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1.

INTRODUÇÃO
A humilhação do filho de Deus, compreendendo desde a sua encarnação até
a sua morte na cruz, revela o plano de Deus para salvar a humanidade. Os judeus
não compreenderam o mistério da encarnação de Jesus, o filho de Deus, e por isso
não o receberam (João 1.11). Os próprios discípulos não compreenderam esse
mistério, motivo pelo qual discordaram de Jesus, quando ele disse que partiria para
o caminho da humilhação e morte.

Ainda hoje muita dúvida paira sobre a necessidade de tanto sofrimento.


Nesse sentido, o objetivo principal desse trabalho de monografia é procurar
esclarecer as peculiaridades da humilhação do servo do Senhor. Um segundo
objetivo é levar os leitores a uma reflexão sobre as implicações da humilhação de
Jesus Cristo na vida dos seus discípulos.

Para esse propósito será tomado como base a profecia de Isaías, o


evangelho de Marcos, e a carta do apóstolo Paulo aos Filipenses. Nos próximos
capítulos serão expostas algumas caracerísticas do Servo Sofredor na visão do
profeta Isaías, do evangelista Marcos e do apóstolo Paulo.

Este trabalho de pesquisa parte principalmente da consulta bibliográfica e


artigos publicados e procura fazer um ponto de inflexão com a prosperidade tão
buscada hoje. Como então separar a teologia da glória extensamente propagada, da
teologia da cruz1? Esse é o problema de pesquisa.

A justificativa se faz valer na importância da humilhação de Cristo, uma vez que o


tema é extremamente atual, pois assim como Cristo se humilhou, seus seguidores
também devem se humilhar tendo convicção de que também serão exaltados.

O primeiro capítulo apresenta o Servo do Senhor na visão do profeta Isaías como


descrito por ele no capítulo 52.13 ao 53.12. O segundo, vai apresentar o
entendimento do evangelista Marcos, e o terceiro e último capítulo vai trazer a
compreensão do apóstolo Paulo, a patir da sua carta aos Filipenses. A seguir, o
pensamento de Isaías.:

2 O SERVO SEGUNDO ISAÍAS 52.13 – 53.12

1
Momenclatura adotada por Martinho Lutero.
“Eis que o meu servo procederá com prudência; será exaltado, e elevado, e
mui sublime. Como pasmaram muitos à vista dele, pois o seu parecer estava tão
desfigurado, mais do que o de outro qualquer, e a sua figura mais do que a dos
outros filhos dos homens. Assim borrifará muitas nações, e os reis fecharão as suas
bocas por causa dele; porque aquilo que não lhes foi anunciado verão, e aquilo que
eles não ouviram entenderão. Quem deu crédito à nossa pregação? E a quem se
manifestou o braço do SENHOR? Porque foi subindo como renovo perante ele, e
como raiz de uma terra seca; não tinha beleza nem formosura e, olhando nós para
ele, não havia boa aparência nele, para que o desejássemos. Era desprezado, e o
mais rejeitado entre os homens, homem de dores, e experimentado nos trabalhos; e,
como um de quem os homens escondiam o rosto, era desprezado, e não fizemos
dele caso algum. Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as
nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e
oprimido. Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa
das nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas
pisaduras fomos sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada
um se desviava pelo seu caminho; mas o Senhor fez cair sobre ele a iniqüidade de
nós todos. Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a sua boca; como um cordeiro
foi levado ao matadouro, e como a ovelha muda perante os seus tosquiadores,
assim ele não abriu a sua boca. Da opressão e do juízo foi tirado; e quem contará o
tempo da sua vida? Porquanto foi cortado da terra dos viventes; pela transgressão
do meu povo ele foi atingido. E puseram a sua sepultura com os ímpios, e com o rico
na sua morte; ainda que nunca cometeu injustiça, nem houve engano na sua boca.
Todavia, ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando a sua alma se
puser por expiação do pecado, verá a sua posteridade, prolongará os seus dias; e o
bom prazer do Senhor prosperará na sua mão. Ele verá o fruto do trabalho da sua
alma, e ficará satisfeito; com o seu conhecimento o meu servo, o justo, justificará a
muitos; porque as iniqüidades deles levará sobre si. Por isso lhe darei a parte de
muitos, e com os poderosos repartirá ele o despojo; porquanto derramou a sua alma
na morte, e foi contado com os transgressores; mas ele levou sobre si o pecado de
muitos, e intercedeu pelos transgressores.”

