. – comenta. Suas pupilas estão dilatadas, quase escondendo as
tonalidades da sua íris. – Talvez precise recomeçar em outro lugar.
− Podemos ir para o Japão, tenho uma oferta de trabalho em Tóquio.
− Japão? Com você?
− Posso te manter segura, você pode viver sem medo, Fani.
− Agradeço, Sam, mas não posso aceitar. – ela inclina o rosto e me
beija.
Não esperava.
Deixo que ela dite o ritmo.
Não estou certo se são os seus lábios acariciando os meus, ou a sua
respiração. É um beijo preguiçoso, quase não há movimento. No entanto, é de
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uma intensidade capaz de me fazer perder a razão.


Ela é como vinho.
O meu favorito.
Todos os meus sentidos articulam-se, buscando identificar a nota
primordial da sua essência. Sinto a ponta dos meus dedos formigando em
resposta ao calor da sua pele, meus lábios numa confusão entre quente e
úmido, ora sendo sugados, ora sendo acobertados pelos seus.
Ela move minhas mãos para sua cintura e senta no meu colo; o beijo de
repente ficou urgente, suas unhas deslizam na minha pele, sob a camisa. Puxo
o seu corpo contra o meu e infiltro minhas mãos por baixo da sua camiseta,
moldando as suas curvas na ponta dos meus dedos. Urro quando sinto os
seios nus nas minhas mãos e ela geme, deliciosamente, nos meus lábios.
− Obrigada por ter sido persistente, garoto. – sussurra, dando-me um
selinho.
− Acostume-se com isso. – beijo o seu queixo. − Não vou te deixar ir
embora da minha vida. Se você concordar, converso com Miguel e tia Carol
sobre a sua situação, eles são advogados, ela é especialista em crime contra a
mulher e Miguel em causas de abuso moral e sexual. Eles podem encontrar
meios legais de te manter imune.
− Tenho vergonha, Sam. – ela abaixa os olhos. – Sua família vai
saber...
− Você é vítima. – ergo o seu queixo e a faço olhar para mim. − Seus
pais são monstros, Fani. Eles são cúmplices do assassinato da sua irmã, eles
abusaram de vocês, física e emocionalmente, eles não podem ficar impunes.
− Eles têm dinheiro, Sam, conseguem o querem.
− Bom, então teremos uma briga de cachorro grande. Tenho dinheiro
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também e não me importo de gastar cada centavo para colocá-los atrás das
grades.
− Entrar numa guerra com eles coloca os meus filhos em evidência,
sem falar no constrangimento que será para Bárbara.
− Não vou fazer nada sem o seu consentimento, mas pensa bem sobre
essa possibilidade. Você merece viver sem as sombras de um passado te
assombrando.
− Elas nunca vão me deixar.
− Por favor, não descarte essa ideia sem pensar a respeito.
− Prometo. – ela sorri e afaga minha barba. – Por que eu, Sam? O que
você vê em mim?
− Você. – encosto nossas testas. – Vejo você, Rafani. – beijo sua
pálpebra. – Quer ouvir algo engraçado?
− Quê?
− Estou me apaixonando por você.
Ela abre os olhos, a proximidade em que estamos me permite ver
nitidamente as nuances da sua íris, variando do castanho claro ao verde, do
centro a borda, seus olhos são o reflexo inverso um do outro. Toco o seu
rosto, deslizando uma mecha de cabelo atrás da orelha.
− Vamos buscar Guga na escola, aí saímos para almoçar e podemos
pegar um cine depois.
− Você não deveria estar no trabalho?
− Mandei Bárbara cancelar minha agenda, precisava acertar as coisas
com você. Provavelmente amanhã não terei um segundo de descanso. Quem
diz que ser chefe é ficar no bem bom, não entende porra nenhuma, trabalho

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feito um condenado.
− Falando em trabalho. – ela estreita os olhos. – Tóquio?
− É.
− Quando você vai?
− É do outro lado do mundo, agora tenho você, o Guga e Bárbara,
mesmo que ela não me dê nenhum crédito.
− Sam, não espero que você mude seus planos por nós.
− Estou anos luz adiantado nos meus planos, tenho tempo hábil para
ajustes de última hora. – pisco. – Nós, Guga, almoço e cinema. Sim ou não?
– Vou tomar um banho e me arrumar, volto logo.
– Se quiser companhia ou ajuda para ensaboar as costas. – sorrio.
– Você não tem jeito! – ela soca o meu bíceps.
Meus pontos com Guga estão em alta, além da estratosfera depois de
ter convencido Rafani a deixá-lo assistir ao filme com um balde gigante de
pipoca e um pote com jujubas e marshmallow.
Ele escolheu o filme e estava tão entretido que os olhos não
desgrudavam da tela. Enquanto ele gargalhava, aproveitei as duas horas no
escurinho do cinema para dar muitos beijos na minha namorada.
Quando os deixei em casa, Guga perguntou se podíamos almoçar juntos
todos os dias e ganhou um olhar furioso da mãe; prendi o riso e esperei que
ele entrasse para dizer que iria tentar levá-los para almoçar mais vezes.
Precisava adiantar um projeto para repor o dia de trabalho enforcado, e
como tínhamos passado boa parte do dia juntos, combinamos que não iria
levá-la ao hotel. Era quase o final do expediente, a caminho de casa decidi
passar no escritório.
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– Boa tarde.
Bárbara me olha confusa, possivelmente, porque estou de jeans e
camisa polo, nunca apareço no escritório sem traje social.
– Boa tarde, dr. Allencar. Estava de saída, precisa de algo? Enviei as
alterações na sua agenda por email.
– Vamos tomar um café, te deixo em casa depois.
– Não vou a lugar nenhum com você.
– Bárbara, é sobre sua mãe.
– O que aconteceu com a minha mãe? Onde ela está? – pergunta
nervosa. – Ela passou mal? Você a levou ao hospital?
Dispara perguntas, sem me dar tempo de responder.
– Bárbara, calma. – toco no seu braço. – Fani está bem.
– Nunca mais me assuste assim.
– Só falei que quero conversar. – ergo os braços confuso. – Podemos ir
a um café? Por favor.
– Perda de tempo.
– Bárbara, sua mãe me contou porque fugiu de casa.
– Contou? – murmura, os olhos distantes. – O que mais você quer
saber?
– Quero denunciá-los, mas para isso ela precisa concordar e você
conhece sua mãe.
– Ela acha que as pessoas vão culpá-la, que serei humilhada se for
mesmo filha dele. – diz baixinho.
– Eles não podem viver impunes, enquanto ela. – pauso e busco o seu

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olhar. – Vocês vivem com medo.


– Medo é parte de quem eu sou, Sam. – ela esfrega a mão no olho,
impedindo uma lágrima. – Aceito o café.
O namoro de Bárbara e Murilo não é de domínio da rádio corredor, não
que seja segredo, mas como ele trabalha em campo, não é alvo das fofocas
internas, e ela é discreta quanto à sua vida pessoal; por isso estava ciente de
que os olhares estariam todos em nós quando saíssemos juntos do prédio, no
meu carro. No entanto, sabia como apagar o rastro de fumaçã atrás de nós;
assim que contasse ao Marcelo sobre o meu relacionamento com Rafani
colocaria por terra os boatos envolvendo Bárbara e impediria Samantha de
articular sua demissão; resolveria dois problemas de uma vez.
O que estava me preocupando mais era como parar a chantagem que
Samantha estava fazendo com Rafani, tinha algo em mente, mas era uma
jogada arriscada e o sucesso dependeria do nível de obsessão que ela tem por
mim.
Por hora, tinha que me concentrar em Bárbara, ela estava me dando o
benefício da dúvida ao aceitar meu convite para o café, não podia perder a
chance de derrubar sua animosidade.

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PARTE 2

Todos nós lembramos das historinhas de nossa infância.


O sapato que serve na Cinderela.
O sapo vira príncipe.
A Bela Adormecida acorda com um beijo.
Era uma vez...E viveram felizes para sempre.
Conto de fadas, é do que sonhos são feitos.
O problema é que contos de fadas não se tornam realidade.
São as outras histórias, as que começam com tempestades em noites
sombrias e terminam de formas indescritíveis...São sempre os pesadelos que
parecem se tornar realidade.
Era uma vez.
Felizes para sempre.
Contos de fada não se tornam realidade.
A realidade é mais tempestuosa.
Mais turva.
Mais assustadora.
[e no final...]
A realidade é muito mais interessante do que viver feliz para
sempre…”
Grey`s Anatomy

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Capítulo 33

Bárbara Lemos
“Esquecer e perdoar.
É isso que dizem por aí.
É um bom conselho, mas não muito prático.
Quando alguém nos machuca, queremos machucá-los de volta.
Quando alguém erra conosco, queremos estar certos.
Sem perdão, antigos placares nunca empatam, velhas feridas nunca
fecham.
E o máximo que podemos esperar é que um dia tenhamos a sorte de
esquecer.”
Grey´s Anatomy

Aos doze anos ainda acreditava em contos de fadas.


Sempre fomos eu e minha mãe.
Não lembro quando foi a primeira vez que perguntei sobre o meu pai,
mas sei exatamente quando parei de perguntar. Minha mãe nunca inventou
histórias sobre ele, tampouco mentiu, ela tinha a habilidade incrível de me
fazer esquecer a pergunta com histórias sobre castelos e princesas.
Nas minhas fantasias, meu pai era como os reis dos contos de fadas,
sonhava com o dia que ele aparecia na nossa casa, contando sobre os dragões
e monstros terríveis que teve que enfrentar para nos encontrar, e então

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viveríamos felizes para sempre.


Ainda não sabia que ele era o monstro.
Nem que haveria outro monstro nas nossas vidas.
Plínio era um policial, também era chefe da minha mãe. Durante o dia
ela ajudava meus avôs, eles são meus avós do coração, os conheço desde
pequena, por alguns anos moramos em um quarto nos fundos da casa deles; à
noite, ela trabalhava no bar.
Ouvi várias vezes vovó Lúcia pedindo para minha mãe deixar o serviço
no bar, mas ela dizia que precisava do dinheiro e que Plínio a protegia, não
deixava que nenhum dos homens mexesse com ela, era apenas atendente, não
tinha que dançar ou tirar a roupa. Na época não entendia qual o problema de
dançar e muito menos porque alguém tiraria a roupa no trabalho, muito
depois que vim entender que tipo de bar era aquele.
Nunca passamos fome, mas não tínhamos muito, e depois que minha
mãe começou a trabalhar no bar, sobrava um pouco de dinheiro, então
quando pedia um tênis ou brinquedo que todos tinham na escola, ela
comprava, por isso sempre que as ouvia discutindo sobre isso, esperava por
ela acordada no nosso quarto e pedia que não saísse do trabalho; me sinto
mal, porque se não fosse por mim, ela teria deixado aquele serviço antes do
Plínio entrar nas nossas vidas.
Fiquei radiante quando deixamos o quarto dos fundos para ir para a
nossa casa, com um quarto só para mim. Vovó Lúcia e vovô Leônidas
choraram quando saímos da sua casa, pediram que minha mãe tivesse
cuidado e falaram que podíamos voltar quando quiséssemos.
Nem tínhamos móveis, minha mãe havia comprado dois colchões,
nossas roupas estavam em caixas, e os meus avós nos deram um fogão de

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presente. Na nossa primeira noite na casa, Plínio apareceu com uma


geladeira, sofá e camas, naquele momento acreditei que poderíamos ser uma
família.
Ele nos levava para passear, me comprava presentes, dizia que queria
ser meu pai. Implorei para minha mãe namorá-lo, fiz birra, chantagem, e ela
cedeu; não sei se devido à minha insistência, pelo jogo de sedução dele, ou
ambos.
No início minha mãe estava sempre sorrindo, depois começaram os
hematomas, o choro baixinho de madrugada e, por fim, aquilo que nos
marcaria para sempre.
Aos doze anos, descobri que sou filha de um mostro, vi uma arma
apontada para minha cabeça e assisti minha mãe ser estuprada.
Minha ilusão de contos de fadas desmoronou.
Aos dezenove anos, nunca havia tido um encontro ou um beijo, porque
tinha medo que a história da minha mãe se repetisse. Aí surgiu o Murilo, um
gigante gentil. Um metro e noventa de músculos, um sorriso sem vergonha e
olhos verdes de uma doçura apaixonante. O fato dele ser melhor amigo do
Sam – meu chefe cafajeste, mas de uma índole irrefutável – foi o bastante
para me permitir confiar no Murilo; o que é uma grande ironia, visto que não
dei ao Sam a mesma chance quando descobri que ele estava saindo com
minha mãe.
Ainda não tenho certeza que Sam vai ficar ao lado da minha mãe
quando descobrir toda a verdade, porque ficar com ela significa dizer não
para uma série de coisas. Ele foi o único homem para quem minha mãe olhou
em muito tempo, é o responsável pelo sorriso que vejo no rosto dela todas as
manhãs; e é isso o que me assusta, porque se ele a deixar, dificilmente, vai
haver outro alguém.
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No entanto, mesmo querendo protegê-la, reconheço que minha aversão


ao seu relacionamento a tem magoado, e odeio deixar minha mãe triste.
Depois da conversa com Sam, que se prolongou por horas, precisava admitir
que ele se preocupa com ela, tanto quanto eu; estava na hora de torcer por
eles. Deixei as mágoas de lado e me desculpei por ter agido com imaturidade.
Estava tarde quando deixamos o café, como havia perdido o horário da
faculdade, pedi para ele passar na casa da minha avó Lúcia para pegar o Guga
e ele nos deixou em casa.
Fiquei brincando com Guga, depois o coloquei para dormir, peguei o
notebook e sentei no sofá; se fosse estudar deitada acabaria dormindo e
queria esperar por minha mãe. O sono estava quase me vencendo quando
ouvi o som da chave na porta. Acendi o abajur, para não a assustar.
– Ainda filha? – ela joga a bolsa no sofá e tranca a porta. – Vá dormir,
você precisa acordar em menos de quatro horas.
– Estava te esperando. – coloco o notebook no sofá. – Muito cansada?
– Algum problema? – pergunta assustada, sentando-se ao meu lado.
– Tomei um café com o Sam hoje. – seguro sua mão. – Ele gosta de
você. Desculpa por não estar sendo uma boa filha nos últimos tempos, sei que
deveria ficar feliz por você, mas estava assustada. – confesso. – Ainda estou.
Contudo, vi como ele fala de você e do Guga.
– Gosto muito dele, acho que posso estar apaixonada, Bárbara.
– Mãe, conta tudo. – aperto suas mãos.
– Sei que preciso contar, não é algo que possa esconder. – ela faz uma
pausa. – Mas no momento em que contar, tudo vai mudar.
– Não é o fim do mundo, mãe.

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– Ele tem vinte e cinco anos, Bárbara. – ela suspira. – Ele pode nem
saber, mas quer uma família e, com certeza, sexo sem restrições.
– Você precisa contar. – deito no seu ombro. – Mãe, deixa o Sam te
ajudar a condená-los, quero que você seja livre. Conversamos bastante e ele
tem razão, se a polícia investigar, pode encontrar os vídeos.
– Não vou te submeter a...
– Eu quero, mãe. – ergo o rosto. – Quero que eles paguem pelo que
fizeram. – digo, olhando-a nos olhos. – Sou sua filha e de mais ninguém, não
importa o que digam, nada vai mudar isso.

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Capítulo 34

Sam Allencar
“Um bom jogador de xadrez pensa cinco movimentos à frente.
Um ótimo jogador de xadrez pensa um movimento à frente,
mas sempre é o movimento certo”.
Lie To Me

Da mesa onde estava podia ver a entrada do restaurante, quando


Samantha surgiu na porta, senti a raiva querendo me dominar, cerrei os
punhos e respirei devagar, observando-a se aproximar.
Ela sorria e rebolava nos saltos, dentro de um vestido verde curtíssimo
e com um decote escandaloso. Usei todo meu autocontrole para levantar e
cumprimentá-la, quando o que queria era esbravejar.
− Sabia que você iria se arrepender de ter sido grosso comigo. – ela
beija o canto dos meus lábios.
− Espero que possamos nos entender. – puxo a cadeira para ela. –
Vinho?
− Sim. – sorri convencida. – Você me acompanha?
− Não. – aceno para o garçom. − Irei voltar para o escritório depois do
almoço. – explico, sentando-me.
Aproveito o tempo em que o garçom está presente para engolir minha
vontade de apertar o pescoço da Samantha.
− Quer pular o almoço? – pergunta, esfregando a perna na minha

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panturrilha. – Dessa vez deixei a calcinha em casa.


− Não é problema meu. – digo indiferente e levanto. – Na hora. –
cumprimento Marcelo.
− Pai? – Samantha soa confusa. – Não sabia que você viria.
− Quanta felicidade em me ver. – ele beija o seu cabelo.
− Pensei que teríamos um almoço a sós, papito.
− Tenho um comunicado a fazer. – sento, erguendo a mão para chamar
o garçom.
− Vocês est...
− Não. – interrompo. − Outra taça de vinho, por favor. – peço ao
garçom.
− Sim, senhor.
− O que vou falar diz respeito à minha vida pessoal, entretanto, por
ironia do destino, envolve minha secretária. Estou namorando a mãe de
Bárbara, a conheci em outro contexto, não fazia ideia que eram mãe e filha,
portanto espero que Bárbara não sofra nenhuma represália, afinal ela é uma
excelente profissional, tem todos os requisitos para ser efetivada como
engenharia do grupo quando concluir a universidade, como havia
mencionado antes de qualquer envolvimento pessoal.
− Não se preocupe, Sam, estou ciente da competência dela.
Samantha não faz nenhum comentário, apenas me encara, a testa
franzida e os lábios em linha reta revelam o seu descontentamento em perder
uma de suas cartas.
− E Tóquio? – Marcelo inquere. – Vai passar adiante?
− Ainda analisando, mas as chances de aceitar são mínimas.
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− Por causa de uma mulher? – Samantha faz uma expressão de


escárnio.
− Ela é importante para mim.
− Estou feliz por você, Sam.
− Obrigado, Marcelo.
O restante do almoço Samantha ficou emburrada. Quando saímos lhe
ofereci uma carona, o que a fez abrir um sorriso largo.
Nos despedimos do Marcelo e fomos para o meu carro, bastou
entrarmos para que ela começasse a provocação; o que ela não sabia é que se
nas outras vezes ela me deixava irritado, hoje estava puto.
− Quero você, Sam. – diz, abaixando as alças do vestido e revelando os
seios nus. – Sou melhor para você.
− Presta atenção. – digo sério. – Se você fizer algo para prejudicar
Rafani, na esperança que irei ceder às suas provocações, vai perder o seu
tempo, porque se acontecer qualquer coisa com ela por sua culpa, adeus,
Samantha. Você nunca irá saber como é estar na minha cama, irei te cortar da
minha vida em todos os níveis. Fui claro?
− Me avisa quando cansar da insossa. – ela resmunga, ajeitando o
vestido. – Vou estar esperando para comemorarmos em grande estilo. – se
inclina e aperta o meu pau, os lábios roçando na minha orelha. – Vou te
chupar até você implorar para me foder.
− Se você diz. – dou de ombros, ignorando-a.
− Até mais, Sam. – ela se afasta e abre a porta do carro. – Dispenso a
carona, meu motorista está a caminho.
Fiz a minha jogada, pela reação da Samantha foi xeque-mate; posso

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relaxar por um tempo, até que ela encontre novas armas.


Voltei para o escritório sorrindo sozinho, satisfeito por ter conseguido
proteger Rafani e Bárbara das loucuras de Samantha.
− Então? – Bárbara pergunta aflita, fechando a porta da minha sala.
− Resolvido. Marcelo sabe que você está aqui pelo seu bom trabalho,
meu relacionamento com sua mãe não vai te prejudicar.
− Você pode parar de falar do seu relacionamento com a minha mãe?
Quero vomitar a cada vez que você repete essa sentença.
− Vai ver você está grávida. – provoco.
− Por obra e graça do divino espírito santo?
− Murilo é broxa?
− Sam. – ela faz uma pausa. – Sua secretária foi dar uma volta, essa
aqui é sua enteada. Vá se foder!
− Vai ficar de castigo, uma semana sem ver o Murilo. – zombo.
Bárbara revira os olhos e solta um suspiro de irritação.
– Você é tão adulto. – ironiza. – Como minha mãe pode sair com você?
Levanto, gargalhando alto, e abro os braços.
– Sou gostoso pra caralho! Como ela não ia querer sair comigo?
− Sim, sr. Gostoso, reunião em trinta minutos.
− Você tem um boneco vodu meu, não é? Precisa ver sua expressão de
sarcasmo quando me joga aos leões.
− É divertido te ver todo sério nas reuniões, fico esperando pelo
momento que você vai soltar um caralho, cacete ou puta merda. – ela sorri.
− Você é tão má. – sento. – Essas são as pastas da reunião? – pergunto,
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pegando uma pasta da pilha.


− Sim.
− Esteja pronta para me acompanhar, não vou ficar um minuto a sós
com a tarada da Roberta.
− Estarei a postos. – ela pisca. – Agora que voltei a falar com você,
fique sabendo que quero meu extra de segurança.
− Segurança? – prendo o riso. – Só se for do jardim de infância.
− Piada mais sem graça.
− Estava com saudades de você, não aguentava mais a mimada
insuportável que tinha se apossado da sua alma.
− Não sou mimada.
− Tenho outras opções. – finjo pensar. – Imatura, autoritária, irritante.
− Pode parar, se não quiser cair nas mãos da Roberta.
− Não disse nada. – pisco.
A reunião demorou mais do que o previsto, ocupando todo o período da
tarde, e início da noite. Quando o cliente e seu advogado deixaram a sala, eu,
Bárbara e Roberta soltamos um suspiro conjunto. Tenho minhas muitas
ressalvas em relação a Roberta, no entanto, ela é a melhor representante do
setor jurídico da empresa e nós formamos uma boa equipe.
− Preciso de uma taça de vinho. – digo, fechando o notebook.
− Que cara chato, ele repetia toda a hora a mesma coisa. – Bárbara
comenta.
− E o advogado? Queria voar no pescoço dele. Happy hour?
− Por minha conta, garotas.

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− Estou sem carro. Vai rolar uma carona?


− Estacionamento em vinte minutos e Bárbara vai no carona.
− Assim Bárbara vai pensar que você tem medo de mim, Sam. –
Roberta sorri, mordendo o lábio.
− Vinte minutos, Roberta. – ignoro o seu comentário. – Pegou todas as
pastas? – pergunto à Bárbara.
− Sim, arquivos de mídia também. – ela afirma, me seguindo para fora
da sala de reuniões.

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Capítulo 35

Murilo Valverde
“A vida não tem que ser perfeita
Só tem que ser vivida”.
Dexter
Estava colocando o jantar no micro-ondas quando recebi uma
mensagem da Bárbara, perguntando se estava livre para encontrá-la. Ela
deveria estar na universidade nesse horário, por isso achei estranho o convite,
imaginei logo que era alguma merda, do tipo “não quero mais ficar com
você”.
Liguei na mesma hora, o alívio veio quando a ouvi sorrir, ela não
estava chateada; embora não houvesse motivo para estar, tenho sido mais fiel
a ela do que a minha sombra, sei lá porque porra sempre penso que ela vai
terminar comigo.
Bárbara me explicou que havia ficado até mais tarde numa reunião e
por isso trocou a universidade pelo happy hour, estava com Sam e Roberta,
tomando alguns drinks.
Enquanto ela falava que queria me ver, podia vê-la enrugando o nariz e
curvando os lábios levemente, do jeito que ela faz quando está inibida. Estava
no quarto antes que ela pudesse dizer onde estavam, olhei o notebook e o
monte de papeis espalhados na minha escrivaninha, tinha muito trabalho a
fazer, mas não a deixaria em segundo plano.
“Estarei aí antes que você sinta a minha falta”.
“Sendo assim, você está atrasado”. – disse e encerrou a ligação.
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Sabia que ela havia enrubescido pelo seu tom de voz. Imaginei as ondas
de cabelo castanho emoldurando o seu rosto pequeno e delicado, as maçãs do
rosto tão vermelhas quanto os seus lábios.
Não sei quando me apaixonei por ela, mas não havia dúvidas que
estava perdidamente apaixonado. Se ela está apaixonada é um mistério para
mim.
Bárbara é instigante. Com apenas um metro e meio de altura e um
corpo franzino, ela pode parecer frágil aos olhares descuidados, no entanto,
basta um pouco de atenção para notar a grandiosidade que essa garota traz na
alma; ela é forte, destemida e pode ser assustadora quando está com raiva.
Na primeira vez que a vi, era só uma garota com um rosto bonito e com
um olhar interessante. A roupa social não revelava nenhuma curva, nem
poderia, ela é miúda em todos os ângulos, a bunda cabe na palma da minha
mão e os seios lembram um botão de rosa de tão pequenos.
Queria saber mais sobre aquela garota, liguei e escrevi algumas vezes,
cada desculpa mais furada que a outra; também pudera, ela era secretária do
Sam há meses, acho que nesse tempo devo ter falado com ela uma vez por
telefone, e de repente tinha mil assuntos a tratar. Depois de insistir bastante,
ela concordou em me dar o número do seu celular, viramos algumas
madrugadas conversando, antes que ela concordasse com um encontro; nesse
ponto estava fascinado por sua inteligência e o modo como ela é inocente em
tantos aspectos.
− Muito atrasado? – sussurro no ouvido de Bárbara.
− Muito. – ela suspira e levanta, apoiando as mãos no meu tórax.
− Como posso me redimir? – pergunto, curvando-me para beijá-la.
− Surpreenda-me. – ela sussurra, quando os meus lábios roçam os seus.

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− Como é?! – Roberta exclama sobressaltada. – Bárbara está pegando o


hipster gostoso? Agora estou me sentindo ofendida, Murilo!
− Meu filho, seja educado! Chega beijando assim, sem pedir licença. –
Sam perturba.
Bárbara beija os meus lábios de leve e se afasta, as bochechas rosadas,
indiciando a sua timidez. Os olhos castanho-esverdeados se desculpam, só
então percebo que ela não havia notado que me convidar para encontrá-la,
nos relataria; é fácil esquecer que trabalhamos na mesma empresa, meu
trabalho se restringe ao campo, tudo que é interno resolvo diretamente com o
Sam. Não quero esconder que estamos juntos, assim como não quero que
Roberta insinue que ela é só um amasso, por isso intervenho.
− Meu filho, você não traz a minha namorada para um happy hour sem
me convidar, entendido? – deslizo o meu braço esquerdo na cintura de
Bárbara, sento e a puxo para o meu colo. – Roberta, não me complique, seu
lance sempre foi o samurai. – soco o bíceps do Sam.
− Você só tem cara de santinha, hein? – Roberta pisca para Bárbara. –
Vocês estão namorando?
− Sim. – confirmo e beijo Bárbara.
− Preciso de mais alguns drinks. Bárbara, vamos conversar, me conta
como você conseguiu isso, porque nem pensei em relacionamento, estava
feliz com um sexo sensacional com o samurai gostoso e só levo toco.
− Roberta, é diferente. – Sam sorri. – Sou o seu chefe, sem chance.
− Acho bom mesmo ou vou contar à minha mãe. – Bárbara cruza os
braços e estreita os olhos.
− Alguém me explica o que está acontecendo. – Roberta faz uma
expressão confusa.
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− Meu melhor amigo namora minha sogra. Ainda não sei o que isso
significa na minha vida, mas temos essa ligação estranha.
− O QUÊ?!
− Ela não é uma velha, se é o que você está pensando. – Sam comenta.
− Ainda estou no evento namoro. – Roberta vira todo o drink de vez. −
Desde quando você namora?
− Quase dois meses, mas era informação off até hoje. Por falar na
minha namorada, hora de ir encontrá-la.
− Quem é a sua mãe? Como ela é?
− Gostosa pra caralho! – Sam exclama, levantando.
− É a minha mãe, olha o respeito. – Bárbara acerta um tapa no Sam.
− É a minha namorada. – ele dá de ombros. – Leve ela para casa até as
vinte e duas horas.
− Vá se foder! – eu e Bárbara dizemos em uníssono.
− O que devo dizer? Fodam-se? – Sam ergue as mãos.
− Provavelmente eles vão. – Roberta sorri.
− Se forem foder, não esqueçam a camisinha, por favor.
− Sam! – Bárbara exclama, as bochechas corando.
− Não a deixe ficar bêbada, Murilo, é sério. Combinei com sua mãe que
Guga ficaria comigo essa noite.
− Mas o turno dela só termina às oito. Como ele vai para escola?
− Vou levá-lo, antes de ir para o escritório. Assim, você e Lúcia têm
um dia de folga.
− Valeu, Sam.
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− Aproveita a noite, porque essa pouca vergonha não é todo dia não. –
Sam esmurra meu bíceps.
Depois que Sam foi embora, tomamos mais alguns drinks, Roberta
contou algumas das investidas frustradas com o Sam e falou para Bárbara que
ela e a mãe deveriam abrir uma escola para ensinar a agarrar homem gostoso.
Passava das vinte e duas quando saímos do pub, demos uma carona para
Roberta, e quando ela saltou, voltei a dirigir, incerto sobre parar em algum
lugar, convidar Bárbara para meu apartamento ou levá-la para sua casa.
Era a primeira vez que nos encontrávamos durante a semana, nossas
saídas são sempre aos fins de semana e envolvem: almoço, jantares, amassos
no cinema e no carro, alguns beijos no sofá da casa dela, quando estamos
cuidando do Guga.
Apenas uma vez fomos ao meu apartamento, ela propôs um jogo de
sinuca, não sei como o jogo se transformou em beijos, amassos e roupas
espalhadas pelo chão, de repente ela estava deitada na sinuca, seu seio entre
os meus lábios, foi quando deslizei um dedo entre suas pernas e ela me
afastou, recolheu as roupas e pediu que a levasse embora.

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Capítulo 36

Sam Allencar
“Mesmo se eu ficasse e te abraçasse para sempre,
isso ainda não seria suficiente”.
One Tree Hill
Guga não estava apenas acordado quando cheguei para buscá-los,
estava eufórico, ele não parava de falar e pular pela casa. Gostei de encontrá-
lo animado para ir ficar comigo, mas tínhamos pouco mais de três horas antes
do turno de Rafani e esperava muito que tivéssemos pelo menos duas dessas
horas para nós dois.
− Juro que tentei fazê-lo dormir. – Rafani sussurra, quando a abraço. –
Ele vai apagar assim que chegarmos ao seu apartamento.
− A gente coloca um filme e em cinco minutos ele vai estar sonhando.
– sorrio, apalpando sua bunda. – Estava com sua filha, o Murilo e uma colega
de trabalho.
− Ah é? – ela arqueia a sobrancelha. – E essa colega de trabalho é
bonita?
− Muito gostosa. – provoco.
− Por que não volta para fazer companhia a ela? – ela me empurra.
Travo os meus braços ao seu redor, impedindo-a de me afastar.
– Porque quero ficar com a minha namorada. – beijo o seu pescoço. –
Ciumenta.
− Você se acha, garoto. – ela revira os olhos.
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− Não, eu sou, já te disse isso. – sussurro, roçando os seus lábios. – Me


beija, mulher!
− Não deveria. – ela vira o rosto.
− Mesmo? – beijo o lóbulo da sua orelha.
− Quero ir logo! – Guga puxa o meu braço.
− Continuamos em alguns minutos. – diz e me dá um selinho.
− Vamos, moleque! – levanto Guga e coloco no meu ombro.
− Uauuu!!! – ele exclama. – Mamãe, tô grandão.
− Cuidado para não bater a cabeça no teto. – ela brinca. – Vou buscar
sua mochila e podemos ir.
Toda a energia do Guga não foi suficiente para mantê-lo acordado,
dormiu antes de chegarmos ao apartamento. Achei que ele pudesse acordar
no percurso do elevador ao quarto, mas continuou dormindo.
O coloquei na cama, o enrolei e quando estava deixando o quarto, vi
que Rafani estava em encostada na porta do quarto, nos observando.
− Obrigada. – diz baixinho.
− Não por isso. Amo esse moleque.
− Lembra... – ela se interrompe. − Você me disse... – olha para o Guga
e de novo para mim. – Naquela noite que você me procurou no hotel, depois
da viagem para Nova York.
− Na noite em que nos beijamos.
− Isso. – ela abaixa os olhos. – Você falou que nunca tinha pensando
em ter filhos, mas você estava falando como seria quando os tivesse.
− Nunca tinha pensando em filhos, até te conhecer. – confesso.

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− Você sabe que não existe um futuro para nós que inclua filhos. – ela
não ergue os olhos, permanece fitando o chão.
− Tem certeza? – olho para o Guga. – Ele é o quê?
− Quero dizer, um filho seu, de verdade. Tenho trinta e cinco anos e... –
ela para de falar e nossos olhos se encontram. – Não sei se estaremos juntos
daqui a um mês, mas preciso que você saiba que se isso aqui continuar a
existir, não posso te dar um filho.
Faço meu caminho até a porta do quarto.
− Fani. – entrelaço nossas mãos. – Não é o sangue que faz um filho ser
seu de verdade, é o amor.
− Você me faz sentir estúpida.
− Posso pensar em muitos adjetivos, estúpida não passa nem perto de
nenhum deles. – a aperto nos meus braços. – Vamos para sala, tenho alguns
pensamentos bem sacanas para pôr em prática. – digo, puxando a porta do
quarto.
− Lembre-se que tenho que ir trabalhar.
Deslizo a mão para sua bunda e caminho ao seu lado. Ergo o braço
esquerdo olhando o relógio no pulso.
− Duas horas e quarenta minutos, tempo suficiente para muita safadeza.
− Garoto. – ela bate o ombro no meu bíceps.
− Acostume-se com isso. – sorrio. Em um movimento rápido a pego no
colo e caminho apressadamente até o sofá. A coloco sentada, recostada nas
almofadas e me afasto. Pego o controle remoto, desligo o som do quarto, para
Guga não acordar, e seleciono a trilha sonora. – Saiba que vou tirar a roupa.
− Quê? – ela sorri nervosa. − Sam. – ela coloca uma almofada em

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frente ao rosto, mas abaixa o suficiente para espiar. – Minha nossa! – joga a
almofada no meu rosto. – Você é lindo, gostoso, sexy, inteligente, divertido,
tem uma família perfeita e ainda dança?
A música que escolhi foi “Give it up to me”, do Sean Paul, porque a
pancada de hip hop com um toque latino é o que preciso. Rafani está com os
grandes olhos multicolores fixos em mim, movendo-se de acordo com o
ritmo do meu corpo.

Você não sai da minha cabeça até na hora de dormir, garota


Você não sabe, mas você é minha fantasia
Hey garota...você é que eu preciso...aqui eu vou
Em seu olhar eu posso ver que você me quer
Posso sentir a hora que irá se entregar pra mim
Porque seu corpo me excita, me faz querer você
Posso sentir a hora que irá se entregar pra mim
Se não for hoje, então tem que ser amanhã, Posso sentir a hora que você irá
realizar minhas fantasias
Porque meu amor será como uma flecha
posso sentir a hora que você irá se entregar pra mim
Executo uma sequência de passos de hip hop e deslizo para perto dela,
terminando de tirar a camisa a centímetros do seu rosto, então a puxo para os
meus braços e me movo para trás, levando-a comigo.
– Não sei dançar.
– É só vir comigo, Fani. – digo, girando-a e colando suas costas ao meu
torso.
– Oh, Deus. – murmura.

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Coloco uma mão no seu abdômen, flexiono as pernas, ajustando o


ângulo dos nossos corpos e retomo os movimentos, deslocando o pé direito
para o alto e de volta ao chão, junto com a ondulação dos nossos quadris.
– Deixa seu pé direito ir com o meu. – oriento.
Ela imita o meu passo, aumentando a conexão dos nossos corpos.
Intensifico o ritmo na medida que ela vai se soltando e deixando o corpo
obedecer à música. Meu pau atinge o nível máximo de paudurescência
quando ela ergue os braços e as mãos escorregam pelos meus cabelos,
infiltrando-se entre os fios e removendo o elástico.
Meus lábios recaem no seu pescoço, ouço a sua pulsação crescente e
deslizo a mão do seu abdômen para o baixo ventre, descendo pela saia rodada
do vestido, até sua calcinha. Enredo os dedos sob o elástico, puxando a
calcinha de lado e mergulho dois dedos na sua fenda. Ela geme baixinho e
interrompe a dança.
– Não para, Fani. – sussurro no seu ouvido. – Continue dançando
comigo.
Ela me obedece e volta a rebolar comigo, a bunda em atrito com o meu
pau, que a essa altura está latejando de tesão,. Não demorou para sentir o seu
gozo escorrendo pelos meus dedos, espalhando-se pelas suas coxas.
– É assim que gosto.
Removo os dedos, faço um giro, rodopiando-a, ao mesmo tempo que
agacho, envolvendo-a pela cintura e curvando o seu corpo sobre o meu. Ela
me olha nos olhos, a pupila dilatada, e um sorriso largo nos lábios.
– Hora do show terminar. – levanto, deixando-a em pé e dou alguns
passos para trás. – Sente-se.
Ela aperta os lábios, prendendo o riso e senta. Dou uma cambalhota, o
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que arranca um suspiro de admiração e paro em posição de flexão,


sustentando-me em apenas um dos braços, chuto os sapatos e desabotoo o
cinto com a mão livre, sem deixar de mexer o quadril, como se ela ainda
estivesse com o corpo junto do meu.
Rafani tem os lábios entreabertos e a minha mente imagina o meu pau
movendo-se entre eles, o que é suficiente para provocar um arrepio na minha
espinha. Levanto, giro e paro na frente dela, de ponta cabeça, deslizando o
zíper da calça. Quando fico de pé novamente, refaço o passo que dançamos
juntos e deixo a calça cair. Ela arregala os olhos e os dentes incidem sobre o
lábio inferior, avaliando o volume na minha boxer.
– Por hoje é só. – pisco e me jogo no sofá, deitando a cabeça no seu
colo.
– Onde você aprendeu a dançar assim? – contorna os meus lábios.
– Por aí. – prendo seu dedo entre os dentes.
– Vá lavar as mãos. – ela se debruça e beija a minha testa.
– Um dia você vai me deixar lamber o seu gozo?
– É estranho falar disso. – diz, me fazendo levantar do seu colo. –
Vamos ao banheiro.
– Ainda temos tempo.
– Vou limpar essa bagunça que você fez, depois a gente volta para cá.
– Bagunça que você adora. – digo, segurando sua mão. – Gostou? –
pergunto, olhando-a nos olhos.
– Como não gostar, se acabei de descobrir que namoro o Magic Mike.
– Sou mais gato que aquele cara.
– Mais convencido, com certeza.
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Capítulo 37

Bárbara Lemos
“Às vezes as pessoas fazem jogo duro
porque precisam saber se o sentimento da outra pessoa são reias”.
One Tree Hill
Nunca havia procurado o Murilo, o primeiro passo é sempre dele. Foi a
primeira vez que disse com todas as letras que queria vê-lo, que estava com
saudades, e a culpa é das margaritas.
Meu jogo com o Murilo é do “tanto faz”, mantenho-me em área
segura, sem dar a ele a ideia do quanto estou envolvida. Não sei até que ponto
ele está de fato comigo, não quero depositar expectativas demais e terminar
quebrando a cara, ou pior, o coração.
Cinco margaritas e meu sistema nervoso sofreu um lapso, tempo
suficiente para que escrevesse e enviasse uma mensagem ao Murilo. Ainda
tentei cancelar o envio, tarde demais, ele não apenas havia recebido, como
visualizado. O celular vibrou na minha mão e a imagem dele surgiu no visor.
Tentei soar indiferente, enquanto explicava onde estava e justificava o
porquê da mensagem: estava em um pub próximo ao apartamento dele e
pensei que poderíamos nos encontrar. Todavia, minha tentativa de fazer
parecer que o convite não tinha importância, fracassou quando ele disse que
estaria comigo antes que sentisse sua falta. Minha resposta foi tão boba que
me deixou envergonhada, desliguei rápido, na esperança que ele não tivesse
entendido a minha declaração óbvia.
Estou apaixonada e isso é tão ridículo como absurdo. Sou uma garota
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que não tem nenhuma experiência amorosa, que dirá sexual; ele é um
homem, não um garoto, um homem com letras maiúsculas: grande, forte,
viril, e assustadoramente doce.
Enquanto Murilo fodeu centenas de mulheres, provavelmente de todos
os jeitos e nos mais impensados lugares, como a mesa de sinuca na sua sala
de estar, o meu primeiro beijo foi com ele. Ele iria rir de mim se descobrir
que tirou o meu BV, até eu quero rir quando penso nas possibilidades
estatísticas de dar o primeiro beijo em um gostoso como ele.
Como vou dizer que sou virgem? Não é algo que posso omitir, ele vai
notar que não faço a mínima ideia do que fazer, e não estou exagerando;
tivemos um incidente, acho que posso chamar assim, na maldita mesa de
sinuca, estávamos jogando, começamos a nos beijar, foi ficando quente, ele
me colocou sentada na mesa, tirei a camisa dele, ele a minha camiseta, depois
a minha calça, em poucos minutos nem sabia onde estava a minha lingerie;
ele estava com o meu seio na boca, e seja o que fosse que estivesse fazendo,
não queria que parasse, sentia o meu mamilo sendo sugado, os seus dentes
deslizando em torno da minha aréola.
As sensações eram mais fortes do que eu, meus pensamentos estavam
fora de órbita, um toque leve entre as minhas pernas e foi como se uma
bigorna tivesse despencado sobre o meu corpo; a memória do Plínio
abaixando as calças e forçando o seu corpo sobre o da minha mãe ocupou
toda a minha mente, empurrei Murilo e saltei da mesa. Ele deve achar que
sou louca, porque catei minhas roupas, sem estabelecer contato visual, as
vesti envergonhada e pedi que me levasse embora. Não tive coragem de dizer
nada, nenhuma explicação.
Ele não propôs que voltássemos ao seu apartamento depois do meu
vexame na mesa de sinuca e algo mudou na dinâmica do nosso

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relacionamento, acho que o assustei. Olho de soslaio, ele está cantarolando,


tamborilando os dedos no volante, os olhos fixos nas ruas; estamos dando
voltas desde que deixamos Roberta alguns minutos atrás.
– Onde estamos indo? – pergunto, não aguentando o silêncio.
Murilo solta um suspiro e diminui a velocidade.
– Não sei, esperava que você me dissesse para onde quer ir.
– Você ia me perguntar? – mordo o lábio.
– Acho que não. – ele sorri baixinho. – Precisamos conversar mais.
– Só conversar já é um começo. – sorrio, afagando sua coxa.
– Tenho medo de estragar as coisas, você não gosta muito de falar de si
mesma. – ele me olha rápido e volta a atenção para o trânsito.
– Podemos ir para o seu apartamento?
Essa era uma noite bem fora do comum, nem deveria estar com o
Murilo numa terça-feira à noite, muito menos deitada no tapete da sua sala de
estar, contando a minha história.
– Não sei se quero saber o que aconteceu quando sua mãe desmaiou.
– Ele não tocou em mim.
– Foi embora?
– Não, ele continuou machucando-a, quando terminou, levantou a calça
e me mandou pegar uma cerveja. Enquanto bebia, disse que se não quisesse
apanhar como minha mãe, deveria ser boazinha e abrir as pernas sem
reclamar quando mandassem, depois foi embora. – mordo o lábio. – Achei
que ela estava morta.
– O que você fez? – ele afaga os meus cabelos.

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– Puxei as pernas dela para cima da cama, peguei um cobertor, coloquei


sobre ela e deitei ao seu lado, chorando. Deveria ter pedido ajuda, mas fiquei
com medo.
– Você era uma criança. – ele me dá um selinho. – O que aconteceu
com esse cara?
– Não sei, nada eu acho.
– Se ele não estiver preso, vou encontrá-lo e ele vai desejar estar morto.
– Não quero que você o procure, muito menos que se envolva numa
briga com ele.
– Bárb...
Coloco a mão sobre os lábios dele.
– Prometa que você não vai mexer nessa história.
– Ele precisa pagar.
– Por favor, prometa.
– Prometo.
– Tem outra coisa que você deveria saber sobre mim. – abaixo os olhos
e mordo a parte interna da bochecha.
– Estou apaixonado por você. – ele acaricia o meu rosto.
– O quê? – arregalo os olhos.
Murilo permanece com a expressão serena que lhe é comum, os olhos
verdes sorriem para mim.
– Acho que é algo que você deveria saber.
– Acho que é. – murmuro, sem saber o que dizer.
– O que você ia me contar?
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– Sou virgem.
– Sou sagitário. – diz sorrindo.
– Idiota. – soco o seu peito. – Claro que você é de sagitário. – ela revira
os olhos.
– Claro? Por quê?
– Espírito livre. – deslizo meus dedos nos seus cabelos. – Disfarça
sinceridade com brincadeiras. – arqueio a sobrancelha.
– E você? Virgem mesmo?
– Capricórnio. O coração de gelo do zodíaco.
– Interessante. – ele me agarra pela cintura e rola, me prendendo entre
suas pernas. – Será que consigo derreter um pouquinho desse gelo?
– Você pode tentar. – mordisco seu lábio. – Sobre o que contei, se
voc...
– Você prestou atenção quando falei que estou apaixonado por você? –
pergunta em tom solene, afastando os cabelos do meu rosto. Assinto. – Você
acha mesmo que o fato de nunca ter feito sexo seria um problema?
Dou de ombros.
– Meio que gosto de você. – sussurro, abraçando-o. – Muito.
– Diz isso mais vezes. – ele desliza o nariz na maçã do meu rosto. – É
bom saber que não estou sozinho nessa história.
Murilo beija o meu queixo e arranha-me com os dentes. Inclino a
cabeça para trás, percorrendo suas costas com as minhas unhas e ele ataca o
meu pescoço com ferocidade, distribuindo beijos e chupões intensos,
enquanto sua mão trabalha nos botões da minha blusa.
Último botão aberto, ele se afasta para deslizar a blusa pelos meus
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braços, puxo a camiseta básica de dentro da calça, me apoio nos cotovelos e


ele me ajuda a tirá-la, deixando-me apenas com um sutiã meia-taça preto. Ele
agarra a gola da camisa, puxando-a pela cabeça, mordo o lábio admirando o
abdômen trincado e perco o ar quando ele joga a camisa de lado, exibindo
todo o tórax.
– O que foi? – pergunta, analisando minha expressão.
– Só estou me perguntando como vim parar nos braços do hispter
gostoso. – desenho as linhas do seu abdômen com os polegares.
– A gente pode tentar descobrir. – ele encaixa a mão embaixo do meu
corpo, circundando minha cintura e nos gira. – Alguma teoria? – pergunta,
desfazendo o coque do meu cabelo, que cai em cascata, atingindo-o no rosto.
– Adoro o perfume dos seus cabelos.
– Vamos deixar a teoria para outra hora. – espalmo as mãos no seu
peito e me posicionando no seu colo, montando-o. – Pode ser?
– Que teoria? – pergunta entre risos, destravando o fecho do meu sutiã.
– Não sei. – respondo entre suspiros, porque ele já está sentado com os
lábios e mãos nos meus seios.

