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O ESPÍRITO DA FÊNIX

When Darkness Comes

Alexandra Ivy

O guardião do amor
Abby Barlow teve um dia terrível. No espaço de poucas horas, ela sobreviveu a uma
explosão, viu sua patroa morrer, teve um sonho assustador, e agora está num
decadente hotel em Chicago, com o charmoso e sexy Dante, um homem que ela
deseja e de quem ao mesmo tempo tem medo...
Há mais de trezentos anos, Dante é o guardião da Fênix, uma mulher mortal
escolhida para afastar as trevas, e por uma bizarra reviravolta do destino, Abby
se tornou essa mulher. Três horas atrás, tudo o que Dante queria era seduzi-la...
Agora, é seu dever protegê-la.
Um plano aterrorizante está em execução; um plano que precipitará Dante e Abby
numa batalha épica entre o Bem e o Mal... E numa corrida desesperada para salvar
sua paixão!

Digitalização: Crysty
Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

Revisão: Ellen

Querida leitora,
Ter dinheiro para pagar o aluguel é o único motivo pelo qual Abby continua
trabalhando para a autocrática Selena LaSalle, Como se isso não bastasse, ela
fica extremamente contrariada ao se descobrir atraída pelo misterioso e
irritante Dante, um homem que ela imagina ser o "brinquedinho de estimação" de
Selena. Mas tudo muda depois que ela acidentalmente deixa cair um vaso que se
parte em mil pedaços, libertando uma força poderosa e segredos seculares que
somente Dante conhece. O problema é confiar naquele homem para entregar nas
mãos dele sua vida... e seu coração!
Leonice Pomponio Editora

Copyright © 2006 by Debbie Raleigh


Originalmente publicado em 2006 pela Kensington Publishing Corp.
PUBLICADO SOB ACORDO COM KENSINGTON PUBLISHING CORP.
NY.NY-USA Todos os direitos reservados.
Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com
pessoas vivas ou mortas terá sido mera coincidência.
TÍTULO ORIGINAL: WHEN DARKNESS COMES
EDITORA Leonice Pomponio
ASSISTENTE EDITORIAL
Patricia Chaves
Paula Rotta
Vânia Canto Buchala
EDIÇÃO/TEXTO Tradução: Débora Guimarães
ARTE Mônica Maldonado
MARKETING/COMERCIAL Andréa Riccelli
PRODUÇÃO GRÁFICA Sônia Sassi
PAGINAÇÃO Ana Beatriz Pádua
©2009 Editora Nova Cultural Ltda.
Rua Paes Leme, 524 — 10 andar — CEP 05424-010 — São Paulo - SP
www.novacultural.com.br
Impressão e acabamento: RR Donnelley

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

PRÓLOGO

Inglaterra, 1665
O grito cortou o ar da noite. Pulsando com uma agonia selvagem, ele encheu o
vasto aposento e transbordou para os corredores escuros. Criados nos salões do
castelo cobriam os ouvidos, tentando bloquear os berros angustiados. Até os soldados
mais endurecidos nos galpões faziam o sinal da lua, a protetora da noite.
Na torre sul, o Duque de Granville andava por sua biblioteca particular, seus
traços sombrios expressando desgosto. Diferente dos criados, ele não desenhava o si-
nal sagrado na testa para afastar o olho do Mal. E por que deveria?
O Mal já havia atacado. Invadira seu lar e ousara maculá-lo com sua imundície.
A única coisa que restava era purgar a infestação com um golpe implacável.
Puxando o capuz do manto para assegurar que o rosto marcado estava bem-
escondido, ele ergueu os ombros. Paciência, dizia a si mesmo muitas vezes. Logo a lua
se moveria para o equinócio apropriado, e então o ritual finalmente chegaria ao fim. A
criança que entregara às bruxas em sacrifício se tornaria seu precioso Cálice, e o
sofrimento terminaria.
Girando repentinamente sobre os calcanhares, ele caminhou de volta à janela de
onde podia ver o campo próspero e fecundo. Era possível ver ao longe o brilho das
fogueiras. Ele estremeceu. Londres. Imunda, cheia de camponeses, Londres era punida
por seus pecados.
Uma punição que ultrapassara os limites dos prostíbulos em ruínas e se estendera
até seu santuário.
Ele cerrou os punhos. Era insustentável. Impossível. Era só um homem. Um homem
bom e temente a Deus, alguém que sempre fora ricamente recompensado por sua
pureza. Ter aquela... Doença vil invadindo seu corpo era uma perversão de que tudo que
lhe era devido.
Essa, certamente, era a única razão pela qual permitia que os pagãos entrassem
em sua propriedade. E levassem com ele aquela criatura do Mal que, atualmente,
estava acorrentada em sua masmorra.
Eles haviam prometido uma cura.
Um fim para a praga que consumia sua vida.
E o único preço que teria de pagar seria... Uma filha.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

CAPÍTULO I

Chicago, 2006
Oh, Deus, Abby. Não entre em pânico. Não... Entre... Em pânico.
Respirando profundamente, Abby Barlow estudou os cacos de cerâmica no chão.
Tudo bem, havia quebrado um vaso. Bem, mais do que quebrado. Havia estilhaçado
um vaso. Dizimado. Grande coisa. Não era o fim do mundo.
Um vaso era um vaso. Não era?
Ela franziu a testa. Não, um vaso não era simplesmente um vaso. Não quando era
raro. Valiosíssimo. Um vaso que devia estar no museu. O sonho de qualquer co-
lecionador e...
Maldição!
O pânico ameaçava dominá-la.
Havia destruído um precioso vaso Ming.
E se perdesse o emprego? Tudo bem, não era um grande emprego. Na verdade,
tinha a sensação de penetrar na zona do crepúsculo cada vez que entrava na elegante
mansão no subúrbio de Chicago. Mas sua posição como dama de companhia de Selena
LaSalle não exigia grande esforço, e o pagamento era consideravelmente melhor do
que estaria ganhando em uma espelunca qualquer, servindo mesas ou limpando o chão.
A última coisa de que precisava era voltar para as longas filas do seguro
desemprego.
Ou pior... Deus, e se tivesse de pagar pelo vaso?
Mesmo que existisse uma espécie de liquidação ou ponta de estoque na loja Ming
do bairro, teria de trabalhar dez vidas para economizar esse valor. Supondo que o vaso
não fosse único, é claro.
O pânico não era mais uma simples ameaça. Era uma entidade, cujas garras
apertavam seu pescoço.
Só havia uma coisa a fazer, ela pensou. A única atitude madura, responsável,
adulta a tomar.
Esconder as provas.
Olhando em volta, Abby certificou-se de que estava sozinha no saguão antes de

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se abaixar e recolher os inúmeros cacos de cerâmica do chão de mármore.


Ninguém ia perceber o sumiço do vaso. Serena sempre fora reclusa, e nas últimas
duas semanas ela praticamente desaparecera. Não fosse por suas aparições eventuais
para pedir a repugnante mistura de ervas que ela bebia com aparente prazer, e Abby
poderia pensar que a mulher sumira no ar.
Selena não perambulava pela casa, fazendo inventários de seus enfeites. Se não
deixasse pistas de seu crime, ninguém perceberia nada.
Ninguém jamais saberia. Ninguém!
— Ora, ora, nunca pensei que um dia a veria de quatro, amor. Uma posição curiosa
que sugere inúmeras possibilidades — comentou uma voz debochada da porta.
Abby fechou os olhos e inspirou. Devia ser amaldiçoada. Só podia ser. O que mais
poderia explicar tanta falta de sorte?
Por um momento, ela continuou onde estava, orando para que o hóspede de
Selena, o intragável Dante, desaparecesse. Podia acontecer. Havia sempre a
possibilidade de combustão espontânea, buraco negro, terremoto...
Infelizmente, o chão não se abriu para tragá-lo, e os detectores de fumaça
permaneciam silenciosos. Pior, podia sentir o olhar sombrio fixo em sua forma
encurvada.
Munida do que restava do orgulho, Abby se virou devagar e, mantendo os pedaços
do vaso escondidos atrás dela, olhou para o atual vulto negro sobre sua existência.
Ele não parecia um vulto negro. Honestamente, parecia mais um pirata misterioso
e sedutor. Delicioso.
Ainda ajoelhada no chão, ela deixou os olhos subirem pelas pernas fortes vestidas
num jeans desbotado. A camisa de seda negra cobria o peito largo e forte, e ela
admirou mais uma vez a definição dos músculos que apareciam em seus sonhos havia
três meses, desde que o vira pela primeira vez.
E que mulher não sonharia com aquilo?
Rangendo os dentes, ela se forçou a olhar para o rosto de traços perfeitos. Testa
larga, nariz reto, lábios perfeitamente contornados e cheios... Tudo se encaixava num
conjunto de força e elegância.
Era o rosto de um nobre cavaleiro. De um líder.
Até que se notassem aqueles pálidos olhos cor de prata.
Não havia nada de nobre naqueles olhos. Eram penetrantes, maliciosos, e
brilhantes como se debochassem do mundo. Eram olhos que o rotulavam como
"perigoso", tanto quanto o cabelo negro e longo e as argolas de ouro em suas orelhas.

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Ele era sexo sobre pernas. Um predador. O tipo que mastigava e cuspia mulheres
como ela sem nenhuma dificuldade.
Isso, quando se dava ao trabalho de notá-las. O que não ocorria com freqüência.
— Dante, precisa se esgueirar pela casa desse jeito? — ela perguntou,
desesperada para esconder os cacos do vaso atrás dela.
— Não, acho que não preciso. Eu simplesmente gosto.
— Bem, espero que saiba que esse é um hábito muito vulgar.
Ele se aproximou sorrindo.
— Oh, eu tenho outros ainda mais vulgares, docinho. E aposto que apreciaria
vários deles, se me deixasse demonstrá-los.
Ah, podia apostar que sim! Aquelas mãos finas e longas deviam fazer qualquer
mulher gritar de prazer. E aquela boca...
— Você é revoltante — ela acusou sem muita veemência.
— Vulgar e revoltante? Não acha que sua posição é precária demais para ficar aí
disparando ofensas?
Precária? Ela resistiu ao impulso de olhar para trás e verificar se algum caco de
cerâmica era visível.
— Não sei do que está falando.
Dante ajoelhou-se diante dela, tocando seu rosto com um dedo. Era um toque
frio, quase gelado, mas capaz de provocar um fogo que se espalhava rapidamente
dentro dela.
— Ah, eu acho que sabe. Estou aqui pensando que... Não devia haver um precioso
vaso Ming sobre aquela mesa? Amor, você o roubou, ou quebrou?
Droga! Ele sabia. Precisava pensar numa boa desculpa para o desaparecimento do
vaso. Infelizmente, nunca fora muito boa com mentiras.
E como se não bastasse, o toque transformava seu cérebro em gelatina.
— Não fale comigo desse jeito — ela protestou.
— De que jeito?
— Não me chame de amor.
— Por quê?
— Porque não somos amantes.
— Ainda não.

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— Nunca seremos.
— Tsk, tsk...— Dante deslizou o dedo até sua boca. — Não sabe que é perigoso
desafiar o destino? Ele costuma provar que é mais forte.
— Nem em um milhão de anos!
— Não tenho pressa.
Ela rangeu os dentes enquanto o dedo descia por seu pescoço até a base do
ombro. Ele só queria se divertir. O homem era capaz de flertar com qualquer criatura
viva do sexo feminino.
— Continue descendo esse dedo, e sua permanência no mundo será
consideravelmente abreviada.
Ele riu, mas removeu a mão com evidente relutância.
— Abby, um dia você vai esquecer-se de dizer não. E nesse dia, pretendo fazer
você gritar de prazer.
— Meu Deus, como consegue andar por aí, carregando o peso desse ego?
— Acha que não notei? Todos esses olhares quando pensa que não estou olhando,
os suspiros quando passo por você, os sonhos que atormentam suas noites...
Sujeitinho vaidoso!
Ela devia rir. Ou negar as acusações. Ou dar uma boa bofetada naquele rosto
arrogante. Em vez disso, estava tensa como se ele houvesse tocado um nervo exposto
que ela nem sabia possuir.
— Não tem nada para fazer? Não precisa ir à cozinha? Sair? Ir para o inferno?
Os traços de pirata ganharam uma súbita frieza, embora ele ainda sorrisse.
— Não preciso de você para me condenar ao fogo do inferno. Isso já foi feito há
muito tempo. Se não, por que eu estaria aqui?
Abby ergueu uma sobrancelha, intrigada, apesar de tudo, com o tom de profunda
amargura. O que mais esse homem podia querer? Ele tinha o tipo de vida que só se
podia ver nas páginas das revistas, normalmente ligadas ao nome de um playboy sexy e
rico. Era dono de uma casa glamourosa. Usava roupas caras. E dirigia um Porsche
prateado. Como se não bastasse tinha uma mamãe doce que não só era jovem, mas linda
o bastante para fazer ferver o sangue dos homens. De que ele se queixava?
— Ah, sim, você deve sofrer muito — ela respondeu com ironia. — Estou com o
coração partido por você.
— Não se atreva a falar sobre coisas que desconhece, benzinho.
Deixe isso para lá, Abby, aconselhava a voz da razão. O homem era perigoso,

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apesar de seu charme poderoso. Um verdadeiro bad boy. Só os idiotas brincam com
fogo.
E, com relação aos homens, ela poderia ter a palavra idiota tatuada na testa.
— Se não gosta daqui, por que não vai embora?
— Por que você não vai?
— O quê?
— Não sou o único descontente por aqui, sou? Você parece murchar um pouco
todos os dias, como se frustração e tristeza estivessem corroendo sua alma.
Abby quase caiu para trás com o espanto causado por sua aguda percepção. Nunca
imaginara que alguém poderia notar o desespero causado por sua existência tediosa, ou
o medo de logo ficar velha e cansada demais para se importar com o que fazia ou onde
estava.
Muito menos esse homem.
— Você não sabe nada.
— Conheço uma prisão quando a vejo — ele murmurou. — Por que permanece atrás
das grades, se pode simplesmente ir embora?
— Porque preciso desse emprego. Ao contrário de você, não tenho um amante
generoso para pagar minhas contas e me sustentar com estilo. Algumas pessoas tra-
balham para sobreviver.
— Acha que sou amante de Selena? — Ele riu.
— E não é?
— Nosso... Relacionamento é mais complexo do que imagina.
— Ah, sim, ser o brinquedinho de uma ricaça glamourosa deve ser muito complexo!
— Por isso tenta me manter afastado? Por acreditar que durmo com Selena?
— Não. Eu me mantenho distante porque não gosto de você.
Ele se inclinou até quase roçar os lábios nos dela.
— Pode não gostar de mim, docinho, mas isso não faz você deixar de me desejar.
Seu coração quase parou de bater enquanto ela se esforçava para não inclinar o
corpo para frente e pôr fim à tortura. Um beijo. Só um beijo. A necessidade era quase
insuportável.
Não, não, não. Queria mesmo ser um brinquedo para aliviar seu tédio? Já não
havia feito esse jogo humilhante antes?
— Sabe, Dante, já conheci patifes antes, mas você...

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Ela parou de falar de repente. Havia uma repentina energia no ar, como a
eletricidade como a de um raio.
Nervosa, olhou para a escada no instante que o trovão eclodiu na casa. Pega de
surpresa, Abby caiu para trás, impossibilitada de respirar.
Por um momento ela permaneceu imóvel, Como se esperasse ver o teto desabar,
ou o chão se abrir.
O que era isso? Um terremoto? Uma explosão de gás?
O fim do mundo?
Os quadros haviam caído das paredes. Mesas estavam tombadas. O vaso Ming que
ela havia quebrado não era mais o único objeto destruído na sala.
Bem, pelo menos ela estava viva. Machucada e dolorida, mas viva.
Deitada de costas, ela ouviu um grunhido feroz e baixo que fez sua pele arrepiar.
E agora, o que era isso? Ela olhou em volta, mas não viu nada. Nenhum animal selvagem.
Nenhuma criatura ameaçadora.
Nem Dante.
Tremendo, Abby se levantou e caminhou cambaleando até a escada. Para onde ele
fora? Teria sido atingido pela explosão? Jogado para fora da casa?
Ou simplesmente desaparecera numa nuvem de fumaça?
Não, não, é claro que não. Estava ficando maluca. Devia ter perdido a consciência
por alguns instantes. Sim, isso explicava tudo. Ele havia saído para pedir ajuda,
verificar a extensão do dano, e ela não vira nada.
Precisava ir se certificar de que Selena não estava ferida.
No final do corredor da ala leste, a porta do quarto de Selena já estava aberta, e
ela se aproximou da soleira. E não passou dela.
Um grito de pavor brotou de sua garganta diante do cenário de destruição. Como
no saguão, quadros haviam caído e móveis foram derrubados, muitos deles quebrados
além de qualquer possibilidade de reconhecimento. Além disso, ali as paredes estavam
escurecidas e, em alguns lugares, foram reduzidas a escombros. Até as janelas haviam
sido arrancadas das molduras.
A cama tombara. No centro do quarto, Dante estava ajoelhado ao lado de um
corpo inerte.
— Oh, meu Deus! — Abby correu para eles. — Selena!
Dante virou-se para fitá-la. Ele estava pálido, e havia um brilho desesperado em
seus olhos prateados.

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Era evidente que ele estava tão abalado quanto Abby.


— Saia daqui! — ele ordenou.
Ela ignorou o aviso e caiu de joelhos ao lado do corpo queimado. Sua antipatia pela
mulher linda e de coração frio foi esquecida diante da triste cena.
— Ela está... morta?
— Abby, eu disse para sair. Agora! Saia deste quarto. Saia desta casa!
As palavras furiosas prosseguiram, mas Abby não as ouvia. Em vez disso, ela
olhava com uma mistura de horror e fascínio para as mãos queimadas e retorcidas
sobre o tapete. A pobre mulher não podia estar viva! Ou tudo seria apenas um truque
de sua imaginação?
Chocada, viu os dedos se retorcendo e se aproximando. Era como uma imagem de
pesadelo. O terror alcançou níveis nunca antes imaginados quando, de repente, aquela
mão agarrou seu pulso.
Abby abriu a boca para gritar, mas descobriu que não havia ar em seu corpo. Um
frio penetrante emanava dos dedos em contato com sua pele e penetrava em seu cor-
po. Gemendo, ela tentou se soltar, mas não conseguia.
Ia morrer. A dor oprimia seu coração, reduzindo a pulsação até quase fazê-lo
parar. Ia morrer, e ainda nem se dera o trabalho de começar a viver.
Como era idiota.
Ela ergueu a cabeça e encontrou o olhar metálico de Dante. Seus traços tão belos
pareciam sombrios à luz pálida que penetrava no quarto. Sombrios e tocados por algo
que podia ser fúria, pesar, ou... Desespero.
Abby tentou falar, mas uma luz brilhante explodiu em sua mente, e com um grito
estrangulado ela mergulhou na escuridão.
Cercada por uma névoa prateada de dor, Abby flutuava em um mundo que não era
totalmente real.
Estava morta?
Certamente não. Estaria em paz, não? Não teria a sensação de que seus ossos
eram esmagados e a cabeça ia explodir.
Se estivesse morta, então toda aquela história de vida após a morte, paz e
serenidade era uma grande mentira.
Não. Devia estar sonhando, ela decidiu. Isso explicaria por que a névoa prateada
começava a se dissipar.
Curiosa, apesar do vago gosto de medo no ar, ela espiou para a luz cintilante.

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Momentos depois conseguiu ver que estava em um aposento escuro, de pedra, ilumi-
nado apenas por uma tocha. No centro, uma mulher jazia sobre o chão de pedra
vestida com um manto branco. Abby franziu a testa. O rosto pálido da mulher era
vagamente familiar, embora fosse difícil determinar os traços exatos enquanto ela se
retorcia e gritava de agonia.
Perto dela havia um círculo de mulheres, vestindo mantos cinzentos, de mãos
dadas, cantando em voz baixa. Abby não conseguia identificar as palavras, mas tinha a
impressão de que realizavam algum tipo de ritual. Talvez um exorcismo. Ou um
encantamento.
Lentamente, uma mulher de cabelos grisalhos se levantou e estendeu as mãos
para o teto.
— Fênix, traga-nos seu poder — ela pronunciou com tom grave. — O sacrifício é
oferecido, o acordo é selado. Abençoe nosso nobre Cálice. Abençoe-a com sua glória.
Ofereça a ela o poder de sua espada para combater o Mal que ameaça. Nós invocamos.
Apresente-se.
Chamas vermelhas invadiram a sala enquanto a mulher continuava sua ladainha,
pairando no ar denso antes de cercar a mulher que gritava no chão. Depois, tão
repentinamente quanto haviam surgido, as chamas se integraram à carne da mulher.
Então, a mulher de cabelos grisalhos olhou para um canto mais escuro.
— A profecia se cumpriu. Tragam a besta.
Esperando algum horrível monstro de cinco cabeças que caberia perfeitamente
naquele bizarro pesadelo, Abby conteve a respiração quando um homem, vestindo uma
amarrotada camisa branca e calça corsário de cetim, foi levado ao centro da sala,
contido por um pesado colar de metal e uma corrente que pendiam de seu pescoço. Ele
mantinha a cabeça baixa, o que fazia cair os longos cabelos negros em torno de seu
rosto como uma cortina. Abby sentiu um arrepio premonitório.
— Criatura do Mal, você foi escolhida dentre todas as outras — a mulher entoou.
— Perverso é seu coração, mas você é abençoado. Nós o prometemos ao Cálice. E os
unimos com fogo e sangue. A sombra da morte, nós os unimos. Para toda a eternidade e
além dela, nós os unimos.
A tocha tremulou. Com um grunhido assustador, o homem levantou a cabeça.
Não. Não era possível. Nem mesmo no estranho e ridículo mundo dos sonhos.
Especialmente em sonhos que pareciam ser tão reais.
Mas não havia como não identificar sua assustadora beleza. Ou o brilho dos olhos
prateados.
Dante.

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Ela tremeu horrorizada. Aquilo era loucura. Por que as mulheres o mantinham
acorrentado? Por que o chamavam de monstro? E de criatura do Mal?
Loucura, sem dúvida. Um sonho. Nada mais, ela tentou se convencer.
Então, sem nada que antecipasse a alteração, o arrepio premonitório de antes se
tornou terror dominador. Em pura fúria, Dante jogou a cabeça para trás, voltando o
rosto para o fogo. A mesma luz tremulante revelou longas presas.
Quando Abby finalmente recobrou a consciência, a névoa prateada havia
desaparecido. Com ela, sumira também a intensidade de sua dor.
Mesmo assim, com cautela incomum, ela se forçou a permanecer imóvel. Depois de
tudo que já havia suportado naquele dia, não se sentia muito animada para sair
disparando acusações e exigindo explicações, como era de seu feitio. Em vez disso, ela
tentou estudar o ambiente.
Estava deitada sobre uma cama. Não era sua cama, certamente. Aquela era dura,
empelotada, e emanava um odor desagradável que ela preferia nem considerar. Ao
longe, podia ouvir o som de tráfego e, mais perto, o ruído abafado de vozes, talvez de
uma televisão.
Bem, não estava na casa destruída de Selena. Não estava mais na masmorra úmida
com a mulher aos berros e demônios assustadores. E não estava morta.
Tudo isso era certamente um progresso. Ou não?
Reunindo coragem, ela levantou a cabeça do travesseiro e olhou em volta,
estudando a penumbra do quarto. Não havia muito para ver. A cama em que estava
deitada ocupava a maior parte do espaço. Em torno dela havia paredes nuas e as
cortinas florais mais feias que já vira. Ao pé da cama havia uma velha cômoda
sustentando um aparelho de tevê, e no canto do quarto, uma cadeira em péssimas
condições.
Uma cadeira ocupada por um homem grande e forte de longos cabelos negros.
Dante.
Deus! Devia ter enlouquecido para pensar o que estava pensando. Vampiros?
Vampiros vivos, respirando... Ou o que quer que eles fizessem... Em Chicago?
Absurdo! Loucura!
Mas o sonho. Havia sido tão nítido! Tão real! Ainda podia sentir o cheiro do ar
úmido e do combustível da tocha. Ouvia os gritos, os cânticos... E o barulho das cor-
rentes. Podia ver Dante sendo levado ao centro do aposento e as presas que o
transformavam em monstro.
Real ou não, preferia não ter de ficar perto de Dante agora. E também gostaria

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de ter alguns crucifixos, umas estacas de madeira, e uma garrafa de água benta...
Temendo até respirar, Abby sentou-se e apoiou os pés no chão. O estômago
ameaçou se rebelar, mas ela rangeu os dentes e ficou em pé. Queria sair dali.
Queria ir para casa, cercar-se de coisas conhecidas.
Queria sair daquele pesadelo.
Um passo de cada vez. Abby se movia pelo quarto com alguma dificuldade,
cambaleando, e quando já se preparava para tocar a maçaneta, ela ouviu um ruído. Um
arrepio percorreu suas costas uma fração de segundo antes de braços fortes a
envolverem.
— Não tão depressa, amor — uma voz sombria murmurou em seu ouvido.
Por um momento, o pânico a dominou. Ela inclinou as costas e tentou chutar as
pernas atrás das dela.
— Solte-me. Solte-me.
— Para quê? Aonde pretende ir, docinho?
— Não é da sua conta.
Ele riu, mas era uma risada desprovida de humor.
— Meu Deus, não imagina como eu gostaria que isso fosse verdade. Nesse caso,
estaríamos livres. Teríamos escapado das correntes.
— O que quer dizer?
Ele apoiou o rosto no topo de sua cabeça, como se afagasse seus cabelos.
— Quero dizer, benzinho, que se não houvesse metido esse nariz encantador em
coisas que não eram da sua conta, nós dois teríamos seguido nossos caminhos. Agora,
por causa do seu momento Florence Nightingale, o que você faz, aonde vai, o que
pensa... Tudo é da minha conta.
Que diabos ele estava dizendo?
— Você é maluco. Tire as mãos de mim, ou eu...
— Ou você o quê?
Boa pergunta. Pena não ter uma resposta brilhante para oferecer.
— Eu grito.
— Tem certeza de que quer arriscar? Pode imaginar que tipo de herói virá em seu
socorro num lugar sombrio como esse? Quem seria? Um maluco qualquer? As
meretrizes que trabalham no salão? Eu apostaria todas as minhas fichas no bêbado da
casa ao lado. Havia um cheiro forte de sexo no ar quando a trouxe para cá nos braços

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e passei por ele na porta.


De repente Abby entendia em que tipo de lugar ela estava, o cheiro desagradável,
e os ecos de desespero. Dante a levara para um dos hotéis baratos e de reputação
duvidosa na periferia da cidade. Teria feito uma careta de repugnância, se essa não
fosse a menor de suas preocupações.
— Nenhum deles poderia ser pior do que você.
— Palavras duras para dirigir-se ao homem que pode ter salvado sua vida.
— Homem? E isso que é?
— O que você disse?
Os dedos apertaram seus ombros e, tarde demais, Abby compreendeu que um
confronto direto não seria a decisão mais sensata naquelas circunstâncias.
Mesmo assim, precisava saber. A ignorância às vezes era confortável, mas sempre
trazia riscos.
— Você... Eu o vi. No sonho. Estava acorrentado, as mulheres recitavam versos, e
suas... Suas presas...
— Abby. — Ele respirou profundamente. — Sente-se. Eu posso explicar.
— Não. — Ela balançou a cabeça com um misto de medo e desespero.
— O que vai fazer comigo?
Dante não conteve um sorriso.
— Embora várias idéias interessantes tenham passado por minha cabeça em
diversas ocasiões, no momento não planejo nada além de conversar. Pode se acalmar e
me ouvir?
O simples fato de ele não ter rido de sua acusação nem duvidado de sua sanidade
mental a enchia de pavor. Ele sabia sobre o sonho.
Abby decidiu fingir uma resignação que estava longe de sentir.
— Eu tenho escolha?
— Honestamente? Não.
— Muito bem.
Ela caminhou até a cama e se sentou. Então, quando teve certeza de que ele
baixava a guarda, ela o empurrou e correu para aporta. Surpreendido, Dante perdeu o
equilíbrio, mas recuperou-se a tempo de agarrá-la pela cintura e tirá-la do chão antes
mesmo de a porta ser aberta.
Com um grito abafado, ela o segurou pelos cabelos. Dante grunhiu ao sentir a dor

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do ataque violento. Ainda segurando seus cabelos com uma das mãos, ela usou as unhas
para tentar rasgar um lado de seu rosto.
— Maldição, Abby! — Ele a soltou para tentar conter o ataque furioso.
Sem hesitar, ela girou o corpo e chutou-o numa parte do corpo que sempre fazia
um homem parar. Dante dobrou-se ao meio acometido por violenta dor. Enquanto isso,
ela correu para a porta.
Dessa vez, ela até conseguiu tocar a maçaneta antes de ser agarrada e carregada
de volta para a cama. Abby gritou ao ser jogada sobre o colchão fétido, e gritou no-
vamente quando, irritado, ele usou o próprio corpo para imobilizá-la.
Mais assustada do que jamais estivera antes, ela olhou para o rosto pálido de rara
beleza. Tinha consciência dos músculos em contato com seu corpo. Sabia que estava à
mercê dessa perigosa criatura.
Incerta sobre o que ia acontecer ali, ela se surpreendeu ao ver um sorriso lento
distender seus lábios.
— Você tem armas poderosas para uma coisinha tão pequena, amor. Teve muitas
oportunidades para praticar esses golpes baixos?
— Tenho cinco irmãos mais velhos — ela respondeu.
— Ah, isso explica tudo. É a lei da sobrevivência do mais forte... Ou do que tem o
arsenal mais letal.
— Saia de cima de mim.
— Acha que vou correr o risco de virar eunuco? Não, obrigado. Vamos terminar
nossa conversa sem outros golpes baixos, sem mordidas, arranhões, e puxões de
cabelo.
— Não temos nada para conversar.
— E verdade, não temos. Mesmo assim, gostaria de discutir algumas pequenas
tolices. Como, por exemplo, sua empregadora ter virado churrasco, minha condição de
vampiro, e o fato de, graças a sua própria estupidez, você ter agora todos os demônios
da vizinhança sobre sua cabeça. Mas não temos nada importante para conversar.
Abby fechou os olhos e sentiu o terror oprimindo seu coração.
— Isso é um pesadelo. Meu Deus, faça Freddy Krueger entrar por aquela porta!
— Não é um pesadelo, Abby.
— Não é possível! — Ela fitou os olhos prateados. — Quer que eu acredite... Que
você é um vampiro?
— Minha herança é sua menor preocupação nesse momento.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— Selena sabia?
— Sobre eu ser um vampiro? Ah, sim, ela sabia. Podemos dizer que esse era um
pré-requisito para a minha contratação.
— Então... Ela também era...
— Não. Ela era... Um... Cálice.
— Cálice? — A mulher gritando em agonia. As chamas. — A Fênix — ela gemeu.
— Como sabe disso?
— O sonho. Eu estava em uma masmorra, e havia uma mulher deitada no chão. As
outras realizavam um ritual em torno dela.
— Selena — Dante murmurou. — Ela deve ter passado para você uma parte das
próprias lembranças. Essa é a única explicação.
— Passado lembranças... Mas isso é...
— Impossível? — Ele sorriu. — Não acha que já ultrapassamos esse ponto?
Certamente. Estavam em um mundo bizarro onde tudo era possível. Como Alice no
País das Maravilhas. Mas, em vez de gatos que sumiam e coelhos brancos, havia
vampiros e misteriosos Cálices e... Uma porção de loucuras.
— O que fizeram com ela?
— Eles a transformaram em um Cálice. Um recipiente humano para uma poderosa
entidade.
— Então, aquelas mulheres eram bruxas?
— Na falta de uma palavra melhor... .
— E elas encantaram Selena?
— Foi mais que um encantamento. Elas invocaram o espírito da Fênix para viver no
corpo dela.
— Não é de espantar que ela tenha gritado tanto. O que faz uma Fênix?
— Ela é uma... Barreira.
— Uma barreira contra o quê?
— Contra a escuridão.
— Bem, isso tornava tudo claro como... lama!
Impaciente, Abby tentou se mover sob o peso do corpo que imobilizava o dela.
Uma péssima idéia.
Como se um raio a atingisse, ela teve consciência dos músculos firmes e da pele

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

macia em contato com a dela. Aquele era o corpo que invadia seus sonhos quase todas
as noites.
Dante rangeu os dentes, tentando resistir aos movimentos provocantes.
— Será que pode ser um pouco menos vago? — ela perguntou.
— O que quer que eu diga?
— Qualquer coisa um pouco mais esclarecedora do que a escuridão.
Houve um momento de silêncio, como se ele refletisse, e finalmente Dante a
encarou.
— Muito bem. O mundo dos demônios se refere à escuridão como o Príncipe, mas,
na verdade, não se trata de um ser real. E mais um... Espírito, como a Fênix é um
espírito. Uma essência de força e poder que os demônios invocam para aumentar suas
habilidades sombrias.
— E a Fênix faz alguma coisa com esse Príncipe?
— Sua presença entre os mortais baniu o Príncipe deste mundo. Eles são dois
opostos. Não podem estar no mesmo plano no mesmo momento. Não sem que ambos
sejam destruídos.
Bem, isso era bom. O primeiro raio de esperança em um dia muito escuro.
— Então, não há mais demônios?
Ele encolheu os ombros.
— Eles permanecem, mas sem a presença tangível do Príncipe, estão
enfraquecidos e confusos. Não se unem mais para atacar com força multiplicada, e
raramente caçam humanos. Foram forçados a viver nas sombras.
— Isso é bom... Eu acho. E Selena era essa barreira?
— Sim.
— E, por que ela foi escolhida? — E por que ela se importava com isso? Não sabia,
mas sentia que, nesse momento, era importante entender a situação. — Ela era uma
bruxa?
Dante parou, como se considerasse qual era a melhor resposta para essa
pergunta. Ridículo, depois de tudo que já havia revelado. O que podia ser pior do que
ser prisioneira de um vampiro? Ou saber que a única pessoa que mantinha afastadas
todas as coisas ruins e assustadoras agora estava morta?
— Ela não foi exatamente escolhida. Foi oferecida pelo pai em sacrifício.
— O quê? Ela foi sacrificada pelo próprio pai? — Bem, sempre havia pensado que
seu pai havia ficado a um ou dos passos do título de porcaria do ano. Ele havia sido um

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

canalha violento, cujo único ato de redenção fora trocar a família por uma garrafa de
uísque. E, mesmo assim, ele nunca estivera nem perto de deixá-la nas mãos de um
bando de feiticeiras malucas! — Como ele foi capaz?
Os traços elegantes se endureceram tomados pela raiva.
— Foi fácil. Ele era poderoso, rico, e estava habituado a ter todas as coisas à sua
maneira. Até ser atingido pela praga. Buscando a cura, ele entregou às bruxas sua
única filha.
— Mas isso é horrível!
— Ele deve ter considerado a troca justa. Afinal, foi curado, e sua filha tornou-se
imortal.
— Imortal? Então... Selena ainda vive?
— Não. Selena está morta.
— Mas... como?
— Não sei. Ainda não sei.
Abby mordeu o lábio, tentando antecipar as conseqüências da morte do Cálice.
— Então, a Fênix se foi?
— Não. Ela só... — De repente, Dante se levantou de um salto e olhou para a porta
fechada. Um silêncio tenso invadiu o quarto antes de ele fitar o rosto assustado e
pálido de Abby. — Temos de sair daqui. Agora!
Dante praguejava violentamente contra a própria estupidez.
Era guardião da Fênix havia 341 anos. Não por vontade própria, não sem se
revoltar contra o destino, mas com absoluta dedicação. Não tinha escolha. As bruxas
haviam providenciado para que assim fosse.
Mas agora, quando o perigo chegava ao ápice, ele se descobria incapaz de manter
a concentração e focar a ameaça.
Impaciente, ele jogou para trás os cabelos negros. Não era de espantar que
estivesse distraído. Nas últimas horas, sofrera mais choques do que em muitos
séculos. A morte da imortal Selena. A intensa, intoxicante alegria quando sentira as
correntes começando a se abrir. E o horror de ver a Fênix incorporar em Abby.
Abby.
Maldição! A mulher o infernizava desde que chegara à casa de Selena. Com sua
pele de cetim, os cachos cor de mel, os olhos vulneráveis, e a natureza apaixonada que
fervia sob a atitude fria e distante, ela o atraía como um canto de sereia. Uma
guloseima deliciosa que ele pretendia saborear a seu tempo.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

Mas agora tudo mudara. Agora ela deixara de ser uma deliciosa diversão. Agora
tinha de protegê-la. E a protegeria até a morte.
— Vamos, alguma coisa se aproxima.
Ela se levantou.
— O quê?
Dante a segurou pelo braço.
— Demônios. Mais de um.
Abby empalideceu, mas com aquela mesma força interior que ele sempre havia
admirado, ela não desmaiou nem gritou, nem fez todas aquelas coisas ridículas e inú-
teis que os mortais costumam fazer quando se deparam com o místico.
— Por que eles nos incomodariam? Não temos nada que eles possam querer.
— Está enganada, amor. Temos um tesouro que vai além dos seus mais loucos
sonhos.
— O quê?
— Lamento, Abby, mas as vinte questões terão de ficar para mais tarde.
Segurando-a junto ao corpo, ele se dirigiu em silêncio para a porta quase
escondida ao lado da cama. Estendendo uma das mãos, girou a maçaneta e ela se abriu.
A fechadura arrancada levou com ela pedaços da madeira do batente. Ainda segurando
Abby, ele a arrastou para as sombras do quarto vizinho, sem sequer dar a ela uma
chance de olhar para o bêbado que roncava num torpor etílico.
Dante se encaminhava para a janela estreita. Ele a abriu, depois se inclinou para
falar no ouvido de Abby:
— Fique perto de mim e não faça nenhum barulho. Se formos atacados, que fique
atrás de mim e não corra. Eles vão tentar usar o terror para você cair numa armadilha.
— Mas que quero saber por que...
— Agora não, Abby. Tem que confiar em mim, ou não vamos sair daqui vivos. Pode
confiar em mim?
Houve um momento de silêncio. Dante podia sentir na penumbra a precariedade
do controle emocional de Abby. Esperava que o colapso iminente pudesse ser adiado
mais um pouco, até estarem seguros. Finamente, ela engoliu em seco e assentiu.
— Sim.
— Então... Vamos.
Segurando a mão dela, Dante a ajudou a subir no parapeito e esperou até ela se

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

posicionar no degrau da escada de incêndio, e só então a seguiu para a escuridão. Ao


passar para o outro lado da janela, ele olhou para baixo, para a alameda escura. O
instinto indicava que havia demônios por perto. Infelizmente, ficar significaria cair
numa armadilha de onde não poderia escapar. Precisava seguir em frente.
Ou, nesse caso, seguir para baixo.
Dante indicou os degraus da escada. Assustada, Abby começou a descer. Ele
esperou até que ela estivesse no chão, e só então desceu da plataforma para a calçada
com um único passo, aterrissando ao lado dela.
Abby abriu a boca para falar, mas ele a calou com um dedo sobre seus lábios,
balançando a cabeça. Havia alguma coisa próxima deles. Perigo. Muito perto dali.
Olhando para uma grande caçamba de lixo, ele deu um passo à frente.
— Apareça — ordenou.
Houve um farfalhar nas sombras e o ruído de garras raspando o pavimento.
Segundos depois, uma forma gigantesca e encurvada tornou-se visível. Num primeiro
olhar, seria fácil deixar passar o intruso tomando-o por um animal sem raciocínio. Com
pele áspera como couro, furúnculos minando pus, e uma cabeça deformada onde havia
três olhos, ele era a imagem perfeita do monstro que todas as crianças um dia
imaginaram haver sob a cama. Mas Dante conhecia bem esse demônio em particular, e
sabia que, sob a aparência repugnante, a inteligência precisa era mais letal do que
músculos e garras.
— Halford. — Dante se curvou uma reverência debochada.
— Ah, Dante... — A voz profunda e retumbante possuía um acento polido,
elegante, perfeito para um professor de um exclusivo colégio interno para rapazes.
Uma voz que contrastava com sua aparência embrutecida. — Sabia que ia aparecer
quando farejasse aqueles perdigueiros do inferno. Há séculos tento rastreá-los com
um mínimo de discrição, mas eles sempre preferem a pressa e o estardalhaço, quando
a reserva teria sido muito melhor.
Colocando-se entre Abby e o demônio, Dante encolheu os ombros.
— Os cães do inferno nunca foram famosos pela inteligência.
— Não. Uma pena, realmente. De qualquer maneira, eles têm suas utilidades. Como
expulsar a presa para que eu não tenha de farejar a imundície onde ela se esconde. —
Halford lançou um olhar de desdém para o hotel dilapidado. — Dante, sempre pensei
que tivesse bom gosto.
— Que melhor lugar para esconder-se da escória do que debaixo de seu nariz?
Halford gargalhou. O som ecoou sombrio pelo beco.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— Um truque astuto, não fosse por todos os irmãos na cidade conseguirem


farejar sua beldade a um quilômetro de distância. Receio que não haja esconderijo
possível.
Dante praguejou mentalmente. Abby carregava a Fênix, mas ainda não havia
adquirido plenos poderes ou conhecimento para controlá-los. E enquanto isso não
acontecesse, ela seria como um farol piscando para todos os demônios na área.
— Está subestimando minha capacidade, Halford.
— Oh, não! Eu nunca seria tão estúpido. Diferente de muitos na irmandade, posso
sentir facilmente o poder que foi forçado a manter acorrentado durante todos esses
tediosos anos. Por isso estou disposto a deixar você ir. Não quero matá-lo.
— Vai me deixar ir embora?
— E claro que sim. Não sinto nenhum prazer em matar companheiros demônios. —
Halford sorriu, exibindo três fileiras de dentes. — Deixe a moça, e prometo que nunca
mais será incomodado.
Ah! Então, era isso. Halford estava sozinho. E não se sentia confiante de poder
superar um vampiro. Não antes de outros demônios se reunirem e chegarem para
complicar a situação.
— Uma oferta muito generosa — Dante murmurou.
— Eu acho que sim.
— Mas acho que entregar um tesouro tão valioso merece recompensa mais
tangível. Afinal, se tiver que lutar comigo pela mulher, pode ter de dividir glória com
todos os demônios que vierem nessa direção.
Um soco em suas costas foi a prova de que Abby o escutava. E, naturalmente,
estava pensando que ele era um vampiro mal.
Levando uma das mãos às costas, ele agarrou o punho delicado. Não podia correr o
risco de deixá-la correr.
Halford estreitou os olhos. Os três.
— O que pode ser mais tangível que sua vida?
— Não há muita vantagem em viver eternamente, se tenho que me encolher entre
os derrotados. Como você mesmo disse, estou acostumado a um estilo mais luxuoso, e
esse período de riqueza chegou ao fim com a morte de Selena.
— Ora, seu... — Abby tentou chutá-lo.
— Quieta, amor — ele disse sem se virar. — Halford e eu estamos negociando.
— Porco! Monstro! Animal!

