Você está na página 1de 652

Invenção, Tradição e Escritas da

História da Educação no Brasil

Universidade Federal do Espírito Santo

ISSN: 2236-314
ANAIS
LIVRO DE RESUMOS
Capa: Eduardo Gaudio
Diagramação: Omar Schneider e Wagner dos Santos

Local do evento:
Universidade Federal do Espírito Santo
Secretaria do VI Congresso Brasileiro de História da Educação
Av. Fernando Ferrari, 514 - Vitória - ES, CEP 29075-910

Dados Internacionais de Catalogação-na-publicação (CIP)


(Biblioteca Central da Universidade Federal do Espírito Santo, ES, Brasil)

Congresso Brasileiro de História da Educação (6. : 2011 : Vitória,


ES).
C749a Anais : livro de resumos [do] VI Congresso Brasileiro de
História da Educação, 16 a 19 de maio de 2011. – Vitória : UFES,
2011.
650 p.

Tema: Invenções, tradições e escritas da história da


educação no Brasil.
Promoção da Sociedade Brasileira de História da Educação.
ISSN: 2236-3114

1. Educação - História - Congressos. I. Sociedade Brasileira


de História da Educação. II. Título. III. Título: Invenções, tradições
e escritas da história da educação no Brasil.

CDU: 37(091)

O conteúdo e a revisão dos resumos é de responsabilidade dos autores.


COMISSÃO ORGANIZADORA DO

VI CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO

Promoção
Sociedade Brasileira de História da Educação

Organização
Universidade Federal do Espírito Santo

Instituição Sede
Universidade Federal do Espírito Santo

Coordenação Nacional
Prof. Dr. Wenceslau Gonçalves Neto, UFU

Coordenação Local
Profª. Drª. Regina Helena Simões, UFES

Comitê Organizador Nacional


Prof. Dr. Wenceslau Gonçalves Neto, UFU
Prof. Dr. José Gonçalves Gondra, UERJ
Profª. Drª. Rosa Lydia Teixeira Corrêa, PUC-PR
Prof. Dr. Antonio Carlos Ferreira Pinheiro, UFPB
Profª. Drª. Regina Helena Simões, UFES

Comitê Organizador Local


Prof. Dr. Amarílio Ferreira Neto, UFES
Prof. Dr. Carlos Eduardo Ferraço, UFES
Profª. Drª. Cleonara Maria Schwartz, UFES
Profª. Drª. Cláudia Maria Mendes Gontijo, UFES
Profª. Drª. Denise Meyrelles de Jesus, UFES
Prof. Dr. Edson Pantaleão Alves, UFES
Profª. Drª. Gilda Cardoso de Araujo, UFES
Profª. Ms. Gleice Pereira, UFES
Profª. Drª. Izabel Cristina Novaes, UFES
Profª. Drª. Janete Magalhães Carvalho, UFES
Profª. Drª. Juçara Luzia Leite, UFES
Profª. Drª. Mariangela Lima de Almeida, UFES
Prof. Dr. Omar Schneider, UFES
Prof. Dr. Reginaldo Célio Sobrinho, UFES
Profª. Ms. Rosianny Campos Berto, UFES
Prof. Dr. Sebastião Pimentel Franco, UFES
Profª. Drª. Vânia Carvalho de Araújo, UFES
Profª. Drª. Valdete Côco, UFES
Prof. Dr. Wagner dos Santos, UFES
Comitê Científico
Profª. Drª. Ana Waleska Campos Mendonça, PUC-RJ
Prof. Dr. Bruno Bontempi Junior, USP
Prof. Dr. Carlos Henrique de Carvalho, UFU
Profª. Drª. Claudia Maria Mendes Gontijo, UFES
Prof. Dr. Elomar Tambara, UFPEL
Profª. Drª. Diane Valdez, UFG
Profª. Drª. Elisabeth Figueiredo de Sá, UFMT
Profª. Drª. Ester Buffa, UNINOVE
Profª. Drª. Irma Rizzini, UFRJ
Prof. Dr. Jorge Carvalho do Nascimento, UFS
Profª. Drª. Lúcia Maria da Franca Rocha, UFBA
Prof. Dr. Lúcio Kreutz, UFC
Prof. Dr. Marcus Levy Albino Bencostta, UFPR
Profª. Drª. Maria das Graças Loiola Madeira, UFAL
Profª. Drª. Maria do Amparo Borges Ferro, UFPI
Profª. Drª. Mauricéia Ananias, UFPB
Prof. Dr. Norberto Dallabrida, UDESC
Profª. Drª. Silvia Helena Andrade Brito, UFMS
Profª. Drª. Sonia de Oliveira Camara Rangel, UERJ
Prof. Dr. Tarcisio Mauro Vago, UFMG
Profª. Drª. Vera Teresa Valdemarin, UNESP

Secretaria do VI Congresso Brasileiro de História da Educação


Karen Calegari dos Santos
Lívia Camporez Giuberti
Maria Anna Xavier Serra Carneiro de Novaes
Miriã Lúcia Luiz
Sandro Nandolpho
Tatiana Borel
PROGRAMAÇÃO

Dia 16/05 - Segunda-Feira


0900h às 17h00 Credenciamento e entrega de material
13h00 às 16h00 Reuniões de grupos de pesquisa e sociedades científicas
17h00 Abertura oficial do evento – Sessão Solene
18h30 Conferência de abertura
20h00 Coquetel
Dia 17/05 - Terça-Feira
08h00 às 09h15 Mini cursos
09h30 às 12h00 Mesas-redondas
13h30 às 16h00 Sessões de comunicação
16h15 às 18h00 Comunicações coordenadas
18h00 às 19h00 Reunião do Coordenador do Comitê de Educação do CNPq com os
pesquisadores de História da Educação
19h15 às 21h00 Lançamento de livros
Dia 18/05 - Quarta-Feira
08h00 às 09h15 Mini cursos
09h30 às 12h00 Mesas-redondas
13h30 às 16h00 Sessões de comunicação
16h15 às 18h00 Assembléia da SBHE
21h00 Jantar por adesão
Dia 19/05 - Quinta-Feira
08h00 às 09h15 Mini cursos
09h30 às 12h00 Comunicações coordenadas
13h30 às 16h30 Sessões de comunicação
16h45 às 19h15 Conferência de encerramento
SUMÁRIO

9 ................................................................................................................... APRESENTAÇÃO

MINICURSOS
15 ........................................................................... EIXO 1 - ETNIAS E MOVIMENTOS SOCIAIS
16 ......................................... EIXO 2 - HISTÓRIA DAS INSTITUIÇÕES E PRÁTICAS EDUCATIVAS
16 ............................................ EIXO 3 - HISTÓRIA DAS CULTURAS E DISCIPLINAS ESCOLARES
17 ....................................................................... EIXO 4 - HISTÓRIA DA PROFISSÃO DOCENTE
18 ......................................... EIXO 5 - IMPRESSOS, INTELECTUAIS E HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO
19 ............................................... EIXO 8 - FONTES E MÉTODOS EM HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO
22 .................................. EIXO 9 - PATRIMÔNIO EDUCATIVO E CULTURA MATERIAL ESCOLAR

COMUNICAÇÕES COORDENADAS

27 ......................................... EIXO 2 - HISTÓRIA DAS INSTITUIÇÕES E PRÁTICAS EDUCATIVAS


43 ............................................ EIXO 3 - HISTÓRIA DAS CULTURAS E DISCIPLINAS ESCOLARES
55 ....................................................................... EIXO 4 - HISTÓRIA DA PROFISSÃO DOCENTE
59 ......................................... EIXO 5 - IMPRESSOS, INTELECTUAIS E HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO
89 .. EIXO 6 - ESTADO E POLÍTICAS EDUCACIONAIS NA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA
113 ............................................... EIXO 8 - FONTES E MÉTODOS EM HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO
117 .................................. EIXO 9 - PATRIMÔNIO EDUCATIVO E CULTURA MATERIAL ESCOLAR

COMUNICAÇÕES INDIVIDUAIS

123 ........................................................................... EIXO 1 - ETNIAS E MOVIMENTOS SOCIAIS


153 ......................................... EIXO 2 - HISTÓRIA DAS INSTITUIÇÕES E PRÁTICAS EDUCATIVAS
305 ............................................ EIXO 3 - HISTÓRIA DAS CULTURAS E DISCIPLINAS ESCOLARES
343 ....................................................................... EIXO 4 - HISTÓRIA DA PROFISSÃO DOCENTE
395 ......................................... EIXO 5 - IMPRESSOS, INTELECTUAIS E HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO
499 ... EIXO 6 - ESTADO E POLÍTICAS EDUCACIONAIS NA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA
567 ................................................................. EIXO 7 - O ENSINO DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO
575 ............................................... EIXO 8 - FONTES E MÉTODOS EM HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO
613 .................................. EIXO 9 - PATRIMÔNIO EDUCATIVO E CULTURA MATERIAL ESCOLAR

ÍNDICE REMISSIVO

633 ...................................................................................... AUTORES EM ORDEM ALFABÉTICA


APRESENTAÇÃO

Desde a sua criação, ocorrida em 1999, a Sociedade Brasileira de História da Educação (SBHE) tem
cumprido o importante papel de congregar professores/as e pesquisadores/as brasileiros/as que
desenvolvem atividades de ensino e pesquisa na área, de forma a estimular a realização de estudos
pautados pela crítica e pela pluralidade teórica, bem como promover o intercâmbio com outras
entidades de representação nacional e internacional no campo da história da educação e áreas afins.
Na perspectiva anteriormente descrita, um dos espaços desenhados para a divulgação e a troca de
conhecimentos produzidos tem sido o Congresso Brasileiro de História da Educação (CBHE) que, desde o
ano 2000, reúne, a cada dois anos, professores e pesquisadores nacionais e internacionais com
produção relevante sobre o tema.
Os CBHEs têm como objetivos: congregar profissionais brasileiros que realizam atividades de pesquisa e
ensino da história da educação; promover o debate acerca de investigações realizadas na área da
história da educação; incentivar a produção de novas investigações na área da história da educação nas
várias regiões do País; e contribuir para a divulgação de conhecimentos produzidos na área de história
da educação, especialmente aqueles relacionados com o ensino e a pesquisa nesse campo.
O I CBHE realizou-se no Rio de Janeiro, de 6 a 9 de novembro de 2000, e teve como tema central
“Educação no Brasil: História e Historiografia”. O II CBHE aconteceu em Natal, Rio Grande do Norte, de 3
a 6 de novembro de 2002, e focalizou a temática “História e Memória da Educação Brasileira”. O III CBHE
foi sediado em Curitiba, Paraná, de 7 a 10 de novembro de 2004, e teve como foco a “A Educação
Escolar em Perspectiva Histórica”. No IV CBHE, realizado em Goiânia, Goiás, de 5 a 8 de novembro de
2006, discutiu-se a “A Educação e seus Sujeitos na História”. O V CBHE, efetivou-se em Aracaju, Sergipe,
de 9 a 12 de novembro de 2008, focalizou o tema “O Ensino e a Pesquisa em História da Educação”.
Como pode ser observado nos quadros apresentados a seguir, as cinco primeiras edições do Congresso
Brasileiro de História da Educação indicam o desenvolvimento e a consolidação de um conjunto
temático, em torno do qual gravita a produção atual dos pesquisadores de história da educação.

Trabalhos
Eixos temáticos
aprovados
Estado e políticas educacionais 30
Fontes, categorias e métodos de pesquisa em história da educação 30
Gênero e etnia 22
Imprensa pedagógica 09
Instituições educacionais e/ou científicas 41
Pensamento educacional 40
Práticas escolares e processos educativos 37
Profissão docente 22
TOTAL 231
Quadro 1 - Eixos temáticos e trabalhos aprovados no I CBHE
Fonte: I Congresso Brasileiro de História da Educação – Programa e Resumos. Educação no
Brasil: História e Historiografia. Rio de Janeiro: SBHE, UFRJ, 2000.

9
Trabalhos
Eixos temáticos
aprovados
História comparada da educação 12
História dos movimentos sociais na educação brasileira 18
História de culturas escolares e profissão docente no Brasil 111
Intelectuais e memória da educação no Brasil 93
Relações de gênero e educação brasileira 51
Estado, nação, etnia e história da educação 49
Processos educativos e instâncias de sociabilidade 94
TOTAL 428
Quadro 2 - Eixos temáticos e trabalhos aprovados no II CBHE
Fonte: Anais do II Congresso Brasileiro de História da Educação. História e Memória da
Educação Brasileira. Natal: SBHE, UFRN, 2002.

Trabalhos
Eixos temáticos
aprovados
Arquivos, fontes e historiografia 80
Estudos comparados 13
Políticas educacionais e modelos pedagógicos 107
Cultura escolar e práticas educacionais 112
Profissão docente 51
Gênero, etnia e educação escolar 38
Movimentos sociais e democratização do conhecimento 11
Ensino de história da educação 06
TOTAL 418
Quadro 3 - Eixos temáticos e trabalhos aprovados no III CBHE
Fonte: Anais do III Congresso Brasileiro de História da Educação. A Educação Escolar em
Perspectiva Histórica. Curitiba: SBHE, Pontifícia Universidade Católica do Paraná, 2004.

Trabalhos
Eixos temáticos
aprovados
Políticas educacionais e movimentos sociais 66
História da profissão docente e das instituições escolares 118
Cultura e práticas escolares 114
Gênero, etnia na história da educação brasileira 36
Historiografia da educação brasileira e história comparada 29
Intelectuais, pensamento social e educação 62
Arquivos, centros de documentação, museus e educação 28
Ensino de história da educação 04
TOTAL 457
Quadro 4 - Eixos temáticos e trabalhos aprovados no IV CBHE
Fonte: Anais do IV Congresso Brasileiro de História da Educação. A Educação e seus Sujeitos
na História. Goiânia: SBHE, Universidade Católica de Goiás, 2006.

10
Trabalhos
Eixos temáticos
aprovados
História da profissão docente e das instituições escolares formadoras 127
O ensino de história da educação 20
Fontes e métodos em história da educação 95
Cultura e práticas escolares e educativas 184
Currículo, disciplinas e instituições escolares 88
Historiografia da educação brasileira e história comparada 35
Movimentos sociais, geração, gênero e etnia na história da educação 64
Políticas educacionais, intelectuais da educação e pensamento
pedagógico 170
TOTAL 783
Quadro 5 - Eixos temáticos e trabalhos aprovados no V CBHE
Fonte: Anais do V Congresso Brasileiro de História da Educação. A Educação o ensino e a
pesquisa em História da Educação. Aracaju-Sergipe: SBHE, Universidade Federal do Sergipe,
2008.

Especialmente relevante tem sido a evolução, em menos de uma década, do número de


trabalhos aprovados, de 231 em 2000, para 783 em 2008. Esse crescimento sinaliza, de forma
inequívoca, o crescente vigor experimentado pela pesquisa histórica em educação no Brasil,
amplamente sustentado na congregação e na conjugação de esforços de toda uma
comunidade científica representada pela SBHE.
Em sua sexta edição, realizada na Universidade Federal do Espírito Santo, de 16 a 19 de maio
de 2011, o CBHE elegeu como tema central Invenções, tradições e escritas da história da
educação no Brasil, e quatro mesas-redondas foram organizadas sobre as seguintes temáticas:

Mesa-redonda 1 - Produção e Usos de Fontes na Pesquisa Histórica em Educação


Mesa-redonda 2 - História da Educação e Ciências Sociais: Desafios Atuais
Mesa-redonda 3 - Memórias, Instituições e História das Práticas Educativas
Mesa-redonda 4 - Invenções e Tradições na História da Educação

Nas categorias comunicações coordenadas e comunicações individuais, os trabalhos inscritos


agruparam-se em torno de nove eixos:

1. História das instituições e práticas educativas


2. Impressos, intelectuais e história da educação
3. Estado e políticas educacionais na história da educação brasileira
4. História da profissão docente
5. História das culturas e disciplinas escolares
6. Fontes e métodos em história da educação
7. Etnias e movimentos sociais
8. Patrimônio educativo e cultura material escolar
9. Ensino de história da educação

Seguindo a tendência ascendente observada na trajetória dos Congressos Brasileiros de


História da Educação, registrou-se uma evolução de 783 trabalhos aprovados, em 2008, para
876 trabalhos aceitos em 2011, além do acréscimo de mais um eixo temático (Quadro 6).

11
Trabalhos Aprovados
Eixos temáticos Comunicações Comunicações
Minicursos Total
Coordenadas Individuais
1. História das instituições e
práticas educativas 1 22 225 248
2. Impressos, intelectuais e
história da educação 1 34 154 189
3. Estado e políticas
educacionais na história da 33 98 131
educação brasileira
4. História da profissão 1 05 75 81
docente
5. História das culturas e
disciplinas escolares 1 15 54 70
6. Fontes e métodos em
história da educação 5 10 55 70
7. Etnias e movimentos sociais 1 43 44
8. Patrimônio educativo e
cultura material escolar 1 4 27 32
9. Ensino de história da
educação 11 11
TOTAL 11 123 742 876
Quadro 6 - Eixos temáticos e trabalhos aprovados no V CBHE

Muitos apoios e redes de solidariedade tornaram possível a realização do VI CBHE, iniciativa


acolhida de forma generosa pela Universidade Federal do Espírito Santo, pelos seus dirigentes,
corpo docente, corpo discente e funcionários/as.
Expressamos também o nosso reconhecimento ao competente trabalho desenvolvido pelos
colegas, membros dos Comitês Organizador e Científico, que não mediram esforços para
atender às exigentes demandas de um evento desse porte. A todas essas pessoas o nosso
agradecimento pelo compromisso e pelo companheirismo nas longas horas de trabalho.
Finalmente, agradecemos à diretoria da SBHE e aos seus sócios e sócias pela confiança e pelo
apoio demonstrados durante todo o período de organização do evento.
A escolha da UFES para sediar o VI CBHE muito nos honrou e esperamos que o resultado do
trabalho realizado corresponda às expectativas de qualidade acadêmica, de trocas, de
aprendizagens e de congraçamento entre pares, características já associadas às tradições e
invenções do CBHE.

Vitória, maio de 2011.

Regina Helena Silva Simões


Coordenadora Local do VI CBHE

12
MINICURSOS

13
14
EIXO 1 - ETNIAS E MOVIMENTOS SOCIAIS

1349
OS MOVIMENTOS SOCIAIS E AS DIRETRIZES NACIONAIS POR UMA EDUCAÇÃO DO CAMPO

RAMOFLY BICALHO SANTOS.


UFRRJ, SEROPÉDICA - RJ - BRASIL.

EMENTA: Bases históricas da educação do campo no Brasil. I Encontro Nacional de Educadores e


Educadoras da Reforma Agrária (I ENERA); Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária
(PRONERA); I Conferência Nacional por uma Educação Básica do Campo; Os movimentos sociais e a
educação do campo; A educação do campo como direito da população camponesa; Diretrizes
Operacionais para a Educação Básica nas Escolas do Campo. OBJETIVOS: Conhecer as bases históricas da
educação do campo no Brasil, compreendendo os limites e as possibilidades da construção
problematizadora do conhecimento. Conhecer experiências e práticas de educação do campo
desenvolvida pelos movimentos sociais no Brasil, dentre eles, o MST. Compreender as transformações e
a atualidade da educação do campo no Brasil: a Constituição Federal de 1988; a LDB 9394/96; I ENERA;
PRONERA e as Diretrizes Operacionais para a Educação Básica nas Escolas do Campo. CONTEÚDOS: I) A
educação do campo: contexto histórico: a Constituição Brasileira; LDB 9394/96; I ENERA; PRONERA e a I
Conferência Nacional por uma Educação Básica do Campo. II) Diretrizes Operacionais para a Educação
Básica nas Escolas do Campo. (Parecer CNE/CEB nº 36/2001 e Resolução CNE/CEB nº o 01/2002). III) O
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e as escolas do campo. METODOLOGIA DE
TRABALHO Buscaremos dar destaque à participação que os diversos sujeitos coletivos (escolas,
secretarias, partidos políticos, agentes pastorais, movimentos sociais, etc.) desenvolveram na luta pela
educação do campo, assim como, suas bandeiras, os limites e as possibilidades de ação política. Como
estratégias de ensino, enfatizaremos a criação de pequenos grupos de estudos, onde os participantes
desse mini-curso consigam, a partir da problematização da realidade, discutir, amadurecer e organizar
as inúmeras possibilidades do pensar autônomo e crítico. Assim, teremos como preocupação essencial:
a constante troca e produção crítica do saber, incentivando a participação de educadores e educandos
em atividades, individuais e em grupos, que envolva e respeite a realidade da educação do campo nas
suas diferentes trajetórias. BIBLIOGRAFIA BÁSICA ARROYO, Miguel G.; Fernandes Bernardo M.. A
educação básica e o movimento social do campo – Brasília, 1999. Coleção Por uma Educação Básica do
Campo, n°2. BICALHO, Ramofly dos Santos. Alfabetização no MST: experiências com jovens e adultos na
Baixada Fluminense. Campinas: Editora Komedi, 2007. 2ª edição. O projeto político pedagógico do
movimento dos trabalhadores rurais sem terra. Campinas: Editora Komedi, 2008. CALDART, R. S.;
ARROYO, Miguel G.; MOLINA, Mônica C. Por uma Educação do Campo. Petrópolis, RJ: Vozes, 2004.
CALDART, R. S. Pedagogia do Movimento Sem Terra: escola é mais do que escola. Petrópolis, RJ: Vozes,
2000. FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. RJ: Paz e Terra, 1975. MST – Caderno de Educação n.8 –
Princípios da Educação no MST. São Paulo, 1999.

15
EIXO 2 - HISTÓRIA DAS INSTITUIÇÕES E PRÁTICAS EDUCATIVAS

347
O LIBERALISMO E O DUALISMO EDUCACIONAL NO PENSAMENTO DE CARNEIRO LEÃO

ALUÍSIO JOSÉ ALVES


FACED/UFU, UBERLANDIA - MG - BRASIL.

A proposta deste minicurso é identificar na obra Panorama sociológico do Brasil, de Antônio Carneiro
Leão, publicada em 1958, alguns princípios gerais do liberalismo e o pensamento do autor acerca da
origem do dualismo educacional. Visa também a construção de um índice para os que se interessam
pelo estudo das influências da ideologia liberal na educação brasileira no Século XX. O caminho proposto
para se atingir esses três objetivos é o da exposição compartilhada e do contato com excertos da obra
em estudo. A descoberta do livro ocorreu em virtude da necessidade se desenvolver leituras para o
embasamento de apresentação de atividade proposta pela disciplina Liberalismo e Educação no Brasil,
constante do quadro oferecido pelo Programa de Pós-graduação da Faculdade de Educação da
Universidade Federal de Uberlândia, no segundo semestre de 2009. Dessa atividade pedagógica que
nasceu o interesse em conhecer com mais profundidade os escritos de Carneiro Leão. Panorama
sociológico do Brasil, originalmente escrito em francês para a ministração de um curso na Sorbonne, no
ano letivo de 1950-1951, foi reescrito em português para atender à finalidade de publicação na forma
de livro. Fica aberta, só por isso, uma questão que é a de se buscar os originais e realizar um
cotejamento com o texto publicado em 1958. Publicada pelo Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos,
do Ministério da Educação e Cultura do Brasil, a obra agrega um extenso currículo de Antônio Carneiro
Leão descrevendo suas filiações a várias agremiações científicas de muitas partes do mundo, funções
desempenhadas no serviço público do Brasil nas esferas municipal, estadual e federal. Caudaloso
também é o elenco de publicações da sua autoria em português, francês, espanhol e inglês, o que
sugere ao leitor estar, de fato, diante de um intelectual de grande envergadura. Mas o que atesta isso
sobejamente é a densidade argumentativa presente no Panorama sociológico do Brasil. Apresentado
em seis capítulos, a obra reserva o IV e o V para descrever cenários políticos, filosóficos e sociais mais
amplos, internacionais, sem relacionar diretamente as exposições com a vida da sociedade brasileira,
permitindo, inferir que essas duas seções constituem o pano de fundo para contextualizar a organização
vista no país no início da metade do século XX. As quatro divisões restantes acentuam como relação
direta os fatos internacionais e regionais com a organização interna do Brasil, o que permite a
percepção do pensamento liberal de Carneiro Leão, seus posicionamentos e críticas altamente
reveladores das divergências existentes entre os intelectuais no que dizia respeito à aplicação dos
princípios daquela ideologia. BIBLIOGRAFIA SUGERIDA CARNEIRO LEÃO, A. Panorama sociológico do
Brasil. Rio de Janeiro: INEP, 1958. CUNHA, Luiz Antonio. Educação e desenvolvimento social no Brasil.
Rio de Janeiro: F. Alves, 1980.

EIXO 3 - HISTÓRIA DAS CULTURAS E DISCIPLINAS ESCOLARES

723
CAMINHOS PERCORRIDOS NA PRODUÇÃO DA HISTÓRIA DA LEITURA E DO ENSINO DE LITERATURA NO
BRASIL (1990-2010)
1 2
KARINA KLINKE ; MARCIO ARAUJO MELO .
1. UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA, ITUIUTABA - MG - BRASIL; 2.UNIVERSIDADE FEDERAL DO
TOCANTINS, ARAGUAINA - TO - BRASIL.

O mini-curso tem como objetivo analisar os aspectos teórico-metodológicos e as categorias de análise


utilizadas nas pesquisas que abordam a história da leitura e do ensino de literatura apresentadas em

16
congressos qualificados no Brasil, verificando a constituição do campo historiográfico dessas pesquisas,
bem como sua contribuição para a História da Educação. Justifica-se a ocupação com esta temática a
verificação por parte de historiadores do Brasil  e da França, sobre a intensificação das pesquisas
em história da leitura e do ensino de literatura fundamentadas na História Cultural e na linguística, a
partir da década de 1990. Questiona-se, ao mesmo tempo, a pertinência da constituição de campos de
pesquisa distintos – história da leitura e história do ensino de literatura – e sua intersecção,
respectivamente, com a história da educação e com a história das disciplinas escolares. A metodologia
utilizada será a apresentação de pesquisas bibliométricas desenvolvidas pelos proponentes deste mini-
curso, através das quais será mostrado o histórico das pesquisas desenvolvidas sobre a temática da
leitura e do ensino de literatura no Brasil, produzidas entre 1990 e 2010; análise das abordagens
teórico-metodológicas e das categorias utilizadas nessas pesquisas; apresentação de perspectivas para o
avanço da pesquisa no campo historiográfico, em especial sua contribuição para a História da Educação
no Brasil. Bibliografia: BATISTA, A.G.; GALVÃO, A.M.. Leitura: práticas, impressos, letramentos. Belo
Horizonte: Autêntica, 1999, p.99-118. BATISTA, A.G.; GALVÃO, A.M.; KLINKE, K. Livros escolares de
leitura: uma morfologia (1866-1956). Revista Brasileira de Educação. Associação Nacional de Pós-
graduação e Pesquisa em Educação. Campinas, SP. Mai.-Ago. 2002, n.20, p.27-47. CAVALLO, G.;
CHARTIER, R. História da leitura no mundo ocidental. Vol. 2. Trd. Guacira Marcondes Machado. São
Paulo: Ed. Ática, 2002. CHARTIER, A-M.; HÉBRARD, J. Discursos sobre a leitura ― 1880-1980. Trad.
Osvaldo Biato e Sérgio Bath. São Paulo: Ática, 1995. CHARTIER, R. A história cultural: entre práticas e
representações. Trad. Maria Manuela Galhardo. Rio de Janeiro: Ed.Bertrand Brasil, 1990. CHERVEL, A.
História das disciplinas escolares: reflexões sobre um campo de pesquisa. Teoria e Educação. Porto
Alegre, nº 2, p. 177-229, 1990. DARNTON, R. O beijo de Lamourette: mídia, cultura e revolução. Trad.
Denise Buttmann. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. JULIA, D. A cultura escolar como objeto
histórico. Revista Brasileira de História da Educação. Campinas, n. 1, p. 9-43, jan./jun., 2001. POULAIN,
A. (org) Pour une sociologie de la lecture: lectures et lecteurs dans la France
contemporaine. Paris: éditions Du Cercle de La Librairie, 1988. VIDAL, D. G. Culturas escolares:
estudo sobre práticas de leitura e escrita na escola pública primária (Brasil e França, final do século XIX).
1. ed. Campinas: Autores Associados, 2005.

EIXO 4 - HISTÓRIA DA PROFISSÃO DOCENTE

1075
MULHERES NA EDUCAÇÃO BRASILEIRA: FUGA OU TOMADA DE CONSCIÊNCIA?
1 2
ANA PAULA RODRIGUES FIGUEIROA ; SANDRA CRISTINA DA SILVA .
1.UFPE, RECIFE - PE - BRASIL; 2.UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DE NORTE, NATAL - RN -
BRASIL.

O mini-curso em questão tem como principal objetivo discutir o ingresso da mulher na docência no
Brasil. Parte da seguinte indagação: o magistério feminino consistiu em uma “fuga” do lar ou da
“tomada de consciência” do elemento feminino da sua influencia na sociedade? Nesse contexto
buscamos refletir quais os motivos que levaram essas mulheres a adquirir uma formação intelectual, em
um espaço diverso do ambiente familiar, quando o comumente aceito e reafirmado era o ambiente
doméstico como aquele adequado para a mulher, uma vez que os papéis por ela desempenhados
deveriam ser: esposa, mãe e dona de casa. Busca-se conhecer a importância da participação da mulher
neste contexto, uma vez que reflete e interfere na formação dos indivíduos de um modo geral. O mini-
curso abordará questões referentes ao ensino normal tanto oficial quanto confessional, de cunho
protestante. A retrospectiva histórica levará em consideração desde a sanção da Lei do Ensino de
Primeiras Letras, de 15 de outubro de 1827 - onde se estabelece as regras para o admissão dos mestres
e das mestras no corpo docente oficial (Art. 7º e 12) - até as décadas finais século XIX - nas quais se
verificou o crescimento do ingresso de mulheres nas escolas normais laicas e confessionais (estas
últimas beneficiadas pela separação Igreja-Estado após a Proclamação da República em 1889).

17
Buscaremos ampliar a discussão a partir das questões acima, apoiando-nos em vários estudiosos da
temática, em especial Guacira Louro, Jane Soares de Almeida e Leonor Tanuri. Esta pesquisa tem como
referencial teórico autores como Norbert Elias (com sua concepção de Processo Civilizador) e Michel
Foucault (e sua concepção de Disciplina). Metodologicamente, utilizaremos textos que tenham relação
com a proposta do mini-curso, imagens das fontes utilizadas na pesquisa – regulamentos, fotos,
decretos, entre outros - que possam ser objeto de discussão nos momentos interação. Referências
ARANHA, Maria Lucia de Arruda. História da Educação e da Pedagogia Geral e Brasil. 3. ed. rev. e amp.
São Paulo: Contexto, 2006. ALMEIDA, Jane Soares de. Ler as letras: por que educar meninas e mulheres?
São Paulo: Autores Associados, 2007. Mulher e educação: a paixão pelo possível. São Paulo: Fundação
Editora da Unesp, 1998. ELIAS, Nobert. O processo civilizador: uma história dos costumes. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1994. FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: Nascimento da prisão. 37. ed.
Petropolis,Rj: Vozes, 2009. NETO, Mariana Moreira. O poder em Foucault e o poder nas mulheres.
Paraiwa - Revista dos Pós-Graduandos de Sociologia da UFPb - Número 1 - João Pessoa - dezembro de
2001 . TANURI, L. M. Contribuição para o estudo da Escola Normal no Brasil. Pesquisa e planejamento.
São Paulo, v.13, dezembro, 1970. VILLELA, H. O. S. A primeira Escola Normal do Brasil. In: Clarice Nunes.
(Org.). O passado sempre presente. São Paulo: Cortez, 1992.

EIXO 5 - IMPRESSOS, INTELECTUAIS E HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO

467
HELENA ANTIPOFF, A SOCIEDADE PESTALOZZI E A HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO DOS EXCEPCIONAIS NO
BRASIL (1930-1973)

HEULALIA CHARALO RAFANTE; ROSELI ESQUERDO LOPES.


UNIVERSIDADE FEDERAL DE SAO CARLOS, SÃO CARLOS - SP - BRASIL.

Helena Antipoff nasceu na Rússia, em 1892. Graduou-se em psicologia e foi assistente de Claparède, de
1925 a 1929. Convidada pelo governo de Minas Gerais para auxiliar na Reforma de Ensino, em 1929,
organizou o Laboratório de Psicologia da Escola de Aperfeiçoamento de Belo Horizonte, realizando
pesquisas junto a alunos do ensino primário, e auxiliou no processo de homogeneização das classes,
destacando nelas a presença dos “excepcionais”. Observou que a escola não atendia às necessidades
destes e, para tanto, investiu na criação de instituições: Sociedade Pestalozzi (1932), Instituto Pestalozzi
(1934), Fazenda do Rosário (1940), Sociedade Pestalozzi do Brasil (1945). Foi conselheira da Campanha
Nacional de Educação dos Deficientes Mentais (1960), tendo participado da fundação do Centro
Nacional de Educação Especial (1973). Nosso objetivo é apresentar as idéias e a atuação dessa
educadora, visando apreender sua participação na constituição do campo da Educação Especial no
Brasil. Por meio de exposição oral, com apoio de projeção de material escrito e documental, e do
diálogo com os participantes, pretendemos: 1) analisar os pressupostos teórico-metodológicos do
trabalho da educadora com as crianças “excepcionais”; 2) apresentar o contexto histórico da Primeira
República, para compreender os fatores que levaram ao convite à Antipoff; 3) analisar suas pesquisas na
Escola de Aperfeiçoamento; 4) discutir o conceito de “excepcional” e destacar as ações públicas e
privadas em Minas Gerais, relacionadas a essa questão, com intuito de problematizar como se deu a
inserção das proposições de Antipoff; 5) apontar os caminhos percorridos por essa educadora nas
décadas de 1940 a 1970, verificando a influência de seus princípios e ações na constituição dos
programas de Educação Especial no Brasil. Bibliografia BUENO, J. G. S. Educação Especial Brasileira:
integração/segregação do aluno diferente. 2. ed. São Paulo: Educ, 2004. CAMPOS, R. H. F. Helena
Antipoff. In: FÁVERO, M. L. A.; BRITTO, J. M. Dicionário dos Educadores no Brasil: da Colônia aos dias
atuais. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora UERJ / MEC-Inep - Comped, 2002a. CAMPOS, R. H. F. (Org.) Helena
Antipoff: textos escolhidos. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2002b. CDPHA. Coletânea de obras escritas de
Helena Antipoff. Belo Horizonte: Imprensa Oficial de Minas, 1992. v. 1, 2, 3, 4. JANUZZI, G. M. A
educação do deficiente no Brasil: dos Primórdios ao Início do Século XXI. Campinas: Autores Associados,
2004. MAZZOTTA, M. J. S. Educação Especial no Brasil: História e Políticas Públicas. 5. ed. São Paulo:

18
Cortez, 2005. RAFANTE, H. C. Helena Antipoff e o ensino na capital mineira: a Fazenda do Rosário e a
educação pelo trabalho dos meninos “excepcionais” de 1940 a 1948. Dissertação (Mestrado em
Educação) – Universidade Federal de São Carlos, 2006.

EIXO 8 - FONTES E MÉTODOS EM HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO

501
A IMPRENSA PEDAGÓGICA COMO TEMA, FONTE E OBJETO PARA A HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO
PARANAENSE: JORNAL ESCOLA ABERTA (1980 – 1990)
1 2
ELAINE RODRIGUES ; EDILENE CUNHA MARTINEZ .
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MARINGÁ, MARINGA - PR - BRASIL; 2.ESCOLA MUNICIPAL PAULO FREIRE,
MARINGÁ - PR - BRASIL.

Esta pesquisa, concluída, problematizou o que Jornal Escola Aberta pode revelar sobre a produção e
circulação de idéias acerca do fazer educacional. Esse periódico é tomado como um exemplo de
Imprensa Pedagógica, oficialmente produzida pela Secretaria de Educação do Município de Curitiba,
durante a década de 1980 no Estado do Paraná. A Imprensa pedagógica é aqui entendida como tema,
fonte e objeto para o estudo da História da Educação. A descrição das fontes, um passo metodológico,
amparou-se na compreensão de que este procedimento historiográfico amplia as possibilidades de
problematização, desenvolvimento, e posterior apresentação da pesquisa. A análise buscou suporte nos
escritos de Roger Chartier (1990; 1996; 1999; 2002; 2007) e Michel de Certeau (1982 e 1994).
Pretendeu-se evidenciar os elementos que compuseram a materialidade e organicidade da fonte, o
questionamento do conteúdo dos editoriais, das manchetes e dos artigos que compõem o Jornal Escola
aberta e que bem representam o pensar oficialmente instituído e, pretensamente, direcionador do fazer
educacional no período de circulação do tablóide, 1986 a 1988, e ainda, investigar e significar a História
da Educação no Paraná, por meio da descrição e análise de um periódico pedagógico, publicado como
estratégia de divulgação do discurso oficialmente produzido e culturalmente selecionado para a
capacitação dos professores da educação pública municipal de Curitiba. A metodologia para exposição
dos resultados da pesquisa, na forma de minicurso, foi organizada em 4 itens. 1) apresenta-se o
entendimento acerca do tema Imprensa Pedagógica, tomando por base as categorias, representação,
identidade social e apropriação. 2) Organiza-se uma descrição detalhada das seções que estruturam o
Jornal Escola Aberta. 3) Discute-se os conteúdos das manchetes, editoriais e artigos que dão
organicidade ao periódico. 4) Exemplifica-se a organização do trabalho pedagógico realizado nas
escolas. O cumprimento, por parte da escola, da exigência de uma prática pedagógica baseada nos
pressupostos veiculados pelo jornal seria a base para a efetivação da proposta educacional almejada
pela Secretaria Municipal de Educação de Curitiba, assim entendiam os dirigentes educacionais. Duas
outras categorias, tática e estratégia, ampararam as afirmativas proposta pela pesquisa, nesta fase.
Entende-se que a descrição, problematização e análise do Jornal Escola Aberta contribui com as muitas
Histórias Educativas a serem escritas no Paraná. As categorias elencadas para a análise auxiliaram e
permitiram o entendimento de como foram estabelecidas as relações entre os “personagens” criados
pela Imprensa Pedagógica e a própria identidade dos sujeitos da educação escolar da década de 1980.

643
USO DE FONTES NA PESQUISA EM HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO FÍSICA

PAULO FERNANDES OLIVEIRA.


UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO, JABOATAO DOS GUARARAPES - PE - BRASIL.

A pesquisa em História de Educação nos ajuda a reflexão sobre aspectos relevantes do desenvolvimento
de nosso país. Nossa experiência na pesquisa em História da Educação Física vem desde a graduação

19
como bolsista de iniciação científica do Centro de Memória da Educação Física e do Esporte no Nordeste
(CMEFE)/ UFPE, tendo como objeto de análise as práticas corporais educativas na cidade de Recife no
final do século XIX e início do século XX. O CMEFE/ UFPE é um grupo de pesquisa que se preocupa com o
resgate da memória da Educação Física e o Esporte na cidade de Recife e no qual desenvolvemos
trabalhos desde o ano 2003 ao lado do Professor Dr. Ricardo de Figuerêdo Lucena e do Professor Dr.
Edilson Fernandes de Souza. O grupo busca fontes em acervos como o Instituto Arqueológico, Histórico
e Geográfico do Estado de Pernambuco, Arquivo Público do Estado de Pernambuco, Fundação Joaquim
Nabuco, Seminário Batista, Escolas, Secretarias de Educação, etc. Dentro as fontes coletadas estão
folders, livros, atas de reuniões, relatórios, fotografias, jornais, cartas, etc. Como fundamentação teórica
usaremos autores como Elias (1994, 1995, 1998, 2008), Heller (1992), Lucena (2002, 2005), Simões
(2010), Souza (2009), Le Goff (1994), Marinho (1952), que tem uma preocupação intensa sobre o uso
das fontes como subsídios para as suas pesquisas. Podemos citar como Elias (1994, 1995, 1998) inova na
utilização de fontes como cartas, obra de artes e até de um manual de boas maneiras como referência
para o desenvolvimento de sua teoria. Esses autores têm uma preocupação metodológica com o uso das
fontes e mais especificamente Souza (2009) e Simões (2010) trazem essa preocupação para a Educação
Física em seus trabalhos. O mini-curso se organizará inicialmente com a exposição dos aspectos
pertinentes à metodologia da pesquisa e coleta de fontes, posteriormente será organizado um espaço
para o debate e a reflexão sobre a pesquisa aplicada à História da Educação com ênfase na História da
Educação Física, bem como sobre o uso das fontes como referência de estudo e finalmente será
organizado em conjunto com os cursistas uma sistematização dessas reflexões com a elaboração de
uma síntese da produção coletiva e a avaliação do curso. Temos por objetivo neste curso proporcionar
uma reflexão acerca da metodologia da coleta de fontes para subsidiar a pesquisa em História da
Educação, mas especificamente em História da Educação Física, bem como de que forma podemos
utilizá-las na construção e produção do conhecimento científico. Desse modo caminhamos no sentido
de buscar respostas para as inquietações que surgem ao longo do trabalho de pesquisa e assim
corroboramos para a descoberta da “verdade”, ainda que momentâneo e que este seja apenas a
aproximação da realidade à luz de um referencial teórico.

802
BAKHTIN E A PESQUISA DOCUMENTAL EM EDUCAÇÃO

MARIA DA PENHA DOS SANTOS DE ASSUNÇÃO.


UFES, VILA VELHA - ES - BRASIL.

Tomando como referencia a perspectiva sócio-histórica compactuamos com Bakhtin a idéia de que o
texto é matéria prima das ciências humanas. Acreditamos no texto como categoria de análise das
pesquisas em educação. Nosso referencial nos deixa a vontade para abordar especificamente a noção
de texto, que segundo Bakhtin (2003) “e um dado primário de análise de todas as disciplinas”. Nesse
contexto, é importante ressaltar, de acordo com Bakhtin (2000), que o texto é uma realidade imediata
do pensamento e da emoção. "[...] Onde não há texto, também não há objeto de estudo e de
pensamento [...]" (BAKHTIN, 2000, p. 329). Segundo Barros, os textos são “como elos na cadeia histórica
na cadeia discursiva”. [...] supõem tanto relações dialéticas entre textos e seus sentidos quanto relações
dialógicas entre textos e seus sujeitos, já que os sentidos se distribuem por diferentes vozes [...]
(BARROS, 1999, p. 42). Barros (2003) observa que o dialogismo discursivo se desdobra nos aspectos da
interação verbal entre o enunciatário e o enunciador do texto nos entremeios da intertextualidade, no
interior do discurso. Nesse sentido, o sujeito é deslocado e é substituído por vozes sociais que fazem
dele um sujeito histórico e ideológico. As vozes nos interessaram diretamente, porque ao deslocar o
sujeito autor/escritor das fontes a serem pesquisadas do eixo central do discurso, estas vozes nos
permitem perceber os sentidos da educação, pois os sujeitos deixam suas marcas impressas nos
documentos “oficiais” e “extra-oficiais”, discursos já instituídos/ou constituídos, e esses discursos não
foram reproduzidos, mas reconstituídos. Procedemos dessa maneira porque entendemos que
precisamos considerar os aspectos ideológico/históricos e histórico/ideológicos no momento da análise
discursiva. Assim, nosso objetivo é discutir possibilidades de pesquisas documentais pertinentes a
historiografia da educação considerando os princípios bakhtinianos relacionados ao texto. Ao

20
oportunizar as reflexões relacionadas ao referencial teórico bakhtiniano estamos optando por observar
a multiplicidade de vozes que se enunciam nas tessituras orais e escritas. Nesse sentido abordaremos a
pesquisa documental em educação considerando que a partir do referencial teórico bakhtiniano os
documentos são textos que precisam ser interrogados para além da autoria do escrevente. Isso implica
em ressaltar o princípio dialógico da linguagem explicitado por Bakhtin (2003). Estamos propondo a
reflexão de uma pesquisa documental que interrogue aos sujeitos que se enunciam nos textos sobre o
porquê e para quem foram/e ou são escritos determinados textos e quais as vozes que subzagem nos
documentos coletados. Esperamos com isso ampliar as possibilidades de análise dos dados no momento
de análise dos discursos impressos, manuscritos e orais pertinentes a historiografia da alfabetização.

1323
HISTÓRIA DA CULTURA ESCRITA E HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES SOBRE OS PAPÉIS DA ESCOLA
1 2
MARIA TERESA SANTOS CUNHA ; ANA CHRYSTINA VENANCIO MIGNOT .
1.UDESC, FLORIANÓPOLIS - SC - BRASIL; 2.UERJ, RIO DE JANEIRO - SC - BRASIL.

Problematizar a importância de estudos sobre História da Cultura Escrita, entendida como estudo da
produção, difusão, uso e conservação dos objetos escritos (Castillo, 2002, p.19) em interface com
aportes da História da Educação, que tem entre seus objetos o estudo da escrita em suas várias
modalidades. Refletir sobre as relações entre história e cultura escrita a partir de papéis produzidos pela
escola (considerados como documentos ordinários ou cotidianos) é o objetivo deste curso. Para tanto,
toma-se como ponto de partida as práticas de escritas produzidas no ambiente escolar, especialmente
aqueles de textos produzidos cotidianamente – bilhetes, boletins, cartas, cadernos, diários de professor,
listas de matrícula e de material escolar, relatórios, etc. – que, geralmente, estão destinados ao fogo e/
ou ao lixo. O intuito é de visibilizar, historicizar e salvaguardar estes materiais produzidos em diferentes
temporalidades e em diversos espaços de sociabilidade que carregam permanências e singularidades e
ajudam a construir uma memória da educação escolarizada. OBJETIVOS: - Discutir aspectos da História
da Cultura Escrita em interface com a História da Educação, mediados pelas escritas escolares cotidianas
e ordinárias. - Apresentar possibilidades de pesquisa com tais documentações, ressaltando sua
metodologia e marcos teóricos. - Discutir propostas para que os estudos históricos sobre cultura escrita
e escritas cotidianas e ordinárias como políticas públicas de salvaguarda e conservação dos papéis da
escola. METODOLOGIA: - Aulas Expositivas e dialogadas - Apresentações de vídeos e power point -
Oficina de conservação de documentos antigos. BIBLIOGRAFIA BÁSICA CASTILLO GÓMES, A. (Coord.)
Historia de la cultura escrita.Del Próximo Oriente Antiguo a la sociedad informatizada.
Madrid:Edicciones Trea, 2002. CHARTIER, R. Cultura escrita, literatura e história. P. Alegre: Artmed,
2001. CUNHA, M. T. S. No tom e no tema. Escritas ordinárias na perspectiva da cultura escolar (segunda
metade do século XX). IN: BENCOSTTA, M. L. (0rg). Culturas Escolares, saberes e práticas educativas.
Itinerários históricos. SP: Cortez Editora. 2007. p.79-99. GOMES, A. C. (org). Escrita de si, escrita do
outro. RJ: FGV, 2004. HISTÓRIA DA CULTURA ESCRITA: Séculos XIX e XX./Ana M.O. Galvão (org).
BH:Autêntica, 2007. MIGNOT, A. C. V. (org).Cadernos à vista. Escola, memória e cultura escrita. RJ:
EdUERJ, 2008. __________ e CUNHA, M.T.S. Razões para guardar. Revista Educação em Questão.UFRN,
n.25. 2006. p.40 -61. VIÑAO FRAGO, A. Por uma história da cultura escrita: observações e
reflexões.Cadernos do Projeto Museológico nº 77. (Portugal). 2001.

1344
“OPERAÇÃO HISTORIOGRÁFICA EDUCACIONAL”: UM DIÁLOGO A PARTIR DE FONTES NOS SÉCULOS
XIX E XX
1 2
ADLENE SILVA ARANTES ; MARGARETE MARIA DA SILVA .
1.UNIVERSIDADE DE PERNAMBUCO- UPE, RECIFE - PE - BRASIL; 2.NEPHEPE-UFPE, RECIFE - PE – BRASIL.

Sabemos que a pesquisa em História da Educação tem vivenciado nas ultimas décadas uma renovação
em relação aos objetos e as fontes utilizadas pelos pesquisadores em diversos estados brasileiros. Essa

21
renovação se deve, sobretudo, a inserção dos estudos da história cultural no campo da história da
educação. Diante dessa constatação, pretendemos discutir, neste minicurso, alguns caminhos para
realização da “operação historiográfica educacional” (CERTEAU, 1982), sobretudo, a partir do uso de
livros escolares, jornais, cartas de professores e revistas de ensino como fontes para compreender a
história da educação nos séculos XIX e XX. A operação historiográfica é considerada como uma relação
entre um lugar, percebido de maneira abrangente como recrutamento, meio ou ofício, e procedimentos
de análise e construção de um texto (FARIA FILHO e VIDAL, 2003). Pretendemos também, problematizar
a produção e o uso de tais fontes para diversos estudos na História da Educação; analisar a constituição
de acervos “públicos” e “privados” como locais de memória. O arquivo Público de Pernambuco (APEJE),
a Fundação Joaquim Nabuco (FUNDAJ), a Biblioteca Pública do Estado, a Cúria Metropolitana de Olinda
e Recife e o Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre História da Educação e ensino de História em
Pernambuco – NEPHEPE – são os acervos que guardam as fontes que serão apresentadas neste
minicurso. Que políticas de conservação e pesquisa dispõem tais acervos? Quais fontes fazem parte
destes acervos? A metodologia utilizada será através de exposição dialogada e do contato com fontes
escritas e iconográficas para análise em pequenos grupos. Assim, esperamos contribuir com o debate
sobre o uso de diferentes fontes dos séculos XIX e XX, buscando estabelecer uma relação entre as fontes
localizadas para se compreender como a educação e a instrução foram se configurando ao longo dos
anos. Bibliografia sugerida: BATISTA, A. A. G.; GALVÃO, Ana Maria de Oliveira. Livros escolares de leitura
no Brasil: elementos pra uma história. Campinas: Mercado de Letras, 2009. CERTEAU, M. de. A operação
historiográfica. In: ______. A escrita da história. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1982. FARIA
FILHO, Luciano Mendes; VIDAL, Diana Gonçalves. História da Educação no Brasil: a constituição histórica
do campo (1880-1970). In. Revista Brasileira de História, vol. 23, n. 45, 2003, disponível em
http://www.scielo.br/pdf/rbh/v23n45/16520.pdf. GALVÃO, A. M. O. Problematizando fontes em
História da Educação. Educação e Realidade, Porto Alegre, v. 21, n. 2, p. 99-118, 1996. LOPES, E. M. T. e
GALVÃO, A. M. de O. História da Educação (O que você precisa saber sobre). Rio de Janeiro: DP&, 2001.
VALDEMARIN, Vera T. (Orgs.) A cultura escolar em debate: questões conceituais, metodológicas e
desafios para a pesquisa. Campinas, SP: autores Associados, 2005.

EIXO 9 - PATRIMÔNIO EDUCATIVO E CULTURA MATERIAL ESCOLAR

524
HISTÓRIA, EDUCAÇÃO E ARQUITETURA: UM DIÁLOGO POSSÍVEL
1 2
MARCUS LEVY BENCOSTTA ; ANA PAULA PUPO CORREIA .
1.UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ, CURITIBA - PR - BRASIL; 2.PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM
EDUCAÇÃO DA UFPR, CURITIBA - PR - BRASIL.

A arquitetura escolar e o espaço por ela determinado são entendidos como portadores e transmissores
de mensagens de sentidos múltiplos, não deixando de lado os sujeitos a quem se destinam, quais sejam,
alunos e professores, os primeiros receptores de seus significados e que fazem uso do espaço enquanto
indivíduo-destinatário. Contudo, ao experienciar o espaço escolar - estar no local onde convergem todas
as mensagens e significados espaciais – eles também reagem a estas mensagens, segundo as
características próprias do universo escolar e suas intercessões com as realidades sócio-culturais do
espaço-tempo dado. Portanto, para entender a escola e suas transfigurações é significativo também
compreender como as linguagens arquiteturais penetram esse espaço permeado por discursos
ramificados na sociedade e na história. E desse modo, temos na importância dos estudos acerca da
arquitetura e do espaço escolar, elementos analíticos que demonstram que a gramática espacial insere-
se no tempo, e o edifício escolar em um espaço que dialogam com as transformações do tecido urbano,
e mais proximamente com as políticas educacionais que determinavam a construção deste tipo de
prédio. Portanto, para este mini-curso propomos discutir como os debates arquiteturais repercutiam
diante das concepções de escola, utilizando tipologias adotadas por certas correntes artísticas e

22
culturais, com o objetivo de identificar os modos construtivos, elementos decorativos e programas
iconográficos, e sua relação com os modos pedagógicos sobre o espaço escolar. Nesse sentido, os
principais objetivos deste minicurso são: 1) debater como a investigação e a análise da arquitetura
escolar apresenta aspectos que contribuem para o estudo da cultura material escolar; 2) identificar, por
meio das fotografias, desenhos e plantas arquitetônicas, as peculiaridades da escola, em especial, a
pública republicana; 3) examinar os modelos arquitetônicos colocados em circulação frente à formação
do cidadão republicano brasileiro. A metodologia a ser utilizada se dará pela discussão dos textos
sugeridos associada ao uso de múltiplas de fontes imagéticas. BIBLIOGRAFIA BÁSICA: BENCOSTTA, M. A.
L. História da Educação, Arquitetura e Espaço Escolar. São Paulo: Cortez Editora, 2005. BENEVOLO, L.
História da arquitetura moderna; São Paulo: Editora Perspectiva, 1995. WOLFF, S. F. S. Escolas para a
República. Os primeiros passos da arquitetura das escolas públicas paulistas. São Paulo: Edusp, 2010.
ZEVI, B. Saber ver a Arquitetura. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

23
24
COMUNICAÇÕES COORDENADAS

25
26
EIXO 2 - HISTÓRIA DAS INSTITUIÇÕES E PRÁTICAS EDUCATIVAS

HISTÓRIA DA ESCOLA PRIMÁRIA NO BRASIL (1870 – 1950): UMA PERSPECTIVA COMPARADA


Coordenador: ANTONIO DE PÁDUA CARVALHO LOPES

882
CULTURA MATERIAL ESCOLAR: A ESCOLA E SEUS ARTEFATOS
1 2
DIANA GONÇALVES VIDAL ; VERA LUCIA GASPAR DA SILVA .
1.FEUSP, SAO PAULO - SP - BRASIL; 2.UDESC, FLORIANOPOLIS - SC - BRASIL.

A presente Comunicação visa apresentar parte dos resultados das pesquisas realizadas no âmbito do
Grupo Temático G2 - Cultura Material Escolar: investigações comparadas sobre a escola graduada (1870
– 1925), vinculado ao Projeto nacional: “Por uma teoria e uma história da escola primária no Brasil:
investigações comparadas sobre a escola graduada (1870 – 1950)”, coordenado por Rosa Fátima de
Souza e financiado pelo CNPq. O grupo agrega pesquisadores dos estados do Rio Grande do Sul, Santa
Catarina, Paraná, São Paulo e Maranhão e seus orientandos. Toma como fontes cartas de professores ou
da escola; expedientes administrativos como listas de materiais, lista de almoxarifado, inventários, etc.;
relatórios; jornais e a legislação. A meta é efetuar um amplo levantamento da cultura material escolar
primária, tendo como baliza inicial a aprovação das leis de obrigatoriedade escolar e final às primeiras
reformas da escola nova. Tem por objetivo identificar os modos de produção e disseminação um
modelo de escolarização da infância no Brasil, a partir do olhar que se fixa nos objetos e na
materialidade da escola. Em termos de perspectiva de análise busca-se privilegiar o sentido de
comparação entre as regiões e estados a partir de um conjunto de fontes próximas e de uma base
teórica “comum”. Trata-se de um esforço conjunto de pesquisadores debruçados em investigações
locais, mas com um fórum nacional para compor e aprofundar análises e tecer quadros comparativos
que favoreçam a compreensão de movimentos ocorridos no território brasileiro. Para desenvolver o
trabalho colaborativo da equipe, organizamos os dados coletados em tonos de quadros para 13
categorias (A - Mobília; B – Utensílios da escrita; C - Livros, Cartilhas e Revistas; D - Materiais Visuais,
Sonoros e Táteis para o ensino; E- Organização/Escrituração da Escola; F – Prédios Escolares; G –
Material de Higiene; H – Material de Limpeza; I – Trabalhos de Alunos; J- Idumentária; K- Ornamentos; L
- Honrarias; M – Jogos e Brinquedos). Temos atentado para a especificação de fornecedores e
representantes. O Banco de Dados elaborado está disponível na página do projeto nacional
(http://200.145.77.172/grupos/). Nesta Comunicação, discorremos acerca dos vários aspectos sobre os
quais o G2 tem se debruçado na constituição desse repertório material, focalizando a arquitetura
escolar, tanto no que diz respeito às fachadas quanto às plantas; aos objetos da escrita; o mobiliário
escolar e as representações de infância e de escola elaboradas no período.

1111
OS GRUPOS ESCOLARES NAS MEMÓRIAS E HISTÓRIAS LOCAIS: UM ESTUDO COMPARATIVO DAS
MARCAS DA ESCOLARIZAÇÃO PRIMÁRIA
1 2
LUCIANO MENDES FARIA FILHO ; ANTÔNIO CARLOS FERREIRA PINHEIRO .
1.UFMG, BELO HORIZONTE - MG - BRASIL; 2.UFPB, JOÃO PESSOA - PB - BRASIL.

Esta comunicação resulta do trabalho em andamento realizado pelo GT do projeto de pesquisa nacional
Por uma teoria e uma história da escola primária no Brasil: investigações comparadas sobre a escola
graduada (1870 – 1950) , coordenado por Rosa Fátima de Souza. O Trabalho de pesquisa do GT tem
como objetivo analisar a construção de representações sociais sobre a escola graduada a partir do
estudo comparativo de livros de história das cidades e de memórias, buscando compreender o impacto
social da criação e disseminação dos grupos escolares no Brasil. Tal empreendimento foi pensado a
partir das experiências sociais e culturais permeadas por peculiaridades histórico-educacionais que

27
envolvem o surgimento dos grupos escolares no Brasil, mais especialmente em Minas Gerais, no Piauí e
na Paraíba e a sua permanência no imaginário social, ainda hoje, como uma escola de verdade.
Propomos articular as proposições teóricas advindas da nova história cultural francesa (CHARTIER, 1988;
LE GOFF, 2003), especialmente as noções de representação e de cultura histórica, bem como a de
cultura educacional para analisar os livros de memórias e histórias de cidades brasileiras que, não raras
vezes, são elaborados por intelectuais locais – jornalistas, médicos, advogados, geógrafos, historiadores
– ou, simplesmente, por autodidatas. A partir desse referencial, da leitura das obras analisadas, da
elaboração de quadros comparativos foram analisados as marcas de escolarização presentes nessas
obras. Esses livros nos trazem importantes aspectos da cultura educacional brasileira. Eles abordam
diferentes aspectos dos municípios e da escolarização. Entretanto, na presente pesquisa agrupamos os
seguintes tópicos: Sobre a fundação de grupos escolares; Sobre a descrição física dos grupos escolares;
Sobre os seus primeiros professores/as; Sobre os alunos e a memória de ter sido aluno em um grupo
escolar; Sobre as novas práticas pedagógicas nos grupos escolares; Sobre cultura material e cultura
escolar; Fiscalização do trabalho docente e da eficácia do ensino e, finalmente, sobre a competição que
os grupos escolares terminaram por estimular com os outros tipos de escolas. Essas obras mesclam
elementos da memória, das reminiscências e de procedimentos de pesquisa e compreensão do “fato
histórico” ora assentado no mero “empiricismo”, ora no positivismo descritivo. Através delas é possível
compreender a maneira como as pessoas percebiam os movimentos educacionais do Estado e de seus
municípios, especialmente o modo como o grupo escolar se constituiu nas representações sociais.

880
CIRCULAÇÃO E APROPRIAÇÕES DA ESCOLA GRADUADA NO BRASIL (1889-1930): NOTAS DE UMA
INVESTIGAÇÃO EM PERSPECTIVA COMPARADA
1 2
ANTONIO DE PÁDUA CARVALHO LOPES ; ROSA FATIMA DE SOUZA .
1.UFPI, TERESINA - PI - BRASIL; 2.UNESP, ARARQUARA - SP - BRASIL.

Nas décadas finais do século XIX, em países da Europa e nos Estados Unidos da América, a escola
graduada foi considerada o modelo mais adequado para a universalização da educação primária erigida
como símbolo da racionalização do ensino e da modernização educacional difundindo-se por todo o
Ocidente. Os pressupostos principais dessa nova modalidade de organização pedagógica da escola
elementar compreendiam a classificação dos alunos pelo nível de conhecimento em agrupamentos
supostamente homogêneos implicando a constituição das classes; a adoção do ensino simultâneo, a
racionalização curricular – controle e distribuição ordenada dos conteúdos e do tempo (graduação dos
programas e estabelecimento de horários); a introdução de um sistema de avaliação, a divisão do
trabalho docente supervisionado por um diretor e um edifício escolar compreendendo várias salas de
aula e vários professores. No Brasil, esse novo estabelecimento de ensino primário foi implantado como
escola modelar durante a Primeira República. Mas esse processo de institucionalização ocorreu em
ritmos variados e em condições específicas em cada estado da federação. Nesta comunicação
apresentamos resultados finais de uma investigação comparada sobre a escola graduada no Brasil
incidindo sobre 14 estados: Acre, Maranhão, Piauí, Rio Grande do Norte, Sergipe, Bahia, Mato Grosso,
Goiás, Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. O estudo
objetivou contribuir para o aprofundamento do conhecimento histórico em educação utilizando a
comparação como estratégia de análise e concepção interpretativa de modo a perceber as diferentes
apropriações da escola graduada nas regiões do país e os “contra movimentos” implicados em sua
difusão e, ainda, revisitar as análises sobre a temática já produzida em âmbito regional e local. O texto
tece considerações sobre os desafios de estudos comparados dessa natureza envolvendo uma
multiplicidade de fontes de pesquisa e aspectos como a relação da escola graduada com as outras
modalidades de escolas primárias, o significado social dessa escola moderna na sociedade brasileira no
início do século XX, a inovação representada pelo método de ensino intuitivo e a materialidade das
escolas. Tal reflexão ao mesmo tempo em que busca interpretar o processo de circulação e apropriação
do modelo de escola graduada no Brasil interroga a produção da pesquisa existente sobre o tema
apresentando um balanço acerca do avanço do conhecimento possibilitado pelo estudo comparado em
âmbito nacional e os desafios a serem empreendidos por outros esforços investigativos.

28
897
ÍDÉIAS EM MOVIMENTO: APROPRIAÇÕES DO MÉTODO DE ENSINO INTUITIVO NAS REFORMAS DA
INSTRUÇÃO PÚBLICA DE MINAS GERAIS, SANTA CATARINA E SÃO PAULO (1906-1920)
1 2 3
GLADYS MARY GHIZONI TEIVE ; VERA TERESA VALDEMARIN ; JULIANA CESARIO HAMDAN .
1.UDESC, FLORIANOPOLIS - SC - BRASIL; 2.UNESP, ARARAQUARA - SP BRASIL; 3.UFOP, OURO PRETO - MG
- BRASIL.

As reflexões aqui apresentadas fazem parte das discussões do GT1: “Método de ensino intuitivo”, do
projeto temático de âmbito nacional “Por uma teoria e uma história da escola primária no Brasil:
investigações comparadas sobre a escola graduada (1870 -1950)”,coordenado pela Professora Dra. Rosa
Fátima de Souza e financiado pelo CNPq. Composto por pesquisadoras da Universidade Estadual Paulista
(FCLAR/UNESP), Universidade Federal de Ouro Preto e de Minas Gerais (UFOP/UFMG) e Universidade do
Estado de Santa Catarina (FAED/UDESC), este eixo privilegia o estudo comparativo entre os estados de
São Paulo – pioneiro na utilização do método intuitivo na organização da escola graduada – Minas
Gerais e Santa Catarina, com o intuito de compreender as múltiplas facetas da articulação entre os
postulados do novo método e as reformas da instrução pública empreendidas entre 1906 a 1920.
Interessou-nos, pois, comparar as estratégias e táticas utilizadas pelos reformadores da instrução
pública desses Estados: Sampaio Doria, Firmino Costa e Orestes Guimarães, consubstanciadas na
legislação, nos regulamentos e dispositivos por eles acionados para implementar o uso do método
intuitivo nas escolas primárias. Particularmente, nesta comunicação, são discutidas as suas apropriações
acerca do método e, sobretudo, as suas estratégias para transformá-lo no “espírito” das reformas por
eles empreendidas, no processo geral a que deveriam se subordinar todas as normas, saberes e práticas
da escola primária. Para tal, são utilizados como fontes os documentos que nortearam as reformas,
especialmente a legislação, os regulamentos e programas de ensino, bem como as mensagens e
sinopses dos governadores, relatórios e artigos produzidos pelos três reformadores, dentre outros, os
quais têm permitido refletir sobre os processos de apropriação e difusão de tendências educacionais
emergentes, sobre as demandas para a formação de professores e sobre educadores que assumiram
funções protagonistas nos três estados no período da Primeira República. Considerando o método de
ensino intuitivo como eixo catalisador desses propósitos, pôde-se evidenciar a permanência de
estratégias educacionais, discutir as mudanças nos conteúdos escolares, caracterizar elementos
constitutivos da representação da profissão docente e assim, atribuir novos significados para questões
educacionais contemporâneas. O estudo comparativo entre os três estados possibilitou o mapeamento
de especificidades e de traços gerais componentes da mesma conjuntura educacional.

ASSOCIAÇÕES DE ALUNOS E IMPRENSA ESTUDANTIL


Coordenador: ANA CLARA BORTOLETO NERY

1057
IMPRESSOS ESTUDANTIS COMO PROCESSO FORMATIVO E DE INTEGRAÇÃO DE ALUNOS E EX-ALUNOS
DAS ESCOLAS NORMAIS RURAIS

FLÁVIA OBINO CORREA WERLE.


UNIVERSIDADE DO VALE DO RIO DOS SINOS - UNISINOS, PORTO ALEGRE - RS - BRASIL.

Apresenta as Escolas Normais Rurais criadas nos anos quarenta e inicio da década de cinquenta como
iniciativa vinculada ao contexto sociopolítico do Rio Grande do Sul. As primeiras normais rurais estavam
diretamente ligadas a iniciativas da Igreja Católica e à necessidade de expandir o ensino público a todas
as regiões do estado, necessidade esta não associada a políticas públicas articuladas a partir do núcleo
do Estado e nem exclusivamente voltadas para a formação do magistério. A segunda fase de criação das
normais rurais dá-se na vigência da Lei Orgânica do Ensino Normal, quando outras mantenedoras, já não
mais necessariamente vinculadas à Igreja Católica oferecem o curso normal rural. As escolas desta

29
segunda fase apresentam características diferenciadas em relação às mantidas por congregações de
confessionalidade católica, dentre elas estão a Escola Normal Rural Presidente Getúlio Vargas e Escola
Normal Rural Assis Brasil, de Três de Maio e de Ijuí, respectivamente. Esta apresentação discute um tipo
de formação e prática pedagógica, qual seja os impressos estudantis como espaço educativo, de
expressão e organização dos alunos. O foco da discussão são os impressos produzidos por estudantes de
duas escolas normais rurais do Rio Grande do Sul. O primeiro periódico analisado é A Voz da Serra, dos
alunos da Escola Normal Rural La Salle, de Cerro Largo, que foi publicado no período de 1946 a 1950.
Verifica-se que, embora os variados títulos que o jornal recebeu, ao longo do tempo, acenassem para a
especificidade rural da formação ministrada no curso, os temas nele tratados não davam prioridade ao
mundo rural: poucas eram as matérias que tematizavam essa realidade e formas de nela intervir.
Levanta-se a hipótese de que, embora o objetivo da escola fosse a formação do professor para a zona
rural, o veículo mantido pelo grêmio de alunos mais exprimia a socialização e a formação religiosa
impressa na escola do que a formação para o campo e para a vida rural declarada no curso. O outro
periódico analisado é O Eco do Estudante, órgão dos alunos da Escola Normal Rural Getúlio Vargas de
Três de Maio, impresso produzido na década de 1960, considerando a estrutura, condições de
produção, imagens e conteúdo do impresso. As fontes deste estudo são exemplares dos impressos
localizados nos arquivos de estabelecimentos de ensino, embora as escolas normais rurais nas quais eles
foram produzidos tenham sido extintas no inicio da década de 1970. Cada exemplar disponível foi
analisado em suas características registradas em ficha especifica. A analise dos impressos é
contextualizada frente às finalidades das escolas discutindo também as formas de agremiação de alunos
das escolas normais rurais.

1038
PRÁTICAS ENQUANTO ESTRATÉGIAS DE FORMAÇÃO: O ASSOCIATIVISMO DISCENTE

ANA CLARA BORTOLETO NERY.


UNESP, GUARULHOS - SP - BRASIL.

As associações de alunos das escolas de formação de professores são representantes de uma


significativa parcela das práticas desenvolvidas nestas instituições. Além de serem responsáveis por boa
parte das atividades extraclasse, tais associações também se ocupavam da publicação dos periódicos
dessas escolas. Estratégia de organização do campo e de conformação da profissão docente em São
Paulo, essas associações de alunos eram intituladas Grêmios Normalistas. O associativismo discente, nas
Escolas Normais, está atrelado à ação de João Lourenço Rodrigues, Oscar Thompson e João
Chrysostomo Bueno dos Reis Junior, na Escola Normal da Capital. A partir de 1911 passa a ser atividade
presente em todas as Escolas Normais do estado, tornando-se oficial a partir da Reforma de 1920. No
entanto, seus propósitos se diferenciam, tomando feições próprias em cada período. Esta comunicação
é resultado das pesquisas que venho desenvolvi no âmbito do projeto de pesquisa “Divulgando Práticas
e Saberes: a produção de impressos nas Escolas Normais”, sob minha coordenação, na Unesp, campus
de Marília. Neste projeto evidenciou-se a presença de uma parcela considerável de periódicos
publicados por alunos normalistas no estado de São Paulo, como resultado de uma prática associativa
estimulada pelos agentes. Desta forma, compreender a constituição de um espaço específico – o grêmio
normalista – a partir de um foco específico – os periódicos destas associações, revelou-se atividade
investigativa profícua. As fontes desta investigação são os periódicos Excelsior! (1911-1916), Raio Verde
(1917-1918), ambos da escola Normal Secundária de São Carlos, e O Estímulo (1906-1927), da Escola
Normal da Capital. Além dos periódicos, foram utilizadas fontes documentais como Annuario do Ensino
(1909; 1921), atas dos grêmios e periódicos publicados pelos professores das Escolas Normais paulistas.
Como resultados, observa-se alterações nos objetivos destas agremiações, a partir da Reforma Sampaio
Dória. Porém, permanece no cerne a idéia de formação pedagógica, uma vez que os alunos agremiados
são responsáveis por organizar atividades culturais e pedagógicas da própria Escola Normal. Ou seja, o
grêmio parece ter funcionado como um dispositivo de formação por homologia, tal qual a função
exercida pelas festas escolares e pela prática do escotismo. Não há elementos na documentação
analisada para estabelecer vínculos entre o associtismo discente e a Pedagogia da Escola Nova, ainda

30
que a idéia de escola ativa já estivesse presente na instrução pública paulista, pelas ações realizadas por
Oscar Thompson.

1048
O GRÊMIO NORMALISTA “2 DE AGOSTO” E SEU IMPRESSO: O ESTIMULO
IMPRESSOS, INTELECTUAIS E HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO

COMUNICAÇÕES COORDENADAS
AUREA ESTEVES SERRA.
FATEB, BIRIGUI - SP - BRASIL.

O presente texto é parte da pesquisa de doutorado realizada no Programa de Pós-Graduação em


Educação da UNESP de Marilia e tem por objetivo apresentar a associação estudantil “Grêmio
Normalista “2 de agosto” e seu impresso a revista O Estimulo publicada pelos normalistas da associação
dos alunos da Escola Normal Secundária da Capital/SP, no período de 1906 a 1927, edições estas
localizadas no “Acervo Caetano de Campos”. O primeiro ensaio do associativismo normalista na Escola
Normal da Capital foi o Club Republicano Normalista, uma associação de teor político. Já a segunda
associação foi a Arcadia Normalista, uma associação que possuía uma característica expressamente
literária, permanecendo sob a tutela do Estado. E a terceira experiência ora em foco foi o Grêmio
Normalista 2 de agosto, uma associação que pode ser constatada na própria revista publicada pelo
Grêmio Normalista “2 de agosto”, O Estimulo, datada de 1906. Também localizei três livros de atas na
qual está registrado o desenvolvimento das atividades do grêmio, como posse de seus associados,
pagamento das assinaturas da revista e muitas outras atividades do qual os alunos organizavam. Para a
análise das fontes há a compreensão de que todo impresso carrega consigo uma dupla característica: a
sua materialidade e o texto em si. Segundo Carvalho (1998), “[...] trabalhando com as representações
que agentes determinados fazem de si mesmos, de suas práticas, dos outros agentes, de instituições –
como a escola – e dos processos que as constituem”. (p. 33), é possível historicizar a linguagem das
fontes, originando novos temas de pesquisa que privilegiam os sujeitos envolvidos e as práticas
culturais. Para tanto se procede à análise da materialidade presentes nos exemplares levando em
consideração os dispositivos tipográficos. O Estimulo, Órgão dos Normalistas da Escola Normal
Secundária da Capital-SP é uma publicação de iniciativa estudantil que trata das questões educativas e
particularmente as que envolvem a escola Normal, questões estas que contam com o apoio de alguns
professores. Muitos são os temas abordados nessa revista, os que mais se destacam são: problemas
administrativos do ensino; edifícios escolares; missão educativa dos professores, questões pedagógicas
e profissionais, métodos de ensino, educadores entre outros. O associativismo discente, nas Escolas
Normais, está atrelado à ação de João Lourenço Rodrigues, Oscar Thompson e João Chrysostomo Bueno
dos Reis Junior, na Escola Normal da Capital. A partir de 1911 passa a ser atividade presente em todas as
Escolas Normais do estado, tornado-se oficial a partir da Reforma de 1920. Os resultados da pesquisa
confirmam que com a análise desses impressos e o cruzamento com outras fontes documentais foi
possível verificar como acontecia o associativismo estudantil por meio das práticas escolares quanto à
formação de professores disseminadas através do referido impresso.

1052
O MOVIMENTO ESTUDANTIL ORGANIZADO: 25 ANOS DE MEMÓRIAS

LUCILIA AUGUSTA LINO DE PAULA.


UFRRJ, SEROPEDICA - RJ - BRASIL.

Este trabalho, fruto da pesquisa de Tese de Doutorado já concluída, sobre o movimento estudantil
organizado e dirigido pelo Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal Rural do Rio de
Janeiro no período de 1975 a 2000. Levantamos a memória do movimento estudantil da UFRRJ, a partir
do depoimento dos seus líderes, protagonistas dessa história. Entendemos que o passado existente é
reconstruído continuamente no presente, assim os sujeitos analisam e interpretam os acontecimentos

31
vividos de forma diversa do olhar da época. Dentro da metodologia proposta realizamos entrevistas,
individuais e coletivas, com vários ex-militantes que, durante as décadas de 70, 80 e 90, participaram de
gestões do DCE. O pano de fundo da investigação foi a história do país, do movimento estudantil e da
Rural, no período analisado. A história oral completou e permitiu dar significado aos documentos e
impressos estudantis, incompletos, dispersos e em estado precário. A forma como os ex-militantes
rememoraram e reinterpretaram o seu engajamento naquele movimento constituiu o material empírico
a partir do qual foi possível construir as categorias centrais da análise e interpretação das
representações sobre a participação política estudantil na Universidade Rural. Os depoimentos
permitiram identificar o significado atribuído pelos militantes à sua atuação política, a influência da
militância estudantil na formação acadêmica e profissional e, principalmente, a importância dessa
atuação no conjunto de sua experiência de vida, na sua concepção de sociedade e na consolidação dos
valores e visões de mundo que norteiam sua atuação social. O movimento estudantil exerceu uma
influência significativa, enquanto instância de formação, no processo de construção das representações
e modos de vida dos estudantes universitários que dele participaram. Na investigação sobre a
participação política dos jovens universitários, partimos da premissa de que seria possível perceber a
influência do movimento estudantil no acúmulo de capital social e/ou cultural e na sua conversão em
outros tipos de capital, político, profissional, econômico. A investigação ampliou a compreensão sobre o
universo cultural dos jovens universitários, inseridos em uma instituição peculiar que favorece e
estimula a vida comunitária. Essa característica minimizou a enorme heterogeneidade da origem social e
das experiências dos estudantes e, desta forma, produziu uma ‘experiência comum’ reconhecida e
vivenciada. A convivência forneceu a percepção de que existem mais semelhanças do que diferenças
entre os estudantes, favorecendo a construção de vínculos, tanto temporários quanto permanentes.

1137
O IMPRESSO NORMALISTA EXCELSIOR! E A EDUCAÇÃO REPUBLICANA NO INTERIOR DE SÃO PAULO
(1911-1916)

EMERSON CORREIA DA SILVA.


UNESP/PPGE, MARILIA - SP - BRASIL.

Na presente comunicação buscamos enfocar a trajetória editorial da revista Excelsior! (1911-1916),


revista de propriedade do Grêmio Normalista “Vinte e Dois de Março”, considerando o objetivo de
compreender a participação do alunado na produção de Impressos Educacionais nas Escolas Normais do
interior de São Paulo/SP. A pesquisa concluída no ano de 2009, em nível de mestrado, com bolsa FAPESP
e CNPq, se pautou pelo estudo das primeiras publicações veiculadas pela Escola Normal de São Carlos,
em São Carlos/SP, mediadas pelas contribuições metodológicas de Roger Chartier no que concerne à
compreensão historiográfica e editorial, e Pierre Bourdieu no que diz respeito à compreensão do campo
educacional e habitus. Entrecruzamos dados referentes às informações editoriais, fontes documentais
como livro de empréstimos da biblioteca e dados funcionais, e fontes bibliográficas. É bom ressaltar que
esta pesquisa se desenvolveu em torno do GEPEFE (Grupo de Estudos e Pesquisa em Administração da
Educação e Formação de Educadores): linha memórias e perspectivas. Analisamos Excelsior! dividindo-a,
inicialmente, em duas fases: A primeira fase sob o apoio do diretor da Escola Normal Secundária de São
Carlos João Chrysostomo e de seu professor João Lourenço Rodrigues, que compreende o momento da
criação da revista até o terceiro número publicado, quando diretor e professor haviam sido removidos
para a Inspetoria Geral da Instrução Pública e Escola Normal da Capital, respectivamente. O terceiro
número é tomado como um número de transição, mas componente da primeira fase. A segunda fase,
do quarto ao sétimo número, período em que ocorrem grandes mudanças na feição editorial da revista,
que vão desde o projeto gráfico à escrita propriamente dita, que se distingue pelos trabalhos
desenvolvidos em sala de aula, tendo a frente o professor João de Toledo. A revista Excelsior! surge
cumprindo o papel de dar visibilidade às práticas ocorridas na escola, firmando-a junto à sociedade.
Ponto central para uma escola que se instalava sob o signo do futuro e grandes investimentos na
construção do imponente prédio e compra de materiais importados da Europa e Estados Unidos da
América. Entre os autores, além de alunas, alunos e professores (responsáveis pela seleção e revisão dos
artigos), encontra-se a presença de diretores e do secretário da escola, homens de influência da

32
sociedade local e outros convidados. São artigos resultantes de conferências promovidas pela Escola
Normal Secundária de São Carlos e entidades da sociedade são-carlense, além de encomendas feitas por
professores e alunos.

INSTITUIÇÕES DE ENSINO AGRÍCOLA E MODERNIZAÇÃO DO CAMPO


Coordenador: MILTON RAMON PIRES DE OLIVIEIRA

1388
ASPECTOS DOS INTERNATOS NO ENSINO AGRÍCOLA FEDERAL

JOAQUIM TAVARES DA CONCEIÇÃO TAVARES CONCEIÇÃO.


UFBA, SALVADOR - SE – BRASIL

Esta comunicação aborda a “pedagogia de internar” no contexto do ensino agrícola federal, sob a
competência do Ministério da Agricultura, tomando como objeto específico o internato da Escola
Agrotécnica Federal de São Cristóvão-SE (EAFSC-SE), no período de 1934 a 1967. Três aspectos são
destacados: os sujeitos e as condições de sustentabilidade do internato, a organização espacial do
internato e o exercício do poder disciplinar. Com relação aos sujeitos a pesquisa traça e analisa o perfil
sócio-econômico e a procedência dos internos, ressaltando a condição predominante de pobreza e a
procedência rural da maioria dos internos. Sobre as condições de manutenção ou de sustentabilidade
do internato, são evidenciados e discutidos os bens e serviços ofertados aos internos: um espaço no
dormitório coletivo, o enxoval (“substituições padronizadas”), a alimentação e a assistência medico -
odontológica e os custos com a manutenção do internato. Sobre a organização espacial são destacados
os dormitórios coletivos que caracterizaram os estabelecimentos até meados da década de 1950. A
maior parte resultou de prédios herdados dos antigos patronatos agrícolas ou dos primeiros
aprendizados agrícolas, posteriormente reformados. A partir da segunda metade da década de 1950
teve início uma nova política de internamento que passava a combater a aglomeração de internos em
grandes dormitórios e apresentava como solução a implantação de “dormitórios-apartamentos”. Nesse
contexto os investimentos na reestruturação e ampliação dos internatos receberam um impulso
considerável com a construção de novos “pavilhões de alojamentos” em diversas escolas da rede
federal. Os espaços específicos dos internatos dos estabelecimentos de ensino agrícola, com relação à
disposição espacial, seguiram o tradicional padrão dos internatos. Eram providos basicamente de
dormitórios, coletivos de regra, refeitório, cozinha, instalações sanitárias, prédios para atividades sociais
(centro social e auditório). Finalmente, é discutida a conformação do indivíduo no microcosmo do
internato, estabelecendo uma compreensão do exercício do “poder disciplinar” no internato,
evidenciando as técnicas disciplinares de controle do espaço, do tempo e das atividades diárias dos
internos. Na análise do controle dos espaços específicos do internato, foi destacada a vigilância da
movimentação dos internos no edifício-internato. No controle do tempo, as diversas formas de
sinalização deste com os diversos “toques de corneta” e outros dispositivos de controle. São analisadas
as práticas de transgressões (os desvios) entendidas como “micropenalidades” em suas diversas
modalidades (tempo, atividade, maneira de ser, discursos, corpo e sexualidade) e as sanções, que
tiveram como objetivo normalizar os indivíduos aos propósitos da instituição.

“O FERRADURA”: A SOCIALIZAÇÃO INSTITUCIONAL VISTA PELOS ALUNOS DA ESCOLA MÉDIA DE


AGRICULTURA DE FLORESTAL (MG) - 1953
1 2 3
MILTON RAMON PIRES DE OLIVEIRA ; BRUNO GERALDO ALVES ; ANGELA MARIA GARCIA .
1,2.UNIVERSIDADE FEDERAL DE VIÇOSA, VICOSA - MG - BRASIL; 3.COLÉGIO DE APLICAÇÃO -
COLUNI/UFV, VIÇOSA - MG - BRASIL.

O foco do trabalho é o exame de modos de intercomunicação de sistemas simbólicos que enfatizam


formas de representação social sobre a vida numa escola em sistema de internato. Tomamos para

33
estudo documentos produzidos, em meados do século XX, por alunos da Escola Média de Agricultura de
Florestal - EMAF (Minas Gerais), tomando como ponto de partida um jornal iniciado no ano de 1953. No
levantamento documental para análise no projeto, deparamo-nos com o jornal, denominado “O
Ferradura”, o qual mantinha uma tiragem semanal, em seu primeiro ano. A perspectiva da história
cultural subsidiou o delineamento da metodologia, em atenção às demandas do objeto de pesquisa,
viabilizando a problematização das narrativas históricas a partir da percepção multifacetada da vida
social, em especial de esferas do cotidiano. O jornal “O Ferradura” foi valorizado porque se destaca
como eixo fundamental da orientação prática dos estudantes no reconhecimento da escola como
espaço não só de formação técnico profissional, mas também de convivência social. Sobressai nos
pequenos artigos e colunas sociais modelos de comportamento, de higiene e de conduta masculina
como dimensões necessárias ao disciplinamento institucional e portadoras de significados que dão
sentido à permanência na escola. A incorporação desses modelos e do sentimento de pertença à
“família emafiana” amenizam as dificuldades da vida longe dos familiares. Documentos como o referido
jornal permitem colocar em relevo um universo portador de representações culturais, gerador de
condutas sociais e produtor de identidades. A vida dos indivíduos que integram a instituição se
reorganiza em torno não somente da formação, mas também de um projeto de sociedade no qual ela
está inserida. Nos exemplares foi possível perceber como os participantes das edições conferem
significados à Escola como se fosse uma família e apresentam indícios de suas origens sociais. As seções
permanentes configuram-se como dimensão importante para entender os modos como eles
interpretam sua experiência no sistema de internato, a função social do periódico e as relações
estabelecidas com outras instituições sociais instaladas nas proximidades, tanto territoriais como de
parcerias. Por extensão, reinterpretam sua trajetória de vida e constroem uma visão idealizada da
escola e da profissão de técnico agrícola. Ressaltamos a escassez de estudos que acompanhem o
processo de socialização de alunos, em instituições como a destacada, do ponto de vista dos mesmos ou
de como os jovens aprendem a tornarem-se membros efetivos de uma instituição. Examinamos o
processo de interiorização de categorias sociais que determinam identificações coletivas, no âmbito
institucional de imaginários coletivamente construídos. Assim, consideramos que a importância deste
trabalho deriva não somente da raridade de estudos sobre a questão, mas também pela contribuição
que pode conferir à história de educação no Estado de Minas Gerais, quiçá
no Brasil.

884
A FAZENDA-ESCOLA DE FLORESTAL-MG: O ENSINO AGRÍCOLA E O PROJETO DE MODERNIZAÇÃO DO
CAMPO

BRUNO GERALDO ALVES; MILTON RAMON PIRES DE OLIVEIRA.


UNIVERSIDADE FEDERAL DE VIÇOSA, VICOSA - MG - BRASIL.

A pesquisa enfoca a trajetória da Fazenda-Escola de Florestal, em Minas Gerais, no período de 1939 a


1948. Objetivamos, na primeira fase da investigação, analisar as propostas e concepções sobre ensino
agrícola enquanto produto de políticas públicas imersas em um ideário específico de modernização, a
partir dos discursos presentes na inauguração da Fazenda-Escola de Florestal em 1939 e do projeto
fundador da instituição. Compreendendo a problemática que envolve a educação rural em Minas
Gerais, o foco da análise destacou os discursos presentes no evento de inauguração da instituição,
apontando para uma tentativa de alinhamento das expressões em torno do ensino agrícola a um projeto
maior de modernização, dimensionando agências e agentes presentes neste campo de forças, para
entender a própria concepção de educação rural que estava sendo redefinida. Buscamos compreeender
como os projetos e as disputas institucionais se relacionavam e delineavam as práticas pedagógicas a
serem desenvolvidas na instituição. Baseada na perspectiva da história cultural e de seus
desdobramentos, como a micro-história, delineamos a construção de uma metodologia que atendesse
às demandas apresentadas pelo objeto da pesquisa. No desenvolvimento do projeto analisamos fontes
escritas localizadas nos acervos da referida instituição e do Museu Histórico de Pará de Minas/MG,
problematizando a construção de narrativas históricas a partir da percepção multifacetada da vida social
e da incorporação de novos sujeitos, seus modos de viver, sentir e pensar em ambientes diversos na

34
esfera cotidiana. Na primeira fase a principal fonte utilizada foi um periódico da Secretaria da
Agricultura, Indústria, Comércio e Trabalho de Minas Gerais - a “Revista da Produção” - edição número
16, correspondente aos meses de maio e junho de 1939. Obra estruturada em 12 partes, sendo mais da
metade dedicada à inauguração da Fazenda-Escola, registrando a cerimônia e discursos proferidos.
Também é constituída de artigos direcionados à análise das ações do governo mineiro frente à
economia, enfatizando a agropecuária do Estado. Como resultado, destacamos que o projeto de criação
e atuação da Fazenda-Escola de Florestal foi concebido em padrões modelares, com o intuito de
incorporar a diversidade agropecuária existente em Minas Gerais, atendendo trabalhadores, capatazes e
administradores das fazendas com “cursos rápidos e práticos”. Buscava ainda aproximar os fazendeiros,
de diversas regiões do estado, das novas técnicas de produção desenvolvidas na Fazenda-Escola. Ao
concluirmos a primeira etapa da pesquisa, consideramos que o projeto da Fazenda-Escola de Florestal,
como delineado nos discursos de inauguração, articulava-se com o ideário de modernização do campo
esboçado para Minas Gerais no período de 1939 a 1948.
1001

ENTRE TRILHAS E VEREDAS: CONSTRUINDO HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DO COLÉGIO AGRÍCOLA DE


TERESINA

JULINETE VIEIRA CASTELO BRANCO.


UFPI, TERESINA - PI – BRASIL

Esse estudo é resultado de uma pesquisa de mestrado e procura construir as histórias e memórias do
Colégio Agrícola de Teresina (CAT), a partir do momento de criação da Escola Agrotécnica em 1954, até
sua incorporação à UFPI em 1976. A análise concentra-se em três etapas distintas e importantes nesse
período. A primeira trata da construção dos discursos de modernização do campo e da expectativa
acerca da criação da Escola Agrotécnica; a segunda refere-se ao início de funcionamento da instituição e
às dificuldades encontradas no grande projeto agrícola dos anos 60; a terceira, quando essa instituição
educativa é transferida para o Ministério da Educação, sendo incorporada à UFPI. Nesse sentido, o
recorte temporal apresenta duas décadas de efetivas mudanças na instituição escolar e na cidade de
Teresina. O estudo busca analisar o discurso agrário presente na imprensa, acerca da instalação do
colégio nos anos 50. Posteriormente, busca entrecruzar as falas que se constituíram memórias dos ex-
professores, alunos e funcionários sobre o CAT. A metodologia priorizou o uso da técnica de análise de
conteúdo para a interpretação das fontes documentais. Nesta etapa, foram realizadas pesquisas em
jornais, diários oficiais, mensagens, revistas; num segundo momento, a análise de documentos escolares
como fichas de matrículas, atas, diários, boletins, carteiras estudantis, históricos, além do uso da história
oral para a coleta de entrevistas com os 18 sujeitos da pesquisa. Como fundamento teórico empregou-
se a História Cultural a partir das concepções de Chartier (1990), Pesavento (2004), Le Goff (1996) e
Halbwacks (1990), com os novos objetos de análise histórica, onde encontramos as categorias de
representações, práticas, apropriações e memória. Os trabalhos de Nascimento (2004), Oliveira (2002),
Mendonça (1999) e Magalhães (2004) foram norteadores para a compreensão da história do ensino
agrícola no Brasil e das instituições escolares. Sendo assim, o estudo das práticas e representações
culturais muito contribuiu para um maior conhecimento das instituições educativas agrícolas. Portanto,
na tentativa de seguir construindo as histórias e memórias do Colégio Agrícola de Teresina, sob a ótica
dos discursos agrários piauienses, tornou-se possível compreender a importância desse símbolo escolar
para a revitalização dos discursos sobre a agricultura e a delimitação dos novos espaços campo e cidade.
Observou-se, ainda, que o projeto escolar agrícola estabeleceu teias de conexões com a modernização
industrial, com a cidade de Teresina e com o desenvolvimento econômico do Piauí. Por fim, por meio
das representações dos ex-alunos, professores e funcionários sobre o CAT, foi possível desvendar as
memórias construídas sobre o cotidiano escolar, o internato, o semi-internato, a transferência para a
UFPI, os conflitos, os valores, os tempos, os espaços e as vivências da instituição educativa agrícola.

35
HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO E INSTITUIÇÕES ESCOLARES: ALGUNS OLHARES
Coordenador: SAULOÉBER TARSIO DE SOUZA

895
INSTITUIÇÕES ESCOLARES E HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO NO BRASIL

SAULOÉBER TARSIO DE SOUZA.


UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA, ITUIUTABA - MG - CORÉIA.