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Capítulo 38

Rafani Lemos
“Se você ficar procurando razões para não ficar com alguém,
você sempre vai encontrá-las, às vezes é preciso deixar as coisas
fluírem por um momento e dar ao seu coração o que ele merece."
One Tree Hill

Se havia aprendido algo em quase dois meses de convivência é que


Sam Allencar é um homem ilimitado, tudo com ele é possível, porque ele é
louco, sexy e fofo de um jeito que é único, a marca registrada do samurai. Ele
é ao mesmo tempo homem e garoto, e transita entre ambos com uma
habilidade fascinante.
Depois da sessão de dança e strip inesperada, ele me deixou no
banheiro para tomar uma ducha e disse que iria preparar algo para comermos.
Saí do banho e tirei da mochila do Guga o par de roupa que trouxe para ir
trabalhar, ainda tinha bastante tempo para ficar com o Sam, por isso coloquei
a roupa na poltrona e abri o closet dele, procurando uma camisa básica.
Era vergonhoso, mas o closet dele é mais arrumado do que o meu
guarda-roupa, tudo bem que não é ele quem arruma, entretanto, ele não
bagunça, isso é muito melhor do que consigo fazer para manter a minha
bagunça organizada.
Com cuidado para não desorganizar nada, peguei uma camisa básica,
perfeitamente dobrada e empilhada numa prateleira; preta e lisa, vesti e
desenrolei a toalha, puxando-a por baixo da camisa.

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Peguei uma calcinha fio dental que havia comprado recentemente,


examinei a peça entre os dedos: um fio com um bordado no topo e um
pequeno triângulo transparente; me pergunto se as mulheres andam por aí
usando isso. Se pensasse demais, desistiria, portanto, deslizei o fio dental
pelas minhas pernas, estendi a toalha no banheiro, dei um beijinho na
têmpora do Guga e deixei o quarto, fechando a porta ao sair.
Sam está na cozinha, virado para o balcão, pelo som ele está cortando
algo, sobre o balcão há uma taça de vinho e uma música baixinha preenche o
ambiente; ele canta e move o corpo, totalmente envolvido.
Apoio os cotovelos na bancada e fico em silêncio, observando-o. Sem
camisa, os ombros largos em evidência, a musculatura das costas moldando a
sua coluna e o dorso do músculo glúteo parcialmente visível sob o elástico da
da bermuda.
– Você tem uma bunda gostosa. – comento sorrindo.
– Meu pau é ainda melhor. – diz, olhando-me sobre o ombro. – Calma
aí. – ele solta a faca e faz a volta na bancada. – Uau. – morde o lábio,
inclinando o rosto na direção da minha bunda. – Uma voltinha, vai. – pede,
estendendo a mão.
Coloco minha mão sobre a dele e ele me gira, terminando o rodopio
com o meu corpo colado no seu e uma apalpada forte na minha bunda.
– Sem calcinha? – estreita os olhos, alisando minha bunda por cima da
camisa. – Ou então... – ele aproxima os lábios do meu ouvido. – Quero ver o
que você aprontou.
– Quem disse que tem algo para ver?
– Definitivamente, há algo para ver. – ele desce as mãos pelas minhas
coxas. – Vem cá. – diz, segurando-me pela mão.

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Sam senta numa das poltronas da sala de estar e me deixa em pé entre


suas pernas, as mãos alisando meu corpo, enrolando a bainha da camisa.
– Vou fechar os olhos, diga quando puder abri-los.
– Não sei ser sexy. – resmungo.
– Você é sexy! – exclama, fechando os olhos.
Ele dedilha minhas pernas, a partir da bainha da camisa, descendo até a
parte posterior dos meus joelhos. Aperto os lábios e levo as mãos à bainha,
me inclino, deposito um beijo nos seus lábios e viro de costas para ele,
jogando a camisa sobre o seu rosto.
– Posso olhar? – ele coloca as mãos no meu quadril.
– Sim. – murmuro, sentindo o calor nas minhas bochechas.
– Santo Deus!
Ele espalma ambas as mãos na minha bunda, alisando-a, e com a ponta
dos dedos percorre a pequena tira de tecido sobre os meus quadris, parando
sobre o bordado.
Meus seios sobem e descem obedecendo aos descompassos do meu
coração, um arrepio serpenteia minha espinha, provocando um fluxo de
espasmos no feixe de nervos entre as minhas pernas.
Quando pontuei a nossa incompatibilidade sexual, estava considerando
mais do que o fator biológico, havia sido violada psicologicamente,
acreditava que de forma irreparável, afinal, para mim, sexo estava associado a
dor e violência.
Não sabia o que esperar quando ele me beijou, nem tive tempo de
pensar a respeito, quando seus lábios afagaram os meus, as lágrimas vieram
nos meus olhos, porque tudo o que sentia era uma mistura de calmaria e

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contentamento; não havia dor. Aprendi que há centenas de sensações que os


seus beijos e carícias podem me despertar, mas dor não é uma delas.
Incêndios sim.
Sam Allencar gosta de fogo, e sabe muito bem como provocá-lo.
− Fani.
A voz grave seria o bastante para me fazer estremecer, somado ao
deslizar preguiçoso do seu dedo pelo fio dental, deflagrou uma inundação na
minha calcinha. A espessura diminuta do fio de tecido entre as minhas pernas
é incapaz de reter a umidade, que escorre na parte interna das minhas coxas;
na medida em que o meu corpo fica embevecido de tesão, sinto o cheiro de
sexo exalando pelos meus poros.
Os meus grandes lábios estão inchados, escapulindo pelas laterais do
tecido, e servindo de obstáculo para a incursão do seu dedo rumo ao triângulo
frontal. Emito um gemido lânguido ao sentir o seu dedo puxando de lado a
calcinha.
− Você está encharcada. – sussurra, beijando minha lombar. –
Pingando. – ele desliza a ponta dos dedos pelos meus lábios internos. − Sente
eles se abrindo para mim. – diz, sorrindo contra a minha pele. Sim, podia
senti-los abrindo em resposta ao seu toque, o equilíbrio perfeito entre calor e
umidade esperando para envolvê-lo. – Caralho, estou salivando para te
provar, meu pau está todo lambuzado. – ele lambe minhas costas. – Me deixa
te chupar, Fani.
− Sammm. Ahh.
Sei que tinha algo importante para dizer, mas não lembro o que, não
quando ele me penetra com dois dedos, movendo-os lentamente.
− Vira. – pede, interrompendo a masturbação. – Você está me
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torturando. – comenta, puxando-me para o seu colo.


Sento sobre o volume na sua bermuda, encaixando minhas pernas na
abertura dos braços da poltrona e abraçando-o pelo pescoço.
Sam me beija, enroscando nossas línguas, apertando minha bunda e
movimentando-a de encontro a sua ereção, em uma espécie de vaivém. Ele
suga o meu lábio inferior e rompe o beijo, guiando a língua pelo meu
pescoço, espalhando chupões por cada extensão de pele até os meus seios.
Ouço o som dos seus lábios chupando os meus seios, o atrito da
umidade entre as minhas coxas arrastando-se sobre a sua pélvis, as minhas
unhas deslizando pelo suor dos seus bíceps.
Ele refaz a trilha de beijos, voltando para os meus lábios. Aperto os
meus braços em volta do seu corpo, aproximando os nossos tórax e sinto os
meus mamilos queimando a cada fricção contra sua pele.
− Segura em mim. – avisa, enganchando minhas pernas no seu quadril.

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Capítulo 39

Sam Allencar
“A maioria das pessoas é mais forte do que pensam,
elas só esquecem de acreditar algumas vezes”.
One Tree Hill
Se há um homem fodido no mundo, sou eu.
Falar que estou duro é até piada, se entrar numa queda de braço, meu
pau contra o homem de ferro, ganho fácil.
Os motivos que me deixaram teso, são muitos e foram acrescendo mais
tesão na equação numa proporção temporal: primeiro, ela apareceu na
cozinha usando minha camisa, algo simples, mas significa que ela se sente à
vontade no meu apartamento; segundo, ela fica gostosa pra caralho com
minhas camisas; terceiro, a ausência da marca de calcinha quando apalpei sua
bunda indiciava que ela estava me fazendo um agrado, do tipo que poderia
passar despercebido se fosse um cara desligado, mas não sou; quarto, podia
morrer quando abri os olhos diante da harmonia graciosa das suas curvas
adornada por um pequeno bordado no topo da sua bunda, porque estava no
céu; quinto, ela estava perfeitamente pronta para mim, seu corpo sedento,
transbordando de desejo; assim como o meu.
A coloquei deitada sobre o sofá e com a mão esquerda forcei o encosto,
fazendo-o abaixar. O barulho da trava do encosto cedendo a assustou, ela
interrompeu o beijo, se afastou levemente, os olhos procurando os meus.
− Fui eu, desculpa.
Ela olha para o espaço expandido do sofá e sorri.
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– Você tem sempre uma carta na manga. – diz, batendo os braços nas
almofadas, derrubando-as.
− Gosto de cobrir todas as possibilidades. – passo o braço embaixo do
seu corpo e a puxo mais para o centro da cama improvisada.
Rafani perpassa as mãos pelos meus cabelos, jogando-os para trás, e
puxa o meu rosto, reivindicando mais beijos. Ela não remove as pernas do
meu quadril, ao contrário, enquanto nossas línguas embalam um beijo voraz,
o enlace das suas pernas impele mais força e o meu pau pressiona o seu
ventre.
Os bicos dos seus mamilos estão fundidos ao meu torso, sinto a
suavidade e opulência dos seus seios brandindo contra a minha pele, ouço os
sons dos seus gemidos, o chacoalhar dos nossos corpos suados e os meus
níveis de testosterona batem todos os recordes.
Chamo o seu nome ao mesmo tempo que ela pronuncia o meu,
sorrimos e continuamos nos beijando. Ia dizer que preciso de um minuto,
antes que perca a cabeça, mas não consigo parar de beijá-la.
− Sam. – murmura de novo, os lábios roçando minha barba. – Você tem
camisinha?
− Como? – me afasto para olhá-la nos olhos.
− Camisinha. – diz, umedecendo os lábios. Enfio a mão no bolso e
puxo um pacote. – Você tem camisinhas no bolso da bermuda? – estreita os
olhos.
− Velhos hábitos são difíceis de abandonar.
− Você fodia tanto assim que não podia perder um minuto?
− Gosto quando você fica toda ciumenta. – digo entre risos.

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− Você é um grande cafajeste, Sam Allencar. – afirma categórica, me


dando um olhar furioso.
− Era. – beijo o seu queixo. − Por sua culpa virei a porra de uma
putinha dominada.
− Mesmo? – ela sorri e desce as mãos, encaixando-as por baixo do
elástico da bermuda.
– Estou de quatro por você. – mexo o quadril, cutucando-a. – E o meu
pau batendo continência.
− Me mostra o que você sabe fazer, garoto.
Ela aperta forte minha bunda e abaixa minha bermuda. Ignoro o desejo
louco de devorar os seios e me perder entre suas pernas, firmo o meu olhar
nos seus olhos. Não há resquícios de incerteza, os grandes olhos multicolores
estão límpidos.
Apoio o meu peso sobre um dos cotovelos, afasto a sua perna do meu
quadril e empurro a bermuda pelas minhas pernas, chutando-a pelos pés.
− Não me provoca, mulher. – digo, debruçando-me para beijar seu
abdômen.
Massageando os seus seios, minha língua se move pelos dorsos da sua
clavícula, degustando a sua pele e o aroma do seu corpo. Afundo o rosto no
seu pescoço, entreabro os lábios devagar e sinto a sua pulsação vibrando sob
a minha língua, selo os lábios e a beijo demoradamente por todo o pescoço,
numa escalada orientada à sua boca.
Quando nossas línguas restabeleceram a conexão, foi como um abalo
sísmico. Rafani agarrou-se as minhas costas, dedilhando meus músculos;
espalmei uma mão na sua bunda e infiltrei a outra entre o seu corpo e o
estofado, abraçando-a e puxando-a para mim.
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Não sabia quanto mais iria aguentar, sentia minha glande lambuzada,
então suavizei o beijo, posicionei as mãos no seu quadril e rolei a calcinha
abaixo. Ela me deu um selinho e levantou um pouco o corpo, facilitando a
remoção da calcinha.
Meus lábios não resistiram aos seus seios. Enquanto acariciava o seu
clitóris, sentia os meus dedos submergirem, como se estivessem sendo
devorados pelo mar de excitação que revestiam seus lábios internos.
Mais um minuto de preliminar e entraria em combustão. Abaixei a
boxer, chutando-a para longe o mais rápido que conseguia e quando me livrei
dela, Rafani estava sentada, segurando a camisinha entre os dedos, os lábios
numa semimordida e os olhos no meu pau.
− Disse que ele era o melhor. – pisco e estendo a mão para pegar a
camisinha.
− Posso tentar colocar?
− Você está segurando certo, é só posicionar na cabeça e ir
desenrolando.
Ela envolveu meu pau na mão e um gemido soou em resposta, sentia o
sangue se acumular na glande, disparando um contínuo de impulsos; desse
jeito não iria segurar por muito tempo.
Devidamente vestido para a ocasião, segurei-a pela nuca e a beijei, sem
o ímpeto de alguns minutos antes. Me recusava a ser um filho da puta escroto
que goza antes de fazê-la ter um orgasmo, portanto precisava abrandar minha
excitação, daria a ela uma primeira vez para ser lembrada.
Nossos lábios se moviam compassados. Com ela entre os meus braços,
abraçava-a, acariciando-a por inteiro, minhas mãos vagavam pelo seu corpo,
sentindo-a entregar-se ao momento. Suas mãos percorriam as minhas costas,

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dando-me apertos e arranhões suaves.


A deitei suavemente, escorregando os meus lábios pelo seu pescoço e
massageei o seu seio, antes de repousar a minha mão na sua coxa.
Mesmo que não em primeira instância, tinha em mente a possibilidade
dela travar, não seria absurdo, pesquisei um pouco sobre vítimas de abuso
sexual e pode acontecer de um toque, ou mesmo uma palavra, servir de
gatilho para as memórias do ato de violência.
Se tem algo que não quero é fazê-la lembrar do horror a que foi
submetida, por isso os meus passos são cuidadosos, não porque ela é uma
vítima de abuso, mas porque ela é uma mulher incrível, por quem estou
apaixonado, e quero que tudo o que ela sinta enquanto estiver nos meus
braços seja amor.
Esquadrinho as suas pernas, deslizando os meus dedos na parte interna
das suas coxas e espero com expectativa pelo seu gemido, que vem assim que
a ponta dos meus dedos afaga o seu clitóris. Sorrio contra sua pele e escovo
os seus lábios, desviando das investidas da sua língua.
Ela espalma as mãos na minha bunda e remexe o quadril, o que faz com
que meu pau roce os seus grandes lábios, que se abrem, dando-me passagem.
Aninho sua língua em um beijo e me movo, levando-a comigo; sinto os
pequenos lábios acolhendo-me e o meu pau imergindo no calor da sua
intimidade.
Sinto-me imerso nela, não apenas no seu corpo, na sua alma. Não há
limite entre nós, estamos emaranhados, enredados um no outro, movendo-nos
efusivamente; mais forte e mais rápido, a cada segundo.
Os gemidos seguem entrecortados, braços e pernas entrelaçados, o suor
intensificando o movimento dos nossos corpos. Rafani escava a minha

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escápula com a ponta dos dedos, os lábios entreabrem ofegantes.


Beijo o seu queixo, sentindo o seu gozo inundar-me e assisto extasiado
aos seus grandes olhos revirarem, enquanto suas contrações pressionam o
meu pau, levando-me ao clímax.

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Capítulo 40

Rafani Lemos
“Às vezes, temos que nos perder para nos encontrarmos.
E as vezes, nos encontramos apenas para nos perdermos de novo. ”
Grey´s Anatomy

Trinta e cinco anos.


Dois filhos.
E era como se fosse a minha primeira vez.
Sam me disse uma vez que me faria sentir como é ser amada de
verdade, ele não estava mentindo; promessa cumprida. Estava feliz, me sentia
viva de um jeito completamente novo.
Não sabia como nomear a sensação de tê-lo comigo, sentia a sua
pulsação vibrando sob o meu corpo, o seu cheiro misturado ao meu, era como
se fôssemos um, e mesmo agora, com ele deitado ao meu lado, beijando-me e
alisando os meus cabelos, ainda sinto que temos essa conexão única.
− Você não pode faltar ao trabalho para ficar comigo? – pergunta,
debruçando-se sobre mim.
− Não, e calma aí. – coloco a mão no seu peito. – Vista a bermuda.
− Já tirei a camisinha e limpei o excesso de porra na boxer.
− Bermuda, Sam.
− Você vai ter que se acostumar com meu pau! – diz, levantando para

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pegar a bermuda.
− Joga sua camisa para cá.
− Não me importo que você fique nua. – sorri, girando a camisa na
mão.
− Eu me importo, me dá logo.
− Quer tomar banho comigo? – ele morde o lábio e arqueia a
sobrancelha, dando um sorriso safado.
− Não, mas deixo você espiar.
− Estamos evoluindo. – pisca e me ajuda a levantar.
Tomamos banho separados, depois o ajudei a terminar o nosso lanche e
nos sentamos na bancada para comer.
A conversa não tinha nada de divertida, ele queria saber o que havia
decidido sobre a proposta que me fez de denunciar os meus pais por abuso
sexual.
− Bárbara pediu para aceitar sua ajuda, mas isso vai me trazer tantas
lembranças ruins, não sei se vale a pena.
− Fani, é a sua liberdade, o direito de assumir a sua verdadeira
identidade.
− Vou ter que contar tudo o que eles fizeram comigo?
− Sim.
− Em público?
− Vou estar com você.
− Se acharem que a culpa é minha?
− Fani, você não é culpada e não vou deixar ninguém dizer o contrário.

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− Tudo bem.
− Preciso que você consiga casar duas folgas durante a semana e o
quanto antes, ok?
− Se oferecer um sábado de folga, consigo qualquer dia.
− Então faça isso. – ele aperta minha mão. − Quando você me disser os
dias, marco a nossa ida para São Paulo e um horário com Miguel e tia Carol.
− Obrigada, Sam. – levanto. − Tenho que ir, vou chamar um táxi.
− Leve o meu carro. – comenta, passando o braço pela minha cintura.
− Não, você vai levar o Guga na escola amanhã, do outro lado da
cidade. – argumento a caminho da sala de estar.
− Nós nos viramos. – ele me beija. – Espera um pouco.
Fico bisbilhotando sua estante de livros, pensando se ele já leu todos
aqueles exemplares; a maioria são livros de fantasia, terror e policial, mas há
um número notável de histórias de amor.
− Aqui. – diz, abraçando-me e beijando meu pescoço.
− Sam, não é...
− Estou te confiando o meu carro, isso é praticamente uma declaração
de amor, não argumente.
− Te devolvo quando? – viro e o envolvo pelo pescoço.
− Você me pega no horário do almoço. – suga o meu lábio. – Com o
Guga.
− Sem doces no almoço.
− Sem doces. – sussurra, me erguendo em meio a um beijo.
− Preciso ir. – murmuro nos seus lábios.

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− Ok. – ele me coloca no chão.


Nos despedimos no corredor e segui para mais um turno de trabalho,
que nem vi passar, porque os meus pensamentos estavam relembrando as
últimas horas que estive com ele.
Fiz sexo!
E foi muito bom.
Não. Foi INCRÍVEL.
Ele foi cuidadoso, carinhoso, sem deixar de ser o Sam Allencar
incendiário, que tem dedos mágicos e, como ele mesmo diz, um pau melhor
ainda.
No dia seguinte, fui com Guga buscá-lo no trabalho para almoçarmos e
não pude esconder o sorriso quando ele apareceu com Bárbara; é importante
que ela aceite nossa relação, porque sempre contamos uma com a outra e não
quero perder a cumplicidade da minha filha.
Foi um almoço leve, regado por muitos sorrisos. Em certo momento,
me flagrei observando-os, Bárbara sorrindo de uma piada que Sam e Guga
compartilharam; nós estamos construindo vínculos, não posso continuar
guardando segredos.
Tenho que contar, pensei.
Faltava coragem e adiei a confissão para a viagem. Estaríamos
sozinhos, teríamos um tempo maior juntos, oportunidade ideal, poderia
explicar todas as implicações, dando a chance dele decidir ir adiante ou pôr
um fim ao nosso relacionamento. Todavia, relatar ao Miguel e Carol todo o
abuso que sofri, reviver detalhes dessa história, mexeram demais comigo e
não aguentaria uma rejeição.
Um mês passou e continuo encontrando desculpas para adiar o
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momento da minha confissão, porque no fundo sei que será demais para ele
suportar.
Bárbara tem insistido que preciso ter essa conversa logo, mas tenho dito
a mim mesma que lidar com uma ação judicial contra os meus pais e contar a
verdade ao Guga é mais do que posso suportar no momento. Só contei ao
Guga sobre o meu verdadeiro nome, achei que era muito para ele digerir de
uma vez, e acertei; tem horas que o vejo me olhando confuso.
Sam tem ajudado bastante com o Guga, eles têm altos papos
ultrassecretos que só fico sabendo por cima, porque ele não quer quebrar a
confiança do Guga, mas segundo ele, a ausência de explicação sobre quem é
Maressah ou porquê roubei seus documentos, foi o que mexeu com a cabeça
do Guga.
Percebendo minha preocupação, Sam me contou que Guga chegou a
pensar que havia sido sequestrado por mim, mas que eles conversaram e
chegaram a conclusão que sou mesmo sua mãe, apenas precisei usar uma
identidade falsa, como uma super heroína, para nos manter seguros.
Enquanto Sam me ajuda com os meus dramas pessoais, continuo
escondendo aquilo que deveria ter sido a minha resposta quando ele me pediu
em namoro; porque esse é o tipo de segredo que não deveria existir em um
relacionamento.
− Mãe, sua vez. – diz Bárbara.
Estou sentada no sofá, com Guga enroscado no meu colo. Olho para a
mesa de sinuca, Murilo está abraçando Bárbara por trás, todo curvando,
beijando o seu pescoço. Sam está pincelando giz na ponta do taco e pisca
para mim, exibindo um sorriso safado.
− Sam, você se importa de continuar sozinho?

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− Com certeza não! Finalmente vamos virar o jogo. – ele se posiciona e


dá a tacada. Ouço o som das bolas caindo nas caçapas. – Chupa, via...
− Sam! – eu e Bárbara dizemos em uníssono, impedindo-o de concluir
a fala.
− Foi mal! – ele ergue as mãos. – Você entendeu, Murilo.
Nós gargalhamos, enquanto ele se ajeita para fazer outra jogada.
− O que foi, mamãe?
− Sam está matando todas as bolas. – friso os cachos do seu cabelo. – O
que vamos pedir de prêmio ao Murilo e a Bárbara?
− Sorvete! – ele salta do sofá e vai correndo para a sinuca. – Sam, mata
todas.
− Seu pequeno traidor. – Bárbara diz, fingindo estar brava.
− Babi, Sam é meu melhor amigo.
− Eu sou o que? – Murilo protesta.
− Meu segundo melhor amigo. – Guga diz sério, o que gera uma crise
de risos de todos nós.
− Eu sou a irmã e fui deixada de lado, imagina você, Mô.
− Vem cá, amigão. – Sam agacha e Guga sobe nas suas costas. –
Escolhe a bola que você quer ganhar.
− Azul!
Sam se inclina, ajeitando a posição do taco e faz o seu jogo. Ouço o
estalido das bolas. Uma, duas, três, mais duas de vez. Cinco bolas em uma
jogada. Guga ergue os braços e comemora com gritos e assobios. Sam corre
com ele pela sala e o joga no sofá, fazendo cócegas, depois o segura no colo e
inclina o rosto para me beijar.
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− Eca! – Guga afasta os nossos rostos.


− Vai atrapalhar sua irmã. – Sam sussurra e Guga vai correndo se
pendurar no colo de Bárbara. − A gente tem que aprender como desligar a
bateria desse moleque. – diz entre risos e me beija.

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Capítulo 41

Murilo Valverde
“Se você não está assustado,
você não está se arriscando.
E se você não está se arriscando,
então, o que você está fazendo?”
How I Met Your Mother

Mais estranho do que passar a sexta-feira à noite em um programa


família, com direito a filme infantil, jantar e jogos, é estar sob a vigilância da
sogra. Não que Rafani pegue no meu pé, mas fico sem jeito quando os beijos
ficam quentes e lembro “cacete, a mãe dela está no sofá ao lado”.
O pior ainda é o momento despedida, na minha cabeça soa como “vou
ali foder sua filha”, é constrangedor, e quando Bárbara completa com um
“vou dormir no Murilo, mãe” quero me enterrar vivo.
Não interessa se quando ela diz dormir estamos falando de deitar
abraçados, depois de um bom amasso e, literalmente, dormir; ainda mais
quando Sam não perde a chance de um comentário obsceno. Sexo têm sido
um assunto proibido no nosso relacionamento, sinto que ela quer, mas basta
colocar a mão na parte interna das suas coxas e ela muda drasticamente; a
Bárbara desinibida e sensual se transforma uma garota assustada.
Bárbara não gosta de parecer frágil, prefere esconder o que está
sentindo do que me dar a chance de ajudar. Cerca de um mês atrás,
estávamos no meu apartamento, assistindo um filme, entre um beijo e outro
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esquecemos o filme e a pegação ficou firme, nossas roupas voaram pelo


quarto em questão de segundos, ela me empurrou de costas na cama e
montou no meu colo, rebolando e sugando os meus lábios com voracidade.
Ela adora ficar por cima, e esse é o meu paraíso particular, amo ter a
visão do seu corpo sobre o meu; os seios pequenos e rosados, a silhueta
delicada, os longos cabelos castanhos, o sorriso atrevido e os vívidos olhos
castanho-esverdeados que parecem que vão me devorar; e foi o que ela fez.
Bárbara deslizou as unhas pelo meu tórax, arranhando-me, abaixou
minha boxer e moveu os lábios sofregamente sobre o meu membro. Urrei alto
e forte quando senti sua língua acariciando minha glande, lambendo os
primeiros vestígios de porra.
Nós havíamos tido uma conversa sobre DST´s e refiz todos os exames,
segundo ela os últimos tinham mais de três meses e com o meu histórico
sexual, estavam mais do que vencidos. Independente dos exames terem dado
negativo, fiquei surpreso com sua iniciativa, tinha quase certeza que quando
rolasse oral, seria com preservativo.
Ela me deixou à beira de uma explosão orgástica, podia sentir a porra
comprimindo o meu membro, as veias estavam latejando e quase soltei um
“puta que pariu” quando ela se jogou na cama. Fiquei paralisado, olhando
aquele caralho duro, apontando para o teto, ansiando por uma gozada; não
vou mentir, fiquei virado na desgraça.
Sei que ela não tem a porra de um pau no meio das pernas e pode não
saber como funciona, mas puta merda, iria ficar com uma dor miserável.
Fechei os olhos e me concentrei em abaixar a bandeira. Estava ruminando a
minha irritação para não dizer algo que pudesse deixá-la chateada, quando
senti seu pé alisando minha panturrilha.
Respirei fundo. Bárbara encaixou uma perna entre as minhas, deitou no
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meu peito e contornou meu abdômen com algo áspero. Abri os olhos e soltei
um suspiro profundo; ela estava segurando um preservativo.
Ela mordeu os lábios e me entregou o preservativo. Foi aí que cometi
um erro. Estava alucinado de tesão, não pensei. Rasguei a embalagem,
desenrolei a camisinha, a abracei e nos girei, deixando-a por baixo.
Meus lábios se uniram aos seus, mordia e chupava a sua língua, as
mãos apertando a sua cintura, e ela retribua cada carícia. Quando senti suas
pernas flexionadas ao lado do meu quadril, abaixei-me, beijando-a nos seios e
abdômen, retirei sua calcinha e deslizei minhas mãos por suas pernas,
acariciando-a a partir dos tornozelos.
O tesão havia me cegado. Debrucei-me sobre o seu corpo, tomando os
seus lábios entre os meus, mordendo-a e beijando-a na mesma medida, e
afundei os dedos entre suas pernas. Ela estava úmida, mas deveria ter notado
que algo estava errado, percebi que ela era estreita, apertada demais, todavia,
no calor do momento, atribui à sua virgindade. Somente quando senti um
gosto salgado entre o beijo, foi que percebi que ela estava chorando.
Não era uma única lágrima. Parei tudo o que estava fazendo, deitei ao
seu lado e puxei o seu corpo para mim. Bárbara enterrou o rosto no meu peito
e chorou por muito tempo, pedindo desculpas repetidamente. Nunca havia me
sentido tão filho da puta. Ela dormiu chorando. Passei a noite acordado,
abraçado com ela, me perguntando o que havia de errado comigo.
Fiquei feliz que era domingo no dia seguinte, porque queria conversar e
me desculpar pelo que havia acontecido. Quando ela acordou, disse que iria
tomar um banho e falei que esperaria por ela na cama. Coloquei uma
bermuda e fiquei andando pelo quarto, pensando na decisão que havia
tomado.
Assim que Bárbara saiu do banho, usando um short curtinho e uma
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camisa minha, nos sentamos e comecei a me desculpar, por fim falei que era
melhor terminarmos, expliquei que não queria machucá-la, mas não podia
negar o meu comportamento na noite anterior e aquilo era imperdoável.
De todas as reações que imaginei que ela teria, como me bater, gritar ou
xingar, me acusando de ser um cafajeste, se não coisa pior, chorar parecia
incoerente, mas foi o que ela fez. Bárbara chorava, tanto quanto na noite
anterior, e pedia que a perdoasse.
“Bah, sou eu quem está te pedindo perdão” – disse, abraçando-a.
“Mô, aquilo não vai se repetir, prometo”.
“Escuta aqui, para de pedir desculpas, eu fui o culpado. − engoli em
seco. Só de pensar no que havia feito, tinha vontade de me socar. − Te
machuquei, Bárbara, me perdoa”.
“Achei que conseguiria, queria tanto”.
“Quer me falar o que você sente quando...”
“Não, só fica comigo”.
Eu fiz, porque é o que quero, ficar com ela.
Desde então tenho estado mais vigilante, presto atenção a cada reação
dela. Beijo e acaricio o seu corpo, milimetricamente, mas nunca entre as suas
pernas; qualquer toque da metade da sua coxa para cima e ela fica tensa.
Minha opinião é que ela precisar falar sobre o que provoca a tensão, sei
que está ligado ao abuso que ela assistiu a mãe sofrer, entretanto, na única
vez que sugeri que falar poderia ajudar, quase apanhei.
Se ela não quer conversar comigo, nem procurar ajuda profissional, só
posso torcer para que o meu amor seja suficiente para fazê-la superar os seus
medos. Espero muito que seja, porque amo essa garota.

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É fácil esquecer que ela pode ser frágil quando tudo o que ela quer
mostrar é o oposto. Ela é forte, na maior parte do tempo ela é uma gigante.
Gosto de vê-la interagir com a mãe e o irmão, ela é valente e ao mesmo
tempo moleca, sinto que ela é o que eles precisam; uma guerreira disposta a
enfrentar dragões e uma menina que no fundo ainda acredita em contos de
fadas.
− Vou perder de novo? Ah, não. – Bárbara resmunga. – É sua vez,
Guga.
− Não é não. – Guga balança a cabeça, sorrindo. – Babi, vai logo!
− Vocês estão trapaceando. – Bárbara aponta para Guga e Sam. – Mãe,
manda eles pararem.
− Tô não. – Guga diz entre risos.
− Sua irmã é apelona, Guga. – Sam provoca.
− Bah, você é muito ruim. – perturbo.
− Fica quieto, Mô. – ela bate na minha perna. – Não aceito, esse boneco
me odeia. – diz, encaixando a paleta e o Olaf pula, para alegria do Guga.
− Ganhei, ganhei, ganhei!!! – ele sai correndo e gritando.
− Desisto! – ela declara, recostando a cabeça no meu ombro.
− Guga, hora de dormir. – Rafani avisa.
− Ah, não, mamãe. – ele resmunga. – Por que tenho que dormir e vocês
não? – cruza os braços.
− Porque somos adultos e você é um pirralho. – Sam o agarra pelas
panturrilhas e o segura de ponta cabeça. – Cama ou banho?
− Cama! – Guga exclama.
− Banho. – diz Rafani.
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– Diga boa noite para a sua irmã e o branquelo. – Sam vira o Guga e o
coloca sentado no ombro.
− Ele é o Tarzan. – Guga argumenta.
− Sua irmã é uma macaquinha?
− Não. – ele dá risada. – É a namorada do Tarzan.
− Vamos, né? – Rafani abraça o Sam pelas costas.
− Boa noite, Babi, boa noite, Murilo. – Guga se despede. − Amanhã
quero meu sorvete.
− Boa noite, Guga. – Bárbara solta um beijo para o irmão.
− Sorvete amanhã, mas só se você não sair correndo por aí depois do
banho. – proponho.
− Fechado.
Eles entram para o quarto.
Estamos sentados no chão, passo o braço pela cintura de Bárbara e a
trago para o meu colo. Ela está sorrindo. Afasto o cabelo do seu rosto e a
beijo.
− Qual o motivo desse sorriso? – pergunto, dando vários beijinhos nos
seus lábios.
− Eles estão felizes. – ela me beija, puxando o meu lábio inferior.
− E você?
− Muito feliz.

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Capítulo 42

Bárbara Lemos
“Você pode dirigir aos 16 anos, ir para a guerra aos 18,
você pode beber aos 21 e se aposentar aos 65,
então, qual idade você tem que ter antes que seu amor seja
verdadeiro?”
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Eu e o Murilo estávamos em um momento pegação quando minha mãe


e Sam voltaram para sala, após colocar o Guga para dormir.
Murilo estava sentado no chão, com o tronco recostado no sofá, comigo
no colo; suas mãos espalmadas na minha bunda. O cretino do meu chefe
disse entre risos: “meu filho, isso aqui não é motel não”. Levantei rápido,
ajeitando o vestido, e desconversei, dizendo que iria pegar outra cerveja para
o Murilo.
− O negócio esquentou assim, que vai de gelada? – Sam provoca.
− Não entendi. – reviro os olhos.
− Bah, estou tomando vinho. – Murilo ergue a taça da mesa de centro.
Sinto o calor nas minhas bochechas, estou ficando vermelha.
− Vinho, foi o que quis dizer. – apresso o passo para a cozinha.
Demoro mais do que o necessário na cozinha, quando retorno, com a
garrafa de vinho, Sam e minha mãe estão aninhados numa poltrona e Murilo
sentado no sofá.

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Reponho o vinho de ambos e deito, com a cabeça no colo do Murilo,


ele se curva para me dar um beijo e em seguida repousa a nuca no encosto e
continua conversando; o assunto é a viagem do Sam para Dubai, no próximo
mês, ele vem tentando convencer minha mãe a ir, pois ela estará de férias,
mas ela não quer me deixar sozinha com Guga, diz que é responsabilidade
demais e ele não tem com quem ficar depois da escola.
− Uma semana. – Sam pede, afagando sua bochecha com o polegar.
− Não posso. – minha mãe nega.
− Já montamos todo o cronograma, mãe.
− Que implica ocupar o horário de almoço e noites do Murilo e as
tardes da sua mãe, Sam. – ela argumenta. – Não, obrigada.
− Fani, você precisa de uns dias de descanso, o último mês foi pesado.
− Sam tem razão, mãe.
− Não vai ser sacrifício nenhum ficarmos com Guga. – Murilo
intervém. – Uma semana não é tanto tempo assim.
− Não é um fim de semana no litoral, estamos falando de outro
continente. Ainda tem o problema da minha identidade.
− Não venha com essa desculpa, Miguel disse que os seus documentos
estarão liberados, não precisa continuar usando a identidade falsa.
− Mãe, você merece se divertir um pouco e Sam pagou uma nota pelo
seu visto. – mordo o lábio.
− Você prometeu que não faria. – ela diz ao Sam, virando-se para olhá-
lo.
− Obrigado, Bárbara. – ele me olha atravessado.
− Desculpa.
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− Eu tinha que fazer. – Sam explica. – É o hotel que solicita ao


consulado o seu visto para os Emirados e não podia correr o risco de não ter
tempo hábil para a liberação.
− Minhas férias só começam a valer dia dez.
− Eu sei. A nossa viagem está programada para o dia doze.
− Programada? – ela arqueia a sobrancelha.
− Iria te levar comigo nem que fosse algemada. – ele desliza a mão para
sua nuca e a beija.
Sorrio e desvio os olhos.
− Por que comigo não é fácil assim? – Murilo contorna os meus lábios
com a ponta dos dedos. – Programei uma viagem e você deu a louca, nem
queria mais sair comigo.
− Por que será, Mô? – acaricio sua barba.
− Não sei, minhas intenções eram românticas.
− Nós nem tínhamos tido um encontro. – sorrio.
− Então significa que agora posso programar uma viagem em segredo?
− Não sei. – mordo o lábio.
− Bah, você está tornando muito difícil ser romântico, não reclame
quando te pedir em casamento numa mesa de bar.
Meus olhos devem ter saltado como nos desenhos animados, meus
dedos paralisaram sobre sua barba e o meu coração perdeu duas ou três
batidas.
Nem tive tempo para ficar em dúvida sobre o que ouvi, Sam e minha
mãe repetiram em uníssono aquela exata palavra: CASAMENTO. Murilo
ficou sem jeito quando lembrou que não estávamos a sós, me deu um beijo e
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pediu licença para ir ao banheiro.


− Ele falou casamento? – Sam perguntou.
− Bárbara, tem algo que você queira me contar?
− Não, mãe. – levanto, pego a taça de vinho que Murilo deixou sobre a
mesa de centro e sigo para cozinhar. Tomo o vinho em um só gole e estou
colocando a taça sobre a bancada quando minha mãe surge na porta. – Estou
tão surpresa quanto você. – comento, puxando a banqueta para sentar. – Ele
está brincando.
− Ele não é mais um garoto, é natural que queira construir uma família.
− Como ele pode querer casar comigo, nós nem... – abaixo os olhos. –
Se nunca conseguir? – pergunto, escavando as unhas.
− Bárbara, do que você está falando? – minha mãe coloca as mãos
sobre as minhas, me impedindo de continuar cutucando os cantos da unhas.
− Posso fazer uma pergunta íntima? – mordo a parte interna da
bochecha.
− Claro, filha.
− Você e o Sam... – desvio os olhos. – Vocês... – me obrigo a olhá-la
nos olhos. − Você consegue deixar ele te tocar – aperto os lábios. – lá?
− O que está acontecendo, Bárbara?
− Lembro do Plínio. – sinto uma lágrima percorrer o meu rosto.
− Filha. – ela entrelaça nossas mãos.
− Não importa o quanto esteja envolvida, um toque e sou jogada
naquele quarto de novo. – suspiro. – É como se nunca tivesse conseguido sair
de lá, mãe, como se ainda estivesse acontecendo. Vejo ele te batendo,
arrancando suas roupas, você chorando, enquanto ele ri e se movimenta sobre
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o seu corpo ensanguentado.


− Acabou. – diz firme, apertando minha mão. – Aquilo que você viu
não é sexo, filha. – ela levanta e me abraça. – Você precisa conversar com o
Murilo, juntos vocês vão encontrar o melhor caminho para superar o que
aconteceu.
− Mãe, como digo ao meu namorado que penso que ele vai me
estuprar?
− Bah?
Olho para a porta da cozinha e vejo Murilo parado, os olhos assustados,
os ombros levemente caídos. Ele olha de relance para o lado, em conflito
sobre ficar ou voltar para a sala e deixar tudo como estava; vendo que
nenhum de nós vai tomar uma atitude, minha mãe intervém.
− Vou dar uma volta com Sam. – ela beija minha têmpora. – Você não
é o problema. – diz, quando passa pelo Murilo.
Não sei o que dizer, por isso cruzo os braços sobre a bancada, deito o
rosto e choro. Ouço os passos do Murilo, a porta da sala abrir e fechar, a
banqueta ao meu lado sendo arrastada.
− Bah? – diz baixinho. – Fala comigo.
− Desculpa. – murmuro, sem levantar o rosto para olhá-lo.
− Bah, não quero que você peça desculpas, quero que você me diga
como se sente. Você acha que seria capaz de te estuprar?
− Não, Mô. – levanto a cabeça e acaricio o seu queixo. – Não consigo
controlar, entende? Sei que você não me machucaria, mas o contexto me
remete às lembranças do dia que vi o Plínio machucando minha mãe. O medo
fala mais alto do que a razão, penso no quão fácil você pode me imobilizar
e...
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− Se um dia você sentir que está em perigo comigo, quero que vá


embora sem olhar para trás, entendeu? – ele corre a mão pelo meu cabelo e
segura o meu rosto. – Eu te amo, Bárbara. Tinha planejado falar em outra
circunstância, mas que se foda. Te amo, garota.
− Tudo bem se descobrirmos que sou frígida?
− Você não é frígida, Bah. – ele me dá um selinho. – Se for fodeu, acho
que desamar não é uma opção.
− Acho que não. – sorrio. – Meio que te amo? – digo tímida e mais
parece uma pergunta.
− Pergunta interessante. – ele segura meu rosto entre as mãos. – Ama?
Vejo a expectativa no verde dos seus olhos, mordo o lábio e assinto,
com um simples balançar de cabeça.

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Capítulo 43

Rafani Lemos
"Você já entrou em uma situação que já sabia exatamente o que ia
acontecer? Mas você entra assim mesmo...
Então quando seus temores vem à tona...
Você se tortura, porque já sabia?
Mas isso é quem você é, e você fica se punindo por isso."
Once Upon a Time

Quatro horas para as minhas férias.


Quarenta e oito horas para a minha viagem com o Sam.
Nervosismo não descreve nem um terço do que estou sentindo.
Primeiro porque estou deixando os meus filhos sozinhos e com o processo
contra os meus pais em curso, não conto as vezes que acordei de madrugada
tendo pesadelos com eles batendo na nossa porta; segundo, porque não posso
mais adiar a conversa com o Sam, esse segredo foi longe demais.
O que ainda não sabia é que a essa hora a verdade estava lacrada em
um envelope sendo entregue na portaria do prédio do Sam.
Era mais um dia normal de trabalho, sem estresse, o máximo que
deveria acontecer era servir um ou outro cliente arrogante, nada demais.
Quando Tânia avisou que uma cliente havia exigido ser atendida por mim,
logo soube que Samantha estava de volta ao jogo.
Respirei fundo e olhei para a mesa indicada. Virada de frente para mim,

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Samantha acenava com um sorriso esnobe. Ela estava acompanhada por um


homem, não podia ver seu rosto, pois estava de costas, mas parecia ser mais
velho; pensei que poderia ser seu pai e isso me deixou menos apreensiva,
talvez ela só quisesse me fazer servi-la, sem chantagens dessa vez.
− Boa noite. – digo, olhando-a. – Posso...
Emudeci. Ele estava muito diferente, as rugas de expressão
transformaram o seu rosto em uma carranca, não havia vestígios do cabelo
castanho volumoso, apenas uma careca reluzente. Não o reconheceria se
passasse por ele na rua, mas o olhar era o mesmo, sórdido e cruel; ele
envelhecera, não poderia me machucar como fizera tantas vezes, estava
visivelmente debilitado, um lado do rosto levemente retorcido, uma possível
sequela de AVC; ainda assim, estava com medo.
− Minha filha. – diz, exibindo um sorriso perverso.
Dou alguns passos para trás, movendo a cabeça em negativa.
Ele não pode te machucar, digo em pensamentos.
− Não vai cumprimentar o seu papito? – diz Samantha, me lançando
um olhar ardiloso.
− O que você quer de mim?
− Você sabe o que quero. – ela meneia a cabeça. – Mas não se
preocupe, em poucas horas o Sam não vai querer nem te ver, considere a
visita do seu pai uma cortesia. – pisca. – Não vai nos servir, querida? Tenho
que chamar o gerente?
− Você lembra qual o meu drink, vadia?
A voz dele me causa ânsia de vômito. Ignoro o meu desconforto e volto
a me aproximar da mesa, eles não vão tirar o meu emprego.

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− Desculpem, querem fazer o pedido?


− Assim está melhor. – ela abaixa os olhos para o menu. – O que você
nos sugere?
Veneno, seria a minha primeira sugestão, todavia recalco o impulso de
mandá-los à merda e faço o meu trabalho. Anoto os pedidos e peço licença
para me retirar.
− Querida? – Samantha, na sua habitual voz antipática, chama.
− Sim, senhora.
− O seu pai é um senhor muito gentil e me fez um favor hoje.
− Mais alguma coisa, senhora?
− É impressionante o estrago que uma simples palavra pode fazer, não
acha? Positivo, negativo, boom. – ela gargalha.
− Paguei uma boa quantia para o porteiro entregar o envelope nas mãos
do rapaz. Ele vai descobrir a vadia com quem está saindo.
− Com licença.
− Cuidado para não derrubar nada, não queremos seu sangue espalhado
por aí. – Samantha diz entre risos.
O salão do restaurante nunca foi tão extenso, achei que não fosse
alcançar a copa nunca. Empurro a porta dupla com ambas as mãos e
atravesso o corredor até a área externa. Nate avisa que o pedido da mesa dois
está pronto, ignoro e saiu pelas portas do fundo.
− Maressah? – ele entreabre a porta.
− Rafani. – murmuro.
− Quê?

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− Meu nome é Rafani e sou soropositivo! – grito. Nate arregala os


olhos. – Vai ficar me olhando como se fosse uma aberração?
− Eu-eu... Vou entrar. – diz e fecha a porta.
As lágrimas rompem as últimas barreiras da minha resistência. Agacho,
recostada na parede, e choro, porque sou a culpada do que está acontecendo.
Era minha obrigação contar, não podia ter feito sexo com ele sem
revelar a minha sorologia para o HIV, independente de termos usado
camisinha em todas as relações, ele tinha o direito de saber. Ele tinha o
direito de escolher se envolver sexualmente, ou não, com alguém
soropositivo.
Esfrego as mãos no rosto, enxugando as lágrimas, me recomponho e
volto para a copa. Pego o celular no armário, nenhuma mensagem. Penso em
escrever para o Sam, mas não é como se pudesse contar que sou soropositivo
por mensagem. Enfio o celular entre os meus seios, caso ele me ligue. Tranco
o armário e pergunto ao Nate onde estão os meus pedidos, ele aponta para o
balcão atrás da fornalha.
− Vá para casa, diga que está passando mal. – aconselha, quando passo
por ele com a bandeja para arrumar os pratos.
− Relaxa, você não vai pegar HIV porque estamos respirando o mesmo
ar. – digo ríspida.
− Não estou falando por isso, mas olha para você.
− Estou bem, não se preocupe.
− Maressah, aquela cliente está reclamando da demora. – Tânia avisa,
parando ao meu lado. – Nate, os meus pedidos?
− Com o Lucas.

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− Esse é o pedido da insuportável. – rasgo o papel do bloco de notas e


entrego ao Nate.
− Tire o seu intervalo. – ele sugere.
− Já disse, estou bem. – respondo por sobre o ombro e saio com o
pedido de outro cliente.
Samantha acena assim que piso no salão, sinalizo, pedindo para
aguardar um instante. Depois de servir um casal, vou ver o que a Vaca
Mimosa quer.
− Algum problema com nossos pedidos?
− Não, senhor, em poucos minutos estará aqui.
− E os drinks? – Samantha pergunta.
− Irei trazer agora, com licença.
O olhar de escárnio e os comentários depreciativos que passei ouvindo
pelas duas horas seguintes não significavam nada, minhas preocupações com
a viagem tornaram-se irrelevantes, até o medo do homem que era o meu
maior pesadelo havia sido abafado pela ameaça do que estava por vir.
Meus pensamentos não paravam, imaginava a reação do Sam ao
descobrir minha sorologia, a decepção por ter escondido a verdade, a raiva
por ser enganado.
A última hora do meu turno foi um martírio silencioso. Samantha e
meu pai finalmente foram embora e fiquei me perguntando se eles estariam à
espreita quando saísse para encontrar o Sam; isto é, se ele aparecer para me
buscar.
Imaginei eles saindo do esconderijo batendo palmas e gargalhando,
enquanto o Sam me acusava de ser uma vadia egoísta. Não iria chorar,

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aceitaria as suas ofensas, sem discutir.