Quem é o Servo de IAVÉ? Esta pergunta não é recente. É o que se pode


inferir pelo Novo Testamento. O evangelista Filipe, quando perguntado pelo eunuco
da rainha de Candace da Etiópia, a quem se referia o profeta em Isaías 53,
responde de forma contundente que é Jesus (Atos 8. 26-40).

Fora do texto bíblico há interpretações diversas sobre o significado da


expressão. A seguir serão apresentadas as mais importantes 2:

A interpretação mitológica: Vinculada a teólogos escandinavos como Nyberg


e Engnell, que sugerem que há a presença de fortes elementos mitológicos nos
cânticos.
A interpretação autobiográfica: Nesta compreensão, o autor refere-se a si
mesmo. Então, o Servo seria Isaías.

A interpretação Individual: Os traços pessoais delineados nas Canções do


Servo levam os comentaristas a identificar o servo como uma figura histórica. O
autor refere-se a um indivíduo ou episódio histórico.

A Interpretação Coletiva ou corporativa: os poemas referem-se a um grupo ou


nação e o Servo é identificado com a comunidade de Israel (o remanescente). Por
detrás desta compreensão está o conceito de personalidade corporativa vigente
entre os povos do antigo Oriente Próximo, incluindo Israel. Osvalt (2011) comenta
que, com o surgimento da alta crítica, começou-se a pensar no Servo como uma
personificação da nação. Esse ponto de vista esteve em alta no século XIX e tem
adeptos ainda hoje. J. Ridderbos (1986) aponta que o verso 8 diz que o Servo sofre
por causa do povo de Deus, logo não pode estar referindo a Israel.

A Interpretação mista: Combina as interpretações individual e a coletiva.


Entende-se que uma interpretação puramente individual ou coletiva não esgota o
assunto. Portanto, funde-se a compreensão: O Servo é um personagem que, por
sua vez, encarna a comunidade de Israel.

Interpretação Messiânica: Esta interpretação aponta para o Cristo, o


descendente de Davi, o Messias esperado de Israel.

Que tipo de libertador o povo de Israel poderia esperar, após tantas


promessas feitas por IAVÉ? Talvez pudesse causar surpresa que Deus tenha

2
Texto retirado ipsis literis da dissertação de mestrado de S ilvio Ferreira da Silva Filho: A
CANÇÃO DO SERVO DE ISAÍAS 52.13-53.12 E AS CONFISSÕES LUTERANAS: A RELEVÂNCIA
DO TEXTO PARA A PROCLAMAÇÃO CONFESSIONAL DO EVANGELHO, 2014.
querido agir através do Servo, cujo modus operandi mostrados anteriormente em Is
42.1-9; 49.1-6; 50.4-9, tomam em Is 52.13 - 53.12, um contorno mais claro, com
detalhes mais vivos, especialmente no que diz respeito ao seu sofrimento vicário e
seu triunfo incontestável. Esta descrição do Servo pressupõe as três descrição
prévias (capítulos 42,49,50). Ela não pode ser entendida sem as que a precedem. O
que se ve nessas passagens citadas, é que os sofrimentos do Servo estão ainda
envoltos em brumas, ou seja, não estão bem claras, como observa Osvalt (2011, p.
458): “[…] As consequencias mundias de sua obra após aparente fracasso, a falta
de compreensão, a disposição de enfrentar o sofrimento imerecido, o sucesso
infalível, tudo isso está presente em forma embrionária nas primeiras descrições.”

A divisão tradicional do capitulo 53, que data do início do século XIII, é


claramente fruto de um equívoco, pois o capítulo começa em 52.13, onde a Canção
do Servo do Senhor é introduzida, a qual, desde este ponto até o final do capítulo
53, é o assunto da Canção. Osvalt (2011, p. 458-459) diz:

O poema fornece evidência da criteriosa construção literária. Contém cinco


estrofes de três versos cada uma (52.13-15; 53.1-3, 4-6, 7-9, 10-12). A
primeira e a última estrofes contêm a recomendação do Servo na voz de
Deus, enquanto as três do meio falam da humilhação e sofrimento do Servo,
a primeira e a segunda das quais estão na voz de “nós”, os que causamos
seu sofrimento. O pensamento central do poema se focaliza em dois grandes
contrastes: o contraste entre a exaltação do Servo, e sua humilhação e
sofrimento, e o contraste entre o que o povo pensava do Servo e qual era
realmente a situação […].