A partir dos anos 90 do século passado, os estudos sobre instituições escolares se multiplicaram na
historiografia da educação brasileira, apresentando-se ainda hoje como tema de pesquisa relevante
entre os pesquisadores da área. A instituição escolar é espaço privilegiado de investigação das normas e
práticas que variam no espaço e no tempo ou coexistindo de formas diferentes, podendo ser estudada a
partir de variadas categorias como o contexto histórico de criação e fases de desenvolvimento da
escola; seu cotidiano (festas e rituais); o edifício escolar; os atores (alunos, professores e
administradores); os saberes e práticas (currículo, disciplinas, livros didáticos, métodos de ensino); as
normas disciplinares (regimentos e burocracia) e outros (NOSELLA, BUFFA, 2005). A partir de análise dos
resumos constantes dos anais dos eventos Congresso Luso-Brasileiro de História da Educação e o
Congresso Brasileiro de História da Educação (ambos realizados em 2008), buscamos demonstrar a
vitalidade dessa subárea do conhecimento, apontando algumas estatísticas importantes sobre a
pesquisa das instituições escolares, salientando, por exemplo, que os trabalhos apresentados têm certa
base temática comum, a partir da história de determinadas instituições escolares, focando arquitetura,
atores, métodos pedagógicos, práticas escolares e regulamentos, memórias etc. É preciso ressaltar que
no Congresso Luso-Brasileiro (Porto, Portugal) o eixo temático Instituições Educacionais e Cultura
Material Escolar contou com 114 comunicações coordenadas e individuais, representando 18,3% do
total dos 623 trabalhos inscritos. Já no Congresso Brasileiro de História da Educação nos eixos temáticos
1 (História da Profissão Docente e Instituições Escolares Formadoras) e 5 (Currículo, Disciplinas e
Instituições Escolares) foram inscritos 127 e 88 trabalhos respectivamente, de forma que representam
27,4% dos 783 trabalhos propostos; contudo, de acordo com a leitura dos resumos, entendemos que
apenas 118 deles enfocam determinado aspecto de uma instituição escolar ou grupo delas, assim, o
percentual seria de 15% do total dos trabalhos, um pouco abaixo das comunicações inscritas no Luso.
Esses números mostram uma grande diversificação dos temas, mas também a vitalidade da pesquisa
nesse campo que parece ainda estar longe de seu esgotamento. Contudo, é preciso ressaltar que é
ponto comum entre os pesquisadores da área, como em Saviani (2005), a necessidade de se articular o
geral e o específico nas pesquisas que têm como objeto a instituição escolar, afastando-se do engano de
se recortarem objetos de forma bastante particular e num plano de análise exclusivamente micro,
desconsiderando-se o contexto geral. Entendemos que investigar uma escola em seus diferentes
aspectos é uma das maneiras de se estudar a filosofia e a história da educação brasileira já que as
instituições escolares estão impregnadas de valores e idéias educacionais, além das marcas das políticas
educacionais.

907
A INSERÇÃO DOS GRUPOS ESCOLARES NO PROJETO DE MODERNIDADE: O CASO DO BRASIL NO
TRIÂNGULO DAS GERAES

ELIZABETH FARIAS DA SILVA.


UFSC, FLORIANOPOLIS - SC - BRASIL.

A proposta de enunciação na mesa redonda é corolária do Projeto de Pesquisa nominado


“Modernização e Educação Pública no Interior do Brasil. Estudo de caso no Triângulo Mineiro (1930-
1950)”, sob a coordenação da professora Dra. Betânia de Oliveira Laterza Ribeiro e aprovado pela
FAPEMIG em 2008. Na atualidade, a esfera da Educação é perpassada por temáticas como:
interculturalidade, relação de gênero, questão ambiental, a língua de sinais trabalhada como apenas
mais uma língua e não uma indicação de um estado de excepcionalidade. Tais temáticas indicam uma

36
crítica ao paradigma científico estabelecido e duas situações, aqui, propostas para análises. Primeiro a
concepção monocromática do projeto de Modernidade e em concomitância a avaliação crítica de
projetos globais -âmbito cultural- impondo-se e negando situações locais, transformando-as em
estranhas/tradicionais. O projeto de Modernidade aqui entendido está vinculado a um processo
produtivo determinado: o capitalista, mas está circunscrito (para fins analíticos) ao âmbito cultural,
junto aí, a Educação. O projeto de Modernidade emerge em áreas limitadas da Europa e impõe-se por
todo o planeta, de maneira fisicamente coercitiva, mas também de maneira imaginária e principalmente
simbólica. Uma teia simbólica entretecida alastrou-se. O locus é determinado mas a enunciação se quis
universal seja na variante socialista, liberal ou conservadora. Estas variantes desde o século XIX estão
em constante tensão e conflito seja latente, seja manifesta. Entretanto as três variantes possuem
pontos comuns no âmbito das aplicações de suas idéias e possibilidades. Os Grupos Escolares no Brasil
na sua origem inserem-se nesta tensão e conflito. Acolhem, agrupam pessoas em processo de
socialização secundária para com elas entretecer uma nova teia simbólica e imaginária sob o controle,
domínio e ordem do Estado. Na formalidade da Res pública. Os Grupos Escolares com suas inserções
não fazem retroalimentação. Impõem e ordenam o novo. Novos materiais escolares, novas ementas de
disciplinas baseadas no único saber reconhecido pela Modernidade, o científico. O Grupo Escolar de
forma mais expandida aumenta a clivagem entre cultura letrada e cultura popular, entre o moderno e o
agora considerado tradicional. Expulsa a “magia das coisas” e discute no “desencantamento do mundo”.
As coisas do local, diferentes tornam-se estranhas, exóticas. Ocorrem embates, emergem contradições.
E esta é a proposta especificamente: apontar e possibilitar compreensão de Grupos Escolares em
situações locais lidando com um projeto que se quis global.

1056
“ENSINAR A BEM VIVER”: LEITURAS INDICIÁRIAS ENVOLVENDO O GRUPO ESCOLAR E A VIVÊNCIA
DE UMA CERTA MODERNIDADE EM BARRETOS (1910/1930)

HUMBERTO PERINELLI NETO.


UNESP/CEUBM, SÃO JOSÉ DO RIO PRETO - SP - BRASIL.

Na aurora do século XX, Barretos era uma cidade em crescimento, tendo em vista a expansão do
comércio de gado no Centro-Sul brasileiro e, por conta desta economia, o fato da cidade ser elevada à
condição de capital do gado. Todavia, marcas de sua formação e características de sua economia não
foram apagadas pela modernização corrente, muito pelo contrário, elas foram aprofundadas nesse
processo. As diferenças existentes entre “Centro” e “Outro Mundo” – áreas que formavam a cidade -
foram ampliadas, à medida que a primeira cada vez mais recebia atenção do poder público (graças a
reforça da praça central, calçamento das ruas, instalação de luz elétrica, entre outras melhorias) e
investimentos privados (como a construção das casas e estabelecimentos comerciais), enquanto na
segunda ocorria um aumento da área do meretrício (tendo em vista o fluxo maior de boiadeiros, peões
e outros que se dirigiam para Barretos) e uma espécie de “guetização”. Neste contexto, vários colégios
privados foram instalados nesta cidade, mas o fluxo de inaugurações e fechamentos destes
estabelecimentos faz pensar na ausência de um público capaz de arcar com os custos do ensino ou que
nele atribuíssem importância. É notória em várias matérias publicadas nos jornais barretenses da
década de 1900 a organização de uma verdadeira campanha pela valorização da educação. No entanto,
a primeira escola de funcionamento mais efetivo em Barretos foi inaugurada em 1910: trata-se do
Grupo Escolar. Estava situado ao lado da praça central desta cidade e era dotado de uma arquitetura
moderna. O edifício era caracterizado pela predominância do estilo eclético com predominância do
neoclássico (ênfase no corpo principal). A acentuada presença de janelas expressava a influência do
ideário higienista, pois tal recurso facilitava a circulação de ar. Os muros e gradis revelavam a
preocupação por parte do construtor em definir claramente o que era espaço público e o que era
espaço privado. A bandeira nacional posicionada na parte central visava garantir lições de civismo aos
futuros cidadãos e cidadãs. Concluiu-se, portanto, se tratar de um claro emblema de civilidade, tanto
aos pequenos que abrigava quanto aos que avistavam tal prédio do lado de fora. Diante disso é possível
afirmar que era muito diferente o contexto que marcava a instalação do Grupo Escolar, em 1910. Ate
então, a maior parte das famílias era chefiada por lavradores, conforme é possível reconhecer na lista

37
de eleitores de 1890. O crescimento e a diversificação social registrados em Barretos desde então
haviam modificado brutalmente essa situação. Com base na leitura indiciária dos livros de matrículas
dos alunos compreendendo o período entre 1910 e 1930, buscou-se nesta pesquisa compreender a
relação existente entre educação, modernidade e cultura política numa cidade marcada pela
ambivalência arcaico/moderno. Trata-se de trabalho em andamento.

901
GRUPO ESCOLAR JOÃO PINHEIRO NA CENA URBANA: DO ARRANJO MAJESTOSO AO MOVIMENTO DA
LEGIÃO NEGRA NA IMPLEMENTAÇÃO DA ESCOLA 13 DE MAIO

BETANIA OLIVEIRA LATERZA RIBEIRO.


UFU, ITUIUTABA - MG - BRASIL.

A instrução pública primária no interior das Geraes teve origem nos primórdios da República, com a
inauguração dos três primeiros grupos escolares do Triângulo Mineiro, por volta de 1908. Entre eles, o
de Villa Platina, então nome do atual município de Ituiutaba. O objetivo dessa comunicação é
apresentar questões relativas ao Grupo Escolar João Pinheiro, circunscrevendo uma análise histórico-
crítica dos primórdios dessa instituição escolar. A concretização do primeiro grupo escolar em Villa
Platina deu-se no início do século XX, no contexto da organização da República, quando ocorreram as
tomadas de providência no sentido de promover a racionalização administrativa do Estado brasileiro.
Nesse momento, havia duas preocupações em Minas Gerais: a consolidação do regime republicano e a
necessidade de transformação da realidade educacional, envolvendo desde a precariedade do espaço
físico escolar até o elevado índice de analfabetismo. Além da formação de força de trabalho, havia a
preocupação de controlar o eleitorado, pois ao contrário do período imperial, foi estabelecido na
primeira Constituição Republicana o voto somente para alfabetizados. Segundo a “Gazeta de Uberaba”,
Villa Platina é descrita como uma “próspera localidade do Triângulo Mineiro”. A construção de edifícios
específicos para grupos escolares foi uma preocupação das administrações dos Estados, que tinham no
urbano o espaço privilegiado para sua edificação, em especial, nas capitais e cidades economicamente
prósperas, como o município de Villa Platina. O majestoso edifício desse grupo escolar tinha como
proposta tornar visível o ideal republicano, sendo imponente na urbe, numa materialização dos valores
e modo de vida da elite local. O arranjo elitista, desta escola, bifurca-se na década de 1930, com a
iniciativa de “homens de cor”, na criação da escola “13 de maio”, nome alterado em 1940 para “Escola
Municipal Machado de Assis”. Os descendentes de escravos africanos utilizavam o prédio do antigo
Grupo Escolar de Villa Platina na calada da noite. Trabalhadores da construção civil, empregadas
domésticas desenhavam o perfil dos discentes, de acordo com os depoimentos de ex-alunos. Assim,
corpos e mentes moldados no lugar/espaço da escola recebiam esperanças de adentrar em “um novo
mundo”, no entanto, alguns desistiam dos estudos, em decorrência do cansaço resultante de longas
jornadas de trabalho. A análise crítica da pesquisa e os resultados permitem concluir que devido ao
desinteresse do poder público no que tange ao investimento em educação, até a década de 1950 nesse
município, deteriorou o ensino público em contraste com o privado. Nessa perspectiva, o majestoso
palácio republicano paradoxalmente tem sua derrocada promovida pela mesma fonte de sua criação, o
Estado Brasileiro.

1114
O PROCESSO DE EXPANSÃO DO ENSINO SUPERIOR NO INTERIOR DO ESTADO DE SÃO PAULO NAS
DÉCADAS DE 50 E 60: O CASO DA FACULDADE DE FILOSOFIA, CIÊNCIAS E LETRAS DE SÃO JOSÉ DO RIO
PRETO

SILVANA FERNANDES LOPES.


UNESP, SAO JOSE DO RIO PRETO - SP - BRASIL.

A cidade de São José do Rio Preto (SP) exerce um papel de polo socioeconômico regional que vem se
constituindo desde sua fundação, em meados do século XIX. O desenvolvimento desse papel foi

38
impulsionado pela expansão da malha ferroviária em direção ao interior paulista, criando as condições
para que a cidade fosse se tornando um centro comercial no âmbito da região noroeste e esta região,
em meados da década de 1930, já respondia por uma média de 14% da produção agrícola e 20% da
criação bovina do estado. O crescente desenvolvimento econômico de São José do Rio Preto
impulsionou a ampliação tanto das atividades terciárias quanto das atividades rurais subordinadas à
indústria e na década de 50, período no qual a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras foi criada, a
cidade já contava com uma população predominantemente urbana. Diante desse quadro de
desenvolvimento, as condições eram favoráveis para a criação de uma instituição de ensino superior em
São José do Rio Preto. Proposta em 1955 e oficializada como faculdade municipal em 1957, vale
destacar que a criação desta Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) não foi uma iniciativa
isolada. O ensino superior vinha crescendo desde o período imperial, porém nas décadas de 50 e 60
essa expansão sofreu um processo de maior aceleração em função das condições socioeconômicas já
mencionadas e da forte pressão exercida pelas camadas médias. Dentro desse quadro, a fundação dos
Institutos Isolados de Ensino foi uma das estratégias da política educacional para atender de alguma
maneira tanto as necessidades de desenvolvimento econômico quanto os anseios dessas camadas
médias em busca de ascensão social via título superior. Nesse sentido, é só a partir dessa perspectiva
geral que se torna possível compreender essa faculdade em particular. Esta pesquisa, então, busca
delinear alguns traços particulares dessa FFCL no conjunto dos Institutos Isolados de Ensino do período
estudado. Para tal, estão sendo utilizados como fontes principais os documentos de criação da
faculdade, as atas dos departamentos e alguns artigos de jornais locais por meio dos quais é possível
vislumbrar indícios de um diálogo entre diversas vozes sociais, muitas vezes conflitantes, em relação à
FFCL. Por último, cabe ressaltar que se trata de um estudo em andamento, inserido numa temática mais
ampla, visando uma reconstrução da história dessa instituição. Essa temática está sendo desenvolvida
pelo Grupo de Pesquisa “História e Política Educacional Brasileira”.

DESENHOS A MÃO LIVRE: UMA ANÁLISE DA HISTÓRIA DAS INSTITUIÇÕES ESCOLARES


Coordenador: DAYSE MARTINS HORA

900
A ESCOLA-LABORATÓRIO DO PROJETO ESCOLANOVISTA E A MEDICALIZAÇÃO NA FORMAÇÃO DE
PROFESSORES

DAYSE MARTINS HORA.


UNIRIO, RIO DE JANEIRO - RJ - BRASIL.

A medicalização das instituições sociais tem grande lastro de pesquisa nas ciências sociais, sendo objeto
de análises fecundas. Mas, ainda, identificamos como uma necessidade sua maior utilização na
educação. A pedagogia se recorre pouco do papel histórico do saber-poder médico na constituição
política brasileira, como estratégia de hegemonia e seus desdobramentos na construção do
conhecimento escolar e na formação de professores. Neste trabalho, estamos considerando a
medicalização como o processo pelo qual o modo de vida dos homens é normalizado pela medicina,
interferindo na construção de conceitos, regras de higiene, normas de moral, costumes e
comportamentos sociais. Tomamos por referência as práticas do Instituto de Educação do Rio de
Janeiro, pelo papel histórico que essa instituição representou como locus de uma prática pedagógica
renovada. Objetivamos discutir como a racionalidade médica se impôs a partir da colaboração médico-
pedagógica justificando a medicalização do currículo da formação de professores primários. Utilizamos
por recurso metodológico, a análise dos currículos no período que abrange as reformas de Fernando de
Azevedo e Anísio Teixeira (1927-1937) e as fontes secundárias que discutem sobre a prática assumida à
partir do currículo escrito que se apresenta a cada nova legislação. Desde o final do século XIX os
conteúdos biomédicos já se encontravam presentes de forma vasta e complexa. A Higiene englobava
conteúdos de Puericultura, Higiene escolar e cuidados médicos; a Anatomia e Fisiologia Humanas
exigiam o rigor dos cursos de medicina. Mas a seleção e organização desses conteúdos em função de

39
construir um conhecimento científico do indivíduo só começaram a se configurar com a reforma de
1927, se ampliando a idéia com a transformação da antiga Escola Normal em Instituto de Educação. A
formação do professor primário no Rio de Janeiro teve profundas marcas nas práticas desenvolvidas no
Instituto de Educação; escola-laboratório – do projeto escolanovista, instrumento na construção de uma
“ciência da educação”. Discutimos a racionalidade médica como suporte na construção de atitudes e
práticas necessárias ao professor para esse contexto, ou seja, como o saber-poder médico esteve
presente na constituição dos currículos de professores, apresentando-se como fundamentação do
pensamento curricular na época. Argumentamos, ao final, que a expansão e organização curricular
quanto aos aspectos medicalizantes coincide com o processo histórico de constituir a escola como
instituição intrinsecamente disciplinar e o processo em que se define a modernidade como sociedade da
escolarização.

902
O INSTITUTO DE EDUCAÇÃO E OS EMBATES NA FORMAÇÃO DO PROFESSOR: UM MOMENTO NA
HISTÓRIA DA INSTITUIÇÃO ESCOLAR

LIÉTE OLIVEIRA ACCACIO.


UENF, NITEROI - RJ - BRASIL.

O texto apresenta alguns aspectos da consolidação da Escola Normal situada na cidade do Rio de
Janeiro, sua transformação em Instituto de Educação, em 1932 e incorporação, em 1935, como uma das
unidades constitutivas da Universidade do Distrito Federal (UDF). Refere-se à subtema já estudado, de
pesquisa em andamento, coordenada pela autora, da formação de professores no Estado do Rio de
Janeiro. A organização dessa instituição educacional, em seus aspectos físicos, administrativos e
curriculares representa, em sua época, um avanço no panorama da educação brasileira, trazendo novos
sentimentos frente à escola, que assume espaços próprios. Observa-se que essas transformações
desencadearam embates nas esferas política e pedagógica, envolvendo governantes e educadores, que,
por sua vez, levaram a mudanças no panorama da educação local com reflexos nacionais. Assim,
objetiva-se, neste texto, analisar um dos momentos históricos da formação de professores no Rio de
Janeiro, quando, estando Getúlio Vargas à frente do governo federal, há interferências na educação por
meio de diretrizes normativas. Indicam-se aspectos da colaboração e desentendimento de Anísio
Teixeira e Lourenço Filho em relação à política desenvolvida nessa instituição com a criação, em 1935 e
extinção, em 1939, da Universidade do Distrito Federal (UDF). Como uma das unidades da UDF o
Instituto de Educação forma professores em nível superior e se incorpora integralmente a essa
universidade por sua Escola de Professores que passa a denominar-se Escola de Educação. O educador
Anísio Teixeira ampara-se na legislação federal para viabilizar a UDF, mas Gustavo Capanema, Ministro
de Vargas, considera que a universidade não se coaduna aos padrões e regulamentos federais. O Rio de
Janeiro sofre, no período, reflexos da crise político-social que se avoluma e setores conservadores
desfecham contra a UDF campanha difamatória com acusações perpassando dimensões administrativas
e ideológicas, sendo a universidade considerada desnecessária. Nota-se, ainda, que a instituição
formadora desempenha papel relevante no sentido da profissionalização do educador, assim como na
constituição da escola de formação docente como instrumento de mudança do ensino e de
transformação das ações na formação de professores. A metodologia baseia-se na reflexão histórica,
utilizando pesquisa bibliográfica e análise documental de fontes primárias, como legislação, programas,
atos oficiais, regimentos, históricos e diplomas do acervo da própria instituição pesquisada, além de
depoimentos de antigos alunos.

40
903
A ESCOLA NORMAL DA CAPITAL EM MINAS GERAIS NO INÍCIO DO SÉCULO XX

RITA DE CÁSSIA OLIVEIRA FERREIRA.


UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS (UFMG), BELO HORIZONTE - MG BRASIL.
O objetivo desta comunicação é analisar o processo de criação e de institucionalização da Escola Normal
da Capital. Assim, procuramos apresentar a organização administrativa e pedagógica, o corpo docente,
os programas de ensino, os espaços e tempos escolares, e as principais atribuições postas à
Congregação dessa escola normal. A Escola Normal da Capital foi instalada no início de 1907, na recém-
inaugurada cidade de Belo Horizonte, capital do estado de Minas Gerais, acompanhando o conjunto da
reforma do ensino de 1906. O momento de instalação desta escola normal foi de intensas mudanças e
acontecimentos no campo educacional, destaca-se entre outras a formulação de uma proposta de
formação de professores fundamentada por uma concepção de educação escolar integrada aos debates
republicanos e civilizadores. Na capital Belo Horizonte esperava-se, através da escola e da atuação do
professor primário, a difusão do ideário de urbanização e civilização da população. Junto a isso, a
proposta para a criação da Escola Normal da Capital se desenvolveu em consonância com o debate
sobre a formação dos professores da época, que circulavam em outros estados brasileiros. Este trabalho
teve como principal suporte teórico-metodológico as reflexões e estudos dos autores que versam sobre
a história das instituições escolares, tais como Décio Gatti Júnior e Justino Magalhães. Em nossa análise
foram discutidas as seguintes categorias: espaços e tempos escolares, currículo e os sujeitos presentes
na trama que organiza a instituição. Para discutir a organização administrativa e pedagógica desta
escola, utilizamos o conceito de figuração, de Norbert Elias que permite problematizar as redes de
interdependências dos sujeitos, como também as tensões presentes e específicas sobre o ensino normal
encontradas nesta instituição. Tal discussão se faz a partir da interrogação de fontes documentais
diferenciadas tais como legislações educacionais, relatórios e mensagens de governo e documentação
específica da Escola Normal da Capital encontrada nos arquivos do Instituto de Educação (edifício onde
funcionou a escola normal), e no Arquivo Público Mineiro. Concluiu-se que a criação da Escola Normal
da Capital buscou superar o modelo de formação dos professores encontrados no período imperial, e
que seu órgão deliberativo, a Congregação foi um avanço em relação aos modos de decisões político-
pedagógicas anteriores por incorporar os professores da escola nas discussões e deliberações relativas
ao funcionamento da instituição. Observa-se, contudo, que o processo de instalação da Escola Normal
da Capital não se fez sem tensões. Embates e contradições permearam tanto o ideário e as expectativas
postas à própria formação docente, quanto ao funcionamento da Escola Normal da Capital.

904
TENHA PIEDADE DE NÓS: UMA ANÁLISE DA EDUCAÇÃO FEMININA DO EDUCANDÁRIO NOSSA
SENHORA DA PIEDADE EM PARAÍBA DO SUL, 1925-1930.

ALEXANDRE RIBEIRO NETO.


SECRETARIA DE EDUCAÇÃO E CULTURA DE PARAÍBA DO SUL, PARAIBA DO SUL - RJ - BRASIL.

Pretendemos em nossa comunicação analisar a história das instituições escolares católicas, destinadas a
educar e abrigar meninas desvalidas na Primeira República. Adotamos como marco cronológico inicial o
ano de 1925, para acompanhar a criação da Escola Municipal Condessa do Rio Novo, criada no interior
do Educandário Nossa Senhora da Piedade. E final o ano de 1930. Pensamos também em estabelecer
um período de cinco anos, para dar conta de uma pesquisa, com variadas ramificações, tais como:
questões de gênero, pensamento educacional católico, as relações entre o público e privado,
materializadas na construção de uma escola pública em um prédio privado católico. Quando
começamos a seguir os indícios encontrados nos documentos, encontramos uma ligação entre os
políticos que faziam parte da Câmara de Municipal de Paraíba do Sul e os membros da Mesa
Administrativa da Irmandade Nossa Senhora da Piedade, que administra a instituição pesquisada,
demonstrando uma velha prática, o vínculo entre a Igreja e o Estado. Para entendermos essa
interlocução, dialogamos com Arendt (2007) tencionando compreender os frágeis fios que une o publico
ao privado, sem perder de vista as especificidades da História da Educação. Hunt (2009) e Perrot (2005)
analisam a esfera publica e privada sob outra perspectiva, questionando a presença das mulheres nos

41
espaços privados, e dos homens nos espaços públicos. Nos são caras as reflexões de Chornobai (2005),
na qual a autora analise as praticas educativas e a arquitetura do espaço escolar católico, destinado a
educar meninas no Paraná. Não poderíamos esquecer-nos de convidar para o debate historiográfico
Fernandes (2007), que enriquece nosso estudo ano se debruçar sobre instituições portuguesas, cujo
objetivo também e educar a infância desvalida. O corpus documental é composto pelo Testamento da
Condessa do Rio Novo, os Relatórios de Compromisso, redigidos pelo provedor Randolpho Penna Júnior,
as Atas da Câmara Municipal de Paraíba do Sul, e o jornal O Arealense. O Educandário Nossa Senhora da
Piedade foi fundado em 1884, como cumprimento das vontades póstumas de Mariana Claudina Pereira
de Carvalho, a Condessa do Rio Novo. Ele ainda é administrado pela Irmandade Nossa Senhora da
Piedade e contava com o auxílio das Irmãs de São Vicente de Paula. Nosso trabalho se constitui num
estudo de caso, no qual adotamos como aporte teórico-metodológico o Paradigma Indiciário proposto
por Guinzburg (1989), pois através dos indícios deixados pelos homens e mulheres do passado,
tencionamos unir os fios do tecido social, que se encontra fragmentado, por diversos fatores, entre eles
o incêndio, que ocorreu no ano de 1955, que destruiu grande parte dos documentos da instituição,
como também seu belo prédio. Entendemos que esse estudo contribui para o preenchimento de uma
lacuna sobre a história das instituições escolares no estado do Rio de Janeiro.

929
HISTÓRIA DAS INSTITUIÇÕES ESCOLARES: UM BALANÇO A PARTIR DOS CONGRESSOS LUSO-
BRASILEIROS DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO

MAURO CASTILHO GONÇALVES.


PUC-SP/UNITAU-SP, TAUBATE - SP – BRASIL
.
A presente comunicação analisa a grande incidência, no Brasil, desde as últimas décadas, de pesquisas
que trataram do tema História das Instituições Escolares. A partir do exame dos trabalhos apresentados
nos Congressos Luso-Brasileiros de História da Educação (CLBHE) que versaram sobre essa temática,
foram mapeados e discutidos os aportes teóricos e metodológicos usados e as perspectivas adotadas
pelas pesquisas. Os CLBHE foram examinados, pois se consolidaram como eventos que iniciaram e
ampliaram o debate entre pesquisadores brasileiros e portugueses no campo da História da Educação e,
mais especificamente, na investigação de histórias de instituições escolares. Oito congressos já foram
realizados no Brasil e em Portugal. Neles foram divulgadas e debatidas pesquisas, dentre as quais,
muitas delas, se debruçaram sobre o itinerário e características de instituições escolares ou educativas.
Nesse sentido, um balanço histórico e historiográfico faz-se necessário, na tentativa de apontar quais
modelos interpretativos se tornaram hegemônicos e de que forma as relações teóricas entre os dois
países foram estabelecidas a partir da organização dos referidos eventos, ou ainda discutir se, as
pesquisas divulgadas nos eventos, produziram um conhecimento específico sobre a temática em tela.
Do ponto de vista da organização metodológica da presente comunicação, partiu-se dos seguintes
pressupostos: incidência de temas e títulos cadastrados nos eixos relacionados ao assunto, abordagem
teórica dos estudos e filiação institucional dos pesquisadores. A partir dessas categorias analíticas,
utilizou-se das máximas e instrumentais da análise de conteúdo como aporte metodológico de
verificação empírica e analítica. Quanto à escolha dos CLBHE, vale ressaltar que, a partir deles, os
estudos relacionados à história das instituições cresceram significativamente no Brasil, especialmente
considerando o alto número de trabalhos defendidos no âmbito dos programas de pós-graduação em
Educação. No que se refere a presente comunicação, cabe afirmar que, os estudos referentes à história
das instituições escolares, divulgados nos e pelos CLBHE, concentraram-se em analisar a escola como
objeto de estudo, privilegiando temas relacionados à arquitetura, ao currículo, à formação de
professores, ao material didático, às regras disciplinares, à organização do tempo, dentre outras
questões conexas, demonstrando uma ênfase nos aspectos internos das instituições educativas. Posto
isso, cabem, portanto, algumas problematizações: os CLBHE evidenciaram um modelo interpretativo
próprio acerca da história das instituições escolares? Os trabalhos divulgados constituíram, na área,
elementos nevrálgicos de divulgação e debate de escolas historiográficas diversas e conflitantes? Quais
razões explicam a ênfase em temas e objetos de estudo relacionados às questões internas das
instituições? São perguntas que a presente comunicação pretende debater.

42
EIXO 3 - HISTÓRIA DAS CULTURAS E DISCIPLINAS ESCOLARES

CULTURA MATEMÁTICA NO BRASIL OITOCENTISTA


Coordenador: CIRCE MARY SILVA DA SILVA

891
LIVROS DIDÁTICOS DE MATEMÁTICA NA ACADEMIA REAL MILITAR DO BRASIL OITOCENTISTA

CIRCE MARY SILVA DA SILVA.


UFES, VITÓRIA - ES - BRASIL.

Analisa-se numa perspectiva da história cultural o papel desempenhado pelos livros didáticos de
matemática no ensino da Academia Militar do Rio de Janeiro, desde sua criação em 1810 até 1822. A
partir da análise documental de fontes, como jornais da época, Carta Régia de criação da Academia
Militar, ofícios, programas, atas e livros, procura-se indícios sobre o ensino de matemática ministrado na
Academia, bem como as polêmicas em torno dos livros recomendados. Na investigação em andamento,
é possível constatar-se que, nesse período, existiu um forte controle do governo do Brasil na indicação e
adoção de livros didáticos para uso nessa Academia. Destaca-se a importância da Impressão Régia,
primeira editora do Brasil colonial, bem como o papel dos primeiros tradutores que atuaram como uma
ponte entre a cultura matemática européia e o saber escolar necessário a formação de militares e
engenheiros. Uma análise do papel exercido pelos livros didáticos no curso acadêmico da Academia Real
Militar do Rio de Janeiro, já permite apontar alguns traços sobre a educação matemática desenvolvida
nessa instituição de ensino: o tipo de formação básica recebida pelos futuros militares e profissionais da
engenharia assemelhava-se mais ao modelo francês do que ao português, os livros traduzidos era tarefa
dos próprios docentes, havia uma falta de autonomia dos docentes na escolha de livros, indicados na
Carta de Leite, a incipiente editoração no país e o alto custo dos “compêndios” geravam dificuldades
financeiras ao corpo docente e discente para a aquisição dos mesmos. A semelhança do ocorrido na
França, também no Brasil, pouco a pouco o monopólio dos livros de Sylvestre Lacroix se estabeleceu e
ocupou, por décadas, o status oficial, tanto suas obras originais em francês, como as traduções em
português. Isso se deve em grande parte à centralização governamental que tinha o controle sobre a
indicação dos livros na Academia Militar conforme revelaram os documentos. Aliado a isso sabemos que
livros são instrumentos de poder. No caso analisado, o poder estava não apenas na mão do imperador,
mas também dos docentes da junta da Academia. A história da disciplina matemática no contexto da
Academia Militar revela que a qualidade do ensino desta estava condicionada ao acerto na escolha dos
livros didáticos. O foco especial de nosso estudo reside na análise daqueles livros, tanto as traduções de
autores estrangeiros quanto as produções nacionais, destinados ao ensino aprendizagem da
matemática que serviram de matriz para a formação das primeiras gerações de professores de
matemática no País.

1163
A MATEMÁTICA NA FORMAÇÃO DO PROFESSOR PRIMÁRIO NO SÉCULO XIX: PERMANÊNCIAS E
MUDANÇAS

WAGNER RODRIGUES VALENTE.


UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO, SANTOS - SP - BRASIL.

A comunicação tem por objetivo analisar a presença da Matemática na formação de professorandos da


Escola Normal de São Paulo, a partir de sua segunda fundação (1875) até a chegada das propostas
republicanas ancoradas no ensino intuitivo (1890). A análise da formação matemática dos normalistas –
foco deste estudo - presente na Escola Normal de São Paulo, nos anos 1870, revela que não se
estabelece, de pronto, um novo modo de ensinar matemática aos professorandos. Não há uma
formação, uma prática pedagógica diferenciada para os futuros mestres dos alunos do curso primário.
Trata-se de garantir uma paridade com aquilo que está presente nos liceus, no curso secundário. As
mudanças e diferenças do que se vai ensinar aos normalistas, no caso de matemática, estão ligadas aos

43
conteúdos de ensino. A restrição da formação matemática para o futuro professor primário é dada pela
presença, somente, de aulas de Aritmética e elementos do Sistema Métrico Decimal, sem que haja
nenhuma iniciação em Geometria e Álgebra, os demais ramos matemáticos dos cursos secundários. No
caso da Aritmética os conteúdos de ensino limitam-se à programação do primeiro ano do curso que é
dado nos liceus. De outra parte, com a chegada da República, os reformadores do ensino paulista
colocam na pauta de suas propostas a formação de professores da escola pública. Elas têm como
alicerce a adoção do método intuitivo no trabalho pedagógico da escola graduada. Até então, por
exemplo, a Aritmética constitui um saber, cujas referências para ensino estão postas em alguns livros
(compêndios e manuais). A escola graduada precisa que o ensino de matemática seja dosado para os
diferentes anos escolares. A graduação do ensino coloca no centro dos debates a preocupação
metodológica. A fórmula para resolver a questão de como orientar o ensino graduado vem de
experiências em desenvolvimento nas escolas particulares. De caráter inovador, tais escolas orientam os
reformadores paulistas da instrução pública em suas propostas para o ensino primário e para a
formação de professores para esse nível escolar. Assim, passam a constituir referência para os
intelectuais que projetam mudanças para o ensino paulista, a partir da Escola-Modelo. A análise desse
trajeto da Matemática na formação do professor de primeiras letras constitui resultado parcial de
projeto de pesquisa financiado pela FAPESP intitulado “A educação matemática na escola de primeiras
letras, 1850-1950”. Utiliza-se como fontes de pesquisa provas e exames localizados no Arquivo do
Estado de SP, a legislação paulista para o ensino normal e livros didáticos de matemática. Consideram-se
os aportes teóricos e metodológicos da História Cultural.

899
O CÁLCULO DIFERENCIAL E INTEGRAL NA FORMAÇÃO DE ESTUDANTES DA ACADEMIA REAL MILITAR

LIGIA ARANTES SAD.


UFES, VITÓRIA - ES - BRASIL.

Esta comunicação tem como contexto mais abrangente as primeiras décadas da educação oferecida
pela Academia Real Militar, porém com objetivo específico de analisar alguns aspectos do ensino de
Cálculo Diferencial e Integral na formação de estudantes desta instituição. Metodologicamente, com as
investigações bibliográficas e documentais empreendidas, houve exame dos registros relativos aos livros
didáticos de matemática utilizados pelos lentes (professores) e estudantes, bem como dos rastros
fragmentados em documentos do Arquivo Nacional, da Biblioteca Nacional e de trabalhos de pesquisa já
realizados. Observa-se neste texto que desde a criação da Academia Real Militar, inclusive pela Carta
Régia de 4 de dezembro de 1810, os livros didáticos e de consulta científica eram estrangeiros e
predominantemente franceses, sendo que no campo de conhecimentos matemáticos, necessários ao
cálculo diferencial e integral, tem-se a presença mais citada de obras dos autores: Sylvestre F. Lacroix,
Leonhard Euler e Adrien-Marie Legendre. Na análise destas obras utiliza-se uma matriz epistemológica,
exemplificando a partir de algumas noções centrais ao desenvolvimento do Cálculo. Discute-se, assim, a
forte presença nestas obras das vicissitudes advindas de transições epistemológicas transcorridas no
desenvolvimento dessas noções. Especial destaque é atribuído às críticas relativas aos métodos
utilizados e a outros aspectos idiossincráticos relacionados ao Cálculo, os quais foram “garimpados” em
meio aos achados especiais de algumas notas de aula feitas por estudantes da Academia Real Militar.
Nestas notas pode-se observar, por exemplo, referências ao tratamento didático no ensino dos objetos
do Cálculo, com poucas indicações das obras teóricas adotadas, embora com marcada presença de
aplicações a problemas matemáticos e de outras ciências. A intenção maior com esse olhar micro ou
localizado é trazer para as discussões o importante lado do receptor (aluno ou professor) a respeito da
utilização das obras didáticas, pinçadas das representações desses poucos mas significativos registros;
uma vez que tem-se a existência de muito mais informações quanto ao outro lado – dos produtores
(autores renomados). Assim, com o aflorar dessas reflexões e críticas relacionadas ao cálculo diferencial
e integral, presentes na educação desses participantes ativos da Academia Real Militar, pode-se tecer
considerações analíticas e abrir outras possibilidades de entendimento não somente da história do
Cálculo Diferencial e Integral, mas também da educação de profissionais da área de exatas que ainda
hoje integram essa relevante parte da matemática em seus currículos.
1089

44
DIFUSÃO DE MATERIAIS PARA O ENSINO PRIMÁRIO DA ARITMÉTICA

LUIZ CARLOS PAIS.


UFMS, CAMPO GRANDE - MS - BRASIL.

Este artigo aborda a temática da cultura material escolar no campo da história da educação matemática
e pretende, mais especificamente, destacar o movimento de difusão de objetos materiais de natureza
não impressa, também chamada aparelhos de ensino, indicados para o ensino primário da aritmética no
contexto da Primeira Exposição Pedagógica do Rio de Janeiro, realizada nos idos de 1883. Os materiais
divulgados nessa exposição visavam proporcionar meios concretos para implantar procedimentos
didáticos compatíveis com as orientações do método de ensino intuitivo. As fontes utilizadas para a
realização do estudo descrito neste artigo foram constituídas por relatórios elaborados por diretores da
instrução pública e por ministros encarregados da instrução pública; regimentos prescritos para as
escolas primárias; manuais pedagógicos escritos para orientar as práticas dos professores, bem como
livros escolares que trazem informações sobre o tema. O referencial teórico adotado foi conduzido com
base nos conceitos articulados de cultura e disciplina escolares, na linha proposta por André Chervel e
compartilhada por outros autores que seguem a mesma corrente de pensamento histórico. Foram
também usados os conceitos de estratégias e táticas propostos por Michel de Certeau e de apropriação,
no sentido definido por Roger Chartier. Foi possível constatar que os desafios da educação matemática,
nos últimos anos do período imperial brasileiro, estão associados à tentativa de modernização das
práticas de ensino, através do método intuitivo, articulando conteúdos tradicionais com a valorização de
aspectos experimentais. Foram difundidos objetos de ensino produzidos e divulgados por empresas
européias e muitos deles circularam por escolas primárias brasileiras bem pela Escola Normal de Niterói.
A realização do estudo permitiu ainda compreender que os primeiros sinais da expansão de oferta de
educação escolar coincidem com o momento de difusão do método intuitivo, dando origem a um
discurso inovador em relação às práticas tradicionais. No que se refere ao domínio da educação
matemática as novas propostas foram acompanhadas pela indicação do uso pedagógico de objetos
concebidos especificamente para o ensino da aritmética, bem como das outras matérias constituintes
das chamadas matemáticas elementares. A compreensão desse momento histórico do ensino da
matemática revela a importância da temática da cultura material da escola, abrangendo as fases da
concepção, difusão e apropriação desses recursos didáticos do passado.

975
UMA ANÁLISE PRELIMINAR DO INVENTÁRIO DOS DOCUMENTOS DA COLEÇÃO BRUNELLI DA
BIBLIOTECA NACIONAL DO RIO DE JANEIRO

IRAN ABREU MENDES.


UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE, NATAL - RN – BRASIL

Neste artigo faço uma análise preliminar do inventário documental da Coleção Brunelli da Biblioteca
Nacional do Rio de Janeiro. Trata-se do acervo anteriormente pertencente a João Angelo Brunelli, padre,
astrônomo e matemático nascido em Bolonha (Itália), em 22 de janeiro de 1722. O referido padre
exerceu o cargo de professor de Aritmética e Geometria na Academia Real da Marinha de Portugal e foi
nomeado por D. José I professor de Filosofia e Matemática na Escola Superior Governativa de Lisboa.
Fez parte da comissão demarcadora de limites territoriais das terras portuguesas na parte setentrional
da América do Sul (Amazônia Brasileira) na segunda metade do século XVIII e após deixar a comissão
demarcadora de limites, voltou para Lisboa, onde assumiu o cargo de professor do Colégio dos Nobres.
Faleceu em 25 de fevereiro de 1804. Alguns anos após seu falecimento, seus livros, documentos,
correspondências e apontamentos pessoais foram comprados pelo governo brasileiro passando a
constituir a Coleção Brunelli, material este em fase de levantamento e seleção para um estudo mais
detalhado, posto que desenvolvo, desde 2007, uma pesquisa que trata sobre “Arte, ciência e
arquitetura na Amazônia brasileira na era pombalina”. Os documentos que compõem o inventário
foram identificados e descritos por Giorgio Robustelli e digitados por Valéria Pinto Lemos de modo a
compor as informações para o Guia de coleções da referida biblioteca, elaborada por Débora Santos

45
Lima Dellivenneri. O conteúdo do inventário compreende a correspondência ativa e passiva do titular
com Angelo Michele Bianconi, Sebastiano Caterzani, Antonio José Landi, Domingos Vandeli, Francisco de
Almada Mendonça, e Joaquim Inácio da Cruz Sobral, com o arquiteto José da Costa e Silva, entre outros,
tratando de assuntos de caráter particular e acadêmicos. O acervo totaliza 197 documentos entre
cartas, recibos e manuscritos diversos sobre astronomia, matemática, mecânica dentre outros assuntos.
O material documental e os textos estão escritos em português, italiano e latim, contendo parte das
obras que foram adquiridas pelo governo brasileiro, para a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro em
1818, por meio de uma negociação com o arquiteto português José da Costa e Silva, que mantinha esse
material em seu poder, após a morte de Brunelli. Neste trabalho apresento a primeira parte do estudo
sobre o referido acervo. Posteriormente, pretendo fazer um cotejamento com o material que já
organizei no decorrer da pesquisa realizada desde 2007, com vistas a compor uma parcela mais ampla
do itinerário intelectual de João Angelo Brunelli na Itália, em Portugal e no Brasil, visando descrever
como esse intelectual desenvolveu seus estudos nesses três países durante sua vida.

EDUCAÇÃO, PEDAGOGIA E INSTITUIÇÕES ESCOLARES NO BRASIL COLÔNIA, IMPÉRIO E REPÚBLICA


Coordenador: FABIA LILIÃ LUCIANO

928
A ESCOLA PÚBLICA REPUBLICANA NO RIO GRANDE DO NORTE NO GOVERNO JUVENAL LAMARTINE

MARLÚCIA MENEZES DE PAIVA.


UFRN, NATAL - RN - BRASIL.

Esta pesquisa estuda a institucionalização da escola pública no RN, na Primeira República,


particularmente no Governo Juvenal Lamartine. Utiliza como fontes as Mensagens de governo e a
legislação específica para a educação. Com o advento da República, notadamente no discurso, a
educação alcançou importância primordial. Os governos estaduais apressaram-se a realizar reformas,
criar leis, decretos, regulamentos, objetivando modernizar a escola pública. No entanto, o governo de
Juvenal Lamartine de Faria (1928-1930), não apresentou mudanças significativas. Esse governante teria
seu mandato concluído em janeiro/1931, mas a emergência da Revolução de 30 precipitou o seu
término e o de todos os governadores opositores. Na educação, a ênfase de sua administração ocorreu
na criação de escolas rudimentares. Nos documentados pesquisados não foi encontrado criação de
grupo escolar, a escola republicana por excelência, embora na sua Mensagem de 1º de outubro de
1930, no item Conclusão, anuncie que no segundo ano de seu governo, com chuvas abundantes, as
finanças melhoraram e pode executar “[...] a conclusão de diversos grupos escolares e o auxilio à
construção de outros”. Araújo (1882), que estuda as origens e organização da rede escolar no RN, da
Colônia à Primeira República, publica a relação dos grupos escolares criados no Estado, no período de
1908 a 1930, com seus respectivos decretos de criação, não constando nenhuma construção depois de
1927. Lamartine iniciou seu mandato em 1928. Apesar dessa evidência, observamos na mesma
Mensagem, no item Discriminação da Receita e Despesa do exercício de 1929, que os recursos para o
Departamento de Educação foi de 1.235:546$630 réis, o quinto maior do orçamento do Estado,
expressando valorização do setor educacional. Nestor Lima, então Diretor Geral do Departamento de
Educação, em Relatório (janeiro/agosto/1928), diz, no item SITUAÇÃO GERAL DO ENSINO: “Continúa, a
meu vêr, lisonjeira e cada vez mais profícua a situação do ensino no Estado”. A Mensagem de 1929
demonstra um crescimento no ensino primário e secundário, inclusive na freqüência, passando de
23.715 alunos em 1929, para 31.987, em 1930. Havia certo cuidado com a inspecção escolar. Na
Mensagem de 1928, Lamartine diz, “Nestas inspecções, o inspector de ensino não tem apenas visado os
methodos e processos empregados, a matricula e freqüência, mas, igualmente, as condições dos
edifícios, o mobiliário, o material de ensino e as necessidades que devem ser mais urgentemente
remediadas”. Parece que a inspeção escolar garantiu um mínimo de qualidade ao ensino. Portanto,
podemos identificar, no RN, um início de institucionalização da escola pública, embora ainda distante da
modernização propalada pelo movimento republicano.

46
1044
FORMAR PROFESSORAS PARA A PRINCESA DO SERTÃO: OS PRIMEIROS ANOS DE FUNCIONAMENTO
DA ESCOLA NORMAL DE FEIRA DE SANTANA (1930-1949)

ANTONIO ROBERTO SEIXAS DA CRUZ.


UEFS, FEIRA DE SANTANA - BA - BRASIL.

A Educação da Bahia dos anos 20 do século XX sofreu uma grande reforma, a partir da Lei 1.846, de 14
de agosto de 1925, sob a inspiração do pensamento escolanovista de Anísio Teixeira. No seio das
transformações propostas pela referida lei, são criadas duas escolas normais para o interior do Estado,
sendo, posteriormente, determinado que uma delas funcionasse em Feira de Santana, cidade
denominada, por Rui Barbosa, de Princesa do Sertão. Assim, nasce a Escola Normal de Feira de Santana,
inaugurada em 1º de junho de 1927, que passou a funcionar no dia 10 do mesmo mês. Nesse contexto,
o presente artigo tem por objetivo (re) constituir a história daquela Escola Normal, expondo os motivos
de sua criação e instalação, seus objetivos nos primeiros anos de existência, os métodos de ensino
utilizados, o seu currículo e a relação pedagógica entre alunas (os) e professores (as) no cotidiano
escolar. Para a elaboração do texto levou-se em consideração fatores históricos vividos pela Bahia e
pelo Brasil dos anos vinte e trinta do século passado. Também são apresentados aspectos da história de
Feira de Santana da década de 1930, período em que floresceu a Escola Normal da referida cidade.
Trata-se dos resultados de uma investigação baseada na abordagem qualitativa da pesquisa e em
princípios da História Cultural. As fontes utilizadas foram: Jornal Folha do Norte, semanário da Cidade de
Feira de Santana - Bahia, que circula desde 1909 até os tempos atuais; documentos da Escola
pesquisada (atas, cadernetas, memorandos, programas de disciplinas, fotografias, entre outros);
documentos de arquivos pessoais de professoras formadas pela Escola; e entrevistas com suas ex-
alunas, formadas entre 1930 e 1949. Como resultado da pesquisa, evidenciou-se que a Escola Normal
formou, sobretudo, mestras que se dedicaram à educação de crianças sertanejas, tanto na cidade onde
funcionou a Escola, quanto em outros municípios. Segundo as depoentes, cabia-lhes uma grande
missão: levar saber às crianças de todos os recantos sertanejos da Bahia, o que representava atender ao
principal objetivo daquela Escola. No exercício de suas funções docentes foram valorizados os seguintes
atributos: bondade, alegria, sacrifício e amor, indispensáveis, segundo as entrevistadas na vida de uma
professora da infância. Tais atributos eram destacados não só no período de formação na Escola
Normal, mas, também, estiveram presentes nos discursos dos professores homenageados pelas alunas
na ocasião das formaturas, conforme encontrado em diversas matérias do Jornal Folha do Norte.

1024
IMPLICAÇÕES DA PRODUÇÃO DIDÁTICA DE ABÍLIO CÉSAR BORGES PARA A ESCOLA PRIMÁRIA
BRASILEIRA DO SÉCULO XIX

FABIA LILIÃ LUCIANO.


UNISANTOS, SANTOS - SP - BRASIL.

A presente pesquisa se encontra em andamento, porém, com previsão de conclusão para fevereiro de
2011 e conta com auxílio financeiro institucional da própria Universidade. A produção didática de Abílio
César Borges para as Escolas Brasileiras do século XIX se constituiu temática desta investigação, com o
propósito de levantar, discutir e analisar as implicações dos títulos das principais obras desse autor para
a Instrução Pública, no período imperial. Sabe-se que historicamente, o livro foi um recurso utilizado
tanto na tarefa de ensinar quanto no ato de aprender, especialmente nos primeiros anos da
escolarização. Sendo assim, de acordo com a historiografia nacional da Educação, Abílio César Borges foi
o precursor do livro didático. Neste sentido, os seus impressos foram ao mesmo tempo fonte e objeto
de estudo, cujo instrumento foi o inventário documental e a técnica foi à descrição. Do ponto de vista
metodológico, a investigação se caracterizou como básica, de natureza documental, exploratória,
descritiva e analítica. Os dados foram coletados em Arquivos e Bibliotecas do país, acompanhadas de

47
consultas em acervos particulares. Para o seu tratamento e análise foi necessário nos remeter as
publicações de Bastos (2001); Burke (2004); Bittencourt (2006); Farias Filho (2005); Lajolo (1991);
Luciano (2004, 2006, 2007 E 2010); Vidal (2003); Oliveira (2000) E Zilbermman (1989 E 2008). Cabe
evidenciar que, o livro utilizado nas Instituições Escolares Imperiais teve dupla função. A primeira foi de
orientar o trabalho escolar e a segunda, a de formação dos docentes, ação que se intensificou a partir
de 1830. Com o intuito de imprimir os princípios de civilização e progresso, em plena expansão na
Europa, os livros se constituíam indicações do Império para todas as Províncias. Os primeiros impressos
adotados foram os silabários e seu objetivo era iniciar os aprendizes na escrita e leitura, por meio das
sílabas e das suas diferentes combinações. O método de soletração era a estratégia de alfabetização que
se desenvolvia com o uso do silabário e a seqüência modelar, a partir da memorização. É conveniente
ressaltar naqueles tempos, por falta de conhecimento e domínio das teorias de alfabetização, os
professores recorreriam aos silabários como recurso metodológico. Por fim, problematizar o livro
didático no contexto educacional oitocentista demanda a retomada, descrição, análise e discussão dos
títulos produzidos e publicados naquela época, como foi o caso do Barão de Macaúbas e do “Livro de
Leitura para o uso das Escolas Brazileiras”, organizado em quatro (4) volumes e distribuído
gratuitamente pelo autor. Contudo, estudar os impressos desse intelectual e as suas implicações é
indiscutivelmente, uma tarefa necessária e relevante para o campo da História da Educação.

A EDUCAÇÃO DOS SENTIDOS E A ESCOLA COMO LUGAR DE


CONSTRUÇÃO DA MODERNA SENSIBILIDADE
Coordenador: VERA LÚCIA GOMES JARDIM

1058
A EDUCAÇÃO DOS SENTIDOS NO ENSINO PRIMÁRIO NOS ANOS INICIAIS DA REPÚBLICA BRASILEIRA
NO CONTEÚDO DA REVISTA ESCHOLA PUBLICA (1893-1897)

ELLEN LUCAS ROZANTE.


PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO, CAMPO LIMPO PAULISTA - SP - BRASIL.

O objetivo desta comunicação é apresentar como a Revista Eschola Pública (1893-1897) formulou
propostas sobre a Educação dos Sentidos no ensino primário. A presente comunicação faz parte de uma
pesquisa de doutorado em andamento que tem como título “A Educação dos Sentidos no Método de
Ensino Intuitivo do ensino primário nos anos iniciais da República Brasileira”, que se realiza na Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo, no Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação: História,
Política, Sociedade, sob a orientação do Prof. Dr. Kazumi Munakata. Esta comunicação tem como objeto
a Educação dos Sentidos, mais especificamente, as formulações, no final do século XIX, sobre como
educar os sentidos na escola, levando em conta que a escola tem contribuído na ordenação e
organização da sociedade, por meio da educação disciplinar do corpo. O marco dessa proposta no
estado de São Paulo foi a constituição, em 1893, de uma nova organização escolar que marcou a
evolução do ensino brasileiro pela influência que exerceu. Essa organização consistia em uma nova
modalidade de escola primária denominada “grupo escolar”. A Revista Eschola Publica foi uma
publicação restrita a São Paulo, e estabelecia um diálogo entre as formas de ver e conhecer o mundo e a
adoção do método intuitivo naquele estado. Para tanto, tinha interesses neste novo modelo
educacional identificado com um novo método inovador, o método de ensino intuitivo. O ensino por
este método tem como base o aprendizado por meio da observação do real e da experiência. Neste
método, a intuição pelos sentidos é a ação mais espontânea da inteligência humana em direção à
verdade. O referencial teórico utilizado para análise tem como base o conceito de experiência de Peter
Gay, para o qual a experiência é o encontro da mente com o mundo. Por fim, por meio da análise do
discurso proferido na Revista foi montado um banco de dados que levou em consideração o nome do
autor, sua qualificação, título dos textos, ano e número, além dos campos tema e observações. Estes
últimos foram preenchidos com informações obtidas por meio da compreensão de cada artigo em que
preponderou sua relação com o método intuitivo e a educação dos sentidos. Sobre a apreensão de

48
como eram entendidos os sentidos na educação das crianças, vale ressaltar, houve a subdivisão da
investigação entre os cincos sentidos (visão, audição, olfato, paladar e tato) com o intuito de identificar
como se propôs o adestramento de cada sentido no método intuitivo e ainda verificar se houve sentidos
mais privilegiados que outros.

1208
A EDUCAÇÃO DOS SENTIDOS NA CONCEPÇÃO DAS ESCOLAS MARISTA EM SÃO PAULO NO INÍCIO DO
SÉCULO XX (1908 – 1931): O USO DO GUIDE DES ÉCOLES

PAULA MARIA ASSIS.


PUC-SP, SAO PAULO - SP - BRASIL.

Esta comunicação é parte de uma pesquisa para tese de doutoramento cujo título é A Educação dos
Sentidos na concepção das escolas católicas entre os anos de 1889 - 1931 sob orientação do Prof. Dr
Kazumi Munakata. Para esta comunicação, o objetivo é investigar como era a Educação dos Sentidos nas
escolas Maristas no período compreendido entre os anos de 1908, ano em que os Irmãos Maristas
assumem o Colégio Arquidiocesano e, 1931, ano em que a reforma Francisco Campos provoca
alterações significativas no currículo da escola. Para este trabalho serão investigadas as fontes
documentais do Centro de Memória do Colégio Marista Arquidiocesano de São Paulo em especial o
Guide des Écoles. Este guia especifica o método marista, propõe currículo e orienta os educadores. Sua
principal característica é que em suas páginas abandona a pedagogia livresca baseada na retórica e
passa a adotar técnicas fundamentadas na observação e na experiência desenvolvendo alguns sentidos
que antes não eram privilegiados. Sob esse aspecto se pretende identificar quais são as vertentes
teóricas e os dispositivos pedagógicos presentes no Guide des Écoles, além de observar quais foram os
sentidos privilegiados (audição, visão, olfato, paladar ou tato) e como foram treinados a fim de redefinir
o sentir e produzir nos alunos um mesmo ângulo de apreciação de mundo. A partir de meados do século
XIX, a Igreja Católica começa a reorganizar sua atuação com relação à educação escolar, adotando
políticas que propunham uma nova estruturação de caráter reacionário pra a manutenção do seu status
quo. A intenção era frear o avanço das Igrejas protestantes que espalhavam suas escolas pelo mundo e,
dessa forma dar continuidades à idéia de que a Igreja Católica era a única intermediadora entre os
homens e Deus. Dentre as políticas de restauração adotadas está a formação de várias congregações
missionárias que partiram da Europa com propostas pedagógicas definidas. Das várias congregações
católicas missionárias ligadas à educação que chegaram ao Brasil, este trabalho privilegiará a proposta
dos Irmãos Maristas, uma vez que estes tinham um método muito bem estruturado e definido. A
hipótese é que as transformações ocorridas no mundo secular foram incorporadas pela Igreja e
repassadas para as ordens missionárias o que provocou mudanças no âmbito educacional. Será
considerado para a análise as práticas e a cultura escolar na perspectiva de Vinão Frago. O referencial
teórico que norteia a análise é o conceito de experiência de Peter Gay.

1042
A EDUCAÇÃO DO OUVIDO NA VIGÊNCIA DO CANTO ORFEÔNICO – 1931-1961

VERA LÚCIA GOMES JARDIM.


UNIP ALPHAVILLE - SP, BARUERI - SP – BRASIL

Desde meados do século XIX a educação do ouvido já constava das preocupações educacionais, como
pressuposto para o acesso a cultura e ao conhecimento. Englobava conceitos de formação de senso
estético, formulados desde o início da República, que expressavam a necessidade da formação do bom
gosto. A definição de “bom gosto”, sob responsabilidade do ensino musical nas escolas, presente desde
a sua inclusão como disciplina no currículo das escolas públicas, em 1838, adquiriu feições e significados
diferentes, conforme as concepções de seus formuladores. O objetivo deste trabalho é evidenciar os
elementos curriculares e estéticos privilegiados para compor o ideal de formação do homem presente
nos projetos educacionais, tomando como objeto as práticas para o ensino do canto orfeônico, mais

49
especificamente, a sua concepção de educação do ouvido. O período delimitado parte da Reforma
Francisco Campos (1931), momento em que a música, como disciplina escolar, foi organizada na forma
do Canto Orfeônico, mantendo-se nesta estrutura até a sua exclusão pela determinação da LDB de
1961, que instituiu a Educação Musical. Pela análise das fontes compulsadas – legislação, programas de
ensino, prescrições e orientações, métodos oficialmente instituídos – propõe-se verificar os princípios
que guiaram as mudanças e consolidaram práticas escolares para apreender a construção das novas
concepções educacionais voltadas para a educação dos sentidos e os requisitos ordenados para atendê-
la. Ao assumir a condução do Canto orfeônico, em nível federal, nos anos 30, Villa-Lobos define o seu
conceito de bom gosto relacionado às músicas da estética modernista, da qual era signatário;
preferência contrária à época, de evidentes características conservadoras. Nesta proposta, a educação
do ouvido e a educação estética eram organizadas em conteúdos de ensino como Apreciação Musical,
que previa audição de discos de conjuntos orfeônicos, de hinos, canções nacionais, além de testes de
discernimento de gêneros musicais. O controle sobre o ouvir se ampliava para avaliações e medições,
reeditando alguns procedimentos inspirados nos testes aplicados nos anos 10-30. Fichas de avaliação,
em circulação a partir de 1946, deveriam ser preenchidas com dados referentes ao aluno e seu
desenvolvimento nas aulas de Canto Orfeônico. Entre os tópicos constavam Provas funcionais dos
ouvidos, referindo-se, entre outros, aos Sentidos e a Acuidade auditiva. As Anotações para
anormalidades somáticas alertavam para que os alunos deficientes – de audição falsa – não deveriam
ser apartados do grupo para eventual correção, pois ninguém deveria ser excluído da participação, cujas
práticas possibilitavam uniformizar e regular modos de pensar e atuar socialmente. Como suporte
teórico, a fim de compreender as relações entre currículo, práticas e conteúdo, foi adotado autores
como Chervel e Viñao Frago, bem como Elias e Gay para articular aspectos que envolvem condutas
sociais e a educação dos sentidos.

1049
OLHAR E ESCUTAR: O DESLUMBRAMENTO DOS ESTUDANTES MOBILIZADOS DURANTE A DITADURA
MILITAR, POR ÍCONES JOVENS E REVOLUCIONÁRIOS ESTAMPADOS NAS MANCHETES DE JORNAIS E
REVISTAS DE CIRCULAÇÃO EM MASSA

KATYA MITSUKO ZUQUIM BRAGHINI.


DIRETORIA EXECUTIVA DA REDE DE COLÉGIOS MARISTA, CURITIBA - PR - BRASIL.

Posicionar-se contra a implantação e o funcionamento da Ditadura Militar no Brasil é a prática mais


evidenciada nos estudos que se ocupam com os movimentos estudantis nos anos 1960. Dá-se ênfase
para a prática política estudantil como o principal mote para a atuação daqueles estudantes que se
posicionaram contrários aos desmandos de grupos autoritários e conservadores que atuavam no
período. Ao contemplar as fontes produzidas por grupos conservadores foi percebido que os
movimentos estudantis eram apresentados como “subversivos”, termo que pela repetição, foi tornado
“banal”. Explicar o movimento estudantil, tanto pela atividade política como a sua única experiência,
quanto pelo aspecto da subversão aos padrões sociais estabelecidos, foram tornados “lugares-comuns”
da História e são atributos que excluem outras peculiaridades dos atos estudantis daquele período. O
estudo de artigos de jornais e revistas, bem como, dos testemunhos dos sujeitos que se mobilizaram
politicamente naquela época, apontou que aqueles jovens foram estimulados ao movimento estudantil
também por motivos rotineiros: a) a visão de fotos dos ícones revolucionários, também jovens,
estampados nas reportagens de revistas; b) o relato, o “ouvir dizer” de grandes investidas juvenis
registradas nas reportagens de circulação em massa sobre os manifestos de ruas, mobilizações gigantes,
comícios relâmpagos, assaltos a bancos etc.. Este trabalho, portanto, tem duplo objetivo: primeiro, o de
apresentar como a visão e a audição foram sentidos mobilizados para o desencadeamento do
movimento estudantil, visto aqui como um contágio emocional em que experiências vividas por sujeitos
da mesma faixa etária, a partir de reações às situações chocantes, instituem práticas diversas, que neste
caso também foram elementos constituintes dos movimentos políticos. O movimento estudantil é
entendido aqui como o resultado da interação entre sujeitos de faixa etária semelhante, mobilizados a
partir da sua identificação com as imagens e pelos relatos compartilhados em diversos ambientes
dentro e fora da escola. Da forma como aponta Peter Gay, as práticas cotidianas dos sujeitos podem

50
assinalar o significado da experiência de um grupo social. Segundo, o de demonstrar as percepções
daquilo que era considerado “inapropriado” e observar os métodos de produção de significados do
senso-comum. Trata-se de apontar que o senso comum, mais do que uma banalização do fato, é uma
superestimação dos estereótipos que apaga outras histórias sobre os sujeitos históricos. Este trabalho é
uma parcela de um estudo histórico de doutorado que apresentou uma imagem da juventude nos anos
1960 e 1970 a partir do que foi produzido, publicado e republicado na Revista da Editora do Brasil S/A,
clipping educacional que circulou entre os profissionais de ensino, tido como uma “contra-face” da
juventude que, à época, se manifestava de formas variadas, notadamente favoráveis ao regime militar.

ARQUIVOS ESCOLARES: POSSIBILIDADES DE PESQUISAS EM HISTÓRIA DAS DISCIPLINAS


Coordenador: EVA MARIA SIQUEIRA ALVES

1081
CENTRO DE MEMÓRIA DO COLÉGIO ESTADUAL DO PARANÁ: CONSIDERAÇÕES SOBRE SEU ACERVO
DOCUMENTAL

NADIA GAIOFATTO GONÇALVES.


UFPR, CURITIBA - PR - BRASIL.

Este trabalho tem como objetivo apresentar e discutir o processo de constituição do Centro de Memória
do Colégio Estadual do Paraná, e o acervo documental nele disponibilizado. O CEP sintetiza uma
trajetória que, de certa forma, implicou em formatos e propósitos diversos, em consonância com
projetos e políticas educacionais mais amplos, no país. Esta instituição foi oficialmente criada em 1846,
sob a denominação Licêo de Coritiba, e posteriormente, passou a Instituto Paranaense (1876),
Gymnasio Paranaense (1892), Colégio Paranaense (1942) e Colégio Estadual do Paraná (1943). Em 2006
foi iniciado um projeto de organização deste acervo, que no mesmo ano foi ampliado, no sentido de
criar e implantar um Centro de Memória do CEP, que abrangeria, além dos documentos escritos do
arquivo histórico escolar, o Museu Professor Guido Straube, e uma Seção responsável pelo
acompanhamento e orientação sobre cuidados com o patrimônio histórico da instituição, de forma
geral, como espaços, ambientes, e mobiliário, espalhados pelo prédio. Em junho de 2010, o Centro de
Memória foi oficialmente implementado, mediante aprovação de seu Regulamento pelo Conselho
Escolar do CEP, porém, ainda não foi inaugurado, uma vez que o espaço que será sua sede está em
reforma. Apesar disso, deve ser registrado todo o trabalho de organização dos acervos que já foi
desenvolvido. Por exemplo, a organização e higienização do acervo documental; a criação de uma
tipologia e classificação documental próprias; e um banco de dados, no qual estão catalogados todos os
documentos já higienizados. Atualmente cerca de mil documentos constam do banco de dados, e
abrangem desde ofícios e atas, a alguns tipos de fontes que podem contribuir mais diretamente para
pesquisas relativas a disciplinas escolares, como: livros de ocorrência, planos de ensino, conteúdos
programáticos; material didático; horários de aula; projetos para disciplinas, quadro de professores,
diários de classe; atas de reuniões de professores e pais; planos e projetos pedagógicos; currículos;
regimento interno; e quadros demonstrativos do número de professores, aulas, alunos e turmas. Para a
discussão sobre a organização do acervo do CEP são utilizados como referências principais os trabalhos
de Bellotto (1994), Zaia (2004), Vidal e Zaia (2001), no que tange a arquivos e arquivos escolares; Le Goff
(2003) e Ragazzini (2001), quanto a documentos e fontes para História da Educação; e de Magalhães
(1998 e 1999) sobre história das instituições educativas. Destaca-se a potencial contribuição do acervo
documental do CEP para pesquisas em História da Educação, como aquelas desenvolvidas no campo da
História das disciplinas escolares. Várias pesquisas já foram realizadas a partir de fontes deste acervo,
por exemplo, sobre a Educação Física, Canto Orfeônico, História, Arte e Atividades Complementares,
além de outras relativas a práticas e à cultura escolar, não relacionada diretamente a alguma disciplina.
969
A HISTÓRIA DAS DISCIPLINAS ESCOLARES ARMAZENADA NOS ARQUIVOS DAS ESCOLAS

51
EURIZE CALDAS PESSANHA.
UFMS, CAMPO GRANDE - MS - BRASIL.

Grande parte das pesquisas sobre História das Disciplinas Escolares no Brasil originaram-se das matrizes
teóricas elaboradas por Chervel e por Goodson. Ressalvadas as diferenças teórico-metodológicas entre
esses dois referenciais, constituem objetivos comuns dessas pesquisas a reconstituição da história de
determinada disciplina nas mais diversas fontes e procedimentos metodológicos: desde estudos
etnográficos até histórias de vida passando por depoimentos, entrevistas e análise de documentos
encontrados nos arquivos escolares, além da análise do currículo prescrito na legislação e nos
dispositivos específicos de cada escola. A questão primordial explicitada por Goodson sobre se o que foi
prescrito foi realizado se junta à proposta de Chervel de buscar a gênese e o funcionamento de cada
disciplina conduzindo o pesquisador a buscar documentos que possam oferecer indícios dessa história
para além dos relatos de seus atores. As pesquisas sobre HDE desenvolvidas neste grupo partem do
pressuposto de que a história de uma determinada disciplina escolar só pode ser compreendida no
âmbito do lócus (escola) que a produziu, uma vez que as especificidades da cultura escolar de cada
escola trazem elementos indispensáveis para essa análise. Os arquivos escolares embora contenham
grande parte dessa história transformam-se em obstáculo para o pesquisador da HDE, pois as
instituições escolares produzem e armazenam documentos para atender a exigências legais e
burocráticas e sua permanência, organização e acesso dependem dessas exigências; cessada a sua
função, cessa também a preocupação com a sua preservação e, em vez de arquivos, o pesquisador se
depara com depósitos de “papéis” que não fazem mais parte do “arquivo vivo” da escola mas que, por
alguma razão, ainda não foram descartados. O objetivo deste texto é apresentar e discutir as estratégias
desenvolvidas por este grupo para superar esses obstáculos e transformar esses “papéis” em fontes
para a história das disciplinas escolares. Foram realizadas treze pesquisas sobre HDE, a maioria delas em
uma mesma escola, cujas fontes documentais foram livros didáticos, atas, portarias, livros de
ocorrência, diários de classe, provas, cadastros de professores e alunos, cadernos escolares e recortes
de jornais armazenados nos arquivos da escola ou em arquivos particulares. A tarefa de localização,
seleção e análise desses documentos, principalmente nas primeiras pesquisas, exigiu grande esforço de
cada pesquisador. Atualmente, o arquivo encontra-se organizado, com grande parte dos documentos
digitalizados e acessíveis. Concluiu-se que a parceria com a escola é estratégia fundamental ao lado da
tarefa de organização do arquivo e facilitação do acesso às informações armazenadas com utilização das
tecnologias digitais, possibilitando a escrita da história de outras disciplinas escolares.

981
O ARQUIVO ESCOLAR E A EDUCAÇÃO FEMININA: UM OLHAR SOBRE O ACERVO DO COLÉGIO
PROGRESSO CAMPINEIRO (CAMPINAS - SP)

PRISCILA KAUFMANN CORRÊA.


FACULDADE DE EDUCAÇÃO UNICAMP / REDE MUNICIPAL DE VINHEDO, CAMPINAS - SP - BRASIL.

O acervo histórico do Colégio Progresso Campineiro se mostra rico e diversificado em suas fontes a sua
organização caminhou paralelamente à realização de diferentes pesquisas acadêmicas. O Colégio
Progresso foi fundado em 1900 na cidade de Campinas por um grupo de cidadãos de influência política
e econômica, dos quais se destacou Orosimbo Maia, que foi prefeito da cidade. O internato destinava-se
à educação feminina, procurando diferenciar-se de outras instituições mantidas por congregações
religiosas. A escola de nome inspirado pelo positivismo se apresentava como um estabelecimento
inovador, ao oferecer uma formação ampla voltada tanto para as humanidades, como para as ciências
exatas, consideradas pouco comuns no que se referia à escolarização feminina. Apesar da manutenção
da escola caber a um grupo de leigos, o ensino religioso possuía seu espaço desde a fundação,
fortalecendo-se nas décadas seguintes. Ao longo da trajetória da escola destaca-se sua segunda
diretora, Dona Emília de Paiva Meira, assumiu seu cargo em 1902 e nele permaneceu até 1937, ano de
seu falecimento. Dona Emília atuou intensamente no campo educacional dando forma ao projeto
pedagógico do colégio, que incluía uma formação religiosa calcada no catolicismo. Durante minha

52
pesquisa de mestrado identifiquei que o ensino religioso se configurava não apenas como uma matéria
de ensino presente no currículo, mas também como um conjunto de práticas realizadas na capela do
Colégio Progresso. O cotidiano do internato, permeado pelas matérias de religião, pelas missas, retiros
espirituais e comunhões, garantiria uma formação católica ampla. Um conjunto variado de documentos,
tais como livros de notas e faltas, regulamentos internos e matérias de jornais, permitiu identificar as
diferentes formas como este ensino era organizado na escola. O levantamento e a organização do
acervo do Colégio Progresso trouxeram à luz uma documentação bastante diversificada, que reúne
recortes de jornal, correspondências pessoais e oficiais, fotografias, prospectos de divulgação da escola,
além de seus livros de matrícula e registros de notas e faltas. Tais documentos permitem investigar o
universo escolar e sua cultura em múltiplas perspectivas, evidenciando a complexidade desta
instituição. A conservação deste acervo levou à realização de diferentes atividades, não se limitando à
pesquisa acadêmica. O envolvimento de professores e alunos do colégio possibilitou experiências de
valorização da história da instituição e de sensibilização para a preservação dos documentos históricos.
Nesta perspectiva, além de guardar ricas informações sobre o passado de uma instituição escolar, o seu
arquivo histórico se apresenta como um espaço de circulação de pessoas e idéias, lançando novos
olhares sobre a escola no presente.

916
O CENTRO DE EDUCAÇÃO E MEMÓRIA DO ATHENEU SERGIPENSE: CRIAÇÃO E PESQUISAS EM
HISTÓRIA DAS DISCIPLINAS

EVA MARIA SIQUEIRA ALVES.


UFS, ARACAJU - SE - BRASIL.

Ao investigar o Atheneu Sergipense, instituição de estudos secundários criada em 1870, como objeto de
pesquisa do doutorado, constatei que os documentos mais antigos apresentavam-se em deterioração
progressivos, bastante descuidados e relegados a condições insalubres de conservação. O patrimônio
arquivístico daquela “Casa de Educação Literária” secular clamava por cuidados, por preservação e
organização. Urgia a criação de um Centro de Educação e Memória da agência produtora e irradiadora
de práticas e padrões pedagógicos, que projetou vultos de destaque no panorama político e social e que
prestaram benefícios incalculáveis em todas as profissões e atividades que desempenharam. Diante da
riqueza de fontes localizadas, documentos do tipo: livro de atas, livros de matrículas, livro de ponto,
cadernetas de notas e de aulas, correspondências expedidas e recebidas pela escola, ficha de alunos,
provas de concurso, registro de visitantes, que refletem a vida da própria instituição e contribuem
sobremaneira para sua existência histórica, entendeu-se que esta documentação deveria ser preservada
e organizada. A fim de oportunizar aos pesquisadores e a toda sociedade o manuseio do rico acervo de
modo a desencadear estudos dentro da História da Educação, foi elaborado o projeto “Centro de
Educação e Memória do Atheneu Sergipense”, aprovado por Edital da Fundação de Amparo à Pesquisa
do Estado de Sergipe/FAPITEC-SE. O mesmo apresentava como objetivo realizar o levantamento e a
catalogação das fontes documentais produzidas pelo Atheneu Sergipense, no período de 1870 a 1950.
Concluída essa etapa, foi elaborado novo projeto, com aprovação do Ministério da Cultura, no ano de
2008. A conservação da massa documental produzida pelo Atheneu Sergipense tem suscitado pesquisas
de Mestrado, Doutorado, Iniciação Científica e Monografias, desenvolvidas pelo grupo de pesquisas
Disciplinas Escolares: História, Ensino, Aprendizagem (DEHEA), que tomam como fontes as informações
salvaguardadas do patrimônio cultural, educacional e social do Atheneu Sergipense que constitui parte
significativa da História da Educação do Estado de Sergipe. Cabe ressaltar que a conservação dos
documentos históricos produzidos pelas instituições escolares torna-se fundamental não só para a
memória da escola, mas também para memória daqueles que por ela passaram. A memória, como
lembra Nora (1993), é a vida em permanente evolução, carregada por grupos vivos, permeada pela
lembrança e pelo esquecimento. Na história, a reconstrução, que se imagina proceder é sempre
problemática e incompleta, daquilo que não existe mais. Assim, almeja-se com a prática de pesquisa
desenvolvida no CEMAS, incentivar que outras instituições, públicas ou privadas, preservem suas fontes
documentais, pois dessa forma estarão assegurando também a memória da educação brasileira e em
especial a de Sergipe.

53
54
EIXO 4 - HISTÓRIA DA PROFISSÃO DOCENTE

A PROFISSÃO DOCENTE NO BRASIL E EM PORTUGAL: UMA HISTÓRIA CONECTADA


Coordenador: ANA WALESKA POLLO CAMPOS MENDONÇA

646
REFLEXÕES SOBRE O PROCESSO DE PROFISSIONALIZAÇÃO DO PROFESSOR PÚBLICO NO MUNDO LUSO-
BRASILEIRO

TEREZA FACHADA LEVY CARDOSO.


CEFET-RJ, RIO DE JANEIRO - RJ - BRASIL.

Este trabalho apresenta algumas conclusões sobre uma pesquisa já concluída, que integrou um projeto
financiado pela CAPES/FCT, na qual se procurou, utilizando a metodologia da educação comparada,
acompanhar as trajetórias da profissão docente no Brasil e em Portugal, recompondo o processo por
meio do qual os professores se constituíram como agentes históricos. A intenção foi investigar as
Reformas Pombalinas da Instrução Pública, particularmente a reforma dos Estudos Menores, no século
XVIII, que marcaram a intervenção pioneira do Estado português na constituição de um sistema estatal
de ensino, em todos os domínios do Reino, quando se criou o quadro de professores régios,
funcionários do Estado. O trabalho aqui apresentado é um recorte dentro desse amplo tema e teve
como objetivo inicial se debruçar sobre o processo de profissionalização do professor público no Rio de
Janeiro, entre o final do século XVIII e meados do século XIX. Partiu-se de algumas premissas: - a
Reforma dos Estudos se desenvolveu em dois momentos distintos de um mesmo processo; - a política
pombalina exerceu influência no movimento dos ilustrados, cooptando intelectuais; - a formação e
atuação de intelectuais na virada do século XVIII para o XIX, sob os princípios ilustrados, não criou o
intelectual “brasileiro” numa relação hierárquica e servil; - as aulas régias formaram um sistema de
ensino; - o cargo de professor público foi criado pelo Estado, mas os professores se percebiam como
uma categoria. As questões norteadoras da pesquisa foram basicamente duas: - Identificar se os
professores públicos tiveram ou não uma participação ativa na vida política e cultural brasileira e fazer
um levantamento das políticas dirigidas aos professores públicos por diferentes instâncias políticas e
administrativas. Alguns achados da pesquisa dizem respeito a participação dos literatos e poetas, no que
se poderia chamar o entre-lugar do intelectual "brasileiro”. Há também exemplos de professores
“portugueses” com uma participação intelectual, administrativa e política profícua. O levantamento
privilegiou, sobretudo, o século XVIII e desde 1759, ficando especialmente a década de 30 do século XIX
apenas parcialmente estudada. As fontes utilizadas no Rio de Janeiro encontram-se na Biblioteca
Nacional, Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, Arquivo Nacional, Instituto Histórico e Geográfico
Brasileiro e Real Gabinete Português de Leitura. E em Portugal, no Arquivo da Torre do Tombo, Arquivo
Geral da Alfândega de Lisboa, Arquivo Histórico Ultramarino, Biblioteca Pública e Arquivo Distrital de
Évora. O contato com as fontes primárias que não estão disponíveis no Brasil, suscitou novos
questionamentos e ampliou o interesse pelo tema, alterando, inclusive, a intenção inicial de estudar
prioritariamente os docentes do RJ.

1175
A REFORMA POMBALINA DOS ESTUDOS MENORES NA GÊNESE DO MAGISTÉRIO PÚBLICO
SECUNDÁRIO EM PORTUGAL E NO BRASIL

ANA WALESKA POLLO CAMPOS MENDONÇA.


PUC-RIO, RIO DE JANEIRO - RJ - BRASIL.

O trabalho se propõe a socializar os achados da pesquisa recém concluída “A Reforma Pombalina dos
Estudos Secundários e seu impacto no processo de profissionalização do Professor”. Confirmou-se a
hipótese inicial de que as reformas pombalinas se constituíram em um momento decisivo na história da
profissão docente tanto em Portugal quanto no Brasil, a despeito da interpretação ainda dominante na

55
historiografia da educação brasileira de que seu impacto teria sido quase nulo na colônia. O primeiro
achado decorreu da aproximação aos trabalhos do historiador alemão Koselleck (1992, 2006) e ao seu
projeto de construir uma história dos conceitos, o que me levou a suspeitar da maneira frequentemente
a-histórica com que nos apropriamos do conceito de público, quando aplicado à educação ou ao ensino.
Se as Reformas Pombalinas constituíram, de fato, o que se poderia entender por um sistema público de
ensino, importa destacar o caráter da intervenção do Estado, a educação pública não se identificando
com a educação popular, já que se destinava apenas àquela parcela da população que poderia
efetivamente contribuir com as perspectivas de implantação do seu projeto centralizador. O segundo e,
talvez, o mais importante achado da pesquisa se articula com o primeiro e foi a constatação de que a
fragmentação dos estudos introduzida com as Reformas gerou um efeito de fragmentação da própria
profissão docente, com repercussões na forma como esta foi se constituindo historicamente,
fortalecida, no caso dos professores dos estudos secundários, pela sua estrita vinculação a uma matéria
específica. O terceiro achado resultou particularmente da interlocução com alguns autores portugueses,
que estudaram as origens do ensino secundário em Portugal. Foi possível constatar que o impacto da
fragmentação dos estudos se fez sentir também sobre a forma como este nível de ensino se organizou,
ao longo do século XIX, inclusive no Brasil, expressando-se na forte resistência que se manifestou lá e cá
à sua institucionalização como uma forma de ensino regular. Outras contribuições da pesquisa têm a ver
com os trabalhos que venho desenvolvendo mais recentemente no sentido de traçar uma
caracterização geral dos professores régios dos estudos secundários, no período em estudo (1759-
1794), tanto a partir de dados quantitativos, como qualitativos. A análise desenvolvida sobre esses
dados tem permitido avançar na caracterização da identidade profissional desse segmento dos
professores. A esse respeito, cumpre assinalar que, se no primeiro momento da pesquisa, a ênfase foi
posta sobre a ação do Estado no processo de construção dessa identidade, a partir da categoria de
funcionarização (Nóvoa, 1989), no momento atual, o foco deslocou-se para o processo de constituição
de uma cultura docente específica desse segmento da categoria, objetivada nas suas práticas e
transmitida de geração a geração, através da memória da corporação, e configurando uma tradição
inventada (ESCOLANO, 1999).

1246
ASSOCIAÇÕES PROFISSIONAIS DE PROFESSORES

LIBANIA NACIF XAVIER.


PPGE-UFRJ, RIO DE JANEIRO - RJ - BRASIL.

O estudo é parte de uma pesquisa mais ampla por meio da qual se buscou elaborar uma síntese das
diferentes estratégias de associativismo docente no Brasil e em Portugal; classificar e caracterizar os
diferentes modelos de organização associativa verificados ao longo da pesquisa, bem como analisar os
seus efeitos sobre a configuração da carreira. Esta comunicação apresenta os resultados parciais de uma
pesquisa realizada na cidade de Lisboa, em 2008, em função da qual nós visitamos algumas associações
de professores estruturadas em torno ao ensino de uma disciplina específica ou de uma proposta
pedagógica definida. Pretendemos detalhar a caracterização desse tipo particular de estratégia
associativa, chamada pelos portugueses de associações profissionais. Estas se estruturaram tendo em
vista a auto-afirmação da categoria nos assuntos que dizem respeito ao seu campo de atuação
profissional. Nesse intento, apresentam objetivos variados, tais como: 1) exercer o controle, ainda que
limitado, sobre certas políticas – como as políticas curriculares, por exemplo; 2) participar
propostivamente no mercado de bens culturais – pela oferta de cursos de aperfeiçoamento profissional
ou pela publicação de livros e materiais didáticos, dentre outras ações; 3) promover o intercâmbio entre
pares, ampliando os espaços de exercício da colegialidade e promovendo meios de proporcionar a auto-
formação participativa como alternativa ao modelo dominante de organização do trabalho escolar. Tais
organizações foram identificadas em paralelo com outros modelos de associações, tais como as
assistenciais e as sindicais, além das profissionais e das científicas. O objetivo mais geral a que se liga
este estudo foi o de analisar os processos históricos de constituição da profissão docente sob a ótica dos
movimentos coletivos de intervenção na conformação da carreira, de negociação com as esferas de
poder e de interação entre lideranças coletivas e o grupo profissional. Esperamos, dessa forma, avançar

56
na compreensão das alternativas profissionais criadas por meio da ação coletiva e da institucionalização
de associações docentes. Por meio destas, diferentes grupos de professores operam a proposição e a
divulgação de modelos e práticas pedagógicas consideradas eficazes em contextos nos quais se
verificam mudanças na estrutura das oportunidades políticas (EOP) (Cf:Tilly:1978). Consideramos que a
noção de EOP é fértil para o estudo da história dos movimentos coletivos docentes, permitindo-nos
estabelecer nexos entre as motivações, as condições e as estratégias adotadas pelos grupos
profissionais em contextos de mudança política e social, analisando-os de modo articulado e
interdependente.

1254
PÁGINAS PARA EDUCADORES: UM ESTUDO SOBRE IMPRESSOS CATÓLICOS NO BRASIL E PORTUGAL
NA DÉCADA DE 1930

ANA MARIA BANDEIRA DE MELLO MAGALDI.


UERJ, RIO DE JANEIRO - RJ - BRASIL.

O objetivo dessa comunicação, resultado de pesquisa em fase de conclusão, é o de produzir uma


reflexão sobre o viés doutrinário/educativo assumido por periódicos católicos em circulação no Brasil e
em Portugal, na década de 1930, considerando-se, especialmente, a produção de enunciados dirigidos a
educadores, nos veículos focalizados. Em particular, a análise estará dirigida a seções específicas,
publicadas em dois jornais diários católicos, um brasileiro e um português, e destinadas a educadores,
sendo as mesmas de dois tipos: seções destinadas a professores (Página do professorado e Página
escolar) e seções destinadas a mulheres (Para a mulher e o lar e Página feminina do Novidades: A bem
da mulher), apresentadas, em grande medida, a partir do lugar de mães e educadoras. Editados
respectivamente em Belo Horizonte e Lisboa, ao longo de um período mais alargado, os jornais O Diário
e Novidades, se inscrevem, nos anos 1930, no horizonte do movimento da Ação Católica que,
estimulado pelas instâncias hierárquicas da Igreja, adquiria relevo, à época, em diversos países, entre os
quais Brasil e Portugal. Os jornais em questão correspondiam à função destacada, atribuída à imprensa
católica nesse movimento, de mobilização de leigos sob a orientação da hierarquia católica, no sentido
do combate aos “males” provocados pela disseminação do laicismo e de outros valores identificados
com a modernidade, pela via da palavra impressa. Nessa direção, pode ser observado, ao folhearmos as
páginas de ambos os jornais, dedicadas a temas os mais diversos, um viés doutrinário indiscutível,
traduzido na intencionalidade dos editores em moldar consciências em sintonia com o projeto católico.
Se essa marca impregna as mensagens transmitidas aos leitores de modo geral, os educadores,
profissionais ou domésticos – nesse caso, confundidos com a figura das mães – eram constituídos em
alvo especial, com direito a seções de destaque, especificamente destinadas a si. Na estratégia
conduzida através das seções, observa-se a intenção de seus editores de contribuir para a preparação
consistente desses educadores, tratados em suas especificidades, de modo que os mesmos pudessem
atuar, de modo competente, como formadores de “almas católicas”. O relevo conferido a esses sujeitos
e às instituições a que correspondiam – escola e família – nessas publicações representa um indicativo
da percepção, compartilhada pelo movimento católico, da centralidade de sua ação educativa para o
sucesso do projeto católico, articulado, nos dois países, a projetos de construção da nação.

57
58
EIXO 5 - IMPRESSOS, INTELECTUAIS E HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO

HISTORIOGRAFIA DA EDUCAÇÃO: AS NARRATIVAS E O ENSINO DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO


Coordenador: BRUNO BONTEMPI JUNIOR

1073
FORA DE CENTRO: A HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA CONTADA PELOS EDUCADORES
REPUBLICANOS PAULISTAS

BRUNO BONTEMPI JUNIOR; MARIA LUCIA HILSDORF.


USP, SAO PAULO - SP - BRASIL.

A historiografia da educação brasileira por muito tempo consagrou as obras de José Ricardo Pires de
Almeida (1889), Primitivo Moacyr (1936-1942) e Fernando de Azevedo (1940) como peças primordiais e
modelares da história da educação no país. Seja como herdeira ou como crítica, a historiografia que
dialoga com esse conjunto resguarda, em geral, a interlocução com o ponto de vista que ele assume,
que poderíamos denominar de “voz do Centro”, em que tanto a seleção documental quanto a seleção e
interpretação dos eventos se reportam às iniciativas, reformas e políticas educacionais do Império, ou
da União, enquanto obscurecem, criticam ou mesmo ironizam as iniciativas tomadas em nível provincial
e estadual. Esta comunicação trata de um conjunto de narrativas que, nas primeiras décadas do século
XX, fez-se publicar por educadores de São Paulo, e que foi apagada por não estar no espaço do Centro e,
por certo, por discordar das obras de Moacyr, Pires de Almeida e Azevedo, apresentando um
contraponto às marcas de unidade, a homogeneidade, a continuidade e valorização do controle central,
do progresso e da evolução que as caracterizam. Trata-se da obra relativamente fragmentada e
descontínua, por escapar aos moldes editoriais em que mais tarde a produção dos pioneiros veio a
circular, mas que vinha sendo escrita ao menos desde 1904 por representantes das novas elites
intelectuais que orbitavam na esfera do poder estadual, ligados a grupos políticos direta (inspetores,
professores) ou indiretamente (juristas, burocratas) relacionados com a educação em São Paulo. Essa
produção emerge como propaganda (Reis, Thompson & Lane, 1904; Rodrigues, 1907-1908; Silveira,
1929; Escobar, 1933), balanço oficial (Rodrigues, 1907-1908), balanço comemorativo (Penteado, 1923)
ou ainda como munição a serviço do debate interno ao campo, em disputas políticas e educacionais
(Penteado, 1923; Silveira, 1929; Oliveira, 1931). Ainda que dispersa em diferentes veículos e instâncias,
não resta dúvida que entre si esses textos estabelecem um diálogo, puxando um fio temático em suas
narrativas. Tendo recolhido e organizado pela primeira vez esta produção em um mesmo corpus, esta
comunicação tem como objetivos identificar esse fio narrativo, destacar e compreender as escolhas de
fontes e acontecimentos, o valor que atribuem às ações narradas, assim como interpretar o sentido das
diferentes intervenções dialógicas à luz das posições ocupadas por esses sujeitos no ambiente da
educação paulista nos tempos de sua produção. Palavras-chave: historiografia, narrativa, educadores
paulistas.

1085
TEXTBOOKS IN THE HISTORY OF EDUCATION: NOTAS PARA PENSAR AS NARRATIVAS DE PAUL
MONROE, STEPHEN DUGGAN E AFRANIO PEIXOTO
1 2
JOSÉ GONÇALVES GONDRA ; JOSÉ CLAUDIO SOOMA SILVA .
1.UERJ, RIO DE JANEIRO - RJ - BRASIL; 2.UFRJ, RIO DE JANEIRO - RJ - BRASIL.

Em 1935, o periódico oficial do Instituto de Educação do Rio de Janeiro publicou o relatório do professor
de História da Educação, Afranio Peixoto, no qual o titular da cadeira descreve os conteúdos trabalhados
nos cursos que ditara nos três anos anteriores (1932-34), destacando atividades propostas às alunas,
indicando, igualmente, onde buscara inspiração para as aulas. Para ele, havia livros que mereciam ser
copiados, por exemplo os norte-americanos: A brief course in the history of education (1907) de Paul
Monroe (Doutor em filosofia e professor de história da educação no Teachers College da Universidade

59
de Columbia, New York) e A student´s text-book in the history of education (1916), de Stephen Pierce
Duggan (Professor of education in the College of the city of New York). Nesse estudo, investimos no
exame desses dois manuais como estratégia para analisar as apropriações operadas pelo professor
brasileiro no livro Noções de história da educação (1933), resultante do curso por ele ministrado em
1932. Tratamos de observar os traços da narrativa dos três autores, de modo a detectar homologias e
diferenças para, com isso, pensar a constituição de certo padrão narrativo e modelo de ensino para a
história da educação. Nessa primeira aproximação, foi possível observar a existência de uma concepção
de história da educação como história da civilização, o que ajuda a compreender a perspectiva de
grande síntese contida nos três manuais, o amarramento cronológico, com a definição dos pontos de
mutação, a seleção de acontecimentos que funcionam como exemplos e contra-exemplos e a ênfase em
aspectos que se aproximam do programa ao qual os autores encontram-se associados: o compromisso
com o desenvolvimento das mais altas qualidades pessoais dos indivíduos, com o pragmatismo e com o
progresso. Ao lado disso, no tocante ao textbook brasileiro, chama atenção a visada relativa à história
da América Latina, à do Brasil e ao denominado movimento da Escola Nova. Nesse caso específico, ao
introduzir essa diferença, Afranio Peixoto explicita seu duplo compromisso: com o pan-americanismo e
com o escolanovismo. No entanto, no primeiro esforço, há indícios de conversão da experiência norte-
americana em grande exemplo a ser seguido pelo conjunto dos outros 21 países latinoamericanos e, no
segundo, uma plêiade de referências distribuídas entre Europa e Américas, com destaque para autores
dos EUA e do Brasil, alguns deles muito ligados ao próprio Peixoto, como aquele que o convidara para
ministrar a disciplina, seu conterrâneo Anísio Teixeira. Portanto, se é possível reconhecer elementos
comuns contidos nas três narrativas, também identificamos a introdução de conteúdos específicos
como marca das contingências que modularam os cursos ministrados e os livros que resultaram das
intervenções desses homens em diferentes ambientes de formação de professores: na “cidade-capital”
do século XX e na capital do Brasil.