Tenho muito a agradecer, fui mais feliz nos últimos meses do que em
toda minha vida, ele pode não ser capaz de curar o meu corpo, mas curou a
minha alma e serei eternamente grata por tê-lo conhecido, por ter me
apaixonado e sonhado que poderíamos ser uma família; havia muito tempo
que não sabia o que era sonhar.
Meu erro foi esquecer que na minha história não há espaço para um
final feliz.

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Capítulo 44

Sam Allencar
“Como, sem mesmo tentar, complicamos tanto nossas vidas?”
One Tree Hill
Pensei que fosse uma brincadeira de mal gosto ou uma armação de
Samantha, embora o porteiro tenha garantido que o envelope foi entregue por
um homem idoso.
Não entendia metade do que estava escrito naquele papel. Faço testes
de doenças sexualmente transmissíveis a cada três meses, logo sabia aquele
era um teste de HIV, mas o resultado era diferente, onde deveria estar escrito
“não reagente”, lia-se “positivo”.

Anticorpos HIV 1/ HIV 2 (2 dosagens) TESTE 1: POSITIVO


TESTE 2: POSTIVO
SOROLOGIA POSITIVA PARA HIV 1
EXAME REPETIDO E CONFIRMADO EM SEGUNDA AMOSTRA
O exame estava datado de um mês atrás, mas foi registrado em nome de
Rafani Lemos Mendonça, o que significa que não foi solicitado por ela, tem
apenas quinze dias que ela assumiu a verdadeira identidade.
Era uma fraude, Samantha deve ter pago alguém para entregar o
envelope, assim não poderia acusá-la, mas o resultado é falso, tem que ser.
Por que diabos não conseguia parar de ler o maldito papel?
Comportamentos que antes eram irrelevantes ganhavam novos

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significados: ela não me deixava fazer sexo oral, evitava qualquer


aproximação quando estávamos despidos. Frases soltas flutuam entre os
meus pensamentos: “como se pudesse me curar”, “você sabe que o zangão
morre depois do sexo”, “não sou uma jogadora apta para entrar em
campo”.
Solto o papel sobre a mesa de centro e levanto. Estou sendo paranoico,
procurando conexão onde não existe, tento me convencer que o exame é
falso.
Vou à cozinha, pego uma garrafa de vinho, empurro de volta, abro o
armário e pego o whisky. Viro a garrafa, enchendo o copo até a borda, jogo
dois cubos de gelo e volto para a sala. Quando chego ao sofá, o copo está
vazio. Sento, deito a cabeça no encosto e arremesso o copo contra a parede.
− Inferno! – vocifero.
Não me movi pelas próximas horas, estava furioso e assustado.
AIDS? Ela tem AIDS? Não sei nada sobre o que um diagnóstico
soropositivo representa na vida de alguém. Não faço ideia de como lidar com
isso.
Quando peguei o papel sobre a mesa de centro, antes de ir buscá-la, não
havia decidido o que fazer. Esperei por ela no carro. Quando bateu na janela,
destravei a porta e ela entrou, jogando a bolsa no assoalho.
Não a beijei, como faço todas as vezes, nem a olhei, não conseguia.
Meus olhos estavam fixos nos nós dos meus dedos, travados sobre o volante,
assim podia ter um termômetro da minha irritação.
− Oi. – ela afaga minha barba.
− Podemos ir para o meu apartamento?
− Sim, mando uma mensagem avisando a Bárbara.
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Não olhei para ela até que estivéssemos no elevador, subindo para o
meu apartamento, seus olhos estavam marejados. A puxei para mim e a
abracei forte, sentindo um nó na garganta; ela suspirou e uniu os nossos
lábios.
− Te amo, Sam Allencar. – diz, olhando nos meus olhos. – Me perdoa.
− Vamos conversar. – entrelaço nossas mãos e saímos do elevador. –
Quer tomar um banho? – pergunto, quando entramos no apartamento.
− Não. – ela joga a bolsa no sofá.
− Foi você? – tiro o envelope do bolso. Ela balança a cabeça em
negativa. – É verdade? – pergunto, deixando meu corpo desabar no sofá.
Rafani assente. – Você pelo menos pensou em me contar em algum
momento?
− Sam.
− Não, Fani. Nós estamos juntos, temos uma vida sexual, você não
achou que seria interessante me contar que tem AIDS?
− Não tenho AIDS! Sou soropositivo, não é a mesma coisa.
− Não? Então tudo bem se a gente fizer sexo sem camisinha? Nenhuma
chance que meu próximo teste de HIV dê positivo?
− Sam, não é assim. – ela senta ao meu lado. – Sim, tenho HIV. Sim,
posso desenvolver AIDS, se interromper o meu tratamento e minha carga
viral se elevar, mas posso viver a vida inteira com o vírus, sem ser acometida
pela doença. As chances de transmitir o vírus para você, mesmo se fizermos
sexo desprotegido, são quase nulas, e ainda assim sempre tomei todas as
precauções.
− Não é justo você me manter no escuro, não estamos falando de algo
passageiro, Rafani.
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− Sim. – ela inspira profundamente. – Você está certo, vai ter sempre a
sombra da minha sorologia entre nós. Só preciso que você entenda que nunca
te coloquei em risco. – diz. Sinto os seus olhos em mim, mas não consigo
olhá-la. – Sam, a vida de alguém soropositivo. – ela pausa por alguns
segundos e suspira alto. − A minha vida não é tão diferente da sua, preciso
tomar os medicamentos diariamente e faço testes trimestrais para verificar a
carga viral e o CD4, no mais são cuidados simples, como usar camisinha, não
compartilhar agulhas, giletes e escova de dentes.
− Você nunca iria me contar? – amasso o papel e arremesso sobre os
cacos de vidro.
− Planejei muitas vezes. – ela repousa a mão na minha coxa. – Estar
com você, te abraçar, te beijar e fazer amor com você foi a melhor coisa que
me aconteceu, tive medo de te perder.
− Você tem que admitir que essa é uma puta revelação, Rafani.
− Eu sei. – murmura.
− E não foi você quem me contou.
− Sinto muito, Sam.
− Não consigo. – retiro sua mão da minha coxa e levanto. – Desculpa,
não sei se posso continuar, é muito para processar. – passo a mão no cabelo.
− Não consigo.
Rafani levanta e fica de frente comigo. Ela ergue a mão e espera o meu
consentimento para prosseguir, então acaricia o meu rosto.
Fecho os olhos e tento esquecer que ela é portadora do HIV, me esforço
para expulsar o sentimento de desapontamento que teima em martelar no meu
peito. Fui verdadeiro com ela desde o início, enquanto ela mentia para mim;
não uma simples mentira, algo que muda completamente as nossas vidas.
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− Obrigada, Sam. Você me mostrou que a vida pode ser descomplicada.


Estava tão errada quando te chamei de garoto. − ela me dá um selinho. –
Você é um homem íntegro, espero que encontre uma mulher que mereça estar
ao seu lado.
− É você quem eu quero, e foi difícil pra caralho admitir queria mais do
que sexo. Por que você tinha que foder tudo desse jeito? – beijo sua testa. –
Dorme aqui, vou sair com a Harley.
− Não é justo te tirar da sua casa, pego um táxi.
− Não. – entrego a chave do carro. – Amanhã você vai com o meu
carro, hoje você fica. Estou mesmo precisando de ar fresco. Boa noite,
Rafani.
− Acho que não te vejo mais, então boa viagem, Sam.
− Se cuida. – a aperto entre os meus braços, sentido a porra das
lágrimas penetrarem minha barba. – Desculpa de verdade.
Rodei com a Harley por algum tempo, buscando um pouco de paz para
a minha angústia e por fim parei na casa dos meus pais; como minha mãe
insiste que cada filho tenha sua chave, não precisei incomodá-los.
Caí na cama, olhando as paredes e objetos do meu velho quarto, uma
cesta de basquete pendurada atrás da porta, alguns livros na estante. Levantei,
peguei meu velho exemplar de “A Cor Púrpura” e me joguei novamente na
cama. Quem sabe a “Celie”, protagonista dessa história e que compartilha
com Rafani o abuso sexual e moral sofrido, assim como a separação da sua
irmã, possa me fazer compreender o porquê dela não ter me contado sobre o
HIV.
Porra, se ela tivesse conversado comigo!
Não precisava ter sido assim.
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Ela não faz ideia do quanto doeu ler aquele maldito exame e ficar
conjeturando se era verdadeiro ou falso.
Poderia ter sido simples, ela me contaria, nós conversaríamos,
procuraríamos juntos mais informações sobre como conciliar a nossa vida
sexual com o HIV, mas não, ela tinha que deixar que a verdade viesse bater
na minha porta.
A leitura me manteve distraído, o que me ajudou a amenizar a vontade
de socar o mundo. Quando terminei o livro era de manhã, levantei e os meus
pais estavam tomando café da manhã.
− Bom dia. – beijo o cabelo da minha mãe.
− Bom dia, filho. Chegou que horas?
− Dormi aqui. – digo, afagando o ombro do meu pai.
− O que houve? – ele pergunta.
− Descobri que Rafani é soropositivo e não quero falar sobre esse
assunto. – puxo uma cadeira e sento, me servindo de café.
− Como? – minha mãe deposita a xícara na mesa e me encara.
− Sam, não dá para largar a bomba e correr. – meu pai pontua.
− Não tem o que falar, acabou.
− Desde quando ela é soropositivo? Como aconteceu?
− Sei lá, mãe.
− Você não quis saber?
− Pai, pra que inferno vou querer saber como aconteceu? Ela é
soropositivo e ponto, isso é tudo o que importa.
− Mesmo? – ele me olha sério. – O que você sente por ela evaporou

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assim que você ouviu a palavra soropositivo?


− Ela nem teve a decência de me contar, pai, não venha querer me fazer
sentir culpado, porque sou a porra da vítima nessa história.
− Coitadinho. – minha mãe ironiza. – A única vítima dessa história é
ela, não é você quem tem que viver dependente de medicamentos por toda a
vida, portanto menos drama.
− Inferno! – levanto, empurrando a cadeira. – Foi bom falar com vocês,
obrigado pela compreensão.
− Sam! – dizem em uníssono.
− Preciso de um tempo, ok? – coloco a cadeira no lugar e vou embora.

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Capítulo 45

Rafani Lemos
“O amor verdadeiro é mágico
e não apenas uma magia qualquer,
e sim a magia mais poderosa de todas”
Once Upon a Time
Fiquei parada, vendo-o ir embora, as lágrimas escorrendo pelas maçãs
do meu rosto. Precisava ocupar minha mente; peguei a vassoura e a pá, para
recolher os cacos de vidro que estavam espalhados próximo ao sofá. Depois
de jogá-los no lixo, sentei, desamassei a folha de papel e li aquilo que já sabia
que encontraria, meu teste de HIV.
Nem me importo como a Samantha conseguiu esse resultado, ela não
teria o poder de destruir o meu relacionamento se tivesse tido a coragem de
contar a verdade ao Sam.
Tomei um banho, vesti uma camisa dele e me deitei, mas não conseguia
dormir. Acendi o abajur e peguei o livro que estava sobre o seu criado mudo:
“O Som e a Fúria”, de William Faulkner.
No início não estava entendo absolutamente nada, a narração, em
primeira pessoa, ia do presente para o passado sem obedecer qualquer lógica.
Na segunda parte da história, temos uma mudança de narrador e apesar da
nítida confusão mental do personagem, as peças foram se encaixando na
minha cabeça e engrenei na leitura, esquecendo minha realidade.
Amanheceu e estava finalizando a terceira parte da história, não queria
que Sam me encontrasse quando voltasse, por isso devolvi o livro ao criado-
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mudo, vesti minha roupa, peguei minha bolsa e saí, deixando a chave do
carro junto com um bilhete sobre o seu travesseiro.
“Sam, depois de iniciar a leitura de “O Som e a Fúria” (confesso que
quase desisti nas primeiras páginas, mas vi que você estava quase no final da
história e fiquei curiosa para saber se conseguiria desvendar o mistério
dessa narrativa) percebi que o não dito pode mudar todo o entendimento
sobre uma história e não quero deixar de dizer algo, tenho arrependimentos
demais para carregar comigo, você não será mais um.
Quando fugi de casa, não tinha quase nada de dinheiro comigo, o
pouco que tinha comprei a passagem para Curitiba e sobrou um trocado
para um lanche, por isso minha primeira missão era conseguir um trabalho.
Entrei numa pequena lanchonete que tinha um cartaz de procura-se ajudante
pendurado na entrada, me apresentei a uma mulher que estava no balcão,
era a Lúcia.
Falei que estava chegando na cidade e procurava um trabalho,
qualquer coisa, ela nem precisava me pagar em dinheiro, comida já servia.
Ela perguntou a minha idade e menti, a minha primeira mentira, falei que
tinha dezoito anos; claro que ela não acreditou e pediu para ver a minha
identidade. Na hora lembrei que estava com os documentos da minha irmã
na mochila, era a única lembrança que tinha dela, meus pais queimaram
todas as fotos dela. A identidade havia sido tirada quando ela estava com
catorze anos e éramos muito parecidas, ela estaria com dezoito anos se
estivesse viva, então Lúcia olhou a foto na identidade, olhou bem para mim e
disse que o trabalho era meu, ela me pagaria, podia fazer as refeições e se
precisasse tinha um quartinho nos fundos que poderia usar. Agradeci e me
senti mal por mentir, mas era minha única saída.
Lúcia e o Leônidas foram meus anjos da guarda, mesmo assim menti

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para eles por quase treze anos. Eu tinha muito medo que descobrissem minha
verdadeira identidade e tirassem Bárbara de mim, o que me impedia de
procurar trabalho em outros locais, mas a lanchonete não dava muito lucro e
eles só podiam me ajudar com as despesas básicas. Quando Bárbara nasceu
fui morar com eles, em um quarto que eles construíram no quintal, para que
pudéssemos ter alguma privacidade.
Os anos passaram e as despesas aumentaram, Bárbara era uma quase
adolescente, pedia coisas que não podia comprar, então decidi que era hora
de sair do meu casulo. Nessa época havia um policial que sempre
frequentava a lanchonete e puxava papo comigo, ele comentou algumas
vezes que tinha um bar e que poderia conseguir algo para mim lá. Não sabia
que se tratava de um bar de strippers e na minha primeira visita ao local
falei que não estava interessada, mas ele disse que não precisava me
preocupar, todos me respeitaram e trabalharia apenas como garçonete.
Concordei, afinal precisava da grana. Esse emprego me custou muitas
discussões com Lúcia, ela me alertava sobre Plínio, dizia que um policial de
bem não seria metido com lugares como aquele, mas me recusava a ouvi-la.
Ele insistia que queria fazer parte da minha vida, assumir Bárbara e ingênua
acreditei.
Começamos a sair, tudo estava indo bem, de repente ele começou a
exigir sexo e quando recusava, ele me batia, depois pedia desculpas, dizia
que estava bêbado e não sabia o que estava fazendo, até que um dia os tapas
não foram o bastante. Ele ameaçou Bárbara com uma arma, me espancou e
me estuprou na frente da minha filha.
Desmaiei enquanto ele me violentava e só acordei no dia seguinte,
estava toda dolorida, ensanguentada, mas a dor maior era saber que deixei
minha filha a mercê daquele monstro. Bárbara disse que ele não tocou nela,

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o que foi um alívio, no entanto não amenizava a minha culpa; deveria


protegê-la e não fui capaz de fazê-lo. No mesmo dia arrumei as nossas
roupas e voltei para a casa de Lúcia.
Ela e o Leônidas nos receberam de braços abertos e quiseram saber o
que havia acontecido, porque estava coberta de hematomas; menti, disse que
arrombaram o apartamento, me bateram e levaram tudo. Na verdade, o
apartamento estava alugado em nome do Plínio e com exceção dos colchões
e fogão, tudo o que havia tinha sido comprado por ele, não queria nada que
fosse que tivesse vindo dele.
Você deve estar se perguntando porque não prestei queixa ou fui a um
PS tomar o coquetel antirretroviral. Bem, uma coisa levaria a outra e
poderia significar a descoberta da minha identidade. Se meus pais fossem
acionados e levassem minha filha embora, nunca me perdoaria.
No mês seguinte, sofri alguns desmaios na lanchonete, estava
sonolenta e só de sentir o cheiro de fritura corria para vomitar. Lúcia me
perguntou se havia a possibilidade de estar grávida, logo neguei, contudo,
lembrei que não havia menstruado e contei a ela e o Leônidas tudo o que
havia acontecido, inclusive a verdade sobre o meu nome e porquê fugi de
casa.
Eles entenderam minha preocupação em procurar a polícia e me
apoiaram com a gestação. Lúcia me acompanhou na consulta médica e
contou o que havia acontecido, sem entrar em detalhes, quando fiz os exames
de DST`s descobrimos que um filho não era o único resultado daquele
estupro. O vírus estava no meu sangue, mas poderia evitar a transmissão
para o meu filho. Iniciei o tratamento e Guga nasceu saudável.
Há sete anos sou soropositivo, minha carga viral tem se mantido
estável por todo esse tempo. Os efeitos colaterais dos medicamentos me
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incomodavam no início, hoje nem lembro que eles existem. Em sete anos,
minha sorologia nunca teve grande importância na minha vida, havia me
desiludido com a ideia de conhecer alguém e quem sabe constituir uma
família.
Se o meu pai e um policial, que deveriam ser figuras que nos mantém
em segurança, haviam sido os meus agressores, em que mais poderia
confiar?
Ainda não sabia que Sam Allencar entraria na minha vida.
Soube no momento em que te vi que você era problema.
Fiquei impressionada como um garoto podia ser tão seguro de si.
Intrigada pelo jeito sem cerimônia que você dizia o que pensava.
Atraída pelo cara que não via problema em trocar um encontro por
uma visita ao hospital, para acompanhar uma mulher que mal conhecia.
Apaixonada pelo homem que conheci dia após a dia.
Não vi quando o garoto problema deixou de ser problema.
Quando percebi ele já era o amor da minha vida.
E me fez tão feliz.
Obrigada, Fani.”

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PARTE 3
“Um dia você será velho o bastante para voltar a ler contos de fadas”
C.S. Lewis

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Capítulo 46

Sam Allencar
“O verdadeiro amor é difícil,
mas uma vez encontrado não poderá ser destruído”
Once Upon a Time
Uma onda sentimentos têm me afligido nos últimos dois dias.
Tudo por causa dela.
Rafani.
A garota dos olhos multicolores.
A mulher que pisou na porra do meu coração.
A única maldita mulher que me fez querer mais do que sexo.
A minha maldita exceção.
Suspiro profundamente, peço licença a mulher sentada ao meu lado,
pego minha mochila embaixo do assento e levanto.
− Senhor, por favor, sente-se. Vamos decolar. – a comissária de bordo
avisa.
− Preciso sair.
− Por favor, o senhor não pode ficar em pé, sente-se e coloque o cinto.
− Não.
− Senhor, o senhor não pode... – a comissária para na minha frente.
− Exatamente, não posso ir embora. – afirmo, interrompendo-a. – Ela
não sabe, mas a amo.
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− Senhor, ela terá que esperar um pouco, sente-se. – a comissária me


obriga a sentar.
Respiro frustrado.
Poderia ter decidido voltar há vinte minutos e em pouco mais de uma
hora estaria de volta à Curitiba. O que fiz? Banquei a porra da putinha
indecisa.
Passei as últimas quarenta e oito horas girando em círculos dentro da
porcaria da minha cabeça, relendo a carta que ela me deixou e tentando
desembaralhar os meus sentimentos. Quando consigo resolver o caralho
dessa equação, estou em São Paulo preso em um avião para Dubai.
Quem foi que disse que o destino não tem bom humor?
Ao contrário do destino, o meu humor estava péssimo. Depois de vinte
horas de voo, desembarquei em Dubai exausto e só consegui voo de volta
com duas conexões, para três horas mais tarde.
Não dormia há mais de setenta e duas horas, alguns cochilos rápidos
durante o voo foi tudo o que consegui. Vinte e seis horas depois estava
saltando do táxi em frente à casa de Rafani e foda-se que era duas da
madrugada.
Meu celular estava descarregado, portanto só me restava bater e esperar
que ela não se assustasse. Bati algumas vezes e nada, estava quase desistindo
quando a porta entreabriu, deixando uma pequena fresta; estava escuro e não
conseguia identificar se era ela ou Bárbara.
− Sam?
A sua entonação transparecia confusão e descrença.
− Preciso falar com você.

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− Agora? – diz baixinho e se afasta, sinalizando para entrar.


− Não posso mais esperar.
Paro rente a parede lateral. Ela tranca a porta e acende um abajur.
Coloco minha mochila no chão e me aproximo, afasto os cabelos do seu
rosto, admirando os seus olhos. Senti falta de tocá-la, uma espiral de desejo
precipita-se sobre os meus dedos, apoderando-se da minha corrente
sanguínea.
− Você parece cansado.
− Passei as últimas 46 horas de um voo em outro, nem saí do aeroporto
de Dubai.
− Por quê? – murmura.
Passo os meus braços ao redor do seu corpo, puxando-a para mim.
Rafani suspira e desliza a mão pelo meu tórax. Inclino o meu rosto e a
beijo, apertando-a entre os meus braços.
Ela entreabre os lábios, exigindo a minha língua; sorrio, deposito um
selinho e abro os olhos. Espero, sentindo a sua respiração aquecer-me;
quando suas pálpebras revelam os olhos multicolores, volto a beijá-la, um
selinho mínimo.
− Precisava dizer que te amo.
− Você atravessou o oceano para dizer que me ama?
− Fazer o que? – sussurro, arranhando-a com minha barba. – Gosto de
grandes gestos. – completo, soprando o seu pescoço, deixando-a arrepiada. –
Já podemos ter o nosso próprio filme.
− Drama? – pergunta ofegante.
− O que for. – a incito para o meu colo. – Só quero a porra de um final
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feliz!
− Se você quiser um tempo para pensar melhor.
− Meu cérebro fritou de tanto pensar. – sugo o seu lábio. – Quero te
amar.
– Aqui? – ela aperta os lábios, as bochechas assumindo uma tonalidade
vermelha. – Bárbara e Guga podem nos ouvir.
– Prometo que vou pegar leve. – digo, levando-a para o quarto. – Vou
deixar o sexo ensandecido para quando estivermos sozinhos em Dubai.
– Ai, garoto! – ela sorri.
– Quais as restrições para sexo oral?
– Desde que não haja nenhuma lesão na minha boca ou na... – ela pausa
e afunda o rosto no meu pescoço, envergonhada. – Você sabe. – completa. –
Nem você esteja com alguma ferida ou afta, sem problema.
Empurro a porta do quarto, aprumo a mão na sua bunda, apoiando-a em
um braço e passo o trinco na fechadura.
Acendo o abajur e coloco o joelho sobre a cama, deixando-a sentada.
Arrasto sua camisola pela cabeça, faço o mesmo com minha camisa, então
me debruço sobre o seu corpo, cobrindo seus seios de beijos e fazendo com
ela se deite.
Com as mãos em taça massageio os seus seios, escorregando a língua
para o seu abdômen. Devagar a minha língua traça o percurso até a linha da
sua calcinha e minhas mãos acompanham a descida, moldando suas curvas na
ponta dos meus dedos. Ela arfa e se contorce, arqueando levemente as costas.
Beijo a sua pele logo acima da calcinha. Prendo o tecido entre os
dentes, encaixo o indicador de ambas as mãos na lateral da calcinha e abaixo

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pouco a pouco, meus lábios raspando sua pele.


Quando enfim deslizo a calcinha pelos seus tornozelos, me jogo de
encontro ao seu corpo, furtando-lhe um beijo. Rafani libera o meu cabelo do
coque e delineia os músculos dos meus ombros e bíceps.
Continuo beijando-a, indo dos lábios para a sua orelha, de volta aos
lábios, descendo para o seu queixo, lábios outra vez. Declino o meu rosto
para o seu pescoço, provocando-a com o roçar da barba sobre sua pele,
entreabro os lábios e a beijo delicadamente, ao mesmo tempo em que meus
dedos desaparecem entre suas pernas.
– Hoje vou cumprir a promessa que fiz na primeira vez que trocamos
mensagens. – chupo o seu seio; um depois o outro. – Vou te degustar como o
mais nobre dos vinhos.
– Sam? – ela ofega. – Você não precisa faz...
– Quero ter você por inteiro.
Levantei, chutei os meus sapatos e meias fora, tirei a calça e voltei para
a cama. Deslizei as mãos por suas pernas e corri a língua na parte interna das
suas coxas, parando a milímetros da sua intimidade.
Podia sentir a sua expectativa. Observei seu corpo reagindo ao meu
toque, os grandes lábios tremulando, meus dedos submergindo na sua fenda.
Aproximei a ponta da língua, impelindo-a sobre o seu clitóris, estimulando-o.
Rafani deu um gritinho de prazer, sorri e aprofundei a carícia.
O som encharcado dos meus dedos movendo-se cobertos pela sua
umidade estavam me deixando alucinado. Sentia as suas contrações, os seus
gemidos abafados pelo travesseiro, o clitóris intumescido sob a minha língua.
Retirei os dedos rapidamente, mantendo-os entre seus lábios, então me
afastei, apreciando o esplendor da sua excitação.

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– Samhh...
Caí de boca, mergulhando minha língua na sua fenda e abarcando
grandes e pequenos lábios. Espasmos se espalharam por suas pernas,
enquanto ela urrava, mordendo o travesseiro.
Não queria perder nenhum segundo do seu clímax, por isso enquanto
minha língua e lábios trabalhavam para proporcionar o máximo de prazer,
meus olhos não desgrudavam dela. Seus seios balançavam ritmados e o
abdômen serpenteava, arqueando a sua pélvis.
Espasmos e contrações se intensificavam, ela estava vindo. Aumentei a
intensidade dos chupões e a vi cruzar os braços sobre o travesseiro,
apertando-o contra o rosto, e o seu gozo derramar-se nos meus lábios.
Ela jogou o travesseiro de lado e olhou nos meus olhos, vendo-me
beijá-la e lamber o seu gozo. Havia um brilho diferente no seu olhar, como se
não restassem mais dúvidas ou incertezas.
Ao vê-la umedecer os lábios, esgueirei-me sobre o seu corpo e parei
sorrindo diante do seu rosto. Ela levou ambas as mãos ao meu rosto e puxou-
me para si, beijando-me com paixão.

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Capítulo 47

Rafani Lemos
“Confusão e medo estão aí para te lembrar
que em algum lugar há algo melhor
e algo pelo qual vale a pena lutar”
One Tree Hill
Quando deixei o apartamento do Sam, no sábado pela manhã, pensei
que não fosse voltar a encontrá-lo. De repente, ele aparece na minha porta às
duas da manhã e diz que me ama, com todas as letras, mais do que isso, ele
me proporcionou uma noite intensa de amor, sem receios, aceitando minha
condição de soropositivo.
Depois do sexo, tomamos banho juntos pela primeira vez. Alguns
beijos, e abraços embaixo do jato de água morna, carícias leves, sem sexo
como fim, afinal precisávamos estabelecer uma margem de segurança. A
camisinha perde boa parte da lubrificação em contato com a água, o que pode
levar ao seu rompimento, logo nada de sexo embaixo d´água.
Após o banho, o deixei no quarto e fui na cozinha preparar algo para
ele comer, quando voltei o encontrei dormindo. Deixei o sanduíche e o suco
sobre a cômoda e sentei ao seu lado na cama, alisando os seus cabelos e
percorrendo as elevações da sua musculatura.
Ele estava deitado de bruços, usando apenas uma boxer, os braços
abertos e o cabelo bagunçado, caindo sobre o rosto. Afaguei a sua têmpora
com o polegar, ele murmurou, algo como um pedido de desculpas por ter

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pego no sono. Sorri e beijei o seu rosto, roçando os meus lábios na sua barba.
Deitei, tirei a camisola, ajeitei o edredom sobre nós e o abracei. Não
conseguia fechar os olhos. Imaginei se ele estaria ali quando acordasse. Ou
estaria abraçada com o meu travesseiro? Será que estava sonhando?
Refleti a respeito e concluí que não sou tão criativa a ponto de imaginar
os orgasmos que ele provocou. Relutante, fechei os olhos e planei a palma da
mão nas suas costas, acariciando-o, até adormecer.
Acordei com o alarme do despertador, estava com um travesseiro entre
as pernas, as mãos pendendo na lateral da cama. Estendi a mão para o criado-
mudo e desativei o alarme. Soltei um suspiro frustrado, sem acreditar que
tudo não passou de um sonho. Empurrei o edredom irritada e senti um peso
sobre o meu abdômen, me impedindo de levantar.
Abaixei os olhos e percebi que não estava sozinha, não foi um sonho.
Virei o rosto e o vi, um braço sobre o meu abdômen, prendendo-me junto
dele. Segurei sua mão, livrando-me do abraço, para poder levantar, e quando
estava quase conseguindo sair, ele rolou na cama, agarrando-me e colando o
corpo no meu; a ereção com toda sua exuberância pressionada contra a minha
bunda.
Ele beijou o meu pescoço, ronronando, como um gato. Meu corpo dava
claros sinais de excitação, lembranças da noite passada fomentavam o meu
desejo de senti-lo afundar entre as minhas pernas, o que me fazia pensar no
seu membro e puta merda ele tem um senhor pau.
– Sam, preciso levantar. – digo, sem nenhuma convicção.
– Fica. – sussurra, a voz grave enrouquecida.
– Tenho que acordar o Guga e levá-lo para escola.
– Vou com você. – ele beija o meu ombro. – Eu disse que te amo? –
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afunda o rosto na base do meu pescoço. Com a ponta do nariz ele traceja uma
rota até o lóbulo da minha orelha. – Te amo pra caralho, mulher.
– Não quero que você se sinta obrigado a dizer porq...
– Fani, pare. – ele me vira de costas na cama e se apoia no cotovelo, o
rosto pairando logo acima do meu. Nossos olhos se conectam. – Desde o
momento que te deixei sozinha no meu apartamento, não parei de pensar em
nós, no quanto você significa para mim, no porquê tinha ficado tão irritado
por você ter escondido sobre o HIV. – ele me dá um selinho. – Foi aí que
descobri que não importa quantos elementos sejam somados a essa equação,
o resultado é sempre o mesmo, porque você é a minha exceção.
– Não quero que você se arrependa, Sam. Há muita coisa em jogo,
coisas que agora podem não significar nada para você, mas que com o tempo
começam a pesar.
– Você está enganada, não há nada em que não tenha pensado, assim
como não há nada que me faça voltar atrás.
– Nunca vamos poder fazer sexo sem proteção, a barreira de látex
sempre vai estar entre nós.
– Não é a porra de um látex que vai me castrar. – ele umedece os
lábios. – Isso nunca vai me impedir te fazer gozar.
– Filhos?
– Uma garota de dezenove e um moleque de cinco anos.
– E se você quiser outro?
– Adoção? Inseminação artificial? O que você preferir.
– Sua família?
– Meus pais sabem e, praticamente, me chamaram de imbecil por ter

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pulado fora daquele jeito.


– Se essa informação se tornar pública? Qual o impacto na sua carreira?
– fecho os olhos, deixando as lágrimas caírem. – As pessoas discriminam
aquilo que não entendem, Sam. – abro os olhos e acaricio o seu rosto. –
Ninguém pergunta como aconteceu ou se o vírus está sob controle, se você é
soropositivo é visto como um risco biológico, ninguém quer estar perto,
porque você é visto como uma arma humana. Um simples incidente, como
um corte no dedo, é visto como um atentado terrorista.
– Eu te amo, acostume-se com isso. – ele enxuga as minhas lágrimas
com beijos. – Desculpa por ter agido exatamente assim. – sussurra. – Fui um
idiota e me sinto horrível por ter feito você se sentir mal. Aliás, agi como a
merda de playboy presunçoso, me perdoa.
– Te amo. – sorrio entre lágrimas.
– Mãe? – Bárbara chama e dá três batidas porta.
– Oi, filha.
– Dei banho no Guga e ele está tomando café, mas vou me atrasar se
for levá-lo.
– Pode deixar, estou levantando.
– Você está bem? Acho que vou faltar a aula hoje e podemos ir ao
cinema, só eu, você e o Guga.
– Bárbara, sua mãe precisa refazer as malas para Dubai, lamento.
– Sam?! – ela exclama surpresa. – Vocês estão... que vergonha.
– Faça novas reservas.
– Não me ligue, vou demorar para esquecer esse momento
constrangedor, envio todas as informações por email. Desculpem, não tive a

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intenção de atrapalhar.
– Babi, nós estávamos acordando.
– Mãe, não precisa explicar. Tchau. Quer que leve o Guga?
– Bárbara, a gente cuida do Guga, vai logo ou vou descontar o seu
atraso.
– Sam, não pense que sua barra está limpa comigo, ainda te devo um
soco no meio da porra da sua cara.
– Bárbara! – a repreendo.
– É justo, mas é melhor você pedir para o seu namorado me bater,
projeto de gente.
– Sam Allencar, você não perde por esperar.
– Sam? Ele está aqui?
– Guga, vá escovar os dentes. – diz Bárbara.
– Mãe, o Sam está aí? – ele bate na porta do quarto.
– Roupas, rápido. – sussurro.
– Guga, banheiro, depois você fala com a mãe.
– Isso é divertido. – Sam sorri e me dá um beijo. – Estou me sentindo
um adolescente flagrado pelos pais da namorada.
– Mamãe, abre a porta.
Levantamos, catando as roupas e vestindo-as rápido. Sam pega minha
camisola e joga para mim, quando termino de vesti-la, ele está abotoando a
calça.
– Minha camisa? – pergunta, olhando embaixo da cama.
– Mamãe, por favor, abre.
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– Guga, você vai chegar atrasado na escola, vá escovar os dentes. –


Bárbara insiste.
– Acho que deixamos no banheiro.
– Mamãe!!!
– Estou indo, filho. Vai encarar minhas ferinhas? – aponto para a porta.
Sam se aproxima e coloca as mãos no meu quadril.
– Nossas ferinhas. – ele corrige e me dá um beijo na testa. – Não fuja.
Não entendi o aviso e fiquei olhando-o confusa, enquanto ele se
afastava para abrir a porta. Lágrimas despontaram nos meus olhos ao ver o
Guga pular no seu colo.
Bárbara tinha uma mão sobre a boca e os olhos sorriam, assistindo o
abraço emocionado que o meu pequeno compartilhava com o Sam. Havia
apenas dois dias que tínhamos terminado, mas não podia esconder do Guga,
ele adora o Sam e depois da confusão sobre a minha identidade, mentir não
era uma opção.
– Mamãe disse que você tinha ido embora.
– Sua mãe não sabe de nada. Tenho uma pergunta para você e Bárbara.
– ele ajeita o Guga, deixando-o sentado sobre o braço esquerdo, e estende a
mão para Bárbara, puxando-a e beijando os seus cabelos. – Falem baixo, não
quero que sua mãe nos ouça.
– Bonito, Sam Allencar, corrompendo os meus filhos. – acuso.
– Fani, te amo, mas fica quietinha, porque o papo aqui é sério.

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Capítulo 48

Murilo Valverde
“O que eu queria?
Eu queria que lutasse por mim.
Queria que dissesse que não há mais ninguém com quem ficaria.
E que prefere ficar só, do que ficar sem mim”.
One Tree Hill
Devo ser o homem mais desastrado no quesito romance, a cada
tentativa de impressionar Bárbara, a reação dela me deixa desnorteado. Sei
que não estamos juntos há muito tempo, mas não preciso esperar nem mais
um dia para saber que ela é a mulher com quem quero compartilhar a minha
vida.
Há dois meses comprei um anel para pedi-la em casamento,
completamos seis meses no final do mês, estava planejando uma viagem para
Paris, queria propor aos pés da Torre Eiffel, tinha inclusive combinado com o
Sam para antecipar dez dias das férias dela, seria o momento perfeito.
Acontece que estávamos assistindo uma comédia romântica no sábado
à tarde, um filme antigo, que Bárbara disse que é um dos seus favoritos: “Dez
coisas que odeio em você”. No filme tem uma cena onde o cara faz uma
declaração em público para a garota e Bárbara teceu a sua revelia a tais
gestos.
Murchei na hora, os meus planos, de fazer uma grande cena romântica,
haviam se transformado na pior das ideias. O restante do filme, minha mente
estava em outro lugar, pensando em como, onde e quando pedir Bárbara em
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casamento, por fim tive uma ideia. Terminamos de ver o filme, fizemos um
lanche, regado por alguns amassos e a convidei para sair.
Tenho uma casa, é um sobrado com jardim, quintal amplo, com piscina
e churrasqueira, fachada em pedras decorativas e sacada ao redor de todo os
quartos.
Sam é a única pessoa que sabe da existência dessa casa e ficou me
azucrinando por um bom tempo depois que o levei para conhecer o lugar,
porque confessei que desenvolvi o projeto pensando em um dia ver os meus
filhos correndo por ali.
“Quem é ela?” – perguntou.
“Ainda não sei”.
“Você construiu uma casa para uma mulher que não existe?”
“Ela existe, só não a encontrei ainda”.
“Você descobriu que está com um tumor?”
“Não, Sam” – gargalhei.
“Essa porra não faz sentido, Murilo”.
“Você nunca pensou em ter filhos?”
“Tenho 24 anos!”
“Eu penso. Não amanhã, mas um dia, quando encontrar a mulher
certa”.
Havia se passado um ano e alguns meses daquela conversa, e lá estava
ela: Bárbara Lemos, a mulher com quem queria construir a minha família.
Não disse para onde estávamos indo e o olhar dela quando ativei o
controle da garagem no sobrado foi tão desconfiado que gelou o meu
coração.
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“Essa casa é sua?” − ela estreitou os olhos. Podia ver a sua mente
arquitetando hipóteses estapafúrdias, que sugeriam que o apartamento era o
meu local de abate, destinado as orgias e sexo depravado.
“Sim e não”. – disse, saindo do carro e fazendo a volta para abrir sua
porta. Quando alcancei o seu lado do carro, ela estava em pé, recostada na
porta, com os braços cruzados e uma expressão séria.
“Sim ou não, Murilo?”
“Não tenho mulher e filhos escondidos aqui, Bah”. – esclareci, antes
que ela imaginasse que era minha amante. – “Quero que você me diga o que
acha da casa”.
Entrelacei as nossas mãos e a conduzi para o jardim, podíamos entrar
na casa pela garagem, no entanto, queria que a primeira vez que ela pusesse
os pés na nossa casa fosse pela porta principal.
O interior da casa era um grande vazio, com exceção do jardim de
inverno, ao lado da escada no canto direito da sala, vidros e paredes brancas
ocupavam toda a área.
“Uau. – Bárbara disse baixinho, fazendo um giro pelo ambiente. −
Você projetou?”
“Sim”.
“Uau” – repetiu.
Sorri com a sua reação. Fizemos um tour pelo nível térreo, quintal e
somente depois a levei ao nível superior. Mostrei cada cômodo, deixando por
último a suíte principal, estrategicamente projetada no centro da casa, as
portas para a sacada ficam acima da entrada do térreo, toda em vidro exibem
a paisagem exuberante do Parque Barigui.
Bárbara abriu a porta e saiu para a sacada, fiquei logo atrás,
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observando-a, memorizando o momento em que a pediria em casamento. Ela


estava usando uma calça jeans cintura alta, com rasgões pelas pernas, um
cropped cinza soltinho, deixando à mostra uma fração mínima do seu
abdômen, e tênis. Os cabelos castanhos estavam soltos e se moviam com o
vento.
“Mô, é lindo”. – ela virou de costas para a sacada.
Afastei-me do batente da porta e caminhei ao seu encontro. Bárbara
ficou na ponta dos pés e jogou os braços sobre os meus ombros. Puxei a caixa
de veludo do bolso do jeans, antes de passar os meus braços em volta da sua
cintura, então a beijei.
Sempre achei esse lance de borboletas no estômago coisa de
mulherzinha, mas não havia outra forma de descrever a sensação que
dominava o meu corpo naquele momento.
Interrompi o beijo e a virei para a sacada, repousando uma mão sobre o
seu abdômen.
“Imagina contemplar esse pôr do sol todos os dias”. – sussurrei,
beijando o seu ombro. Meus dedos trêmulos tentavam abrir a caixa, sem que
ela notasse. – “Dormir sob a luz da lua. Eu e você, nossa casa, nossos
filhos”.
“Mô”. – disse baixinho, virando-se para mim.
“Bah, casa comigo?” – perguntei, segurando a caixa diante dos seus
olhos, o pequeno diamante refletindo os raios de sol.
“Oh, meu Deus”. – ela levou as mãos aos lábios.
O silêncio caiu como um véu sobre nós. Os olhos de Bárbara estavam
em conflito, indo dos meus para o anel, e vice-versa, repetidas vezes. Meu
coração trepidava, socando a caixa torácica, meus olhos se recusavam a
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acreditar que ela pudesse sair correndo a qualquer minuto.


Eu a tinha pedido em casamento, não para ser cúmplice de um
assassinato, por que ela parecia estar com medo?
Quando enfim fui capaz de articular as palavras, dissemos os nossos
nomes em uníssono. Pedi que ela prosseguisse, ansioso por uma resposta.
“Murilo”. – ela mirou por alguns segundos o anel, então abaixou a
tampa da caixa e fechou a minha mão ao seu redor, colocando fim à todas as
minhas expectativas. – “Não quero ser sua mulher”.
“Caralho”. – me afastei, apertando a porcaria da caixa entre os dedos.
Não podia acreditar no que estava ouvindo.
“Não era isso o que queria dizer, Murilo”.
“Você não deixou espaço para má interpretação, Bárbara”. –
comentei, passando a mão nos cabelos.
“Escuta, por favor”. – pediu, segurando o meu bíceps. – “Você é
Murilo Valverde, engenheiro mecânico e coordenador externo de uma
grande multinacional. E eu? Apenas uma universitária, posso ser brilhante,
mas se estiver casada com você só serei isso, a sua mulher. Sou apaixonada
pela engenharia tanto quanto você, Murilo, não é justo não ter a chance de
conquistar o meu lugar, porque me casei com você”.
“O quê? Você acha que vou impedir que vejam o quanto você é uma
profissional competente? Não vou te trancar em casa, Bárbara!”
“Não assim, Murilo. Tenta entender, vou ficar na sua sombra”.
“Então o que você está dizendo é que nós nunca iremos ser mais do
que namorados?”
“Mô, não faz isso”.

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“Quero entender, Bárbara” – arremessei a maldita caixa pela sacada.


“Murilo, não!” – ela gritou, mas era tarde demais.
A caixa fazia o seu curso pelos ares, até desaparecer.
“Não vou ser a porra do seu namorado para sempre. Se você não quer
ser a minha mulher, não vejo porquê continuarmos juntos. Eu te amo, mas
prefiro sofrer agora do que continuar fantasiando com a porra de uma
família que nunca vou ter”.
“Murilo, a gente pode conversar sobre isso depois. Daqui um ano ou
dois”.
“Para que, Bárbara? Para você me dizer que vamos ter que namorar
escondido, porque se as pessoas nos verem juntos vão achar que você está
me usando como escada para ser reconhecida?”
“É isso o que você acha?”
“É isso o que você está dizendo. Não tente inverter o jogo, é você quem
está me dando o fora”.
“Nós nem fizemos sexo, Murilo!”
“Excelente argumento, Bárbara.” – ironizei. – “Você não quer ser a
minha mulher porque posso não ser capaz de te dar prazer? Entendido.”
“Por que você distorce tudo o que digo?” – ela acertou um soco no
meu peito. – “Eu posso não ser capaz de te dar prazer!”
“Você só precisa aceitar que precisa de ajuda”.
“Não quero falar sobre isso, Murilo”.
“Você nunca quer”.
“Acho que precisamos de um tempo”.

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“Acho que você precisa de outro namorado, um que não dê a mínima


para o que você sente, talvez assim você perceba o quanto te amo”.
“Você pode me levar embora?”
O desfecho do meu pedido de casamento foi “um tempo” no nosso
relacionamento. A últimas palavras que trocamos foram na sacada, nos
despedimos com um aceno, na frente da casa dela, e voltei para o sobrado.
Deitei no porcelanato gelado da sacada e fiquei olhando o céu, por toda
a noite, assistindo os meus sonhos morrerem, pouco a pouco. Ainda não
podia acreditar que ela havia dito que não quer ser minha mulher.

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Capítulo 49

Bárbara Lemos
“Ás vezes as ilusões são melhores que a realidade”
Once Upon a Time
Quando saí no sábado para almoçar com o Murilo não sabia o que
havia acontecido entre Sam e minha mãe; achei estranho ela ter chegado logo
cedo, mas ela sempre soube como esconder a sua dor.
A encontrei cozinhando quando acordei, cantarolando baixinho, dei um
beijo na sua bochecha e ela perguntou se iria ficar para o almoço, falei que
tinha combinado de sair com Murilo, mas que podíamos deixar para depois
do almoço.
“Vá se divertir com o seu namorado”. – disse e me deu um beijo nos
cabelos. – “Amanhã a gente conversa”.
Não deveria ter saído de casa, soube quando Murilo me pediu em
casamento. Ele estava segurando um anel, dizendo que queria construir uma
família comigo e a minha resposta foi a pior e mais impensada: “não quero
ser sua mulher”.
A partir desse ponto não houve entendimento, gritamos, discutimos, ele
disse que preferia terminar, pedi um tempo e terminamos a noite sem nos
falar. Ele dirigiu até a minha casa em silêncio, trocamos um aceno de
despedida e quando entrei em casa, querendo afundar no meu travesseiro e
chorar, encontrei minha mãe no sofá, aos prantos, e Guga dormindo no seu
colo.
“Mãe, o que houve?”
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“Ele descobriu”.
Eu pedi tantas vezes que ela contasse a verdade ao Sam, sabia que seria
mais fácil se ele soubesse por ela, mas não era hora de julgá-la por guardar
esse segredo; entendo os seus medos e receios, quase ninguém entende que o
HIV não impede que você tenha relações saudáveis.
Levei Guga para o quarto. Fui à cozinha, preparei uma chávena de chá
de hortelã com canela, servi duas xícaras, entreguei uma à minha mãe e me
enrosquei ao seu lado, segurando a minha xícara.
Não contei sobre a minha briga com Murilo, nem sobre o pedido de
casamento, apenas escutei enquanto ela me contava sobre Samantha, o seu
pai, e como o seu teste de HIV foi parar nas mãos do Sam.
Chorei com minha mãe, por ela e por mim, porque ambas estávamos
sozinhas outra vez. O nosso final feliz não passava de uma ilusão, nem
deveria estar surpresa, afinal contos de fadas não existem. E pensar que
cheguei a acreditar que o Sam ficaria ao lado dela, depositei toda a minha fé
no sentimento que ele dizia ter pela minha mãe; ela estava feliz, Guga estava
feliz, e agora acabou.
Tinha que me manter forte por eles, minha família precisava de mim.
Somente quando fui para o meu quarto deixei que a minha dor transbordasse.
Peguei o celular dezenas de vezes para escrever para o Murilo, mas não
havia o que ser dito. Ele tem razão quando diz que preciso de ajuda, mas não
quero ter que falar sobre os meus medos, quero esquecê-los. No fundo espero
que um dia eles desapareçam, sem deixar rastros, como se nunca tivessem
existido.
Odeio associar o Murilo à possibilidade iminente de estupro ou
submissão, contudo ele está numa posição muito mais favorável do que eu;

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ele é um homem rico, respeitado, em outros termos, tem tanto poder para me
aprisionar e fazer o que quiser comigo como o pai da minha mãe tinha sobre
ela, porque ninguém vai suspeitar de um homem na posição dele, que pode
ter o que e quem quiser; se algo der errado, a culpa é minha, a vadia
interesseira.
Por que ele quer casar?
O que tem de errado em sermos namorados?
Ele quer filhos, será que não percebe que ainda estou na universidade?
Não posso parar a minha vida para ser esposa e mãe em tempo integral.
Estudei muito para entrar na universidade, ele não pode querer que abandone
tudo. Se bem que ele não pediu para deixar a universidade, ele me pediu em
casamento, e tecnicamente uma coisa não impede a outra; não posso ser
injusta, Murilo está sempre me incentivando a estudar.
Por que é tudo tão confuso na minha cabeça?
Por que não consigo deixar de ter medo?
É loucura, mas imagino que se concordar em casar, um dia vou acordar
e ele vai estar me dando ordens, dizendo o que posso ou não fazer. Ou então
ele vai cansar de esperar pela nossa primeira vez e vai fazer o mesmo que o
Plínio fez com a minha mãe.
Sinto um aperto no peito, a respiração arrastada, então estou sentada no
chão do quarto, vejo minha mãe chorando, as lágrimas misturadas com
sangue espalham-se pelas maçãs do seu rosto, ela coloca um dedo sobre a
boca, me pedindo para ficar quieta.
Prendo a respiração, aperto a minha boneca entre os braços, sinto o
gosto das lágrimas nos meus lábios. Mordo a parte interna da bochecha, me
impedindo de chorar alto, minha mãe mandou ficar quieta.
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Uma mão acerta um tapa no rosto dela, vejo os seus olhos fechados,
sangue escorre pela sua boca, ergo os olhos assustada e ele ainda está lá, em
cima da minha mãe, empurrando o seu corpo nojento contra o dela.
Odeio o Plínio, eu o odeio, ele machucou a minha mãe.
De repente, não estou mais no quarto, estou na escola. A professora me
manda sair da sala, não entendo o porquê, mas obedeço. Quando estou no
corredor o Plínio aparece e me manda ir com ele. Falo que não vou, não
posso, minha mãe vai brigar.
Ele chama a professora, eles se beijam, depois ela diz que Plínio precisa
me mostrar algo, que se não obedecer, minha mãe vai ficar sabendo e vai
ficar brava comigo.
Eu vou. Não quero ir, mas vou, para não deixar a minha mãe brava.
Plínio sai comigo da escola, falo que não posso sair, porque minha mãe
vai me buscar, ele não me escuta, sai me arrastando e me faz entrar no carro.
Reconheço o lugar que ele me leva, é a nossa antiga casa, tento dizer
que nos mudamos, Plínio fica irritado e me manda calar a boca. Quando
entramos na casa, haviam três garotos, um devia ser da minha idade, os
outros dois eram maiores.
“Lembra o que falei para você?” – Plínio perguntou, tirando a minha
blusa.
Cobri os meus peitos, estava com vergonha.
“Seja boazinha e abra as pernas quando te mandarem”. – ele apertou
meu queixo. – “Vamos ver se você aprendeu, vadia”.
Ele disse aos garotos que podiam brincar comigo.
Não queria brincar, queria voltar para a escola.