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

Dante ignorou os chutes que acompanhavam cada palavra, concentrando-se na


expressão debochada de Halford.
— Coisinha temperamental... — comentou o demônio.
— Uma falha de personalidade fácil de corrigir.
— Muito fácil. Agora, vamos resolver nossa questão. Qual é o seu preço?
—Um suprimento de sangue, é claro. Nos dias de hoje, é muito perigoso sair por aí
para caçar.
— Isso é fácil.
— É talvez algumas Shantong para manter meu covil aquecido à noite — ele
murmurou.
— Ah, um vampiro com gosto requintado. É só isso? Notando o triunfo que
iluminava os olhos de Halford,
Dante deixou o momento amadurecer. O demônio era consumido por pensamentos
de glória, antecipando o momento em que entregaria a Fênix a seu Príncipe da
escuridão.
— Na verdade, não. Também vou precisar disto. — Soltando o punho de Abby, ele
se inclinou e tirou as adagas que levava no cano das botas. Com o mesmo movimento,
ele rolou para frente, as adagas já deixando suas mãos enquanto ele se levantava do
outro lado.
Por um momento, Halford ficou em silêncio na escuridão. Era como se ele nem
notasse a lâmina cravada bem no centro de seu olho do meio, ou a outra enterrada em
seu estômago. Mas, se estava em choque ou era indiferente ao perigo, os projéteis
haviam cumprido sua missão; com um grunhido rouco, ele caiu sobre o lixo que cobria
parte do beco.
Dante não hesitou. Rápido, cortou a garganta de Halford e arrancou seu coração.
Não era estúpido a ponto de presumir que um demônio estava morto sem segurar seu
coração na palma da mão. Satisfeito, ele removeu suas adagas do corpo sem vida e
estendeu a mão para Abby. Ela recuou apavorada.
— Abby...
— Não! Fique longe de mim!
Tentando manter a calma, Dante guardou as facas no cano das botas e ajeitou os
cabelos antes de dar mais um passo. Ela estava a um milímetro de começar a gritar e
correr. Um passo em falso, e teria de persegui-la pelos becos escuros e sujos.
— Abby, o demônio está morto. Ele não vai mais fazer mal...

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— E você? Ia me vender para aquela coisa! Por sangue!


— Não seja tola! É claro que não ia vender você. Só queria distraí-lo para poder
atacar. Caso não tenha notado, ele era maior do que eu. Achei melhor evitar um
confronto direto.
— Por que devo confiar em você?
— Porque, por enquanto, amor, você não tem escolha.
Houve um longo momento de hesitação, até que ela finalmente admitiu que os
demônios que a perseguiam eram muito mais perigosos do que ele. Mesmo assim, foi
com evidente relutância que ela segurou a mão estendida.
Sem dar a ela tempo para arrepender-se, Dante a puxou para a escuridão,
estranhando o desapontamento causado pela constatação de que ela ainda o temia. E o
que mais esperava de uma mortal?
Seguindo por uma rua lateral, Dante tentava combater os sentimentos causados
pela mulher que ele agora devia proteger. Sentia um enorme vazio por saber que ela o
considerava pouco melhor do que as criaturas que a perseguiam, e sentia também uma
forte atração, um desejo que queimava sua carne e intensificava os sentidos. Isso
explicava por que ele foi pego de surpresa quando o cão do inferno saltou do edifício
sobre eles e o derrubou.
Em um segundo, a fera o imobilizou. O ácido que pingava de seus dentes fazia a
carne de Dante arder.
— Maldição! — ele resmungou, preparando-se para agarrar o pescoço do demônio
e rasgá-lo com suas pretas. Mas não houve tempo para isso. Um repentino e violento
deslocamento de ar precedeu o som impressionante de ossos quebrados, e o demônio
caiu para o lado, obviamente morto.
— Está machucado?
Como uma visão de sonho, Abby surgiu diante dele com o rosto sujo de terra e os
cabelos desalinhados, mas com o rosto dominado por uma expressão de moderada
preocupação.
Dante olhou para o lado, para o demônio morto, e se apoiou sobre os cotovelos.
— Belo golpe, amorzinho — ele murmurou, notando que ela empunhava um cano
enferrujado. — Extraordinário. Uma verdadeira matadora de demônios. Quase tão boa
quanto...
— Se disser Buffy, juro que você vai ser o próximo — ela ameaçou, levantando o
cano.
Ele riu.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— Assustador, docinho. Mas, se quer mesmo cumprir a missão, precisa usar


madeira.
— Isso é fácil de providenciar.
— Sem dúvida. — Dante levantou-se limpando a poeira das roupas. —
Infelizmente, vai ter de esperar até mais tarde. Agora temos de ir.
Dante a segurou pelo braço e continuou seu caminho, dessa vez mais atento. Havia
sido derrubado por um cão do inferno, e diante de uma bela mulher. Não sofreria a
mesma humilhação novamente.
Podia ser morto, esquartejado, penetrado por mil estacas... Mas não humilhado.
Seu orgulho não suportaria.
Eles seguiram em frente por quase meia hora em silêncio, penetrando na área dos
cortiços. Não houve mais nenhum ataque, mas Dante ainda sentia a presença dos
demônios. Precisava determinar se ainda os seguiam, ou se ele e Abby haviam
conseguido despistá-los.
Seduzindo o ritmo dos passos, ele estudou as sombras e descobriu uma porta
estreita no fundo de um edifício. Depois de certificar-se de que estavam sozinhos, ele
usou o pé para chutar a porta e separá-la de suas dobradiças. Houve um estrondo, uma
nuvem de poeira se ergueu do chão, e Dante se abaixou, estudando o interior da gara-
gem para ter certeza de que não encontrariam nenhuma surpresa desagradável.
Momentos tensos se passaram antes que Abby chegasse ao fim de sua paciência.
— O que estamos fazendo aqui?
— Esperando.
— Sabe pelo menos para onde estamos indo?
— Para longe daqui.
— Ambíguo, como sempre. Acha que isso o torna misterioso e sombrio?
— Eu sou misterioso e sombrio. E você gosta desse tipo de homem.
— Prefiro os que têm sangue quente e preferem comer quiche a beber sangue.
Dante riu, mantendo os olhos fixos no ambiente.
— Como pode ter tanta certeza, amor? Ainda não experimentou um vampiro.
Garanto que a experiência é inesquecível.
— Você deve ser maluco. Ou é a criatura mais arrogante que...
Dante apertou a mão dela de repente.
— Shhh...

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

Alerta, ela espiou a escuridão.


— Sentiu alguma coisa?
— Sim. Fique atrás de mim.
Eles esperaram em silêncio até o som de passos abafados se aproximarem da
porta da garagem. Farejando o ar, Dante teve certeza de que o invasor era humano e
relaxou. Humanos não representavam perigo para ele.
O silêncio foi rompido por uma voz estática transmitida por um rádio de
comunicação, e ele sentiu o sobressalto de Abby.
— Dante, é a polícia. Eles podem nos ajudar — ela sussurrou, saindo de trás dele e
correndo para a porta.
Por instinto, ele a alcançou e conteve. Envolvendo seu corpo delicado com os
braços, levou-a para dentro do galpão e a empurrou contra uma parede, pressentindo o
grito que delataria sua presença ali. Para silenciá-la, ele cobriu sua boca com a dele.
A intenção era honrada. O beijo era só um meio para impedir o desastre. Mas, no
momento em que sentiu a textura acetinada dos lábios sob os dele, esqueceu intenção
e honra.
Um fogo instantâneo se fez entre eles, enquanto Dante a devorava com uma
urgência que ele não podia mais disfarçar. Queria essa mulher. Queria sentir seu
sabor, seduzi-la, consumi-la até saciar aquela necessidade premente.
As mãos afagavam suas costas, o pescoço, os cabelos encaracolados. O beijo se
estendia e ganhava intimidade, fazendo-o esquecer o perigo e concentrar-se apenas no
prazer.
Com o corpo colado ao dele, Abby superou rapidamente o choque inicial provocado
pelo abraço, abrindo os lábios para corresponder ao beijo que a incendiava. Era como
se ela esperasse por aquele momento com a mesma intensidade, com a mesma urgência.
Ao sentir a capitulação, Dante passou da força à sedução, invadindo seus sentidos
de todas as formas. Ela se movia inquieta contra o corpo musculoso, sentindo os lábios
deslizarem por seu rosto e pelo pescoço. Dante se afogava no lago de fogo que ardia
dentro dele.
— Abby... Minha doce Abby... Quero sentir seu corpo sob o meu — ele gemeu.
Um arrepio de desejo a sacudiu, mas, repentinamente, ela o empurrou, encarando-
o com as pupilas muito dilatadas.
— Você ficou maluco? — murmurou apavorada. Surpreendido pelo retraimento
inesperado, Dante rangeu os dentes e enfiou as mãos nos bolsos da calça jeans. Foi
uma dura batalha conter o desejo que ainda pulsava em seu corpo tenso.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— Estava tentando impedir o grito que ia nos levar à morte. Se chamasse os tiras,
agora estaríamos perdidos — ele tentou explicar.
— Acha que os demônios infestaram a força policial de Chicago?
— Não. Acho que, no instante em que começasse a explicar aos bons policiais que
estamos sendo perseguidos por demônios e cães do inferno, eles nos trancariam em
salas forradas de espuma e com grades nas portas. Isso, se antes não nos
prendêssemos pela morte de Selena. Não sei o que pensa sobre isso, mas não gosto da
idéia de ser contido por uma camisa-de-força ou detido em uma cela com uma vista
espetacular do sol nascente.
Abby deixou escapar um suspiro resignado.
— Tudo bem. E qual é sua brilhante solução para o nosso problema? Vamos nos
esgueirar por esses becos imundos por toda a eternidade?
— Não por tanto tempo, espero. Conheço um lugar, mas antes, preciso ter certeza
de que despistamos nossos amigos sedentos de sangue.
— Meu Deus, que confusão — ela murmurou.
— Pela primeira vez, amor, estamos inteiramente de acordo.

***

Duas horas mais tarde, Abby estava exausta.


Havia estado na explosão de uma casa, testemunhara a morte violenta de sua
empregadora, fora perseguida por demônios, percorrera becos e vielas imundos, e fora
beijada por um vampiro. E, para ser honesta, não sabia o que a enervava mais.
Agora, porém, um intenso cansaço invadia seu ser.
Seus pés doíam, estava suja, e uma névoa densa nublava seu raciocínio. Nesse
momento, seria capaz de pagar para um demônio saltar da escuridão e devorá-la
inteira.
Infelizmente, as horríveis criaturas que antes a perseguiam agora haviam
desaparecido por completo, E ela era forçada a caminhar com passos trôpegos atrás
de um vampiro silencioso.
Talvez aquilo fosse o inferno. Devia ter morrido na misteriosa explosão, e agora
estava destinada a vagar por becos escuros e infestados de demônios por toda a
eternidade.
Não, não era o inferno. Não se podia passar a eternidade beijando um vampiro que

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

fazia seu corpo arder num incêndio de paixão e desejo.


Devia estar delirando. Beijos de vampiro. Estava em choque, sofrendo
alucinações. Só podia ser isso. E era hora de parar.
— Dante — ela chamou, cruzando os braços sobre o peito. — Não posso mais
continuar.
Com evidente relutância, ele se virou para fitá-la. Mesmo exausta e frustrada
como estava, Abby não conseguiu evitar a imediata reação de seu corpo.
Banhado pela luz pálida de uma lâmpada da rua, Dante era simplesmente lindo. Os
cabelos negros emolduravam o rosto de traços elegantes, iluminado pelos olhos
prateados, e ele emanava uma aura de perigo que era, ao mesmo tempo, assustadora e
excitante.
Ele segurou sua mão, inundando com uma energia vibrante e quente.
— Estamos perto — disse, tentando animá-la.
— Está repetindo a mesma coisa há meia hora.
— Eu sei, mas agora é verdade. — Ele sorriu.
— Dante, eu devia ter cravado uma estaca em você quando tive chance. — Ela
suspirou exausta.
— Você é uma ingrata incorrigível.
— Não sou. Estou cansada, com fome, e quero ir para casa.
— Eu sei, amor. Eu sei.
Vampiro ou não, ele a confortava com seu toque. Sem pensar no que fazia, ela
apoiou a cabeça em seu peito.
— Dante, essa noite horrível nunca vai ter fim?
— Vai. Prometo. Vê aquele prédio na esquina? E o nosso destino. Pode andar até lá.
Ela olhou para o edifício e deduziu que havia sido um hotel no passado. Um hotel
que agora era sujo, úmido, e cheio de ratos famintos, sem dúvida. Com um suspiro
profundo, ela moveu a cabeça em sentido afirmativo.
Estava cansada demais para discutir. Se alguns ratos e um pouco de umidade e
sujeira eram o preço para poder descansar os pés doloridos, não reclamaria.
— Vamos em frente — ela murmurou.
Os dois se dirigiram à parte dos fundos do prédio, onde Dante ignorou a porta
aberta e dilapidada e tocou um tijolo solto ao lado do batente. Surpreendentemente
ou não, considerando aquela noite específica, um brilho prateado surgiu diante de

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

Abby, que nem questionou o fenômeno. Dante a puxou pelo véu místico para um saguão
dourado e vermelho.
Aturdida, ela olhou em volta sem acreditar no que via. Era impossível. Não havia
nada que sugerisse a presença de ratos ali. Não com as imponentes colunas de
mármore negro e as paredes revestidas de veludo vermelho. No teto, pinturas
artísticas de belas mulheres davam um ar sensual ao ambiente. Era requintado,
exótico, e decadente.
— Que lugar é este? — indagou fascinada.
Dante sorriu, cansado enquanto a levava pelo braço a uma alcova escondida no
fundo da sala.
— Melhor nem perguntar.
— Porquê?
Ignorando a pergunta, ele afastou uma cortina de gaze com aplicações de
estrelas douradas e a levou por um corredor escuro até uma porta no final dele. Lá, ele
abriu a porta e a convidou a entrar antes de fechá-la.
Aliviada, Abby descobriu que a sala espaçosa era muito mais confortável que o
saguão luxuoso por onde haviam entrado. Havia um calor reconfortante no reves-
timento de madeira e na mobília de couro sobre o tapete branco. O ar ali era mais de
uma propriedade rural inglesa do que de um bordel excêntrico.
Fingindo estudar os livros de capa de couro na estante, ela respirou
profundamente antes de olhar para Dante.
— Estamos seguros aqui?
— Sim. O prédio pertence a alguém que conheço. Ele possui um encantamento que
impede qualquer um do lado de fora de sentir sua presença aqui. Humano ou demônio.
Encantamento? Bem, isso soava... Menos estranho do que tudo o que havia
acontecido naquela noite bizarra. Ainda assim, Abby sentia que ele não estava
contando toda a verdade.
— E seu amigo?
— O quê?
— E humano ou demônio?
— É vampiro.
Abby revirou os olhos.
— Ótimo.
— Sugiro que tente disfarçar esse preconceito, amor. Vamos precisar da ajuda de

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

Viper, ou não sobreviveremos aos próximos dias.


Percebendo que havia sido rude com o homem que provavelmente salvara sua vida,
ela murmurou:
— Desculpe.
Os olhos prateados ganharam um brilho mais intenso, e ele tocou seu rosto.
— Há coisas que tenho que fazer. Quero que fique aqui. O que quer que aconteça,
não abra a porta até eu voltar. Entendeu?
Um arrepio percorreu suas costas. Ele a deixaria ali sozinha?
E se não voltasse? E se um demônio a atacasse durante sua ausência? E se...
Abby reuniu a coragem que ainda lhe restava e ergueu a cabeça.
— Entendi.
Como se sentisse o grande esforço que ela precisava fazer para se mostrar
corajosa, Dante tocou seu queixo e fitou-a nos olhos.
— Abby...
O beijo foi tão inevitável quanto previsível e rápido. Quando percebeu o que
estava acontecendo, Abby já estava deitada no sofá, com a cabeça confortavelmente
apoiada sobre uma almofada macia. Pela primeira vez em horas, não precisava olhar em
volta procurando por demônios sanguinários. Não precisava nem se preocupar com a
presença de um vampiro tentador.
Podia simplesmente relaxar.
Relaxar? Uma gargalhada debochada soou no fundo de seus pensamentos.
Ela respirou profundamente. Não, podia relaxar. Só precisava de um pouco de
concentração.
Relaxar, relaxar, relaxar...
Ela se acomodou melhor. E respirou profundamente. Tentou imaginar uma bela
catarata, um prado verdejante, o som das baleias...
O esforço provou ser inútil um minuto mais tarde, quando um arrepio gelado
percorreu sua pele.
Não estava mais sozinha.
Ela abriu os olhos, certificando-se de que o instinto não a enganara. Havia um
homem parado no centro da sala. Um homem de traços perfeitos e elegância impecável.
E agora que sabia a verdade sobre Dante, sabia também o que isso significava.
Um vampiro.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

Alto, forte, ele tinha músculos poderosos sob o casaco de veludo vermelho que
flutuava até a altura dos joelhos sobre calça de cetim preto. Seu cabelo era comprido,
mas da cor do luar prateado em uma noite de verão, e seus olhos eram negros. Apesar
da incontestável beleza, havia em sua postura uma frieza que a deixava apreensiva.
Ele não era como Dante, o bad boy charmoso e sedutor.
Aquele era um anjo caído que se mantinha distante do mundo à sua volta.
Levantando-se devagar, ela notou que o desconhecido se aproximava.
— Ah. Abby não é?
A voz profunda a envolveu como mel quente, doce e penetrante. Uma voz tão
fatalmente fascinante quanto o restante dele. Perigoso... Com "P" maiúsculo.
Bem, Dante não a teria deixado ali se não acreditasse que o local era seguro. Ela
podia não saber muito sobre o vampiro que a salvara, mas sabia que ele não a poria em
risco deliberadamente, nem a serviria como jantar para um de seus parceiros. Ou
estava enganada?
— Sim, e você é Viper, presumo. — Ela se forçou a manter a voz baixa.
— Muito astuta. — Os olhos negros estudaram o rosto pálido. — E linda.
Linda? Uma ruga surgiu em sua testa. Ele era cego? Ou planejava alguma coisa
terrível? Nunca havia sido mais do que comum, e isso quando não estava coberta de pó
e suor.
— Obrigada... Eu acho.
Ele sorriu.
— Não precisa olhar para mim com toda essa desconfiança. Eu nunca me alimento
dos hóspedes. Não é bom para os negócios.
Bem, isso era um alívio. Ela limpou a garganta seca.
— E qual é seu ramo de negócios?
— Eu sou um procurador do prazer.
Abby quase engasgou com o espanto.
— Você é um cafetão?
A gargalhada soou muito parecida com a de Dante.
— Nada tão vulgar — ele disse. — Eu ofereço... Ah não, Dante não me agradeceria
por expô-la a detalhes tão sórdidos. Ele decidiu protegê-la, sabe? E não é sur-
preendente. Tanta pureza... Você é uma luz dourada cortando a escuridão.
Primeiro linda, e agora pura? O pobre vampiro devia ser completamente doido!

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E esse não era um pensamento muito reconfortante.


— Receio que esteja me confundindo com outra pessoa — ela respondeu em voz
baixa.
— Não me refiro à castidade. Essa é uma tediosa obsessão dos mortais. Também
não estou falando sobre o espírito que agora habita em você. Refiro-me a sua alma,
Abby. Conheceu tragédia e desespero, mas permaneceu Intocada.
Ela recuou um passo, desejando desesperadamente que Dante voltasse. Havia algo
de enervante nesse vampiro.
— Não sei do que está falando.
— Maldade, luxúria, ganância... As paixões mais sombrias que tentam os mortais
com tanta facilidade.
— Bem, suponho que todos sejam tentados.
— Sim, e poucos resistem. — Ele se aproximou ainda mais, tocando seu rosto mais
uma vez. — Tanta inocência certamente representa uma atração irresistível para
aqueles que caminham pela noite. A maldade sempre busca redenção, da mesma forma
que a sombra procura pela luz.
Abby começava a ficar confusa com o esforço de acompanhar as obscuras
revelações. E pensar que havia julgado Dante misterioso e enigmático!
— Ah... Certo — ela disse, recuando mais um passo.
— Onde está Dante?
— Ele não me deu o itinerário completo, mas sei que foi procurar o café da manhã.
Abby suspirou aliviada. Não lembrava quando havia comido pela última vez, mas o
ronco do estômago sugeria que já fazia muito tempo.
— Graças a Deus! Estou faminta. Espero que ele traga... — A imagem de deliciosas
panquecas, ovos e bacon desapareceu quando ela lembrou o que Dante provavelmente
comeria pela manhã. — Oh, não...
— Não se preocupe, adorável Abby. Ele não foi caçar. — Viper se aproximou da
parede revestida e abriu um refrigerador repleto de garrafas contendo um líquido es-
curo. — Esta é a casa de um vampiro. Mantenho sempre um farto estoque de sangue
sintético. O café da manhã é para você.
Ridiculamente aliviada por saber que Dante não estava pela rua sugando o sangue
de indefesos pedestres, ela suspirou novamente.
— Ah, é bom saber disso.
O vampiro fechou o painel que escondia o refrigerador e voltou para perto dela,

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exibindo um sorriso enigmático.


— Não sabe de nada, não é?
— Não sei o quê?
— Desde que foi capturado pelas bruxas, Dante não consegue mais sugar sangue
humano. E um elemento do feitiço que o liga à Fênix.
— Ah, eu... Entendo.
— Não acredito que entenda. O sofrimento que Dante suportou nos últimos três
séculos é imenso. Ele foi acorrentado e aprisionado por aqueles que não têm
compaixão, não conseguem vê-lo como algo mais que um monstro.
Abby parou. Estivera tão consumida pelo próprio medo, que em nenhum momento
havia considerado o que Dante devia ter suportado durante todos aqueles anos. Ele
havia sido um prisioneiro, acorrentado a Selena por toda a eternidade.
— Ele não é um monstro — ela respondeu com tom ríspido.
— Não precisa me convencer disso, minha cara. Só espero que compreenda seu
sofrimento e faça o que deve fazer para aliviar sua carga.
— Eu?
— Você agora tem o poder.
— Escute, não quero ofender ninguém, mas... Acho que os vampiros são criaturas
estranhas. Não como aquele tal Halford ou os cães do inferno, mas definitivamente
estranhas.
Ele riu.
— Somos seres antigos. Já vimos o surgimento e a queda de nações,
testemunhamos guerras que pareciam intermináveis, fome, e desastres naturais. Não
acha que temos direito a algumas excentricidades? O que poderia dizer?
— Ou pelo menos a um Coração Púrpura...
Os olhos negros brilharam com um toque de humor.
— Também vimos alegria, prazer, e inesperada beleza. Beleza como a sua.
— Um gosto impecável, como sempre, Viper — uma voz aveludada comentou da
porta.
Assustada com a interrupção, Abby se virou para Dante, que já caminhava na
direção deles. Com um movimento casual, ele jogou sobre o sofá a valise que carregava,
sem se deter.
Mais aliviada do que gostaria de admitir com seu retorno, Abby fitou os traços

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

perfeitos e elegantes. Era ridículo, mas sentia como se parte dela mesma houvesse
voltado com ele.
Viper colocou-se atrás dela e repousou as mãos sobre seus ombros.
— Finalmente retorna, Dante. Estávamos preocupados com você.
Os olhos prateados fitaram as mãos que a tocavam com intimidade.
— Sua apreensão é tocante, Viper. E falando em tocar...
Não havia como ignorar o tom ameaçador nas palavras suaves, mas Viper sorriu.
— Não pode culpar um vampiro por admirar tamanha pureza. E... Inebriante.
— Nesse caso, sugiro que vá respirar um pouco de ar puro para clarear as idéias.
— Sempre o guerreiro. — Viper segurou a mão de Abby e a levou aos lábios. — Se
decidir que prefere um poeta, não hesite em me chamar.
— Viper... — Dante rosnou.
Com aquele sorriso misterioso, Viper se curvou para o companheiro antes de se
dirigir à porta.
— Vou deixar vocês descansarem. Não se preocupem com nada. Vou manter os
monstros bem longe daqui.
Dante aproximou-se de Abby para segurar a mão que Viper beijara pouco antes.
— Precisa perdoar meu amigo — ele pediu, sorrindo. — Ele se considera
irresistível às mulheres.
— Ele é fascinante. — Nem o mais estúpido idiota acreditaria em sua indiferença
ao anjo caído. Por isso, ela escolheu o caminho da honestidade.
— Considera-o atraente?
— De uma forma... Fria.
— Entendo.
— Mas ele também me apavora. Acredito que é capaz de destruir tudo e todos
que se puserem em seu caminho.
— Ele não vai fazer mal a você. Não enquanto eu estiver por perto.
— Onde esteve?
Dante afagou sua mão antes de retornar ao sofá onde havia deixado a valise, que
abriu.
— Fui até a casa de Selena buscar algumas coisas de que podemos precisar. — Ele
retirou da valise várias calças jeans e camisetas que haviam pertencido à empregadora

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

de Abby. — Talvez o caimento não seja perfeito, mas serve...


Pensar em vestir roupas limpas a fez suspirar. Um pequeno pedaço do paraíso na
Terra.
— Obrigada.
Ele removeu da valise uma embalagem plástica.
— Trouxe isto também.
— O que é?
— Algo de que vai precisar em breve.
Abby abriu a embalagem e torceu o nariz ao sentir o cheiro da substância verde
contida nela.
— Ugh... Isso é aquela coisa horrível que Selena costumava beber.
— Vai servir de alimento.
Ela deixou a embalagem sobre uma mesa próxima.
— Um bom sanduíche com fritas também vai me alimentar, e tem aparência
melhor.
— Abby... Há algo que você precisa saber.
O tom sério sempre prenunciava problemas.
— O que é?
— Quando Selena estava morrendo, ela a tocou.
Abby lembrou com relutância aqueles momentos assustadores no quarto
queimado. Era algo que teria preferido esquecer.
— Sim, eu lembro. Os dedos dela se moviam como se tivessem vida própria, e de
repente ela agarrou meu pulso. Doeu.
— Ela transferiu para você os poderes que tinha.
— Os... Poderes?
— O espírito da Fênix. Agora ele reside dentro de você.
Abby cambaleou para trás, esperando pelo final da piada de mau gosto. Só podia
ser uma piada! Ou teria de acreditar que uma criatura horrenda agora habitava seu
corpo e, pior, sua alma. Levou as mãos ao peito. Não conseguia respirar. Não conseguia
pensar.
— Está mentindo... — acusou.
Detectando com facilidade sua perturbação, Dante aproximou-se com as mãos

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

estendidas.
— Abby, sei que isso é difícil.
Ela deixou escapar uma gargalhada histérica, apoiando-se à parede revestida para
não cair.
Havia imaginado que nada mais poderia chocá-la. Nada podia ser pior que
demônios e vampiros.
E agora...
Ela balançou a cabeça.
— Como pode saber? — disparou amargurada. — Você nem é humano!
Dante conteve a urgência de grunhir para expressar sua frustração.
Durante a apressada visita à casa de Selena, ele se preparara para esse
confronto. Sabia que Abby não daria saltos de alegria por ser o Cálice para a Fênix. E
não o trataria com gratidão por ser o portador da verdade.
Sabia que ela ficaria perturbada. Atordoada.
Mas aquele pavor nos olhos dela e a maneira como recusava, como se precisasse
fugir dele, despertava nele temores antigos, primitivos.
Por que se importava se ela voltava a considerá-lo um monstro? Suportara três
séculos acorrentado à Fênix sem se incomodar com Selena como pessoa. A menos que
considerasse os sonhos deliciosos de sorver seu sangue até deixá-la seca.
Ela não havia sido mais que uma guardiã, a detentora de sua captura. A razão
tangível de sua fúria.
Mas Abby... Com Abby era diferente. Sua opinião era importante. Muito
importante. Faria tudo que pudesse para acalmá-la, para amenizar seus medos.
— Por favor, escute, Abby...
— Não! Fique longe de mim.
— Receio não poder atender ao seu pedido. Agora estamos unidos por elos
inquebrantáveis. Não podemos nos afastar. Faz parte do feitiço.
— Agora sei que está mentindo. Você me deixou aqui.
— Mas não me afastei muito, e sabia que logo retornaria. Se tivesse a intenção de
fugir, a dor teria sido insuportável. Acredite em mim. Foram muitas tentativas ao
longo dos séculos. Eu sei o que estou dizendo.
— Não...
— Abby, pode afirmar com honestidade que não sentiu minha falta?

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

A verdade estava estampada em seu rosto pálido, embora ela balançasse a cabeça
numa negativa angustiada.
— Isso... é impossível. Eu saberia se uma criatura qualquer vivesse dentro de mim.
— Quer provas?
— Do que está falando?
Dante estendeu a mão.
— Venha comigo.
Ela hesitou, olhando para a mão estendida por alguns momentos, mas finalmente a
segurou. Dante foi invadido por uma onda de euforia causada pela demonstração de
confiança. E por uma onda de calor gerada pelo contato físico.
Duas sensações poderosas para um vampiro que convivia com o frio da eternidade.
Ele a levou para frente do espelho pendurado sobre o console da lareira. Depois,
posicionando-se atrás dela, tocou seus ombros.
—O que está vendo?
— Vejo... Oh! — Ela se inclinou para o espelho. —Você não tem reflexo!
Dante revirou os olhos com impaciência.
— E claro que não. Sou um vampiro.
— Mas é estranho.
— Abby, olhe para você mesma.
— O que é? Quer que eu reconheça que estou horrível? Grande coisa! Eu já
imaginava.
— Olhe para os seus olhos.
— Meus olhos. Mas o que... —- Ela parou e estendeu os dedos trêmulos para o
reflexo. Os olhos castanhos agora brilhavam, mas eram... Azuis! O mesmo tom de azul
que ela havia admirado nos olhos de Selena. Um sinal visível da Fênix que ela não podia
mais negar. — Não... Não, não, não!
Abby recuou, caindo nos braços de Dante. Ele a girou e puxou sua cabeça de
encontro ao peito, afagando os cabelos encaracolados.
— Calma. Tudo vai ficar bem.
— Como? De que maneira tudo vai ficar bem? Eu tenho uma... Uma criatura dentro
de mim. Oh, Deus, por isso os Demônios tentavam me matar, não é?
Os braços a estreitaram. Dante podia mentir, sim, e ela se sentiria confortada
por alguns minutos. Mas, no final, ela teria de saber a verdade.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— Sim. Eles sentiram o espírito dentro de você e perceberam que está vulnerável.
Nada os fará desistir de tentar recuperar seu Príncipe.
— Eu vou morrer!
— Não. Eu não vou permitir que isso aconteça.
— E por quanto tempo acha que podemos lutar contra todos os demônios da
terra? A menos que pretenda nos manter escondidos aqui pelos próximos cinqüenta
milhões de anos...
— Não vai ser necessário. A cada hora que passa, a Fênix ganha força.
— A Fênix está ganhando força? Dentro de mim? E acha que isso vai me acalmar?
— Só quis dizer que logo ela vai poder se disfarçar, e então os demônios não
poderão mais sentir sua presença.
— E o que mais essa coisa vai fazer dentro de mim?
— Não posso afirmar com certeza. Selena nunca me fez seu confidente.
— Meu Deus... O que vou fazer?
— Eu tenho uma sugestão.
—Qual?
— Temos de ir procurar as bruxas.
—As bruxas? Quer dizer... As mulheres que puseram essa tal Fênix dentro de
Selena?
Os traços de Dante ganharam uma súbita dureza. Mesmo depois de três séculos,
ainda lembrava cada momento que havia suportado nas mãos das horríveis criaturas. A
masmorra escura. As correntes que queimavam sua pele. A magia que o acorrentara
como se fosse um cão raivoso.
O ódio não diminuíra, mas a preocupação com Abby era maior que tudo. Não havia
mais ninguém para ajudá-la.
— Sim.
— Mas... Elas devem estar mortas.
— Seus poderes estão ligados aos da Fênix. Enquanto a Fênix viver, elas também
viverão.
— E acha que elas podem me ajudar?
— Talvez.
— Então, vamos procurá-las! — Ela o agarrou pela gola da camisa. — Onde estão
essas mulheres?

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— Na verdade, não tenho certeza.


— Como assim?
— Selena guardava muitos segredos, mas sei que ela encontrava as bruxas
ocasionalmente. Portanto, não podem estar muito longe.
— Em Chicago?
— Não na cidade. Elas precisam de um lugar discreto, um bom esconderijo.
— Por quê?
— Elas realizam certos... Ritos que preferem manter em sigilo.
Felizmente, Abby estava distraída demais para considerar a natureza dos ritos.
— Então, como vamos encontrá-las?
— Eu cuido disso — ele resumiu, deslizando a mãos por suas costas numa
tentativa de acalmá-la. — O que acha de um bom banho quente?
— Um banho? — A urgência frenética deu lugar a uma expressão sonhadora. —
Seria o paraíso!
Dante pensou em como seria delicioso ver aquela expressão ligada a outra
situação que não a de água quente e bolhas perfumadas. De repente, ele se afastou,
estranhando a incomum necessidade de refrear suas paixões. As bruxas podiam ter
roubado seu desejo por sangue humano, mas todas as outras vontades funcionavam
perfeitamente.
— Venha comigo, amor. Você terá seu banho.
Ele caminhou para uma porta quase escondida no revestimento da parede. Um
toque na maçaneta disfarçada, e a porta se abriu para revelar uma saleta estreita.
Certo de que Abby o seguia, ele a conduziu através do vestíbulo e por vários quartos,
até a suíte principal.
Um interruptor proporcionou a luminosidade dourada que inundou o quarto. Abby
não conseguia esconder o espanto.
Por um momento, Dante a observou fascinado, notando como ela deslizava a mão
pela banheira de mármore que tinha o tamanho de uma pequena piscina. Para alguém
que desconhecia as extravagâncias de Viper, a réplica perfeita de uma banheira grega
devia ser surpreendente.
— Viper não é uma criatura sutil — ele comentou, abrindo as torneiras em forma
de deusas gregas.
— Isto é... Lindo!
— Sim, é muito bonito.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

Dante despejou uma medida de espuma de banho na água quente, depois se virou
para começar a desabotoar a blusa imunda de Abby.
Ela o fitava atenta, deixando-o remover a peça de sobre seu corpo. Sem nenhuma
hesitação, ele repetiu os movimentos com a calça caqui.
— Dante, o que está fazendo?
De joelhos, ele descalçou seus sapatos e terminou de retirar a calça, que jogou na
pilha de roupas sujas.
— Preparando-a para o banho, milady — ele disse, levantando-se para abrir seu
sutiã.
Instintivamente, Abby ergueu as mãos em protesto.
— Você não pode...
Ele afastou as mãos dela e manejou o fecho do sutiã num único e fluido
movimento.
— Confie em mim, amor.
Abby engoliu em seco. Mas estava cansada demais para protestar, ou hipnotizada
pelo encanto daquele olhar prateado. Sem deixar de fitá-la, ele a despiu com-
pletamente e a pegou nos braços para depositá-la na banheira.
Com ternura e cuidado, Dante a colocou na água quente e pegou uma esponja que
repousava em uma concha do mar.
Ajoelhado no chão de mármore, ele se dedicou à lenta tarefa de esfregar a pele
clara e macia. Não notava o desconforto da dureza do piso sob os joelhos, nem o vapor
quente que fazia a camisa de seda aderir à pele. Todos os pensamentos eram
dominados pelo prazer sensual de tocar essa mulher.
— Tão macia...
Abby sentia os movimentos circulares da esponja em suas costas, nos ombros e
nos braços. Com a cabeça reclinada sobre a borda da banheira, ela fechou os olhos.
— Isso é maravilhoso... — murmurou. - Maravilhoso. Sim. E tentador. Pecaminoso.
Uma urgência ardente despertava dentro dele, e Dante prosseguia com o
tormento auto-imposto. Deitada na banheira construída para idolatrar deusas, ela
podia ter flutuado do Olimpo com suas pernas longas, os caracóis cor de mel e o rosto
frágil.
Tomando cuidado para não fazer nada que pudesse assustá-la e interromper o
devaneio, ele lavava a pele acetinada e os cabelos. O calor de Abby invadia seu corpo
frio, fazendo seu sangue correr mais depressa.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

Sem sequer perceber o que fazia, Dante segurou o rosto cansado entre as mãos,
e acariciou as faces com os polegares, admirando a beleza delicada. Não era o tipo de
beleza que os humanos tanto apreciavam e podiam modificar num piscar de olhos. Abby
possuía uma beleza espiritual que o atraía com força irresistível.
Devagar, ele abaixou a cabeça e roçou os lábios nos dela. Por um momento, teve a
impressão de que ela ficava tensa, mas depois de um instante, seus lábios se
entreabriram num convite silencioso.
A capitulação era suave como um suspiro, porém Dante sentiu o prazer vibrar em
seu corpo.
Havia sonhado com essa mulher por semanas, ansiado por ela. E agora, tremia pelo
esforço de conter o impulso de devorá-la.
Os dedos ainda seguravam o rosto delicado. Podia sentir o sabor da espuma em
seus lábios e sentir o cheiro do fogo em seu sangue. Uma espécie doce e proibida de
magia ia aos poucos sobrepujando os sentidos, enquanto os beijos ganhavam a
profundidade da urgência.
Abby suspirou, erguendo os braços molhados para enlaçar seu pescoço. Dante
gemeu, saboreando as sensações que se apoderavam de seu corpo. Sempre fora uma
criatura passional, quente... Desfrutara de incontáveis mulheres ao longo dos séculos,
mas nunca antes havia experimentado uma excitação tão inebriante.
Era como se despertasse uma fome para a qual não havia chance de saciedade, a
menos que a possuísse completamente.
Precisava de mais. Queria sentir o corpo pressionado contra o dele, as pernas
enlaçando sua cintura, o quadril se movendo para acompanhar o ritmo da penetração.
Sentindo os dedos entrelaçados em seus cabelos, Dante beijou a coluna delicada
do pescoço de Abby, deslizando os lábios até um dos ombros.
Era como se de repente se afogasse no pulso que sentia na base daquele pescoço,
e as mãos já desciam buscando curvas mais pronunciadas e tentadoras. Abby es-
tremeceu em resposta à carícia, inclinando o corpo para ir de encontro às mãos que o
despertavam.
— Dante...
Perdido na paixão ardente, ele teria preferido ignorar o sussurro. Teria sido
fácil. Podia sentir suas veias pulsando com uma urgência que era forte como a dele. Por
que não buscar e oferecer o alívio que estava tão próximo?
A lembrança indesejada de palavras que ele mesmo havia pronunciado o fez
erguer a cabeça devagar.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

Confie em mim, ele havia pedido ao levá-la para o banho.


Induzira-a a deixar de lado a cautela natural e colocar-se em suas mãos. Não
podia correr o risco de ser acusado de ter traído essa confiança. Sua vida e a dela
dependiam desse sentimento de fé inabalável.
Com muito esforço, ele a retirou da água quente e a envolveu com uma toalha
macia e felpuda.
— Venha, você precisa dormir.
Por um momento ela ficou tensa, como se estivesse embaraçada pela maneira
como reagira às carícias, mas em seguida, suspirou resignada e apoiou a cabeça em seu
ombro.
— Estou tão cansada...
— Eu sei, docinho. Hoje vamos descansar aqui.
Com um beijo terno no topo de sua cabeça, Dante a carregou para o quarto além
da porta. A manhã chegara, mas não havia luz ali. Nada. A escuridão era total. Mesmo
assim, ele caminhava sem dificuldade para a cama larga e convidativa. Afastou as
cobertas e a depositou sobre o lençol de cetim, cobrindo seu corpo em seguida.
Prestes a deixá-la, ele foi surpreendido pelo chamado.
— Dante?
— Sim?
— Estamos seguros aqui?
— Nada poderá atingi-la nesse lugar.
— E... Você vai estar por perto?
Um sorriso distendeu seus lábios.
— Estarei bem aqui, do seu lado, amor — prometeu, deitando-se e tomando-a nos
braços. — Para sempre.