1231
MANUAIS DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: DA MATERIALIDADE ÀS ESTRATÉGIAS NARRATIVAS

CARLOS EDUARDO VIEIRA; ROBERLAYNE DE OLIVEIRA BORGES ROBALLO.


UFPR, CURITIBA - PR - BRASIL.

A análise historiográfica é regida pela compreensão, a um só tempo, textual e contextual das narrativas
históricas, considerando não somente o contexto da disciplina e da área de pesquisa da HE, mas,
também, os contextos intelectuais, políticos, religiosos correlatos ao campo. Logo, a partir dessa
premissa que demarca o método dessa investigação, manifestamos nosso interesse específico de
problematizar o gênero narrativo presente nos manuais de HE, particularmente aqueles produzidos na
primeira metade do século vinte, voltados para os cursos de formação de professores e escritos por
autores brasileiros. Essa necessária delimitação no amplo rol da cultura dos manuais de HE nos conduz
aos livros homônimos intitulados Noções de História da Educação, escritos por Afrânio Peixoto e
Theobaldo Miranda Santos. No conjunto de práticas utilizadas pela escola, os manuais escolares
possuem grande importância no movimento de comunicar, de ensinar, de incutir valores, hábitos,
atitudes e conhecimentos. Nesta perspectiva, o objetivo desse trabalho é analisar dois manuais de
História da Educação que serviram de suporte para os cursos de formação de professores no Brasil, a
partir da década de 1930. Essas obras pertencem à Coleção Atualidades Pedagógicas, sendo elas:
“Noções de História da Educação” (1933) de Afrânio Peixoto e “Noções de História da Educação” (1945)
de Theobaldo Miranda Santos. Esses livros foram editados pela Companhia Editora Nacional, no âmbito
do projeto editorial denominado Biblioteca Pedagógica Brasileira, dirigido por Fernando de Azevedo
(1931-1949). O impacto desses textos no campo educacional e, particularmente, no delineamento da
disciplina História da Educação é difícil de ser aferido, contudo a presença longeva desses manuais nos
programas da disciplina História da Educação, as suas tiragens e as suas sucessivas reedições são indícios
da fortuna das Noções na produção de sentidos e de representações sobre o passado educacional. Para
além dos sentidos do passado, as Noções intervieram de forma intensa na modulação de valores e de
condutas pedagógicas, uma vez que suas manifestas intenções eram intervir sobre as práticas presentes
nas escolas. Os textos, escritos a partir de visões de mundo contrastantes, revelam também o embate

60
entre pioneiros e católicos na perspectiva de conferir sentido ao mundo moderno e aos seus desafios,
tendo como pomo da discórdia o sentido e o papel da escola nova. A perspectiva metodológica utilizada
para este trabalho visa compreender as relações entre as obras e seus contextos de produção,
considerando a materialidade destes objetos culturais e pedagógicos, bem como as estratégias
narrativas mobilizadas no processo de produção do convencimento do público leitor.

1391
O ENSINO PÚBLICO COMO PROJETO DE NAÇÃO: A NARRATIVA HISTORIOGRÁFICA DA ‘MEMÓRIA’ DE
MARTIN FRANCISCO (1816-1823)

CARLOTA BOTO.
FACULDADE DE EDUCAÇÃO DA USP, SÃO PAULO - SP - BRASIL.

O presente trabalho integra um projeto mais amplo, com o objetivo de proceder à análise
historiográfica do documento de Martin Francisco à luz do diálogo ali estabelecido com o debate
iluminista, especialmente com o pensamento de Condorcet. No âmbito deste congresso, a comunicação
ora proposta tem por finalidade refletir sobre a Memória sobre a Reforma dos Estudos da Capitania de
São Paulo elaborada por Martin Francisco Ribeiro d’Andrada Machado, um dos três irmãos Andrada que
marcaram o Brasil em seu processo de Independência. Filho de pai português e mãe brasileira, Martin
Francisco – como ficou conhecido – nasce em Santos, de família endinheirada. Assim como seus irmãos
– José Bonifácio e Antônio Carlos -, teve oportunidade de estudar na Universidade de Coimbra, onde
teria tido amplo contato com a literatura iluminista. Entre os anos de 1815 e 1816, Martin Francisco
redigiu e debateu um plano de estudos sobre educação que ele próprio elaborara, prevendo
estabelecimento de escolas e organização dos estudos na Capitania de São Paulo. Esse plano recebeu,
na ocasião, parecer negativo de Luiz José Carvalho e Melo. O argumento de Carvalho e Melo era o de
que o referido projeto requereria, para ser implementado, a alteração de leis vigentes para todo o país;
e que, portanto, não faria sentido restringir sua aplicação a uma única capitania. Atento a tal
justificativa, Martin Francisco – por ocasião da Assembléia Constituinte de 1823 – oferece a arquitetura
de seu plano pedagógico para a Comissão de Instrução constituída por aquele plenário. A Memória
sobre a Reforma dos Estudos da Capitania de São Paulo é, naquela nova oportunidade, aplaudida na
sobredita comissão, que recomenda que o texto fosse publicado a expensas do tesouro público. Tal
proposta de publicação não se efetivou. Há, de maneira intermitente, alguma remissão ao referido
documento entre memorialistas e historiadores da educação. A presente comunicação tem o intuito de
apresentar esta fonte do que poderíamos compreender como história política da educação brasileira - à
luz dos comentários acerca dela exarados por seus analistas e críticos. É possível verificar, pela leitura do
texto, o diálogo que ali se estabelece com as principais referências pedagógicas do período,
notadamente o "Rapport et projet de décret sur l’organisation générale de l’Instruction publique",
elaborado pela Comissão de Instrução Pública da Assembleia Legislativa da França revolucionária e
apresentado no plenário entre os dias 20 e 21 de abril de 1792. Nota-se que a trajetória parlamentar
dos dois documentos possuem alguma identidade, bem como o conteúdo dos dois textos. Buscar-se-á,
portanto, compreender a narrativa do documento de Martin Francisco, investigando a interlocução que
ele estabelece com as matrizes teóricas das quais se vale. As lentes do olhar historiográfico serão, nesse
aspecto, a ferramenta de aproximação dos dois cenários.

61
BRASIL, PORTUGAL E ESPANHA: CONCEITOS E EXPERIÊNCIAS DE EDUCAÇÃO ANARQUISTA
Coordenador: JOSÉ DAMIRO MORAES

912
"LEITURA QUE RECOMENDAMOS - O QUE TODOS DEVEM LER": LIVROS DIDÁTICOS UTILIZADOS NAS
ESCOLAS ANARQUISTAS

JOSÉ DAMIRO MORAES.


UNIVERSIDADE FEDERAL DOS VALES DO JEQUITINHONHA E MUCURI, DIAMANTINA - MG - BRASIL.

Essa comunicação tem como objetivo contribuir para o aprofundamento do conhecimento histórico em
educação, ao realizar estudo sobre a circulação e análise dos materiais didáticos produzidos pelos
anarquistas. Esse estudo faz parte de um projeto de pesquisa que trata do conceito de educação
integral no pensamento anarquista. A Educação foi tema presente nas discussões e práticas no campo
socialista libertário do século XIX e XX, inspirando práticas e publicações. Apesar de existir algumas
dúvidas referentes à possibilidade dessa proposta, os ideais educacionais anarquistas se propagaram.
Paul Robin (1837-1912) e Francisco Ferrer i Guardia (1850 - 1909) foram dois importantes educadores
que desenvolveram experiências e influenciaram a criação de escolas em diversos países. Assim, Paul
Robin dirigiu de 1880 a 1894 o Orfanato de Prévost em Cempuis, na França e publicou suas reflexões
sobre educação integral sendo considerado referência na área pela Associação Internacional dos
Trabalhadores na década de 1860. Francisco Ferrer, além de fundar a Escola Moderna em Barcelona,
criou uma editora para produzir e publicar os livros, a "Biblioteca da Escola Moderna". Foram dezenas
de publicações inclusive um boletim que recebia contribuições do alunos e divulgava ações e questões
teóricas do racionalismo - proposta pedagógica criada por Ferrer. Nesse sentido, os anarquistas
brasileiros investiram na publicação e divulgação de material para dar suporte teórico às suas ações
educacionais. Podemos encontrar no jornal A Voz do Trabalhador (1908-1915) e na revista A Vida (1914-
1915) a orientação: “Leitura que recomendamos – O que todos devem ler”. Entre vários livros e autores,
destacamos para o campo educacional obras teóricas e outras para serem utilizados na aprendizagem
como: Adolfo Lima, O Ensino da História e Educação e Ensino: educação integral; Flamarion, Iniciação
Astronômica; Darzens, Iniciação Química; Laisant, Iniciação Matemática; Brucker, Iniciação Zoológica e
Iniciação Botânica; Guillaume, Iniciação Mecânica; Clemencia Jacquinet, História Universal, entre outros.
Importante destacar que muitos desses livros se destinavam às escolas e eram publicações da Biblioteca
da Escola Moderna. Como exemplo, o compêndio de História Universal de Jacquinet que discutia os
acontecimentos históricos e explicava o funcionamento da sociedade a partir da ótica do proletariado.
Outra obra emblemática é "Las aventuras de Nono" de Jean Grave, considerado como segundo livro de
leitura por Ferrer. Ao observarmos os autores e obras percebemos a riqueza e a profundidade teórica
dos títulos sugeridos e aventamos que deveriam fazer parte das mesas de leituras das associações
operárias, dos centros de estudos sociais e dos bolsos de militantes e simpatizantes. A partir das análises
e interpretações procuramos perceber as diferenças, similitudes e compromissos na formação individual
e coletiva desejada pelo projeto libertário da construção de uma nova sociedade.

927
EDUCAÇÃO LIBERTÁRIA E IMPRENSA PERIÓDICA ESPECIALIZADA EM PORTUGAL NO INÍCIO DA
REPÚBLICA

LUIZ CARLOS BARREIRA.


UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SANTOS - UNISANTOS, SAO PAULO - SP - BRASIL.

Circulação de modelos sócio-pedagógicos que orientam práticas sociais concretas (ou que delas
emanam) é o eixo temático em torno do qual se movem os estudos e investigações que o autor vem
desenvolvendo nos últimos cinco anos. Nesse contexto de pesquisa, seus principais objetivos têm sido:
1) investigar processos de formação de trabalhadores urbanos no terreno da história social; 2)
privilegiar, nessa investigação, projetos pedagógicos não-institucionalizados, concebidos, desenvolvidos
e implantados consoante os interesses das classes trabalhadoras, sem perder de vista, entretanto, as

62
relações historicamente construídas entre esses e outros tantos projetos (institucionalizados ou não)
voltados para a formação do trabalhador urbano. Neste trabalho, resultados (parciais) dos estudos
realizados sobre a revista Educação Social são apresentados. Educação Social é uma revista de
Pedagogia e Sociologia, publicada em Lisboa entre janeiro de 1924 e outubro de 1927, cujo único diretor
foi Adolfo Lima e que teve Emílio Costa como um dos seus redatores delegados. Com ele, o autor dá
continuidade aos estudos e investigações anteriormente referidos, especialmente ao seu último projeto
de pesquisa, intitulado Imprensa periódica e circulação de modelos sócio-pedagógicos: experiências de
educação libertária em Portugal no limiar do regime republicano (1911-1919), no qual analisou os
seguintes periódicos: revista Lúmen (1911-1913), revista Educação (1913), boletim Cultura Popular
(1919) e Boletim da Escola Oficina Nº 1 de Lisboa (1918). Adolfo Lima e Emílio Costa e suas ligações com
as pedagogias modernas, particularmente com a pedagogia libertária, constituem o principal elo da
revista Educação Social com esse conjunto de periódicos. Apresentar alguns dos principais traços do
modelo sócio-pedagógico que Educação Social fez circular é o objetivo deste trabalho. Por fim, convém
esclarecer que o termo “formação” (do trabalhador urbano) é aqui tomado em seu sentido mais amplo,
que abarca um vasto universo de práticas e saberes que vão desde os primeiros aprendizados informais,
obtidos pelo sujeito por meio de sua experiência imediata, seja no convívio com a família, seja com os
grupos sociais dos quais participa, até os mais formais, proporcionados pela educação escolar. E, ainda,
que é no terreno da história social que a imprensa é abordada, ou seja, como prática social concreta e
momento de constituição e instituição de diferentes modos de viver e pensar. De acordo com esses
pressupostos, a identificação dos projetos, das lutas e disputas dos sujeitos dessa prática é de
fundamental importância para a apreensão dos sentidos que esses sujeitos atribuíam à própria prática.

977
EXPERIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO LIBERTÁRIA NA ESPANHA ENTRE 1909 E 1939

ANGELA MARIA SOUZA MARTINS.


UNIRIO, RIO DE JANEIRO - RJ - BRASIL.

Pesquisamos há cinco anos as propostas de educação libertária, com o intuito de compreender os


princípios educacionais contidos nessa experiência, como também a sua relação com os movimentos
sociais, no início do século XX. Buscamos recuperar fontes como: jornais, livros didáticos e outros
registros, produzidos por pensadores que se baseavam na perspectiva denominada libertária. Ao longo
da trajetória de nossa pesquisa, apareceram vários registros da educação produzida na Espanha, nas
primeiras décadas do século XX. Verificamos que as organizações sindicais, especialmente na região da
Catalunha, entre 1909 e 1939, propuseram várias experiências educacionais com o intuito de criar
projetos educativos diferentes das propostas educacionais vigentes na Espanha. Eram experiências
educacionais oriundas de um sindicalismo libertário, que, em sua maioria, se baseava na proposta
pedagógica da Escola Moderna, criada por Ferrer y Guardia, na primeira década do século XX. Os
sindicalistas libertários criticavam a Lei Geral de Educação da Espanha e mostravam que os problemas
quantitativos da educação eram apresentados distanciados dos problemas qualitativos, por isso a
Espanha precisava de um modelo educacional diferente do estabelecido para enfrentar o analfabetismo
e criar uma escola que possibilitasse o fortalecimento do pensamento crítico. Essas experiências
educacionais baseavam-se nos seguintes princípios: laicidade, racionalidade e anti-estatal. A educação
deveria: a) ser tratada como problema político; b) enfrentar os preconceitos patrióticos-chauvinistas e
os dogmas religiosos; c) possibilitar o ensino científico e racional; d) ser emancipadora. Destacamos que,
na primeira década do século XX, havia na Catalunha uma crise partidária e nesse período surgem os
partidos nacionalistas e republicanos. É um momento em que está no auge o partido da direita civilizada
e a Liga Regionalista dos Prat de la Riba. Há uma crise da metalurgia e do ramo têxtil, com baixos
salários e super exploração do trabalho. É um período que apresenta ações de terrorismo, provocações
e repressão. Havia uma forte perseguição aos sindicalistas, principalmente da tendência anarquista.
Nesse momento crescem, entre os sindicalistas espanhóis, as táticas do sindicalismo revolucionário e
também o anticlericalismo. Registramos também que desde o final do século XIX, em várias comarcas da
Catalunha, havia uma luta por escolas laicas e de livre pensadores. Inseridos nessa conjuntura política e
social, a Federação de Trabalhadores da Região Espanhola passou a recomendar em seus Congressos,

63
nas primeiras décadas do século XX, que as sociedades trabalhadoras criassem escolas laicas, pois
acreditavam que a emancipação e a instrução deveriam ser obras do próprio trabalhador.

931
ASPECTOS DA TRAJETÓRIA POLÍTICO-PEDAGÓGICA DE JOSÉ OITICICA, PROFESSOR DO COLÉGIO PEDRO
II E MILITANTE DA EDUCAÇÃO LIBERTÁRIA (1905 – 1950)

CRISTINA APARECIDA REIS FIGUEIRA.


PUC-SP - PMSP, SAO PAULO - SP – BRASIL
.
A presente pesquisa de cunho historiográfico constitui-se em um desdobramento da tese de Doutorado
intitulada A trajetória de José Oiticica: o professor, o autor, o jornalista e o militante anarquista na
educação brasileira que operou a reconstituição da trajetória e do itinerário de formação do catedrático
do Colégio Pedro II e militante anarquista José Rodrigues de Leite e Oiticica (1882-1957), educador
envolvido tanto nas ações da propaganda social libertária em jornais, em conferências do livre
pensamento, no teatro social, quanto nos projetos educacionais que circularam em padrões
diferenciados na História da Educação Brasileira. Autor de uma profícua produção intelectual
relacionada aos estudos da lingüística, da literatura, da música, da poesia, do teatro e do ideário
anarquista, cuja expressividade pode ser encontrada em numerosos artigos para a imprensa anarquista
e grande imprensa carioca, em seus manuais didáticos, em suas peças teatrais, em seus sonetos e em
seus ensaios sociológicos. Esta comunicação tem como objetivos destacar aspectos da trajetória
político-pedagógica de José Oiticica, professor do Colégio Pedro II, de sua participação na imprensa
periódica e nas conferências sociais nos Centros de Cultura no Brasil. Para a consecução da pesquisa
priorizou-se editorias e artigos de seu diretor, em especial, aqueles que trataram dos temas da
educação libertária e das estratégias e táticas para formação da “sociedade nova” por meio do debate
jornalístico. Por meio do exame de seus artigos jornalísticos, livros, opúsculos e manuscritos de aulas,
correspondência ativa e passiva e incursões nas historiografias da classe operária e da educação
brasileira, nos projetos educacionais que circularam em seus diferentes modelos, sobretudo entre os
anos de 1905 e 1950. A partir da evidência interrogada tratada por E. P Thompson, procurou-se
construir a pesquisa, em observação à lógica adequada aos materiais reunidos em observação à
seqüência de conteúdos detectada pelo exame das fontes primárias, por meio da reconstituição de
documentos e do diálogo com as fontes, seguindo os seus indícios, pistas e sinais sob inspiração de Carlo
Ginzburg. A discussão sobre as práticas educativas libertárias de José Oiticica justifica-se pelo fato de
trazer para o debate alguns princípios que orientaram a experiência do vivido nos projetos da educação
libertária, que, na contramão do pessimismo reacionário e do otimismo ingênuo, tinha o princípio da
reflexão, das ações direcionadas a projetos educacionais individuais, de pequenos grupos e quiçá
coletivos, e, principalmente, pelo fato de a pesquisa ser uma contribuição para o debate educacional
sobre os padrões de educação considerados vencidos, particularmente os relacionados aos projetos da
educação anarquista.

941
ESCOLA PAIDÉIA: QUEM SÃO E O QUE FAZEM HOJE OS EX-PAIDEIANOS?

CLOVIS NICANOR KASSICK.


UNISUL, FLORIANOPOLIS - SC - BRASIL.

Há vários anos vimos nos dedicando a pesquisar ações desenvolvidas por processos educativos
organizados sob bases libertárias. Inicialmente analisamos a organização didática de uma “Escola
Alternativa”. Na seqüência dos estudos, pesquisamos, em 1999, a organização didática da Escola
Paidéia, da cidade de Mérida-Espanha. O objetivo daquela pesquisa era o de identificar as ações
pedagógicas e os papéis desempenhados por professores e alunos, considerando os princípios de
liberdade e autoridade. Para entender a “arquitetura organizacional” capaz de formar “subjetividades
autônomas”, vivemos, naquela ocasião, por dois meses, a Paidéia. A imersão no cotidiano da escola nos

64
permitiu acompanhar esta construção, cuja base é o processo autogestionário. Transcorrido dez anos
daquela vivência, retornamos à Paidéia para, em conversa com os ex-alunos, agora na faixa de idade dos
30-35 anos, sabermos sobre como vivem, como ocorre sua inserção na sociedade e, especialmente, no
mercado de trabalho e como avaliam sua formação. Para esta nova pesquisa, consideramos
imprescindível, duas condições básicas: a primeira delas, a “vivência” do ambiente em que tais
experiências educativas estavam ocorrendo, e a segunda, o olhar arguto e atento – de historiador - para
apreender a nuance em que tal “arquitetura organizacional” se desenvolvia. Estes requisitos, Le Goff
(2006) entende como indispensáveis para que se possa produzir história, pois a vivência e a inserção
plena no ambiente em que os fatos, fenômenos e/ou acontecimentos ocorrem é fundamental para que
o pesquisador tenha uma visão da totalidade que os produzem e assim, possa, num novo olhar,
estabelecer uma nova leitura sobre os mesmos, buscando entender a quais códigos, regramentos,
convenções, costumes que estas experiências estão expressando e/ou buscam burlar, estabelecendo,
simultaneamente, novos códigos, regras, convenções e costumes. Para tanto, foi necessário um
“escavar” do ambiente para que, no papel de historiador, pudesse (re)constituir a história constituída,
agora, sob novo olhar. Foi preciso, decifrar, aprender, interpretar os códigos implícitos nos diferentes
fazeres para, conforme afirma ele, “restituir a vida” aos fatos, fenômenos, personagens. Para isso, a
entrevista configurou-se como ferramenta indispensável a este re-construir histórico, pois não basta
estar atento ao dito, é necessário “ler” os jeitos e trejeitos, o tom de voz, os movimentos, os parênteses
estabelecidos nas falas, enfim... o não dito, ou seja, tudo aquilo que o diálogo direto permite ler nas
entrelinhas através das pausas, reticências, que revelam a comunicação efetiva dos sentimentos e a
eloqüência que o registro das palavras não permitem. Assim, o presente trabalho analisa a inserção dos
egressos desta escola, quanto a: profissão escolhida; local de trabalho e adequação da conduta
individual à conduta profissional.

INTELECTUAIS E PROCESSOS DE PRODUÇÃO ESCRITA NA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO NO BRASIL


Coordenador: ARLETTE MEDEIROS GASPARELLO

1140
A PEDAGOGIA MODERNA PELO MANUAL DE EVERARDO BACKHEUSER

HELOISA DE OLIVEIRA SANTOS VILLELA.


UFF, NITEROI - RJ - BRASIL.

As trocas recentes entre a história cultural e a história da educação elegeram novas fontes de pesquisa,
como o impresso pedagógico, pela possibilidade que oferecem de resgatar a historicidade dos processos
educacionais. No século XIX e primeiras décadas do XX, a maioria dos livros didáticos brasileiros foi
escrita por intelectuais que de alguma maneira encontravam-se ligados ao ensino, seja como
professores, funcionários da administração pública, tradutores de obras didáticas. Para analisar esse
tipo de produção torna-se necessário contextualizar seus autores, suas redes de sociabilidades e suas
trajetórias no campo educacional. Esta pesquisa tomou como objeto o Manual de Pedagogia Moderna
de Everardo Backheuser, obra largamente difundida nos cursos normais católicos e leigos, com pelo
menos cinco edições identificadas: 1934, 1936,1942,1948 e 1958. O estudo dialogou com o referencial
da história intelectual (Sirinelli, Bessone, Martins) procurando entender as condições de produção desse
impresso. Para tal situou o autor em sua geração, articulando dados de sua formação acadêmica,
política, inserção no mundo das letras, prática profissional, docência e militância nos movimentos do
magistério. Em seguida, deu destaque a sua conversão ao catoliciscimo, à rede de sociabilidades católica
que constituiu e o conseqüente posicionamento na política de classe do magistério, quando rompe com
a ABE (1931), da qual foi membro fundador e cria a Confederação Católica de Educação (1933). A análise
do Manual contribuiu para superar clichês que pré-definem o escolanovismo católico e questionar uma
visão historiográfica que percebe a produção do período como “adaptação” de teorias e modelos
estrangeiros a nossa realidade. Busca no conceito de Sobe de “histórias entrelaçadas” a chave
interpretativa para os diálogos e apropriações originais que o autor faz de suas referências, bem como

65
das viagens ao exterior que realiza. Utilizando um referencial muito variado que vai dos autores alemães
e belgas aos americanos e brasileiros, constrói suas próprias propostas em relação a temas como escola
e democracia, escola neutra, escola laica, relações entre pedagogia e ciência, e uma biotipologia que
certamente deixaram suas marcas na formação de gerações do magistério brasileiro. O trabalho tentou
se aproximar da recepção desse manual para identificar indícios de que foi utilizado tanto nas escolas
normais católicas quanto nas oficiais. Confirma a proposição sugerida por Magaldi de que, não obstante
algumas diferenças, havia muitos pontos de convergência entre a produção de católicos e liberais,
sobretudo no tocante à cientifização dos saberes pedagógicos e das práticas educativas. Conclui que
mais do que cópias ou adaptações, esses intelectuais-autores realizavam suas formulações a partir das
idéias que circulavam, apropriações essas que só adquirem sentido se relacionadas a experiência de vida
de cada um deles.

1076
PROFESSORES/AUTORES, PRODUÇÃO DIDÁTICA E ENSINO DE HISTÓRIA

ARLETTE MEDEIROS GASPARELLO


UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE, NITEROI - RJ - BRASIL.

O estudo apresenta resultados parciais de pesquisa sobre a produção escrita de professores e


historiadores do final do século XIX e início do século XX sobre ensino de história, tendo em vista sua
contribuição para a constituição deste saber escolar. A pesquisa insere-se no campo teórico
metodológico da história cultural e da nova história intelectual, que estimulam abordagens relacionais
sobre autores, suas obras e seu contexto. Uma produção intelectual é percebida no espaço cultural que
a define e na especificidade da história da sua disciplina, na sua relação com as outras produções
culturais do seu tempo bem como nas suas relações com outros aspectos da realidade socioeconômica e
política. Os principais textos analisados foram: L’enseignement secondaire de l’histoire en France,
publicado em 1898, dos professores e historiadores franceses Charles-Victor Langlois (1863-1929) e
Charles Seignobos (1854-1942); a coleção didática Histoire de La Civilization, de Charles Seignobos; os
livros didáticos dos professores do Colégio Pedro II no Rio de Janeiro João Ribeiro (História Universal) e
Jonathas Serrano (História da Civilização). Os trabalhos históricos de Langlois e principalmente de
Seignobos tiveram grande circulação no Brasil, lidos e referenciados pelos autores didáticos e demais
estudiosos. A metodologia da pesquisa compreende a obra intelectual em seu contexto de produção e
leva em conta a participação dos autores como sujeitos ativos, instituintes de uma nova configuração
educacional. Este trabalho dialoga com a história das disciplinas escolares, que congrega pesquisas que
têm em comum a preocupação em identificar a dinâmica do seu processo de constituição em suas
relações internas e externas à escola. Os professores/autores são percebidos a partir de sua inserção no
grupo dos intelectuais e suas práticas sociais ligadas aos processos de escolarização e de saberes
pedagógicos. A metodologia aproxima-se dos estudos sobre a relação entre linguagem e história, na
medida em que todas as experiências históricas que temos só se tornam experiências pela mediação da
linguagem. Neste aspecto, a direção contextualista da história conceitual alemã (Reinhart Koselleck)
contribui para a análise dos textos em sua historicidade, ao procurar entender, em um dado texto, o
modo como estes faziam sentido para o seu autor ou para um leitor seu contemporâneo. A análise
focalizou as interlocuções, as similaridades e inovações conceituais nas fontes selecionadas, com
atenção ao uso de conceitos gerados na reflexão sobre a prática educacional, da qual participaram
ativamente os autores dos textos que serviram de fontes para o estudo. As conclusões destacam tais
relações com a participação instituinte de historiadores e professores de História, que recriaram
conceitos do campo semântico da pedagogia escolar a partir da experiência docente e da reflexão sobre
a História e o ensino.

66
1096
HIGIENE ESCOLAR E EDUCAÇÃO DA INFÂNCIA NA OBRA DO MÉDICO ARTHUR MONCORVO FILHO DE
1909 A 1922

SÔNIA OLIVEIRA CAMARA RANGEL.


UERJ, RIO DE JANEIRO - RJ - BRASIL.

Uma década após a Proclamação da República foi criado, no Rio de Janeiro, pelo médico Arthur
Moncorvo Filho, o Instituto de Proteção e Assistência à Infância (1899). Destinado a amparar, proteger e
assistir à infância, o Instituto pretendia coligar iniciativas médicas e educativas direcionadas a preservar
a vida e desenvolver econômica e socialmente o país. Nesta linha de ação, o Instituto pretendia instituir
a higiene pública social realizando estudos dos problemas e das formas de tratar a infância. Firmando-se
a partir da vertente assistencial científica, o Instituto colocou em prática um conjunto de procedimentos
tendentes a organizar e difundir saberes acerca da higiene, da prevenção e dos cuidados necessários à
criança. Temáticas como o alcoolismo, a degeneração humana, a procriação, a eugenia, a higiene
pública e privada, a higiene escolar, a mortalidade infantil e a tuberculose constituíam-se como
questões-problema recorrentes nos escritos do médico Moncorvo Filho, bem como nas campanhas
pedagógicas encetadas por ele. Sob sua batuta foi criado, em 1909, na gestão do Prefeito Serzedelo
Corrêa, no Distrito Federal, o Serviço de Inspecção Sanitária Escolar. Dentre suas intenções, o Serviço
objetivava promover a inspeção sanitária das escolas, a profilaxia das moléstias transmissíveis, a
inspeção médica individual e a vigilância sanitária das escolas, entre outros. Com base nas intenções que
mobilizaram a criação do Serviço interessa-nos refletir acerca da concepção de higiene escolar
elaborada por Moncorvo Filho para o Serviço, bem como na produção de impressos relativos ao tema.
Com esse intuito, centralidade será direcionada aos livros, aos cartazes, às alocuções e aos guias do
médico escolar escritos no período de 1909 a 1922. A periodização justifica-se considerando que, nesse
interregno de tempo, concentrou-se grande parte dos escritos de Moncorvo sobre higiene escolar.
Exemplo disto, foram os livros Inspecção Médica Escolar (1909), Guia de Hygiene Escolar (1911), Guia
Médico Escolar (1914), Hygiene Escolar e Hygiene Infantil (1917) e Inspecção Medico Escolar (1922). Do
conjunto dessa produção, destacaremos três livros: o de 1909, o de 1917 e o de 1922, como foco de
nossa análise. Assim como parte das preocupações de pesquisa, pretendemos analisar os livros
problematizando as concepções de higiene escolar e educação que nortearam a sua escrita, localizando-
os no conjunto dos debates e das iniciativas destinadas a atuar sobre a infância no período em
destaque. Pensar sobre as formas como o saber médico perspectiva à escola e os seus sujeitos sociais
pode contribuir para entendermos como os diferentes saberes (médico e pedagógico) instituíram
interfaces e perfis que condicionaram o lugar da criança normal e anormal na escola.

1277
VOZES DE PROFESSORES: A REVISTA O ENSINO PRIMÁRIO (1884-1885)

NAILDA MARINHO DA COSTA BONATO.


UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO - UNIRIO, RIO DE JANEIRO - RJ - BRASIL.

A apresentação se insere na proposta de comunicação coordenada intitulada “Intelectuais e processos


de produção escrita na história da educação no Brasil” que “explora a possibilidade de reconfiguração
da base documental no processo de pesquisa”. Neste sentido, na perspectiva da história cultural do
impresso (CHARTIER) visa proceder uma análise de dois números microfilmados da revista mensal
intitulada “O ensino primário” datados de 31 de maio de 1884 (anno I, n. 1) e de 15 de agosto de 1885
(anno II, n.4). Portanto, trata-se do primeiro número da revista mensal consagrada aos interesses do
ensino e redigida por professores primários que teve 3.000 assinaturas por ano e do quarto número que
teve 5.000 assinaturas por ano. A tipologia documental – revista - do impresso objeto de análise está
explícita em sua folha de rosto. Classificada como imprensa pedagógica, os dois números da revista
contém artigos que possibilitam estudos sobre a feminização do magistério; o ensino público do Rio de
Janeiro; a Escola Normal da Corte; o Colégio Pedro II; os pareceres sobre o ensino primário de Rui
Barbosa; concurso para provimentos de cadeiras públicas e as polêmicas instituídas; a formação de

67
professores e professoras; salários de professores; escolas públicas primárias do sexo masculino;
manifestação de professores contra o poder público; entre outras temáticas; contribuindo, por exemplo,
para novas leituras sobre o processo de formação e conformação da categoria profissional docente e de
feminização do magistério neste nível de ensino. A análise de seus elementos extrínsecos não possibilita
a indicação do editor, mas as pesquisas na área indicam o jornalista e professor Luiz Antonio Reis como
seu redator-chefe. Tem como palavra de ordem: “Abrir escola é fechar prisões”. Os dois exemplares
foram encontrados no acervo de Obras Raras da Biblioteca Nacional. Questões como: a que ideário
político-ideológico essa revista se filiava? Que fundamentos político-filosóficos estariam no cerne de sua
produção e circulação? Quem eram os sujeitos/professores e professoras que nela se expressavam e
faziam circular suas idéias? Quais eram seus interlocutores? Qual a forma e os objetivos de sua
distribuição? Como era financiada? A busca de respostas a estas questões respalda-se em reflexão
histórica que leva em consideração, como metodologia (a) leituras sobre uso desse tipo de fonte para
pesquisa em história da educação; (b) leitura aprofundada dos impressos selecionados em forma e
conteúdo aliada a análise de outras fontes documentais; (c) pesquisa bibliográfica tendo em vista o
movimento educacional existente no período estudado de circulação da revista.

1108
EDUCAÇÃO DE MENINAS E MOÇAS POR MEIO DA TRADUÇÃO E DA EDIÇÃO DE ROMANCES

MÁRCIA CABRAL DA SILVA.


UERJ, RIO DE JANEIRO - RJ – BRASIL

No campo da História Cultural e, de modo específico, no campo da História da Educação nas últimas
décadas, observa-se uma diversidade de fontes utilizadas como instrumental metodológico de
investigação. Ao se problematizar os usos de fontes tradicionais na pesquisa histórica em diálogo com
outras áreas das Ciências Sociais e Humanas, como a Sociologia, a Antropologia, a Teoria da Literatura,
como refletiu Lynn Hunt (2001), apontou-se para a possibilidade de reconfiguração da base documental
da pesquisa histórica, utilizando-se, inclusive, o impresso de modo mais amplo como objeto de análise
ou mesmo como fonte para a compreensão das práticas educativas. Além de uma breve revisão no
campo conceitual dos estudos literários, na perspectiva dos exames realizados por Terry Eagleton (2002)
e Antonio Candido (1998), neste trabalho pretende-se refletir, de modo específico, sobre os modos de
intervenção dos intelectuais Raquel de Queiroz e José Olympio na educação de meninas e moças por
meio da tradução e edição de romances. Com esta finalidade, examina-se um exemplar da Coleção
Menina e Moça, tradução dos romances da Bibliothèque de Suzette, lançada no Brasil pela Livraria José
Olympio Editora em 1934. Selecionou-se o romance A Conquista da Torre Misteriosa (1951), por ter sido
traduzido pela escritora Raquel de Queiroz, com inserções importantes no âmbito da editora. A
escritora, além da produção literária divulgada, passou a ser editada com exclusividade pela Livraria José
Olympio Editora nos anos de 1930, e atuou como uma das tradutoras dos romances que compunham a
Coleção Menina e Moça. Ao longo da análise, conjugam-se reflexões metodológicas e o exame do
romance em tela, adotando-se a problematização da relação entre literatura, educação e intelectuais
como horizonte privilegiado de investigação. Os resultados preliminares alcançados, no âmbito de uma
pesquisa mais ampla em andamento, permitem algumas considerações. De um lado, verifica-se a
educação de meninas e moças sob um sutil controle no período examinado, por intermédio de obras
ficcionais afiançadas a um só tempo por uma editora, que passa a gozar de prestígio no campo editorial,
a par da intervenção da escritora-tradutora exclusiva da Livraria Editora. De outro, sublinha-se a
sociabilidade entre a escritora e o editor, que construíam formas de distinção nas malhas literárias e
editoriais. Por último, indicam-se algumas possíveis contribuições para o debate sobre modos de se
educar pela produção e circulação de obras ficcionais nas fronteiras dos estudos ancorados na História
Cultural, na Teoria da Literatura e na História da Educação.

68
HISTÓRIAS DE VIDA E NARRATIVAS AUTOBIOGRÁFICAS:
PESQUISAS E MEMÓRIA EM HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO
Coordenador: WOLNEY HONÓRIO FILHO

917
BRAZ JOSÉ COELHO: RASTROS E TRILHAS

WOLNEY HONÓRIO FILHO.


UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS - CAMPUS CATALÃO, CATALAO - GO - BRASIL.

O professor Braz José Coelho, doutor em Linguística e Língua Portuguesa pela Universidade Estadual
Paulista "Júlio de Mesquita Filho", é um destacado educador e professor da Universidade Federal de
Goiás desde 1972, além de escritor consagrado no sudeste de Goiás. Sua história de vida foi gravada em
2009 e publicada em HONORIO FILHO, W. A memória desenhada: identidades de um intelectual no
interior de Goiás - Brasil. In: Revista Actualidades Pedagógicas, n. 54. Ediciones Universidad De La Salle,
Bogotà, Facultad de Educación, jul./dez. 2009. O presente texto busca fazer uma leitura intercultural da
narrativa autobiográfica do professor Braz. Este exercício de investigação faz parte de um projeto de
pesquisa em andamento, intitulado “Experiências de vida e formação docente em Goiás”. A leitura
intercultural, em pesquisa (auto)biográfica, segundo Delory-Momberger, busca identificar na biografia
educacional do narrador a multiplicidade de vozes perfilando heranças e partilhas, a cultura do Outro
presente nas vivências e narrativas sobre experiências do sujeito. A fala do professor Braz é pausada.
Fala fundamentalmente usando palavras e mãos. Fala com as mãos, escrevendo. A memória trançada na
entrevista, por meio da fala acompanhada dos rabiscos que ele ia fazendo, estabelece um canal de
comunicação entre ele e seu passado. Isto é tão vivo na sua maneira de falar, de lembrar, que é possível
dizer que sem esta prática de desenhar a memória, seria impossível lembrar. Ou seja, a lembrança
estaria presa, subjugada a um detonador: o desenho, o rascunho, a escrita. Num primeiro momento,
quando estamos fazendo a primeira pergunta e começando a ouvir as primeiras palavras do
entrevistado, a impressão é que a narrativa histórica que se inicia irá ser estática, anunciando fatos, algo
que se tem, que se adquiriu ao longo de uma linha do tempo da história de vida. Porém, o entrevistado
não é apenas um objeto da formação, mas também o sujeito. Um sujeito composto e múltiplo. Isto dá
uma dimensão dinâmica ao relato, pois é possível perceber que as histórias contadas estão cheias de
transformações na vida de uma pessoa. Transformações em que os(as) entrevistados(as) são sujeitos e
sujeitados. Estes são momentos charneira, de que nos fala Josso. Assim, neste trabalho de leitura e
interpretação da história do indivíduo, do ser e seu tempo, a abordagem biográfica anuncia que
reconhece a autonomia do sujeito, frente ao mundo no qual ele está mergulhado e que ao falar de si,
ele vai se transformando, permitindo e capacitando, através da sua narrativa, a mudanças face a novas
exigências sócio-culturais. Em 2009, o professor Braz José Coelho publica livro de contos escritos no final
dos anos 1950 e engavetados, conforme ele mesmo diz. O título do livro é o nosso subtítulo: “Rastros e
trilhas”. O propósito é simples: identificar nos rastros e trilhas da narrativa que o professor Braz nos
deixou, a presença dele no mundo e do mundo em que viveu nele mesmo.

918
NARRATIVAS AUTORREFERENTES COMO FONTES RELEVANTES NA CONSTRUÇÃO DE HISTÓRIAS DE
VIDA

MARIA HELENA MENNA BARRETO ABRAHÃO.


PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL - PUCRS, PORTO ALEGRE - RS - BRASIL.

É rico trabalhar com fontes que permitam diversificadas possibilidades de construção de dados e
informações em pesquisa (auto)biográfica, tais como fotos, filmes, narrativas de si, documentos
pessoais e oficiais que permitam triangulações de informações. Nessa Comunicação Coordenada
evidenciaremos, no entanto, as narrativas autobiográficas. Estas, quando prestadas oralmente, nos
proporcionam melhor entendimento do significado que tem o fato narrado para o sujeito da narração,
já que vemos a expressão facial, o olhar de quem narra, assim como ouvimos as diferentes entonações

69
de voz e os gestos do narrador. Demais fontes são peças importantes, para triangular informações, mas
complementares para esse entendimento. Outrossim, as triangulações de informações não têm o
sentido de garantir a veracidade dos fatos narrados, mas de procurar uma verticalizada compreensão
desses fatos que permita o estabelecimento de relações significativas entre eles e os contextos
vivenciais do sujeito da narração. A “verdade” é o que é “verdadeiro” para o narrador. Isto porque as
narrativas são ressignificadas no momento da narração, dada a natureza reconstrutiva e seletiva da
memória. Trabalhar com memória não implica buscar fatos como verdade absoluta, uma vez que a
memória não é um repositório passivo de fatos, mas, sim, um processo ativo de criação de significados.
As trajetórias narradas proporcionam a construção de sentido de uma vida – a narração dessa trajetória
não é resultante do que realmente ocorreu em termos de experiências e aprendizagens, mas é
resultante da organização desses elementos como um argumento com dimensão temporal, espacial e
de múltiplas relações sociais . A narrativa tem uma natureza temporal tridimensional, tendo em vista
que rememora o passado com olhos do presente, permitindo prospectar o futuro, razão pela qual o
próprio discurso narrativo não procura necessariamente obedecer a uma lógica linear e seqüencial. De
forma articulada com a perspectiva tridimensional do tempo narrado, entendemos a narrativa em uma
tríplice dimensão: como fenômeno (o ato de narrar-se operacionalizado em imbricação com o
investigador); como metodologia de investigação (a narrativa como fonte de investigação) e como
processo (de ressignificação do vivido) . Em síntese: a investigação que trabalha com narrativas
autobiográficas permite vivenciar o uso de metodologia de pesquisa que, mais do que ser mera técnica
de coleta de dados e de análise de informações, propicia, aos participantes, um outro significado, mais
substantivo, qual seja o de ressignificar a própria história pessoal/profissional, razão pela qual o
trabalho que relataremos no segundo e no terceiro momentos traz à reflexão o real sentido de se
trabalhar com narrativas autobiográficas, quando todos aprendem mais sobre si no processo, pois
igualmente refletem sobre a própria história, em contexto e em contraponto com a história do outro.

919
ZILAH MATTOS TOTTA: SÍNTESE DA EDUCAÇÃO E DO EDUCADOR

LOURDES MARIA BRAGAGNOLO FRISON.


UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS, PORTO ALEGRE - RS - BRASIL.

Zilah Mattos Totta foi um expoente na História da Educação no Rio Grande do Sul. Iniciou a carreira
como professora no meio rural. Oriunda da capital, muda-se para Harmonia, comunidade de imigrantes
que só falavam a Língua Alemã, idioma que Zilah aprendeu no convívio com alunos e pessoas da
comunidade. Pela manhã, lecionava turmas de níveis diferentes em uma escola pluriseriada e à tarde, ia
para a lavoura com os alunos, que costumavam auxiliar os familiares nas lides do campo, com a
finalidade de conhecer a realidade vivencial desses alunos. Ao retornar a Porto Alegre, trabalha em
escolas da rede estadual, exerce a direção de uma delas e cria uma escola estadual de ensino de ensino
médio, da mesma rede. Cria, igualmente, uma escola comunitária, de grande expressão, na capital, da
qual foi diretora. É a primeira mulher a exercer o cargo de Secretária de Educação do Governo do Estado
do Rio Grande do Sul, foi presidente do órgão de classe do magistério gaúcho – CEPERGS e conselheira
do Conselho Estadual de Educação. Foi, igualmente, professora universitária. Acreditava no valor da
profissão professor, na necessidade de ao aluno ser proporcionada a possibilidade de uma
aprendizagem com sentido e uma avaliação adequada a esse desiderato, e a necessidade vital de
liberdade para o ser humano, desde que ser livre é viver em função de uma autonomia espiritual capaz
de equilibrar os anseios da natureza humana, tendo em vista que a existência humana poderia ser
entendida como um contínuo peregrinar em busca da felicidade, em busca da libertação, perpassando o
homem desde a civilização grega até o homem da pós-modernidade. A História de Vida de Zilah integra
uma série de Histórias de Vida de destacados educadores rio-grandenses que construímos no seio da
pesquisa intitulada “Identidade e Profissionalização Docente – narrativas na primeira pessoa”, apoiada
pelo CNPq e desenvolvida com base em narrativas de pessoas-fonte, trianguladas entre elas e entre
documentos, fotos, filmes. A leitura transversal dessas Histórias de Vida nos permite visualizar
elementos constitutivos não só das trajetórias individuais desses educadores, mas também aqueles que
constituíram/constituem a história da educação no Estado do Rio Grande do Sul. Nessa perspectiva são

70
utilizadas na universidade como elementos de formação de professores, não no sentido de serem
modelares para cópia, mas no auxílio para a compreensão de aportes do pensamento educacional que
sustentou/sustenta a formação de professores, bem como práticas e culturas escolares que ainda hoje,
de modo geral, se perpetuam. A História de Vida de Zilah Mattos Totta está publicada, na íntegra, em
ABRAHÃO, M.H.M.B. (Org.) Identidade e Profissionalização Docente – narrativas na primeira pessoa,
Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004 (2. ed.). p. 207-251 e de forma mais compacta em: FÁVERO, M.L.A. &
BRITTO, J. M. (Orgs.) Dicionário de Educadores no Brasil: da colônia aos dias atuais. Rio de Janeiro:
Editora UFRJ, 2002. p. 984-990.

920
ISOLDA HOLMER PAES: A CONSTANTE APRENDIZ, A ETERNA PROFESSORA

BERENICE GONÇALVES HACKMANN.


FACULDADES INTEGRADAS DE TAQUARA - FACCAT, TAQUARA - RS - BRASIL.

Isolda Hommer Paes tinha uma personalidade marcante e era entusiasmada, criativa, ousada,
carismática. Numa época em que a maioria das meninas cursava o “primário” e eram encaminhadas “às
lides domésticas”, Isolda casa-se, sai de sua pequena cidade situada no Vale do Rio Paranhana, de onde
era oriunda, passa a residir em Porto Alegre, capital do Estado, começa a circular em um meio de
maiores exigências intelectuais e vence etapas: em apenas alguns anos, cursa “ginásio”, “colégio”,
forma-se na universidade e conquista espaços importantes no cenário educacional. Ao final do curso, é
convidada para ser Assistente na cadeira de Didática e para lecionar Didática Especial da Língua
Francesa na Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS.. Apaixonou-se pela profissão e
descobriu-se internamente. Naquele período, Isolda e Graciema Pacheco planejaram uma escola para a
realização do estágio dos “alunos-mestres” nas diferentes disciplinas da “escola secundária”. Nascia o
Colégio de Aplicação, fonte inesgotável de criatividade, inaugurado em 14 de abril de 1954, numa época
em que novas idéias surgiam para revigorar o ensino. Isolda introduziu no Colégio de Aplicação o ensino
de Línguas Estrangeiras e o ensino de Filosofia por níveis de conhecimento dos alunos. Criou também a
utilização da linguagem cinematográfica para o ensino de leitura e de narrações de contos,
oportunizando aos alunos desempenharem-se como narradores criativos. Através dos anos, exerceu
funções de Chefe de Departamento da Faculdade de Educação da UFRGS, onde criou o Laboratório de
Metodologia, Ensino e Currículo, onde se realizaram dezenas de investigações científicas. Isolda sempre
acreditou que o professor devia levar para a sala de aula uma nova inspiração, um estímulo, um desafio
à inteligência e sensibilidade do aluno. Essa ideia é que embasou, junto ao jornal Zero Hora, o projeto
“ZH na Sala de Aula”: trazer o mundo, a cidade, a localidade para a escola. A criança tinha de integrar-se
na realidade que lhe era oferecida como um convite à busca, à indagação... A História de Vida de Isolda
Holmer Paes é integrante de uma série de Histórias de Vida de destacados educadores rio-grandenses
que construímos no seio da pesquisa intitulada “Identidade e Profissionalização Docente – narrativas na
primeira pessoa”, apoiada pelo CNPq, na PUCRS, a partir de narrativas de pessoas-fonte, trianguladas
entre elas e entre documentos, fotos, filmes. A leitura transversal dessas Histórias de Vida nos permite
visualizar elementos constitutivos não só das trajetórias individuais desses educadores, mas também
aqueles que constituíram/constituem a história da educação no Estado do Rio Grande do Sul. Essa
História está publicada, na íntegra, em ABRAHÃO, M.H. M.B. (Org.) Identidade e Profissionalização
Docente – narrativas na primeira pessoa, Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004 (2. ed.). p. 139-168.

921
PROFESSORES NA PÓS-MODERNIDADE: NARRATIVAS DA SUBJETIVIDADE DOCENTE

JUAN JOSÉ MOURINO MOSQUERA.


PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL - PUCRS, PORTO ALEGRE - RS - BRASIL.

A preocupação pelo desenvolvimento da personalidade, especialmente na etapa da vida adulta, e a


educação de professores nos tem levado, desde os anos 70, a procurarmos, intensamente, aprofundar

71
em estudos das histórias de vida de educadores, através de manifestações de seus sentimentos,
cognições e níveis de interação social. Nosso ideário se configura claramente emanado de uma
Psicologia Humanista, perspectivado pela dimensão sociocultural. Como docentes e investigadores, nos
temos sempre voltado para o desenvolvimento da personalidade, cognição humana e problemática do
conhecimento na Educação. Também se tem acrescido as dimensões de uma Educação Social, que
tornam possível o processo mais amplo, crítico e voltado para os grandes grupos humanos. Cabe
esclarecer que, ao pensarmos sobre o tema dos professores na pós-modernidade, estamos tocando
naquilo que nos parece de grande relevância, já que nestes momentos, as incertezas, fragmentações e o
panorama que se oferece aos seres humanos, parecem incidir fortemente em suas vidas, em especial
nas cognições e sentimentos e, consequentemente, pode vir a repercutir decisivamente como um efeito
multiplicador no fazer pedagógico dos docentes. A pesquisa, de cunho qualitativo, teve o objetivo de
analisar narrativas de professores universitários, que atuam na Faculdade de Educação da Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do Sul - FACED-PUCRS. A área temática, que se preocupa
principalmente com o estudo da realidade cultural e a influência na vida pessoal e profissional de
professores, através de suas narrativas, é a pós-modernidade e sua influência na vida pessoal e
profissional dos docentes. As questões de pesquisa foram assim formuladas: Que vivências pessoais
narram os professores?; Que vivências profissionais narram os professores?; Que narram os professores
sobre seu desenvolvimento cultural? Os sujeitos da pesquisa foram escolhidos intencionalmente; são
seis docentes universitários em atividade há pelo menos cinco anos, que possuem diferentes vivências
profissionais e pessoais, isto é, desenvolvem atividades de ensino, pesquisa e publicações, com carga
horária maior do que 20 horas semanais, e têm reconhecimento e representatividade universitária. Foi
utilizada a entrevista de cunho biográfico, analisada através do estudo textual da narrativa, realizada por
meio de Análise de Discurso. Como produto da análise encontramos as dimensões: Opção pela profissão
e permanência nela; Influências Pessoais; Influências Profissionais; Percurso Existencial; e Influências
Culturais. Essas dimensões são semelhantes às dimensões encontradas nas narrativas dos professores
entrevistados em nosso estudo de Pós-doutorado, na Universidad Autônoma de Madrid-Espanha e em
estudos anteriores na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.

MODERNO, MODERNIDADE, MODERNIZAÇÃO: A EDUCAÇÃO


NOS PROJETOS DE BRASIL(SÉCULOS XIX E XX)
Coordenador: LUCIANO MENDES FARIA FILHO

950
MODERNO, MODERNIDADE, MODERNIZAÇÃO: TAVARES BASTOS, A INSTRUÇÃO E A CONSOLIDAÇÃO
DA NAÇÃO BRASILEIRA

JULIANA CESARIO HAMDAN.


UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO, BELO HORIZONTE - MG - BRASIL.

Objetivos: O presente trabalho pretende apresentar resultados parciais da análise realizada sobre as
formas de inserção política do jurista alagoano Aureliano Cândido de Tavares Bastos (1839-1875), no
Brasil Império, sobretudo no que se refere à defesa da educação e da abolição da escravidão. Tal análise
pretende colocar em evidência de que forma o debate realizado por meio de cartas, artigos em jornais e
publicações de livros expressava elementos relativos às suas idéias e concepções sobre o poderia ser
apreendido como moderno. Metodologia: A pesquisa em andamento arrola e analisa diversas
referências teóricas que possibilitam extrair do corpus documental relativo à vasta produção de Tavares
Bastos, os significados atribuídos por ele à idéia de moderno e de modernidade, focando, sobretudo, os
discursos em defesa da educação e da abolição da escravidão. Nesse sentido, recorre a procedimentos
que visam a articular criticamente a sistematização desse corpus de fontes variadas como, entre outras,
artigos de jornais, livros, cartas, aos conceitos que têm potencial explicativo dessas mesmas fontes, tais
como o de “repertório” e os da história social dos intelectuais, das idéias e da cultura, como ainda
aqueles referidos às interpretações sobre a nação brasileira e os brasileiros. O presente estudo pretende

72
compreender as formas por meio das quais um conjunto de concepções, formuladas pelo intelectual e
jurista alagoano (1839-1875), Aureliano Cândido de Tavares Bastos, articuladas em torno de questões
candentes à época, tais como a modernização da economia, a abolição da escravidão e a educação,
contribuiu para a construção e disseminação de um ideário de vida no Brasil, que fosse capaz de
congregar todos os que aqui viviam com vistas a formar uma nação e consolidar a ideia de povo
brasileiro. Pretende-se analisar as interlocuções do intelectual com as ideias em circulação no período,
com foco em autores e personalidades políticas brasileiras e européias, mas, sobretudo norte-
americanas, elegidas por ele, como sendo a expressão mais bem acabada da modernidade exigida aos
projetos de Brasil, presentes nos debates da época. Assim, o estudo pretende identificar e analisar o
lugar ocupado pela educação nos projetos de Brasil elaborados entre os debates presentes no período
de atuação política do intelectual e, ao mesmo tempo, compreender, por meio do corpus documental
analisado, o significado da educação nas nos projetos de Estado e de Nação propostos por Tavares
Bastos.

951
MODERNO, MODERNIDADE, MODERNIZAÇÃO: POLISSEMIAS E PREGNÂNCIAS

MARCUS VINICIUS CORREA CARVALHO.


UEMG, BELO HORIZONTE - MG - BRASIL.

Objetivos: O interesse desta comunicação é ponderar sobre a variegada apropriação e aplicação dos
conceitos de moderno, modernidade e modernização, propiciando uma interpretação crítica de sua
operacionalização por diferentes intelectuais brasileiros investigados no projeto de pesquisa “Moderno,
Modernidade, Modernização: a educação nos projetos de Brasil (séculos XIX e XX)” ora em andamento
sob a coordenação do Prof. Dr. Luciano Mendes de Faria Filho e da Profa. Dra. Maria do Carmo Xavier.
Metodologia: A pesquisa em andamento recorre a procedimentos que visam a articular criticamente a
sistematização de corpus de fontes variadas como, entre outras, artigos de jornais, epistolografia,
ensaios e textos de crítica cultural e literária, com leituras especializadas tanto no que tange aos
conceitos principais em questão como a temas relativos, como sejam os da história social dos
intelectuais, das idéias e da cultura, como ainda aqueles referidos às interpretações sobre a nação
brasileira e os brasileiros. Na presente comunicação, apresentar-se-ão algumas considerações iniciais
sobre a investigação ainda em curso através de texto sintético de caráter ensaístico.  Em texto
seminal sobre o tema em questão, Jacques Le Goff ensina que a palavra “moderno” emergiu com a
queda do Império Romano no século V, dando assim, já por sua longevidade, a dimensão da
complexidade de seus usos no curso desses dezesseis séculos. Assim, referir à etimologia do neologismo
modernus formado por modo, “recentemente”, surgido no século VI, contribui pouco para a
compreensão do largo campo semântico definido pela variedade de apropriações e aplicações que o
termo vem tendo desde então. A complexidade de usos multiplica-se, sobretudo, quando consideramos
as referências após a polêmica entre antigos e modernos iniciada em fins do século XVII e acirrada até
pelo menos a emergência da vaga romântica em fins do século XVIII. Exatamente este período, que
marca a emergência do pensamento histórico secularizado no ocidente, deflagra uma inflexão
determinante na sensibilidade, na reflexão e na atuação dos ocidentais sobre a natureza e a sociedade,
a qual Baudelaire nomeou em seu texto Le peintre de la vie moderne, publicado em 1863, de
“modernidade”. Nesse sentido, a modernidade, caracterizada como “época da história”, em que
dominam as categorias da “novidade”, da “superação” e do “progresso” sob a égide do marco da
Revolução Francesa, traduziu-se no Brasil, desde o último quartel do século XIX, como questão nacional
tratada como “modernização”. A polissemia implicada nesses termos convida a investigar criticamente
as suas permanências e pregnâncias em diferentes intelectuais que promoveram diferentes projetos de
Brasil através da educação nos séculos XIX e XX.

73
954
O MODERNO NA PEDAGOGIA: AS APROPRIAÇÕES DOS TEXTOS DE RUI BARBOSA PELO PENSAMENTO
EDUCACIONAL BRASILEIRO
1 2 3
LUCIANO MENDES FARIA FILHO ; MARIANA TAVARES VIEIRA ; MARCILAINE SOARES INÁCIO
1,2.UFMG, BELO HORIZONTE - MG - BRASIL; 3.UNINCOR, BETIM - MG - BRASIL.

PROPOSTA/OBJETIVO: É notória a presença marcante de Rui Barbosa nas pesquisas sobre o pensamento
educacional brasileiro. São inúmeros os trabalhos que, ao longo do século XX, tiveram como objetivo
aquilatar a contribuição desse intelectual e político na proposição/divulgação de parâmetros modernos
para a pedagogia no Brasil. Nesta comunicação, mobilizando as noções de apropriação, tomada de
empréstimo a R. Chartier, e de circulação/cicularidade cultural, tomada de empréstimo Carlo Ginzburg,
pretende-se analisar a forma como os professores e intelectuais brasileiros que escreveram sobre
educação se apropriaram da obra de Rui Barbosa, produzindo-a como documento-monumento que
demonstra, ao mesmo tempo, a genialidade do autor e seu protagonismo na introdução da pedagogia
moderna no Brasil. METODOLOGIA: Na pesquisa, consideramos como texto “inaugural” para análise das
formas de apropriação do pensamento de Rui Barbosa o texto de José Veríssimo - A educação nacional –
cuja primeira edição foi é de 1890, mas que foi mais amplamente divulgada a partir de sua segunda
edição, pela Francisco Alves, em 1906. O marco final desta nossa incursão pelas apropriações de Rui
Barbosa é o ano de 1954, quando Lourenço Filho publica o seu A pedagogia de Rui Barbosa, pela editora
Melhoramentos, livro que de uma vez por todas estabelece Rui Barbosa como um “grande pedagogo
brasileiro”. Estão sendo analisadas, consideradas, na pesquisa, as principais obras dos intelectuais da
educação brasileira que, entre 1906 e 1954, de formas diferenciadas, lidaram com o legado de Rui para
a educação brasileira. RESULTADOS: Temos percebido uma apropriação diferenciada dos textos
“pedagógicos” de Rui Barbosa longo da primeira metade do século XX. Sejam os Pareceres sobre a
Reforma da Instrução Pública, seja o livro “Lições de Coisas” que, apesar de “apenas”
traduzido/adaptado por Rui, é, em vários ocasiões, considerado como sendo se sua autoria, estes textos
comparecem em boa parte das obras até agora analisadas. Observamos que não há uma unanimidade
na apreciação e, muito menos, nas formas de mobilização dos referidos textos pelos diferentes autores,
ou mesmo, por um mesmo autor, em momentos distintos de sua carreira, como é o caso de Lourenço
Filho, conforme demonstraremos. A análise que empreendemos articula, assim, as principais expressões
do pensamento de Rui Barbosa com relação às expressões do moderno na pedagogia, procurando
compreendê-las aos discursos com as ideias em circulação na ambiência cultural do período.

943
MUDANÇA SOCIAL NO BRASIL: AS MULTIPLAS FACES DO MODERNO NA SOCIOLOGIA DE JUAREZ
RUBENS BRANDÃO LOPES

MARIA DO CARMO XAVIER.


PUCMINAS, BELO HORIZONTE - MG - BRASIL.

PROPOSTA/OBJETIVO: a comunicação focaliza a problemática da modernização e do desenvolvimento


brasileiro e pretende identificar e interrogar, idéias, conceitos e argumentos que demarcaram as
análises do sociólogo Juarez Rubens Brandão Lopes sobre os processos de mudança econômica e social
verificadas no Brasil entre as décadas de 1950/1960. O objetivo é apresentar as idéias mobilizadas no
debate público sobre o desenvolvimento brasileiro e analisar o modo pelo qual tais idéias plasmaram
formas de pensar a realidade nacional conformando um estreito vínculo entre a industrialização
(pensada como evento modernizador, capaz de substituir formas tradicionais de contato social por
outras mais modernas) e a mudança social. A análise dos dados se estabelece na interlocução com o
campo conceitual da história política privilegiando-se as noções de “repertório” (Charles Tilly) e
“estrutura da conjuntura” (Marshall Sahlins) com vista a apresentar uma interpretação sobre o papel da
intelectualidade na produção de entendimentos sobre o moderno e a modernização brasileira.
METODOLOGIA: o texto se organiza em duplo movimento. Examina-se o debate público sobre as
transformações econômicas e sociais em curso no Brasil nas décadas de 1950/1960 e identifica-se o

74
repertório de idéias e formas de agir por ele mobilizado. Analisa-se os sentidos atribuídos às mudanças
sociais em três estudos do sociólogo Juarez Brandão Lopes sobre a dinâmica do atraso e da
modernização brasileira: Sociedade Industrial no Brasil, publicado pela Difusão Européia do Livro em
1964, Crise do Brasil Arcaico publicado pela mesma editora em 1967 e Desenvolvimento e Mudança
Social, publicado pela Editora da USP em 1964. RESULTADOS: o entrecruzamento dos dados aponta o
quanto formas de pensar e formas de agir estão em íntima conexão e quanto expressam dilemas e
paradoxos vividos pela sociedade brasileira. O debate político e os estudos sociológicos sobre as
mudanças sociais no Brasil no recorte temporal da pesquisa sugerem a percepção da “indústria como
cultura”. Uma instituição capaz de desempenhar como função exemplar e subjacente, o papel de
agência de transformação da herança cultural tradicional. Nesse esquema interpretativo, a indústria
atua de forma semelhante à escola primária difundindo hábitos e comportamentos da cultura moderna
e citadina.

APRENDER A LER COM HILÁRIO RIBEIRO, ANTONIO FIRMINO PROENÇA E ARNALDO BARRETO
Coordenador: FRANCISCA IZABEL PEREIRA MACIEL

1316
ANTONIO FIRMINO DE PROENÇA E A PRODUÇÃO DE CARTILHAS E LIVROS DE LEITURA EM SÃO PAULO
NO INÍCIO DO SÉCULO XX

MARCIA DE PAULA GREGORIO RAZZINI.


CEFIEL-IEL-UNICAMP, SAO PAULO - SP - BRASIL.

Apoiada em pressupostos teórico-metodológicos da história cultural, da história do livro e da leitura


(Chartier, 1990; Darnton, 1990), da cultura escolar (Chervel, 1998; Julia, 2001) e da história das
disciplinas escolares (Chervel, 1990; Bittencourt, 2003; Viñao, 2007), a comunicação que integra
proposta de mesa coordenada focaliza a produção de livros destinados ao ensino-aprendizagem (inicial
e de desenvolvimento) da leitura e da escrita nas escolas elementares do estado de São Paulo nas
primeiras décadas do século XX, tomando como exemplo a produção da série de livros de Antonio
Firmino de Proença, composta de uma cartilha e de três livros de leitura graduada. O texto parte de
investigações anteriores (2005 e 2007), que relacionaram e analisaram a expansão da escola pública
elementar no estado de São Paulo e o considerável aumento da produção de livros didáticos de três
editoras instaladas na capital: Livraria Francisco Alves, Tipografia Siqueira e Companhia Melhoramentos
de São Paulo. No que diz respeito aos quatro livros didáticos de Antonio Firmino de Proença – Cartilha
Proença, 1º, 2º e 3º Livro de Leitura, publicados entre 1926 e 1928 pela Companhia Melhoramentos de
São Paulo, editora que comemorou 120 anos em 2010 (na Bienal do Livro de São Paulo) – trata-se da
primeira coleção completa produzida por essa casa editorial, visando os segmentos graduados que
compunham o então curso primário, de três ou quatro anos, dependendo da localização e do tipo de
escola: se era escola urbana, como os Grupos Escolares, o curso era de quatro anos; se era rural, como
as Escolas Isoladas, o curso primário era de três anos. O momento da publicação das obras de Proença
marca também a retomada da seriação do curso primário em três e quatro anos, duração que tinha sido
fixada pela Reforma Sampaio Dória, de 1920, para dois anos obrigatórios, como medida para reduzir os
altos índices de analfabetismo no estado. Antonio Firmino de Proença fez parte de uma geração de
intelectuais formados pela Escola Normal da Praça da República que participou ativamente do projeto
de modernização do ensino público elementar, atuando não só como professores e administradores de
escolas primárias e de escolas normais, como também produzindo artigos de revistas pedagógicas e
livros didáticos dirigidos a ambos os níveis. Tanto a produção como algumas indicações dos usos dos
livros didáticos de Antonio Firmino de Proença são compreendidas no contexto da cultura escolar
vigente, em que o ensino de língua materna e a leitura como prática escolar eram proeminentes no
currículo da escola primária, aspectos reforçados pela determinação oficial de que só cartilhas e livros
de leitura podiam ser destinados ao uso dos alunos, fatores que dimensionam a importância e o papel

75
relevante que tais produtos culturais representavam no processo de expansão da escola e do mercado
de livros didáticos.

1311
HILÁRIO RIBEIRO E SUA PRODUÇÃO DIDÁTICA DE LIVROS DE LEITURA

FRANCISCA IZABEL PEREIRA MACIEL; KATIA GARDENIA HENRIQUE CAMPELO DA ROCHA.


FAE/UFMG, BELO HORIZONTE - MG - BRASIL.

As cartilhas e os livros de leitura oferecem muitas possibilidades de investigação dentre elas sua
materialidade - formato, volume, ilustrações, disposição das lições e exercícios, tipo de letra; sua
proposta político-didática - concepção de método de leitura e escrita. As investigações tem levado os
pesquisadores a buscar novas fontes e novos métodos de análise e enfoques diferenciados. (Nóvoa
& Berrio, 1993). É nesta tendência que se insere essa comunicação: pretende-se analisar a
produção e a circulação da produção didática de Hilario Ribeiro – “Cartilha Nacional e a série de leitura
graduada”. O período analisado corresponde às últimas décadas do século XIX e a primeira metade do
século XX. A problematização em torno da alfabetização e expansão do ensino primário pode ser
agrupada em dois eixos temáticos: os livros de leitura, seus autores e os movimentos reformistas. Com
relação aos manuais escolares, em especial os livros de iniciação à leitura, pode-se afirmar que são umas
publicações especializadas, com identidade própria, trazem um ideário e um modelo pedagógico para
configurar o currículo e organizar a prática escolar. (Escolano, 1997). Segundo Choppin (1992), a
expansão e a diversificação dos manuais escolares devem-se, em grande parte, à vulgarização do Ensino
Simultâneo, como metodologia que tinha como princípio racionalizar e uniformizar o sistema de
instrução pública. No século XIX, é significativo o número de Relatórios dos Presidentes de Província que
argumentam a favor da organização de compêndios e do uso desse artefato por parte dos alunos e
professores visando ao bom desempenho do ensino. Buscar a uniformidade do ensino por meio de uma
metodologia se tornaria mais viável e racional se os princípios metodológicos pudessem ser
materializados em um compêndio destinado aos alunos e professores. A falta de compêndios para o
ensino da leitura é discurso recorrente nos relatórios do oitocentos, assim como não são raras as
explanações sobre os gastos feitos pelo governo com os meninos pobres com a compra de
compêndios.Pode-se dizer que dois fatores contribuíram decisivamente para a escassez dos livros, em
geral, nas escolas primárias: o alto custo dos livros e a escassez de livros de autoria nacional. Assim, na
tentativa de sanar a falta de autores de manuais escolares, o governo provincial institui concursos e
distribuição de prêmios para autores de livros escolares. É nesse contexto que Hilário Ribeiro publicou e
teve seus livros premiados na Exposição Pedagógica do Rio de Janeiro em 1883. Em 1885, Hilário
Ribeiro, já professor do Imperial Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro, publicou pela Livraria
Francisco Alves a Cartilha Nacional ou Novo primeiro livro de leitura para “o ensino simultâneo de
leitura e escrita”. Nessa comunicação pretendemos apresentar os resultados de pesquisa realizada
sobre o autor, professor Hilário Ribeiro e sua longeva produção didática nas escolas primárias do Brasil.

1319
ARNALDO DE OLIVEIRA BARRETO: UM AUTOR ENTRE LIVROS PARA ALFABETIZAR E PARA
DESENVOLVIMENTO DA LEITURA

ISABEL CRISTINA ALVES DA SILVA FRADE.


UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS, BELO HORIZONTE - MG - BRASIL.

Arnaldo de Oliveira Barreto, autor paulista, inspetor, diretor, professor de escola normal e editor da
Revista de Ensino foi também autor da Cartilha das Mães, publicada a partir de 1896 (Mortatti, 2000,
p.92) e da Cartilha Analytica, produzida em 1907. Arnaldo Barreto também produziu em co-autoria a
coleção graduada Puigari-Barreto. Autores que o antecederam nesta empreitada foram Abílio Cesar
Borges, Felisberto de Carvalho e Hilário Ribeiro. Neste trabalho, visamos indicar aspectos que
caracterizam algumas de suas obras destinadas à alfabetização: a Cartilha das Mães, A Cartilha Analytica

76
e a coleção Puigari Barreto que visa o desenvolvimento da leitura. Como pressupostos teóricos
utilizamos a distinção entre texto e impresso feita por Roger Chartier, buscando ver os livros como
textos e como impressos. Isso supõe investigar tanto seus conteúdos (textos e exercícios) como sua
configuração gráfica e o modo como o livro se apresenta como objeto material e gráfico. Uma primeira
vertente de análise busca evidenciar o que identifica cada uma de suas obras para alfabetizar, do ponto
de vista do modo de composição, das pistas paratextuais e dos conteúdos pedagógicos. A segunda
vertente busca encontrar quais são as linhas de continuidade ou de ruptura entre duas de suas obras
para alfabetizar e os livros de leitura. Pesquisa de Batista et al (2002) apresenta uma análise de um
corpo extenso de livros de leitura, do final do século XIX até meados da década de 70 do século XX,
analisando seus usos escolares, seus tipos, gêneros, existência de exercícios, classificando-os em
modelos de livros de leitura ligados aos seguintes princípios de didatização: modelo da leitura
manuscrita; modelo instrutivo; modelo formativo, modelo retórico-literário e modelo autônomo. Qual
modelo seria adotado pela série Puigari/Barreto? Estudo de Oliveira & Souza (2000) analisa
comparativamente duas séries graduadas: a de Felisberto de Carvalho e a de Puigari/Barreto, chamando
atenção para o papel destes livros na escola brasileira. Para a série Puigari/Barreto os conteúdos
indicam o intuito de apresentar assuntos de cunho moral e cívico, poesias e histórias do dia-a-dia.
Ambos eram possivelmente destinados às aulas de leitura e, em suas progressões por ano e por lições
evidenciam a construção de uma metodologia para o ensino da leitura, assim designada pela pesquisa
citada: leitura elementar (aquisição do código), leitura corrente (fluência e compreensão) e leitura
expressiva. Tendo em vista que estes estudos se concentram nos livros de leitura e não na sua relação
com os livros dos mesmos autores para alfabetizar, este estudo busca responder às seguintes perguntas:
o que distingue, afinal, os dois livros para ensinar a arte de decodificar, feitos pelo mesmo autor? Há
linhas de continuidade entre esses livros para iniciantes e suas propostas para os livros de leitura? Há
indícios de concorrência ou convivência, no mesmo local, entre suas obras e a de outros autores?

IMPRENSA E INTELECTUAIS NO SÉCULO XIX: FONTES PARA A HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO NO BRASIL


Coordenador: MARCILIA ROSA PERIOTTO

1128
CONCHAVOS, POLÊMICAS E RIVALIDADES: A IMPRENSA MINEIRA PELA ATUAÇÃO DE MENDES
PIMENTEL NA PRIMEIRA DÉCADA REPUBLICANA

CAROLINA MOSTARO NEVES DA SILVA.


UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS, BELO HORIZONTE - MG - BRASIL.

Por meio da trajetória pública de Francisco Mendes Pimentel (1869-1957) em Minas Gerais, na primeira
década republicana, esta comunicação investiga a imprensa como um mecanismo de ação política e de
pressão dos grupos que compunham as elites em defesa dos seus interesses. Para tanto, foram
analisados os periódicos: A Folha, publicado em Barbacena (1893/94) e o Diário de Minas, de Belo
Horizonte (1899), ambos criados e dirigidos por Mendes Pimentel na década de 1890, além do Jornal do
Povo, também da capital mineira, para o qual colaborou assiduamente no ano de 1900. Além desses
períodicos, foram consultados diversos números do jornal oficial do estado, o Minas Gerais, com intuito
de observar os debates produzidos na imprensa mineira. Na conjuntura clivada pelas disputas políticas
que marcam a instauração e a organização do regime republicano em Minas Gerais, a atuação de
Mendes Pimentel – advogado, político e professor – em jornais mineiros evidencia o papel da imprensa
como um instrumento de persuasão, de formação de consensos e dissensos, inclusive em torno de
temas educacionais. Tratando a imprensa ora como meio de formar opinião, ora como reflexo da visão
do público leitor, esse publicista encarou os jornais como a arena pública na qual se debatiam as
questões de relevância para a sociedade e, por isso, lhe atribuía uma missão social, política e educativa.
Por entender que havia uma relação direta entre a educação e a consolidação do regime republicano,
conferia à impressa, assim como à escola, a função de formar o caráter nacional. Assim, no exercício da
análise e da crítica pelos periódicos, manifestou constantemente a intenção de elucidar e orientar os

77
leitores, como o mestre que atua em sua cátedra. Para ele, o recurso à imprensa representava ainda a
possibilidade de intervenção e acesso à esfera do poder, a participação em contendas políticas, por
meio da expressão pública de seus elogios ou críticas aos acontecimentos que envolviam o governo,
principalmente no âmbito estadual. Da criação d’A Folha ao desaparecimento do Jornal do Povo,
Mendes Pimentel alterou significativamente os rumos de sua trajetória pública. Transitou do partido
político à oposição, experimentou intensamente a atividade jornalística, deu publicidade a projetos e
ideias, nem sempre com absoluta coerência, mas que, sobretudo, registravam suas posições na cena
pública mineira. Se, de início, manifestou-se em favor da República que via nascer e que lhe instigava
expectativas, poucos anos depois, tornou-se crítico veemente do regime consolidado.

1306
EDUCAÇÃO E FORMAÇÃO DA OPINIÃO PÚBLICA PARA O ADVENTO DO TRABALHO LIVRE EM MEADOS
DO SÉCULO XIX: O COMPROMISSO POLÍTICO-ECONÔMICO-SOCIAL DO JORNAL O AUXILIADOR DA
INDÚSTRIA NACIONAL

CELINA MIDORI MURASSE MIZUTA.


FACULDADE DE ARTES DO PARANÁ, CURITIBA - PR - BRASIL.

Esta pesquisa documental e bibliográfica de caráter histórico visa demonstrar a forma pela qual o jornal
O Auxiliador da Indústria Nacional conduziu a sua missão de educar e formar a opinião pública para o
advento do trabalho livre em meados do século XIX. No Brasil o trabalho escravo constituía a sua base
produtiva há mais de três séculos, entretanto, em 1850, duas leis abalaram a economia escravista: a Lei
Eusébio de Queirós, de 4 de setembro de 1850, que reprimiu o tráfico de escravos e a Lei de Terras, de
18 de setembro de 1850, que dispunha sobre as terras devolutas e as adquiridas por posse ou sesmaria.
Ambas as medidas colocaram na ordem do dia a questão da busca de alternativas para manter e até
aumentar a produção agrícola mesmo prescindindo do trabalho escravo cujo fim se prenunciava. Muitos
eram os aspectos a serem debatidos e era preciso educar e convencer, antes de tudo, os agricultores,
mas também a sociedade brasileira em geral a respeito da necessidade de introduzir mudanças na
organização da produção agrícola e preparar-se para a transição do trabalho escravo para o livre. Nesse
contexto o jornal O Auxiliador da Indústria Nacional, editado pela Sociedade Auxiliadora da Indústria
Nacional, desempenhou uma função educativa fundamental ao divulgar amplamente as propostas com
o intuito de viabilizar a modernização da agricultura praticada no país e a sua inserção no mundo
civilizado. Era imprescindível educar para o porvir e O Auxiliador contribuiu para fomentar o debate
quanto ao futuro do Brasil. Os artigos publicados no periódico abordavam questões tais como: a
repressão do tráfico pelos ingleses; a utilização de maquinaria a vapor na produção; a importância das
exposições de máquinas para incentivar tanto a compra como a invenção de novos equipamentos; as
vantagens na contratação de imigrantes europeus; a instalação de colônias de parceria; a utilização de
novas técnicas para o melhoramento e a conservação dos produtos agrícolas; a necessidade de criar
escolas agrícolas que atendessem tanto os filhos dos proprietários agrícolas quanto os trabalhadores; as
noções básicas de economia, entre outros assuntos. As edições do jornal O Auxiliador da Indústria
Nacional, publicadas no período de 1849 a 1851, e os relatórios do Ministério do Império referentes ao
mesmo período constituem as fontes primárias do estudo. Utiliza como fontes secundárias, as
publicações de autores dos séculos XIX, XX e XXI que se debruçaram em torno da temática específica ou
de temáticas afins ou do período delimitado para essa investigação. Espera-se assim contribuir para
ampliar e aprofundar o conhecimento acerca da História da Educação no Brasil nos oitocentos. A
pesquisa é desenvolvida com os recursos do CNPq.

78
1050
MIGUEL DO SACRAMENTO LOPES GAMA, O JORNAL O CARAPUCEIRO E A EDUCAÇÃO

MARCILIA ROSA PERIOTTO.


UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MARINGÁ, MARINGA - PR - BRASIL.

É um estudo sobre as ideias morais, de cunho religioso, elaboradas por Miguel do Sacramento Lopes
Gama (1793-1852) no jornal O Carapuceiro na cidade de Recife. Entende-se que os conteúdos escolares
e as práticas educativas na atualidade, destarte as mudanças sociais havidas até então, cultivam ainda
os elementos traçados ao longo do século XIX por pensadores de roupagem católica que transitavam
entre as medidas modernizadoras e, ao mesmo tempo, a manutenção das práticas arcaicas na educação
das crianças e jovens. O debate realizado por Lopes Gama- padre, jornalista e deputado provincial-, na
imprensa e durante os anos 30 e 40 dos Oitocentos revela uma abrangência que excede os limites da
crítica social e dos costumes. O jornalista realizou análises da conjuntura econômica e política,
principalmente das forças que mantinham o Brasil em situação de atraso e que negavam
sistematicamente a criação de medidas que pudessem conduzi-lo ao efetivo desenvolvimento social, tal
como a manutenção do trabalho escravo. Foi um opositor tenaz da escravidão, pois, concorde a muitos
pensadores do século XIX, também via o trabalho escravo como um dos maiores óbices à modernização
da sociedade. Curiosamente, a sua visão educacional resvalava numa forma de educar correspondente
aos conteúdos dos anos de colonização. Os conteúdos fundamentais à formação do jovem deveriam
amparar-se nos ensinamentos das Sagradas Escrituras, primeiramente. Tinha-se aí o propósito de
promover uma educação fundamentalmente moral, visando obter governantes avessos ao uso dos
cargos públicos em prol dos interesses pessoais. O objetivo do estudo é refletir o significado da
educação moral, de cunho religioso, que emerge na totalidade dos escritos de Lopes Gama frente a um
projeto de nação delineado pela elite político-econômica. Entende-se que sua visão de educação está
intrincada ao ideário liberal que alimentou suas opiniões sobre o estado social brasileiro daquele
período, problema da qual emerge a questão de se delinear, também, a matriz do pensamento que
conduziu suas reflexões e o colocou no campo da crítica social. Lopes Gama vivenciou as contradições
de um tempo que se modificava rapidamente, o que o levou a coexistir ao mesmo tempo com o arcaico
e o moderno, induzindo-o ao amalgama dessas duas épocas, fato que tornou seu pensamento
depositário de questões aptas a elucidar não somente os conteúdos educacionais que até hoje
perduram, mas o longo e conturbado processo de construção de um modelo de nação que atravessou o
Brasil durante o século XIX.

1409
ANÁLISE DAS PRÁTICAS DE LEITURA NO SÉCULO XIX POR MEIO DE JORNAIS

MÔNICA YUMI JINZENJI.


UFMG, BELO HORIZONTE - MG - BRASIL

Esta pesquisa tem por objetivo compreender as práticas de leitura desenvolvidas por José Alcibíades
Carneiro, redator do periódico O Mentor das Brasileiras. Impresso em São João del-Rei, Minas Gerais,
entre 1829 e 1832, pretendia-se, com sua produção, a instrução das senhoras brasileiras. Por ter sido
um dos poucos periódicos voltados para o público feminino no período e, tendo em vista que se tratava
de um contexto em que o processo de escolarização ainda era incipiente, esta pesquisa pretende
contribuir para os estudos acerca das práticas educativas não escolares no século XIX.
A produção de periódicos no período envolvia um complexo repertório de leituras de outros textos, tais
como jornais, livros e cartas, e a compilação dessas leituras para compor cada número de jornal, que
dividiam o espaço com textos de autoria dos redatores. Nesta pesquisa, foi realizada uma análise desse
processo de leitura e apropriação dos textos para compor os números do jornal, buscando-se analisar a
censura, acréscimos e demais tipos de adaptação dos textos originais relacionando-os ao contexto
político e cultural do período. Algumas das obras utilizadas para a produção do jornal foram:
Conversations on political economy, de Jane Marcet, O castigo da prostituição, atribuído a Edward
Young, Fábulas de Phedro, do fabulista grego Phedro e Cartas sobre a educação das meninas por uma
senhora americana, de autoria desconhecida, todos editados entre o final do século XVIII e início do

79
século XIX. Entre os jornais mais utilizados, podem ser citados: O Popular, de Pernambuco, O Simplício,
O Tribuno do Povo e Aurora Fluminense, do Rio de Janeiro, e Manual das Brasileiras, de São Paulo, todos
contemporâneos de O Mentor. Cartas de leitores e leitoras dirigidas à redação e correspondências
particulares foi também outro tipo de texto a ser incorporado pelo jornal. A análise mostrou que o texto
final impresso era o resultado da leitura e do crivo operados pelo redator, então professor de gramática
latina, colaborador de outros periódicos, e entusiasta do grupo dos liberais moderados. No processo de
produção do jornal, realizava um cuidadoso trabalho de adaptação, tendo em vista tanto as
competências de leitura supostas para seu público como os valores políticos e morais que se pretendia
difundir. Para as senhoras eram selecionados livros de fácil entendimento e que também possuíam
formato reduzido. Os conteúdos compilados eram adaptados de forma a respeitar os valores familiares
cristãos, enfatizando-se os papéis de esposa fiel e mãe zelosa. Em se tratando da discussão política, esta
era a mais evidenciada, promovendo os princípios defendidos pelos liberais moderados, como a
liberdade e a monarquia constitucional. Trata-se de uma pesquisa concluída.

PROJETOS E MISSÃO: MOVIMENTO INTELECTUAL E EDUCAÇÃO NO P


ARANÁ E SANTA CATARINA (1930-1980)
Coordenador: NEVIO DE CAMPOS

879
INTELECTUAIS CATÓLICOS: CONFIDENTES DO CRIADOR, MINISTROS DO PROGRESSO E SACERDOTES
DA VERDADE

NEVIO DE CAMPOS.
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE PONTA GROSSA, PONTA GROSSA - PR - BRASIL.

Este artigo objetiva discutir as estratégias da elite intelectual católica para organizar e divulgar seu
ideário filosófico-teológico no Estado do Paraná nas décadas de 1940 e 1950, cujo recorte privilegia a
intervenção do laicato católico no Ensino Superior curitibano, pois em tal período se constituíram a
Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras do Paraná - FFCL (1938) e a Faculdade Católica de Filosofia de
Curitiba - FCFC (1950). O problema central consiste em discutir o papel dos intelectuais e o lugar das
Faculdades de Filosofia no processo de expansão do ideário católico entre os paranaenses. A hipótese
deste texto é de que tais instituições de Ensino Superior se constituíram nos principais espaços de ação
dos intelectuais católicos, assim como consolidaram a presença institucional da Igreja Católica na alta
cultura paranaense. A narrativa deste artigo apoia-se nos discursos pronunciados na FFCL e na FCFC no
decorrer dessas décadas, por meio dos quais o grupo católico reafirmava que os estudiosos da ciência
consistiam em ser “confidentes do Criador, ministros do progresso e sacerdotes da verdade”. Esse
percurso analítico inscreve-se na história intelectual ao estabelecer interlocução com o conceito de
intelectual como organizador da cultura e mobilizador dos grupos sociais, sistematizado por Antonio
Gramsci. Tal conceito nos permite discutir as iniciativas dos intelectuais católicos no processo de
criação, coordenação e direção das atividades formativas organizadas nas Faculdades de Filosofia, bem
como problematizar suas ações como estratégias para consolidar a presença da Igreja Católica na alta
cultura curitibana e contrapor-se aos seus adversários. A ação do grupo católico inscrevia na luta pelo
controle do Ensino Superior paranaense, por conseqüência da formação de uma camada social
específica, a qual representava uma parte da elite econômica, política, social e cultural do Estado do
Paraná. A presença do laicato católico no Paraná consolida-se no final da década de 1920 com a criação
do Círculo de Estudos Bandeirantes, no qual em meados dos anos de 1930 foi organizado o primeiro
curso de filosofia tomista destinado aos integrantes desse centro cultural. Esse evento constituiu-se no
principal símbolo do movimento em defesa da criação da FFCL. Em 1939, a FFCL passou a ser controlada
diretamente pelos Irmãos Maristas, embora não se denominasse formalmente faculdade católica. Em
dezembro de 1950, a FFCL foi repassada ao controle da União devido à federalização da Universidade do
Paraná. No entanto, em agosto de 1950 já havia sido criada a FCFC sob a coordenação dos Maristas e do
laicato católico, o que indica que o Ensino Superior materializou a presença do ideário filosófico-
teológico da Igreja Católica no Paraná.

80
940
ERASMO PILOTTO: IDENTIDADE, ENGAJAMENTO POLÍTICO E CRENÇAS DOS INTELECTUAIS
VINCULADOS AO CAMPO EDUCACIONAL NO BRASIL

CARLOS EDUARDO VIEIRA.


UFPR, CURITIBA - PR - BRASIL.

O objetivo desse texto é refletir sobre o conceito de intelectual que vem sendo desenvolvido e utilizado
ao longo de dez anos de pesquisa no intuito de explicar o comportamento social dos intelectuais
associados, direta ou indiretamente, ao campo educacional no Brasil do último quartel do século
dezenove aos anos sessenta do século vinte. Essa formulação tem sido desenvolvida no diálogo com a
literatura que trata do tema dos intelectuais e, sobretudo, no cotejo com as fontes que formam o
corpus documental da pesquisa. Para evitarmos o tratamento abstrato e, portanto, meramente teórico
do tema, exploraremos o potencial heurístico desse conceito a partir da análise das ideias e da trajetória
do intelectual paranaense Erasmo Pilotto (1910-1992). A análise do processo de formação de Pilotto
revela, tanto a certificação escolar formal, como os investimentos em autoformação. Estudando sempre
em boas escolas de Curitiba, Pilotto formou-se como normalista pela Escola Normal Secundária de
Curitiba, em 1928. O autodidatismo é perceptível pela amplitude da sua produção intelectual, pois,
embora nos seus escritos o foco tenha se concentrado nas questões da educação, encontramos textos
seus que incidem sobre temas de filosofia, artes plásticas, literatura e história. O marco institucional da
trajetória de Pilotto foi a sua atuação na Escola Normal de Curitiba de 1933 a 1947, enquanto que como
marco intelectual destaca-se a sua vinculação, em meados da década de 1920, ao Movimento pela
Escola Nova. A produção de Pilotto em torno do tema da educação revela a sua refinada erudição, à
medida que os problemas educacionais foram analisados em diálogo com idéias oriundas de diferentes
áreas, com ênfase, na interlocução com as ideias filosóficas. A obra pedagógica de Pilotto foi
desenvolvida em um permanente processo de reflexão e de ação pedagógica. E, nesse sentido, a Escola
Normal de Curitiba e o Movimento pela Escola Nova representaram os espaços privilegiados por este
intelectual para a elaboração e a aplicação da sua teoria pedagógica. O foco nesse personagem histórico
tem motivado a formulação conceitual que discutiremos nesse texto que, em síntese, incide sobre
quatro aspectos: a identidade e o sentimento de missão dos intelectuais, bem como as crenças na
modernidade e no protagonismo político do Estado. Sendo assim, exploraremos as ideias e as ações de
Pilotto, a partir do conceito de intelectual que pretendemos expor e problematizar nesse espaço de
reflexão. Entendemos que essa opção permitirá, a um só tempo, revelar a singularidade de Pilotto e a
tipicidade do comportamento do sujeito coletivo denominado nesse texto de intelectuais. A aplicação
do conceito que explicitaremos em outros cenários dependerá de investigações circunstanciadas pela
pesquisa histórica. Logo, não é objetivo dessa reflexão generalizações imprudentes, mas sim provocar
questões que favoreçam o debate na História da Educação e na História dos Intelectuais.

947
JOÃO ROBERTO MOREIRA E O CURSO NORMAL DO INSTITUTO DE EDUCAÇÃO DE FLORIANÓPOLIS
(1937-1943): EFERVESCÊNCIA INTELECTUAL E PROJEÇÃO NACIONAL

LEZIANY SILVEIRA DANIEL.


UFPR, CURITIBA - PR - BRASIL.