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Queria a minha mãe.


Eles tiraram as minhas roupas, me deixaram nua e depois me
derrubaram na cama, os dois garotos maiores seguraram minhas pernas,
abrindo os meus joelhos e o garoto menor abaixou a bermuda, colocou uma
camisinha e se meteu entre as minhas pernas.
Eu gritei de dor, as lágrimas não paravam, os outros garotos me
soltaram, abaixaram suas calças, um colocou o pênis na minha boca e o outro
foi para trás do garoto que estava em cima de mim e começou a penetrá-lo, o
garoto começou a se mover mais rápido; não conseguia gritar, nem chorar,
porque estava engasgando com o outro empurrando seu pênis fedido na
minha boca.
Fechei os olhos e desejei que acabasse logo, só queria ir embora. Ouvia
Plínio gargalhando e quando todos os garotos haviam me estuprado, ele me
mandou tomar um banho para limpar o sangue, depois me levou de volta para
a escola e disse que se contasse à minha mãe, iria matá-la.
Abri os olhos e estava de volta ao meu quarto.
Sentia as lágrimas caindo sobre o meu busto, mas não havia som, era
um choro mudo.
“Eles me estupraram”. – disse baixinho.
Levantei e bati na porta do quarto da minha mãe, não iria contar sobre o
que acabara de lembrar, hoje não era um bom dia, mas precisava do seu colo.
“Mãe?” – chamei, abrindo a porta.
“Entra, Babi”.
“Posso dormir aqui?”
“Claro, meu amor”. – ela esfregou a mão nos olhos. Ainda devia estar

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chorando, sei o quanto ela gosta do Sam. Deitei ao seu lado, secando minhas
lágrimas. – “Algum problema?” – perguntou, me abraçando.
“Não”. – menti, fechando os olhos e beijando a sua mão. – “Vamos
ficar bem, mãe”
“Vamos sim, filha”.

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Capítulo 50

Sam Allencar
“Me contentaria com qualquer coisa, qualquer pedacinho seu,
mas seria melhor, se fosse você inteira, pois eu te amo.
Casa comigo?”
Grey´s Anatomy
− Eba! – Guga grita.
− Segredo, lembra? – murmuro e ele tapa a boca com as mãos.
− Você tem certeza? – Bárbara questiona.
− Não é uma proposta que se faça sem pensar muito a respeito.
− Sim, né? – ela morde o lábio.
− Guga? – olho para o moleque pendurado no meu colo. Ele balança a
cabeça enfaticamente, os olhos castanho brilhando de empolgação. – Fani?
Ela está na frente do guarda-roupa, fingindo que está muito ocupada
procurando algo para vestir, quando na verdade estava tentando ouvir o que
conversávamos.
− Terminaram? – ela arqueia a sobrancelha.
− Terminamos? – olho da Bárbara para o Guga.
− Sim, sim. – eles respondem.
− Bárbara, você está atrasada. – diz séria. − Gustavo, quero você com
os dentes escovados quando terminar de me vestir.

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− E eu?
− Você faz o que quiser. – ela vira de volta para o guarda-roupa, me
ignorando.
− Foi você quem mandou. – coloco Guga no chão e a agarro por trás,
nos jogando na cama. – O que você acha de ser a sra. Allencar? – pergunto,
rolando e prendendo-a entre as minhas pernas; minhas mãos segurando os
seus punhos.
− É melhor, a gente adiantar, Guga.
− Quero ouvir a resposta da mamãe!
− Eu também. – digo.
− Você está falando sério? – Rafani pergunta.
− Sam, atraso justificado, vou deixar o Guga na escola. – Bárbara pega
o irmão no colo. − Aproveitem a manhã de folga. – ela fecha a porta.
− Estou esperando o meu sim.
− Precisamos definir o que significa casamento?
− Conheço todas as definições. – sugo o seu lábio inferior. – Estou me
oferecendo para pôr uma algema de livre e espontânea vontade, você nem
imagina o tipo de merda que vou ouvir por causa disso.
− Ah, imagino sim. – ela sorri. – Tenho uma condição.
− Aceito.
− Você nem sabe o que é. – ela enrola os dedos no meu cabelo.
− Contando que não seja ser enrabado, aceito.
− Sam. – ela gargalha.
− É sério, aceito tudo, menos isso e ménage com outro homem.

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− Você só pensa em sexo.


− Penso em você mais do que penso em sexo, isso significa que penso
pra caralho em você.
− Quero acesso irrestrito ao bate-papo dos dominados.
− Puta merda, isso é uma declaração pública de dominado.
− Só quero saber o que vocês tanto conversam.
− Putaria. – sorrio. – Você tem acesso ao que quiser. – resvalo os meus
dedos sob a sua calcinha. – Esse aqui é o único acesso que quero. – encaixo
um dedo na sua fenda. – Vem gozar comigo, Fani.
Ela geme e remexe o quadril, o seu jeito de pedir para ir mais fundo.
Dou o que ela quer, deixo que ela chegue à beira do precipício, um toque e
ela pularia para o orgasmo, então a puxo de volta.
Removo os meus dedos, deixando-a inchada e molhada, babando pelo
meu pau. Levanto, despindo-me, visto a camisinha e afundo entre as suas
pernas, sentindo o seu corpo acomodando-se ao meu.
Rolo na cama, deixando-a por cima. Ela trava as pernas ao lado do meu
quadril, apertando-me e movendo-se mais rápido. Os lábios sugando os meus,
puxando-os levemente.
Minhas mãos acompanham as curvas do seu corpo e param sobre sua
bunda, apalpando-a com força e incitando-a a mover-se mais intensamente.
Rafani espalma a mão no meu peito e ergue o tronco, sem perder o compasso
do bamboleio, seus seios saltam obedecendo o ritmo dos nossos corpos.
− Santos Deus, mulher! – exclamo, afundando os dedos na pele da sua
bunda. – Isso, Fani. – mordo o lábio. – Forte, dura e profundamente. – agarro
o seu seio. − Sente meu pau soterrado em você.

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Ela gemia e rebolava mais, para frente e para trás, cima e embaixo; o
som molhado da sua excitação zunia ao encontro da nossa pélvis.
Deixei que ela nos conduzisse e, ao sinal do seu orgasmo, a derrubei na
cama, ela cruzou as pernas no meu quadril, e investi fundo, sentindo as
minhas bolas baterem contra a sua carne quente e macia; as suas contrações
cingiam o meu pau, empurrando-me para o precipício.
Uma, duas, três investidas.
Urro ao som da sua respiração ofegante, contemplando a explosão
orgástica. Ela retesa os pés sobre os meus glúteos, impelindo mais pressão,
continuo movendo-me, ainda sinto os seus espasmos no meu pau, agora mais
espaçados e suaves. Encosto os nossos lábios e nos beijamos lentamente,
ficamos assim por um tempo, antes de nos afastarmos para remover a
camisinha e irmos tomar banho.
Não iria deixar que o assunto casamento fosse esquecido, o banho foi o
momento de discutirmos como faríamos. Minha única exigência era que
acontecesse logo. Rafani disse que por ela não precisava haver uma
cerimônia, concordei, mas ainda não bati o martelo sobre esse detalhe, decidi
que preciso de algumas opiniões femininas, afinal ela tem todo um complexo
de inferioridade e por trás desse “não precisa” pode estar um “não mereço”.
Decidimos de comum acordo que Dubai será a nossa lua de mel
adiantada, por isso ela só irá retornar comigo, dentro de vinte dias. Outra
decisão mútua é em relação a irmos morar juntos quando voltarmos de
viagem e para isso ela vai escolher um dos meus imóveis para ser a nossa
casa.
As concordâncias pararam por aí. Argumentei que ela não precisa
voltar a trabalhar no hotel e podia encaminhar um pedido de demissão, assim
quando voltássemos ela iria apenas assinar a rescisão e pagaríamos a multa
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do aviso prévio. Contudo, ela se recusa a parar de trabalhar. Expliquei que


não estava pedindo que ela deixasse de trabalhar, só não era necessário ela
trabalhar como atendente de um restaurante, o que foi rebatido com uma
cruzada de braço e um olhar furioso, seguido por um: “não vou me tornar
uma Samantha, se for o que você está procurando, case-se com ela”.
Depois disso, ela saiu do banheiro, batendo a porta. Enxaguei os meus
cabelos, enrolei uma toalha nos quadris e fui atrás dela. A encontrei no
quarto, revirando o guarda-roupa.
− Fani, quero você.
− Saiba que as coisas vão continuar como são, só estaremos morando
na mesma casa.
− Compramos um restaurante ou um hotel, aí você pode administrá-lo.
− Não tenho dinheiro, Sam.
− Eu tenho, você será minha mulher, logo o meu dinheiro será nosso.
− Sam, quero ter meu próprio dinheiro, não vou depender de você.
− Estou dizendo exatamente isso, você terá o seu trabalho, algo seu.
− Que você vai comprar?
− Um presente de casamento.
− Quem dá um hotel de presente de casamento? – ela arqueia a
sobrancelha.
− Eu. – dou de ombros. – Meu irmão construiu uma escola de música
para minha cunhada, posso construir um hotel para você. Qualquer coisa,
Fani, apenas me diga o que você quer.
− Só quero trabalhar, Sam. – ela se aproxima e afaga o meu rosto.
− Onde?
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− No hotel.
− Mas você será a minha mulher, vai aparecer em revistas.
− Não quero aparecer em revistas.
− Não é sempre, fujo delas ao máximo, mas às vezes tenho que
aparecer, e se você continuar atendendo no restaurante vai chover jornalista
no seu pé.
− Não sei como administrar um hotel.
− Você pode fazer alguns cursos, faculdade, se quiser.
− Ser sua mulher está parecendo complicado demais.
− Não é complicado. – circundo sua cintura. − Basta você entender que
como minha mulher você tem muito dinheiro, muito mesmo.
− Se você for mesmo construir algo, que seja um abrigo para ajudar
mulheres e crianças vítimas de violência doméstica e abuso, quero que elas
saibam que há um lugar para onde podem ir e estar em segurança. Tive a
sorte de encontrar Lúcia e Leônidas, se não fosse por eles acabaria morta ou
me prostituindo para sobreviver.
− Um abrigo. – sorrio. − Tenho um terreno no centro da cidade, fácil
acesso, acho que você vai gostar. Podemos ir ver hoje e se você aprovar,
começo a desenvolver o projeto o quanto antes.
− Se vou aparecer em revistas, vou tirar proveito disso para arrecadar
fundos para o abrigo.
− Conte comigo. – deposito um selinho nos seus lábios. – Minha mãe e
as minhas avós vão adorar essa ideia.

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Capítulo 51

Murilo Valverde
“Ninguém pode subestimar como o passado explica o presente”
Pretty Little Liars
A madrugada de sábado para domingo passei na sacada do sobrado, o
céu estava cheio de estrelas, queria que Bárbara estivesse comigo, iria ensiná-
la a identificar as constelações; podíamos comprar um telescópio e todas as
noites conheceríamos um pouco mais do universo.
Sou um idiota apaixonado, deveria prestar mais atenção ao que o Sam
diz, ele sabia desde o início, não existe romantismo para homens como nós.
Seria bom ter o meu melhor amigo para desabafar, mas ele estava em
um avião para Dubai. Embora, com ele namorando a minha sogra, não seria
legal envolvê-lo nas minhas confusões com Bárbara. Só queria que ele me
dissesse que o meu pedido não tem nada de absurdo e que Bárbara está sendo
paranoica, não tem como prejudicá-la profissionalmente pelo simples fato de
amá-la e querer que ela seja a minha mulher.
Domingo de manhã voltei para o meu apartamento, passei o dia
descontando a minha irritação na mesa de sinuca e virando copos e mais
copos de whisky; quando acabaram, foi a vez das cervejas.
Acordei na segunda-feira com o barulho insuportável do alarme,
deitado no tapete da sala, ao lado de algumas garrafas vazias e fedendo a suor
e álcool. Meu último banho tinha sido antes de levar Bárbara para conhecer a
merda daquela casa, levantei praguejando e entrei embaixo do jato d`água
sem nem tirar a roupa.

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A resseca só não era maior do que a minha revolta por ela ser tão
turrona. Por que ela não pode conversar comigo? Ela disse, e somente porque
a ouvi conversando com Rafani, que inconscientemente tem medo que eu
possa forçá-la ou obrigá-la a fazer sexo comigo, acredito que deveríamos nos
debruçar sobre esse problema e assim descobrir os reais motivos por trás do
seu medo, mas Bárbara se recusa a falar.
Entendo que ela queira esquecer, todavia não consigo ignorar um
problema quando ele está diante dos meus olhos. Cansei de sugerir que ela
faça terapia, então iniciei uma terapia, não porque ficar sem sexo esteja me
deixando louco, o que é uma realidade, mas porque preciso descobrir como
ajudá-la.
Minha sessão é toda segunda no final da tarde, o que me deu tempo de
aliviar a ressaca. Minha tentativa de despejar um pouco do meu drama nos
ouvidos do Sam não funcionou, o celular dele estava na caixa postal, sendo
assim não podia ser diferente, o assunto da sessão foi Bárbara; contei sobre o
pedido de casamento, os argumentos nada a ver que ela usou, e
principalmente sobre a sua resposta imediata ao meu pedido: “não quero ser
sua mulher”.
Não vi algo render tanto quando a porra dessa frase, a psicóloga
perguntou o porquê me incomodou tanto as palavras que Bárbara usou.
Não era óbvio?
Olhei para ela por longos minutos, ouvindo Bárbara repetindo essa
frase na minha cabeça e ela continuava me incomodando tanto quanto da
primeira vez. Irritado, esbravejei, falei o quanto desejava ter Bárbara como
minha mulher, o que significou para mim ouvi-la dizer que não era o que
queria, e no final ela me olhou com toda sua tranquilidade e perguntou se
havia questionado a Bárbara o que quis dizer com aquela frase.
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Ela estava me zoando? Levantei furioso, andei de um lado ao outro da


sala e repeti a frase pausadamente, somente para ouvi-la reforçar a sua
maldita pergunta: “Você perguntou o que significa para ela ser sua mulher?”
Frustrado, sentei e narrei a desculpa que Bárbara usou por ter dito
aquelas palavras, quando terminei de falar percebi que havia um abismo
imenso entre o significado que ambos atribuíamos a “ser minha mulher” e
finalmente entendi que não é que Bárbara não queria construir uma família
comigo, o que ela não quer é ser reduzida à “mulher de Murilo Valverde”,
como se ela não existisse sem mim.
Pensei em ir esperá-la na saída da aula, no entanto segurei a minha
ansiedade e fui para casa, no dia seguinte a procuraria. Ela pediu um tempo,
talvez ainda não estivesse pronta para conversar, se fosse o caso queria que
soubesse que estaria esperando por ela, e aparecer do nada na sua
universidade parecia dizer o oposto disso.
Se ela quiser terminar, não sei como irei reagir. Mandei uma mensagem
na terça de manhã, convidando-a para almoçar comigo. A resposta só veio às
onze horas, respondi no mesmo instante, dizendo que em duas horas estaria
esperando por ela no estacionamento do prédio.
Bárbara não é de se atrasar, mas ela estava dez minutos atrasada,
parecia um mal sinal. Verifiquei o celular e não havia nenhuma mensagem
dela.
Ela me avisaria se tivesse mudado de ideia?
Deitei a cabeça no volante e fiquei cantarolando baixinho. Mais dez
minutos e alguém bateu na janela do carona. Era ela. Destravei a porta e ela
deslizou no banco, os olhos encabulados; me lembrou a primeira vez que a
levei para sair.

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− Desculpe o atraso, tive que fazer algumas mudanças na agenda do


Sam. – explica, alisando as pernas.
− Bah, desculpa pelo que falei no sábado. – seguro sua mão sobre a
coxa. – Se você ainda quiser um tempo, tudo bem, mas não quero terminar.
− Não quero um tempo, Mô. – ela morde o lábio.
− Não vamos brigar mais. – me inclino, deslizando uma mão na sua
nuca. – Faremos como você quiser, Bah.
− Você vai precisar ser paciente, existem coisas que preciso superar
para podermos ficar juntos de verdade. – ela afasta os cabelos do meu rosto. –
Te amo, Mô, queria me jogar nos seus braços sem medo, mas...
− A gente vai conseguir. – afago o seu rosto.
− Preciso que você esteja comigo mais do que nunca, o que vou te
contar, vai ficar entre nós.
– Estou com você, Bah. – enxugo suas lágrimas.
− A gente pode conversar à noite? Tenho avaliação hoje, te ligo quando
terminar e nos encontramos, pode ser?
− Te busco e a gente vai para algum lugar. Como você está fazendo
com o Guga? Lizzie que ficou de buscá-lo na escola?
− Preciso te atualizar, seu amigo é tão maluco. – ela sorri.
− O que aquele viado fez? Tentei falar com ele ontem, mas só dava
caixa postal.
− Ele desembarcou em Dubai e embarcou de volta. À noite te conto os
detalhes, mas ele e minha mãe tinham terminado, então ele voltou de
madrugada e a pediu em casamento hoje de manhã.
− Sam pediu a sua mãe em casamento?
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− Se não tivesse visto, não acreditaria.


− Eles vão casar? – pergunto, recostando meu corpo no assento.
Meus olhos fixam-se no ponteiro do painel.
Estou com inveja do meu melhor amigo, que caralho.
− Acho que sim. – Bárbara murmura e coloca a mão na minha perna.

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Capítulo 53

Bárbara Lemos
“Às vezes, as pessoas esquecem as coisas,
até que estejam prontas para lidar com elas.
O tempo pode curar”.
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Murilo havia ficado pesaroso depois que contei sobre o casamento,


deve ser confuso para ele ver a relação da minha mãe e do Sam fluindo,
apesar dos abusos que ela sofreu, enquanto entre nós as coisas parecem
estagnadas.
Eu mesma achava estranho, afinal havia sido uma mera expectadora,
não deveria deixar uma cicatriz tão profunda. Quando as lembranças vieram
foi que percebi que o meu problema é muito maior, a minha ferida ainda está
aberta, apenas tinha fechado os olhos para ela, acreditando que esquecer fosse
fazer a dor ir embora.
Ele me buscou na universidade por volta de vinte horas. Nós fizemos as
pazes no almoço, no entanto era como se tivéssemos pisando em ovos,
preocupados em dizer algo que fosse magoar o outro.
Quando me perguntou onde queria ir, pedi que ele me levasse ao
sobrado. Ele me olhou por alguns segundos, avaliando minha expressão,
então deu um suspiro e começou a dirigir.
− Você quer ir para algum lugar específico? – pergunta, caminhando ao
meu lado na garagem.
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− Que tal o quintal? – entrelaço nossas mãos.


− Onde você quiser ir, Bah.
Nós deitamos na grama, a alguns metros da piscina. Murilo cruzou os
braços embaixo da cabeça, deixando em evidência os bíceps e parte da sua
tatuagem; ele tem um dragão tatuado em metade das costas e, ao que pude
observar, as garras do dragão cobrem parte da sua bunda, assim como as asas
se estendem pelo seu braço direito.
Morro de curiosidade de ver a tatuagem por inteiro, mas a única vez
que o vi sem roupas ele estava deitado e depois entrei em pânico, com direito
a lágrimas e o momento passou. Deitei ao seu lado, usando sua jaqueta como
travesseiro, buscando a melhor forma de começar a falar. Não há, é uma
realidade cruel e feia, impossível de ser mascarada.
− Você sabia que o centro da Via Láctea fica na constelação de
Sagitário? – pergunta, com os olhos atentos ao céu.
− Nem sabia que a Via Láctea tinha um centro.
− Todas as coisas têm um centro, Bah, até mesmo nós. − ele tira um dos
braços debaixo da cabeça e pega minha mão, apontando para o infinito
estrelado acima de nós. – Ali fica a constelação de Sagitário, você consegue
ver um bule?
− Bule? Sagitário é um bule? – pergunto entre risos. – Só vejo vários
pontos brilhantes.
− É um centauro, mas se você não consegue ver o bule, imagino que
um centauro esteja fora de questão.
− Acertou. – seguro sua mão sobre os meus seios. − Você está vendo
um centauro?
− Eu sei exatamente o que procurar, então se torna simples. Quando era
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moleque passava noites no sótão de casa observando o céu com um binóculo.


− Deve ser ainda mais lindo.
− É sim, qualquer dia te mostro o céu através da lente de um telescópio.
− Você disse que nós temos um centro, é o coração?
− Por muito tempo o coração foi visto como o nosso centro, mas eles
estavam errados. – Murilo fica em silêncio por alguns segundos, ainda
observando as estrelas. − Somos seres complexos e o centro de quem nós
somos é o equilíbrio entre razão e emoção, se houver uma pequena fissura em
um ou outro. – ele deita de lado e anela uma mecha dos meus cabelos. − É
como se ficássemos aprisionados. – completa, olhando nos meus olhos.
− Você precisa saber que não tenho uma fissura, e sim uma cratera. –
mordo o lábio. – Prometa que não vai contar a ninguém, nem ao Sam, muito
menos à minha mãe.
− Bah, confie em mim.
− Não sei como, mas havia suprimido essa memória. – narro ao Murilo
as minhas lembranças do estupro. Em determinado momento, ele senta,
repousa os braços sobre os joelhos e aperta as mãos, como se estivesse
esmagando algo. Ele não me interrompe, deixa que descreva cada detalhe. –
Eles me xingavam e debochavam de mim, falavam que nunca iria esquecer
deles, pois tinham fodido minha virgindade e nenhum cara ia querer uma
cachorra suja e arrombada como eu.
− Olha nos meus olhos, Bah. – Murilo segura minha nuca e aproxima o
rosto do meu. Os olhos verdes estão maiores do que o normal. – Amo você.
Se pudesse estar lá, estaria, daria tudo para ter impedido o que esses filhos da
puta fizeram com você. – ele afaga minha bochecha. – Infelizmente, não
posso mudar o passado, mas vou te ajudar a enterrar toda essa merda e eles

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estavam tão errados, Bah. Eles foram uns covardes que violaram o seu corpo,
a sua primeira vez será nos meus braços.
− Você ainda quer ficar comigo? – sorrio entre as lágrimas que não
param de rolar pelas maçãs do meu rosto.
− Ainda quero casar com você.
− Eu quero, Mô. – sussurro.
− Você quer? – ele se afasta e analisa a minha expressão.
− Quero. – balanço a cabeça. – Sei que preciso resolver o meu impasse
sexual, porque casar sem sexo não deve ser o seu maior sonho, mas sim,
quero ser sua mulher, Mô.
− Não me importo de esperar pela nossa primeira vez, Bah. – ele me dá
um selinho. − Que seja depois do casamento, vou esperar ansioso pelo dia
que você será minha, completamente minha. Vou te proteger com a minha
vida e aquele filho da puta vai pagar pelo que fez, de um jeito ou de outro.
− Murilo, não. – peço aflita, segurando seu rosto. – Ele é policial, pode
armar para você.
− Você vai me dizer onde encontrar esse cara. – diz entredentes. – A
morte é muito pouco para ele.
− Mô, por favor, ele pode te investigar, descobrir sobre o Guga, você
prometeu.
− Prometi que não ia contar nada a ninguém e não vou, mas esse cara é
um monstro, ele estuprou a sua mãe, a contaminou com HIV, te raptou e
colocou três marginais para te estuprar, ele precisa pagar.
− Murilo, não quero que você seja preso por culpa dele.
− Não serei, não se preocupe. Você disse que ele tem esse bar com

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strippers, o que deve funcionar como fachada para prostituição e tráfico de


drogas, tudo ilegal, só vou entregar o endereço do bar para um amigo, ele
manda uma tropa fazer uma batida no local e o vagabundo é preso.
− Ele é policial, Murilo! Deve molhar a mão de muita gente para
manter o negócio sujo na ativa.
− Bah, o Lucca é delegado da narcóticos. Esse tal de Plínio é um
policial corrupto, estuprador e dono de um prostibulo, o Lucca vai adorar o
presente.
− Lucca? O seu amigo?
− Sim. – ele meneia a cabeça. – Sei que você sabe onde encontrá-lo,
poupe o meu tempo e vamos colocar esse filho da puta na cadeia.
− Você vai deixar o Lucca agir? Nada de bancar o herói?
− As regras são do Lucca, prometo.
− Não tenho o endereço, mas sei onde fica.
− Vamos dar uma volta? – ele levanta e estende a mão para me ajudar a
levantar. – Quero colocar um ponto final nessa história de uma vez por todas.
− Se você sair do carro, dou o fora.
− Só quero o endereço, palavra de escoteiro. – ele ergue a mão, em
forma de juramento.
− Você por acaso foi escoteiro alguma vez na vida? – estreito os olhos.
− Não. – ele sorri e me puxa para um beijo.

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Capítulo 54

Sam Allencar
“Nós escolhemos o nosso próprio caminho.
Nossos valores e nossas ações, eles definem quem nós somos”
The Vampire Diaries
Bárbara reservou novas passagens para quarta de madrugada. Minha
mala havia ficado em Dubai, despachei para o hotel por um portador, mas
como sempre levo algumas roupas na bagagem de mão para o caso de
extravio, os pares de roupas que tinha na mochila eram suficientes para ficar
os dois dias pré-viagem na casa de Rafani.
Na quarta à noite estava ajudando Guga no dever de casa quando recebi
uma mensagem do Murilo: “Me encontra nesse endereço, acho que você não
vai querer perder essa”.
Disse à Rafani que precisava ir no meu apartamento, iria pegar umas
roupas sobressalentes e não demorava, ela comentou que deveria ter ido
durante o dia, porque iríamos levantar de madrugada e seria bom descansar,
mas não fez perguntas.
Estacionei ao lado do carro do Murilo e ele me mandou uma
mensagem. Olhei pelo retrovisor sem acreditar que o viado estava querendo
conversar por mensagem. Liguei para ele, porque não ia ficar digitando.
− Que viadagem é essa? Não saia do carro, que merda de mensagem é
essa?
− Tem um bar de strippers a sua direita, é do Plínio. Lucca e uma
equipe de polícias vão bater lá daqui a pouco.
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− Você está falando do filho da puta que estuprou à Fani?


− Ele mesmo, depois você me agradece.
− Caralho, viado!
− Não precisa babar o meu pau!
− Vá se foder, porra!
− Sam, fica ligado, porque Lucca vai sair com Plínio e vai deixar os
outros policiais cuidarem das prisões. Nós vamos seguir o carro do Lucca, ele
vai parar numa estrada de terra alguns quilômetros daqui e nos dar algumas
horas para acertar as contas com o vagabundo. Não é para matar o cara,
entendeu?
− Você está falando do filho da puta que estuprou a minha mulher.
− Ele vai sofrer mais se estiver vivo, Lucca vai garantir que ele receba
o tratamento de luxo dado aos estupradores na cadeia.
− Não vou pegar leve, Murilo. Ele vai ficar vivo, não garanto por
quanto tempo.
− Se precisar, vou te socar. Não vou deixar que esse cara foda a sua
vida, Rafani não merece passar por mais sofrimento.
− Faça o que precisar.
Desliguei o celular e fiquei com os olhos fixos na porta do bar. Minhas
mãos apertavam o volante, ansiando pelo momento em que colocaria as mãos
no Plínio.
Não demorou para as viaturas pararem em frente ao local, eles entraram
com armas em punho e uma gritaria teve início, homens e mulheres seminuas
eram algemados, alguns corriam, tentando escapar.
Meus olhos estavam estreitos sobre a pequena porta com uma luz
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azulada de fundo, queria ver o rosto do filho da puta que machucou à Rafani.
Quando avistei Lucca saindo arrastando um homem, meus músculos se
retesaram, liguei o motor do carro, olhei pelo retrovisor e Murilo assentiu.
Nem desliguei o carro, quando Lucca parou a viatura e arrastou o filho
da puta, jogando-o no chão, saltei do carro, agarrando-o pelo pescoço e
arremessando-o longe; pouco me importava se ele estava algemado e não
podia se defender, Rafani não pode se defender e isso não o impediu.
Sentia a cólera em cada músculo do meu corpo, avancei para cima dele
e Murilo já o segurava acima da sua cabeça, estrangulando-o pelo colarinho e
com a outra mão apertava a merda que ele um dia chamou de pau. O filho da
puta urrava de dor e Murilo sussurrava algo.
De novo jogado no chão, foi a minha vez de levantá-lo e socá-lo. O
mantive em pé, segurando-o pela garganta e soquei as suas costelas repetidas
vezes, olhando-o bem dentro daqueles olhos imundos.
− Filho da puta miserável, isso é pela Fani! – continuo esmurrando as
suas costelas. − Por você ter colocado essas mãos imundas nela, seu merda!
− Qu-quem... – ele engasga com o próprio sangue.
− Cala a boca! – acerto uma joelhada entre suas pernas e deixo que ele
se contorça de dor no chão.
− Não fui eu quem fodeu sua vadia! – diz, tossindo e cuspindo sangue.
− Está surdo, desgraçado? – o levanto e aperto a sua garganta. –
Maressah. – digo entredentes. Seus olhos se arregalam. – Deveria te matar
pelo que fez com ela, deveria arrancar a porra do seu pau fora.
− Cump. Ord. – ele engasga outra vez e dessa vez não afrouxo o aperto,
ao contrário, afundo mais os meus dedos ao redor da sua garganta.
− A morte é pouco para um saco de merda como você.
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− Joga o desgraçado para cá. – Murilo pede.


Por sei lá quanto tempo, revezamos os socos, até que o monstro
covarde não pudesse mais ficar em pé sobre as próprias pernas. Ainda não era
o bastante, nenhuma dor que pudesse infligir nele seria o bastante para vingar
o tanto de sofrimento que ele trouxe para a vida de Rafani. Ele a espancou, a
estuprou, a contaminou com o HIV; nem se ele morresse três vezes pelas
minhas mãos seria o bastante para saciar o ódio que ele desperta em mim.
Murilo havia deixado o filho da puta comigo, não fazia ideia de onde
ele e Lucca estavam, meus olhos não desviavam do bastardo. Disparava
socos e pontapés contra o pedaço de estrume na minha frente, assistia o
sangue jorrar pelo seu rosto e nada diminuía a minha raiva.
− É o suficiente! – Lucca grita atrás de mim.
− Não é e nunca será. – retruco, chutando o Plínio.
− Vamos embora. – diz Murilo.
− E deixar o filho da puta livre? – vocifero.
− Ele está preso, vou garantir que morra preso. – Lucca argumenta.
Levanto o Plínio, analisando a cara do desgraçado. Ele está ofegando,
botando jatos de sangue pela boca, um olho fechado. O seguro o mais alto
que posso e o arremesso no chão, chutando-o entre suas pernas.
Quando estou me abaixando para fazê-lo levantar de novo, um soco
acerta o meu estômago. Viro rápido e o meu punho encontra o maxilar do
Murilo, ao mesmo tempo em que um punho se choca contra o meu nariz.
− Caralho! – Murilo resmunga.
− PORRA, SUA PUTA! – esbravejo.
− Acabou, vão embora. – Lucca ordena.

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− Você me bateu, porra! – encaro o Lucca.


− Alguém tinha que te parar, agora vão. – ele aponta para os carros. –
Vou cuidar desse aqui. – diz, levantando Plínio pela gola da camisa.
Esfrego a mão no nariz. Murilo massageia o maxilar e bate no meu
ombro. Entramos nos carros e dirigimos para a casa de Rafani, teria sido
interessante passar no meu apartamento e me limpar, mas não pensei, nem o
Murilo.
Estacionamentos em frente à casa e esperamos na porta, conversando e
rindo, somente quando Bárbara abriu a porta e nos encarou assustada, foi que
notamos que estávamos com muito sangue nas roupas.
− O que diabos aconteceu? – Bárbara pergunta, olhando-nos dos pés à
cabeça.
− A gente pode entrar e você faz as perguntas depois? – digo, passando
por ela.
− Sam?! O que... Onde você foi?
− Não façam tanto drama, não foi nada demais. – Murilo tenta
minimizar os danos. – Posso tomar um banho?
− Você vai me dizer exatamente o que aconteceu, Murilo. – Bárbara
cruza os braços e o encara furiosa.
− Foi uma briga, coisa de homem. – dou de ombros.
− De quem é esse sangue? – Rafani arqueia a sobrancelha. – Sem
mentiras, por favor.
− Do Plínio. – confesso.
− Vocês se meteram numa briga com o Plínio? Vocês se feriram? – ela
levanta a minha camisa e me examina. − Ele tem HIV e posso dizer, por

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experiência própria, que numa carga viral alta.


− Ele estava algemado, foi uma cortesia de um amigo. Estamos ilesos,
ele não tanto. – Murilo meneia a cabeça e sorri.
− Tirem essas roupas, por favor. – Rafani pede. − Bárbara, pegue uma
roupa do Sam para o Murilo. Vá tomar banho. – ela empurra o Murilo. – O
que você tem na cabeça? – pergunta, me levando para a área de serviço.
− Não ia perder a chance de espancar aquele filho da puta.
− Ele foi preso? – pergunta, tirando minha camisa.
− Sim. Lucca o prendeu, não sei mais detalhes.
− Algum ferimento? – ela inspeciona as minhas costas.
− Não, mulher. – sorrio. – Foi uma surra e não uma briga.
− Obrigada. – ela segura o meu rosto. – Te amo. – sussurra, roçando os
lábios nos meus. – Mas se você aparecer assim de novo, te mato. – completa,
me fazendo gargalhar.

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Capítulo 55

Rafani Lemos
“A vida é uma série de escolhas,
uma combinação de momentos pequenos,
que adicionados a grandes momentos,
tornam você quem é”.
Glee
Dubai foi incrível.
Para o Sam era uma viagem de trabalho e pensei que acabaria sozinha
no quarto de hotel a maior parte do tempo; como estava enganada.
Houveram muitos jantares de negócios, ele me arrastou para todos e de
um jeito inacreditável, no estilo Sam Allencar de ser, ele conseguiu me deixar
confortável; discutia sobre montantes de investimento sem deixar de ser
atencioso e carinhoso. O acompanhei também em algumas visitas à obra.
Ele passou muitas noites debruçado sobre plantas e com o notebook no
colo, fazendo ajustes no projeto, o que acontecia entre uma e outra rodada de
sexo.
Quando ele não estava trabalhando e não estávamos ocupados demais
para sair da cama, visitávamos as ruas e praças de Dubai, comíamos em
restaurantes exóticos, outros com vistas espetaculares.
Na última semana em Dubai Sam estava misterioso, o flagrei trocando
mensagens tarde da noite e quando estava comigo disfarçava e fingia que era
algo relacionado ao trabalho.

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Na véspera de embarcarmos ele disse que teria uma surpresa quando


desembarcássemos em Curitiba, um pouco mais de detalhes seria uma boa
pedida, principalmente, porque quando saímos do portão de desembarque
uma loira alta e magérrima, com cabelos encaracolados, olhos azuis e um
manequim de passarela se jogou nos seus braços, toda saltitante.
− Saudades de você. – comenta, beijando o rosto dele e olhando nos
meus olhos. – Prazer, sou a Chloe. – ela me estendeu a mão. − Ouvi muito
sobre você, Fani.
− Ouviu? – arqueio a sobrancelha.
− Você não contou a ela que eu estaria aqui? – Chloe fuzila o Sam.
− Falei que teria uma surpresa. – ele dá de ombros.
− Homens. – ela revira os olhos. – Fani, nós somos amigos, fui a
primeira a saber que ele estava apaixonado por você, ele estava comigo em
Nova York enquanto pensava sobre o que estava sentindo. Ele é inteligente,
mas pode ser bem lento quando o assunto é o coração. Sou irmã do Andy,
que é casado com sua cunhada, a Mel. Ah, e vou desenhar o seu vestido de
casamento.
Enquanto a Miss Passarela tagarelava, me atropelando com um mundo
de informações, meus pensamentos estavam fixos em um ponto: ele tinha
dormido com ela. Não havia conseguido identificar nenhum defeito nela, pele
sedosa, cabelos com cachos perfeitos, sem a droga de um frizz, ela nem devia
ter a merda de uma celulite.
Vestido de casamento?
A análise minuciosa que meu cérebro fazia da garota perfeita que tinha
feito sexo com o meu namorado por possíveis centenas de vezes parou ao
ouvir ela mencionar um vestido de casamento.

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− Chloe, vá com calma. – Sam toca o seu ombro.


− Estou um pouco cansada da viagem e com saudades dos meus filhos,
podemos adiar essa conversa?
− Como você quiser. – ela sorri, exibindo os dentes brancos, pequenos
e perfeitamente alinhados. – Cheguei agora a pouco de Tóquio, estou
exaurida. Louca por um banho de sais.
Ela não estava cansada, estava exaurida. Sério? Além de linda a Miss
Passarela não é uma cabeça oca.
Ela disse Tóquio?
− Vamos, garotas. – Sam coloca uma mão na minha lombar.
− Aquela sua banheira seria um sonho agora, uma hora de hidro e
estaria a todo vapor.
Não era mais uma teoria, eles transaram.
Olho para o Sam, incapaz de esconder o meu ciúme. Ele me dá um
beijo na têmpora. Não na boca, na têmpora! Estou ficando muito irritada, se
essa garota for ficar no apartamento dele, não vou me segurar.
No percurso para o apartamento do Sam, o táxi deixou a Miss Passarela
em um hotel. Mirei bem nos olhos cor de chocolate do meu namorado, quase
marido, com um aviso silencioso, que espero que ele tenha entendido e
considerado o perigo em que estava se metendo.
Fiz questão de empurrar a minha mala até o elevador e sair arrastando-a
no corredor do seu apartamento, fazendo o melhor para ignorar as suas
tentativas de amolecer o meu coração.
Agora ele queria me beijar na boca?
Esperei olhando para o nada enquanto ele destrancava a porta; entrei,

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jogando a mala em frente a estante e virando para encará-lo.


− Você transou com ela!
− Você está com ciúmes? – ele morde o lábio inferior, e os cantos dos
lábios se curvam em um sorriso idiota. – Que linda! – diz, puxando-me para
os seus braços.
− Você transou com ela, Sam!!! – bato no seu peito.
− Antes de você. – diz entre risos.
− Você fez sexo com a srta. Perfeitinha. Meu Deus! – tento me soltar
do seu abraço.
− Foi antes de você. – ele repete, apertando os braços na minha lombar.
− Ela poderia ser capa de revista. Ela nem parece real, porra! – soco o
peito dele de novo.
− Fani. – ele trava um braço ao redor da minha cintura e segura-me
firme, deslizando uma mão na minha nuca. – Me apaixonei por você.
− Imagine que eu tenha feito sexo com o Jensen Ackles, é o equivalente
a como estou me sentindo.
− Que porra de Jensen Ackles! – ele agarra a minha bunda e fricciona
as nossas pélvis. – Isso é o que você faz com o meu pau. – sussurra, me
girando e colando as minhas costas na estante. – É você e essa sua boceta
encharcada que vão sentir o meu pau entrando e saindo, tão forte e fundo que
vai gozar várias vezes. – diz, empurrando minha calcinha.
Não tinha argumentos, o feixe de nervos pulsava entre as minhas
pernas, a excitação vinha como ondas, deixando-me ensopada. Ele não perdia
tempo, brincava com os dedos, enquanto me ocupava de encontrar uma
camisinha na sua carteira.

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O meu vestido voou, sua camisa perdeu alguns dos botões na minha
tentativa desenfreada de abri-la e suas calças ficaram presas na metade das
pernas.
Quando ajustei a camisinha no seu membro, Sam terminou de tirar a
camisa, levou as mãos para os meus quadris e me impulsionou para o seu
colo, penetrando-me em um deslizar célere.
Ele se movia muito rápido. O meu corpo imprensado entre as
prateleiras da estante, sentindo-o me preencher. Ouvia os livros caírem, o
som do vaivém dos nossos corpos, os nossos lábios desesperados se
devorando. Eu o abraçava pelo pescoço, arranhando-o nos ombros e puxando
os seus cabelos, desmanchando-me em gemidos e orgasmos violentos.
Meu corpo parecia estar convulsionando, quando começava a relaxar de
um orgasmo era atingida por outro, o aperto das minhas pernas no seu quadril
começava a afrouxar e ele continuava como uma chama tórrida entre as
minhas pernas; não podia distinguir entre o seu membro pulsando e os meus
músculos contraindo, ele era tão meu.
Arfei, exausta, a cabeça tombando sobre alguns livros. Ele deu um
sorriso safado, afundou o rosto no meu pescoço e deixou-se vir, urrando
contra a minha pele, liberando o seu orgasmo, e por longos segundos senti o
meu corpo vibrando em resposta ao seu.

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Capítulo 56

Bárbara Lemos
“Tudo é possível...
E as outras coisas também são”.
Dexter

Os boatos sobre a viagem a dois haviam se espalhado por cada setor da


empresa enquanto o Sam estava fora, fotos dele e minha mãe em Dubai
foram compartilhadas por mensagens e e-mails, não me pergunte como.
Minha mãe ficou assustada, logo pensou que poderia ser Samantha
espionando-os, mas Sam levou na esportiva, disse que o pessoal da empresa
estava surpreso por vê-lo encoleirado e apostava que as fotos logo
apareceriam em alguma revista.
Ele estava certo, a foto em que estavam no restaurante, sorrindo
descontraidamente, foi capa de uma revista de alta circulação; na matéria, de
cinco páginas, especulações sobre a mulher misteriosa que laçou o cobiçado
engenheiro Sam Allencar.
Minha mãe achou que estava brincando quando contei da revista e
quase enfartou quando enviei uma foto do Guga segurando a revista aberta na
matéria sobre eles. Sam gargalhou e disse que ela poderia se preparar, porque
logo receberiam convites para entrevistas, afinal a notícia sobre o casamento
abalaria o mundo das fofocas.
Eu, realmente, queria entender como o Sam consegue não dar a mínima
para o fato de estarem todos falando sobre a sua vida; ele voltou ao escritório

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atiçando os ânimos dos curiosos, com uma aliança impossível de não ser
notada. Enquanto eu estava à beira de um colapso porque tinha combinado
com Murilo que iríamos contar sobre o nosso casamento quando eles
voltassem de viagem.
Depois que contei ao Murilo sobre o estupro, ele comentou que estava
fazendo terapia para me ajudar; achei uma atitude tão fofa e cuidadosa, ficou
claro que no nosso relacionamento a balança estava em total desequilíbrio,
ele estava se doando muito mais do que eu.
Decidi que precisava me esforçar mais para fazer dar certo e concordei
em iniciar a terapia. Diferente do que pensei, falar não me deixava mal, sentia
que podia cuspir a raiva, a frustração e a dor que por tanto tempo me fizeram
prisioneira. Todavia, ainda não estou pronta para falar com a minha mãe
sobre o que aconteceu, talvez nunca esteja.
− Sam, tenho saído mais cedo nas sextas, tudo bem? É só uma hora, aí
estou descontando do meu horário de almoço.
− Ok. – diz e abaixa a tela do notebook. – Devo me preocupar? –
estende a mão para a cadeira, me convidando para sentar.
− Murilo te contou? – resmungo, puxando a cadeira.
− O quê? – ele estreita os olhos. – Você está grávida?
− Não. – sorrio. – Estou fazendo terapia, não conte à minha mãe.
− Não quero mentir para sua mãe, não sei mentir.
− Ela não vai te perguntar: “e aí, Sam, a Bárbara está em terapia?” –
ironizo.
− Se perguntar, não vou mentir. Por que você não quer que ela saiba?
− Porque teria que contar o que me levou a fazer terapia.

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− Não me diga mais nada que não devo contar a sua mãe. – diz sério.
− Está bem. – jogo o meu corpo para frente e apoio as mãos sobre sua
mesa. – É legal o que você está fazendo sobre o casamento, minha mãe
merece ter um dia de conto de fadas, com todas essas bobagens de flores,
vestido, véu e buquê. Então, não escute quando ela insiste que nada disso é
necessário, todas as histórias que ela me contava terminavam com uma
grande festa de casamento, obrigada por tornar real.
− Não será o fim, Bárbara, é só o começo.
− Você pode ser bem romântico quando quer, Sam Allencar.
− Não sou o único. – ele pisca e acena, olhando para a porta.
Olho para trás e vejo o Murilo sorrindo.
− Nem te ouvi chegando. – digo, levantando.
Murilo fecha a porta, dá três passadas largas e me abraça, erguendo
meus pés do chão e me beijando. Sam coça a garganta nos lembrando da sua
presença. Sorrio, afago a barba do meu namorado e dou um pequeno selinho,
quando ele me coloca no chão.
− Fala, meu filho. – Murilo diz, dando a volta na mesa para abraçar o
Sam. – Trabalhou muito em Dubai?
− Mais do que você imagina.
− Vou dizer, você é corajoso. Que ideia de louco foi essa de escalar
Chloe para fazer o vestido da Rafani? Soube que minha sogra queria fazer
uma vassoura com os cabelos da loirinha.
− Elas estão se entendendo. – Sam diz entre risos.
− A prova de fogo será o dia do casamento. – comento. – Você parou
para pensar que a festa será um campo minado de ex fodas?