Nesse trabalho, será adotada a divisão feita por Osvalt. A seguir, uma análise
das cinco estrofes que tem início em Is 52.13-15:

“1 Eis que o meu servo procederá com prudência; será exaltado, e elevado, e
mui sublime. 2 Como pasmaram muitos à vista dele, pois o seu parecer estava tão
desfigurado, mais do que o de outro qualquer, e a sua figura mais do que a dos
outros filhos dos homens. 3 Assim borrifará muitas nações, e os reis fecharão as
suas bocas por causa dele; porque aquilo que não lhes foi anunciado verão, e aquilo
que eles não ouviram entenderão.”

Osvalt comenta sobre a admiração das pessoas ao se deparar com o Servo:


As nações se sentirão tão surpresas ante a grandeza do fim como ficaram
ante a pequenez do começo [...] a excessiva grandeza do servo leva os reis
da terra a fecharem suas bocas [...] sua grandeza é tão pequena que nada
tem a dizer em sua presença e nada mais podem fazer senão cair a seus
pés... assim, o que jamais ouviram antes é que alguém que assumira uma
posição tão humilde pudesse no fim assentar-se no próprio trono de Deus.

(OSVALT, 2011, p. 463).

Por isso os pagãos recebem com fé as boas novas que já haviam sido
ouvidas antes. Israel tem que se lamentar por não ter acreditado nas notícias que
havia ouvido há muito tempo, não apenas com referência à pessoa e obra do Servo
de Deus, mas em relação à sua origem humilde e fim glorioso.

A verdade é que as pessoas que ouviram falar desse libertador estavam


perplexas: Quem poderia imaginar que um libertador pudesse colocar-se num plano
tão humilde assim? Quem poderia crer que a libertação viesse de alguém tão
desfigurado, fraco e sofrido?

Is 53.1-3 “1 Quem deu crédito à nossa pregação? E a quem se manifestou o


braço do SENHOR? 2 Porque foi subindo como renovo perante ele, e como raiz de
uma terra seca; não tinha beleza nem formosura e, olhando nós para ele, não havia
boa aparência nele, para que o desejássemos. 3 Era desprezado, e o mais rejeitado
entre os homens, homem de dores, e experimentado nos trabalhos; e, como um de
quem os homens escondiam o rosto, era desprezado, e não fizemos dele caso
algum.

John Oswalt diz: “A pessoa que está sendo descrita aqui [53.1] como ‘o braço
do Senhor’ e como o Servo é o mesmo Servo descrito em 42.1-9, 49.1-6; e 50.4-9.”
(OSWALT, 2011, p. 458). A expressão “o braço de IAVÉ” que também aparece em
40.10; 48.14; 51.5; 52.10 mostra claramente como Deus resolveu resgatar seu povo
de maneira que este não poderia fazer isso por si só. Mas quando Deus estende seu
braço savador a reação a ele é de espanto. A questão central aqui é que a notícia
que está sendo dada a respeito da salvação provém do braço de Iavé.

O caráter surpreendente desse verso é que o braço salvador de YAHWEH


seja mostrado não como quem esmaga um inimigo, mas, em um primeiro momento,
esmaga o próprio Servo do Senhor, que é moído e esmagado pelos pecados do seu
povo.

O verso 2 traz o Servo como alguém sem nenhum atrativo que pudesse atrair
aqueles a quem veio libertar. O braço do Senhor descrito no verso 1 começa a se
manisfestar na vida do Servo em princípio de forma imperceptível prosseguindo de
forma crescente no decorrer da sua vida. Silva Filho (2014, p. 34) lembra:

No entanto, o que se espera dos libertadores, dos heróis de guerra, dos


salvadores? Que eles sejam fortes, enérgicos, e que atraiam as pessoas a si
e as envolvam no seu projeto libertador. Este Servo de maneira alguma se
encaixa nesse perfil. Exteriormente, seu projeto libertador parece repelir as
pessoas, afastá-las de si. Ele poderia ser referido como uma árvore frondosa,
de madeira de lei; mas, é referido como um renovo, isto é, como um frágil
broto recém-nascido, cuja sobrevivência é bastante duvidosa.