O intelectual catarinense João Roberto Moreira (1912-1967) tornou-se figura conhecida no âmbito
nacional, quando de sua atuação junto aos principais órgãos da pesquisa educacional no Brasil, como o
Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais e o Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais, nas
décadas de 1940 e 1950. O presente trabalho, decorrente de tese de doutorado defendida em 2009,
privilegia sua gênese intelectual que ocorreu ainda em Santa Catarina, quando atuou como professor e
Diretor do Curso Normal do Instituto de Educação de Florianópolis (1937-1943). Principalmente,
durante o governo do Interventor Federal em Santa Catarina Nereu Ramos (1937-1945), os propósitos
de nacionalização foram mais acirradamente perseguidos, passando a formação de professores a ocupar
função estratégica na implementação das políticas governamentais. É no interior dessa realidade que

81
passam a ocorrer em Santa Catarina reformas no seu sistema de ensino, criando-se todo um ambiente
de discussão sobre a importância de adequá-lo às novas proposições do Estado Nacional. Moreira, nesse
sentido, foi um dos principais articuladores e pensadores educacionais catarinenses nesse processo. À
frente do Curso Normal do Instituto de Educação de Florianópolis, instituição modelo de formação de
professores em Santa Catarina, ele contribuiu para a criação de um ambiente de efervescência
intelectual, abordando temáticas que buscavam a constituição científica do campo pedagógico
catarinense, bem como proporcionavam maior embasamento científico das políticas educacionais do
governo catarinense. As evidências dessa forte ligação de Moreira com o governo podem ser
explicitadas mediante inúmeras iniciativas viabilizadas durante sua gestão como Diretor do Instituto.
Contando com o apoio do governo, Moreira criou, em 1941, a revista “Estudos Educacionais”, periódico
em que publicavam alunos e professores do Instituto, bem como intelectuais de projeção nacional; e
viabilizou a vinda ao estado catarinense de intelectuais como Fernando de Azevedo, Roger Bastide e
Donald Pierson. Além disso, em vários momentos, durante esse período, Moreira participou de
importantes eventos promovidos pelo governo que tratavam, diretamente, de questões centrais
abordadas no campo da política, como a educação e a cultura. Nessas oportunidades, Moreira exaltou
os direcionamentos dados pelo governo catarinense no campo educacional, produzindo análises que
demonstravam sua participação e apoio na implementação de tais diretrizes, especialmente, as
relacionadas à política de nacionalização do ensino. Em 1942, por exemplo, Moreira foi convocado pelo
governo de Nereu Ramos para representar o Estado de Santa Catarina no 8º Congresso Brasileiro de
Educação, que ocorreria em junho daquele ano, na cidade de Goiânia.

1145
LIDERANÇAS POLÍTICAS E RELIGIOSAS NA FUNDAÇÃO DA FACULDADE CATARINENSE DE FILOSOFIA

CELSO JOÃO CARMINATI.


UNIVERSIDADE DO ESTADO DE SANTA CATARINA, FLORIANOPOLIS - SC – BRASIL

No contexto das políticas educacionais dos anos de 1950, discutimos os principais aspectos da fundação,
do reconhecimento e da constituição da Faculdade Catarinense de Filosofia. Diante do processo de
afirmação da educação no país, o ensino superior foi aos poucos se constituindo num importante pilar
de formação de profissionais para as redes de ensino que se institucionalizavam, sobretudo para o
ensino secundário, uma vez que para os níveis iniciais, esta formação se dava ainda na antiga estrutura
de formação da escola normal. A formação, a partir da titulação escolar em nível superior, dava
perspectivas de futuros, destinos ocupacionais nas estruturas das nascentes carreiras do serviço público,
tanto estadual quanto federal, que naquele momento recebiam grande força em decorrência das
políticas de indução para o país, adotadas nos anos de desenvolvimentismo nacional, que por
necessidade de organização passariam a ocupar importantes lugares no cenário nacional. Naturalmente,
aos olhares de suas demandas, isto representaria um lugar ao sol, ou melhor, ao acesso e estabilidade
com importantes rendimentos econômicos às classes desejosas de formação, mesmo diante de certas
restrições que os títulos recebidos impunham no mercado, mas que não deixavam de se demarcar e
constituir enquanto um indicador de destaque econômico no âmbito da sociedade catarinense. Os
desafios postos nesse processo colocavam em evidência os espaços que foram ocupados no âmbito da
organização das condições de funcionamento dos cursos pretendidos, cujo envolvimento de lideranças
políticas e religiosas, constituíam-se de esforços e certamente colocavam em evidência os muitos
interesses pessoais no sentido de projeção dos formandos e também institucionais, à medida que o
reconhecimento e funcionamento do ensino superior despertasse nas autoridades nacionais o interesse
de valorização da educação superior, apoiando com financiamentos públicos para sustentar os cursos,
além de responderem aos anseios sociais de classe e aos desafios educacionais que se voltavam para a
institucionalização da formação acadêmica e cultural no estado de Santa Catarina. Nesse sentido, a
fundação de uma Faculdade de Filosofia em Santa Catarina, consolidaria os anseios e colocava em
evidência o projeto e a trajetória de formação de uma elite cultural, desejosa de formação superior,
inicialmente, no âmbito da filosofia e letras. Mesmo com pequenas, mas certamente significativas
concessões de títulos acadêmicos aos seus filhos, os bacharéis seriam beneficiários de certa distinção
social, decorrente de coroamento no âmbito das letras e das humanidades.

82
LUGARES DE PODER, PRODUÇÃO E CIRCULAÇÃO DE SABERES PEDAGÓGICOS
Coordenador: MARIA RITA DE ALMEIDA TOLEDO

1197
TRADUÇÕES CULTURAIS DE COMO PENSAMOS EDITADAS NA COLEÇÃO ATUALIDADES PEDAGÓGICAS
(1933-1981)

MARIA RITA DE ALMEIDA TOLEDO.


UNIFESP, SAO PAULO - SP - BRASIL.

Com esse trabalho objetiva-se analisar os deslocamentos de sentido que são atribuídos à tradução do
título de John Dewey - Como Pensamos –, em cada uma das três versões, publicada na Coleção
Atualidades Pedagógicas, pela Companhia Editora Nacional, ao longo do século XX. Para tanto, toma-se
por objeto os dispositivos editoriais e tipográficos de apoio a leitura – orelhas, prefácios, notas de
rodapé do tradutor – acrescidos a cada uma das versões. Esta coleção foi utilizada nos cursos de
formação docente, compondo as bibliotecas de faculdades de Pedagogia, Educação, Psicologia, de
Escolas Normais e de Magistério. Ela é componente das práticas que se instauram no processo de
constituição da cultura pedagógica e das práticas de formação dos professores no Brasil, nas décadas
em que circulou. O estudo de uma coleção de livros na perspectiva da história cultural admite, com
Chartier, que não existe texto fora do suporte que dá a ler, que não há compreensão de um escrito,
qualquer que ele seja, que não dependa das formas através das quais ele chega ao leitor, daí a
importância de atentar para as formas produtoras de sentido ou da materialidade do impresso. A
coleção estudada é tomada como objeto cultural que, constitutivamente, guarda as marcas de sua
produção e de seus usos, entendida como estratégia editorial de difusão de saberes pedagógicos e de
normatização das práticas escolares. As três versões do título de Dewey acompanham as
transformações operadas no programa de leitura da própria coleção ao longo de seus 51 anos de
existência. No primeiro período da Atualidades (1931-1949), sob direção de Fernando de Azevedo,
Como pensamos tinha papel central porque poderia operar a “revolução” na escola - revolução que
significaria, nas palavras do prefácio assinado por Anísio Teixeira, a renovação das práticas escolares
tradicionais. Na década de 1950, quando de sua terceira edição (e segunda versão), ao título é atribuída,
pelo novo editor JB Damasco Penna, o sentido de clássico que demonstraria a maneira melhor e
mais acertada de por o pensamento do aluno, interessado, ativo e disciplinado, a serviço da educação
(1959). Já no início dos anos 1980, na última edição (e terceira versão) do título, o prefácio é assinado
por um dos maiores opositores da leitura de Dewey no Brasil: Van Acker. Nessa última versão, Dewey, e
seu título, são apresentados pelo educador católico como ultrapassados, como resquícios de um
período educacional já findo, porque não teriam mais seu valor reconhecido nem pelos educadores de
esquerda, marxistas militantes, que avaliariam o seu socialismo como pragmatismo burguês,
cientificista, individualista e utilitário -, nem pelos educadores católicos, que entendiam que a sociedade
democrática por ele concebida não é integralmente humana. Depois dessa versão o título nunca mais
foi reeditado.

1239
ESTRATÉGIAS DE MODELIZAÇÃO DA PRÁTICA DOCENTE NOS RELATÓRIOS DA INSPETORIA TÉCNICA EM
MINAS GERAIS

ROGERIA MOREIRA RESENDE ISOBE.


UNIVERSIDADE FEDERAL DO TRIANGULO MINEIRO, UBERABA - MG - BRASIL.

Este trabalho se inscreve na perspectiva da história cultural, que busca evidenciar a dinâmica da
historicidade da escola, concebendo-a como produto histórico da interação entre dispositivos de
normativização de uma cultura escolar e das práticas que os agentes que deles se apropriam. Focaliza
questões referentes ao movimento de difusão de modelos pedagógicos que vão produzindo,
gradativamente, desde as últimas décadas do século XIX, no Brasil, o desenho institucional dos Grupos
Escolares como expressão de moderna e renovada organização da escola primária. Convertendo em

83
hipótese de trabalho algumas asserções de Marta de Carvalho a respeito do estatuto central da
“pedagogia moderna” na constituição do “modelo escolar paulista”, este trabalho analisa experiências
ocorridas no âmbito da Reforma João Pinheiro em Minas Gerais. O conjunto de procedimentos e
estratégias mobilizado pelos reformadores mineiros revela a constituição de um sistema de ensino
pautado no referencial da pedagogia moderna que se alicerçava na lógica da reprodução desse modelo
por meio de dispositivos que promovessem a visibilidade e imitabilidade das práticas escolares. Uma das
peças centrais da reforma foi a criação da Inspeção Técnica do Ensino, que visava consolidação da
reforma. Na lógica de um sistema de ensino, baseado na prática, no ver fazer, os inspetores técnicos se
configuram como modeladores do ensino dando a ver aulas exemplares aos professores nas escolas
primárias do estado, fazendo a mediação entre as estratégias de modelagem das práticas culturais
segundo seus princípios instituintes, e as práticas alvo dessas estratégias de modelagem: a prática
docente. Tomado o conceito de estratégia, de Certeau, flagra a inspetoria e a própria Secretaria do
Interior como o lugares de poder que, no âmbito de uma política educacional caracterizada pela ação
reguladora e centralizadora do governo, institui uma hierarquia de autoridade entre os agentes
educativos. Essa hierarquia está em relação direta com um saber legitimado pelos preceitos da moderna
pedagogia que delimitava a competência dos sujeitos e atravessava as práticas escolares, produzindo
determinadas formas de relação entre os mesmos: os inspetores técnicos subordinavam-se à autoridade
central – Secretaria do Interior – os professores e diretores de grupos escolares subordinavam-se à
competência técnica dos inspetores regionais dos quais as praticas sociais emanam. Neste sentido, a
análise dos relatórios de inspeção evidencia que o inspetor técnico, respaldado e autorizado por uma
suposta competência técnica, atuava sobre o processo educacional e, sobretudo, sobre a prática
docente, a partir de um lugar de poder determinado, o lugar de um intérprete autorizado cuja ação
visava aproximar as práticas dos professores das regras estabelecidas na conformação de um
determinado modelo escolar de educação em Minas Gerais.

1241
ESTRATÉGIAS EDITORIAIS E TERRITORIALIZAÇÃO DO CAMPO DA PEDAGOGIA: UM LIVRO DE SAMPAIO
DÓRIA SOB A PENA DO EDITOR DA BIBLIOTECA DE EDUCAÇÃO

MARTA MARIA CHAGAS DE CARVALHO


UNIVERSIDADE DE SAO PAULO, SÃO PAULO - SP - BRASIL.

Esta comunicação analisa a inserção do livro Educação Moral e Educação Econômica, de autoria de
Sampaio Dória, na coleção Biblioteca de Educação, organizada por Lourenço Filho para a Companhia
Melhoramentos de São Paulo. Toma como referenciais de análise as proposições metodológicas de
Roger Chartier, que ressaltam a importância de considerar a materialidade do impresso analisando os
seus dispositivos textuais e editoriais de modelização da leitura. E explora analiticamente proposições
de Olivero acerca do aparelho crítico que produz a identidade editorial de uma coleção e as
contribuições de Genette e Cayuela para a análise de paratextos, como os prefácios. Educação Moral e
Educação Econômica, publicado em 1928, é livro produzido sob encomenda. A sua simples publicação
na coleção, como o seu III volume, quando tinham apenas sido publicados nela os livros de Henri Pieron,
Psicologia Experimental, e de Claparède, A Escola e a Psicologia Experimental, indicia o prestígio de que
gozava Dória junto ao organizador da coleção, seu ex-aluno na Escola Normal de São Paulo e antigo
amigo, discípulo e colaborador. Figurar na Biblioteca de Educação, ao lado de dois pedagogos então
internacionalmente ilustres, era sem dúvida uma honra para Sampaio Dória. Mas a leitura do Prefácio
indicia a ambigüidade da situação. Nele, um leitor atento e bem informado poderá perceber que o
notável esforço do prefaciador, Lourenço Filho, de enquadrar o volume na coleção, é também estratégia
de abrir espaço às novas tendências pedagógicas que o editor acreditava terem suplantado convicções e
teorias como aquelas que Dória professava. Para esse leitor, ficam evidentes, nesse prefácio, as
estratégias textuais que compõem o perfil de Dória e de suas idéias educativas de modo a reverenciá-las
e a concomitantemente situá-las na periferia do movimento de renovação pedagógica que Lourenço
postulava capitanear no país. A operação punha em evidência e valorava concepções julgadas
compatíveis com as novas doutrinas pedagógicas e silenciava as demais. O tema atribuído ao volume de
autoria de Sampaio Dória era relevante no campo da nova pedagogia e não deixava de ser de interesse e

84
domínio deste. Mas não era, certamente, o único tema de predileção do autor. Mais do que isso, na
territorialização que a coleção promove, fragmentando os assuntos por volume e destinando cada um
deles a um autor escolhido, era o próprio território em que Dória costumava se mover que lhe era
subtraído. A pedagogia científica e a psicologia experimental, peças inamovíveis desse território e temas
recorrentes em Princípios de Pedagogia, livro que Dória publicara havia pouco mais de dez anos, era
assunto destinado a outros autores, mais identificáveis com a propaganda das idéias e dos conceitos
que Lourenço acreditava nucleares no movimento internacional pela escola nova.

1261
ESCOLA E NOVA ESCOLA: DISPOSITIVOS MATERIAIS E POLÍTICA EDITORIAL DOS PERIÓDICOS
EDUCACIONAIS DA ABRIL

DANIEL REVAH.
UNIFESP, SÃO PAULO - SP - BRASIL.

Este trabalho compara dois periódicos educacionais da editora Abril: ESCOLA e NOVA Escola. O primeiro
é editado entre outubro de 1971 e abril de 1974, sendo publicados ao todo 27 números; o segundo é
lançado em março de 1986 e continua a ser editado até hoje, numa média de dez números anuais. Cerca
de 15 anos separam o início dessas duas publicações, ambas dirigidas aos professores do 1º Grau. Este
estudo compara os dispositivos materiais e a política editorial desses periódicos, bem como a sua
diferente repercussão entre os profissionais da educação em cada período, de modo a levantar algumas
hipóteses sobre essa diferença. A revista ESCOLA foi um fracasso do ponto de vista comercial e da sua
repercussão no campo educacional, ao contrário de NOVA Escola, que teve forte penetração entre os
professores. Essa diferença é discutida e relacionada com as diretrizes que definem as suas fórmulas
editoriais. No caso de ESCOLA, há três diretrizes fundamentais, explicitadas no seu editorial inaugural: a
adesão explícita às políticas educacionais do regime militar, pois coloca-se “entusiasticamente” a serviço
da Reforma de Ensino instaurada pela lei 5.692/71; a revista pensada como um “instrumento de diálogo
e cooperação com o professor de 1o grau”; o uso dos “recursos do jornalismo” numa revista
pedagógica. Esse último elemento da sua fórmula editorial é apresentado como um grande diferencial
em face do “mais insistente arcaísmo” que seria próprio dos outros periódicos educacionais. Nesse
período, ESCOLA diferencia-se nitidamente de outros periódicos dirigidos ao professor, assemelhando-
se em sua forma material a revistas comerciais da época, como Claudia, Veja e Quatro Rodas, da mesma
editora Abril. Nesse tipo de impresso, nota-se uma importante mudança no discurso pedagógico, na
mesma medida em que a pedagogia é transformada em notícia. Essa transformação, porém, não torna a
revista mais “atraente”, como pretendiam seus editores. É o que atesta o seu fracasso comercial, que
podemos supor está ligado à sua adesão às políticas educacionais da ditadura, mas também a um
professor-leitor que ainda não existe, tendo em vista tudo o que envolve essa Pedagogia do
acontecimento. NOVA Escola é lançada na década seguinte e no seu primeiro editorial a forma
jornalística é assumida de forma ainda mais incisiva, pois afirma-se que a revista “não é nem deseja ser
uma publicação pedagógica”, sendo produzida por “uma equipe de experimentados jornalistas”,
embora conte também com “profissionais da Educação”. O seu sucesso então é certo. E não parece
decorrência apenas da sua inserção no “processo de mudança que ora se verifica no país”, com a volta
da democracia, conforme indica o seu primeiro editorial. A discussão das diferenças entre os dois
periódicos será feita sob a perspectiva da História Cultural, que considera a forma material do impresso
inseparável das representações que ele cria, envolvendo também práticas de leitura inscritas nos
próprios suportes.

85
1283
OS LIVROS SAUDADE (1919), VIDA NA ROÇA (1933), ESPELHO (1928) E CAMPO E CIDADE (1964): UMA
APOLOGIA AO MEIO RURAL

CLEILA DE FÁTIMA SIQUEIRA STANISLAVSKI.


UNESP/FFC, MARÍLIA - SP - BRASIL.

Este texto tem como objetivo apresentar aspectos referentes ao meio rural presentes nas histórias dos
livros Saudade (1919), Vida na Roça (1933), Espelho (1928) e Campo e Cidade (1964), onde o autor
revela sua defesa ao meio rural. Os livros focados neste texto estão agrupados porque ressalta-se nas
histórias os personagens principais com características agrícolas num ambiente rural. Dessa forma,
estão voltados a convencer os leitores sobre as qualidades da vida no campo, fazendo apologia ao meio
rural. Estes livros compõem a Coleção de Leitura Escolar: Série Thales de Andrade juntamente com os
livros Ler Brincando (1932), Alegria (1937) e Trabalho (1958), que destacavam a educação rural e o
cotidiano das pessoas que moravam no campo. Para o desenvolvimento deste estudo, com resultados
preliminares de pesquisa de Doutorado, optei por procedimentos metodológicos de pesquisa
documental e bibliográfica situando-o no campo da história do livro escolar no Brasil estruturando-se a
partir das idéias de Roger Chartier numa abordagem identificada como história cultural. Centralizo nas
idéias de Chartier (2001) que define como relevante num texto as senhas explícitas e implícitas inscritas
pelo autor a fim de produzir uma leitura correta de acordo com sua intenção consciente ou
inconsciente, visando inscrever no texto convenções sociais ou literárias que permitirão sua sinalização,
classificação e compreensão, e estes aspectos são textuais, desejados pelo autor do texto investigado,
impondo assim protocolos de leitura. Os livros que compõe a Coleção de Leitura Escolar: Série Thales de
Andrade alcançaram muitas edições durante o século XX. Foram publicados pela Companhia Editora
Nacional em larga escala, e conquistaram o público leitor. Surgiram no momento de efervescência
editorial, no surgimento da Companhia Editora Nacional, contribuindo para o fortalecimento da editora
como maior editora do país naquele momento. Foram escritos pelo professor e escritor piracicabano
Thales Castanho de Andrade e foram destinados para leitura das crianças do curso primário das escolas
brasileiras no início do século XX. A presença de histórias que buscavam na realidade da vida do campo,
no cotidiano escolar e nas brincadeiras das crianças davam aos livros uma face real, ultrapassando o
campo imaginário, a fantasia e motivando a leitura. Entre os assuntos dos livros da Série
estrategicamente o autor abordava temas como a educação como forma de sucesso na vida e a ida à
escola, a escola rural e sua comunidade, a infância e suas vivências. O autor dos livros desta Coleção é o
Professor Thales Castanho de Andrade, piracicabano, autor e como professor de escola rural teve sua
vida dedicada à educação e aos livros, estava envolvido com a escola, as crianças e a comunidade rural.

1252
CULTURA PEDAGÓGICA E FORMAÇÃO DE PROFESSORES: A BIBLIOTECA DA ESCOLA NORMAL DE
PIRACICABA (1911-1920)

ANA CLARA BORTOLETO NERY.


UNESP, GUARULHOS - SP - BRASIL.

Analisar os livros que fizeram parte do acervo da biblioteca da Escola Normal Primária de Piracicaba,
interior de São Paulo, entre 1911 e 1920, é a preocupação central desta comunicação. Organizada a
partir do fundo da biblioteca da antiga Escola Complementar de Piracicaba e da política de criação de
bibliotecas escolares nas escolas normais do Estado, ela concorre para a constituição de um saber
especializado na área de formação de professores. A biblioteca escolar é compreendida como um
conjunto de materiais, em especial, de livros que, destinados ao uso do professores e à leitura escolar,
“organizam e constituem a cultura pedagógica representada como necessária ao desempenho escolar
de seu destinatário, o professor”(CARVALHO, 2007, p. 18). Entende-se, portanto, o conceito de cultura
pedagógica como a constituição de um saber específico a partir do conjunto de livros, adquiridos num
determinado período, com finalidade de formação docente. Para além do estudo dos conteúdos
veiculados por tais livros, o estudo da sua materialidade (Chartier) é evidenciado. Para a análise

86
proposta parte-se dos aspectos materiais que dizem respeito aos usos prescritos e à organização de um
repertório que estabelece uma cultura pedagógica determinada. Para caracterizar a cultura pedagógica
que se configura neste acervo serão objetos de análise os livros dedicados à Pedagogia. Para esta análise
utiliza-se a classificação feita por Carvalho (2007) em que distingue os tipos de impressos pedagógicos
em Caixa de Utensílios, Guia de Aconselhamento Tratado de Pedagogia. Como esta biblioteca foi
organizada a partir do fundo documental da antiga Escola Complementar de Piracicaba, os livros que
fizeram parte deste espólio serão também analisados. Como resultados é possível afirmar que, o
momento em foco, é marcadamente de profusão de princípios pedagógicos de diferentes matizes.
Neste sentido há a presença de livros nos moldes da Caixa de Utensílios e Guia de Aconselhamento. No
entanto, a entrada do livro de Calkins, na escola Normal Primária de Piracicaba, parece destoar um
pouco dos caminhos pelos quais a pedagogia parece se direcionar, sobretudo, com a indicação de
instalação do Gabinete de Psicologia e Pedagogia, após 1910. Por outro lado, se perfila com o conjunto
de livros trazidos por Thompson dos Estados Unidos em suas viagens, em especial, o livro de Emerson
White, A Arte de Ensinar, que Thompson manda traduzir em 1911, enquanto impresso que se enquadra
como Caixa de Utensílios.

87
88
EIXO 6 - ESTADO E POLÍTICAS EDUCACIONAIS NA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA

A ESCOLA, O ESTADO E A NAÇÃO: PARA UMA HISTÓRIA DO


ENSINO DAS LÍNGUAS NO BRASIL (1757-1827)
Coordenador: LUIZ EDUARDO OLIVEIRA

412
A CONSTITUIÇÃO DA NACIONALIDADE BRASILEIRA ATRAVÉS DO ENSINO SUPERIOR

CRISTIANE TAVARES FONSECA DE MORAES NUNES.


UFS E FSLF, ARACAJU - SE - BRASIL.

No reinado de D. José I, a sociedade eclesiástica foi substituída por uma sociedade civil. Os interesses da
fé e da alma dão lugar aos interesses do Estado, como detentor do poder absoluto. Pelo discurso
pombalino de modernidade podemos entender um explícito projeto de nação nas reformas
educacionais sugeridas por Pombal, tendo em vista uma desconstrução do modelo vigente proposto
pelos jesuítas para uma nova proposta de ideologia ilustrada. O novo projeto social iluminado era
baseado na ideia oposta da decadência e estagnação das sociedades alienadas pela superstição e pelo
obscurantismo religioso existentes na época. A educação passava a ser tutelada pelo Estado, encarada
como um dever público baseado no progresso das ciências e do homem. Na concepção de uma
soberania nacional, a Universidade de Coimbra é posta no centro de uma produção cultural ou
sociocultural que dará formação a essa nova mentalidade que os intelectuais deveriam dispor. Dessa
forma, o papel da universidade se constituiu no progresso desse Estado, que passou a estabelecer-se
como força motriz do progresso. A contribuição de Coimbra para a formação da nacionalidade brasileira
deve ser analisada através da ação dos egressos da Universidade nos movimentos em favor da
Independência do Brasil, em todas as funções políticas, culturais e científicas em que estiveram
envolvidos e filosoficamente comprometidos, quer como deputados, senadores, ministros e
conselheiros quer como presidentes de Províncias. O legado desse grupo de cientistas possibilitou a
formação da identidade nacional brasileira. O presente artigo, fruto de um projeto de pesquisa, busca
identificar a relação entre identidade nacional com os cursos superiores, na formação destes
intelectuais. Vale ressaltar que apenas os bacharéis brasileiros mais abastados podiam diplomar-se em
Portugal, notadamente na citada universidade. Podemos ter uma idéia das implicações das reformas
pombalinas no Brasil pelo Alvará de 1759, com o qual foram estabelecidos os primeiros concursos
públicos realizados na Bahia para as cadeiras de latim e retórica e a nomeação dos primeiros
professores régios de Pernambuco. Enfim, podemos entender as condições de subjulgação do povo
brasileiro posto que o nacionalismo passa a ser condição de libertação fabricando a própria nação e a
Universidade é posta no lócus da criação desse Estado-nação do Brasil.Os cursos que preparavam os
burocratas para o Estado eram as academias militares e os cursos cirúrgicos. Com a chegada dos cursos
de direito foi legitimado o cumprimento das atividades cotidianas de elaborar, discutir e interpretar as
leis, como tarefa principal do aparato jurídico, fundamental para a concepção da identidade nacional
através de um Estado forte e soberano e as instituições educacionais se tornaram o lócus da criação do
Estado-nação pela imposição da ideologia nacionalista.

1083
FICCIONALIDADE E DISCURSO IDEOLÓGICO: O EXEMPLO DE LUÍS ANTONIO VERNEY

CLÁUDIO DE SÁ CAPUANO.
UFRRJ, RIO DE JANEIRO - RJ - BRASIL.

Publicado em 1746, o Verdadeiro método de estudar, escrito pelo oratoriano Luis Antonio Verney,
apresenta, como bem observa Ivan Teixeira (1999), traços de “ficcionalidade”. O jogo ficcional
empreendido por Verney, ao dispor as ideias contidas no texto em cartas enviadas da Itália a Portugal,
apresenta funções e efeitos diversos. Em uma cultura que tem por tradição a oralidade (Lima, 1991), o

89
tom de conversa do texto epistolar garante um primeiro nível de comunicabilidade do conteúdo a ser
apresentado. Por outro lado, a omissão das identidades tanto do emissor quanto do receptor das
missivas, bem como a sua construção “mascarada”, são recursos importantes, pois provocaram uma
discussão, prolongaram-na por longo tempo e sustentaram as principais ideias contidas no texto. Ao
reconhecer a autoridade dos jesuítas e demonstrar familiaridade com suas práticas educacionais, o
anônimo emissor das cartas praticamente impôs o fato de serem suas ideias dignas de reflexão. Isso
ocorre também porque, dentro do jogo ficcional, as cartas são na verdade um parecer encomendado
por um douto da Universidade de Coimbra a um religioso italiano, conhecedor da cultura portuguesa.
Tais aspectos conferem ao texto uma legitimidade certamente motivadora da imensa repercussão que
teve o livro, quando do seu surgimento em um contexto cultural no qual os jesuítas ainda dominavam a
educação em todo o vasto reino lusitano. Entender a ficcionalidade como recurso discursivo a serviço da
propagação de uma ideologia é um aspecto fundamental da presente reflexão. Apesar de circularem
com intensidade considerável no Portugal da primeira metade do século XVIII, pela atuação dos
chamados “estrangeirados”, será somente a partir da publicação do Verdadeiro Método de Estudar que
o Iluminismo entrará de vez na pauta de todas as reflexões sobre educação no reino português e nas
suas então colônias. Base das reformas pombalinas da educação, o Verdadeiro Método, mais de dois
séculos e meio de sua primeira edição, contém ideias a respeito de educação e de metodologias de
ensino surpreendentemente atuais. A obra colocou de vez o pensamento iluminista no centro das
discussões político-educacionais que possibilitaram, dentro dos domínios portugueses, a construção de
uma identidade cultural, de que a unidade linguística talvez seja o seu melhor reflexo. O presente
trabalho pretende analisar o elemento ficcional na construção do texto verneiano, para salientar a
importância desse recurso no desencadeamento irreversível de um processo de mudanças das
estruturas conservadoras que haviam se instalado e se consolidado em Portugal desde o século XVI.

995
A INFLUÊNCIA DAS REFORMAS POMBALINAS PARA A COMPOSIÇÃO DE GRAMÁTICAS INGLESAS DOS
SÉCULOS XVIII E XIX

ELAINE MARIA SANTOS.


UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE, ARACAJU - SE - BRASIL.

Com as reformas pombalinas da instrução pública, a história do ensino das línguas em Portugal e no
Brasil alcança estatuto de política linguística e educacional de um Estado-Nação, pois, pela primeira vez,
Portugal institucionalizou o ensino nos seus reinos, e colocou todo o controle da educação nas mãos do
Estado, retirando o monopólio da Companhia de Jesus. O impulso para a profissionalização do ensino
está relacionado ao Alvará de 28 de junho de 1759, conhecido como Lei Geral dos Estudos Menores,
através do qual Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, acusava os jesuítas de serem
os grandes causadores do estado calamitoso em que se encontravam as Letras Humanas, propondo,
como solução, a estatização do ensino e a necessidade de uma habilitação legal para a ocupação do
cargo de Professor Régio. O ineditismo das ações propostas pelo Marquês de Pombal durante o século
XVIII pode ser confirmado ao se constar que, na França, somente em 1763, o ensino dependente do
Estado passou a ser defendido, enquanto que a instituição de escolas públicas na Prússia só ocorreu em
1763, na Saxônia em 1773 e na Áustria somente em 1774. O Projeto Pedagógico de Pombal teve grande
impacto durante o reinado de D. José I, no século XVIII, podendo-se rastrear as implicações de seus
pressupostos no século XIX, não só em Portugal como também em suas colônias. Esta pesquisa
relacionou o contexto sócio-político de tais reformas na colônia Brasileira, a legislação vigente e a
continuidade das políticas linguísticas e educacionais do período, como pode ser constatado ao se
analisar a Decisão n. 29, de 14 de julho de 1809, considerada a primeira referência ao ensino de idiomas
em solo brasileiro, através da qual duas cadeiras de ensino de línguas foram instituídas: uma de Língua
Inglesa e uma de Língua Francesa, juntamente com a divulgação das diretrizes para que compêndios
fossem produzidos por todos os professores de línguas nomeados no Brasil. Dois compêndios foram
analisados neste trabalho: a gramática anglo-lusitancia e lusitano-anglica de J. Castro, publicada em
1759, e a Arte Ingleza, publicada em 1827, pelo Padre Tilbury. A análise de compêndios para o ensino da
Língua Inglesa produzidos durante o período estudado neste trabalho nos faz perceber que existia uma

90
continuidade de ideias e de padrões de ensino, comprovando não ter havido uma ruptura no modo pelo
qual o ensino de Inglês foi tratado em Portugal e suas colônias. A legislação sobre o ensino de línguas no
Brasil no início do século XIX e as gramáticas da época encontradas na Biblioteca Nacional comprova a
repercussão das reformas pombalinas e reforçam a necessidade de maiores aprofundamentos sobre
esse objeto de pesquisa.

887
A LEGISLAÇÃO POMBALINA E A IDÉIA DE NAÇÃO

LUIZ EDUARDO OLIVEIRA.


UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE, ARACAJU - SE - BRASIL.

Alguns dos mais importantes historiadores e teóricos que se interessaram pelo tema da nação e do
nacionalismo, bem como da identidade nacional, como Hall (2005); Renan (2006); Bhabha (2006);
Anderson (2008) e Hobsbawm (2008), são unânimes em situar a emergência da idéia de nação entre fins
do século XVIII e meados do século XIX. Anderson (2008) ressalta o papel dos “pioneiros crioulos”.
Hobsbawm (2008) atenta para o fato de que os nacionalismos que surgiram depois do Tratado de
Versalhes e do pós-guerra, especialmente nos Estados africanos, foram de outra ordem. Em conjunto,
no entanto, tais autores raramente fazem referência ao caso ibérico, especialmente o português,
fechando os olhos também para as especificidades dos casos americanos, divididos grosseiramente
entre os Estados Unidos e a “América Latina”, o que deixa pouco espaço para a reflexão e compreensão
dos desdobramentos das políticas educacionais e linguísticas de Portugal, especialmente em seu mais
importante domínio, o Brasil. Este trabalho parte do pressuposto de que as reformas pombalinas da
instrução pública foram pioneiras não somente no processo de estatização do ensino e de
institucionalização da profissão docente (CARDOSO, 2010), mas também no de conformação da idéia de
nação, uma vez que a legislação que lhe deu suporte e legitimidade, tendo sido expedida entre 1750 e
1777, mesmo não tendo alcançado seus efeitos de imediato, mas algumas décadas depois, mostra-se
inovadora ao adaptar a “Querela entre os Antigos e os Modernos” ao contexto lusitano, contrapondo
uma Europa polida, vista como modelo de civilização e progresso sempre almejado, aos jesuítas, que
representam um passado a ser repudiado, ao ponto de não pertencerem à suposta linha evolutiva da
cultura e do pensamento supostamente português. Desse modo, o discurso da legislação pombalina,
proferido e articulado pelo Estado com a colaboração de intelectuais do tempo, foi capaz de mobilizar
habilmente as palavras-chave do léxico iluminista então corrente para seus próprios fins, apresentando
um elevado grau de autoconsciência histórica e desdobrando-se, às vezes, em verdadeiros discursos
fundacionais, os quais se concentram na invenção de uma tradição gloriosa do povo lusitano, nas artes,
nas armas e nas letras, quando, na época das grandes navegações, que também fora a época cantada
pelo poeta de Os Lusíadas, havia conquistado a América, a África e as Índias, deixando boquiabertos os
demais povos europeus, inclusive seus rivais ibéricos – os espanhóis. Assim, a legislação pombalina é
aqui vista como uma das estratégias representacionais de construção de uma cultura e uma identidade
nacional, para falar como Hall (2005, p. 52-56), o que, levando em conta a cronologia adotada pelos
historiadores e teóricos acima mencionados, coloca Portugal – e, em alguns casos, o Brasil – em uma
posição central e não mais periférica no processo de construção discursiva das identidades nacionais.

946
A EDUCAÇÃO POMBALINA NA FORMAÇÃO DA INTELECTUALIDADE OITOCENTISTA: AS PRIMEIRAS
ANTOLOGIAS E A CONSTRUÇÃO DA IDEIA DE LITERATURA NACIONAL

MIRELA MAGNANI PACHECO.


UFS, ARACAJU - SE - BRASIL.

Este trabalho foi elaborado com base na pesquisa de mestrado em andamento e se propõe a tecer
considerações relativas ao alcance da educação pombalina na formação da intelectualidade luso-
brasileira, entre os séculos XVIII quando começam a se instalar as reformas pombalinas em Portugal e

91
seus domínios, e XIX, que corresponde à geração seguinte à implantação das reformas. É desse último
século que datam os primeiros esforços no sentido de formar a identidade brasileira através da
fundação de uma literatura tipicamente nacional (ROUANET, 1991; WEBER, 1997), empenhada em
fortalecer a nação recém-independente também pela palavra (ACHUGAR, 1994). A importância de
ajustar o foco sobre o século XIX encontra-se no fato de que essa idéia de literatura nacional, que se fez
propagar pelos discursos de diversos intelectuais oitocentistas, tanto em Portugal como no Brasil,
parece ter tido suas origens em dois momentos. O primeiro refere-se à corrente historicista européia,
que emerge a partir dos julgamentos críticos do alemão Friederich Bouterwek (1765-1828),
influenciado, por sua vez, pela dicotomia entre as literaturas do norte e do sul de Madame de Stael
(1766-1817) (CÉSAR, 1978). É nesse período que surgem na Europa outras manifestações de cunho
crítico e histórico como as obras de Sismonde de Sismondi e de Ferdinand Denis, além do Bosquejo da
História da Poesia e Língua Portuguesa do poeta e crítico português Almeida Garrett, e que parecem ter
servido não apenas para a “invenção da literatura portuguesa”, Como quis Abreu (2003), mas também
de base para a produção intelectual oitocentista brasileira, empenhada em fundar a nação pela palavra,
no período que sucedeu a independência política do Brasil. O segundo momento antecede essa
corrente, referindo-se ao processo de reformação da educação no período pombalino, tanto no que se
refere ao ensino de primeiras letras e secundário, a partir de 1759, com a emissão do Alvará régio
(FALCON, 1993; ANDRADE, 1978; CARVALHO, 1978; NUNES, 2006; ALMEIDA, 2008), como ao ensino
superior, sobretudo na Universidade de Coimbra, que parece ter sido um pólo formador da
intelectualidade brasileira, em ambos os períodos, de modo que muitos de seus egressos contribuíram
para a formação da idéia de nacionalidade brasileira por diversas frentes (GAUER, 2007). A frente da
qual trataremos aqui é a da literatura, que parece ter sido construída, tal como a conhecemos hoje, por
um ideário comum que circulou ao longo de todo o século XIX, empenhado em promover um divórcio
entre as literaturas portuguesa e brasileira e fundar a nação brasileira. Assim, estudar a formação
educacional da intelectualidade brasileira nesses dois períodos torna-se relevante no sentido de melhor
compreender a importância da educação como força motriz, capaz de movimentar a intelectualidade de
uma época e de ser, ao mesmo tempo, influenciada por ela.

913
LEGISLAÇÃO SETECENTISTA ACERCA DO ENSINO DE LINGUAS

SARA ROGÉRIA SANTOS BARBOSA.


UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE, ARACAJU - SE - BRASIL.

A história do ensino da língua portuguesa no Brasil não pode ser desassociada do conjunto de reformas
pedagógicas ocorridas em meados do século XVIII, durante o reinado de Dom José I e sob a
responsabilidade de Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro Marquês de Pombal, denominada em
história da educação como Reformas Pombalinas da Instrução Pública (1757-1827). As reformas pelas
quais Portugal passou significaram uma remodelação do cenário luso e, por extensão, de suas colônias,
que integrariam o plano português de constituição de um estado-nação sob as mesmas leis e língua.
Uma das primeiras medidas legais foi institucionalizar o português como língua nacional e isso
significava que todos os povos sob a mesma bandeira deveriam adquiri-la e, para tanto, foram abertas
escolas para este fim. A aquisição espontânea através da oralidade poderia levar o ouvinte a pronúncias
que não corresponderiam à forma gramatical e a língua acabaria por apresentar aspectos fonológicos
vulgares, características que certamente não deveriam fazer parte do plano de unificação vernacular. O
modo mais eficaz para que a língua fosse aprendida seria através de escolas de ler e escrever e para isso
fazia-se importante a figura dos mestres de gramática, professores encarregados de ensinar a língua aos
meninos e meninas. Na história da unificação da língua portuguesa, as leis que fazem parte das
Reformas Pombalinas na Instrução Pública são importantes quando se objetiva, como neste artigo,
investigar, à luz da legislação, o processo de institucionalização do ensino de língua portuguesa no Brasil
e demais colônias sob o domínio luso. Como se trata de uma pesquisa em andamento, somente serão
analisadas três peças que deliberaram acerca da institucionalização da língua portuguesa: Lei do
Diretório dos Índios do Grão Pará e Maranhão, de 03 de maio de 1757, que tratava da nacionalização do
idioma do príncipe em todo o território lusitano, proibia o uso da língua geral e criava duas escolas para

92
ensino de leitura e escrita da língua portuguesa; o Alvará Régio de 30 de setembro de 1770, em que o El-
Rei ordenou que os Mestres da Língua Latina instruíssem por um período de seis meses, através da
Gramática portugueza composta por António José dos Reis Lobato, os alunos que ainda não
dominassem a língua do príncipe e, por fim, a lei de 15 de outubro de 1827 em que se ordena a abertura
de Escolas de Primeiras Letras em território brasileiro e a introdução da Gramática da Língua Nacional
entre as matérias a serem ensinadas pelos professores.

INVESTIGAÇÕES COMPARATIVAS ESTADUAIS SOBRE A ESCOLA PRIMARIA NO BRASIL (1889-1930).


Coordenador: JORGE CARVALHO DO NASCIMENTO

968
O FEDERALISMO REPUBLICANO E O FINANCIAMENTO DA ESCOLA PRIMÁRIA PÚBLICA NO BRASIL
1 2
JORGE CARVALHO DO NASCIMENTO ; LÚCIA MARIA FRANCA ROCHA .
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE, ARACAJU - SE - BRASIL; 2.UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA,
SALVADOR - BA - BRASIL.

A análise comparativa sobre o financiamento da Educação nos Estados durante a Primeira República
coloca em relevo uma dificuldade: a diversidade dos dados apresentados nos relatórios dos
governantes, o que complica a comparação entre as distintas realidades educacionais. Assim, esta
comunicação apresenta os resultados preliminares da pesquisa que analisou a questão em seis
diferentes Estados brasileiros. Os estudos foram desenvolvidos no âmbito do projeto de pesquisa, já
concluído, sob o título Por uma teoria e uma História da escola primária no Brasil: investigações
comparadas sobre a escola graduada (1870-1950), financiado com recursos do CNPq. O trabalho busca
investigar traços comuns que viabilizaram o financiamento da escola primária graduada no Brasil, a
exemplo da indicação em distintos discursos do crescimento dos gastos com a instrução pública,
constatando a ausência de uniformidade, se considerados os dados aproximados de receita e despesa
totais dos Estados. A investigação utilizou como fonte comum as Mensagens Presidenciais dos
diferentes Estados. Estas apontam que os maiores gastos com a instrução pública eram com os edifícios
escolares: construção, manutenção, mas, sobretudo, pagamento de aluguéis. De todos os custos com a
instrução, os gastos com os aluguéis dos edifícios escolares e com a construção de prédios destinados
aos grupos escolares eram, efetivamente, os que mais pesavam ao erário. O grupo escolar era um
modelo de escola tido como muito dispendioso. A sua construção exigia muitos gastos, principalmente
quando se considera o alto custo das obras, imposto pela sua monumentalidade. Os prédios eram
grandiosos e ficavam nas proximidades do centro das cidades, onde o valor dos imóveis era elevado. Os
custos financeiros foram, portanto, o principal elemento considerado ao analisar, nos diferentes
Estados, o discurso daqueles que não viam com entusiasmo o modelo irradiado a partir da experiência
do Estado de São Paulo. A alegação evidenciava as dificuldades financeiras enfrentadas pelas diferentes
unidades da República Federal brasileira. O alto custo dos prédios era questionado e outras alternativas
foram propostas para a organização de novas instituições escolares. Alguns presidentes e governadores
estaduais, inclusive, sugeriam que as municipalidades assumissem esses gastos a fim de desafogar o
orçamento. As municipalidades ficariam responsáveis pela aquisição dos prédios e ao Estado caberia
adaptar os edifícios aos padrões pedagógicos e manter o ensino, o que permitiria continuar
implantando grupos monumentais.

93
1062
A ESCOLA PRIMÁRIA E O IDEÁRIO REPUBLICANISTA NAS MENSAGENS DOS PRESIDENTES DE ESTADO:
INVESTIGAÇÕES COMPARATIVAS DE 1894 A 1922
1 2
JOSÉ CARLOS SOUZA ARAUJO ; RUBIA-MAR NUNES PINTO .
UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA, UBERLANDIA - MG - BRASIL; 2.UNIVERSIDADE FEDERAL DE
GOIÁS, GOIÂNIA - GO - BRASIL.

O tema dessa comunicação propõe-se a uma análise de relativa amplitude nacional a respeito da escola
primária no Brasil em seu movimento instituinte – desde as suas modalidades coexistentes (escola
isolada, escola reunida, escola modelo, grupo escolar etc) -, enquanto expressam uma orientação
republicanista a enfrentar os problemas escolares de então, quando o analfabetismo vigente cobria 85%
da população brasileira. A periodização privilegiará os diferentes momentos de instauração de políticas
educacionais estaduais em torno dos grupos escolares, as quais cobrem de 1894 a 1922. Nesse sentido,
tal proposta estará adstrita ao seguinte objeto: uma investigação comparativa do ideário republicanista
veiculado em dez estados e um território, com as respectivas datas de instauração dos grupos escolares:
Acre (1915), Bahia (1913), Goiás (1918), Maranhão (1903), Mato Grosso (1910), Minas Gerais (1906),
Piauí (1922), Rio de Janeiro (1897), Rio Grande do Norte (1908), São Paulo (1894) e Sergipe (1911). As
fontes que orientam a referida pesquisa assentam-se nas Mensagens dos Presidentes de Estado bem
como nas legislações educacionais estaduais pertinentes às diferentes datações mencionadas.
Especificamente, essa orientação terá como foco as datações supra indicadas (ou mesmo próximas,
quando for o caso), tendo em vista averiguar como o discurso republicanista - expresso pelas
mencionadas Mensagens e pelas legislações estaduais - concebe as questões relativas à educação
escolar primária de então. Em termos de resultados, evidenciam-se temas comuns de ordem
republicana associados à questão educacional, mas basicamente a expressar o tecido republicano
brasileiro que então se fiava: a escola primária apresenta-se articulada ao saneamento moral, à salvação
publica, à justiça, à construção da nacionalidade, aos direitos de cidadania, aos interesses do povo. Além
disso, a ela cabia também construir a assumida orientação federalista, a de que os diferentes Estados e
Municípios viessem a ser coordenados pela União em vista do enfrentamento da educação como
problema nacional, da necessária instrução popular, da efetivação da democracia bem como da
afirmação de vínculos com a civilização e com o progresso. Este processo, entretanto, não ocorreu de
maneira uniforme ou linear nas unidades federativas de então, em vista das condições e configurações
político-econômicas e culturais específicas de cada um deles como também pelas desigualdades
regionais.

982
A EDUCAÇÃO ESCOLAR DA CRIANÇA QUE SE FEZ INDISPENSÁVEL (NORDESTE DO BRASIL, 1892-1930)

MARTA MARIA DE ARAÚJO


UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE, NATAL - RN - BRASIL.

Nas três primeiras décadas do século XX, o bem sucedido ordenamento do sistema escolar público
paulista, que, no regime republicano, experimentava modelarmente a institucionalização da escola
primária, especialmente a graduada, fez-se referência padrão para certos dirigentes estaduais –
programa de estudo combinado com a seriação e a simultaneidade, classe homogênea, método de
ensino intuitivo, divisão do trabalho docente, inspeção escolar. Por um lado, muitas foram as visitas
comissionadas de diretores da instrução pública visando conhecer a vida escolar resultante de uma
organização pedagógica exemplarmente moderna. Por outro, expedientes outros seriam preconizados
como, por exemplo, comissionar educadores paulistas para empreenderem reformas da educação
escolar adaptadas às condições socioeconômicas locais. No Nordeste do Brasil, implantado o arcabouço
político jurídico do Estado federativo republicano, por volta de 1892, os dirigentes insistiram em
medidas regulamentadoras diversas – umas restritas à letra da legislação, outras transitórias e algumas
efetivas – visando a um programa de reforma da educação escolar pública primária principalmente, nos
moldes da organização pedagógica de São Paulo, circunstanciada pelos preceitos da pedagogia

94
moderna. O presente trabalho centra-se na leitura de fontes documentais diversas (mensagens
governamentais, legislação educacional, relatórios de diretor-geral da instrução pública), bem como na
análise dos estudiosos sobre a institucionalização da escola primária republicana, especialmente nos
Estados do Nordeste (Bahia, Maranhão, Rio Grande do Norte, Sergipe e Piauí), com o objetivo de
comparar as peculiaridades, similitudes e distinções relativas às modalidades das escolas primárias
implantadas, tendo como pressuposto a organização pedagógica do Estado de São Paulo, no período de
1892 a 1930. As modalidades que compunham o núcleo pedagógico da escola primária republicana
nesses Estados nordestinos são analisadas como constitutivas de uma dada forma escolar de
socialização, segundo as teorizações dos historiadores Guy Vincent, Bernard Lahire e Daniel Thin (2001).
A hipótese defendida é a de que as diversas modalidades de escolas implantadas na Bahia (grupos
escolares, escolas isoladas e reunidas), Maranhão (escola-modelo, grupos escolares, escolas isoladas,
urbanas e rurais), Rio Grande do Norte (grupos escolares, escolas isoladas e rudimentares), Sergipe
(grupos escolares, escolas reunidas e isoladas ou singulares) e no Piauí (escola-modelo, grupos
escolares, escolas isoladas e reunidas) correspondiam, em parte, à extensão da educação escolar às
crianças das camadas populares, segundo os ditames oficiais de regularidade, uniformidade e
gradualidade socioeducacionais; por outra parte, a forma de socialização efetivada em cada uma das
modalidades de escola, mediante programa de estudo, série, idade, horário, inseria cada educando no
limite da classe social a que pertencia.

HISTORIA DA EDUCAÇÂO SOCIAL: UMA OUTRA ABORDAGEM DA HISTÓRIA


DA EDUCAÇÃO DOS DESAMPARADOS
Coordenador: CYNTHIA GREIVE VEIGA

1086
A EDUCAÇÃO PARA CRIANÇAS E JOVENS DESAMPARADOS NA COMPANHIA DE APRENDIZES
MARINHEIROS DE SERGIPE (1868-1885)

SOLYANE SILVEIRA LIMA.


UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS, BELO HORIZONTE - MG - BRASIL.

Este trabalho, resultado de pesquisa de doutorado em andamento, tem como objetivo principal
problematizar a proposta de formação oferecida pela Companhia de Aprendizes Marinheiros de Sergipe
aos órfãos e desvalidos com idade entre 10 e 14 anos no período compreendido entre 1868, quando
ocorre a sua fundação, até o seu fechamento em 1885. A principal hipótese é que essa instituição
oferecia um tipo de educação diferenciada com o propósito favorecer autonomia para crianças e jovens
desamparados através da aprendizagem de um ofício, oportunizando sua inserção social. O trabalho
está dividido em três partes. Inicialmente realizou-se um levantamento bibliográfico sobre as produções
a respeito das Companhias de Aprendizes Marinheiros, enfatizando os objetivos, as principais
referências e os conceitos utilizados na construção destes trabalhos, sem a intenção de fazer um
balanço sobre essas instituições, mas para verificar a presença desse tema na historiografia da educação
brasileira. No segundo momento, analisou-se a criação dessas Companhias, com ênfase na de Sergipe,
partindo de uma sondagem sobre as suas origens e visualizando-as como instituições militares que se
constituíram em uma das poucas alternativas de aprendizado profissional no Império e que se
diferenciava da filantropia por partir de uma política pública (quiçá a primeira) do Estado. Por fim,
apresento a educação oferecida pela Companhia de Aprendizes Marinheiros de Sergipe. Esta instituição
era um estabelecimento para crianças e jovens desamparados, onde recebiam instrução elementar e
profissionalizante prevenindo da ociosidade, da mendicância, da permanência nas ruas e do crime.
Enfim se apresentava como uma instituição voltada para educação social. Para analisar a origem e o
funcionamento dessa instituição farei uso das contribuições de Norbert Elias, em seus estudos sobre a
gênese da profissão naval e sobre a condição de aprendiz. Para discutir a concepção de educação social,
buscarei subsídios nas publicações de autores espanhóis da História da Educação Social, dentre eles o
Julio Ruiz Berrio, que apresenta o conceito desse campo teórico e Irene Palacio Lis, que desenvolve a

95
idéia de que a caridade privada e eclesiástica se transformou em beneficência pública a partir do século
XIX, momento este em que surgem as Companhias de Aprendizes Marinheiros no Brasil. As fontes
utilizadas foram a legislação nacional e estadual e os relatos de governo(mensagens presidenciais e
estaduais). Por se tratar de uma pesquisa que se encontra em andamento, as questões apresentadas
não são definitivas, porém consiste num esforço para reflexão e aprofundamento do objeto de estudo.

889
A FORMAÇÃO DO SUJEITO TRABALHADOR NA REPÚBLICA: O ENSINO TÉCNICO PROFISSIONAL E A
CRIANÇA DESVALIDA DA FORTUNA

IRLEN ANTÔNIO GONÇALVES.


CENTRO FEDERAL DE EDUCAÇÃO TECNOLÓGICA, BELO HORIZONTE - MG - BRASIL.

O objetivo desta comunicação é o de apresentar algumas reflexões sobre a proposição da República


para a formação do trabalhador mineiro, que toma a criança desvalida da fortuna como sujeito
principal. Essa reflexão foi desenvolvida por meio da leitura dos discursos do legislativo e do executivo,
presentes nos Anais do Congresso Mineiro e na legislação, nas duas primeiras décadas republicanas. Tais
documentos foram tomados como fontes, por oferecem subsídios para a compreensão da política para
a educação e formação profissional. É um trabalho que faz parte de um projeto de pesquisa em
andamento, financiado pelo CNPq, cujo título é “A escolarização das atividades manuais e a formação
do trabalhador mineiro sob o ponto de vista do léxico republicano (1892-1920)”. Foram utilizados como
referenciais teórico-metodológicos as vertentes historiográficas da História da Educação, entrecortada
pela História da Cultura Política e da História dos Conceitos, entendendo-as não como uma
compartimentação da história, mas dentro do escopo de uma modalidade de imersão de uma prática
social, num dado tempo histórico. O que se propõe é uma compreensão de como foram produzidas as
representações de trabalhador, nos seus aspectos determinantes da legitimação de um ideário
educativo modernizador e, ainda, identificar como, nos diferentes lugares e momentos, essa realidade
determinada foi pensada e construída, pois, foi no campo retórico e discursivo de constituição das
políticas de formação profissional que os sujeitos, crianças desvalidas, foram nomeados, indicados,
construídos e ganharam visibilidade. Para o estudo dessas representações, considerou-se a produção
discursiva dos diversos grupos sociais que estiveram à frente da produção e condução das políticas
educacionais, tomando como premissas que: falar da produção da legislação educacional na República é
falar da produção de um discurso de representação da própria República. Assim, o mesmo movimento
de construção da República é, intrinsecamente, o movimento de construção das proposições de
formação do trabalhador, pela via da educação e da instrução escolares. A República não nasceu pronta,
assim como não se tinha projetos de formação predefinidos; falar em projeto de formação escolar do
trabalhador na República é falar no plural, projetos. Assim, numa República plural, também plural serão
os projetos de sociedade, de nação, de cidadania e de trabalhador; os projetos de educação dos
republicanos, principalmente o escolar, foram produzidos para produzir a República.

926
EDUCAÇÃO, TRABALHO E PROTEÇÃO SOCIAL NO INÍCIO DA REPÚBLICA BRASILEIRA

CARLA SIMONE CHAMON.


CEFET-MG, BELO HORIZONTE - MG – BRASIL

O objetivo dessa comunicação é discutir a criação das Escolas de Aprendizes Artífices, no início da
república brasileira, como política destinada à proteção social dos chamados "desfavorecidos da
fortuna". As Escolas de Aprendizes Artífices foram criadas no Brasil em 1909, por meio de um decreto do
presidente Nilo Peçanha, com o objetivo de ministrar ensino técnico profissional de nível primário,
gratuitamente para crianças na idade entre 10 e 13 anos. Primeira iniciativa da República brasileira
nessa direção, tais escolas foram endereçadas pela legislação aos “desfavorecidos da fortuna”. Essa
orientação não dava às classes pobres a exclusividade de acesso a essas escolas, mas deixava clara a
intenção de que era a esses segmentos que elas deveriam preferencialmente se destinar. É preciso levar

96
em conta que no final do século XIX e início do XX, em virtude do desenvolvimento do capitalismo
industrial, do processo de urbanização e do fim da escravidão, cresce no País o número dos
marginalizados e desamparados socialmente. Nesse contexto, o papel dessas escolas seria, de acordo
com o decreto que as instituiu, o de educar e instruir as crianças "desfavorecidas da fortuna" para que
elas tivessem meios de “vencer as dificuldades sempre crescentes da luta pela existência”. Era
importante que elas aprendessem a trabalhar para produzir seu sustento, sem depender da caridade
alheia. O aprendizado de um ofício seria a garantia de subsistência, devendo, por isso, ser transformado
em política pública. Aqui, a ação e a preocupação do poder público se dirigem ao sujeito desvalido,
sendo ele o alvo das políticas do Estado e a educação profissional a ferramenta que, acreditava-se, seria
capaz de produzir proteção social, na medida em que reduziria as incertezas do futuro. Nesse sentido, a
questão que pretendemos discutir aqui é se possível perceber nessa educação endereçada às crianças
mais pobres, denominadas de “desfavorecidos da fortuna”, a transferência da caridade privada, típica
das sociedades filantrópicas do século XIX, para a beneficência pública exercida pelo Estado. Tomamos
aqui como fonte principal as leis, regulamentos e relatórios sobre as Escolas de Aprendizes Artífices
como forma de identificar nessas instituições uma preocupação social por parte do poder público,
buscando também alguns indícios que nos permitam perceber o alcance dessa iniciativa. A análise dessa
documentação se faz no diálogo com a historiografia brasileira sobre as Escolas de Aprendizes Artífices,
com a concepção de educação social trabalhada por autores espanhóis, como Julio Ruiz Berrio e Irene
Palacio Lis e com as reflexões de Pierre Rosanvalon sobre a passagem do Estado protetor para o Estado
providência.

1080
A ASSISTÊNCIA PELA PROFISSIONALIZAÇÃO: O CASO DO INSTITUTO PROFISSIONAL JOÃO ALFREDO
(1910-1933)

MARIA ZELIA MAIA SOUZA.


UNIVERSIDADE ABERTA DO BRASIL, RIO DE JANEIRO - RJ – BRASIL

A presente comunicação tem como objetivo analisar a legislação que regulamentou a assistência e a
profissionalização de menores desamparados, internos no Instituto Profissional João Alfredo (IJPA),
entre os anos de 1894 a 1933; atentando para as mudanças na concepção de assistência e de educação.
O propósito da instituição era abrigar, educar e profissionalizar menores nas condições sociais
apresentadas, na faixa etária compreendida entre 12 e 15 de idade. Busco verificar a aplicação do
previsto para o funcionamento da instituição asilar/escolar, trabalhando com o cruzamento das normas
com outras fontes disponíveis: relatórios dos dirigentes do IPJA e dos prefeitos do antigo Distrito
Federal. Para a compreensão do modo como se deu a mudança do discurso da assistência para o da
profissionalização, na organização do IPJA, a metodologia utilizada nesse estudo, que resulta de
pesquisa em andamento, situa-se na interface entre a chamada história social e a nova história política,
especialmente no âmbito da história da educação social. A importância política do antigo Distrito
Federal associada ao desenvolvimento industrial teriam sido circunstâncias que proporcionariam
condições favoráveis para que ocorressem avanços significativos em relação às políticas públicas
voltadas para o cuidado, a proteção e a educação dos menores desamparados. Remete, portanto, ao
modo como o sistema de regras atua para viabilizar o funcionamento do IPJA. Por outras palavras,
interrogar as condições em que tal sistema foi forjado: o que levou a sua formulação? Qual o seu
significado? Sob esse aspecto, considerou-se a legislação examinada como parte do processo de
ordenação das relações sociais ao constatar-se que os discursos acerca do “novo” olhar da normalização
da assistência e do ensino profissional, proposto pela instituição examinada, antecedeu às próprias
regulamentações. O cumprimento das normas nem sempre foi tranquilo frente as necessidades e as
exigências sociais. Por outras palavras, a funcionalidade e a harmonia previstas nos regulamentos do
IPJA, colocaram em debate outras maneiras de pensar a proteção e a profissionalização de menores
desamparados. Apenas tal condição social não era garantia de matrícula no IPJA, pois criaram-se
impedimentos legais: a matrícula se efetivaria após prova de exame de admissão (leitura e escrita) e
demonstração de aptidão para o exercício da futura profissão. Dessa forma problematizo se o Instituto
Profissional João Alfredo estaria perdendo sua característica assistencialista.

97
923
HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO SOCIAL: UM CAMPO DE INVESTIGAÇÃO PARA A HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO

CYNTHIA GREIVE VEIGA


UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS, BELO HORIZONTE - MG - BRASIL.

O objetivo desta comunicação é discutir a concepção de história da educação social desenvolvida pelo
historiador Julio Ruiz Berrio da Universidade Complutense de Madri. Embora o termo educação social
seja mais conhecido na atualidade referindo-se a atividade educacional que inclusive não diz respeito à
educação escolar, não se pretende aqui um anacronismo. O objetivo da discussão desta concepção é dar
visibilidade a outras proposições de educação escolar diferenciada da escola regular, mas que possui em
comum no passado e no presente o fato de ser destinada às crianças em situação de desamparo moral e
físico. Minha hipótese é que a atual abordagem da história da educação escolar não é suficiente para
problematizar a história de outros processos escolares que não o da escola regular. No caso de
instituições escolares destinadas a crianças abandonadas e crianças infratoras, não seria necessária
outra abordagem conceitual? Enquanto a escola pública regular se organiza principalmente a partir do
século XIX, com o objetivo claro de inclusão escolar de todas as crianças, independente da origem social,
as instituições voltadas para crianças abandonadas e infratoras, são exclusivas comportando também a
existência de uma pedagogia diferenciada, com conotação de reabilitação social e moral, além de oferta
de ensino profissional. Observa-se ainda que no caso de pessoas portadoras de alguma necessidade
especial também foram criadas desde o século XIX escolas e pedagogias exclusivas, por exemplo, para
cegos, surdos-mudos e deficientes mentais. Contudo constata-se que a história da educação tem
problematizado pouco sobre a coexistência de escolas com funções diferenciadas a partir do século XIX
e priorizado os estudos sobre a escola regular. Entretanto a diversificação na escolarização das crianças
foi um acontecimento bastante freqüente sendo necessário problematizar melhor o processo de sua
organização por meio da discussão de algumas questões, tais como: a elaboração da função
assistencialista de instituições públicas que não as escolas regulares; as diferenças e aproximações nas
práticas escolares entre os diferentes tipos de escolas; a existência de propostas de ensino profissional;
os diferentes sujeitos envolvidos com educação de caráter assistencial. Para as reflexões sobre história
da educação social desenvolvidos nesta comunicação, além de Ruiz Berrio, foram realizados estudos de
autores que investigam questões como pobreza, assistência (Bronislaw Geremek) e trabalho infantil
(Maria Alice Nogueira, Friedrich Engels), além de questões relativas a perspectivas norteadoras de
políticas assistencialistas e de beneficência pública (Pierre Rosanvalon).

REFORMAS EDUCACIONAIS: AS MANIFESTACÕES DA ESCOLA NOVA NO BRASIL (1920- 1946)


Coordenador: MARIA ELISABETH BLANCK MIGUEL

874
AS MANIFESTAÇÕES DA ESCOLA NOVA NO PARANÁ: POLÍTICA ESTADUAL DE FORMAÇÃO DE
PROFESSORES

MARIA ELISABETH BLANCK MIGUEL.


PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO PARANÁ, CURITIBA - PR - BRASIL.

O período no qual as idéias oriundas da Pedagogia da Escola Nova influenciaram a educação escolar
paranaense situa-se entre 1920 e 1961. Três fatos são marcantes no período citado: o início,
caracterizado pela reorganização e sistematização da educação escolar existente, bem como a
introdução do ideário da Escola Nova (1920 a 1938); a consolidação, por meio de uma experiência única
realizada na Escola de Professores de Curitiba de 1938 a 1946, e após, sua expansão acompanhando as
escolas que se multiplicaram pelo território paranaense impulsionadas pelo desenvolvimento do Estado
(1946-1961). Na primeira fase salientam-se as figuras de Prieto Martinez e Lysímaco Ferreira da Costa; e
daí em diante é marcante a presença e atuação de Erasmo Pilotto. O trabalho é resultado de pesquisa

98
concluída, fundamentada em fontes documentais (leis, decretos, relatórios, mensagens dos
interventores e governadores, códigos de ensino), além dos textos escritos pelos próprios propositores,
bem como das obras nas quais os mesmos se inspiraram. As fontes possibilitaram a reconstrução de
parte da história e das políticas educacionais vigentes no Paraná, no período, mas somente foi possível
compreendê-las quando relacionadas às diretrizes internacionais provenientes da UNESCO, após 1946.
Objetiva-se tratar do período de 1920 a 1961 como o período no qual se conformaram políticas
estaduais de formação de professores e formação do aluno para fazer frente às demandas geradas pela
expansão da lavoura do café em solo paranaense, e pela ocupação de seu território. Sobretudo,
objetiva-se mostrar como concretamente, a Pedagogia da Escola Nova inspirou uma proposta de Lei
Orgânica Estadual na qual estavam expressos conceitos propostos por Anísio Teixeira (administração das
escolas por Conselhos de Educação dos municípios. As realocações de escolas conforme a presença de
maior clientela escolar, adoção de livros didáticos e uniformes escolares, proibição de transferências de
professores em período escolar constituem medidas racionalizadoras de Pietro Martinez, que
antecedem a reforma da Escola Normal aplicada em 1922. Nesta salienta-se a figura de Lysímaco
Ferreira da Costa, autor das Bases Educativas para a Nova Escola Normal do Paraná. A pedagogia de
Herbart caracteriza a reforma que será modificada em 38 por Pilotto. Este aplicará a princípio, as ideias
de Montessori e Decroly e, após as ideias pedagógicas de Langevin e Wallon, dentre outras. A influência
de Anísio Teixeira e das ideias veiculadas pelo INEP também são indicadores das manifestações da
Pedagogia da Escola Nova no Paraná.

908
A REFORMA FERNANDO DE AZEVEDO E AS COLMÉIAS LABORIOSAS E HIGIÊNICAS NO DISTRITO
FEDERAL DE 1927 A 1930

SÔNIA OLIVEIRA CAMARA RANGEL.


UERJ, RIO DE JANEIRO - RJ - BRASIL.

Durante os anos em que esteve à frente da Diretoria Geral de Instrução Pública do Distrito Federal, de
1927 a 1930, Fernando de Azevedo tencionou reestruturar a instrução pública estabelecendo a
renovação interior da escola na sua organização, nos seus métodos e nos princípios que deveriam
instituir a idéia de escola renovada. A concepção de uma nova organização para a escola sustentava-se
nos conhecimentos científicos e na transmissão de valores morais e culturais compatíveis com o
escolanovismo predominante à época. Com este intuito, Fernando de Azevedo arquitetou
procedimentos pedagógicos e educativos das práticas e dos fazeres escolares, concebendo a idéia de
que as escolas deveriam organizar-se como colméias laboriosas de trabalho educativo e de higiene. A
reforma sistematizou procedimentos ampliando o espaço de aprendizagem, onde a sala de aula, as
bibliotecas, os laboratórios, o cinema, o rádio educativo, o teatro, o museu, as ruas e a casa foram
incorporadas a essa dinâmica educativa. Assim, por educação nova identificaram variados planos e
ex¬periências em que eram introduzidas idéias e técnicas novas, a exemplo dos métodos ati¬vos, da
adoção de testes e a adaptação do ensino às fases de desenvolvimento de cada aluno. Dessa forma, as
experiências realizadas pelas Diretorias Gerais de Instrução Pública dos Estados, nos anos de 1920,
passaram a significar a produção de uma for¬ma nova de educar as crianças num movimento que tendia
a uniformizar um modelo ideal de educação, de escola e de aluno. Objetivando refletir sobre o projeto
elaborado por Fernando de Azevedo para o Distrito Federal, pretendemos perscrutar os sentidos
constitutivos da idéia de educação formulada por esse educador, bem como a matriz de intervenção
que fundamentou as formas de pensar a escola. Partindo dessa compreensão, esse texto estrutura-se
num duplo esforço de reflexão teórica: em primeiro, busca contextualizar a Reforma no quadro das
reformas sociais estabelecendo, para isso, articulações entre os campos médico e o pedagógico; em
segundo pretende matizar as concepções que orientaram a ação intervencionista de Fernando de
Azevedo focalizando as práticas e os fazeres pedagógicos que se instituíram no espaço escolar a partir
das interfaces indicadas. Para isso, enfatizaremos como corpus documental de análise os relatórios, os
boletins, os jornais e os livros que nos ajudem a (re) compor as redes de sociabilidade que se
organizaram em torno dos projetos reformadores do social. Nesse cenário, o lema “escola para todos”

99
configurou-se como elemento instituidor de organização das relações sociais e familiares e, portanto,
como peça primordial de progresso, de higiene e de modernização do país.

701
A INTRODUÇÃO DA ESCOLA NOVA EM MATO GROSSO
ELIZABETH FIGUEIREDO DE SÁ.
UFMT, CUIABA - MT - BRASIL.

Os princípios pedagógicos da Escola Nova, em ampla expansão no Brasil a partir da década de 1920
principalmente através das reformas educacionais, caracterizaram-se pela centralização da criança no
processo educativo estabelecendo uma nova relação professor-aluno, a reformulação dos programas de
ensino dos cursos primários e de formação de professores, observando o desenvolvimento biológico e
psicológico da criança; e, a proposição de novas metodologias que respeitassem as capacidades
individuais considerando o ritmo de aprendizagem de cada criança. Contrapondo-se à “pedagogia
tradicional” que se fundamenta na transmissão pelo professor dos saberes acumulados pela sociedade,
através da sua palavra ou pela observação sensorial; a educação, na concepção escolanovista, não é
uma preparação para a vida, é a própria vida, é a interação entre o indivíduo e o meio através de
situações de experiência que visam o desenvolvimento de suas potencialidades. Tal ideário também
esteve presente na educação mato-grossense, principalmente no âmbito legal e nos discursos dos
governantes e intelectuais da educação. A presente comunicação tem como objetivo desvendar os
meios pelos quais as idéias escolanovistas foram introduzidas no cenário educacional do estado de Mato
Grosso na década de 1920 através da análise da reorganização curricular da Escola Normal (1923 e
1926), da reorganização curricular dos grupos escolares (1924) e do Regulamento da Instrução Pública
Primária (1927), instituído no governo de Mario Corrêa da Costa e elaborado por uma comissão
composta pelo Diretor da Instrução Pública, Dr. Cesário Alves Corrêa e pelos professores Jayme Joaquim
de Carvalho, Isaac Povoas, Julio S. Muller, Franklin Cassiano da Silva, Rubens de Carvalho, Philogônio de
Paula Corrêa, Fernando Leite de Campos, Nilo Póvoas e Alcino Carvalho. Constitui-se como um resultado
parcial da pesquisa em andamento intitulada “O ideário escolanovista em Mato Grosso”. Percebe-se,
após a análise da documentação apontada, a preocupação das autoridades do governo em acompanhar
as idéias pedagógicas que circulavam no País, através da viabilização da participação de representantes
em congressos promovidos pela ABE e pela União e do investimento na reorganização da Instrução
Pública, tanto no curso de formação de professores, como do ensino público primário. Ressalta-se que
se encontra presente nos discursos legais a preocupação, mesmo que de modo incipiente, com os
cuidados e a formação integral da criança mato-grossense.

881
O INQUÉRITO SOBRE A INSTRUÇÃO PÚBLICA (1926) E AS DISPUTAS EM TORNO DA EDUCAÇÃO EM
SÃO PAULO

DIANA GONÇALVES VIDAL.


FEUSP, SAO PAULO - SP - BRASIL.

Em 1922, o Brasil comemorava o aniversário de 100 anos da Independência. Para os festejos, a capital
da República fora preparada em grande estilo, o que incluiu o arrasamento do morro do Castelo e do
pobre casario que ali vicejava, recompondo o cartão-postal do centro da cidade do Rio de Janeiro; e a
realização de uma Exposição Internacional, idealizada com o propósito de exibir o progresso material e
científico alcançado pelo país, à semelhança das Exposições Universais, ocorridas em diversas nações do
mundo desde 1851. As duas iniciativas, de grande repercussão, não foram, entretanto, as únicas
expressões do ímpeto comemorativo que a data sugeriu. Embalados pela efeméride, diversos
intelectuais, políticos e instituições propuseram a elaboração de inquéritos e balanços, nos vários
âmbitos sociais, com o intuito de interpelar o passado, ressignificar o presente e, principalmente, traçar
os rumos do futuro. Passados apenas cinco anos, outro centenário era comemorado no país: o
centenário do ensino primário. Apesar de hoje bastante esquecido pela historiografia educacional, o dia

100
15 de outubro de 1927 foi marcado por uma série de manifestações públicas que incluíram desfiles
infantis, promulgação de reformas educativas, como o Código elaborado por Francisco Campos para
Minas Gerais, além de um intenso debate sobre a educação nacional. O balanço e a prospecção ou,
como diria Michael Conniff (2006), o planejamento social eram importantes chaves de entendimento do
período. O Inquérito sobre Instrução Pública, organizado, em 1926, por Azevedo para O Estado de S.
Paulo não fugia à regra. Premido entre os dois centenários, da Independência e da Lei do Ensino
Primário, e impulsionado pelo desejo de coligir opiniões sobre a educação paulista, inseria-se no
movimento que pretendia perquirir o presente e investir no futuro. Nos dois casos, compromissos
ideológicos e políticos entreteciam a operação e evidenciavam-se nos resultados obtidos. Para apreciá-
los, proponho que nos debrucemos apenas sobre a primeira parte do Inquérito, que corresponde à
temática do ensino primário e normal e foi publicada entre 10 e 30 de junho de 1926. Com intuito de
estruturar a exposição, organizei a comunicação em quatro itens. No primeiro, faço uma breve
caracterização do Inquérito: as partes que o compunham e seus objetivos declarados. No segundo,
procuro reconstituir o micro-clima das contentas político-educacionais que desenharam os contornos da
enquete. As principais propostas são objeto de investimento no terceiro item. Por fim, discorro sobre as
releituras feitas por Fernando de Azevedo a propósito de publicação do Inquérito em 1937 e 1957.

932
A ESCOLA NOVA EM SERGIPE NA PRIMEIRA METADE DO SÉCULO XX

ANAMARIA GONÇALVES BUENO DE FREITAS.


UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE, ARACAJU - SE - BRASIL.

Este estudo é produto de uma pesquisa concluída com o objetivo de perceber os processos de
apropriação dos discursos e das práticas relacionadas com o ideal escolanovista em Sergipe, e baseia-se
nos pressupostos teórico-metodológicos da História Cultural. Durante as primeiras décadas do século
XX, em Sergipe, os diferentes grupos de intelectuais com responsabilidades sobre a política educacional,
compreenderam o movimento da Escola Nova, como um projeto pedagógico capaz de auxiliar na
resolução dos problemas referentes à Educação, principalmente, no que diz respeito à difusão da escola
pública, gratuita e laica, bem como a renovação dos métodos de ensinar e aprender. Para a realização
da pesquisa foram consultados as dissertações do Núcleo de Pós-Graduação da Universidade Federal de
Sergipe, e fontes localizadas nos acervos do Instituto Histórico Geográfico de Sergipe, do Arquivo
Público do Estado e em escolas públicas e privadas. Os documentos analisados apontam o diálogo entre
os intelectuais da educação sergipanos e as relações que  estes estabeleceram, com aqueles que
comandavam as reformas educacionais, no Distrito Federal, em São Paulo e na Bahia. A atuação do
professor paulista Carlos da Silveira na Direção da Instrução Pública, no período de 1909 a 1911, a
convite do Presidente do Estado, Rodrigues Dórea e o projeto de modernização apresentado por ele que
previu a construção de grupos escolares, a organização do serviço; inspeção escolar, e a adoção de
novos métodos de ensino, entre outras propostas, tornam-se emblemática para a compreensão da
apropriação dos ideais escolanovistas em Sergipe. A incorporação do discurso reformista passou,
também, pela forte mediação das viagens que estes intelectuais fizeram a São Paulo e ao Rio de Janeiro
e a intensa comunicação com os reformadores baianos. A difusão da inspeção escolar desenvolvida
como tecnologia de controle/acompanhamento do Estado juntamente com a prática de reuniões
pedagógicas, serviram de estratégias para a divulgação e adoção de novos métodos pedagógicos. É
possível afirmar que a apropriação de padrões do movimento da Escola Nova em Sergipe, foi ajustada
ao conunto das necessidades e possibilidades existentes no âmbito local, não apenas em fase da
compreensão que tiveram os intelectuais sergipanos que se entusiasmaram pelo movimento, mas
também considerando os conflitos e resistências enfrentados pela proposta. A modernização dos
métodos de ensino, a aquisição de materiais pedagógicos, o controle exercido pela inspeção e a
preocupação com a formação dos professores adequados aos novos ideais pedagógicos, apresentam-se
como marcas significativas da educação em Sergipe, nas primeiras décadas do século XX.

101
922
ENSAIOS DA ESCOLA NOVA NA PARAÍBA (1930-1942)

WOJCIECH ANDRZEJ KULESZA.


UFPB, JOAO PESSOA - PB - BRASIL.

As iniciativas tomadas em alguns Estados nos anos 20 do século passado objetivando a constituição de
sistemas de ensino sintonizados com as transformações produtivas dirigidas para a substituição de uma
economia primária por outra baseada na industrialização foram novamente colocadas em destaque com
a irrupção da Revolução de 30. Dada a heterogeneidade regional desse processo econômico, a
promoção da escolarização em novas bases, tanto quantitativa como qualitativamente, teve seu maior
impulso nas regiões de maior urbanização, notadamente no então Distrito Federal, não somente por sua
saliente visibilidade política, mas também devido ao seu favorecimento na distribuição das verbas
federais para a educação. Porém, na grande maioria das unidades da federação, como aconteceu no
caso da Paraíba, a questão premente da universalização da educação primária teve uma resposta efetiva
pífia, limitando-se a uma mera expansão quantitativa, desordenada e politicamente clientelista, sem
que houvesse grandes mudanças nos métodos ou nos objetivos do ensino. Todavia, não faltaram
iniciativas, mesmo que isoladas e personalistas, para modernizar o sistema educacional dos Estados,
principalmente antes da centralização do poder com o Estado Novo e da transferência da representação
dos interesses regionais do Congresso Nacional para os órgãos técnicos da burocracia estatal. Neste
trabalho, tomando como fio condutor principal a atuação do escolanovista José Baptista de Mello na
reforma do ensino público da Paraíba na década de 1930, procura-se historiar esse processo de
modernização do ensino num Estado pouco afetado em sua estrutura produtiva e que manteria
praticamente intacta a estrutura de poder oligárquica herdada da República Velha durante todo esse
período. Inspirado nas reformas realizadas por Anísio Teixeira no Rio de Janeiro, as quais teve a
oportunidade de conhecer pessoalmente graças a uma visita financiada pelo governo paraibano, Mello
centrou suas ações na formação de professores projetando inclusive a criação de um Instituto de
Educação concebido nos mesmos moldes daquele organizado na Capital Federal pelo educador baiano
introdutor do escolanovismo americano no Brasil. A reação oligárquica local, sempre acolitada pelo
clero católico, reduziu drasticamente o alcance das reformas encetadas por Mello, voltando-se ao
elitismo educacional anterior, situação que seria consolidada pela ação direta do governo federal
durante a ditadura Vargas no ensino primário e normal dos Estados.

RELEITURAS SOBRE A HISTÓRIA DO ENSINO SECUNDÁRIO NO BRASIL (1942 – 1971)


Coordenador: ROSA FATIMA DE SOUZA

938
AS POLÍTICAS DE EXPANSÃO E DE MODERNIZAÇÃO DO ENSINO SECUNDÁRIO NO ESTADO DE SÃO
PAULO E A QUESTÃO DA QUALIDADE DA ESCOLA PÚBLICA (1945 – 1968)

ROSA FATIMA DE SOUZA.


UNESP/ ARARAQUARA, ARARAQUARA - SP - BRASIL.

Apresentamos nesta comunicação resultados parciais de projeto de pesquisa em andamento intitulado


“Educação Secundária e Disseminação da Cultura Literária e Científica no estado de São Paulo (1931 –
1982)”. O texto analisa as políticas de expansão e modernização do ensino secundário implementadas
pelos governos do estado de São Paulo no período de 1945 a 1968. A historiografia da educação do
estado de São Paulo tem reafirmado o funcionamento de apenas três estabelecimentos públicos de
ensino secundário durante a Primeira República: o Ginásio de São Paulo instalado em 1894, o Ginásio de
Campinas em 1896 e o de Ribeirão Preto em 1906. A atuação do Poder Público privilegiou a educação
primária deixando a cargo da Igreja e da iniciativa particular a oferta da educação secundária. Somente a
partir dos anos 30 do século XX, os governos do Estado voltaram-se para a ampliação da oferta de vagas

102
de nível médio promovendo a expansão principalmente do curso ginasial. Inicialmente, a estratégia de
expansão recaiu sobre a estadualização dos ginásios municipais. A partir da década de 1950, a expansão
foi contínua e rápida. O número de ginásios elevou-se de 41 em 1940 para 465 em 1962. Para a
estruturação dessa rede de ginásios e colégios foram criados novos órgãos de administração do ensino e
um conjunto de prescrições visando a normatizar a organização administrativa dos estabelecimentos de
ensino, a carreira docente e as práticas educativas. Nesta comunicação apresentamos um recorte bem
específico da pesquisa, ou seja, o exame das transformações institucionais ocorridas na educação
secundária do estado de São Paulo e da atuação dos sujeitos envolvidos com essas práticas normativas e
políticas utilizando como corpus documental a legislação sobre educação secundária e normal, as
mensagens dos governadores do estado e secretários da educação, os projetos, programas e demais
prescrições estabelecidas pela Secretaria de Educação, especialmente pelo Serviço do Ensino Secundário
e Normal. Trata-se, portanto, de um primeiro mapeamento sobre o conjunto das políticas de expansão e
modernização do secundário levadas a termo no estado com o objetivo de compreender as políticas
implantadas pelo governo estadual para este nível de ensino, os dispositivos normativos de ordem
político-institucional envolvendo a criação e a organização das escolas (ginásios e colégios), a dinâmica
entre demanda e oferta educacional secundária, a composição do corpo discente e docente (formação e
condições de trabalho). Partindo da compreensão desses elementos pretendemos problematizar a
relação entre mudanças institucionais e suas implicações nas representações sociais sobre o papel da
escola secundária na sociedade. (Apoio: FAPESP).

967
AS MUDANÇAS DE SENTIDO E DE OBJETIVOS SOCIAIS DO ENSINO SECUNDÁRIO BRASILEIRO: O CASO
DO COLÉGIO ESTADUAL DE UBERLÂNDIA, EM MINAS GERAIS (1942-1971)

DÉCIO GATTI JR.; GERALDO INACIO FILHO; GISELI CRISTINA DO VALE GATTI.
UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA, UBERLANDIA - MG - BRASIL.

Nesta comunicação, parte-se da assertiva de que o ensino secundário brasileiro encontrou expansão
significativa de matrículas entre as décadas de 1940 e 1970, com a passagem de aproximadamente 100
mil para 1,2 milhões de alunos matriculados no período. Por conseqüência, o número de professores
saltou de aproximadamente 12 mil para quase 70 mil. Porém, esse período de expansão foi
acompanhado de mudanças na legislação educacional, bem como nas instâncias promotoras do ensino,
com a emergência de iniciativas da sociedade civil, de corte particular, como contraparte da oferta
estatal e confessional já existente e também em expansão. Objetiva-se compreender o processo mais
amplo e a forma particular tomada pelas mudanças no ensino secundário brasileiro, o que correspondeu
tanto a alterações do sentido social das instituições escolares, o que pode ser percebido pelas mudanças
da trajetória social dos egressos das instituições escolares no período, mas, também, de alterações dos
objetivos sociais, o que pode ser percebido, sobretudo, por meio do exame das mudanças curriculares,
dos saberes disseminados, do elenco de disciplinas, suas cargas horárias e os conteúdos explícitos, mas,
também, das práticas e métodos de ensino escolar. No interior desse contexto mais geral, procurou-se
examinar o caso particular do Colégio Estadual de Uberlândia, por meio da pesquisa histórico-
educacional, servindo de documentação existente, sobretudo, no arquivo da escola, do município e da
universidade, bem como dos depoimentos junto a antigos alunos, professores e dirigentes. Instituição
escolar que ocupava, no período histórico em tela, centralidade, mas não exclusividade, na formação
dos estudantes da cidade e de seu entorno – a região do Triângulo Mineiro – e mesmo sobre estudantes
de cidades próximas, oriundos, principalmente, dos estados de Goiás e de São Paulo, no interior de um
processo mais amplo de modernização que era efetivado na cidade, com papel importante no processo
de desenvolvimento do estado de Minas Gerais e do país, dado que a cidade se estabeleceu como eixo
de circulação entre o Sul/Sudeste e o Centro-Oeste/Norte do país, no qual ocorrem ações concretas de
urbanização, criação de estradas de ferro e de rodovias, implantação de serviços públicos e de
intensificação da atividade comercial, ao lado da criação e manutenção de instituições escolares.
Conjunto de iniciativas que demonstram a relação, forte e consistente, entre o que se passa na cidade e
na escola, neste caso, na escola secundária, com as finalidades sociais mais amplas (Apoio:
CNPq/FAPEMIG).

103
993
CULTURA ESCOLAR E PERFIL DO CORPO DOCENTE NO COLÉGIO ESTADUAL DIAS VELHO (1947-1964)

NORBERTO DALLABRIDA.
UDESC, FLORIANOPOLIS - SC - BRASIL.

Entre meados da década de 1940 e início dos anos 1960, no Estado de Santa Catarina, o subcampo do
ensino secundário era formado por uma grande e vigorosa rede de educandários confessionais e
somente quatro colégios públicos e gratuitos, que foram criados nos institutos de educação ou nas
escolas normais. O Instituto de Educação Dias Velho, localizado em Florianópolis, capital de Santa
Catarina, implantou, a partir de 1947, o curso ginasial – primeiro ciclo do ensino secundário – e, dois
anos depois, os cursos clássico e científico, que integravam o segundo ciclo do ensino secundário,
engendrando a criação um colégio público homônimo. Desta forma, o Colégio Estadual Dias Velho
afirmou-se como o principal estabelecimento de ensino secundário de caráter público, gratuito e
coeducativo de Santa Catarina. O objetivo do presente trabalho é compreender como a cultura escolar
prescrita nos textos normativos foi apropriada no Colégio Estadual Dias Velho, entre 1947 e 1964, a
partir da constituição do seu corpo docente. O conceito de apropriação é compreendido na perspectiva
de Roger Chartier, que considera que os bens culturais são usados de forma diferenciada de acordo com
as disposições de grupos sociais específicos. Nas instituições escolares os bens culturais também são
apropriados de forma inventiva e singular, especialmente pelo trabalho pedagógico dos professores/as.
A análise do perfil do corpo docente do Colégio Estadual Dias Velho considera os percursos escolares e
as preferências pedagógicas, culturais, políticas e religiosas dos professores/as que o constituía, à luz
das reflexões sociológicas de Pierre Bourdieu. Pelo fato de serem selecionados por concurso público, os
professores/as do Colégio Estadual Dias Velho, chamados de “lentes catedráticos”, constituíam um
quadro sócio-profissional qualificado e diversificado, que tinha prestígio social. Essa configuração
docente distinta, que concorria para um ensino público de qualidade, começou a ser alterada no início
da década de 1960 devido à implantação da Universidade Federal de Santa Catarina (1961), que atraiu
professores secundaristas; à massificação do ensino secundário, viabilizada pela construção de um novo
e imponente prédio para o Colégio Estadual Dias Velho, inaugurado em 1963; e ao golpe militar de
1964, que desligou professores considerados subversivos. Este trabalho apóia-se em documentos
escolares escritos, em matérias de jornais impressos e, especialmente, em depoimentos de ex-
professores/as do Colégio Estadual Dias Velho. Pretende-se, portanto, ler a cultura escolar do Colégio
Estadual Dias Velho pela compreensão do perfil do seu corpo docente.

1074
O ENSINO SECUNDÁRIO SEGUNDO O ESTADO DE S.PAULO: ANÁLISE DOS EDITORIAIS DE LAERTE
RAMOS DE CARVALHO.

BRUNO BONTEMPI JUNIOR.


USP, SAO PAULO - SP - BRASIL.

Resumo: Esta comunicação trata dos editoriais de O Estado de S.Paulo (OESP) sobre o ensino secundário
durante a tramitação da Lei de Diretrizes e Bases (1947-1961). Redigidos por Laerte Ramos de Carvalho,
professor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, esses editoriais
expressam, não só a reação da fração da elite liberal paulista, representada na redação daquele diário,
diante da expansão desse ramo de ensino por força das pressões populares pelo acesso e pela abertura
de vagas, mas as concepções partilhadas pelo jornal e por certos setores da Faculdade de Filosofia sobre
o modelo ideal de ensino secundário, tendo em vista sua natureza humanística e sua finalidade
preparatória para o ensino superior. Naquele momento histórico, em que se estiolava a organização do
sistema de ensino instituído pelas Leis Capanema e em que a oportunidade da LDB estimulava os grupos
interessados a fazer valer ideias e proposições para a sua reformulação, o ensino secundário era objeto
das maiores inquietações. Em São Paulo, como decorrência direta da crescente demanda por vagas de
escolarizados em nível básico e da preferência das famílias pela continuidade dos estudos no ramo de
ensino médio que permitia o acesso ao ensino superior, teve início nos anos de 1950 uma vertiginosa

104
expansão dos ginásios, seja pela criação de estabelecimentos legais e regulares, seja pela criação de
seções e desdobramento de turnos. O executivo paulista, na vigência da política populista, responde a
essas demandas, administrando a criação de vagas como moeda de troca no jogo político local. OESP,
cujos proprietários e principais colaboradores eram contrários à “política adhemarista” e defendiam
propostas educacionais originalmente fundados na organização do ensino à luz da criação de um edifício
cujo topo seria a USP, tomaram posição diante do tema, que, pela freqüência com que foram tratados
em Notas e Informações, era de fundamental importância. Os argumentos giram em torno da tensão
entre a democratização do acesso e a qualidade do ensino, sobre a privilegiada interlocução e
articulação do ensino secundário, particularmente no segundo ciclo, com as expectativas de formação
de pesquisadores e professores secundários em nível universitário.

1061
ESCOLAS EFICIENTES NO PASSADO: CRITÉRIOS PARA ANÁLISE. O COLÉGIO ESTADUAL “CANADÁ” DE
SANTOS.

MARIA APPARECIDA FRANCO PEREIRA.


UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SANTOS, SANTOS - SP - BRASIL.

Hoje há um sentimento de profunda insatisfação e de desencanto pelo funcionamento da escola.


Freqüentemente têm aparecido estudos, no meio acadêmico, que analisam as escolas públicas de nível
secundário como escolas de excelência no passado e que, a partir da década de 1960, foram perdendo o
seu prestígio, quando a política educacional brasileira teve que democratizar o acesso à escola. As
análises habituais centram o êxito na presença e permanência de professores marcantes, liderança de
diretores, presença de espaços tempos culturais, entre outros. Por outro lado, acusam a sua decadência
com a simples expansão linear dos sistemas de ensino, pelo aumento da sua população escolar e pela
popularização do ensino. Professores que continuam ensinando, considerando a escola do passado. E
sabemos que a escola hoje não é a mesma da primeira metade do século XX. Percebe-se, apesar dos
inúmeros esforços e lutas, uma incapacidade de gerir a transição de uma instituição escolar “de vocação
elitista para uma escola de massas, com um público muito vasto e heterogêneo, social e culturalmente”.
As escolas não estão preparadas para a mudança nem para os desafios da inclusão. A presente
comunicação tem o objetivo de trazer à tona critérios para consideração do fenômeno, fundamentado
em bases teóricas, e reunir um conjunto de indagações sobre o tema em discussão. Foram utilizados
pensadores que desenvolvem trabalhos de análise das instituições escolares e buscam refletir sobre a
identidade da escola, como Rui Canário, Antonio Nóvoa e abordagens sociológicas (Dayrell e Licínio
Lima). Dayrell privilegia as diferentes relações ocorridas no âmbito escolar, considerando a escola um
espaço sócio-cultural, onde os alunos re-significam os espaços da escola, alterando sua função social.
Lima levanta um quadro teórico para o estudo da escola como organização educativa e ação pedagógica
organizada. Nóvoa observa que o que pode explicar as condições de sucesso não são as variáveis
tomadas uma a uma, mas sim encarada a escola com uma totalidade singular. Canário observa que a
escola vive uma mutação desde a década de 1970. A crise da escola é uma crise do modo de pensá-la.
Para a discussão do tema tem-se presente a escola secundária estadual “Canadá”, criada em 1934 em
Santos e lembrada por todos que passaram por ela, nas décadas de 1930-1970, como escola de
excelência. Lamenta-se o estado em que ela se encontra hoje, apesar de muitos esforços para reerguê-
la. A abordagem da problemática foi feita a partir da consideração da atuação dos professores, na visão
dos seus alunos, na atualidade profissionais competentes com liderança no meio em que atuam. A
metodologia utilizada é o estudo dos teóricos indicados e a análise de algumas dissertações de
mestrado sobre esse colégio e que fizeram uso de documentação da instituição, ao lado de inúmeros
depoimentos orais de ex-alunos.