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− Você disse a palavra mágica: ex.


− Bom, em todo caso, te aconselho a dormir de olhos abertos na noite
de núpcias.
− Sinta a indireta. – Sam bate no ombro do Murilo.
− Voto a favor de uma cerimônia íntima. – Murilo declara.
− Não tem vergonha na cara. – cruzo os braços. – Será que vocês têm
alguma amiga que não foderam?
– Bah, quer casar na Polinésia? – Murilo desconversa, voltando para o
meu lado.
− Cadê suas bolas? – Sam gargalha.
− E vamos morar onde? Na Austrália? – arqueio a sobrancelha.
− Também não precisa agir como se tivesse fodido cada mulher que
conheci. – Murilo coloca as mãos na minha cintura.
− Não mesmo? – pergunto, fitando o verde dos seus olhos.
− Nunca fodi uma colega de trabalho.
− Você está fodendo uma colega de trabalho, porra. – Sam perturba.
− Não. – Murilo nega. − Estou namorando uma colega de trabalho. –
diz, impondo os lábios sobre os meus.
− Parem de pegação na minha sala, caralho!
Murilo se inclina, me deitando sobre os seus braços, me dá um beijo
demorado, depois uma mordida no pescoço e me solta.
− Nós estamos de saída. – digo ao Sam. – Manda Chloe dar um tempo
para minha mãe amanhã, porque precisamos conversar com vocês.
− Se você estiver grávida, me diga logo para preparar sua mãe.

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Olho para o Murilo, sorrimos e viramos para o Sam.


− Não estamos fodendo, cara, é sério. – Murilo afima.
Saímos da sala e deixamos Sam com uma expressão de incrédulo.
Peguei minha bolsa no armário, desliguei o computador e saí com o
Murilo, andando de mãos dadas pelos corredores da empresa, pela primeira
vez.
Ele iria participar da minha sessão de terapia e havia um motivo para
tê-lo convidado, durante as sessões anteriores surgiu a ideia de fazer uma
terapia sexual, mas não sabia como abordar o assunto, ele podia não entender
e me sentia mais segura em fazer a proposta na presença da minha psicóloga;
embora ela tenha me avisado que seria eu quem explicaria a finalidade e o
porquê de querer fazer terapia sexual, sabia que ela estaria ali para sanar as
eventuais dúvidas.
Sem fazer nenhuma pergunta, Murilo simplesmente concordou.
No final da sessão avisei que continuaria com a terapia individual e a
psicóloga nos indicou um sexólogo clínico para a terapia sexual. Murilo me
levou para a universidade e quando estávamos nos despedindo perguntei se
ele não estava incomodado em ter que falar sobre sua vida sexual com um
terapeuta. Ele sorriu, me beijou com delicadeza e entrelaçou as nossas mãos.
− Bah, quero que você fique bem e se sinta segura no nosso
relacionamento, farei o que for preciso.

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Capítulo 57

Murilo Lemos
“Família não está apenas no sangue”.
Supernatural
− Mãe, avisa à Chloe que ela pode ir curtir o sábado, por favor. –
Bárbara resmunga. – Não aguento mais o som de notificação do seu celular.
− Juro que não consigo lembrar nem metade dos nomes de tecido que
ela mencionou durante essa semana. – Rafani suspira e aproxima o celular do
rosto. – Chloe, minha cabeça está dando um nó, nos falamos na segunda, ok?
– ela espera, os olhos na tela do celular. – Amém! Ela vai me deixar
descansar porque segunda teremos muito trabalho. – diz, lendo a mensagem.
− Boa sorte, mãe. – Bárbara sorri. − A Miss Sunshine vai estar a mil
por hora na segunda.
− Ela criou uns dez croquis essa semana, todos lindos, mas segundo ela
ainda não estão perfeitos, porque ela precisa me conhecer para desenhar algo
que grite “Rafani”. Alguém precisa avisar àquela garota que ela precisa
relaxar.
− Você interditou o brinquedo preferido dela, Rafani. – perturbo.
− Obrigado! – Sam esmurra o meu bíceps.
− Mô, toma jeito! – Bárbara me dá um tapa.
− Deixem o Murilo, ele está dizendo a verdade. Quando esqueço que
ela e o Sam fizeram sexo, até que gosto dela.
− Ela é uma grande amiga, é importante para mim que vocês convivam

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bem. – Sam comenta, fazendo a volta na bancada da cozinha e abraçando


Rafani.
− Eu sei. – ela acaricia o seu rosto. – E vocês, o que queriam conversar?
– pergunta, virando-se para nós.
− Que tal esperar o Guga acordar? – Bárbara propõe, massageando o
meu ombro. – Vou ajudar com o almoço. – ela me dá um beijo e levanta.
− Bah. – seguro sua mão. – Podemos contar ao Guga depois.
− Estou ficando assustada. – Rafani troca um olhar com o Sam.
− Não sei de nada. – ele balança a cabeça.
Puxo Bárbara para mais perto, ela repousa o corpo na minha coxa e
suspira, abaixando os olhos.
− Você quer mesmo? – beijo o seu ombro.
− Sim. − ela aperta minha mão.
− Sabe esse lance de sincronicidade. – explico, apontando para o Sam.
– Na mesma semana em que o Sam propôs, também fiz.
− Você pediu Bárbara em casamento? – Rafani inquere, os olhos
atentos a expressão de Bárbara.
− Sim e ela aceitou.
− Você vai casar, porra? – Sam ergue as mãos e sorri.
− Filha, estou tão feliz. – Rafani faz a volta, vindo abraçar Bárbara. –
Estou feliz por vocês.
− Estava com um pouco de medo que você fosse ficar chateada. –
Bárbara confessa.
− Bom, claro que vocês poderiam esperar alguns anos. – Rafani olha

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para mim. – Mas se é o que vocês querem, desejo que sejam muito felizes. –
ela beija a testa de Bárbara. – Você. – diz, me envolvendo em um abraço. –
Bárbara e o Guga são tudo na minha vida, o que significa que metade de mim
estará sob os seus cuidados, olha a responsabilidade.
– Ela também é tudo na minha vida.
– Vocês podem parar com o chororô? – Sam pergunta, abrindo uma
garrafa de vinho. – Estou querendo comemorar, o viado vai casar, caralho!
– Isso tudo é porque você não será o único algemado? – Rafani estreita
os olhos.
– Em partes sim. – confirma, servindo três taças de vinho. – Mas – diz,
guardando a garrafa – é o meu melhor amigo, minha “filha”. ​– faz aspas no
ar – É estranho ter uma filha adulta, mas significa que passei pela fase da
adolescência ileso, então estou no lucro. – ele sorri e estende a mão para
Rafani. – Só tenho um pedido a fazer.
– Lá vem. – Bárbara provoca.
Sam senta, puxando Rafani e prendendo-a entre as pernas.
– Tenho vinte cinco anos. Definitivamente essa não é uma idade para
ser chamado de vovô, portanto não façam filhos agora.
– Não se preocupe, filhos não fazem parte dos planos de curto prazo,
embora eu ache que seria divertido. – Bárbara joga os braços no meu
pescoço. – O que você acha, Mô? – ela arqueia a sobrancelha. – Vovô Sam?
– Ah, vá, Bárbara! – Sam exclama.
– Independente de quando vá acontecer, você vai ser sempre o vovô
mais garotão da turma. – Rafani vira o rosto e o beija.
– Que negócio estranho vai ser ver o meu filho te chamar de avô. – faço

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uma careta.
– A culpa é sua, vi a Rafani primeiro.
– Ainda não sei como vocês se conheceram. – Bárbara estreita os olhos.
– Foi no restaurante do hotel?
– No vestiário de funcionários. – Sam dá um sorriso e apoia o queixo
no ombro de Rafani. – Você me deixou duro. – diz, beijando-a
– Sam, pelo amor de Deus, é a minha mãe, você pode não falar disso na
minha frente. – Bárbara pega a taça e toma um gole. – Que horror.
– No vestiário? Como foi essa porra?
– Foi no casamento da Mel, ele estava se escondendo da irmã porque
tinha fodido todas as damas de honra e elas estavam querendo arrancar, vocês
sabem o que, fora. – Rafani explica.
– Todas não, Hannah e Angel ficaram de fora. – ele se justifica.
– Ainda bem, né? – Bárbara ironiza. – Seu irmão, com certeza, te
castraria.
– Você esqueceu de contar que estava apenas de calcinha e sutiã.
– Você me propôs sexo. – Rafani dá um tapa no rosto dele. – Todo sem
noção.
– Correção, louco de tesão. – ele a faz girar e a beija.
– Mãe. – Guga chama.
– Que carinha de soninho. – Rafani comenta, virando-se para olhá-lo.
Viro para trás e o vejo em pé na porta da cozinha, de pijama, os cabelos
bagunçados e esfregando os olhos, ainda sonolento.
– Que menino mais dorminhoco. – Bárbara diz, indo pegá-lo no colo. –

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Fominha? – pergunta, o colocando sentado em uma banqueta e ajeitando os


seus cabelos. Guga assente com um balançar de cabeça e deita o rosto na
bancada. – Achocolatado ou iogurte?
– Acorda, moleque. – Sam se estica sobre a bancada e aperta a mão do
Guga. – Sua irmã vai casar.
– Babi? – ele levanta a cabeça e olha sério para Bárbara.
– Você não gostou?
– Você continua sendo minha irmã?
– Sempre serei sua irmã. – diz, segurando seu rosto entre as mãos e
enchendo suas bochechas de beijos.
– Para, Babi. – ele reclama do aperto.
– Você está feliz? – ela inquere, dando um beijo na sua testa.
– Sim. Você vai casar junto com a mamãe?
– A gente ainda não pensou na data.
– Ia ser legal entrar com você e a mamãe.
– Adorei a ideia, Guga. – Rafani comenta. – Você se importa? –
pergunta ao Sam.
– Sempre soube que ia casar com esse put...
– Sam. – Bárbara e Rafani o repreendem.
– Não vou casar com você, vamos dividir o altar. – corrijo. – Gosto da
ideia.
– É o seu dia, mãe. – Bárbara contra-argumenta.
– E será um dia ainda mais feliz se o dividir com a minha filha, se você
quiser, é claro.

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– Em três meses? – Bárbara arqueia a sobrancelha e olha para mim.


– A casa nós temos.
– Têm? – Rafani arregala os olhos.
– Ele projetou essa casa, faz mais de um ano que está finalizada,
esperando pela mulher certa, estava apostando que ela não existia, mas parece
que me enganei. – Sam brinca, perturbando Bárbara. – Quem diria que o
Tarzan ia se apaixonar pela gnoma de jardim.
– Mãe, vou bater nele!
– Você é uma gnoma, Babi. – Guga diz entre risos.
– Ele não me chamava de gnoma antes do Sam. – Bárbara aponta para
o Guga, em seguida cruza os braços irritada.
– Vocês parem. – Rafani diz, tentando não rir.
– Mãe, você também?
– Desculpa, filha. Podemos conhecer essa casa?
– Quando quiser. – digo. – E vocês escolheram onde vão morar?
– Ainda nem saí das fotos, Chloe não me deixa nem respirar, só vou
conseguir visitar algumas das casas quando ela terminar o vestido.
– Acho que tenho uma casa que você vai gostar, fica no mesmo bairro
que a deles. – Sam comenta. – Você vai achar grande, como todas as outras,
mas ela é mais família.
– Tem um quarto para mim? – Guga questiona.
– Claro que não, vou colocar um colchão na garagem para você.
– Não tem graça, Sam. – Guga diz sério.
– Quarto com banheiro para você. Ah, e uma entrada à parte, você vai

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me agradecer em alguns anos.


– Deixa adivinhar, você quem projetou a casa, certo? – Bárbara sorri.
– A maior parte das casas que tenho, são projetos meus. – ele dá de
ombros.
– Todas têm quartos com entradas privativas para os filhos?
– Sou um cara que pensa nos jovens. – diz solenemente, fazendo-nos
rir.
– O que é uma entrada privativa? – Guga questiona.
– Significa que você pode entrar para o seu quarto e escapar sem
ninguém saber.
– Sam, não ensina essas coisas para o menino. – Bárbara reclama.
– A não ser que eu tranque a porta secundária e esconda a chave. –
Rafani rebate.
– Fani, você precisa deixar o moleque curtir a vida.
– Vamos ver o que você vai dizer quando ele entrar na adolescência.

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Capítulo 58

Sam Allencar
“Às vezes a verdade é tudo o que temos”.
One Tree Hill
Nunca três meses passaram tão depressa. Faltava uma semana para o
casamento, Rafani ainda estava às voltas com Chloe, principalmente depois
que decidimos que Guga e os meus sobrinhos fariam parte da cerimônia;
eram tantos ajustes que estava perdido, nem a minha roupa saberia descrever.
Além dos detalhes do casamento, havia nossa casa. Depois de
definirmos onde moraríamos, começamos a escolha entre os projetos de
decoração, a seguir veio a compra dos eletros e objetos domésticos; nessa
etapa minha mãe se ofereceu para auxiliar a Rafani e fiquei responsável por
acompanhar a montagem dos móveis.
Entre tantas decisões, Rafani estava sobrecarregada, mas de um jeito
bom. Nós dormíamos quase toda noite juntos, ou na sua casa ou no meu
apartamento, conversávamos sobre o nosso dia durante o jantar, ela discorria
animada sobre as novas mudanças que Chloe propôs, as horas que passava
com minha mãe fazendo compras e que eventualmente terminavam com elas
escolhendo lingeries, os colégios que estava indo visitar para matricularmos o
Guga no ano seguinte.
Adorava saber que ela estava feliz, por isso contava sobre as obras da
nossa casa e do abrigo, e deixava em off as informações que Miguel me
passava sobre o processo. Não estávamos tendo muito sucesso, o mandado de
busca e apreensão na residência dos Mendonça não deu em nada, nenhum
vídeo, nenhuma prova.
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Miguel pediu um levantamento de todos os bens imóveis da família e


estava triando os desocupados, para solicitar novas buscas, no entanto havia
deixado claro que o teste de DNA de Bárbara poderia ser nosso último
recurso, e isso era algo que Rafani queria evitar.
Somente quando Miguel pediu que o encontrasse em São Paulo,
dizendo que tinha novidades sobre o processo, foi que atualizei Rafani, afinal
ela precisava estar preparada para o que estivesse por vir.
Assisti o seu sorriso diluir e ela fechar os olhos, impedindo as lágrimas
de aflorarem. A puxei para o meu peito, abraçando-a apertado e beijando os
seus cabelos. Na manhã seguinte, foi necessária muita conversa para
dissuadi-la de embarcar comigo para São Paulo.
− O que diabos você quer dizer com mausoléu? – pergunto ao Miguel,
porque me recuso a acreditar que ele está se referindo a um monumento
funerário.
− Mausoléu. – ele dá de ombros. – Construção em cemitério para
abrigar restos mortais de uma família.
− Você descobriu um mausoléu em nome de Rafani e sua irmã? –
checo se ouvi direito. – Um santuário para as merdas que aqueles monstros
faziam com elas?
− Exatamente. – Miguel empurra uma pasta sobre a mesa. – Aqui tem
fotos do local e do arquivo de fotos e vídeos que os policiais encontraram. –
ele mantém a pasta embaixo da sua mão. – Não estou certo se você deve ver,
considerando que vamos ficar frente a frente com a sra. Mendonça no
tribunal.
− Vá a merda. – puxo a pasta. – Por que você só se referiu a sra.
Mendonça? Não vai me dizer que aquele homem asqueroso se safou do

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julgamento?
− Ela o matou. – diz, puxando outra pasta e me entregando. – Esse é o
arquivo do homicídio.
− Miguel, que porra é essa? – pergunto perplexo, deixando de lado a
primeira pasta e abrindo o arquivo com as fotos do assassinato. – Ela atirou
na cabeça dele? Quando?
− Estou começando a pensar que ela é a mente doentia por trás de tudo
o que aconteceu à Rafani e sua irmã. Depois que foram encontradas as provas
do abuso, minha mãe fez a petição pedindo que eles aguardassem o
julgamento presos, o juiz acatou, e quando a polícia foi cumprir a ordem de
prisão, ela sacou uma arma e explodiu os miolos do marido na frente dos
policiais. Ela se entregou e fez uma declaração dizendo que o marido a
obrigava a ser conivente e que a jurava de morte caso o entregasse. No final
da tarde de ontem, o advogado dela solicitou uma avaliação psicológica,
alegando que sua cliente necessita de cuidados psiquiátricos.
− Uma porra! – digo exaltado. – Ela está mentindo, Miguel.
− Nós sabemos, mas se ela conseguir uma avaliação psicológica
positiva para qualquer transtorno, ela poderá conseguir a atenuação da pena e
ficará detida numa prisão psiquiátrica. Nos vídeos ela quase não aparece,
como Rafani nos contou, ela era a câmera e fotografa, não participava
ativamente dos abusos, então é possível que se o júri ou juiz comprarem a
história dela...
− Mas que porra. – interrompo o Miguel. – Ela pode ser inocentada?
Essa vadia fez tudo premeditado.
− Esse será o argumento da nossa acusação. Há outra coisa. – ele
pondera. – Alguns dias atrás uma mulher ligou para cá, depois de insistir com

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a minha secretária, atendi sua ligação e ela afirma que é a Maressah.


− Como é?
− Ela usa outro nome, está casada e tem uma filha, mas alega que é a
irmã desaparecida de Rafani. – ele me entrega um cartão. – Como nós
mantivemos longe da mídia as informações sobre esse caso, não tem como
ela ter tido acesso aos detalhes por trás da história.
− Você acha que pode ser ela?
− A história dela é compatível com o que Rafani nos trouxe, morava
numa cidadezinha no interior do Paraná, diz que os pais a deixaram presa
numa chácara no meio do nada aos dezesseis anos, onde apareciam vários
homens para abusá-la. Quando conseguiu escapar foi atrás da irmã, como não
a encontrou, roubou algumas coisas na casa dos pais e fugiu para São Paulo.
− Ela nem procurou pela irmã?
− A garota tinha dezoito anos, havia passado dois anos acorrentada,
sendo violentada dia após dia, é compreensível que ela estivesse pensando
em sobreviver, Sam.
− Eu sei, eu sei, é que é difícil pensar na Rafani com quinze anos,
sozinha por aí e grávida. Saber que a sua irmã não está morta e que a deixou
a própria sorte, desperta algo ruim em mim, mas racionalmente sei que elas
estavam na mesma situação, ambas tentavam sobreviver e as chances dela
encontrar a Rafani eram quase inexistentes.
− Ela mora em Santo André, o endereço está no verso do cartão.
− Se ela estiver mentindo? Se for cúmplice de tudo? Eles falaram que
ela estava morta.
− Ela acha que o homem que estava na chácara quando fugiu, pode ter
inventado que a matou para não explicar da fuga. – ele argumenta. − Elas
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sofreram juntas, Sam. – completa.


– Você acha que devo ir até ela. – comento, olhando para o verso do
cartão, escrito à mão está o nome Verônica Duarte e um endereço.
– Acho que você sabe o que deve fazer, Sam. – Miguel olha para a
aliança no meu dedo. – Entendo que você queira protegê-la, mas se for
mesmo a irmã dela?
– É a chance de resgatar uma família.
– Exatamente. – Miguel assente. – A incerteza sobre o que aconteceu
com alguém que nós amamos nunca nos abandona, Sam. – ele engole em
seco. – Conheço bem essa sensação, parece um buraco negro sugando os
nossos momentos de felicidade. Não consigo parar de pensar no meu filho, se
está vivo, bem, ou sozinho e triste, é uma dor que não vai embora.
– Você foi tão vítima quanto ele, Miguel.
– Mas ele não sabe, deve... – ele engasga. Fecha os olhos e deixa as
lágrimas percorrerem seu rosto. – Anelice cresceu em um orfanato, ela tinha
sete anos quando meus pais a adotaram, ela me disse como se sentia
abandonada, não posso deixar de pensar que é assim que o meu filho se sente.
– Você fez o que pode para encontrá-lo, todos sabemos o quanto você
lutou pelo seu filho.
– Não foi o bastante. – ele suspira. – Vá, Sam. – ele estende a mão para
pegar de volta as pastas. – Faça com que a sua mulher possa ser feliz de
verdade, sem o sentimento de culpa minando a sua felicidade.

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Capítulo 59

Rafani Lemos
“Você tem de se perguntar,
Quão longe está disposto a ir?”
Once Upon a Time
Faltam cinco dias para o casamento, no último sábado passei o dia com
Bárbara e Chloe para fecharmos os ajustes dos vestidos.
Hoje, foi a vez de levar Guga para experimentar o fraque, conferir as
medidas das roupas dos sobrinhos do Sam e enviar as fotos para Hannah.
Passamos a tarde no ateliê improvisado de Chloe, onde três costureiras
trabalham minuciosamente nos bordados dos vestidos. Uma coisa é certa,
quem olha para o rosto de boneca da Chloe, não imagina que ela põe as mãos
na massa, a garota fez questão de costurar os vestidos, deixou que as
costureiras fizessem apenas os fraques e os arremates finais dos vestidos.
Nos primeiros dias foi difícil me acostumar com a Miss Tagarela me
enchendo de mensagens e falando sem parar, em três meses o que era um
incômodo se transformou em um excelente mecanismo de fuga. Chloe me
ajuda a manter o casamento em primeiro plano; quando não estou com ela,
estou comprando mobiliário ou discutindo a respeito da organização do
casamento, assim minhas preocupações com o processo, as armações da
Samantha e tudo o que envolva o meu passado foram deixadas à margem,
pelo menos até ontem à noite.
Quando Sam me contou sobre a busca frustrada de provas para
condenar os meus pais, senti as sombras do passado ameaçando me

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aprisionar. Agora que eles sabiam do Guga, da Bárbara e onde nos encontrar,
o que terei que fazer para mantê-los em segurança? Se meus pais forem
inocentados, está tudo acabado, eles não nos deixarão em paz.
A angústia assentou-se no meu peito e se recusava a ir embora sem
saber o que estava acontecendo. A resposta evasiva do Sam à minha
mensagem, perguntando sobre a conversa com Miguel, não ajudou a diminuir
a minha aflição. Como prometido na última mensagem que me enviou, ele
ligou à noite.
− Oi. – atendo no primeiro toque.
− Como foi o seu dia?
− Mais ou menos, estou preocupada com as notícias. Você vai dormir
no apartamento?
− Ainda estou em São Paulo, desculpa não avisar mais cedo, não queria
te preocupar mais.
− Não vamos conseguir. Eles vão ficar livres.
− Fani, conversamos sobre esse assunto amanhã. Meu voo é logo cedo,
você consegue cancelar com Chloe e me esperar no apartamento?
− Nós finalizamos hoje, ela vai passar os próximos dias fazendo os
ajustes com as costureiras. É muito ruim o que você vai me contar?
− É melhor falarmos pessoalmente.
− Tudo bem. – minha voz soa trêmula.
− Fani, não precisa ter medo, eles não vão te machucar.
− Se você voltasse atrás, ainda poderia aceitar o cargo em Tóquio?
− Outra pessoa assumiu o cargo, mas se for o que você quer, podemos
ir para qualquer lugar. Só que não vou fazer isso porque você está assustada,
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minha única condição é que seja um desejo legítimo.


− Estou assustada. – confesso, levantando e indo para cozinha, não
quero que Guga escute. – Tenho medo pelos meus filhos. – digo baixinho.
− Ninguém vai afastá-los de você.
− Volta logo, preciso de você.
− Tenta relaxar, nem todas as notícias são ruins. Amanhã estarei aí com
você.
− Vou tentar.
− Até amanhã.
− Boa noite, Sam.
Desliguei o celular e coloquei sobre a mesa da cozinha. Ele disse que
nem todas as notícias eram ruins, o que significa que nem todas são boas.
Abri a geladeira, peguei o leite, despejei um pouco no bule, coloquei no
fogo para esquentar e sentei em uma das cadeiras; enquanto esperava, minha
mente girava, criando rotas de fuga caso nada saísse conforme o planejado.
O som do leite fervendo me despertou dos meus devaneios, levantei e
despejei o leite numa caneca, retornando para a cadeira.
Olhava para frente, mas não via nada, estava imersa no calabouço
assombroso do meu passado, um lugar onde não há espaço para vida e menos
ainda para felicidade.
Meus dedos contornavam os traços em alto relevo da caneca, sabia que
eles davam forma a raposa da história do pequeno príncipe, mas nesse
momento só precisava sentir o calor da porcelana aquecida pelo leite, algo
que me fizesse sentir que estou viva e livre daquelas memórias.
Guga estava dormindo no sofá quando saí da cozinha, desliguei a
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televisão e o levei para seu quarto. Deitei ao lado dele, fazendo cafuné nos
seus cachinhos castanhos, na esperança que a caneca de leite quente e aquelas
bochechinhas coradas fossem o bastante para me assegurar uma noite de sono
tranquilo. Custei para adormecer, mas quando consegui sonhei com o
casamento e estávamos todos juntos e felizes.
− Mãe? Mamãe? – Guga levanta minhas pálpebras.
− Bom dia, Gu. – murmuro.
− Por que você dormiu aqui? – ele repousa a mão na minha bochecha.
− Queria sentir o seu cheirinho a noite toda. – seguro o seu rosto e dou
um beijinho de esquimó. – Vamos nos arrumar para a escola?
− Sam vai me levar na escola? – pergunta, sentando.
− Hoje não, ele deve estar entrando no avião para voltar para casa.
− Quando vocês casarem, ele vai nos levar junto quando viajar?
− Você tem escola. – digo, ficando em pé. – Não pode ficar viajando
assim.
− Nas férias? – ele abre os braços.
− Nas férias podemos negociar uma viagem. – abro os braços e ele pula
no meu colo. – Você vai me derrubar qualquer dia.
− Vou ficar grande como o Sam?
− Com certeza maior do que eu e sua irmã. – afirmo, o que o faz
gargalhar.
O levo para o banheiro, coloco no chão e o ajudo a tirar o pijama.
− Mãe? – Guga ergue os olhos e me olha com atenção. − Ele pode ser o
meu pai?

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A pergunta me pega de surpresa. Abro e fecho a boca pensando em


como responder, porque apesar do Sam adorar o Guga não quero que ele se
sinta obrigado a assumir o papel de pai. Agacho, de modo que nossos olhos
fiquem na mesma altura.
− O que você quer dizer?
− Todo mundo tem um pai, também queria ter um. – ele abaixa os
olhos. − Queria que o Sam fosse meu pai, ia ser legal.
− Gu. – engulo o choro. – Eu-eu não...
− Tudo bem, mãe. – ele me interrompe e afaga o meu rosto. – Não
queria mesmo participar daquele jogo chato.
− Que jogo?
− Um jogo idiota no dia dos pais. – ele dá de ombros.
− Guga, não fale idiota.
− Desculpa, mãe.
− Por que não recebi nenhum aviso sobre esse jogo?
− É para os pais. – argumenta, balançando a cabeça como se fosse uma
idiota por perguntar algo tão óbvio.
− Sim, e cadê o seu aviso? Por que não estava na sua pasta?
− Joguei fora. – confessa.
− Por quê? – seguro suas mãos.
− Não tenho pai.
Essa maldita frase dói mais do que toda a violência que vivencie na
minha carne, são as três palavras que me fazem sentir horrível e culpada por
privar os meus filhos da convivência com os pais, mesmo sabendo que sou

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uma vítima, assim como eles, a dor que sinto ao ouvir essa sentença é
aniquiladora.
Não é a primeira vez que a escuto, tive os meus momentos com Bárbara
e outros tantos com Guga, todavia a cada vez que eles dizem “não tenho
pai”, não importa o tom que empreguem, soa como uma acusação. Contudo,
não posso arcar com a irresponsabilidade de monstros que desconhecem o
significado de ser homem e pai. Por outro lado, sei como é crescer sem o
amor de um pai.
− Por que você não convida o Sam para ir ao jogo?
− Posso? – ele arregala os olhos.
− Se você prometer que não vai ficar triste se o Sam não puder ir.
− Prometo. – ele sorri. – Te amo, mãe. – ele joga os braços no meu
pescoço e me aperta. – Você é a melhor mãe e pai do mundo, mas não posso
te levar para o jogo.
− Tudo bem, acho que não sou uma boa jogadora mesmo.
− Você é muito ruim. – diz entre risos.

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Capítulo 60

Bárbara Lemos
“E até hoje, eu acredito que, na maior parte do tempo,
o amor é uma questão de escolhas.
É uma questão de tirar os venenos e as adagas da frente
e criar o seu próprio final feliz”.
Grey`s Anatomy

A proximidade do casamento estava me deixando tensa, não porque


estivesse arrependida de dizer sim ao Murilo, o que me angustiava era a noite
de núpcias. O progresso decorrente da terapia, tanto individual quando
sexual, havia me permitido ser mais receptiva ao toque do Murilo, o pânico
que sentia quando as suas mãos deslizavam entre as minhas pernas tinha
desaparecido aos poucos, contudo o sexo ainda estava no plano das fantasias.
Fracassamos miseravelmente na primeira tentativa de sexo oral, na
segunda e terceira vez também, foi então que Murilo sugeriu que
aplicássemos uma das técnicas que o sexólogo nos instruiu, Imaginação
Racional Emotiva (IRE), o que consistia em visualizar e descrever o que
gostaria que ele fizesse comigo.
Fiquei encabulada a princípio, assim como aconteceu durante a sessão,
contudo fechei os olhos e deixei a imaginação fluir. Não havia limite entre
fantasia e realidade, a medida que verbalizava, Murilo respondia com ações,
até o momento em que se tornou impossível manter uma linha de raciocínio,
abri os olhos e ele estava com o rosto entre as minhas pernas, beijando-me

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delicadamente, o que só teve fim quando gozei na sua boca. Desde então,
sexo oral não é um problema.
Nas últimas semanas a minha terapia individual tem funcionando quase
como uma extensão da terapia sexual, de dez palavras que falo, vinte estão
relacionadas a nossa primeira vez. Murilo tem sido um super namorado e
paciência é o seu super poder; nenhuma pressão para avançarmos na esfera
sexual, embora não deva ser fácil para ele ficar tantos meses sem sexo, afinal
ele tinha um repertório sexual intenso.
Ás vezes, me pergunto se ele teria me convidado para sair se soubesse
antecipadamente o quão quebrada eu sou, então me lembro que ele é um
homem livre, se quisesse poderia terminar o nosso relacionamento e voltar às
noitadas de sexo, mas é comigo que ele decidiu construir uma família e não
posso permitir que os meus traumas mitiguem o significado dessa escolha.
Entre trabalho, terapia, universidade, preparativos para o casamento e
análise de projetos de decoração, era surpreendente como o sexo conseguia se
sobrepor a todas as questões.
Nós sairemos da festa de casamento para nossa casa, Murilo queria
fazer uma viagem, mesmo que fosse curta, apenas os dias da licença, mas
quando comentei que preferia curtir nossa casa, ele não questionou.
Sobre a casa, é o Murilo quem está acompanhando efetivamente as
obras, mas sempre que um cômodo fica pronto ele me leva para ver se está
como imaginei e, sinceramente, por mais realista que sejam os projetos,
minha imaginação tem limite; mal conseguia acreditar que aquela seria a
minha casa.
Havia saído matérias em jornais e revistas falando sobre o casamento,
algumas notas em sites insinuavam que eu e minha mãe estávamos dando um
golpe, alguns jornalistas ligavam para a empresa querendo agendar
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entrevistas. A gota d´água foi uma entrevista anônima que revelava sobre o
HIV da minha mãe e alegava que ela havia transmitido o vírus para o Sam,
razão que o levou a concordar com o casamento.
Foi a primeira vez que vi o Sam ficar puto de raiva, ele escorraçou
Samantha da sua sala e saiu segurando uma revista, ordenando que avisasse
ao Marcelo que ele estava subindo para o seu escritório. Obedeci, sem
entender o que Samantha havia aprontado, e quase uma hora depois ele saiu
do elevador, jogou a revista aberta na minha mesa e mandou que ligasse para
as principais revistas, porque ele daria uma “maldita entrevista”.
Quando li a matéria, fiquei tão puta quanto o Sam, acho que teria
estrangulado Samantha se ela estivesse na minha frente, sem nem me
importar em ser demitida. Uma entrevista anônima e ela fez a gentileza de
trazer a revista para o Sam, o que era o mesmo que estampar a capa da revista
com uma confissão.
Agendei a entrevista para o dia seguinte, Sam pediu que não
comentasse com minha mãe e concordei, ela não precisava ter que ler aquelas
merdas.
No início da tarde da última quarta-feira, vários repórteres e jornalistas
lotaram uma das salas de reunião, entrei logo atrás do Sam e do Marcelo, e as
perguntas começaram antes que pudéssemos alcançar os nossos lugares.
Tentei fazê-los se acalmar, pedindo que aguardassem um instante, mas não
fui ouvida.
Sam tocou no meu ombro e pediu que sentasse, em seguida mandou
que todos se calassem, porque não tinha tempo para perder. A sala ficou em
silêncio em segundos, os ânimos se acalmaram e todos sentaram, com
exceção dele.
O ouvi contar em detalhes como conheceu a minha mãe, do primeiro
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encontro na emergência de um hospital, do desejo de protegê-la e estar ao


lado dela, ele falou como agiu feito um babaca quando descobriu sobre o
HIV, mas como aquela descoberta tinha sido determinante para enfim
compreender aquilo que ele não sabia explicar, ela era a sua exceção e não
importava o que ele precisaria enfrentar, iria amá-la todos os dias da sua vida.
Por fim ele se lamentou por Samantha e disse que esperava que um dia
ela descobrisse que o amor não é um jogo de vale tudo. Marcelo se desculpou
pela filha em uma nota pública e a entrevista teve fim. Quando todos saíram e
ficamos nós dois, havia um mundo de coisas que queria dizer, mas não
haviam palavras o suficiente para me expressar. Levantei, o abracei o mais
forte que podia e sussurrei: “obrigada”.
Depois dessa declaração pública de amor que o Sam fez para a minha
mãe, estava certa que sobreviveria a semana pré-casamento sem um surto de
lágrimas. Enquanto ele falava, tive vontade de chorar, porque desejei tanto
que minha mãe encontrasse a felicidade e finalmente o meu pedido havia sido
atendido; foi com muita dificuldade que segurei as lágrimas.
O fim de semana chegou, o último fim de semana antes do casamento.
Estávamos todos saturados de ouvir falar em tecidos, flores e buffet, por isso
fugimos para o sítio do Murilo.
O tempo estava bom, sol discreto, enquanto eu e minha mãe
aproveitamos para relaxar na piscina, Guga fez Sam e Murilo suarem jogando
bola. Domingo à noite, uma ligação do Miguel, pedindo para Sam encontrá-
lo em São Paulo quebrou o clima leve do fim de semana.
Sam só retornou de São Paulo na terça.
Minha mãe só me contou as últimas notícias na quarta.
Três dias para o casamento e uma avalanche ameaçava desabar sobra as

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nossas cabeças.
Quantas tragédias uma família pode suportar?
Minha avó assassinou o meu avô.
Minha mãe ainda não sabe, mas o meu avô é o meu pai; pedi para o
Miguel fazer o exame de DNA em sigilo.
Minha avó pode nunca pagar pelas crueldades que cometeu.
Minha tia, supostamente morta, está viva.
Às vezes, em meio à tragédia, só precisamos manter a fé em dias
melhores.

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Capítulo 61

Murilo Valverde
“Não sou especialista nisso,
mas acho que amar não é sobre salvar ou mudar alguém,
é sobre encontrar a pessoa que seja certa para você”.
Arrow
Amanhã direi os votos que farão de Bárbara minha esposa,
companheira, amante, a mulher a quem vou jurar amar até o meu último
suspiro. Gostaria que meu pai estivesse ao meu lado nesse momento, ele teria
adorado Bárbara, diria que se não fosse bom o bastante para ela, iria me
deserdar e adotá-la; contaria como pediu a minha mãe em namoro e do
quanto ficou feliz quando ela falou sobre a gravidez, nos alertaria para ter
mais de um filho, porque eles crescem rápido demais.
Que bela despedida de solteiro, jogando sinuca e pensando na falta que
sinto do meu pai. Pelo menos não ficaria sozinho por muito tempo, logo mais
o Sam viria para cá, porque Mel confiscou o apartamento dele para a festa de
despedida de solteira, prometendo que não teria um desfile de homens nus,
apenas mulheres falando de sexo e o reencontro de duas irmãs que não se
viam há mais de duas décadas.
Bárbara estava tensa com o aparecimento da tia, ela só iria relaxar
quando a conhecesse. Guga estava confuso, não é para menos, ele achava que
a mãe se chamava Maressah, depois descobriu que ela era a Rafani e de
repente surge uma tia que tem o mesmo nome que a sua mãe usava, até a
minha cabeça deu nó com essa história. Rafani conversou com ele, explicou

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da forma mais simples possível, mas foi ao Sam que ele recorreu cheio de
perguntas; o vínculo que eles desenvolveram é legítimo, são como pai e filho.
Quando bateram na porta, joguei o taco na mesa de sinuca e fui atender,
achei que fosse o Sam, mas só foi entreabrir a porta para um bando de
homens invadirem meu apartamento. Vi de relance Lucca e Felipe, antes
deles enfiarem um saco preto na minha cabeça.
− Sério, porra?! – resmungo.
− Achou que ia escapar da despedida? – Lucca dá um muro no meu
bíceps. – O Samurai já está a caminho da nossa festa, JP e Andy o
interceptaram antes de vir para cá.
− Vamos beber pelos putos perdidos. – Fred declara, me empurrando
para fora do apartamento.
− E foder umas gostosas. – Felipe comenta entre risos.
− Tá me zoando?! – ouço a porta bater. − Se Bah souber que cheguei
perto de uma mulher adeus casamento e o meu caralho também.
− Virou uma putinha mesmo. – Lucca diz. – Nada de foder ninguém,
vou manter você e o Sam bem longe das vadias.
Os cretinos dos meus amigos me levaram encapuzado para o carro e só
tiraram aquela merda da minha cabeça quando me empurraram no banco de
trás de um carro.
Foi fácil descobrir para onde estávamos indo, mas o lugar estava
totalmente diferente, se não tivesse estado ali um par de vezes, não acreditaria
que aquele era o campo de airsoft. Havia centenas de calcinhas penduradas,
cinta liga, sutiãs e várias garrafas de whisky.
Sam teve mais sorte do que eu, como ele estava indo para o meu
apartamento estava vestido, enquanto eu usava apenas uma bermuda.
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− Hora do show, meninas! – Miguel avisa.


− Olho o bolo dos putos chegando. – Fred comenta, empurrando um
bolo gigante e Bruno outro.
Olho para o bolo, depois para Sam, e começamos a gargalhar quando
começa a tocar “I Will Survive”, da Gloria Gaynor, e dois transformistas
saem dançando dos bolos.
Os transformistas são imensos, tão grandes como nós, estão com saltos
enormes, lingeries cheias de plumas, perucas loiras presas em um rabo de
cavalo e muita maquiagem.
Eles jogam uma faixa de plumas nos nossos pescoços e rebolam na
nossa frente, depois nos empurram em cadeiras que não sei de onde
apareceram e continuam o show de dança erótica, arrancando gargalhadas e
assobios.
Depois de muitas fotos, vídeos e dos transformistas marcarem as nossas
barbas com beijos de batom vermelho, fomos liberados para a partida de
airsoft. Eu, Sam e os transformistas contra todos; tínhamos a vantagem de ser
os melhores no jogo, depois do Lucca, e estávamos sóbrios, enquanto eles
tinham entornando algumas garrafas de whisky.
Nossa estratégia era eliminar o Lucca e a vitória estava garantida, o que
não foi tão simples, porque ele é bom; tínhamos eliminado Andy, Bruno e
Miguel, quando chegamos ao Lucca, aí foi só cair para a farra.
− Chupem, viados! – grito, quando acerto o últimos dos homens deles.
− É nós, porra! – Sam exclama.
− A gente deixou vocês ganharem. – Felipe argumenta.
− Meu pau! – Sam rebate.

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− Vocês são escrotos, usaram as garotas como escudo. – diz JP,


apontando para os transformistas.
− Com esses saltos eles só iam nos atrapalhar. Desculpa, loira. – solto
um beijo para Michelle Panthera.
− Sem problemas, Tarzan. Não queríamos estragar nossas unhas. –
Pamella Chave de Fenda comenta, dando uma piscadela.
− Para uma despedida de solteiros sem mulheres, até que foi divertido.
– Felipe declara.
− Epa, gostoso! – Michelle Panthera exclama. – Assim você nos
ofende.
− Vocês arrasaram, garotas. – diz Miguel.
− Verdade, foi mal. – Felipe se desculpa.
− Nós temos que ir, adoramos fazer essa festinha. – Pamella Chave de
Fenda se despede.
− Digam às peruas que são duas vadias sortudas. – diz Michelle
Phantera. − Imagina o tamanho da ferramenta desses deuses. – completa, nos
fazendo gargalhar.
− Valeu, garotas, quando Felipe for algemado, a gente convida vocês
para a festa. – digo.
− Nem fodendo, algema estou fora!
− Deixa ele se iludir um pouquinho. – Lucca sorri.
− Quem nunca? – Andy pergunta, erguendo a mão e todos o imitamos.
Estava feliz de estar entre amigos, comemorando a minha despedida de
solteiro, feliz por compartilhar um dia tão especial na minha vida com o meu
irmão do coração.
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Não tinha dúvidas que a nossa amizade seria para toda a vida, só não
pensei que um dia meus filhos pudessem chamá-lo de vovô, apesar de um
tanto estranho, gosto de saber que eles terão o Sam como referência, meu pai
ficaria feliz em saber que um homem de caráter olharia pelos seus netos.
Depois de mais uma partida, sentamos no chão do campo, com nossos
copos de whisky e ficamos conversando, rindo do vídeo que eles fizeram
quando os transformistas estavam dançando para nós.
− Qual dos dois está mais nervoso? – JP pergunta.
− Os dois. – dizemos em uníssono.
− Medo dela desistir? – JP e Andy perguntam ao mesmo tempo.
Olhamos um para o outro e assentimos.
− Essa é uma regra, todos temos medo delas desistirem, porque é
surreal demais que elas queiram ficar com uns putos como nós. – Miguel
comenta.
− Algumas noites, acordo e fico vendo-a dormir, tenho medo de um dia
acordar e ela não estar ao meu lado. – JP confessa.
− Tenho medo que ela pense que não a amo o suficiente. – diz Andy.
− Aí você vai ser um homem morto. – Sam afirma.
− E sem cacete. – JP completa.
− Às vezes a vejo me olhando pensativa, como se estivesse colocando
todos os eventos que nos fizeram ficar juntos em uma balança e ponderando
se teria sido diferente se nunca descobrisse o que a... – Miguel interrompe a
fala. – Sei que dei motivos para ela duvidar dos meus sentimentos, mas amo
aquela mulher, não sei como teria sobrevivido a tanta merda sem o apoio
dela.

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− Todos cometemos erros, Miguel. – JP argumenta.


− Às vezes a gente erra tentando acertar. – Bruno comenta.
− Fui um filho da puta escroto quando descobri sobre o HIV, a tratei
como se ela fosse uma arma apontada para a minha cabeça, não posso apagar
essa merda, mas posso mostrar que não sou aquele cara e que os meus
sentimentos por ela são tão maiores do que um diagnóstico soropositivo.
− Também tive o meu momento canalha com a Bah, me odiei, me senti
um monstro por tocá-la sem que ela consentisse. – tomo um gole do whisky. –
Quero ser um homem em quem ela possa confiar, amo aquela garota, tive
tanto medo que ela fosse embora.
− Vocês estão me deixando deprimido. – Felipe comenta.
− Cala a boca, estou curtindo o momento confissões. – Lucca acerta um
soco no bíceps do Felipe.
− Até porque nós também tivemos nossos momentos canalha. – Fred
afaga o ombro do Lucca.
− Superamos e estamos aqui, posso dizer que o que ficou no passado
ficou, não fico remoendo mágoas. – Lucca beija o Fred.
− Acho que isso também é uma regra, passado é passado, se elas estão
com vocês significa que o amor falou mais alto que a mágoa.
− Você está certo, Fred. – JP comenta. – Quando nos reencontramos
nada do que aconteceu tinha a mínima importância, eu a queria, a quero mais
a cada dia e isso é tudo o que importa.
− Pelas segundas chances. – Bruno ergue o copo.
− Ou terceiras. – JP sorri e levanta o copo.
− Ao amor. – ergo o meu copo, assim com todos. − Imperfeito, incerto,

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e acima de tudo verdadeiro.

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Capítulo 62

Rafani Lemos
“Você já se perguntou se somos nós que fazemos os momentos em
nossas vidas ou se são os momentos da nossa vida que nos fazem?”
One Tree Hill
De todas as notícias que Sam trouxe de São Paulo, apenas uma se fixou
nos meus pensamentos: minha irmã estava viva. Não era uma possiblidade, o
Sam esteve com ela, na casa dela, conheceu o marido e a filha dela, e mesmo
que ela responda pelo nome de Verônica, não importa, é a minha irmã, a
minha Mah.
Se fosse por mim teria embarcado para São Paulo na terça-feira mesmo,
mas ele argumentou que estava tudo combinado com Maressah, ela viria com
a família para o casamento, e como chegariam na sexta, ela poderia participar
da despedida de solteira que Mel estava organizando, o que nos daria tempo
para conversar e nos atualizar sobre o que aconteceu nas nossas vidas.
A sexta-feira chegou e mesmo sobre os protestos de Mel e Hannah,
ajudei na organização da despedida de solteira, porque precisava ocupar
minha mente, estava ansiosa ao extremo para rever minha irmã.
Bárbara estava de folga e passou o dia com Anelice, passeando com
Guga e as outras crianças. No final da tarde, elas deixaram as crianças na casa
da Lizzie, pois dormiriam todos lá e vieram nos encontrar no apartamento do
Sam.
A despedida de solteira foi ideia da Mel e ela teve que insistir bastante
para o Sam liberar o apartamento, além de prometer que não haveriam

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homens presentes. Entendi que Mel queria era um encontro só de mulheres


para que pudesse conhecê-las e elas a mim, por isso intervi e o convenci a
concordar com o pedido da irmã.
Além da Mel e Hannah, estariam na despedida Chloe, Anelice, Angel e
a minha irmã; a única que ficaria sem conhecer da família do Sam seria a
esposa do Miguel, porque ela só chegaria no sábado à tarde, algumas horas
antes do casamento.
Todas haviam chegado, menos Maressah, o que estava tornando difícil
me atentar para as apresentações e o bate-papo, não queria parecer antipática,
mas a ansiedade não me deixava interagir adequadamente. Estávamos
sentadas na sala de estar, todas tomando caipirinha, que Hannah preparou,
apenas nós duas ficamos no coquetel sem álcool.
Todas são mulheres muito bonitas e divertidas, Hannah e Chloe eram as
únicas loiras, e uma é o oposto da outra, enquanto Chloe é alta, com longas
pernas e curvas sutis, Hannah é uma baixinha com um corpo escultural,
olhando ninguém diria que ela tem quatro filhos; mesmo que ambas tenham
olhos azuis, não é no mesmo tom, os olhos de Chloe são mais acinzentados e
os de Hannah de um azul vívido.
Mel só tem em comum com Sam a cor dos cabelos, mas as suas ondas
cor de chocolate são destacadas por mechas loiras. Ela é muito parecida com
o JP, os mesmos olhos âmbar, herdados do pai, e o tom de pele da mãe, ao
contrário do Sam.
Angel e Anelice, embora não carreguem laços consanguíneos, têm
traços faciais parecidos, lábios finos, maçãs do rosto evidenciadas, ambas têm
cabelos castanhos, mas os de Anelice são ondulados e os de Angel lisos, elas
têm quase a mesma altura e corpos curvilíneos.
Ouvia as vozes e os risos delas e de Bárbara, conseguia captar
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pequenos fragmentos da conversa, mas não o bastante para participar, por


isso fiquei observando-as e tentando esboçar alguma reação; o que devo ter
feito muito mal, porque Hannah percebeu que minha mente estava longe.
− Muita mulher falando. – ela me cutuca. − Quer uma folga? − aponta
para a mesa de sinuca. Assinto e a acompanho. − Vou te dar um conselho de
ouro, escolha o saco de pancadas.
Olho confusa, sem entender o que ela quis dizer.
− Não entendi. – digo, quando ela analisa os tacos, escolhendo um.
− Eles precisam de algo para extravasar a raiva quando estão tendo um
dia ruim, o pai deles tem um saco de pancadas, João Pedro sempre oscilou
entre socos e sinuca. Sam costuma descarregar a raiva aqui. – ela posiciona o
taco e faz uma jogada. − Nós tentamos ter uma dessas em casa, algo como
uma sala de jogos, não deu muito certo, as crianças pegavam as bolas para
brincar. – ela mata mais duas bolas. – Você já observou o peso dessas coisas?
– pergunta, pegando a bola branca na mão. – Depois de algumas janelas e
instrumentos quebrados, desistimos. Transformamos a sala de jogos em sala
de musculação, muito mais sexy. – pisca, abrindo um sorriso. – Nos
desfizemos das bolas, mas é claro que mantivemos a mesa, sexo fora dos
padrões. Sua vez. – sinaliza para os tacos.
− Não teremos muitas crianças em casa, Guga vai fazer seis anos. –
argumento, escolhendo um taco. − Só se forem os netos. – olho para Bárbara
sorrindo no sofá. − Mas espero que eles demorem um pouco.
− Você não quer ter um filho dele? Sam é um babão quando o assunto é
crianças, você deve ter percebido. Como ele é com o Guga?
− Perfeito. – suspiro. – Quero e não quero. – respondo, ajeitando o taco
e acertando as bolas. – Na minha condição, é complicado.

