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A IMPUNIDADE DA MENTIRA E DOS MENTIROSOS 

Por Julián MARÍAS, da Real Academia Espanhola 


(Trecho Adaptado e traduzido do espanhol. Os trechos
em parênteses são de minha autoria)
(...) Hoje a mentira é muito freqüente e muito
perturbadora. Não estou me referindo a erros, que em
princípio podem ser aceitos, embora naturalmente
possam ser evitados, mas a deliberada falsidade,
procurada, disseminada com grandes recursos, que
podem produzir uma intoxicação da sociedade, uma
espécie de septicemia que pode colocar em risco a saúde
da sociedade.
 
Hoje a mentira consciente é usada como um programa,
como uma arma que é indubitavelmente injusta e muito
perigosa. A enorme difusão e eficácia da mídia permite
que o corpo social seja contaminado por mentiras. Seria
desejável que aqueles que tendem a segregá-lo
evitassem; Devem pensar que a mentira é prejudicial
também para quem a emite, que é vítima dela e se
condena ao profundo descontentamento que ela
engendra. Quando alguém mente deliberadamente, é
inevitável pensar que não se estima, que tem profundo
descontentamento consigo mesmo ou com o que afirma
representar. Mas em qualquer caso, devemos levar em
conta a reação dos outros, daqueles que estão "expostos"
à mentira. Estou preocupado com a passividade geral
com que as mentiras são bem-vindas. Alguns, movidos
pela força da propaganda, não percebem, pode-se dizer
que o aceitam; outros sentem um certo desconforto, uma
impressão de que "não é isso", mas carecem de qualquer
reação própria. Isso causa uma grande impunidade da
mentira, que não tem sanção ou remédio. (A Sociedade
passiva com relação às coisas erradas sofrerá as
conseqüências devastadoras que ela produz em longo
prazo)
 
Um fato importante é que a maioria dos autores,
promotores e divulgadores da mentira depende da
opinião alheia, procuram influenciá-la, modificá-la,
confiar nela para ganhar poder e influência. Isso significa
que buscam "prestígio", na força que vem dos
outros. Nesse sentido, sua melhor ou pior sorte depende
da reação social aos seus propósitos. A mentira tem que
ser descoberta, mostrada, feita cair sobre seus autores ou
divulgadores. Essa é a primeira coisa que teria que ser
feita, que nos faria saber o que esperar de cada um -
indivíduos, grupos, a mídia. Se isso fosse feito com
sabedoria e energia, a impunidade seria evitada em um
grau muito alto. Ver-se-ia que, no final das contas, não é
importante mentir, que tal atitude destrutiva recai
primeiramente sobre aqueles que a praticam. (Uma
sociedade passiva contra os mentirosos torna-se cúmplice
dos crimes mais hediondos)
 
Estou pensando nas mentiras notórias e verificáveis que
não resistem ao confronto com os fatos, com a
realidade. Aqueles que mentem dessa maneira não
podem se refugiar em ambigüidades de interpretação, o
que é discutível. Você tem que contrastar o que é dito
com o que é de fato. Esta operação de saneamento é
perfeitamente possível; a única condição é que seja feito
com cuidado e clareza. (A passividade quanto a mentira é
uma forma de alienação egoísta, denota falta de pudor e
coragem heróica, quem é passivo com a mentira é um
covarde, nunca merece a reputação de heroísmo)
 
Mas existe um tipo de mentira que é ainda mais grave: a
calúnia. Muitas são lidas ou ouvidas, afetando de alguma
forma a dignidade das pessoas ou de seus grupos. Elas
significam a forma mais perniciosa e menos tolerável de
mentir.  desempenha um papel, mas é inaceitável, deve
ser substituído por algo mais justo e decente. (A Coragem
de viver á vida que vale a pena é viver a coragem de ser
verdadeiro a qualquer preço)
 
Em suma, há recursos viáveis. Embora as decisões
demorem muito e não seja totalmente confiável, o fato
de ser processado significaria um alerta, um alerta, um
sinal muito útil. Existe, graças a Deus, a "presunção de
inocência", que deve ser zelosamente preservada; Mas a
"presunção de culpa" também deve existir quando se
baseia em fatos verificáveis, quando responde à suspeita
fundada de falsas declarações.
 
O problema é gravíssimo, porque pode causar um
distúrbio de convivência, uma perda de confiança na lei,
na expressão de opiniões, na própria democracia. Mentir
é o risco máximo que ela tem o que leva à perda de seu
prestígio, o que pode engendrar o risco máximo que é a
aversão a ela. (Uma sociedade que banaliza e ignora a
mentira e a calunia, está em decadência moral e fica
sujeira a toda a sorte de injustiças)

Traduzido e adaptado por C. J. Jacinto

Publicado em
www.heresiolandia.blogspot.com

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