105
POLÍTICAS EDUCACIONAIS NO BRASIL: GENEALOGIA E PERSPECTIVAS
Coordenador: LIA CIOMAR MACEDO DE FARIA

1404
EDUCAÇÃO DOMÉSTICA: DE VOLTA A CASA

MARIA CELI CHAVES VASCONCELOS.


UERJ, RIO DE JANEIRO - RJ - BRASIL.

Na maior parte dos países ocidentais, o século XIX marca o início da escolaridade obrigatória aliada à
estruturação e organização dos sistemas de ensino sob o domínio do estado, que interferindo na
educação, vai, progressivamente, tornando-se o condutor das políticas educacionais. Tal processo, tem
seu ápice no século XX, quando, em alguns países, é consagrada a escolaridade obrigatória e o estado,
direta ou indiretamente, torna-se o mantenedor e o regulador, respectivamente, das redes públicas e
privadas de escolarização. Neste caso, encontra-se o Brasil que, a partir da Constituição Federal de 1934
tem decretada a escolaridade obrigatória para todos os cidadãos, ainda que apenas a escolaridade
primária. No entanto, ao consolidar a demanda estatal, outras formas de educação, praticadas ao longo
da história e identificadas como adequadas à formação de crianças e jovens, foram destituídas deste
lugar, anteriormente, ocupado. O presente estudo tem como objetivo analisar, em uma perspectiva
histórica, as possibilidades que se apresentam, na atualidade, do retorno aos espaços privados, como à
casa, categoria de lugar apropriado e reconhecido de educação e ensino, através das novas tecnologias
disponíveis, que rompem com os limites físicos e estruturais presentes na escola. Nesse sentido,
metodologicamente desenvolvemos um estudo comparado com Portugal, onde o ensino doméstico é
legal e onde já existem algumas famílias que optaram por ensinar os seus filhos na casa, exercendo o
direito de escolher o gênero de educação que querem dar às crianças e jovens. Ainda que as Leis em
vigor não permitam, no caso do Brasil, a página oficial do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas
Educacionais Anísio Teixeira (INEP), órgão pertencente ao Ministério da Educação do Brasil (MEC),
contém o conceito de desescolarização como sendo “Supressão da instituição escola. Movimento que
combate à educação formal, atribuindo-lhe funções repressivas, e que preconiza a educação por meios
livres e não-convencionais”. Tomando como referência Ivan Illich, o sistema educacional atual, seria
fruto da revolução industrial do século XIX, e, portanto, baseado em seus modelos de fábricas,
compulsórias, hierarquizadas, e orientadas para medidas, que além de fragmentar o conhecimento,
separava os alunos apenas de acordo com a idade. Embora o conceito apresentado refira-se,
especialmente, as características da escola que, supostamente, a fariam atuar como uma instituição
repressora e reprodutora da ordem social vigente, trazendo mais problemas do que soluções, o sentido
da palavra desescolarização pode estar, hoje, mais afeito à idéia de que a sociedade desescolarizada
poderá ser alcançada com redes de aprendizado, por meio das ferramentas da web, além das inúmeras
possibilidades tecnológicas já existentes.

1406
EDUCAÇÃO MUNICIPAL: INTERVENÇÕES DAS POLÍTICAS PÚBLICAS FEDERAIS

ROBERTO FARIA.
UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO, RIO DE JANEIRO - RJ - BRASIL.

Ao longo dos anos 90, a partir da Constituição Federal de 1988, da Emenda Constitucional nº 14 e da
LDB, ambas de 1996, novo panorama educacional tomou forma no Brasil, causando impactos
principalmente no meio rural. Naquele momento se redefiniram as responsabilidades de estados e
municípios na oferta da educação escolar, instituíram-se mecanismos de colaboração, financiamento, e
manutenção entre as três esferas, reforçando-se o papel da União, como coordenadora das políticas em
âmbito nacional. Entre outras incumbências, a LDB (art.87) atribui durante a Década da Educação (1997
a 2007), ao município e supletivamente aos estados e à União, prover cursos presenciais ou a distância
para jovens e adultos, insuficientemente escolarizados, matricular todas as crianças a partir dos sete
anos no ensino fundamental, realizar programas de capacitação para todos os professores em exercício

106
e integrar todos os estabelecimentos de ensino fundamental ao Sistema Nacional de Avaliação do
Rendimento Escolar. Considerado pelo Governo Federal como a principal reforma educacional
promovida pelo Brasil na década de 90, o Fundo Nacional de Desenvolvimento do Ensino Fundamental
(FUNDEF) assegurava a redistribuição dos recursos públicos, vinculados ao ensino obrigatório de acordo
com o número de alunos atendidos pela rede municipal e estadual de ensino e um gasto anual por
aluno. Ao mesmo tempo, através do Fundo Nacional de Desenvolvimento (FNDE) a União exerce sua
função supletiva e redistributiva em relação à escolaridade obrigatória.A investigação tem como
objetivo desvelar algumas contradições: a regulamentação do FUNDEF implicou em perda ou aumento
da receita, enquanto nas chamadas políticas compensatórias, como Renda Mínima, Bolsa Escola e a
atual Bolsa Família, se observa a manutenção de altos gastos com os recursos públicos, que deveriam
ser controlados pelos diversos conselhos de fiscalização e acompanhamento (CACS). Por outro lado, em
alguns municípios do interior, o critério para a escolha dos secretários de educação era estritamente
pessoal, priorizando a execução das formalidades burocráticas. Perante tal cultura política, o
cumprimento da nova legislação, principalmente no que diz respeito a receitas, despesas e percentuais
de aplicação, gerou em algumas prefeituras, dificuldades de ordem política e administrativa, no sentido
de assumir as exigências das novas diretrizes. O estudo, realizado em meu doutoramento sobre os
sistemas públicos de ensino da Região Serrana (RJ), se baseou na metodologia do estudo de caso, na
revisão de literatura sobre o tema e também, em dados oficiais e entrevistas com os dirigentes das
secretarias municipais de educação de São Sebastião do Alto, Santa Maria Madalena e Trajano de
Moraes.

1262
A ARQUEOLOGIA DA ESCOLA FLUMINENSE

LIA CIOMAR MACEDO DE FARIA


UERJ, RIO DE JANEIRO - RJ - BRASIL.

O foco deste estudo investiga os impactos produzidos pelo 1° Programa Especial de Educação (I PEE) no
comportamento político da sociedade fluminense, durante o período de redemocratização, pós-
ditadura, na década de 80. Diante das circunstâncias que caracterizavam o cenário político fluminense, a
questão que se destaca é: Como a cultura autoritária e as práticas político-clientelistas historicamente
construídas afetaram as relações Estado - Sociedade Civil no embate travado entre o professorado
fluminense e as concepções político-pedagógicas do novo governo? Ao mesmo tempo, há que se
assinalar a herança e os impasses do processo ainda incluso da Fusão (1975) dos estados da Guanabara
(GB) e do antigo Rio de Janeiro. Logo, discutir a importância das políticas educacionais empreendidas
pelo PEE, tendo à frente Darcy Ribeiro, exige um esforço de recuperação teórica e memorialística, em
busca da gênese das diferentes concepções político-pedagógicas que irão travar um duelo, nos palcos
do sistema público estadual de ensino. Neste contexto de um passado ainda recente, lançamos um novo
olhar sobre as percepções ideológicas e posições dos principais atores sociais no teatro partidário do Rio
de Janeiro, que irão nos possibilitar um redesenho do quadro histórico-cultural daquele momento, de
retomada do processo democrático em âmbito nacional. O objetivo da pesquisa foi desvelar o processo
histórico de implantação dos CIEPs em meio às contradições políticas que irão caracterizar os últimos
anos do Estado de exceção. Torna-se ainda importante identificar os diferentes discursos que
permeavam o meio acadêmico, visando analisar o pensamento educacional produzido pelas correntes
político-ideológicas, que apoiaram ou rejeitaram o I PEE, buscando assim um entendimento mais amplo
da gênese de tal rejeição. Portanto, o que ainda está em jogo são visões ideológicas bastante distintas, a
respeito do papel e da função da escola pública / republicana. Tais concepções do pensamento político-
pedagógico nos remetem à pertinência e importância de pesquisas acerca da história das idéias e das
práticas republicanas, intentando examinar e identificar as referências conceituais, que irão originar o
atual modelo de escola pública no Brasil e em particular, a “arqueologia” da escola fluminense pós-
Fusão (1975). Analisa ainda como se estabelecem as relações - sindicato, governo e escolas, naquele
momento de abertura democrática, em que, de forma inédita, se reúnem os professores públicos da
capital e do interior das redes escolares, municipal e estadual. Na oportunidade, destacamos a

107
contribuição das investigações acerca das políticas educacionais no sentido de recuperar a gênese da
escola pública fluminense pós-Fusão.

1398
FINANCIAMENTO DA EDUCAÇÃO BÁSICA PÚBLICA NO BRASIL:

JANAINA SPECHT DA SILVA MENEZES.


UNIRIO, RIO DE JANEIRO - RJ - BRASIL.

Esta comunicação tem por objetivo apresentar, de forma panorâmica, os principais avanços e desafios
associados à atual configuração da política de financiamento da educação básica pública no País. Nesse
sentido, a percepção de que as determinações legais vigentes estão alicerçadas em antigos
(des)caminhos conduziu à necessidade de apresentar alguns de seus referenciais históricos, como
condição para o entendimento da sua estrutura atual. Partindo dessa concepção, a comunicação dividirá
a história daquele financiamento nos três períodos a seguir especificados, sendo que a segmentação, de
objetivo didático, busca, ao realçar as grandes linhas que nortearam o financiamento da educação no
Brasil, apresentar um continuum relativo à sua evolução histórica com vistas a fornecer as bases para o
entendimento da sua atual configuração: • 1º período, decorreu do ano em que os jesuítas chegaram ao
País (1549) até sua expulsão (1759); nessa época foi delegada aos membros daquela ordem religiosa a
concessão das escolas públicas no País, assinalando o afastamento da Coroa em relação ao
financiamento da educação nacional. • 2º período, compreendido da expulsão dos jesuítas até o fim da
República Velha (1930), foi caracterizado: (1) pela busca de fontes autônomas de financiamento para a
educação e, (2) por deixar a educação por conta das dotações orçamentárias dos governos dos estados
e das câmaras municipais. • 3º período, que se estende da homologação da Constituição Federal de
1934 até o contexto atual, tem sido marcado pela busca da vinculação constitucional de um percentual
mínimo de recursos tributários para a educação. Tomando por base aspectos pontuais associados ao 1º
e ao 2º período, a comunicação para além de tratar de aspectos relacionados à vinculação de recursos,
presentes no 3° período, aprofundará questões relativas ao contexto atual e, mais especificamente, ao
Fundef ao Fundeb. Em meio a este cenário, buscar-se-á evidenciar alguns avanços e os desafios que
permeiam a atual configuração da política de financiamento da educação básica pública, desafios estes
apresentados durante a realização da Conferência Nacional de Educação (CONAE), realizada em
Brasília/DF, no primeiro semestre de 2010. Evidencia-se, por fim, que o estudo se baseia em pesquisas já
finalizadas e que, entre outros aspectos, tomaram por base pesquisas bibliográfica e documental.

AS POLÍTICAS DE ATENDIMENTO AOS INFANTES NA BELLE ÉPOCHE PARAENSE (SÉCULOS XIX E XX)
Coordenador: SÔNIA MARIA ARAÚJO

387
“TRADIÇÕES INVENTADAS” DE UMA BELLE ÉPOCHE PARAENSE: EXPANSÃO DA ESCOLA PRIMÁRIA E
“MODERNIDADE REPUBLICANA” NO ESTADO DO PARÁ (1897-1910)
1 2
ALESSANDRA FROTA MARTINEZ SCHUELER ; IRMA RIZZINI .
1.UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE, NITEROI - RJ - BRASIL; 2.UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE
JANEIRO, RIO DE JANEIRO - RJ - BRASIL.

O trabalho apresenta reflexões de pesquisa em andamento sobre o processo de expansão da escola


pública primária no Estado do Pará, no período da chamada Belle Époche, momento áureo da indústria
do látex, a borracha. Privilegiando o recorte temporal de 1897 a 1910, a pesquisa se dedicou à análise
de fontes governamentais, como as Mensagens apresentadas pela Presidência do Estado à Assembléia
Legislativa, os Relatórios da Diretoria de Instrução Pública e o Álbum do Pará (1901-1909), publicado em
1908, por iniciativa do Governo do Estado. Esta documentação, de caráter oficial, foi problematizada e

108
interpretada tendo em vista três eixos temáticos centrais, que nortearam a investigação: a) as
modalidades e modelos de organização da escola (escolas isoladas, as “escolas de lugares” e os grupos
escolares), predominantemente propostos nas reformas educacionais ocorridas no Estado, incluindo a
sua capital, Belém; b) as representações sobre a escola e os sentidos políticos de sua difusão,
interiorização e expansão pelo território paraense; c) as concepções de República em disputa e as
funções atribuídas ao Estado, aos municípios e à sociedade no jogo político de (re) invenção de
“tradições” educativas e da escola primária no Pará. Fundamentado nas contribuições teórico-
metodológicas e no cruzamento entre os campos da História da Educação e da História Política, este
trabalho sugere a proposição de hipóteses iniciais sobre o processo de escolarização e difusão da malha
escolar no Estado. A abordagem utilizada consiste em considerar, simultaneamente, a autonomia, a
articulação e a influência mútua, e sempre desigual, entre uma diversidade de setores – o cultural, o
econômico, o social e o político. Este enfoque permite compreender como as disputas intra-elites
políticas, no processo de construção do governo republicano, interferiram nas reformas e nas diretrizes
educacionais do período, no contexto de “modernização” e de expansão das riquezas econômicas
oriundas da exploração da borracha. O encantamento provocado pela suntuosidade dos prédios
escolares, as festas e os desfiles cívicos dos alunos nas belas ruas da capital emergiram como
“espetáculos de civilidade” em face às práticas mágicas de religiosidade e às manifestações culturais
populares, que persistiam na “Cidade dos Encantados”. Neste sentido, a escola primária, especialmente
os grupos escolares, foi representada como símbolo e instrumento de progresso e civilização, elemento
fundamental no processo de construção de “tradições inventadas” sobre a chamada Belle Époche
paraense e a “modernidade republicana”. A investigação visa contribuir com o campo dos estudos sobre
a expansão da escola primária nos anos iniciais da Primeira República, período em que há ainda carência
de estudos sistematizados, especialmente no que se refere aos grupos escolares e às reformas
educacionais implementadas nos estados da federação, como é o caso do Pará.

893
AS CASAS DE ASILOS DA INFÂNCIA DESVALIDA: O CAMINHO DAS CRIANÇAS ABANDONADAS NA
SANTA CASA DE MISERICÓRDIA DO PARÁ (1850-1910)

SÔNIA MARIA ARAÚJO; ELIANNE BARRETO SABINO


UFPA, BELEM - PA - BRASIL.

O presente trabalho em andamento investiga o processo de acolhimento das crianças enjeitadas na


Santa Casa de Misericórdia do Pará, entre 1850 a 1900, como parte da política de assistência à criança
abandonada na Província do Grão Pará. Os Asilos eram instituições de caridade, marcadamente cristãs,
que seguiam os padrões tradicionais dos asilos de Portugal. Essas casas tinham uma tripla função:
proteção, educação e instrução. Na Província do Grão Pará duas casas de asilos foram criadas para
receber as crianças abandonadas da Santa Casa de Misericórdia do Pará: o Preventório Santa Terezinha
e o Colégio Nossa Senhora do Amparo. Essas casas de asilos de crianças órfãs eram definidas pelo seu
caráter caritativo ou assistencial. A investigação pretende identificar sobre as casas de asilos: a) como as
crianças eram encaminhadas; b) como as crianças eram abrigadas; c) o perfil das crianças
encaminhadas; d) os critérios de acolhimento das crianças. As fontes documentais de pesquisa são
relatórios, cartas, ofícios, prontuários, jornais e manuais disponibilizados na biblioteca da Santa Casa de
Misericórdia e na biblioteca Pública. Com a exploração da borracha, a sociedade da província não estava
dissociada do contexto nacional e vivia grandes transformações nos campos político, econômico e
cultural. Essa economia provocou um intenso processo migratório, fazendo com que a população da
Província triplicasse consideravelmente. Eram pessoas vindas de muitas partes do Brasil e do exterior e,
juntamente com os novos habitantes, vinham crianças que obrigaram o poder público a tomar
diferentes medidas para receber esses pequenos moradores. Havia na cidade uma poderosa elite
formada pelos barões da borracha que impõe um novo modelo de vida, baseado em idéias trazidas das
cidades da Europa. Enquanto a população crescia em um ritmo frenético, eram impostas normas para
que nada interferisse no projeto de modernização da Amazônia. No contra-fluxo dessa política,
contavam-se alarmantes taxas de mortalidade infantil, pois as crianças eram as maiores vítimas das
doenças que apareciam: varíola, febre amarela e tuberculose. A concepção médico-higienista, que

109
embasava o projeto civilizador do final do século XIX, estabelecia muitas diretrizes para a formação de
uma nova sociedade. A criança era o foco principal para o estabelecimento dessa nova sociedade e as
políticas públicas começam a ser pensadas para ela. As práticas utilizadas no interior das casas de asilos
para crianças tinham um objetivo: transformar a criança pobre, desvalida, órfã em um cidadão útil para
a sociedade, principalmente em termos econômicos.

934
A FORMAÇÃO DE MENINAS ÓRFÃS NO ESTADO DO PARÁ NO FINAL DO SÉCULO XIX E PRIMEIRA
METADE DO SÉCULO XX

ANTONIO VALDIR MONTEIRO DUARTE.


UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA, BELEM - PA - BRASIL.

A investigação que ora se apresenta encontra-se em andamento e tem como objetivo entender as
práticas educativas vivenciadas por meninas internas em uma das mais importantes instituições do
Estado do Pará – o Instituto Antonio Lemos, que abrigou, por mais de seis décadas, meninas oriundas
das várias partes do Estado do Pará, de outras regiões do Brasil e de alguns países, com destaque para
Portugal, Espanha e Itália. Já se fez o levantamento e a reprodução de documentos e constatou-se um
precioso acervo localizado nos porões do próprio Instituto, e que está sendo catalogado: atas de
reuniões, mapas de notas e disciplinas escolares, livros de controle de entrada e saída de internas,
certidões de nascimento, fotos, livros-caixa, entre outros. Metodologicamente, a pesquisa também
abrangerá a história oral, pois entendemos que esta nos possibilitará entender melhor o cotidiano
vivenciado no interior da instituição a partir do olhar dos vários sujeitos que ali moravam especialmente
das meninas que estavam na condição de internas. A partir de uma primeira análise documental, o que
chamou atenção foi o elevado número de meninas internas oriundas da Itália, Espanha e, sobretudo,
Portugal. No ano de 1913, consta, em um dos livros, a entrada de cento e cinqüenta meninas das mais
diferentes faixas etárias, naturalidades e nacionalidades, sendo que noventa por cento delas no mesmo
dia e mês. O Instituto Antonio Lemos no Pará tornou-se uma das mais importantes obras de caridade e
de ensino entre o final do século dezenove e início do século vinte, graças ao extraordinário
desenvolvimento econômico alavancado pelo processo de plantação e comercialização da borracha que,
ainda nesse período, representava a maior riqueza da Região Amazônica. Durante os anos vinte do
século passado, com a transferência das internas para um novo prédio localizado no distrito de Santa
Izabel, a cinqüenta quilômetros de Belém, cumprindo uma determinação da intendência municipal e sob
a coordenação da Ordem Religiosa Filhas de Sant’Anna, fundada na Itália, se estabelece o projeto
educativo para a formação de meninas órfãs que permanecerá como internato até a década de sessenta
do século passado. Nesse sentido, a partir dos anos 1930, com as sucessivas crises políticas e financeiras
em decorrência do declínio da produção e exportação do látex, o Instituto passa a admitir meninas em
regime de externato.

1133
HISTÓRIA DA ESCOLA MISTA DO PARÁ: DO IMPÉRIO À REPÚBLICA

CLARICE NASCIMENTO MELO.


UFPA, BELEM - PA - BRASIL.

O presente trabalho apresenta resultados de uma pesquisa concluída sobre a história da escola mista
no Pará, entre os anos 1870-1901. A problematização que norteou o processo de investigação pode ser
sintetizada nas seguintes questões: na condição de projeto dos governos imperial e republicano, como
eram as escolas mistas no Pará? Como era a organização escolar no Pará antes das escolas mistas?
Como ocorreu a inserção das mulheres nessas escolas? As fontes documentais privilegiadas no estudo
foram: a legislação educacional, os jornais diários, os relatórios de governo, as revistas de ensino, as
quais foram examinadas cotejando o dito e o praticado. O método indiciário direcionou as leituras
documentais buscando as pistas e sinais das montagens da escola mista paraense, resultando na

110
construção de nexos no qual a participação de mulheres se pôs como fio condutor de compreensão da
história da escola mista no Pará, em um tempo de pretensa modernização tanto nos estilos de vida
quanto na educação pública e particular. Os resultados indicam, de um modo geral, que a escola mista
se constituiu e se configurou a partir da inserção das mulheres no universo educacional, seja por meio
da escolarização e da profissionalização, seja por meio da docência em escolas de meninas e meninos.
As evidências indicam que a escola de ambos os sexos – criada legalmente na Província do Grão-Pará em
1870 – deu os primeiros sinais da junção de meninas e meninos na escola, no momento em que a
presença de mulheres na educação se insinuava. As mutações na organização da educação, com a
regulamentação da escola mista na década de 1880, decorreram da inserção mais efetiva das mulheres
nessa escola. As imprecisões acerca da escola mista já na república, entre 1890-1901, quando esta se
espraia por todo o Estado, inclusive nos grupos escolares, são manifestações das contradições entre o
discurso modernizador e as práticas conservadoras em relação a esse tipo de escola, que se defronta
com a presença incisiva de professoras na regência do ensino e com a eqüidade entre os sexos na
discência. A escola mista se expandiu com base em dois acontecimentos: a ampliação da participação
das mulheres na profissão docente e a exclusão legal dos professores da docência nessas escolas; esses
dois movimentos foram concomitantes e relacionais, não causais. Em todo o processo histórico de
institucionalização das escolas mistas, as mulheres – alunas e professoras – foram determinantes na
dessacralização dos espaços, tempos e saberes estruturados na escola tradicional dividida por sexos.

111
112
EIXO 8 - FONTES E MÉTODOS EM HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO

TRAJETÓRIAS ESCOLARES: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS E FONTES


Coordenador: NORBERTO DALLABRIDA

477
TRAJETÓRIAS DE ESCOLARIZAÇÃO: MEMÓRIAS E REGISTROS ESCOLARES DE ESTUDANTES DE CLASSE
POPULAR NOS ANOS 1960.

BEATRIZ T. DAUDT FISCHER.


UNIVERSIDADE DO VALE DO RIO DOS SINOS / UNISINOS, PORTO ALEGRE - RS – BRASIL..

Frente a um cotidiano caracterizado pelo efêmero, pela cultura do contínuo descarte de bens simbólicos
e materiais, salvar reminiscências da cultura escolar vivida em tempos pretéritos tornou-se premente
necessidade. Entretanto, o campo de investigações envolvendo memória tem sido questionado,
demandando aos pesquisadores encarar os desafios metodológicos com maior rigor e densidade
teórica. Embora para alguns seja controverso considerar a realidade como construída pelo discurso, é
aceitável que todo pesquisador vá além da mera transcrição literal de um/a depoente. Em outras
palavras, não estará em busca de uma verdade, nem tampouco partirá da concepção de que tal seja
possível. De fato, o que deve fazer diferença são aportes metodológicos solidamente fundamentados e,
principalmente, o compromisso em lidar com fontes diversificadas, aproximando-se o mais possível de
versões sobre a temática investigada. Estas e outras reflexões são trazidas à tona neste estudo, que
analisa trajetórias discentes, problematizando questões teórico-metodológicas inerentes aos processos
investigativos que lidam com memória. Para tal, vale-se de narrativas de sujeitos que recordam tempos
idos, em especial suas trajetórias enquanto estudantes frequentando bancos escolares no final dos anos
60 do século passado. O material empírico constitui-se, pois, das reminiscências destes sujeitos, cuja
infância foi vivida na periferia da área metropolitana de Porto Alegre/RS, tendo pertencido a famílias de
baixa renda. A investigação também utiliza procedimentos de pesquisa documental, a partir de registros
escolares, buscando por possíveis continuidades e/ou rupturas ao longo dos respectivos processos de
escolarização. Historicamente em nosso país alunos de classes populares tendem a interromper sua
trajetória escolar, sendo excluídos nas primeiras séries do ensino fundamental. Este problema tem sido
relacionado às condições econômicas das famílias, ao contexto cultural e/ou à falta de políticas públicas
adequadas para garantir a permanência na escola. Igualmente alguns estudos atribuem causas da
evasão às limitadas condições materiais das escolas públicas ou à carência de capacitação docente para
lidar com situações difíceis. A presente investigação, entre outros objetivos, buscou saber em que
medida estes e/ou demais fatores, podem ser considerados nas trajetórias de escolarização dos sujeitos
investigados. Em que medida, a partir da memória, práticas pedagógicas, decisões institucionais,
relações de saber/poder enredam-se nestas trajetórias escolares? Muito já foi dito acerca desta
problemática educacional, pouco, entretanto, tem sido perspectivado a partir de histórias narradas
pelos próprios sujeitos como propõe esta pesquisa.

552
TRAJETORIAS ESCOLARES: DILEMAS E DESAFIOS DE PESQUISA

LETICIA CORTELLAZZI GARCIA


UNIVERSITE PARIS DESCARTES, PARIS - FRANÇA.

Procurando alargar os limites disciplinares que normalmente dominam as teorias e as práticas de


pesquisa nas ciências humanas, os estudos sobre trajetórias – sejam elas sociais, escolares, familiares ou
individuais - abrem inúmeras possibilidades de análises que podem contribuir para a melhor
compreensão das relações recíprocas entre as influências sociais e condutas humanas ao longo do
tempo. Com a ampliação das perspectivas de pesquisa no campo historiográfico, este objeto antes
reservado as ciências sociais, ganhou gradativamente um lugar no âmbito da história, particularmente
na história de educação. Apoiado, sobretudo em suportes metodológicos como enquetes, entrevistas,

113
os quais também criaram novas fontes históricas - questionários, relatos de vida, fotografias, etc. - antes
ilegítimas e desprestigiadas aos olhos de Clio, permitiram expandir os caminhos de investigação. Novas
contribuições teóricas foram introduzidas neste campo, entre as quais as que postulam a abordagem de
um estruturalismo genético, isto é, a análise das estruturas sociais enquanto produto histórico e a sua
respectiva influência nas condutas individuais. Esta perspectiva teórica tem sido cada vez mais utilizada
no domínio da história da educação com o objetivo de analisar como os percursos sociais e escolares
justificam e/ou determinam em larga medida as escolhas profissionais e pessoais em etapas posteriores
ao período de escolarização. Se, de um lado, as estruturas sociais (classe social, instituição escolar, etc.)
são fatores importantes na constituição das trajetórias de vida dos indivíduos; por outro, pode-se
pressupor que as condutas individuais são também fruto de constantes negociações que os indivíduos
travam com os contextos meso e macro-social. Desta forma, uma questão teórica que desafia este
campo de pesquisa diz respeito à compreensão empírica do peso da formação escolar na trajetória dos
indivíduos e suas constantes reelaborações ao longo de suas trajetórias. A presente comunicação
procura apresentar os resultados de uma pesquisa ainda em andamento sobre trajetórias de vida e
transmissões familiares em três gerações de mulheres em Santa Catarina entre 1930 e 2010.
Concomitantemente, visa refletir sobre o estatuto teórico dos estudos de trajetória, indagando se a
análise das trajetórias escolares se constitui um fim analítico em si próprio, ou ao contrário, se esta
investigação permite a compreensão da importância da escola na relação dialética entre estrutura social
e indivíduo.

883
TRAJETÓRIAS SOCIAIS DE ALUNOS EGRESSOS DO COLÉGIO CATARINENSE (1951-1960)

NORBERTO DALLABRIDA; JULIANA TOPANOTTI DOS SANTOS DE MELLO.


UDESC, FLORIANOPOLIS - SC - BRASIL.

O intuito deste trabalho é investigar as trajetórias sociais de alunos egressos do ensino secundário do
Colégio Catarinense entre 1951 e 1960. O Colégio Catarinense foi fundado em Florianópolis – capital do
Estado de Santa Catarina – , em 1905, pelos padres jesuítas e consolidou-se como um educandário de
caráter privado e dirigido para adolescentes do sexo masculino e oriundos de classes privilegiadas.
Adaptando-se à Reforma Capanema, a partir de 1943, o Colégio Catarinense passou a oferecer o ensino
secundário completo, formado pelo curso ginasial (1º ciclo) e pelo curso científico ou clássico (2º ciclo
ou colegial). Contudo, no recorte temporal deste trabalho, o curso científico foi oferecido de forma
regular e com turmas grandes, enquanto o curso clássico formou somente duas turmas, ambas com dois
alunos. Recortamos o período entre 1951 e 1960 porque consideramos que ele permite analisar, de
forma efetiva, as trajetórias sociais dos alunos egressos, que atualmente estão aposentados ou em fim
de carreira. Pretendemos analisar as trajetórias sociais dos egressos do ensino secundário do Colégio
Catarinense, considerando as suas origens sociais, os seus percursos escolares no ensino secundário e
superior e as suas inserções sócio-profissionais. Para analisar essas trajetórias sociais usamos os
conceitos de capital cultural, capital social e capital simbólico, elaborados por Pierre Bourdieu para
compreender as desigualdades sociais e escolares no mundo contemporâneo. Essa visão polimorfa do
capital nos permite perceber as estratégias de reconversão de capital econômico em capital cultural e a
importância do capital social no processo de inserção sócio-profissional. O estudo das trajetórias sociais
dos alunos egressos do colégio dos jesuítas apóia-se, sob o ponto de vista empírico, nos relatórios
anuais do Colégio Catarinense, em notícias de jornais de circulação local e estadual e, especialmente,
nos dados de um questionário respondido pelos ex-alunos. Esse questionário foi enviado para 80 ex-
alunos que se formaram no ensino secundário do Colégio Catarinense no recorte temporal desta
pesquisa, que constitui a amostragem deste trabalho. Assim, estudamos as trajetórias sociais de alunos
egressos, procurando verificar o poder da origem social privilegiada no acesso ao ensino secundário
numa escola de elite e na vida sócio-profissional. Por outro lado, constatamos a presença de alguns
alunos provenientes de classes populares no Colégio Catarinense, na condição de bolsistas, que, com
muito esforço e renúncia, conseguiram ingressar no ensino superior e exercer profissões exitosas.

114
894
OS RELATOS DE TRAJETÓRIAS ESCOLARES COMO FONTE PARA A COMPREENSÃO DA HISTÓRIA E
MEMÓRIA DE ESCOLAS

GIANA LANGE DO AMARAL.


FACULDADE DE EDUCAÇÃO UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS, PELOTAS - RS - BRASIL.

Nos meios acadêmicos o estudo da história das instituições educacionais contribuem na elucidação e
compreensão da História da Educação brasileira, pois ao buscarem estabelecer o perfil de determinadas
escolas, enfatizam aspectos da cultura escolar e urbana, exploram questões didático-pedagógicas,
político-ideológicas, étnicas e de gênero em diferentes dimensões temporais e espaciais. Nesse sentido,
a utilização de relatos sobre as trajetórias escolares é uma possibilidade de dar voz a quem vivenciou o
jogo de identidades em determinadas instituições educacionais, servindo como uma importante fonte
para os estudos em História da Educação. Neste trabalho pretende-se apontar aspectos metodológicos
da organização de coletâneas de textos que abordam histórias e memórias de escolas da cidade de
Pelotas. Tendo por base o relato de trajetórias escolares de alunos, professores e funcionários de
determinadas escolas já foram organizados três livros. Nas coletâneas, a pluralidade de textos que se
abre ao leitor e/ou pesquisador mostra diferentes olhares em diferentes tempos sobre o cotidiano de
uma mesma instituição. É uma travessia fascinante em que a memória pessoal e social se entrecruza
com os processos cognitivo-afetivos vivenciados na escola, sendo uma preciosa fonte a ser explorada,
permitindo um olhar sobre tempos e espaços hoje distantes. Os relatos servem para aprofundarmos
dimensões, sinalizando para as contradições inerentes a todo o processo que envolve a busca de
identidade institucional a partir do olhar dos sujeitos que delas participaram. A pesquisa e publicação de
livros que abordem aspectos da história e da memória de instituições de ensino específicas que
constituem em si modelos culturais em circulação resultam de uma necessidade presente de
compreender a produção dessas escolas, sua atuação junto à comunidade, suas práticas, e suas culturas
escolares ao longo do tempo. Dessa forma, espera-se poder contribuir, também, como referencial
histórico para a compreensão e construção de propostas pedagógicas que levem em conta suas
identidades de escola que, sem dúvida, resultam de trajetórias peculiares. É inegável que todo grupo
social que esquece o seu passado, que apaga sua memória, acaba por perder sua identidade.
Certamente, a compreensão do presente é incompleta sem a inserção do passado, da experiência vivida
e consolidada. A organização e publicação desses textos constituem-se numa forma de recuperação de
uma identidade ameaçada pelo tempo e que precisa ser historicizada.

1021
TRAJETÓRIAS ESCOLARES E PROFISSIONAIS POUCO PROVÁVEIS: O CASO DE TRÊS EGRESSAS DO
COLÉGIO CORAÇÃO DE JESUS NOS ANOS DE 1950

ESTELA MARIS SARTORI MARTINI.


UNIVERSIDADE DO ESTADO DE SANTA CATARINA, FLORIANOPOLIS - SC - BRASIL.

O objetivo da presente comunicação é compreender o que tornou possível o sucesso escolar e


profissional de três mulheres, alunas egressas do Curso Científico do Colégio Coração de Jesus nos anos
de 1950. Localizada na capital do Estado de Santa Catarina e especializada na educação feminina, esta
instituição de ensino católica e privada era dirigida para atender as classes sociais mais abastadas.
Fundado no final do século XIX, o Colégio Coração de Jesus oferecia serviços de internato, externato e
semi-internato. Foi o primeiro colégio feminino no Estado de Santa Catarina a oferecer o Ensino
Secundário completo, conforme exigia a Reforma Capanema de 1942 – Ensino Ginasial de quatro anos e
Ensino Científico e/ou Clássico de três anos. O Colégio Coração de Jesus iniciou o segundo ciclo do
ensino secundário com Ensino Científico e, somente em 1956, implantou o Ensino Clássico. As três
alunas egressas da presente investigação eram provenientes de famílias pobres e detentoras de baixo
capital cultural, cujo sucesso escolar pode ser, sociologicamente, considerado pouco provável. Os dados
desta pesquisa foram coletados em questionários e entrevistas semi-estruturadas. A orientação teórica
assumida na conduta da pesquisa toma os trabalhos de Pierre Bourdieu, sendo este autor responsável

115
pelos conceitos de capital econômico, capital cultural e capital simbólico, motes fundamentais para
compreender as desigualdades sociais e escolares naquele momento histórico, assim como o esforço e
as renúncias que estas ex-alunas fizeram para conseguir delinear uma carreira exitosa. Para
compreender a complexa rede de relações sociais e individuais das três egressas, os trabalhos de
Bernard Lahire serão igualmente essenciais. Ao assentar o foco sobre a construção de “perfis
sociológicos”, este autor possibilita levar em conta, nas análises das trajetórias individuais, quais foram
os processos sociais e familiares mediadores na constituição dos percursos escolares e profissionais
pouco prováveis e de excelência das três egressas, ou seja, cada uma será investigada nas múltiplas
facetas das suas experiências sociais e familiares. Sendo assim, será possível destacar alguns elementos
que indicam a possibilidade de ruptura da lógica da reprodução nas trajetórias escolares e profissionais
de alunos/as, cujas famílias pertencem a extratos baixos da sociedade. Este trabalho, ainda em curso,
perpassa o campo da micro-análise sócio-histórica, buscando assim, contribuir para novas possibilidades
historiográficas na história da educação brasileira.

116
EIXO 9 - PATRIMÔNIO EDUCATIVO E CULTURA MATERIAL ESCOLAR

PRESERVAÇÃO E MAPEAMENTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO EDUCATIVO:


A BIBLIOTECA DA ESCOLA NORMAL DE (1903 A 1976)
Coordenador: MARIA CRISTINA MENEZES

1381
MANUAIS DIDÁTICOS DOS GRUPOS ESCOLARES DE SERGIPE NO INÍCIO DO SÉCULO XX

CRISLANE BARBOSA AZEVEDO.


UFRN, NATAL - RN - BRASIL.

Os grupos escolares foram inaugurados em Sergipe no ano de 1911 com o intuito de pôr fim a
problemas no ensino primário. Por seu intermédio procurava-se promover melhorias nos métodos de
ensino, na qualificação dos professores e nos recursos didáticos. Em relação a estes podemos citar os
manuais escolares, alvo da presente pesquisa, atenta à preservação do patrimônio histórico educativo.
Objetivamos analisar a materialidade dos documentos (formato, dimensões, configuração dos textos,
entre outros aspectos) e identificar aspectos característicos de uma cultura escolar de uma determinada
época por meio da análise dos conteúdos dos textos. Para tanto, foi desenvolvida pesquisa bibliográfica
acerca da educação brasileira e de manuais didáticos e investigação documental, com atenção a
documentos dos antigos grupos escolares nos quais encontramos referências a manuais escolares bem
como os próprios manuais. A análise adota a abordagem da História Cultural por compreender que essa
perspectiva potencializa os manuais como fonte. A partir da pesquisa documental, até o momento
realizada, localizamos manuais voltados para áreas de História, Língua Portuguesa, Valores e Gramática,
os quais se tornaram alvo da presente análise. Os manuais aqui problematizados e analisados circularam
nos grupos escolares sergipanos nas primeiras décadas do funcionamento de tais instituições (1911-
1930). Compreendemos como manuais escolares publicações impressas voltadas para a educação
escolar. A investigação integra um plano mais amplo de pesquisa voltado para a organização,
catalogação e análise de manuais escolares gerenciado pelo Civilis - Grupo de Estudos e Pesquisas em
História da Educação, Cultura Escolar e Cidadania, em conexão ao trabalho que vem se realizando junto
à biblioteca histórica da antiga Escola Normal de Campinas, que em 1911 também vai a ela anexar o
Grupo Escolar Modelo, que após a inauguração do novo prédio da Escola Normal, em 1924, passa a
funcionar em suas dependências. Partindo da materialidade dos manuais, dedicamo-nos também à
análise do conteúdo das obras por compreender que tais documentos representam o conteúdo
específico de uma área de conhecimento relacionado a uma determinada perspectiva pedagógica,
carregando em si a configuração didática de um período. Além disso, retratam um tipo de aluno e um
sujeito que se deseja formar. Por meios dos manuais podemos estudar os aspectos políticos e
ideológicos de uma época bem como a história de práticas escolares. A investigação mostra-se
complexa. Este trabalho em andamento busca contribuir com a temática possibilitando meios de
compreensão das especificidades da cultura escolar dos grupos escolares. Podemos afirmar, ao menos
teoricamente, que os manuais escolares contribuíram para a disseminação de valores cívicos e morais
voltados para a formação das gerações republicanas.

1247
OS MODELOS DE LIÇÃO: AS OBRAS DO EDUCADOR JOÃO TOLEDO NA BIBLIOTECA DA ESCOLA
NORMAL DE CAMPINAS (1925-1934)

MARIA DE LOURDES PINHEIRO.


UNESP/IBILCE, CAMPINAS - SP - BRASIL.

O presente trabalho abrange o período de 1925 a 1934 e resulta de uma discussão acerca das
interlocuções do educador paulista João Toledo, ao defender, por meio da publicação de livros

117
destinados às escolas normais, uma educação pautada pela arte de ensinar e pelos modelos de lição.
Numa perspectiva histórico-cultural, o trabalho é parte da discussão realizada em tese de doutorado
defendida em 2009, que esteve articulada ao projeto financiado pela FAPESP “Preservação do
Patrimônio Histórico Institucional: Escola Estadual Carlos Gomes de Campinas”, no âmbito do CIVILIS,
Grupo de Estudos e Pesquisas em História da Educação, Cultura Escolar e Cidadania, da FE/UNICAMP. Os
manuais, do ex-professor e ex-diretor da Escola Normal de Campinas, mostram como João Toledo fez
uso das interlocuções que estabeleceu com profissionais contemporâneos ligados ao ensino, bem como
das apropriações e representações que fez tanto do modelo de educação com que foi formado quanto
das novas concepções que iam penetrando no país, para divulgar suas próprias idéias educacionais. Em
julho de 1921, convidado por Guilherme Kuhlmann, então diretor geral da Instrução Pública em São
Paulo, para participar de uma reunião com profissionais do ensino, João Toledo foi incumbido pelo
desenvolvimento de uma tese sobre a formação de uma biblioteca do professor primário. Para Toledo, a
formação de uma biblioteca do professor primário se impunha como complemento indispensável, pois
não bastava que o mestre tivesse um conhecimento preciso do educando em seu desenvolvimento
psíquico e somático, nem que conhecesse a finalidade da educação, de forma que o preparo pedagógico
somente não seria suficiente para torná-lo um mestre de crianças apto a orientar o aprendizado.
Segundo João Toledo, o professor chegava ao ensino primário com uma insuficiente preparação técnica
e o que se via era o mestre ensinando e os alunos passivamente escutando, procurando decorar as
lições recebidas. Sua crítica, nesse sentido, era que, nas escolas primárias ainda não se aplicava os
princípios que regulavam o aprendizado ativo, uma vez que estes, na sua concepção, nem mesmo se
achavam convenientemente expostos e esclarecidos. Toledo, nesse sentido, sugeria a formação de uma
biblioteca do professor primário composta por livros que apresentassem lições, guias, roteiros prontos,
para auxílio do trabalho do professorado. O educador paulista publicou “O crescimento mental” e
“Escola Brasileira” (1925), “Didática” (1930) e “Planos de lição” (1934). Tais obras compõem o acervo da
Escola Normal de Campinas, bem como outras que também trazem como preocupações a Arte de
Ensinar e os planos de Lições. A idéia de uma biblioteca do professor era compartilhada por outros
profissionais contemporâneos, ainda que com uma configuração e objetivos diferentes da proposta de
João Toledo.

1289
ESCOLA NORMAL DE CAMPINAS E OS MANUAIS DE BOAS MANEIRAS

RITA CÁSSIA ROCHA.


FACULDADE GUAIRACÁ, GUARAPUAVA - PR - BRASIL.

O presente trabalho desenvolve-se no âmbito dos projetos de preservação do patrimônio histórico


educativo desenvolvidos pelo CIVILIS, Grupo de Estudos e pesquisas em História da Educação, Cultura
Escolar e Cidadania, da FE/UNICAMP, no qual a autora deste resumo realiza pesquisa em nível de
doutorado. A escola, nas primeiras décadas do século XX, foi percebida como agência formadora, em
que privilegiaria as regras de condutas dos futuros professores os quais seriam organizadores da alma
nacional. Boas maneiras, bons antecedentes, delicadeza, refinamento, entoavam e comporiam a figura
das professoras e dariam sentido à profissão de docente. Neste sentido, a pesquisa em andamento
concentra-se no acervo da Escola Normal de Campinas, precisamente nos manuais de civilidade para a
formação de professoras. O trabalho dar-se-á na perspectiva de análise processual da micro-história, em
que será possível emergir novas reflexões sobre a constituição das práticas pedagógicas desenvolvidas
pela Escola Normal de Campinas. Os manuais levantados, até o momento, são exemplos claros de como
se dá a aprendizagem das regras de convivência e civilidade dentro e fora da escola. Alguns destes
manuais foram elaborados na Argentina, Portugal e França entre eles estão: O livro das Donas e
Donzelas de Julia Lopes de Almeida; O pequeno manual de Civilidade para Uso da Mocidade; Tratado de
Civilidade e Etiqueta de autoria da Condessa de Gencé. A utilização destes manuais demonstra as
intersecções dos códigos de refinamento adotados no Brasil na busca da auto-imagem como país
civilizado. Ao buscar relacionar os códigos de boas maneiras aos modelos civilizatórios estudados por
Norbert Elias, verifica-se de que forma estes novos hábitos, e condutas foram sendo internalizados por
meninas e jovens, a partir dos manuais veiculados pela escola. Sob esse aspecto, infere-se que é no

118
grupo social do qual a individuo participa, que se regula a vida instintiva e naturalizam-se
comportamentos, fazendo com que sejam aprendidos, controlados e autocontrolados por meio de
mecanismos de internalização combinados a determinadas estratégias ou modelos verificados pelo
tempo. Comportamentos que indicariam novos padrões, pautados por preceitos normativos e padrões
estéticos a serem seguidos.

1264
O MAPEAMENTO DE UMA BIBLIOTECA DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES

MARIA CRISTINA MENEZES.


FE/UNICAMP, CAMPINAS - SP - BRASIL.

O presente estudo se localiza na circunferência das ações desenvolvidas no âmbito dos projetos de
Preservação do Patrimônio Educativo do CIVILIS, Grupo de Estudos e Pesquisas em História da Educação,
Cultura Escolar e Cidadania, da FE/UNICAMP, do qual a proponente é uma das coordenadoras.
Outrossim, vimos realizando a interlocução sobre tal tema através da RIDPHE, Rede Iberoamericana
para a Investigação e a Difusão do Patrimônio Histórico Educativo, que se vem desenvolvendo como
lista de discussões, localizada no rol de listas da UNICAMP, e tem como moderadores Maria Cristina
Menezes, do Brasil, e Vicente Peña Saavedra, da Espanha. O estudo que se apresenta teve o seu início
no projeto "Preservação do Patrimônio Institucional : Escola Carlos Gomes de Campinas, que pode ser
lida como Escola Normal de Campinas. Tal projeto, que se desenvolveu com o apoio da FAPESP,
Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, possibilitou que se organizasse o acervo
documental da antiga Escola Normal de Campinas, cuja documentação permitiu o percurso para as
ponderações aqui pretendidas. A recuperação do arquivo histórico documental da antiga escola de
Campinas, São Paulo, possibilitou que o inventário das fontes do arquivo histórico fosse publicado em
2009. Esta instituição, em suas várias denominações, adquiridas ao longo de sua existência, obteve em
1911 a denominação de Escola Normal Primária e o 2º Grupo Escolar da cidade passou a Grupo Escolar
Modelo. Em 1924, quando a escola passou a funcionar em prédio apropriado às suas funções, o 2º
grupo escolar começou a funcionar em seu interior. Tal movimento não foi prerrogativa desta escola,
fez parte de uma época, o que se pode hoje constatar em pesquisas que se vêm desenvolvendo
em tantas outras instituições. Os acervos trazem documentos escritos, iconográficos, museológicos, e
um grande número de itens bibliográficos, que deram forma à biblioteca infantil “Pequenos
Bandeirantes” e à biblioteca da escola Normal cujo prédio posteriormente passou a hospedar outras
modalidades de instituições o que acarretou o alargamento do acervo em número e títulos de obras.
Para os tantos itens encontrados, procedeu-se um mapeamento ainda modesto desta biblioteca, com o
aporte das fontes documentais do arquivo histórico da instituição, cujo inventário, organizado no
âmbito deste projeto, permitiu acesso aos relatórios, sobretudo, de 1945 a 1976, escritos pela mesma
bibliotecária. Os relatórios trazem informações importantes sobre o funcionamento da biblioteca,
número de consulentes, número de consultas por área de conhecimento, o movimento das classes
quanto a essas consultas, o aumento no número de obras e a proporção das mesmas quanto às áreas.
Há ainda a possibilidade de se perceber as práticas de manutenção e catalogação das obras, com a
aquisição de fichas matrizes, que já foram recuperadas em sua totalidade pelas ações do projeto de
preservação supracitado.

119
120
COMUNICAÇÕES INDIVIDUAIS

121
122
EIXO 1 - ETNIAS E MOVIMENTOS SOCIAIS

771
A EDUCAÇÃO DO CORPO POR MEIO DOS RITOS E DOS SÍMBOLOS NA AÇÃO INTEGRALISTA BRASILEIRA

RENATA DUARTE SIMÕES.


UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO, VILA VELHA - ES - BRASIL.

Investiga a “educação do corpo”, por meio dos ritos e dos símbolos, voltada para homens e mulheres
membros das fileiras integralistas que muitos adeptos conquistou no período de 1932 a 1938. Para
ordenar a ação do militante, um conjunto de dispositivos foi estruturado ditando regras, normas e
rituais a serem seguidos “fielmente” pelos membros da Ação Integralista Brasileira (AIB). Essa
ordenação instituía moral e corporalmente o integralista no movimento e na sociedade, e a ela os
integralistas estavam submetidos e deviam obediência incontestável. O objeto da pesquisa, concluída
em 2009, é a “educação do corpo integralista” elaborada e difundida pela Ação Integralista Brasileira –
movimento social de grande repercussão política, que emerge no Brasil Republicano, arquitetado por
Plínio Salgado, enquanto Chefe Nacional – com a finalidade de educar, disciplinar e preparar seus
membros tornando-os “soldados obstinados a defender a nação”. Delimita o período a ser estudado
entre 1932 e 1938, tendo como justificativa, para a data inicial, ser ela o ano de fundação da Ação
Integralista Brasileira. Como justificativa para a data final, aponta a extinção da AIB. Ao início do
Governo ditatorial de Getúlio Vargas, todos os partidos políticos são suprimidos, juntamente com eles, a
Ação Integralista Brasileira que havia obtido o registro de partido político em 1933 junto ao Superior
Tribunal de Justiça Eleitoral. Em função da dissolução dos partidos políticos, a AIB, adaptando-se aos
novos tempos, transformou-se novamente em sociedade civil com a denominação de Associação
Brasileira da Cultura (ABC). O Estudo realiza um diálogo com os “Protocollos” publicados em O Monitor
integralista, jornal fundamentalmente doutrinário e prescritivo do movimento que se encontra no
Acervo Plínio Salgado do Arquivo Público e Histórico do Município de Rio Claro-SP, ou seja, com as
diretrizes que orientavam os rituais e usos dos símbolos no integralismo. A proposta é que se observem,
nos “Protocollos”, elaborados pelo mais alto grau hierárquico do integralismo, ou seja, por Plínio
Salgado, as prescrições aos militantes do movimento. Os protocolos da AIB impunham que os “camisas-
verdes” obedecessem sem discutir às ordens superiores, cometendo falta gravíssima quem a elas
transgredisse. As ordens e ações de Salgado – Chefe em caráter perpétuo da AIB, com plenos poderes
deliberativos, a quem todos responderiam – eram inquestionáveis, sofrendo pena de exclusão
automática os “camisas-verdes” que as comentassem. Concluiu que, através dos ritos e dos símbolos, o
integralismo propagava, a seu modo, o comportamento a ser assumido pelos integralistas e,
conseqüentemente, a quem mais se predispusesse a ler seus jornais. Por meio das práticas ritualistas e
simbólicas, o integralismo impunha ao corpo um modo de ser, de se comportar, de vestir, de falar, de
calar, de andar, de casar, de morrer, de se embelezar, de amar, de odiar..., ou seja, um modo muito
próprio e uno de ser integralista.

743
A INSTITUCIONALIZAÇÃO DO NÚCLEO DE ESTUDOS AFRO-BRASILEIROS DA UFES: CONSTRUINDO
POSSIBILIDADES NO CAMPO DA EDUCAÇÃO DAS RELAÇÕES ETNICAS-RACIAIS

MARIA APARECIDA SANTOS CORREA BARRETO.


UFES/PPGE, VITORIA - ES - BRASIL.

Objetiva-se analisar aspectos históricos da institucionalização e da articulação do Núcleo de Estudos


Afro-Brasileiros da Universidade Federal do Espírito Santo, com ações no âmbito da formação
continuada de professores, no período de 2003-2010. A fundamentação teórico-metodologica é
pautada em dois eixos que se entrelaçam formando o núcleo de orientação desta formação: a
cosmovisão africana, as especificidades históricas e culturais da população negra nos diversos espaços
geográficos do Brasil e a análise dos processos opressivos de dominação sobre os africanos e
afrodescendentes e de suas formas de luta e resistência anti-racistas. Baseando-se ainda, na
constituição histórica de processos educativos no contexto da nova legislação, das Diretrizes

123
Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e o ensino de História e Cultura Afro-
Brasileira e Africana conforme a Lei nº 10.639/03 que visa contribuir para a desconstrução de um saber-
fazer preconceituoso/discriminatório. Os participantes da pesquisa foram professores(as),
pedagogos(as) e gestores(as) que atuavam na educação básica no sistema estadual de ensino. Como
metodologia propomos movimentos interligados durante o ano de 2003/2010: observação participante,
história oral, entrevistas, grupos focais. As novas diretrizes situam-se no campo das políticas de
reparações, de reconhecimento e valorização dos negros, possibilitando a essa população o ingresso, a
permanência e o sucesso na educação escolar. Dentre entre outros aspectos esta pesquisa vem
apontando como fundamentais para a formação docente como uma das principais vias para: o
aperfeiçoamento e organização do trabalho escolar e pedagógico nas escolas, de modo a compreender
que a cosmovisão africana, reinventada em territórios brasileiros contribui para o enriquecimento do
debate acerca das questões ambientais, tecnológicas, históricas, culturais e éticas em nossa
comunidade. Concluímos que o ideário desta política pública, com as ações investigativas dos Núcleos
de Estudos Afro-brasileiros constituídos nas IFES é afirmação do caráter pluriétnico da sociedade
brasileira, a formação de professores para atuar na promoção da igualdade racial e a eliminação de
qualquer fonte de discriminação e desigualdade raciais. Assim, apontamos ainda, que a formação
continuada de professores é um dos elementos históricos e sociais fundamentais para a desconstrução
das desigualdades que contribuem para exclusão de grande parcela da população afro-descendente dos
bens construídos socialmente.

557
A LIBERTAÇÃO DA MULHER ANALFABETA NO BRASIL ATRAVÉS DA EDUCAÇÃO POPULAR

PAULA SIMONE BUSKO.


UNISANTOS, SANTOS - SP - BRASIL.

No Brasil de hoje, a condição da mulher excluída, sobretudo na educação, tem sido palco de discussões,
desde os meios acadêmicos em seus vários campos do saber até no que diz respeito às políticas
públicas, porém, ainda de maneira tímida, caminhando na medida em que as pesquisas voltadas para o
gênero trazem à tona novos sujeitos, enfatizando a importância da representação feminina nos meios
sociais. Esta comunicação, que faz parte de uma pesquisa em andamento, tem como objetivo dialogar
acerca de estudos e reflexões da condição da mulher brasileira, desprovida de condições financeiras,
sobretudo do aprendizado escolar, subjugada em seu meio, e de como esta mulher poderá se libertar,
através de uma educação popular, conforme Dussel. O trabalho será dividido em duas partes, a primeira
objetiva a preocupação de Dussel com o ser oprimido, neste caso a mulher pobre e analfabeta, como ele
a vê, através de sua Exterioridade, e não do ponto de vista da Totalidade do meio, porque sucedendo de
forma totalitária a libertação desta mulher, na luta pelo aprendizado, poderá ocorrer de maneira
limitada, neopragmática, negando toda uma realidade racional existente. Cabe aqui a citação de ações
comunitárias que se justificam por si mesmas, espaços de consciência e de respeito por esta mulher,
indispensáveis para o crescimento de suas práticas sociais, livres e criativas. Na segunda parte, o
trabalho visa evidenciar que determinadas representações da mulher são construções culturais e
históricas, muitas vezes vistas por elas como algo natural. Neste intuito, o pesquisador não poderia
pautar suas pesquisas sem entender tais modelos impostos e sem a convivência com esta mulher,
dentro das ações comunitárias propostas e da educação popular. Dessa forma, o trabalho enfatiza que
só haverá entendimento do que seja um determinado estudo sobre esta mulher brasileira desvalida de
recursos educacionais, se esta for vista enquanto sujeito em busca de sua libertação, e não como um
objeto de estudo de uma simples “reflexão” externa, e isto só é possível através de uma presença
prática concreta do pesquisador na relação imediata do face-a-face, o que para Dussel é o ponto de
partida da libertação. A metodologia utilizada, inicialmente, será um levantamento bibliográfico
identificando historicamente os movimentos em favor da mulher no século XX. Será utilizada também a
história oral, com entrevistas em grupos de mulheres analfabetas ou em fase de alfabetização, e de
como elas entendem a sua inserção na educação. Para concluir será importante identificar questões que
se fazem surgir no próprio campo da pesquisa reconhecendo o avanço de estudos desta relação mulher
pobre-educação popular no Brasil, somente assim esta mulher terá chance de expressar a sua voz.
1028

124
A ORIGEM DA EDUCAÇÃO ÁRABE NO PARANÁ

WANESSA STORTI.
UFPR, CURITIBA - PR - BRASIL.

Esse trabalho trata dos quatro anos de existência da Escola Islâmica do Paraná, fundada em 1969, em
Curitiba. A escola possui relação direta com imigrantes árabes muçulmanos que, ao chegarem ao Brasil,
sentiram necessidade de continuar a divulgar sua cultura e religião. Durante os seus anos de existência,
houve o crescimento da fé muçulmana no Estado, substituindo-se a escola pelo local de culto desses
fiéis, a mesquita. A importância do trabalho reside, também na compreensão do papel desta etnia à
sociedade curitibana, além de divulgar e problematizar a maneira como a cultura escolar, entendida por
Forquin (1993), Faria Filho (2007), Viñao Frago (2000), acontece em uma instituição particular islâmica
que se fundamenta na manutenção dos valores e costumes trazidos pelos antepassados. Existem
contribuições sociais e históricas que o estudo pode trazer como um maior conhecimento da cultura
árabe e da história da educação no estado. O termo árabe muçulmano remete aos imigrantes
praticantes do Islamismo que chegaram ao Estado do Paraná na metade do século XX. A relação entre a
chegada dos imigrantes árabes e a fundação e manutenção da escola auxilia na compreensão da
instalação da etnia na cidade de Curitiba. A fundação da Sociedade Beneficente Muçulmana do Paraná
teve um grande impacto para a estruturação dessa instituição de ensino. Mesmo sendo essa imigração
estatisticamente pequena comparando-se com a chegada de outras etnias, os “turcos” construíram suas
raízes na capital do Paraná. A Escola Islâmica do Paraná, segundo os registros, estava apta para oferecer
ensino primário. A partir de março de 1971, criou-se o Ginásio Muçulmano Nossa Senhora de Fátima,
com atividade no ensino secundário. O nome revela a tentativa de integração da comunidade na capital
paranaense, como uma sincronia das duas religiões. A pretensão, então, não é somente relatar os
acontecimentos e marcos importantes da escola, mas sim interpretá-los. É como tornar presente o que
está ausente, uma presentificação do passado. (WERLE, 2004). Isso ocorre através da análise dos ritos,
das histórias, dos símbolos educacionais que servem como indícios para o relato da escola. Para
Magalhães (1999, p. 68), “a instituição educativa constitui, no plano histórico, como no plano
pedagógico, uma totalidade em construção e organização, investindo-se de uma identidade.”. As fontes
utilizadas foram em sua maioria os documentos escolares arquivados na instituição de ensino, além de
jornais da época e fotografias de acervos particulares de ex-alunos.

772
A REVISTA “O PEQUENO LUTERANO” NAS ESCOLAS PAROQUIAIS LUTERANAS NO RS- 1930-1960

PATRICIA WEIDUSCHADT.
UNISINOS, PELOTAS - RS – BRASIL.

O objetivo deste artigo é analisar a influência da revista “O Pequeno Luterano” nas escolas paroquiais
orientadas por uma instituição luterana, o Sínodo de Missouri. Esta revista foi editada pelo Sínodo, atual
Igreja Evangélica Luterana do Brasil, em 1931 em alemão gótico, sendo que, em 1939 com a
nacionalização do ensino começou a ser editada em português até 1966. A igreja do Sínodo de Missouri
foi instalada em 1900 na região meridional do estado do RS entre pomeranos e sua expansão se deve ao
grande investimento nas escolas e material impresso às jovens e crianças. Através da análise da revista,
percebemos que este material previa orientações doutrinárias, religiosas e de conhecimento geral, além
de entretenimento para colaborar na educação das crianças. A ênfase doutrinária estava presente em
textos que enfocava explicações bíblicas, do catecismo, e da vida biográfica de Lutero, com grande
aprofundamento, pressupondo, assim, que seria necessário o auxílio do professor para as crianças
leitoras entender os artigos. Podemos afirmar que os professores das escolas usavam a revista como
auxílio didático, e, também, como um manual a seguir durante o ano letivo. Em todos os anos da revista
ela seguia um cronograma de temas que coincidiam com as festas religiosas: ano novo, páscoa,
pentecostes, dia da reforma protestante e natal. Do mesmo modo as datas cívicas e nacionalistas
também obedeciam a uma seqüência de fatos organizados durante o ano: Dia de Tirandentes, Dia da
Independência, Dia da Proclamação da República. Os leitores infantis também se comunicavam com a

125
edição da revista, em sua maioria, identificados como alunos das escolas, relatando a sua escola e
práticas. A edição, diversas vezes, pede auxílio para os professores expandirem as assinaturas entre os
seus alunos, também apelam para os leitores nas dificuldades de poucas assinaturas fazer propaganda
entre os colegas de classe. A revista reforça as práticas de uma cultura escolar específica nos seus
leitores/ alunos, como decorar passagens bíblicas, maneiras e condutas de comportamento na escola e
na igreja. Assim, estaremos apoiando esta análise nos estudos de Chartier ao analisar o impresso, sua
circulação e edição como parte de um processo de construção entre leitores, editores e escola .Por isso,
evidencia-se uma interrelação entre as orientações da revista e as práticas escolares e religiosas neste
contexto. Este artigo faz parte de pesquisa em andamento dos estudos de doutoramento em educação
e ainda precisa aprofundar as análises da revista.

690
AGÊNCIA POPULAR NA OPÇÃO PELA NÃO ESCOLARIZAÇÃO NAS PROVÍNCIAS DE SÃO PAULO E DO
PARANÁ EM MEADOS DO SÉCULO XIX

FABIANA GARCIA MUNHOZ.


FEUSP, RIO CLARO - SP - BRASIL.

Esta comunicação apresenta interpretações possíveis para casos de resistência à escolarização em


meados do século XIX. A presente análise constitui recorte de pesquisa de mestrado em andamento. A
intenção é problematizar as recorrentes queixas presentes em relatórios de inspetores gerais da
instrução pública e presidentes de província acerca do baixo número de alunos matriculados em
algumas aulas públicas de primeiras letras – no caso, das províncias de São Paulo e do Paraná. As
hipóteses foram construídas operando-se com as contribuições de Michel de Certeau e Edward Palmer
Thompson. A partir de fontes produzidas pelo poder – homens que ocupavam o cargo de inspetor da
instrução e de presidente da província – e por professores de primeiras letras buscou-se indícios do
conhecimento da população acerca do funcionamento institucional que se constituía e suas táticas para
fugir do controle governamental. A opção pela não escolarização é compreendida como agência
popular, ou seja, tática dos sujeitos no interior de um cenário mais amplo de relacionamento com as
diversas instituições políticas do Brasil Imperial – entre as quais a polícia, o exército, a judicatura de paz,
o júri e a magistratura togada. Cargos como o de juiz de paz e de jurado não eram remunerados e
exigiam que o ocupante soubesse ler e escrever, a partir de 1841. A matricula e frequência às escolas
públicas forneciam letrados para a burocracia que se constituía e, ao mesmo tempo, um instrumento de
controle para o governo conhecer quem eram os seus alfabetizados. As listas de alunos que os
professores de primeiras letras elaboravam com nomes, idades e filiação representavam instrumentos
de controle social do Estado sobre esta população, tal como ocorria no caso das listas de moradores
(maços populacionais) que eram utilizadas para as eleições e também para fins de recrutamento. Maria
Odila Leite da Silva Dias (1988) destaca a “resistência ao recrutamento” e a “deserção sistemática” tanto
no caso das polícias provinciais, quanto no da guarda nacional, e, “pior de tudo, para os
contemporâneos, era o exército de primeira linha considerado como castigo pela população mais pobre,
que o identificava, com razão, a trabalhos forçados” (DIAS, 1988, p. 69). Nesse sentido, trabalha-se com
a hipótese de que a opção pela não escolarização esteja relacionada com a resistência às várias
possibilidades de recrutamento no XIX e tenha motivações convergentes com as que suscitaram
movimentos de resistência ao registro civil e ao censo como o "Ronco das Abelhas ou guerra dos
marimbondos" que foram revoltas contra os decretos de 1851, que instituíam o “Censo Geral do
Império” e o “Registro Civil de Nascimentos e Óbitos”.

1067
ARTICULAÇÃO PUXIRÃO: MOVIMENTO SOCIAL DOS POVOS FAXINALENSES

126
EMANUEL MENIM.
UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ, CURITIBA - PR - BRASIL.

A proposta deste trabalho encaixa-se no eixo temático movimentos sociais e etnia, no sentido de que a
partir da História do tempo presente busca-se discutir a atuação de uma instituição não-formal de
educação. Estudamos a Articulação Puxirão dos Povos Faxinalenses, movimento social que organiza este
grupo étnico. A Articulação Puxirão objetiva articular e mobilizar as comunidades em prol da defesa e da
promoção de seus direitos étnicos e coletivos com vistas ao acesso e à manutenção de sua
territorialidade. Desde 2005 este projeto organiza oficinas nas comunidades paranaenses e forma
lideranças faxinalenses com o intuito de propiciar o conhecimento de instrumentos, bem como de
mecanismos jurídicos que possam ser utilizados na reivindicação dos direitos de diversas comunidades
faxinalenses existentes no Estado do Paraná. Deste modo, a expectativa é que se formem atores ativos
dos processos de construção e de intervenção de políticas públicas em nível federal, estadual e
municipal. Este é um projeto de educação não-formal, uma iniciativa do terceiro setor da
educação.Sobre a História geral dos faxinalenses, podemos dizer que sua formação social é
caracterizada pelo uso comum da terra tanto para a criação de animais quanto para o uso dos recursos
hídricos e florestais. Sofrem o agravamento da possibilidade de permanência em seus territórios onde,
há décadas, a agricultura convencional vem produzindo consequências como a descaracterização sócio-
ambiental notada pela desagregação do sistema faxinal e pela expulsão das famílias ou de parte delas
para os centros urbanos. O presente trabalho é resultado de pesquisa de monografia em conclusão.
Pesquisa-se especificamente o Faxinal do Salso, em Quitandinha/PR. A baliza temporal desta pesquisa
vai de 2005 até o presente momento, sendo que o marco inicial se refere a entrada da Articulação
Puxirão nesta comunidade. Os conflitos ali são com os chacareiros. Na ótica faxinalense o chacareiro é
uma pessoa aposentada que não depende da vida na cidade e que procura um pedaço de terra em meio
aos faxinais e, por não compreender o modo de vida faxinalense, cerca sua terra diminuindo a área de
reprodução dos animais criados a solta. Nesta comunidade a organização trouxe maior coesão ao grupo,
e eles estão mais informados sobre seus direitos e lutam por eles. A questão da territorialização sofreu
mudanças desde que a comunidade se organizou em movimento social e o conhecimento das leis
favoráveis aos povos e comunidades tradicionais mudaram as relações entre os faxinalenses,
chacareiros, polícia e autoridades locais. Uma questão importante desta comunidade agora é a
reconstrução da identidade étnica e dos costumes do modo de vida faxinalense. E é frente a estas
questões que a Articulação Puxirão tem se posicionado.

444
AS ASSOCIAÇÕES DE MÚTUO SOCORRO E SUAS ESCOLAS ÉTNICO-COMUNITÁRIAS ITALIANAS: A
CIRCULAÇÃO DE SABERES E AS CONFORMAÇÕES IDENTITÁRIAS

TERCIANE ÂNGELA LUCHESE.


UNIVERSIDADE DE CAXIAS DO SUL, BENTO GONCALVES - RS - BRASIL.

O presente texto é resultado parcial de pesquisa em andamento intitulada “O processo escolar na


Região Colonial Italiana, RS: as escolas étnico-comunitárias, 1875 a 1938.” Nesse artigo, o objetivo é
apresentar as iniciativas escolares criadas, mantidas e difundidas pelas Associações de Mútuo Socorro
da Região Colonial Italiana do Rio Grande do Sul. Essa Região corresponde às primeiras três colônias
ocupadas predominantemente por imigrantes italianos: Colônia Caxias, Conde d’Eu e Dona Isabel. A
análise abrange o final do século XIX e início do século XX, momento em que houve maior participação e
importância desta forma de escolarização, sistematizada pelas diversas associações – rurais e urbanas.
Na análise são privilegiadas as atuações das seguintes Associações: Sociedade Italiana de Mútuo Socorro
Regina Margherita (fundada em 1882) no atual município de Bento Gonçalves; Sociedade Italiana Stella
d’Itália (1884) criada em Garibaldi; e Sociedade Príncipe de Nápoles (1887) de Caxias do Sul. Os nomes
das sociedades lembram algum herói italiano ou membro da Casa Real da Itália. Dentre as diversas
funções das sociedades estava a intermediação e preservação dos laços com a pátria de origem através
de festividades cívicas – italianitá, assim como assumiram a organização de diversas escolas subsidiadas

127
por materiais e mesmo professores provenientes da Itália. Constituíram-se, também, em espaços de
auxílio mútuo em caso de doença, morte ou sinistro de seus sócios. Buscavam difundir o sentimento de
italianidade com a comemoração das datas nacionais italianas, o culto à memória da família real e dos
heróis da península, bem como campanhas para a arrecadação de donativos enviados para a Itália.
Dentre os questionamentos que orientam a pesquisa e são destacados no texto podemos elencar:
Quem ensinava? Em que locais? Quais os conhecimentos privilegiados? Quais os suportes materiais
utilizados? Que conformações identitárias produziram? As “escolas italianas” foram consideradas
importantes na manutenção da língua e do culto da Itália como a pátria dos filhos dos imigrantes.
Tiveram atuação efetiva nesse sentido? Orientada pelos referenciais teóricos da História Cultural e
utilizando a análise documental de fontes historiográficas diversificadas como fotografias, materiais
didáticos, livros, correspondências, estatutos, relatórios de cônsules e agentes consulares, o artigo
privilegia a análise desta iniciativa ímpar de organização escolar, procurando contribuir para o
conhecimento da história da educação brasileira.

508
AS ESCOLAS ITALIANAS DAS SOCIEDADES DE MÚTUO SOCORRO EM CURITIBA: INSTRUIR A INFÂNCIA E
FORTALECER A IDENTIDADE ÉTNICA.

ELAINE CÁTIA FALCADE MASCHIO.


UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ, COLOMBO - PR - BRASIL.

O objetivo deste trabalho é analisar as iniciativas escolares junto as Sociedades Italianas de Mútuo
Socorro em Curitiba no final do século XIX e início do século XX. Busca compreender como essas
instituições empenharam-se na organização de escolas que contribuíram para a instrução da infância e
para o fortalecimento a identidade étnica, através da disseminação do sentimento de italianidade.
Procura identificar os sujeitos que fizeram parte daquele processo de escolarização, as práticas, as
relações de poder e os primeiros impactos da nacionalização. As sociedades de mútuo socorro eram
associações formadas por imigrantes e descendentes e objetivavam prover os seus membros com
auxílio financeiro em caso de necessidade. Além disso, essas instituições buscavam fortalecer os
vínculos entre os emigrados e a pátria de origem. Portanto, desempenhavam funções previdenciárias e
sindicais, oferecendo assistência aos trabalhadores operários, ou agiam como agremiações que
executavam ações para a manutenção da identidade do grupo, como celebrações de datas festivas
italianas, apresentações culturais e atendimento educacional em língua italiana. Em Curitiba, das 10
sociedades italianas de mutuo socorro criadas no ínterim dos anos de 1883 a 1916, três delas tinham em
seu escopo o atendimento educacional da infância conflagrando o fortalecimento da identidade étnica:
a Società Italiana di Beneficenza Giuseppe Garibaldi (1883), a Società Italiana Dante Alighieri (1896) e a
Società Italiana di Mutuo Soccorso Cristoforo Colombo (1905). Neste sentido, o recorte temporal
abrange os anos que assistiram a criação da primeira e da última sociedade italiana em Curitiba. A partir
do ano de 1916 iniciaram-se as primeiras ações de nacionalização do país, confluindo para a formação
do estado-nação. As sociedades organizadas pelos estrangeiros sofreram forte fiscalização, tendo que
realizar mudanças na organização mutual. Na tentativa de compreender as iniciativas escolares dessas
instituições e sua atuação na conformação da identidade étnica, foram privilegiados documentos como:
Registros Cartoriais, Estatutos das Sociedades, Jornais, Ofícios, Requerimentos e Relatórios das
autoridades do Ensino Paranaense. O diálogo historiográfico contemplou autores que tratam desde a
imigração italiana, até autores que abordam a historiografia educacional brasileira, os quais
contribuíram para entender o processo de imigração e escolarização no Brasil e no Paraná. Esta
pesquisa, ainda em andamento, está inserida em uma dimensão teórica e empírica mais ampla junto ao
processo de doutoramento em realização e procura incluir-se nas discussões do eixo temático Etnias e
Movimentos Sociais.

658
CHICO REI CLUBE: CONTRIBUIÇÕES PARA A HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO DOS NEGROS EM POÇOS DE
CALDAS, MG (1963-1995)

128
1 2
FERNANDA MENDES RESENDE ; GABRIELA CAMARGO SCASSIOTTI .
1.FEUSP, POCOS DE CALDAS - MG - BRASIL; 2.PUC MINAS CAMPUS POÇOS DE CALDAS, POÇOS DE
CALDAS - MG - BRASIL.

Este trabalho apresenta os resultados parciais de pesquisa sobre a história da educação dos negros e
formação da cultura negra em Poços de Caldas, cidade situada no sul de Minas Gerais. O trabalho
enfatiza a história do Chico Rei Clube – hoje Centro Cultural Afrobrasileiro Chico Rei – um clube para
negros, e suas contribuições para a comunidade negra local, buscando compreender as ações deste para
o reconhecimento da cultura afrobrasileira entre 1963 – fundação do Chico Rei Clube por dezoito casais
negros e alguns casais da elite branca poçoscaldense, com o intuito de organizar atividades de lazer para
a população negra de Poços – e 1995 – ano de uma importante comemoração planejada pelo Clube, que
marcou uma época de cisões e mudanças na diretoria. A motivação inicial para a pesquisa surgiu a partir
da percepção de que havia, na sede do Centro Cultural, uma significativa quantidade de material
guardado de forma bastante desorganizada, que pode ser utilizado como valiosas fontes para a história
e recuperação da memória do Chico Rei Clube. Realizamos um levantamento inicial de todo o material
encontrado no porão da sede do Centro Cultural, e em seguida demos início à catalogação deste
“arquivo”. Jornais, discos de vinil e fantasias utilizadas nas ocasiões festivas foram catalogados. Em
seguida, realizamos entrevistas com as pessoas que participaram de forma direta das atividades do
Chico Rei Clube entre 1963 e 1995, como, por exemplo, diretores, associados e usuários das atividades
oferecidas pelo Clube. Paralelamente, analisamos documentos oficiais, incluindo atas de reuniões, e
fotografias que se encontram com as pessoas que participaram das diretorias do Clube. Para analisar
todos os movimentos históricos do Chico Rei Clube, foi necessário estudar e compreender a chegada
dos negros no Brasil, a diáspora, a escravidão, o extravio da cultura e costumes, a apropriação da cultura
branca como meio de participação na sociedade, o mito da democracia racial, a educação dos negros
nos séculos XIX e XX, e outras questões relacionadas à história do negro no Brasil. As análises levam em
conta a formação, bastante específica, da sociedade sulmineira, especialmente a poçoscaldense, de
maioria de imigrantes italianos e poucos descendentes africanos, como já foi debatido por Marcus
Vinicius Fonseca (2009). Como referencial teórico básico utilizamos Kabengele Munanga (2009), Marcus
Vinicius Fonseca (2002 e 2009), Nilma Lino Gomes (2006), Ana Canen (2001), Luiz Alberto Gonçalves
(2002), entre outros.

1047
DAS ALAGOAS ÀS GERAIS: NORDESTINAS MIGRANTES E ESCOLARIZAÇÃO NO PONTAL MINEIRO (ANOS
1950-1960)

DAIANE DE LIMA SOARES SILVEIRA.


UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA, ITUIUTABA - MG - BRASIL.

O presente trabalho é resultado parcial da pesquisa em desenvolvimento “Das Alagoas às Gerais:


Migrantes Nordestinos e Escolarização no Pontal do Triângulo Mineiro (anos 1950 a 2000)”, apoiada
pelo CNPq, que tem como objetivo central estudar os fluxos migratórios nordestinos para o município
de Ituiutaba e seus reflexos no sistema de ensino. Apresentamos problematização inicial, enfocando as
décadas de 1950 e 1960, quando analisamos a “chegada das massas” à rede escolar local, com a
progressiva elevação do acesso à escolarização, desencadeada, sobretudo, com os fenômenos da
industrialização e urbanização, tentando vislumbrar como se deu a inserção e permanência das
mulheres migrantes nesses espaços institucionais. Eleger esse grupo como objeto tem relação com a
pouca visibilidade da presença das nordestinas no município, já que os estudos existentes sobre
migração, priorizaram o trabalhador rural, por representar a maior parte dos migrantes. Estudar a
escolarização das migrantes nordestinas em Ituiutaba-MG permite-nos refletir sobre o papel social
desse grupo, colaborando para o entendimento da história sobre o feminino na região. Uma
especificidade encontrada na pesquisa foi a observação de que, enquanto os meninos – filhos dos
migrantes – deveriam colaborar com o sustento das famílias o que dificultava sua permanência na
escola e muitas vezes o próprio acesso a cultura letrada, as filhas eram, na medida do possível,

129
incentivadas a iniciar e concluírem os seus estudos. Do grupo de entrevistadas, três chegaram ao nível
superior, uma concluiu o ensino fundamental, e outras duas apenas o primeiro ciclo desse ensino (4a.
série). Entretanto, havia obstáculos para as migrantes se manterem nas escolas em função das
dificuldades cotidianas decorrentes de sua condição social, acentuadas pelas diferenças culturais. É
possível apontar, a partir desses dados e também nos apoiando em Motta (2010), que há uma
ressignificação do “dote intelectual” no novo espaço (Pontal Mineiro), o qual justifica o estímulo à
entrada da filha mulher no âmbito escolar, invertendo as estatísticas quando comparadas as do local de
origem - o Nordeste do país, que nos anos de 1950 e 60 tinha número elevado de mulheres fora da
escola, superior ao da população masculina. A expansão das escolas públicas na cidade nesse período,
também contribuiu para a escolarização dessas mulheres, mas acreditamos ser possível afirmar a
existência do dote como instrução (ABRANTES, 2010), ou seja, um mecanismo encontrado pelas famílias
migrantes, para ampliar as possibilidades de estabilidade econômica no novo destino, porém, o acesso à
escola pode ser visto também como uma forma de “dotar” intelectualmente essas mulheres,
contribuindo para sua emancipação.

730
DE SELVAGEM A EDUCADO: TRAJETÓRIA ECUCACIONAL DE CRIANÇA INDÍGENA NO FINAL DO SÉCULO
XIX

ANA PAULA DA SILVA XAVIER.


UFMG, CUIABA - MT - BRASIL.

Esta comunicação tem por objetivo discutir a experiência educacional de “Piududo” – Guido –, menino
indígena da etnia Bororo que viveu no final do século XIX. Essa investigação inseri-se em uma pesquisa
maior, desenvolvida junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de
Mina Gerais (UFMG), a qual busca estudar a história da escolarização da infância em Mato Grosso, no
século XIX. Nesta comunicação, inicialmente, busca-se discutir o Projeto de educação para população
indígena de Mato Grosso, tendo por base o Regulamento das Missões e Catequese de 1845 que esteve
em vigor em todo o império brasileiro, bem como os relatórios de presidentes de província e inspetores
da instrução pública mato-grossense. Num segundo momento, a escala de observação é verticalizada,
passando a focalizar a trajetória educacional de “Piududo”, um menino indígena da etnia Bororo que foi
retirado do convívio natural do seu grupo étnico e levado à Cuiabá para ser criado pelo Presidente da
Província de Mato Grosso, Coronel Rafael de Mello Rego e sua esposa, Maria do Carmo de Melo Rego.
Essa trajetória individual é traçada por meio de relatos do tipo memorialista, escritos por viajantes e
pessoas que estiveram ou habitaram em Mato Grosso, em especial, os redigidos pela própria Maria do
Carmo de Mello Rego, mãe de criação do menino – batizado como “Guido” – que após a morte do
mesmo, escreveu diversos relatos que apresentam descrições relativas aos costumes da etnia bororo e
dos moradores da cidade de Cuiabá, bem como visões de mundo em relação ao modo de vida do
menino indígena em seu grupo de origem e da educação vivencia junto às regras dos “civilizados” da
cidade. Nesse estudo, a analise das relações estabelecidas entre trajetória individual e relações com os
grupos sociais e étnicos possibilita compreender as múltiplas dimensões de deslocamento dos sujeitos
na sociedade da época. No caso de Guido, sua trajetória educacional não pode ser tomada como
representação de uma experiência coletiva dos diferentes grupos indígenas de Mato Grosso ou até
mesmo da própria etnia Bororo. Entretanto, a singularidade da trajetória desse menino indígena
contribui para dar visibilidade aos índios enquanto sujeitos históricos integrantes do processo de
escolarização do século XIX, em Mato Grosso, ao trazer a tona, a entrada de crianças indígenas em
escolas de primeiras letras, assim como possibilita pensar na configuração de diferentes espaços e
estratégias educacionais paralelas ao Projeto de educação para os índios desse período histórico.

1135
DIVERSIDADE ÉTNICO-CULTURAL NA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO RECENTE 1996 – 2008: UM ESTUDO
DESDE O ENSINO FUNDAMENTAL E MÉDIO

130
1 2
ROSA LYDIA TEIXEIRA CORREA ; SIMONE TOLONI OLIVEIRA .
1.PUCPR, CURITIBA - PR - BRASIL; 2.PUC, CURITIBA - PR - BRASIL.

Este trabalho traz resultado parcial de uma pesquisa que se encontra em andamento, em nível de
mestrado. O principal objetivo é estudar a diversidade étnico-cultural existente entre alunos do ensino
fundamental e médio de uma escola localizada na cidade de Amambaí, estado do Mato Grosso do Sul,
na história recente. Trata-se, analisar as representações (Chartier 1996), sobre diversidade étnico
cultural, considerando dois tipos de fontes: legais e listas de alunos. Do ponto de vista legal, a etnicidade
está sendo analisada no âmbito da diversidade cultural no sentido de entender como ela é
representada, nos parâmetros curriculares nacionais, na Lei 9394/93, e nas legislações subseqüentes
como, tais como: a lei 10.639/2003 que inclui nos currículos do ensino regular a obrigatoriedade do
ensino de história e cultura afro-brasileira. Em listas de alunos, por meio de registro nomes, onde a cor
dos mesmos está registrada ao lado de nomes e sobrenomes. Metodologicamente este estudo é
orientado pela abordagem da história cultural (Chartier, 1996), que entende ser a realidade lida,
interpretada, para então se construir, elaborar compreensões sobre ela. As representações resultam de
percepções que os grupos constroem sobre o social e que não se constituem de modo algum em
construções neutras. Elas produzem estratégias e práticas sociais e escolares que tendem a impor
formas de poder e dominação. Dados preliminares obtidos das listas nominais apontam para a
existência de alunos que, sob o prisma étnico estão situados dentro das seguintes categorias: negros,
pardos, indígenas e brancos. Esta é uma particularidade que embora genérica nos permite
problematizar sobre o seu significado, considerando o fato de que são categorias socialmente
construídas (D’Assunção, 2007). Da perspectiva legal, embora as últimas legislações demonstrem
avanços em termos do trato da diversidade e, em particular com as questões de natureza étnica,
genericamente falando, elas ainda devem ser tratadas nos currículos escolares do ensino fundamental
de modo transversal. Por outro lado, não podemos perder de vista que a diversidade cultural enquanto
temática geral curricular e seus desdobramentos e, entre eles a questão étnica decorrem de conquistas
de direitos historicamente conquistados no interior dos movimentos sociais no Brasil em particular.

774
EDUCAÇÃO DA MULHER E MESTIÇAGEM NA PROVÍNCIA DO GRÃO-PARÁ (1831-1889)

SÔNIA MARIA ARAÚJO.


UFPA, BELEM - PA - BRASIL.

Esta pesquisa tem como objeto de investigação a relação entre educação para a mulher e mestiçagem
na Província do Grão-Pará, no período do Império no Brasil, mais precisamente no 2º Reinado, portanto,
abrangendo o período de 1831 a 1889. As questões que lançamos nesta investigação são: no contexto
da educação da mulher na Província do Grão-Pará, na transição do Império para a república no Brasil, já
se manifestavam práticas raciais? De que maneira a mestiçagem, e todas as questões raciais que a ela
circundavam, aparece na educação da mulher na Província? Objetiva-se com a pesquisa compreender,
por meio da análise de documentos governamentais, relações entre a educação da mulher na Província
do Grão Pará e a questão da miscigenação, nos anos de 1831 a 1889, de modo a acrescentar ao debate
da educação para a mulher no território do Império do Brasil as tentativas de, por meio da educação,
eliminar traços degenerescentes herdados da raça indígena. Considerando que a formação étnica do
norte do Brasil, predominantemente indígena, era associada à degenerescência e à selvageria, conforme
as teorias raciais largamente expandidas nas representações das elites brasileiras, formadas nos colégios
da Europa, especialmente de Portugal, país altamente patriarcal e católico, torna-se premente analisar
as relações que podem ser estabelecidas entre a educação da mulher na Província do Grão-Pará e a
questão da mestiçagem. Prioritariamente, utilizamos fontes governamentais, como documentos
publicados pelos presidentes da Província e legislação criada. A princípio, identificamos que no Grão-
Pará, região considerada terra de índio, a questão racial forneceu elementos diferenciados sobre a
educação da mulher no cenário nacional, que vai receber um tratamento mais contundente no início da
República. Os resultados preliminares indicam que a educação para a mulher no Grão Pará oferece ao

131
campo da História da Educação dados para reflexão que ampliam o debate nacional sobre a educação
no país para além da formação feminina como cópia do modelo de educação processada no Ocidente
europeu, especialmente da França. No caso particular da Província do Grão-Pará, a política de educação
para a mulher tinha especialmente como objetivo principal subliminar a superação de traços
degenerescente provindos da herança racial indígena. Considerada incapaz de educar os filhos para a
formação da nação independente, moderna e soberana, a mulher mestiça do norte precisava ser
educada para superar a moral degrada que conduzia suas práticas sociais.

1025
EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS: AS AÇÕES PEDAGÓGICAS DO MOBRAL EM PATOS DE MINAS/MG
(1971-1979)

LENI RODRIGUES COELHO.


UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS, TEFE - AM - BRASIL.

Diante de tantas campanhas acerca da alfabetização de adultos, criadas e extintas no Brasil criou-se em
1967 o Movimento Brasileiro de Alfabetização (MOBRAL). Esta pesquisa é fruto da dissertação de
Mestrado em Educação defendida em 2008 no Programa de Pós-Graduação na Universidade Federal de
Uberlândia. Os resultados obtidos são importante uma vez que preenche lacunas no vazio
historiográfico, pois não tem-se estudos cientificos referente as ações do MOBRAL em Patos de
Minas/MG nesse contexto. Diante disso, surgiu a necessidade de compreender e analisar as
especificidades do MOBRAL como também suas influências em Patos de Minas entre 1971 e 1979,
período este em que o movimento se estruturou como instância política e pedagógica da qual
objetivava erradicar o analfabetismo. O MOBRAL tinha como meta erradicar o analfabetismo em dez
anos de atuação já que o índice de analfabetismo da população se encontrava elevado. Dentre as fontes
deste estudo, são privilegiados o referencial teórico específico, os documentos oficiais, a história oral, os
anuários do IBGE de 1970 e 1980, os manuais pedagógicos e a imprensa local. O MOBRAL foi uma das
expressões político-educacionais do período da ditadura militar e a concepção, que o informava,
compreendia a educação como qualificação de mão de obra, e visava integrar a massa de analfabetos ao
processo capitalista. O MOBRAL foi um projeto de caráter ideológico-político, embora pretendesse ser
alfabetizador. Nesse sentido, pouco privilegiou os interesses democráticos em favor de uma parcela
significativa, a dos analfabetos. O MOBRAL em Patos de Minas não alcançou o objetivo central o de
erradicar o analfabetismo de adultos até 1980, pois os dados do IBGE mostram que neste período ainda
havia cerca de 23,7% de homens e 25,8% de mulheres sem escolaridade, índice este, considerado
elevado diante do discurso desenvolvido no decorrer da década de 1970 por este movimento. A análise
documental monstrau que a atuação do MOBRAL em Patos de Minas não foi eficaz no combate ao
analfabetismo e que o seu discurso oficial não condiz com as suas ações em termos práticos. Sua
proposta de educação era baseada nos interesses políticos do regime militar, por isso era necessário o
jogo ideológico, do qual pregava-se o discurso de que seus alunos saiam capacitados para o mercado de
trabalho, o que propiciaria a estes melhor qualidade de vida, além de prepará-los para o exercício da
cidadania. No entanto, sabe-se que dificilmente haveria a melhoria na renda da população carente, uma
vez que o modelo de desenvolvimento era excludente e concentrador de renda. O MOBRAL, partiu de
uma visão de mundo predeterminada, uma vez que seus objetivos eram previamente definidos não
dando oportunidade a população para discutir o caminho mais viável para executar o projeto.

1018
EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS: MEB E MOBRAL NO PERÍODO DO REGIME MILITAR EM TEFÉ/AM
(1968-1975).

132
1 2
LENI RODRIGUES COELHO ; FABRÍCIO VALENTIM DA SILVA .
1.UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS, TEFE - AM - BRASIL; 2.UNIVERSIDADE FEDERAL DO
AMAZONAS, ITACOATIARA - AM - BRASIL.

O trabalho refere-se ao Movimento de Educação de Base (MEB)e o Movimento Brasileiro de


Alfabetização (MOBRAL) no município de Tefé/AM, sendo fruto dos resultados obtidos em pesquisa de
iniciação científica realizada entre julho de 2009 e julho de 2010. O tema é relevante como estudo
cinentífico, uma vez que tem a pretensão de minimizar as lacunas educacionais em âmbito regional e
local. Diante disso, surgiu a necessidade de compreender e analisar as ações pedagógicas dos
movimentos MEB E MOBRAL no período do regime militar, como também suas influências em Tefé
entre os anos de 1968 e 1975, já que neste período se desenvolveram com propósitos políticos,
pedagógicos e ideológicos distintos entre si. O MEB em Tefé foi instalado em 1964 com o intuito de
prestar serviços à população ribeirinha que se encontrava esquecida, bem como orientar e conscientizar
os indivíduos menos favorecidos do seu valor como ser humano. O MOBRAL em Tefé foi criado em
1976, através de comissões municipais com o objetivo de alfabetizar jovens e adultos que não tiveram
oportunidade de concluir seus estudos na idade própria. Acreditava que o indivíduo analfabeto
necessitava apenas das técnicas da leitura e da escrita para se capacitar para o mercado de trabalho. A
pesquisa foi fundamentada através de referencial teórico específico, documentos oficiais e história oral.
Diante da análise documental verificou-se que os movimentos enfrentaram dificuldades em comum,
como por exemplo: a falta de formação específica dos professores para lecionar, as comunidades mais
distantes eram desprovidas de escolas e energia elétrica, sendo o professor obrigado a lecionar em sua
residência que se encontrava em situação precária, a distância entre uma comunidade e outra, a
gratificação irrisória dos monitores do MEB, e a falta de pagamento aos do MOBRAL. Quanto aos alunos
percebeu-se dificuldades tais como: o trabalho pesado na agricultura, a fome, e a idade avançada
gerando assim um alto índice de evasão escolar. Apesar dos movimentos pregarem discursos com
princípios e métodos diferentes acerca da educação de adultos verificou-se que no período da ditadura
o MEB teve que redefinir suas ações pedagógicas para sobreviver ao golpe militar. Portanto neste
período os movimentos trabalharam juntos na alfabetização dos adultos, uma vez que estes
mantiveram convênios, sendo o MEB responsável pela educação funcional e o MOBRAL pelo pagamento
do salário dos monitores e a manutenção de materiais didáticos pedagógicos.