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− Qual é, Fani? Você conhece o Sam, não existe nada complicado para
aquele moleque.
− Na gestação do Guga, fiquei os nove meses em pânico, com medo de
transmitir o vírus para o meu filho.
− Não transmitiu. – Hannah pontua. − Com o tratamento e
acompanhamento adequado as chances são praticamente nulas.
− Eu sei. – repito.
− Então? – ela meneia a cabeça. – Vai ser feliz sem medo, olha que sei
bem do que estou falando. – diz. O interfone toca. Olho em direção ao som,
vejo Mel levantar e correr para cozinha. − Ansiosa?
− Você vai achar estranho se disser que estou mais ansiosa com esse
momento do que o casamento?
− De jeito nenhum. – ela pega o taco da minha mão. − É a sua irmã.
− Fani, ela chegou! – Mel grita da porta da cozinha.
Vários pares de olhos voltam-se para mim. Hannah afaga o meu ombro
e caminha para o sofá
− Não assustem a Fani! Vamos continuar o papo e deixar que elas
tenham um momento de irmãs, ok? – comenta. – Você. – diz, sentando-se ao
lado da Bárbara. − Fica sentadinha aqui. – completa, abraçando-a. – Elas têm
anos de ausência para pôr em dia.
− Hannah tem razão. – Mel concorda. − Fani, fique à vontade, se
preferir conversar com ela no quarto, a gente espera.
A música que soava baixinho parecia se intensificar através das batidas
do meu coração. Acenei em concordância e me aproximei da porta, parei com
os olhos fixos na madeira negra, decidindo se abria a porta e a esperava no

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corredor ou aguardava que as batidas avisassem que ela havia chegado.


Quando levei a mão à maçaneta, uma batia ressonou na madeira. Abri a porta.
Maressah tinha dezesseis anos na última vez que a vi, vinte dois anos
haviam se passado. Agora sabia porque Sam teve certeza que ela não era uma
fraude assim que a conheceu, Maressah é uma versão mais velha de Bárbara.
Ela me olhava em silêncio, olhos arregalados, lágrimas desenhando as
linhas de expressão do seu rosto. Todas as vezes que pensava na minha irmã
era naquela garota de dezesseis anos. Deveria dizer algo, contudo, estava
assustada demais e a minha mente buscava conexões entre a mulher parada
na minha frente e a minha irmã.
A expressão no rosto dela me dizia que não era a única sem saber como
reagir, eu era uma garotinha magricela quando ela desapareceu, hoje sou uma
mulher adulta.
Não sei o que ou como aconteceu, em um instante estávamos nos
olhando em choque e no seguinte estávamos abraçadas, chorando e sorrindo
ao mesmo tempo.
Quando conseguimos conter o maremoto de lágrimas, soluços e risos,
Maressah começou a se desculpar por não ter cumprido a promessa de me
libertar daquela casa, mas não queria relembrar o nosso passado, o presente
parecia bom demais para ser maculado com memórias obscuras.
− Eu me libertei, você está viva, estamos juntas, Mah. – digo,
apertando-a forte entre os meus braços. Estou mais alta e tenho mais corpo do
que a minha irmã mais velha, ela parece frágil. – Quero viver o presente.

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Capítulo 63

Bárbara Lemos
“O problema com contos de fadas
é que eles levam uma garota ao desapontamento.
Na vida real, o príncipe foge com a princesa errada...
ou o feitiço acaba e os dois amantes se dão conta
de que são melhores com o que quer que sejam.
Mas vou confessar, de vez em quando
uma garota consegue seu final de contos de fada”.
Gossip Girl
Olhar para minha tia era ver o meu reflexo envelhecido.
Sempre achei que parecia com minha mãe, nossos olhos têm o mesmo
formato, temos o mesmo tom de pele e os mesmos cabelos, mas as
semelhanças terminam por aí.
Minha mãe é bastante favorecida no quesito curvas, enquanto pareço
uma pré-adolescente, tinha esperança que fosse desenvolver um pouco mais
de seios e bunda; não mais, herdei o biotipo estrutural da minha tia.
Estava feliz de finalmente conhecê-la e constatar com meus próprios
olhos que não era alguém querendo enganar a minha mãe ou machucá-la; por
mais que Sam tenha jurado que só decidiu contar sobre Maressah depois de
conversar com ela e ter certeza que não era uma impostora, não conseguia
relaxar.
Vendo minha mãe sorrindo, conversando animada, entendi que mesmo
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nas histórias mais sombrias, é possível ter um final feliz.


− Por todos os deuses! – Hannah exclama e gargalha alto, olhando para
a tela do celular. – Socorro, Zeus!
− O que foi? – Anelice pergunta.
− Se segurem, porque vocês vão assistir ao Sam e o Murilo
sensualizando com duas loironas.
− Como é? – levanto, pronta para caçar o cretino do Murilo.
− Meu marido é o melhor. – ela comenta entre risos, conectando o
celular na televisão, então corre para o sofá, segurando o controle remoto e
aperta o play. – Aprendam como zoar o moleque em três, dois e...
Antes de Hannah finalizar a contagem, JP surge na tela dando uma
piscadela e gira o celular, focalizando no Sam e no Murilo. Na frente deles há
dois bolos, desses que a gente vê em filmes e de onde surge uma vadia
gostosa, cubro os lábios e respiro devagar; vou matar o Murilo.
Hannah canta fervorosamente, sendo acompanhada por gritinhos, foi
somente quando saiu do bolo dois transformistas enormes com longas
perucas loiras e usando lingeries mega chamativas que percebi que a música
de fundo do vídeo e que Hannah estava cantando era “I will survive”,
conhecida como um hit gay, por ter sido a trilha sonora do filme “Priscila, a
rainha do deserto”.
Gargalhadas explodiram na sala.
Chorei de rir.
Minha mãe e Hannah continuaram gargalhando por longos minutos
depois do vídeo terminar e nós não conseguíamos parar de rir, porque só era
olhar para elas e recomeçava a onda de risos.

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Mel pegou o controle da mão de Hannah e avançou o vídeo até a parte


onde os transformistas estão sentados no colo dos dois.
− Quero uma foto dessa imagem. – diz sorrindo. – Admitam, meu
irmão é sexy de qualquer jeito.
− Ainda não descobri algo em que o Sam não seja bom, então vou ter
que concordar. – minha mãe pontua.
− Quer dizer que o moleque se acha com direito de causa? – Angel sorri
maliciosa.
− Fani, não o deixe saber, ele já se acha demais. – Mel brinca.
− O moleque é um fofo. – Anelice sorri.
− E determinado. – minha tia completa.
− Ele é o pacote completo. – Chloe sacode os ombros. – Lindo, sexy,
gostoso, divertido, inteligente, fofo, sabe como te pegar de jeito e com jeito. –
ela pisca para minha mãe. − Fani e Babi, os buquês são meus, porque quero
um homem assim para chamar de meu.
− Vamos fazer como ensaiamos. – minha mãe brinca.
− E o Murilo? – Hannah pergunta.
− Bárbara, não leve a mal, mas se tivesse conhecido o Tarzan antes do
Andy, tinha dado uns pega nele.
− Mel! – Hannah bate na coxa dela.
− Fala sério, Hannah, o Murilo é de babar. – Mel argumenta. − Nos
lábios superiores e inferiores. – completa, provocando risos.
− Nós ainda não fizemos sexo. – confesso, sentido as bochechas
corarem.
− Quê?! – um coro de vozes exclama perplexo.
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− Como você conseguiu deixar aquele homem sem sexo por mais de
seis meses? – Chloe inquere.
− Garota, vou te aplaudir, porque isso não é para qualquer mulher. –
Angel comenta. – Só um beijo do Murilo e as pernas ficam bambas.
− Você pegou o Murilo! – Mel e Chloe apontam para Angel.
− Safada, você, hein maninha? – Anelice provoca.
− Faz anos. – Angel explica.
− Não importa, pegou. – Chloe declara.
− Como diz Chloe, ele pega com jeito ou de jeito? – Mel questiona.
− Vocês estão deixando Bárbara constrangida. – Hannah comenta.
− Fico com vergonha do assunto, não pelo que aconteceu entre Angel e
o Murilo. Se for me preocupar com as mulheres que o Murilo pegou, não vou
viver.
− Aquele momento onde os filhos são mais maduros que você. – minha
mãe sorri. – Tive um pequeno ataque de ciúmes quando conheci a Chloe.
− Mentira? – Chloe arregala os olhos.
− Compreensível, vai. Olha para isso. – minha mãe aponta para Chloe.
– A garota é uma miss.
− Também ficaria com ciúmes. – Hannah confessa.
− Não sei se ficaria, nunca conheci uma ex foda do Andy. – Mel faz
uma expressão de pensativa. – Mas ele teve interesse por Hannah, o que
nunca me incomodou, afinal aconteceu antes de nos conhecermos.
− Eu, certamente, ficaria com ciúmes. – minha tia comenta.
− Eu também. – Anelice levanta a mão.

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− O time das ciumentas venceu, vamos esquecer o assunto ex fodas e


partir para a parte dos presentes. – Angel levanta. – Chloe, me ajuda?
− Lógico!
Elas saem do apartamento e retornam minutos depois empurrando duas
araras de lingeries. Meu rosto estava em chamas, podia sentir o sangue
fervendo sob as minhas bochechas. Peguei um copo de caipirinha na mesa de
centro e virei de vez.
− Nosso presente para vocês. – Hannah anuncia.
− Pega leve, Fani, não vai matar meu irmão.
− Fui eu quem desenhei todos os conjuntos e foram feitos sob medida.
Esses são os da Fani. – aponta para a arara da direita. – E esses da Babi. –
sinaliza para a arara da esquerda. – Tentei fazer o mais próximo do estilo de
cada uma.
− Qual o meu estilo? – pergunto, levantando e tirando um cabide da
arara.
− Você é mais reservada, por isso as peças são mais comportadas, para
ficar sexy abusei das rendas e transparências.
− Isso é comportado? – engulo em seco, analisando uma calcinha, tipo
shortinho, com um bordado em renda com pequenas flores que desenhavam
um triângulo transparente.
− Bárbara, joga aí. – Hannah pede e obedeço. – Preciso de um desses!
− Chloe, você podia abrir uma grife de lingeries. − Angel comenta,
exibindo um conjunto de lingerie da arara da minha mãe.
− Que lindo! – Mel exclama.
− Chloe, você precisava economizar tanto assim na renda? – minha mãe

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pergunta, tirando a calcinha do cabide e analisando mais de perto. – É uma


fantasia de piercing íntimo?
− Quero um desses também! – Hannah grita.
− Queremos! − diz Anelice.
− Fani, você é uma ousada elegante. Imagina a reação do Sam quando
tirar o vestido de noiva e descobrir essa joia? – Chloe sorri, curvando
levemente os lábios.
– É uma joia de verdade? – Angel pergunta.
− Cristais Swarovski.
− Sam vai adorar esse presente de casamento. – minha tia comenta.
− Não consigo me imaginar usando algo assim. – digo. – É difícil
acreditar que vou usar o comportado sexy da Chloe.
Estendo a mão e minha mãe me entrega a calcinha, melhor dizendo, a
joia, porque a calcinha se resume a linhas de renda que se unem sobre a
bunda presas a um conjunto de cristais. O sutiã não é diferente, se resume a
dois conjuntos de cristais sobre os mamilos.
– É lindo, mas não é para mim. – devolvo a peça a minha mãe e pego
outro cabide na minha arara. – Há algum onde esteja incluso uma venda? Por
que é a única forma de aparecer na frente do Murilo vestida com qualquer
peça dessa arara. – argumento. A lingerie que tenho em mãos é uma calcinha
cintura alta, estilo short, um par de luvas, um par de meias, uma gravata
borboleta e um suspensório preso à calcinha. – Chloe, cadê o sutiã?
− Essa é uma peça retrô, você vai enlouquecer o Murilo. – diz satisfeita.
− Não tem sutiã, os suspensórios ficam sobre os seus mamilos, como você
tem seios pequenos, é uma peça que vai realçá-los.

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− Espero que eles sirvam depois de dez anos de casamento. – declaro.


− Chloe, só tenho uma declaração a fazer: quero um de cada. – Hannah
diz séria, fazendo-nos rir. – Sério, as peças são lindas. Bárbara, chuta a
vergonha para longe, porque você vai casar com um ex cafajeste, se tem algo
que faz eles pirarem são lingeries sensuais.
− Algumas ele vai destruir no dente. – Mel morde o lábio.
− Geralmente, essas são as melhores. – Angel completa.
− Mas relaxa, aposto que o Murilo vai fazer com jeito da primeira vez,
depois você vai aprender o que é ser pega de jeito. – Hannah sorri.
– E vai descobrir que é impossível escolher entre sexo selvagem ou
fazer amor. – Anelice pontua.
− Particularmente, gosto quando começa com jeito e termina daquele
jeito. – Hannah solta um suspiro. – Se bem que João Pedro é sensacional até
nas rapidinhas.
− Hannah, se controla, você só vai encontrar meu irmão amanhã. – Mel
provoca
− Acho que vou dar uma saidinha e volto depois. – Hannah dá uma
piscadinha. – Falando sério, Bárbara, você vai ficar linda em qualquer uma
dessas lingeries.
− A gente pode escolher uma para você usar amanhã. – minha tia
propõe.
− Acho que você pode começar usando um collant. – minha mãe tira
um cabide da arara. – Desing prático. – ela sorri e me entrega a peça. – Você
vai ficar linda.
− Mãe! – exclamo ao ver os detalhes do collant.

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É uma peça em renda, decote vasado até o umbigo, as laterais e a parte


de trás são compostas por seis linhas estilo bandagem, uma sobre os quadris e
as outras distribuídas do abdômen à base dos seios. Se todos os detalhes
fossem esses, consideraria aceitável, apesar de achar exagerado ter apenas um
fio dental para vestir minha bunda, mas o detalhe maior ainda está por vir, a
renda á aberta na área dos seios e entre as minhas pernas.
– Antes ficar nua. – murmuro.
− Bárbara, a ideia é essa, garota. – Angel argumenta. – A lingerie é
para atiçar o desejo deles.
− Essa? – pergunto, fazendo um giro para que todas pudessem analisar
o collant. Todas assentem. – Se o Murilo rir da minha cara, mato vocês. Até
você, mãe.

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Capítulo 64

Sam Allencar
“Porque dois, é sempre mais forte que um.
Como uma equipe, preparada contra à tempestade do mundo.
E o amor... será sempre a força guiando nossas vidas”.
One Tree Hill
A cretina da minha irmã me proibiu de encontrar Rafani antes do
casamento. Quando voltei para o meu apartamento no sábado de manhã,
encontrei apenas Judi fazendo a limpeza da festa de despedida delas e um
bilhete desaforado de Mel, dizendo que nem tentasse ligar para Rafani,
porque ela havia confiscado o celular dela.
Tentei obter alguma informação com minha mãe, mas ela se recusou a
me dizer para onde Mel havia levado Rafani e Bárbara. Minhas avós
disseram que não sabiam de nada, estavam ocupadas mimando os bisnetos, o
que incluía o Guga. Murilo estava tão perdido quanto eu. Por fim, desisti de
tentar descobrir onde ela estava e decidi dormir um pouco.
Acordo com o nariz coçando. Abro os olhos, passando as mãos pelo
rosto e vejo um emaranhado de fios loiros na minha frente. Pisco algumas
vezes, confuso, virando-me de frente e quando volto a olhar para o lado, me
afasto rápido, quase caindo da cama.
− Como diabos você entrou aqui? – levanto, atordoado.
− As pessoas fazem qualquer coisa por dinheiro. – Samantha se
espreguiça. – Sou muito generosa com quem me ajuda.

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− Pega suas coisas e cai fora! – vocifero. – Você precisa de tratamento.


− Preciso de você. – ela rola na cama. – Aqui. – diz, e dá um tapa na
bunda.
– Vista-se e suma da minha frente!
− Está com medo de não resistir, Sam? – ela fica de quatro.
− Agora! – agarro o seu braço e a arrasto da cama, catando suas roupas
com a outra mão. – Você vai sair daqui e vai sumir da minha frente.
− Adoro quando você fica bravo, é tão sexy. – murmura, numa voz
melosa, deslizando os dedos no meu tórax.
Solto o seu braço, pego a bolsa na poltrona e volto a segurá-la, dessa
vez pelo antebraço, empurrando-a para fora do meu quarto.
− É rude me mandar embora assim. – resmunga, quando alcançamos a
sala de estar.
− Você é louca. – movo a cabeça de um lado ao outro, sem acreditar
que ela teve a audácia de invadir meu apartamento. – Você tem cinco
segundos para enfiar esse vestido pela cabeça e ir embora. – aviso, parando
de frente com a porta e jogando suas roupas e bolsa no chão, na sua frente.
Samantha passa a língua sobre os lábios e sorri, descendo os olhos pelo
meu tórax. Ao invés de pegar a porcaria da roupa no chão, ela tira o sutiã e
joga no meu rosto, no exato momento que a porta abre.
− Sam Allencar! – minha mãe grita.
− Não é o que parece. – digo, olhando para a expressão de choque da
minha mãe. – Acredite em mim. – faço um apelo Seguro novamente o
antebraço de Samantha e a conduzo para fora do meu apartamento. – Suma!
− Acho que isso é dela. – minha mãe joga as roupas e bolsas de

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Samantha no corredor.
− Vejo vocês na igreja. – Samantha exibe um sorriso desdenhoso.
Faço menção de bater à porta, mas minha mãe me impede. Ela deixa o
apartamento e para de frente com Samantha.
– Não ouse estragar o grande dia do meu filho. – diz e acerta um tapa
no rosto de Samantha.
Olho atônito para minha mãe, enquanto ela deixa Samantha no corredor
e fecha a porta, sem olhar para trás.
− Mãe?
− Se descobrir que você estava metido nessa cachorra, quem vai
impedir esse casamento sou eu.
− Juro que não fiz nada.
− Por que você ainda não começou a se arrumar?
− Porque está cedo.
− Nada disso, só quem pode se atrasar é a noiva, portanto vá tomar
banho agora mesmo. – diz, virando-me e me empurrando para o quarto.
Não adiantaria discutir, ela não me deixaria em paz. Entrei para o
banho e tive praticamente implorar para ela sair do quarto e me deixar vestir a
roupa sozinho. Argumentei que usava ternos todos os dias e sabia como estar
impecável dentro de um, ao que ela respondeu com uma revirada de olhos e
um comentário irônico: “Moleque, isso não é um terno, é um fraque”.
Como previsto, tinha tempo mais do que suficiente para me arrumar e
chegar à igreja antes da minha noiva.
Quando cheguei o Murilo estava sentado no carro, em frente à igreja,
saltei do meu carro e me juntei a ele.
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Minha mãe foi correr atrás dos Terríveis que estavam correndo de um
lado para o outro, o que significava que eles deveriam estar sozinhos com JP,
porque Hannah teria amarrado os pestinhas no banco para não amarrotarem
as roupas.
− Bárbara fez sinal de fumaça?
− Celular na caixa. Elas podem desistir na última hora?
− Espero que não.
− Elas vão vir com quem?
− Mel?
− Mel chegou e saiu algumas vezes, ela trouxe os Terríveis, depois o
Fera e o Guga, os deixou com JP e Andy.
− Você chegou que horas?
− Estou nervoso, porra.
− Eu também, por isso que queria chegar em cima da hora. Dormi o dia
todo.
− Você dormiu? – ele gargalha. – Não consegui nem cochilar, estou
ligado desde ontem.
− Estou melhor do que você então.
− Minha mãe veio aqui umas dez vezes, a cada vez, ela me oferece um
chá diferente, estou esperando o momento em que a oferta será whisky, para
poder aceitar.
− Será que alguém vai notar se formos no pub mais perto ingerir
algumas doses de álcool?
− Sério?

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− Muito sério, minha perna esquerda está começando a ter vida própria.
– apoio a mão sobre a coxa, tentando conter o tique. – Estamos quarenta
minutos adiantados.
− A gente vai e volta antes delas chegarem.
− Liga esse caralho e vamos.
− Duas doses e voltamos.
− Vai logo, Murilo!
Se minha mãe aparecesse na porta da igreja e não nos visse, ela iria
arrancar as minhas bolas.
Paramos em um pub, há duas quadras da igreja, não dava para
passarmos despercebidos usando fraques, com uma flor na lapela, portanto
todos nos olharam quando entramos. Sentamos em banquetas, numa mesa
mais alta, próximo ao balcão, pedimos duas doses de whisky e conversamos
sobre merdas, coisas idiotas que fizemos na faculdade, qualquer coisa que
nos fizesse rir e aliviar a tensão.
Voltamos para igreja e nada das noivas, mas algo não estava certo.
Hannah e Mel estavam encostadas no meu carro, com braços cruzados e
expressões nada amigáveis.
Deliberamos por alguns segundos, decidindo se deveríamos ir falar com
elas ou esperar no carro, quando percebemos que elas permaneceriam
paradas, nos olhando como quem estava prestes a arrancar os nossos caralhos
com as próprias mãos, descemos do carro e nos aproximamos,
cautelosamente.
− O que você fez? – Mel pergunta entredentes, avançando na minha
direção. – Você tinha que ferrar tudo?
Olho para o Murilo, sem entender o que está acontecendo.
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Estou sendo acusado por que mesmo?


− Mel, só fomos em um pub, tomamos uma dose de whisky para aliviar
o nervosismo e estamos de volta.
− Sam, nós vimos as fotos. – Hannah diz séria.
− Que fotos? – eu e Murilo perguntamos.
− A vadia da Samantha, que não tem merda nenhuma para fazer da
porra da vida, enviou fotos para Fani. – Mel aponta o dedo para a minha cara.
– Na sua cama, com o seu fraque de fundo e deitada ao seu lado. – ela me dá
um tapa na cara.
− E fez a gentileza de acrescentar uma mensagem, dizendo que você
estava casando com Fani por pena e enquanto Fani sonha com um conto de
fadas, seu pau está enterrado em todos os buracos dela, pele com pele, como
nunca vai acontecer com Fani. − Hannah me entrega o celular. – Tem até
uma foto das partes íntimas dela, arrombadas e lambuzadas de esperma, Sam.
Havia fotos de vários ângulos. Tinha que admitir que Samantha sabia o
que fazia, porque parecia que havíamos saído de uma maratona de sexo e até
eu teria acredito que havia fodido com ela, se não tivesse totalmente sóbrio.
− Onde ela está? – passo o celular para o Murilo ver as fotos.
− Ela não quer falar com você, Sam. – diz Mel.
− Samantha é uma vadia obcecada, ela precisa de tratamento
psiquiátrico. – Murilo comenta. – Preciso falar com Bárbara.
− Ela deve estar chegando a qualquer minuto, está com Chloe, elas
precisaram fazer um ajuste de última hora no vestido. – Hannah explica. –
Ela não sabe das fotos.
− Por favor, me digam onde encontrar a Fani.

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Hannah e Mel se entreolham.


Hannah abre a mão e me entrega uma chave.
− Na casa onde moramos quando ficamos aqui. Ela só ficou lá porque
prometi que ninguém a encontraria, não me faça quebrar a minha promessa
em vão.
− Não case sem mim, viado! – digo, entrando no carro. – Controlem a
Bárbara, não quero levar outro tapa na cara.

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Capítulo 65

Murilo Valverde
“No segundo que eu olhei para ela...
Tudo mudou.
O universo inteiro mudou”.
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− Murilo, se acalma. – Hannah pede.
− Como? Minha noiva está chegando a qualquer momento e Sam não
voltou com Rafani. Você acha que ela vai me ouvir? Não! E se Samantha
mandou fotos para Bárbara também?
− Murilo, para de falar, você está me deixando mais nervosa. – Mel
segura os meus ombros. – Quieto.
− Sereia, Maria que ir ao banheiro, mas como que faz com aquele
monte de... – JP se aproxima, vendo a minha expressão de pânico, ele
reformula a pergunta. − Algum problema?
− Amor, fique com os Terríveis e peça para sua mãe ou Angel ir com
Maria ao banheiro, por favor. – Hannah ajeita a lapela do meio fraque do JP.
– Tivemos um problema, mas estamos tentando não entrar em pânico.
− Não era para o Sam estar aqui?
− Ele estava, depois não estava, depois estava de novo. Não faz
perguntas, amor, estou tensa. – Hannah tagarela.
− Vou resolver o problema da Maria, qualquer coisa me chama. – ele
diz e dá um selinho na Hannah.
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− Te amo. – ela sussurra e alisa a barba dele.


− O moleque vai voltar, Sereia, ele encontrou a maldita exceção, como
ele diz.
JP voltou para a igreja e estava quase pedindo para Hannah ir chamá-lo,
porque vê-los juntos me ajudava a ter esperança que as coisas terminariam
bem, quando Chloe apareceu ao meu lado.
− Cadê o Sam? E Fani? – pergunta, olhando ao redor.
− Cadê Bárbara?
− Está no carro, na quadra de trás, deixei o motorista com ela. Sam e
Fani? Onde eles estão? Por que vocês estão com essas caras?
− Samantha enviou fotos comprometedoras do Sam. – Hannah entrega
o celular a Chloe.
− Ela acreditou?
− Chloe, nós acreditamos. – Mel ergue as mãos.
− Meu Deus! – Chloe devolve o celular. – Deem algum crédito ao Sam,
ele a ama. Será que vocês não conseguem ver? Ele deixou de ser aquele
moleque que conhecíamos no momento em que a encontrou. Sempre soube
que no dia que ele se apaixonasse não haveria mulher no mundo capaz de
fazê-lo voltar a ser um cafajeste.
− Ela tem razão. – Hannah murmura e olha para Mel.
− Se Samantha tiver a audácia de aparecer nesse casamento, irei socar
aquela vadia. – Mel diz entredentes.
− Alguém pode ir ver Bárbara e explicar o que está acontecendo? –
pergunto, tentando manter a calma.
− É melhor eu ir. – Mel comenta.
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− Vai no meu carro. – entrego a chave.


− Ninguém mais sai daqui, entenderam?
− Mel, vai logo, antes que a Bah mande o motorista trazê-la para cá.
− Alguém pega uma água para o Murilo. – Mel pede, antes de entrar no
carro e sair.
A cerimonialista tinha desistido de tentar descobrir o que estava
havendo, ela nem se aproximava mais, colocava a cabeça na porta da igreja,
nos observava por alguns minutos e voltava a entrar.
Havia passado trinta e dois minutos do horário agendado para a
cerimônia, o padre estava perguntando se ainda haveria casamento. JP
explicou que tivemos um pequeno incidente, mas não tardaríamos a chegar,
então saiu da igreja acompanhado do Andy, e escoltando as crianças, porque
elas estavam agoniadas com a roupa.
Os Terríveis tinham arrancado as gravatas, Guga e Fera tiraram os
blazer e Maria declarou que estava cansada de ficar vestida de princesa.
Minha mãe havia vindo ver porque estávamos demorando tanto e só
pedi que ela não fizesse perguntas, meu limiar de paciência estava zerado.
Nem tinha fechado a boca quando ela perguntou onde o Sam estava, pois as
noivas estavam descendo da limusine.
− Limusine? – perguntamos em coro e viramos de costas para a igreja,
assistindo o motorista abrir a porta da limusine.
− Por que não viemos de limusine? – Maria pergunta chateada. –
Também quero, pai!
− Filha, espera um pouco. – JP e Hannah disseram simultaneamente,
cada um segurando um dos Terríveis.

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Um mar branco surgiu na porta da limusine, com a ajuda do motorista a


noiva saiu, ajeitou o corpete do vestido e olhou para a porta da igreja,
ignorando a nossa presença.
− É Samantha? – minha mãe pergunta, dando voz aos nossos
pensamentos.
− Essa vadia é inacreditável! – Chloe diz exaltada e parte para cima de
Samantha, antes que alguém possa impedi-la, embora duvido que alguém
tivesse o mínimo de vontade de evitar a surra que Samantha iria levar.
As crianças gritaram quando Chloe acertou um tapa no rosto de
Samantha e ouvi Hannah dar um gritinho em comemoração.
− Sua piranha louca! – Chloe puxa o véu da cabeça de Samantha. –
Qual o seu problema, vadia? – pergunta, agarrando os cabelos dela e a
empurrando para o chão.
− Ele só quis te foder, cansou de ser rejeitada e decidiu ser a fada
madrinha da gata borralheira? – Samantha grita, cruzando os braços sobre o
rosto. – Sam é meu, ele só estava com pena da aidética vagabunda, agora ele
está livre e vamos nos casar.
− Tenho pena de você! – Chloe dá um soco no estômago de Samantha,
forte o suficiente para fazê-la cair, embolando no vestido. Chloe segura na
bainha do próprio vestido e puxa, abrindo um rasgão, então monta sobre
Samantha, prende suas mãos entre as pernas e começa a estapeá-la no rosto. –
Você não foi mulher nem para ele foder, deixa de bancar a louca. – Chloe
esbraveja enquanto segura Samantha pelos cabelos e dispara uma série de
tapas na cara. – Lave a sua boca para falar da Fani, ela é a mulher que ele
escolheu, a mulher que ele ama e não serão as suas armações de merda que
irão separá-los.

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– Deixa um pouco para mim. – uma voz soa longe.


Estava entretido com a surra que perdi o momento que a limusine
partiu, o motorista deve ter pensado que era melhor cair fora e evitar
problemas. Do outro lado da calçada, Sam estava de mãos dadas com Rafani,
que sorria para Chloe.
− Com prazer. – Chloe responde, soltando os cabelos de Samantha. –
Vá para o inferno, piranha! – diz e acerta um último tapa antes de se levantar,
limpando o vestido.
Não vi por onde Bárbara chegou ou quando. Senti uma mão
entrelaçando-se à minha e quando olhei ela estava ao meu lado, sorrindo.
Apertei a sua mão, ela ficou na ponta dos pés, apesar de estar mais alta que o
habitual, e me inclinei para beijá-la.
− Te amo, Mô. – sussurra.
− Não mais do que eu te amo.
Nossos lábios se aconchegam, por segundos esqueço a briga que estava
acontecendo e o caos que foi o dia de hoje.
− Fica longe do meu homem, vadia! – ouço Rafani esbravejar.
Interrompemos o beijo e viramos a tempo de ver Sam estendendo a
mão para Rafani se levantar.
− Ah, mãe, perdi o tapa! – Bárbara reclama.
− Tapa? – JP gargalha.
− Foi um soco, Babi! – Chloe diz entre risos.
− Mamãe! – Guga corre para perto de Rafani e Sam o pega no colo. –
Você pode fazer de novo?
− Não, você tem que levar a mamãe e a Babi para o altar, lembra?
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Capítulo 66

Sam Allencar
“Mas quando você está com alguém,
como eu quero estar com você,
não existem tempos difíceis.
São só tempos.” 
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Vou receber algumas multas de trânsito e, eventualmente, perder alguns


pontos na carteira, porque com a quantidade de radares e semáforos que
existem nessa cidade, a única forma de encontrar Rafani antes que ela
decidisse sumir era esquecer dos limites de velocidade.
Estacionei na rua mesmo. Quando entrei, levei alguns minutos para me
situar, porque o lugar estava todo decorado com flores, havia várias mesas de
maquiagem, espelhos e mesas de massagem, nem o JP seria capaz de
reconhecer a casa onde morou alguns anos atrás.
Não havia ninguém à vista.
Chamei por Rafani, mas não obtive resposta.
Ela não estava em nenhum lugar entre o nível térreo e o superior.
Sentei no chão de um dos quartos, levei ambas as mãos à cabeça,
puxando os fios do cabelo com força.
Para onde ela teria ido?
Não tinha tempo para ficar me lamentando, levantei e saí para a
varanda, olhei aos arredores da casa, talvez ela tivesse se escondido quando
me ouviu. Frustrado, joguei a cabeça para trás e olhei para o céu, meio
avermelhado, podia ver raios ao longe, o som baixinho de trovões, então vi a
janela do sótão. Sorri sozinho e dei um soco no ar em comemoração, ainda
havia esperança.
Corri para a escada do sótão, sabia que ela ficava em um dos quartos
sem suíte, mas não lembrava qual, por isso vasculhei dois quartos antes de
encontrar a porta que escondia a escada.
Tentei fazer o máximo de silêncio possível enquanto subia, se ela
estivesse lá e se trancasse, não teria nenhuma chance de arrombar aquela
porta, a escada era estreita e não havia espaço para tomar impulso.
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A porta estava entreaberta, me esgueirei pela fresta, empurrando apenas


o suficiente para conseguir passar. Ela estava sentada no chão, de costas para
a porta, com o vestido de noiva no seu colo, o tecido branco volumoso
formava uma ilha ao seu redor; ela chorava baixinho, alisando os bordados do
vestido.
“Fani?”
“O que você quer? Você está livre, não precisa ficar mal, porque sou
eu quem está te deixando”.
“Quero que você vista a porra desse vestido e vá comigo para a igreja,
porque tem um casamento para acontecer”
“Eu posso cuidar de mim mesma, faço isso desde cedo, não se
preocupe, um coração partido é o mínimo diante de tudo o que enfrentei”.
“Eu não fodi a Samantha, não faço ideia de quem a fodeu, mas não fui
eu. Talvez tenha sido o mesmo filho da puta que a ajudou a invadir meu
apartamento. Você vai mesmo acreditar que estou casando com você por
pena? Não sou tão altruísta assim, mulher!” – agachei na frente dela. –
“Longe disso”. − segurei as suas mãos. – “Sou egoísta, muito egoísta. Por
isso estou aqui, por isso te pedi em casamento”. – sorri. Ela estava linda,
mesmo com os olhos vermelhos e inchados. Aproximei uma mão do seu rosto
e sequei as lágrimas sobre as maçãs do seu rosto. – “Sou egoísta, Fani, quero
que você seja minha e só minha, quero estar com você e quero ser o único a
saber o quanto é incrível estar com você. Quero roubar os seus sorrisos e o
seu coração, para que eles só existam para mim, porque o meu coração é
seu, não há uma única pulsação no meu corpo que não seja por você. Meu
único erro foi não te beijar na porra daquele vestiário, como queria ter feito,
deveria saber que a garota dos olhos multicolores era por si só uma exceção.
Mas que saber, Fani? Não me arrependo de nada, nem de ter esperado para
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te beijar, e Santo Deus, como esperei. A cada chance que deixava ir, pensava
comigo mesmo: “ainda não, Sam, ela merece mais”. Estava certo, você
merece todo o meu amor e por isso estou nas suas mãos, se você não quiser
acreditar nos meus sentimentos, não sei o que fazer, não sou um mocinho de
comédia romântica, sou um cafajeste apaixonado, um moleque que está
sentindo a porra do coração apertado, morrendo de medo que você diga que
prefere seguir sem mim. Casa comigo?”
“Na minha vida não há espaço para um mocinho de comédia
romântica”.
Não menti quando disse que estava com medo, estava apavorado. O
nervosismo era tanto que fiquei olhando para ela, sem conseguir processar o
que aquela frase significava.
Será que dessa vez ela não podia ser literal?
Juro que nunca mais reclamo quando ela me der respostas curtas e
diretas.
Foram segundos entre ela terminar a frase, empurrar o vestido de lado e
jogar o corpo contra o meu, unindo os nossos lábios.
Os segundos mais longos da história da humanidade.
Mais alguns segundos para as minhas roupas estarem em qualquer lugar
do sótão, milésimos de segundos para desfazer o nó do seu hobby,
microssegundos para arrebentar a renda da lingerie, logo depois de parar por
um minuto inteiro para apreciar o quanto ela estava sexy com os seios nus
entre a renda e pequenos cristais cobrindo as suas aréolas.
A segurei pelos quadris e a fiz girar, de modo que pudesse analisar a
calcinha, o que foi o máximo que aguentei, antes de segurar a renda sobre sua
bunda, passando os dedos pelos cristais e puxar de vez, partindo-a ao meio.

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Beijei a base da sua lombar e me abaixei para procurar a camisinha na


carteira, o que levou meio segundo. Levantei, agarrando-a pela cintura, ela
pegou a camisinha e desenrolou no meu pau, enquanto chupava os seus seios.
Ela puxou os meus cabelos, avisando que havia acabado, a enganchei
nos meus quadris, ao mesmo tempo em que deslizava dentro dela, sentindo a
sua umidade me abraçando.
A imprensei contra a parede e fodemos desesperadamente. Ela me
beijava, puxava os meus cabelos e arranhava as minhas costas. Meus lábios
lambiam a sua pele suada, meu torso a espremia, roçando nos seus seios,
minhas mãos apalpavam forte sua bunda, sentia os seus espasmos apertando
o meu pau, o orgasmo se aproximando. Ela cravou as unhas nos meus ombros
e gemeu o meu nome alto, foi o bastante, investi fundo e gozei, sentindo-a
apertando o meu pau.
Tomamos banho juntos, me vesti e a ajudei com o vestido, avisando
que se ela tinha alguma intenção de guardá-lo, teríamos que encomendar uma
réplica para Chloe, nem fodendo ia ter paciência para abrir um por um
daqueles botões quando chegássemos à nossa casa.
Quando terminei de abotoar os trocentos botões que percorriam toda
sua coluna, sentei para esperá-la arrumar os cabelos e refazer a maquiagem.
O vestido evidenciava as suas curvas, justo até as coxas e então ficava
meio rodado, atrás tinha um babado discreto, logo abaixo da sua bunda, que
se estendia como uma cauda, era todo bordado em renda e cristais, a parte
superior com um decote sutil entre os seios, e na parte do busto e braços,
assim como metade das costas, transparente com bordados em pequenas
ramificações.
Não sabia que um vestido de noiva podia ser tão sexy, estava duro de
novo e, sem dúvida nenhuma, aqueles botões iriam voar essa noite.
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A caminho da igreja tentamos ligar para avisar que estávamos


chegando, mas ninguém atendia os celulares. Acho que descobrimos a
explicação assim que saltamos do carro em frente à igreja, Chloe estava
dando uma surra na Samantha. Nós nos entreolhamos e voltamos a olhar para
a cena que se desenrolava.
“Ela está vestida de noiva?” – perguntamos em uníssono.
O que veio a seguir me surpreendeu, Rafani pediu a vez para bater na
Samantha, o que Chloe consentiu. Atravessamos a rua de mãos dadas e
quando se agachou ao lado de Samantha, estava esperando por um tapa no
rosto, mas Rafani a socou na boca.
“Fica longe do meu homem, vadia!” – disse, com um sorriso nos
lábios.
Não consegui não rir, estendi a mão para ajudar Rafani a levantar, me
sentindo um homem ridiculamente feliz.

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Capítulo 67

Bárbara Lemos
“Na vida, a jovem rainha vira uma tirana e leva seus suditos para
guerra.
É por isso que precisamos de filmes. Para lembrar que apesar de tudo,
o amor ainda pode nascer nos locais improváveis.
E então, algumas vezes, até contos de fadas podem se realizar.”
Gossip Girl
Enquanto Mel me contava o que havia acontecido, não sabia se queria
chorar, gritar ou estrangular Samantha.
Não bastava todo o sofrimento que a minha mãe viveu?
Samantha é a típica personagem de contos de fadas que acha que pode
ter tudo o que quer, independente do mal que vá causar aos outros. Ela não
tem escrúpulos, a obsessão a transformou na tirana que envenena a Branca de
Neve, joga um enfeitiço na Bela Adormecida, corta a língua da Pequena
Sereia e destrói a fé no amor que minha mãe levou tanto tempo para
construir.
Não podia permitir que Samantha arruinasse a felicidade da minha mãe,
precisava fazer algo, queria ir atrás dela, no entanto Mel me fez ver que era o
Sam que teria que fazê-la perceber que tudo não passou de uma armação.
Relutante, concordei que aguardaria por eles, mas não seria trancada no
carro, na rua de trás da igreja, dispensei o motorista e saltei do carro,
segurando a saia do vestido.

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“Bárbara, você vai estragar o vestido”. – Mel reclamou, me seguindo


para fora do carro.
“Vamos para a igreja”. – disse, parando ao lado do carro do Murilo. –
“Destrave o alarme, assim posso entrar e o vestido continuará impecável”.
Mel me olhou por alguns instantes, quando percebeu que não
conseguiria me segurar ali, desativou o alarme. Abri a porta e entrei, puxando
o vestido para não prender o comprimento na porta.
Chloe fez um trabalho primoroso no vestido e não queria estragá-lo. O
vestido é composto por uma saia em renda e tule, caimento godê farto,
cintura marcada por um laço estilo cinto, e parte superior de manga comprida,
decote canoa e bordado em renda e cristais, desenhando figuras geométricas.
No instante em que Mel estacionou próximo à igreja, vimos uma
limusine parada e uma mulher vestida de noiva descer. Nos olhamos e demos
de ombros. Saltamos do carro e antes que déssemos um passo, vimos Chloe
acertar um tapa no rosto da noiva e agarrá-la pelos cabelos.
Olhei para Mel do outro lado do carro, ela estava com os olhos
arregalados e sorria para mim, como se quisesse confirmar o que estava
acontecendo.
“É a Samantha?” – perguntamos ao mesmo tempo.
Não podia perder aquele show. Inclinei-me, puxei a bainha do vestido,
segurando o máximo da saia, na altura das minhas coxas, e corri, logo atrás
de Mel; aquele sim era um presente de casamento inesquecível.
Murilo estava acompanhado pela sua mãe, JP e Hannah, com os filhos,
Andy e Guga. Todos, adultos e crianças, não desgrudavam os olhos da briga.
Chloe estava rasgando o vestido e sentando sobre o amontoado de tecido que
Samantha usava, prendendo-a e desferindo inúmeros tapas no rosto da vadia.

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Quando estava pensando que deveria filmar o momento para minha


mãe, ouvi sua voz e sorri ao vê-la de mãos dadas com o Sam, do outro lado
da calçada.
Parei ao lado do Murilo, soltei o vestido e entrelacei as nossas mãos.
Ele me olhou, sorrindo, segurou firme a minha mão e se inclinou, apoiei na
ponta dos saltos e deslizei os dedos pelo seu rosto, afagando a sua barba.
Nos beijamos e no meio do beijo ouvi uma frase que nunca imaginei
sair da boca da minha mãe, mas a verdade é que gostei, era bom vê-la brigar
pela sua felicidade, assim como era bom saber que ela tinha alguém que
estaria sempre ao seu lado: Sam Allencar, o seu homem.
Minha sogra disse que iria chamar a cerimonialista para começarmos
aquele casamento antes que mais algum vestido fosse rasgado. Chloe sorriu
com o comentário e com um simples movimento deu um laço no rasgo,
repuxou um pouco de cada lado e o vestido parecia outro; não era mais um
longo, mas quem se importava?
Em minutos a cerimonialista chegou com Lizzie, Guilherme, Fred,
Lucca, Lúcia e Leônidas. Ela foi logo colocando ordem na bagunça, nos
mandando para os nossos lugares.
O primeiro a entrar seria Murilo acompanhado da mãe, em seguida Sam
com os pais, ele fez questão que ambos estivessem ao seu lado, e depois os
padrinhos: JP e Hannah, que ainda estavam tentando rearrumar os Terríveis,
Lucca e Fred, Lúcia e Leônidas, Mel e Andy.
– Vocês dois para cá. – diz a cerimonislista.
– Aqui? – Mel pergunta, cruzando os braços.
– Isso mesmo.
– Mel, qual é? – Andy tenta abraçá-la e ela dá as costas para ele. O que
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aconteceu foi que Andy chamou um táxi para Samantha e a ajudou a levantar,
o que deixou Mel com raiva e eles estão discutindo desde então. – Você
queria que deixasse a garota jogada no chão?
– Sim, Andy! SIM!
– Mel, pega leve aí. Acho que ninguém queria encontrar Samantha
ainda aí quando saíssemos da igreja. – JP intervém.
– Mesmo? Por que não foi você quem a ajudou? – ela rebate.
– Porque estava ajudando arrumar as crianças. Não foi nada demais,
deixa de drama.
– Vá se foder, JP! – Mel esbraveja.
– Mel! – um coro de vozes a repreende, em parte porque estamos na
igreja, em parte porque as crianças estão presentes.
– O que tenho que fazer para você me perdoar?
– Talvez se te der um chute nas bolas a minha raiva passe.
– Depois do casamento você pode até arrancar as bolas dele fora, mas
agora deem os braços e entrem. – a cerimonista exige.
– Moça, que isso? – Andy pergunta.
– É a vez de vocês, vão. – ela os empurra para a porta da igreja.
Depois da entrada dos padrinhos, entraram os Terríveis, Maria e Fera.
A música que escolhemos para os noivos foi “Can't Help Falling In Love“,
do Elvis Presley, e os padrinhos e as crianças entraram ao som de “A Time
For Us”, de Loreena McKennitt.
Não deveria estar nervosa, porque sei que Murilo está lá dentro me
esperando, mas estou nervosa e ponto.
Guga deu os braços para mim e nossa mãe, nos abaixamos e demos um
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beijo na sua bochecha. Ouvi as primeiras notas da “Ave Maria”, de Franz


Schubert, e senti as lágrimas anuviando os meus olhos.
Minha mãe virou-se para mim, sorrindo, e soltou um beijo no ar.
Devolvi o beijo, suspirei fundo e fechei os olhos. Nós havíamos ensaiado
uma parada na entrada da igreja, então sabia que eles interromperiam as
passadas quando ultrapassássemos a porta.
De olhos fechados dei os primeiros passos, quando senti Guga parar,
abri os olhos e o meu sorriso deveria ser imenso, sentia as lágrimas nos meus
lábios e o meu coração batia forte e alto.
Dizer que Murilo estava lindo é um pleonasmo, ele é lindo, estava
acostumada a vê-lo com roupas informais, jeans, camisa xadrez dobrada
sobre os bíceps e camiseta básica por baixo, hoje o meu gigante estava todo
alinhado em um fraque sob medida, os cabelos presos em um coque, um
sorriso doce e os olhos verdes avermelhados, tornando impossível esconder
as lágrimas.

