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AFONSO MARIA DAS CHAGAS

O CONSÓRCIO ENTRE ESTADO, GRILAGEM E LATIFÚNDIO


AGROEXPORTADOR: O CASO DE RONDÔNIA

Projeto de pesquisa apresentado ao Programa


de Pós-graduação em Direito da
Universidade do Vale do Rio dos Sinos como
requisito ao ingresso no Mestrado em Direito,
área de concentração Direito Público, linha
de pesquisa Hermenêutica, Constituição e
Concretização de Direitos.

Orientador:

CURITIBA
2010

Universidade do Vale do Rio dos Sinos


Programa de Pós-Graduação em Direito
Processo Seletivo - Mestrado em Direito
Candidato: Afonso Maria das Chagas
Área de Concentração: Direito Público
Linha de Pesquisa: Hermenêutica, Constituição e Concretização de Direitos.

Pré-Projeto de Pesquisa

Título: “O consórcio entre o Estado, a Grilagem e o Latifúndio Agroexportador 1 na


Amazônia: O caso de Rondônia.”

Resumo: Este pré-projeto de pesquisa tem como foco de investigação as íntimas e complexas relações entre
o Estado, a prática da grilagem de terras e o latifúndio agroexportador, no processo de ocupação recente da
Amazônia Brasileira, desencadeado a partir dos anos 1960, em plena ditadura, e que tem se consolidado
desde então. Esta proposta volta-se para o caso específico de Rondônia, palco de programas de colonização
dirigida, coordenados principalmente pela iniciativa estatal. Passadas algumas décadas, as experiências
concretas apontam para um fracasso das tentativas de executar a reforma agrária. Diante da precária
assistência aos assentados, houve um intenso processo de abandono dos lotes e reconcentração fundiária,
acompanhado também da apropriação privada de terras públicas, muitas vezes com a conivência dos órgãos
estatais. Atualmente, a demanda por terra continua, muitas vezes verbalizada em atos e palavras de
movimentos sociais do campo. O Estado, por sua vez, não apenas tem se mostrado incapaz de solucionar os
conflitos no campo, como parece atuar contra a Reforma Agrária, em favor do latifúndio, quando observamos
atos como a lei nº 11.952/2009, chamada de “Lei de regularização fundiária da Amazônia”, que, na prática,
tem regularizado a grande posse, ainda que originada na grilagem de terras públicas. Assim, este projeto de
pesquisa busca analisar as políticas oficiais, os marcos jurídicos estabelecidos, o papel do Estado brasileiro e
a sua recusa em se servir das possibilidades constitucionais e assim implementar uma efetiva política de
organização fundiária e reforma agrária na região.

1. INTRODUÇÃO
A partir dos anos 1960, a ditadura militar instalada no Brasil conseguiu, enfim,
colocar em prática os planos de ocupação mais efetiva da Amazônia brasileira, até então
dotada de raros centros urbanos e habitada por povos indígenas, quilombolas, seringueiros,
ribeirinhos e outras comunidades tradicionais. Em tempos de acirramento de conflitos
agrários na região Centro-Sul do país, a Amazônia foi apresentada como fronteira livre para
os que se encorajassem a ocupá-la, naquilo que Octavio Ianni caracterizou como “contra-
reforma agrária” ou “reforma agrária conservadora” (IANNI,1979).
Em Rondônia, a história não foi diferente. Palco de programas de colonização
dirigida, coordenados principalmente pela iniciativa estatal, o então “Território Federal de
Rondônia”, emancipado em 1981, atraiu milhares de migrantes que deixavam suas regiões