1330
EDUCAÇÃO DO CAMPO E MOVIMENTOS SOCIAIS

RAMOFLY BICALHO SANTOS.


UFRRJ, SEROPÉDICA - RJ - BRASIL.

É fundamental conhecermos os princípios desenvolvidos pelos movimentos sociais no que toca à luta
Por Uma Educação do Campo. Suas bandeiras, projetos, perspectivas e utopias. A formação política dos
trabalhadores e a valorização da consciência social são alguns dos desafios. Nesse sentido, a produção
do conhecimento pode ressignificar memórias, identidades e histórias vividas pelos sujeitos que se
articulam para superar a opressão e as diversas cercas do analfabetismo, da fome e a falta de projetos
emancipadores para/com o homem e a mulher do campo. Essa formação política, contextualizada
historicamente, pode contribuir para a reconstrução do passado, escavando memórias e
acontecimentos, recuperando documentos, fontes primárias e produzindo histórias críticas e contra-
hegemônicas. A produção do saber construído em parceria com os educandos/as, educadores/as, pais e
todos aqueles que, direta ou indiretamente, fazem parte dos movimentos sociais que lutam por suas
histórias, valores e reconhecimento, pode ser ressignificada, incentivando a implementação das
Diretrizes Operacionais Por Uma Educação do Campo. Essas experiências podem contribuir para a
gestação de embriões de democratização, socialização de poder, superação dos desafios, afirmação de
identidades e seres humanos preocupados com o fortalecimento do coletivo. Existe hoje nos espaços
formais e informais da produção do conhecimento, uma urgente necessidade de intervenção, com
reflexões que tenham por meta problematizar as dificuldades que possam ser apresentadas quanto às
questões teórico-metodológicas da educação do campo, na perspectiva crítica, dialógica e histórica. Essa
é uma pesquisa inicial financiada pela FAPERJ – Fundo de Apoio à Pesquisa no Estado do Rio de Janeiro,

133
com os seguintes objetivos: Conhecer o histórico da educação do campo no Brasil, compreendendo suas
possibilidades e limites de formação dos atores políticos que protagonizam os movimentos sociais;
Contribuir para a formação docente no contexto da educação do campo: o papel do educador na
seleção e organização dos conteúdos e os recursos didáticos utilizados; Conhecer experiências e práticas
de educação do campo desenvolvida pelos movimentos sociais no Brasil, dentre eles, o MST; Verificar
como se dão os processos de ressignificação dos novos caminhos do ensino e da pesquisa em Educação
do Campo e o desenvolvimento de práticas pedagógicas libertadoras no fazer em sala de aula. A
metodologia levará em consideração o percurso de um trabalho que se concretizará através do
levantamento de fontes, da análise crítica da documentação existente, de visitas às escolas públicas,
universidades, secretarias de educação e bibliotecas. Os diversos atores da sociedade civil – igrejas,
partidos, movimentos sociais e sindicatos dialogaram com a metodologia da história oral, num estreito
contato com os projetos de Educação do Campo. Assim, o eixo temático que nos propomos para essa
comunicação é Etnias e Movimentos Sociais.

1299
EDUCAÇÃO E DIVERSIDADE ÉTNICO-RACIAL: A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE ENTRE
AFRODESCENDENTES E DESCENDENTES DE ALEMÃES EM SÃO PEDRO DE ALCÂNTARA/SC

CINTIA TULER SILVA.


UFSC, FLORIANÓPOLIS - SC - BRASIL.

Este trabalho é parte de uma pesquisa que vem sendo desenvolvida junto ao Programa de Pós-
Graduação em Educação, nível de Mestrado, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), sob o
título “Negros em São Pedro de Alcântara (SC): os processos educativos e a formação da identidade de
afrodescendentes na segunda metade do século XX”. Comesta pesquisa objetiva-se analisar como os
processos educacionais, desenvolvidos no município de São Pedro de Alcântara, contribuíram (ou não)
para a construção da identidade étnico-cultural da população de origem africana, haja vista São Pedro
de Alcântara ser um município fundado por alemães e ter a predominância de seus descendentes até a
atualidade. Neste trabalho, tomou-se a memória como principal aporte teórico-metodológico. Ou seja,
por meio das falas/memórias, busca-se compreender como se deu a construção dos espaços de
sociabilidades, das questões identitárias, de gênero, os conflitos interétnicos, enfim, o conjunto de
representações acerca da pluralidade cultural. A educação escolar transmite a cultura, assim, algumas
vezes se reserva o direito de dizer o que é cultura e o que deve ser estudado. As definições de cultura e
sua aplicação ao conhecimento ficam dificultadas pelas ideologias que cercam o assunto. No trato dado
ao universal desaparecem as especificidades, ficam as categorias gerais, que fundamentam o
etnocentrismo. A cultura costuma ser percebida pela educação, de um modo geral como aquilo que
temos a capacidade de registrar e compreender. Uma maneira de superar esta postura é o relativismo
cultural. As relações estabelecidas dentro e fora do ambiente escolar influenciam no processo de
construção de identidades e na representação que esses indivíduos tem de si mesmos. Afinal, as
trajetórias sociais e educacionais da população afrodescendente e da população imigrante alemã foram
afetadas pelas condições materiais de ingresso dos dois grupos e pelas oportunidades efetivamente
oferecidas a um e a outro de conservar e vivenciar as suas referências culturais e religiosas. É
importante perceber como se estabeleceram as relações e a participação destes diferentes grupos
étnicos na construção das propostas curriculares das escolas. Buscando compreender a dinâmica das
relações multiétnicas no âmbito do cotidiano escolar, e a implicação destas na formação das
identidades, serão consultados os gestores dos processos educativos do município de São Pedro de
Alcântara, os educadores e os estudantes. A etnografia também marca a construção de sentidos neste
trabalho. Entendendo que a compreensão é também uma interpretação, o reavivamento da memória
contribui para a compreensão da realidade historicamente construída.Esta pesquisa pode representar
uma ferramenta na proposição de uma educação que promova o respeito mútuo e o reconhecimento e
valorização das diferenças.
603
EDUCAÇÃO FAMILIAR: OS VALORES TRANSMITIDOS PARA AS CRIANÇAS REMANESCENTES INDÍGENAS
DA COMUNIDADE DE ALDEINHA DE MISSÃO DO SAHY, BAHIA

134
1 2 3
MARIA GLORIA DA PAZ ; TATIANE PATRICIA DA S. SANTOS ; VALÉRIA MACEDO GONÇALVES .
1.UNIVERSDADE DO ESTADO DA BAHIA - UNEB, SENHOR DO BONFIM - BA - BRASIL; 2.UNIVERSIDADE DO
ESTADO DA BAHIA, SENHOR DO BONFIM - BA - BRASIL; 3.UNVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA, SENHOR
DO BONFIM - BA - BRASIL.

O presente estudo tem por objetivo investigar como é que são transmitidos os valores culturais pelos
familiares das crianças remanescentes indígenas da comunidade da Aldeinha de Missão do Sahy. Sabe-
se que muitas histórias sobre índios são contadas e vão desde as transmitidas em livros didáticos até as
contadas por pessoas comuns e todas elas têm em comum a mesma premissa: a tentativa de retratar a
cultura desses povos; o que se torna algo de grande complexidade, em virtude de serem vários grupos e
cada um deles ter vivências diferenciadas. Boa parte dessas história, contadas nos livros didáticos e nos
romances de Literatura Brasileira, mostram o índio belo, sedutor, com penachos, de tanguinhas,
cultuando seus deuses, sempre arredios, ignorantes, fazendo a dança da chuva e emitindo sons de
uhuhuh, como no cinema americano. A Missão de Senhora dasNeves do Sahy, situada no Município de
Senhor do Bonfim, no Território do Piemonte Norte do Itapicuru; foi instalada por volta de 1697 ao sopé
do monte Tabor, pelos Padres Franciscanos da Ordem Menor. Atualmente é uma comunidade
remanescente com uma população aproximada de 3.000 habitantes, possui um núcleo comunitário
conhecido como Aldeinha ou Tribo; este local concentra em torno de 10 famílias, todos parentes, que
tem como principal fonte de renda o artesanato de cipó. O trabalho artesanal desse povo é passado de
geração em geração, tanto os adultos como as crianças e jovenstrabalham nesse processo. Os
matrimônios geralmente acontecem entre os próprios primos, para que não se percam os laços
sanguíneos e caso aconteça de um membro do grupo casar-se comuma pessoa de outra familia,deverá
residir em outro espaço, fora da Aldeinha. Com base nessa argumentação, nos surgem alguns
questionamentos: quem é o remanescente indígena da Aldeinha? Como é que são transmitidos os
valores culturaispara ogrupo?Como é a atuação da família da Aldeinha no processo de transmissão e
preservação dos valores? Como é que se dá essa transmissão para as crianças remanescentesda
Aldeinha em Missão do Sahy?

1215
EDUCAÇÃO INDÍGENA PARA O TRABALHO (1860 – 1889)

ADRIANE PESOVENTO PESOVENTO; NICANOR PALHARES.


UFMT, CUIABÁ - MT - BRASIL.

Estuda-se a educação indígena voltada para o trabalho, pratica comum entre os anos de 1860 e 1889. O
recorte temporal justifica-se devido à recorrência desse modelo no período, assim como a difusão de
argumentos em torno da necessidade de preparar os diversos grupos indígenas para o mundo do
trabalho na perspectiva ocidental, diante do que é entendido como nascimento da “modernidade” em
Mato Grosso. Para problematização do tema pesquisado foram discutidas as expressões "civilização e
barbárie", termos recorrentes nos documentos consultados e que naquele contexto estavam
relacionados a possibilidade de incorporação dos indígenas aos anseios da sociedade provincial. Entre os
autores que fundamentaram a pesquisa destaca-se Hayden White que desconstrói e reconstrói os
conceitos de civilização e barbárie, o autor faz uma discussão profunda sobre a origem histórica das
expressões, o que foi muito útil para compreender o seu aparecimento nos discursos que tratam da
educação indígena. A perspectiva teórica de Roger Chartier que tem suas reflexões pautadas na
perspectiva da história cultural, assim como Francisco Falcon que trabalha na mesma linha da
perspectiva cultural permitiram compreender a articulação entre práticas e representações. A pesquisa
tomou como base dados empíricos coletados junto ao acervo do Arquivo Público do Estado de Mato
Grosso (APMT) e também ao Núcleo Regional de Documentação Histórica (NDHIR). Entre as fontes
consultadas destaque para os relatórios dos presidentes de província, dos chefes de polícia, do
ministério da agricultura, jornais, correspondências avulsas, correspondências da Diretoria Geral dos
Índios, entre outras. No decorrer da investigação foi possível constatar que mais do que instruir nas
primeiras letras, era necessário civilizar os índios, para tanto nada mais eficiente do que conformá-los ao
mundo do trabalho desde a infância. A educação seria a aliada mais fiel aos propósitos desejados. Na

135
tentativa de disciplinar os índios primeiro vinha a instrução voltada para aprendizagem de ofícios ou
para o desempenho de atividades domésticas, junto a isso, a catequese e num segundo momento as
tentativas de inserção dos mesmos na lógica produtiva do capital que nascia naquele contexto em Mato
Grosso. O trabalho apresentado insere-se nas discussões que vem sendo realizadas pelo Grupo de
Pesquisa Educação História e Memória (GEM) do Instituto de Educação (IE) da Universidade Federal de
Mato Grosso.

978
ESCOLARIZAÇÃO E MIGRANTES NORDESTINOS NO TRIÂNGULO MINEIRO (ITUIUTABA: 1950-1960)

SAULOÉBER TARSIO DE SOUZA; DAIANE DE LIMA SOARES SILVEIRA.


UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA, ITUIUTABA - MG - BRASIL.

A presente comunicação é resultado parcial do projeto “Das Alagoas às Gerais: Migrantes Nordestinos e
Escolarização no Pontal do Triângulo Mineiro (anos 1950 a 2000)” que tem como objetivo central
estudar os fluxos migratórios nordestinos para o município de Ituiutaba e seus reflexos no sistema de
ensino. Entendemos os deslocamentos populacionais como fenômenos que afetam regiões por todo o
mundo, sejam na condição de geradoras ou receptoras de migrantes (DEMARTINI, 2008). Desde os anos
de 1950, a cidade tem recebido nordestinos que, no princípio, vinham dos estados do Rio Grande do
Norte e da Paraíba. Esses fluxos foram motivados pelo ciclo econômico baseado na cultura de grãos
(arroz, milho, etc), e os nordestinos que aqui chegavam, buscavam as “oportunidades ilimitadas” no
novo “Eldorado Brasileiro” (nos anos de 1950, Ituiutaba foi denominada “Capital do Arroz”, em duas
décadas sua população aumentou em mais de 40%). Posteriormente, o fluxo de alagoanos tornou-se
predominante, de maneira que ainda hoje, todos aqueles que carregam o sotaque do Nordeste são
classificados como “os alagoanos”, população marginalizada a partir de critério cultural, constituindo-se
em massa indistinta diante da população. Pertencer ao grupo de migrantes nordestinos significou (e
significa) portar elemento de diferenciação social o que implica perceber-se como tal e se reorganizar na
vida comunitária. Assim, nossa proposta é apresentar resultados parciais da investigação sobre as
práticas sociais advindas do processo de reconfiguração desses sujeitos nos novos espaços, em especial,
nas escolas onde alguns deles se inseriram. Como as instituições escolares lidavam com o fenômeno do
migrante? Qual a relação estabelecida entre mineiros e nordestinos no interior da sala de aula? Que
estratégias os migrantes construíam para lidar com o preconceito e a exclusão nesses espaços
institucionais? Essas são algumas das questões que procuramos responder com o objetivo de melhor
visualizar a inserção desse grupo na dinâmica social local. Portanto, nosso esforço é no sentido de se
desvendar as especificidades e problemas que acompanham esses deslocamentos de nordestinos,
especificamente, no que tange ao acesso e permanecia desses indivíduos nas escolas. Compreender o
étnico como elemento fundante da dinâmica social implica no reconhecimento da multiplicidade de
culturas vivenciadas no mundo contemporâneo, o que é fonte de interações e confrontos refletidos no
processo educacional, de forma que também a educação é fenômeno etnicizado (KREUTZ, 1998). Nesse
trabalho, utilizamos o recurso a história oral, as fontes impressas (jornais, cadernos escolares, etc.) e
iconográficas.

394
ESCRAVIDÃO E EDUCAÇÃO: O PENSAMENTO DA ELITE INTELECTUAL E DIRIGENTE NA PROVÍNCIA DO
ESPÍRITO SANTO (1869-1889)

ALDAIRES SOUTO FRANÇA.


SEDU/PPGE/CE/UFES, VITORIA - ES - BRASIL.

136
Esta comunicação tem como objetivo apresentar algumas questões que foram problematizadas na
investigação que realizei no decorrer do Mestrado (PPGE/CE/UFES, 2004 - 2006) – Uma educação
imperfeita para uma liberdade imperfeita: escravidão e educação no Espírito Santo (1869-1889).
Procuro imergir nessas questões da seguinte forma: no primeiro tópico apresento as grandes tensões –
trabalho (escravidão e imigração), modernização e educação que se entrelaçavam no pensamento e nas
ações da elite intelectual e dirigente da Província do Espírito com o aos ideais de “civilização” e de
“modernização” proclamados pelo Império, principalmente ao que se refere à educação dos
trabalhadores negros escravizados, livres e libertos, nas últimas décadas do século XIX (1869-1989).
Evidencio as transformações sociais, econômicas, políticas e culturais no Império e na Província do
Espírito Santo no decorrer das últimas décadas do século XIX. Trata-se de adentrar não só no contexto
socioeconômico e cultural da Província do Espírito Santo nas últimas décadas do século XIX, mas
também vislumbrar alguns detalhes do cotidiano sociocultural vivenciado pelos trabalhadores negros
escravizados, livres e libertos. Por fim estabeleço um percurso sobre as representações da elite
intelectual e dirigente em relação à educação dos trabalhadores negros, ou seja, trata-se de
compreender essas representações da elite sob uma ordem de submissão e de controle social. Isso não
aconteceu de forma pacífica e nem consensual, mas sob uma tensão, pois a legitimação de uma
identidade passou pela desqualificação de outras. Este trabalho fundamenta-se no campo da
historiografia da História da Educação com uma proposta de abordagem ancorada na História Cultura. A
investigação baseou-se em fontes impressas, especificamente a imprensa espírito-santense, e no
cruzamento com outras fontes documentais correspondentes ao período, tais como: leis provinciais,
regulamentos, relatórios de presidentes da Província, jornais de outras províncias e da Corte, e Anais
das Assembléias Legislativas, disponibilizadas no Arquivo Estadual do Espírito Santo (APEES), no Arquivo
da Cúria Diocesana e no Arquivo da Assembléia Legislativa. Além disso, foram consideradas outras
fontes bibliográficas específicas sobre a Província do Espírito Santo neste período, como, por exemplo,
Basílio Carvalho Daemon (1879), Amâncio Pereira (1914), Maria Stela de Novaes (1963 e 1964),
Primitivo Moacyr (1940), Serafim Derenzi (1965) e José Teixeira Oliveira (1975). Também foram de suma
importância os relatos e imagens de Jean-Baptiste Debret (1978), as fotografias de George Ermakoff
(2004) e os relatos de Saint-Hilaire (1974). Observei que a educação oferecida aos trabalhadores negros
escravizados, livres e libertos era imperfeita.

605
ETNIA E SOCIALIZACAO NO CONGADO: MEMORIA E IDENTIDADE AFRO-DESCENDENTES
1 2
ADEREMI MATHEUS JACOB FREITAS CAETANO ; ANGELA MARIA GARCIA .
1.UFV, VIÇOSA - MG - BRASIL; 2.COLÉGIO DE APLICAÇÃO DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE VIÇOSA -
COLUNI, VICOSA - MG - BRASIL.

A análise enfoca o processo de socialização da infância, entendo-o como aprendizagem da cultura de


um grupo afro-descendente. A partir das vivências junto a um grupo de congado da Zona da Mata
Mineira (Minas Gerais) percebemos que processo de socialização da infância é fundado em práticas
implementadas pelos congos nos ensaios, apresentações, nas relações familiares e de vizinhanças,
atualizando princípios que remontam à fundação do grupo, datada de 1888. Focamos duas
temporalidades: aquela referente à infância dos informantes, quando inseridos em práticas
direcionadas para torná-los congos; e a atual, quando assumem a posição de socializadores. O período
enfocado nos relatos remonta às décadas de 1940 e 1950. A fonte privilegiada – os relatos orais dos
congos mais velhos, que são “a memória da sociedade” – propiciou informações sobre o processo de
socialização que vivenciaram. Definidos como agentes socializadores, os velhos congos intervêm no
processo de socialização, viabilizando a interiorização ativa dos princípios que delineiam a forma
identitária do ser congo a um maior número possível de crianças, possibilitando que estas, ao se
tornarem adultos, sejam, por sua vez, socializadores, atualizando o trajeto que realizaram. Utilizamos a
história oral de vida, por possibilitar a análise do fato histórico a partir de um novo olhar e de novas
fontes. Optamos por realizar as entrevistas nas casas dos congos e nos locais de ensaios, gravando-as
com o intuito de apreender a lógica presente nesses relatos. A forma identitária do ser congo funda-se

137
em práticas recorrentes de transmissão de saberes, as quais estão sob responsabilidade dos congos
mais velhos. A recorrência das passagens que remontam à infância deles e a importância que
direcionam para a formação dos mais novos definem o lugar social que a infância ocupa no grupo. A
valorização da oralidade dos mais velhos, da trajetória de vida e da sabedoria de que são portadores são
suportes do processo de socialização da criança no congado e pode ser configurado como um dos
recursos locais na formação escolar. Definido o processo de socialização como “construção de um
mundo vivido”, situado ao longo da existência e ligado às diversas atividades, as instituições
educacionais podem contribuir para potencializar as “formas identitárias” suportadas pela memória e
práticas dos grupos. Para tanto o seu projeto político pedagógico deve incorporar aspectos importantes
para a formação cultural da criança, reconhecendo a diversidade presente.

572
FAMÍLIAS NEGRAS COM CRIANÇAS NAS ESCOLAS DE MINAS GERAIS, NOS ANOS DE 1830

MARCUS VINÍCIUS FONSECA.


UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO, BELO HORIZONTE - MG - BRASIL.

Este trabalho é parte de uma pesquisa que se encontra em andamento e tem como objetivo especificar
as relações entre a população negra e as escolas de Minas Gerais, no século XIX. Consideramos que o
período que compreende os anos de 1820 a 1850, representa a estruturação de uma política de
instrução pública com objetivo de educar o povo da província de Minas Gerais. Desta forma, este artigo
procura analisar o nível de relação entre esse processo e o segmento mais expressivo dentro da
estrutura demográfica de Minas, ou seja, a população negra de condição livre. Para realizar a análise
utilizamos como referência uma documentação que se refere a duas tentativas de contabilizar a
população dos distritos mineiros em diferentes momentos, 1831 e 1838. Os documentos relativos a
estes dois censos estão organizados através de listas nominativas de habitantes que foram elaboradas a
partir dos domicílios, através do preenchimento dos seguintes campos: nome de cada um dos
moradores, qualidade (raça, grupo étnico ou país de origem), condição (livre ou escravo), idade de cada
membro, estado civil e ocupação (atividade ou profissão). No campo que se refere à ocupação algumas
listas registraram as crianças que estavam nas escolas, com destaque para o distrito de Cachoeira do
Campo onde encontramos indivíduos em processo de escolarização nas listas de 1831 e 1838. Por se
tratar de uma das poucas listas em que estes dados se repetem nas duas séries documentais utilizamos
os dados deste distrito para analisar algumas características dos domicílios nos quais estavam inseridas
as crianças que foram registradas nas escolas, com destaque para uma distinção entre o perfil dos
domicílios dos alunos da instrução elementar e dos estudantes do secundário. O contraponto entre
estes dois segmentos do ensino revela que havia uma inversão no perfil racial e econômico destas
unidades de moradia, ou seja, enquanto aqueles que estavam no nível elementar eram marcados por
uma presença majoritária de negros livres oriundos dos extratos menos favorecidos economicamente,
os alunos do secundário eram caracterizados por um predomínio de estudantes brancos que pertenciam
aos grupos mais abastados. A partir da caracterização dos grupos presentes nas escolas e do perfil
diferenciado do ensino elementar e do secundário procuramos apresentar algumas considerações sobre
a importância da escolarização para os negros livres de Minas Gerais destacando a forma como os
membros deste grupo utilizavam a escola para demarcar seu distanciamento do mundo da escravidão.

1051
FAZER-SE DOCENTE NA UERJ: MOVIMENTO E ASSOCIATIVISMO

CARLOS EDUARDO MARTINS DA SILVA.


COLEGIO MUNICIPAL CASTELO BRANCO/SME, SÃO GONÇALO - RJ - BRASIL.

138
Nesse trabalho, pretendemos problematizar a experiência constitutiva dos docentes da Universidade do
Estado do Rio de Janeiro enquanto categoria sócio-histórica, colaborando para a compreensão da
construção da identidade dessa categoria social nos quadros da universidade no período de
redemocratização da sociedade brasileira. Pretende-se, ainda, investigar a relação entre o processo de
construção da entidade representativa dos docentes com a própria constituição identitária da categoria
docente da UERJ, no período final da década de 70 e início da década de 80, do século XX. Portanto,
entre o período das primeiras reuniões clandestinas (1977) até a consolidação da Asduerj como
entidade representativa (1985). Entrelaçamos as fundamentais contribuições do historiador inglês E. P.
Thompson, as reflexões de Hobsbawm e F. Dosse e o trabalho sobre a origem e gênese da UERJ
realizado por Deise Mancebo (1996), bem como com os depoimentos dos entrevistados/pesquisados.
Buscamos pontuar em nosso trabalho um movimento permanente entre empiria e teoria na produção
do conhecimento histórico. Assim, encontramos na história oral um caminho fértil no campo
historiográfico, que a partir da escola dos Annales, com a introdução de novos objetos, abordagens e
problemas, ressignificando-os, propôs a emergência de fontes alternativas ao documento escrito com a
revalorização do depoimento oral e das imagens. Buscamos um conceito de história que promova uma
ruptura com a dimensão linear e cronológica e caminhamos no sentido do tempo do agora, um tempo
múltiplo, em que o olhar para o passado constitua uma oportunidade de experiência do historiador com
esse passado, possibilitando o conhecimento do presente e construções de projetos futuros. Trazemos
algumas conclusões provisórias que nos apontam perspectivas e possibilidades de lançar novas
propostas investigativas, visto ser a UERJ um campo pouco pesquisado. Nesse sentido, Fazer-se docente,
desejosos por construírem uma universidade, marcada pela autonomia, democracia e associação entre
ensino, pesquisa e extensão, e não mais, “simples professores-horistas”, contrapondo-se ao projeto da
velha UERJ que valorizava, basicamente, o ensino, com uma estrutura de poder centralizada e nesse
processo de se constituirem docentes, na experiência e na ação coletiva, um processo ativo que se deve
tanto à ação humana como aos seus condicionamentos sociais, constroem-se e reconstroem-se em
movimento e nesse movimento é consolidada a Asduerj, uma entidade que possibilitaria instituir uma
universidade de fato.

754
HAVIA UMA ESCOLA NO MEIO DO CAMINHO...

FLÁVIO JOSÉ DE OLIVEIRA SILVA.


UFRN, PARNAMIRIM - RN - BRASIL.

O trabalho proposto é resultado de uma investigação realizada com populações nômades no interior do
RN, mais precisamente com um grupo de Ciganos da etnia Calon, com o objetivo de diagnosticar o
interesse pragmático dos Ciganos com relação a escola sistemantizada. O trabalho de pesquisa
aconteceu na cidade de Florânia, território do Seridó Potiguar, tendo como locus a Escola Municipal
Domingas Francelina das Neves, situada na Praça Calon do Bairro Rainha do Prado. O trabalho tem
como base conceitual as categorias de História e Memória, destacando no campo metodológico, teorias
assinaladas por expoentes da Nova História Cultural e pelos teóricos da categoria Memória, e contou-se
com diversos recursos da pesquisa como: Técnicas de pesquisa de Campo e a Técnica de observação
participante. O trabalho de garimpagem nos “arquivos” – as memórias do grupo foram realizadas numa
abordagem metodológica baseada na História Oral e os novos pressupostos que esta vertente
proporciona. A escassez de bibliografias ou até mesmo de pesquisas científicas sobre o povo cigano já
pode ser considerada vencida pela internet, informações na área de sociologia e antropologia, que
abordam os aspectos étnicos e culturais desse povo, que por não ter uma cultura letrada, não teve sua
história escrita e divulgada. A pesquisa aqui apresentada resultou na elaboração de um trabalho
monográfico intitulado: Sem lenço e sem documento: em que escola estudar? Este trabalho
proporcionou discussões sobre o papel da Escola como instrumento de inclusão social de grupos
minoritários ou marginalizados e de etnias sem poder; a formação de grupo de estudo na Escola
Municipal Domingas Francelina para buscar a compreensão de convivências com os diferentes sujeitos e
a diversidade; currículos e cultura escolar, além de fomentar entendimentos sobre a necessidade de
formulação de políticas afirmativas no município, tendo como ponto de partida as práticas sociais e o

139
cotidiano da escola. No trabalho de pesquisa concluimos que os Ciganos do Grupo Calon que aportaram
na cidade de Florânia e matricularam seus filhos na Escola Municipal Domingas Francelina das Neves em
busca do conhecimento sistematizado historicamente para o acesso aos meios de comunicação, serviços
e bens materiais de pleno usufruto dos não ciganos, como a conta bancária, o talonário de cheques, o
cartão de Crédito; o manuseio do telefone celular, a carteira de habilitação, os documentos necessários
à cidadania, enfim, aos bens materiais produzidos na sociedade.

645
HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO DA POPULAÇÃO NEGRA NO BRASIL: BALANÇO PRELIMINAR

SURYA AARONOVICH POMBO DE BARROS.


UFPB, JOAO PESSOA - PB - BRASIL.

O fortalecimento da História da Educação Brasileira, ocorrido no Brasil nas últimas décadas, trouxe
profundas transformações ao campo. Dentre elas, podemos destacar a emergência de diferentes
sujeitos históricos analisados no que se refere ao acesso (ou não) à cultura escolar. Assim, “vários
sujeitos da educação vêm sendo valorizados em suas ações cotidianas, o que se explicita no aumento de
interesse pelas trajetórias de vida e profissão e no engajamento que observa em análises organizadas
em torno de questões de gênero, raça e geração” (FARIA FILHO, GONÇALVES, VIDAL, PAULLILO, 2004, p.
141). Nesse contexto, trabalhos relacionando população negra e educação pelo viés da história da
educação começaram a vir a lume, como SILVA (2000), BARROS (2005), FONSECA (2002 E 2009). Ainda
que de maneira pouco sistemática no início, essa temática vem se fortalecendo, como é possível
constatar na existência de trabalhos de pós-graduação, publicações científicas e eixos temáticos em
eventos da área. O incremento dessas pesquisas reflete a força que tais questões vêm ganhando na
sociedade brasileira, extrapolando, inclusive, os limites acadêmicos. Tal aumento das pesquisas sobre a
participação da população negra no processo de institucionalização da educação no Brasil, no entanto,
faz parte da história recente da pesquisa acadêmica brasileira. A relevância do tema para diversas áreas
de conhecimento apontou para a necessidade de se realizar um balanço historiográfico acerca do tema,
compartilhando as preocupações de FERREIRA (2002, p. 259) de “sustentados e movidos pelo desafio de
conhecer o já construído e produzido para depois buscar o que ainda não foi feito, de dedicar cada vez
mais atenção a um número considerável de pesquisas realizadas de difícil acesso, de dar conta de
determinado saber que se avoluma cada vez mais rapidamente e de divulga-lo para a sociedade (...)”.
Neste trabalho, pretendemos apresentar um balanço preliminar sobre a História da Educação da
população negra no Brasil, resultado de pesquisa em andamento, assim como problematizar algumas
questões referentes a essa área. Após justificar a importância do tema e a metodologia que vem sendo
utilizada, apresentaremos alguns resultados parciais da pesquisa. A investigação aqui referenciada vem
realizando um levantamento bibliográfico em anais de congressos, revistas da área, bancos de teses e
dissertações, em busca de trabalhos identificados como da área da História da Educação Brasileira que
têm como sujeitos da educação a população negra, em diversos períodos históricos e regiões brasileiras.
Ao realizar tal empresa e divulgá-la, pretendemos evidenciar as pesquisas já realizadas sobre o tema,
facilitar o acesso de interessados na área aos trabalhos e apontar eventuais lacunas sobre a história da
educação da população negra, contribuindo para o fortalecimento da área.

571
HISTÓRIAS CONTADAS, MEMÓRIAS REVELADAS: O COTIDIANO ESCOLAR EM DUAS COLÔNIAS
ITALIANAS NARRADO POR ANTIGOS ALUNOS

ELIANE MIMESSE PRADO; ELAINE CÁTIA FALCADE MASCHIO.


UNIVERSIDADE TUIUTI DO PARANÁ, CURITIBA - PR - BRASIL.

140
Este estudo prevê a análise do cotidiano escolar de algumas das escolas primárias criadas nos núcleos
coloniais de imigrantes pela iniciativa do governo e pelo esforço dos próprios moradores, em fins do
século XIX e início do XX. Tratam-se das escolas situadas nas antigas colônias de italianos, provenientes
da região do Vêneto, São Caetano e Alfredo Chaves, respectivamente localizadas no atual Estado de São
Paulo e do Paraná. Buscou-se, através da metodologia da História Oral, recompor os detalhes diários e
as experiências escolares vivenciadas nestas escolas pelos antigos alunos. Elegeram-se apenas os
indivíduos filhos de imigrantes italianos residentes nestas ex-colônias, portanto descendentes dos
primeiros imigrantes nelas instalados. Na cidade de São Caetano do Sul foi possível entrevistar quinze
pessoas, no ano de 1995 após a criação do Projeto denominado “História de Vida dos antigos
moradores”. Esse projeto foi liderado por um grupo de pesquisadores da Fundação Pró-Memória da
cidade. Em Colombo, antiga Alfredo Chaves, doze entrevistas foram realizadas entre os anos de 2003 e
2005, pelos membros da Associação Italiana Padre Alberto Casavecchia. Desse modo, a efetivação das
entrevistas foi fundamental para tal intento. As mesmas basearam-se em questionamentos referentes
as lembranças da infância de um modo geral, mas também enfatizaram as relações na comunidade e
nas famílias. Memórias, sentimentos, recordações foram tomados aqui a partir do uso das fontes orais,
as quais foram de grande valia para o desvelar das nuances diárias destes antigos alunos das escolas
coloniais. Os obstáculos enfrentados por esses sujeitos foram demonstrações de coragem nestas novas
searas por eles habitadas. O mesmo pode ser considerado para explicar a participação destes
descendentes no âmbito escolar. Embora atribuíssem à escola as expectativas de melhoria da condição
social, grande parte destes antigos alunos não conseguiu usufruir dos benefícios advindos da
escolarização. Marcados pela dificuldade de acesso ao ensino, pela necessidade inerente do trabalho,
pela dificuldade na aprendizagem do idioma nacional, ou ainda, pela complexidade na transmissão dos
processos pedagógicos das escolas primárias na época; a experiência escolar revelada demonstra
descontentamento desses entrevistados pelo universo escolar. Por outro lado, a freqüência escolar
evidenciava o lugar pleno da infância revelada nas boas lembranças que alguns alunos traziam consigo.
Esta pesquisa tem caráter comparativo e encontra-se em fase de conclusão, visa a inserção no eixo
temático Etnias e Movimentos Sociais.

631
HISTÓRIAS DE FORMAÇÃO DE PROFESSORAS NEGRAS: "NA CASA DE MINHA MÃE", O COMEÇO DE
TUDO...

DULCINEA BENEDICTO PEDRADA.


UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO, VITORIA - ES - BRASIL.

Tudo começa, neste texto, a partir do meu encontro com o livro de Kwame A. Appiah: “Na casa de meu
pai”, de onde me veio inspiração para analisar as narrativas das professoras que compõem o universo da
minha pesquisa no curso de doutorado em educação, em fase de conclusão: “Escutando narrativas e
quebrando silêncios: a ‘desinvisibilização de existências’ em processos de constituição de subjetividades
de professoras negras”. Segundo Appiah (1997, p. 12), a família em que ele, e seus irmãos foram
criados, deu-lhes “um imenso espaço social para crescer.” De uma maneira geral, as famílias das
professoras, pelas suas próprias narrativas, representam esse espaço de crescimento social de que fala
Appiah. E, nesse contexto, as mães exercem um papel fundamental, análogo ao pai africano de Appiah,
só que um papel orientado no sentido de mudar o destino aparentemente traçado para suas filhas,
mulheres negras. Até mesmo na hora da escolha da profissão, as mães representam um papel decisivo
no futuro das suas filhas. A fala da professora, a seguir, exemplifica isso: “Quando eu escolhi o
magistério, eu escolhi o magistério, porque a minha mãe sempre disse que profissão de mulher era ser
professora, e que seria mais fácil pra arranjar emprego e era um caminho mais fácil para que nós
tivéssemos uma formação. Então, minha mãe sempre achou que magistério era o melhor caminho, era
mais fácil para que eu pudesse concluir um segundo grau, e foi assim que se deu a escolha por
magistério na minha vida, por sorte, gostei da profissão”. Trata-se de um trabalho de narrativa,
inspirado no processo de tradução de Boaventura de Sousa Santos e apoiado em Walter Benjamin e
Stuart Hall. Ao eleger a narrativa como estratégia metodológica, este estudo pretende dar uma

141
contribuição à discussão das relações de gênero/etnia, numa perspectiva de superação da dicotomia
que caracteriza essas relações, procurando desvelar o que impediu, no passado, e continua impedindo,
no presente, que os parceiros dessa relação se vejam como tal. Ao mesmo tempo, contribuir para que a
escola possa agir no sentido de reduzir os efeitos da desigualdade, organizando-se para tal finalidade e
capacitando os seus profissionais para garantir o tratamento educativo das diferenças, dentre elas as
diferenças etnicorraciais. Buscamos destacar, neste trabalho, a importância do conhecimento histórico
para o processo de reconhecimento das formas de instituição das desigualdades sociais, bem como sua
influência na construção de alternativas estratégicas de intervenção na continuidade dessas
desigualdades, se acreditamos que elas foram historicamente produzidas e que temos, enquanto
sujeitos históricos, um papel a desempenhar nessa história. E a escola, enquanto instituição
encarregada da socialização dos conhecimentos necessários à formação da cidadania, também tem uma
função decisiva no combate às desigualdades sociais.

419
INVENÇÕES E TRADIÇÕES CULTURAIS NO PANTANAL DE MATO GROSSO DO SUL, BRASIL: A
PEDAGOGIA DE PRESERVAÇÃO DO MEIO AMBIENTE NA PERSPECTIVA DA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO
1 2 3
LÉIA TEIXEIRA LACERDA ; MARIA LEDA PINTO ; MARCIA MARIA DE MEDEIROS ; ONILDA SANCHES
4 5
NINCAO ; PAULO GOULART JUNIOR .
1,2,3,4.UEMS, CAMPO GRANDE - MS - BRASIL; 5.UNIDERSIDADE ANHANGUERA-UNIDERP, CAMPO
GRANDE - MS - BRASIL.

A presente comunicação tem por objetivo apresentar dados do projeto de pesquisa interinstitucional:
Vozes Pantaneiras: O vivido e o narrado nas Histórias de Vida dos Habitantes do Pantanal Sul-mato-
grossense- Preservação e Respeito ao Meio Ambiente. Esta pesquisa tem por finalidade estabelecer uma
inter-relação entre as histórias de vida dos habitantes do Pantanal: a imagem, por eles, discursivamente
construída do espaço onde vivem e atuam, e as campanhas de preservação e respeito ao meio
ambiente. Esses habitantes, vivendo do trabalho nesse espaço formado por áreas úmidas, com
características geográficas e sócio-históricas singulares, constitui-se, histórica e socialmente, por meio
da riqueza lingüística que se concretiza na convivência com outros falantes do português e com os do
espanhol e das línguas indígenas, presentes na interação discursiva do dia-a-dia, resultantes do convívio,
em regime de fronteira aberta, com o Paraguai e a Bolívia. É por meio do uso da língua, aliado a outros
aspectos do contexto histórico e social, que o homem se constitui como sujeito que estabelece vínculos
com outros sujeitos e com outras culturas, construindo dessa forma, a sua história e a sua identidade.
Diante disso, a questão que se coloca é: em que medida se instauram os efeitos de sentido da pedagogia
pantaneira, como metáfora do cotidiano de seus habitantes (indígenas e não-indígenas) na preservação
desse importante bioma para o Planeta? O desafio, portanto, é compreender a inter-relação das
tradições e invenções dos saberes culturais na pedagogia do homem pantaneiro em relação às questões
ambientais, estabelecendo um contraponto com as campanhas de preservação ao meio ambiente
pantaneiro presentes na mídia. As narrativas levantadas, além de se constituir no corpus desta pesquisa,
posteriormente fará parte do acervo do Arquivo da Memória da Palavra do Homem Pantaneiro, sediado
na Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, na Unidade Universitária de Campo Grande. Para
tanto, estão sendo analisadas histórias de vida do homem pantaneiro, numa perspectiva da Análise do
Discurso, da Educação, da Antropologia, da Biologia e da História Cultural. O caráter inovador deste
trabalho consiste em realizar uma análise interdisciplinar do cenário local e global das tradições orais,
dos saberes e dos conhecimentos culturais do homem pantaneiro e das campanhas de preservação ao
meio ambiente idealizadas pelo Governo Federal. Isso permitirá estabelecer um diálogo entre a História
da Educação, a Educação Ambiental e a Cultura da região. Esse material, dada a sua relevância científica
e cultural, deverá ser divulgado nos diferentes cursos de graduação e pós-graduação das Universidades
Brasileiras.

1027
LUTAS POR TERRITORIALIDADE: NA FRONTEIRA DA EDUCAÇÃO INDIGENA

142
ARLETE M. PINHEIRO SCHUBERT PINHEIRO SCHUBERT.
UFES, VILA VELHA - ES – BRASIL

O estudo, ainda em curso, investiga a luta indígena por territorialidade, no Espírito Santo. Considera-se
central nesta pesquisa os conceitos de experiência e narrativa, como refletidos pelo filósofo Walter
Benjamin. Através dessa interlocução pretende-se compreender e descrever o caráter educativo do
acontecimento em pauta, procurando assinalar aspectos distintivos dessa experiência indígena, através
de suas narrativas. Com o propósito de mostrar o caráter mobilizador e re-elaborador das biografias e
identidades-culturais-contemporâneas dos Tupinikim no estado do Espírito Santo, partimos da premissa
que os indígenas pretendem através desses movimentos, intervir na dinâmica permanente de
destruição da sua experiência, e o fazem através das lutas por territorialidade. Portanto, perguntamos
pelo caráter educativo dessas lutas, compreendendo-as como contextos (lócus) educativo de
revitalização identitária-cultural dos indígenas Tupinikim. Propõe-se que os conflitos territoriais
indígenas no ES se inscrevem num espaço de não-controle, de não-disciplinamento, e por isso mesmo
seriam capazes de tornarem-se experiências potencializadoras da transformação de sentidos para
diferentes sujeitos e contextos: desde os sentidos instituindo pelas escolas até os modos de ser-produzir
dos sujeitos envolvidos intra e extra aldeias. Consideramos diferentes noções atravessando as lutas
territoriais e os vários sujeitos nelas envolvidos, o que nos possibilita pensar em sujeitos com diversas
identidades: indígena-do-lugar-tempo, indígena-índio, indígena-não-índio, indígena-com-saberes-locais-
globais,indígena-territorializado-desterritorializado-reterritorializado, indígena rexistente. A luta por
territorialidade, na perspectiva posta nesta pesquisa, é concebida como acontecimento que busca
manter a alteridade indígena, transmitindo às novas gerações os valores da tradição Tupinikim.
Seguindo essa lógica o conflito territorial se constituiria num acontecimento forte e decisivo de
intervenção educativa correspondente às formas tradicionais indígenas de educação. Ou seja: Eles
pretendem contrastar os processos de aprendizagens existentes nas aldeias através das narrativas
contidas nas lutas por territorialidades. A pergunta, então, é pela dimensão educativa do
acontecimento, acreditando que ele se dá em função da percepção desses sujeitos que constatam os
princípios e valores das comunidades fragilizados, o que coloca em risco a sua existência enquanto
indígenas. Consideramos, portanto, a probabilidade de termos sidos confrontados com um modo de
intervenção radical no saber e no aprender das novas gerações, com o propósito de acionar-alimentar
história-memória e identidade indígena, enquanto elementos da tradição em permanente criação e
recriação (elaboração).

384
MEMÓRIA E HISTÓRIA: OS POMERANOS DA SERRA DOS TAPES

CARMO THUM.
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE - FURG, PELOTAS - RS - BRASIL.

A presente comunicação analisa silêncios e reinvenções pomeranas na Serra do Tapes, localizado no sul
do sul do Rio Grande do Sul, em relação a História e a Memória da cultura local. Deriva de processo de
pesquisa de doutorado concluído. As grandes linhas teóricas que se entrecruzam são: Educação, História
e Memória. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, cuja orientação principal, em termos metodológicos, é
a etnografia. Nesse sentido, a coleta de dados foi constituída de forma complexa e plural, passando
pelas técnicas: levantamento bibliográfico, análise documental, participação pesquisante, entrevistas,
conversas informais, rodas de diálogos, produção e análise de fotografias e inventários. Com os
objetivos de analisar as relações constitutivas do modo de ser da cultura local, em especial a cultura
pomerana da Serra dos Tapes, investiguei a cultura material e imaterial, presente nos entornos das
casas e das escolas, na busca de compreender o significado dos seus ritos e modos de ser. A imigração
pomerana no sul do Rio Grande do Sul diferencia-se de modo singular, em relação à dos outros grupos
imigrantes (alemães), em função das conjunturas históricas, constitutivas dos pomeranos e do processo
de isolamento e silenciamentos. O silêncio da cultura pomerana, no bojo da cultura local, se dá sob as
abas do poder: religioso, escolar, do comércio, da linguagem. O mundo patriarcal constrói suas

143
demarcações, no âmbito das relações de gênero e de poder. Ao mesmo tempo em que esse processo de
silenciamento se dá nos espaços públicos (escolas, igrejas, comércio), a vida cotidiana mantém práticas
e reinventa-se, no encontro com as demais culturas locais. A metodologia da Roda de Diálogo
caracteriza-se por ser um momento de interpretação da cultura local, pela sua própria voz, a partir dos
materiais coletados e catalogados. O processo de interpretação das imagens realizado com a
comunidade pesquisada permitiu percorrer a lógica de criação dos sentidos culturais e compreender o
enraizamento dos significados dados aos processos vividos. A cultura do silêncio e os silêncios da cultura
são, ao mesmo tempo, conseqüências do processo de opressão vivido e modos de resistência silenciosa.
O mundo pomerano reinventou-se, na Serra dos Tapes, constituindo-se em um caso específico. Foi
reconfigurado pelas trocas assimétricas, pelas apropriações das lógicas das culturas já presentes nesses
espaços. Compreendo que, muito mais do que cultura pomerana, há uma cultura local, que apresenta
códigos próprios e rituais específicos, capazes de permitir o trânsito das diversas correntes que a
condiciona. Os significados, desse conjunto de daos coletados e analisados apresenta-se, ao
pesquisador, como um grande mosaico do que é a cultura na Serra dos Tapes: plural, polifônica e em
movimento.

786
MEMÓRIA SOCIAL E CULTURA AFRO-BRASILEIRA-TRAJETÓRIAS DOS MOVIMENTOS NEGROS DO
MUNICÍPIO DE SERRA-ES

NELMA GOMES MONTEIRO.


UFES/PPGE/NEAB, VITORIA - ES - BRASIL.

O presente trabalho tem como objetivo analisar e problematizar a trajetória de luta, resistência e
conquistas dos movimentos negros no município da Serra, no Espírito Santo. Em 19 de março de 1849,
há 161 anos, um acontecimento histórico marcou o município de Serra (ES), foi a Revolta de Queimado,
também chamada de Insurreição de Queimado, liderada pelos escravizados Chico Prego, João da Viúva e
Elisiário. Esse acontecimento histórico é comemorado com manifestações culturais como forma de
preservação (reconstrução) da tradição e da memória do povo negro. Assim sendo, a pesquisa pretende
por meio de fontes bibliográficas, orais, história de vida e registros fotográficos levantar dados
qualitativos e quantitativos do que foi a resistência dos Negros de Queimados. A noção de cultura aqui
adotada compreende a definição de todos os bens materiais e imateriais criados e recriados por homens
e mulheres, entre os quais, modos de vida e ações transformadoras da realidade social. Os Movimentos
Negros em nível nacional tiveram suas trajetórias marcadas por resistências, lutas e vitórias. Para os
Movimentos Negros Capixabas não foram diferentes. Foram muitas trajetórias desse segmento social
que marcaram a História da Educação Brasileira. Nos períodos: colonial, imperial e republicano
encontramos indícios das lutas dos negros e não negros em defesa da educação e de sua cultura, como
também, é notória a presença das organizações negras urbanas: Os quilombos, até no final do século
XIX, constituíam formas de agrupamentos rurais autônomos de africanos/as e seus descendentes,
muitos deles não negros que viviam na resistência, organizados para enfrentar o poder hegemônico do
sistema escravista. Entre as entidades negras da época que se destacaram encontramos a Imprensa
Alternativa Negra e a Frente Negra Brasileira (FNB) que juntas assumiram a vanguarda em defesa dos/as
alunos/as negros/as nos bancos escolares. Os Fragmentos de jornais o Clarim d’Alvorada (1925) e do
periódico A Voz da Raça (1933) informavam à população a violação do direito à educação, para o
segmento social negro. Ao fazermos referência à memória estamos ancorados nos estudos voltados
para aspectos da cultura popular, dos saberesfazeres desses segmentos étnicos, por meio da família,
dos hábitos e costumes da comunidade, das tradições religiosas e das diferentes manifestações e
festejos culturais, entre outros. São vivências, que nos remetem à constituição social da memória.
Concluímos que ressignificar a Revolta de Queimado, no município da Serra-ES desvela-se o que tem
sido à força da tradição cultural/histórica para os movimentos negros contemporâneos, por meio de
suas lutas e manifestações culturais, sobretudo o congo constituído no tecido social, como uma das
expressões vivas de resistências, lutas e vitórias da população negra capixaba.

144
973
MEMÓRIAS DO MOVIMENTO ESTUDANTIL TIJUCANO (ITUIUTABA-MG, 1950-1960)
1 2
ISAURA MELO FRANCO ; JENNIFER MARIA PEREIRA MATOS .
1.UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLAÂNDIA/FACIP, ITUIUTABA - MG - BRASIL; 2.UNIVERSIDADE
FEDERAL DE UBERLÂNDIA/FACIP, ITUIUTABA - MG - BRASIL.

O presente trabalho trata-se de parte dos resultados de pesquisa concluída na Universidade Federal de
Uberlândia, Campus do Pontal. Tem como objeto de pesquisa as representações em torno do
movimento estudantil presentes nos jornais da cidade de Ituiutaba, ao longo dos anos de 1950 a 1970,
com o objetivo de desvendar o ideário de estudante/aluno veiculado pela imprensa local no período
analisado, observado a partir de contexto maior em nível de país. Elegemos os jornais como fonte de
pesquisa primária, pois as representações sobre as organizações estudantis presentes nesses periódicos
permitem abordagens mais amplas em relação ao fenômeno educacional, possibilitando o estudo de
concepções pedagógicas e ideologias que circulavam pelo imaginário da população local. Assim
realizamos o levantamento de fontes escritas em 06 coleções de jornais pertencentes ao acervo da
Fundação Cultural Municipal, a partir da leitura e fichamento de 531 notícias encontradas sobre o
universo escolar ao longo dessas duas décadas, das quais 42 se referem ao movimento estudantil.
Recorremos também à história oral, por meio de entrevistas a um dos antigos proprietários e editores
dos jornais pesquisados e a alguns dos ex-representantes do movimento estudantil local do período
analisado para a observação do ponto de vista dos sujeitos históricos daquela época, buscando o
cruzamento das fontes e o desvendamento de especificidades das organizações estudantis locais. A
análise das entrevistas nos permitiu refletir sobre a representação do ideário de aluno veiculado pela
imprensa local, por meio do levantamento de informações distintas daquelas presentes nos jornais,
colaborando para a produção da história da educação local. Como resultado da leitura das fontes
impressas, destacamos dois períodos diferentes relativos a representação do movimento estudantil nos
jornais: o primeiro que vai do início da década de 1950 até o ano de 1963, em que os estudantes são
apresentados com participação ativa na luta pela defesa de seus interesses com a realização de algumas
reivindicações políticas; e o segundo que se inicia após a implantação da ditadura militar, no ano de
1964, até o final da mesma década, em que a classe estudantil surge nas páginas dos jornais de forma
adequada ao sistema autoritário, quando há silenciamento dessa categoria no que se refere à
contestação das forças políticas instituídas. Assim, entendemos que a história local e a nacional não
podem ser discutidas independentemente, sendo necessário promover o diálogo entre o estudo local e
o nacional.

957
MENNONITENTUM: IDENTIDADE ÉTNICA MENONITA

FRANCIELLY GIACHINI BARBOSA.


UFPR, CURITIBA - PR - BRASIL.

O presente trabalho, resultado de pesquisa de mestrado, tem a pretensão de discutir a correlação


existente entre os menonitas e os elementos que fazem parte de sua dinâmica identitária. Os menonitas
são um grupo de origem étnica alemã de religião protestante. Estes após o confisco de suas
propriedades na Rússia pós-revolucionária migraram para lugares distintos, e um grupo acabou por
desembarcar no Brasil e estabeleceu comunidades nas novas terras. O foco desta discussão está na
parcela que se estabelece no bairro do Boqueirão, na cidade de Curitiba/PR no começo da década de
1930. O recorte temporal é de 1934 a 1948, marcos que sinalizam o estabelecimento do grupo no
Boqueirão e a retomada da escola que havia sido fechada em tempos de ferrenho nacionalismo do
Estado Novo. O corolário do desenvolvimento desses imigrantes ficou marcado inicialmente pelo
trabalho de venda de leite no centro da cidade, tanto que estes eram conhecidos como “os leiteiros do
Boqueirão”, mais tarde formaram uma cooperativa para a venda de produtos alimentícios e também
para os suprimentos necessários ao gado leiteiro. Dentre os empreendimentos, o que toma destaque

145
nesta análise são as práticas do grupo no que diz respeito à tentativa de preservação de sua identidade,
conhecida como mennonitentum. Os elementos desta representação se conjugavam principalmente na
religião protestante e na língua e ascendência alemãs. Em decorrência da busca por preservação de
tradições, costumes e identidade, eles fundam em 1936 sua própria escola, onde o idioma alemão é
ensinado, bem como o saudosismo e ufanismo relativos à Alemanha e seus líderes políticos,
principalmente aqueles ligados à ideologia nazista. No entanto, a escola acaba sendo fechada por conta
das políticas nacionalistas do período. Dessa forma, outras práticas, que não as escolares, são ativadas e
reforçadas para a auto-preservação do grupo. Dentre estas se destacam os batismos, os casamentos, as
músicas, os cultos, as leituras, a alimentação e até mesmo os funerais. As fontes utilizadas para este
artigo pautam-se em fotografias, relatórios de missionários menonitas, entrevistas, jornais de circulação
no período e jornais produzidos pelos próprios menonitas. Dessa forma, atravessando os anos e com
eles estabelecendo construções materiais e reconstruções simbólicas, os menonitas vieram, muitos
contrariados, para o Brasil, e foi aqui que reconstruíram suas vidas, relembrando e praticando tradições
centenárias, mas não sem inventar novas praticas e costumes, educando e reeducando seus filhos.

1161
MICRO-AÇÕES AFIRMATIVAS – POSSIBILIDADES DE SUPERAÇÃO DA DESIGUALDADE ETNICORRACIAL
NOS COTIDIANOS ESCOLARES

REGINA FATIMA JESUS.


UERJ, RIO DE JANEIRO - RJ - BRASIL.

Este trabalho traz ao diálogo práticas pedagógicas de participantes da pesquisa Micro-ações afirmativas
no cotidiano de escolas públicas do município de São Gonçalo, realizada no período 2008 – 2010.
Buscamos ouvir e trazer as vozes de professores(as) gonçalenses que por suas histórias de vida, pela
negação e desvalorização do pertencimento etnicorracial negro em um município marcadamente afro-
descendente, reconhecem a necessidade de implementarem ações de caráter antirracista. A estas
ações, muitas vezes instituintes, temos chamado micro-ações afirmativas cotidianas. Esta noção revela
aproximações com o conceito de ação afirmativa, tendo em vista buscar potencializar crianças e jovens
afro-descendentes que, até então não percebiam, nos espaços escolares, a valorização da história e
cultura africana e afro-brasileira, e dos referenciais negros sendo apresentados e valorizados ao se
trazer a História Oficial. Assim, a história oral é a opção metodológica da pesquisa e, tal opção se deve
ao reconhecimento de que é preciso valorizar a palavra viva dos sujeitos cotidianos (Hampâté Bâ, 1982;
2003) cujas experiências são formadoras e possíveis transformadoras da realidade de exclusão que
ainda se perpetua nos cotidianos escolares, muitas vezes, impedindo e/ou dificultando o sucesso escolar
das crianças e jovens afro-descendentes. As narrativas foram/são consideradas locus privilegiados para
a apreensão e compreensão das ações da prática cotidiana, reconhecendo que os saberes que
buscamos para compreender a realidade pesquisada se encontram com os sujeitos informantes com os
quais dialogamos (Portelli, 1997). Ao trazer as palavrasmundo (Freire, 1988) dos sujeitos cotidianos a
fim de compreender as micro-ações afirmativas, discutir o caráter destas e os fatores que as motivaram,
dialogamos com Cunha Jr. (1992), Gomes (2006), Guimarães (2002), Gusmão (2002), Munanga (1999),
Oliveira (2006), dentre outros(as) que trazem suas leituras nesta encruzilhada cultural (Martins, 1997) e
nos oportunizam perceber as africanidades (Silva, 2000) presentes na cultura brasileira.

600
MOVIMENTO DE EDUCAÇÃO E BASE- MEB: SUA RECONSTITUIÇÃO HISTÓRICA NO MUNICÍPIO DE
SENHOR DO BONFIM-BAHIA
1 2
MARIA GLORIA DA PAZ ; LUCIMAR BATISTA DE ANDRDE .
1.UNIVERSDADE DO ESTADO DA BAHIA - UNEB, SENHOR DO BONFIM - BA - BRASIL; 2.UNIVERSIDADE DO
ESTADO DA BAHIA, SENHOR DO BONFIM - BA - BRASIL.

146
O presente estudo é resultante de um Trabalho de Conclusão de Curso- TCC, e teve como objetivo,
reconstituir elementarmente a história do Movimento de Educação de Base-MEB, no Município de
Senhor do Bonfim, Bahia, implantado pela Igreja Católica no período de 1961 a 1964. A metodologia
utilizada neste estudo foi a história oral, por ser esta capaz de dar voz aos indivíduos que são parte da
história deste acontecimento, uma vez que através dos relatos suas experiencias podemos iniciar a
busca de informações que possam contribuir com essa tentativa de reconstituição. As fontes orais
utilizadas na elaboração deste trabalho foram duas professoras, que hoje encontram-se aposentadas, e
que atuaram no programa, através da indicação do bispo diocesano da época D. Antonio Monteiro.
Segundo relatos as entrevistadas assumiram a coordenação pedagógica do programa, com a
incumbência de criar escolas radiofônicas em sete municípios da circunscrição da Diocese, o que se
concretizou em quatro destes: Jacobina, Campo Formoso, Antonio Gonçalves e Senhor do Bonfim. A
coleta dos relatos se deu através de uma entrevista direcionada por um roteiro previamente
estruturado, dividido em cinco partes: identificação dos colaboradores, informações sobre o Movimento
de Educação de Base no município, o aluno e os professores do MEB, as aulas e seus desdobramentos,
os recursos e materiais didáticos utilizados e a orientação pedagógica. A entrevista foi cuidadosamente
ouvida, gravada e transcrita posteriormente. Através dos relatos das professoras participantes deste
movimento, procuramos de forma elementar abrir caminhos para novas investigações a busca por
documentos, a identificação de outros participantes, com o intuito de reconstituir um dos
acontecimentos importantes para e história da educação do Município de Senhor do Bonfim, uma das
grandes experiências de educação popular, que tinha como destaque as Escolas Radiofônicas, pioneiras
da atual concepções de Educação à distância.

1236
NOME DE BATISMO ALEXANDRE BUENO, ETNIA TERENA: PERSONAGEM DE UM IMAGINÁRIO PARA
EDUCAÇÃO INDÍGENA NA PROVÍNCIA DE MATO GROSSO

ADRIANE PESOVENTO PESOVENTO.


UFMT, CUIABÁ - MT - BRASIL.

Este trabalho tem como proposta reconstituir parte da trajetória de Alexandre Bueno, índio da etnia
Terena que por diversas vezes aparece no cenário da história de Mato Grosso. Com suas tropas de
soldados viajou pela Província, percorreu lugares longínquos, foi influente em relação aos seus pares e a
elite político-administrativa da capital. O objetivo da investigação foi compreender como a simbologia
dos seus atos contribuiu para construção de um imaginário sobre como deveria operar a educação
indígena, especialmente a educação não-formal dos comportamentos e atitudes em sentido amplo,
particularmente nas tentativas instruir, atrair e submeter outras nações pelo exemplo, pela persuasão
ou ainda pela violência. Por mais de oito anos, período que vai de 1875 à 1884 encontram-se registros
das suas práticas. Sob o ideário “para um índio outro índio”, a sociedade provincial adotou Alexandre
Bueno, instrumentalizando-o para ser o mensageiro de um novo modelo, seus passos foram
acompanhados pelo governo local, registrados em documentos oficiais, suas atitudes noticiadas em
jornais, seus pedidos atendidos, isso tudo para que o mesmo servisse aos propósitos da sociedade
envolvente, a saber: atrair outros grupos étnicos ao convívio pacífico com os provincianos. No decorrer
da pesquisa uma questão se apresentou, a percepção do papel e das ações de Alexandre Bueno como
auxiliar na construção de um outro modelo. O referencial teórico metodológico adotado corresponde à
perspectiva do imaginário, ou seja, como um índio intitulado capitão, resistiu, serviu e alimentou o
imaginário coletivo, os discursos e as práticas sobre o modo de educar e o modo ser dos demais grupos
étnicos no período, e ainda, como o mesmo desvirtuou o estabelecido e compôs uma história própria a
partir dos limites impostos. Para compreensão do assunto adotou-se a perspectiva de táticas e
estratégias desenvolvidas por Michel de Certeau, bem como as concepções de micro-resistências e
micro-liberdades. Para realização da pesquisa foram acompanhados os passos deste personagem,
através dos relatos presentes em ofícios da época, tanto àqueles escritos pelos Diretores dos Índios,
quanto pelo próprio Alexandre Bueno e notícias sobre o mesmo publicadas em jornais da capital. Em
especial o relato de uma cena intrigante da chegada de Alexandre Bueno à capital, saudando a “Santa
Madre Igreja Católica”, espetáculo assistido por várias pessoas e noticiado nos jornais locais. Todas as

147
fontes pertencentes aos acervos do Arquivo Público do Estado de Mato Grosso (APMT) e do Núcleo de
Documentação Histórica Regional (NDHIR). O Grupo de Pesquisa Educação História e Memória do
Instituto de Educação da Universidade Federal de Mato Grosso contribuiu significativamente para a
compreensão do objeto investigado.

599
OPRIMIDOS E OPRESSORES: UMA ANÁLISE COMPARADA DOS CONTEXTOS DISCURSIVOS ENTRE AS
OBRAS DE ALEX HALEY E JOSÉ DE ALENCAR

DISLANE ZERBINATTI MORAES; FERNANDA DE JESUS FERREIRA; SILMARA DE FATIMA CARDOSO.


FEUSP, SAO PAULO - SP - BRASIL.

Levando-se em consideração que os estudos históricos mostram o século XIX como extremamente
produtivo em políticas e iniciativas que visavam à escolarização das classes populares e à formação da
população negra, apresentamos nesse trabalho os resultados parciais da pesquisa que investiga a
produção, circulação e apropriação de processos educativos, a partir do diálogo entre o livro Negras
Raízes: a saga de uma família (1970) do escritor negro norte-americano Alex Haley (1921-1992) e a obra
literária, política e teatral de José de Alencar (1829-1877). Adotamos a perspectiva dos estudos
comparados em História da Educação, na qual buscamos apreender as aproximações, os afastamentos e
entrecruzamentos de modelos de formação e inserção dos negros no período abolicionista nos Estados
Unidos e no Brasil, que são produzidos e dados a ver nas práticas discursivas dos autores. Assim,
trazemos duas visões sobre a escravidão e os processos educativos justificados pela iminência da
abolição: a visão romântica do escritor e político José de Alencar, representante do pensamento da elite
oitocentista, e a visão dos escravizados apresentada por Haley. A distância temporal e espacial da
escrita dos textos potencializa nosso olhar para a percepção de descontinuidades históricas, bem como,
das estruturas mentais e relações de poder, que envolvem a questão. Procurar-se-á destacar os modos
de construção do “Eu” e do “Outro” comparando-se experiências de escravidão, formas distintas de
inserção do ex-escravizado na sociedade e de perfis étnicos específicos, condicionados por modelos
culturais e idéias sobre a desigualdade racial que circulavam globalmente. Haley desenvolve um
trabalho memorialístico e historiográfico com o objetivo de mostrar ângulos contundentes do sistema
escravocrata, ressaltando os processos de sofrimento, resistência e resposta dos próprios escravizados.
Em contrapartida, Alencar justifica a manutenção do regime escravocrata pautado pelo discurso da
incapacidade dos escravos de atuarem em sociedade e dos inerentes benefícios que traria o contato das
“almas rudes” com o homem branco, civilizado. As condições de circulação e práticas de leitura dos
textos também foram analisadas. José de Alencar escreve em um contexto de amplo debate sobre o
papel da escravidão na constituição da nacionalidade brasileira, consolidando um discurso sobre a
inferioridade que se mantém mesmo após a abolição. Inserido no espaço de lutas por direitos civis
lideradas pelo movimento negro nas décadas de 1960 e 1970 nos Estados Unidos, Haley, por sua vez,
obteve grande sucesso editorial, chegando a vender quase dois milhões de exemplares nos primeiros
seis meses de lançamento. Considerando a capacidade de refletir sobre o real da obra literária,
depreende-se o universo de referências comuns, particularizadas em visões sobre a escravidão e
educação elaboradas pela elite e pelos descendentes dos escravizados.

1304
ORDEM MORAL E DOMÉSTICA EM PROL DE UMA LONGEVIDADE ESCOLAR: UM ESTUDO COM FILHOS
DE FAMÍLIAS NEGRAS DE MEIOS POPULARES (PERNAMBUCO E PARAÍBA, 1940-1970)

FABIANA CRISTINA SILVA.


UNIVERSIDADE DE PERNAMBUCO, PETROLINA - PE - BRASIL.

Este trabalho faz parte de uma pesquisa mais ampla que tem como objetivo compreender as formas de
presença de famílias populares no processo de construção da longevidade escolar dos filhos e em suas

148
práticas de leitura e escrita nos Estados de Pernambuco e Paraíba no período de 1940 a 1970. Neste
artigo analisaremos a organização familiar - condutas e normas - exercidas por famílias negras, “não-
hedeiras” e de meios populares que possibilitaram a manutenção e longevidade escolar dos filhos,
levando-os a atingir o ensino superior na Paraíba e em Pernambuco entre as décadas de 40 e 70. O
período analisado refere-se ao processo de escolarização dos filhos das famílias estudadas. É importante
destacar que, nesse, momento histórico, os indivíduos negros e pertencentes aos meios populares não
se caracterizavam como o principal público de níveis superiores de ensino e muito menos obtinham, ao
menos com freqüência, uma longevidade escolar. A pesquisa está baseada teórica e metodologicamente
sob os pressupostos da História Cultural e da Micro-História, além de alguns estudos no campo da
Sociologia da Educação. A especificidade do objeto a ser analisado, ou seja, as características das
famílias e o período histórico estudado apontaram a necessidade da utilização da História Oral, o que
tornou, ao longo do desenvolvimento da pesquisa, os depoimentos orais como a principal fonte de
trabalho, na qual nos amparamos para redigir este artigo. Foram analisadas três famílias com as
características acima citadas. Os resultados apontaram para a existência de uma configuração familiar
específica, pois fazer parte de uma família com determinadas características e práticas possibilitou uma
relação diferenciada com a escola. É como se essas famílias de meios populares, por não terem um
patrimônio financeiro e às vezes intelectual a ser preservado, têm na sua herança moral o bem mais
precioso, é como se os pais visassem uma certa respeitabilidade familiar da qual seus filhos deveriam
ser os principais representantes A família aparece como um “lugar” relativamente fechado, para evitar
influências negativas, os pais proporcionavam para esses filhos, mesmo que de forma intuitiva, rotinas,
espaços e momentos específicos para o estudo, assim como práticas de leitura, acompanhamento das
atividades escolares, além da manutenção material dos filhos na escola, como, por exemplo,
fardamento, livros entre outros. Este estudo tem possibilitado compreender, em períodos anteriores -
em que não existia uma discussão ampla sobre a necessidade e a importância da contínua escolarização
- a formação de uma organização familiar, objetivando a permanência dos filhos na escola.

817
PAULO FREIRE, A UFPE E O MOVIMENTO DE CULTURA POPULAR

ALESSANDRA MARIA DOS SANTOS; ÁNDRE GUSTAVO FERREIRA DA SILVA.


UFPE, RECIFE - PE - BRASIL.

Este estudo tem por objetivo apresentar a atuação da UFPE no Movimento de Cultura Popular, por meio
do Serviço de Extensão Cultural, da até então Universidade do Recife, que tinha Paulo Freire como um
dos seus coordenadores. Além de investigar as práticas cotidianas inerentes às atividades extensionistas
da UFPE e como tais práticas e seus autores se relacionam com o MCP, pretende-se também possibilitar
às presentes políticas de extensão da universidade balizar-se pelos acertos e equívocos do passado e
para tais finalidades utiliza-se o caminho metodológico de análise de fontes documentais da UFPE e
registro oral de atores envolvidos no objeto proposto. A instigação é compreender a contribuição que a
dinamicidade histórica atuou sobre a dimensão extensionista da UFPE, saindo de seu distrito
educacional e estendo-se até as classes populares numa atuação de extensão que promovia o diálogo
entre o saber científico e o popular e como esta construção histórica é materializada na vida cotidiana.
O cotidiano dos primeiros passos de uma prática pedagógica coincidem historicamente com a
constituição do MCP, no sentido de uma maior participação junto às reais soluções para os problemas
da população menos favorecida. Dessa maneira, nasce em maio de 1960, no Recife, um movimento que
aspira a redução do índice de analfabetismo além de proporcionar a elevação do nível de cultura da
população. Com este intuito surgiu o Movimento de Cultural Popular tendo como um dos fundadores
Paulo Freire, também professor da Universidade do Recife, atualmente UFPE, na qual ele implantou com
o SEC (Serviço de Extensão Cultural) o serviço de extensão através do desenvolvimento de ações que
visavam conscientização política a partir da alfabetização e valorização da cultura popular, o que
também serviu de apoio ao desenvolvimento do MCP. Assim, com objetivos de inserção da população à
cidadania, demonstrada no direito ao voto após a alfabetização, e técnicas inovadoras na educação de
adultos, como a relação do contexto sociocultural dos alunos no processo de ensino e aprendizagem, a
cidade atinge números consideráveis de alfabetização em curto espaço de tempo. Paulo Freire destaca-

149
se no cenário nacional com o seu método de ensino que passa a ser implantado pelo MEC (Ministério
Educação) em todo o país, com o Sistema de Educação Paulo Freire. Assim, como Paulo Freire estava à
frente do SEC, o serviço de extensão universitária ganha destaque, com participação de outros
professores, funcionários e alunos, ressaltando a relevância da responsabilidade acadêmica no auxílio
ao desenvolvimento social. No entanto, este presente estudo não apresenta resultados tendo em vista
que está em andamento.

396
SOCIEDADE IMAGINADA: A IDEIA DA NAÇÃO NO INÍCIO DO PERÍODO REPUBLICANO

DANIELA CRISTINA ABREU.


USP - SÃO PAULO, RIO CLARO - SP - BRASIL.

O presente trabalho é fruto de reflexões quanto à proposta do nacionalismo no âmbito das escolas
primárias paulistas no início do período republicano. Quando pensamos no nacionalismo nos
reportamos às ideias de múltiplos significados. Segundo Anderson (2008) autor de diálogo neste estudo,
o naciolismo é um composto cultural específico e para bem entendê-lo é preciso considerar suas origens
históricas, de que maneira seus significados se transformaram ao longo do tempo, e por que dispõem,
nos dias de hoje, de uma legitimidade emocional tão profunda. A ideia de nacionalismo, diferente de
nação transcende, as barreiras territoriais. Anderson define a nação como “(...) uma comunidade
política imaginada - e imaginada como sendo intrinsecamente limitada e, ao mesmo tempo, soberana”
(2008, p. 32). O autor aponta o apego que os povos tem às suas imaginações e como são capazes de
morrer por suas invenções. A escola primária imaginada pelos republicanos tinha também a função de
homogeneizar a língua para a construção de uma nação. Para tanto, acreditavam que era necessário
criar estabelecimentos de ensino capazes de abrigar os alunos em idade escolar. A educação popular era
vista como primordial, e por isso intelectuais e políticos a priorizavam como objeto de reforma,
fundamental para a organização da sociedade. Segundo relato de Thompson no Anuário de Ensino do
Estado de São Paulo de 1918, a língua falada pelo povo é a primeira característica da escola “é o
primeiro e mais importante, porque é o factor enérgico de nacionalização e de um laço estreito de
solidariedade. Os que falam a mesma língua commungam os mesmos sentimentos e teem os mesmos
ideais e as mesmas tradições”. Essa temática faz parte da operacionalização do texto de Anderson com
as fontes estudadas quanto à escolarização dos negros no início do período republicano e a ideia de
sociedade imaginada para o período, a qual a elite tenta por diversos mecanismos ocultar a presença
negra. Segundo Silva e Araújo (2005) a (re) leitura das reformas educacionais dos séculos XIX e XX,
deduz-se que a população negra teve presença sistematicamente negada na escola: a universalização ao
acesso e a gratuidade escolar legitimaram uma “aparente” democratização, porém, na realidade,
negaram condições objetivas e materiais que facultassem aos negros recém-egressos do cativeiro e seus
descendentes um projeto educacional, seja este universal ou específico.

1037
UMA IMPRENSA, UM GRUPO SOCIAL: DIFERENTES REPRESENTAÇÕES DO NEGRO

ROSANGELA FERREIRA SOUZA.


USP/UNIBAN, SAO PAULO - SP - BRASIL.

O presente trabalho pretende caracterizar as práticas de escolarização dos negros no início do século
XX, veiculada por periódicos não-educacionais direcionados especificamente para essa população, sob a
denominação de “imprensa negra” ou “jornais da imprensa negra”. Trata-se em um recorte do projeto
em nível de doutorado “Pelas páginas dos jornais: identidade, representações e escolarização do negro

150
em São Paulo (1924-1940), em andamento, e suas ações iniciais de pesquisa. Diferente de outras
pesquisas, nas quais é utilizada a imprensa periódica educacional para se buscar compreender práticas
de escolarização, a formação de professores, as características do alunado, da educação oferecida por
órgão oficiais (Catani e Souza,1994), este trabalho pretende, a partir da organização e caracterização de
uma imprensa que não se anunciava especificamente como órgão de propagação de idéias
educacionais, reconhecer a constituição da identidade, representações e escolarização dos negros, em
São Paulo, de 1927 a 1937. Proceder-se-á a análise do discurso propagado pelos jornais buscando-se
retratar as condições sociais, de trabalho e educacionais do negro no Brasil no início do século XX, após
a abolição da escravatura, e suas perspectivas quanto a sua escolarização, enquadramento ao “mundo
dos brancos”, ascensão social, etc. Para o desenvolvimento da pesquisa serão utilizados como fontes
primárias os jornais da chamada “Imprensa Negra” . Pretendemos elencar os redatores dos artigos,
diretores, fundadores, co-fundadores, tiragem (lucro advindo da mesma), formas de circulação, buscar
artigos que mostrem pressões e posições políticas do jornal, caracterizar historicamente o período de
circulação e as figuras típicas da “imprensa negra”, assim como as premissas de caráter educacional
propagadas por estes. Muitos foram os jornais que constituíram cabedais de informações sobre os
negros no interior do conjunto das publicações da imprensa negra, pretende-se com este ensaio
verificar, no entanto, se as representações e aspirações educacionais e sociais entre os negros eram
sempre as mesmas nos jornais; se existiam diferenças na abordagem dada ao negro brasileiro no
interior dos artigos de dos jornais e por fim, apontar em que medida essas diferenças atraiam um maior
número de leitores e garantiam formas próprias de circulação, leitura e apropriação das idéias
propagadas. Pretende-se desconstruir o discurso, segundo o qual, a imprensa negra constituiria-se em
um bloco homogêneo de informações acerca do negro e que sempre esteve disposta a defender e
reivindicar seus direitos diante de uma sociedade pretensamente discriminatória. Tal perspectiva de
trabalho insere-se nas discussões realizadas no interior do campo da História Comparada,
especificamente ligada aos estudos de Marcel Detienne, que propõem uma série de preocupações em
afastar a história comparada de anacronismos (tão comuns à história sobre os negros).

151
152
EIXO 2 - HISTÓRIA DAS INSTITUIÇÕES E PRÁTICAS EDUCATIVAS

1193
“GRUPOS ESCOLARES EM FOCO: TECENDO HISTÓRIAS E MEMÓRIAS SOBRE O ENSINO PRIMÁRIO EM
MINAS GERAIS"

GEOVANNA DE LOURDES ALVES RAMOS.


UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA, UBERLANDIA - MG - BRASIL.

Esta pesquisa faz parte de minha tese de doutorado em que consiste na reflexão acerca da criação dos
grupos escolares na cidade de Uberlândia, em específico o Grupo Escolar Coronel José Teófilo Carneiro,
uma das mais antigas instituições de ensino uberlandense, sua relação com a cidade e as diferentes
classes sociais que a compunham nos anos de 1940 aos anos de 1972, pois com a Lei 5.692, os grupos
escolares foram extintos e o ensino primário passou a ser ministrado em escolas públicas e particulares,
como também tiveram seu currículo de ensino modificado passando a atender as instituições de
primeiro grau. Busca também compreender a cultura do grupo escolar, e em particular os significados
de sua construção na cidade de Uberlândia/MG. Para isso será necessário identificar o quadro social,
político e econômico da sociedade brasileira em geral e, de modo mais particular, da sociedade
uberlandense no decorrer dessas décadas. Penso ser necessário problematizar a trajetória do grupo
escolar no sentido de repensar como os moradores lidavam com as mudanças educacionais e como a
impressa local problematizava o ensino educacional, as experiências e dificuldades dos moradores na
luta pelo direito à aprendizagem das primeiras letras. Pretende-se que a história a ser resgatada
contribua para os estudos no campo educacional, do grupo escolar e para a construção da história da
cidade e das instituições escolares no Brasil, bem como seja capaz de fornecer elementos para outras
pesquisas de recortes mais estreitos e que possa ampliar a compreensão acerca da história da educação
no país. Dentre os documentos pesquisados para a pesquisa utilizo fontes da imprensa local,
documentos oficiais da Câmara Municipal de Uberlândia, Atas, Processos, Correspondências Recebidas e
Correspondências Expedidas, Protocolos, fotografias, entrevistas de ex funcionários e alunos, mapas da
cidade e revistas locais. Como vou trabalhar com a diversidade e provisoriedade do conhecimento
histórico não pretendo me cercar a priori, de teorias prontas e manuais que indicam passos pré-fixados
para a pesquisa. A teoria é pensada e construída em um diálogo com a experiência humana vivida. O
método assim pensando não é o desenvolvimento de uma técnica científica de pesquisa em História.
Parto de uma escolha dos sujeitos, do momento histórico e das fontes que já carregam minhas
preocupações e minhas posições políticas. Acredito que todas as fontes são carregadas de posições
políticas, valores, ideologias e nesse sentido busco estabelecer um cruzamento entre elas para
compreender com mais profundidade as teias que envolveram os sujeitos no momento histórico
escolhido e suas relações sociais com a instituição escolar.

801
A ALFABETIZAÇÃO NA HISTORIA DA EDUCAÇÃO NO ESPÍRITO SANTO (DÉCADA DE 1870)

MARIA DA PENHA DOS SANTOS DE ASSUNÇÃO.


UFES, VILA VELHA - ES - BRASIL.

A pesquisa teve como objetivo estudar a alfabetização na província do Espírito Santo na década de 1870
investigando se os discursos oficiais reformistas acerca da alfabetização contribuíram para a
constituição de “novos” métodos e práticas de ensino da língua que rompessem com modelos baseados
no trabalho com as unidades mínimas da língua. Nosso estudo é documental e partimos da concepção
bakhtiniana de linguagem abordando a noção de texto, que segundo Bakhtin (2003) “e um dado
primário de análise de todas as disciplinas”. A instrução pública capixaba passou por três regulamentos
e um regimento ao longo da década de 1870. É importante salientar que essas quatro propostas
buscaram entre outras coisas metodizar oficialmente o ensino e ao mesmo prescrever os programas de
ensino destinados ao ensino da leitura e da escrita. Ao longo do período tivemos a oficialização do
método mútuo, do método simultâneo, do misto e até mesmo da autorização para a mescla de

153
métodos. O método misto e o simultâneo eram considerados mais modernos, a utilização do primeiro
garantia a continuidade de métodos antigos como o mútuo e o individual. Isso nos leva a analisar que
apesar do discurso reformista a utilização do método misto tem a demonstrar que as práticas não eram
modificadas, pois se esse método congregava elementos de métodos mais antigos constituindo-se em
práticas conservadoras já instituídas não haveria mesmo modificação no ensino da leitura e da escrita.
Com programas que se destinavam a ensinar a ler, escrever e contar, se pensava em ensinar alguns
rudimentos de gramática a partir de impressos de marcha sintética sem considerar aspectos como a
relação sons e letras e da relevância do trabalho da produção de textos orais e escritos discutidos por
Gontijo (2005).Vale a pena ressaltar que a concepção que orientou os programas de ensino e os
materiais impressos utilizados na província do privilegiou o estudo das unidades menores. A
decomposição do ensino em sílabas, palavras e frases visava alcançar a leitura de textos que
inicialmente também eram decompostos em sílabas e depois em frases, no entanto esse procedimento
não trazia bons resultados, os relatos das autoridades provinciais deixaram transparecer que as crianças
não aprendiam a ler, e ainda eram constrangidas por torturas físicas e psicológicas por não aprender. As
escolas funcionavam em condições de precariedade, os professores não obtiveram formação adequada
e os materiais de ensino não foram suportes que facilitaram a aprendizagem da língua. Parece que as
falas reformistas, não romperam o plano discursivo. Até mesmo a gratuidade tão defendida pelo
presidente Tomé da Silva em 1873 logrou êxitos. Palavras-chave: Alfabetização. Métodos de ensino.
Livros de leitura.

641
A ASSOCIAÇÃO CRISTÃ DE MOÇOS NA PRIMEIRA DÉCADA DO SÉCULO XX NA CIDADE DE RECIFE: A
EDUCAÇÃO FÍSICA COMO ELEMENTO DE DISTINÇÃO SOCIAL

PAULO FERNANDES OLIVEIRA.


UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO, JABOATAO DOS GUARARAPES - PE - BRASIL.

Buscamos através desta pesquisa, dar início à investigação sobre a Associação Cristã de Moços (ACM) –
Recife, pois esta unidade de análise nos oferece muitas informações sobre a prática da Educação Física
no Estado de Pernambuco. Temos por objetivo neste estudo mostrar em que medida a prática da
educação física, mais especificamente através do esporte serviu como elemento de diferenciação social
para os componentes da ACM – Recife no período em questão. Inicialmente foi feito um levantamento
da produção científica tomando como temática a ACM – Recife, mas nenhuma produção foi encontrada
a esse respeito, sendo as informações relacionadas a esta instituição encontradas em poucas linhas e
superficialmente, em sites como o da Confederação Brasileira de Voleibol e no Ministério do Esporte, no
Atlas do Esporte no Brasil. Foram consultados jornais, mapas, revistas, livros, fotografias, atas de
reuniões, regimentos, folders, relatórios visando estruturar um acervo de documentos que serviram de
fontes para a pesquisa. A prática da Educação Física na ACM ocupava um papel de destaque nesta
instituição religiosa no final da primeira década do século XX, na cidade de Recife – PE. O esporte
apresentava-se como o elemento da Educação Física mais apreciado, pois era carregado de significado
aos participantes das atividades. Partindo da perspectiva de que a formação do cidadão prescindia o
abandono de alguns vícios e demandava um alto grau de auto-regulação por parte dos jovens que
viviam no país naquele momento específico. Este alto nível de autocontrole tinha como elementos de
seu desenvolvimento a prática da Educação Física, através do esporte, bem como de religião que
conduziam os jovens neste sentido. A prática dessas atividades, que contribuíam para o
desenvolvimento do autocontrole, mais especificamente o esporte, constituía-se como elemento de
diferenciação social, pois esta atividade demandava um maior controle das pulsões para os seus
participantes, bem como a sua prática só era permitida aqueles de detinham um maior nível de
refinamento de seus comportamentos. A ACM – Recife tinha a particularidade de oferecer uma
“educação do corpo” através de um elemento novo e que demandava comportamentos específicos e
altamente regulamentados, em que havia altos níveis de controle, tanto interna com externamente.
Estes participantes tinham no esporte um elemento de diferenciação social que os possibilitava o
exercício do controle de suas condutas, favorecendo a sua caminhada em rumo da civilidade, que era
uma das necessidades da sociedade recifense neste momento de modernização.

154
1152
A BIBLIOTECA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE: ESPAÇO DE FORMAÇÃO DO LEITOR
UNIVERSITÁRIO

MARTHA SUZANA SUZANA CABRAL NUNES.


UFS, SÃO CRISTOVAO - SE - BRASIL.

Este artigo tem o objetivo de apresentar a biblioteca como espaço de conformação da cultura
universitária, a partir das possibilidades de leitura que imprimem em seus usuários. Especificamente,
pretende-se apresentar a Biblioteca da Universidade Federal de Sergipe, como instituição que contribui
na formação do leitor universitário e que compõe o aparelhamento necessário ao processo educacional.
Para trabalhá-lo, é preciso debruçar-se sobre a investigação das práticas de leitura desenvolvidas no
universo educacional superior, entremeada com a perspectiva do leitor universitário. Neste sentido,
compreender as práticas de leitura desenvolvidas pelo estudante do curso de Biblioteconomia
contribuirá nesta construção, tendo em vista tratar-se de um público que se utiliza da leitura para
apreender conhecimentos sobre sua formação profissional e acadêmica, mas também como dispositivo
de lazer e de distinção entre seus pares. A Universidade Federal de Sergipe foi criada em 1968 a partir
da congregação das faculdades isoladas existentes em Sergipe. Cada uma delas dispunha de seus
acervos bibliográficos, os quais davam o suporte na formação dos estudantes dos diferentes cursos. A
unificação destas bibliotecas isoladas só aconteceu em 1979, quando da construção do atual Campus
Universitário. Desde esta data, a Biblioteca Central da UFS (BICEN) cresceu em volume de obras e no
atendimento aos estudantes da Universidade, buscando seu estatuto de legitimidade a partir da
condução de suas ações voltadas para o atendimento às necessidades da comunidade acadêmica. A
estrutura da BICEN comtempla, além das obras de consulta livre, acervos de documentação sergipana,
documentos oficiais e multimídia, além dos periódicos especializados. Sua história, porém, traz
embutida a própria história do ensino superior sergipano. Para construção deste artigo, apoiamo-nos no
referencial teórico da História da Educação e em seus expoentes tais como Roger Chartier (1994) e o
conceito de representação, Anne-Marie Chartier (2007) e Diana Vidal (2005) com o conceito de práticas
de leitura, Pierre Bourdieu (2005) e o capital cultural e finalmente cultura escolar tomada de Dominique
Juliá (2004). As fontes para a coleta de dados são basicamente documentos institucionais,
regulamentos, além das fontes bibliográficas como artigos, livros e dissertações. Nas pesquisas
desenvolvidas pelo Núcleo de Pós-Graduação em Educação nenhum trabalho se debruçou sobre este
objeto. Neste sentido, demonstra-se sua relevância, pois trará maiores contribuições para os estudos na
linha de pesquisa sobre História, Sociedade e Educação, desenvolvida e sedimentada pelos
pesquisadores da área, que têm contribuído para o aprofundamento das questões educacionais nas
diferentes esferas, tanto elementar quanto superior.

1101
A CIDADE E A ESCOLA: ALIADAS NA CONSTRUÇÃO DE UMA NOVA ORDEM PÚBLICA

BERNADETTH MARIA PEREIRA.


CEFET-MG, BELO HORIZONTE - MG - BRASIL.

Este estudo foi realizado ao longo do desenvolvimento da nossa tese de doutorado em Educação
defendida na Universidade Estadual de Campinas-Unicamp. A tese intitulada “Escola de Aprendizes
Artífices de Minas Gerais, primeira configuração escolar do CEFET-MG, na voz de seus alunos pioneiros
(1910-1942)” foi orientada pela Profa. Dra. Olga Rodrigues de Moraes Von Simson, da Universidade
Estadual de Campinas-Unicamp, e co-orientada pelo Prof. Dr. Luciano Mendes de Faria filho, da
Universidade Federal de Minas Gerais-UFMG. Objetivamos com este artigo discorrer acerca da
articulação entre a cidade e a educação escolarizada para o trabalho, na construção de uma nova ordem
pública. Portanto, elegemos como objeto de estudo Belo Horizonte, a nova capital mineira, modelo da
modernidade brasileira no início do século XX, e a Escola de Aprendizes Artífices de Minas Gerais - EAA-
MG, (1910-1942), no contexto do Brasil republicano. A abordagem metodológica escolhida para o
desenvolvimento desse estudo, de caráter qualitativo, foi a História Oral, metodologia de pesquisa que

155
privilegia os testemunhos não escritos, as fontes não hegemônicas e, ao mesmo tempo dialoga com
uma multiplicidade de fontes escritas, visuais e inclusive as oficiais. Essa opção teórico-metodológica
nos possibilitou conferir um sentido histórico a essa problemática, no contexto da cultura urbana da
sociedade belorizontina e da EAA-MG. A partir desses levantamentos, concluímos que a cidade de Belo
Horizonte e a EAA-MG interagiam com o intuito de validar simbolicamente a visibilidade das novas
idéias liberais, de uma nova ordem política e das forças econômicas progressistas. Os valores
republicanos de civilização, progresso e trabalho deveriam ser assimilados pela sociedade por meio da
educação. A nova capital mineira demandou, portanto, a inclusão de medidas sócio-educativas, que
prepararassem as classes populares para integrar a nova realidade urbana em processo de implantação.
Havia uma grande confiança na ação pedagógico-assistencial como saída para resolver o problema da
vadiagem e da resistência ao mundo do trabalho. Nessa tarefa, foi intensa a atuação dos filantropos, dos
educadores, das instâncias governamentais, dos setores das classes dirigentes e dos demais
interessados numa realidade urbana segmentada e estruturada segundo os estamentos sociais. Vale
ressaltar, ainda, que a escola apropriou-se da cultura urbana desenvolvendo hábitos e valores que iam
ao encontro da ordem republicana. A cidade, por sua vez, buscava sua regeneração por meio da
educação escolarizada pelo e para o trabalho. Assim entendemos que a EAA-MG contribuiu para que
seus alunos, denominados pela elite como os “desfavorecidos da fortuna”, assumissem o lugar que a
nova ordem republicana reservou para eles, na jovem metrópole da modernidade brasileira.

564
A CONCEPÇÃO DE EDUCAÇÃO ASSUMIDA PELA IGREJA CATÓLICA A PARTIR DO CONCÍLIO VATICANO II
E DAS CONFERÊNCIAS GERAIS DO EPISCOPADO LATINO-AMERICANO DE MEDELLÍN E PUEBLA

ELISEANNE LIMA DA SILVA.


UNIVERSIDADE FEDERAL DO AMAZONAS, MANAUS - AM - BRASIL.

Este trabalho postula a relação Missão-Educação desde o Concílio Vaticano II, perpassando pelo debate
instaurado na Igreja Católica conciliar da latino-américa em décadas posteriores. Trata-se do resultado
de pesquisa documental calcada metodologicamente na hermenêutica-dialética ao estabelecer um
“caminho do pensamento”, um fio condutor interpretativo dos entrecruzamentos existentes entre
Poder, Religião e Educação no contexto das relações institucionalizadas. Objetiva explicitar que a Igreja
em tempos conciliares se auto-proclama subsidiária da questão educacional, correlacionando vida cristã
terrena e plano trasncendente pelo viés da catequização direta. A concepção de educação assumida
tanto nos documentos conciliares quanto nas Conferências Gerais do Episcopado Latino-Americano de
Medellín e Puebla aponta para um movimento transversal em sua questão de fundo: a missionariedade.
Ao perpassar pela “educação libertadora”, “educação para a justiça” e “educação evangelizadora” a
Igreja latino-americana opta pelos pobres de materialidade e, finalmente, transcende, objetivando
trabalhar a pobreza espiritual dos povos dos trópicos. A priori, o Concílio assenta a realidade das
diferenças culturais existentes entre os povos de uma maneira pontual sem maiores explicitações.
Frente às questões próprias do homem latino-americano, os documentos aludem de forma notacional e,
portanto, lacunar o trato com a questão indígena e o lidar com a diversidade cultural em tempos onde o
embate tradição/modernidade assume ares de renovação institucional. Medellín fala no
empreendimento do “diálogo criador com outras culturas” sem amarrar as pistas procedimentais para
tal; já Puebla direciona metodologicamente este lidar sob a égide absoluta da “evangelização das
culturas”. Outras questões conceptuais conflitivas como incorporação, integração e participação dos
povos indígenas no espaço educacional da catequese também são consideradas neste trabalho ao levar
em conta o caráter mandatório do Vaticano II no que diz respeito às possibilidades de criação de
mecanismos diferenciados de atuação da Igreja pós-conciliar. Dito isto, depreende-se a completude da
amarração Missão-Educação na América Latina: a Igreja Católica, ao visualizar (de longe) os contextos
das diferenças culturais e as múltiplas pulsações conflituais da sociedade latino-americana (as quais ela
mesma ajudou a gestar historicamente), tenta manter-se viva e fiel ao mandado de seu Fundador pela
veia da formação educacional das mentes e dos corações.