A igreja vitoriana com seus vitrais elaborados e bancos de carvalho caíra em


ruínas. Com o fechamento do moinho, a pequena cidade que florescera em torno do
tempo, perdera a fé e a esperança, mudando-se em busca de paragens mais prósperas.
O cemitério contíguo era só um terreno de criptas abandonadas e mato farto.
Sob as lápides esquecidas, porém, as vastas catacumbas eram mantidas com
cuidado meticuloso. Nem os ratos ousavam penetrar o labirinto de túneis e câmaras
limpos e brilhantes por eras de atenção dedicada. Nenhuma teia de areia corrompia a
perfeição simples.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

Não era o que se podia esperar do sombrio tempo de um demônio. Mas Rafael, o
mestre do culto, não era um demônio comum.
Na verdade, ele nem era um demônio.
Homem alto e magro de traços atormentados, ele já havia sido tão mortal quanto
qualquer outro. Mas entregara sua humanidade e sua alma ao Príncipe das Trevas
séculos atrás.
Em recompensa por sua fria crueldade, por sua propensão para o Mal, ele fora
rapidamente alçado a uma posição de poder na hierarquia. Um poder que se tornara
praticamente nulo desde a chegada das bruxas e de sua maldita Fênix.
Andando por sua câmara escura, Rafael tocava distraído o pesado pingente de
prata que pendia de seu pescoço.
Muito dependia dele. De suas ações esta noite.
Não podia falhar.
Ao ouvir o som de passos que se aproximavam anunciando a esperada chegada,
Rafael deu aos traços uma aparência de invencibilidade. Agora, mais do que nunca,
precisava usar a reputação letal que havia construído ao longo dos anos.
Ouviu as batidas na porta, autorizou a entrada do visitante, e estudou o jovem
aprendiz.
O rapaz ainda não tinha a cabeça raspada de um convertido. Tal honra não seria
permitida a menos que ele sobrevivesse aos rituais. Muitos iam idolatrar o Príncipe,
mas poucos sobreviviam.
Esse rapaz seria um sobrevivente. Podia ver a força em seus olhos pálidos.
— Mandou me chamar, mestre Rafael?
— Sim, Amil. Por favor, sente-se. — Ele esperou que o rapaz se acomodasse em
uma cadeira de madeira, depois se colocou ao lado dele. — Está confortável?
— Sim, obrigado — ele respondeu com crescente desconforto.
— Relaxe, meu filho. — Rafael cruzou os braços sob o manto. — Apesar dos
persistentes rumores entre os irmãos, não costumo jantar meus discípulos. Nem
mesmo os que ousam praticar as artes negras proibidas até para nós.
Houve um momento de choque antes de o jovem escorregar da cadeira para o
chão, onde caiu de joelhos.
— Mestre, perdoe-me — ele implorou com tom hesitante. — Foi mera curiosidade.
Não tive a intenção de causar dano.
Rafael riu, olhando para as mãos que agarravam a barra de seu manto. Fora mais

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

por sorte do que por habilidade que descobrira o aprendiz ambicioso escapando
furtivamente da torre para recitar os encantamentos das trevas. Seu primeiro
instinto fora o de rasgar sua garganta. Não só teria sido uma punição adequada, como
teria sido fonte de grande prazer.
Mas, no final, ele havia hesitado. Um homem em sua posição precisava sempre de
fiéis servidores. E nenhum servidor era mais fiel do que aquele que sabia ter estado a
um passo da morte.
— Levante-se, verme!
Trêmulo, o rapaz voltou à cadeira, atento aos movimentos de Rafael.
— Vai me matar?
— Essa é a penalidade.
— É claro, mestre — o rapaz concordou obediente, embora sua sinceridade fosse
questionável.
— A magia negra não é um brinquedo. É perigosa para você e para aqueles que o
cercam. Você nos colocou em grande perigo com sua estupidez e ainda correu o risco
de expor o templo.
— Sim, mestre.
— Mas é ambicioso, Amil. Deseja conquistar o poder que ainda permanece além do
seu alcance?
Os olhos claros fitaram rapidamente o medalhão no pescoço de Rafael, mas se
desviaram dirigidos pela lembrança do amargo destino para ele reservado.
— Só se o Príncipe assim quiser, mestre.
— Sinto seu talento. Ele está em você, em sua essência. Seria uma pena
desperdiçá-lo antes de permitir que se desenvolva em todo seu potencial.
— Por favor, mestre. Eu aprendi minha lição. Não Ousarei cometer outro
desatino.
— E acha que devo confiar em sua promessa vazia? Você, que já exibiu a
propensão para a traição?
Sentindo talvez um lampejo de esperança, Amil se inclinou para frente
visivelmente agitado.
— Tudo o que peço é uma segunda oportunidade. Farei tudo que me pedir.
— Qualquer coisa? Uma promessa incauta, meu jovem.
— Não importa. Diga o que quer, e eu farei.

43
Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

Rafael fingiu considerar a idéia. Sabia que o patético aprendiz venderia a alma.
Contara com isso. Em alguns momentos, o rapaz o fazia lembrar ele mesmo com aquela
ânsia de saber e poder. Mas, diferente desse tolo, ele tivera o bom-senso de guardar
bem-escondidos seus estudos secretos. E tivera a sabedoria de nunca se colocar nas
mãos de outra pessoa.
— Talvez eu possa ser tolerante dessa vez... Com uma condição.
— O que quiser, mestre. O que quiser.
— Não vai se sentir tão grato e aliviado quando souber que condição é essa.
— O que deseja de mim?
Com passos medidos e calculados, Rafael foi se sentar atrás de sua imponente
escrivaninha. Ele cruzou os dedos sob o queixo e olhou para o aprendiz com firmeza.
Os próximos minutos decidiriam seu destino.
Seria aclamado o salvador do Príncipe dos Demônios ou um fracassado arrogante.
Não podia se dar o luxo de cometer um engano.
— Primeiro quero que me conte o que sabe sobre a Fênix.
Amil piscou surpreso.
— Eu... Acho que sei o que sabem todas as criaturas das sombras. Há quase três
séculos, bruxas poderosas se reuniram para invocar o espírito da Fênix e colocá-la em
um corpo humano. A presença da besta tem mantido o Príncipe longe desse mundo e
tem feito seus seguidores impotentes.
— Eu não sou impotente.
— Não entendo. Por que estamos falando sobre a Fênix?
— Porque ela nos mantém longe de nosso verdadeiro mestre.
O jovem encolheu os ombros.
— Ele está perdido para nós. O que podemos fazer?
Rafael mal conseguia conter a fúria.
Tolos. Todos eles. Enquanto ele tramava e sacrificava para trazer de volta o
senhor da escuridão, os outros se deixavam dominar pela desesperança. Não eram mais
criaturas orgulhosas que inspiravam medo entre os mortais. Em vez disso, vagavam
pelas sombras como animais raivosos.
Isso o enojava.
— Não, meu filho. O Príncipe não está completamente perdido para o mundo.
— O que está dizendo?

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— O recipiente foi destruído. As bruxas já não controlam a Fênix.


Os olhos claros se abriram tomados pelo choque.
— É um milagre.
— De fato.
— Logo o Príncipe será libertado!
— Não. O espírito foi posto em outro corpo mortal. A Fênix ainda vive, mas está
enfraquecida e vulnerável.
— Ela deve ser destruída. E depressa!
— Certamente.
— E o que quer de mim?
— Quero que me traga o recipiente. Vivo.
— Perdoe-me, mestre, mas... Não seria melhor chamar os seguidores para
esmagar a Fênix antes que ela recupere sua força?
— Seria mais simples, é claro, mais sangrento, mas... Reflita, meu filho. Não seria
uma grande honra poder oferecer a Fênix ao mestre? Pois é o que pleiteio para mim.
Essa glória suprema.
— E claro. — Amil parou e moveu a cabeça em sentido afirmativo. — Um plano
ardiloso. Mas, por que eu? Por que não toma essa importante tarefa para si?
— Porque alguém precisa garantir que as feiticeiras não vão interferir. Eu sou o
único com poder para enfrentá-las. Além disso, você fez contato com forças que o
ajudarão a descobrir onde a mulher se esconde.
Houve uma longa pausa antes de Amil sorrir, cruzando as mãos sobre o peito.
— O que me pede é perigoso, mestre. O vampiro certamente protege o recipiente.
Arriscarei mais do que minha vida.
Rafael detestava ter de lidar com seres tão fracos, criaturas que barganhavam o
poder em vez de tomá-lo, mas infelizmente, não tinha servos dispostos a invocar o
poder proibido.
Sacrifícios tinham de ser feitos, ele reconheceu relutante.
E um deles era se associar a um tolo patético.
— Então, quer saber qual será sua recompensa? — ele indagou com tom frio.
Rafael manteve a compostura com grande esforço.
— Eu mesmo me encarregarei do seu treinamento. Quer receber seu medalhão
antes de todos os outros? Eu mesmo o entregarei.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

O sorriso tornou-se mais largo.


— E uma parte da gratidão do Príncipe?
Rafael olhou para as próprias mãos, imaginando-as no pescoço ganancioso de Amil.
Depois, assentiu.
O futuro dependia da próxima noite. Tinha de fazer o que fosse necessário para
garantir o retorno de seu mestre.
— Que seja.
O rapaz levantou-se, o rosto tomado por intensa e evidente satisfação.
— Então, estamos acertados — ele disse.
Rafael também se pôs em pé, sombrio e firme como um rochedo.
— Amil, não me decepcione. Você já escapou da morte uma vez. Se eu descobrir
que não é capaz de cumprir a tarefa que propus a você, a morte será a menor de suas
preocupações. Entendeu?
O aprendiz empalideceu.
— Sim.
Rafael acenou impaciente.
— Pode ir agora. Tem muito para fazer antes do sol se pôr e o vampiro atingir sua
força máxima.
Amil saiu, e Rafael olhou para o fogo que ardia no centro da câmara.
O Príncipe da Escuridão logo retornaria ao seu lugar de glória.
E ele o traria de volta.
— Logo, meu senhor — ele sussurrou.

CAPÍTULO II

Algumas horas mais tarde, Abby começou a despertar do sono profundo e sem
sonhos. Abrindo os olhos, ela se virou sob o lençol de cetim e olhou para as sombras no
quarto amplo.
Não era o tipo de garota que costumava acordar em quartos estranhos. Não com
lençóis de cetim e um eco capaz de rivalizar o da Catedral de St. Paul.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

Mas era melhor que o colchão empelotado e fedido em que acordara da última
vez. E com o bônus de um par de braços deliciosos em torno de seu corpo.
Não fosse pelas lembranças horríveis de demônios, bruxas, e um espírito
poderoso invadindo seu corpo, seria uma maneira excelente de acordar. Ela se virou
para estudar o homem que dormia a seu lado. Homem? Vampiro!
Como não havia desconfiado de nada antes? Dante era a fantasia de qualquer
mulher. E a vida já havia ensinado a ela que a perfeição custa caro, ou é ilusória.
Um homem capaz de roubar o coração de uma mulher com um único olhar tinha
que ser gay, psicótico, ou casado. E agora teria de acrescentar vampiro à lista de
possibilidades.
— Bom dia, amor — uma voz rouca interrompeu sua reflexão.
Abby notou que os olhos prateados estavam abertos.
A situação era embaraçosa.
Uma coisa era andar pela casa com papel higiênico preso no sapato, ou com batom
nos dentes. Mas ser surpreendida devorando com os olhos um homem seminu... Ela se
afastou como se temesse levar um choque.
— Eu... Não sabia que estava acordado.
— É difícil permanecer adormecido enquanto uma linda mulher olha para mim
como se quisesse me devorar. O que procurava, docinho? Um rabo? Chifres?
— Não, é claro que não.
— Ah, então planejava tirar vantagem da minha posição vulnerável.
— Não, eu... — Ela respirou profundamente. — Era só curiosidade, está bem? Você
parece ser tão normal...
— Humano, você quer dizer?
— Sim.
— Está desapontada ou aliviada?
— Depois de Halford e dos cães do inferno, tenho que admitir que sinta certo
alívio.
De repente, ela se viu deitada de costas, com Dante debruçado sobre ela e
apoiado nas duas mãos, que mantinha bem próximas de seu corpo, sobre o colchão.
— Não tenho três olhos, não babo saliva ácida, mas não cometa o engano de fingir
que sou humano. Sou um vampiro, Abby. Não sou um homem.
— O que está dizendo? Que não devo confiar em você?

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— E claro que pode confiar em mim. Morrerei antes de permitir que algum mal a
atinja.
— Então?...
— Só quero impedir que tente fingir que sou algo que não sou. Será um esforço
inútil e doloroso para nós dois.
Abby parou para refletir sobre o que ouvia. Podia afirmar honestamente que não
tentara esquecer a verdade sobre Dante nas últimas horas? Mais de uma vez?
Momentos como os que passara na banheira, sendo beijada e acariciada com ternura...
E quando ele a abraçara como um anjo protetor...
Era sua cara ignorar o que preferia não ver.
— Acho melhor nos levantarmos — ela disse, lutando contra um ridículo e violento
rubor.
—Abby, por favor, não se feche para mim. Não quis assustá-la. Apenas... Quero
que me reconheça por quem sou e pelo que sou, não por uma imagem açucarada do que
gostaria que eu fosse.
— Vi você lutando contra aquele demônio, Dante. Sei o que você é.
— Não, não sabe. Mas vai saber antes do final dessa história, e é isso que me
apavora.
De repente ela entendia. Estavam falando sobre algo maior do que sua condição
de vampiro. A conversa ali girava em torno de conceitos como fé. Confiança. Confiança
nele.
— Nós dois sabemos que eu já estaria morta, se você fosse humano. E eu seria
uma hipócrita se desejasse que você fosse qualquer coisa diferente do que é. Além do
mais, minha história com homens da espécie humana não me faz sentir ansiosa para
estar ligada a um deles por toda a eternidade. — Ela sorriu, embora com alguma
tristeza.
— Não conheceu cavaleiros em brilhantes armaduras?
— Palhaços e cretinos. Muitos deles. E pilantras, malucos, velhacos...
— Uau. Alguma história específica para ilustrar tantos adjetivos?
— Bem, vejamos... Meu último namorado me trocou pelo carteiro. Antes dele,
houve outro que só ficou comigo até conseguir descobrir a senha do cartão da minha
conta. Não sobrou nada.
— Ladrãozinho barato...
— Não vai acreditar, mas os dois eram melhores do que meu primeiro namorado,

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

que acreditava que a melhor maneira de terminar um relacionamento era com os


punhos.
— Ele... Bateu em você?
— Só uma vez. Pelo menos posso dizer que aprendo rápido.
— Quer que eu mate esse desgraçado?
— A oferta é tentadora, mas acho que vou ter de recusá-la.
Ele encolheu os ombros.
— Se mudar de idéia, só precisa me avisar.
— Na verdade, prefiro simplesmente esquecer que eles existiram.
— É uma solução. Mas acha que é sensata?
— Bem, é melhor do que pedir para você devorá-los.
— Estou aqui pensando se realmente aprendeu com seus erros, Abby.
— Aprendi que não sei julgar o caráter de um homem.
— Ou escolhe aqueles que vão desapontá-la, porque assim não precisa se
preocupar com laços emocionais.
— Ah, que ótimo! Por favor, não me venha com esse número do Dr. Phil. A última
coisa que preciso é de uma sessão de psicanálise com um vampiro.
— Mas é justamente o fato de ser vampiro que me dá certo insight. Não se vive
entre humanos por quatro séculos sem aprender alguma coisa sobre seus hábitos
peculiares.
— Bem, você não sabe nada sobre mim.
— Não? — Ele sorriu. — Sei que odeia cebolas e atum, que consome seu peso em
chocolate todos os dias sem engordar um grama, e que precisa de uma receita para
ferver água. Sei que finge gostar de música clássica, mas ouve punk rock quando está
sozinha. Sei que se esconde do mundo e que é solitária. Sempre foi.
Droga! Passara os últimos três meses fascinada por esse homem, observando seus
movimentos, e tudo que descobrira havia sido que ele era lindo, sensual, e que possuía
um talento incrível ao piano. Enquanto isso, ele a conhecia melhor do que muita gente
que havia participado de sua vida.
— Muito bem, eu reconheço — ela disse. — Tenho problemas com essa história de
intimidade. Agora, podemos nos levantar?
— Por que a pressa? O sol ainda está se pondo.
— Você devia aproveitar os últimos raios. Está muito pálido.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— Quer que eu me transforme em uma pilha de cinzas? E como eu a protegeria


se...
Abby quase não notou a sombra que se erguia por trás da cabeça morena. Mas,
quando ela mudou de posição e se aproximou, um grito ecoou na escuridão.
— Não!
Distraído pela luxúria que o dominava, Dante estava despreparado quando o grito
de Abby rasgou o ar morno. Ela se levantou de repente.
Jogado sobre as próprias costas, ele levou um instante para se livrar dos lençóis
que envolviam seu corpo. Um momento durante o qual Abby saltou da cama e atacou a
sombra.
— Abby, não — ele disse, tentando detê-la.
Dante viu um lampejo de uma forma humana e masculina, mas ela já o jogava no
chão e se atirava sobre o invasor numa luta furiosa. Dante se atirou sobre ela, tirou-a
de cima do corpo inerte e se ajoelhou ao lado dele.
— Devagar. Ele está morto. — Seus olhos notaram o terno preto e apodrecido e
as mãos que agarravam uma estaca de madeira. Um vampiro assassino. — Pela segunda
vez, parece.
Segurando a toalha em torno do corpo trêmulo, Abby olhou para o corpo imóvel
com forte repulsa. Ser atacada por um corpo em decomposição não era uma experi-
ência muito agradável.
— Meu Deus, o que é isso?
— Uma abominação.
— O quê?
— Um zumbi. — Sua voz denotava condenação. Mesmo entre os demônios, esse
tipo de magia era condenada. Perturbar o reino do mundo subterrâneo era sacrilégio.
— Um corpo morto animado por poderosa magia. Mais magia do que muitos demônios
são capazes de operar. Ele não está vivo nem morto, o que explica por que não consegui
sentir sua presença, ou como ele passou pelo encantamento protetor de Viper.
— Zumbis... — Abby riu histérica. — Que maravilha! Agora só precisamos de
algumas múmias e um lobisomem para completar nosso baralho dos monstros.
— Abby, precisa me contar o que aconteceu.
— Como assim?
— Depois de ver o zumbi, o que você fez?
— Ora, mas... Você estava aqui. Viu o que aconteceu.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— Por favor, Abby, conte exatamente o que você fez.


— Por quê? Que importância tem isso? Ele está morto, não está?
— Tanto quanto Elvis. A pergunta é... Por quê?
— Bem, talvez seja por causa daquele buraco na cabeça...
— Não, isso foi o que o matou na primeira vez. Quando entrou no quarto, ele era
animado por magia, não por sinais vitais. Nada poderia ter detido essa criatura, exceto
fogo, e de preferência da variedade mística.
— Fogo? Eu só empurrei o infeliz!
Dante se aproximou do corpo e abriu a camisa branca e formal com que o pobre-
coitado havia sido enterrado. A putrefação do peito mal podia ser vista no quarto es-
curo, mas não havia como não notar as profundas queimaduras deixadas por duas mãos.
As mãos de Abby.
— Foi um empurrão e tanto, amor — ele murmurou.
— Está dizendo que eu... Fiz isso?
Dante mudou de posição, colocando-se entre ela e o cadáver.
— Estou dizendo que você me salvou. Se não houvesse detido o morto ambulante
aqui, agora eu seria uma pilha de cinzas sobre seu corpo.
— Mas como... Como eu consegui fazer isso?
— Eu disse que a Fênix encontra maneiras de se proteger. Não há nada a temer,
Abby.
Os olhos azuis e brilhantes cintilaram com uma emoção contida com muito
esforço.
— Acabei de deixar marcas de queimadura naquela... Coisa sem nem saber o que
estava fazendo.
— Isso importa?
— É claro que sim! Eu assisti A Incendiaria. Não quero me transformar numa
tocha humana!
Dante conseguiu conter a gargalhada diante do pavor histérico de Abby.
— Acalme-se, docinho. Você não é uma tocha humana. — Ele pegou sua mão e a
colocou no centro do peito. Um calor intenso penetrou sua pele, mas não era uma
reação causada pela Fênix e seus poderes. — Viu?
— Mas...
—Abby, não é diferente daquele seu chute poderoso capaz de deter um homem,

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

ou de usar as unhas como armas letais. É só mais um instrumento de defesa. Uma arma
que pode mantê-la viva.
Ela permaneceu tensa nos braços de Dante por um instante, depois riu com
evidente nervosismo.
— Você nunca se abala com nada?
Ele recuou para secar a lágrima que corria pelo rosto dela.
— Isto me abala. E me faz doer por dentro.
— Dante...
A vulnerabilidade na voz dela o destruiu. Antes que pudesse compreender o que
fazia, ele baixou a cabeça para capturar os lábios macios num beijo que ameaçava
incendiá-lo.
Precisava confortá-la de todas as maneiras, por isso abraçou seu corpo trêmulo.
Queria tirá-la daquela confusão infestada de mal e terror. Um desejo impossível,
sabia. Enquanto não encontrassem as bruxas, tudo o que podia fazer era tentar
protegê-la e esperar que ela pudesse suportar os terrores ainda por vir.
— Abby, meu amor — ele murmurou, fitando-a nos olhos. — Não podemos mais
ficar aqui. Temos que pegar nossas coisas e nos prepararmos para partir. Não sabemos
quantos outros zumbis podem estar por aí, esperando para atacar.
Pálida, Abby mostrou mais uma vez sua admirável coragem.
— Para onde vamos?
— Precisamos encontrar as bruxas. E, para isso, devo antes falar com Viper.
— Ele sabe onde estão as feiticeiras?
— Não, mas tem o que é necessário para encontrá-las.
— E isso é?
— Transporte.
Abby precisou de poucos minutos para vestir as roupas que Dante levara para ela
e prender os cabelos numa trança simples. Nada como um corpo duas vezes morto no
chão para empurrar uma mulher para o modo turbo de velocidade!
Não só a imagem era revoltante, como o cheiro em breve dominaria o ambiente.
Preferia não estar ali quando isso ocorresse.
Evitando olhar para o espelho e para o reflexo que não era mais dela, Abby
escovou os dentes e voltou ao quarto, onde Dante a esperava. Enquanto ela parecia ter
passado os dois últimos dias se escondendo em becos, sendo perseguida por demônios
e atacada por zumbis, ele era a perfeição vestindo Versace.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

Os cabelos negros haviam sido escovados para trás e brilhavam. A camisa de seda
parecia ter sido passada recentemente, e a calça de couro preto envolvia suas pernas
com resultados "Ai, meu Deus". Não havia olheiras, sinal de cansaço, nem mesmo a
sombra de uma barba por fazer.
— Está pronta?
— Tanto quanto é possível nessas circunstâncias — ela disparou, irritada.
— É o suficiente. Vamos.
Juntos, eles deixaram a suíte, seguindo pelo corredor de volta ao saguão
elaborado. Porém, em vez de passar pela porta, Dante a conduziu para a escada de
mármore e para o andar de cima, para o fundo do prédio. Só quando encontraram a
porta de mogno fechada, Dante parou.
— Abby, não posso deixar você sozinha. Não sei se é seguro.
— E acha que vou protestar? Depois das últimas horas, não vai se livrar de mim
com facilidade. Vou ficar colada em você!
— A imagem é tentadora. E prometo que voltaremos a discuti-la mais tarde, amor.
Porém... Este lugar não é apropriado para inocentes.
Ela revirou os olhos. Todos os vampiros eram doidos?
Perdera a inocência no dia em que deixara o berço!
— Não sou criança, Dante. Acho que nunca fui. Já conheci mais maldade na vida
do que muitas pessoas conseguem imaginar.
— Eu sei, mas seu coração ainda é puro. Infelizmente, nas atuais circunstâncias,
não temos muita escolha. Só peço que... Fique perto de mim.
Tentando adivinhar que novos horrores poderia encontrar do outro lado da porta,
Abby assentiu e passou um braço em torno da cintura de Dante.
— Vai ter de me arrancar daqui pela violência, se quiser.
Ele fechou os olhos e conteve um gemido.
— Maldição...
— Algum problema?
— Se eu já não estivesse morto, você me levaria ao túmulo, amor. — Ele abriu a
porta. — Bem, vamos lá.
Abby teria tentando decifrar o significado daquelas palavras, se já não
estivessem penetrando no aposento amplo e sombrio onde pulsava o som de música
oriental. Um harém, ela deduziu, notando as cortinas transparentes de gaze e seda. No
chão havia dúzias de almofadas, várias delas ocupadas por homens e mulheres que

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

aspiravam profundamente a fumaça de ópio que emanava dos braseiros de bronze.


Mas eram os cantos que atraíam sua atenção. Estava escuro, porém não havia
como não notar as formas que se retorciam e os gemidos que ecoavam pelas sombras.
Nunca havia estado em uma orgia, contudo era capaz de reconhecer uma quando a via.
Enojada, ela se agarrou a Dante com força ainda maior. Pensara que nada mais
poderia incomodá-la — pelo menos na variedade humana —, mas havia uma decadência
no ar daquela sala que a repugnava.
Era o desespero, ela decidiu. A doença do espírito, algo que combatera por mais
tempo do que gostaria de considerar.
Dante passou um braço sobre seus ombros e a levou a uma alcova na lateral do
aposento.
— Viper deve estar nos fundos — disse. — É lá que ele...
Um grito agudo o interrompeu, e ele foi arrancado de perto de Abby por uma
mulher furiosa.
Aturdida com o ataque inesperado, ela cambaleou para trás, vendo a atacante
agarrar Dante pelo pescoço e tirá-lo do chão com espantosa facilidade, empurrando-o
contra uma parede.
Uma vampira. Uma mulher mortal não seria capaz de levantar um homem com
tanta facilidade, e ela possuía aquela beleza exótica que a marcava como algo mais do
que simples humana.
Dante estendeu a mão para impedir sua aproximação.
Alta e forte, a vampira possuía um corpo esguio coberto precariamente por
minúsculos pedaços de seda transparente. Seus cabelos eram longos, abaixo da cin-
tura, e tinham a tonalidade rara de um sol nascente. Seu rosto era fino, quase felino,
com olhos verdes penetrantes e lábios carnudos.
Seu temperamento surgia uma terrível TPM.
Dante não resistia. Apenas fitava a atacante com um misto de atenção e
paciência.
— Sasha...
— Dante! Que deliciosa surpresa. Não imagina há quantos dias eu sonho com esse
momento.
Uma ex-amante ressentida. Agora sim, o quadro estava completo!
— Sua amiga? — Abby disparou enciumada.
— Mais ou menos isso — Dante respondeu com um sorriso debochado. — Sasha,

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

esse não é o melhor momento para um dos seus ataques mesquinhos.


— Mesquinho? Você me trancou em uma adega!
— E você conseguiu escapar. Assunto encerrado.
— Fiquei lá por três semanas. Tive de comer ratos!
— Ouvi dizer que são muito nutritivos. E eu não a teria trancafiado se você não
houvesse tentado enterrar uma estaca no meu peito.
— Você sabe que eu nunca teria feito isso. Estava só... Brincando.
— Brincando?
— Você gostava dos nossos joguinhos. Já esqueceu como adorava ser
acorrentando à...
— Correntes são uma coisa, Sasha. Uma estaca é outra. Bem diferente. Achei
melhor não esperar para ver onde pretendia enfiá-la.
— Você foi muito rude.
— Eu peço desculpas, está bem? E prometo nunca mais trancar você em uma
adega.
Houve um instante de silêncio antes de Sasha fazer uma careta manhosa,
sedutora, e colocá-lo no chão.
— Acho que posso ser convencida a perdoá-lo.
— É claro. Afinal, você é uma santa.
Ela deslizou a mão por seu peito e colou o corpo ao dele.
— Vamos fazer as pazes com um beijo?
Abby cerrou os punhos. Não sabia se queria esmurrar Dante ou Sasha. Mas
certamente queria esmurrar alguém.
— Na verdade, estou com um pouco de pressa. Preciso falar com Viper.
— Sempre fugindo... E sempre com uma humana imprestável. Ou ela é seu jantar?
Dante aproximou-se de Abby e adotou uma expressão séria, protetora.
— Ela não faz parte do cardápio.
— Previsível. Devia passar mais tempo com os de sua raça, Dante. Essas criaturas
o enfraquecem.
— Vou pensar nisso.
Sasha se afastou rebolando, exibindo o corpo de curvas perfeitas.
Sozinha com Dante, Abby franziu a testa.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— Encantadora... — disse.
— Sasha é um pouco... Temperamental.
— Ela tentou matar você. Deve ser totalmente temperamental, pelo menos.
— Todo relacionamento implica certo risco. Você mesma admitiu isso.
— Ninguém tentou me matar com uma estaca. Essa mulher é maluca.
— Se não me engano, você mesma prometeu me matar com uma estaca. Mais de
uma vez.
— Sim, mas foi diferente.
— Como?
— Foi diferente.
— Ah, sim. Agora entendo qual é a diferença.
— E qual é?
— Ciúmes.
E por que não estaria enciumada? Sasha era linda, sensual, provocante... E tivera
o que ela cobiçava havia meses!
Mas não admitiria esse sentimento mesquinho. Afinal, tinha seu orgulho.
— Não seja ridículo, Dante. Minha única preocupação é saber quantas ex-
namoradas ainda podem atacar de surpresa. A situação já é bem difícil sem um bando
de mulheres vingativas agarrando seu pescoço.
— Você mente muito mal, amor.
— Não íamos falar com Viper?
— Abby, docinho, um dia teremos de ter uma longa conversa... — Ele suspirou. — E
vai ser muito interessante. Até lá, você tem razão, precisamos encontrar Viper e dar o
fora daqui.

Dante estava com pressa. Quanto antes pegasse as chaves do carro de Viper,
melhor. Ele parou no início do longo corredor, suspirando aliviado ao ver que todas as
portas estavam fechadas. Os prazeres pervertidos oferecidos por Viper aos clientes
não podiam ser detectados, pelo menos com as portas fechadas. E ele estava em pé no
final do corredor, como se já o esperasse.
Pelo menos não teria de arrastar Abby pelos mais baixos graus da devassidão.
— Lá está ele — Dante informou. — Espere aqui. Não vou demorar mais do que um
minuto.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— E se um dos seus amigos ficar com fome?


— Não vai viver para saborear a próxima refeição — ele prometeu com
assustadora sinceridade. — Não vou deixar que nada aconteça com você.
— Está bem, mas... Seja rápido.
— Eu serei. — Beijando sua testa com grande ternura, Dante se virou para ir ao
encontro do amigo. — Viper, pode me dar um momento, por favor?
— Precisa se decidir, meu caro. Primeiro insiste em proteger sua beldade da
minha pervertida clientela, agora a exibe pelos corredores como uma fruta suculenta e
tentadora. A menos que queira causar uma tremenda confusão, sugiro que a tire daqui.
— As coisas mudaram. — Dante resumiu o ataque que havia sofrido.
Viper ouviu atento e, ao final do relato, emitiu um grunhido furioso.
— Quem ousou despertar um zumbi?
— Um idiota incauto, por certo.
— Um humano.
— Talvez. No momento, minha única preocupação é garantir a segurança de Abby.
— Espero que tenha uns dois milagres guardados na manga, meu caro. No
momento, sua amiga é o Cálice Sagrado para todas as criaturas do mundo das trevas.
— Não sei fazer milagres, mas tenho um plano.
— Um plano que inclui desaparecer pelos próximos séculos, espero.
— Vou levá-la até as bruxas.
— Você vai... — Viper o agarrou pelo braço e puxou para as sombras do corredor.
— Perdeu a razão? Na última vez em que esteve com aquelas feiticeiras, elas a
acorrentaram como um cachorro. Dessa vez elas podem matar você!
— Não tenho escolha.
— Por quê?
— Só elas podem remover a Fênix do corpo de Abby.
— Agora sei que ficou definitivamente maluco. Por que vai se deixar acorrentar a
outra criatura? Essa mulher pelo menos gosta de você.
Dante fechou a mente para a tentação. Não era de natureza nobre. Não era
inclinado ao sacrifício pessoal. Não era altruísta. Normalmente, pegava aquilo que que-
ria, e para o inferno com a moral.
Mas algo havia mudado nas regras. Abby havia realizado essa mudança.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— Não é responsabilidade dela.


— Também não é sua. Não por escolha.
Devagar, Dante olhou para a figura que esperava ansiosa ao lado de uma porta.
Seus lábios se distenderam num sorriso triste.
— Agora é.
— Vai arriscar tudo por essa mulher?
— Tudo — Dante admitiu em voz baixa.
— Que loucura... — Viper suspirou resignado.
— Como posso ajudá-lo?
— Por enquanto, só preciso das chaves do seu carro.

Horas mais tarde, Dante continuava a caçada pela periferia silenciosa da cidade.
A seu lado, Abby viajava num silêncio raro, engolindo, relutante, as ervas que ele
insistia em fazê-lo comer.
— Abby?
— Hum?
— Tudo bem?
— Estou pensando, só isso.
— Em que está pensando?
— Todos os vampiros têm Porsches?
Era nisso que ela pensava?
— É claro que não. Conheço vários que preferem Jaguar, e outros que nunca
abrem mão de um Lamborghini.
— Ah, então é isso.
— Isso... o quê?
— Eu sempre pensei que os ricos haviam vendido a alma para o Mal. Agora sei que
são todos demônios.
— Sim, tudo é uma vasta conspiração.
Ela riu. Depois, virando a cabeça no encosto de couro macio, ela o estudou com os
olhos semicerrados.
— O que aconteceu com os dias em que vampiros se esgueiravam por becos
escuros e dormiam em criptas?

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— Acho que acabaram na mesma época em que os mortais decidiram sair das
cavernas.
— Sim, mas você podia ao menos se transformar em morcego, ou ter um calombo
nas costas... Alguma coisa mais vampiresca.
Tudo bem, era oficial. Mulheres mortais eram, sem exceção, as mais
imprevisíveis, erráticas e insanas que jamais haviam habitado a Terra.
E essa mulher era especialista em enlouquecer vampiros. Num minuto estava
apavorada, no outro ficava furiosa, depois se tornava doce e vulnerável. Contudo, essa
disposição bem-humorada era inusitada. Poderia até pensar que ela estava bêbada, se
não...
Ah, não! Dante a viu mastigar mais um punhado de ervas.
Era isso.
Selena abrigara a Fênix por tanto tempo, que ele esquecera completamente o
efeito das poderosas ervas. Ao longo dos anos, ela se habituara à mistura, mas por um
momento se comportara com aquela mesma falta de coerência, como se estivesse
drogada.
— Abby?
— Hum?
— Está comendo as ervas que Selena bebia em infusão?
— Sim. Não é tão ruim quanto eu imaginava. Elas me fazem sentir... Formigando.
— Formigando?
— Exceto pelo nariz. Não sinto meu nariz. Ele ainda está aqui, não está?
Dante engoliu uma gargalhada e estendeu a mão para tocar a ponta do nariz dela.
— Sim, continua aí, bem no meio do seu rosto — disse.
— Que bom. Nunca gostei muito dele, mas não quero ficar sem ele.
— Não, um nariz é um mal necessário. E o seu é ótimo.
— É pequeno demais. E tem sardas.
— Mortais... Por que se preocupam tanto com a aparência física? Ela se
transforma, envelhece... E é totalmente insignificante.
— Ah, é claro! É fácil falar quando se é lindo. Para quem parece um deus grego,
condenar a vaidade é muito fácil.
— Eu só... Acha que pareço um deus grego?
— Na verdade, você parece mais um pirata. Um pirata muito, muito malvado.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— Tudo bem, vou encarar como um elogio.


— Você sabe que é lindo.
— Bem, na verdade, tenho aquele pequeno problema com o reflexo. Não passo
muito tempo na frente do espelho.
— Ah... Eu esqueci. — Ela soluçou. — Desculpe.
— Não é tão excitante quanto virar vampiro ou ter um calombo nas costas, mas
pelo menos é vampiresco.
— É verdade. E você tem os dentes...
— Sim, as presas.
Ela suspirou.
— Ah, mas se transformar em vampiro seria muito legal.
Dante ficou sério. Ela ainda não tinha idéia de que tipo de monstro ele poderia se
tornar. Em sua mente, tudo era apenas uma coleção de mitos e contos de fadas.
— Abby.
— Hum?
— Acho que já comeu muita erva por hoje.
— E, talvez tenha razão. — Ela tentou erguer o corpo no assento. — Minha cabeça
está começando a girar.
Dante acionou um mecanismo para abrir o vidro elétrico.
— Melhor?
— Sim. — Ela pôs a cabeça na abertura, respirando profundamente. — Sabe, acho
que esse mato foi batizado...
Dante riu e parou o carro.
— Não se preocupe, logo vai poder comer chocolate e tomar sorvete, em vez de
comer mato.
— Por que paramos? Estamos perto do local onde as bruxas se reúnem?
— É o que pretendo descobrir.
— Pode sentir alguma coisa?
— Na verdade, espero sentir o cheiro.
— As bruxas têm cheiro ruim?
— Não elas, mas alguma coisa perto de onde se reúnem. Quando Selena voltava
desses encontros, havia sempre um cheiro que a acompanhava, como se estivesse

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

grudado nela.
— Que tipo de cheiro?
— Não sei. Só sei que, quando ela voltava, eu evitava a casa por muitos dias. Era
um cheiro muito... Distintivo.
— Um açougue? Um curtume?
— Eu teria reconhecido o cheiro de sangue, amor.
— Ah, é... Uma refinaria de petróleo? Um estábulo?
— Não. Era como um campo de trigo podre.
Ela franziu a testa, incapaz de imaginar o aroma que Dante se referia. Então, de
repente, ela agarrou seu braço.
— Oh, meu Deus!
— O que é? — Ele se assustou, olhando em volta certo de que seriam atacados.
— Sei onde é.
— A reunião das bruxas?
— Sim.
— Como?
— Há anos, meu irmão mais velho trabalhou em uma fabrica de cereal. Quando ele
voltava, a casa toda cheirava a trigo podre por horas!
Havia trigo podre no cereal? E os vampiros ainda estranhavam a preferência dos
vampiros por sangue? Pelo menos garantiam o frescor!
— Vamos tentar — ele decidiu. — Em que direção?
— Para o sul.
Dante ligou o carro e partiu. Não havia nenhuma garantia de que as bruxas se
reuniam perto da fábrica de cereal, mas já era um começo.
Vinte minutos mais tarde, Abby voltou a falar.
— Dante?
— Sim?
— Viper parecia zangado quando falou com ele.
— Ele não gostou muito da idéia de emprestar sua Porsche favorita. Viper tem
ciúmes dos seus brinquedos, sabe?
— Está mentindo.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— Que indelicadeza, docinho!


— Ele não queria que me levasse para encontrar as bruxas. Por quê?
— Não pode ter ouvido o que foi dito entre nós.
— Sei que discutiam, e que ele tentava convencê-lo de alguma coisa. Ele teme o
que as bruxas podem fazer com você, não é?
— Viper sempre desconfiou da magia.
— Dante, eu quero a verdade. Elas vão tentar alguma coisa contra você?
— Elas precisam de mim.
— Sim, mas agora tudo mudou. Na verdade, acho que devemos reconsiderar essa
idéia de procurar as bruxas.
— O quê?
— Não quero que machuquem você.
— Abby, não temos escolha.
— Sempre há escolhas.
— Não se quiser se livrar da Fênix. Só elas podem f transferir o poder para outro
recipiente.
— Nesse caso, talvez eu deva ficar com ele.
— Não sabe o que está dizendo. Não foi preparada para ser o Cálice.
— E Selena foi?
— Selena era humana, mas sempre acreditara ser superior aos outros. Não era
surpreendente. Afinal, ela era filha de um Duque que se julgara igual ao seu próprio
Deus. Selena havia considerado a imortalidade e o poder da Fênix um direito, não um
dever.
— Ela sabia em que estava se metendo.
Abby tocou seu braço.
— Então, eu quero saber. Conte-me.
Dante escolheu as palavras com cuidado. Não queria alimentar o terror, mas tinha
de ter certeza de que ela entenderia precisamente porque não seria capaz de carregar
tal fardo.
— Pode imaginar como é ser imortal?
— Bem, para começar, seguro de vida passa a ser algo desnecessário.
— Abby...

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— O que é? Nunca tive motivo para pensar nisso.


— Ser imortal é ver família e amigos morrerem enquanto você continua
exatamente igual. Significa ver a vida passar sem sequer tocá-la. Significa ser
completamente sozinho.
Ela riu.
— Meus familiares podiam ter posado para a foto do cartaz da família
disfuncional. Meu pai nos aterrorizou e nos abandonou, minha mãe bebeu até morrer
prematuramente, e meus irmãos deixaram Chicago assim que conseguiram escapar. Eu
sempre fui sozinha.
— Abby, eu...
— Não precisa dizer que sente muito. O que mais?
— Bem, você será sempre caçada, perseguida — ele prosseguiu, deixando de lado
a necessidade de confortá-la — Todos os momentos. Haverá sempre um demônio
tramando sua morte.
— Mas você disse que a Fênix já está começando a se disfarçar e fortalecer.
— Sim, mas sempre haverá alguém com poder ou desespero suficiente para
encontrá-la. Por isso fui acorrentado ao espírito da proteção.
— Então... Você pode me proteger.
— Como protegi Selena?
— Dante, não pode se culpar...
— Não é uma questão de culpa; é uma questão de conhecimento. Eu nem sei o que
a matou! Por isso, quanto antes encontrarmos as bruxas, melhor.
— Dante...
— Não. Temos que fazer isso pela Fênix, Abby. Ela deve ser protegida por
aquelas que são mais preparados para mantê-la ilesa, fora de perigo.
— Você não joga limpo, sabe?
— Um vampiro nunca joga limpo, docinho. Só jogamos para ganhar.
Quase uma hora mais tarde, Abby caminhava com dificuldade por entre o mato
que em torno do antigo parque industrial.
Arbustos e plantas horríveis, espinhos gerados por mutação nuclear, ela pensou,
parando pela centésima vez para salvar o jeans da total destruição. Nunca havia
gostado da natureza. Ela era suja e cheia de criaturas rastejantes e coisas que a
faziam espirrar. E esse contato mais recente não servia para alimentar sua simpatia,
por que as bruxas não se estabeleciam em uma loja no centro comercial?