1
O “latifúndio agroexportador” é elemento característico da atual fase do capitalismo no campo, em que os
modelos de produção são caracterizados pela concentração de terra, pautados pela inserção na economia de
mercado, pelo monocultivo e pela priorização do mercado externo (exportação de matérias-primas). Neste
contexto, desaparece, na relação de trabalho, o trabalhador rural, que dá lugar ao assalariado rural. Este modelo
agrícola, também chamado de agronegócio, obstaculiza a reforma agrária e causa graves prejuízos à natureza.
Ressignificada para o contexto atual, originalmente, a expressão “latifúndio agroexportador” foi cunhada por
Caio Prado Júnior, em sua obra “História Econômica do Brasil”, de 1945 (PRADO Jr., 1945)
de origem em busca do “sonho do Eldorado rondoniense”2. Em pouco tempo, a frustração se
espalhou. Muitos não conseguiram acessar os lotes que o INCRA distribuía. Os que foram
assentados, quando não encararam o abandono do Estado, incapaz de garantir condições
para a permanência na terra (infra-estrutura, assistência técnica, comercialização), se
depararam com condições ambientais desfavoráveis, como a malária e um clima muito
diferente daquele no qual estavam acostumados a produzir.3 O resultado: abandono dos
lotes. Esta situação – aliada à conivência dos órgãos estatais responsáveis por fiscalizar e
executar a reforma agrária, que fizeram vista grossa ou mesmo estimularam a invasão e
grilagem de terras públicas – desencadeou um processo de reconcentração fundiária em
Rondônia.
Claramente amparado pelo marco jurídico do Estatuto da Terra (Lei nº 4.050/64) e
por Decretos regulamentares e atos internos4”, o Estado brasileiro, legítimo detentor das
terras da Amazônia tinha nas mãos a possibilidade de desenvolver ou implementar uma
verdadeira e razoável política de ocupação fundiária na região, respeitando as populações ali
existentes, as características do bioma, do meio ambiente, assim não o fez por escolha e por
estratégia. Os “acertos cartoriais” precediam o estudo das políticas a serem implantadas. A
lógica destes “acertos” fomentava o “cartel imobiliário”. Fato é que, desde o princípio, a
concentração de grandes áreas públicas sob propriedade privada, foi a lógica do sistema. O
marco jurídico efetivou-se com o possível desta lógica: processos de transferência de bens
públicos (terras públicas) através de Contratos de licitações.

2. O PROBLEMA
2
Em uma reportagem de capa sobre a finalização das obras de asfaltamento da BR 364, a estrada é
caracterizada como “O caminho do amanhã. Estrada leva ao Polonoroeste: o novo eldorado.” (PINTO, 1983)
3
Para muitos dos que foram assentados nos projetos do INCRA, a sorte não foi melhor. Instalados em terras
com potencial agrícola inferior (as terras mais férteis foram destinadas a grandes propriedades), a prática
agrícola só era viável por meio de técnicas de produção que empregavam capital intensivo (MILIKAN, 1999,
115). As famílias, endividadas, se desfizeram de seus lotes. A valorização das terras na região tornava os
ganhos potenciais com a venda da terra superiores ao retorno econômico da produção. A rotatividade de
colonos era alta: em alguns projetos, até 70% da população originalmente assentada vendeu seus lotes. No PIC
Ouro Preto, quatorze anos depois do assentamento inicial, 63% dos colonos originais se desfizeram de suas
terras. No PA Machadinho, em um ano, 40% dos lotes mudaram de dono.
4
Em seu artigo 11º o Estatuto da Terra autorizava a União à dispor à sua maneira das terras federais, assim
orientando: “Tanto quanto possível o Instituto Brasileiro de Reforma Agrária imprimirá ao instituto das
terras devolutas orientação tendente a harmonizar as pecularidades regionais com os altos interesses do
desbravamento através da colonização racional visando erradicar os males do minifúndio e do latifúndio”.
Marcos jurídicos advieram à luz possibilitando a implantação de projetos agropecuários (os contratos previam
empresas rurais), conforme atesta o decreto nº 1.164/1971 regulamentado pelo Decreto nº 71.615/1972,
estabelecendo todas as condições para um processo de transferência das terras públicas a particulares através
de precários contratos de alienação de terras públicas (CATPs).
O projeto e o processo de colonização do Estado de Rondônia foram elaborados e
postos em prática pelo Estado brasileiro com alguns marcos jurídicos e propostas de
desenvolvimento específicas. Neste campo de disputa via-se de um lado o Estado detentor
da maioria das terras (terras devolutas, antigos seringais, terras públicas), de outro lado,
grupos de interesses que iam desde grandes seringalistas até grupos imobiliários,
objetivando a especulação imobiliária. No mesmo cenário, os ocupantes originários e
tradicionais (povos indígenas, remanescentes de quilombolas, seringueiros e ribeirinhos),
sujeitos de direito à priori, são encarados como obstáculo, e por isso, alvo de toda uma
política de eliminação física e de direitos. Prevaleceu o “direito de conquista”, de
colonização, vencendo o modelo desenvolvimentista escamoteado sutilmente pela
propaganda da integração nacional5.
Efetiva-se assim, uma íntima relação entre Estado e Latifúndio e mais, Estado e
processos de grilagem, principalmente nas novas frentes de colonização (Rondônia, Mato
Grosso e Pará). Beneficiaram-se de tais projetos Seringalistas (que freqüentemente
expulsavam os Seringueiros), Imobiliárias (SINOP, Mato Grosso, CALAMA, Rondônia,
como exemplos), Conglomerados financeiros e Especuladores de terras Assim, explica
Hélio Roberto Novoa6: “Muitos, através de prepostos, adquiriram lotes que se quer tiveram
a intenção de um dia saber se efetivamente existiam ou não, ou seja: emprestaram nomes
para os peritos em grilagem, que não tinham outro objetivo senão locupletarem-se da
inoperância da fiscalização oficial e perpetrarem um grande processo de reconcentração
de terras”.
O problema central então, deste projeto de pesquisa, é compreender o desdobramento
da questão fundiária e o processo de transferência do patrimônio público a particulares, no
contexto da Colonização de Rondônia, bem como os mecanismos pelos quais tanto os
dispositivos constitucionais, que dão garantia aos bens públicos, quanto os objetivos
fundamentais da República (Estado) foram preteridos nestes programas oficiais de
colonização.