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Capítulo 68

Rafani Lemos
“E as vezes é preciso se aventurar fora do seu mundo
para se encontrar.”
Gossip Girl
Sam Allencar não tira o sorriso safado do rosto nem na igreja.
Meu coração parecia perder um compasso a cada passada.
Quando ele mordeu o lábio e piscou, senti o feixe de nervos entre as
minhas pernas responder.
Santo Deus, Sam Allencar! – pensei, umedecendo os lábios e curvando-
os em um sorriso. – Estamos na igreja. – meus pensamentos advertiram.
Quando iria imaginar que em poucos meses o playboy presunçoso, que
invadiu o vestiário como um garoto de cinco anos fugindo da irmã, e que saiu
batendo a porta furioso por ter ouvido um “não”, estaria no altar, a alguns
minutos de ouvir um “sim” que ia muito além de uma noite de sexo.
Dessa vez, ele não está usando um terno Armani, mas está tão sexy
como da primeira vez que o vi, e em todas as outras. É irritante como ele
consegue ser despojado e gostoso, seja de terno, roupas casuais, boxer ou
como veio ao mundo.
Ele está usando um fraque grafite, camisa branca, calça e colete da
mesma cor do casaco e uma gravata cinza com listras prateadas. Os cabelos
presos no habitual coque samurai, a barba cheia e bem aparada, a calça na
medida exata para evidenciar a musculatura da coxa, sem perder a elegância,
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o recorte do fraque e colete revelando o eixo central da sua estrutura pélvica


e, consequentemente, o volume provocado pelo seu pau.
Apertei os lábios e ergui os olhos, até encontrar os seus. Ele sorriu, deu
um cutucão no Murilo e caminhou ao meu encontro. Movi a cabeça devagar,
lembrando que ele deveria continuar onde estava, mas ao invés de parar e
voltar, foi o Murilo que o seguiu.
Não posso deixar de comentar que o meu genro também está lindo,
usando um fraque preto, calça risca de giz, colete cinza e gravata prateada;
ambos têm um lírio branco na lapela do fraque.
Sam e Murilo deram alguns passos pelo corredor e pararam entre o
primeiro e segundo arranjo de flores. Quando nos aproximamos, Guga soltou
os nossos braços, pegou os buquês e eles estenderam as mãos para nós.
Dei a mão ao Sam, ele se ajoelhou, deixando uma perna flexionada e
me fez sentar. Sorri, repousando uma mão no seu pescoço e ele beijou o meu
rosto. Olhei para o lado e vi que Murilo e Bárbara estavam na mesma
posição, Guga entre nós, segurando ambos os buquês, ele olhou de mim para
a irmã, beijou a bochecha dela, depois se virou, beijou-me e terminou de
percorrer o corredor sozinho, enquanto Sam e Murilo levantaram, conosco no
colo e juntos seguimos para o altar.
A cerimônia foi simples, sem muitas delongas, optamos pelos votos
tradicionais, o que foi bom, porque os convidados deviam estar cansados pelo
nosso atraso.
Na saída da igreja, uma chuva torrencial nos aguardava, raios
iluminavam a noite, a cerimonialista distribuiu guarda-chuvas para os
convidados, mas nós os dispensamos e corremos para os carros, sob a chuva e
centenas de grãos de arroz.

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Quando chegamos ao carro, que estava cheio de rabiscos, onde se lia


recém-casados e game over, Sam abaixou a janela e gritou para aproveitarem
a festa. Só ouvi os gritos de Mel e de Lizzie dizendo que se não
aparecêssemos para cumprimentar os convidados, iriam todos para a nossa
casa.
A festa foi organizada em um espaço há alguns minutos da igreja,
foram disponibilizados carros para transportar os convidados. A decoração
contava com móveis brancos, grandes lustres em cristais, arranjos com lírios
cor de rosa e algumas plantas verdes localizadas nos cantos do salão e
iluminadas por leds.
Bárbara e Murilo chegaram à festa na nossa frente. Sam me ajudou a
sair do carro e quando entrelaçou as nossas mãos para acompanhá-los, o
segurei e pedi que esperasse um pouco. Ele não entendeu, mas assentiu.
Fiquei olhando Bárbara de braços dados com Murilo, sorrindo e feliz.
Ela se abaixou tirou os saltos, nunca gostou de saltos, e ele a abraçou, tirando
os seus pés do chão, então a beijou, sem se importar com a chuva.
– Ele vai fazê-la feliz. – Sam comenta, deslizando a mão na minha
nuca. – Assim como vou te fazer muito feliz. – roça os nossos lábios. –
Prometo.
– Estou feliz. – afago sua barba. – Muito feliz.
– Eu te amo, Fani.
Senti o toque macio dos seus lábios, as nossas línguas enoveladas, as
suas mãos segurando-me firme junto ao seu corpo. Os sons do meu coração
eram tão altos quanto os trovões. Deslizei a mão pelo seu braço, sentindo o
bíceps sob o tecido molhado do fraque.
Um trovão soou perto demais.

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Em um instante o beijo havia se desfeito.


Sam me abraçou apertado, aprisionando-me entre os seus braços e nos
encolhemos no chão, meu rosto encostado ao seu peito. Podia sentir a textura
do lírio molhado alisando os meus lábios.
Ouvi gritos confusos e exasperados.
Vozes abafadas pelo som dos carros, da chuva e dos trovões.
Sam beijava os meus cabelos repetidamente, seus batimentos estavam
acelerados, a respiração ofegante.
– Mãe! Mãe!
Era a voz de Bárbara.
– João Pedro! – reconheci a voz de Hannah.
– Mãe? – Bárbara se abaixa ao meu lado e deita o rosto nas minhas
costas. – Mãe.
– Vocês estão bem? – Murilo pergunta, agachando e envolvendo Sam
pelos ombros, fazendo-nos tombar para o seu abraço.
– Estamos bem. – Sam murmura. – JP? – chama alto, erguendo o rosto.
Murilo puxa Bárbara e nos dá um pouco de espaço, aproveitando que
Sam afrouxou o abraço, apoio a mão no seu tórax e olho para trás, vejo
Hannah correndo, assim como o Lucca.
– O que... – meu peito aperta ao ver JP no chão, com Samantha.
– João Pedro! – Hannah está correndo e chorando.
Vejo Chloe e Angel segurando os meninos.
Mel abraçada com Maria.
Guilherme e Lizzie saindo do carro e correndo.

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Lucca ultrapassa Hannah e pega um revolver do chão, enfiando-o no


cós da calça. Ele se agacha ao lado do JP, segura Samantha pelos braços,
fazendo-a levantar-se e a arrasta para longe. JP se move, colocando-se
sentado, e vejo Hannah sorrir em meio as lágrimas.
– JP, não faz mais isso! – Sam exclama, sorrindo aliviado.
– Fique longe das loucas! – JP responde, sorrindo e virando-se. Hannah
sorri, ele abre os braços e ela se joga. – Minha Sereia. – diz, agarrando-a pela
cintura e beijando-a.
Olho o todo, tentando ligar os pontos.
Lucca trancou Samantha no carro e está encostado na porta, falando no
celular, perto dele estão Fred e Marcelo, pai da Samantha. Maria e os irmãos
se juntaram aos pais no chão e estão abraçados. Andy venceu a resistência de
Mel e ela deitou a cabeça no seu ombro. Guilherme e Lizzie estão parados,
abraçados, os olhos vagando entre os três filhos.
– Vamos entrar. – diz Sam, me ajudando a levantar.
– O que Samantha estava fazendo aqui?
– Só vimos quando ela atirou, mas JP a tinha derrubado, não sabíamos
se o tiro tinha atingido vocês ou ele. – Murilo explica.
– Ninguém se feriu. – Sam me dá um selinho. – Vamos comemorar! –
ele grita para o irmão.
– Vocês podiam ter feito uma festa na piscina. – JP diz entre risos,
levantando e pegando os Terríveis no colo.
Corremos para o salão e fomos recebidos pelos abraços calorosos dos
avôs do Sam. As nossas roupas estavam encharcadas, sujas pela água
lamacenta que se acumulava no chão, mas ninguém se importava.

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Chloe estava com Guga no colo, os olhos cheios de lágrimas, a puxei


para um abraço e Guga agarrou o meu pescoço. Peguei o meu garotinho no
colo e Chloe se jogou nos braços do Sam, abraçando-o e beijando o seu rosto.
Não tinha mais ciúmes, nos três meses que convivi com ela havia entendido
que o amor que há entre eles nunca morreria, apenas era diferente do nosso
amor.
Vi o sorriso da minha irmã entre os rostos que se aproximavam e os
seus braços aconchegaram a mim e ao Guga, beijando-nos. Ela me
apresentou o esposo e a filha, e prometemos que voltaríamos a ser uma
família, não nos perderíamos outra vez.
Sam estava cumprimentando Miguel e a esposa, uma loira
deslumbrante, que ainda não havia conhecido; quando me viu com Maressah,
veio cumprimentá-la. Guga pulou para o colo do Sam e ele passou o braço
em volta da minha cintura, então fomos envolvidos em um abraço coletivo
com JP, Hannah e as crianças.
– Vamos brincar? – Fera pergunta ao Guga.
– Vamos! – Guga diz e pede para o Sam colocá-lo no chão.
– Vou com eles. – diz Maria.
– Papai, chão! – Os Terríveis pedem.
– Nada de fazer guerra de comida. – Hannah avisa e eles saem
correndo.
– Te amo, moleque. – JP dá um tapa no rosto do Sam.
– Também te amo, mas amo mais aqueles pestinhas. – Sam olha para os
sobrinhos correndo entre as mesas. – E minha cunhada gostosa. – provoca.
– Só lembre que agora tenho uma cunhada gostosa também. – JP pisca.

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– Ah vá.
– É divertido te ver com ciúmes. – Hannah comenta.
– Esperei por isso a vida toda. – JP diz, nos fazendo rir.

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Capítulo 69

Bárbara Lemos
“Esqueçam uma grande entrada,
todos sabem que é da saída que lembrarão”.
Gossip Girl
Quando ouvi o disparo, o beijo se rompeu, viramos depressa e tudo o
que vi foi JP caindo no chão segurando Samantha e Sam e minha mãe
sumindo do meu campo de visão.
Não tinha como saber se eles haviam sido atingidos, estavam atrás do
carro. Murilo me colocou no chão e saímos correndo, enquanto gritava pela
minha mãe. O dia do meu casamento, do nosso casamento, não poderia
terminar com manchas de sangue.
Meu peito estava comprimido, mal conseguia respirar, sentia a chuva
pingando pelos meus cabelos, açoitando as minhas costas, os raios
provocando clarões como holofotes que faziam questão de revelar o horror
que acabávamos de presenciar.
Estávamos no estacionamento em frente ao espaço da festa, além dos
postes a cada três vagas, havia sido montado um varal de lâmpadas que se
estendia até a entrada do salão. Um burburinho de vozes competia com os
trovões, em algum momento soltei os meus sapatos, levantei o vestido e corri
mais depressa, só não bati em um carro que chegava porque Murilo me
puxou.
O nó que apertava a minha garganta só se desfez quando alcancei a
minha mãe, deitei o rosto nas suas costas e ouvi os seus batimentos. Ela
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estava bem, assim como o Sam.


O desespero na voz de Hannah ameaçava fazer as minhas lágrimas
transbordarem, e elas romperam todas as contenções no momento que Sam
suspirou e sorriu, gritando pelo irmão; estávamos todos bem.
Por mim, podíamos ir para as nossas casas e esquecer a festa, não
queria dar oportunidade para o azar, mas todos pareciam querer esquecer
aquele episódio o quanto antes e uma festa parecia apropriado.
Vi que Lucca estava com Samantha, ele a havia algemado e posto no
seu carro, mas só relaxei quando ele nos encontrou na festa e contou que ela
iria passar a noite na cadeia, ele havia conversado bastante com Marcelo e
embora não fosse abrir mão de indiciá-la por tentativa de homicídio,
concordou que ela precisava de tratamento psiquiátrico e Marcelo
comprometeu-se em levá-la para uma clínica, imediatamente após pagar a
fiança. Lucca conseguiu me tranquilizar e pude curtir a festa.
Meu vestido estava pesando uns dez quilos, o tecido da saia havia
absorvido toda a água da chuva e estava quase nua na parte superior, porque
como ele era todo bordado em renda, quando molhou ficou praticamente
transparente, estava arrependida de não ter colocado pelo menos um lib nos
meus seios.
Havia cumprimentado todos, tirado fotos, apesar de não estar nada
apresentável, brincado com as crianças e queria ir para casa, havia chamado o
Murilo três vezes para irmos embora e ele me pedia para esperar mais um
pouco.
Será que ele estava tão certo assim que não faríamos sexo na nossa
noite de núpcias e por isso não queria ficar a sós comigo?
Se tiver coragem de usar o collant que está na minha necessarie, vou

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considerar uma vitória para a nossa primeira noite de casados.


Estava sentada numa mesa com Chloe, Angel e Roberta, ouvindo-as
comentar sobre os homens solteiros que estavam na festa e senti os pelos da
minha nuca se eriçarem quando uma respiração quente soprou a base do meu
pescoço, depositando um beijo casto.
− Vem comigo. – Murilo sussurra.
− Casa? – pergunto, levantando.
− Ainda não. – ele sorri. – A gente chega lá, Bah.
− Você não pode culpá-la por querer ir direto para lua de mel. – diz
Roberta. – Sejam sinceras, a única festa que conseguiríamos pensar é aquela
que acontece entre quatro paredes.
− Vai com tudo, Babi. – Chloe incentiva.
− É a nossa valsa. – Murilo explica. – Não se preocupem que vou
cuidar para que a festa entre quatro paredes seja a melhor parte da noite. – ele
coloca as mãos sobre o meu abdômen, abraçando-me.
− Não duvidamos. – Angel assente. – Vão dançar e depois leve sua
mulher embora.
− Parem com isso. – olho atravessado para as três. – Vamos, Mô.
− Toma os meus saltos, Babi, ou o Murilo terá que dançar agachado. –
Chloe provoca.
− Obrigada, Miss Sunshine.
Murilo me conduz para o centro do salão, onde Sam e minha mãe nos
esperam. Ele passa o braço esquerdo em volta da minha cintura e me oferece
sua mão direita, dedilhando a palma da minha mão com os dedos antes de
envolvê-la suavemente.

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Apoio a minha mão esquerda no seu ombro e ele incide uma leve
pressão na minha lombar, puxando-me para mais perto. Olho para o lado e
sorrio para minha mãe e Sam, depois volto os olhos para o Murilo e ele me dá
um diminuto selinho.
A melodia de John Legend preenche o ambiente, “All Of Me”. Nossos
olhos estão em completa sintonia, assim como os nossos movimentos, nos
movemos sutilmente, sentindo a harmonia das notas.
Meu olhar é só dele, vejo o brilho iluminando os seus olhos verdes,
reivindicando toda a beleza da noite para ele, o sorriso meio sem vergonha,
com um toque de doçura, a barba clara, evidenciando o maxilar angular.
Estou perdida dentro dos seus olhos e não noto quando a música termina,
olho confusa quando ele me pega no colo e me coloca sentada numa cadeira.
Eu e minha mãe nos entreolhamos. As luzes se apagam e outra melodia
tem início, “Trading Places”, do Usher. Sorrio nervosa e vejo quando minha
mãe estreita os olhos, tentando ver além da escuridão.
Um refletor surge no meio do salão, depois outro, e param sobre Sam e
Murilo, eles estão de costas um para o outro, usando chapéus. Sincronizados,
viram de frente para nós, desabotoando o fraque e jogam no chão, dançando
sensualmente.

“Agora vamos fazer isso um pouco diferente hoje à noite


Você vai vir e me pegar para dar um passeio
Você vai bater, então você vai esperar
Ooh, você vai me levar em um encontro
Você vai abrir minha porta
E eu chego perto para abrir a sua

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Vai pagar o jantar, me levar para ver um filme


E sussurrar no meu ouvido quanta maldade você realmente quer fazer
comigo
Garota, agora me leve pra casa e tire as minhas calças
Me sirva uma dose e me force para cama”

Minha boca estava aberta e os olhos arregalados. Sentia um


formigamento percorrendo minha espinha, a temperatura ficando elevada.
Murilo estava chegando mais perto, fazendo movimentos com o corpo
todo, as pernas pareciam soltas, se cruzavam, iam e viam com muito gingado,
e em um passe ele estava bem na minha frente.
Ele coloca o chapéu na minha cabeça, me dá um beijo no queixo e
ainda dançando desabotoa o colete, tira a gravata, coloca no meu pescoço e
vai enrolando a gravata no punho, sorrindo provocante, me convidando a
levantar.
Olho de relance para o lado e vejo que minha mãe aceitou o convite do
Sam, me senti traída nesse momento. Sem alternativa, levanto e deixo que o
Murilo vá andando para trás, fingindo me puxar pela gravata, até que ele
para, enrola todo o comprimento da gravata no punho e me beija, fazendo-me
esquecer que estávamos dançando na frente de todos os convidados.
Ele morde o meu lábio, interrompendo o beijo, pega de volta o chapéu
e leva ambas as mãos para a minha bunda, me gira nos braços, fazendo-me
cair em seu colo e a música termina.
− Ainda quer ir embora? – pergunta baixinho e beija o meu pescoço.
− Sim.
− Vamos.
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Não nos despedimos de ninguém, saímos à francesa, ou passaríamos o


restante da noite fazendo cumprimentos. Quando entramos no carro ele
perguntou se gostei da surpresa.
− Fiquei meio impressionada, porque nunca te imaginei dançando.
− Fiz aulas de dança há alguns anos.
− Algo me diz que não devo perguntar o motivo.
Ele gargalha, o que significa que minha teoria está correta, o objetivo
era pegar mulher.
Durante a dança, meus sentidos estavam tão focados nele que não me
dei conta do que a letra dizia, mas conheço a música e o meu cérebro decidiu
destrinchar a letra, trechos invadiam os meus pensamentos.
“Sussurrar no meu ouvido quanta maldade você realmente quer fazer
comigo”.
“Garota, agora me leve para casa e tire as minhas calças”.
Olho pelo retrovisor para a necessarie no banco de trás.
Se o Murilo estiver esperando por sexo e não conseguir ir adiante?
Os últimos minutos até nossa casa, minha mente não parou de pensar
no que aconteceria quando entrássemos no nosso quarto. Todas as tentativas
do Murilo de manter um diálogo terminaram em monossílabos da minha
parte.
Ele estaciona na garagem, a chuva ainda cai forte.
− Há alguma regra quanto qual porta devo entrar com você no colo?
− A porta da garagem está perfeita. – sorrio e me estico para pegar a
necessarie.
− Então fique aí.
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Murilo sai e faz a volta no carro, abre a porta e me pega no colo, me


levando para nossa casa pela porta da garagem. Ele me leva no colo por toda
a escada, me beija quando entramos no nosso quarto e só depois me coloca
no chão.
− Você precisa de ajuda com o vestido?
− Não. – respondo, rápido demais. − É só um botão e o zíper, consigo
me virar. – mordo o lábio. – Estou louca por um banho.
− E-Eu... – ele gagueja e aponta para fora do quarto. – Vou... vou estar
no banheiro do corredor. Também quero tomar um banho.

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Capítulo 70

Murilo Valverde
“A vida não se resume a momentos finais
e sim momentos que fazem parte da vida”
The Vampire Diaries
A ansiedade deveria ter sanado quando Bárbara entrelaçou as nossas
mãos em frente à igreja, mas de alguma forma, no intervalo em que percorri o
corredor de braços dados com minha mãe e a espera pelo instante em que ela
surgiria na porta da igreja, sentia como se o meu coração fosse um trem
desgovernado.
Os meus olhos tornaram-se nascentes quando a vi sob o arco na entrada
do corredor, ela parecia ter saído de um conto de fadas. Meus lábios
curvaram-se em um sorriso e sentia o leve toque de maresia provocado pelo
encontro das lágrimas e as minhas papilas gustativas. Bárbara era como um
sonho; o sonho mais bonito.
Estávamos numa igreja, entre centenas de pessoas e, de algum modo,
éramos apenas nós dois. O seu olhar era um mundo onde queria me perder,
lágrimas e sorrisos confundiam-se, emoldurando o seu rosto.
Esqueci onde estava e o que deveria fazer, quando senti uma
cotovelada, levei um par de segundos para voltar para a realidade e sorri mais
intensamente ao perceber que Bárbara era minha realidade.
Quando chegamos ao momento dos votos, seu “sim” reverberou em
meu peito, senti uma explosão de fogos de artifício reluzir nos seus olhos,
enxuguei as suas lágrimas com os meus polegares e a beijei.
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O dia não havia terminado. Chegamos a festa felizes, ela estava


radiante, acho que nunca a tinha visto tão sorridente. Estava tão ansioso para
estar sozinho com ela, quanto queria que ela aproveitasse cada mínimo
detalhe da nossa festa, então o som penetrante do tiro criou uma lacuna no
tempo. Vi o seu sorriso desaparecer, a minha felicidade ser substituída pelo
medo.
O medo cedeu lugar ao alívio, ninguém havia se ferido e Samantha
estava presa. Contudo mesmo quando tudo parecia de volta aos eixos, ela não
estava bem, seu sorriso não era o mesmo, era como se o tiro perdido tivesse
se incrustrado sob a sua pele.
Não podia deixar que as más lembranças se impusessem, por isso insisti
que ficássemos na festa, não a levaria embora sem a nossa valsa.
Quando deixamos a festa, ela não estava mais pesarosa, podia ver
fagulhas do sorriso que fazia o meu coração precipitar-se em uma cadeia de
extraciclos.
De repente, ela calou-se e suas respostas às minhas tentativas de manter
uma interação foram restritas a interjeições e suspiros. Pensei no que poderia
ter feito de errado e não conseguia pensar em nada, então lembrei do
comentário que fiz sobre a nossa festa entre quatro paredes e fiquei me
martirizando por ter entrado na brincadeira.
Havia prometido que esperaria o tempo que fosse necessário pela nossa
primeira vez e queria que ela soubesse que o casamento não mudava nada a
esse respeito.
A levei para o quarto nos meus braços, a beijei e então não sabia mais o
que fazer, era óbvio que precisávamos de um banho, por isso achei melhor
deixá-la sozinha. Perguntei se ela precisava de ajuda com o vestido e depois
avisei que estaria no banho.
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Saí do quarto, logo depois de pegar uma toalha, boxer e bermuda.


Fechei a porta, deixando-a parada no meio do quarto, desprendendo os
cabelos.
Joguei as roupas na bancada da pia, desfiz o coque e entrei no box. O
jato de água morna massageava os meus ombros e escorria pelos meus
cabelos fazendo alguns fios caírem sobre os meus olhos, passei a mão,
jogando-os para trás e erguendo o rosto, deixando a água percorrer minha
barba.
Os pensamentos sorrateiramente foram penetrando a minha mente,
fragmentos de memórias se confundiam com imagens de Bárbara tomando
banho e a sua voz me dizendo como gostaria de ser tocada. Fechei os olhos e
bati a testa e as mãos fechadas em punho contra a parede, meu pênis tocava o
azulejo gelado, podia sentir o sangue pulsando, girei a torneira, aumentando a
vazão do chuveiro e soprei forte, fazendo a água espirrar longe.
Abaixei os olhos e assumi a minha derrota, envolvi meu membro em
uma das mãos e comecei a me masturbar, imaginei os meus dedos deslizando
o zíper do vestido de noiva, Bárbara nua com o vestido aos seus pés, os
cabelos soltos caindo sobre os seios; novamente a vi vestida de noiva, meus
lábios no seu pescoço, deslizando a renda pelos seus braços.
Mordia o lábio, abafando os gemidos, uma mão apoiada no box e a
outra deslizando no meu membro, impondo um ritmo crescente, a água
caindo sobre os meus cabelos.
− Mô? – Bárbara invade o banheiro e seus olhos convergem para o
momento íntimo entre meu pênis e mão, através do box transparente.
− Ohhh...Bah?! − interrompo rápido o que estava fazendo. – Ahh. –
gemo, sentindo uma fisgada nas bolas.

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Bárbara vira de costas para o box.


− Você... – ela engasga. – Eu deveria sair. Eu-eu... – gagueja. – Não sei
o que estou falando.
− Bah, tudo bem. – sacudo a cabeça embaixo da água.
− Por que você estava... – ela suspira. – É a nossa noite de núpcias. –
diz, parecendo chateada ou ofendida, talvez os dois.
− Bah, tira esse hobby e vem tomar banho comigo.
− Murilo. – ela gira, ficando de frente para mim e se apoia na porta. –
Estou confusa. – confessa, apertando os lábios. – Uma hora acho que você
não quer fazer sexo comigo, outra acho que você quer e aí fico com medo de
não conseguir, aí pego você se masturbando e não sei o que pensar.
− Vou esclarecer. – digo, desligando o chuveiro e saindo do box. – Um,
quero fazer sexo com você. – a agarro pelos quadris. – Dois, não precisar ter
medo, se não der, a gente tenta de novo e de novo. – beijo os seus lábios. –
Três, estava me masturbando porque você não sai dos meus pensamentos. –
circundo sua cintura, levantando-a e a coloco dentro do box. − Fiquei
imaginando as minhas mãos despindo o seu vestido de noiva. – puxo o laço
do hobby. − Relembrando os nossos amassos, as vezes que você descreveu
como queria sentir a minha língua lá embaixo. – empurro o hobby pelos seus
braços. – Caralho! – olho embasbacado para a lingerie que ela está usando. –
Não estava esperando por isso. – confesso, dedilhando os meus dedos pelo
decote que segue até o seu umbigo.
− Não é só você que pode me surpreender. – ela arranha o meu bíceps
com a pontas das unhas.
− Estou vendo. – a incito para os meus quadris e abocanho o seu seio,
exposto pela abertura da lingerie.

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Bárbara geme e enreda os dedos nos meus cabelos. No encontro entre


as suas pernas e o meu corpo, sinto a ausência de tecido, e a sensação de
umidade e calor me acariciando. Meu membro lateja, e a cada vez que roça
na sua intimidade, um arrepio desce por minha espinha.

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Capítulo 71

Sam Allencar
“Eu só estou aqui porque você quer estar comigo,
tanto quanto quero estar com você”
The Vampire Diaries
Enquanto Rafani caminhava pelo corredor da igreja não conseguia
deixar de pensar no quanto ela estava sexy, na lingerie sensual que ela estava
usando por baixo daquele vestido e que ela estava pensando no mesmo que
eu, porque o seu olhar tinha se demorado no meu pau, tanto quando o meu no
seu decote.
Nós estávamos praticamente morando juntos desde que voltamos de
Dubai, a cerimônia era um ato simbólico, pois queria que ela tivesse um
casamento de verdade, com tudo que um dia pode ter sonhado, ou não.
Era por ela que estava ali e era para ela que havia entregue o meu
coração, meses atrás, conscientemente quando a beijei pela primeira vez,
inconscientemente quando os meus olhos esbarraram nos seus olhos
multicolores pela primeira vez.
Se um dia odiei Samantha, não foi nada parecido com o que sinto por
ela hoje. No instante em que ouvi o tiro, os meus olhos abriram e vi JP caindo
junto com ela, automaticamente puxei Rafani entre os meus braços e me
abaixei.
Minutos, talvez segundos, e estaria segurando o seu corpo desfalecido
em meus braços, por isso a apertei e abracei o mais forte que podia, beijando-
a nos cabelos, agradecendo em silêncio por ela estar viva e pedindo a Deus
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que nada tivesse acontecido com o meu irmão. Iria preso, mas mataria
Samantha se ela tivesse ferido qualquer um deles.
Com todos bens, só queria comemorar, proporcionar à Rafani a
experiência completa de um casamento, o que incluía me submeter a uma
valsa sem graça, por insistência do Murilo. As minhas sugestões envolviam
músicas muito mais interessantes, mas tudo bem, me rendi à valsa, desde que
fizéssemos o nosso show depois.
Adoro a reação de Rafani quando danço para ela, a forma como os seus
olhos parecem arrancar as minhas roupas em pensamentos e os seus lábios
anseiam pelos meus beijos, entreabertos, arquejantes, desejosos.
Ao término da música, tentamos sair de fininho, mas fomos
interceptados por Roberta, quer queria conhecer Rafani pessoalmente, e antes
que pudéssemos escapar dela, Chloe surgiu, reclamando por não ter pego
nenhum dos buquês.
− Chloe, esquece o buquê, o que a gente precisa é de aulas com Rafani
sobre como amarrar um cafajeste. – Roberta argumenta.
− Não saberia nem por onde começar. – Rafani diz entre risos.
− Comece não tirando a roupa na sala de reunião. – provoco.
− Seu marido está me alfinetando. – Roberta me dá um tapa.
− Acho que esse é um bom começo. – Rafani pontua.
− Vou alugar os dois para falar dos meus casos de uma noite só. –
Chloe comenta. – Falando nisso, vou ali garantir essa noite.
− Opa! – Roberta levanta a mão. – Vamos lá.
− Nós vamos começar a nossa festa. – pisco e procuro a melhor rota de
fuga entre os convidados. – Você quer avisar ao Guga que estamos indo?

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− Sim.
− Então, vamos por aqui. – a conduzo por uma saída lateral, onde há
um jardim e as crianças estão correndo. – Ei, estamos indo, quero beijo. –
digo alto o bastante para eles escutarem.
− Beijo, tio. – Maria vem correndo e me abraça.
− Beijo, princesa. – beijo os seus cabelos.
− Juju, vem cá! – chamo e ela me abraça também. – Minha nora linda.
– aliso os seus cabelos. – Bruno que se cuide.
− Você não perde uma, né? – Rafani sorri e se abaixa para beijar os
Terríveis e o Gabriel. – Amanhã a gente vai brincar um montão, se o Guga
aprontar, me contem tudo.
− Mãe! – Guga cruza os braços, fazendo cara de bravo.
− Que foi meu bebê? – Rafani faz voz de dengo, o que faz todos
sorrirem e Guga revirar os olhos.
− Para, mãe! – diz irritado.
− Você está queimando o filme do moleque, Fani! – perturbo, pegando
ele e Fera pelas panturrilhas.
− Tamém quero, titio!!! Eu, titio!!! – os Terríveis pedem.
− Tamém quero, Sam! – Biel grita.
Coloco Guga e Fera deitados no chão e pego os Terríveis, deixando-os
de cabeça para baixo. Enquanto os Terríveis gritam, pedindo para levantá-los
mais, Rafani se despede das outras crianças e agarra o Guga, enchendo-o de
beijos. Ele olha de relance para ver se Júlia está vendo e quando percebe que
ela está entretida com Maria, abraça a mãe pelo pescoço e a beija de volta.
Sorrio, colocando os Terríveis no chão e pego o Gabriel, de ponta-cabeça.

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Deixamos eles brincando e seguimos para o estacionamento, quando


ouço Guga me gritando. Olho para trás e ele está correndo, quando nos
alcança está esbaforido, coloca a mão no abdômen e respira pesadamente,
antes de dizer que quer me perguntar algo.
− Eu vi que você esqueceu a coleguinha da escola e está com as duas
garrinhas na Juju. – brinco, o que faz Rafani gargalhar baixinho.
− Não é isso. – ele passa a mão nos cabelos, bagunçando os cachos.
− E o que é?
− É que... – ele olha para Rafani, depois para mim. – Domingo é dia
dos pais e tem um jogo na escola. – ele abaixa os olhos. – Você pode ir
comigo?
Abaixo na frente dele.
– Nós vamos arrasar nesse jogo! – exclamo, abraçando-o. – Te amo,
moleque.
− Você vai ser o meu pai? – ele murmura, quase inaudível.
− Sou seu pai.
− Também te amo, Sam. – ele suspira. – Eu vou brincar.
− Até amanhã. – digo, bagunçando os seus cabelos.
− Até amanhã. – diz e sai correndo.
− Ele acabou de me chamar para um jogo de pais e filhos? – pergunto à
Rafani, incapaz de parar de sorrir. – Ele quer que seja o seu pai. – a puxo pela
cintura.
− Sim. – ela sorri. – Ele tinha me falado sobre isso. Você sabe que não
precisa, se...
− Fani, quero dar o meu nome para ele.
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– O quê?! – ela me olha com um grande sorriso.


− Quero registrar o Guga como meu filho. – digo sério. − Perguntei ao
Miguel se é possível e ele disse que só precisamos ir ao cartório de registro
dele e fazer um reconhecimento espontâneo de paternidade.
Rafani leva às mãos ao meu rosto e acaricia minha barba, lágrimas
brotam dos seus olhos e ela sorri, sem desviar os olhos dos meus.
− Isso significa que você concorda?
− Se concordo? – pergunta entre risos. – Eu te amo, Sam Allencar,
quanto mais te conheço, mais te amo.
− Mesmo? – deslizo minha mão para sua bunda. – Você tem até o
amanhecer para me provar o quanto me ama.
− Não acho que seja possível. – ela mordisca o lóbulo da minha orelha.
− Sem problemas, você pode efetuar o pagamento em muitas parcelas.
– pressiono o meu pau na sua pélvis. – Por, sei lá, toda nossa vida.
− Quando posso começar? – ela alisa os meus ombros.
− Vem comigo. – a pego no colo e levo para o carro.
Abro a porta, me inclino para colocá-la no carona, mas ela me puxa
pelo colarinho e caímos deitados, minhas pernas penduradas para fora do
carro.
– Aqui? – sorrio quando ela enfia a mão nas minhas calças.
− Aquecimento. – argumenta, massageando o meu pau.
− Santo Deus, mulher! – beijo o seu pescoço. – Banco de trás.
Apoio as mãos no estofado para ela conseguir sair debaixo do meu
corpo e pular para o banco de trás, puxo minhas pernas para dentro do carro,
bato a porta, aperto o play no som e parto para o aquecimento.
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Capítulo 72

Bárbara Lemos
“Às vezes, as estrelas alinham-se para dois velhos amores ficarem
juntos.
Mas, às vezes elas alinham-se para duas velhas chamas queimarem.
Está imaginando o que a noite está nos reservando,
amor ou fogos de artifício?”
Gossip Girl

O plano era ficar deitada, usando apenas o collant e fingindo ler,


enquanto esperava pelo Murilo. Contudo, ele estava demorando e a minha
ansiedade me impediu de seguir o plano, me levando a flagrá-lo se
masturbando, o que deflagrou uma perda brusca de oxigênio.
Fiquei zonza com a visão do seu corpo nu, proporcionando prazer para
si mesmo, e quando ele se aproximou, beijando-me e convidando-me para
acompanhá-lo no banho, senti pequenas explosões no meu corpo, o princípio
de um incêndio queimava no eixo entre as minhas pernas.
Murilo agarrou minhas pernas, incitando-me para o seu colo. Havia ali
um nível de intimidade que nunca tivemos, sentia o seu membro raspando a
parte posterior da minha coxa, estava tão quente.
Minha respiração era frágil, meus pensamentos calmos, sentia os seus
lábios sugando os meus seios e era como se raios descessem pela minha
coluna, transportando ondas de umidade e conduzindo-as para minha
intimidade.
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Era contraditório que aquele gigante, com cabelos selvagens e


musculatura de lutador, pudesse ter um toque suave. Ele é gentil e cuidadoso,
os seus beijos e chupões pelo meu busto e pescoço eram intensos, mas não
afoitos. Sabia que ele precisava de um alívio, por isso pedi que fôssemos para
o quarto, se algo me travasse, ainda tínhamos o sexo oral.
Murilo desligou o chuveiro e me colocou em pé, ele me ajudou a tirar o
collant, nos enxugamos, ele me estendeu a toalha para que pudesse me
enrolar, depois me pegou no colo e levou-me de volta para o quarto,
colocando-me deitada na cama.
Ao invés de deitar comigo, ele caminhou até a porta da sacada, nu e
viril, não conseguia não olhar para o seu membro rosado e tórrido. Quando
ele ficou de costas para a cama, passei a língua sobre os lábios apreciando a
sua tatuagem, a minha reação era igual à primeira vez que a vi por inteiro,
estendendo-se por uma porção do músculo glúteo.
O dragão em traços negros contrasta com a pele clara, ressaltando as
linhas da musculatura.
− Mô, acho que quero fazer uma tatuagem assim.
− Teremos que encontrar uma tatuadora. – ele pisca, olhando por cima
do ombro, enquanto puxa as cortinas, abrindo-as.
− Quem fez a sua?
− Um amigo, foi em Cambridge, fiz junto com o Sam.
− Ele o samurai, você o dragão. Estou feliz que você não tenha tatuado
o Tarzan. – provoco.
− Estou sentindo uma pontinha de ironia? – sorri e olha para fora. A
chuva cai fraca, deixando alguns respingos na porta. – É um dragão oriental,
queríamos que as tattoos tivessem alguma ligação, porque são o símbolo da
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nossa irmandade. – explica. − O dragão representa força, proteção e


sabedoria.
− É loucura como nossas vidas se conectaram, minha mãe e o Sam, eu e
você. Será que vai ser confuso para os nossos filhos?
− Nossos filhos vão ter um avô que vai ensiná-los a fazer muita merda,
eles vão adorar.
− Vou ter que me preocupar mais com o avô do que com as crianças. –
sorrio, concordando com o raciocínio do Murilo. – O que você está fazendo
aí?
− Olhando a chuva.
− Seu pênis não parece muito interessado na chuva.
− Motivo pelo qual estou aqui. – ele dá de ombros. − Esperando meu
sangue esfriar.
− Mô, traz esse traseiro para cá, quando falei para virmos para o quarto,
não quis dizer para você parar o que estava fazendo no banheiro.
− Não? – ele arregala os olhos e caminha de volta para cama.
− Não, Mô. – digo entre risos. – Só queria ficar mais confortável.
− Você precisa me dizer o que quer, Bah. – ele senta ao meu lado. –
Não quero te forçar a nada, não quero te machucar de novo, por isso fico na
retaguarda.
− Mô, esquece aquele dia, não foi sua culpa, te levei a acreditar que
queria. – desenrolo a toalha, deixando as pontas caírem ao lado do meu
corpo. – Quero continuar o amasso.
Murilo sobe na cama e guia os lábios para os meus seios, posicionando
o seu corpo sobre o meu, mantendo a distância entre as nossas pélvis, como

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sempre fazemos.
– Assim não. – puxo os seus cabelos e o empurro de costas na cama. –
Quero continuar como estávamos, quero sentir o seu pênis se esfregando em
mim. – sento no seu colo. – Vem.
Murilo ergue o tronco, segura minha nuca e me beija, uma mão
percorrendo as minhas costas. Ele geme nos meus lábios e a mão desliza para
o meu seio, apalpando-o.
Sinto o seu membro rijo, pressionado contra a minha bunda, arranho os
seus ombros e bíceps e rebolo lentamente no seu colo, aumentando a fricção
entre os nossos corpos.
Espalmo a mão no seu tórax e o faço deitar, impondo os meus lábios
sobre os seus. Ele segura o meu cabelo em uma das mãos e com a outra
palmeia minha bunda, prende meu lábio inferior entre os dentes, forçando-o
levemente e abre os olhos, revelando o verde intenso, quase no mesmo
instante que abro os meus.
Ouço um trovão soar alto e o clarão de um raio iluminar o quarto, fecho
os olhos e ergo o quadril, posicionando o seu pênis entre as minhas pernas.
Ele libera o meu lábio e espalha beijos pelo meu pescoço, a respiração
sôfrega provocando arrepios na minha pele. Permaneço imóvel, mãos
espalmadas na cama, cabeça reclinada, entregue às suas carícias; enquanto
seus lábios, sobem e descem pelo meu pescoço, as suas mãos esmerilham a
minha cintura, avançando devagar para os meus seios.
O seu pênis roça a parte interna das minhas coxas, deixando um rastro
de calor. A minha intimidade pulsa, convidando-o para entrar, os lábios
abrindo-se ao toque da sua glande, a umidade é tamanha que escorre pelas
minhas coxas.

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Ofegante, deslizo o meu rosto contra a sua barba. Murilo arfa e move
os lábios em busca dos meus. Suas mãos deslizam, moldando a minha cintura
e param sobre os meus quadris, um toque sutil, um lembrete de que posso
parar quando quiser; mas não quero.
Mordo o seu lábio e apoio ambas as mãos no seu tórax, sustentando-me
e ajustando a minha postura, pouco a pouco iço o meu tronco e abaixo o
quadril, centímetro por centímetro, o meu corpo abriga o seu membro.
Murilo solta um suspiro profundo no instante em que as nossas pélvis
se tocam, seus olhos não desviam dos meus, sinto o seu coração agitado sob
os meus dedos e uma respiração arrastada compete com o barulho da chuva.
Posso sentir a sua pulsação dentro do meu corpo, não há dor, apenas
desejo e amor. Faço um pequeno movimento e o vejo mover os lábios,
deixando escapar um gemido, o bastante para me incentivar a prosseguir.
Com a ponta dos dedos percorro os dorsos do seu tórax, ao mesmo
tempo em que remexo o quadril, impondo um ritmo suave e constante. Nos
primeiros movimentos sinto o meu corpo se adaptando, uma leve pressão
interna, então uma corrente de excitação difundindo-se pelas minhas veias e
artérias, como se recebesse uma injeção de adrenalina direto no coração.
Estava eufórica, debrucei-me sobre o seu corpo, beijando-o com
arroubo e alterando o movimento para um vaivém frenético, sentia o seu
pênis entrando e saindo, sem nunca me deixar vazia.
Nos beijávamos, sem interromper o ritmo. O aperto do Murilo nos
meus quadris tornou-se firme e instigava-me a mover-me mais intensamente,
quanto mais rápido me movia, mais forte sentia a sua pulsação.
Minhas pernas estavam travadas no seu quadril e espasmos desciam
pela minha coluna. Ele rompeu o beijo, avisou que iria nos fazer rolar e

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quando consenti, senti as suas mãos aplanarem a minha bunda e em um giro


havíamos invertido as posições, seus olhos reencontraram os meus, ele me
beijou e, em seguida, segurou os meus seios nas mãos e passou a língua em
cada um deles.
Alguns chupões nos meus seios e ele retomou o ritmo, fazendo-me
babatar os lençóis e emitir uma série de gemidos enquanto ele preenchia-me,
dando-me alguns centímetros de distância, apenas para eliminá-lo no instante
seguinte.
Cruzei as pernas sobre o seu músculo glúteo, deixando meu quadril
levemente levantado e cravei as unhas nos seus ombros, seus lábios
escaparam por entre os meus e ele gemeu, pressionando o rosto contra os
meus seios.
O seu gozo atingiu-me, desencadeando explosões de fogos de artificio
no meu corpo, senti um solavanco no coração e por segundos parecia que
havia morrido, então estava de volta, imersa em um dilúvio de prazer.
Murilo deitou ao meu lado e me puxou para os seus braços, afagou o
meu rosto, afastando os fios de cabelo, fitando-me com os seus lindos olhos
verdes e me beijou.

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Capítulo 73

Rafani Lemos “Fica tudo bem quando acaba tudo bem”


The Vampire Diaries
O dia que me atormentou pelo último ano havia chegado.
Estaria frente a frente com aquela que me deu à luz e me condenou a
viver nas sombras, atormentada por um passado de dor.
O som da sua gargalhada e o olhar de escárnio, enquanto me via e
ouvia gritar e chorar, enquanto era violentada, é a única lembrança que
guardo dela.
Entrei no tribunal de mãos dadas com Sam, logo atrás vinha Bárbara e
Murilo, Maressah estava sentada na primeira fileira, ao lado do marido e da
filha, ela levantou para me cumprimentar, nos abraçamos e ela apertou a
minha mão, como fazia quando éramos crianças, dizendo que independente
da decisão judicial, estávamos livres e em segurança.
Queria muito que a minha mãe fosse condenada a pagar pelos seus
crimes, mas não iria me torturar se ela fosse inocentada. Havia definido que
sairia desse tribunal sem o peso do meu passado nas minhas costas, tinha
reconstruído a minha vida e não permitiria que o medo me impedisse de vivê-
la na sua plenitude.
Miguel que estava numa mesa mais à frente, localizada depois do
gradil, se aproximou, me convidando para acompanhá-lo. Sam queria ficar ao
meu lado, mas não podia, por isso sentou-se ao lado de Maressah, junto com
Murilo e Bárbara.
Estava nervosa, as minhas mãos tremiam, sentei-me na cadeira entre
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Miguel e Carol; ela afagou o meu ombro e lembrou que a ré não poderia se
aproximar de mim, ficaria do lado oposto onde estava, bem na nossa frente.
Mesmo quando chegasse o meu momento de dar o meu testemunho, haveria
uma distância segura e ela estaria acompanhada por dois policiais.
Olhei para o Sam, ele parecia tão nervoso quanto eu, a verdade é que a
culpa era minha, não conseguia esconder dele o quanto me afligia ter que
ficar frente a frente com a minha mãe e sabia que ele se sentia responsável,
mesmo que tenha dito inúmeras vezes que não me arrependo por ter
concordado com o processo.
Sentia que precisava desse confronto, um fim para todos os monstros
que me assombraram por quase trinta anos.
Não havia sorrisos hoje, Sam tinha a expressão séria, o olhar protetor
não me deixava só por nenhum segundo, e era o bastante para me fazer sentir
segura.
Quando o juiz e promotores adentraram o tribunal a tensão retesou os
meus músculos. Olhei mais uma vez para o Sam e ele moveu os lábios
devagar, me dando tempo para ler a sua mensagem: “estou com você”. Meus
olhos encheram-se de lágrimas, virei-me a tempo de vê-la entrar.
Minha mãe.
Cecília Mendonça entrou ladeada por dois policiais, ela usava um
tailleur vermelho e um salto fino, os cabelos cortados na altura dos ombros
primorosamente arrumados.
Nossos olhos se cruzaram e ela sorriu; meu corpo estremeceu, senti
uma única lágrima percorrer o meu rosto e vi o seu sorriso se expandir.
Diferente do meu pai, ela estava em sua plena forma, a ausência de traços de
expressão indicava que havia se submetido há muitos procedimentos

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estéticos.
Não conseguia desviar os olhos dela, e isso parecia agradá-la.
Estava com medo.
O seu olhar ativava memórias que vinha tentando enterrar, então uma
cena me chamou a atenção, na época não a reconheci, mas era ela, a vi no
escritório do Plínio.
As peças do quebra-cabeça começam a se encaixar.
Plínio está preso por tráfico, favorecimento à prostituição e aliciamento
de menores, no entanto quando confrontado a respeito do estupro, ele contou
que recebeu dinheiro de uma mulher para ter relações sexuais comigo, sem
preservativo, e depois filmar Bárbara sendo estuprada por três garotos.
Fiquei transtornada quando soube que minha filha também tinha sido
vítima de estupro e ignorei as outras informações, não me importava se
alguém tinha pago ou não o Plínio e, menos ainda, quem era essa mulher, só
conseguia pensar no sofrimento de Bárbara e no porquê dela nunca ter me
contado.
Tivemos uma conversa longa, que terminou com ela deitada no meu
colo, enquanto ambas chorávamos. Sam queria investigar mais essa história,
tentar descobrir quem tinha sido a responsável, mas pedi que ele esquecesse,
porque não mudaria os fatos. Todavia, agora, vendo-a ali, não havia dúvidas:
todo o horror que vive, foi um presente da minha mãe.
Sentia uma raiva imensa, queria gritar e perguntar o porquê de tanto
ódio. Não bastou os anos em que passei sendo violentada sob a tutela dela?
Ela tinha que me perseguir e me infligir mais sofrimento?
Pensei que cairia em pranto quando começasse o meu testemunho, no
entanto, aquela revelação havia me dado forças. Relatei a minha história,
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desde a noite em que meu pai visitou o meu quarto pela primeira vez até o dia
em que fugi de casa.
Não sentia mais medo, queria que ela soubesse que não tinha mais
poder sobre mim, nada do que ela fizesse iria me afetar, porque não sou mais
aquela garotinha esperando que sua mãe a defenda. As poucas vezes que senti
o choro atravessando a minha garganta, estreitava os olhos sobre ela e
deixava a raiva afastar as lágrimas.
Durante o seu testemunho, ela chorou, pediu perdão, desempenhou o
papel de vítima como só alguém perito em manipulação poderia fazer. A cada
mentira que deixava sua boca, tinha vontade de rir, quis levantar e bater
palmas quando ela contou como tentou se matar quando fugi de casa.
− Vocês não podem imaginar como foi viver por duas décadas sem
saber se as minhas filhas estavam vivas, entrei em uma depressão profunda,
para levantar da cama precisava de medicamentos. Somente quando descobri
que Rafani estava viva, minha pequena Fanizinha, foi que enxerguei uma
razão para viver e colocar um ponto final nos anos de tortura que vivi. Puxar
aquele gatilho foi extremamente doloroso, mas foi libertador.
Eu sentia que podia vomitar a qualquer minuto, ela me deixava
enojada. Ela olhou dentro dos meus olhos quando me chamou de Fanizinha e
o meu estômago revirou.
O último testemunho foi de Maressah. Desde que nos encontramos
temos nos falado com frequência, um final de semana no mês nos reunimos,
quando não vou para São Paulo com o Sam, ela e Augusto, seu esposo, vêm
para Curitiba, mas somente agora percebi que nunca falamos sobre o que nos
aconteceu e ouvi-la narrar o inferno que viveu me faz chorar.
− Eles me levaram para a chácara, me acorrentaram pelo tornozelo e
me deixaram sozinha, no escuro, sem água, sem comida, sem cobertor. Fazia
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muito frio, sentei, abraçando os meus joelhos, tentando me aquecer e esperei


que eles voltassem. Amanheceu, anoiteceu novamente e ninguém apareceu,
foi assim por três dias, então ela – Maressah olha para a nossa mãe – voltou
acompanhada por dois homens, eles participavam das reuniões que
aconteciam na nossa casa, ela colocou água e ração de cachorro em tigelas no
chão e me mandou comer. Disse que não comeria e senti chicotes estalando
nas minhas costas. Eles me bateram por muito tempo, depois me fizeram ficar
de quatro e me estupraram, enquanto ela filmava. A partir desse dia, todas as
noites recebia algum visitante, as vezes dois, outras três, era fodida como eles
queriam, por quanto tempo queriam e era largada lá, no chão frio. Nenhuma
comida me era oferecida, apenas a ração de cachorro, resisti o quanto pude,
mas um dia quando percebi estava de joelhos, comendo como a cadela que
ela sempre dizia que era. Além dos homens, ela e marido iam com frequência
me ver, ele me estuprava e ela contava em detalhes o que estavam fazendo
com Rafani. Só consegui fugir, porque apareceu um homem que nunca tinha
visto, fingi que gostava do que ele estava fazendo e disse que poderia me
soltar para aproveitarmos mais, que sempre agradava os que me deixavam
sem a corrente. Fiquei com nojo de mim mesma, mas fiz tudo o que ele quis,
quando terminou e estava se vestindo, o acertei na cabeça com uma pedra, ele
desmaiou e saí correndo, me escondi pela mata por alguns dias, roubei roupas
que encontrei em casas à beira da estrada e voltei para a cidade, queria pegar
Rafani e sumir no mundo, mas ela havia desaparecido.
Carol massageava os meus ombros me confortando. As perguntas que o
advogado de defesa fazia, refutando o testemunho eram incabíveis, ele
alegava que Maressah estava frágil e suscetível a criar fantasias, segundo o
seu argumento, minha mãe nunca soube onde ela estava, me perguntei se ele
realmente acreditava no que estava dizendo; acho que a pequena fortuna que
ele recebia era a reposta.