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

Sementes e arbustos eram só uma pequena parte do seu atual desconforto. O nó


no estômago e a boca seca eram provocados justamente pelas feiticeiras que estavam
procurando.
Dante insistia em dizer que elas eram sua única alternativa, mas ainda não estava
totalmente convencida. Apesar dos nobres motivos, testemunhara os gritos de Selena
quando elas haviam introduzido o espírito de poder em seu corpo e, pior, seu desdém
por Dante quando as bruxas a acorrentaram a ele pela magia.
Mulheres capazes de atos tão brutais mereciam sua confiança?
Nervosa, ela olhou para o homem que caminhava a seu lado. Precisava de alguma
distração, ou sairia correndo e gritando de pavor.
— Se sua intenção era me impressionar com um passeio ao luar, Dante, o truque
não deu certo.
— Docinho, o que pode ser mais romântico que a delicada brisa da noite...
— Arbustos e espinhos que vão me deixar toda arranhada.
— Pelo menos admita que nunca teve companhia mais sexy, charmosa e linda.
Bem, nesse ponto ele estava certo.
— Talvez — ela concedeu. — Mas também nunca saí com um homem que vivesse
entre demônios, monstros, e zumbis.
— Porque só conheceu homens tolos. Nenhum deles devia conhecer o poder de
sedução de uma boa aventura.
— Aventura? Uma aventura é passear pela Praça de São Marco em Veneza, ou
tomar café num bistrô aconchegante em Paris. Procurar bruxas no meio do mato não é
aventura.
— Para ser franco, na última vez em que tentei tomar um café em Paris, quase
perdi a cabeça na guilhotina. Como vê, tudo é uma questão de ponto de vista.
— Será que pode parar com isso? — O quê? —Mencionar o passado com esse tom
tão... Casual. Sempre me achei velha por conseguir me lembrar de Melrose Place.
Ele riu.
— Foi você quem mencionou Paris. Eu só estava relacionando minha experiência
naquela capital.
— Esteve mesmo em Paris durante o Reinado do Terror?
— Por alguns meses inesquecíveis. Sugiro que vá conhecer o lugar quando não
houver uma revolução em andamento.
Abby revirou os olhos. Ela na sofisticada Paris? Sim, no mesmo dia em que criasse

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

asas e fizesse uma tatuagem no traseiro.


— Férias em Paris não são para mulheres que ganham salário mínimo e... — Ela
parou, os olhos refletindo um terror instantâneo. — Maldição!
— O que foi? — Dante perguntou, imediatamente em; alerta.
— Estou desempregada. E meu aluguel já venceu. Houve um momento de silêncio
antes de Dante explodir numa gargalhada incontrolável.
Abby o encarou com as mãos na cintura.
— Qual é a graça?
— Você se tornou o Cálice para um espírito poderoso, enfrentou demônios, e está
prestes a se colocar nas mãos de feiticeiras. E está preocupada com o aluguel?
— Estou preocupada com a possibilidade de passar meus dias empurrando um
carrinho de compras pelas ruas da cidade e dormindo sob um banco de parque.
— Acha que eu a deixaria vivendo nas ruas?
Algo doloroso oprimiu seu peito. Logo as bruxas removeriam dela o encanto, e
Dante seria acorrentado a outro Cálice. Por que ele se preocuparia com ela?
Mais incomodada do que gostaria de admitir com a idéia de ficar sozinha
novamente, Abby forçou um sorriso frio.
— Bem, você trancou sua ex-amante em uma adega.
— Foi legítima defesa. Escute, Abby, prometi que nenhum mal a atingirá, e vou
cumprir essa promessa, seja como for.
Ela teve de engolir o nó que se formava em sua garganta. Esse homem sabia como
roubar o coração de uma mulher.
— Dante — ela murmurou.
Ele gemeu angustiado e apoiou a testa na dela.
— Amor, se tem alguma compaixão no coração, não olhe para mim desse jeito. Não
agora.
Um calor intenso invadiu o corpo de Abby, resultado dá proximidade com o corpo
de Dante. Se não estivessem em um campo cheio de arbustos espinhosos, com demô-
nios em seu encalço e bruxas escondidas por perto, ela o jogaria no chão e faria tudo
que sentia vontade de fazer com ele.
Dante a perturbava. E fazia seu corpo arder.
Infelizmente, nada podia mudar a situação em que se encontravam, e ela se
forçou a recuar um passo.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— Vamos procurar as bruxas — lembrou com tom conformado.


Dante fechou os olhos por um instante, como se lutasse por um controle que
ameaçava deixá-lo, e depois ergueu o rosto para o céu cheio de estrelas.
— Sim, logo o dia vai chegar. Vamos acabar com isso de uma vez.
Os últimos séculos haviam ensinado lições variadas a Dante.
Nunca jantar com bêbados. Nunca dar as costas para uma mulher furiosa. Nunca
apostar em um cavalo chamado Sorte. Nunca lutar contra um demônio Chactol depois
de uma garrafa de gim.
E nunca, nunca ignorar o instinto.
Essa última lição havia sido a mais dolorosa, por isso não seguiu diretamente para
o local onde se reuniam as bruxas, embora tivesse sentido seu cheiro bem perto da
fábrica abandonada.
Havia alguma coisa errada ali. Um arrepio gelado percorria sua pele, e havia no ar
um forte cheiro de sangue fresco.
Uma batalha fora travada recentemente. Uma batalha envolvendo magia poderosa
e morte violenta. Dante não sentia a presença de demônios, mas também não estava
mais tão certo de que eram as criaturas da noite que representavam a maior ameaça.
E isso, é claro, era o que mais o perturbava.
Não gostava da sensação de estar sendo manipulado por um inimigo invisível.
Ainda assim, precisava seguir em frente.
Tinha de encontrar as bruxas. Mesmo que isso o matasse.
Uma idéia que o contrariava muito.
— Dante, se vamos ficar andando em círculos, por que não paramos num lugar
onde vendam sorvete e tenha ar condicionado?
— Não estamos andando em círculos. Não exatamente.
— Ah... Suponho que tenha algum tipo de visão especial. Visão de vampiro?
— Eu enxergo bem, mas isso não importa. Não estou procurando as bruxas.
— O quê? Dante, eu juro, se me trouxe para esse matagal geneticamente
modificado para se divertir, eu vou...
— Enfiar uma estaca no meu peito. Já sei. Será que pode ser menos previsível?
— Se não estamos procurando as bruxas, que diabos estamos fazendo aqui?
— Eu disse que não estou olhando para o local onde se reúnem as bruxas, e é
verdade. Estou tentando farejar a localização exata.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— Ah... E conseguiu alguma coisa?


O arrepio o percorreu novamente quando Dante olhou para o esconderijo.
— Estão bem ali, além daquela linha de árvores.
— Então... O que estamos esperando? Pensei que quisesse acabar logo com isso.
— Alguma coisa não está certa aqui.
— Como sabe disso?
— Sinto cheiro de sangue.
— Ai, meu Deus...
— Preciso descobrir o que aconteceu.
Sem dizer mais nada, ela segurou a mão dele. O calor da pele de Abby viajou por
todo seu corpo, aquecendo-o completamente.
— Acha que as bruxas foram atacadas?
— Sim. — Era inútil mentir.
— E... Vai tentar me convencer a esperar por você aqui, não é?
— Não. Enquanto não souber o que aconteceu, não posso ter certeza de que a
ameaça não está presente. Quero que fique prevenida.
— Entendo... Estou andando na escuridão com um vampiro, procurando por um
bando de bruxas que podem nos receber com certa... Hostilidade, e acha que não estou
prevenida?
— O que eu acho é que o pior ainda está por vir.
— Ótimo. Nesse caso, esperar é prolongar o tormento. Vamos acabar com isso de
uma vez.
Dante se virou e beijou-a nos lábios.
— Fique atrás de mim. Se sentir alguma coisa, avise-me — ele murmurou bem
perto de sua boca.
Ela engoliu em seco.
— Prometo que você vai ser o primeiro a ouvir meus gritos.
Segurando a mão dela, Dante caminhou diretamente para as árvores. Abby
tropeçava e caminhava com dificuldade na escuridão, mas conseguia segui-lo. Depois de
quinze ou vinte minutos, eles penetraram em uma clareira.
No centro dela havia um edifício simples de três andares e outros galpões de
madeira. Nada sugeria que o local fosse mais do que uma fazenda. Na verdade, tudo ali

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

era normal a ponto de ser deprimente.


Exatamente o efeito que as bruxas queriam projetar.
Diferentes dos vampiros, elas tinham a capacidade de se disfarçar de olhares
curiosos. Eram forçadas a se esconder sem desaparecer.
— Tem certeza de que é aqui? — Abby perguntou intrigada.
— Sim — ele confirmou em voz baixa, aproximando-se do prédio com grande
cautela.
Um olhar pela vidraça confirmou os temores de Dante. A carnificina era
impressionante, digna das mais negras almas, mas ele não deixou o olhar se deter
naquele cenário de horror. Não havia ninguém vivo ali para contar o que acontecera.
Ele se virou e olhou para os galpões de madeira.
— Vai entrar — Abby perguntou.
— Não posso.
— Ah... droga.
— Na verdade, isso é bom. Significa que pelo menos algumas bruxas sobreviveram
ao ataque. Caso contrário, a barreira teria se rompido.
— O quê?
— Não importa. Elas devem ter fugido. Deixe-me ver se consigo encontrar o
rastro...
— Vamos ter de andar mais?
Dante estudou a clareira. Estavam sozinhos ali.
— Pode esperar aqui, se preferir. Não vou me afastar muito.
Ela mordeu o lábio, lutando contra o terror que insistia em tentar dominá-la.
Dante se virou tentando manter acesa a chama da esperança. Talvez conseguisse
rastrear as bruxas fugitivas, mas... Bem, em mais de três séculos, elas nunca haviam
facilitado as coisas para ele.

***

Não olhe. Não olhe. Não olhe.


Abby não queria ver o que acontecera lá dentro. Nas últimas horas, vira cenas
impressionantes para satisfazê-la por toda a eternidade. Mas o simples fato de saber

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

que não devia olhar era suficiente para fazer seus pés se moverem na direção da
janela.
Por um momento, seus olhos não enxergaram nada na escuridão, e um profundo
alívio a invadiu. Depois, quando já se preparava para sair dali, os olhos encontraram
uma das paredes, e ela recuou horrorizada.
As paredes pareciam ter sido lavadas com sangue. E outras coisas que ela
preferia nem tentar identificar.
Dobrada ao meio, ela sucumbiu à náusea.
— Tinha que olhar, não é? — uma voz sombria criticou, enquanto braços fortes a
amparavam.
Mais confortada do que qualquer mulher racional devia se sentir pelo toque de um
vampiro, Abby tentou se soltar do abraço aconchegante.
— Encontrou alguma coisa?
— O rastro das bruxas me levou até o galpão mais próximo da casa. Uma garagem.
— Não me conte. Elas fugiram no bruxamóvel!
— É mais ou menos isso.
Abby conteve um suspiro de alívio. Sabia que devia estar desapontada.
Sem as bruxas, sua vida ainda corria perigo. Coisas estranhas, nojentas e meio
mortas continuaram a persegui-la, e a Fênix que se instalara em seu quarto continuaria
reformando tudo nela como se fosse um quarto de aluguel dos mais baratos.
Mas, em vez de decepção, ela sentia alívio.
— Bem, e agora?
Dante farejou o ar.
— O amanhecer se aproxima. Preciso encontrar um abrigo para esperar pelo
anoitecer.
— Podemos voltar à fábrica.
— Acho que deve haver algum outro lugar mais próximo. Consegue andar?
— Acho que sim.
Dante sorriu.
— Você nunca deixa de me surpreender, amor.
Antes que ela pudesse pedir explicações sobre o comentário, ele a segurou pela
mão e levou para o bosque do outro lado da clareira.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

Caminhavam em silêncio pela escuridão, e Abby perdeu a noção do tempo enquanto


se concentrava em simplesmente mover os pés, um na frente do outro, até que,
finalmente, Dante reduziu o ritmo.
— Aqui estamos — ele murmurou, afastando com a mão uma densa cortina de
vegetação trepadeira que crescia na encosta de uma elevação baixa. — Não é nenhum
hotel cinco estrelas, mas vai impedir a entrada da luz do sol.
— E seu calor, também — Abby acrescentou, abaixando-se para segui-lo pelo
túnel úmido que levava a uma pequena abertura circular.
Ele se sentou no solo de areia e a puxou para que se acomodasse a seu lado.
— Pelo menos não é uma cripta — disse.
Abby teve de reconhecer que era um alívio não ter de dividir o espaço escuro,
úmido e apertado com um cadáver.
— Está dizendo que devo agradecer pelas pequenas bênçãos?
— Bem, também vai ter o prazer da minha companhia. Isso deve transformar até
uma caverna úmida no paraíso.
— Dante, você precisa dar um jeito nesse seu ego. — Ela soltou a mão dele e
abraçou os joelhos, puxando-os contra o peito.
— Está com frio?
— Um pouco.
Ele a abraçou e puxou para mais perto.
— Vai ficar mais quente quando o sol nascer.
Não havia calor no corpo de Dante, mas o contato era suficiente para fazer arder
a conhecida chama no peito de Abby. Quanto tempo fazia que não sentia a satisfação
do desejo saciado?
— Devia tentar dormir — Dante sugeriu. — Eu fico vigiando.
— Estou tensa demais para dormir.
— Por que será? — ele brincou.
— Quer uma lista?
— Não, obrigado.
— Estamos encrencados, não é? — Ela suspirou, Dante fez uma breve pausa, como
se considerasse as palavras com cuidado.
— Não sei se colocaria a situação nesses termos, mas o ataque contra as bruxas
tornou nossa tarefa ainda mais difícil.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— Quem pode ter feito isso?


— Essa é a questão. Um demônio não poderia ter passado pela barreira, e um
humano jamais teria causado tamanha destruição. A menos...
— O quê?
— Um humano que idolatra o Príncipe pode ter conseguido invocar um poder
grandioso...
— Um humano? — Abby perguntou, chocada.
— Acha que só os demônios são capazes de atos de maldade?
— Não, Dante. Conheço bem a maldade de que são capazes os humanos. Mas...
Acha que as pessoas que atacaram as bruxas são as mesmas que mataram Selena?
— Não sei.
Abby riu, mas não havia humor em sua risada.
— Bem, parece que determinamos que não somos Nancy Drew e Hercule Poirot.
— Não. — Ele afagava seus cabelos com o rosto. — Parece que não sou um grande
defensor, não é?
Ela o encarou com a testa franzida.
— Não diga isso. Não fosse por você, eu estaria morta.
— Em vez de estar escondida em uma caverna, tão longe de se livrar da Fênix
quanto antes, quando tudo começou.
Ele mudou de posição, aproximando-se ainda mais.
Abby sentiu o coração disparar no peito.
Não pense nisso, ela ordenou a si mesma. Não pense nesses dedos longos
passeando por sua pele, nem nesses lábios tentadores desbravando locais secretos e
sensíveis. Não pense em entrelaçar essa cintura com as pernas e...
Inferno!
— Pensei que houvesse prometido transformar essa caverna no paraíso com sua
companhia.
Dante sentiu a mudança em sua atitude e a fitou com aqueles olhos cor de prata.
— Abby?
Sem parar para pensar nas conseqüências de seu comportamento arrojado, ela o
segurou pelo cabelo. Seu coração batia depressa, e respirar era difícil.
— Não quero pensar em demônios ou bruxas, nem em todas as outras horríveis

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

criaturas que querem me matar.


Ele a puxou sobre as pernas, colocando-os frente a frente.
— O que você quer? — Dante perguntou com voz rouca, deixando uma das mãos
deslizar pelas costas de Abby.
— Você. — Ela o beijou com todo ardor que fazia ferver seu sangue. — Eu quero
você.
Dante a segurou pelo quadril e acomodou sobre o membro pulsante. Ela gemeu,
inclinando o corpo para frente numa oferta silenciosa. De repente se sentia em casa
naquela caverna. Certamente, seus impulsos eram tão primitivos quanto o Homem de
Neanderthal.
— Sabe que não está pensando com clareza, não é, Abby?
— Não importa.
A língua desenhava um rastro de fogo em seu pescoço.
— Só não quero que recupere a razão e descubra algum truque criativo para
aquela estaca em que está sempre pensando.
Em resposta, ela se inclinou para trás para deixá-lo despir sua camiseta. Em
seguida foi a vez do sutiã simples de algodão.
— Já aceitei que perdi completamente a razão. O que é mais uma loucura?
Dante deixou escapar um gemido angustiado que ecoou na caverna escura e úmida.
Seus olhos prateados cintilaram quando as mãos seguraram os seios nus.
— Espero que seja uma loucura boa — ele disse, distraído com os mamilos que os
polegares friccionavam.
— Muito boa...
Os lábios encontraram um daqueles mamilos túrgidos.
— Melhor agora?
— Ah, sim...
Ainda se banqueteando com um seio firme e macio, Dante levou a mão ao zíper da
calça de Abby, e ela o ajudou com idêntica sofreguidão, ansiosa para remover todas as
barreiras que a impediam de senti-lo completamente. Em um instante ela estava nua e
sentada sobre as pernas de Dante, que a beijava com desespero cada vez maior.
— Sonhei com isso tantas vezes, docinho. Preciso saber que não estou vivendo só
mais uma fantasia.
— Dante...

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— Você é tão quente. Acho que poderia me afogar no seu calor.


— Ficaria ainda mais quente se tirasse essas roupas — ela sugeriu com ousadia.
— Muito mais quente — ele concordou, removendo apressado as últimas barreiras
entre eles.
Abby conteve a respiração ao ver sua ereção. Queria fazer daquele momento uma
lenta e deliciosa sedução, mas a idéia de sentir aquele membro penetrando seu corpo a
fez abandonar o plano, e simplesmente unir-se a ele numa fúria de fogo pagão.
Dante tocou seu rosto.
—- Tem certeza de que é isso que quer, Abby?
— Sim — ela murmurou com voz rouca. — No momento, essa é a única coisa da
qual tenho certeza. E isso que eu quero.
Dante a beijou demoradamente, e ela suspirou. Não havia exagerado em sua
resposta. Nesse momento, nada parecia mais certo do que estar nos braços de um
vampiro.
Sentindo uma confiança que normalmente não fazia parte de sua natureza, ela
deslizou as mãos por seu peito musculoso. A pele suave convidava ao toque.
Sem pensar, ela abaixou a cabeça e beijou seu ombro, deliciando com a explosão
de erotismo provocada pelo contato.
— Meu campeão — murmurou, prosseguindo com a carícia provocante. — Gosta
disso?
— Sim — ele respondeu, tentando controlar a crescente urgência.
— E disso? — ela continuou descendo.
— Sim, gosto muito.
— E isso?
— Abby...
— Sim?
— Continue assim, e a fantasia vai acabar cedo demais.
Ela riu e ergueu o corpo roçando os seios no peito largo.
— Só estou tentando provar que não sou um sonho.
Sem aviso prévio, ele a acomodou melhor sobre o corpo. Todo o ar escapou dos
pulmões de Abby quando ela sentiu a ereção firme em contato com a umidade quente
entre suas pernas.
Ela se moveu devagar, sentindo o início da penetração e a intensificação do pulsar

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

que o convidava a prosseguir. Antes de penetrá-la completamente, porém, ele a


segurou pela cintura e a fitou nos olhos.
— Tudo que conseguiu foi me dar mais certeza de que isso é uma fantasia.
— Precisa de mais provas?
— Ah, não! É minha vez de beijar — ele avisou. — E quero beijar você inteira.
Com um movimento lento e deliberado, Dante a beijou nos lábios. Depois, movendo
a boca por seu rosto, ele traçou uma trilha de fogo pela lateral de seu pescoço,
descendo até capturar um mamilo. Abby enterrou as unhas em seus ombros, temendo
perder a razão. Os lábios a sugavam, passando de um seio ao outro sem dar trégua
pára a paixão que a incendiava.
Ela o queria dentro dela. Queria o poderoso mastro ereto invadindo sua
intimidade. Mas, na mesma medida em que tentava promover a penetração, ele a
impedia de realizar seu intento. Abby se descobriu em pé sobre as pernas trêmulas,
enquanto a boca de Dante descia por seu ventre contraído e plano. Momentaneamente,
ela tentou se manter ereta enquanto a língua buscava sua região mais sensível. Havia
algo de deliciosamente decadente na situação.
Fechando os olhos, ela se deixou seduzir e levar ao ponto de onde não haveria
retorno.
Com cuidado, Dante se empenhou em localizar seu ponto de maior prazer,
segurando suas nádegas com mãos firmes. Abby rangeu os dentes sentindo o prazer
crescer, mas recuou um instante antes de o toque mágico causar a violenta explosão.
— Não, Dante — ela gemeu.
Compreendendo que ela o desejava em seu corpo quando chegasse ao orgasmo,
Dante a pôs de joelhos para poder penetrá-la com suavidade. Abby sabia que nada em
sua vida havia sido melhor ou mais certo.
Por um momento, ela simplesmente saboreou o prazer. Mas, ao perceber que
Dante se mantinha quieto, ela abriu os olhos para fitá-lo.
— Dante?
— Você começou a sedução, Abby. Pode terminá-la.
Com um sorriso lento, ela apoiou as mãos em seu peito e baixou lentamente o
corpo, voltando a erguê-lo também com grande lentidão.
— Você vai me matar. Outra vez... — ele gemeu. Abby continuava se movendo.
Dante sentia o corpo doendo pelo contato com o solo arenoso, e uma ruga começava a
se formar em sua testa.
Abby sorria satisfeita, saboreando a certeza de que o tinha completamente à sua

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

mercê.
Nesse momento ele era dela. Estavam tão unidos quanto se fossem um só.
Com movimentos lentos e deliberados, ela os atormentava e levava ao frenesi,
recusando-se a aumentar o ritmo, apesar de ouvir os gemidos que pareciam suplicar
por misericórdia.
Só quando sentiu os músculos ficando tensos, preparando-se para a inevitável
explosão, ela atendeu aos pedidos aflitos de Dante e deixou que ele a segurasse pelos
quadris para acelerar o ritmo da penetração.
Dante deixou escapar um grito de júbilo no mesmo instante em que ela sofreu o
primeiro de uma série de violentos espasmos.
Abby se sentia flutuar. Depois de explodir num orgasmo como jamais
experimentara antes, ela caiu exausta sobre o peito de Dante. Estava trêmula, abalada
pela força da experiência, mas confortada pelos braços que a envolviam.
Havia sido como ser atirada do alto de um arranha-céu só para ser amparada
pelos braços de Dante.
Talvez sentindo suas emoções tumultuadas, Dante afagou com ternura seus
cabelos e beijou-a na testa.
— Tudo bem, Abby?
Ela se aninhou em seu peito.
— Tudo muito bem.
— Não está pensando em estacas e coisas parecidas?
— Não nesse momento.
— Ótimo. — Ele riu, beijando sua cabeça. — Diferente de muitos vampiros que
conheço, prefiro prazer sem dor, derramamento de sangue, ou ameaça de perfuração
por estaca.
Ela levantou a cabeça para encará-lo.
— E Sasha?
— Já disse que não há razão para sentir ciúmes, amor. Sasha ficou no passado no
momento em que você passou pela porta da casa de Selena.
— Não acredito nisso.
— Do que está duvidando? Acha que Sasha não ficou no passado?
—Acho que não me notou quando cheguei à casa de Selena.
— Ah, mas eu notei. Como poderia deixar de notar? Desde que a vi pela primeira

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

vez, eu me senti atormentado por essa sua pureza. Ela me atormentou até eu não
conseguir mais tirar você dos meus pensamentos, Soube que a seduziria antes mesmo
de saber qual era seu nome.
Ela riu da ultrajante arrogância.
— Será que ainda pode ficar mais vaidoso?
— Algumas coisas são inevitáveis.
Dante era um cínico.
E como poderia não ser? Era um imortal. Havia feito de tudo, visto de tudo,
estado com todo mundo. Muitas vezes mais de uma vez. Nada podia surpreendê-lo.
Nada a não ser a mulher aninhada em seus braços.
Já havia ficado impressionado com sua rara coragem. E, é claro, ofuscado por sua
beleza. Mas o abandono com que ela se entregara, a paixão com que o recebera...
Era o suficiente para espantar até a mais cínica criatura da noite.
Ele afagou seus cabelos e sorriu. Não estava acostumado a passar horas
abraçando uma mulher adormecida. Não era esse o jeito dos vampiros. Eram, por
natureza, criaturas solitárias, e mesmo quando estavam juntos, não buscavam terna
intimidade. Paixão era aceitável e desejável, mas uma vez saciada, não havia razão para
ficar.
Só os humanos sentiam necessidade de esconder instintos animais em belas
embalagens emocionais.
Talvez os vampiros não fossem tão sábios, afinal.
Dante sentiu quando Abby começou a se mover. Um instante depois, ela abriu os
belos olhos azuis.
— Dante?
— Estou aqui, amor.
— Conseguiu dormir?
— Não preciso dormir muito.
— Falando em necessidades, preciso ir lá fora.
Abby se levantou e pegou as roupas espalhadas pela caverna. Dante também ficou
em pé.
— Não se afaste demais.
— Não se preocupe.
Mas ele se preocupava. Apreensivo, viu-a sair para o sol que o impedia de segui-la.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

Se acontecesse alguma coisa, não poderia salvá-la.


Ele andou pela caverna, ajeitando os cabelos com os dedos. Quase três minutos se
passaram.
Dez minutos mais tarde, quando já pensava em sair da caverna para ir procurá-la,
os passos do lado de fora o encheram de alívio. Aproximando-se da entrada da caverna
tanto quanto podia, considerando a luz do sol que banhava a paisagem lá fora, ele
chamou:
— Abby? Tudo bem?
Ela entrou e o abraçou trêmula.
— O que aconteceu?
— Havia... Sombras lá fora.
Dante ficou tenso. Como poderia protegê-la, se estavam praticamente
encurralados na caverna? Não havia contado com a possibilidade de serem encontrados
tão depressa.
— Sombras?
— Não eram exatamente sombras. Eram... tranqueirínhas prateadas, acho.
— Meu bem, será que pode usar um vocabulário mais conhecido? Não consigo
imaginar o que pode ser uma tranqueirinha.
Ela se virou e apontou imperiosa para a entrada da caverna.
— Estão bem ali.
Aproximando-se da entrada de luz até onde podia suportar, Dante olhou para as
árvores do lado de fora. A tensão desapareceu quando ele viu as formas prateadas e
pequeninas que corriam pelas sombras.
— Ah, aquilo...
— Sim, aquilo. O que é aquilo?
— Acho que pode chamá-las de criaturas fantásticas.
— Como... Fadas?
— Tecnicamente, são demônios — ele explicou. — Não precisa se preocupar; eles
são bondosos e muito tímidos. Por isso preferem os locais mais isolados.
Abby segurou a cabeça com as mãos.
— Isso tudo é insano.
— O quê?

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

Ela respirou profundamente.


— Até dois dias atrás, demônios eram só caracteres em um filme de terror para
adolescentes. Agora tropeço neles cada vez que me viro! Não podem ter simplesmente
aparecido do nada!
— Não. Eles sempre estiveram por aí. Por mais tempo do que os humanos.
— Então, por que eu não os via antes?
— Porque não estava olhando com esses mesmos olhos.
— Que olhos? Os da Fênix?
— Sim — ele confirmou, afagando suas costas para tentar confortá-la. — Muitos
mortais preferem ver apenas aquilo que desejam ver, e muitos demônios têm a
capacidade de permanecerem escondidos.
— Até os vampiros?
— Quando queremos, sim. — Ouvindo um som abafado no ar, ele a girou para a
entrada da caverna, enlaçando-a pela cintura. — Veja.
— Ver o quê?
Por um momento não havia nada para ser visto, mas depois, quando Abby já
começava a ficar impaciente, o sol desceu abaixo das copas das árvores, e na penum-
bra as formas prateadas começaram a brilhar com cores luminescentes.
Cintilando em tons de vermelho, esmeralda e dourado, elas dançavam e corriam,
criando uma fascinante exibição de cores.
— Oh, mas isso é... Lindo! — Abby sussurrou maravilhada. — Nunca imaginei que...
As palavras morreram no silêncio quando ela percebeu que estava prestes a
revelar seu preconceito instintivo. Os lábios se distenderam num sorriso sem humor.
Ele não poderia culpá-la. Ainda estava em choque com tudo o que acontecera, e os
demônios que havia encontrado até então não foram do tipo capaz de inspirar sen-
timentos ternos, ou admiração.
— Nunca imaginou que houvesse beleza entre os demônios?
Ela se virou e o surpreendeu colando ao corpo dele e sorrindo.
— Na verdade, já sabia que alguns podem ser incrivelmente belos. E muito
sensuais, também. — A mão dela o afagava insinuante.
— Está brincando com fogo, docinho.
— É com isso que estou brincando? — ela provocou.
— Eu sabia que você seria um perigo quando se soltasse — ele murmurou,

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tomando-a nos braços e levando-a para o fundo da caverna.

CAPÍTULO III

Abby se sentia... O quê? Saciada, certamente. Gloriosamente saciada.


Mas era mais do que isso, ela decidiu deitada nos braços de Dante, esperando a
escuridão se fazer completa.
Sentia-se querida. Sim, essa era a palavra. Como se o que havia acabado de
acontecer entre eles houvesse sido mais que um meio de passar o tempo ou esquecer
os horrores das últimas horas. Mais que um simples alívio para a tensão.
Talvez por ele ter séculos de experiência, ou simplesmente porque ele era Dante.
De qualquer maneira, sabia com absoluta certeza que poderia passar a eternidade
com a cabeça apoiada no ombro dele, sentindo a mão afagar suas costas.
— Dante?
— Hum?
— Como é?
— Como é o quê?
— Ser um vampiro.
— Acho que vai ter de ser mais específica, amor. Essa pergunta é muito vaga.
Abby encolheu os ombros.
— É muito diferente de quando era humano?
Houve um silêncio breve, como se ele considerasse que medida da verdade ela
seria capaz de suportar.
— Não sei — respondeu com franqueza.
— Não sabe? Então, nasceu vampiro?
— Não, mas as coisas não acontecem como nos filmes. Não saí da tumba e voltei
para o mundo como se nunca houvesse morrido.
— Então, o que aconteceu?

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A expressão dele se tornou mais dura, enquanto a mente ia buscar antigas


memórias.
— Uma noite acordei nas docas de Londres e não consegui lembrar meu nome ou
meu passado. Era como se eu houvesse acabado de nascer, e não havia nenhuma dica de
quem eu era ou o que era.
Abby franziu a testa. Devia ter sido assustador! Fora terrível aceitar que havia
uma... Coisa dentro dela, e nem se descobrira alérgica ao sol ou viciada em sangue. E,
mais importante, desde o início contara com Dante para amenizar seus temores. Só
por isso não estava trancafiada em uma cela de hospício.
— No início imaginei que havia bebido demais, e logo as lembranças retornariam.
Provavelmente, teria estado ali, sentado nas docas, quando o sol nasceu, não fosse por
Viper. Ele me encontrou e levou para seu clã.
— Um clã?
— Sim, é uma espécie de família, sem a culpa e sem as brigas inevitáveis nas
comemorações onde há bebida alcoólica.
Sem pensar no que fazia, ela segurou a mão dele.
— Nunca se sentiu curioso com relação ao passado?
— Não realmente. A julgar pelas roupas rasgadas e pelo cheiro do meu corpo, eu
devia ter sido mais um indesejável das intermináveis hordas que infestavam as ruas da
cidade.
— Mas e se você tinha uma família?
— Que diferença teria feito? Eu não teria me lembrado deles. Teriam sido
estranhos para mim. Ou pior.
— Pior?
— Jantar.
Abby sentiu o estômago se contrair numa reação de horror. Droga. Ele a
prevenira para que não esquecesse quem ou o que ele realmente era. Infelizmente, era
fácil esquecer.
— Ah...
— Era melhor para todos deixar morrer o homem que eu tinha sido.
Ela puxou os joelhos contra o peito e apoiou o queixo neles.
— Deve ter sido muito estranho simplesmente acordar e ser alguém que não
conhecia.
Distraído, Dante levou a mão dela aos lábios.

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— No início, sim, mas Viper me ensinou a apreciar minha nova vida. Foi ele quem
me deu o nome Dante.
— Por que Dante?
Ele sorriu.
— Viper dizia que eu precisava aprender a ser mais poeta do que guerreiro.
— Ah, Dante... É claro.
— Ele me fez entender que um predador é mais do que músculos e dentes. Um
predador precisa usar a inteligência para observar a presa e descobrir quais são suas
fraquezas. É mais fácil matar quando se pode prever a reação da vítima.
— Uau! E eu que me considerava fria...
Dante encolheu os ombros.
— Viper não estava errado. Se eu tivesse sentido a armadilha antes, as bruxas
jamais teriam me aprisionado.
Abby ajoelhou-se e segurou o rosto dele entre as mãos. Pensar que podia ser
outro vampiro ali com ela, no lugar de Dante, a enchia de horror.
— E você não seria Dante — ela lembrou séria.
— E isso seria ruim?
— Muito ruim.
Ele a beijou nos lábios com ternura, mas o beijo sÓ durou um instante.
— Adoraria continuar com essa nossa conversa, mas acho que precisamos seguir
em frente.
Abby ficou tensa. Seguir em frente? Sair para a escuridão e encarar as criaturas
que os esperavam lá fora?
— Temos mesmo que ir? Aqui estamos seguros.
Ele balançou a cabeça.
— Não, aqui estamos encurralados. E vai ficar pior quando o sol nascer.
— E para onde vamos?
Ele se levantou, puxando-a pela mão.
— Vamos encontrar o carro e voltar para Chicago.
— Por que Chicago?
— Porque lá Viper pode manter você protegida, enquanto eu tento pensar num
meio de encontrar as bruxas.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— Não pode estar pensando em ir sozinho atrás delas!


— Só eu conheço o cheiro daquelas criaturas.
— Não, Dante. Alguma coisa as está perseguindo. Alguma coisa que já as
encontrou uma vez e fez sushi de bruxa. Aposto que essas mesmas criaturas
adorariam poder lhe mostrar o truque de perto, de um jeito bem pessoal.
— Sim, tem razão, Abby. Por isso mesmo preciso levar você para a casa de Viper.
Ela pôs as mãos na cintura.
— E por isso mesmo você não vai sair por aí sozinho procurando pelas bruxas.
— Podemos discutir enquanto andamos — ele sugeriu, puxando-a pela mão para
fora da caverna.
Abby apreciou a brisa no ar da noite. Ela transportava um aroma que só podia
estar relacionado à natureza. Essa era uma das razões pelas quais sempre se
certificara de nunca freqüentar lugares que não tivessem calçamento e Starbucks. Era
estranho se ver cercada por árvores e estrelas.
Mas não era estranho o bastante para fazê-la esquecer a discussão com Dante.
— A discussão está encerrada — ela anunciou autoritária. — Você não vai sozinho,
e isso é tudo.
— Admito que você transformou a teimosia em uma forma superior de arte, mas
tive séculos para me dedicar a esse aperfeiçoamento. Não tente me superar, porque
não vai conseguir.
— Quatro séculos? Bobagem! Esqueceu que sou uma mulher?
— Como poderia esquecer? Você é uma mulher linda e quente que geme quando eu
afago seu...
— Dante!
— O que é? Eu gosto disso.
— Está tentando me distrair.
— E está funcionando?
— Eu... — Ela parou de repente, surpreendida por um arrepio gelado.
Dante se colocou a seu lado numa repentina posição de defesa, pronto para
atacar.
— O que foi?
— Há alguma coisa aqui — ela murmurou.
O vampiro fechou os olhos e ergueu o rosto para o céu. Por um momento

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

permaneceu silencioso, depois balançou a cabeça devagar.


— Não sinto nada.
Em outras circunstâncias, Abby teria dado de ombros e admitido que devia ter se
enganado, imaginado coisas. Um arrepio não era tão importante assim. Nem era uma
ocorrência inusitada. Mas as circunstâncias eram incomuns, e não podia se dar ao luxo
de ignorar os instintos.
— Acho que é a mesma coisa que nos atacou na casa de Viper.
Ele grunhiu.
— Onde?
— Na nossa frente. E atrás de nós.
Dante olhou em volta antes de puxá-la para o meio das árvores.
— Vamos por aqui.
Abby não tinha nenhuma intenção de discutir. Com o coração aos saltos e a boca
seca, ela pensou que poderia ir correndo até Chicago, se fosse necessário.
Eles corriam pela escuridão, Dante em seu habitual e elegante silêncio, Abby o
seguindo com a sutileza de um elefante com uma bala de tranqüilizante cravada no
traseiro. Os arrepios persistiam, apesar da fuga, em alguns momentos mais
pronunciados, em outros, quase inexistentes. Mas não precisava do instinto para saber
que eram perseguidos. Os mortos-vivos já não tentavam mais disfarçar sua presença, e
os perseguiam fazendo ainda mais barulho que ela.
Ofegante, ignorando a dor causada por cortes e arranhões provocados por galhos
mais baixos, ela pensou por um instante em como cadáveres podiam se mover com
tanta velocidade.
Dante parou de repente. Surpreendida, Abby se chocou contra as costas dele.
— Que droga! — ela resmungou ofegante. — Por que parou?
Os olhos prateados brilharam na escuridão.
— Não estou gostando disso.
— Eu também não gosto de correr, mas acho que vou gostar ainda menos de ser
alcançada por essas... Coisas.
— Exatamente.
— O quê?
— Eles poderiam ter nos cercado, impedido a fuga. Por que não fizeram isso?
— Porque seus cérebros também estão mortos?

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— Sim, eles morreram, mas são controlados por alguém. Alguém que está vivo!
— E isso quer dizer...
— Que estamos sendo manipulados. Conduzidos, entende?
— Ai, meu Deus... O que vamos fazer?
— Temos duas opções: ficamos e lutamos, ou tentamos escapar.
— Eu voto na segunda opção.
— Então... Vamos!— Dante a beijou nos lábios e a jogou sobre um ombro como um
saco de batatas. — Segure-se, amor!
Abby sufocou o grito de surpresa. Era melhor ser carregada do que ter que
correr, mas o balanço a deixava meio enjoada. Fechando os olhos, ela lutou contra a
náusea e tentou se concentrar em qualquer coisa que não fosse o chão passando
depressa.
Abriu os olhos de novo, esperando se sentir melhor.
Terrível engano.
Um grito brotou de sua garganta quando ela viu os cadáveres putrefatos se
aproximando.
Dante saltou sobre uma árvore caída e, com uma violência que fez seus dentes se
chocarem uns contra os outros, ele a colocou no chão, atrás dele.
— Fim da linha — anunciou com tom neutro, as mãos fechadas prontas para
atacar.
Abby tentava engolir. Havia uma dúzia de zumbis caminhando na direção deles.
Felizmente, estava escuro demais para poder ver mais que contornos. Já era sufi-
cientemente terrível ser atacada por mortos-vivos sem ter de saber como eles haviam
encontrado a morte.
— Parece que agora só temos a primeira alternativa. Lutar — ela gemeu.
O som de um galho se partindo atrás dela a assustou.
Instintivamente, ela girou sobre os calcanhares. E, também instintivamente,
gritou ao ver a estaca que cortava a noite escura arremessada diretamente contra sua
cabeça.

Dante sabia que ia morrer na floresta.


Era um vampiro, não um super-herói. E nem um super-herói poderia derrotar uma
dúzia de zumbis e o feiticeiro que ele sabia estar escondido entre as árvores.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

Mas, mesmo sabendo que não poderia vencer todos eles, poderia ao menos
destruir alguns e abrir caminho para a fuga de Abby.
Era um risco, mas era a única chance que tinham. Já havia conseguido abrir
caminho por entre a primeira fileira de atacantes, e lutava desesperadamente para
chegar ao outro lado do batalhão de mortos-vivos, quando o feiticeiro surgiu diante
dele. Com a mão erguida, e antes que Dante pudesse escapar, ele lançara um
encantamento que o empurrara para o poço sem fundo da escuridão.
Quando acordou, Dante estava acorrentado ao chão de pedra fria.
Estava vivo, e não estava sozinho. Não havia morrido. Mas... E Abby?
Concentrado, tentou localizar sua presença. Nada. Nem mesmo o familiar poder
da Fênix podia ser detectado. Se tivesse um coração, ele teria parado de bater, Com
grande esforço, Dante conteve o pânico.
Não podia perder o controle. Não quando ainda não sabia se Abby estava mesmo
morta. Se havia a mais remota chance de ela estar viva, precisava resgatá-la. Só
quando não houvesse mais esperança ele se entregaria ao prazer de destruir
violentamente tudo e todos que encontrasse em seu caminho. Dedos delicados e
femininos tocaram seu peito.
Dante rangeu os dentes.
Houvera um tempo em que teria considerado a carícia um convite ao prazer. Um
tempo em que um simples olhar o teria despertado. Agora, porém, mal conseguia
disfarçar a repulsa.
Havia algo de pegajoso e possessivo nos dedos que o tocavam. E, mais importante,
não eram os dedos de Abby.
— Ele é tão belo — comentou uma voz próxima de seu ouvido.
Dante permaneceu imóvel e de olhos fechados.
— Pare com isso, Kayla — criticou outra voz.
— Qual é o problema, Amil? — a mulher provocou com tom debochado. — Não é
errado querer brincar com um brinquedo novo e bonito, é?
— Caso tenha esquecido, esse brinquedo morde.
— Não se eu o mantiver acorrentado. — Os dedos tocaram os botões da calça de
Dante. — Além do mais, o perigo representa metade da diversão.
— Você é doente; sabe disso, não é?
— Todos somos, seu idiota, ou não idolatraríamos o Príncipe. Eu sou simplesmente
honesta sobre minhas perversões. E esta criatura pode fazer até a mulher mais

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

perversa gritar de prazer.