2.1. A abertura política e a Constituição de 1988

5
Em 1966, voltando-se para a Amazônia como um todo e objetivando um Programa de Integração Nacional
(PIN), o Presidente Castelo Branco anunciava: “é preciso integrar para não entregar”.
6
COSTA, Hélio Roberto Novoa, in, Revista de Direito Agrário, MDA, INCRA, NEAD, ABDA, Ano 19,
nº 18,2006.
A partir da segunda metade da década de 80 do século XX, “ ondas e ventos” de
cidadania atravessam o País, ocupam praças e ruas. Clamava-se por eleições diretas para
Presidente da República e por uma Nova Assembléia Nacional Constituinte. Veio a
Assembléia e veio a Constituição em 1988, afirmando em seu Artigo 3º, Inciso III, que:
“deve ser objetivo da República Federativa do Brasil, erradicar a pobreza e a
marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais”, e mais, esculpiu lá
princípios e garantias, falou-se da “função social da propriedade”, dos bens públicos que
devem antes, atender aos interesses e necessidades da coletividade.
Ainda que o País se livrasse da Ditadura Militar em 1985, aprovasse uma
Constituição inovadora em 1988 e os cidadãos voltassem a escolher um Presidente civil
para a República em 1989, não conseguimos alterar a arcaica e patrimonial estrutura do
Estado brasileiro. Desde a abertura democrática a questão agrária, como política de Estado,
as garantias e princípios sócio-econômicos, vislumbrados no texto constitucional, não
passaram de escrita. Nunca se efetivaram.
Todas as transformações ocorridas em decorrência das políticas ocupacionais,
ditadas pelo Estado brasileiro, tanto com este caráter desenvolvimentista como tantas vezes
dirigidas e implementadas pelo capital monopolista transnacional7, serviram como obstáculo
planejado para a concretização de direitos.
Tal projeto desenvolvimentista, estimulado pelo Estado se tornou, com o passar dos
anos, incapaz de cumprir seus propósitos primeiros, de executar uma política racional de
organização fundiária e de uma conseqüente reforma agrária na região. Quando
vislumbraram-se as possibilidades preteriu-se a Constituição pela recolonização pelo golpe
de Estado Institucional, na lição do professor Paulo Bonavides.8
O constitucionalismo do Estado Social, potencialmente capaz de corrigir as
desigualdades sociais e regionais sofre um duro golpe com o apoderamento do estado por
setores extremamente conservadores e que fazem da concentração da terra, do latifúndio e
da grilagem, um importante meio de controle e manutenção do Poder. É o próprio Estado

7
Programas como o POLONOROESTE – década de 80 - ,financiado pelo Banco Mundial (1bilhão e
100 milhões de dólares),, para ser implantado no eixo da BR 364, trouxe como conseqüência o
desmatamento acelerado, invasão das áreas indígenas e unidades de conservação, exploração
predatória da madeira e concentração fundiária. Políticas estas dirigidas pela idéia de imperialismo
norte-americano. Já o PLANAFLORO – década de 90 – pensado para corrigir os efeitos de
execução do programa anterior, incorreu em várias falhas, ignorou as demandas sócio-econômicas
e terminou às pressas por implementar um zoneamento falho e grotesco, que veio a ser reparado
várias vezes posteriormente.
8
BONAVIDES, Paulo. Do País Constitucional ao País Neocolonial”. 3ª ed. São Paulo: Malheiros,
2004.
aviltando as conquistas e as garantias constitucionais, na mesma lição do professor
Bonavides9.