Osvalt complementa:

Inevitavelmente, o cristão imagina Jesus Cristo: um recém-nascido no


estábulo de uma cidade. Isso abalaria o Império Romano? Um homem
calmamente chegando ao grande pregador do dia e pedindo que fosse
batizado. É esse o advento do homem que seria proclamado como o Salvador
do mundo? Não, não é esse em quem pensamos ser o braço do Senhor.
Estivemos esperando um major engalanado a liderar nossa parada triunfal.
Nossos olhos se sentem cheios e satisfeitos com o esplendor superficial. Este
homem, diz Isaías, não terá nada disso. Como resultado, nossa vista passeia
pela multidão em busca dele, e nem assim o divisamos. Seu esplendor não
está na superfície, e os que não se dispõem a olhar para além da superfície
jamais o verão, muito menos lhe prestarão atenção. (OSVALT, 2011p. 466).

O verso 3 parece indicar que ele foi visto pelas pessoas mas, o que elas
viram? Beleza alguma. Essa palavra pode ser traduzida também por “forma,
aparência, dignidade”. É usada para descrever a beleza de Raquel (Gn 29.17) e a
de José (Gn 39.6). Também caracteriza a Davi (1 Sm 17.42). Pode caracterizar o
próprio Deus (Sl 96.6, 145.5). Isso indica que o Servo abriu mão da sua beleza e
esplendor divinos para vir ao encontro da humanidade pecadora a fim de resgatá-la.
Aquilo que agrada o olhar, a vista das pessoas, não foi visto no servo.
A repulsa das pessoas quando se depararam com ele aparece na expressão
“era desprezado”. Era a figura de um perdedor. E as pessoas pensavam: como um
perdedor poderia ajudar outros perdedores?

Além de não ser atrativo, ele ainda tinha seus próprios problemas, Ele estava
ferido, maltratado, era um homem de dores. Ele encarna o sofrimento e a reação
das pessoas é imediata: elas escondem o rosto. Talvez até por questões
cerimoniais. Osvalt comenta:

E assim, a revelação do braço do Senhor que libertará o povo do Senhor se


depara com choque, perplexidade, desprazer, afastamento e repulsa. Alguém
assim dificilmente poderá nos libertar da mais persuasiva de todas as
escravidões humanas: o pecado e todas as suas consequências. (OSVALT,
2011, p. 468).

O sofrimento do Servo de IAVÉ precisa ser entendido no contexto oriental,


onde se acreditava que o sofrimento sempre era em consequência de um pecado
que a pessoa cometeu. No entanto, o Servo está sofrendo por culpa alheia, em
virtude dos pecados do seu povo.

Isaías 53.4-6 “1 Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades,


e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e
oprimido. 2 Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por
causa das nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e
pelas suas pisaduras fomos sarados. 3 Todos nós andávamos desgarrados como
ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho; mas o Senhor fez cair sobre ele a
iniqüidade de nós todos.

A primeira estrofe mostra que ele não foi reconhecido devido ao seu parecer.
Parecia que os efeitos do pecado estavam sobre ele. Ele estava bastane
desfigurado por causa dos seus sofrimentos. A partir do verso quatro pode-se
entender que seus sofrimentos foram por causa dos pecados do seu povo. Na
verdade não havia nada de errado com ele, o propósito era providenciar a cura. Não
havia nada errado com ele, mas tudo estava errado conosco.

Normalmente, gostamos de abrandar as nossas deformidades e desvios de


conduta, fazemos de tudo para atenuar nossos equívocos. O ser humano se esquiva
de curvar-se ao governo do Criador, e insiste em criar códigos morais que
justifiquem a sua conduta. Deus não aceita nada disso como justificativa. Osvalt
(2011, p. 472) diz: “ao menos que alguém se ponha em nosso lugar, nos porão
frente a frente com as espadas de nossa própria fabricação e executarão as torturas
de nossa própria invenção.”