Dante tinha toda intenção de fazer a mulher gritar, mas prazer não faria parte
da brincadeira. Não para ela, pelo menos.
— O mestre disse que devemos deixá-lo em paz.
— O que o mestre não sabe...
— Não seja estúpida! O mestre tudo sabe.
Ah. Dante arquivou a informação. Esse mestre era o poder que podia sentir ao
longe. E era tão odiado quanto temido. Uma informação que ele poderia usar em pro-
veito próprio.
— Uma pena... Imagino que aquela vadia que capturamos já se divertiu muito com
vampiro.
— A vadia vai ser queimada no altar. Tenho certeza de que ela trocaria de lugar
com você, se pudesse. Se você quiser...
Eles falavam sobre Abby. Ela estava viva. Era difícil conter o suspiro de alívio.
Não era tarde demais. Nada mais importava. Dessa vez não a desapontaria. Não
fracassaria. Mal notava a mão que agarrava seu membro.
— Ter isto aqui entre as minhas pernas poderia quase compensar a troca.
— Você nunca pensa em outra coisa, Kayla?
— Já faz tempo...
— Uma hora?
Ela riu.
— Bem, não faz tanto tempo assim. Ainda não considerei seu brinquedinho
minúsculo uma alternativa, então...
— Como se eu fosse arriscar minha saúde com uma vagabunda que já esteve com
todas as bestas e todos os demônios deste lado do Mississipi. Por que não se ocupa
com alguma coisa útil? Vá verificar se o mestre tem tudo de que precisa para a
cerimônia.
As unhas passearam pela coxa de Dante como se a quisessem rasgar.
— Não vai fazer nada com ele, vai? Não quero voltar e encontrar uma pilha de
cinzas no lugar do bonitão.
— O mestre o quer vivo e intacto. — Não havia como não notar o desdém na voz
do homem. Era evidente que ele se considerava mais adequado ao papel de amo do que
ao de servo. — Sem dúvida, o Príncipe terá algo a dizer sobre tudo isso quando

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

retornar.
— Talvez eu consiga convencê-lo a me deixar brincar um pouco antes de
transformá-lo em cinzas.
— E talvez ele nos faça o grande favor de transformar você numa cabra.
— Eurmco!
— Vadia!
Concluída a troca de ofensas infantis, Dante sentiu os dedos acariciando seu
membro pela última vez, antes de a repugnante criatura se levantar e sair. Queria
apagar do corpo a lembrança daquele toque, mas era suficientemente sensato para
resistir ao impulso. Contou até cem. Queria se certificar de que estava mesmo sozinho
com o homem antes de revelar que estava acordado e totalmente consciente.
Finalmente, certo de que a mulher não ia voltar para uma rapidinha com o vampiro
inconsciente, Dante entreabriu um olho, apenas o suficiente para tentar enxergar o
local onde estava.
Não havia muito para ver.
Como suspeitara, estava em um cômodo vazio, uma espécie de câmara cavada no
subterrâneo profundo. As correntes que o imobilizavam estavam presas ao chão, e uma
única tocha presa à parede perto da entrada iluminava o caminho para o corredor do
outro lado.
Não havia cadeiras, pedras, nem mesmo um galho que ele pudesse usar para
tentar abrir os elos da corrente.
Ele espiou o mortal magro e surpreendentemente jovem vestido com um manto
escuro. Não podia determinar quais eram seus poderes, mas percebia a aura negra da
magia que ele recebia de seu senhor. Era uma força bruta, não orientada, mas Dante
não pretendia subestimá-la. Como também não pretendia subestimar a estaca que ele
empunhava.
Precisava encontrar Abby. E não podia morrer antes de salvá-la.
Fingindo um gemido de dor, ele abriu os olhos devagar. Do outro lado, o homem
agarrou a estaca com mais força, embora tentasse se mostrar indiferente.
— Ah, então o morto desperta! Sugiro que não se mova, ou vai ter o coração
atravessado por esta estaca.
Dante ergueu o corpo e apoiou as costas à parede, mantendo as presas
escondidas.
— Não faça movimentos bruscos — insistiu o rapaz.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— Por que eu tentaria? Estou acorrentado. Sem lugar para onde ir, pelo menos
por enquanto.
— Eu vi quando destruiu seis dos meus servos para tentar salvar a mulher.
Seis? Havia contado pelo menos nove!
— Eu não tive escolha. A culpa disso é daquelas feiticeiras.
— E elas vão tentar induzi-lo a salvar a mulher das garras do mestre.
Dante fingiu considerar a declaração por um momento.
— Na verdade, não acredito nisso.
O homem deu um passo em sua direção, mas ainda estava longe demais para Dante
poder cravar os dentes nele.
— O que quer dizer?
— Não sei o que há de diferente nas paredes dessa caverna, mas é a primeira vez
em três séculos que a maldita Fênix não tem suas garras em mim. Acho que lhe devo
essa, parceiro. E um vampiro sempre paga suas dívidas. Sempre!
— Está dizendo... Que a maldição terminou?
— Quem sabe? Só estou dizendo que não sinto a menor urgência de socorrer
aquela vadia que me aprisionou.
— Não acredito em você.
— Não importa. Ela está morta?
O homem lançou um olhar revelador para a entrada da sala.
— Ainda não.
Então, ela devia estar perto. Tinha de conter o entusiasmo, porque, a menos que
se livrasse das correntes, a localização de Abby não teria a menor importância.
Com esforço, ele manteve o ar de curiosidade distante.
— Ainda não? O que estão esperando? Ah, é claro. Vão oferecê-la ao Príncipe, não
é?
O tom de deboche provocou uma imediata reação de interesse no humano.
— Quando chegar a hora.
— Vou lhe dar um conselho, garoto. Não espere demais. Há uma infinidade de
criaturas lá fora dispostas a tudo por essa oportunidade. Elas não hesitariam em ma-
tar você para poder fazer a oferenda ao Príncipe. Quanto antes oferecer o sacrifício,
mais depressa terá a glória suprema.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— A glória pertence a meu mestre — o rapaz declarou com um rubor intenso.


— Mestre? Está me dizendo que capturou a Fênix e a entregou para outra pessoa
colher os frutos doces da recompensa? Você não tem cérebro, menino? Ou é coragem
que lhe falta? Onde está sua virilidade?
O rubor ganhou intensidade, e o rapaz ergueu a estaca num gesto ameaçador.
— Cuidado com o que fala, vampiro. Adoraria enfiar esta estaca no seu coração.
Dante riu. Sabia que o atingira. A ambição frustrada do garoto era tangível no ar.
— E eu que pensei ter sido alquebrado pelas malditas bruxas. Pelo menos não me
deixei transformar num otário!
Os olhos claros brilharam furiosos, mas por trás da raiva havia uma ânsia fria que
ele não conseguia disfarçar.
— Terei minhas recompensas.
— Migalhas jogadas pelo grande mestre? Patético.
— Cale a boca!
Dante cruzou os braços, amaldiçoando as correntes.
Odiava correntes. Elas despertavam nele a vontade de morder alguma coisa. Em
vez disso, ele sorriu com deboche e ironia.
— Você pode ter tudo. Poder, glória, um lugar ao lado do Príncipe... Por outro lado,
talvez goste de ser um... Ajudante. Notei que muitos humanos preferem ser cordeiros
a assumir o risco de ser lobo.
— Sei o que está tentando fazer, e não vai funcionar.
Oh, mas já estava funcionando.
— Escute, não me interessa quem vai matar aquela maldita Fênix, desde que ela
morra. — Dante fingiu inspecionar as unhas. — Tudo que me interessa é sair daqui
livre.
O rapaz riu.
— Acha que o Príncipe vai deixar você ir sem se vingar?
— Por que ele desejaria vingança?
— Você protegeu o Cálice.
— Fui compelido pelas bruxas. Acha que gostei de viver acorrentado como um
cachorro?
— Duvido que ele seja tão compreensivo.

89
Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— Mesmo assim, aposto que minhas chances de sobreviver a esta noite são muito
maiores do que as suas.
Um silêncio chocado invadiu o local. Era evidente que o idiota nem havia
considerado o custo de devolver ao mundo o poder negro. Típico. Muitos feiticeiros
consideravam apenas as recompensas, nunca os sacrifícios a elas atrelados.
E sempre havia um sacrifício.
— Do que está falando agora? — ele murmurou.
Dante o encarou.
— Sabe que o Príncipe não pode sobreviver nesse mundo sem alimento? Ele
precisa de sangue. Muito sangue. Felizmente, não faço parte de suas opções
nutricionais.
— A mulher que abriga a Fênix será o sacrifício.
— Abby? Ela não é mais do que um petisco! Não é suficiente nem para mim.
— Eu... — Ele hesitou. — Ainda há os criados.
Dante riu.
— Para o seu bem, espero que sejam muitos. Caso contrário, vai acabar seus dias
deitado sobre o altar com uma faca enterrada no coração.
Agarrando a estaca, o mortal caminhou até a abertura estreita. Longe de Dante,
mas evidentemente perturbado pela idéia de altares, facas e corações arrancados.
— Está insinuando que devo libertá-lo para que me ajude a depor o mestre?
— Eu? Por que ia querer ajudá-lo? Já disse, não me interessa quem vai matar a
vadia. Eu fico livre de qualquer jeito.
O discípulo nervoso se aproximou novamente de Dante. Um tique no olho esquerdo
traía a intensidade das emoções contidas com grande esforço.
— Não creio que esteja tão indiferente quanto quer me fazer acreditar. Suponho
que tenha sentimentos pela mulher.
Dante arregalou os olhos numa incredulidade zombeteira, reconhecendo para si
mesmo que o sujeito não era tão idiota quanto parecia ser.
— Sou um vampiro, seu tolo. Não tenho sentimentos por nada. Por ninguém.
Reconheço... — Ele parou.
— O quê?
— Ela é estupenda na cama — disse, exibindo total desprezo pelos mortais.
Precisava convencer o humano de que não moveria um dedo para salvar Abby, ou per-

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

deria a pouca vantagem que tinha. — As coisas que ela sabe fazer com a língua... Devo
admitir que gostaria de repetir a experiência antes de ela ser jogada aos pés do
Príncipe. Você devia experimentar, também.
— Nem todos somos animais.
— Ah... Entendo. Prefere os homens? Ou algo mais exótico, talvez? Tenho um
amigo que pode conseguir qualquer coisa, de...
O rapaz cuspiu no chão.
— Imundo!
— Posso ser imundo, mas não sou eu quem vai servir de aperitivo para o Príncipe.
Mande minhas recomendações quando estiver com ele... Se tiver tempo para isso.
Perto de perder o controle, o homem se adiantou com passos largos.
— Cale a boca, ou mesmo o farei calar!
— Como quiser.

Quando Abby acordou, ela sentiu um forte alívio simplesmente por estar viva.
Nada podia ser pior do que ser devorada por zumbis transtornados. Nada que ela
conseguisse pensar de imediato, pelo menos.
Havia sido levada da floresta para uma espécie de caverna escura, e estava
amarrada a um mastro perto de um braseiro que produzia uma fumaça de aroma
desagradável.
E não estava sozinha.
Teria gritado se não houvesse um pano amordaçando sua boca.
Havia um homem diante dela. Pelo menos parecia ser um homem. Depois dos
últimos dias, preferia não tirar conclusões precipitadas quanto a espécies e denomina-
ções. E havia algo de não humano em sua pele pálida e na cabeça raspada.
E as roupas...
Que tipo de homem vestia um camisolão com um medalhão daquele tamanho?
A criatura tocou seu rosto. Abby recuou, enojada pela sensação fria e pegajosa.
Onde estava Dante?
Devia estar perto. Talvez já houvesse planejado o resgate.
Preferia nem pensar na possibilidade de ele estar ferido, ou... Morto.
Ela encarou o homem que a estudava como se fosse um inseto sob a lente de um
microscópio.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— Tanto poder... — ele murmurou com tom rouco. — Ela vibra com a força da
própria energia. É uma pena ter de destruí-la.
Destruir? Então era isso. Estava amarrada para esperar pela morte.
Maldita Selena e aquelas bruxas. Seria servida como um peru de Ação de Graças
para o tal Príncipe.
Depressa, Dante. Depressa, por favor!
Mais um rosto surgiu diante dela. Era uma mulher pálida, com cabelos escuros e
pouca coisa mais velha que ela. Talvez fosse atraente, não fosse pelo brilho antinatural
em seus olhos castanhos.
— Ela não parece ser tão perigosa... — a mulher comentou.
— Você só enxerga com os olhos, Kayla. Estou cansado de preveni-la contra essa
fraqueza.
— Não importa. Logo ela vai estar morta.
Abby não gostou do tom arrogante da mulher. Furiosa, ela imaginou se não
poderia fritar a cadela, como havia feito com os zumbis.
— Sim, logo — concordou o careca esquisitão. — A invocação do senhor das trevas
já começou.
— Devo ir buscar Amil e o vampiro?
Dante. Abby fechou os olhos por um instante, tentando disfarçar o alívio. Ele
estava por perto. E a qualquer momento passaria por aquela porta.
Sem se dar conta do perigo, o homem sorria.
— Ainda não. Estou esperando o momento apropriado para... Recompensar meu leal
discípulo.
Houve um ruído do outro lado do cômodo de pedra, e Abby moveu a cabeça para
as duas formas em pé em um canto. Sombras. Criaturas cobertas da cabeça aos pés
por um longo manto com capuz. Melhor assim. Não acreditava mesmo que fossem
humanos.
A mulher não parecia muito impressionada, mas moveu a mão para as testemunhas
silenciosas.
— Não devia mandar embora essas... Pestes? Não vai querer que eles estejam aqui
quando o lorde retornar.
— A presença deles também é essencial.
— Por quê?

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— Logo você vai entender.


— Odeio essa espera.
— A paciência sempre traz recompensas. — Ainda olhando para Abby, o homem
ficou repentinamente tenso. Depois de um instante, ele olhou para a porta, para as
figuras sombrias.
A mulher franziu a testa.
— O que é mestre?
— Sinto uma... Perturbação. Volte para junto de Amil.
— Agora? E se o...
— Eu disse para voltar para junto de Amil.
Abby e a mulher empalideceram ao notar a mudança em seu tom de voz. Era a voz
de um homem capaz de matar sem refletir ou hesitar.
— E claro — ela aquiesceu, retirando-se apressada. Como se não lembrasse mais a
presença de Abby,
O homem olhou para as chamas que tremulavam no braseiro.
— Nada pode me deter. Não agora.
Dante estava esperando pela mulher. Ela passou por ele sem notá-lo, e quando
percebeu já era tarde demais. O vampiro havia cravado os dentes em seu pescoço. Era
incapaz de beber sangue humano, graças às bruxas, mas isso não o impedia de rasgar
sua garganta.
Sem sequer olhar para baixo, ele soltou o corpo sem vida e voltou às sombras
para observar seu arrogante cúmplice e acompanhar sua entrada no largo cômodo ao
final do túnel.
Havia sido brincadeira de criança convencer Amil a soltá-lo das correntes. O mal
sempre se volta contra si mesmo, e o idiota ambicioso não era estúpido. Sabia que seu
mestre não hesitaria em entregá-lo de bandeja como jantar para o Príncipe. Ele faria o
mesmo, se tivesse uma chance.
E, felizmente, seu orgulho incomensurável o convencia de que era capaz de
controlar um vampiro.
Um engano que Dante estava disposto a incentivar. Pelo menos enquanto ele
distraísse o misterioso mestre e servisse de ponte para levá-lo até Abby.
Caso ele se colocasse em seu caminho, Dante o mandaria mais cedo para o inferno.
Silencioso como nenhum humano podia ser, ele seguiu Amil e o viu colocar-se
diante de um homem de vestes pesadas e longas. O mestre. Podia sentir o poder que

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

envolvia o aprendiz.
Dante buscou refúgio nas sombras que cercavam a caverna. Não queria
confrontar diretamente o mágico, pois havia um grande risco de ser morto antes de
libertar Abby.
Ela estava amarrada a um mastro. Até então, evitara olhar para ela. Era
suficiente saber que estava viva e não fora ferida. Ter de reconhecer seu pavor só o
distrairia quando precisava desesperadamente manter a mente focada.
Rangendo os dentes com uma fúria fria, ele continuou se movendo pelas sombras,
aproximando-se dos dois criados que permaneciam guardando a passagem, poucos
passos distantes dele.
Do outro lado, Amil finalmente se dirigia ao sombrio mago.
— Mestre.
— O que faz aqui? Onde está Kayla?
Estúpido ou arrogante demais para avaliar corretamente a própria situação, o
jovem mago riu.
— Na última vez que a vi, ela era rasgada ao meio por um vampiro faminto e
furioso:
Houve uma pausa ameaçadora.
— E você deixou a besta escapar?
— E só uma maneira de falar.
Colocando-se diretamente atrás dos servos, que ainda não haviam notado sua
presença, Dante usou os braços para imobilizá-los, enlaçando-os pelo pescoço. Com um
movimento preciso, ele torceu a cabeça de cada um deles até ouvir um estalo final, e
então os soltou no chão sem fazer barulho.
O mestre reagiu irado.
— Seu idiota! Todo estúpido e ganancioso.
— Não, não sou tolo. Não o bastante para me dobrar ainda mais e deixá-lo brilhar
em sua glória.
Houve um silêncio chocado, como se o mestre não esperasse que o discípulo
houvesse antecipado o próprio destino.
— Ah, talvez não seja tão tolo, afinal. Diga-me, Amil, o que pretende fazer?
— O que devia ter feito desde o começo. Matá-lo e oferecer a Fênix eu mesmo ao
senhor das trevas.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

O mestre gargalhou.
— Vai me matar? Você?
— Está fraco depois da batalha contra as bruxas.
Dante parou para ouvir com mais atenção.
Então, o mago era responsável pela carnificina que encontrara. Quanto antes
tirasse Abby daquela caverna, melhor.
Protegido pelas sombras, ele começou a se aproximar do mestre.
— Não pode nem reunir o poder necessário para um encantamento de invocação —
Amil continuou provocando.
Sorrindo, o outro agarrou o medalhão em seu pescoço.
— Não estou tão fraco quanto imagina. — Apontando para o discípulo, o mestre
entrou em ação.
Abby sabia que uma batalha mística se anunciava entre os dois homens de roupas
estranhas. Por isso, não ficou tão surpresa quando o mais novo foi lançado contra a
parede do outro lado da câmera, só para se levantar e investir contra o adversário.
Mas sua atenção não estava no duelo de magos.
Havia sentido a presença de Dante no momento em que ele entrara na sala. Uma
alegria incrível a invadira quando o vira se esgueirando pelas sombras.
Ele estava vivo, livre, e muito perto de tirá-la daquele lugar horrível.
Mas a alegria desaparecera quando, ao passar por um trecho iluminado pela tocha,
ele exibira a camisa suja de sangue. Vagamente, lembrou-se do relato do jovem sobre
um vampiro ter dilacerado Kayla, mas não havia ligado a notícia a Dante.
Ele era a morte silenciosa e ágil. Um matador implacável que perseguia a presa
sem misericórdia.
Os olhos prateados brilhavam no rosto pálido de traços firmes, duros. Ali estava
o vampiro sobre o qual ele a prevenira.
O demônio que existia por trás da imagem de homem.
Talvez fosse ingenuidade, mas não acreditava que ele pudesse feri-la. Não
intencionalmente.
Os dois homens continuavam lutando com suas armas inusitadas, coisas como raios
de luz e estrondos incríveis, mas Abby mantinha os olhos fixos no vampiro que se
aproximava.
Enquanto pudesse vê-lo, saberia que estava segura.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

Uma certeza ridícula, talvez, mas o que uma mulher apavorada e às portas de ser
sacrificada podia fazer?
Dante estava cada vez mais perto. Os olhos cor de prata a hipnotizavam, como se
a compelissem a manter a calma.
Sim, certo.
Só as cordas que a prendiam ao mastro impediam que caísse no chão gritando de
pavor.
Evitando o palco da batalha, Dante se movia pelas sombras. De repente ele
desapareceu atrás dela, e Abby quase desfaleceu. Não podia mais vê-lo. E se ele
tivesse ido embora? E se houvesse mais agentes do Mal escondidos e...
Os dedos frios tocando seu pulso puseram um fim nos pensamentos caóticos.
Abby teria chorado de alívio se não soubesse que ainda estavam muito longe da sonha-
da segurança.
As cordas caíram no chão. Seus braços formigavam, resultado do retorno da
circulação do sangue pelas veias. Ela sentiu os lábios de Dante roçando sua orelha en-
quanto ele tentava remover a mordaça.
— Não diga nada — ele ordenou antes de deixar cair a mordaça.
Abby respirou profundamente antes de se afastar do mastro e cair nos braços de
Dante. Ele a abraçava com força, como se sentisse que ela poderia cair sem seu apoio.
Seu estado enfraquecido, porém, não o impediu de carregá-la para as sombras do
outro lado do espaço circular.
Estavam alcançando a estreita abertura, quando um grito lancinante cortou o ar
atrás deles.
— Não! — clamou o aprendiz. — Eu me rendo! Eu...
Houve um horrendo som de gorgolejar e depois um sibilo que podia ser de fogo
marcando carne.
Dante jogou Abby sobre o ombro e correu pela escuridão.
Dessa vez, ela nem notou a náusea causada pelo movimento. Havia algo de positivo
no medo que entorpecia. Todo o resto perdia a importância.
Movendo-se pela escuridão com uma rapidez que desafiava as leis da física, Dante
a carregava enquanto ela rezava para todos os deuses que conseguia lembrar.
O tempo não tinha mais significado, mas a certa altura, ela sentiu no rosto um
sopro de ar fresco.
Estavam fora da caverna.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

E, melhor de tudo, não eram perseguidos.


Ainda assim, Dante corria. Como se nem sentisse seu peso, ele atravessava um
cemitério dominado pelo mato e passava por uma igreja abandonada. Abby pensou ter
visto um aglomerado de casas abandonadas, mas não podia ter certeza de nada.
Só depois de um bom tempo, quando já estavam longe da caverna, Dante parou e a
pôs no chão, mantendo um braço em torno de sua cintura para ampará-la.
— Está ferida? — ele perguntou.
Tremendo, Abby tentou relaxar. Estava com Dante. O belo e incrível vampiro que
acabara de salvar sua vida.
— Nada que vinte anos de terapia não possam curar — ela respondeu com voz
embargada. — Quem eram aqueles malucos? Demônios?
— Eram humanos. Discípulos mortais.
— Discípulos... de quem?
— São adoradores do Príncipe. Magos.
Magos? Mas... Eles não eram velhinhos, com olhos brilhantes e barbas brancas?
— Bem, isso explica a magia, eu acho.
— Magia mais poderosa de que um mero humano deveria ser capaz de realizar. Foi
o homem mais velho que atacou as bruxas.
— Meu Deus... Ele me ia me servir como alimento para aquela... Sombra.
— Sim. E com a Fênix destruída, o Príncipe voltaria a caminhar livre pelo mundo.
— Um mago. Simplesmente perfeito. E ele deve estar aliado aos demônios e
zumbis que nos perseguem...
— Espero que não, pelo menos de imediato. A batalha com as bruxas e o jovem
Amil deve ter enfraquecido o velho mago. Não creio que ele esteja ansioso para me
enfrentar. Não agora.
— E... Acho que não.
— Eu avisei, Abby. Sou um vampiro, um predador. Nada pode mudar minha
natureza.
— Eu sei — ela disse, tocando-o no rosto.
— E não tem medo?
— Talvez um pouco.
— Eu jamais faria mal a você. Aconteça o que acontecer, quero que saiba que
nunca a machucarei.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— Não é isso que eu temo.


— O que é, então?
— Eu... Compreendi que você estava certo. Somos muito diferentes. Por Deus, não
sei nem se somos da mesma espécie!
Dante a enlaçou pela cintura.
— Somos diferentes, mas estamos juntos. Pelo menos até a Fênix poder ser
transferida para outro Cálice. Confia em mim, Abby?
Não houve nenhuma hesitação.
— Sem nenhuma dúvida.
— Oh, Abby... — Ele a beijou nos lábios.
Ela o abraçou. Precisava dele. De sua força, de seu toque, seu calor, seu conforto.
Um beijo, e já começava a esquecer o horror das últimas horas.
— Não imagina há quanto tempo não sou tratado como algo mais que um animal
raivoso...
Com o coração apertado, ela beijou os lábios de contorno tentador.
— Sinto muito — murmurou. — Ninguém merece ser acorrentado, aprisionado.
Juro que farei tudo o que puder para libertá-lo.
Ele a beijou, e tudo deixou de ser importante. Seria capaz de passar a eternidade
naqueles braços fortes.
Passara meses fantasiando com esse homem. Agora que sabia que tipo de amante
ele era, desejava-o ainda mais.
Ele se afastou, relutante.
— O que estou fazendo? — murmurou ofegante, passando as mãos na cabeça. —
Vamos sair daqui, antes que eu consiga nos fazer capturar novamente.
Dante a pegou pela mão e levou por entre as árvores, censurando-se pela breve
distração.
Abby também se censurava pelo deslize. Como pudera esquecer o mago
enlouquecido que planejava incluí-la no cardápio do jantar do tal Príncipe? Oceanos não
seriam suficientes para se sentir bem longe dele.
Mas também sentia certa frustração. Pelo menos uma vez queria ficar sozinha
com Dante sem a ameaça da morte pairando sobre sua cabeça.
Queria desfrutar de algumas horas de paz e conforto com ele.
A frustração a deixava irritada, carrancuda.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

Eles seguiram em silêncio pelo que pareceu uma eternidade. De vez em quando,
Dante insistia em carregá-la para que progredissem mais depressa, mas odiando a
sensação de impotência, ela insistia em caminhar atrás dele. Mesmo que tivesse de
tropeçar em todos os galhos que cobriam o chão da floresta. Maldita natureza!
Finalmente, ela começou a se perguntar se Dante planejava fazê-la andar em
círculos até o final da noite.
— Sabe para onde estamos indo?
— Vamos procurar ajuda — ele respondeu. — Na próxima vez em que encontrar
aqueles zumbis, quero ter alguma coisa que vai assustar os desgraçados e mandá-los de
volta para o túmulo.
— Ótimo plano. E onde está essa ajuda?
— Em Chicago com Viper?
— Bem, ele parece ser do tipo que tem fascinação por coisas que podem assustar
zumbis.
— Você nem imagina. — Ele parou. Haviam ultrapassado a área das árvores e
estavam em campo aberto. — Espere.
— Por favor, não me diga que estamos perdidos.
— Eu nunca me perco.
Abby revirou os olhos.
— E claro! Vampiro ou mortal, um homem nunca se perde...
Dante sorriu.
— Por aqui — disse, retomando a caminhada.
— Tem certeza? Não está só me fazendo andar até encontrarmos o carro por
acaso?
— Você já nasceu irritante, ou desenvolveu essa capacidade só para me
aborrecer?
Abby sorriu. Não podia negar que sentia certo prazer em provocá-lo.
— Não se julgue mais importante do que é. Eu sempre fui irritante.
— Eu acredito. — Ele apontou para os prédios abandonados à esquerda. — Aí está.
Abby não conteve um suspiro aliviado ao reconhecer a velha fábrica abandonada.
Sabia que estavam bem próximos do carro de Viper. Oh, o que não daria para
descansar as pernas!
— Não devia fazer tanta careta. Não é atraente.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

Dante riu. Estavam ao lado do automóvel, e ele se apoiou sobre o capo banhado
pelo luar, com a camisa meio aberta e o cabelo em torno do rosto perfeito, ele era
simplesmente... Irresistível.
Cruzando os braços sobre o peito, ele sorriu.
— Acho que me deve um pedido de desculpas por ter duvidado dos meus
extraordinários poderes, mesmo que por um minuto.
— Que tipo de desculpas está esperando?
— Bem, tenho algumas idéias. Infelizmente, todas incluem uma cama macia e velas
perfumadas. E não tenho nada disso aqui comigo.
— Descarado — ela o acusou.
— Descarado e morto, se não nos apressarmos — ele disse, olhando para o céu. —
Chicago não é exatamente aqui ao lado, e logo o dia vai chegar.
Que horas seriam? Abby não conseguia nem imaginar. Para ela, a manhã chegava
quando o despertador tocava, normalmente cinco, seis vezes.
— Se está preocupado, posso dirigir, enquanto você se esconde no porta-malas.
— Acho que não.
— Por que não?
Era uma solução perfeita, não era?
Não. Ele era um homem, apesar de ser vampiro.
E, como qualquer homem, preferia morrer a entregar o volante a uma mulher.
— Prefiro enfrentar o risco de ser frito pelo sol.
— Está dizendo que uma mulher não é capaz de dirigir tão bem quanto um homem?
— Estou dizendo que não vou entrar no porta-malas, a menos que você vá comigo.
Além do mais, se Viper encontrar um arranhão no carro, viraremos cinzas.
— E por que acha que eu arranharia...
Dante a calou com um beijo, puxando-a contra o peito.
— Podemos continuar essa conversa no carro? — ele perguntou em seguida,
mantendo a boca bem perto da dela.
— Ah, nós vamos continuar — ela ameaçou, mostrando que não se deixaria
manipular com tanta facilidade. — Pode contar com isso.
No final, a promessa da continuação da conversa tornou-se uma ameaça vazia.
Abby estava tão cansada, que dormiu antes mesmo de Dante chegar à interestadual.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

Pisando fundo no acelerador, ele conseguiu chegar ao covil de Viper bem antes do
amanhecer. Depois de estacionar o automóvel na área particular atrás do edifício, ele
carregou Abby para o quarto que haviam ocupado anteriormente.
Estava exausto, não só pela noite atribulada, mas pela aproximação do sol. Mesmo
assim, ele a deixou dormindo na cama larga e aconchegante e foi procurar por Viper
em seus aposentos particulares.
Encontrou-o estendido sobre uma antiga espreguiçadeira, vestindo um robe de
brocado bordado com fios de ouro. O quarto teria feito muitos colecionadores
babarem de inveja.
Sobre o tapete tecido à mão, móveis entalhados e raros ocupavam espaços de
honra. As peças já haviam pertencido a um czar russo. As paredes eram decoradas por
finas tapeçarias, as portas tinham revestimento de ébano e ouro, e os castiçais eram
cravejados de safiras e pérolas.
Mais admirável era a coleção de obras de arte acondicionadas em redomas
climatizadas. Muitas eram dadas por perdidas pelo mundo, algumas haviam sido
completamente esquecidas. Tudo ali era deliberadamente disposto para criar uma
beleza que ultrapassava os mais loucos sonhos de qualquer sultão ou magnata.
Cercado por móveis apropriados aos mais finos palácios e bebendo um conhaque
cuja garrafa custava mais que uma pequena propriedade rural, Viper era a imagem do
aristocrata mimado e fútil.
Porém, quando se notava o brilho frio e calculista em seus olhos escuros, a
imagem de hedonismo indolente desaparecia.
Um brilho que se tornava mais pronunciado na medida em que ele ouvia o relato de
Dante sobre o que havia acontecido naquela noite, desde que deixaram Chicago.
Em pé, Viper o fitou com expressão sardônica.
— Abominações, magos do mal, feiticeiras mortas... Dante, você sabe como
escolher as mulheres com quem se envolve!
— Eu não escolhi Abby. A Fênix a escolheu.
— Percebe que perdeu uma excelente oportunidade de se livrar das suas
correntes?
Dante sorriu. As correntes que o prendiam a Abby jamais seriam partidas. Com ou
sem Fênix.
— Permitindo que Abby fosse sacrificada? De jeito nenhum.
— A situação é pior do que eu imaginava, meu amigo. Conheço uma sacerdotisa
vodu que conhece um feitiço capaz de...

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— Obrigado, mas não é necessário. Na verdade, só preciso daquelas bruxas.


— E tem certeza de que algumas sobreviveram?
— Sim, algumas. Segui o rastro delas até a garagem.
— Elas podem estar em qualquer lugar.
— Não irão além de Phoenix. Mesmo que não conheçam a localização precisa ou
mesmo a identidade do novo Cálice, elas sentem sua presença. Infelizmente, não tenho
como entrar em contato com elas.
— Eu não diria que isso é uma infelicidade. Na verdade, lamento que o mago não as
tenha dizimado completamente.
Dante teria compartilhado desse sentimento, mas depois de Abby ter sido
transformada no Cálice... Agora sua única preocupação era encontrar meios de livrá-la
do fardo.
— Já discutimos esse assunto, Viper.
— E você conhece minha opinião sobre ele.
— Detalhadamente. Vai me ajudar?
— Você sabe que nem precisa perguntar. Ainda acha que é um tolo, mas estarei
sempre ao seu lado.
— Obrigado.
— Do que precisa?
— Proteção. Alguma coisa pequena, que eu possa carregar, mas forte o bastante
para cuidar dos zumbis.
— Ah, sim... — Viper sorriu. — Tenho exatamente o que me pede. Está no meu
laboratório. — Dante sabia que o laboratório de Viper podia armar exércitos inteiros.
— O que mais?
— Acho que alguém devia ficar de olho no mago. Ele está invocando poderes
esquecidos há séculos. Pode ser um problema.
— Ah, sim. Talvez eu vá visitá-lo. Não encontro um mago decente desde a Idade
Média.
Dante franziu a testa. Via de regra, Viper sempre conseguia evitar os confrontos
pequenos, baratos. Diferente de muitos vampiros, ele não sentia necessidade de
provar sua coragem desafiando todo demônio que atravessava seu caminho. Essa era
uma das razões pelas quais Dante preferia sua companhia a de muitos outros. Mas
havia em Viper uma parte que não resistia a um desafio. Se ele acreditava que existia
alguém capaz de enfrentá-lo e oferecer resistência, ele não hesitava em começar o

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

confronto com armas em punho.


— Seja cuidadoso — Dante o preveniu. — Ele tem truques sujos guardados na
manga da túnica.
Viper riu.
— Dante, ninguém me supera em matéria de truque sujo.
— Eu sei — Dante respondeu, segurando os ombros do amigo ao sentir que os
joelhos fraquejavam.
— Mal consegue manter-se em pé, não é? Vá descansar. Vou providenciar um
guarda para a porta de seus aposentos. Você e sua Abby estarão seguros lá.
Dante assentiu aliviado.
— Você é um bom homem, Viper.
— Espalhe isso por aí, e juro que o fatiarei como um pedaço de bacon, e ainda
deixarei os pedaços fritando ao sol.
— Vou levar seu segredo comigo para o túmulo.
Sentindo o peso de cada um de seus quatrocentos e tantos anos, Dante percorreu
os corredores escuros de volta à suíte. Pelo menos teria algumas horas de descanso.
Ao entrar no apartamento, ele seguiu diretamente para o quarto, mas foi detido
pelo som inconfundível de água corrente.
Um sorriso cansado distendeu seus lábios. Mudando de direção, ele se dirigiu ao
banheiro para apreciar a mulher imersa na vasta banheira de água quente.
Se seu coração ainda batesse, teria parado diante da visão da pele branca
iluminada por velas e caracóis cor de mel emoldurando um rosto delicado. Felizmente,
o restante de seu corpo ainda funcionava bem. Tão bem, que uma determinada parte já
começava a se manifestar. A ereção era dolorosamente pressionada pelo zíper da
calça.
Com clareza perfeita, ele lembrou a sensação de tê-la nos braços, o prazer que
havia experimentado ao penetrá-la.
Ah, como a queria!
Não, precisava dela.
Com um desespero que debochava da mera luxúria.
Despindo-se em silêncio, aproximou-se e se sentou na beirada da banheira.
Abby abriu os olhos.
— Dante — ela murmurou, sem tentar esconder suas deliciosas curvas. — Não ouvi

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

você entrar.
Ele queria beijar cada milímetro do corpo molhado e tentador. Queria mergulhar
entre suas coxas e sentir seu sabor. Queria ver seus olhos brilhando de prazer quando
a penetrasse e a conduzisse ao êxtase.
As mãos tremiam com a força do desejo quando ele tocou sua nuca, sentindo a
suavidade da pele e o calor do sangue pulsante nas veias.
— Pensei que estivesse dormindo — ele murmurou.
— O banho está tão bom, que não consigo deixá-lo.
Dante sorriu.
— Tenho uma idéia que pode ser ainda melhor.
Abby sorriu provocante.
— Ah, não sei... O que pode ser melhor do que ficar relaxando na água quente e
perfumada?
Ele se juntou a ela na banheira. O predador despertava.
Com um grunhido satisfeito, tomou-a nos braços e puxou-a sobre o corpo,
acomodando-a para a cavalgada de luxúria e prazer.
— Vai descobrir mais depressa do que imagina — Dante prometeu, posicionando-a
sobre o membro ereto.
A pele de Abby o fascinada, e ele não tentou resistir ao desejo de beijá-la e
sentir seu sabor. A exploração começou por um seio, e o gemido de prazer dela alimen-
tou o fogo que o consumia.
O animal que residia nele queria simplesmente a posse, a penetração, o alívio
imediato. Havia algo a ser dito sobre um orgasmo rápido, forte.
Mas não com Abby.
Isso não era sexo.
Não era um encontro fortuito.
Era uma união que podia sentir no fundo de seu coração morto.
Contornou o mamilo ereto com a ponta da língua. Ela arfou e segurou sua cabeça
entre as mãos.
— Por favor... — Abby sussurrou.
— E isso que quer, amor? — ele perguntou, sugando o mamilo com avidez.
— Sim.

104
Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

Os dedos agarravam seus cabelos, e ela friccionava sua intimidade de mulher


contra o membro pulsante.
Dante fechou os olhos para saborear o prazer intenso e crescente. Nada havia
sido tão bom! E ainda nem a penetrara.
A água quente os envolvia, as velas tremulavam, e todo o ambiente contribuía para
alimentar as sensações eróticas. Ele ergueu o quadril, usando um dedo para acariciá-la
entre as coxas. Devagar, ia desenhando padrões na pele úmida, simplesmente sentindo
a textura, deliciando-se com a sensação. Podia ficar ali por toda eternidade, ele
constatou com certa surpresa.
Ainda sugando um mamilo, ele encontrou com os dedos o centro do prazer
feminino.
— Dante...
As presas arranhavam a pele macia de um seio, enquanto os dedos a acariciavam
de maneira íntima.
Abby gemeu. Ele ergueu o rosto para poder ver o prazer estampado nos olhos
dela. Como era linda! Um anjo exótico ao alcance de suas mãos.
Com lentidão e grande conhecimento, ele a penetrou com um dedo, Usando o
polegar para continuar afagando a protuberância túrgida.
— Está pronta para mim — Dante sussurrou.
— Não pare — ela suplicou.
— Não há força na terra que me faça parar agora, amor.
Abby acariciou suas costas. Um arrepio de prazer o fez tremer. Por séculos,
havia procurado fêmeas de vampiros e demônios para saciar suas necessidades. O sexo
forte e sem conseqüências era perfeito para sua disposição eternamente frustrada.
Mulheres humanas eram uma complicação da qual não precisava.
Agora percebia quanto havia perdido.
As deliciosas preliminares que alimentavam a paixão e o fogo.
Como se lesse seus pensamentos, Abby se inclinou para beijar o peito musculoso.
Com beijos molhados e provocantes, ela ia se aproximando de um mamilo para sugá-lo,
passando em seguida ao abdômen plano de músculos definidos.
— Abby! — ele exclamou aflito ao sentir a boca capturando sua ereção.
— Talvez você não seja o único com habilidades, amor — ela provocou, sugando-o
com avidez.
Dante se deliciava com as sensações provocadas pelo contato. Habilidade? Não.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

Seu toque não era só habilidoso. Era mágico.


Podia sentir a pressão crescendo dentro dele. O clímax já se anunciava, e ainda
não estava nem perto de se sentir pronto para encerrar essa experiência.
Rangendo os dentes, Dante concentrou-se na intimidade quente e úmida sob seus
dedos, estimulando-a. O gemido de prazer foi toda garantia de que precisava sobre
não ter perdido o jeito.
— Quero sentir seu prazer, Abby — ele sussurrou. Ela arfava, e os dedos o
apertavam com mais força.
— Dante...
— Isso mesmo, amor — ele a incentivava, usando o polegar para conduzi-la ao
clímax.
Perdido na satisfação de observar seu rosto tão perto do ápice do prazer, Dante
se surpreendeu quando, de repente, ela se posicionou sobre seu corpo, sorrindo.
— Abby?
O sorriso ganhou uma nova luminosidade, e ela girou dentro da banheira, puxando-
o sobre o corpo e enlaçando-o com as pernas.
— Você começou, Dante; você vai terminar — ela murmurou.
Ele riu, reconhecendo palavras que havia pronunciado em outra ocasião.
Seu membro encontrou o caminho entre o tecido macio e úmido, e ela ergueu o
quadril para facilitar a penetração. Dante teve certeza de que, seja não estivesse
morto, ela o teria matado.
Que homem podia suportar tal intensidade de sensações?
Felizmente, era um vampiro. E pretendia suportar a doce tortura muitas outras
vezes antes do fim daquele dia.

Abby acordou nua e desorientada.


Ainda sentia o toque de Dante na pele, mas estava sozinha.
Ao se levantar, ela descobriu que alguém havia feito a gentileza de deixar uma
calça jeans e uma camiseta limpa sobre a cômoda. Também havia uma calcinha nova de
renda branca e um sutiã do mesmo material.
Ela sorriu. Nunca tinha usado calcinhas tão ousadas. Mas... não estava em
condições de escolher ou se preocupar com estilo.
Vestida com a calcinha e a camiseta, ela saiu do quarto e suspirou aliviada ao

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

encontrar Dante na saleta, ao lado do refrigerador, maravilhoso na calça de couro e na


camisa de seda preta que ainda não havia abotoado.
Abby nem se incomodou com a xícara vazia que ele deixava sobre uma mesa
próxima ao vê-la entrar. Uma xícara suja de sangue fresco.
Ele sorriu para ela.
— A roupa ficou ótima em você — comentou, estudando o corpo exposto pela
camiseta branca.
— Que horas são?
— Quase nove.
— Dante, por que não me acordou antes?
— Você precisava descansar. — Ele abriu o refrigerador para pegar um copo
descartável. — Aqui.
Ela torceu o nariz.
— Por caso é sorvete de chocolate?
— Não, mas é nutritivo.
— Eu já imaginava — ela suspirou resignada, pegando o copo com a substância
verde. — O que temos para hoje? Zumbis? Magos? O fim do mundo?
— Vou voltar à casa de Selena para tentar encontrar pistas do paradeiro das
bruxas.
— Boa idéia — ela aprovou, deixando de lado o copo repugnante. — Só preciso
tomar um banho e...
— Eu vou sozinho.
— Escute, aqui é tarde demais para tentar me manter longe do perigo. Não vou
ficar aqui sozinha.
— Você não vai ficar sozinha. Viper estará por perto, cuidando da sua segurança.
Ela o abraçou e pressionou o rosto contra o peito musculoso.
— Dante, estamos nisso juntos, e se você vai sair, eu também vou. Juro que vou!
— Alguém já disse que você é um chute no...?
— Sim, e eu não ligo para isso.
— Ela é o chute mais lindo que um homem pode levar — comentou uma voz
hipnótica.
— Certamente — concordou outra, essa mais profunda.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

Abby virou-se assustada para os dois vampiros.