2.2. A MP 458 e a legitimação da grilagem


No início dos anos 2000, um grupo de novos Procuradores da Advocacia Geral da
União ligados à Procuradoria Especializada do INCRA, começaram a levantar e estudar a
possibilidade de retomar as terras públicas, oriundas de contratos viciados ou inadimplentes,
terras ilegalmente havidas, para que, fosse tal iniciativa, um meio eficaz, judicial ou
administrativamente, de controle da grilagem das terras públicas e ao mesmo tempo forma
de arrecadar terras para um audacioso programa de reforma agrária na Amazônia.
Quando se abriu a possibilidade constitucional de retomar ou reverter extensas áreas,
objetos de contratos resolúveis ou ilegalmente tomadas pela grilagem de terras, o Estado
brasileiro, sob pressão do Congresso Nacional, fez a nítida opção de regularizar, legitimar
tal processo, através da célere aprovação da MP/458 convertida em Lei nº 11.952/2009, a
chamada Lei de regularização Fundiária da Amazônia10.Assim, a possibilidade de uma
política fundiária que pudesse corrigir um problema histórico, transformou-se em uma
possibilidade interrompida.
Agora, então, pela lei, já é possível “legalizar” a grande posse, ainda que grilada,
ainda que pública. E, para não ser pouco, o programa “Terra Legal” pode ser amplamente
divulgado como um grande balcão de especulação imobiliária, com a chancela do Estado,
algo só visto na história do Brasil, quando da famosa Lei Vergueiro (Lei nº 601/1850),
autorizava o governo a vender as terras públicas e devolutas. Duas coisas estavam
garantidas: os pobres não poderiam ocupar as terras, no entanto cria-se o posseiro, ou os
primeiros sem-terra, vive nela mas não a possui. E assim, o “Brasil de papel” poderia enfim
libertar os seu escravos, criando os primeiros sem-terras. E não tem sido diferente nos dias
atuais. A violência, outra face da moeda do latifúndio, seja institucionalizada ou não, tem
sido um marco cotidiano na questão agrária em Rondônai11
9
“De País Constitucional se converte gradativamente em País Neocolonial, em ‘colônia de
banqueiros’, praça de ‘negócios da China’ e mercado de especuladores internacionais, que lhe
sugam as riquezas, lhe empobrecem o povo e criam a mais injusta dívida externa e interna já
contraída, este século, por um Estado. (Obra citada).
10
A citada Lei, vai criar o Programa Terra legal. Tal Programa publicou relatório em setembro de
2009, comunicando relatórios mínimos sobre o número de cadastrados e sobre as áreas
cadastradas. 81,6% dos imóveis cadastrados tem área até 4 módulos fiscais, no máximo até 400
hectares, ocupando 37% de toda área requerida até então. Por outro lado, as ocupações de 400 a
1.500 hectares (17,8% dos imóveis requeridos) correspondiam a 60% do total da área requerida, na
Amazônia legal.
11
De acordo com os dados da Comissão Pastoral da Terra (Goiânia), em Rondônia no ano de 2009, foram 31
conflitos no campo, envolvendo perto de 6 mil famílias de trabalhadores/as rurais. 04 ocorrências de Trabalho
Tal decreto, assim como a nova lei de regularização fundiária, institui um novo
direito de propriedade, pensado de modo a garantir o poder a quem sempre o teve. Mantém-
se imutável a estrutura fundiária no País, oriunda desde o período colonial. Os valores
democráticos, republicanos, preconizados na Constituição Federal não alcançam o campo
brasileiro. Uma vez mais desperdiça-se a oportunidade de superar o maior e mais remitente
dos anacronismos da estrutura social brasileira, responsável pelo atraso econômico e pela
exclusão da cidadania de milhões de brasileiros, fartamente exposta na lição de Alberto
Passos GUIMARÃES (1989), Ariovaldo Umbelino Oliveira (1988).