Nesse sentido, até que o castigo seja removido todas as boas intenções do
mundo não podem restaurar a hamonia quebrada. Osvalt complementa: “No Servo,
ele achou a forma de gratificar seu amor e satisfazer a sua justiça” (OSVALT, 2011,
p. 473).

Se pelas suas pisaduras fomos sarados, então seu sacrifício é substitutivo.


Ele mesmo não merece todos esses sofrimentos, mas sofre para produzir benefícios
para outros. Isaías é enviado por Deus com uma pregação dura de justiça e juízo,
esse é ministério do profeta. O Servo é enviado por IAVÉ para trazer a cura e levar
sobre si as mazelas do seu povo, essa é a obra de Deus.

O “todos nós”, abre e fecha a passagem indicando que as consequências do


pecado atingiu a todos sem excepção. È notável o profeta comparar o povo de Deus
com ovelhas. Diferente do mundo onde o importante é ser o leão, o mais forte.
Osvalt comenta:

As ovelhas são notoriamente ingênuas e ao mesmo tempo inconscientes de


suas circunstâncias. Suas mentes estão na próxima moita de relva, e em
nada mais. Além disso, quando estão amedrontadas tem a tendência de
arremessar-se em qualquer direção. Como resultado dessas tendências, as
ovelhas são propensas a perder-se. Nós também, como elas, amiúde nos
sentimos impotentes ante as conseqüências, especialmente as de caráter
eterno. Então, o que tem acontecido? As conseqüências recaíram sobre o
Servo. Isso não é acidental; o texto diz explicitamente que Deus fez isso
acontecer. Que grande mistério. (OSVALT, 2011, p. 474).

Isaías 53.7-9 “7 Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a sua boca; como
um cordeiro foi levado ao matadouro, e como a ovelha muda perante os seus
tosquiadores, assim ele não abriu a sua boca. 8 Da opressão e do juízo foi tirado; e
quem contará o tempo da sua vida? Porquanto foi cortado da terra dos viventes;
pela transgressão do meu povo ele foi atingido. 9 E puseram a sua sepultura com os
ímpios, e com o rico na sua morte; ainda que nunca cometeu injustiça, nem houve
engano na sua boca.
O Servo é também comparado com uma ovelha, mas diferente do seu povo,
que a passagem anterior se refere como ovelhas, a característica emprestada do
animal aqui é outra. Enquanto se aplica ao povo de Deus a facilidade que as ovelhas
têm em se extraviar, ao Servo se aplica a obediência que esse animal singular
apresenta. A metáfora da ovelha ainda faz com que o Servo se identifique com o seu
povo, se fazendo como um deles.

A profecia toma contornos sombrios ainda mantendo a metáfora da ovelha


que caminha para o matadouro. Ele não só foi desprezado, não só foi ferido, mas ele
foi morto pelos pecados do seu povo. Sua vida foi ceifada precocemente ainda que
ele nunca tenha praticado a injustiça. Osvalt (2011, p. 476) comenta: “Esta estrofe
enfatiza três elementos: A submissão do Servo, sua inocência e a injustiça do que
lhe foi feita. [...] não apenas nada fez que seja digno da morte que lhe vem ao
encontro; ele realmente está recebendo o tratamento que outro merecia.”

Ser tirado da opressão e do juízo pode ter o sentido de que Deus o arrebatou
para si, mas não há consenso entre os comentadores sobre a passagem. Parte do
seus sofrimentos foi ter sido deixado sem decendentes. Silva Filho (2014, p. 58) diz:

[…] o Servo foi deixado sem filhos numa cultura segundo a qual morrer sem
filhos era ter vivido uma existência inútil. Do ponto de vista meramente
humano, era perceptível que este homem estava sendo castigado de todas as
formas possíveis e imagináveis.

Apesar de terem designado a sua sepultura com os perversos, ele foi


colocado em um sepulcro onde ninguém nunca havia sido enterrado. Os homens o
mataram com requintes de crueldade mas Deus lhe deu um funeral glorioso. Silva
complementa: “O evangelista Mateus relata que José de Arimatéia cedeu sua
sepultura no jardim e, assim, vemos a profecia e o cumprimento no relato das
Escrituras: Seu corpo morto, de fato, repousou na sepultura de um homem rico.”
(SILVA FILHO, 2014, p. 60).