— Pelo... Amor... De... Deus! — ela gemeu chocada. Aqueles dois eram verdadeiros
ímãs sexuais! Deuses da luxúria. Não havia outra forma de descrevê-los.
Gêmeos idênticos, eram altos com a pele dourada dos antigos egípcios, traços
perfeitamente esculpidos, olhos negros e amendoados delineados por traços negros de
lápis, e havia um toque de cor nos lábios cheios. Os cabelos longos e negros estavam
presos numa trança que descia até o meio das costas, chegando a tocar o tecido
branco que, amarrado em forma de sunga, era a única cobertura sobre os corpos
musculosos.
— O que fazem aqui? — Dante perguntou com tom frio.
— Mestre Viper solicitou nossa presença — murmurou um dos gêmeos. Vamos
proteger a humana enquanto você estiver fora — anunciou Tut Um.
— E será um prazer — acrescentou Tut Dois.
Abby aproximou-se um pouco mais de Dante que esta a seu lado.
Ele beijou o topo de sua cabeça.
— Por que não vai se vestir, enquanto eu descubro o que Viper pretende com tudo
isso?
— Recebemos ordens para não tocar em você — interrompeu o primeiro dos
gêmeos, aproximando-se o suficiente para envolvê-la com sua fragrância rica e
sedutora.
— De jeito nenhum — disse o outro com tom de pesar.
— A menos que você queira.
Os dois sorriram revelando presas muito brancas. Dante a puxou para trás, seu
rosto contorcido na conhecida máscara do predador.
— Encostem um dedo nela, e juro que nunca mais se levantarão dos mortos.
— Não acha que a humana deve decidir?
— Eu já decidi — Abby declarou, agarrando a mão de Dante e puxando-o para o
quarto. — E vocês, meninos, fiquem exatamente onde estão. Não saiam daí!
Dante fechou a porta do quarto e olhou para Abby com ar preocupado.
— Preciso ir falar com Viper. Você vai ficar bem?
— Posso mesmo confiar naqueles dois?
Ele sorriu, mas não havia humor nesse sorriso.
— Não, mas eles temem Viper, e não são suficientemente tolos para desafiá-lo.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

Dirigindo pelas ruas de Chicago, Dante se descobriu vibrando como se estivesse


no meio de uma tempestade de relâmpagos. Era uma sensação desconhecida que ele
não conseguia desprezar. O que estava acontecendo?
Conforme havia prometido, Viper providenciara uma enorme bolsa de lona com
uma variedade de armas místicas. Ele também lhe dera um telefone celular progra-
mado com os números de vários vampiros e demônios que poderiam ajudá-lo em caso de
emergência.
Com esse suprimento e seus poderes sobrenaturais, havia poucas coisas mortais
ou imortais capazes de vencê-lo.
Era praticamente invencível. Mas praticamente invencível não era o bastante, ele
decidiu, olhando para Abby no assento a seu lado. Muitas criaturas a queriam morta.
Abby apertava a bolsa que ele deixara a seus cuidados.
— Ainda não me disse o que tem aqui dentro.
— Proteção.
Ela abriu a sacola. Balançado a cabeça ao ver os amuletos, talismãs e
encantamentos, ela pegou uma adaga com lâmina entalhada com desenhos de símbolos
místicos.
— O que é isto?
Dante não conseguiu controlar um tremor.
— E uma adaga sagrada de Bali.
— Para que serve?
— Normalmente, para cortar alguma coisa ou alguém. Ela tem um encantamento
de proteção. Viper a considera eficiente contra qualquer mal que o mago negro possa
conjurar.
— Ah, então... Não devia estar com ela?
Dante se encolheu ao sentir a lâmina apontada em sua direção.
— Vire isso para lá. A keris funciona contra mim, também. É melhor não apontá-la
na minha direção.
— Ah, desculpe. — Ela jogou a adaga dentro da bolsa. — Por que Viper possui uma
arma capaz de matar vampiros?
Dante encolheu os ombros, virando o carro para a elegante área onde ele já havia
residido um dia.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— Melhor nas mãos dele do que nas dos inimigos.


— Não seria melhor destruí-la de uma vez?
— Viper é um colecionador. Ele jamais destruiria um objeto de arte tão valioso.
Além do mais, nunca se sabe quando ela poderá ser útil.
Dante acionou o controle remoto para abrir o imponente portão de ferro.
Devagar, conduziu o carro pela alameda que cortava um pequeno bosque e terminava
diante da casa que fora de Selena.
Parou o carro, desligou o motor e se virou para estudar o perfil enrijecido de
Abby.
— É muito pior do que eu havia percebido — ela revelou, olhando para as janelas
quebradas e para o teto destruído na explosão.
Ele a tocou no ombro.
— Prefere ficar no carro?
— Não.
Dante pegou da sacola com o amuleto que Viper havia prometido ser capaz de
anular a magia utilizada para animar um zumbi, e o colou na cintura da calça. As adagas
já estavam seguras no cano das botas, e ele orientou Abby para prender a bainha com
a keris em sua cintura. A bainha o protegeria do poderoso encantamento, mas
permitiria a Abby fácil acesso à adaga, caso ela fosse necessária.
Demônio, bruxa, zumbi, ou mago, todos encontrariam mais do que procuravam
dessa vez.
Juntos, eles saíram do carro e seguiram para o terraço de porta francesa. Ao
entrar no vasto saguão, Dante prosseguiu instintivamente para a escada, onde Abby
parou ao ver os cacos do vaso Ming no chão de mármore.
Ele a puxou pela mão, notando que ela observava os pedaços de cerâmica com
estranha fascinação.
Abby balançou a cabeça e olhou para a escada, para os degraus enegrecidos e
cobertos de escombros e gesso do teto.
— Meu Deus, como isso pode ter acontecido? Dante lembrou o corpo de Selena no
chão, sem vida.
Nada deveria ter sido capaz de destruí-la. Nada que ele não pudesse ter sentido.
— Não sei.
— Acha que foi o trabalho de um mago?
— Se foi um servo do Príncipe, Selena teria sentido sua presença, como você

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

sentiu os zumbis. Afinal, ela era Cálice havia muito tempo e tinha um poder incrível,
muito desenvolvido. Não creio que o mago, mesmo poderoso e habilidoso como é,
ousasse desafiá-la.
— Tem razão. E isso significa que ainda não estamos perto de descobrir o que
aconteceu com Selena.
— Sente alguma coisa?
— Não. Nada. Só um arrepio estranho, como se alguém houvesse andando sobre
minha sepultura...
— Não diga isso! — Ele a apertou entre os braços.
— Dante, é só um ditado popular!
— Não se deve tentar o destino. É perigoso. Não devemos fazer nada que possa
chamar atenção sobre nós. E também não devemos ficar aqui por mais tempo do que é
necessário — Dante decidiu.
Ela concordou com um movimento de cabeça.
— O que estamos procurando? — indagou Abby.
— Selena tinha um cofre que mantinha protegido por poderoso encantamento.
Espero que, agora que é o Cálice da Fênix, você consiga encontrar um jeito de abri-lo.
— Se ele sobreviveu à explosão, é claro.
— Ele sobreviveu. Eu sei que sim.
Abby gritou quando Dante se abaixou para pegá-la nos braços e, com um
movimento fluido, levou-a ao topo da escada. Colocou-a no chão. Não sentia nenhum
perigo próximo, mas não se deixaria surpreender novamente. Queria estar preparado
para reagir, se fosse necessário.
— Tome cuidado. O piso não está instável.
— Ah, eu sei, explosões mágicas costumam fazer um mal terrível ao revestimento!
Apesar do tom cáustico, ela teve o bom-senso de tomar cuidado com seus passos
enquanto percorria o corredor escuro. Dante estava logo atrás dela. Tão perto, que ele
sentiu o arrepio que percorreu seu corpo.
— O que foi? Sentiu alguma coisa. Tem alguma coisa aqui?
— Talvez. — Ela esfregou os braços. — É uma sensação ruim. Não consigo
explicar.
— Deve haver algo — ele comentou. — Venha comigo.
Segurando a mão de Abby, ele seguiu pelo corredor, mas não deu mais do que

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

cinco ou seis passos antes de ela parar.


— Espere. Aonde vamos? Os aposentos de Selena ficam do outro lado.
— Abby, é isso.
— Isso o quê?
— O cofre. Ele foi enfeitiçado, lembra? Está aqui. Cabe a você tentar romper a
barreira criada pelo feitiço.
— Eu? Mas não sou uma feiticeira!
— Selena também não era, amor. O poder que ela exercia pertencia à Fênix.
— Um poder que ela teve três séculos para aprender a controlar, não três dias.
— Você é capaz disso. Apenas concentre-se. O cofre está atrás da parede. —
Dante recuou para observá-la.
Odiava pressioná-la dessa maneira, especialmente quando ela ainda nem
conseguira aceitar que carregava a Fênix. Infelizmente, não havia alternativa.
Precisavam encontrar as bruxas. Um longo silêncio dominava o corredor, e ela ergueu
uma das mãos e moveu os dedos. Dante franziu a testa confuso.
— O que está fazendo?
— Tentando criar um feitiço.
— Sacudindo os dedos?
— É uma... Coisa. Uma coisa estúpida, mas já é alguma coisa. Agora, se não se
importa, estou tentando me concentrar.
Ele ergueu as mãos.
— E claro. Concentre-se, então.
Houve outro silêncio. Um longo silêncio. E depois um suspiro.
— Droga. — Ela se virou para encará-lo. — Não consigo.

CAPÍTULO IV

Abby fechou os olhos, mas ainda podia sentir a presença de Dante a seu lado.
Sentia também sua tensão, a determinação.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

Ele esperava magia. Devia estar brincando, certamente.


Ainda assim, precisava tentar alguma coisa. Enquanto abrigasse a Fênix, viveria
assombrada. Pior, Dante seria forçado a protegê-la, mesmo que isso fosse o fim dele.
Até então, pura sorte os mantivera vivos. Porém, mais cedo ou mais tarde,
encontrariam alguma coisa que não poderiam derrotar. Então, ambos estariam mortos.
Não permitiria que isso acontecesse.
Ignorando a sensação de estar fazendo papel de idiota, ela tentou concentrar os
pensamentos.
Imagine a parede. E pense em um cofre no meio dessa parede.
Concentrada como estava na imagem, ela nem notou o zumbido no ouvido. Não até
ele se tornar um apito. E um estalo que quase a fez cair de costas com o susto.
Abrindo os olhos, ela olhou admirada para o cofre agora visível na parede. Um
cofre aberto!
— Santo Deus!
Dante a amparou.
— Está se sentindo bem?
— Estou viva — ela respondeu ofegante. — Era esse o cofre que estava
procurando?
— Sim.
— O que há nele?
— Livros.
Ela o encarou boquiaberta.
— Está brincando? A mulher deixava vasos Ming e Picassos espalhados pela casa,
como se fossem quinquilharias de lojas baratas, e enchia um cofre escondido e
protegido com livros mofados?
— São livros de encantamentos.
— Tem certeza?
— Sou um vampiro; posso sentir o poder, mas não a magia. E você quem vai me
dizer.
Ela respirou fundo antes de enfiar a mão no cofre e retirar dele uma pilha de
livros. Não sabia o que havia esperado encontrar. Velhos manuscritos com capa de
couro e ouro, pergaminhos enrolados e selados com chumbo, vassouras, bolas de
cristal... Qualquer coisa, menos os restos de biblioteca que estava segurando.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— São só livros velhos. — Ela abriu o primeiro da pilha e espirrou, incomodada


com a poeira. — Velhos e empoeirados.
— Há alguma coisa escondida entre as páginas?
— Como uma senha?
— Não, como números de telefone, nomes, mapas...
— Ah, é claro... Não, não tem nada disso aqui. Só um monte de poesia muito ruim.
Meu Deus, escute só essa aqui.
— Abby, não acho que esse seja o melhor momento para...
— Círculo do sagrado Cálice, volte seu poder para as Trevas e o Mal. Elementos da
Terra e do Ar, da Água e do Fogo combinados. Ouçam nossa súplica e reconheçam
nossa causa final...
Abby não saberia dizer quando as palavras começaram a queimar como fogo sobre
a página. Ou quando ela tomou conhecimento do eco sombrio de sua voz recitando o
estranho encantamento. Só sabia que uma poderosa compulsão a dominava, e que o
mundo em torno dela desaparecia.
Não conseguia interromper a ladainha. Nem mesmo quando uma dor forte e aguda
começou a pulsar dentro dela. Era como despencar de um precipício. A única maneira
de parar era chegar ao fundo. Mesmo que o fundo fosse um sangrento e terrível fim.
Teria continuado recitando eternamente, não fosse o repentino ataque que sofria
pelas costas.
Braços fortes a envolviam. Um corpo musculoso caiu sobre o dela no chão.
— Droga — ela gemeu. — Dante, não podia ter me cutucado, simplesmente?
Ela parou ao constatar que Dante não era o responsável pelo ataque, mas uma
mulher desconhecida que agora estava abaixada diante dela.
Era uma mulher esguia, morena... Humana. Apesar da beleza exótica do longo
cabelo negro e dos traços perfeitamente entalhados, havia nela uma vitalidade que
parecia mais mortal do que eterna.
Abby olhou para o lado. Dante estava caído com os olhos fechados.
Não sabia o que a criatura havia feito com ele, mas, se era forte o bastante para
derrubar um vampiro, que chance ela teria de derrotá-la?
— Quem é você?
Os olhos dourados da mulher se estreitaram.
— Você deve parar.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— Parar? Parar o quê?


— O encantamento. É perigoso. — A mulher parou, ergueu a cabeça e gemeu
baixo. Levantando um dos braços, ela tocou a própria nuca como se lutasse contra um
inimigo invisível.
Abby aproximou-se intrigada, estendendo uma das mãos.
— Está machucada?
A mulher emitiu um som que lembrava o de um gato furioso, preparando-se para o
ataque.
— Não toque em mim!
Abby abaixou a mão, mas seus olhos estavam fixos nas marcas de garra que ela
mesma deixara em sua nuca.
— Está sangrando.
— Eles exigem minha volta. Não posso...
Houve outro rosnado, e então, com um movimento imprevisível e muito veloz, a
mulher se levantou e correu. E desapareceu na escuridão do corredor antes que Abby
pudesse chamá-la ou reagir.
Por um momento, Abby ficou parada onde estava. Sabia que o fato de a criatura
ter se afastado não garantia que ela não estivesse escondida nas sombras. Quando
nenhum ser saltou da porta empunhando uma faca, ou urrando, ela se abaixou aflita ao
lado do corpo inerte de Dante.
— Dante? — As mãos tocavam seu rosto imóvel. — Dante! Por favor, acorde!
Ele não se movia. Por uma eternidade, Abby chamou, pediu, chorou, e até rezou. O
pânico ameaçava dominá-la quando os olhos prateados se abriram.
— Abby? O que aconteceu?
— Você estava do meu lado, e de repente... Estava caído no chão!
— O encantamento... Estava me matando!
— Sinto muito. Eu não sabia o que estava fazendo.
Um sorriso fraco distendeu os lábios dele.
— Não tem importância. Precisamos ir para algum lugar seguro onde eu possa
recuperar minha força.
— Pode se mexer?
— Sim, se você conseguir me ajudar a levantar.
Abby o ajudou, mas não podia ignorar a apreensão. Dante se apoiou nela, e ela

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

tentou sustentá-lo.
— Não vamos conseguir chegar ao carro desse jeito — ela disse. — Vamos chamar
Viper.
— Não. Se puder me ajudar a ir até o porão, lá eu terei segurança e tempo para
me recuperar. No meu covil.
— Você tem um covil? — ela indagou surpresa, conduzindo-o pela escada na
direção do porão.
— É claro que sim. Um vampiro precisa de mais do que janelas escurecidas e uma
cama macia para se sentir confortável.
No porão, Dante se abaixou com grande dificuldade para acionar a alavanca que
abria a passagem para o covil. O revestimento se moveu para revelar o aposento que
ele chamava de lar desde que chegara a Chicago. Ele acendeu a luz e esperou que Abby
entrasse antes de fechar as portas e acionar as armadilhas invisíveis que os
manteriam seguros por algum tempo.
— Não toque na porta — Dante a preveniu, aproximando-se do refrigerador para
pegar uma garrafa com sangue. — Instalei nela algumas surpresas para os tolos que
ousarem me perturbar enquanto durmo.
Abby se afastou da pesada barreira de aço.
Dante sorveu vários goles do sangue, aliviado por sentir que as forças
retornavam. Não sabia o que havia acontecido com ele, mas sabia que o efeito era
temporário.
— Está se sentindo melhor? — Abby perguntou.
— Sim. Não sei o que aconteceu, mas já está passando.
Balançando a cabeça, Abby se aproximou da escrivaninha e tocou o moderno
laptop acoplado a uma impressora.
Dante bebia sua segunda garrafa de sangue.
— Algum problema?
— Não, eu... Não sei bem o que esperava.
— Esqueletos empoeirados e morcegos, talvez? Ela o encarou com um sorriso
acanhado.
— Esse lugar combina mais com um professor universitário do que com um
perigoso vampiro.
Ele se aproximou da atraente visitante.
— Está insinuando que sou aborrecido?

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

Sentindo o repentino calor no ar, ela o estudou desconfiada.


— Dante, devíamos estar decidindo o que vamos fazer em seguida.
Ela estava certa, é claro. Mais uma vez, sua idéia brilhante os levara a um passo
da morte sem realizar nenhum progresso. As bruxas ainda estavam desaparecidas.
Pior, agora estava completamente sem idéias sobre como rastreá-las.
— Sim, você tem razão. Por mais que eu odeie dizer isso, não podemos demorar
muito aqui. Se a casa está sob vigília, podemos nos descobrir cercados por coisas que
ninguém gostaria de encontrar no meio da noite.
— Essas coisas não poderiam entrar aqui, poderiam?
— Provavelmente não, mas temos de ir embora do mesmo jeito.
— Se estamos seguros, por que temos de ir embora? — ela insistiu.
— Não vai gostar de ficar trancada num quarto com um vampiro faminto, amor.
Não posso beber sangue humano, mas vou ficar mal-humorado. Além do mais, duvido
que as bruxas tenham a consideração de vir bater na nossa porta.
Abby suspirou resignada.
— Tudo bem, vá em frente e seja o sensato. Dante esticou o pescoço e se pôs a
cheirar a roupa pela. Havia uma repentina tensão em seus movimentos.
— Dante? Está cheirando minha camiseta?
Os olhos dele brilharam.
— Sinto cheiro de demônio.
Abby sabia que já havia sofrido insultos piores, mas não conseguia pensar em
nenhum nesse momento.
— Como disse?
— Não reconheço a raça, mas tenho certeza de que esteve bem perto de um
demônio.
— Sim, estive perto de um demônio. Tão perto quanto se pode chegar. Sei que já
é velho, mas...
— Eu disse um demônio, não um vampiro.
Abby podia sentir seu temperamento alterado, a fúria que despertava o
predador.
— O que está dizendo é simplesmente impossível. — Ela saberia se um demônio
tivesse se esfregado em sua camiseta. Não era coisa que uma mulher normal pudesse...
— Oh!

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— O que é?
Abby bateu na testa com a mão aberta. Por Deus, devia estar maluca!
— Estive com aquela mulher estranha que interrompeu meu encantamento — ela
disse.
— Lá em cima?
— Sim.
Abby estremeceu quando sentiu o sangue de Dante ferver.
— Como ela era?
— Humana, aparentemente, embora fosse mais graciosa e ágil que qualquer
mortal. E incrivelmente forte.
— Ela tinha forma humana?
— Sim, era uma bela mulher com cabelos escuros e os mais lindos olhos dourados.
Oh, e sua pele tinha um brilho dourado que era diferente, misterioso...
— Uma shalott? Pensei que todos houvessem desaparecido desse mundo. Ela
atacou você?
— Não. Acho que ela só queria interromper o encantamento. Podia ter me matado
enquanto você estava desacordado, mas ela fugiu. Disse que alguma coisa a chamava de
volta.
— Droga!
— O que é isso? — Abby se sentou na beirada da cama. — Ela é perigosa?
— Não sei, e é isso que está me deixando maluco. Temos de sair daqui agora!
— Para onde vamos?
— Quero ver se consigo encontrar o rastro da shalott. Quando estavam nesse
mundo, esses demônios eram assassinos. Se pudermos segui-la até quem a comanda
agora, vamos descobrir o que ela fazia aqui.
Segurando a mão dela, ele a levou para a porta, parando para pronunciar uma
palavra incompreensível antes de tocar a maçaneta. A porta se abriu silenciosa, e ele
deu um passo à frente. Imediatamente, percebeu que havia algo errado ali.
— Espere!
Abby parou.
— Tem alguma coisa aí fora?
Humanos. Eram pelo menos quatro. E um deles era muito familiar.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— O mago está aqui. Lá em cima.


— Ai, meu Deus! Vamos esperar aqui?
— Não. O mago conseguiu mobilizar o poder do senhor da escuridão. Em pouco
tempo ele vai encontrar o covil.
Abby empalideceu. Se ela não carregasse a Fênix, Dante poderia remover todas
as terríveis lembranças do mago e seu bando de zumbis. Mas, por enquanto, essa era
mais uma carga, cujo peso ela tinha de suportar.
— A porta...
— Não podemos nos deixar encurralar.
— Então, vamos tentar fugir?
— Acho que a adaga vai ser útil a essa altura dos fatos.
Abby o encarou certa de que ele havia perdido o juízo.
— Pretende passar por eles sem ser visto?
— Exatamente. — Ele a puxou pela mão e levou para fora do quarto. Em silêncio,
eles se moveram para o fundo do porão. Perto da parede, Dante se abaixou para re-
mover uma grade que escondia sua passagem secreta.
— Um túnel? — Abby espantou-se.
— Você vai sair do outro lado do portão — ele explicou com firmeza. Siga dois
quarteirões para o norte e espere na esquina atrás do carvalho. Vai se lembrar disso?
— Não, Dante. Porque não vou deixar você aqui.
— Se eu não criar uma pista falsa, eles nos alcançarão antes de estarmos seguros.
Além do mais, preciso saber para que lado foi a shalott quando deixou a propriedade.
Ela o segurou pelo braço. Dante se encolheu ao sentir o calor penetrando sua pele
como línguas de fogo.
A Fênix reagiria às emoções do Cálice até ela aprender a controlar seus poderes.
— Você não pode...
Ele removeu a mão com toda gentileza, beijando seus dedos.
— Não tenha medo, amor. Sou rápido e experiente demais para que possam me
ferir.
— E se eles tiverem alguma armadilha mágica?
— Não sou totalmente indefeso, Abby. E já morei aqui. Tenho algumas armadilhas,
também.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— Dante...
Ele beijou a palma da mão dela e recuou um passo.
— Não vai haver discussão. — Apontou para a entrada do túnel e a viu se abaixar
para começar a jornada. Em seguida, ele tirou do bolso o celular que colocou na mão
dela. — Não saia do túnel se sentir que há alguma coisa por perto. Acione a tecla de
discagem rápida para Viper, e ele virá em seguida.
— Dante, não se atreva a permitir que alguma coisa aconteça com você, ou...
— Vai me enfiar uma estaca num lugar bem desagradável?
— Exatamente.
Ele a beijou nos lábios.
— Vou tomar cuidado.

Rafael entoava um encantamento simples enquanto se movia pela casa destruída.


Era frustrante depender da magia que até o mais inexperiente amador poderia
realizar. Magia que não usava desde que era um discípulo desajeitado. Mas, depois do
desastre de perder o Cálice quando o tinha entre as mãos, não cometeria a tolice de
invocar o poder do senhor da escuridão.
Não vivera tantos anos sendo estúpido.
O Príncipe possuía o péssimo hábito de punir aqueles que o desapontavam. Não
precisava atrair sua atenção.
No corredor do segundo andar, ele parou e abriu as mãos. Dando uma ordem,
estudou as espirais de cor que surgiam brevemente na escuridão.
— Eles estiveram aqui — anunciou satisfeito para os três discípulos que o seguiam
num silêncio respeitoso. Ele viu as cores começando a desaparecer. — Um vampiro, uma
humana, e... Ah, a depositária das feiticeiras.
— As feiticeiras têm o Cálice? — indagou uma voz fraca atrás dele.
Um sorriso frio encurvou os lábios do mago, que se virou para seus servidores.
— Não. Ela ainda está perto. Posso sentir seu poder. Vasculhem a casa. E
lembrem-se, quero o Cálice com vida.
O mais velho dentre os aprendizes se adiantou um passo.
— E o vampiro?
— Mate-o!
Os três desapareceram na escuridão e, no mesmo instante, uma horrível

120
Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

gargalhada ecoou no corredor.


— E fácil falar; mas realizar é muito mais difícil.
Rafael ficou tenso antes de fingir uma indiferença que estava longe de sentir.
Não podia se dar o luxo de permitir que um vampiro percebesse que estava destituído
de seus poderes. Não se quisesse sobreviver.
— Ora, ora... — ele disse, colando as costas à parede. — Se não é o sabujo fiel.
Suas senhoras agora são tão arrogantes que acreditam que um simples vampiro pode
me derrotar? Ou elas estão simplesmente desesperadas?
— Nem uma coisa, nem outra — a voz sem corpo flutuou no ar. — Eu simplesmente
me cansei dessa busca tediosa.
— Então, felizmente para você, a hora do fim se aproxima. Chegou o momento de
acabar com você de uma vez por todas, vampiro.
Dante estava preparado quando o mago ergueu a mão e lançou um raio de fogo.
Com sua rapidez sobrenatural, esses truques de salão eram pura perda de tempo.
E o mago logo saberia disso.
Dante se manteve atento enquanto ele chegava mais perto. Não se deixaria atrair
para uma armadilha oculta.
— Como vai Amil? — ele provocou, usando todos os sentidos para varrer a área em
busca de perigos ocultos.
Rafael sorriu.
— Ele descobriu que não era suficientemente apto para cumprir os deveres de um
servo. Decidiu que se oferecer em sacrifício para o Príncipe estava mais de acordo
com suas preferências.
— Muito nobre.
— Ele era um verme imprestável que devia ter sido estrangulado quando nasceu.
Ainda assim, serviu ao seu propósito.
Outro raio de energia se chocou contra a parede e queimou a madeira. Era
irritante, mas Dante não conseguia mais sentir nada que pudesse preveni-lo das inten-
ções do feiticeiro.
Não se comprometeria enquanto não tivesse certeza de que não haveria nenhuma
surpresa desagradável.
— O Príncipe sempre exigiu sangue para se manter satisfeito. Porém, é difícil
encontrar vítimas disponíveis nos tempos de hoje.
O mago encolheu os ombros.

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— O Príncipe nunca fez questão de sacrifício voluntário. Ele é poderoso.


Dante riu com tom debochado. Queria o mago distraído e desprevenido. Em
perfeitas condições para cometer um erro.
O último erro.
— Tão poderoso que foi condenado ao exílio por um bando de bruxas humanas.
O homem rosnou na escuridão.
— Ele foi abandonado por seus adoradores, que foram envolvidos e levados à
complacência. Eu vou garantir que isso não volte a acontecer.
Dante se aproximava em silêncio. Assim que enterrasse as presas no pescoço do
mago, ele não poderia se defender.
— E você acha que ele o recompensará regiamente por isso?
— Eu governarei ao lado do Príncipe!
Dessa vez a gargalhada de Dante foi genuína.
— Você é ainda mais tolo do que Amil. O Príncipe governa sozinho, e aqueles que o
idolatram não são mais que insetos em sua opinião.
— Como pode saber, vampiro? Você não idolatra nada. Não acredita em nada,
— Sou suficientemente astuto para não entregar minha alma a um ser que não me
recompensará com nada além de traição.
O mago levou a mão ao bolso para pegar um pequeno cristal. Dante hesitou. Por
que ele usaria um brinquedo mágico, quando possuía o medalhão do lorde das trevas?
Uma chama azul saltou em sua direção. Ela encontrou o chão, e a mansão rangeu
como se estivesse prestes a desmoronar.
Dante se esquivou do perigo e pensou depressa. Não podia detectar a magia, mas
ainda sentia o poder que cercava o mago. Havia uma energia pulsante capaz de destruir
todo o quarteirão, mas ele evitava usá-la.
Por quê?
Finalmente, Dante compreendeu a verdade. É claro. Rindo, ele dissipou as sombras
de que se cercara.
O mago não invocava o poder do lorde das trevas por medo de que seu deus
estivesse ansioso para se vingar do servo que o desapontara.
Era perfeito! Ele se adiantou, os braços cruzados sobre o peito num gesto
negligente. O mago umedeceu os lábios finos numa reação apavorada.
— Está tentando me manter ocupado para que a mulher possa escapar? Seu

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esforço é inútil. Logo meus discípulos a terão capturado.


— Depois de ter conhecido alguns de seus seguidores, não posso dizer que esteja
preocupado.
Ele se lançou contra o corpo esquálido. Queria acabar logo com aquilo. Abby
estava sozinha, e embora confiasse plenamente em sua capacidade de lidar com
inimigos humanos, ainda havia demônios capazes de detectar a presença da Fênix.
Enterrando as garras no braço do homem, ele deixou as presas se alongarem. Mas
o mago não estava disposto a ser sacrificado sem uma boa luta. Com determinação e
frieza, ele recitou cânticos que preenchiam a escuridão, levando a mão ao bolso para
tirar dele uma estaca de ébano liso e polido.
De repente uma explosão de luz encheu o corredor, cegando Dante e forçando-o a
recuar. Uma estaca era uma estaca, e não deixaria a autoconfiança exagerada levá-lo à
morte.
Cauteloso, ele contornava o inimigo esperando por uma brecha.
O mago olhou para os braços feridos.
— Sabe que não precisamos ser inimigos? Eu posso libertá-lo das correntes. Você
me dá o Cálice, e eu o recompenso com a liberdade.
— Tentador, mas acho que não.
— As bruxas o acovardaram? — ele provocou, segurando a pequena estaca entre
os dedos como se nem pensasse nela.
— Não são as bruxas.
— Então... — Rafael riu. — Ah, é claro. Você gosta da mulher. Não está apenas
acovardado; está completamente neutralizado.
— Na verdade, está deixando de ver a razão mais óbvia para eu me negar a unir
forças com você.
— E qual é?
— Não gosto de você.
Percebendo finalmente que a tentativa de persuasão era inútil, o mago agarrou o
medalhão que levava pendurado no pescoço. Teria de se arriscar a ser alvo da fúria de
seu senhor, ou morreria naquele corredor.
Dante abaixou-se, preparando-se para o ataque iminente.
Apesar do ar morno da noite, Abby tremia.
Não conseguir tirar Dante de sua mente. Não podia ler seus pensamentos, mas as
emoções do vampiro eram claras. Ele não estava deixando uma pista falsa. Nem estava

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tentando identificar o rastro deixado pelo cheiro da shalott. Ele estava enfrentando o
mago.
Ela franziu a testa ao ouvir o som de passos se aproximando.
— Estou cansado dessa porcaria. Não sou um cão do inferno — resmungou uma voz
masculina. — Nós a perdemos.
— Cale a boca e continue procurando, a menos que queira voltar para o mestre e
confessar que fracassamos — respondeu uma voz gelada.
Em silêncio, Abby se escondeu atrás do arbusto ao lado da árvore. Os
perseguidores pareciam ser humanos, mas nem por isso se sentia muito aliviada.
— Ela pode estar em qualquer lugar agora.
— Escute o que digo, imbecil. — Abby olhou por entre as folhas e viu um homem
baixo e gordo agarrar o pescoço de um garoto com cara de espanto. — Encontrei Amil
sobre o altar, esquartejado como um porco abatido. Não tenho a menor intenção de ir
encontrá-lo no inferno.
— Talvez o vampiro nos faça o favor de matar o bastardo — resmungou o outro
homem.
O mais baixo o encarou.
— Está disposto a deixar sua vida nas mãos de um vampiro impotente? — Ele
esperou por uma resposta que não aconteceu. — Ótimo. Então, separem-se e varram o
quarteirão.
Houve uma pausa breve, como se os dois considerassem a possibilidade de enfiar
uma faca no outro. Não havia mesmo honra entre bandidos. Mas, como se optassem
pela razão, eles se viraram e foram em direções opostas.
Abby ficou imóvel esperando que todos se afastassem.
Um deles, o mais baixo, continuou onde estava. Com um gesto teatral que a teria
feito rir em outras circunstâncias, ele tirou do bolso da túnica uma pedra estranha
pendurada em uma corrente. Segurando-a entre as mãos, o homenzinho começou a
entoar um cântico.
De repente a pedra brilhou emitindo uma luminosidade roxa.
— Sei que está perto, Cálice. Posso sentir você. — Ele se moveu para ir examinar
os carros estacionados. E olhou para cima, para os galhos das árvores. E,
inevitavelmente, ele afastou as folhas do arbusto. — Ora... Mas o que temos aqui?
— Fique longe de mim — Abby avisou.
— Ou vai fazer o quê? Gritar?

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— Não quero machucar você.


— Acha que pode me ferir? — O homem gargalhou.
— Sim.
— Não tem capacidade ou coragem para isso. Esse é o problema com os bípedes
do bem. — Ele olhou para a região entre suas pernas. — Não tem bolas...
— Pois é você quem vai perder as bolas se não me deixar em paz.
—Acha que seu vampiro vai vir correndo para socorrê-la? Posso garantir que ele
já voltou ao túmulo, de onde não devia ter saído.
— Não, ele está vivo.
O homem encolheu os ombros.
— Não importa. Logo estará morto, ou virado do avesso. O mestre tem um talento
especial para recrutar seus seguidores. Até para aqueles que nunca desejaram ido-
latrar o lorde da escuridão.
— Ainda não é tarde demais. Pode ir embora.
— Ir embora? Ninguém vai embora, a menos que queira morrer. E você já me fez
perder muito tempo. Venha...
— Não!
Ele ergueu um punho ameaçador.
— Acha que não vou machucar você? O mestre disse que a quer viva, mas não
disse nada sobre alguns ferimentos.
Abby sentiu os dedos agarrando seus cabelos, e puxando com força. Ela caiu para
frente e, por instinto, estendeu a mão para agarrar o braço do atacante. Sua única
intenção era evitar o tombo, o contato do rosto com o chão, mas no instante em que
suas mãos tocaram o pulso fraco, uma onda de calor explodiu de suas palmas.
O homem gritou, soltando-se e levando as mãos ao peito.
— Sua... Vadia! Cadela estúpida! — ele gritou com ódio. — Vai pagar caro por isso!
Horrorizada, Abby viu o homem erguer o punho e se preparar para atacar.
Preparando um violento gancho de direita, o homem estava cego demais para
considerar que podia ser superado por uma mulher dez centímetros menor do que ele e
muitos quilos mais magra.
Por isso ele nem tentou se defender dos punhos que o atingiram no peito.
Uma coluna de fumaça se ergueu no ar. O homem gritava, mas Abby permanecia
onde estava, agora com as mãos abertas sobre seu peito. O aprendiz de feiticeiro a

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mataria, se tivesse uma oportunidade. E ela não pretendia dar a ele essa chance.
Em algum lugar no fundo da mente, ela sentiu a aproximação de Dante. Ele parou
perto da árvore, em vez de penetrar o cenário do confronto. Fosse pelo medo de ser
tostado, pela confusão causada pela cena inesperada, ou pelo receio de distraí-la, ele
se mantinha imóvel. E naquele momento Abby estava ocupada demais para se preocupar
com seus motivos.
Agarrando-a pelos braços, o homem tentava puxá-la para mais perto.
— Vai pagar por isso! — Ele arfava.
Abby rangia os dentes e aumentava a força das mãos. Um cheiro horrível pairava
no ar. Cheiro de tecido queimado. E de carne frita.
Então, quando ela já começava a sentir que não suportaria mais o ataque por
muito tempo, o homem deixou escapar um grito estrangulado e caiu, rolando para longe
dela.
Sozinha, ela caiu de joelhos e respirou profundamente algumas vezes.
— Pode aparecer agora, Dante. Sei que está aí.
Dante saiu de trás da árvore exibindo um sorriso pálido. Reconhecia o tom de
acusação. Sabia que Abby estava consciente de sua atividade extracurricular com o
mago, e não estava muito satisfeita com isso.
— Muito bem, amor. Agora aquele idiota vai pensar duas vezes antes de voltar a
atacar você.
Ela o encarou com as mãos na cintura.
— Por que não me ajudou?
— Tive a impressão de que podia resolver tudo sozinha.
— Sei. Muito bem, o que está havendo?
— Nada.
— Senti sua presença atrás da árvore, e sei muito bem que estava louco para sair
de lá e matar aquele sujeito. O que o deteve?
— Eu precisava saber que você não hesitaria diante da necessidade de lutar.
— Dante, eu estou metida nessa guerra há dias! Por que hesitaria agora?
— Tem lutado contra demônios e zumbis, não contra humanos. Sei que acha que
existe uma diferença, e precisava saber que poderia superar o medo de machucar
alguém.
— Sei que isso pode ser horrível, mas é bom saber que não entrei em pânico no

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momento decisivo.
Ele a abraçou. Abby precisava aprender essa lição. Mesmo assim, havia sido
terrível ficar afastado enquanto ela descobria sua força.
— Você mentiu para mim.
Sabia que ela não se deixaria desviar do assunto.
— Está exagerando — ele protestou com pouca veemência.
— Você disse que ia deixar um rastro falso e registrar o cheiro do demônio. Não
disse nada sobre enfrentar aquele mago idiota.
— Ele vai nos atrapalhar até nos livrarmos dele. Estou cansado de ficar olhando
por cima do ombro. O covarde preferiu fugir, em vez de lutar como um homem.
— Não foi só isso. Eu senti a luta.
— Não foi uma luta. Não foi nem um confronto! Olhe para mim — ele disse,
abrindo os braços. — Nem um arranhão.
— Teve sorte por ele ter desaparecido. Eu avisei sobre o que faria se acabasse se
machucando.
Dante sorriu e olhou para a boca tentadora. Já havia escutado o sermão. Agora
era hora de passar a atividades mais interessantes.
Ainda debatia se devia ou não tomá-la nos braços e beijá-la até fazê-la esquecer
o feiticeiro, quando, de repente, ele se virou com as presas expostas e os punhos
cerrados. Havia um vampiro por ali, e não podia correr riscos.
Viper surgiu das sombras e cruzou os braços sobre o peito. Um sorriso debochado
distendeu seus lábios.
— Francamente, Dante, esperava encontrá-lo entre as bruxas, mas aí está você se
divertindo com o brinquedo novo.
Dante arqueou uma sobrancelha.
— O que faz aqui?
— Estava seguindo o rastro do seu feiticeiro.
— Tarde demais. Ele ja desapareceu.
— E agora?
— Agora ele está protegido, porque invocou os poderes do Príncipe para fugir.
— E só uma questão de tempo, Dante.
— Sei que consegui ferir o feiticeiro. Não sentiu o cheiro de sangue? Talvez ainda
possa...

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Subitamente sério, Viper pousou uma das mãos no ombro de Dante.


— Seja cuidadoso. O Príncipe está convocando seus seguidores. A cidade está
infestada de demônios, muitos deles temperamentais.
Dante assentiu e viu Viper desaparecer nas sombras. Só quando teve certeza de
que estavam sozinhos, ele se aproximou de Abby e segurou a mão dela.
— Não sei por que está tão nervosa — ele disse com falsa inocência. — Parece até
que foi possuída por um espírito, ou perseguida por demônios, ou quase sacrificada por
um mago do Mal.
Abby riu e o abraçou. Os dois ficaram em silêncio por alguns instantes, até Abby
recuar.
— Quer ir procurar as bruxas?
— O que quero é sentir seu corpo nu embaixo do meu — ele murmurou.
— Por que não em cima?
— Abby, está tentando me matar?
— Pensei que fosse imortal.
— Nem um imortal pode suportar esse tipo de tortura. Venha, vamos sair daqui
antes que eu esqueça o que precisa ser feito.
Abby se deixou levar para a mansão destruída. Parte dela sabia que devia estar
em guarda. Devia se preparar para qualquer coisa, de zumbis a cães do inferno e ma-
ços. Qualquer coisa podia saltar de trás de um arbusto. Aquela altura, não se
surpreenderia com duendes e fadas dançando no jardim.
— Por que estamos subindo? — perguntou a Dante.
— Não podemos abandonar o livro com os encantamentos. É perigoso demais para
ficar por aí.
— O que acha que Selena estava fazendo com isso?
— Essa é a pergunta, não é?
— Não sei, mas... Talvez seja uma boa idéia revermos o que já sabemos.
— É claro. E por onde começamos essa revisão?
— Vamos começar por Selena. Você disse que ela agia de maneira estranha
antes... Da explosão? Para ser franca, sempre achei que ela fosse maluca.
— Bem, ela ficou mais misteriosa, cheia de segredos... Saía da mansão sem me
levar, e quando voltava passava horas trancada em seus aposentos.
— Acha que ela estava visitando as bruxas?