2.3. Qual é, enfim, o papel do Estado?


O cenário deste Projeto de pesquisa é a realidade da ocupação da Amazônia, no caso
específico de Rondônia. Portanto, sob a luz da questão fundiária/agrária, este Projeto busca
analisar as políticas oficiais, os marcos jurídicos estabelecidos, o papel do Estado brasileiro
e a recusa em se servir das possibilidades constitucionais e assim implementar uma efetiva
política de organização fundiária e reforma agrária na região.
Numa visão prévia, é possível antever diversos parâmetros adotados ou assumidos, a
dirigir toda uma prática governamental de benefício e legitimação de grandes interesses na
questão da ocupação das terras. A efetivação de tais programas, indicam por sua vez o
reverso desta realidade: o genocídio indígena, conflitos pela posse da terra, desmatamento e
degradação do meio ambiente, entre outros sinais. Em sua rota de efetivação, tal prática
dirigida de colonização, firmou-se também como uma substituição programada e financiada
de um modelo ou política de reforma agrária que tinha como objetivo a agricultura familiar
para uma proposta de reforma imobiliária, beneficiando interesses particulares,
originariamente estabelecidos. Neste cenário, o Estado não é platéia, é palco. E em muitos
aspectos o personagem principal e ao mesmo tempo diretor, por aquilo que programou e por
aquilo que se omitiu, principalmente quando demandado pelos segmentos sociais
organizados.

3. OBJETIVOS

3.1. Objetivo geral da pesquisa

escravo denunciadas com 74 trabalhadores libertos. A violência contra a ocupação e a posse teve 26
ocorrências atingindo 5.123 famílias. Destas, 87 foram despejadas e 98 ameaçadas de despejo. Conforme o
mesmo relatório, há em Rondônia 508.866.843,00 hectares de terras devolutas.
Através da análise dos dispositivos constitucionais relativos aos bens públicos,
direito e função social da propriedade, Princípios fundamentais (Art. 1º ao 4º da
Constituição Federal, objetiva-se verificar os critérios de efetividade dos direitos sociais e
econômicos frente à precariedade das políticas implementadas pelo Estado brasileiro,
especialmente a política fundiária/agrária no caso específico do projeto de colonização de
Rondônia.

3.2. Objetivos específicos


• Conhecer e analisar, de maneira transversal e multidisciplinar, as políticas públicas
constitucionais possíveis de concretizar uma legítima e democrática política agrária e
fundiária e que foram negadas ou revogadas por programas e políticas anti-cidadãs
excludentes, por natureza.
• Investigar se há uma linha de continuidade jurídica entre as várias Instruções
Normativas da Autarquia federal encarregada de gerir e regular procedimentos
fundiários (INCRA), passando pela MP 458/2009, que dispõe sobre a regularização
fundiária das ocupações incidentes em terras da União, na Amazônia legal chegando
à Lei nº 11.952/2009.12
• Examinar e buscar formalizar uma hipótese sobre o papel do Estado
(intervenção/controle) na aplicação da política agrária no caso específico de
Rondônia, pretendendo compreender a correlação entre o mesmo Estado e a
concepção do latifúndio agroexportador na Amazônia e no caso concreto de
Rondônia.