156
1203
A CONCEPÇÃO DE ESCOLA ATIVA NO ENSINO INFANTIL DE GOYAZ (1930)

ANA MARIA GONÇALVES; APARECIDA MARIA ALMEIDA BARROS; SELMA MARTINES PERES.
UFG, CATALÃO - GO - BRASIL.

O estudo que apresentamos é parte integrante do projeto de pesquisa A Institucionalização da Instrução


Elementar em Goiás (1835/1930). Propomos como foco de análise os princípios atribuídos ao ensino
infantil, ministrados às crianças de 4 a 6 anos nos jardins de infância, pelo Regulamento do Ensino
Primário do Estado de Goyaz (1930). A escolha deste documento prende-se ao intuito de compreensão
de como as idéias pedagógicas, veiculadas no Brasil, se colocaram no âmbito do trabalho reformista
operado em Goyaz em 1930. Entendemos que o referido documento nos permite explicitar as novas
práticas prescritas, individuais e coletivas, as quais deveriam ser vivenciadas por professores e alunos no
cotidiano das escolas. Na análise problematizamos que a proposta teve lugar no período de
efervescência das discussões das idéias pedagógicas renovadoras, período de ascensão da Escola Nova
no Brasil. Cumpre salientar que o sistema educacional paulista era tomado como modelo de educação
em Goiás. Assim, o governo do estado assinou um convênio com o governo de São Paulo acertando a
vinda de uma missão paulista, cuja chefia ficou sob a responsabilidade do professor Humberto de Sousa
Leal. No entanto, esse Regulamento seis meses depois sofreu alterações pelo decreto nº 659, de 28 de
janeiro de 1931, baixado pelo interventor federal Pedro Ludovico Teixeira, que assumiu o poder em
Goiás após a Revolução de 1930. No entanto, essas alterações promovidas pelo novo governo não foram
substanciais, visto que seus princípios escolanovistas asseguravam a inexistência de incompatibilidades
com o governo “renovador”. No que se refere à educação pública goiana, o governo revolucionário
recebeu do regime anterior um total de 18 grupos escolares e 161 escolas isoladas ou comuns, além das
escolas mantidas pelos municípios e as que funcionavam nas fazendas. Em relação ao ensino secundário
um total de 8 estabelecimentos estavam em funcionamento, sendo que 6 ofereciam o ensino normal.
Tinha início, assim, a ascensão de um novo grupo político ao poder e, segundo Chaul (1997), a
constituição de duas representações básicas: a utilização do saber médico como discurso que dissecava
o velho Goiás e a construção de uma nova capital, Goiânia, que se traduziria no símbolo maior da
modernidade e do progresso goiano. No campo teórico, buscamos aporte em autores como Pestalozzi,
Froebel, Montessori, Decroly e Claparède para interpretar os pressupostos metodológicos e conceituais
sugeridos pelo Regulamento. Apoiamo-nos, também, em fontes bibliográficas e documentais como
jornais, revistas, decretos, portarias e fotografias, levantadas no Arquivo Público “Frei Simão Dorvi”, da
Cidade de Goiás-Go e no Arquivo Histórico Estadual de Goiás, sediado em Goiânia-GO.

692
A CONSTITUIÇÃO DE INSTITUIÇÕES ESCOLARES NA ILHA DO MARANHÃO

MARIA DAS DORES CARDOSO FRAZÃO.


UFMA, SAO LUIS - MA - BRASIL.

O texto resulta de uma pesquisa em andamento cujo objetivo geral é conhecer a constituição de
instituições escolares no município de Paço do Lumiar. Os dados referem-se a seis escolas públicas da
Rede Municipal: Unidades de Educação Básica Alfredo Silva, Benjamin Peixoto, Genival Pereira,
Governador Luiz Rocha, Leda Tájra, Nicolau Dino. A referida Rede conta com trinta e nove escolas, das
quais, apenas uma é da zona urbana. Inicia-se o estudo conhecendo aspectos históricos e
socioeconômicos deste território, para, em seguida, aprofundarmos nos espaços escolares, onde
pudemos entrevistar as diretoras, bem como outros sujeitos da comunidade escolar e conhecer
documentos que constituem fonte para nosso trabalho. Paço do Lumiar faz parte da Ilha do Maranhão,
junto com São Luís, capital deste Estado, São José de Ribamar e Raposa. Há poucos trabalhos científicos
sobre o município em questão, alguns deles estão nas áreas de Ciências da Saúde e Geociências. Este
município foi habitado por indígenas e ainda hoje existem descendentes destes na localidade. Paço do
Lumiar tem suas origens históricas fundadas no tempo dos jesuítas no Maranhão, orginando-se de duas
propriedades distintas, depois agrupadas para a formação da Vila. Uma delas consistia em uma faixa de

157
terras doadas a um amigo de Alexandre de Moura, na então Província do Maranhão. A outra consistia
em uma légua de terra que formava o sítio Anindiba. O nome Paço do Lumiar surgiu em razão de sua
semelhança com uma localidade existente em Portugal, denominada Província do Lume. As escolas
foram fundadas: Unidade de Educação Básica Genival Pereira em 1º de abril de 1986. Unidade de
Educação Básica Benjamim Peixoto em 5 de setembro de 1970. Unidade de Educação Básica Nicolau
Dino em 1972. Unidade de Educação Básica Alfredo Silva em 1984. Unidade de Educação Básica
Governador Luiz Rocha em 1982. A Escola Jardim de Infância “Reino Infantil” situada a Praça Nossa
Senhora da Luz, sede do Município de Paço do Lumiar, foi fundada em 1983. A referida escola era
mantida pelo convênio entre Movimento Brasileiro de Alfabetização – MOBRAL e a Prefeitura desta
cidade. Em 1984, o MOBRAL foi extinto. A partir desta data, a Escola é nomeada Unidade Escolar “Lêda
Tájra”. A pesquisa traz contribuições teóricas de Certeau (2007), Haesbaert (2005), (2006), (2007),
Motta (2003) e Trovão (1994). Embora, a fundação destas instituições não seja recente, observa-se que
a educação oferecida pelas escolas supracitadas é carente de infra-estrutura, de pessoal, haja vista, que
a maioria de funcionários (as) é contratada e está em processo de formação em nível superior, este
quadro se agrava quando se trata de escolas da zona rural.

1226
A DISCIPLINA DO CORPO E A VIABILIZAÇÃO DA ORDEM NAS PRIMEIRAS DÉCADAS DO SÉCULO XX NO
MARANHÃO
1 2
KILZA FERNANDA MOREIRA DE VIVEIROS ; MARLÚCIA MENEZES DE PAIVA .
1.UFMA/UFRN, NATAL - RN - BRASIL; 2.UFRN, NATAL - RN - BRASIL.

Ao longo do século XIX, nos países ocidentais, a higiene marcou o advento da preocupação sanitária com
o meio urbano fomentando a composição de um dos campos mais importantes da medicina social. Essa
preocupação, no Brasil, esteve associada às grandes epidemias ocorridas nas principais cidades do
Império antes da segunda metade dos oitocentos. Alicerçada na tese de que o campo da higiene
buscava promover as melhorias das condições de vida da população e relacionado ao projeto
republicano modernizador da sociedade brasileira, este estudo objetiva dar relevância à compreensão
de uma teoria higienista oriunda do campo médico e sua conseqüente influência na configuração (ELIAS,
1970) e edificação de uma nova identidade nacional. Sob este enfoque, tomamos como referência os
discursos e as práticas do campo médico-social desenvolvidos na cidade de São Luís do Maranhão, por
se configurarem num solo de grande intensidade destes discursos e práticas médicas direcionadas à
infância, por meio de um jornal de época e da criação do Instituto de Assistência à Infância. Assim a
necessária compreensão do vocábulo infância, nos conduziu à concepção cultural da criança (KULHMAN,
2003), por esta se constituir, neste estudo, num campo de intervenção do discurso e das práticas
médicas que orientavam a disciplina do corpo na sociedade maranhense nas duas primeiras décadas do
século XX. Desta forma, a construção metodológica deste estudo se descreve em dois momentos. O
primeiro por estudos desenvolvidos no campo da higiene, saúde e educação e, no segundo momento,
buscou a compreensão do campo médico-social (BOURDIEU, 1989) e “corpo disciplinado” (FOUCAULT,
1987) na sociedade brasileira e maranhense, por se tornarem parte essencial à escrita deste estudo,
assim como na intenção de elaborarmos considerações acerca das práticas desenvolvidas no interior de
uma instituição de assistência à infância. Desta forma, nossas observações neste estudo se estruturam
sobre um olhar educativo, cultural, e social do campo médico, chamando-nos a atenção para sua
abrangência e importância, sobretudo educacional, numa dada temporalidade. Com o intuito de
contribuir para a historiografia da educação brasileira e maranhense e na intenção de somarmos
reflexões acerca da ação do campo médico-social no Brasil e Maranhense, através de instituições de
educação não escolares, estas ponderações integram parte das nossas análises em nossos estudos de
doutoramento, em vias de conclusão, desenvolvidos na Universidade Federal do Rio Grade do Norte.

158
1303
A EDUCAÇÃO DAS MULHERES E A PROPOSTA DA ESCOLA PROFISSIONAL FEMININA DE CURITIBA

DANIELLE GROSS DE FREITAS.


UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ, CURITIBA - PR - BRASIL.

O presente artigo, parte de uma pesquisa de mestrado em andamento, tem como objetivo a análise do
sentido de educação profissional feminina veiculada em uma instituição de ensino em inícios do século
XX, em Curitiba. A Escola Profissional Feminina foi instituída na capital do estado do Paraná no ano de
1917 pelo Decreto Estadual nº 548 de 8 de agosto do referido ano. Era dirigida por D. Maria Aguiar de
Lima, esposa de Antônio Mariano de Lima, famoso pintor e idealizador dessa instituição que
inicialmente, sob o nome de Escola de Desenho e Pintura, restringia-se a somente essas duas
modalidades de trabalho artístico e estendia seu atendimento também ao público masculino. Ao
assumir a direção, D. Mariquinha, como carinhosamente era chamada, modificou seu nome,
incrementou seu currículo e a organizou apenas para o atendimento de mulheres. Assim, a Escola
Profissional Feminina de Curitiba passa a ser uma instituição destinada a atender o público feminino na
aprendizagem de artes aplicadas às indústrias, tendo em vista acompanhar o cenário produtivo nacional
e mundial pelo viés do aperfeiçoamento dos ofícios voltado para as artes aplicadas nos trabalhos
manuais. Em meio a esse cenário coaduna-se a inserção da mulher de classes operárias e populares no
mercado de trabalho, movida pela necessidade financeira de custear ou complementar na sobrevivência
da família, o que veio movimentar um novo tipo de educação difundida em finais do século XIX e início
do século XX: a educação profissional. Para tanto, através de fotografias escolares e documentos que
regulamentaram a criação dessa instituição busca-se vestígios para compreender a que se destinava a
Escola Profissional a essas mulheres trabalhadoras, quais ofícios poderiam aprender e de que forma
poderiam aplicá-los em seus afazeres. No entanto o cenário referente a função da mulher na sociedade
neste período, apesar de estar permeado por divergências, afirma predominantemente o papel de
mantenedora do lar e da família, restrita a um universo privado, como o adequado para a sua natureza
frágil. Sendo assim, uma proposta de escolarização profissional feminina constituindo-se como co-
responsável por oportunizar a conquista de um espaço público, o universo do trabalho, às mulheres
permite vislumbrar outras representações do sexo feminino que não somente aquela vinculada a sua
função maternal. A pesquisa respalda-se, portanto, numa operação historiográfica de cruzamento dos
documentos acima citados, a fim de compreendê-los em suas entrelinhas, bem como estudo amparado
por referencial que aprofunda questões de gênero para subsidiar as análises.

750
A EDUCAÇÃO DE MENINAS DESVALIDAS NO MARANHÃO IMPÉRIO
SUZANA KARYME GONÇALVES DA CUNHA.
UFMA, SAO LUIS - MA - BRASIL.

Este trabalho constitui-se o resultado parcial da pesquisa Ordenação e disciplina: Instituições escolares
de atendimento à pobreza (meninos e meninas) no Maranhão Oitocentista, apoiada e financiada pelo
CNPq. Objetiva-se neste estudo o resgate da memória das instituições maranhenses de recolhimento de
crianças pobres e desvalidas (existentes no século XIX) encontrando-se representadas na Província, pela
Escola de Aprendizes Marinheiros, a Escola dos Educandos Artífices, a Escola Agrícola do Cutim e o Asilo
de Santa Teresa, sendo esta última, o objeto de investigação que se focaliza nesta argüição.
Apresentam-se dados significativos que caracterizam as práticas, os costumes e o cotidiano de dito
estabelecimento relativos à sua atuação no Maranhão Império, destacando-se e tentando-se
compreender as relações estabelecidas entre os atores implícitos neste cenário educativo e de
sociabilidade. Pretende-se analisar e compreender as representações construídas sobre essa instituição
e seu papel, importância e influência no campo educacional maranhense oitocentista, ao desmistificar
as formas de organização e as dinâmicas de seu funcionamento como lugar de ensino; tratando-se assim
de apreender o estrato cultural do espaço escolar, do cotidiano, dos rituais e sua significabilidade para
os são-luisenses no século XIX. Parte-se do pressuposto que essas instituições foram criadas pelo
governo provincial como forma de justificar perante a sociedade a democratização do ensino e como

159
forma de atender suas necessidades sócio-econômicas, visto que nos estamos referindo a espaços
escolares destinados ao recolhimento e à instrução de crianças pobres e desvalidas. Prescinde-se neste
investigar de três eixos epistêmicos no campo histórico: a história da infância, a história das instituições
escolares e a história do ensino profissional, considerando-se que essas instituições ofereciam além do
ensino das primeiras letras, os ofícios mecânicos para formação profissional; temáticas que trazem
consigo, ao serem tratadas pela história da educação brasileira e a historia da educação local, fatos e
acontecimentos que podem vir a tona neste processo do fazer historiográfico. A pesquisa em
andamento está sendo feita a partir do estado da arte, procurando-se identificar as temáticas que estão
sendo discutidas neste campo de estudo e a natureza das mesmas, estudos representados por (CASTRO,
2007; ABRANTES, 2002; FOUCAULT, 2004; CASTELLANOS, 2010; PETITAT, 1994; MAGALHÃES, 2004;
MARQUES, 1970; CRUZ, 2008) entre outros, e pela análise, identificação e questionamentos constantes
dos textos manuscritos, artigos publicados na imprensa periódica, relatório e falas dos presidentes de
Província, fontes legislativas e regulamentos referentes a essas instituições de ensino. Conclui-se, que as
estratégias de imposição utilizadas no intuito de consolidar os modelos educativos não foram
totalmente absorvidas pelas educandas nessas instituições.

1046
A EDUCAÇÃO DE MENINAS ÓRFÃS E DESVALIDAS NO COLÉGIO NOSSA SENHORA DO AMPARO (1850-
1870)
1
MARIA DO PERPÉTUO SOCORRO DE SOUSA AVELINO DE FRANÇA ; SAMARA AVELINO DE SOUZA
2
FRANÇA .
1.UNIVERSIDADE DO ESTADO DO PARÁ E UNIVERSIDADE DA AMAZÔNIA, BELEM - PA - BRASIL;
2.UNIVERSIDADE DA AMAZÔNIA, BELÉM - PA - BRASIL.

Este trabalho tem por objetivo analisar como eram educadas as meninas órfãs e desvalidas no Colégio
Nossa Senhora do Amparo, no período de 1860 a 1870 em Belém-Pará. Trata-se de uma pesquisa
documental e bibliográfica que se vale de regulamentos do Colégio, requerimentos de matrículas,
jornais da época e da literatura pertinente a questão para compreender o processo formativo a que
foram submetidas às educandas naquele estabelecimento de ensino. O primeiro regulamento interno
do Recolhimento das Educandas, expedido pelo Presidente da Província do Pará João Antônio Miranda,
em 30 de Março de 1840, expõe em detalhes as regras de conduta a serem seguidas pelas alunas no
cotidiano escolar. As suas atividades iniciavam às cinco horas da manhã e encerravam as vinte e uma
horas. Estabeleceu-se nesse documento que, além das meninas órfãs e desvalidas, o Colégio passaria a
atender também meninas de famílias ricas da sociedade paraense, cujos pais, tutores e benfeitores,
podiam pagar pelos seus ensinamentos. Ao completarem 17 anos de idade não podiam mais
permanecer no Colégio. Para onde iam,então, às órfãs e desvalidas? Nesses casos, o administrador do
Amparo as incentivava a casar. Caso não conseguisse o feito, procurava empregá-las em casa de
famílias. As mestras do educandário deviam ser pessoas instruídas, de boa conduta moral e costumes.
Eram suas obrigações: ensinar as alunas a cozinhar, costurar, bordar, fazer flores e enfeites. Os mestres
de primeiras letras deveriam ser pessoas instruídas, de reconhecida moralidade e maiores de trinta e
um anos. Cabia a eles ensinar as alunas a ler, escrever e contar até as frações, os princípios elementares
de gramática da língua nacional, com explicações práticas, doutrina cristã e noções de moral. O ensino
era composto de três graus. No primeiro, as alunas aprendiam doutrina cristã, deveres morais e
religiosos, leitura, escrita, aritmética até frações, princípios elementares da gramática nacional. No
segundo, exercícios de agulha de todo o gênero e outros misteres próprios do sexo feminino. Por fim, no
terceiro grau, estudavam canto, piano, dança desenho e língua francesa. Enquanto os ensinamentos do
primeiro e segundo graus eram obrigatórios para todas as alunas, os de terceiro, eram reservados às
pensionistas, que podiam pagar pelas lições lá ofertadas, e às alunas órfãs e desvalidas que
apresentassem talentos para as artes, reconhecidos por seus mestres. As alunas eram educadas com
base na doutrina católica, cabendo a elas, no futuro, tornaram-se mães caridosas e amáveis a serviço do
catolicismo.

160
1358
A EDUCAÇÃO DO CORPO ANUNCIADA NO ADVENTO DA ESCOLA MISTA CONFESSIONAL EM RECIFE-PE

MARIA HELENA CÂMARA LIRA.


UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO, RECIFE - PE - BRASIL.

Considerando o corpo não só como uma realidade em si mesmo, um mero possuir, e sim como o lugar e
o tempo onde o mundo torna-se humano, o entendemos como expressão das singularidades de uma
história social. O corpo, nesse aspecto, é visto como uma estrutura simbólica, a superfície de projeção
de identidades marcadas por mudanças sociais, históricas e culturais. Portanto, estudar o corpo em uma
perspectiva histórico social seria estudar as identidades travadas sobre ele e que o revelam como um
véu de representações. Nesse ponto de vista evidenciamos o corpo a partir de enunciados como:
técnicas corporais, gestualidades, normas de etiqueta, sentimentos e percepções em uma conjuntura
educacional sublinhada pelo advento da escola mista e pelas tensões das novas relações de gênero
requisitadas. Tendo em vista que a escola apresenta-se, ao longo dos anos, como um ambiente fecundo
para propagação de valores, costumes e práticas discursivas, elegemos o contexto da educação formal
para analisar as práticas corporais presentes nas relações de gênero travadas no advento das escolas
mistas. As discussões em torno da escola mista brasileira estão presentes em documentos datados
desde o final do século XIX. Há registros que mostram a abordagem desse assunto - embora não como o
tema principal - nas Conferências Populares da Freguesia da Glória no Rio de Janeiro, 1883, e nas Atas e
Pareceres do Congresso da Instrução do Rio de Janeiro, 1884. Os pareceres de Rui Barbosa, datados nos
últimos anos do século XIX e início do século XX, também abordam questões sobre a escola mista
(ALMEIDA, 2007). Destacamos como foco para este artigo, a posição da Igreja Católica sobre o fato de
meninos e meninas estudarem no mesmo espaço, o que configuramos no seguinte problema: Como as
escolas confessionais anunciaram as práticas corporais de meninas e meninos no advento das escolas
mistas? O objetivo em pauta é identificar e analisar o discurso religioso escolarizado acerca dessa
temática, presente no Jornal Católico A Tribuna, na década 1970, em circulação na cidade do Recife-PE.
Tal período foi escolhido por percebermos, em pesquisas anteriores, que nessa década fica evidente a
abertura de escolas mistas no universo confessional do Estado de Pernambuco. Nesse arcabouço
buscamos evidenciar o que foi argumentado para a aceitação desse tipo de intervenção educacional,
assim como, o que foi posto como resistência, no que confere a um dos principais jornais católicos da
época. Reconhecemos que nesse contexto as representações sobre o ser homem e o ser mulher
circuladas e estabelecidas em uma moral religiosa, receberam atenções diferenciadas que
condicionaram uma história da educação do corpo.

448
A EDUCAÇÃO MILITAR BRASILEIRA E A FORMAÇÃO DOS OFICIAIS DO EXÉRCITO NOS RELATÓRIOS DOS
MINISTROS DA GUERRA (1911 - 1925)

MARCUS FERNANDES MARCUSSO.


UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS, SÃO CARLOS - SP - BRASIL.

O objetivo deste trabalho é examinar a educação militar do Brasil e a formação dos oficiais do exército,
entre 1911 e 1925, através da análise dos relatórios anuais dos ministros da guerra. A partir dos
relatórios podemos traçar um panorama acerca da situação da educação militar brasileira e do tipo de
formação recebida pelos aspirantes a oficial nas escolas militares. Nesse sentido, daremos ênfase às
escolas de formação dos oficiais, especialmente a Escola Militar do Realengo, no Rio de Janeiro, que no
período figurou como a principal instituição de ensino militar do Brasil. O recorte cronológico escolhido
na análise deste trabalho abrange de 1911 a 1925. A Escola Militar do Realengo é fundada em 1913, mas
desde 1911 as reformas e orientações que indicavam sua fundação já estavam presentes nos relatórios
ministeriais. Em 1918, o governo brasileiro acertou a contratação de uma missão militar francesa para a
reformulação e modernização do Exército brasileiro. Inicialmente a missão concentrou seus esforços em
uma reforma das instâncias de comando da instituição castrense. Somente a partir de 1924 a missão
passou a direcionar seus esforços para a reforma da educação militar e das instituições de formação dos

161
oficiais do exército, especificamente para a Escola Militar do Realengo. Portanto, escolhemos como
último relatório o que se refere ao ano de 1925 para ilustrarmos as mudanças propostas pela Missão
Militar Francesa e corroboradas pelo ministério da guerra. Apesar dos relatórios figurarem como fontes
oficiais, e, portanto, passíveis de ocultar/dissimular fatos, são importante reveladores das mudanças
ocorridas na educação militar no período. As diferentes concepções de modernização do exército e os
consequentes meios de alcançá-la aparecem claramente nos relatórios, o que reforça a ideia de que
nesse interregno a educação militar brasileira foi um campo de disputas internas. A própria decisão de
contratar uma missão militar estrangeira gerou inúmeras discussões dentro e fora da instituição
castrense. Nessa altura recorremos a outras fontes que, ora contrapõem, ora corroboram as
informações contidas nos relatórios oficiais. Nesse sentido, são de grande importância as memórias e
relatos memorialísticos de alguns dos personagens envolvidos nesse projeto maior de modernização do
Exército e da educação militar brasileira. Durante o período estudado a Escola Militar do Realengo
serviu como o principal laboratório para as experiências de reforma e modernização da educação militar
e formação do oficial do exército realizadas pelo ministério da guerra. Através da correlação entre os
relatórios oficiais dos ministros da guerra, das memórias dos personagens e da bibliografia acerca do
tema pretendemos realizar um balanço acerca dessas experiências e de como elas influenciaram a
reforma geral do Exército e da educação militar coordenada pela Missão Militar Francesa a partir de
1924.

959
A ESCOLA DA SOCIEDADE UNIÃO OPERÁRIA: O MUTUALISMO NA EXPANSÃO DA EDUCAÇÃO POPULAR
EM SANTOS (1889-1930)

BRUNA DOS SANTOS AZEVEDO.


UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SANTOS - UNISANTOS, SANTOS - SP - BRASIL.

A passagem do século XIX para o século XX no Brasil foi marcada pela forte preocupação com a
Instrução Popular. No nascimento da República, diversos setores da sociedade discutiam a necessidade
de educar a população para que essa pudesse corresponder aos ideais de uma nação civilizada. Nessa
perspectiva, além da elite e do Estado, os setores populares foram também, responsáveis pela expansão
do número de estabelecimentos de ensino no país, por intermédio de associações, conhecidas na época
como, de socorro-mútuo. Naqueles tempos, a cidade de Santos assinalava grande contraste social, pois
de um lado se encontravam os ricos comerciantes locais e os comissários ligados à exportação do café, e
de outro, a grande massa de operários que trabalhavam no porto e no comércio. Foi nesse campo fértil
que, a cultura associativa se forjou e fortaleceu na região santista, caracterizada pela criação de
associações mutualistas. Dentre essas associações, cabe destacar as operárias, evidenciando que uma
das suas metas era a abertura de escolas para os trabalhadores e seus filhos. Foi, porém, neste cenário
cultural, social, econômico e político que surgiu a Sociedade União Operária de Santos. Essa foi fundada
no ano de 1890, por operários e mestres de obras, sob a máxima “sem trabalho não há progresso”. A
referida Associação pode ser caracterizada como uma agremiação de operários, com fins de instrução e
beneficência (auxílio na doença, morte e no desemprego). Nos primeiros anos da sua criação, a Escola
da Sociedade União Operária implantou as aulas noturnas, essas destinadas aos trabalhadores.
Entretanto, a frequência dos alunos era irregular. Foi somente, no ano de 1900 que a escola passou a ter
um fluxo regular de alunos que estudavam no período noturno. As aulas diurnas para o sexo masculino
tiveram início no ano de 1906 enquanto as turmas femininas foram inauguradas em 1908. Esse é,
portanto, parte do contexto onde se inscreve a presente pesquisa e que se encontra em andamento,
com o propósito de reconstituir, descrever e analisar a trajetória pedagógica e política da Escola
Sociedade União Operária nos seus primeiros anos de existência, em face da História da Educação
regional e nacional nos anos de 1889 a 1930. A escolha do tema reside na intenção de conhecer os
sujeitos que protagonizaram a discussão e implantação da Educação Popular em Santos por intermédio
das associações mutualistas de trabalhadores, com vistas a desvelar as suas implicações, intenções e
práticas educacionais. Por último, considerando a Escola da Sociedade União Operária como uma
manifestação explícita da organização dos trabalhadores, a reconstituição da sua trajetória se faz
relevante para compreender as associações mutualistas e a consolidação da educação popular

162
brasileira. Do ponto de vista metodológico, a pesquisa se caracteriza como histórica, de natureza
documental, exploratória, descritiva e analítica.

1317
A ESCOLA DE COMUNICAÇÃO DE SANTOS E O TRABALHO DE REVITALIZAÇÃO DA IGREJA CATÓLICA NO
BRASIL

CLAUDIO SCHERER DA SILVA.


UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SANTOS, SANTOS - SP - BRASIL.

O objetivo desta pesquisa é o estudo da origem da Escola de Comunicação de Santos, no período de


1954 a 1970. Tem-se presente a seguinte questão: o curso de Comunicação insere-se na perspectiva do
movimento renovador da Igreja, encetado por D. Leme, arcebispo do R. de Janeiro (1921–1942).
Quando se fala da Universidade no Brasil, é necessário deitar um olhar na presença da Igreja Católica.
No início do séc. XX, a sociedade brasileira passou por momentos de questionamentos e profundas
transformações. Um deles foi a questão religiosa. O liberalismo havia desenvolvido uma ótica de
secularização anticlerical. A hierarquia da Igreja sentia o afastamento e o grande vazio religioso que
imperava desde a separação do Estado e da Igreja em 1890. Era necessário fazer algo para retomar o
lugar na vida dos brasileiros. Um dos grandes arquitetos deste desafio foi o Cardeal Leme, D. Sebastião
Leme da Silveira Cintra (1882–1942). Tinha um projeto de restauração, para tirar os católicos do
marasmo em que se encontravam. Dentro desta proposta, surge a Universidade Católica. Assim, os
frutos seriam lideranças intelectuais católicas que cristificariam a nação brasileira. Separada do Estado,
em décadas anteriores, a Igreja Católica se inscreve agora no contexto de reaproximação com o Estado
no governo de Vargas. Numa época que tem presente a crise do liberalismo, com o advento dos
totalitarismos e a ascendência do socialismo na Europa. D. Leme, no princípio, está ligado a uma posição
mais conservadora, inclusive com o Estado Novo. Seus instrumentos são o Centro D. Vital (1922), com
nomes importantes na intelectualidade brasileira como o jesuíta Pe. Leonel Franca (1893–1949); Jackson
Figueiredo (1891–1928) e Alceu Amoroso Lima (1893–1983). A Revista Ordem (1921), fundada por esse
grupo, é o porta-voz do pensamento eclesial. Assim serão organizadas no diversos meios a Juventude
Universitária Católica, a JUC; a Juventude Estudantil Católica, JEC; a Juventude Operária Católica (JOC).
Em Santos, o 3º bispo diocesano, D. Idílio José Soares, sensibilizado com interesses da comunidade, vai
organizar, em 1951, com um grupo de profissionais liberais, a Sociedade Visconde de São Leopoldo que
será a responsável de introduzir dois cursos universitários: onde se encontra o curso de Jornalismo. A
imprensa católica foi considerada lugar central no movimento da Igreja. A Faculdade de Comunicação
inaugurada em 1970, inicialmente funcionou como curso de Jornalismo “Jackson de Figueiredo”. O
estudo ainda está sendo desenvolvido. A questão fundamental é: a Escola conseguiu desenvolver suas
metas iniciais? Quais os sinais dessa postura inicial? Estão sendo utilizados os documentos da Escola
(atas, relações de professores e de alunos) e principalmente a os jornais das imprensa local.São
importantes também os documentos pontifícios e das Comissões da Igreja relacionados à Universidade
Católica e a Imprensa.

1285
A ESCOLA DO FUTEBOL: PRÁTICAS EDUCATIVAS DA TOCA DA RAPOSA
1 2
PAULO HENRIQUE GUILHERMINO BARRETO ; ANTONIO JORGE GONÇALVES SOARES .
1.UFES UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO, VITORIA - ES - BRASIL; 2.UNIVERSIDADE FEDERAL
DO ESPÍRITO SANTO, VITÓRIA - ES - BRASIL.

Busca compreender o papel de uma instituição esportiva no campo da educação. Investiga a natureza
da escola de ensino básico mantida pelo Cruzeiro Esporte Clube nas dependências de seu centro de
treinamento para compreender as práticas educativas que ela proporciona, e como se constituem como
local de formação. Busca ainda levantar quem são e o que pensam os idealizadores dessa prática
singular de ensino. A noção de lugar e espaço, em Certeau (1994) será explorada, a revelar que a escola,
local instituído para a formação, torna-se espaço educacional através da ação dos sujeitos que a

163
compõem. O trabalho etnográfico de Wacquant (2002) servirá de referencial para a compreensão dos
fenômenos de vivência e convivência desse grupo social composto por jovens aspirantes a uma
concorrida carreira esportiva. Também as lições de Moscovici (2003) sobre representações sociais
nortearão o estudo na análise dessa perspectiva coletiva, sem perder de vista a individualidade dos
atores desse processo. Através de documentos, depoimentos, vestígios e imagens, serão levantados
dados sobre a motivação para a criação, o planejamento e o funcionamento desse espaço de prática
educativa. Utiliza documentos e depoimentos dos idealizadores dessa escola de clube. Trata-se de
pesquisa em andamento que incluirá agendamento de visita à escola para observação direta de seu
funcionamento, acesso a documentos internos, bem como entrevistas com seus representantes
pedagógicos. Para um aspirante a profissional, o treinamento é uma atividade cotidiana e compulsória,
enquanto a frequência escolar passa por preceitos sociais. Os clubes de futebol de grande porte
recebem, e hospedam, jovens atletas advindos de todas as partes do país. Veem-se então na obrigação
de oferecer escolarização a esses garotos, seja como forma de justificativa social, garantia às famílias
dos atletas, ou mesmo como estratégia para captação de talentos. Desde 2001, a Escola Alternativa
oferece acesso à escolarização aos atletas em fase de formação esportiva alojados no centro de
treinamento da Toca da Raposa I, localizado em bairro nobre da cidade de Belo Horizonte. O
oferecimento direto à escolarização proporcionado pela iniciativa (privada) da Escola Alternativa
demonstra que a conciliação dos treinamentos com a educação é algo inerente ao trabalho de formação
do Cruzeiro. O ambiente escolar constituiu-se historicamente como o local ordinário de
desenvolvimento da educação, dita assim educação formal. Algumas instituições, em suas diversas
manifestações, também exerceram papel educacional, como associações, sindicatos, e a própria família.
Outras, como o exército, o presídio, o seminário, tinham na educação um complemento à sua atividade
fim, se representado como instituições totais (FERREIRA NETO, 1999). Estaria o futebol caracterizando-
se como instituição total, na medida em que forma, alimenta, hospeda, e agora educa seus atores?

682
A ESCOLA MÉXICO: ESCOLA EXPERIMENTAL DO DISTRITO FEDERAL DOS ANOS DE 1930

ROBERTA DE BARROS DO REGO MACEDO.


PUC RIO, RIO DE JANEIRO - RJ - BRASIL.

Este trabalho é fruto de uma pesquisa em andamento que vem analisando as práticas pedagógicas de
escolas experimentais que funcionaram no Rio de Janeiro, na década de 1930. O texto em exposição
apresenta especificamente a Escola México, 5˚ escola experimental subsidiada pelas políticas
educacionais conduzidas por Anísio Teixeira, quando este esteve à frente da Instrução Pública no antigo
Distrito Federal. Durante a sua gestão, Anísio propunha fundar em bases científicas a reconstrução
educacional do Brasil e, para tanto, criou escolas que pudessem fermentar novas praticas e métodos de
ensino. A trajetória da Escola México se mostra como expressão do projeto de renovação pedagógica do
período, principalmente aquele presente no pensamento de Anísio Teixeira. Deste modo, o presente
artigo apresenta, além do aspecto organizacional da escola, as inovações pedagógicas experimentadas
durante os anos de funcionamento da instituição enquanto Escola Laboratório. Foram identificados dois
fatores primordialmente testados: de um lado, a adoção do regime pedagógico-administrativo do
Sistema Platoon e, do outro, o desenvolvimento de uma metodologia baseada no “Método do Projeto”.
O experimento do primeiro fator baseava-se no aproveitamento do tempo e espaço das salas de aula,
consideradas como “ponto de excursão” dos alunos. Já a adoção do “Método de Projeto” se justificava
pelo seu potencial de coordenar as várias influências externas que os alunos recebiam do meio, assim
como de valorizar e promover a integração dos seus interesses, das suas experiências concretas e
problemáticas. O experimentalismo desta escola se propunha a desenvolver uma disposição pedagógica
capaz de comportar ao mesmo tempo o “ensino globalizado”, por intermédio do “Método de Projeto”, e
a “departamentalização” do conhecimento com base na organização pedagógico-administrativo do
Sistema Platoon. Foi possível compreender, por intermédio da análise dos arquivos pessoal de Anísio
Teixeira (CPDOC/FGV), da antiga diretora da Escola, Professora Juracy Silveira (ABE), e de publicações
sobre a escola nos impressos do período (acervo da Biblioteca Nacional), o modo como o
experimentalismo desta escola se desenvolveu. O objetivo desta comunicação é apresentar as

164
inovações pedagógicas aplicadas na instituição e, conseqüentemente, contribuir com os estudos que
vem analisando o pensamento educacional de Anísio Teixeira e de tantos outros que colaboraram com o
projeto de renovação educacional na década de 1930.

647
A ESCOLA NO PARQUE: PROCESSOS DE INSTITUCIONALIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO INFANTIL NA CIDADE
DE VITÓRIA (ES) NA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XX
1 2
JOHELDER XAVIER TAVARES ; SANDRO NANDOLPHO DE OLIVEIRA .
1.UFES, SERRA - ES - BRASIL; 2.UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO, VITÓRIA - ES - BRASIL.

No eixo temático, buscamos apresentar dados da pesquisa de doutorado, cujas análises históricas nos
forneceram indícios de processo de institucionalização da Educação Infantil na cidade de Vitória (ES) na
segunda metade do século XX. Na pesquisa tomamos como marco espaço-temporal a criação da
instituição destinada à educação infantil conhecida no centro da capital capixaba como Parque Infantil
Ernestina Pessoa, instituição que funcionou de 1952 a 2007. O estudo em questão traz como princípio
metodológico análises de cunho histórico pautadas em documentos, bibliografia e narrativas de
professoras e alunos. Para o desenvolvimento do trabalho adotamos o olhar da história em Walter
Benjamin que propõe o entrecruzamento do novo e do velho. Com base na análise de documentos do
início do século XX, relacionados à instrução pública na Província do Espírito Santo, observamos
reinvindicações por atendimentos educacionais em instituições para as crianças de pouca idade. Esses
documentos sinalizavam pistas de tímidas iniciativas no campo da Educação Infantil no estado do
Espírito Santo. No presente, observamos que nas últimas décadas o Sistema Municipal de Ensino de
Vitória (ES) incrementou significativamente o atendimento para as crianças na educação infantil se
destacando tanto no Espírito Santo quanto no Brasil. A partir de nossas análises, optamos por entender
os diferentes sujeitos e os espaços do Parque Infantil Ernestina Pessoa, durante seus 55 anos de
existência no Parque Moscoso, como sujeitos e espaços produtores e consumidores de conhecimento,
tornando-se local privilegiado onde puderam permanecer crianças capixabas de um momento histórico
com suas mais variadas influências. Nessa perspectiva nossas análises indicam que a instituição e seus
sujeitos foram pioneiros nas ações direcionadas a educação infantil, tornando-se referência para outras
instituições e profissionais da educação infantil. Entre as ações desenvolvidas na instituição destacamos
a valorização da arte, do folclore e do conhecimento espontâneo das crianças construído através dos
jogos e das trocas entre os sujeitos. No estudo o nosso olhar para as crianças buscou compreender os
processos, os desdobramentos dos trabalhos que institucionalizavam as práticas de Educação Infantil na
cidade de Vitória (ES). Assim compreendemos as crianças como portadoras da cultura de seu tempo,
sendo o Parque Infantil Ernestina Pessoa local privilegiado no que diz respeito à valorização das práticas
infantis, entre elas o direito de brincar e aprender brincando.

1188
A ESCOLA NORMAL NO PARANÁ NA REFORMA DE PRIETO MARTINEZ (1920): A BASE SÓLIDA DA
REFORMA RACIONAL DO ENSINO

MARLETE DOS ANJOS SCHAFFRATH.


FACULDADE DE ARTES DO PARANÁ, CURITIBA - PR - BRASIL.

A Escola Normal no Paraná inicia suas atividades no ano de 1870. Durante todo o Período Imperial
sofreu modestas reformas a fim de se ajustar a crescente demanda de professores formados para o
magistério público primário. Nos primeiros anos da República o ensino paranaense passa a receber a
influência da reforma do ensino paulista ainda que, no cenário educacional paranaense o que se via era
a tomada de medidas isoladas de modificação da organização do ensino sem, contudo configurar em
uma reforma geral, planejada e gerenciada para estabelecer novos padrões para o ensino público no
estado. Cesar Prieto Martinez, professor paulista, foi convidado pelo governo paranaense a assumir em
1920 a Inspetoria Geral do Ensino a fim de proceder a reforma do ensino público no estado. A reforma

165
da Escola Normal, os grupos escolares, o sistema de seriação, a homogeneidade das classes, os prédios
escolares e a ênfase na alfabetização se constituíram nas principais propostas da reforma tendo como
modelo o ensino paulista, reformado por Caetano de Campos (1890). A escola paulista reformada estava
fundamentada nos preceitos da Ciência da Educação que instaurava o ensino como operação científica,
validada pelos laboratórios de experimentação das Escolas Anexas as Escolas Normais. Representava a
modernidade pedagógica encarnada nos ideais da Escola Nova e Escola Americana; o progresso da
sociedade e, sobretudo, apontava a educação como caminho para a hegemonia política e econômica
conquistada por São Paulo. No Paraná, a reforma do ensino e as modificações na Escola Normal
executadas por Cesar Prieto Martinez a partir de 1920 são, sem dúvida inspiradas no modelo paulista,
contudo, há conforme indicam as fontes para esta pesquisa, as particularidades da sociedade
paranaense e sobremaneira a visão particular do reformador. No final do primeiro ano de seus trabalhos
no Paraná, Prieto Martinez produziu um relatório ao então Secretário Geral de Estado, Marins Alves de
Camargo, onde expõe os primeiros resultados da sua reforma assim como a perspectiva filosófica que
subsidia sua proposta de educação. Neste trabalho destaca-se a análise da reforma da Escola Normal
consubstanciada pelos fundamentos teóricos que moveu o reformador e o contexto paranaense. O
estudo será realizado tomando-se como base o conteúdo do Relatório da Instrução Pública de 1920.
Entretanto a análise do documento será realizada em perspectiva histórica, mediatizada por outros
documentos oficiais da Instrução Pública, por estudos e literatura produzidos sobre o período na busca
compreender a reforma da Escola Normal no Paraná (1920) em suas dimensões contextuais.

1009
A ESCOLA NOVA E A FORMAÇÃO DE MUSEUS ESCOLARES NO BRASIL

SÔNIA MARIA FONSECA.


HISTEDBR/UNICAMP, RIO DE JANEIRO - RJ - BRASIL.

Esta comunicação é resultado parcial de uma pesquisa sobre Tratamento de Acervos Escolares, iniciada
em 2005, que visa sistematizar um conjunto de procedimentos técnicos de organização e conservação
que poderão ser aplicados aos acervos escolares de natureza arquivística e museológica. Ao
investigarmos a origem dos museus em instituições escolares constatamos que a adoção do método
intuitivo, e, posteriormente, a pedagogia da Escola Nova foram os marcos históricos para a prática
museológica adotada, sobretudo, em grupos escolares e escolas normais. A inovação pedagógica
ocorrida na segunda metade do século XIX contou com a introdução do Método Intuitivo ou Lição de
Coisas, uma ruptura com práticas de memorização e repetição, expressas em métodos de ensino
anteriores como o dos jesuítas, em vigor nos três primeiros séculos de nossa História. Com as novidades
pedagógicas postas pelo novo método, que se pretendia tanto método do conhecimento como método
de ensino, as instituições escolares tiveram que ser melhor equipadas para atender às exigências dos
postulados didáticos em vigor. Nos anos 20 do século XX, as reformas que foram implementadas pelos
pioneiros da Escola Nova, em vários estados, tais como Fernando Azevedo (DF), Francisco Campos (MG),
Lourenço Filho (Ceará), já traziam uma legislação escolar atinente a práticas pedagógicas que
favoreceram o surgimento de materiais didáticos e coleções didáticas, que serão o embrião da formação
de museus, particularmente os de História Natural. No “ Inquérito para o ‘ Estado de S. Paulo’”, que
Fernando de Azevedo elabora, em 1926, uma das 16 questões sobre o ensino primário e normal traz a
indagação sobre se os cursos nas escolas normais estão desamparados de material didático como
museus e herbários, laboratórios e bibliotecas. Duas obras pioneiras impressas nos anos 30 sobre o
tema museus escolares circularam nos ambientes pedagógicos. São elas a “Técnica da Pedagogia
Moderna” (1934), de Everardo Backheuser e “ Organização de Museus Escolares” ( [1937]), da
professora Leontina Silva Busch, esta última um registro do curso de prática de ensino, que voltava-se
também à organização do museu didático, ministrado em 1936 na Escola Normal “Padre Anchieta” de
São Paulo. Há indícios que estas obras tiveram divulgação ampla. No comunicado intitulado “Os museus
escolares” da professora substituta Helmy Wendt Pavão do Grupo Escolar “Almirante Barroso” de
Canoinhas, em Santa Catarina, datado de 20 de agosto de 1941, há referência à obra de Backheuser no
tocante ao museu da Escola Nova. Embora a bibliografia sobre o tema seja modesta, contrasta com a
legislação escolar, que através de regulamentos do ensino primário, ensino normal (Bahia, Minas Gerais

166
e Rio de Janeiro), código da educação e decretos (DF e São Paulo), dispôs sobre a criação de museus
escolares como “precioso órgão facilitador do ensino intuitivo”.

1151
A ESCOLA PRIMÁRIA NEUTRALIDADE E AS ESTRATÉGIAS DE LEGITIMAÇÂO DE UM CAMPO POLÍTICO-
PEDAGÓGICO NO FINAL DO IMPÉRIO

CLAUDIA PANIZZOLO PANIZZOLO.


UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALFENAS, ALFENAS - MG - BRASIL.

A ênfase na iniciativa de particulares, no que se refere à causa da instrução popular, considerada


caminho para o progresso, era uma constante nas últimas décadas do século XIX. O ensino paulista,
durante a transição do Império para a República, abrigou um modelo de Instituição claramente
diferenciada e geradora de inovações, que foi resultado do trabalho de um grupo de homens que se
formou na Academia de Direito, que se manteve ligado ao longo da vida por laços de amizade,
coleguismo e defesa de um ideário comum, quer seja na imprensa, quer seja nas iniciativas
educacionais. Este trabalho, trata-se de uma pesquisa já concluída e tem por objetivo recuperar o
alcance e os limites desse movimento construído por uma elite progressista que intencionou produzir,
através da propagação da instrução e das inovações do ensino, a modernização de São Paulo. Dessa
forma pretende-se analisar os motivos da criação, a breve trajetória e as prováveis causas do
encerramento da Escola Primária Neutralidade, importante instituição educacional criada em 1885 por
João Köpke, pelo co-diretor Antônio da Silva Jardim e pelo professor Artur Gomes – homens unidos pela
adesão ao partido republicano e aos princípios positivistas. A Escola apresentava-se “ostensivamente
positivista na sua fundamentação, na sua programação e objetivos, e no regime de trabalho” (Hilsdorf,
1986, p.232). Baseada em Comte, a Escola Neutralidade propunha um ensino que as elites progressistas
entendiam como necessário para a formação do espírito e do caráter do homem moderno, pautado na
elevação física, mental e moral da criança, que desenvolvesse os bons sentimentos da infância, através
de processos estéticos e intelectuais, pelos bons exemplos do professor e pela disciplina suavizada.
Dentre seus fundadores destaca-se o papel desempenhado por João Köpke, ao longo das décadas de 70
e 80, uma atuação intensa, profunda e, sobretudo, coerente, abrangendo experiências com o ensino
elementar e o secundário, com a produção de métodos para ensinar a ler e a escrever, bem como com a
produção de leituras voltadas a instruir e moralizar. Como membro da vanguarda liberal e republicana,
João Köpke envolveu-se ativamente com as escolas que almejavam a emancipação cultural da mulher, a
educação científica das elites e o ensino leigo e anticlerical. Embora a escola não apresentasse
problemas financeiros e tivesse estabilizada quanto às matrículas, João Köpke permaneceu à frente da
direção até meados de 1886, passando a direção para Geraldino Campista e Moura Lacerda, e mudou-se
definitivamente para a cidade do Rio de Janeiro.

956
A ESCOLA RURAL EM MATO GROSSO (1889-1920)

MARINEIDE DE OLIVEIRA DA SILVA.


UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO - UFMT, CUIABA - MT - BRASIL.

Durante a primeira República, a educação era considerada como uma ferramenta importante para
alavancar o desenvolvimento do Brasil e tinha como objetivo principal, diminuir o analfabetismo e
fornecer uma formação capaz de despertar o sentimento de nação no povo brasileiro. Esses objetivos
deveriam estar presentes em todas as escolas do país, tanto nos currículos das escolas urbanas, quanto
das escolas rurais. Não se levava em consideração a diversidade de contextos em que essas escolas se
inseriam. Somente a partir de 1920, ganha força no Brasil, com os pioneiros do ruralismo pedagógico, a
discussão sobre as especificidades da escola rural brasileira. Deste modo, o presente trabalho, ainda em
andamento, pretende-se desenhar um quadro da realidade educacional das escolas rurais em Mato
Grosso, identificando o posicionamento do poder público, dos meios de comunicações, da sociedade e

167
dos docentes frente à realidade educacional das escolas rurais mato-grossenses, no período de 1889-
1920. Utilizou-se para execução deste trabalho, o método histórico, em que se analisarão fontes
documentais, disponíveis no Arquivo Público de Mato Grosso, tais como: Relatórios de Presidentes de
Províncias, de Diretores e Inspetores da Instrução Pública, Mensagens, Legislações e Jornais à época,
além de fontes bibliográficas que retratam o cenário em que a temática se insere. O recorte temporal
foi escolhido por abranger um período de grandes transformações sociais e educacionais no Brasil,
principalmente a partir de 1920, quando emergiram no país a luta por uma educação rural diferenciada
e que pudesse proporcionar conhecimentos e habilidades, capazes de tornar o sujeito apto a
trabalharem na terra e tirar dela sua subsistência. Os dados mostram que as escolas rurais em Mato
Grosso, possuíam a denominação, no período em estudo, de escolas isoladas. As escolas isoladas se
localizavam a mais de 3 km das cidades e tinham o objetivo de ministrar a instrução primária para
crianças de 07 a 12 anos de idade. A análise documental indicou ainda que a realidade das escolas rurais
mato-grossenses foi marcada por abandono, falta de alunos, descaso das autoridades locais, escassez de
estabelecimento de ensino, de materiais pedagógicos e de professores diplomados, contrastante com a
realidade da educação ministrada nas cidades. Acredita-se que o mapeamento documental sobre a
realidade das escolas rural em Mato Grosso possa trazer elementos para se compreender a conjunturas
sociais e as correntes de pensamento que permeavam a educação no período de 1889 a 1920.

1082
A ESCOLANORMALOFICIAL DO PIAUI E SUAS CONTRIBUIÇÕES PARA A SACRALIZAÇÃO DA MEMORIA
CIVICA

SALÂNIA MARIA BARBOSA MELO.


UEMA, TERESINA - PI - BRASIL.

O presente trabalho tem como objetivo primeiro apresentar a Escola Normal Oficial do Piauí, enquanto
instituição de ensino, inserida em um contexto histórico de construção da memória cívica, que buscava
atender as exigências ora impostas através de um calendário específico de criação de datas e
“inventando tradições”. Atentando para o fato de que todo este processo faz parte da expansão do
ensino primário, como ação das práticas pedagógicas das normalistas. A conceituação de Cultura Escolar
de Antonio Viñao Frago (1995) que a entende como sendo todos os aspectos do cotidiano escolar,
desde sua materialidade física, seus fazeres, saberes e modos de pensar, portanto com habilidades para
arquitetar hábitos e comportamentos coletivos, possibilitou este olhar interpretativo na tentativa de
empreender um estudo desta Escola e suas contribuições, para a história da memória cívica piauiense
na chamada Era Vargas, de 1930 a 1945, momento histórico em que a educação passa a ser vista como
instrumento de formação e constituição da nacionalidade, o recurso mais lógico é atrelar esse
pensamento ao cotidiano escolar, utilizando-se para tanto das festas cívicas e das disciplinas que
facilitassem a construção do patriotismo como Educação Moral e Cívica, Educação Física, História e
Canto Orfeônico. Para analisarmos a cultura escolar piauiense que pode ter seu início, a partir da
implantação dos grupos escolares como espaço de ação de professores (as) formados (as) na Escola
Normal é necessário, primeiramente compreender que, o que acontece no interior deste ambiente
cultural, que se funda dentro dessa temporalidade por nós buscada, de 1930-1945, na tentativa de
homogeneização de atitudes e padronização de práticas. Adotando como guia analítico o lugar ocupado
e as dinâmicas entre a História da Educação e a História Cultural, como essa rede de significados sociais
que possibilitam vislumbrar sentido neste universo imaginário que é a escola, com todas as suas
representações, através das comemorações cívicas. Este caminhar faz-se metodologicamente pela
História Oral, desta pesquisa ora em andamento, recorrendo-se às lembranças de ex-alunas e ex-
professoras que vivenciaram este momento e ainda, as diversas fontes escritas como os periódicos
locais, O Piauhy, Diário Oficial, o Almanaque da Parnaíba e as Mensagens Governamentais.

168
1199
A FOTOGRAFIA COMO FONTE NA HISTÓRIA DA INSTITUIÇÃO ESCOLAR

MARILDA CABREIRA LEÃO LUIZ; REINALDO DOS SANTOS.


UFGD, DOURADOS - MS - BRASIL.

O estudo ora apresentado utiliza-se da fotografia como fonte para recuperação histórica de uma
instituição escolar pública na cidade de Dourados – MS, no período de 1968 a 2010. Devido à
problemática da ausência de uma cultura de sistematização, organização e tratamento do documento
fotográfico nos arquivos escolares para preservação da história da escola, o mesmo tem como objetivo
sistematizar a imagens fotográficas das ações da Escola Estadual Rotary Dr. Nelson de Araújo de
Dourados – MS em arquivo escolar, para recuperação da sua história e memória. A investigação está
sendo realizada com o auxilio da tecnologia para a captura e escaneamento das fotografias das
atividades realizadas pela escola. O interesse por essa temática é um desafio que se coloca, uma vez que
há poucos estudos preocupados com a história e memória através das imagens. As imagens parecem
mudas, mas tem muito a nos dizer, como pontua Burke (2004)sobre fotografias, as quaismostram
aspectos do passado que outras fontes não conseguem revelar, principalmente nos casos em que os
documentos textuais são raros e poucos. Imagens fotográficas são registros através dos quais os
historiadores podem estabelecer diálogos, indagar e realizar estudos. Além da dedicação à luz das
teorias que a literatura propicia sobre o tema, a pesquisa conta com o apoio do documento CONARQ
(Conselho Nacional de Arquivos), o qual determina as recomendações para digitalização de documentos
arquivisticos permanentes. O andamento da pesquisa até o momento, se constitui nas leituras
bibliográficas, levantamentos e coleta de dados da escola campo da pesquisa, captação, catalogação,
atribuição de ementa, seleção, tratamento e digitalização das imagens fotográficas, as quais serão
submetidas à análise, para sistematização do relatório final da pesquisa. A apresentação dos dados
coletados através de uma amostragem das imagens fotográficas é de fundamental importância pelo
valor informacional fixado em seu conteúdo, onde seu valor de evidência varia segundo as
circunstâncias diferenciadas de criação do documento. O estudo proposto é desafiador, mas relevante e
fundamental na recuperação da história da instituição escolar e, como intervenção fomentar na escola
pesquisada uma cultura de organização nos arquivos escolares do documento fotografia, que se destaca
como uma nova fonte de pesquisa a partir do século XIX. Para sistematização do relatório final da
pesquisa proposta, será de grande valia para o momento, o olhar de outros pesquisadores da Historia da
Educação.

518
A FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS: UMA INSTITUIÇÃO AMBIVALENTE?

VÂNIA CLAUDIA FERNANDES.


UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO, RIO DE JANEIRO - RJ - BRASIL.

O objetivo deste estudo é reconstruir o processo de criação da Fundação Getulio Vargas, uma das mais
importantes instituições educacionais do país. Criada em 1944, por decreto-lei baixado pelo então
presidente da República Getúlio Vargas, a FGV é uma instituição privada que surgiu para desenvolver
atividades diversas, inclusive atividades próprias de Estado, como subsidiária do Poder Público.
Reconhecida nacional e internacionalmente pelos inúmeros projetos pioneiros desenvolvidos em
diversas áreas pelo ensino, pelo cálculo de indicadores econômicos, pela pesquisa, pela consultoria e
pelas publicações. No campo do ensino marcou sua atuação nos níveis fundamental, médio e superior.
Inicialmente desenvolveu suas atividades no Rio de Janeiro, expandindo-se posteriormente para São
Paulo e, mediante convênios, passou a atuar em outras capitais e no interior do país. A instituição
passou a oferecer cursos de graduação em Economia, Administração, Direito e Ciências Sociais, no Rio
de Janeiro. Em São Paulo, são oferecidos os mesmos cursos, com exceção de Ciências Sociais. Na pós-
graduação, no Rio de Janeiro, a FGV oferece Mestrado e Doutorado em Administração, Economia,
História, Política e Bens Culturais. Em São Paulo, há cursos de Mestrado e Doutorado em Administração
e Economia; e, somente Mestrado, em Direito. A análise foi realizada pela ótica da tensão entre o

169
público e o privado, procurando explicitar a estreita relação entre a FGV e o Estado, conceituada, neste
estudo, como “anéis burocráticos”. A compreensão deste objeto e sua relação com o poder tiveram
suporte nos estudos da Sociologia das Organizações, em autores como Max Weber, Fernando Henrique
Cardoso, Luiz Carlos Bresser Pereira, Sonia Fleury, Eli Diniz e Beatriz Wahrlich. Além disso, foram
examinados documentos legais, registros institucionais e relatórios financeiros relativos à instituição. Os
estudos sobre a Fundação Getulio Vargas, realizados por ela ou por terceiros não abordam a instituição
pela ótica da tensão entre o público e o privado. Contrariamente a essa prática, este estudo tem a
intenção de trazer contribuições para a compreensão da instituição em foco, por um prisma diferente
do usualmente empregado. O estudo permitiu concluir que a construção da marca FGV resultou,
principalmente, do forte investimento público, da proteção da concorrência em função de realizar
serviços para a área governamental e pelos fortes “anéis burocráticos” mantidos durante décadas com o
Estado e não apenas pela capacidade empreendedora de seus gestores. Palavras-chave: História das
Instituições Educacionais; público e privado; FGV.

625
A GÊNESE DOS CURSOS DE FILOSOFIA E PEDAGOGIA DA FACULDADE CATÓLICA DE FILOSOFIA DE RIO
GRANDE E A PARTICIPAÇÃO FEMININA NA DÉCADA DE 1960

JOSIANE ALVES DA SILVEIRA.


UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS, RIO GRANDE - RS - BRASIL.

Este artigo destaca uma breve história institucional da Faculdade Católica de Filosofia de Rio Grande,
criada em 1960 pela Mitra Diocesana de Pelotas e integrada à Universidade do Rio Grande em 1969,
hoje Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Visa apresentar a importância da Faculdade de
Filosofia e dos primeiros cursos de Filosofia e Pedagogia na formação de docentes do sexo feminino.
Esse objetivo surge do estranhamento propiciado pelos documentos, até então pesquisados, que
demonstram a baixa procura feminina nos cursos superiores da cidade até a criação da Faculdade de
Filosofia. A partir de então, investiga a possibilidade dos novos cursos dessa instituição terem propiciado
o aumento da procura feminina pelo ensino superior. Sendo assim, em Rio Grande, a presença das
mulheres no ensino superior teria começado a se acentuar na década de 1960, resultado da própria
inserção tardia de uma faculdade voltada para formação de docentes na cidade. Tal enfoque instiga a
pesquisa, ainda em fase inicial, que se pretende expandir para qualificação do Mestrado em Educação.
Para tanto, busca novos vestígios em diferentes documentos, tanto impressos quanto orais, estes ainda
por serem explorados. Os documentos até então manuseados foram encontrados no NUME (Núcleo de
Memória Engenheiro Francisco Martins Bastos), localizado no campus cidade da FURG, tais como:
decretos, pareceres, relatórios e fotos. Em um segundo momento pesquisou-se no Diário Rio Grande, de
1960 e 1961, único jornal do período em estudo, encontrado no acervo da Biblioteca Rio-Grandense.
Por fim, a pesquisa estendeu-se pelo Arquivo Geral da FURG, onde foi encontrado um caderno de atas
da Faculdade de Filosofia, do período de 1961 a 1970. A utilização da História Oral e de temáticas que a
envolvem, como memórias e representações, apresentam-se como novos desafios a serem explorados.
Sabe-se que a diversificação das fontes é fundamental em História da Educação, porém alguns cuidados
são indispensáveis no seu tratamento. Para tanto, na análise das diferentes fontes busca-se
embasamento teórico-metodológico em Carla B. Pinsky, Dario Ragazzini, Justino P. Magalhães, Sandra J.
Pesavento, Verena Alberti, entre outros. Enfim, até o momento a pesquisa constata a marcante
presença de mulheres qualificadas na Faculdade de Filosofia, como um diferencial em relação às demais
Faculdades criadas na cidade. Assim, pretende manter viva a memória dessa instituição que pode ter
representado a gênese da formação, em nível superior, de mulheres-docentes na cidade do Rio Grande.

170
1393
A GÊNESE E A IMPLEMENTAÇÃO DA EDUCAÇÃO MÉDICA NA CIDADE DE UBERLÂNDIA, MINAS GERAIS
1 2
ALUÍSIO JOSÉ ALVES ; GERALDO INACIO FILHO .
1.FACED/UFU, UBERLANDIA - MG - BRASIL; 2.UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA, UBERLÂNDIA -
MG - CANADÁ.

Esta comunicação tem por objetivo apresentar um projeto de pesquisa em andamento cujo título
provisório é A HISTÓRIA DO CURRÍCULO E DAS PRÁTICAS PEDAGÓGICAS DA ESCOLA DE MEDICINA E
CIRURGIA DE UBERLÂNDIA NO PERÍODO 1968-1973, bem como seus resultados parciais. A história da
medicina e a história da educação médica A riqueza e a densidade da história da medicina tem sido
sobejamente demonstradas em publicações e eventos, notadamente os que são promovidos pela
Sociedade Brasileira de História da Medicina e pelo Instituto Mineiro de História da Medicina. Por isso, a
criação de espaços para a discussão de processos e movimentos que habitam essa categoria da história,
como é o caso da educação, da formação de médicos, pode ser muito promissora. Algumas publicações
da ABEM, Associação Brasileira da Educação Médica, e discussões nos congressos de educação médica,
permitem inferir que o tema currículo, embora abordado com freqüência, mantem distanciamento da
pesquisa historiográfica desse artefato pedagógico. Por se tratar de um ramo profissional com forte
influência e poder de intervenção na vida tanto no aspecto particular quanto no coletivo, espera-se que
novas análises permitam elucidar quais tem sido os caminhos percorridos pelas instituições formadoras
de médicos recebam novos impulsos por parte de pesquisadores que se dedicam à história da educação.
Qual a justificativa para se abordar a história da educação médica? Não escapa ao olhar interessado de
quem pesquisa o tema, em sua totalidade, que os historiadores e memorialistas da medicina ou da
educação, em sentido geral, tem deixado intocadas as oportunidades de se construir instrumentos e
categorias epistemológicas que permitam abordar a história da educação médica. A pesquisa, objeto
desta comunicação, visa a construção de algumas propostas para essa lacuna historiográfica e
historiológica. Considerações finais O que está em andamento é a escrita da história da Escola de
Medicina e Cirurgia de Uberlândia, identificando a organização do seu currículo escolar e as eventuais
reformas que promoveu nesse artefato no período em que foi formada a primeira geração de médicos
pela instituição, de 1968 até 1973. Buscar-se-á também identificar e descrever os motivos históricos e
políticos que levaram à criação da atual Faculdade de Medicina de Uberlândia. Foram encontradas
peças documentais que permitam realizar a historiografia da Escola nos seus primeiros seis anos de
funcionamento. O primeiro resultado é a conclusão do inventário de fontes primárias, cuja soma
ultrapassa 2.000 páginas de documentos. As referências para esta fase da pesquisa são: currículo e
grades curriculares vigentes de 1968 a 1973, Atas de reuniões, Planos de aulas, Curriculi de professores
atuantes no período pesquisado, Relatórios diversos, Livros de protocolos, Registros na imprensa,
Cadernos escolares, Publicações internas, dentre outros.

516
A HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO NO MEIO RURAL NO MUNICÍPIO DE UBERLÂNDIA-MG (1950 A 1979)

SANDRA CRISTINA FAGUNDES DE LIMA.


UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA, UBERLANDIA - MG - BRASIL.

A nossa pesquisa tem como tema a história do ensino rural desenvolvido no município de Uberlândia-
MG durante os anos 1950 a 1979. Embora tenha exercido papel fundamental na alfabetização das
crianças até o final da década de 1960, esse ensino ficou relegado a um segundo plano tanto por meio
dos investimentos do poder público que, insuficientes para equipar e dotar as instituições rurais de
ensino das condições favoráveis ao atendimento da população rural, não garantiam o seu pleno
funcionamento, quanto pela relativa ausência de estudos e pesquisas acadêmicas sobre a história da
educação rural. No entanto, até princípio dos anos 1960 era no meio rural que mais de 60% dos
brasileiros se alfabetizavam, posto que trabalhavam e residiam no campo. A opção pelo recorte
cronológico incidiu sobre a necessidade de apreender a história do ensino rural em Uberlândia em sua
trajetória de consolidação até a sua transformação no final dos anos 1970, com o processo de

171
nucleação, responsável pela extinção de algumas escolas e pela ampliação de outras com a
incorporação de alunos e professores dos estabelecimentos extintos. Como “ensino rural”
compreendemos nesta pesquisa, além das iniciativas de ensino formalmente ministradas nas
instituições escolares instaladas na zona rural, as atividades informais por meio das quais os campesinos
adquiriam os rudimentos das “primeiras letras”. Como se efetivava esse processo? Quem eram os
professores? Quais os materiais didáticos empregados? O que se ensinava? São respostas a estas
perguntas que buscamos com essa investigação. O Objetivo geral de nossa pesquisa consistiu em
apreender a história do ensino rural desenvolvido no município de Uberlândia-MG. Decorrem daí os
seguintes objetivos específicos: pesquisar as práticas desenvolvidas nos estabelecimentos rurais de
ensino; apreender os processos de ensino não escolar implementados no meio rural e por meio dos
quais os sujeitos entravam em contato com as primeiras letras; analisar as representações construídas
do ensino rural por aqueles que freqüentaram escolas rurais e/ou se alfabetizaram informalmente fora
dos estabelecimentos de ensino. Empregamos como fontes de pesquisa: jornais e revistas; atas do
legislativo, atas de reuniões escolares; livros de matrículas; cadernos de alunos; fotografias; entrevistas
com ex-alunos, ex-professores, ex-diretores de escolas, fazendeiros e lavradores. Ao elegermos a
história do ensino rural no município de Uberlândia como foco dessa investigação, acreditamos ser
possível ampliar os conhecimentos acerca da história da educação em Minas Gerais e com isso
contribuir para a compreensão de alguns dos atuais problemas que perpassam a educação no Estado e
assim indicar possíveis caminhos para solucioná-los

684
A HISTÓRIA DA UFRRJ E AS MARCAS DEIXADAS NA EDUCAÇÃO PÚBLICA DE SEROPÉDICA

MARIA ANGÉLICA COUTINHO.


UFRRJ, RIO DE JANEIRO - RJ - BRASIL.

A HISTÓRIA DA UFRRJ E AS MARCAS DEIXADAS NA EDUCAÇÃO PÚBLICA DE SEROPÉDICA Maria Angélica


da Gama Cabral Coutinho / UFRRJ angelica@ufrrj.br m_angelicacoutinho@yahoo.com.br Palavras-
chave: história da UFRRJ – escola pública - Seropédica Eixo temático 2: História das Instituições e
Práticas Educativas O trabalho ora em questão refere-se a uma pesquisa em andamento que busca
investigar a História da escola pública no município de Seropédica e sua relação com a Universidade
Federal Rural do Rio de Janeiro. A região de Seropédica desenvolveu-se a partir da instituição da Escola
Superior de Agronomia e Medicina Veterinária – a ESAVM – em 1910, e atualmente tem sua identidade
definitivamente marcada por esse projeto educacional. A instituição educacional nasceu para atender
uma clara vocação rural, e em cumprimento às demandas e exigências de conhecimento na área
técnica. Mas com o passar do tempo, inexorável e contundente, a universidade dobrou-se à realidade
do crescimento populacional e urbano, admitindo paulatinamente a implementação de cursos de
licenciaturas em seu Campus original. “Universidade” deve ser entendida como a instituição que busca
um conhecimento universal, científico e humanista, que desconhece fronteiras sociais e políticas. Ela
reflete uma dada condição real, pois é fruto da construção histórica de um povo. O trabalho busca
compreender como a criação dos novos cursos da instituição de ensino superior, sobretudo das novas
licenciaturas, refletiu-se sobre as escolas do município universitário. A investigação vai procurar
perceber o processo de crescimento da rede escolar, traçando um paralelo com a expansão da
universidade e de suas unidades, em especial a multiplicação dos cursos de licenciaturas e se tal
realidade refletiu-se na formação dos professores da região municipal. O trabalho deseja contribuir para
a construção da História das Instituições Escolares de Seropédica permitindo que se compreenda a
educação pública que se apresenta no município, de que maneira a universidade colaborou para o
desenvolvimento da educação básica de uma região marcada por sua existência. A pesquisa através do
exame da trajetória histórica da UFRRJ, especialmente dos cursos de licenciatura, quer analisar as
escolas municipais, quem são seus professores, em que nível de formação esses docentes se encontram,
e como essa escola se insere nessa região, e se articula a essa sociedade, especialmente com a
Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. A investigação apoiar-se-á em pesquisa dos arquivos
municipais, tanto nos da cidade de Seropédica quanto no do município de Itaguaí, do qual se emancipou
em 1997. A História Oral também será utilizada a fim de compreender a situação da educação pública

172
municipal e de seu processo de desenvolvimento, através dos relatos de professores e gestores, além
dos depoimentos de moradores da região.

810
A HISTÓRIA DAS CRIANÇAS MARGINALIZADAS NA AMAZÔNIA: A EXPERIÊNCIA DO INSTITUTO
PARAENSE DE EDUCANDOS ARTÍFICES (1870-1899)

ANDRESON CARLOS ELIAS BARBOSA.


UFPA, BELÉM - PA - BRASIL.

A pesquisa que ora apresentamos, em processo franco de investigação, tem como objeto de estudo o
Instituto Paraense de Educandos Artífices, legalmente criado em 1870, inaugurado dois anos depois,
localizado em Belém, capital da Província do Pará, destinado ao atendimento de crianças e jovens
desfavorecidos. Objetivamos compreender, a partir de registros de jornais que circulavam na cidade de
Belém, a percepção que a população local tinha das crianças consideradas desvalidas e/ou menos
favorecidas, assim como das políticas estabelecidas pelo governo da Província paraense no período
imperial para atendê-las, de modo a compreender a relação da condição dessas crianças, e as
representações que sobre elas circulavam, com a construção da nação brasileira. As questões que
norteiam o processo de investigação são: 1) Quem eram as crianças que a legislação do Brasil imperial
chamava de desvalidas, de menos favorecidas? 2) Qual a relação desses crianças com o Estado e deste
para com essas crianças? 3) Que políticas públicas foram pensadas no sentido de garantir o atendimento
a essas crianças? 4) Qual a importância do Instituto Paraense de Educandos Artífices no contexto
apresentado? e 5) Como a sociedade da capital da província do Pará percebia essas crianças? As fontes
utilizadas são os relatórios de província do período de 1870 a 1889, final do Segundo Império, e os
documentos relacionados ao Instituto Paraense de Educandos Artífices, disponíveis no Arquivo Público
do Pará. Fontes secundárias, sistematizadas e exploradas em um trabalho de construção do Estado da
Arte sobre o tema, também servem de ferramentas para a compreensão mais apurada do objeto. O
Instituto Paraense de Educandos Artífices era uma instituição “enquadrada” na mentalidade do final do
século XIX, ao transformar a assistência social caritativa (ligada principalmente aos ideais religiosos) em
filantrópica, com caráter mais cientifico. Ele se punha, para os homens de letras e governantes, como
uma instituição capaz de promover práticas civilizadoras na população paraense, antropologicamente
“marcada” pela mestiçagem. Sob a regência do ideal civilizador, as atividades pedagógicas do Instituto
eram extremamente moralistas e disciplinadoras. Tais práticas não ocorriam sem a participação da
sociedade de um modo geral. Nos jornais da cidade cidadão comuns se manifestavam a respeito das
regras que regiam o funcionamento daquela instituição, tanto quanto do seu sentido na formação da
população já pensada com base nos ideias da modernidade e da constituição da nação.

1384
A HISTÓRIA DAS INSTITUIÇOES ESCOLARES: UMA ANÁLISE NO MUNICÍPIO DE IRATI-PR

VERÔNICA BARBOSA FURMANOWICZ; CLAUDIA MARIA PETCHAK ZANLORENZI.


UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CENTRO OESTE - UNICENTRO, IRATI - PR - BRASIL.

O estudo da História da Educação nos leva a fazer reflexões sobre os conceitos presentes na educação,
acompanhando as transformações, evoluções, revoluções e modificações que ocorreram no decorrer
dos processos históricos acontecidos no âmbito educacional. Neste sentido, é possível, mais
especificamente, entender aspectos sociais, políticos, econômicos e culturais que envolvem os mais
variados contextos educacionais, como por exemplo, a História das Instituições Escolares. Pesquisar
sobre as instituições escolares é um tema que não se esgota, diante disso, tem-se observado um
crescente aumento no interesse em investigar esse assunto específico, pois conhecer a história das
instituições escolares é de grande valia para a compreensão da educação e seus reflexos nos diversos
ambientes. Compreender a origem da escola permite decifrar os motivos pelos quais ela passou a
existir, como também, as questões socioeconômicas que envolvem a instituição e o conjunto de valores

173
e cultura dos sujeitos envolvidos, compreendendo como isso se refletem nas práticas da escola. A
pesquisa histórica de determinada instituição de ensino permite identificar a identidade da instituição,
que a torna única, e singular; e, ainda, as características da educação praticada em uma dada sociedade
e de seus interesses, possibilitando perceber como as escolas servem de instrumentos de disseminação
de valores. Este artigo apresenta estudos de uma pesquisa que está sendo realizada como Trabalho de
Conclusão do Curso de Pedagogia – UNICENTRO- PR, tendo como tema a história das Instituições
Escolares, e como objetivo central investigar a criação do Primeiro Grupo Escolar em Guamirim,
comunidade localizada no interior da cidade de Irati-PR, fundado em 1947. A contribuição que este trará
para os interessados neste assunto será de um esclarecimento sobre fatos históricos que delineiam a
história do Grupo e da comunidade de Guamirim, valorizando-se a história local e contribuindo assim
para que possa se descobrir um pouco mais do surgimento do Grupo que foi uma das primeiras
instituições escolares que beneficiaram a comunidade. Para este artigo estamos priorizando três
momentos principais. Primeiramente, será abordado sobre a educação na república, os ideais
republicanos e a criação dos grupos escolares. Num segundo momento, será relatado sobre a Educação
em Irati-PR, a formação do município, a educação no município, fazendo um breve histórico, para no
terceiro momento ser discorrido sobre a educação no distrito de Guamirim, contemplando a formação
do distrito e a formação do Primeiro Grupo Escolar desta localidade. interesses, possibilitando perceber
como as escolas servem de instrumentos de disseminaços sujeirtante a pesquisa voltada pConsidera-se,
ao final, que este trabalho venha contribuir com o conhecimento sobre a história das Instituições
Escolares, como também com a história da educação do Paraná.

915
A IMPLEMENTAÇÃO DO JARDIM DE INFÂNCIA EM MATO GROSSO (1910 - 1930)

ELTON CASTRO RODRIGUES DOS SANTOS.


UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO - UFMT, CUIABA - MT - BRASIL.

Com a revolução industrial e inserção da mulher no mercado, muitas creches são instaladas para
atender aos filhos dos operários. As creches surgiram, inicialmente, como uma medida paliativa diante
da crescente urbanização e possuíam dois objetivos: atender às camadas populares e liberar a mão-de-
obra feminina para melhorar o rendimento do trabalho. As primeiras creches construídas no Brasil
tinham a incumbência de reduzir os altos índices de mortalidade infantil, através de um atendimento
prioritário, fornecimento de abrigo, alimentação e cuidados médico para as crianças pobres. Na metade
do século XX, exitiam no Brasil 47 instituições entre creches e jardins de infância espalhadas pelo país,
principalmente nas capitais. Entretanto, os estudos mostram que o primeiro jardim de infância
brasileiro, criado em 1875, não se destinou a atender às famílias operárias. Era uma instituição de
origem privada que funcionava em um bairro nobre do Rio de Janeiro, atendendo a crianças entre 3 e 6
anos pertencentes à elite carioca. O primeiro jardim de infância público brasileiro, do período
republicano, começou a funcionar em 18 de maio 1896, anexo à Escola Normal Caetano de Campos, em
São Paulo. Seu modelo educacional refletia os ideais liberais do fim do século XIX, sendo essa instituição
destinada, praticamente, às camadas abastadas da população, assim, não tinham qualquer
representatividade quantitativa. Diante do explicitado, pretende-se com esse trabalho desvendar
quando se iniciou o atendimento educacional para crianças entre 3 a 6 anos em Mato Grosso no período
entre 1910-1930, pautado na análise de documentos, tais como relatórios de Presidentes de Províncias,
de Diretores e Inspetores da Instrução Pública, mensagens, legislações e jornais à época. O período
delimitado justifica-se pelo ato de criação dos Jardins de Infância através do Decreto n°. 533 de 04 de
junho de 1910 até o final do período republicano (1930). Pressupõe-se que a implantação desse modelo
escolar de atendimento às crianças de 0 a 3 anos esbarrou com a falta de recursos, prédios apropriados
e professores qualificados para atender essa demanda. Esse trabalho é resultado parcial de uma
pesquisa em andamento que objetiva desvendar a implantação e implementação dos Jardins de Infância
em Mato Grosso. As análises preliminares indicaram que a implantação do atendimento às crianças na
idade pré-escolar em escolas públicas não se consolidou na prática, havendo somente indícios de sua
existência em instituições particulares.

174
1092
A IMPORTÂNCIA DOS CLÁSSICOS PARA A FORMAÇÃO DOCENTE: UM ESTUDO DE CANDIDO E AS
BODAS DE FÍGARO

JOSIANE SCHINAIDER.
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MARINGÁ, OURIZONA - PR - BRASIL.

Este estudo é uma analise de duas obras da literatura francesa Candido de Voltaire e As bodas de Fígaro
de Beaumarchais. Seu intuito é refletir sobre a contribuição dos clássicos na formação docente. O
aspecto que explicitaremos, neste trabalho, incide no fato de que, a formação ética e moral das crianças
estão, cada vez mais, fazendo parte das atividades do docente, em sala de aula. Na organização do
planejamento dos conteúdos a serem ensinados pelo professor, temas como regras de convivência,
respeito aos diferentes, passaram a ser atos cotidianos da docência. Parte fundamental da educação
não formal tornou-se, hoje, também responsabilidade do professor (a). São os docentes que estão
ensinando às crianças princípios essenciais de convívio social. Diante desta realidade, o professor
necessita ser exemplo de ética e cidadania. Ele (a) precisa conhecer a realidade de seus alunos,
estimular o raciocínio, a reflexão e, principalmente a leitura e o gosto pelo conhecimento. Mas como os
professores podem realizar esta tarefa, se eles próprios não são educados dessa forma, não aprendem a
ensinar assim? Por constatarmos a falta de leitura, de contato com obras completas, a falta de
conhecimento dos clássicos desde o ensino fundamental até a graduação é que elaboramos o tema que
norteia nosso trabalho de conclusão do curso de pedagogia (TCC) e que ora apresentamos como
proposta de comunicação: Qual a importância da leitura dos clássicos para a formação docente? Para
responder a essa questão fazemos a leitura dos textos de Voltaire e de Beaumarchais. Analisamos nas
duas obras, já mencionadas, a universalidade dos conhecimentos que perpassam a História e são usados
ainda hoje na formação da sociedade e, principalmente, na formação do ser humano. Ambas trazem um
momento de maturação da sociedade burguesa, na qual os homens explicam os acontecimentos como
sendo fruto das relações sociais, portanto, ações das pessoas e não como resultantes da vontade divina.
O homem, desta sociedade, representados nas duas obras, começa a se desprender da religião e trazer
para si a responsabilidade pela sua condição, homens que, por eles próprios, traçam seus caminhos.
Essas obras destacam importantes valores e compromissos sociais que são fundamentais a existência do
convívio social, independente do tempo histórico. Todavia, é preciso destacar que estas obras se
constituem em fontes de pesquisa e podem ser exemplos da história, para nós, em virtude do nosso
caminho teórico que trilhamos. Lemos os autores e consideramos a história da educação, por meio da
lente da História social e pensamos o homem no tempo da longa duração. É, pois, sob esta perspectiva
que afirmamos que estas obras servem de base para o educador na atualidade.

945
A INFLUÊNCIA DA IGREJA CATÓLICA SOBRE AS PRÁTICAS EDUCATIVAS DA ESCOLA ESTADUAL “JOÃO
DOS SANTOS”: UMA ANÁLISE A PARTIR DA HISTÓRIA ORAL

ADÉLIA CAROLINA BASSI.


UFSJ, SAO JOAO DEL REI - MG - BRASIL.

A escola se relaciona diretamente com a memória, pois é, genuinamente, lugar de construção de


conhecimento. Nela são deixadas impressões, experiências e subjetividades. Analisar os fragmentos de
memórias, diferentes tipos de relatos e versões pode ser possível com o auxílio da História Oral. O
presente estudo apresenta resultados parciais de minha dissertação de mestrado, propondo-se inserir
esta comunicação no eixo temático “História das Instituições e Práticas Educativas”. Tem como objetivo
compreender a relação entre uma instituição de ensino e a religiosidade em São João Del-Rei, mais
especificamente a Escola Estadual “João dos Santos”. O período tomado como recorte cronológico vai
de 1934 a 1942, estipulado a partir da disposição de fontes documentais e orais. A centenária escola
aqui pesquisada tem suas origens ligas à Reforma João Pinheiro, de 1906, que se constituiu numa ampla
tentativa de remodelação do sistema escolar. Fundada em 26 de julho de 1908, recebeu o nome de
“João dos Santos” em memória ao pai de João Batista dos Santos, Visconde de Ibituruna, ex-presidente

175
da Província de Minas Gerais. Com o intuito de identificar as práticas educativas que estavam a serviço
do ideário Católico e compreender como se propagavam os preceitos religiosos na instituição, a
pesquisa toma como fontes as “Atas de Exames e Promoções”, única documentação existente no
estabelecimento, os cadernos escolares produzidos pelos estudantes, os jornais em circulação na cidade
e na instituição naquele período, e as entrevistas realizadas com ex-alunos da escola. Por isso, recorre-
se à História Oral, pois esta permite ao historiador construir evidências históricas a partir de visões
heterogêneas de diferentes narradores. A análise dos acontecimentos e relações estabelecidas entre
professores e alunos em classe permite revelar parte da história das práticas educativas passadas.
Sendo assim, como subsídio e fonte de informações, tem-se a memória de dois ex-alunos entrevistados
– e que estiveram na referida escola no período pesquisado – constituindo o principal material de
pesquisa. Fontes orais revelam, portanto, visões particulares de processos vividos coletivamente. A
singularidade é, pois, a principal potencialidade na utilização da História Oral. Deste modo, como
resultados preliminares do estudo, encontra-se a recorrência dos discursos morais e religiosos
vinculados na imprensa local e no próprio jornal produzido na escola. Tais discursos podem ser
observados nas práticas em sala de aula através das entrevistas e, principalmente, dos cadernos
produzidos pelos ex-estudantes. Reconstruir as práticas educativas que marcaram uma época é de suma
importância para a reflexão dos caminhos trilhados pela educação. O cotidiano, nem sempre encarado
como histórico, é nesse sentido, visto como fundamental artefato do fazer histórico.

1296
A INFÂNCIA NA CRIAÇÃO MUSICAL DE CÁTIA DE FRANÇA INSPIRADA EM JOSÉ LINS DO REGO

HAROLDO RESENDE.
UFU, UBERLÂNDIA - MG - BRASIL.

José Lins do Rego (1901–1957), romancista paraibano, desenvolveu conteúdos de cunho regionalista em
sua literatura, tendo como cenário histórico-geográfico a várzea do Paraíba e seus engenhos, sendo
possível afirmar que, não se detendo à região nordestina, em sua configuração geográfica apenas,
tratou também da composição social e da cultura regional, lançando um olhar sobre o homem,
habitante daquela região, no contexto das relações histórico-políticas. A cantora-compositora Cátia de
França, também paraibana, na esteira de suas leituras de José Lins do Rego transpõe traços deste
escritor para a sua própria obra, delineando a cultura popular nordestina em sua música e
estabelecendo ligações de elementos regionais, como tipos populares, folclóricos e caracteristicas
político-geográficas. Assim, suas composições, ao trazerem espaços, costumes, paisagens,
temporalidades e, sobretudo, a sociabilidade infantil do acervo literário de José Lins para sua criação
dão visibilidade a formas de se viver a experiência da infância em determinados espaços e tempos. Os
próprios arranjos de suas canções, com o uso da sanfona, da zabumba e do triângulo, trazem a
sonoridade regional nordestina para seu universo, aliando-o à criação do escritor. Assim, este trabalho
tem como objetivo estabelecer referenciais de análise histórica sobre a infância na criação musical da
cantora-compositora Cátia de França, de modo especial, a partir de composições que tenham como
substrato aspectos da obra do escritor. No recorte operado neste texto, o corpus documental será
delineado pelas composições dos dois primeiros LPs da cantora, cuja elaboração musical encontra-se
respaldo na obra de José Lins do Rego. A partir deste acervo, busca-se apreender como a literatura
apropriada pela música se torna um elemento-chave na representação da infância em sua criação
musical, ao mesmo tempo há a possibilidade de perceber significados sociais da experiência de ser
criança num universo de simbólico que informa, expressa, comunica, de modo a constituir percepções
singulares da dimensão humana. A literatura, assim como a música e o entrecruzamento de ambas são
entendidas como modos de descrição da realidade, como formas de enxergar, de conhecer o mundo.
Trata-se de expressões de vida, são registros de vida. Trata-se de narrativas do sensível, do simbólico, de
testemunhas da sensibilidade e da razão humanas, ancoradas num tempo determinado. Ao mesmo
tempo, pode-se dizer que, pelas narrativas literária e musical existe a possibilidade de o sujeito
(escritor/compositor/leitor/ouvinte) perceber-se no mundo, relacionar-se com o tempo e com as
representações presentes nesse tempo, dando a ver, na singularidade deste trabalho aspectos da
infância e da socialbilidade infantil nas terras nordestinas do início do século XX.

176
775
A INSTALAÇÃO DO ABRIGO PROVISÓRIO PARA MENORES ABANDONADOS DE SANTA FELICIDADE E A
APOLOGIA À INFÂNCIA POBRE NOS DISCURSOS QUE O ANTECEDERAM (CURITIBA, 1940-1950)

JOSEANE DE FÁTIMA MACHADO DA SILVA.


UFPR/SME, CURITIBA - PR - BRASIL.

O presente texto tem como objetivo analisar e compreender como se concretizou a instalação do Abrigo
Provisório para Menores Abandonados de Santa Felicidade e os discursos em apologia à infância pobre
que antecederam o seu surgimento. O tema proposto não se configura em uma pesquisa isolada, mas é
um dos aspectos abordados na dissertação de mestrado concluída no ano de 2009 e intitulada "Abrigar
o corpo, cuidar do espírito e educar para o trabalho: Ações do Estado do Paraná à infância do ‘Abrigo
Provisório para Menores Abandonados’ ao ‘Educandário Santa Felicidade’ (Curitiba, 1947-1957)", na
linha de História e Historiografia da Educação, do Setor de Educação da UFPR. Nesse sentido, se insere
no eixo temático História das Instituições e Práticas Educativas. A metodologia empregada ancora-se
teoricamente nas proposições de Bloch (2001), quando afirma que: a História é a ciência dos homens,
no tempo; a faculdade de apreensão do que é vivo é a qualidade mestra do historiador; reunir os
documentos que estima necessário é uma das tarefas mais difíceis do historiador; de todos os venenos
capazes de viciar o testemunho, o mais virulento é a impostura; uma palavra deve dominar e iluminar
nossos estudos: compreender; as mudanças das coisas estão longe de acarretar sempre mudança
paralela em seus nomes e reciprocamente acontece dos nomes variarem no tempo ou no espaço,
independente de qualquer variação nas coisas; tudo, as causas, em história como em outros domínios,
não são postuladas, são buscadas. Para tanto, as fontes se centram em quatro acervos: Arquivo Público
do Paraná; Arquivo da Biblioteca Pública do Paraná; Arquivo da Secretaria de Estado da Infância e
Juventude; Acervo de imagens da Casa da Memória de Curitiba. Diante da análise das fontes na
perspectiva da História Sociocultural pode-se considerar que o episódio de um Posto de Higiene e Saúde
ter se transformado, antes mesmo de sua inauguração, em um “Abrigo Provisório de Menores
Abandonados”, não foi ocasional e aponta para uma indagação: em que contexto e sob que
pressupostos se delineariam a criação de tal instituição? Assim a instalação do Abrigo Provisório para
Menores abandonados de Santa Felicidade pode ser compreendida a partir da análise dos discursos que
antecederam o seu surgimento já que há indícios de que a década de 1940 inaugurou um período de
mudanças tanto no plano estrutural da cidade, como no social. Ocorreu um período de alargamento da
assistência à infância pobre curitibana, no qual a filantropia esteve ao lado das iniciativas
governamentais de amparo e proteção à infância.

1377
A INSTITUCIONALIZAÇÃO DA CRIANÇA ÓRFÃ: ORFANATOS ESPÍRITAS NO TRIÂNGULO MINEIRO,
MINAS GERAIS (1964-1990)

MARIA APARECIDA AUGUSTO SATTO VILELA.


PONTIFÍCIAUNIVERSIDADE CATÓLICA, SÃO PAULO - SP - BRASIL.

Este texto tem como proposta historiar a presença do orfanato espírita Lar da Criança em Ituiutaba-MG,
Minas Gerais, no período que vai da proposta de sua criação, em 1953, até o início de seu
funcionamento, em 1969. Esta periodização é marcada pela introdução da Política Nacional do Bem-
Estar do Menor, com a lei 4.513 de 01/12/64. A atenção à institucionalização da criança órfã chamou-
nos atenção, pois se associou muitas vezes à institucionalização da criança desvalida, principalmente
quanto à organização dessa institucionalização por parte de algumas associações espíritas, com ênfase
na segunda metade do século XX. No triângulo mineiro, as iniciativas partiram de associações espíritas
que construíram orfanatos, em algumas cidades, quase sempre obedecendo a princípios comuns, como:
a quase ausência de incentivo público; as campanhas filantrópicas junto à comunidade; e o acolhimento
de crianças órfãs da região, opondo-se ao Estado que visava principalmente à institucionalização do
menor infrator. Desse modo, entender a história regional significa posicioná-la num quadro mais amplo,
no qual são inseridas as mudanças que ocorrem no âmbito local. É nessa perspectiva, que entendemos o

177
funcionamento dos Orfanatos Espíritas, instalados no Triângulo Mineiro, na segunda metade do século
XX. Assim, verificamos que enquanto a movimentação nacional de institucionalização do menor,
promovida pelo Estado, preocupava-se sobremaneira com a questão do menor infrator, os Orfanatos
Espíritas tinham como foco principal a acolhida à criança órfã, retomando o que ocorria até a década de
1920, quando as instituições religiosas instalavam e mantinham os orfanatos. Para a busca de respostas
à questões de pesquisa, utilizamos nosso Corpus Documental (CUNHA, 2000), por meio de uma análise
interpretativa processual, numa perspectiva dialética/relacional. No que tange à relevância científica
desta pesquisa, julgamos necessário historiar esse o orfanato espírita Lar da Criança, pois constatamos a
quase inexistência de trabalhos historiográficos em relação ao nosso objeto. Portanto, é importante,
para a comunidade acadêmica local e regional, um trabalho dessa natureza, em função das
contribuições que possam trazer às novas interpretações historiográficas, ligadas ao campo da História
da Educação mineira e, porque não dizer, nacional. Hoje compreendemos que o Orfanato Lar da Criança
foi um projeto dos espíritas de Ituiutaba, para acolhimento de crianças sem família, principalmente sem
mãe.