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— Sim.
— Foi com elas que Selena obteve o livro de feitiços?
— Eu acredito que sim.
— Em que tipo de encantamento ela podia estar trabalhando? De que tinha medo?
— Creio que é possível que as bruxas tenham encontrado o mago e seus
seguidores. Se sentiram o poder desse homem, elas devem ter tomado certas medidas
para se proteger.
— Faz sentido. Mas você não acredita que seja essa a resposta. O que o está
incomodando?
— Se as bruxas estavam preocupadas com o mago, não teriam julgado necessário
esconder isso de mim. E mais provável que tivessem me enviado para eliminar a ameaça.
— E?...
— E o encantamento que você recitou servia para atingir demônios, não humanos.
Ela tocou seu braço. Havia contado a Dante sobre a mulher que a atacara, uma
fêmea de demônio, mas esquecera de confessar a terrível agonia que a acometera
momentos antes de o encantamento ter sido interrompido.
— Talvez não.
— O que quer dizer, Abby?
— Quando eu estava recitando aquele feitiço, senti... Dor.
— Que tipo de dor?
— Como se alguém enfiasse um ferro quente em meu corpo.
— A Fênix?
Ela encolheu os ombros, incapaz de lembrar os detalhes.
— Não sei. Só sentia a dor, e depois a mulher me atacou pelas costas, e tudo
acabou.
Frustrado, Dante começou a andar de um lado para o outro pelo corredor.
— Isso não faz sentido. Ainda não sabemos o que as bruxas pretendiam, quem
matou Selena, ou que diabo o feiticeiro tem a ver com tudo isso.
— Resumindo, não sabemos nada.
— Mas existe uma ligação. Só precisamos encontrá-la. — Ele segurou a mão dela
para levá-la pelo corredor. — Temos de encontrar aquelas malditas bruxas.
Eles se moviam pela casa escura, parando apenas quando chegaram ao corredor

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

onde Selena escondera o cofre. Dante farejava o ar, tentando identificar algum
cheiro, quando sentiu que ela parava e olhava para as sombras.
— Tem certeza de que o mago foi embora, Dante?
— Se o mago estivesse por perto, nós ouviríamos seus gritos por misericórdia.
Viper não costuma brincar quando está caçando.
— Então, o que o está incomodando?
Dante a encarou.
— Estou sentindo um cheiro estranho.
— Um demônio?
— Não. É cheiro de humano, embora disfarçado.
Ela olhou em volta e parou quando algo chamou sua atenção.
— Que marcas são aquelas na parede?
— A casa explodiu, amor. Há marcas escuras em todos os lugares.
— Mas aquelas não estavam ali antes. O mago as criou quando estavam lutando,
não é?
— Abby, o mago não é mais problema nosso. Viper vai cuidar dele.
— Mas você disse que havia acontecido apenas um pequeno desentendimento.
— Ninguém morreu. Precisamos pegar o... Ah, não!
— O que é?
— O livro sumiu.
— O mago?
Não podia ser. Ele não demonstrara nenhum interesse pelos livros.
— Deve ter sido a fêmea de demônio. Ela voltou para pegá-lo. E veio com uma
bruxa.
— Elas estiveram aqui? E nós as perdemos?
Droga! Odiava essa sensação de estar tateando às cegas. Especialmente quando
sentia que podia estar colocando a vida de Abby em perigo.
— Foi um risco. Elas deviam saber que o mago estava por perto.
— Dante! Acha que elas queriam o livro a ponto de matar por ele?
— Não sei. Elas não hesitam em matar quem se coloca em seu caminho. São
implacáveis.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— Acha que eles podem ter matado Selena?


A lembrança do comportamento misterioso de Selena voltou com força total. Ela
era arrogante o bastante para tentar se apropriar de magia proibida pelas bruxas. Ou
para tentar obter poderes que as teria posto sob seu controle. Mas...
— Não. Selena era o Cálice. Elas nunca teriam posto a Fênix em risco. Proteger o
espírito é o único objetivo que elas têm.
Ele a levou para a escada de serviço. O rastro do demônio ia ficando mais fraco, e
não queria perdê-lo. No momento, essa era a única pista que tinham para chegar até as
bruxas.
Ele farejou o ar. O cheiro de sangue era cada vez mais próximo.
— A shalott está ferida.
— Viper?
— Ele está no rastro do mago.
— As bruxas, então?
— Talvez a tenham punido.
— Por quê?
— Você escapou por entre os dedos da criatura.
Dante podia sentir no ar a ameaça. Ainda não conseguia identificar sua origem,
mas queria estar pronto para agir, caso fosse necessário.
— Acha que ela foi mandada atrás de mim? — Abby insistiu.
— É uma possibilidade.
— Então, por que ela não me atacou realmente?
Dante encolheu os ombros. No momento, tudo o que podia fazer era especular.
— Se ela está em poder das bruxas, não é por escolha própria. Os shalott são
independentes, fortes, e ela deve ter lutado contra as ordens que recebeu em todas
as oportunidades.
— Como você?
— Sim, como eu.
— Precisamos resgatá-la, Dante.
— Um demônio? — Ele se surpreendeu.
— Ela podia ter nos matado. Ou, na melhor das hipóteses, podia ter me levado
enquanto você estava inconsciente. Acho que devemos isso a ela.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— Se for possível, eu a libertarei. Mas antes temos que encontrá-la.

Viper deixou o corpo sem vida cair no chão e lambeu as presas para limpá-las. Não
gostava de aprendizes de feiticeiro, mas o guarda tinha de ser eliminado, e odiava
desperdiçar sangue fresco.
Apesar do pequeno medalhão que o identificava como seguidor do Príncipe, a
vítima não havia tido chance sequer de tentar se defender do ataque de Viper. E a
batalha só servira para aguçar seu apetite.
Com um gesto, ele usou seus poderes para enterrar o cadáver no chão. O sangue
fresco que corria por seu corpo elevava sua força e despertava o predador. Estava
caçando, e mataria tudo que cruzasse seu caminho.
Atravessando o cemitério abandonado, ele entrou na cripta e encontrou com
facilidade a entrada para o labirinto de túneis embaixo dela. Viper parou para farejar
o ar.
Sentia cheiro de humanos. E um punhado de demônios menores que se dispunham
a servir mortais em troca de proteção. Nada que pudesse ameaçá-lo.
Nada além do feiticeiro do Mal.
Protegido pelas sombras, ele desceu os degraus lentamente. Era sempre
confiante, mas não era estúpido. Um vampiro não vivia tantos séculos expondo-se a
perigos desnecessários.
Se o mago lançava mão do poder do lorde das sombras, devia ser um inimigo
formidável. Seria necessária muita habilidade para superá-lo.
Um passatempo perfeito para uma noite como aquela, ele reconheceu com um
sorriso frio.
Viper passou por mais dois guardas a caminho do santuário, e os matou com a
mesma eficiência silenciosa. Os poucos demônios que sentia eram espertos o bastante
para saírem de seu caminho antes de serem alcançados por ele.
Logo ele encontrou a entrada da câmara mais baixa, e ali parou para estudar o
aposento circular e amplo.
Havia um braseiro no centro, no chão de pedra. Diante do fogo ardente, um
homem se mantinha ajoelhado em adoração. O mago. Ele empunhava um chicote que
batia contra as próprias costas num ritmo constante.
Viper estava enojado. Encontrara muitos humanos que haviam vendido a alma para
o lorde da escuridão. Por poder, imortalidade, enfim, por razões variadas, eles se
tornavam servos fiéis que sacrificavam tudo e todos para satisfazer seu senhor cruel

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

e egoísta.
Sacrificavam até eles mesmos.
Criaturas patéticas.
E perigosas. Muito perigosas.
Apesar da distância, podia sentir a força ancestral que radiava pelo cômodo frio.
O feiticeiro devia ser um favorito do Príncipe, por isso mergulhava mais profun-
damente na esfera de poder.
Não era de espantar que incomodasse tanto seu amigo Dante.
Exibindo as presas, Viper flexionou os dedos e flutuou para as sombras da câmara
secreta.
— Sinto cheiro de um... Não é de um inglês. — Ele parou para farejar o ar e
estremeceu. — Ah, é um saxão. O último que devorei me deixou enjoado por dias
seguidos. Criatura imunda.
O mago se levantou de um salto e agarrou o medalhão que levava pendurado no
pescoço, olhando em volta a procura do invasor.
Um esforço inútil. Viper não seria visto enquanto não quisesse ser visto.
— Cooper, Johnson. — A voz do homem continha uma nota assustada enquanto ele
chamava pelos guardas. Bem, pelo menos era inteligente o bastante para sentir medo.
— Creckett.
— Morto, morto... E morto — Viper murmurou com tom frio.
O homem grunhiu enquanto se aproximava mais das chamas.
— Mostre-se, vampiro!
— Mais tarde, talvez. E só se você for bonzinho.
— Covarde!
Viper riu, ainda se movendo pelas sombras.
— Estou intrigado. Por que um feiticeiro tão poderoso estaria escondido nessa
caverna escura, surrando-se com um chicotinho de couro? E adepto desse tipo de...
Prazer? — Ele parou para ler os pensamentos que o mago não conseguia ocultar. —
Não. Prefere causar dor. Então, deve ser um sacrifício para o lorde das trevas.
— Não tenho que lhe dar explicações. Saia agora!
— Ah, mas eu ainda não tratei do assunto que me trouxe aqui.
— Pretende me desafiar?
— Não. Pretendo matar você.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— Toldo! Vai queimar no altar do Príncipe.


— Não, meu caro, é você quem vai queimar. Mas não antes de termos uma
conversa muito esclarecedora. Sente-se.
Viper ergueu a mão e moveu-se para frente, forçando o mago a se ajoelhar com o
poder que emanava. Não seria capaz de mantê-lo naquela posição por muito tempo, mas
obteria todas as respostas que procurava antes de ter o prazer de matá-lo.
— Vai me dizer tudo que sabe sobre as bruxas.

CAPÍTULO V

Um arrepio sacudiu o corpo de Abby quando ela chegou mais perto de Dante.
Ultimamente, sentir tremores e arrepios parecia ser uma ocorrência constante
em sua vida. Como ficar na escuridão tentando entender o que havia acontecido com
sua vida.
Uma semana atrás, àquela hora estaria trancada no apartamento minúsculo,
embaixo das cobertas.
Não saberia nada sobre as coisas horríveis que se manifestavam na escuridão da
noite, nem teria medo de se transformar em churrasco para homenagear uma divin-
dade cruel.
Ela olhou para o rosto do vampiro parado a seu lado.
Seu coração deu um salto.
Uma semana antes teria estado em sua cama, segura... Mas sozinha e infeliz.
Mesmo que tivesse de enfrentar muitas bestas, vários demônios e bruxas, não
lamentaria os eventos que a conduziram até aquele momento. Ter Dante a seu lado
valia qualquer sacrifício.
— Está sentindo alguma coisa? — ela perguntou.
— O demônio está perto.
— Quanto?
— Abby, não sou um GPS. Só posso dizer que ela está perto de nós.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— Então, as bruxas também devem estar.


— Sim.
Abby sentia uma forte onda de náusea. Era uma sensação que se repetia sempre
que ela pensava nas mulheres que vira em seu sonho.
Mulheres que tinham nas mãos sua vida e a de Dante.
— Vamos vasculhar casas?
Dante farejou o ar. Abby não sabia o cheiro que ele podia sentir, mas viu quando
ele balançou a cabeça em sentido negativo.
— Não quero agir às cegas. Prefiro saber antes o que vamos ter que enfrentar.
— Não vou passar a noite toda aqui. — Ela se impacientou. — Estou cansada, com
fome, e confesso que meu humor se deteriora rapidamente.
— Já se deteriorou.
— Dante...
Ele passou um braço sobre seus ombros.
— Abby, há mais de uma maneira de encontrar as bruxas.
Ela revirou os olhos.
— Não pode pelo menos me dizer aonde vamos?
— Você vai ver.
Ele virou uma esquina, e os dois passaram por restaurantes elegantes, cujos
cardápios não exibiam os preços dos pratos.
Era o tipo de vizinhança na qual mulheres como ela eram seguidas por seguranças
nas lojas.
Dante a levava para um café com mesas na calçada e executivos animados.
— Estou começando a repensar toda essa coisa de parceria.
— Amor, devia ter mais confiança em mim.
— Eu tenho, mas...
— Mas o quê?
Ela parou para encará-lo.
— Estou com medo.
Dante a abraçou e beijou seus cabelos.
— Não vou deixar que nada aconteça com você, Abby. Prometo.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

Ela recuou com a testa franzida.


— Não sabemos o que as bruxas vão fazer.
— Elas vão encontrar um novo Cálice, e você estará livre da Fênix.
— E você será o guardião de outra mulher.
— Ah... Está com ciúmes.
— Um pouco, talvez.
— Você é minha parceira. Mesmo que eu quisesse outra mulher, não poderia ter
outra.
— Mas eu voltarei a ser mortal.
— Vamos deixar para pensar nisso depois. Agora, temos de nos concentrar em
livrar você da Fênix. Enquanto não tirarmos o espírito de dentro de você, o perigo será
constante. — Ele a beijou na testa antes de puxá-la novamente pela rua, parando por
um instante na frente de uma loja movimentada. — Isso deve servir.
Ela olhou para os clientes, mulheres mais magras, mais ricas, e mais bonitas do
que ela.
— Que lugar é esse?
— Uma cafeteria.
— Sim, eu sei que é uma cafeteria. Mas por que estamos aqui?
— Por causa daquilo.
Ele apontou para um ponto diretamente acima da janela. Por um momento, Abby
não viu nada além dos tijolos vermelhos da parede do edifício. Depois, quando as
nuvens se moveram, ela notou os estranhos hieróglifos que brilhavam ao luar.
— Grafite?
— É um símbolo que identifica o proprietário como... Não humano.
Ele apontou para a janela, para o homem que se movia por entre as mesas. Abby
estava perplexa.
Jamais vira outro como ele. Alto e com músculos que teriam causado inveja em um
lutador profissional, ele vestia camisa de lantejoulas verdes e calça de estampa de
leopardo que parecia ter sido costurada em seu corpo. Mais incrível ainda era o cabelo
vermelho e longo que caía por suas costas como um rio de fogo.
Ele era uma borboleta exótica que radiava uma sensualidade tangível.
— Vamos ver se adivinho. É um E.T.? — Abby riu.
— Fada.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

Ela jamais teria adivinhado.


— Ele não é grande demais para ser fada?
A criatura desapareceu por um instante e, sem aviso próprio, explodiu no ar
diante deles.
— Não sou só uma versão masculina de fada, mas um príncipe entre elas — ele
corrigiu com uma mesura teatral. — Troy, ao seu dispor, e quero aproveitar para
lembrar que grande é sempre melhor. E claro que não espero que aceite minha palavra
sobre isso. Estou disposto a mostrar meus dotes, se quiser. Tenho um quarto
aconchegante no segundo andar onde pode provar meus bens com toda privacidade e...
— Não é necessário — Dante o interrompeu com tom frio.
Virando-se, o autodenominado príncipe das fadas o estudou com franca
admiração. Era evidente que seu gosto variava no sentido mais amplo da palavra.
—Ah, olá... Carne pré-industrializada, exatamente como eu gosto!
— Podemos conversar?
A criatura se aproximou de Dante lambendo os lábios.
— Sou capaz de pensar em coisas bem mais interessantes para fazermos juntos.
Dante não se abalou.
— O assunto é importante.
— Todos são... — Ele deslizou a mão pelo braço de Dante e se inclinou para
cheirá-lo. De repente, a criatura ficou tensa e, recuando, lançou para os dois um olhar
ofendido. — Saiam daqui!
Abby estava absolutamente perplexa com o que via, mas também sentia uma
incrível vontade de rir. Havia algo de bizarro e fascinante em Troy, o Príncipe das
Fadas.
Dante não parecia estar se divertindo. Pelo contrário, estava aborrecido.
— Só vou tomar alguns momentos do seu tempo — ele insistiu, tirando do bolso um
relógio de ouro que brilhou sob a luz da lua.
Troy olhou com interesse para a jóia.
— Entrem pelo fundo do prédio. Lá encontrarão o caminho para os meus
aposentos particulares.
Ele desapareceu como havia aparecido, mas Abby não teve chance para comentar
o truque, pois Dante já a puxava pela mão para as sombras no fundo do edifício.
— Afinal, que tipo de criatura ele é? Sempre pensei que as fadas fossem... Bem...

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

Garotas!
— Na verdade, o nome correto é Imp. São criaturas pouco confiáveis, fugazes,
que se deliciam com os prazeres da carne e, é claro, com o caos que criam.
— E esse... Imp é dono de uma cafeteria?
— Os Imp podem se passar por humanos, se quiserem, e são muito bons nos
negócios.
— E por que estamos aqui?
— Os demônios das redondezas se reúnem aqui para trocar informações.
Abby estremeceu. Os demônios estavam infiltrados nos bairros elegantes? O que
viria em seguida? A Casa Branca?
Não. Nem pense isso, Abby, ela disse a si mesma.
— Dante, acha que é sensato me aproximar de demônios que pensam em mim como
uma espécie de Sagrado Graal?
— Não há nenhum outro demônio aqui. Eu só queria conversar com o Imp. Ele deve
ter ouvido rumores, comentários...
— Está dizendo que os demônios vêm aqui para beber café e conversar?
— E mais ou menos isso. Se há bruxas na área, elas devem estar atentas ao lugar.
— Ele parou para abrir a porta, estudando o ambiente com cuidado antes de puxá-la
para dentro e fechar a porta.
Com um gesto de Dante, as luzes se acenderam. Abby espantou-se. Nunca antes
vira tanto veludo vermelho e verniz num mesmo lugar. Era evidente que alguns de-
mônios apreciavam o luxo e a opulência.
Troy entrou no quarto com sua exuberância característica e a mão estendida.
Dante pôs o relógio na mão aberta, e o Imp o inspecionou com ar de grande
conhecedor.
— Vamos ver. Ouro... Verdadeiro. Diamantes... Verdadeiros. Um pequeno arranhão
no cristal. — Ele guardou o relógio no bolso da camisa. — Você tem meia hora. Quer se
sentar?
— Não, obrigado. Não vamos demorar.
— Em que posso ajudá-lo?
— Estamos procurando por bruxas.
Os olhos verdes buscaram os de Abby.
— Ah, entendo. Quer uma poção, um encantamento? Tenho uma amiga que não vai

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

desapontá-la com...
— As bruxas que procuramos vivem juntas — Dante o interrompeu. — E não
fazem poções. São muito poderosas.
— Ah... — Troy torceu o nariz. —Aquelas bruxas.
— Você as conhece?
— Elas chegaram há alguns dias. Desde então, o valor dos imóveis está
despencando por aqui.
— Imóveis? — Abby estranhou.
— Os demônios estão incomodados. Essas bruxas não são como as outras. Não
adoram a beleza e a glória da Mãe Terra, e tiram seus poderes de sacrifícios com san-
gue. Vários espíritos já desapareceram.
Sacrifício com sangue? Abby mordeu o lábio. Isso não soava bem. De fato, estava
cada vez mais convencida de que procurar as bruxas não era uma boa idéia.
Se Dante estava chocado, ele não demonstrava. Seu rosto parecia ter sido
entalhado em mármore.
— O que sabe sobre elas? — ele perguntou.
— Vivem naquela monstruosidade vitoriana no final da íris Avenue.
— Quantas são?
— Dez.
— A casa está protegida?
— Muito. Elas têm uma shalott domesticada para proteger o local.
— Sabe se há algum encantamento de atração ou retenção?
— Não que se tenha notado.
— Elas devem estar conservando sua força — ele resmungou.
Troy tocou o cabelo de Dante e sorriu.
— Espero que elas estejam no seu cardápio para o jantar, bonitão, porque já
começaram a afetar meus negócios.
Dante sorriu com frieza.
— Por enquanto, só quero conversar com elas.
— Pena... — O Imp suspirou com ar dramático e se aproximou de Abby. Depois,
devagar, inclinou-se para cheirar seu pescoço. — Que cheiro é esse? Há algo dentro de
você...

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

—Bem, já estamos de saída — Dante anunciou, colocando-se entre o Imp e Abby.


— Obrigado por ter nos recebido.
Os olhos verdes se estreitaram, mas com um sorriso sardônico, a criatura se
curvou.
— Foi um prazer. Ainda assim, sugiro que não voltem. Meu estabelecimento é
munido de alguns pequenos encantamentos para atenuar as tendências mais ferozes de
alguns clientes, mas nada poderá evitar o derramamento de sangue se um deles sentir
seu cheiro, preciosa.
— Não vamos voltar — Dante garantiu, levando Abby para fora do quarto e do
edifício. Do lado de fora, ele disse: — Temos toda informação que queríamos. Agora...
O que fazemos com ela?

O porão era um verdadeiro cenário de filme de terror.


O piso de terra continha um tapete de detritos de ratos e outros insetos. As
paredes de pedra desgastada eram úmidas e emboloradas. Até o ar era pesado, conta-
minado por uma espécie de ameaça constante.
Tudo isso se combinava para criar uma atmosfera capaz de afugentar até a mais
calma das criaturas. Mas Edra era dura.
Não tinha um grande amor pelas sombras, mas sabia usá-las em proveito próprio.
E depois de séculos lutando contra a escuridão, finalmente aceitara que só confron-
tando o Mal diretamente poderia levá-lo ao fim.
Deixando a vela sobre o grande altar que mandara construir depois de ter sido
forçada a fugir do local secreto na periferia da cidade, ela retirou do bolso um pe-
queno amuleto.
A escuridão parecia se tornar mais intensa, e a vela tremulou. Um frio penetrante
pairava no ar.
Edra sorriu. Era muito poder.
O suficiente para alterar o mundo.
Suaves batidas na porta anunciaram a aproximação de alguém. Com autocontrole
impressionante, Edra guardou o amuleto no bolso e murmurou algumas palavras.
As poucas bruxas que restavam mal conseguiam conjurar um feitiço de
imobilidade. Certamente não poderiam sentir a aura negra que cercava o amuleto.
Mesmo assim, não correria riscos. Não agora.
Não quando estava tão perto do sucesso que já podia sentir seu doce sabor.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

Com um gemido, ela forçou as articulações endurecidas a se dobrarem diante do


altar, onde ela se ajoelhou e baixou a cabeça numa prece silenciosa. Só quando sentiu a
mulher parada a seu lado ela ergueu os olhos.
A invasora era magra, com cabelos castanhos e lisos. Devia ter um nome, mas
Edra nunca se dera o trabalho de descobrir qual era. As companheiras que tanto amava
estavam mortas. As bruxas de menor poder ali reunidas eram só inconveniências
necessárias.
— O demônio vive?
— Sim, mas os ferimentos são graves — a mulher respondeu franzindo a testa. —
Sally teve de curá-la.
— Ela não devia ter se incomodado com isso. Logo não vamos mais precisar da
criatura. — Edra notou a perturbação nos olhos escuros e se levantou.
Deliberadamente, deixou seu poder inundar o ambiente. Havia momentos em que suas
seguidoras precisavam lembrar que sob a aparente fragilidade da idade ainda havia
uma força capaz de destruir sem piedade. — Tem algo a dizer?
A bruxa hesitou por um instante antes de erguer os ombros.
— No último você repetiu diversas vezes a promessa de que nos livraríamos dos
demônios, mas ainda nem perto de alcançar nosso objetivo, e agora muitas das nossas
morreram.
— Não tenho culpa se Selena se tornou ambiciosa demais e usou os livros de
encantamentos antes que eu pudesse ajudá-la, ou se o mago atacou sem aviso prévio —
ela disparou irritada.
— Devíamos ter nos preparado melhor.
Edra tocou o amuleto em seu bolso.
— Está sugerindo que eu falhei?
— Estou sugerindo que nos tornamos complacentes.
— E quer desafiar minha autoridade?
Sentindo a morte iminente, a bruxa recuou um passo.
— Não. Só quero recuar para recuperarmos nossas forças. Continuar com o plano
fracas como estamos é loucura.
— Recuar agora é impossível. Todos os sinais estão em alinhamento. Temos de
atacar enquanto podemos.
— Mas nós nem sabemos onde está a Fênix. A shalott fracassou.
— O Cálice está próximo. E está procurando por nós nesse exato momento.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

A jovem bruxa piscou com grande surpresa.


— Você a sente?
— Sim, eu sinto. Prepare o sacrifício. O momento se aproxima.
A jovem se retirou apressada.
— Sim, senhora.
Sozinha, Edra se concentrou na vaga percepção que ganhava força a cada
instante.
Finalmente.
Apesar de todos os obstáculos. Apesar das mortes. Apesar dos fracassos. Seu
sonho estava prestes a se tornar realidade.
— Venha para mim — ela sussurrou.

— E isso.
Parada ao lado de Dante no meio da vegetação selvagem, Abby estudou a casa.
Afastada da rua e quase escondida pelas árvores, a estrutura vitoriana era antiga
e sombria. Na verdade, parecia estar a um passo do desmoronamento.
Mesmo nas sombras era fácil ver a pintura descascando e a varanda em ruínas.
— Uau! Isso é... Sinistro.
Dante estava em pleno modo predador. Com facilidade incrível, ele desapareceu
nas sombras e permaneceu imóvel. Não se contorcia como ela, nem reclamava dos
galhos e espinhos espetando suas costas. Havia até certo tédio em sua respiração
estável, profunda.
Se não tivesse plena consciência da tensão em seu corpo, poderia pensar que
Dante havia sido transformado em pedra.
Ela estudou os traços quase irreconhecíveis na total rigidez. Aquele não era o
amante terno nem o pirata sedutor. Aquele era o vampiro guerreiro que ainda causava
certo desconforto nela.
Ele a encarou.
— Sente alguma coisa?
— Sim — ela confessou, esfregando os braços arrepiados. — Mas não sei o que é.
— Descreva.
— É como se eu pudesse ouvir sussurros no fundo da minha mente. Não consigo

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

entender as palavras, mas elas estão lá.


— São as bruxas?
— Imagino que sim. O que foi isso?
— O quê?
— Você rosnou?
— Não estou gostando disso. É tudo muito quieto, silencioso...
— Depois de terem sido atacadas pelo mago, não me surpreende que queiram
ficar escondidas e quietas. O que esperava encontrar? Uma festa?
— Abby, elas não têm encantamentos protegendo a casa.
— E a shalott?
Ele farejou o ar.
— Deve estar lá dentro. Ou morta.
— Então, não há nada que possa nos deter, certo?
— Só uma coisa.
— O que é?
— Esta é uma casa, um lugar privado. E não posso entrar sem ser convidado.
— Está brincando?
— Não.
— Não vive em uma cripta, não se transforma em morcego, mas precisa ser
convidado para entrar em uma casa?
— Você queria algo vampiresco...
— Nada tão inconveniente.
— Sinto muito.
Ela torceu o nariz, percebendo que seu comportamento era ridículo.
— Não, tudo bem. Até sabermos o que vai acontecer, prefiro que fique longe das
bruxas.
Ele nem piscou, mas Abby sentiu a súbita explosão de raiva.
— Quer que eu me esconda entre os arbustos?
— Dante, é mais sensato nos separarmos — ela argumentou. — Vou precisar de
você inteiro, caso tenha de ir me salvar.
Ele a apertou contra o peito.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— Desista, Abby. Não posso deixar você entrar sozinha.


— Prometo que não vou me expor ao perigo. Não mais do que o necessário. Vou
encontrar as bruxas e...
— Não.
— Escute, Sr. Machão, eu tomo minhas decisões.
— Não nesse caso.
— Essa discussão já começa a se tornar repetitiva, Dante. Não sou criança. Para
ser honesta, acho que nunca fui. Não vou acatar ordens, sejam elas suas ou de outra
pessoa.
— Se você morrer, eu morro.
Ela o encarou perplexa.
— Por que somos parceiros?
— Porque você é a razão pela qual eu existo.
— Ah... —Abby se calou, aturdida pela beleza das palavras simples.
Era difícil se manter altiva e independente quando ele fazia seu coração
derreter.
— Dante...
Um dedo tocou seus lábios, e ele olhou para a área de sombras em torno da casa.
— Alguém se aproxima — sussurrou.
Os dedos de Abby apertaram o braço dele numa resposta de medo e ansiedade.
Por isso ela estava ali, é claro, mas isso não amenizava a opressão no peito ou o frio no
estômago.
Essas mulheres não eram as senhoras do clube de jardinagem do bairro. Não a
convidariam para um chá com biscoitos.
Eram poderosas feiticeiras que podiam acorrentar um vampiro com um feitiço e
controlar um espírito muito antigo que mantinha o mundo protegido dos demônios.
Seria uma grande tolice subestimá-las.
Ignorando a fraqueza nos joelhos, Abby se manteve ereta com grande esforço.
Enfrentaria tudo que tinha de enfrentar. Não ouvira os passos de Dante, mas sabia
que ele estava atrás dela.
Em poucos momentos uma mulher magra e de rosto estreito surgiu das sombras.
Parando diante de Abby, ela se curvou até quase tocar o chão.
— Milady, finalmente chegou — disse.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

Abby olhou para Dante por cima de um ombro.


— Milady?
— Selena sempre fez questão de ser tratada como a nobre que foi um dia. Você
deve ter herdado o título e o tratamento.
— Seria ótimo se a herança acabasse por aí.
A bruxa pigarreou, ignorando o vampiro que se mantinha a poucos passos de
distância.
— Se puder me acompanhar, milady, a senhora a espera.
Milady? Senhora?
Abby decidiu que era hora de se impor.
— Só se Dante for convidado também.
O rosto fino expressou um instante de contrariedade.
— E claro. O protetor deve acompanhar o Cálice. Por aqui.
Ela se virou e começou a caminhar para a casa escura. O momento crucial se
aproximava.

Viper ajustou cuidadosamente os punhos de renda antes de olhar para o mago


encolhido no canto. O cheiro de sangue era forte. O feiticeiro podia ser velho, mas ha-
via sangrado como qualquer ser humano, cuja cabeça se choca contra uma parede de
pedra.
Infelizmente, apesar do aroma delicioso, ele não sentia vontade de drenar a
criatura patética. A idolatria no altar do lorde das trevas tornava seu sangue tão
pútrido quanto sua alma escura.
Viper moveu a mão ao notar que o feiticeiro ainda tentava recitar um
encantamento. O homem já estava enfraquecido pelo encontro com Dante. Por alguma
estranha razão, suas tentativas de invocar o poder da escuridão haviam sido inúteis.
Viper só podia presumir que o Príncipe não estava satisfeito com seu discípulo.
Sendo um vampiro antigo e forte, não tivera dificuldades para superá-lo.
— Acho que nosso problema aqui é de comunicação — Viper debochou, notando a
palidez no rosto do bruxo.
— Vá para o inferno!
— Eventualmente, sem dúvida. Mas, nesse momento, espero não ter de recorrer à
violência desnecessária. Esta é minha jaqueta favorita, e é difícil remover restos de

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

tecido cerebral do veludo. Porém, o prazer de matar vai compensar o esforço.


O homem antes poderoso se encolheu de medo.
— Você é um vampiro! Por que se importa com as bruxas?
— Não gosto delas. Por mim, elas podem apodrecer no inferno. Meu único
interesse é no bem-estar do meu clã. Você cometeu um grave erro de cálculo quando
atacou Dante.
— Ele é um peão das miseráveis.
— Resposta errada. — Viper provocou um corte profundo na face do velho.
O mago gritou, e seus olhos se encheram de pavor.
— Se você me matar, também vai morrer.
— Acredita que seu deus vai vingar a morte de um maluco patético como você? E
mais provável que ele me mande uma cesta de frutas.
O homem ergueu a mão num gesto de rendição.
— Você tem que entender. São as bruxas!
— O que tem elas?
— Elas planejam assassinar você.
Viper não confiava no feiticeiro. Aquele homem venderia a própria alma, se ainda
a tivesse, para salvar a sua pele. Porém, era possível sentir o cheiro do desespero
emanando de seu corpo. O homem realmente acreditava que as bruxas eram um perigo.
— Elas querem me matar? Por quê?
— Elas nos querem mortos. Todos nós.
Viper abaixou e agarrou o adversário pelo pescoço. Ao primeiro indício de
mentira, poria fim à vida desse verme desgraçado.
— Conte tudo que sabe.

Dante controlava a fúria com grande esforço enquanto seguia a bruxa que os
conduzia pela casa escura. Eles mal haviam passado pela soleira, quando o aroma
familiar de encantamentos, ervas secas, e outros odores menos agradáveis provocaram
uma reação em seu estômago.
Conhecia bem esse. Cheiro horrível. As bruxas preparavam um sacrifício. E ele
pretendia garantir que o sacrifício não incluísse Abby ou ele mesmo. Mesmo que, para
isso, tivesse de matar.
Os cômodos eram grandes e vazios, com tetos encurvados que davam a impressão

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

de ainda mais espaço. Porém, o ar era pesado como um manto úmido e quente que o
pressionava de maneira muito desconfortável. Havia ali o cheiro inconfundível de
porões empoeirados e prisões úmidas.
Quando chegaram ao que devia ser a sala formal de visitas, a bruxa parou.
— Senhora, trago aqui o Cálice — ela anunciou com tom reverente.
Houve um farfalhar na escuridão e um cântico baixo antes de uma luminosidade
dourada iluminar o lugar.
Uma mulher pequenina, quase frágil, ergueu-se de uma cadeira. Ao primeiro olhar
ela parecia ser só uma doce avó com seus cabelos brancos e o rosto marcado por
linhas. Mas os olhos castanhos e duros transmitiam uma força e um poder que não
cominavam com essa descrição de doçura e bondade.
A velha bruxa parou diante de Abby e sorriu um sorriso gelado.
— Milady. E o guardião. Venham, entrem e sejam bem-vindos.
Dante sentiu a hesitação de Abby antes de ela ir se sentar em uma poltrona de
couro diante da lareira vazia. Atrás dela, em pé, ele se mantinha pronto para atacar.
Edra o estudou por um segundo, como se quisesse determinar se ele seria um
obstáculo aos seus planos. Sua decisão não se fez transmitir pela expressão do rosto
envelhecido. Mas, como Dante permanecia em pé, ela devia ter concluído que não
representava uma ameaça.
Por enquanto.
Ela olhou para o rosto pálido de Abby.
— Ainda não fomos apresentadas, embora eu tenha a sensação de sermos velhas
conhecidas; Meu nome é Edra. E você é...
— Abby Barlow.
— Ah, a criada. Eu devia ter imaginado que você era a única suficientemente
próxima para receber a Fênix.
— Não tive essa intenção. Se soubesse o que ia acontecer, teria corrido na
direção oposta e gritado bem alto para garantir a fuga.
— E compreensível. Quer uma taça de vinho, minha querida? Você parece exausta.
— Não, obrigada.
— Muito bem. — Houve um silêncio prolongado e incômodo. —Você está bem? Não
tem tido dificuldades para carregar a Fênix?
— Além de ser perseguida por todos os demônios e feiticeiros do Mal de Chicago?

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

A mão crispada fez um gesto de desdém.


— Refiro-me ao aspecto físico. Sente dores? Enjôo?
— Meus olhos ficaram azuis, e tenho certa tendência para incinerar as pessoas,
mas, além disso, acho que está tudo bem.
— Que alívio. Mesmo assim... —A mulher se inclinou diante de Abby, ignorando o
rosnado de Dante quando ela estendeu a mão para tocar o rosto pálido. — Talvez não
se incomode se eu examinar a Fênix para certificar-me de que ela não foi prejudicada
por... Eventos recentes?
Abby estremeceu sob os dedos gelados, mas manteve-se firme.
— Se é mesmo necessário...
Edra fechou os olhos e começou a murmurar algumas palavras estranhas. Dante
não podia sentir a magia, mas sabia que ela já começava a ser produzida. Suas mãos se
cerraram. Odiava tudo aquilo.
— Ela está bem, graças a Deusa — a feiticeira anunciou. Depois, sem aviso, ela
emitiu um gemido entrecortado e cambaleou para trás, levando a mão ao peito. — Oh...
Abby agarrou os braços da cadeira.
— O que é?
Com esforço, a bruxa conseguiu recuperar o controle. Sua mão, porém,
permanecia vermelha. A Fênix a atacara. O que isso significava?
— Você possui um grande poder. Maior do que Selena jamais possuiu. Acho que vai
se sair muito bem.
Abby olhou para a bruxa com ar desconfiado.
— Vou me sair bem?
— Como Cálice, é claro.
— Estamos aqui para que remova o espírito — Dante manifestou-se pela primeira
vez.
As velas tremularam. Era o poder emitindo um aviso nada sutil.
— Impossível — disse Edra. — A Fênix já se apoderou desse corpo.
— Então encontre outro corpo.
— Cuidado com o que diz, besta!
A violência pairava no ar, e Abby se levantou.
— Escute, entendo sua preocupação, mas não posso ser seu... Cálice. Não pedi
nada disso, não fui treinada para isso, e estou cansada de todas essas coisas assusta-

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

doras tentando me matar.


— Agora você está conosco. Nós cuidaremos do seu treinamento e da sua
segurança.
— Como fizeram com Selena? — Dante debochou.
— Selena atraiu a própria morte.
— Como?
— Não cabe a você questionar o que acontece nas esferas místicas.
— Mas cabe a mim — Abby interrompeu irritada —, e quero saber o que
aconteceu com Selena.
— Vamos falar sobre isso mais tarde.
Dante conteve um sorriso ao ouvir o tom autoritário da bruxa. Sabia como Abby
reagiria ao comando.
— Não! Quero saber agora como ela morreu.
Edra ficou tensa. Estava habituada a comandar suas discípulas com mãos de
ferro, e até Selena se curvava relutante a sua autoridade.
Surpreendentemente, porém, ela estudou a jovem mulher diante dela com algo
que podia ser cautela.
— Ela tentou realizar um feitiço que estava muito além de sua capacidade.
— Que tipo de feitiço? — insistiu Abby. — Para quê?
— E uma... Proteção contra os demônios.
Ela estava mentindo.
— Pensei que a Fênix pudesse se proteger — Abby declarou.
— Sim, contra muitos inimigos.
— Ela temia um ataque?
— E sempre uma possibilidade que causa receio, não? O Mal está à espreita,
esperando por uma oportunidade de recuperar aquilo que perdeu. Há forças do Mal no
mundo que não se curvam a nada, não se detêm em sua intenção de destruir-nos.
— Sim, eu sei, já fui apresentada a algumas delas. Por isso quero essa... Essa coisa
fora de mim e em outro lugar, com alguém que saiba o que está fazendo.
Houve uma pausa tensa antes de a feiticeira tocar o braço de Abby com um gesto
estranho, acanhado.
— Vamos considerar o que é melhor para todos, mas antes você precisa

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

descansar. Posso sentir sua exaustão.


A mulher se virou e caminhou para a porta antes que Abby pudesse reagir, mas
Dante foi mais rápido. Ele se colocou entre a feiticeira e a saída com as presas à
mostra.
— Abby precisa das ervas.
Edra piscou assustada com a repentina aparição, mas logo deu ao rosto uma
expressão de altivez e controle.
— E claro.
— E eu preciso de sangue.
O desdém tornou-se mais profundo.
— Será providenciado.
Dante se afastou para deixá-la sair. Esperava que ela houvesse sentido como
havia desejado matá-la ali mesmo.
Abby se sentia como uma garrafa de champanhe que havia sido sacudida até
quase explodir.
Nunca havia imaginado que os nervos pudessem ficar tão tensos, ou que pudesse
sentir tanto frio em uma sala tão quente.
Pior, não sabia se o que a enervava era estar no covil das bruxas ou a atitude de
Dante. Parado na porta, ele parecia uma estátua de mármore. Não havia vida nos olhos
prateados, nem um movimento nos músculos firmes.
Ele poderia ser um manequim, não fosse pelos caninos grandes demais.
Finalmente, ela não se conteve.
— Dante. Está tudo bem?
Um tremor o sacudiu. Finalmente, ele se virou para fitá-la.
— Não gosto de ficar aqui.
— Nem eu. Faz um calor infernal aqui, mas eu sinto frio. Não faz sentido.
— Magia, talvez?
Abby podia sentir alguma coisa no ar. Era uma premonição, algo que fazia arrepiar
a pele e perturbava o estômago.
— Sim, magia... Esperando para acontecer. E como uma tempestade se formando.
Você pode sentir a eletricidade antes de o temporal começar.
— E o que elas estão preparando?

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Ela se aproximou de Dante e parou na frente dele. Havia esperado que encontrar
as bruxas diminuísse seus temores vagos, mas, em vez disso, a urgência de fugir era
cada vez maior.
— Não sei. Mas acho que devemos ir embora daqui, Dante.
— Não. — Ele a beijou para interromper um protesto. — Não enquanto você não
estiver segura.
— Ela não parece estar muito ansiosa para me livrar da Fênix.
— Se conseguir convencê-la de que não vai se curvar às ordens dela nem se deixar
manipular como uma marionete, ela será forçada a encontrar um novo Cálice. As bruxas
consideram a Fênix propriedade particular, e não vão querer perder o controle. Mesmo
que para isso tenham de pôr o espírito em risco.
— Está dizendo que devo simplesmente ser eu mesma?
Um esboço de sorriso distendeu os lábios dele.
— Exatamente. Mas uma coisa de cada vez, amor. Primeiro temos de nos
certificar que Edra compreende que você está falando sério sobre não querer abrigar
a Fênix. Minha esperança era de que ela já houvesse escolhido outro Cálice e estivesse
ansiosa para ajudar-nos. Mas agora...
— O que acontece?
— Bem, ela pode parecer velha e frágil, mas manipula a magia como um gladiador
empunha sua espada, e não se importa se tem que machucar alguém com seus golpes.
Precisamos ser cuidadosos para convencê-la a libertá-la sem despertar nela o medo de
que você possa se tornar uma inimiga.
— Vamos ver se entendi... Quer que eu enfrente a bruxa, mas não a ponto de
fazê-la querer minha cabeça boiando em seu caldeirão.
— E mais ou menos isso.
— Não acha que está pedindo demais?
— Isso é importante, amor.
— Eu sei. — Ela o abraçou e apoiou o rosto em seu peito.
Podia sentir ao longe a evolução de um feitiço e o cheiro de ervas e outros
ingredientes. Era horrível.
Mas estar nos braços de Dante a ajudava a ser forte.
Que paradoxo!
Abby não sabia quanto tempo havia se passado, mas Dante a estava levando ao
centro da sala para que ela visse a mulher que entrava com uma bandeja de prata. Ela

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

piscou ao ver a jovem deixar a bandeja com uma garrafa sobre uma mesa baixa e
levantar-se, jogando para trás os longos cabelos loiros.
Unindo as mãos, a jovem a encarou.
— A senhora solicitou que eu servisse uma bebida para vocês — ela conseguiu
gaguejar acanhada.
Abby sentiu pena dela. Não sabia que motivo a levara a se unir às bruxas, mas
podia sentir sua infelicidade. Podia ver a insatisfação no corpo tenso e rígido.
— Obrigada. Foi muita gentileza — ela disse. Surpresa com sua reação, a menina
piscou os olhos escuros e se virou para sair.
Antes que Abby percebesse o que acontecia, Dante estava diante dela. Agora
teriam uma aprendiz de bruxa sofrendo um ataque histérico na sala de estar.
Mas a jovem não gritou. Nem piscou. Seus traços perderam o tônus e os olhos se
apagaram como se ela houvesse levado uma pancada na cabeça.
— Não quer ficar? — Dante murmurou.
— Eu... tenho muito para fazer... preciso...
Dante apontou uma cadeira.
— Sente-se.
Ela obedeceu.
— O que você fez? — Abby perguntou.
Ele se abaixou diante da cadeira, os olhos fixos nos da feiticeira.
— Ela é jovem e ainda não foi treinada para resistir ao poder hipnótico de um
vampiro.
— O que isso significa?
— Que ela está em meu poder.
— Meu Deus...
— Eu disse que era capaz disso.
— Saber que você pode fazer alguma coisa é bem diferente de ver você fazendo
essa mesma coisa.
Dante concentrou-se na jovem diante dele.
— Diga-me seu nome — ele comandou.
— Kristy.
— Kristy, há quanto tempo faz parte desse grupo?