4 - JUSTIFICATIVAS
Antes que as justificativas deste projeto de pesquisa sejam apresentadas, é importante
destacar que esta proposta de pesquisa consiste também em uma oportunidade para ampliar
o conhecimento sobre a Amazônia Brasileira sob o ponto de vista da ciência jurídica.
Considerada uma região estratégica, seja pela intensidade do processo de
acumulação capitalista em curso, seja pelo potencial dos movimentos sociais organizados
em torno da luta por direitos, seja pela especulação em torno de suas riquezas, pela cobiça
internacional e por tantos outros motivos, a Amazônia, e mais especificamente, Rondônia,
12
Tal lei consiste numa verdadeira proposta de apropriação ilegal de terras públicas. Este processo, que passou
ao largo do debate público, muitas vezes titulando e tutelando acordo de gabinetes, altera sorrateiramente a Lei
de Licitações (Lei nº 8.666/93), traduzindo-se enfim numa verdadeira efetivação de programa de especulação
imobiliária e grilagem.
ainda carece de atenção sistemática no campo do conhecimento científico, produzido de
modo a respeitar as especificidades regionais de seus processos sociais, incluindo aqueles
problematizados neste projeto de pesquisa.
A compreensão de tais processos sob o crivo do debate jurídico se faz urgente,
afinal, os subterfúgios transformados em normativos procedimentos, têm sido secularmente
um instrumental para assegurar alguma forma de poder e torná-lo legítimo. A busca
por parâmetros que ajudem a entender esta realidade, com a possibilidade de uma releitura
contextualizada, tem potencial não só de qualificar um possível processo de consciência
individual ou coletiva, como também de oferecer contribuições para uma atuação tanto
técnica quanto de apoio aos diferentes segmentos sociais envolvidos. Embora limitado, este
olhar acadêmico sobre uma realidade até agora descuidada do rigor científico, poderá
subsidiar a opinião pública com outros tipos de informação e colaborar no avanço do
processo democrático e de construção da cidadania.
Do ponto de vista da ciência jurídica, este projeto justifica-se pelo contexto atual, em
que há uma reflexão diferenciada, buscando a constitucionalização da norma, uma releitura
dos estatutos civis e uma abordagem mais funcionalista do Estado e da Administração, a fim
de que se efetive concretamente um Estado democrático de Direito e de concretização de
direitos. Este Direito novo, vinculado aos interesses da cidadania e de uma autêntica
democracia, recomenda valor não ao título, à escritura, o registro, mas ao fato social, antes
de tudo. A questão central é então, resgatar, como fonte principal do Direito, o próprio
Direito e não a lei abstrata, que em uma sociedade de classes, vai inexoravelmente, refletir a
força do mais forte.
Tais filtros principiológicos entre outros, nos direcionariam para uma releitura da
função do Estado sob os parâmetros constitucionais, suas responsabilidades sociais e sua
legitimação. Estado este que não pode sucumbir mediante uma legislação patrimonialista,
muitas vezes “encomendada” com o fim somente de proteção à interesses de grandes
grupos. Tal Estado, nesta leitura preambular, “age por omissão”, quando, principalmente
neste cenário fundiário/agrário, proporciona e assume um verdadeiro espetáculo de
regularização de ilegalidades.
Assim, justifica-se o fio condutor de tal Projeto, em investigar, estudar e analisar a
participação e intervenção do Estado, de seus instrumentais de controle/permissão de
políticas que não só motivam como também legitimam a adoção de práticas políticas sobre a
questão das terras no Brasil.
Justifica-se ainda, pelo fato de investigar as possibilidades, as lacunas de tais
procedimentos, para que, num debate teórico mais aprofundado, possa servir de instrumental
propositivo à contestação e insurgência contra tais posturas, seja no âmbito da discussão
jurídica, seja na assessoria aos segmentos sociais.

5 – LINHA DE PESQUISA - Procedimentos de Pesquisa

5.1 – Pesquisa documental


Levantamento de toda documentação possível de ser encontrada em Órgãos
governamentais, relacionada ao processo de Colonização no Estado de Rondônia. Consulta a
arquivos, relatórios e outros documentos. Muitos destes documentos já foram localizados e
copiados, relacionado ao tema da pesquisa. Consultas às Unidades do INCRA e outros
acervos históricos, além de levantamento Cartorial, nos Cartórios de registros de imóveis
das antigas Comarcas do Estado. Levantamento também junto à Advocacia Geral da União e
Procuradoria Especializada do INCRA, sobre o rumo da atual demanda de reversão e
retomada de terras públicas e interação aplicativa com os novos dispositivos legais.

5.2 – Pesquisa bibliográfica


Leitura de material relevante para a pesquisa, principalmente aqueles que tratam de
assuntos ligados aos processos de colonização na Amazônia, dos impactos e resultados de
tais projetos, debate doutrinário-jurídico e correlação com os grandes projetos em curso para
a região amazônica.

5.3 – Pesquisa de Campo


A reunião dos assuntos relacionados aos processos e projetos de colonização será
feita a partir de conversas, entrevistas com estudiosos do assunto e antigos funcionários do
INCRA, técnicos e Superintendentes, e recolhimento de noticias, materiais antigos sobre o
assunto, tentando assim construir uma memória desse processo. O mesmo método será
utilizado, buscando e ouvindo os envolvidos no outro lado da questão: moradores antigos,
afetados pelo processo, populações indígenas atingidas, lideranças. Interlocutores desta fase
serão também os segmentos e movimentos sociais que hoje possuem uma leitura ou releitura
desta abordagem fundiária/agrária no Estado: MST, CPT, CIMI, entre outros.
Há também a necessidade de visitar áreas em disputa hoje, que foram objeto de
processos de licitação e que hoje encontram-se ocupadas por pequenos posseiros que muitas
vezes enfrentam processos judiciais. Também, recolhimento de dados e informações da
atual demanda junto às Comarcas onde tramitam tais questões., e ainda outros contatos e
assuntos que possam surgir.

6. CRONOGRAMA DE TRABALHO (PROVISÓRIO)

2011 2012
Etapas 1º semestre 2º semestre 3º semestre 4º semestre
Disciplinas
Revisão bibliográfica
Pesquisa documental
Pesquisa de Campo
Exame de Qualificação
Redação da Dissertação
Defesa

7 - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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à alimentação e à moradia”. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor, 2003.

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