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Antes de voltar para o seu lugar, Maressah olhou na minha direção e


colocou a mão sobre o coração, retribuí o gesto e fechei os olhos, me
negando a olhar para a mulher do outro lado da sala.
O juiz iniciou a apresentação da sua decisão e meu coração parecia
diminuir a cada segundo de espera, então chegara a hora da sentença.
− A prova contida nos autos é segura, robusta e incriminatória. Sendo
observado que a ré, Cecília Lemos Mendonça, está em pleno gozo das suas
faculdades mentais, julgo procedente as acusações de abuso moral, corrupção
de menores, homicídio culposo e pedofilia. Declaro a ré culpada. Cecília
Lemos Mendonça é condenada ao cumprimento de trinta anos de reclusão,
em regime fechado.
Culpada.
Uma única palavra que tinha o poder de diluir todo o peso que trazia
nas minhas costas, senti o meu corpo relaxar, as lágrimas correrem
apressadas pelas maçãs do meu rosto. Tentei levantar, mas as minhas pernas
fraquejaram e quase caí, tinha tanta emoção envolvida que estava meio
zonza.
− Fani, tudo bem? – Miguel pergunta, me envolvendo pela cintura e
impedindo a minha queda.
− Sim. – sorrio em meio as lágrimas.
− Vá comemorar, você merece. – Carol sugere.
− Obrigada. É graças a vocês que pude assumir a minha identidade.
− Só fizemos o nosso trabalho. – Miguel argumenta. – Sam está quase
pulando o gradil, sorria para ele saber que você está bem.
Ergo os olhos e vejo Sam com as mãos pressionando o gradil, o olhar
cheio de expectativa, sorrio e ele sorri de volta. Quando o alcançamos, ele me
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puxa para os seus braços e me abraça.


− É um bom momento para dizer que você vai ser pai?
− O que você disse? – ele desliza a mão no meu rosto.
Os olhos cor de chocolate brilham diante dos meus.
– Peguei os resultados ontem, estamos com dois meses.
– Te amo tanto, Fani. – sussurra, me dando selinhos. − Amo vocês. –
ele repousa a mão sobre o meu abdômen, massageando-o.
Insatisfeito ele se abaixa e beija a minha barriga.

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Capítulo 74

Sam Allencar
“Isto é o que família significa. É quem te colocou no mundo e quem você
escolher que quer ao seu lado quando as coisas ficarem difíceis. Não há
nenhum lugar que eu preferia estar do que ao seu lado, entendeu?”
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O ano seguinte ao meu casamento começou com grandes mudanças,


Marcelo antecipou a sua aposentadoria para acompanhar de perto o
tratamento de Samantha e assumi a presidência da empresa.
Ao invés de levar Bárbara como minha secretária, a transferi para o
setor de engenharia mecânica como estagiária. Murilo deveria ter assumido o
cargo de diretor de projetos, ele era a indicação do Marcelo, assim como a
minha, no entanto ele se recusa a assumir trabalhos administrativos, diz que
não nasceu para essa vida de escritório, e me deixou com a batata quente na
mão.
Minha primeira missão como CEO foi selecionar um engenheiro para
me substituir e enquanto não encontrava acumulei ambas as funções, o que
me deixava exausto, mas não reclamava, voltar para casa e encontrar Rafani e
Guga era o meu prêmio diário.
Quando Rafani falou que queria ter um filho comigo fiquei
extremamente feliz, mas contive a minha empolgação, porque precisávamos
de orientação médica, se por acaso houvesse alguma restrição ou a gestação
fosse colocar a saúde dela em risco, não queria que ela sentisse que estava me
decepcionando.
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Fomos a um ginecologista e obstetra especialista em reprodução


humana, depois ao infecciologista, fizemos todos os exames, como sua carga
viral continuava abaixo de quarenta cópias por mililitro de sangue, o que é
tido como indetectável, fomos orientados a iniciar o tratamento para a
reprodução assistida.
Cinco meses após o início do tratamento ela me contou que estava com
dois meses de gestação, três meses depois descobri que seria pai de uma
menina e até o seu nascimento não sabia que podia ficar mais feliz do que
estava.
No instante em que a peguei nos meus braços pela primeira vez, senti
uma onda de amor me envolvendo.
− Ei, papai. – sussurro, sorrindo para a minha filha. Ela tem olhos
vívidos, castanhos esverdeados. – Você é perfeita. – aconchego o seu corpo
nos meus braços, aproximando-me da cama. − Olha essas bochechinhas
rosadas. – comento, segurando-a próximo de Rafani.
– Ela parece uma bonequinha. – Rafani comenta, segurando a mão da
nossa filha.
Ergo os olhos e a vejo recostada nos travesseiros, está usando a
camisola do hospital, o seu cansaço é visível, ela passou por treze horas de
trabalho de parto, apesar das olheiras, os grandes olhos multicolores sorriem
para a nossa filha. Beijo sua têmpora. Ela levanta o rosto e me dá um grande
sorriso.
− Você está linda.
− Não minta. – ela deita o rosto no meu ombro. – Obrigada por ter
ficado segurando minha mão durante o parto.
− Não deixaria ninguém assumir o meu lugar. – encosto os lábios no

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seu cabelo. – E não minto, principalmente se for na frente dos nossos filhos.
Não é, Sophia? – inclino o rosto para olhar nossa filha. Ela agita os braços e
pernas, segurando o dedo de Rafani entre a mão pequenina. – Diz à mamãe o
quanto ela é linda.
− Linda sou eu, papai. – Rafani diz, fazendo uma voz infantil. Ela se
curva e beija os cabelos finos e macios de Sophia. – Mamãe, te ama. –
sussurra e deita, novamente, recostada no travesseiro. – Seu olhar quando
ouviu o choro dela. – ela afaga minha barba, o polegar deslizando sobre o
meu lábio. – Já o vi antes, foi o mesmo quando o Guga te convidou para
aquele jogo do dia dos pais. – sorri, deixando escapar um suspiro.
− Eu disse que o resultado da nossa equação era sempre o mesmo,
independente de quantos elementos fossem somados, me enganei, Guga e
Sophia elevam o nosso amor ao infinito. – a beijo com ternura. – Descanse
um pouco, pedi que deixassem as visitas para amanhã à tarde, porque
estaremos em casa, só Guga e Bárbara que estão a caminho.
− Você também está cansado, Sam.
− Eu não senti nenhuma das contrações, posso aguentar um pouco
mais. – pisco. – Nós estamos nos dando muito bem, pode confiar. – ergo os
braços, aproximando Sophia do meu rosto e beijo os seus cabelos, depois a
deito sobre os seios de Rafani. – Capaz dela adormecer antes de você. –
repouso uma mão nas costas de Sophia, massageando-a, e com a outra afago
os cabelos de Rafani.
− Prometa que vai dormir um pouco quando a Bárbara chegar.
– Vai aprendendo, Soph, com sua mãe a marcação é cerrada. – sorrio.
Em menos de cinco minutos Rafani estava dormindo, peguei Sophia e
me sentei na poltrona com ela no colo, a pequena estava com os olhinhos

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pesados, mas se recusava a dormir, quando pensava que havia adormecido,


ela arregalava os olhos e choramingava, fazendo manha para voltar a niná-la.
Não podia acreditar que em algumas horas de vida, Sophia tinha me rendido
às suas artimanhas.
Garota esperta! – pensei, balançando-a suavemente, enquanto
cantarolava baixinho.
Guga e Bárbara chegaram a tempo de pegar Sophia acordada e como se
soubesse que eles vieram conhecê-la, o sono sumiu como em um passe de
mágicas, ela olhava curiosa ao redor do quarto e balançava os braços,
enquanto Bárbara andava de um lado para o outro com ela no colo, contando
histórias, com Guga grudado nelas, segurando a mão de Sophia e
comemorando a cada aperto que ela dava no seu dedo.
Deitei no sofá de dois lugares, deixando as pernas penduradas, ajeitei
um cobertor como travesseiro e olhei para Rafani, ela dormia tranquila. Virei-
me de lado e fiquei olhando os nossos filhos, era incrível como Sophia tinha
monopolizado a todos nós; Guga e Bárbara não paravam de sorrir para a
irmã.
Não podia registrar a Bárbara como filha, porque nossas idades eram
muito próximas, nem mesmo por adoção seria possível dar o meu nome a ela,
mas não precisava de um documento, amava aquela garota como filha.
Descobrir que Bárbara também havia sido vítima de estupro me fez
desejar ter matado o Plínio, mais do que nunca sentia que a surra que dei nele
foi pouco diante de todas as merdas que ele fez para elas. Em meses de
casamento, foi a primeira vez que vi Rafani mergulhada de novo no seu
passado, sabia que ela tinha preocupações constantes com o desfecho do
processo contra seus pais, mas a revelação que Bárbara havia sido estuprada
foi o que a derrubou.
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Tive medo que ela quisesse se punir, como se fosse culpada por mais
aquela tragédia, afinal ela era mestre em se responsabilizar pelo próprio
sofrimento. Bárbara também ficou com medo, nós conversamos, ela me
contou porque começou a fazer terapia e que tinha feito um teste de DNA em
sigilo e confirmado que era filha do seu avô, queria que a ajudasse a decidir
se deveria contar a verdade a Rafani.
Juntos decidimos que era melhor colocarmos um ponto final as
mentiras e omissões, então ela e a mãe tiveram uma conversa longa e franca,
que rendeu uma madrugada de lágrimas e soluços, contudo, elas saíram mais
fortes.
Depois da condenação da sra. Mendonça, pensei que seria o fim dessa
história, todavia quatro meses após a sua prisão, fui informado que ela havia
sido atacada por outras prisioneiras, que a golpearam com um taco de metal e
fizeram perfurações no abdômen, antes de amarrá-la em um colchão e atear
fogo; o resultado foi uma lesão medular severa, com paraplegia, e
queimadura de segundo grau em 70% do corpo.
Rafani estava com seis meses de gestação, não sabia como ela reagiria
à notícia, pensei por dias se deveria guardar esse segredo, por fim percebi que
ela merecia a verdade.
Quando contei, ela abaixou os olhos, acariciou a barriga e voltou os
olhos para os meus. Odiava pensar que ela pudesse sofrer por aquela mulher.
Passei o braço ao redor do seu corpo, puxando-a para mim, e repousei a mão
livre na sua barriga, sentindo a nossa filha dar pequenos chutes.
“Eu não consigo sentir nada”. – confessou.
“Tudo bem, Fani”. – beijei sua têmpora.
“Ela não é e nunca foi a minha mãe”. – ela suspira alto. – “É horrível,

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mas me sinto vingada, como se finalmente ela tivesse pagando pelo que fez
comigo e com a Mah”.
“Não é horrível, é o que é”.
Foi pensando em tudo o que superamos juntos que adormeci, não tinha
noção do quanto estava cansado, planejei tirar um cochilo de alguns minutos,
no entanto, só acordei com uma pequena fresta de luz invadindo o quarto e
anunciando um novo dia.
Abri os olhos e vi que Rafani ainda dormia, Guga estava enroscado
comigo no sofá, Bárbara na poltrona e Sophia no berço. Levantei, ajeitei
Guga no sofá e caminhei pelo quarto, parando no espaço entre o berço e a
cama.
Um par de olhos curiosos me fazem sorrir.
Sophia nasceu com cinquenta e dois centímetros e quase quatro quilos,
os pés e mãos pequeninos, cabelos ralos e castanhos escuros, bochechas
rosadas, evidenciando o tom de pele dourado. Assim como a mãe, ela tem os
olhos grandes, parecem duas bolas de gude de brilho intenso.
Debruço-me sobre o berço e a pego no colo, aninhando-a junto ao meu
torso, repouso os meus lábios nos seus cabelos, inspirando o seu cheiro e ela
estica as pernas, chutando o meu bíceps e exigindo mais espaço.
− Bom dia, Soph. – sussurro. – Aqui fora é muito diferente da barriga
da mamãe? – sorrio, vendo os seus olhos indo de um lado ao outro. – Não
precisa ter medo, o papai vai te proteger. Vou te contar um segredo, a mamãe
decorou cada cantinho do seu quarto, tem um montão de borboletas na parede
do seu berço, elas significam transformação. Você representa uma grande
transformação na nossa vida, Soph, a sua chegada marcou o início de um
novo ciclo e nos trouxe uma imensa alegria. Te amamos muito, todos nós, e

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sempre estaremos ao seu lado.


− Assim como nós estaremos ao seu. – Rafani diz baixinho. Viro, deito
Sophia nos seus braços e acaricio o seu rosto, dando-lhe um beijo. – Bom dia.
– ela murmura nos meus lábios, depois beija a têmpora da nossa filha. –
Soph, você vai ter que emprestar um babador para o papai.
− Vou guardar a resposta para quando estivermos a sós. – pisco.
Rafani balança a cabeça e sorri.
– Você sabe que estou de resguardo?
− Sua boca gulosa dá conta do recado.
− Sam Allencar, você é um caso perdido. – ela morde o lábio.
− Não estou nenhum pouco perdido, sei bem onde quero estar, Fani.

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Capítulo 75

Murilo Valaverde
“Para sempre e sempre”.
The Originals
Minha cabeça dói.
Abro os olhos e uma luz forte me faz fechá-los depressa.
Onde estou?
Sinto um cheiro forte e algo gelado toca o meu rosto.
Entreabro os olhos, tentando enxergar algo, sem que a luminosidade
irrite a minha pupila.
− O que... – murmuro confuso.
− Ele está acordando. – uma voz que não reconheço diz. – Não deixe
que se levante por enquanto.
− Finalmente, meu filho!
− Sam? – coloco uma mão sobre o rosto, fazendo uma barreira para a
luz.
− Você desmaiou, caralho! – Sam comenta entre risos.
− Papai, você não devia usar esses termos. – Sophia se pendura no
pescoço do Sam e os olhos me analisam com cautela.
− Não conte à sua mãe. – Sam beija a mão de Sophia.
− Quem diria que o Tarzan morria de medo de sangue. – Guga
debocha, surgindo ao lado do Sam. – Você me decepcionou, cara.

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− O que está acon... Bárbara! – exclamo. − Ela vai ficar puta.


− Mô, ela vai ficar brava se souber que você falou a palavra com “p”
na minha frente. – Sophia sorri.
− Vamos manter em segredo, Soph. Tenho que voltar. – tento sentar,
mas Sam me impede. Vejo a sala rodando, estou nauseado. – É o parto da
minha filha, tenho que ficar com a Bah.
− Mamãe está com ela, Mô. – Sophia coloca a mão na minha testa. –
Você está bem?
− Meu filho, você desmaiou enquanto o médico fazia o corte no
abdômen da Bárbara, confie em mim, se você voltasse só iria atrapalhar.
− Tem ideia de quantos enfermeiros tiveram que te carregar? – Guga
gargalha. – E as expressões que eles fizeram quando ouviram o tombo?
− Gustavo, continue me tirando e na próxima vez que te flagrar na
piscina, com duas garotas, quando deveria estar no colégio, vou contar à
Rafani e não ao Sam.
− Guga! – Sophia desce das costas do pai e vira para o irmão com os
olhos arregalados, ela abre a boca, encenando o seu espanto. Com quase oito
anos, ela é uma atriz nata, não perde uma oportunidade de pôr em prática o
seu talento para o teatro.
– Já resolvi com o nosso pai, fica quieta. – Guga adverte a irmã.
– Se a mamãe descobrir... – ela olha do irmão para o pai e sorri.
– Soph, seu irmão teve alguns privilégios cortados e ainda está com a
mesada reduzida como punição, então não precisamos chatear a sua mãe com
essa história. – Sam argumenta.
– Não vou contar nada. – ela arqueia a sobrancelha e faz um biquinho,

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olhando para Guga com uma expressão pensativa. – Você é engraçado, fica
todo irritado quando Jujuba sai com algum menino e vive agarrado com todas
suas amigas.
– Sophia, para de falar sobre o que você não sabe. – Guga diz sério.
– Sei sim, você gosta dela, bobão.
– Sophia, não implique com seu irmão.
– Tudo bem, papai, não digo mais nada. – ela dá de ombros. – Mas não
diga que não avisei, Guga. – olha de canto de olho para o irmão. – Mô, fica
tranquilo, a mamãe vai cuidar da Bah e da Maya. – ela segura minha mão.
Ergo sua mão e deposito um beijo.
– Como queria ter filmado o seu desmaio, viado.
– Vá se f...
– Mô, não pode! – Sophia tapa minha boca com ambas as mãos.
Sam deixou Sophia e Guga me vigiando e voltou para a sala da família,
uma espécie de antessala do centro cirúrgico, de onde é possível assistir ao
parto.
Queria ir junto, mas fui vetado, em pequenos intervalos de tempo uma
enfermeira aparecia para checar se estava tudo bem comigo, quando saiu o
resultado do exame, comprovando que não havia sofrido nenhuma concussão,
fui liberado e encaminhado para o quarto onde Bárbara ficaria com Maya,
após a cesárea.
Assim que entramos no quarto, Sophia declarou que ele precisava de
uma decoração de boas-vindas, para o caso da Bárbara ter ficado chateada
com o meu desmaio.
Deixei Guga encarregado de me ligar se Bárbara chegasse antes de nós

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e saímos. Voltamos minutos depois, com um urso enorme, um baú de


madeira contendo uma almofadinha, pantufas para recém-nascido e um
blanket, além de uma caixa de chocolates e um par de pulseiras em ouro, com
uma estrela em cristal swarovski no centro.
Sophia me ajudou a arrumar o quarto com os itens que compramos,
expulsou Guga da poltrona e colocou o urso sentado. Ela queria abrir o urso e
o baú, mas quando Guga explicou que havia muitas bactérias no hospital, ela
mudou de ideia.
Nos sentamos os três no sofá e esperamos, Guga mexendo no celular,
Sophia tentando ler as mensagens do irmão e provocando-o sobre Júlia; o que
sempre o deixa irritado, porque ele tem uma queda imensa por ela, embora
não admita.
– Cadê elas? – levanto ao ver Sam e Rafani entrar.
– Bárbara está na sala de recuperação e Maya no berçário, elas estão
bem, em duas horas estarão aqui. – Rafani explica.
Olho do Sam para Rafani, analisando as suas expressões.
– Ela é linda e tem um choro forte, acho que vai ser brava como a mãe.
– Sam me abraça, dando tapinhas no meu ombro.
– É verdade. – Rafani sorri. – Ela tem os seus olhos.
– Quero vê-la! – Sophia diz, envolvendo a mãe pela cintura. – Ela
parece comigo?
– Ela parece mais com esse branquelo, Soph. – Sam comenta. – Os
cabelos são clarinhos, quase não pude vê-los através do vidro.
– Bah ficou muito triste por não ter ficado com ela?
– Você não tem culpa de ser sensível a um pouquinho de sangue,

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Tarzan. – Guga esmurra o meu bíceps e joga o braço sobre os meus ombros.
– Mas não vou esquecer aquela cena nunca. – completa, gargalhando junto
com o Sam.
– Será que o hospital me vende as fitas de segurança? Vai que tem um
imagem do viado em queda livre – Sam provoca.
– Até ajudo a pagar, pai. – Guga bate no meu ombro.
– Vão se... – engulo o palavrão.
– Bom menino, Mô. – Sophia diz entre risos. – A gente pode ir comer?
– Estou com a Soph. – Guga dá alguns passos, abraça a mãe e com a
mão livre bagunça os cabelos da irmã. – Sinto que tem um buraco negro no
meu estômago.
– Guga, para! – Sophia reclama. – Você está me bagunçando.
– Vou te levar para comer, então seja boazinha. – Guga pisca para
Sophia. – Pai, mãe, vão querer algo? – pergunta, dando a mão à irmã. – Nem
vou perguntar ao Murilo, porque é capaz dele vomitar o quarto inteiro de
tanta ansiedade.
– Esse moleque está querendo apanhar.
– Murilo, admita, você está quase colocando um ovo. – Sam pontua,
fazendo Sophia e Guga caírem na gargalhada. – Vá com eles, Fani. – ele
coloca os braços em volta da mulher. – Você precisa se alimentar, porque sei
que assim que Bárbara e Maya entrarem nesse quarto, você não vai desgrudar
delas até que tenham alta.
– Não estou com fome.
– Não seja teimosa. – ele a beija. – Se a nossa neta abrir aquele
vozeirão de madrugada, você vai precisar de forças para domá-la.

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Depois que Rafani saiu com os filhos, olhei o quarto como um todo,
Sophia tinha razão, parecia muito mais acolhedor agora.
Sam pegou o urso da poltrona e sentou-se, apoiando-o sobre a perna.
Deitei no sofá e respirei profundamente, meu peito parecia que iria explodir,
não conseguiria relaxar até que pudesse ver e tocá-las.
– De onde surgiram todas essas coisas? Não lembro de ter visto esse
urso no maleiro do carro.
– Sophia. – sorrio.
– Claro. – Sam concorda, sorrindo. – Em pensar que em dois meses vai
completar oito anos que era eu quem estava surtando assim. – ele aponta para
mim. – Foram as treze horas mais angustiantes da minha vida. A espera, o
medo, não são nada quando você olha aquele rostinho minúsculo pela
primeira vez, quando você a aconchega nos seus braços e percebe que daria a
sua vida para mantê-la em segurança.
– Estou em pânico. – confesso. – Levou tanto tempo para Bah pensar
em filhos que estava começando a acreditar que seríamos apenas nós dois, e
agora estou com medo, cara. Se não souber o que fazer? Tem uma vida pela
qual sou responsável e não sei nem por onde começar.
– Ela vai te ensinar por onde começar, vai te ensinar tantas coisas, e
para Bárbara também, vocês vão aprender juntos, Murilo. – ele dá uma risada
baixa. – E errar também, porque faz parte. E se vierem outros por aí, não
pense que vai saber o que fazer, porque eles são diferentes e precisamos ser o
tipo de pais que cada um deles precisa.
– Estou contando que você vá me socar se estiver indo pelo caminho
errado.
– Conte com isso. – Sam joga o urso em cima de mim. – Viado, sou

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avô. – diz entre risos. – Estou ansioso para vê-la pendurada no meu pescoço
me chamando de vovô.

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Capítulo 76

Bárbara Lemos
“Meu amor por você cresce a cada batida do meu coração”
Once Upon a Time
Sabia que Murilo queria ter filhos mesmo antes de ter dito sim quando
ele me pediu em casamento e muito antes de ter juramentado o meu amor
perante Deus, quando o aceitei como esposo e companheiro para a vida.
Há algo sobre o Murilo que não podia descobrir simplesmente olhando-
o, ou se tivesse tido dois ou três encontros casuais, acho que nem durante o
namoro tinha uma ideia clara do quanto o Murilo é capaz de abrir mão dos
seus sonhos para abraçar os meus.
Anos de casamento e ele nunca me pressionou para termos filhos,
nunca sequer tocou no assunto, mesmo quando minha mãe e Sam contaram
que iriam iniciar o tratamento para engravidar, nem quando Sophia nasceu e
estava expresso no seu olhar, o quanto ele desejava um filho; acho que em
alguma medida, ela preencheu esse espaço na vida dele. Não havia um dia em
que ele não fosse vê-la e quando ela o chamou de Mô pela primeira vez não
teve jeito de esconder as lágrimas.
Não vou negar que as vezes me sentia mal, porque por mais que o
amasse, não era capaz de abrir mão dos meus sonhos para satisfazer o dele:
ser pai. Não raro, me perguntava se o meu amor era o bastante para ele, se os
meus sentimentos eram tão fortes quanto os dele por mim. Não sabia com
certeza, mas não conseguia imaginar a minha vida sem o Murilo, por isso
fingia que não sabia que a ausência de perspectiva de sermos pais o magoava.

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A cada conquista na minha carreira profissional, imaginava quando ele


falaria sobre filhos, mas nunca aconteceu, ao invés disso ele comemorava
comigo, me presentava com joias e dizia o quanto estava orgulhoso. Na
minha covardia preferia não levantar o assunto, parecia perverso mexer na
ferida dele apenas para dizer que ainda não estava pronta para ser mãe.
O divisor de águas foi quando recebi uma proposta para assumir um
cargo que me colocaria como chefe imediata dele, ocuparia o cargo que anos
atrás foi do Sam, o mesmo que foi ofertado ao Murilo e recusado por ele,
logo que nos casamos.
O engenheiro que havia assumido a função na época, estava de
mudança, iria presidir o escritório de Dubai e Sam me ofereceu o cargo, não
esquecendo de pontuar o grau de comprometimento que exigiria.
“Bárbara, vou ser sincero, só estou te oferecendo o cargo porque você
é a engenheira do grupo com os pré-requisitos necessários, a maioria aqui é
bom com números, desenhos gráficos, mas na hora de sentar com o cliente
para apresentar um projeto não consegue vender a ideia”.
“Mas”. – disse, esperando que ele continuasse.
“Não posso pensar unicamente como CEO, você é parte da minha
família, é a esposa do meu melhor amigo e é minha filha, vai me dar uma dor
de cabeça do caralho arrumar outro diretor de projetos, mas não quero que
você aceite sem pensar no que significa”.
“Se aceitar, estarei indiretamente adiando a possibilidade de ter
filhos”.
“Esse é o ponto, Bárbara. – ele alisou a barba. – Você não precisa
adiar nada, você é capaz de cumprir com as responsabilidades exigidas e ser
uma mãe excepcional, o problema é que você quer assumir o controle de

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tudo, não teria nenhum problema para mim, ou para a empresa, se você
tirasse licença maternidade em alguns meses ou anos, mas você agiria como
se não pudesse tirar esse tempo, porque não confia que tudo continuaria
funcionando fora do seu alcance, e é por isso que quero que você pense a
respeito”.
“A primeira coisa que me passou pela cabeça é que este cargo é
incompatível com filhos, pelo menos por alguns anos, porque crianças
significam distração e posso arruinar a minha carreira se na minha gestão
como diretora de projetos a empresa tiver baixas no faturamento”.
“Bárbara, se a empresa tiver baixas a responsabilidade é nossa, e não
sua, mas não vou discordar que filhos são uma distração, olha eu aqui
ameaçando me colocar na merda para te salvar, mas eles são a melhor
distração, aquela que faz seu coração bater acelerado e que te faz sorrir com
gestos simples, como o primeiro papai, e nem precisa ser as primeiras
palavras, quando o Guga me chamou de pai, foi tão espontâneo, ele nem se
deu conta, mas para mim aquela conquista foi maior do que sentar nessa
cadeira e ter o meu nome associado ao título de CEO, e olha que essa era a
grande meta da minha vida. Filhos mudam tudo, fazem uma bagunça na sua
vida, literalmente, você não vai saber o que é ter uma noite de sono por um
tempo, vai ter que controlar até o que fala, mas ver o sorriso deles quando
você chega em casa depois de um dia fodido de trabalho é a maior das
recompensas”.
Não queria jogar minha decisão no colo do Murilo, sem conversar a
respeito, sem pesar tudo o que havia envolvido, por isso naquele dia quando
cheguei em casa e o encontrei no banho, ao invés de abrir o notebook e ir
trabalhar em projetos e planilhas, como faço quase todas as noites, despi as
minhas roupas e invadi o banheiro.

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“Surpresa boa”. – ele passou a mão no cabelo molhado. – “Não vou


precisar te subornar com massagem?”
Tínhamos uma rotina noturna, ele chegava antes de mim e entrava para
o banho, eu chegava, ouvia o chuveiro ligado, sentava na cama com o
notebook, então ele deixava o banheiro, sem roupas, subia na cama e
começava a massagear os meus ombros, enquanto pedia para ele parar,
porque tinha algo importante para terminar, mas ele nunca me ouvia e
continuava a massagem.
As mãos iam despindo as minhas roupas e antes que pudesse perceber
estava montada no seu membro ou de joelhos na cama, sentindo-o puxar o
meu cabelo e estapear a minha bunda, fodendo-me tão forte que tinha que por
uma mordaça ou meus gemidos fariam os vizinhos chamarem a polícia.
“Hoje não”.
Nós fizemos sexo, terminamos o banho e fizemos mais sexo.
Aninhados na cama, criei coragem para falar sobre os filhos que
poderíamos ou não ter, assim como a oferta de trabalho.
“O que você quer?” – foi a primeira frase que saiu dos seus lábios,
depois de longos minutos de silêncio.
“Você acha que consigo?”
“Claro que você consegue, Bah. Não consigo pensar em alguém mais
competente para esse cargo”.
“Mô”. – toquei os seus lábios. – “Não isso, o que estou perguntando é
se você acha que consigo ser uma boa mãe”.
“Sim, Bah” – ele afagou os meus cabelos. – “Acho. Não, tenho
certeza”. – ele me beijou. – “Mas não quero que você faça isso por mim,
aceite o cargo, se você realmente quiser ter filhos, você vai dar um jeito de
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controlar a sua obsessão por trabalho”.


“Não sou...” – me interrompi. – “Eu sou, né? Sou viciada em
trabalho”.
“Sim”. – ele sorriu. – “Posso te ajudar a combater esse vício”. – disse
girando e me prendendo entre suas pernas. – “É uma terapia bem divertida,
vamos ver se você aprova”. – ele infiltrou a mão entre as minhas pernas,
acariciando-me devagar.
Não posso discordar, a terapia que o Murilo propôs era extremamente
divertida, horas e horas de sexo e orgasmos que me deixavam sem fôlego. Foi
assim pelos próximos três anos, passava o dia em reuniões e revisões de
projetos, fazendo o meu melhor como diretora de projetos, e as noites
fazendo amor e sexo insano com o meu marido.
Estava começando a ficar preocupada que não pudesse ter filhos
quando descobri que estava grávida. O momento em que contei ao Murilo da
gravidez, ele não conseguiu dizer nada, apenas chorava e beijava minha
barriga, e as minhas lágrimas transbordaram.
Tinha minhas suspeitas que ele não aguentaria assistir ao parto, ele
insistiu e como não queria parecer a chata, concordei. Quando ele desmaiou
fiquei mais preocupada do que surpresa, e só relaxei quando minha mãe
surgiu ao meu lado e murmurou que o Sam estava com ele. Me concentrei no
momento e apesar de não sentir dor, sentia um puxa e empurra, e de repente
um som estridente de choro, alto e forte, preencheu o ambiente e senti as
lágrimas percorrendo a lateral do meu rosto.
O médico colocou a minha bebê sobre os meus seios, senti o seu
coraçãozinho e o calor do seu corpo sobre o meu.
O tempo que fiquei com Maya foi de minutos, depois fui para a sala de

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recuperação, onde fiquei por horas e apesar de sentir o cansaço, além do frio
e tremedeira que segundo as enfermeiras era efeito da anestesia, estava
ansiosa para estar com a minha filha e o Murilo.
Quando vieram me buscar para levar para o quarto, perguntei quando
veria Maya e me avisaram que ela estaria me esperando.
A porta do quarto abriu. Ouvi a voz de Sophia e Guga pedindo para ela
falar baixo por causa de Maya. Virei o rosto na maca, olhando para o meu
lado esquerdo e vi o Murilo se aproximando, segurando nossa filha nos
braços.
– Oi, amor. – diz, olhando nos meus olhos.
– Oi, Mô. – sussurro. O efeito da anestesia passou e sinto um pouco de
dor ao falar.
– Você não pode falar muito. – a enfermeira avisa. – Só um minuto e
vamos deixar vocês curtirem esse momento. – pede, sinalizando para o
Murilo se afastar.
Depois que me deitam na cama, a enfermeira pede ao Murilo para
colocar Maya nos meus braços e me instrui como segurá-la para dar a
primeira mamada. Sorrio e sinto uma fisgada. Maya faz um biquinho com os
lábios rosados e envolve o meu mamilo, sinto uma leve sucção e vejo o
movimento das suas bochechas, o som dela mamando e estou chorando.
Sinto um toque suave no meu rosto, enxugando as minhas lágrimas,
ergo os olhos e sorrio para o Murilo. Ele dá um beijo na minha têmpora e
abaixa os olhos para a nossa filha, e sei que não precisamos de palavras.

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Epílogo

“O amor só existe para aqueles que acreditam em contos de fadas”.


Autor desconhecido.

Para alguém que queria se apaixonar aos cinquenta anos, estar casado
há doze anos, aos trinta e sete, podia parecer que havia falhado
miseravelmente; todavia, sentia-me o homem mais sortudo do universo.
Conheci, namorei e casei com a mulher por quem me apaixonei dentro
de alguns meses, posso afirmar que amá-la foi fácil e indolor, e arrisco dizer
que ajudei a abrandar a sua dor; tendo enfrentado tanto sofrimento, Rafani
precisava de um amor que fosse simples, descomplicado, apesar de todos os
eventos complicadores.
A verdade é que depois que me informei sobre o HIV e processei o que
aquele diagnóstico representaria nas nossas vidas, percebi que não interferia
em nada nos meus sentimentos e tampouco na nossa relação, afinal as
restrições existem, mas não precisavam significar um impedimento para
estarmos juntos.
Uma das primeiras coisas que me questionei enquanto estava longe
dela, foi se me afastaria caso ela tivesse diabetes, hepatite, câncer, Parkinson,
ou qualquer outra doença, ou mesmo se não pudesse ter filhos.
A resposta era não, então porque teria que ser diferente para o HIV?
O nascimento de Sophia foi a prova que podíamos transpor as barreiras
impostas pela sorologia positiva. Dia após dia, via o quanto Rafani tinha
revertido os seus medos em ações, o abrigo para crianças e mulheres vítimas

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de abuso sexual e violência doméstica que começou como uma ação local,
ganhara o mundo, e tinha sede em países como Colômbia, El Salvador,
Guatemala, Zimbabwe, Canadá, Índia, Estados Unidos, Japão, Holanda e
Rússia.
Na última semana, ela recebeu o prêmio humanitário das Nações
Unidas pelo trabalho filantrópico em defesa das mulheres, numa cerimônia
realizada em Nova York.
Em comemoração à sua premiação, organizei um jantar surpresa com a
ajuda de Bárbara, uma festa íntima para família e amigos, assim ela poderia
dividir o sucesso do seu trabalho com as pessoas que ajudam a manter os
abrigos funcionando, como Maressah, Roberta, Angel, Anelice e Chloe.
Confesso que a aproximação entre Rafani e Roberta me causou um
pouco de receio, principalmente depois das loucuras que Samantha aprontou,
mas com o tempo percebi que não era uma jogada de Roberta para se
aproximar e tentar me seduzir, ela estava verdadeiramente engajada nas ações
do abrigo e tinha se tornado uma amiga para Rafani, assim como Chloe.
Maressah e Rafani herdaram uma fortuna, no entanto, ambas se
recusaram a usufruir do dinheiro em benefício próprio e investiram no abrigo.
Para Anelice e Angel que tinham vivido parte da sua infância em um
orfanato, e visto muitas meninas serem acolhidas por sofrerem violência
doméstica, como foi o caso de Angel, aderir ao projeto foi uma forma de
devolver ao mundo parte do amor que receberam quando foram adotadas
pelos meus tios.
− Não precisava ter dado uma festa. – Rafani sussurra, me abraçando.
− Estou muito orgulhoso do que você conquistou. – deslizo o nariz pelo
seu rosto, beijando-a sutilmente. − Mas. – movo as minhas mãos para a sua
bunda. − Estou mais ansioso pela festa que nos espera no quarto.
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Ela joga a cabeça para trás e dá uma gargalhada graciosa.


− Você faz isso para me provocar. – comenta baixinho, enquanto
mordisco o seu pescoço. – Sam, aqui não. – protesta, mas o seu corpo diz que
não devo parar. Sinto a sua pulsação acelerada, os dedos alongando-se sobre
as minhas costas. – Você só veio pegar um vinho, lembra?
− Foi você quem veio atrás de mim. – provoco, sugando o seu lábio.
− Vamos, Sam Allencar. – ela sorri e me empurra. – Escolheu o vinho?
− Vamos ver. – abro a adega. – Podemos ir. – digo, pegando duas
garrafas de vinho.
Subimos para a sacada nos fundos da casa. Ela sobe os degraus na
minha frente, rebolando em um vestido vermelho, um pouco abaixo dos
joelhos, moldado ao corpo e com ombros amostra.
No topo da escada, cruzo os braços na sua frente, prendendo-a entre as
garrafas e pressiono a minha ereção nas suas costas.
− Estarei te esperando assim no final da noite. – sussurro, depositando
um beijo no seu ombro.
− Pode passar mil anos, isso nunca vai deixar de ser esquisito. –
Bárbara diz alto o bastante para ouvirmos e provoca uma onda de risos.
− O meu irmão caçula é avô, o que pode ser mais esquisito? – Mel
sorri.
– O filho dele me passando uma cantada. – Chloe rebate o argumento
de Mel e as risadas transformam-se em gargalhadas.
− Vocês não podem negar que o moleque tem bom gosto. – comento,
colocando as garrafas de vinho na mesa.
− Também tem a quem puxar no quesito cretinice. – Rafani me dá um

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tapa no bíceps.
− Ele tinha que fazer jus ao nome da família. – Mel pontua. – Théo
ainda é o pior deles, com quinze anos está tocando o terror.
− Por que eles não puderam vir? – Maressah pergunta.
− Maria está pelo mundo, dançando com a companhia de ballet, Fera
ocupado com uma certa garota, embora ele vá negar, e os Terríveis tinham
um jogo importante. JP e Hannah não acham seguro deixar aqueles dois
sozinhos, o que eu super concordo. – Mel explica.
− Da última vez que ficaram sozinhos eles montaram uma rave na
escola de música. – Andy completa.
− Nem fale, estou imaginando o que Gabriel está aprontando sozinho
em casa. – Anelice comenta.
− Por que ele não veio? – Chloe pergunta.
− Tinha combinado de sair com a namorada. – Bruno explica. – A qual
só conhecemos há duas semanas, quando flagramos os dois na nossa cama.
− Gente, essa família só tem loucos. – Angel gargalha.
− Loucos ou não, só tem homem gostoso na família, eles têm que
aproveitar mesmo. – diz Roberta. – As meninas não têm do que reclamar.
− Não tenho tanta certeza. – Anelice rebate, olhando para baixo.
Acompanho o olhar de Anelice e vejo as crianças sentadas no deck, o
que é mais modo de dizer, Guga e Júlia deixaram de ser crianças faz tempo.
Guga está com vinte anos, vai completar dois anos que está morando
em Cambridge, cursando medicina em Harvard; ele está com Maya no colo.
Júlia, que há muito deixou de ser a garotinha de bochechas fofinhas para se
tornar uma linda jovem de longos cabelos castanhos e olhos de um peculiar

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cinza azulado, está sentada entre Sophia e Elise.


− Nunca rolou nada entre eles. – Bruno resmunga, captando o que
Anelice não disse.
− Que a gente saiba. – Murilo pontua. – Todos sabem que ele foi, ou é,
apaixonado por ela.
− Brunão, aqui se faz, aqui se paga. – Miguel comenta entre risos. –
Pegou minha irmã, agora assiste o Guga pegar sua filha.
Nem mesmo Bruno consegue não rir com o comentário do Miguel, ele
levanta e se debruça na sacada, envolvendo Anelice com um braço.
− Se não rolou, ainda vai rolar. – murmuro.
− Adoraria que o Guga namorasse uma menina como Júlia. – Rafani
deixa um suspiro profundo escapar e deita a cabeça no meu ombro.
− Aposto que ela diria sim se ele a pedisse em namoro. – Chloe
comenta.
− Não sei, Juju sabe que Guga é um pegador. – Angel pontua. – Ela é
romântica, teria medo de se machucar.
− Ele gosta dela, até Sophia sabe disso. – Maressah argumenta.
− Minha aposta é que já rolou. – Anelice declara e todos os olhares se
fixam nela.
− Você sabe de alguma coisa! – Mel e Roberta dizem em coro.
− Amor? – Bruno deixa a pergunta no ar.
− Só um palpite. – ela ignora os olhares e permanece olhando para o
deck.
Passo o braço em torno de Rafani, posicionando-a na minha frente,
cruzo os braços sobre o seu abdômen e apoio o meu queixo nos seus cabelos.
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− Ele tem medo de se machucar. – digo baixinho, apenas para Rafani.


− Eu sei. – ela sussurra. – Se eles soubessem que estão sendo
observados.
Júlia levanta, olha de relance para Guga, então acena para Maya e desce
os degraus do deck.
Guga levanta em seguida, ergue Maya, beija sua barriga, depois a
coloca no chão e ela corre para Sophia e Elise; filha de Mel e Andy. Júlia está
quase entrando na casa quando Guga a alcança, abraçando-a por trás e
levando-a de volta.
− Guga, me solta!
− Ah, Juju. – ele a beija no pescoço.
− Guga, para. – reclama. – Gustavo, me coloca no chão. – pede,
prendendo o riso, quando ele a pega no colo. – Meu Deus, Guga. – diz entre
risos. – Você está me fazendo cócegas.
− Não estou não. – ele contesta, sorrindo. – Nós vamos nos molhar.
− Beija! Beija! Beija! – Sophia e Elise gritam, sendo seguidas pela
Maya, que pula e bate palmas.
− Olha o que você... – ela começa a falar, mas não consigo ouvir mais,
porque Guga corre com ela no colo e só ouço o tibum. – Gustavo Allencar,
vou te matar! – Júlia grita, emergindo na piscina.
Ela passa as mãos no cabelo e respira ofegante, procurando o Guga.
− Guga é um safado. – digo entre risos, prevendo o que vem a seguir.
− Ele não vai... – Rafani pausa, quando percebe que estou certo.
Guga fez natação por anos e competia pela equipe do colégio durante o
nível fundamental e médio, ele consegue ficar imerso por bastante tempo.
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Júlia vasculha o perímetro da piscina esperando que ele suba, mas o


moleque não faz nenhum movimento.
− Será que ele bateu com a cabeça? – Anelice pergunta preocupada.
− Não. – eu e Murilo dizemos em uníssono.
− Guga? Guga! Guga, não tem graça! – Júlia exclama.
− O que... – Bruno olha boquiaberto para a piscina e se interrompe no
meio da frase. – Mas que porra!
− Ah, moleque! – Miguel exclama.
− O aluno superou o mestre, Sam. – Andy provoca.
Júlia mergulha e nada até onde Guga está submerso, não é possível ver
claramente o que acontece debaixo da água, mas no instante em que
reaparecem, Guga está com os braços em torno de Júlia, pressionando-a
contra o seu tórax, ela com os dedos apertando os seus bíceps, e ambos
imersos em um beijo que não tem nada de hesitante.
As meninas voltam a gritar, dessa vez festejando o beijo. Como se um
alarme tivesse soado, Júlia leva as mãos ao peito do Guga e o empurra.
− Idiota! – ela esmurra o peito dele. – Você. É. Um. Idiota. – diz,
ofegante.
− Você me beijou de volta.
− Eu-eu... – ela dá um tapa no rosto dele, vira e nada até a borda da
piscina. – Que brincadeira idiota, Gustavo. – comenta, olhando-o uma última
vez.
− Júlia! – ele chama quando ela dá as costas. – Juju! – Guga sai da
piscina, passando a mão no cabelo. – Ju, foi uma brincadeira. – ele a segue
para dentro de casa. – Juju!

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− Vou ensinar minha filha a acertar as bolas desse moleque. – Bruno


diz sério, provocando muitas risadas.
− Meu sobrinho é cheio das artimanhas. – Mel sorri.
− Se foi o primeiro beijo, foi digno de Hollywood. – comento.
Rafani vira de frente para mim, desliza as mãos pelos meus ombros e os
olhos multicolores sorriem.

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