1280
A INSTRUÇÃO PÚBLICA PARA CRIANÇAS POBRES NO COLÉGIO NOSSA SENHORA DO AMPARO NA
PROVÍNCIA DO GRÃO-PARÁ: UM ESTUDO DA INFÂNCIA NA AMAZÔNIA (1850-1890)

ELIANNE BARRETO SABINO; LAURA MARIA SILVA ARAÚJO ALVES.


UFPA, BELEM - PA - BRASIL.

A presente pesquisa faz parte da dissertação de mestrado que visa resgatar a história do Colégio Nossa
Senhora do Amparo, instituição pública que atendia crianças pobres na Província do Grão Pará, no
período de 1850 a 1890. Criada para instruir, abrigar e educar as crianças, a referida instituição foi
pensada a partir de uma política de higienizar e de estabelecer ordem na Província do Pará, pois muitas
crianças dormiam e viviam nas ruas, nos becos e em cortiços. Estudar a história desta instituição pública
é uma tentativa de compreender o discurso higiênico que se concretizava no século XIX, é interpretar a
importância política, social e cultural da instituição para este momento histórico na Amazônia. Além
disso, é uma tentativa de compreender a hierarquização do poder de uma época, de uma sociedade, e
de traços de identidades próprios dessa instituição, assim como sua proposta pedagógica e seus
conteúdos de ensino. Para tal pretendemos: (a) compreender a instrução para as crianças na província
do Grão-Pará entre os anos 1850 a 1890; (b) identificar o significado de instruir e/ou educar as crianças
desvalida, ex-escravas e indígenas para o Colégio Nossa Senhora do Amparo; (c) explicar de que forma
eram trabalhadas as instruções para as crianças menos favorecidas. Metodologicamente a pesquisa
abrange três momentos. Num primeiro momento tentamos localizar nosso objeto de estudo dentro da
área do conhecimento da história, bem como, demonstrar a interseção que há entre história cultural e
história da instituição escolar, buscando respaldo teórico em Chartier, Castanho e outros. Além disso,
conceituamos brevemente os termos História, Instituição e escolar, de acordo com as idéias de Werle,
Ragazzini, Monacorda, Magalhães e Torrinha. Posteriormente, discutimos a importância de se pesquisar
a instituição escolar Nossa Senhora do Amparo, sua relevância para instrução pública na província do
Grão-Pará, no período de 1850 a 1890, tendo como alvo as crianças pobres e sua contribuição para o
estudo sobre a infância na Amazônia, para tanto temos como base teórica em Miguel, Júnior e
Pessanha, Martinez e outros. As fontes documentais encontram-se no arquivo público de Belém. Por
fim, utilizamos a análise documental no sentido de compreender como esses debates e reformas
educacionais refletiram na Província do Grão-Pará e, sobretudo, no Colégio Nossa Senhora do Amparo,
uma vez que era uma das instituições do Governo Provincial responsáveis pela educação das crianças
pobres, atendendo as meninas desvalidas, as ex-escravas e as indígenas. Desta forma, acreditamos que
contribuímos para uma visão ampla do que foi a instrução pública para a infância no Império Brasileiro,
especialmente na Amazônia.

178
697
A ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO DIDÁTICO NO COLÉGIO PEDRO II E O ENSINO DE SOCIOLOGIA (1925-
1945)

SILVIA HELENA ANDRADE BRITO.


UFMS, CAMPO GRANDE - MS - BRASIL.

Desde sua criação, na primeira metade do século XIX, o então Imperial Colégio de Pedro II já havia sido
pensado como escola modelar para o ensino secundário no país. Tal projeto consolidou-se nos decênios
seguintes, atravessando a Primeira República e se fazendo presente até 1951, quando uma última
reforma, emanada da Congregação do Colégio Pedro II e aprovada pelo Ministério da Educação e Saúde,
teve validade para o ensino secundário público em todo o país. Foi dentro desse período que houve, na
referida escola secundária, a introdução da disciplina Sociologia no currículo, que ali esteve presente
entre 1925 e a primeira metade dos anos 1940. Em função disso, este também é o marco temporal da
presente pesquisa, parte de um projeto coletivo, ainda em andamento, sobre os manuais didáticos
utilizados em quatro disciplinas no Colégio Pedro II, entre elas a Sociologia. Nesse sentido, esta
comunicação tem como objeto a organização do trabalho didático no Colégio Pedro II, especialmente a
forma como foi pensado e organizado o ensino de Sociologia, entre 1925 e 1945. O objetivo geral do
artigo é explicitar a organização do trabalho didático voltado para o ensino de Sociologia no Colégio
Pedro II. Entre seus objetivos específicos arrolam-se a discussão da relação educativa; dos recursos
didáticos, sobretudo do manual didático; e do espaço físico utilizados no ensino da referida disciplina.
Para tal, foram coligidas as fontes documentais pertinentes (sobretudo as atas da Congregação do
Colégio Pedro II e manuais didáticos produzidos por autores como Delgado de Carvalho, catedrático da
disciplina no período; os programas de ensino para a disciplina Sociologia e a legislação pertinente ao
ensino secundário nesse momento histórico); e as obras secundárias sobre a temática em questão.
Concluindo, os dados aferidos até o momento permitem problematizar as relações entre a presença da
disciplina Sociologia no ensino secundário, por um lado, e o processo de institucionalização desta
disciplina no Brasil, por outro. Além disso, permite ainda destacar como sua presença no ensino
secundário determinou uma produção intensiva de materiais didáticos voltados para o seu ensino,
sobretudo formado por manuais didáticos. O que revela, concomitantemente, um conjunto de autores e
estudiosos da Sociologia no Brasil, como é o caso de Delgado de Carvalho, que
tiveram influência, sobretudo na difusão do conhecimento sociológico e para estabelecer-se a mediação
entre um dado corpus teórico e seu público-alvo, a saber, os professores e alunos do ensino secundário.

504
A PARTICIPAÇÃO DAS CRIANÇAS NAS PRÁTICAS DE LEITURA E ESCRITA (CAETITÉ-BA 1908-1930)

GIANE ARAÚJO PIMENTEL CARNEIRO.


UFMG/UNEB, BELO HORIZONTE - MG - BRASIL.

Este trabalho tem como objetivo analisar a participação das crianças nas práticas de leitura e escrita, nas
primeiras décadas do século XX, em Caetité-BA. Ele é parte de uma pesquisa de mestrado, em fase de
conclusão, que visa apreender as práticas educativas das crianças em espaços não-escolares. A cidade
de Caetité se originou como entreposto de regiões mineradoras, nos caminhos entre a região da
Chapada Diamantina, na Bahia e o estado de Minas Gerais. Relatos de viajantes, memorialistas e
estudos recentes indicam que houve intensa circulação de pessoas, de produtos e de material escrito.
Documentos do final do século XIX e do século XX corroboram a ideia da circulação dos manuscritos e
impressos entre a população da região, de forma mais evidente, entre uma elite letrada. Vários
periódicos, como jornais e revistas, documentos oficias, livros, peças teatrais e cartas familiares
sobreviveram à ação do tempo. Para compreender como se deu a inserção da criança no mundo da
leitura e da escrita, em espaços não-escolares, nesta sociedade, serão utilizadas as correspondências
familiares, pois elas permitem adentrar no cotidiano da vida das famílias e chegar até suas crianças. As
correspondências encontradas pertencem a famílias tradicionais da cidade, o que limita a pesquisa à
condição social dos seus sujeitos. Os pressupostos teórico-metodológicos que orientam este estudo

179
estão referenciados na História Cultural, nos estudos sobre cultura escrita através da análise das
correspondências ordinárias. As mensagens trocadas entre os diversos membros da família indicam a
participação e o modo como as crianças se inseriram nas práticas da leitura e da escrita, mesmo antes
de ingressarem na instituição escolar. Ler e escrever eram atividades freqüentes entre todas as pessoas
da família, assim como comprar e presentear as crianças com livros. Antes mesmo das crianças serem
alfabetizadas, já se constituíam como leitoras/ouvintes de histórias e como autoras de textos, através do
ato de ditar suas mensagens e do adulto conduzir a mão para traçar as letras no papel. Os resultados
mostram que as crianças, mesmo com menor poder na sociedade, também tinham participação no jogo
de constituição dos sujeitos e na produção das diferenciações geracionais. Esse trabalho insere-se no
eixo “História das Instituições e Práticas Educativas”.

367
A PEDAGOGIA HISTÓRICO-CRÍTICA NO CONTEXTO DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA

ANA CAROLINA GALVÃO MARSIGLIA.


UNESP, ARARAQUARA - SP - BRASIL.

Práticas pedagógicas consistentes devem estar coerentemente vinculadas às teorias pedagógicas e


psicológicas que a sustentam. Objetivando interpretar a pedagogia histórico-crítica de forma articulada
à filosofia marxista, tendo em vista compreender sua proposta metodológica para a prática pedagógica,
propõe-se um estudo teórico do referencial materialista histórico-dialético, que se inicia pela
contextualização da pedagogia histórico-crítica na educação brasileira. Em seguida, serão estudados os
autores que fundamentam essa teoria pedagógica e suas articulações com a psicologia histórico-
cultural. A pedagogia histórico-crítica começa a ser organizada teoricamente no final da década de 1970,
nas discussões da primeira turma de doutorado da PUC-SP e está fundamentada no materialismo
histórico dialético e na perspectiva política socialista. Suas ideias avançam em termos de sistematização
durante a década de 1980, com a obra “Escola e Democracia”, tomando corpo na década de 1990, com
o lançamento do livro “Pedagogia histórico-crítica: primeiras aproximações”, ambos de Dermeval
Saviani. No contexto da década de 1990 (neoliberalismo e pós-modernismo), diante das frustradas
tentativas de implantação de políticas educacionais “de esquerda” na década de 1980, refluíram as
adesões dos educadores aos movimentos progressistas. Mesmo nesse quadro adverso, muitos
educadores continuaram a trabalhar na perspectiva da pedagogia histórico-crítica, sendo demonstração
disso a realização, em 1994, do “Simpósio Dermeval Saviani e a Educação Brasileira”, que contou com
mais de seiscentos participantes. Na virada do século já eram perceptíveis os sinais de revigoramento do
interesse pela abordagem marxista nos vários campos da prática social, inclusive a educação. Os
educadores que não haviam deixado de trabalhar na linha da pedagogia histórico-crítica voltaram a
ocupar um espaço importante nos debates sobre os destinos da escola brasileira. As obras de Dermeval
Saviani são um exemplo da vitalidade dessa corrente pedagógica. O livro “Escola e Democracia” está em
sua 40ª edição, com mais de 200 mil exemplares vendidos. A obra “Pedagogia histórico-crítica: primeiras
aproximações” encontra-se na 10ª edição, com mais de 35 mil exemplares vendidos. “História das Ideias
Pedagógicas no Brasil” recebeu em 2008 o prêmio Jabuti na categoria educação, psicologia e psicanálise,
sendo importante contribuição para se compreender a trajetória das ideias pedagógicas no Brasil desde
suas origens. Em 2009, a pedagogia histórico-crítica completou 30 anos de esforços em prol da
educação da classe trabalhadora. Para tanto, foi promovido um seminário comemorativo, no qual se
reuniram professores e alunos de graduação e pós-graduação de 69 instituições, 37 cidades, 11 Estados
brasileiros. Isso indica que os educadores continuam discutindo sobre alternativas pedagógicas que
respondam a uma educação crítica na formação dos indivíduos.

180
683
A POLÍCIA MILITAR DO ESTADO DE MATO GROSSO E A EDUCAÇÃO – 1913 A 1937

EMERSON JOSÉ SOUZA.


UFMT, CUIABÁ - MT - BRASIL.

A POLÍCIA MILITAR DO ESTADO DE MATO GROSSO E A EDUCAÇÃO – 1913 A 1937 O presente trabalho
tem como propósito apresentar o resultado final de uma pesquisa sobre a alfabetização de praças da
Polícia Militar do Estado de Mato Grosso no período de 1913 a 1937. Com o advento do período
republicano se lança novos olhares sobre a educação no Brasil, trazendo a lume o debate sobre a
expansão do número de escolas e a diminuição do analfabetismo numa relação direta com a garantia de
democracia. Em Mato Grosso a alfabetização da população adulta encontra seus primórdios no final do
regime imperial,em 1872, quando são abertas duas escolas noturnas, ambas na capital Cuiabá, uma
funcionando na Paróquia da Sé e outra localizada no distrito de São Gonçalo de Pedro II, região do
porto. Esses cursos acabaram não prosperando, sendo extintos no ano seguinte, quando a Assembléia
Legislativa avalia os motivos que levaram a seu fracasso. Com a tentativa frustrada de implantação das
escolas noturnas, as mesmas só retornam em 1937, durante o governo de Getúlio Vargas, quando é
inaugurada a Escola Noturna Pedro Gardés. É nesse ínterim que se destaca a experiência de
alfabetização no batalhão de Polícia Militar de Mato Grosso, que a exemplo do que ocorre no Exército
desde o século XIX, institui em 1913 uma Escola Regimental que tem por finalidade ministrar o ensino
das primeiras letras as praças analfabetas que se alistavam no referido batalhão. Compreendendo esta
experiência como um modelo de alfabetização de adultos, busco evidenciar suas singularidades. Em um
cenário demarcado pelas intensas contendas políticas, onde a atuação do coronelismo constitui
verdadeira luta armada pelo poder, a atuação da Polícia Militar se vê diretamente envolvida nos
conflitos, refletindo as mazelas de uma sociedade marcada pela violência, ao mesmo tempo em que
constitui em espaço de educação para seu efetivo, seja através dos castigos disciplinares constantes,
seja através da inserção de seu contingente no universo letrado. Utilizando o método histórico como
interpretação e consultando fontes como os relatórios de governo, relatórios de diretores da Instrução
Pública, boletins internos da Polícia Militar, relações de matriculas da Escola Regimental, busca-se
compreender quem são esses alunos e como se posicionam perante o meio que estão inseridos; bem
como, evidenciar o pensamento educacional presente no âmbito da Polícia Militar do Estado de Mato
Grosso no período em questão, com seus métodos e concepções. O trabalho permite evidenciar as
configurações estabelecidas pela educação de adultos em Mato Grosso e, principalmente, destacar o
papel exercido pelo militarismo no que tange a esta modalidade de ensino.

1131
A PRÁTICA ESCOLAR DO INSTITUTO BENJAMIN CONSTANT NA CIDADE DE MANAUS

ERILANE DE SOUZA GUIMARÃES.


UNIVERSIDADE DE SOROCABA - UNISO, SOROCABA - SP - BRASIL.

Esta pesquisa se realiza dentro de uma perspectiva descritiva e analítica com o objetivo de recuperar os
fragmentos da história e memória do Instituto Benjamin Constant, no período entre 1889-1930. O
desenrolar do processo de investigação, permite-nos chegar a resultados mais proveitosos e a
discussões mais ricas do ponto de vista teórico e metodológico o que possibilita uma reflexão sobre o
desenvolvimento da pesquisa em todas as suas etapas, apesar das dificuldades e desafios encontrados,
sempre ficar atento ao rigor dos conceitos teóricos assumindo uma postura que implica na discussão
sistemática e continua ao longo de toda pesquisa. A proposta pedagógica do Instituto era a instrução
primária, moral e doméstica ao mesmo tempo em que preparava para o trabalho. Recebia em suas
dependências, meninas órfãs, que para lá eram encaminhadas, permanecendo no estabelecimento até
dezoito anos de idade, com exceção das que casavam antes ou, por algum motivo, não fosse mais
conveniente sua permanência no instituto. Havia a preocupação em repassar valores morais, amor à
pátria e principalmente preparar a mulher para exercer atividades consideradas afeitas ao seu sexo,
preparando-as para exercerem o serviço doméstico, e o papel de dona de casa, préstimos estabelecidos

181
como necessários para a formação da boa mãe e esposa virtuosa, e que correspondiam ao papel da
mulher como primeira educadora. O grande desafio da pesquisa está em enfrentar a deficiência de
sistematização e organização de documentos escritos e materiais iconográficos relacionados a essa
instituição. A pesquisa se desenvolve pela leitura da literatura a respeito, pela garimpagem e
sistematização dos documentos escritos e materiais iconográficos, caminho pelo qual se extrai, de
acordo com Ginzburg (1989), evidências, indícios e pistas referentes às práticas escolares, para que as
futuras gerações reconheçam as bases que consolidaram a educação amazonense. Além disso, baseia-se
nos pressupostos teóricos da cultura escolar e na forma como eles permitem construir a consciência
histórica, com o intuito de preservar parte da memória educacional local. Julia (2001), preconiza a
importância da análise dos conteúdos ensinados e das práticas escolares, afirmando que cada
instituição de ensino é única, singular nas suas normas estabelecidas e suas práticas desenvolvidas num
determinado espaço e época, onde são produzidos novos costumes e hábitos, que devem ser
investigados. Preservar a história e a memória da educação regional, seus saberes e fazeres sócio-
histórico-culturais e ampliar a produção científica devem ser compromisso perene dos que pesquisam e
se interessam pela História da Educação.

857
A REFORMA FRANCISCO CAMPOS NO ATHENEU SERGIPENSE

SUELY CRISTINA SILVA SOUZA.


UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE, ARACAJU - SE - BRASIL.

A escrita desse artigo faz parte de uma pesquisa ainda em andamento, financiada pela Fundação de
Apoio à Pesquisa e à Inovação Tecnológica do Estado de Sergipe (FAPITEC/SE) e que estuda a
configuração da disciplina Matemática no Atheneu Sergipense frente à Reforma Francisco Campos.
Neste sentido, por meio do eixo História das Instituições e Práticas Educativas o presente trabalho trilha
a trajetória histórica da reforma do ensino secundário no interior do Atheneu Sergipense entre os anos
de 1938 e 1943, anos em que respectivamente ocorreu em Sergipe à definitiva implementação da
Reforma Francisco Campos e início da Reforma Capanema segundo equiparação deliberada pelo
Governo Federal. Para tanto, investigou-se alguns pontos das determinações prescritas pelo Decreto N.
7 de 14 de março de 1938, que regulou a referida instituição. Esses pontos elucidaram o cenário da
instituiçãoatravés da análise de sua organização, admissão, matrícula e regime escolar, muitas vezes,
articulados com as peças legislativas e fontes institucionais. Também levou-se em consideração os
estudos de Alves (2005), Nunes (1984) e Dantas (2004) que, entre outros aspectos, permitiram
apreender como se desenvolvia o ensino e a sociedade sergipana durante a década de 1930 e início dos
anos 40. Desse modo, dividiu-se essa pesquisa em três tópicos. O primeiro tópico trata do percurso
histórico da Reforma Francisco Campos no Atheneu, desde seus primeiros indícios até sua
implementação mediante Regulamento Interno. Ainda aqui, motivados pela curiosidade de distinguir a
ação de cada agente administrativo, buscou-se entender suas distintas funções quando, muitas vezes,
durante a investigação dos documentos escolares faziam-se presentes. No segundo tópico, descrevemos
o ingresso dos alunos nesse estabelecimento de ensino trilhando seus caminhos desde o processo de
admissão até a matrícula detalhando as determinações exigidas. E o terceiro tópico relatou-se os
instrumentos que regularam aquela instituição nos preceitos da ordem escolar. A Reforma Francisco
Campos se fez presente no Atheneu Sergipense desde 1936, pelo menos na lei estadual, visto que na
prática isso só aconteceu em 14 de Março de 1938, através do Decreto N. 7, conforme designou o
Interventor Federal no Estado de Sergipe ao despachar a criação do seu Regulamento Interno. Com
efeito, percebemos que os estudos secundários sergipanos apropriaram-se do ideário da Reforma
Francisco Campos, ainda que tardiamente, acompanhou os desígnios autoritários deliberados pela
Divisão do Ensino Secundário. Portanto, a instalação dessa reforma em Sergipe aconteceu em
substituição autoritária dos Cursos Complementares aos antigos Preparatórios por meio da Portaria
Ministerial de 17 de março de 1936, conforme equiparação ao Colégio Pedro II.

182
546
A SAÚDE DA MULHER: PRÁTICAS EDUCATIVAS NAS PROPAGANDAS DE CURITIBA NA DÉCADA DE 1920

SARASVATI YAKCHINI ZRIDEVI CONCEIÇÃO.


UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ, CURITIBA - PR - BRASIL.

Com base nos pressupostos da História Social da Cultura, a presente pesquisa em andamento tem como
objetivo analisar o discurso médico-higienista sobre a saúde da mulher, veiculado na década de 1920
por propagandas em três jornais curitibanos que se denominavam independentes: Gazeta do Povo, O
Dia e O Diário da Tarde. É a partir de meados da década de 1910, com a expedição médico-científica do
Instituto Oswaldo Cruz (IOC), chefiada por Belisário Penna e Arthur Neiva ao interior do Brasil que
revelava um país com uma população desconhecida, atrasada, doente, improdutiva e abandonada, e
sem nenhuma identificação com a pátria, é que ganha destaque a tese da importância da educação e da
saúde, e não só do branqueamento, para o resgate de um Brasil condenado ao atraso. A publicação em
1916 do relato Viagem científica pelo Norte da Bahia, Sudoeste de Pernambuco, sul do Piauí e de norte
a sul de Goiás dos médicos, representou um impulso para o movimento sanitarista que mobilizaria
grande parte dos intelectuais brasileiros e resultaria na criação da Liga Pró-Saneamento do Brasil em
1918 e do Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP) em 1920, sendo extremamente rápida a
adesão dos Estados à política do DNSP. É neste contexto que a mulher ganha um novo estatuto dentro
da sociedade: o de responsável e formadora dos futuros cidadãos fortes, sadios, tendo a
responsabilidade de contribuir para o aperfeiçoamento da raça. A medicalização da família e a
normatização da sociedade dependiam fundamentalmente dela, que se tornou figura central na
investida do saber médico, uma vez que era responsável pela geração e socialização primária das
crianças. Destinada pela natureza a gerar a vida, a mulher é revestida de responsabilidades morais e
sociais, inclusive no campo das profissões: professoras, visitadoras sanitárias, enfermeiras, educadoras
higiênicas, todas compartilhavam do estereótipo de cidadãs republicanas a serviço da educação e da
higiene da população. Este processo de educação da mulher para a saúde contava com veículos
importantes de divulgação, como jornais curitibanos que continham propagandas e anúncios em cerca
de 50% de suas páginas. O conceito de saúde é propagado enquanto uma mercadoria, um produto a ser
adquirido nas farmácias e botica. Nas propagandas há uma intensa campanha pela cura das doenças
sociais, à medida que novos hábitos e práticas vão sendo transmitidos à população, e os tradicionais
reprimidos, mesmo que saberes populares e científicos convivessem nos lares curitibanos. A
propaganda funciona assim como um discurso de educação dos sentidos, vendendo não só produtos,
mas idéias, imagens corporais e comportamentos, ajudando a veicular os novos ideais científicos dos
médicos-sanitaristas, à medida que se apropria destes ideais para vender e anunciar seus produtos e
serviços. A crítica das fontes publicitárias se torna procedimento essencial para reconstrução do passado
proposto pela estudo em questão.

522
A SEMIOLOGIA DO ESCOLAR CONSTRUÍDA PELO DR. UGO PIZZOLI (ITÁLIA-BRASIL)

CARLOS MONARCHA.
UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA, SAO PAULO - SP - BRASIL.

Vinculada ao projeto “Clemente Quaglio (1872-1948): cânon da ciência pedológica — estudo histórico-
crítico”, apoio FAPESP, esta comunicação demarca aspectos da ciência pedológica de Ugo Pizzoli (1863-
1968), saber-fazer que proclama substancialidade e legitimidade, dentro da psicologia e pedagogia.
Consultas a acervos institucionais possibilitaram convocar massa documentária e interpretá-la, com
referencial teórico apropriado. Os objetivos da pesquisa priorizaram dados gerais sobre os esquemas
teóricos, cursos para o magistério e gabinetes de psicologia e antropologia, implantados por Ugo Pizzoli,
em Crevalcore (Bolonha) e Milão, Itália, e em São Paulo, Brasil. Além da diplomação em medicina pela
Universidade de Bolonha, Pizzoli apresentou tese em pediatria, Lo scleroma dei neo nati, frequentou
cursos de filosofia e pedagogia, em Bolonha e Pavia, de antropologia física, no Instituto de Antropologia
de Firenze, de psiquiatria, no laboratório de psicologia do Frenocômio de Reggio Emilia. Cognominado
“apostolo della pedagogia scientifica”, o pedologista intervém numa problemática em evolução: a

183
instrução popular centralizada e obrigatória, promovida pela unificação político-administrativa, a
célebre lei Casati (1859). Na moderna ciência do Risorgimento, o positivismo impera como atitude
cultural genérica ou método heurístico. Igualmente a Mantegazza, Lombroso, Credaro, Treves, Sergi, De
Sanctis, Ugo Pizzoli salienta a formação da inteligência, sentimento e vontade pelo estímulo da
educação e instrução, donde legislar o marco escolar como locus de observações empíricas
escrupulosas. Partidário do cerebralismo próprio da psicofísica e psicopatologia, o pedologista deriva a
semiologia do escolar dos processos psiconeurológicos e traços antropomorfológicos; ao transparecer a
dinamicidade do desenvolvimento (ontogênico), formas e variantes mentais e suas significações, quer
determinar a acomodação/adaptação do escolar às normas essenciais da cultura e lei moral. Em 1914,
quando evoluciona a matrícula geral no ensino primário brasileiro, conquanto incomodada por severos
índices de repetência e deserção, Ugo Pizzoli, afamado construtor de aparelhos e instrumentos
científicos, vê-se requisitado pelo governo paulista para ministrar cursos de técnicas e atuar no gabinete
da Escola Normal da Praça, idealizado por Clemente Quaglio. Meticulosa e vivaz, conclui-se que a perícia
semiológica operada pelo cientista italiano, cujos efeitos de superfície deságuam dispersamente nos
marcos escolares, singulariza-se pelo crescimento cumulativo de verdades, cuja tese central apregoa a
impossibilidade da igualdade natural entre os homens, donde medir-se e avaliar-se o desenvolvimento
da pessoa, em função de fins a serem alcançados.

1385
A VIAGEM PEDAGÓGICA NA BUSCA DE UM MODELO DE INSTITUIÇÃO PARA ASSISTÊNCIA À INFÂNCIA
DESVALIDA EM SERGIPE

ALESSANDRA BARBOSA BISPO.


UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS, CAMPINAS - SP - BRASIL.

No cenário nacional, as políticas sociais e legislativas estavam sendo implantadas e Sergipe precisava
criar uma instituição destinada para solucionar este problema que afetava todo o Brasil. A criação em
Sergipe de um órgão congênere obedecia a um movimento nacional; porém, o objetivo estava na
solução dos problemas locais. Aracaju, conhecida pelos seus quarteirões retangulares com suas ruas
retas e arborizadas, presenciou, nas décadas de 1940 e 1950 do século XX, um crescimento populacional
urbano que fez visualizar ainda mais a presença da infância pobre nas ruas da cidade. O objetivo do
trabalho é analisar a partir das viagens do diretor do Serviço de Assistência a Menores Abandonados e
Delinqüentes o modelo adotado para educar a infância pobre em Sergipe. A pesquisa procurou
compreender o objeto de estudo através de uma bibliografia que versa sobre história da educação,
história da assistência e história de Sergipe. Além dos relatórios e jornais do período. O Diretor do
Serviço de Assistência, Abelardo Maurício Cardoso, foi designado para conhecer as instituições
destinadas a menores abandonados e delinqüentes em outros estados. Nessas viagens, o Diretor do
Serviço procurou observar a organização dos estabelecimentos, bem como os erros e o aprofundamento
sobre o assunto, na busca de um modelo para a instituição de Sergipe. Foram visitadas, no total, trinta e
seis instituições, no período de 23 de janeiro a 7 de março de 1939, permanecendo maior tempo em São
Paulo, devido o fato de, neste estado, o diretor encontrar um Serviço organizado oficialmente. O diretor
Abelardo Cardoso, ao finalizar suas viagens aos outros estados, afirmou ter sido conquistado pelo
pensamento paulista, com especializações na assistência aos menores abandonados e delinqüentes. De
acordo com o diretor, a visita a São Paulo também deveria ter sido realizada por um médico, uma
professora e um pesquisador a fim de que estes profissionais fizessem um estágio na cidade antes de
inaugurar a instituição sergipana de assistência a menores abandonados e delinqüentes. Após essas
viagens foi sugerida a construção da Cidade de Menores de Sergipe que seguiu o modelo paulista de
instituições para menores abandonados e delinqüentes, principalmente, o “Educandário Dom Duarte”
alvo de grande entusiasmo pelo diretor do Serviço de Assistência a Menores Abandonados e
Delinqüentes, Abelardo Maurício Cardoso, que a denominava, em seu relatório, Cidade de Menores.
Afirmava não ter errado em começar sua viagem por São Paulo, pois este estado apresentava o melhor
serviço organizado do país, podendo ser aproveitado como padrão pelos seus “irmãos federados”. A
Cidade de Menores destinava assistir e educar menores abandonados e delinqüentes da faixa etária dos
sete aos dezoito anos de idade, em regime de internato. Neste estabelecimento, recebiam ensinos
primário, profissional e agrícola.

184
1118
A “MÁQUINA CHAGUISTA” E O INSTITUTO DE EDUCAÇÃO SARAH KUBITSCHEK: REFLEXÕES SOBRE AS
INTERFACES ENTRE POLÍTICA E EDUCAÇÃO

LUCIANA CARDOSO CARDOSO.


PUC-RIO, RIO DE JANEIRO - RJ - BRASIL.

O presente texto busca indicar algumas das questões que norteiam a elaboração de minha tese de
doutorado, ora em andamento. Situado no campo da História da Educação e tendo como eixo temático
a História das Instituições e Práticas Educativas, este trabalho tem como proposta analisar o processo
que levou à criação do Instituto de Educação Sarah Kubitscheck (IESK) na Zona Oeste carioca em 1974.
Adotando uma perspectiva de mesoabordagem, esta pesquisa conta com análises de fontes
documentais e entrevistas realizadas com alguns dos protagonistas deste processo .Minha dissertação
de mestrado teve como foco a Escola Normal Sarah Kubitscheck (ENSK), criada na mesma região em
1959, no bojo das pesquisas então realizadas pude observar indícios que me levaram a acreditar que na
inauguração de sua congênere na década de 1970 estes elementos não só se intensificaram como
ganharam novos matizes gestados pelas acentuadas transformações sociais, econômicas e políticas do
período. Penso ser possível relacioná-la também à figura de Chagas Freitas ou melhor à sua meticulosa
política de trocas clientelistas, designada por Diniz (1982) como “máquina chaguista” que praticamente
dominou a política carioca e fluminense de 1970 até os primeiros anos da década de 1980. O atual
estado do Rio de Janeiro foi criado em 1975 com a fusão de duas unidades federativas, o antigo estado
do Rio de Janeiro e o estado da Guanabara, que se confundia com a cidade do Rio de Janeiro. A fusão
gerou uma acirrada disputa entre as lideranças do MDB (Movimento Democrático Brasileiro), um
confronto de significativas conseqüências para a dinâmica da política estadual e que se personificou nas
figuras de: Chagas Freitas, o chefe do MDB na Guanabara e governador deste estado desde 1971, e
Amaral Peixoto, líder do MDB fluminense. Amaral Peixoto contava com um enorme prestígio, mas foi
Chagas Freitas quem conseguiu o controle político do novo estado do Rio de Janeiro do qual passou a
ser governador em 1979. Meu trabalho organiza-se, portanto a partir das seguintes indagações: Que
interlocuções podem ser verificadas entre a criação do Instituto Sarah Kubitscheck e o cenário político
nacional naquele período? A inauguração do IESK pode realmente ser percebida como uma das
estratégias encetadas por Chagas Freitas para sustentação e legitimação de sua influencia política?
Como as questões acima mencionadas matizaram a organização da escola e a formação dos professores
daquela instituição? Desta forma, já apontando algumas balizas, mas cônscia de que a realidade da
pesquisa outras trará, este trabalho encontra-se como uma semente, ávida por condições que lhe
permitam não só germinar, mas também a possibilidade de gerar frutos.

551
ANALISANDO O PROCESSO DE CRIAÇÃO E CONSOLIDAÇÃO DO GRUPO ESCOLAR SILVEIRA BRUM EM
MURIAÉ-MG (1907 – 1930)

DENILSON SANTOS DE AZEVEDO; TALITHA ESTEVAM MOREIRA CABRAL.


UNIVERSIDADE FEDERAL DE VIÇOSA, VICOSA - MG - BRASIL.

O resumo apresenta os resultados parciais da investigação do processo de criação e dos primeiros anos
de funcionamento do Grupo Escolar Silveira Brum, no município de Muriaé (Minas Gerais), no ano de
1912, com o intuito de analisar os condicionantes sociais e políticos que contribuíram para sua
instalação e caracterizar a cultura escolar produzida neste estabelecimento de ensino até a década de
1930. Os principais objetivos são: buscar entender o movimento social e político que resultou no
processo de fundação e consolidação do primeiro grupo escolar público fundado nesta cidade;
identificar as características da cultura escolar instituídas no início de sua criação. Para a consecução
destes objetivos, utilizará como metodologia: o levantamento e análise do acervo documental e de
periódicos de história local encontrados no Arquivo Municipal de Muriaé, para conhecer o processo de
criação da referida instituição; a revisão de literatura sobre a história dos grupos escolares no Brasil e
em Minas Gerais, nas décadas de 1900 a 1930; levantamento e análise de documentos, fotografias e

185
outros materiais escolares encontrados nos Arquivos Público Mineiro, Municipal e no acervo da atual
escola; busca por depoimento de sujeitos que vivenciaram essa época; e, após reunir essas informações,
cotejar a filosofia educacional e as práticas pedagógicas implementadas no educandário pesquisado. O
estudo do processo de criação e expansão dos grupos escolares em algumas cidades do Estado de Minas
Gerais e no Brasil, permitiu identificar que essa difusão intentou efetivar a escolarização em torno do
projeto republicano, liberal e civilizatório, de promoção e difusão do ensino, bem como um meio de
modernização da sociedade e, consequentemente, do país. Como conclusão parcial, verifica-se que a
inauguração do Grupo Escolar Silveira Brum estabeleceu um marco na educação pública para o
município de Muriaé, instituindo uma nova maneira de organização pedagógica, com a figura do diretor
como responsável pela sistematização do trabalho; com a presença de um professor como regente do
ensino primário, ministrando aulas a um grupo de alunos que estavam divididos por séries no ensino.
Também cabe averiguar se, nesse período, aconteceram iniciativas voltadas para a concretização de
uma aprendizagem progressiva e a gradativa implantação de uma prática pedagógica embasada nos
princípios da escola nova. Por fim, como resultado dessa pesquisa, pretende-se tornar público este
patrimônio, por meio do registro digital das imagens, dos materiais escolares e da gravação dos
depoimentos dos sujeitos que fizeram parte da história dessa Escola.

778
ANÁLISE COMPARATIVA DE MODELOS DE ENSINO DA LEITURA PARA A ALFABETIZAÇÃO: O PROFA
(2001 A 2002) E O LIVRO DE LILI (1950)

FERNANDA ZANETTI BECALLI; CLEONARA MARIA SCHWARTZ.


UFES, VITORIA - ES - BRASIL.

O trabalho apresenta análise comparativa entre dois modelos de ensino da leitura que circularam no
Brasil em períodos distintos, a fim de mostrar aspectos que têm contribuído para assegurar
permanências de formas e maneiras de trabalhar o texto e a leitura na alfabetização. Analisou-se o
modelo de ensino da leitura proposto pelo Programa de Formação de Professores Alfabetizadores
(PROFA), implementado pela Secretaria de Educação Fundamental (SEF) do Ministério da Educação
(MEC) em 20 Estados brasileiros e no Distrito Federal, no período de 2001 a 2002, em comparação com
o modelo de ensino da leitura proposto pela cartilha intitulada O Livro de Lili, amplamente utilizada na
década 1950. Na comparação, analisamos a concepção de linguagem, de texto e de leitura que
fundamentam os dois modelos de ensino de leitura. Teoricamente, o estudo se embasa no referencial
bakhtiniano de linguagem e na Perspectiva Histórico-Cultural, e, metodologicamente, se configura como
análise documental, pautada pela perspectiva dialógica do discurso, tendo em vista o diálogo tecido
com o conjunto de documentos que compõem o kit de materiais escritos do PROFA e a materialidade da
cartilha O Livro de Lili. A análise mostra que o PROFA, na tentativa de desvincilhar-se do modelo de
textos apregoado pela abordagem associacionista de aprendizagem materializado nas cartilhas como
um apregoado de frases independentes que não constitui um todo de sentido, propôs o trabalho com a
leitura baseado em textos que as crianças sabem de cor. No entanto, ao prescrever "boas" situações de
aprendizagem da leitura, o programa retomou o que já estava proposto na cartilha O Livro de Lili, visto
que sugeriu aos professores que recortassem o texto em frases, depois em palavras, e, posteriormente,
oferecessem o alfabeto móvel para que as crianças reconstruíssem o texto, estabelecendo
correspondência entre partes do oral e partes do escrito, ajustando o que sabem de cor à escrita
convencional. Nesse sentido, acreditamos que a proposta de trabalho com o texto do PROFA não
contribuiu para romper com orientações metodológicas da década de 1950 no que diz respeito ao
ensino da leitura nas classes de alfabetização, nem para que o ensino da leitura assumisse a significação
de prática social que possibilita a formação da consciência crítica das crianças. Portanto, o estudo
aponta que se faz necessário um redimensionamento das concepções de linguagem, de texto e de
leitura que subjazem as propostas de ensino aprendizagem da leitura que circulam no País.

186
366
ANÁLISE DE PROGRAMAS E DOCUMENTOS DA SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO DE SÃO PAULO
EM MAIS DE UM QUARTO DE SÉCULO: O CONSTRUTIVISMO COMO DISCURSO PEDAGÓGICO OFICIAL
NA REDE DE ENSINO PAULISTA

ANA CAROLINA GALVÃO MARSIGLIA.


UNESP, ARARAQUARA - SP - BRASIL.

Na atualidade, remontando ao movimento da pedagogia nova, as pedagogias do “aprender a aprender”


têm se firmado hegemonicamente, sendo diferentes discursos variantes de uma mesma concepção. O
lema “aprender a aprender” contém uma atitude negativa em relação à educação escolar. Tal atitude é
caracterizada por quatro princípios: 1) a aprendizagem que ocorra sem a transmissão intencional do
conhecimento tem maior valor educativo; 2) o processo de aquisição ou construção do conhecimento
tem mais valor do que o conhecimento em si mesmo; 3) uma atividade é verdadeiramente educativa
somente quando é espontaneamente desencadeada e conduzida pelas necessidades e interesses dos
alunos; 4) a escola deve ter por principal objetivo desenvolver uma alta capacidade de adaptação social
nos indivíduos. Cada um desses princípios contém um acento de valor negativo em relação ao que
caracteriza os aspectos clássicos na educação escolar: o ato educativo deve ser planejado; o
conhecimento universal deve ser transmitido; o bom ensino é aquele que provoca o desenvolvimento e
não que caminha a reboque dele; a escola deve desenvolver os alunos em suas máximas possibilidades,
de forma que possam buscar a transformação da sociedade. A rede estadual de ensino paulista tem se
guiado pelo construtivismo (pertencente às pedagogias do “aprender a aprender”) desde 1983 por meio
de seus documentos oficiais. Assim, o objetivo geral dessa pesquisa é analisar os programas e
documentos da Secretaria de Estado da Educação (SEE) publicados pela Coordenadoria de Estudos e
Normas Pedagógicas e Fundação para o Desenvolvimento da Educação, relativos ao Ciclo I do ensino
fundamental no período de 1983 a 2008, tendo em vista verificar a trajetória do discurso oficial
construtivista neste Estado. Os objetivos específicos são: examinar a política educacional dos governos
de André Franco Montoro, Orestes Quércia, Luiz Antônio Fleury Filho, Mário Covas Júnior, Geraldo José
Rodrigues Alckmin Filho e José Serra/Aberto Goldman, situando o contexto de produção e implantação
dos programas e documentos da SEE; analisar conceitos aludidos nos textos sobre o papel do professor,
a concepção de conhecimento e de aluno na visão do construtivismo; averiguar autores/artigos que são
citados nos documentos, apurando repetições e mudanças de discurso dos principais representantes.
Trata-se de pesquisa de doutorado, em andamento, cujo método é o materialismo histórico-dialético.
Como resultados parciais, podemos apontar: que os diferentes programas implantados pelos
governantes do período analisado não alteraram a linha pedagógica assumida desde 1983; as
concepções sobre aluno, professor e conhecimento referidas nos textos apresentam identificação com o
construtivismo, apesar de, especialmente na década de 1980, existirem posicionamentos contrários;
Jean Piaget, Emília Ferreiro e Ana Teberosky são os autores mais mencionados como referencial teórico
nas publicações analisadas até o momento (década de 1980).

1276
AS AULAS “AVULSAS” DE LATIM E O LYCEU PARAHYBANO: (1834-1877)

CRISTIANO FERRONATO.
UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAIBA, JOAO PESSOA - PB - BRASIL.

O presente trabalho é parte de nossa tese de doutoramento, em andamento, que versa sobre a gênese
e a formação do Lyceu Parahybano e do ensino secundário na Província da Parahyba do Norte, no século
XIX. Temos como eixo central de análise neste texto, o comportamento do modelo antigo, das
chamadas Aulas de Latim, na Província da Parahyba do Norte - no arco temporal iniciado em 1834 e que
se prolonga até ao ano de 1877 – quando estas as aulas de Latim são oficialmente extintas, perante um
novo modelo que estava sendo implantado, o de aglutinação das aulas do ensino secundário em
instituições como o Lyceu Parahybano. Com a criação destas instituições (os Lyceus e Atheneus) pelo
país pretendia-se dar um sentido próprio ao ensino secundário que era o de formação das elites locais
para o aparelhamento do Estado que se estava a construir naquele momento, função que o ensino

187
secundário, dado nas aulas avulsas então existentes, não conseguia atingir. As Aulas “avulsas de Latim”
tinham um caráter de outro tempo “um tempo antigo” em oposição aos novos tempos que surgiam no
país com a Independência e a necessidade da formação de quadros burocráticos para dar continuidade
ao processo de construção da nação. Tempos que clamavam por um novo desenho curricular com maior
complexidade e mais moderno. Os liceus seriam então as instituições de ensino criadas para este fim
substituindo as chamadas aulas avulsas de Latim. Para a construção deste texto utilizamos como fontes
os relatórios da administração provincial, que contem os mapas da instrução secundária, nos três
modelos praticados na província da Parahyba do Norte: do Lyceu Parahybano; das Aulas de Latim
públicas; das Aulas de Latim do ensino particular. Tentaremos na análise da realidade aqui estudada
observar o ponto de vista dos professores - na medida em que a documentação nos auxiliar – e também
dos responsáveis pela instrução pública quais sejam: presidentes da Província, Diretores da Instrução
Pública. As fontes que mencionamos são compostas, sobretudo por documentação que as autoridades
públicas redigiam para serem apresentadas na Assembléia Legislativa Provincial, sendo assim
apresentada ao conhecimento dos políticos locais. São documentos produzidos para que outros
soubessem, e no caso dos professores, de acordo com normas que lhes eram propostas pelo poder.
Disso conclui-se que pela sua própria natureza seja uma documentação com a visão de uma parte dos
intervenientes, a parte que queria que os outros ficassem a conhecer. Tentaremos na análise da
realidade aqui estudada observar o ponto de vista dos professores – na medida em que a
documentação nos auxiliar – e também dos responsáveis pela instrução pública como Presidentes de
Província e Diretores da Instrução Pública. Para auxiliar em nossa análise utilizamos autores como:
Nóvoa (2003), Faria Filho (2000), Ramos (1998) e Pinheiro (2002).

924
AS CASAS DE EDUCAÇÃO E O ENSINO PARTICULAR EM PORTUGAL E NO ULTRAMAR (1759-1821)

CHRISTIANNI CARDOSO MORAIS.


UFSJ, SAO JOAO DEL REI - MG - BRASIL.

No contexto colonial, o papel das aulas régias era o de reproduzir a ordem estamental. Ler, escrever e
contar não eram habilidades possuídas pela grande maioria dos súditos do Império Lusitano. Mesmo
com todas as restrições, a disseminação da cultura escrita entre alguns que pertenciam aos estratos
menos abastados da sociedade poderia ser vista como útil e benéfica ao Estado, partindo do
pressuposto de que estes espaços educativos deveriam exercer ações preventivas e assistenciais. O
presente trabalho apresenta resultados finais de minha tese de doutoramento e se insere no eixo
temático “História das Instituições e Práticas Educativas”. Tem como objetivo inventariar e analisar
iniciativas de religiosos e leigos que se dedicavam ao ensino feminino ou ainda à educação de meninos
órfãos, além de estratégias familiares para a disseminação da cultura escrita, tanto em Portugal quanto
em suas possessões. Foram analisadas a legislação educacional do período, concursos de professores e
relatórios dos diversos órgãos responsáveis pela fiscalização das aulas públicas e particulares. O recorte
cronológico respeita o fato de haver uma regulamentação por parte do Estado Português, para todas as
instituições educativas aqui analisadas, desde o ano de 1759 até 1821. O tratamento da documentação
evidencia que as iniciativas estudadas favoreciam, sobretudo, a instrução masculina. O ensino privado
ou particular possuía duas modalidades: público e doméstico. O público era quando o professor
licenciado (ou examinado) dava as aulas em sua própria casa ou na casa do aluno. No segundo caso, o
mestre vivia na casa da família que o contratava, tornando-se um preceptor. Entre as famílias mais
abastadas da Metrópole, contratar um preceptor era um costume enraizado. As aulas particulares, de
qualquer espécie, eram uma saída para aqueles poucos que podiam arcar com tal despesa. Havia ainda
situações em que os professores particulares acolhiam, em suas residências, alguns alunos, criando
casas de educação particulares. Mesmo sendo impossível conseguir reunir dados quantitativos que
possibilitem uma estatística das aulas particulares no período colonial, as fontes permitem asseverar
que o ensino pago pelas famílias existia, tendo sido experimentado tanto em Portugal quanto em suas
possessões no ultramar. Dessa forma, percebe-se que o Estado Lusitano racionalizou e homogeneizou
uma estrutura educativa existente, aproveitando-se de iniciativas escolares experimentadas e eficientes.
Estas conclusões permitem lançar luzes sobre instituições e práticas educativas pouco estudadas pelos
pesquisadores da História da Educação que se debruçam sobre o período colonial.

188
422
AS ESCOLAS ISOLADAS EM MARIANA-MG NO INÍCIO DA PRIMEIRA REPÚBLICA: O DESAFIO DE
ORGANIZAR E OFERECER O ENSINO PÚBLICO PRIMÁRIO

LÍVIA CAROLINA VIEIRA.


UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS, BOITUVA - SP - BRASIL.

Proclamada a República, em 1889, as inúmeras questões sobre como e porque realizar a educação nos
diferentes níveis chegavam aos discursos políticos de todo o Brasil. A educação das crianças e jovens era
um desafio para os novos dirigentes republicanos, pretensos (re)construtores da nação e de guardiões
dos direitos do povo, como observamos na mensagem de Deodoro da Fonseca, primeiro presidente da
República, datada de 1890, “Até hontem a nossa missão era fundar a republica; hoje o nosso supremo
dever perante a pátria e o mundo é conserval-a e engrandecel- a. Não se mudam instituições para
persistir em defeitos inveterados, ou para causar simples deslocações de homens”. Nesse processo de
construção da nação, a criação de instituições educacionais, públicas e privadas, precisava crescer
rapidamente, o que refletiu nos primeiros trinta anos da República, em políticas nas quais os estados
brasileiros, com autonomia constitucional para gerir o ensino primário, implementaram muitas reformas
na tentativa de promover mudanças. Minas Gerais e outros estados com destaque nacional, como São
Paulo e Rio de Janeiro dão maior atenção a educação. A diferenciação quanto à promoção da educação
nos estados fica clara quando se observa que o Brasil além de ainda ter mantido sua base agrária e rural,
com uma pequena parcela da população nas áreas urbanas e um grande atraso industrial, contava com
grandes diferenças econômicas entre os estados brasileiros. Ao remeter a responsabilidade da educação
aos estados, remeteu-a também as condições de atraso ou avanço das diferentes regiões. Este trabalho
teve o objetivo de analisar uma dessas reformas, a regulamentação e implantação das escolas isoladas
na cidade de Mariana- MG, no período da Primeira República que antecede a criação dos Grupos
Escolares (1889-1909). Para tal foram analisados os documentos dos seguintes arquivos: da Câmara
Municipal de Mariana (atas das reuniões e orçamentos), da Cúria Metropolitana de Mariana (jornais) e
do Arquivo Público Mineiro (documentos escolares, jornais, mensagens presidenciais e legislações). Os
resultados obtidos apontaram que no fim do século XIX, as importantes escolas da cidade de Mariana
eram particulares e/ou ligadas a igreja católica. Paralelamente funcionavam as escolas isoladas públicas,
poucas e restritas a uma pequena parcela da população, o ensino era limitado e os alunos dificilmente
prosseguiam os estudos. O ensino primário público não estava entre as prioridades da Câmara de
Mariana, e pouco apareceu nas atas das reuniões do período contemplado neste estudo e a Câmara
pouca atenção deu as escolas isoladas. O número de professores normalistas era pequeno, apesar de
haver a Escola Normal de Ouro Preto e a frequência em todas as escolas isoladas era bastante
insatisfatória se considerarmos que correspondia a apenas a metade dos alunos matriculados.

402
AS ESCRITAS OBRIGATÓRIAS NOS CADERNOS ESCOLARES

ALICE RIGONI JACQUES.


PUCRS, PORTO ALEGRE - RS - BRASIL.

O presente artigo apresenta um estudo sobre as escritas obrigatórias nos cadernos escolares da 1ª série
do Curso Primário do Colégio Farroupilha de Porto Alegre/ do estado do Rio Grande do Sul, na década
de 1950 e que fazem parte do acervo do Memorial da escola. O objetivo deste trabalho é mostrar que as
percepções da escola e dos valores educativos se refletem nas práticas educativas dos cadernos
escolares e que as escritas que aparecem não surgem de uma exigência íntima, mas de um controle e
de uma disciplina instituída pelos professores, pois os textos, exercícios, cópias, atividades de caligrafia
e ditados realizados pelos alunos pertencem à categoria de “escritas obrigatórias”, ou seja, aquelas que
simplesmente eram um reflexo das palavras e atitudes do professor ou do livro de texto e que se
reproduziam nos cadernos escolares. Pouquíssimos tipos de escritas encorajavam a criatividade dos
alunos. A maioria deles apontam fragmentos de cerceamento oriundos dos professores e da prática
pedagógica da instituição de ensino. Neste trabalho, o estudo irá centrar-se nos cadernos de caligrafia,

189
cópias e ditados da 1ª série do Curso Primário de uma escola alemã do século XX, uma vez que haviam
cadernos diferentes para várias atividades desenvolvidas. Os exercícios que versam sobre a escola,
hábitos e atitudes saudáveis e conteúdos de civilidade serão analisados. A importância do estudo, a
necessidade de aprender, a imagem da sala de aula e do professor, a utilidade dos conhecimentos
escolares – especialmente da leitura e da escrita – e suas possíveis aplicações foram aspectos que se
trabalharam nas salas de aula e que os alunos modelaram em seus cadernos escolares, de forma mais
controlada do que espontânea. O recorte deste estudo consistiu na análise dessas escritas de cinco
cadernos escolares da década de 1950 que foi realizada a partir de uma pesquisa documental, leitura,
categorização e formação de unidades para interpretação dos documentos. Com este estudo, conclui-
se, que as escritas obrigatórias nos cadernos escolares evidenciam, os valores transmitidos pelos
docentes através das cópias e dos ditados a partir da interiorização e expressão que os discentes faziam
desses valores em suas redações e composições livres. Sabemos que ao entrar na escola, há uma
infinidade de coisas a serem aprendidas. O uso dos cadernos, com toda a complexidade e diversidade de
saberes, faz parte dessa inserção. O que não sabemos talvez, é se o caderno escolar refletia
exclusivamente a personalidade do professor, ou também a da criança, isso ainda é uma interrogação
que permanece flutuando no ar.

1214
AS INSTITUIÇÕES DE ENSINO SECUNDÁRIO EM CAMPO GRANDE: SUL DO ESTADO DE MATO GROSSO
(1910-1940)

REGINA TEREZA CESTARI DE OLIVEIRA.


UNIVERSIDADE CATÓLICA DOM BOSCO, CAMPO GRANDE - MS - BRASIL.

Esta pesquisa, em fase de conclusão, vincula-se ao projeto integrado “As Instituições Escolares no Sul do
Estado de Mato Grosso: gênese, implantação e consolidação (1910 -1940)”, que busca compreender o
processo histórico de implantação e consolidação das instituições escolares, no âmbito das políticas
educacionais, na região sul do estado de Mato Grosso. Este estado foi desmembrado em 1977, criando-
se o estado de Mato Grosso do Sul (MS), o que justifica o recorte espacial. Parte-se do entendimento de
que essas instituições são necessariamente sociais, criadas como unidades de ação e expressam visões
de mundo diferenciadas. Objetiva-se, aqui, analisar o processo de implantação do ensino secundário na
referida região, entre as décadas de 1910 e 1940, tendo como referência as reformas educacionais
nacionais do período. Destaca-se as primeiras instituições criadas em Campo Grande (capital do estado
de MS), para oferecer esse nível de ensino, ou seja: o Ginásio Osvaldo Cruz - setor particular -, em 1927;
e o Ginásio Municipal Dom Bosco - setor confessional-católico -, em 1930 (fundado, originalmente, pelo
Instituto Pestalozzi, em 1917). O recorte cronológico leva em consideração o processo de criação e
organização de ambos os ginásios, no referido período. A investigação baseia-se em fontes documentais
constituídas por leis, regulamentos, mensagens presidenciais encaminhadas à Assembléia Legislativa do
estado, relatórios de inspetores, levantados em arquivos públicos e particulares, atas da Câmara
Municipal de Campo Grande, assim como jornais da época. Nas primeiras décadas da República, o
ensino secundário, considerado como mecanismo de ascensão social, passou por várias reformas em
âmbito nacional e tinha como objetivo principal formar a elite dirigente, que ingressaria no ensino
superior. Assim, a escassez de estabelecimentos de ensino secundário no país, confirma o seu caráter
altamente seletivo, decorrente da política adotada pelo Estado brasileiro. Os resultados mostram que o
ensino secundário no sul do estado de Mato Grosso, começou com a ação da iniciativa privada, situação
que não se diferenciava da maioria dos estados do país que, de modo geral, mantinha apenas um
ginásio – modelo nas capitais - como foi o caso do Liceu Cuiabano, localizado em Cuiabá (capital do
estado de Mato Grosso). Diante da ausência de ginásios públicos, a fração social dirigente do sul de
Campo Grande investiu na criação do ensino secundário, na tentativa de garantir o poder no espaço sul-
mato-grossense, no contexto de modernização e aumento populacional dessa cidade. Portanto, até o
final da década de 1930, a iniciativa particular assumiu a responsabilidade de ministrar o ensino
secundário no sul do estado, na medida em que o poder público estadual criou o primeiro ginásio
público, isto é, o Ginásio Estadual Campo-Grandense em Campo Grande, somente em 1939.

190
1078
AS MUDANÇAS CURRICULARES DOS GINÁSIOS VOCACIONAIS DO ESTADO DE SÃO PAULO: DO
DESPERTAR DA VOCAÇÃO AO DESPERTAR DA TRANSFORMAÇÃO SOCIAL

DANIEL FERRAZ CHIOZZINI.


USP, SAO PAULO - SP - BRASIL.

A comunicação é um trecho da minha pesquisa de Doutorado, que consiste em um estudo da história e


da memória dos Ginásios Estaduais Vocacionais, projeto experimental educacional desenvolvido entre
1961 e 1969 no Estado de São Paulo, a partir da análise de documentos escritos, gravações de reuniões
pedagógicas da época e bibliografia de referência. A análise dos registros da memória individual de dois
educadores que participaram desse projeto experimental, realizada durante a pesquisa de Mestrado, foi
o ponto de partida para o estudo da memória coletiva dos Ginásios, permitindo identificar as diferenças,
conflitos internos e crises existentes na sua cúpula administrativa, o Serviço do Ensino Vocacional (SEV).
A mais emblemática dessas crises ocorreu em 1968, quando houve a demissão da maioria dos
supervisores de área. A demissão foi motivada pela aproximação da Coordenadora Geral das escolas
com um grupo de educadores que, na ocasião, havia entrado recentemente no SEV e que passou a
questionar as diretrizes educacionais então existentes. Esse novo grupo defendia um questionamento
maior do regime militar e práticas educativas mais “engajadas”. Posteriormente, na pesquisa de
Doutorado, busquei identificar na documentação escrita sobre a proposta pedagógica dos Ginásios, em
diferentes momentos da sua história, a repercussão dessas divisões internas e dessas mudanças. Nesse
sentido, foi utilizado como principal referencial um texto produzido para o I Simpósio de Ensino
Vocacional, ocorrido durante a 20ª. Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
(SBPC), realizada de 7 a 13 de junho de 1968, em São Paulo, e publicado na revista científica Ciência e
Cultura. As categorias e conceitos apresentados nessa publicação foram analisados e comparados com
outros documentos produzidos pelo SEV na mesma conjuntura histórica e em períodos anteriores,
alguns deles utilizados para discussão junto ao grupo de professores. Como o Simpósio ocorreu alguns
meses antes da demissão dos supervisores, a discussão desse material foi o ponto de partida para
compreender como as diferenças entre o novo grupo de educadores, que ingressou a partir de 1967, e
os que já atuavam estão refletidas nos documentos associados à proposta político-pedagógica dos
Ginásios Vocacionais, assim como para investigar até que ponto essas divergências atingiam o grupo de
professores dos Ginásios ou se restringiam a cúpula administrativa do Serviço de Ensino Vocacional
(SEV). Sendo assim, a comunicação é uma exposição desse capítulo da tese, que consiste na
interpretação da proposta educacional desenvolvida no âmbito do Serviço do Ensino Vocacional como
espaço de conflito de grupos internos, representativos de projetos distintos de escola experimental que
se constituíram ao longo da existência dos Ginásios Vocacionais. Esses conflitos chegaram a influenciar,
para além da proposta educacional das escolas, diferentes memórias da experiência como um todo.

1127
AS PRÁTICAS DE DIVERSÃO DE ESTUDANTES DE DIREITO DA ACADEMIA JURÍDICA DE SÃO PAULO NA
OBRA DO MEMORIALISTA ALMEIDA NOGUEIRA, 1827-1890

MARINA SANTOS COSTA.


UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO JOÃO DEL-REI, SAO JOAO DEL REI - MG - BRASIL.

Este trabalho apresenta resultados parciais de minha dissertação de mestrado, cujo principal objetivo é
investigar as práticas de diversão levadas a cabo pelos estudantes da Academia Jurídica de São Paulo,
entre 1827 a 1890. Entendemos por práticas de diversão todas aquelas atividades extraescolares
desenvolvidas pelos estudantes, mas quase sempre ligadas à Academia. Para analisar como se deram
essas práticas de diversão dentro e no entorno da Faculdade e os sentidos que elas assumiram para os
estudantes, tomamos como fonte principal a obra de Almeida Nogueira, estudante da Academia em um
tempo, professor da mesma em outro, intitulada: Tradições e reminiscências: estudantes, estudantões e
estudantadas. Organizada em nove volumes, a obra relata crônicas da Academia de São Paulo desde a
sua fundação em 1827 até 1890, o que favoreceu o estabelecimento do recorte cronológico do estudo.
Foi feita uma leitura minuciosa da produção de Almeida Nogueira à procura das práticas de diversão e

191
das configurações estabelecidas naquele espaço/tempo para o levantamento de categorias de análise,
dentre as quais os esportes, as festas, passeios, brincadeiras, os jogos de salão, os discursos amorosos,
produções artísticas e literárias etc. Estas categorias foram organizadas em um banco de dados, o que
permitiu uma análise quantitativa das recorrências das práticas de diversão dos estudantes.
Atualmente, temos nos dedicado ao cruzamento destas informações com outras fontes: os periódicos
paulistas que circulavam na época. Estes dados têm sido analisados a partir dos pressupostos de
Norbert Elias, especialmente os conceitos de configuração e redes de interdependências. Dessa forma, a
pesquisa permite a compreensão da dinâmica das relações sociais estabelecidas entre os sujeitos da
Academia, as forças que esses indivíduos exercem uns sobre os outros, os conflitos e tensões presentes
nesse espaço, o pertencimento social desses sujeitos e suas interações com o contexto da cidade de São
Paulo, o processo de construção da identidade dos próprios estudantes em suas práticas de diversão. Os
resultados preliminares indicam que a Academia de Direito era um espaço bastante rico em práticas
culturais, dentre elas, as práticas de diversão que funcionavam como uma das estratégias efetuadas
pelos estudantes para produzir suas relações sociais e de cotidianidade na Academia e em seu entorno.
Essa profusão de práticas de diversão permite um aprofundamento nos estudos que vem se ocupando
com as questões atinentes ao eixo temático “História das Instituições e Práticas Educativas”, o que traz
contribuições para o campo da História da Educação no que se refere ao ensino superior e às práticas
educativas cotidianas, não intencionais.

1350
AS PRÁTICAS ESCOLARES DA ESCOLA PRIMÁRIA PAULISTA NO FINAL DO SÉCULO XIX

ANALETE REGINA SCHELBAUER.


UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MARINGÁ, MARINGÁ - PR - BRASIL.

Sobre a difusão da escolarização primária no Brasil, é comum focalizarmos as primeiras décadas


republicanas, as reformas da Escola Normal e da Escola Primária, a criação dos Grupos Escolares, da
Escola Modelo, do Jardim de Infância. O olhar para o momento imediatamente anterior a este se
constitui em cenário para análise da temática em foco. O título – “As práticas escolares da escola
primária paulista no final do século XIX” – anuncia a finalidade da comunicação, que tem como contexto
a difusão da escolarização elementar salientada como um dos elementos de modernização da nação
brasileira. Sob esta perspectiva, emergem iniciativas de reorganização da escola primária em diferentes
províncias. Neste quadro, São Paulo configura-se como um terreno fértil para compreender as ações
decorrentes desse movimento, consubstanciadas pelas leis e regulamentos da instrução pública,
discutidos e aprovados no decorrer da década de 1880, e pelos relatórios dos professores primários, que
traduzem a forma como essas normas foram apropriadas no âmbito escolar. Tais fontes enunciam os
primeiros vestígios das práticas escolares e dos processos educativos que se consubstanciaram como
modelares nas reformas educacionais do período republicano entre os anos de 1890 e 1896. Os
documentos analisados fazem parte das fontes impressa e manuscrita sobre a Série Instrução Pública,
do Arquivo do Estado de São Paulo, que compreendem as leis e regulamentos da instrução pública
provincial, as atas do Conselho Superior de Instrução Pública, os relatórios dos professores primários da
capital e de algumas localidades da província. A partir da análise de dois espaços discursivos
caracterizados pelas fontes oficiais – pelas leis, regulamentos e regimentos da instrução pública paulista
e pelos relatórios dos professores públicos primários –, pretendemos iluminar o foco sobre esse
momento ao qual se pode atribuir esforços de organização e difusão da escolarização primária. As
concretizações relativas a esse ramo de ensino no final do Império permitem destacar as iniciativas que
imprimiram em cores e formas, os antecedentes da escola primária republicana. A análise desse período
permite precisar o lugar e o momento em que rupturas ocorreram, inovações foram propagadas,
processos educativos estabelecidos, determinados conhecimentos passaram a ser transmitidos pela
escola, condutas foram prescritas e cumpridas por professores e alunos, modelos pedagógicos aceitos
como válidos e mais eficientes no ensino e na aprendizagem das crianças. A temática justifica-se pela
centralidade do debate educacional em torno da difusão da escolarização popular, vista como um dos
elementos de modernização da nação brasileira, o qual fez emergir inúmeras iniciativas de renovação
educacional, muitas das quais foram normalizadas, prescrevendo os processos educativos e
regulamentando as práticas escolares dos professores primários.

192
1401
AS PRÁTICAS PEDAGÓGICAS NO IMPERIAL COLLEGIO DE PEDRO II: 1838-1878

KARL MICHAEL LORENZ.


SACRED HEART UNIVERSITY, CONNECTICUT - ESTADOS UNIDOS.

A produção e o uso de materiais pedagógicos para uso escolar na segunda metade do século XIX
resultaram de teorias e princípios pedagógicos inovadores. Estes mesmos utensílios, quando tomados
como fontes históricas, podem desvelar facetas das práticas pedagógicas vivenciadas em instituições
escolares. Este estudo tem por objetivo analisar aspectos das práticas pedagógicas vivenciadas no
Collegio de Pedro II, no período de 1838 a 1878. Justifica-se este recorte temporal, uma vez que, em
1838, foi implementado o primeiro Plano de Estudos do Collegio e a implementação do Plano de
Estudos de 1878, marcou a ruptura de um 'padrão' de ensino adotado até então.No aspecto teórico-
metodologico, a investigação se insere na História da cultura material escolar, que tem como matriz
uma das vertentes da História Cultural . Está baseado nas seguintes fontes: Planos de Estudos,
Programas de Ensino, as Tabelas das Aulas e os Livros Didáticos adotados na instituição no período. Uma
análise dos Planos de Estudos adotados revela que os mesmos traziam as marcas do ensino secundário
europeu, especialmente do adotado na França; contemplavam prioritariamente os estudos clássicos -
humanísticos, sem contudo, deixar de lado os estudos modernos nomeadamente os de Ciências Físicas e
Naturais e as Línguas 'vivas'. As Tabelas das Aulas permitem conhecer com que profundidade estes
estudos eram tratados, uma vez que a carga-horária atribuída a cada disciplina revela a ênfase dada a
cada área de conhecimento. Os resultados demonstram que a prática pedagógica dos professores tinha
que se mover dentro destes limites permitidos. Já a análise dos Programas de Ensino e dos Livros
Didáticos revelam a visão dos conteúdos ensinados em cada disciplina, bem como a orientação
metodológica adotada. Os resultados demonstram que, no período em estudo, os conteúdos ensinados
seguiam as tendências do ensino secundário da Europa Central; eram estudos embasados nas mais
modernas tendências teórico-metodológicas de cada campo do conhecimento, em voga na Europa. Em
relação aos métodos de ensino adotados, como não poderia deixar se ser, refletiam os princípios
pedagógicos de sua época, um ensino ainda predominantemente verbalista, centrado nos conteúdos e
na figura do professor, porém, as novas tendências pedagógicas já se faziam presentes, notadamente no
ensino das línguas modernas, nas Ciências e no campo da História e da Geografia.

1372
AS RELAÇÕES DE PODER NA TRAJETÓRIA DO CENTRO DE ESTUDOS SUPERIORES DE CAXIAS -1968-2002

ROLDÃO RIBEIRO BARBOSA.


UNIVERSIDADE ESTADUAL DO MARANHÃO, CAXIAS - MA - BRASIL.

Este é um recorte da pesquisa que está sendo desenvolvida com o título História e memória do CESC -
Centro de Estudos Superiores de Caxias (1968-2002), com o objetivo de construir a história dessa
instituição que teve e ainda tem uma importância estratégica para a interiorização da educação escolar
e o desenvolvimento no Estado do Maranhão. Mas em se tratando da questão do poder, intenta-se
construir uma história das relações que se estabeleceram em nível local e estadual, seja internamente
na instituição, desta com a instância hierárquica superior ou na relação desta com o poder local e com o
poder estadual. A questão norteadora é a de como os sujeitos históricos operacionalizaram o poder
para que o CESC tirasse o maior proveito possível na relação interna e nas relações com FESM/UEMA,
bem como com os poderes constituídos a nível municipal e estadual. Na construção da tessitura
histórica utilizaram-se três tipos de fontes: escritas, orais e imagéticas. As fontes escritas consistiram de
produção historiográfica, documentos oficiais e não oficiais e reportagens de jornais; as fontes orais
compõem-se de entrevistas colhidas de ex-alunos, agentes administrativos, professores, diretores,
reitores e secretário de educação, que tiveram passagem nessa trajetória do CESC; das fontes
imagéticas constam fotografias que registram os momentos mais solenes e rotinas da vida da
instituição. Na discussão dos dados empíricos utilizam-se os conceitos de memória de Jacques Le Goff,
de história de Walter Benjamin, de campo de Pierre Bourdieu, relações de poder de Norbert Elias, de

193
cooptação de Norberto Bobbio e de bloco histórico de Antônio Gramsci. O estudo compreende três
eixos fundamentais: as relações de poder que engendraram a criação e implantação do CESC; as
relações internas de poder em vista do exercício do poder no cotidiano interno do CESC; as relações
externas de poder com as instâncias hierárquicas superiores e as esferas municipal e estadual. Dos
dados extraíram-se as seguintes observações: o poder enquanto capacidade ou potencialidade para
transformar uma idéia ou projeto em ação, embora seja algo engendrado historicamente nas relações
sociais, nem sempre seus detentores o compreendem assim; nenhum poder se mantém se não estiver
apoiado num bloco histórico ou em um grupo que lhe de respaldo; nas instituições educativas se
reproduzem em dimensões micro as mesmas relações que engendram o poder na dimensão macro. Mas
apesar dos condicionamentos de um poder central e maior, as instituições educativas se constituem em
campos de resistência e de autonomia, embora relativizadas, frente aos setores dominantes da
sociedade.

601
ASSISTÊNCIA AOS “MOÇOS POBRES” DA UNIVERSIDADE DE MINAS GERAIS: A CAIXA DO ESTUDANTE
POBRE EDELWEISS BARCELLOS (1930–1935)

LAERTHE DE MORAES ABREU JUNIOR; ALICE CONCEIÇÃO CHRISTOFARO.


UFSJ, SAO JOAO DEL REI - MG - BRASIL.

Este trabalho tem como objeto de pesquisa a ação de assistência aos estudantes da Universidade de
Minas Gerais (UMG) realizada pela “Caixa do Estudante Pobre Edelweiss Barcelos” (CEPEB) no período
de 1930 a 1935. As primeiras ações de assistência estudantil relacionadas aos cursos superiores que
passariam a integrar a UMG se deram em 1912, com a Fundação Affonso Penna que, criada pela
Faculdade de Direito de Minas Gerais, se destinava à assistência aos alunos “carentes de recursos”. Em
1929, dois anos após a consolidação da UMG, foi criada a Associação Universitária Mineira (AUM), com
atividades voltadas à integração da educação universitária sob o ponto de vista moral, intelectual e
físico, inclusive assistência estudantil, fornecendo empréstimos de honra aos estudantes necessitados e
cujas identidades deveriam ser resguardadas conforme estatuto próprio. A renúncia do reitor da UMG
Mendes Pimentel em 1930, apontado como um dos principais mantenedores da AUM, inaugurou um
período em que as atividades desta se paralisaram. A nova Reitoria assumiu as atividades de assistência
ao estudante pobre e criou o Conselho de Assistência aos Universitários, que deveria ser presidido pelo
Reitor. Tal iniciativa supostamente não atendida às demandas daqueles estudantes até então assistidos
pela AUM. A Caixa do Estudante Pobre Edelweiss Barcelos passa a atuar nesse contexto,
proporcionando aos chamados “moços pobres” a assistência relacionada a taxas de matrícula,
mensalidade, empréstimos e assistência em casos de doença. Criada em 1930, a CEPEB conta com a
figura das Rainhas dos Estudantes Pobres, personagens de destaque no contexto social e estudantil da
época. A primeira Rainha, Edelweiss Barcelos, presidiu a CEPEB entre os anos de 1930 a 1932, sucedida
pela Srta Dayse Prates, que até 1935 esteve à frente da CEPEB, quando então a AUM retoma suas
atividades. A presente pesquisa encontra-se em andamento, e como metodologia, utilizamos como
fontes primárias os detalhados questionários de pedido de auxílio, cartas, pareceres, pedidos políticos,
extratos de entrevistas, livro-caixa, livros de benefícios, livros de eventos beneficentes, buscando
reconstruir a trajetória da CEPEB e a ação das Rainhas dos Estudantes da UMG no recorte citado,
estabelecendo a hipótese de que, para o acesso e permanência no ensino superior, antes frequentado
pelas elites econômicas e sociais, os estudantes pobres passam a estabelecer negociações, constituindo
assim possíveis relações de poder no interior da UMG que derivam das questões sociais que permearam
o contexto histórico das décadas de 1920 e 1930.

194
604
AULAS E PROFESSORES RÉGIOS NO RECÔNCAVO DA GUANABARA (1808-1837)

JORDANIA GUEDES.
UNIRIO, NOVA IGUACU - RJ - BRASIL.

O objetivo deste trabalho, fruto da pesquisa em andamento a cerca das instituições escolares e suas
práticas educativas no Município de Iguassú no Século XIX é apresentar a trajetória de professores
régios de primeiras letras nas Freguesias de Nossa Senhora da Piedade e Nossa Senhora do Pilar, ambas
na região hoje conhecida como Nova Iguaçu na Baixada Fluminense, Rio de Janeiro. Após a expulsão dos
jesuítas de todo o Império Português, foi necessária a reorganização do ensino oficial público, que não
foi realizada de forma homogênea e extensiva a toda a população. Esta reforma se deu através do
sistema de aulas régias, que foram divididas em disciplinas isoladas como desenho, retórica, gramática,
dentre outras e como o encontrado em terras iguassuanas: disciplinas elementares de ler, escrever, crer
e contar. As fontes utilizadas para a confecção deste artigo estão sob a guarda do Arquivo Nacional do
Rio de Janeiro e são compostas por requerimentos de candidatos à função, requerimentos de mestres
em exercício, substituições de docentes e atestados de boa conduta elaborados pela igreja local. O
sistema de aulas régias permaneceu no Império do Brasil entre os anos de 1759 e 1822, quando foi
denominado de aulas públicas. Na documentação analisada para este trabalho, os registros de aulas
régias em Iguassú permanecem até o ano de 1828, onde o professor da Freguesia de Piedade pede que
sua licença seja mais uma vez renovada. Após este registro pistas sobre a continuidade desta prática são
encontradas após o ano de 1833 quando a municipalidade da região é decretada como também sua
anexação a Província do Rio de Janeiro, todavia nos relatórios oficiais do governo a primeira escola
pública de primeiras letras para meninos é criada no ano de 1837. Através da documentação analisada é
possível afirmar que não houve mudança, reorganização e até mesmo ruptura entre os sistemas de
ensino após a Independência Brasileira e o ideário de uma nação brasileira ordeira e civilizada através
do ensino e instrução, da Lei Geral de Instrução em 1827, que ordenava a construção de escolas em
cidades, vilas e lugares populosos, como também do Ato Adicional de 1834 que designou que as
Províncias reorganizariam, legislariam o ensino primário e secundário. Recuperar o cotidiano de tais
escolas e da profissão docente neste período histórico, perceber as questões sociais e religiosas que
permeavam este espaço público por conta de seus vários agentes, são os principais desafios para uma
possível elucidação do que foram as aulas régias no recôncavo da Guanabara.

699
AÇÃO DA INSPETORIA DA INSTRUÇÃO PÚBLICA NA PROVINCIA DO MARANHÃO NA DECADA DE 50 DO
SECULO XIX

JOSECLEIDE SAMPAIO DA ROCHA; JOSIVAN COSTA COELHO; CESAR AUGUSTO CASTRO.


UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO, SAO LUIS - MA - BRASIL.

Este trabalho ancora-se no projeto de pesquisa ainda em andamento “A ação da Inspetoria Geral da
Instrução Pública na Província do Maranhão no período de 1835 a 1889”, que pertence ao Núcleo de
Estudo em História da Educação e das Práticas Leitoras no Maranhão-NEDHEL-UFMA. Pretende-se neste
trabalho compreender a constituição da inspeção da instrução, associada ao processo de
profissionalização docente no século XIX, como instrumento que almejou o controle e o exercício do
ofício, por meio de práticas, livros, materiais, circulação e movimentação de professores. Propõe-se
investigar, neste estudo, o modo como os professores públicos primários, sob a vigilância da Inspetoria
Geral Pública na Província do Maranhão de Instrução Primária e Secundária, lidavam com a ação de
serem fiscalizados, bem como suas relações com a inspetoria, as estratégias que utilizavam para
contornar os mecanismos de inspeção, as discussões e questões debatidas no campo pedagógico.
Busca-se identificar as estratégias de imposição adotadas pelo governo e pela respectiva Inspetoria por
meio dos decretos, regulamentos, portarias e visitas aos estabelecimentos educacionais, como também
detectar as táticas de apropriação adotadas por professores e alunos no processo de formação de
saberes e nas metodologias adotadas nas práticas pedagógicas no ato educativo. Analisam-se e tenta-se

195
apreender as representações construídas pelos inspetores expressas nos Relatórios dos Presidentes da
Província, Relatórios dos Inspetores da Instrução Pública, Ofícios, Regulamentos, Leis e Decretos sobre a
Instrução Pública e Relatórios dos Diretores do Liceu. Pretende-se analisar o contexto político e cultural
da sociedade maranhense, a fim de identificar como estes elementos estruturadores e estruturantes
influenciaram a ação deste mecanismo no processo de escolarização e de sociabilidade. Utiliza-se para
proceder à análise dos documentos da Inspetoria da Instrução Pública, como metodologia norteadora, o
levantamento desses materiais no Arquivo Público do Estado do Maranhão, e em seguida a sua análise e
compreensão por meio do método indiciário ginzburgiano, tentando-se encontrar os vestígios e marcas
não ditas no corpo da documentação num constante questionar. Pode-se a priori afirmar que a
Inspetoria da Instrução Pública era/foi um mecanismo criado pelo governo provincial que buscava
regular o bom andamento das aulas, fiscalizando os professores e alunos e servindo ainda como ponte
entre os Delegados da Instrução e o Presidente da Província a fim de por em práticas as estratégias
estabelecidas pelo governo. Objetiva-se com esta pesquisa contribuir para os estudos referentes à
História da Educação Maranhense e discutir a ação desses mecanismos existentes supostamente para
estabelecer a boa ordem da Instrução Pública no Maranhão Oitocentista.

616
AÇÕES EDUCATIVAS DO MUSEU NACIONAL PARA DIVULGAÇÃO DAS CIÊNCIAS E POPULARIZAÇÃO DA
CULTURA BRASILEIRA, NAS DÉCADAS DE 1920 E 1930

PAULO ROGÉRIO MARQUES SILY; JOSY DE ALMEIDA SANTOS.


UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO (UERJ), RIO DE JANEIRO - RJ - BRASIL.

Este trabalho tem por objetivo investigar as razões pelas quais o Museu Nacional do Rio de Janeiro, nas
décadas de 1920 e de 1930, se investiu ou foi investido de funções educativas voltadas para a
divulgação da ciência e para a popularização da educação, buscando compreender suas intenções e seus
significados, tomando como referência as ações desenvolvidas pelo Museu Nacional associadas às
demandas da instrução pública e de estabelecimentos escolares brasileiros nesse período. Para esses
estudos, procuramos considerar os debates sobre a educação, as idéias pedagógicas em circulação, os
novos métodos de ensino propostos para a instrução pública, as funções sociais dos museus e suas
práticas educativas à época, em uma conjuntura marcada, entre outras, pela institucionalização da
ciência, pela racionalização da pedagogia e pela nacionalização da educação. Durante a gestão dos
diretores Bruno Álvares da Silva Lobo (1915 – 1922), Arthur Hehl Neiva (1923 - 1926 ) e Edgard Roquette
Pinto (1926 - 1935) o Museu Nacional criou estratégias para divulgação das ciências e popularização da
cultura brasileira, o que resultou em ações promovidas por seus setores e seções de pesquisa,
orientadas por professores e cientistas. Para desenvolver tais estratégias e atingir seus objetivos foi
necessário produzir diferentes tipos de materiais para servirem como recursos pedagógicos em práticas
educativas, a saber: coleções didáticas e quadros murais, para comporem gabinetes de História Natural
e museus escolares, em estabelecimentos de ensino; filmes e diapositivos, com temáticas relacionadas
às ciências, utilizados em cursos e conferências para professores e alunos de diferentes níveis de ensino,
oferecidos pelo próprio Museu; A Revista Nacional de Educação, editada e publicada pelo Museu
Nacional, entre 1932 e 1934, com objetivo de levar o conhecimento das Ciências, das Letras e das Artes
às famílias brasileiras e aos professores e alunos de diferentes estados. Como fontes para essa pesquisa
estão sendo analisados os relatórios anuais dos diretores e dos chefes das seções de pesquisa do Museu
Nacional; os relatórios produzidos por Bertha Lutz (bióloga e funcionária do Museu Nacional) em suas
viagens no Brasil e no exterior, na década de 1920 e de 1930, para estudos sobre museus e suas ações
educativas; as conferências da Associação Brasileira de Educação (ABE); periódicos - jornais de grande
circulação, revistas especializadas - localizados nos arquivos do Museu Nacional, da Biblioteca Nacional
do Rio de Janeiro e da ABE.

196
1230
BIBLIOGRAFIA BRASILEIRA SOBRE ALFABETIZAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS NO BRASIL (1953 E 2010)

SUELI IWASAWA.
UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA, MARÍLIA - SP - BRASIL.

Neste texto, apresentam-se resultados parciais de pesquisa de Trabalho de Conclusão de Curso de


Pedagogia, vinculada à linha “Alfabetização” do Gphellb – Grupo de Pesquisa “História do Ensino de
Língua e Literatura no Brasil, do Projeto Integrado de Pesquisa “História do Ensino de Língua e Literatura
no Brasil” e do Projeto Integrado de Pesquisa “Bibliografia Brasileira sobre História do Ensino de Língua
e Literatura no Brasil (2003-2011)” (auxílio CNPq), todos coordenados pela Profª. Drª. Maria do Rosário
Longo Mortatti. Os objetivos dessa pesquisa são de contribuir para a compreensão da história do ensino
de língua e literatura no Brasil, em especial para a história da alfabetização de jovens e adultos no Brasil,
propiciar compreensão dos principais aspectos da bibliografia sobre o tema e subsidiar pesquisas
subseqüentes e correlatas ao tema. Mediante abordagem histórica centrada em pesquisa documental e
bibliográfica, desenvolvida por meio dos procedimentos de localização, recuperação, reunião, seleção e
ordenação de referências bibliográficas, elaborou-se um instrumento de pesquisa contendo relação de
referências de textos acadêmico-científicos sob a forma de livros, capítulos de livros, artigos, teses,
dissertações, trabalhos de conclusão de curso e documentos oficiais produzidos por autores brasileiros,
sobre o tema “Alfabetização de jovens e adultos no Brasil”, entre 1953 e 2010, respectivamente, o ano
de publicação do texto mais antigo e o ano de publicação dos textos mais recentes, dentre os
localizados até o momento. Essas referências foram elaboradas de acordo com a Norma Brasileira de
Referências (NBR 6023), da Associação Brasileira de Normas Técnicas, e ordenadas em seções de acordo
com o tipo de texto. Dessa pesquisa resultou o documento Bibliografia Brasileira sobre Alfabetização de
jovens e adultos no Brasil: um instrumento de pesquisa, cuja análise preliminar proporcionou identificar
quantas e quais são as pesquisas que abordam a Alfabetização de jovens e adultos no Brasil; qual o
período histórico em que foram produzidas; em quais instituições foram produzidas e quem são os
autores dessas pesquisas que resultaram nas referências de textos localizados. Por meio da análise
preliminar desse instrumento de pesquisa, foi possível também constatar a importância do
desenvolvimento de pesquisas históricas sobre a alfabetização de jovens e adultos e também a
importância da elaboração de instrumentos de pesquisa em etapas iniciais do desenvolvimento de
pesquisas acadêmico-científicas.

1298
BILIOGRAFIA SOBRE ESTÁGIO CURRICULAR OBRIGATÓRIO EM CURSOS DE PEDAGOGIA, NO BRASIL
(1953-2009)

AGNES IARA DOMINGOS MORAES.


UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA, MARILIA - SP - BRASIL.

Neste texto, apresentam-se resultados parciais de pesquisa de iniciação científica (Bolsa


Pibic/CNPq/Unesp), vinculada à linha “Formação de professores” do Grupo e Projetos Integrados de
Pesquisa “História do Ensino de Língua e Literatura no Brasil” e “Bibliografia Brasileira sobre História do
Ensino de Língua e Literatura no Brasil (2003-2011)” (Auxílio CNPq), todos coordenados pela Profª. Drª.
Maria do Rosário Longo Mortatti. O objetivo da pesquisa é compreender um importante momento
histórico da formação de professores no Brasil e, para seu desenvolvimento, mediante abordagem
histórica, centrada em pesquisa documental e bibliográfica, elaborou-se um instrumento de pesquisa,
utilizando os procedimentos de: localização, recuperação, reunião, seleção e ordenação de referências
de textos resultantes da produção brasileira institucional e acadêmico-científica referente ao estágio
estágio curricular em cursos de Pedagogia no Brasil. As referências de textos localizadas, até o
momento, totalizam 122, e foram elaboradas de acordo com a Norma Brasileira de Referência (NBR) –
6023 (2002), da Associação Brasileira de Normas Técnicas. Com base na análise preliminar das
referências resultantes desse instrumento de pesquisa, destaca-se a escassa produção de trabalhos
históricos sobre estágio, apesar da relevância do tema neste momento histórico. O estágio é de algo

197
diretamente ligado à formação de professores, no Brasil. Um dos pontos mais polêmicos em relação à
formação de professores foi/é a questão do constante conflito entre a priorização, ora da formação
teórica em relação à formação prática, ora da formação prática em relação à formação teórica. A
questão da teoria e prática, mais especificamente o estágio, há décadas, perpassa os debates em torno
da educação. Para alguns o potencial do estágio parece sub-utilizado; para outros, estagiários, escolas e
universidades estão insatisfeitos. Os resultados obtidos até o momento indicam que o estágio foi e
continua a ser um tema polêmico e objeto de disputas teóricas; e também a realização desse
instrumento de pesquisa contribui para formação de iniciante na pesquisa científica, permitindo
identificar uma lacuna na produção bibliográfica sobre estágios. Esses resultados indicam, ainda, a
importância do instrumento de pesquisa, para o desenvolvimento de pesquisas históricas, já que, uma
vez elaborado e divulgado, pode colaborar, tanto para colocar em evidência áreas carentes de pesquisa,
quanto para a realização de pesquisas correlatas sobre essa temática.

1325
CADERNOS ESCOLARES E PRATICAS EDUCATIVAS NO PRIMARIO BRASILEIRO DA DECADA DE 30
1 2
ARICLÊ VECHIA ; ANTÓNIO GOMES FERREIRA .
1.UNIVERSIDADE TUIUTI DO PARANÁ, CURITIBA - PR - BRASIL; 2.UNIVERSIDADE DE COIMBRA, COIMBRA
- PORTUGAL.

Para compreendermos o que realmente significa a atuação da escola, temos de encontrar formas de
chegarmos às atividades dos alunos. É nelas que se concretiza a intencionalidade educativa e a
habilidade pedagógica que deverá capacitar o sujeito escolarizado. Mas não há formas puras e diretas
de perscrutar a vivência escolar do passado, captar o poder da rotina escolar, compreender a
consistência do ensino ministrado, ver o desenrolar dos exercícios, observar a dialética da relação
pedagógica, colocar as questões na exata dimensão que o contexto sociocultural da época permitia. A
história das atividades escolares tende a parecer um antigo álbum de recortes, onde as imagens e os
apontamentos de diferentes momentos suscitam reações, mas dificilmente produzem a sensação dos
acontecimentos que testemunham. Na realidade, estamos quase sempre, diante de uma arqueologia da
escola, buscando nos materiais escolares a que temos acesso, a compreensão das vivências escolares e
do seu sentido educativo. Se houve tempos em que os manuais foram a principal fonte para se chegar
aos conteúdos, nos últimos anos, os cadernos escolares vêm despertando interesse, pois possibilitam
maior aproximação ao trabalho realizado na escola, tendo Hébrard (2001) considerado alguns tipos de
cadernos como “prova irrefutável" do trabalhado realizado pelos alunos. Os cadernos são suportes de
escrita e, como tal, expressam uma capacidade tecnológica tanto nos materiais de que são feitos como
no modo como são usados. Este estudo tem por objetivo desvelar as práticas pedagógicas e aspectos do
cotidiano vivenciados por professores e alunos, no interior da sala de aula de escolas de ensino primário
de três Estados brasileiros na década de 30 do século XX. As fontes que dão suporte às análises são uma
coleção de 24 cadernos, que pertenceram a um aluno de uma escola particular do Paraná de 1934 a
1937; a um aluno de uma escola pública de São Paulo de 1936 a 1939 e a uma aluna de uma escola
confessional de Minas Gerais no período de 1937 a 1940. No aspecto teórico-metodológico, se insere na
História da cultura material escolar, que tem como matriz uma das vertentes da História Cultural. Muito
embora as análises permitam perceber as atividades envolvendo as técnicas da escrita, as matérias
dadas, os exercícios realizados, as rotinas diárias, o caderno escolar revela-se uma fonte interessante
quanto complexa na reconstrução histórica das práticas escolares. Interessante, porque revela aspectos
das práticas pedagógicas, da apropriação dos conteúdos, das técnicas de ensino, dos valores veiculados,
das dificuldades dos alunos; complexa porque apresenta apenas parte das práticas escolares, deixando
muito a dizer sobre a oralidade existente na sala de aula e sobre atividades realizadas para além do
interior da classe que não foram passiveis de registro. Mesmo assim, são preciosos materiais para
compreendermos o ensino e as aprendizagens da época em causa.

198
653
CAMINHOS PARA SE APREENDER A CONSTRUÇÃO DAS IDÉIAS PEDAGÓGICAS NO BRASIL NA
FORMAÇÃO DE PROFESSORES: UMA APRESENTAÇÃO DO LIVRO DE OURO DA ANTIGA ESCOLA
NORMAL DA CIDADE DE SÃO CARLOS (1911-1945)

ALESSANDRA ARCE HAI.


UFSCAR, SAO CARLOS - SP - BRASIL.

Este trabalhao é fruto de trabalho que vem sendo realizado a três anos junto a Escola Estadual Dr.
Álvaro Guião (catalogação, limpeza, digitalização - fontes pictográficas - e alimentação de banco de
dados) com o objetivo de restaurar e preservar seu acervo documental e bibliográfico . O trabalho faz
parte do projeto de Extensão intitulado: “Recuperação, conservação e organização do acervo
documental e bibliográfico da Escola Estadual Álvaro Guião” e, do projeto de pesquisa financiado pela
Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) intitulado: “A idéias Pedagógicas em
movimento na Formação de Professores na Escola Estadual Dr. Álvaro (1930-1969): uma análise de seu
acervo bibliográfico e documental”. Este trabalho insere-se no campo das pesquisas da História das
Idéias Pedagógicas. A definição que foi tomada neste trabalho e utilizada para a realização de nossas
pesquisas fundamenta-se na definição feita por Dermeval Saviani em sua obra “História das Idéias
Pedagógicas no Brasil”. Saviani (2007, p. 6-7) diferencia idéias educacionais de idéias pedagógicas. Para
o autor o termo idéias pedagógicas contempla a prática educativa e a teoria que a embasa. Portanto
quando se pensa o termo “pedagógico” sua referência é também a forma como este se materializa, ou
seja, é operacionalizado no ato cotidiano de educar. Assim o “pedagógico” forma-se não só dos
discursos e das idéias dos autores, mas também do como fazer, de sua práxis. Não podemos deixar de
ressaltar que o trabalho com história das idéias pedagógicas ao procurar apreender o teórico-
metodológico traduzido na práxis educativa o faz tendo como ponto de partida a práxis social na qual
estas idéias são gestadas. Neste trabalho apresentamos ainda em caráter descritivo os conteúdos
trabalhados com as normalistas, no período de 1911 a 1945, por meio da leitura das provas que foram
registradas no Livro Ouro da antiga escola normal da cidade de São Carlos, situada no interior do Estado
de São Paulo. O “Livro de Ouro” da Escola Normal de São Carlos é constituído da transcrição das
melhores provas realizadas pelos alunos e escolhidas por seus professores. O primeiro registro de prova
é datado de 13/11/1911 com uma prova de Álgebra feita por um homem e a última prova com data de
29/09/1945 de Geometria e feita por uma mulher. O trabalho nos levou a encontrar nas provas
transcritas um caminho d