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— Não muito. Algumas semanas.


— Sabe sobre a Fênix?
— É claro que sim. As bruxas só se mantêm reunidas por ela. Ela é a salvação de
todos nós.
— Salvação?
Um fervor luminoso cintilou no rosto jovem.
— Com a adorada Deusa, poremos um fim na escuridão. A luz brilhará por toda
eternidade.
— E como irão por um fim na escuridão?
— Há um encantamento. Palavras que podem acabar com o mundo dos demônios
para sempre.
— Deve ser um feitiço poderoso.
— Sim. Só as mais talentosas podem realizar o ritual. A última que tentou...
Morreu.
— E quem foi ela, Kristy? Selena?
— Eu... Eu... não devo dizer seu nome. Ela traiu a irmandade e foi punida como
merecia. A senhora nos proibiu de falar sobre ela.
— Acalme-se. Está tudo bem — Dante a tranqüilizou. — Edra planeja realizar o
feitiço?
A jovem suspirou aliviada. Essa era uma pergunta que ela podia responder.
— Sim, ela vai usar a Fênix para lutar contra o lorde das trevas e acabar com os
demônios.
— Que demônios?
— Todos. O mundo finalmente será puro.
— Maldição! — Dante exclamou furioso.
A feiticeira se levantou repentinamente. Algo que podia ser dor retorcia seus
lábios.
— Ela me chama. Preciso ir.
Dante também se levantou e segurou seu rosto entre m mãos.
— Kristy, há mais alguma coisa que queira me contar?
O poder da voz profunda fez a jovem estremecer.
— O sangue se tingiu de prata — a feiticeira murmurou.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

Dante assentiu. Era exatamente o que havia imaginado.


— Vá atender sua senhora. Você não vai lembrar a conversa que tivemos. Trouxe a
bandeja e saiu em seguida. Entendeu?
— Eu trouxe a bandeja e saí — a garota repetiu atordoada.
— Muito bem. — Dante recuou. — Agora vá!
A aprendiz de bruxa saiu.
— O que ela quis dizer? — Abby indagou, curiosa e confusa.
— Carnificina. Nunca imaginei que Edra pudesse ser tão violenta.
— As bruxas podem realmente matar todos os demônios?
— Elas acreditam que sim.
Abby respirou profundamente. Havia perdido as contas de quantas vezes se
sentira apavorada nos últimos dias. Quantas vezes imaginar uma criatura horrenda ar-
rancando seus membros, rasgando sua garganta... Mas, por pior que fosse, havia
descoberto que nem todos os demônios eram monstros.
Dante era um demônio. E Viper. E as lindas fadas. E Troy, o ridículo Príncipe dos
Imp. E a shalott que havia sido torturada depois de-tê-la deixado escapar.
Faria o que pudesse para impedir esse genocídio.
— Temos que detê-la — ela decidiu, embora nem imaginasse como.
— É isso que você quer? Deter a bruxa? Abby, se lutarmos contra Edra, talvez
você nunca se livre da Fênix.
— Acha que eu poderia sacrificar você? Por qualquer razão?
— Bem, livrar o mundo do Mal é um objetivo nobre.
Ela se aproximou dele e o agarrou pela camisa. Se pudesse teria dado uma boa
sacudida nesse vampiro estúpido e teimoso, mas tudo o que conseguia era amarrotar o
tecido fino.
— O mal não está só nos demônios, Dante. Os humanos são igualmente capazes de
terríveis maldades.
— Mas nos consideram monstros.
— Eu sei que nem todos os demônios são monstros. Como os humanos não são
santos. Além do mais, eu nunca concordaria com esse massacre. Por melhor que seja a
intenção, os meios seriam errados e o fim é absurdo. E mais uma maldade.
Dante assentiu.
— Então... Precisamos sair daqui.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

Abby suspirou aliviada.


— Graças a Deus.
Ele segurou a mão dela e deu alguns passos na direção da porta, mas logo se
deteve.
— Droga — ele resmungou, voltando para o centro da sala e para perto da bandeja
que nem haviam tocado.
— O que é?
— Alguma coisa se aproxima.
Com o coração aos saltos, ela o viu pegar o cálice de sangue envenenado.
— O que está fazendo?
— Deixando Edra acreditar que se livrou de um inimigo. — Ele jogou o sangue pela
janela e voltou com o cálice vazio. Em seguida, estendeu-se no chão. — Se as bruxas
pensarem que estou morto, terei mais chances de encontrar uma possibilidade de fuga
para nós.
Abby mordeu o lábio. Não gostava desse plano. Não quando ele podia significar
sua separação de Dante.
— Mas... Edra não vai saber que você não está morto? — ela duvidou.
— Abby, eu estou morto.
— Ah...
— Tome cuidado, amor. Vamos sair daqui o mais depressa possível. Eu vou cuidar
disso.
— Seja rápido, por favor.
Dante mergulhou dentro dele mesmo. Diferente da maioria dos humanos, a velha
bruxa ia precisar de mais do que um cadáver para convencer-se de que ele estava
morto.
Felizmente, vampiros podiam se recolher em si mesmos de forma que só outro
vampiro era capaz de notar a centelha de vida.
Nenhum encantamento podia revelar a verdade.
Projetando os sentidos, ele monitorou a aproximação de Edra e as emoções de
Abby que, ajoelhada a seu lado, tocava seu rosto. Sentia sua fragrância doce
misturada ao cheiro do medo, e tinha de fazer um grande esforço para não projetar a
mente e confortá-la. O menor sinal de energia seria suficiente para alertar a bruxa.
Os passos atravessaram a sala, e Dante detectou o cheiro de ferro no ar.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

Estranho. A mulher devia carregar um amuleto. Não era o tradicional amuleto de


madeira. Esse objeto era duro e escuro e transmitia a sensação de sombras negras.
— Milady, há algo errado? — Edra perguntou com falsa solidariedade.
— Por Deus, aconteceu alguma coisa com Dante. — Não havia como duvidar do
medo na voz de Abby. Fosse o sentimento um eco do terror por estar ao alcance das
garras da feiticeira, ou a apreensão por ele parecer realmente morto, não fazia
diferença. — Você precisa ajudar.
— E claro, vou chamar alguém para cuidar dele, curá-lo. Venha comigo.
Abby tocou o rosto de Dante.
— Não posso deixá-lo aqui.
— Tem talento para tratar os imortais?
— Não, mas...
— Então, devemos ir procurar alguém que tenha.
O argumento era razoável, e Dante sentiu Abby se levantar lentamente.
— Muito bem.
Foi necessário recorrer a todo o poder que ele possuía para não se levantar de um
salto e impedi-la de sair.
Não queria que ela se afastasse. Não queria que se expusesse ao risco de ficar
sozinha com Edra. Mas que alternativa tinham? Não podia atacar a bruxa diretamente.
Não enquanto estivesse ligado à Fênix. E Abby ainda se esforçava para compreender e
administrar os poderes que possuía.
Tudo o que podia fazer era deixar as feiticeiras acreditarem que não era mais
uma ameaça e esperar por uma oportunidade para resgatar Abby de suas garras.
Depois disso... Lidaria com o depois quando ele chegasse.
Forçando-se a esperar e certificando-se de que mais ninguém entraria na sala,
Dante ouviu as batidas leves na janela.
Ele projetou os sentidos para identificar o recém-chegado e, rápido, flutuou até
a janela para encerar o vampiro do outro lado.
— Viper.
— Dormindo em serviço? — provocou o vampiro de cabelos prateados, passando
pela janela aberta.
Dante o encarou surpreso.
— Como conseguiu entrar?

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

Sorrindo, Viper exibiu um objeto que levava sob a jaqueta de veludo, uma pequena
bolsa de couro presa em seu pescoço por uma tira do mesmo material.
— Presente de uma sacerdotisa vodu.
— O que há nela?
— Uma variedade de coisas usadas na animação dos mortos. Isto me faz passar
por um ser vivo.
Um truque muito útil, Dante reconheceu. O tipo de brinquedinho que Viper
adorava colecionar. Ao vê-lo guardar novamente a bolsa sob a jaqueta, Dante notou as
queimaduras que marcavam a pele de seu peito.
— O que aconteceu?
— Tive um pequeno desentendimento com o mago das trevas.
— Que tipo de desentendimento?
— Achei que ele devia morrer, e ele não concordava comigo.
Dante não conteve o riso. Era inútil tentar convencer Viper a não correr riscos.
Quando saía em caçada, nada podia detê-lo.
— Imagino que, no final, você o tenha convencido a aceitar seu ponto de vista?
— Sim, depois de certo tempo e com algum esforço. Mas fui descuidado, Dante. O
poder daquela criatura era maior do que eu esperava.
Então, o mago do Mal já não existia. Menos um problema para resolver.
— O que está fazendo aqui?
— Antes de rasgar a garganta do miserável, o feiticeiro jurou que as bruxas
pretendem nos varrer para as profundezas do inferno. Todos nós. Decidi que ainda não
estou preparado para sair daqui.
Dante segurou os ombros de Viper. Palavras eram desnecessárias. Caçariam
juntos como haviam feito tantas vezes antes.
Poucas coisas podiam fortalecer Dante mais do que essa certeza.
— As bruxas estão com Abby — ele revelou.
— Onde?
Dante projetou os sentidos para localizar a parceira.
— No subterrâneo. Um porão.
Viper assentiu devagar.
— Pode lutar?

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— Não posso causar mal às bruxas que participaram do feitiço que me acorrentou
à Fênix, mas as noviças não serão problema para mim.
Viper sorriu revelando as presas.
— Deixe as outras comigo então.
— Também há uma fêmea de demônio. Temos de nos certificar de que ela não
planeja nenhuma surpresa desagradável para nós.
Viper inclinou a cabeça para trás e farejou o ar. Os olhos prateados se abriram
em choque.
— Uma shalott! Então, eles não desapareceram. Que interessante...
Dante sorriu ao ver o brilho nos olhos de Viper. Havia rumores de que o sangue de
uma shalott era afrodisíaco para os vampiros, o que sem dúvida explicava por que eles
haviam decidido seguir o senhor das trevas. Sem a proteção do poder das sombras,
eles teriam sido caçados até a extinção pelos vampiros.
— Cuide de Edra; eu me encarrego da demônio — Dante decidiu sério.
— Ora, ora, não me diga que está seduzido pela criatura! O que Abby vai dizer
disso? — Viper debochou.
— Ela quer que poupemos a shalott.
Viper ficou repentinamente sério.
— Por quê?
— Porque ela poderia ter nos matado, mas não matou.
— Humanos! — Ele balançou a cabeça, revelando nos olhos uma emoção
indecifrável. — Sempre tão fracos!

Abby mordeu o lábio ao sentir um arrepio na nuca e as mãos suadas e frias.


Deixou-se levar pelos cômodos escuros e vazios e por uma escada estreita que parecia
descer ao centro da terra.
O cheiro de terra úmida e mofo invadiu seu olfato, e ela hesitou ao ser envolvida
pela mais completa escuridão.
— Não tenha medo — Edra sussurrou, tornando-se subitamente visível quando o
fogo explodiu em um braseiro no chão. — Não há nada aqui que possa querer seu mal.
Só você, Abby pensou.
— Por que estamos aqui?
— Há algo que quero lhe mostrar.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

Edra caminhava para uma plataforma de mármore perto do braseiro. Uma área
retangular e lisa que era muito parecida com... A cobertura de uma sepultura.
Ao longo da pedra havia velas pretas e ervas secas cuidadosamente arranjadas. E
no centro um estranho símbolo havia sido desenhado com um líquido escuro e espesso
que brilhava com uma tonalidade muito escura de vermelho.
Abby seguiu a mulher com grande relutância.
— O que é isso?
— Meu modesto altar. — A bruxa tocou a pedra fria com reverência. — Não é o
que eu gostaria de apresentar à amada Deusa, mas tive de deixar para trás muitas
coisas depois do ataque do mago.
— Por que estamos aqui?
— Para mudar o mundo, milady.
— Sua explicação é um pouco vaga.
— É hora de revelarmos toda a glória da Fênix. Seu poder limpará o mundo.
— Limpar o mundo de quê? — ela perguntou, como se necessitasse induzir a bruxa
a confessar suas intenções maléficas.
— Do Mal.
— Vaga, ainda. De que mal estamos falando?
— Demônios, é claro. E daqueles que idolatram o senhor das trevas.
— O senhor das trevas foi banido deste mundo.
Impaciência e fúria deram uma imediata dureza ao contorno dos lábios da mulher
mais velha. Era evidente que ela não gostava de discutir suas decisões.
— Sua imundície ainda macula o próprio ar que respiramos. Ele chama por seus
discípulos, e eles respondem. Todos devem ser aniquilados — ela anunciou com voz
rouca.
— E espera que a Fênix faça isso?
— E claro. A amada Deusa deve governar. — Ela estendeu as mãos como se
aceitasse a idolatria de discípulos invisíveis. — Como eu devo governar. Nosso tempo
finalmente chegou.
Ah, agora tudo se explicava! A mulher era maluca! Depressa, Dante, ela pensou.
Por favor, venha depressa!
— Entendo seu desejo. É admirável, sem dúvida, mas deve haver outros meios de
lutar contra o Mal. — Concorde com os loucos. Esse era seu lema.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— Você entende? — A bruxa a encarou. — O que pode entender, menina?


— Consigo distinguir o certo do errado.
— Até alguns dias atrás, achava que demônios só existiam nos contos de fadas.
Abby sentiu que o medo se transformava em raiva. Nunca havia desejado ser
aquele estúpido Cálice. Nem ser perseguida por monstros. Nem ser a salvadora do
mundo.
Mas agora que fora posta nessa posição, não se deixaria convencer de que
representava o mal que deviam estar combatendo.
— Talvez eu não soubesse de nada, mas agora percebo que existem muitos tipos
de demônios. E nem todos são maus.
— O vampiro... — Edra murmurou. — Ele a seduziu.
Abby cerrou os punhos.
— Dante não tem nada a ver com isso. Não vou participar de um genocídio.
A bruxa se aproximou o suficiente para envolver Abby com o cheiro azedo de
suor e alho.
— Lutou contra a escuridão nos últimos três séculos? Entregou a própria alma
para manter o terror afastado? Viu mulheres inocentes serem mortas como porcos
pela magia de um mago?
Abby recuou. Seus olhos diziam que a mulher idosa e frágil não podia ameaçá-la,
mas o coração a prevenia de que, com um movimento de mão, ela poderia esmagá-la
como um inseto.
— Eu sou o Cálice — ela blefou. — Não pode me obrigar a realizar um feitiço.
— Prefiro que se una a mim. — Edra levantou a mão e apontou para o ponto entre
os olhos de Abby. — Mas podemos fazer tudo isso do jeito mais difícil.
— Não... Espere...
Uma dor lancinante explodiu em sua cabeça. Abby caiu de joelhos. Ela agarrou a
cabeça, compreendendo que ia morrer.
Ninguém podia sobreviver àquela dor. Dante, onde você está?

Viper e Dante se recolheram às sombras quando passos barulhentos soaram no


corredor.
Dante farejou e sussurrou no ouvido do companheiro:
— Dois homens. Humanos. Eu cuido deles. Você vai salvar Abby.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— Tem certeza?
— Não posso atacar Edra. Você pode.
Um sorriso frio modificou os traços austeros.
— Será um prazer.
Nem mesmo o ar se deslocou quando Viper desapareceu. Ainda nas sombras,
Dante esperou que os homens passassem por ele, e só então saltou, derrubando o guar-
da mais próximo com incrível agilidade.
O segundo homem estendeu a mão para detê-lo, mas, sem sequer olhar em sua
direção, Dante o arremessou contra a parede. Houve um baque, um gemido abafado, e
o homem caiu.
O outro tentava levar a mão à cintura. Dante sorriu, sabendo que o idiota pensava
em sacar sua arma. Como se balas pudessem eliminar um morto!
Agarrando-o pelos cabelos, ele bateu com sua cabeça no chão várias vezes, até
sentir o corpo inerte sob sua mão. Então, ele se levantou.
Os dois homens estavam fora de combate, mas não os deixaria ali. Abrindo uma
porta próxima, ele jogou os dois dentro de uma sala estreita e os amarrou com seus
cintos, depois fechou a porta.
Em silêncio, voltou a seguir o rastro do cheiro de sangue. Viper, sem dúvida. A
menos que as feiticeiras se unissem, não poderiam enfrentar o poderoso vampiro.
Ignorando o poderoso aroma, Dante seguia para o fundo da casa. O cheiro mais
fraco da shalott o conduziu à biblioteca vazia, a um pequeno armário trancado com
três barras de ferro.
Não era uma barreira para vampiros, mas Dante podia apostar que o ferro era
uma ameaça para os shalotts.
Lamentando o barulho inevitável, Dante arrancou as barras da porta, jogando-as
para o lado e olhando por cima de um ombro para certificar-se de que ninguém entrava
no local.
A distração foi punida imediatamente. A porta explodiu em sua direção, e um
violento chute acertou seu queixo.
Com um gemido que era mais de raiva que de dor, Dante se virou para a fêmea de
demônio em posição de combate.
Havia uma beleza letal, quase inebriante em seus membros fortes e na fluidez
dos movimentos, mas não estava interessado nos atributos físicos da shalott. Muito
menos na nuvem de feromônios que invadia a sala.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

Seu laço com Abby o tornava imune ao poderoso jogo de sedução.


— Deixe-me falar — ele disse.
— Fique longe de mim, vampiro.
— Talvez não acredite, mas estou aqui para ajudar você.
— Ah! —Ela riu. — E, em troca, só quer uns goles, certo? Não, obrigada.
— Não quero seu sangue, shalott. Só preciso de suas habilidades.
— Esqueça. Não vai seduzir ninguém com minha química, porque...
— Estou falando das suas habilidades de luta! — Já havia notado as marcas
deixadas por um chicote em seus braços e no peito, E podia apostar que havia outras
em suas costas. — Quero acabar com as bruxas.
Ela o encarou intrigada.
— É impossível. Elas são muito fortes.
— Não depois de terem sido quase dizimadas pelo mago. Não poderão enfrentar
dois vampiros e uma shalott.
Ela farejou o ar, como se quisesse determinar se o que ouvia era verdade.
— Por que devo confiar em você?
— Estou acorrentado por um feitiço, como você.
Ela arregalou os olhos.
— A besta!
— Sim.
— Então... A Fênix está aqui? Precisa levá-la para longe!
— E exatamente o que pretendo fazer. Com sua ajuda.
— Se elas realizarem o ritual...
— Está em condições de lutar, shalott?
— Sim. O feitiço só me obriga a atender quando elas me chamam.
— Mas os ferimentos...
— Não são tão sérios quanto pode parecer. Eu posso lutar.
— Então, vamos.
Eles saíram juntos da sala, lado a lado, ambos perturbados com a idéia de dar as
costas para o outro.
— O porão — ele murmurou, seguindo a fêmea de demônio para uma escada no

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

final de um corredor.
Quando se aproximaram da cozinha, porém, ela reduziu a velocidade dos passos e
o fitou com a testa franzida.
— Alguém está usando magia.
Dante abaixou-se para tirar as adagas das botas. Podia ter tirado as armas dos
guardas que eliminara, mas a última coisa que queria era um vizinho bisbilhoteiro
chamando a polícia.
Duvidava de que a nata da sociedade de Chicago pudesse ser convencida de que
dois vampiros e um demônio estavam do lado do Bem.
Na cozinha, Dante olhou para o círculo de bruxas que mantinham Viper
enfeitiçado. Furioso, o vampiro lutava com todas as forças que tinha contra o feitiço
de retenção, mas estava imobilizado.
Felizmente, seu esforço impedia as bruxas de notarem a presença de Dante. A
shalott se lançou contra a feiticeira mais próxima. Houve um grito agudo, e logo outro
seguiu o primeiro, provocado pela adaga que Dante arremessou contra as costas de
outra bruxa.
Tomando conhecimento do perigo, as feiticeiras olharam para o invasor, e o
feitiço se quebrou. Dante atacou no mesmo instante em que Viper sorriu com
antecipação.
A batalha foi rápida e brutal. As bruxas mais velhas estavam mortas, atacadas
por Viper e a shalott, enquanto as mais novas caíam vítimas do poder de atração de
Dante. Elas estavam sentadas no chão, cuidando dos ferimentos e esperando
obedientes pelas ordens do novo mestre. Agora, elas não podiam nem se cocar sem uma
ordem expressa de Dante.
Ele recuperou as adagas e limpou o sangue das lâminas antes de guardá-las.
Enquanto isso, Viper se aproximava da shalott com os olhos iluminados por uma espécie
de fogo.
— Ah, a shalott — ele murmurou. — Linda.
Ela colou as costas à parede e estendeu uma das mãos.
— Não se aproxime.
Viper riu.
— Não vou lhe fazer mal.
— E o que sempre dizem. Normalmente, um segundo antes do ataque.
Viper continuou se aproximando dela, e Dante interferiu, posicionando-se entre

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

os dois, de frente para o velho amigo.


Não tinham tempo para tolices.
Mas, antes que ele tivesse de agir, Viper parou e farejou o ar.
— Humana — disse.
A shalott arregalou os olhos.
— O quê?
— Você é uma híbrida!
Ela saltou sobre Viper e o jogou no chão, sentando-se sobre seu peito.
— Não abuse da sorte, vampiro!
Viper rolou com agilidade espantosa, invertendo as posições.
— Não dê o passo maior do que sua perna, humana.
Dante já havia tolerado demais. Seu corpo todo vibrava com a necessidade de
encontrar Abby e levá-la para longe daquela casa.
— Vão lutar contra as bruxas, ou vão ficar aí rolando no chão como duas crianças
briguentas? — ele disparou.
Viper levantou-se e puxou a shalott pela mão.
— Terminaremos nossa conversa mais tarde, meu bem — ele murmurou,
caminhando para a porta quase escondida atrás da despensa. — Primeiro a obrigação.

Era uma pena deixar a escuridão.


A escuridão era quente e relaxante e não tinha bruxas psicopatas ou zumbis
violentos.
Melhor de tudo, a escuridão não continha a dor lancinante que sentia pulsando em
sua cabeça.
Infelizmente, além da dor, havia também a noção da presença de Dante. Estavam
separados, mas podia sentir sua fúria enquanto ele lutava para chegar até ali.
E enquanto ele não chegasse, caberia a ela impedir Edra de usar a Fênix para
realizar seu feitiço dementado.
Devagar, tentando assimilar a dor, Abby abriu os olhos e descobriu que estava
presa sobre a plataforma de mármore.
Até onde iria essa doença?
Tiras de couro restringiam seus movimentos. Ela lembrou que ainda levava a adaga

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

na cintura, escondida sob a camiseta, e agradeceu à sorte por não ter sido revistada
pela feiticeira.
Se conseguisse mover os braços o suficiente para usá-la...
Ela inclinou o corpo para um lado. Como esperava, o movimento aumentou a
pressão da tira de couro sobre um braço, mas deu ao outro um pouco mais de mobili-
dade. Quando ela já se preparava para tentar sacar a arma, uma sombra caiu sobre seu
rosto.
— Ah, então despertou. — Edra sorriu com um prazer frio.
— Precisa parar com isso — Abby exigiu com falsa coragem.
— E tarde demais. Logo o encantamento será lançado.
A bruxa segurava um cálice de prata. Abby se encolheu sobre o mármore frio.
Não sabia o que havia na estranha taça, mas tinha certeza de que não ia gostar de
saber.
As velas tremularam, e sua atenção recaiu sobre uma forma imóvel no centro da
sala, no chão.
Era uma mulher. Ela possuía cabelos curtos e negros e usava uma maquiagem
gótica que tornava impossível descobrir muito sobre ela. Tudo o que sabia era que era
jovem.
E estava morta.
Deitada no chão, ela tinha os olhos abertos como se a morte a houvesse
surpreendido. O sangue vertia abundante de um corte profundo e largo em seu
pescoço.
Abby lutou contra a náusea.
— Você a matou? — ela gemeu.
— Magia poderosa exige sangue. Muito sangue.
— Você é maluca! Completamente doida! Um lampejo de cor tingiu o rosto
envelhecido.
— Fique quieta! Não sabe nada sobre os sacrifícios que tive de suportar. Por três
séculos, dediquei minha vida a este momento. Enquanto Selena era mimada e cercada
de luxos e conforto, eu me escondia nas sombras e a protegia. Enfrentei o Mal e o
mantive distante. Olhei para o coração das trevas e me preparei para pôr fim àqueles
que destruiriam a Fênix. Eu vou salvar o mundo.
Abby continuou inclinando o corpo, afrouxando a tira de couro que prendia eu
braço direito. Precisava se libertar. Era inútil tentar argumentar com a lunática.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

— Por isso tem o direito de cortar a garganta de uma jovem inocente? — ela
perguntou, tentando distraí-la enquanto se movia.
— A morte dessa garota vai servir a um propósito superior. E um destino ao qual
todos devem aspirar.
— Mas você não se ofereceu para o nobre sacrifício.
O cálice tremeu na mão de Edra.
— Cale a boca, sua vadia imunda! Você se deitou com um vampiro. Não é digna de
ser o Cálice.
— E uma pena, porque eu sou tudo o que você tem.
— Logo vai aprender a respeitar os mais poderosos. Selena também teve sua
lição.
— Você fala demais, mas faz pouco.
A bruxa estava furiosa, a um passo do descontrole. A tentação de dizer "para o
diabo com a salvação do mundo, morte à vadia atrevida", era quase palpável no ar denso
do porão escuro. Mas ela se conteve.
— Não vai me distrair, mulher. Não agora.
Ela retirou do bolso do manto um objeto de metal. Abby franziu a testa. Depois
dos horrores dos últimos dias, esperava que a bruxa produzisse uma faca, uma cobra,
ou pelo menos um coelho mágico!
O pequeno objeto parecia inofensivo. Até ser posto no centro de seu peito. De
início nada aconteceu. Só uma sensação fria que se espalhava pela pele. Depois, quando
ela já começava a esperar que aquele pedaço de ferro fosse só mais uma bobagem, o
cheiro de fumaça começou a se elevar no ar.
O amuleto queimou o tecido da camiseta e tocou sua pele. Abby gritou.
O metal parecia aderir ao seu corpo, e nada o impediria de abrir caminho
derretendo todas as barreiras até seu coração.
— O que está fazendo? — ela urrou, tentando tirar a adaga da bainha. Não
importava mais se a bruxa podia perceber sua intenção. Se não agisse depressa, o
feitiço se completaria, ou ela morreria.
E não queria se conformar com uma ou outra alternativa.
Felizmente, Edra fechou os olhos quando segurou a taça diretamente sobre o
amuleto.
— O amuleto vai me ajudar a extrair o poder da Fênix — ela murmurou.
— Pare com isso! Está me queimando!

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

A mulher começou a entoar cânticos, e Abby sentiu o espírito se movendo dentro


dela, sob a dor insuportável do objeto em brasa.
Com grande esforço, ela sacou a adaga, mas o braço ainda estava preso.
Não conseguiria reagir em tempo.
Respirando profundamente, ela gritou com todas as forças.
— Dante!
Dante surgiu no centro do porão como um raio fulgurante.
Seus punhos se cerraram quando ele viu Abby presa à plataforma de mármore,
com a bruxa em pé a seu lado. O cheiro de carne queimada era forte, assustador.
— Abby...
— Dante, ela está fazendo o feitiço!
— A besta! — Edra abriu os olhos para lançar um olhar penetrante na direção de
Dante. — Eu devia saber que não morreria com tanta facilidade. Bem, não importa.
Dessa vez, serei mais cautelosa.
— Parem — Dante decretou ao sentir Viper e a shalott atrás dele.
— Não podemos permitir que ela complete o ritual — Viper anunciou com tom frio.
— Há uma barreira.
Viper praguejou num idioma muito antigo.
— Odeio magia. Shalott, pode quebrar o encanto?
— Não.
Dante estava furioso. Estar tão perto de Abby e não poder ajudá-la era
frustrante.
Estudando a barreira, ele urrou com ira assustadora. O círculo se completara.
Estava fechado, e assim ficaria até a bruxa concluir o feitiço.
Nunca se sentira tão impotente em sua vida. E não gostava disso.
Seguindo alinha do círculo, Dante procurava meios de distrair a bruxa. Se
pudesse fazê-la hesitar mesmo que só por um momento, a barreira se romperia. E ela
não voltaria a erguê-la antes de Viper e ele a destruírem. Mas não conseguia pensar
em nada.
Ele se colocou diretamente atrás da bruxa. Abby gemeu, e ele olhou para onde ela
estava presa, para o mármore.
Precisava salvá-la. Depressa.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

Então, sua atenção foi capturada pelo brilho da lâmina na mão dela. Ela usava a
keris para cortar o couro!
Em silêncio, ele projetou os pensamentos incitando-a a se apressar. Edra já
tombava o cálice para despejar o sangue sobre o amuleto. Ela completava o ritual pelo
qual teria total domínio sobre o poder da Fênix.
Se o encantamento fosse recitado, ele não poderia mais salvar Abby.
Nem se salvaria.
Viper também havia notado o que Abby estava fazendo. Eles se moveram juntos,
prontos para atacar no momento em que a barreira se rompesse. A shalott escolheu
uma posição diretamente na frente da bruxa. Um demônio com táticas de batalha?
O mundo estava mesmo perdido.
Indiferente a tudo que não fosse as palavras que recitava, Edra segurou a taça
sobre a própria cabeça e depois, lentamente, abaixou os braços para despejar uma
única gota de sangue sobre o amuleto.
Dante estava paralisado.
O feitiço começava.
Poderia estar morto antes de Abby terminar de cortar as amarras.
O sangue atingiu o amuleto e ferveu ao entrar em contato com o calor. Um
zumbido estranho ecoou nos ouvidos de Dante, e ele esmurrou inutilmente a barreira.
— Abby!
Como se sentisse o pânico dos que a cercavam, ela rangeu os dentes e terminou de
cortar o couro. O amuleto sobre seu peito brilhou quando ela o jogou longe e sentou-
se.
Dante viu Edra parar tomada pelo choque.
Em sua arrogância, ela havia acreditado que nada poderia deter sua gloriosa
escalada rumo ao poder. Especialmente uma humana sem nenhuma habilidade mágica e
sem nenhum pendor para as artes das trevas.
Ela não havia contado com a teimosia de Abby, com sua determinação.
Algo que ele aprendera a nunca subestimar.
A bruxa saltou para trás para esquivar-se da keris com que era atacada. A lâmina
cortou seu braço, derrubando a taça de sangue.
A barreira se desfez.
Viper avançou, rosnando e jogou a bruxa no chão. Dante correu para Abby,

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removendo-a das tiras que ainda a imobilizavam e tomando-a nos braços.


— Não toque em mim! — ela gritou. Dante recuou assustado.
— Abby! O que houve?
— Estou queimando!
Havia uma nuvem de fumaça brotando de seu peito.
— A Fênix?
— Sim. O encantamento começou.
— Viper, mate-a! — Dante gritou.
— Com todo prazer.
Viper se debruçou para rasgar o pescoço da bruxa com as presas, mas foi
arremessado para trás por uma força invisível. Edra sentou-se empunhando o amuleto.
— Ah, não... — Dante gemeu, movendo-se quando Edra já se preparava para atacar
Viper novamente.
O poder era mais rápido que tudo, e Dante percebeu que não chegaria a tempo de
proteger o amigo da onda de energia que cortava o ar em sua direção. Quando tudo já
parecia perdido, a shalott se moveu, colocando-se na frente de Viper e recebendo o
forte impacto nas costas.
Dante olhou para a bruxa que se levantava com grande dificuldade.
— Não pode me atingir — ela disse ofegante, talvez mais para acalmar-se do que
para ameaçar o vampiro e lembrá-lo de sua impotência.
— Ainda não, mas logo a verei no inferno.
Ela gargalhou.
— O feitiço já começou. Ninguém pode detê-lo agora.
Abby estava caída de joelhos, gemendo e se balançando para frente e para trás.
— Meu Deus... Abby!
— Ela não pode ouvir você, vampiro. A Fênix tomou o controle, e logo a Deusa
libertará todo o poder que invoquei. Ela vai matar você, vampiro! — A gargalhada soou
histérica e sinistra.
— Não!
O grito precedeu o movimento brusco que pôs Abby em pé.
Dante cambaleou com a força de sua presença na sala.
Mal podia reconhecer a parceira.

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Sua pele brilhava à luz trêmula das velas, e os olhos azuis agora eram vermelhos,
como se contivessem fogo. Os cabelos pareciam flutuar movidos por uma brisa mística,
e ela abriu os braços e caminhou para a bruxa.
— Adorada Deusa — a feiticeira sussurrou, caindo de joelhos.
Uma onda de calor jogou Dante no chão. O ar fervia em torno de Abby.
Ela ia queimar a casa. E mataria todos os demônios. A começar por ele.
Lutando contra a escuridão que o envolvia, Dante caiu de joelhos.
— Abby, você tem que resistir...
— Não — ela vociferou, sem perceber a bruxa ajoelhada a seus pés. — Isso tem
que parar agora!
— Abby!
Diante da bruxa, ela estendeu a mão.
— Em pé!
— Sim... —A bruxa conseguiu se levantar com esforço e dificuldade, o rosto
tomado por uma expressão de adulação. — Há muito espero para ser banhada por sua
glória, para testemunhar todo o milagre de seu poder.
— E agora o conhecerá completamente, Edra.
As palavras saíam da boca de Abby, mas aquela voz não era dela. O espírito a
dominara inteiramente.
— Abençoada seja a Deusa, minha senhora.
Hipnotizada pelo fogo nos olhos de Abby, Edra se aproximou dela. Dante franziu
a testa ao vê-la envolver a mulher com os braços. O que a Fênix pretendia?
Ele ouvia Viper e a shalott gemendo, porém mantinha os olhos fixos na cena
inusitada.
Por um momento nada aconteceu. Estava cercado pela escuridão que prenunciava o
fim.
E de repente... Uma explosão!
Dante foi jogado para trás e se chocou contra a parede. Os ouvidos zuniam, e
tinha certeza de que o cérebro se deslocara dentro da caixa craniana, mas estava vivo.
Pelo menos por enquanto.
Sacudindo a cabeça para se livrar da tontura, ele tentou enxergar alguma coisa
através da espessa fumaça que dominava o ambiente. A escuridão se dissipara.
As correntes que o mantiveram prisioneiro por três séculos haviam se partido.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

Estava livre!
Mas... A que preço?
Não! Abby não podia estar morta!
Arrastando-se pelo chão de terra, ele voltou ao local onde a vira pela última vez.
A mão estendida na névoa encontrou um braço de pele acetinada. Um toque, e ele
reconheceu sua alma.
Abby estava viva!
Ele a tomou nos braços, ignorando a confusão à sua volta.
Restava pouco de Edra.
Pedaços que agora estavam espalhados pelo porão. Nada que pudesse voltar a
compor um corpo inteiro.
Um sorriso frio distendeu seus lábios.
Era um fim apropriado para uma bruxa.
— Abby... — Ele a apertou entre os braços.
— Dante? — Sua voz era fraca. O rosto estava coberto de fuligem, o cabelo fora
parcialmente queimado, e havia sangue em seu queixo.
E ela nunca estivera tão linda.
Ele beijou com cuidado os lábios inchados.
— Você conseguiu, amor! Interrompeu o feitiço. Acabou.
— Não fui eu — ela gemeu. — Foi a Fênix. Ela não se deixou usar para uma
destruição sem causa.
— Shhh... Falaremos sobre isso mais tarde. Agora, tudo o que importa é que você
está viva.
Um sorriso leve tocou seu rosto.
— E ainda sou uma deusa...
— É o que parece — ele riu.
— Vai me adorar, Dante?
— Amor, pretendo adorar e idolatrar você para sempre, todas as noites pelo
resto da eternidade!

Duas semanas mais tarde, Abby estava deitada na cama no covil de Dante, vendo-
o acender as velas que espalhava pelo quarto.

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

As bruxas haviam fugido ou morrido depois da morte de Edra, e o grupo deixara


de existir. Abby agora estava destinada a carregar um espírito místico, mas se aper-
feiçoava cada vez mais na arte de disfarçar seus poderes para aqueles que a queriam
morta, e havia inúmeros benefícios relacionados a ser o Cálice.
Por exemplo, a promessa de eternidade com Dante.
Acima deles, a mansão de Selena era reconstruída lentamente, e a reforma
acrescentaria janelas escuras e uma biblioteca para a vasta coleção de livros de
Dante. E, é claro, todos os catálogos de viagem que ele encomendara para Abby.
Ele havia prometido levá-la para uma volta ao mundo em lua-de-mel.
Mas antes teriam de passar pela cerimônia que os tornaria parceiros de verdade.
Ela puxou o lençol de cetim negro que cobria seu corpo nu.
— Pelo que entendi, Selena e Edra estavam disputando o poder para decidir quem
livraria o mundo dos demônios e se tornaria uma espécie de semideusa. Mas ainda não
entendi por que elas demoraram tanto para tentar usar o encantamento. Quando
Selena se tornou o Cálice, era de se esperar que elas agissem imediatamente.
— Pelo que consegui compreender das anotações de Edra, elas esperavam que as
estrelas estivessem em perfeito alinhamento.
— Ah...
— É evidente que não perceberam que a Fênix tinha vontade própria, e que
destruiria tudo e todos que tentassem usá-la para o Mal.
Abby estremeceu. Ainda tinha pesadelos com as cenas que vivera naquele porão
com Edra.
— Elas perceberam, mas já era tarde demais.
— Agora chega, amor. Não vamos estragar nossa noite pensando nas bruxas.
— Sexy como você está agora? Nada poderia estragar essa noite — ela
murmurou.
— Acha mesmo que sou sexy?
— Nessa idade, tentando provocar elogios...
— Não posso usar um espelho para alimentar minha segurança. Dependo de você
para isso, docinho...
— Nesse caso, sugiro que venha se deitar aqui comigo. Por enquanto, você só
precisa saber que não vai ser chutado da minha cama tão cedo...
— Sua cama? Nossa cama!

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Bianca 891 – Alexandra Ivy – O Espírito da Fênix

Dante se deitou ao lado dela, sob o lençol. Ela o abraçou.


— Está preparada?
Com a morte de Edra, o feitiço que o impedia de beber sangue humano se
quebrara. Agora era novamente um vampiro funcional, e estava ansioso para completar
a cerimônia que os uniria para sempre.
Ela assentiu.
— Estou pronta.
Debruçando-se sobre o corpo tentador de Abby, Dante posicionou-se entre suas
pernas. Depois, gentilmente, afastou os cabelos que cobriam o pescoço sedutor.
Abby ficou tensa.
— Não tenha medo — ele sussurrou. — Prometo que não vai doer.
Ela relaxou.
— Não estou com medo.
— Tem certeza de que é isso que quer? Não vai haver volta, Abby.
— Já discutimos isso antes.
— Eu sei, mas...
— Dante, cale a boca e me faça sua para sempre.
— Sim, minha deusa — ele murmurou sorridente e sedutor, aproximando a boca
de seu pescoço. — Meu amor...
A mordida não causou dor. Apenas uma ligeira pressão, e depois um prazer tão
intenso que ela ergueu o quadril, tentando ampliar o contato. Era como se todo seu
corpo queimasse.
Dante bebia seu sangue e, com um movimento certeiro, ele a penetrou. Abby
gritou de prazer, temendo desfalecer.
Nada podia ser tão bom!
Não sem ser ilegal.
Tremendo, ela se entregou ao mestre, gemendo a cada movimento do membro
ereto no interior de seu corpo, sentindo a língua úmida em seu pescoço e o prazer que
crescia a cada instante.
A pressão era deliciosa. Surpreendente. E, se não tivesse um orgasmo nos
próximos segundos, acabaria explodindo.
— Dante... Por favor...

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Ele sorriu, mas deu um ritmo diferente aos movimentos, levando-a rapidamente ao
clímax.
— Eu sabia que você seria minha.
— Dante, eu sou sua desde o momento em que entrei nessa mansão e encontrei um
pirata misterioso esperando por mim.
— Meu amor... Por toda a eternidade.
— E sua deusa. Não esqueça a parte da deusa.
Ele riu, voltando a se mover dentro dela a caminho do clímax, levando-a a uma
nova explosão.
— E como eu poderia esquecer?

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