Isaías 53.10-12 “10 Todavia, ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar;


quando a sua alma se puser por expiação do pecado, verá a sua posteridade,
prolongará os seus dias; e o bom prazer do Senhor prosperará na sua mão. 11 Ele
verá o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito; com o seu conhecimento o
meu servo, o justo, justificará a muitos; porque as iniqüidades deles levará sobre si.
12 Por isso lhe darei a parte de muitos, e com os poderosos repartirá ele o despojo;
porquanto derramou a sua alma na morte, e foi contado com os transgressores; mas
ele levou sobre si o pecado de muitos, e intercedeu pelos transgressores.”

Essa última parte mostra o resultado do trabalho do Servo de IAVÉ, e


responde a pergunta: qual o significado do sofrimento injusto e cruel deste homem?
Por que ele sofre tanto? A complexidade dos propósitos de Deus parece ter aqui o
seu clímax, afinal, foi o próprio Deus que causou nele todos os sofrimentos. Embora
tenham sido os homens quem infligiram tão grande sofrimento ao Servo, eles
estavam simplesmente cumprindo a vontade de Deus.

A profecia toma agora contornos escatológicos apontando para o resultado


prático da sua obra. E vai mostrar que todo aquele sofrimento, que culmina com a
sua morte não foi em vão, que havia um propósito maior sendo cumprido. Silva Filho
(2014, p. 60) comenta:

Quais são os resultados do trabalho do Servo? Para ele, o texto traz


referências de felicidade e alegria contrastantes com o que foi dito a respeito
dele até aqui. Dele, foi dito que é desprezível e que não teria descendência;
aqui se fala dele como alguém favorecido por Deus e que ele verá a sua
descendência. Também é dito que viverá uma vida longa. Também é dito que
cumprirá os propósitos de Deus para a sua vida.

Muito longe de ser maldito de Deus, o Servo será o meio pelo qual as
promessas de reconciliação se tornam reais na vida do povo de Deus. Ainda que
tenha sido reputado como maldito por essa geração, após a ressurreição ele verá
cumprido em si mesmo todos os propósitos de Deus. Como salienta Westermann
(1969 apud OSVALT, 2011, p. 490): “É somente do outro lado da morte do Servo
que seu livramento e o nosso podem concretizar-se.”

Com o seu conhecimento ele justificará a muitos, ou seja, ele tanto conhece
aquele que o enviou como também conhece aqueles que justifica. Silva diz:

Ele conhece a Deus, com o qual ele está unido em amor; ele conhece os
conselhos do seu amor e os desejos da sua graça, pelo desejo do qual
deixou-se moer, ser traspassado e ferido, até chegar às câmaras da morte.
Por causa do conhecimento completo que ele tem do Pai, ele é capaz de
tornar justos todos os que se apegam a ele em fé verdadeira. (SILVA FILHO,
2014, p. 64).
O Servo, ao tomar o lugar dos seus escolhidos e se entregar por eles os
justifica. Nesse sentido, cada ser humano salvo é declarado justo por ele, que
conquistou essa autoridade com seu sofrimento e morte vicária. Silva Filho (2014, p.
65) complementa:

A razão pela qual as pessoas são tornadas justas é que o Servo está
carregando as iniqüidades deles. Ele carrega as iniquidades do povo e, por
isso, ele leva sobre si o castigo que o povo deveria levar e, assim, torna
justos todos aqueles que recebem, pela fé, o sacrifício que ele ofereceu.
Porque a justificação tem sua raiz no perdão dos pecados, como uma dádiva
imerecida da graça, sem obras.

E todos os poderosos que lhe fizeram oposição no decorrer da história lhe


serão dados como despojos. Esse termo pressupõe guerra e pressupõe vitória. No
contexto do livro, os exércitos vencedores exibiam como troféus os despojos dos
vencidos. E ele os dividirá com aqueles que ele conquistou com seu sacrifício.

Ele mantém firme ao seu lado aqueles a quem justifica intercedendo por eles
junto a Deus. Ele é o advogado dos pecadores que confiam em sua justiça junto do
Pai. Interceder por nós faz parte do seu Ofício Sacerdotal, segundo o qual, ele não
apenas ofereceu-se por nós, como Cordeiro sem defeito, mas que intercede por nós
junto ao Pai.

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