AFONSO MARIA DAS CHAGAS

O CONSÓRCIO ENTRE ESTADO, GRILAGEM E LATIFÚNDIO AGROEXPORTADOR: O CASO DE RONDÔNIA

Projeto de pesquisa apresentado ao Programa de Pós-graduação em Direito da Universidade do Vale do Rio dos Sinos como requisito ao ingresso no Mestrado em Direito, área de concentração Direito Público, linha de pesquisa Hermenêutica, Constituição e Concretização de Direitos. Orientador:

CURITIBA 2010 Universidade do Vale do Rio dos Sinos

Ressignificada para o contexto atual. este projeto de pesquisa busca analisar as políticas oficiais. os marcos jurídicos estabelecidos. atraiu milhares de migrantes que deixavam suas regiões 1 O “latifúndio agroexportador” é elemento característico da atual fase do capitalismo no campo. a demanda por terra continua. a Amazônia foi apresentada como fronteira livre para os que se encorajassem a ocupá-la. tem regularizado a grande posse. desaparece. Pré-Projeto de Pesquisa Título: “O consórcio entre o Estado. palco de programas de colonização dirigida. na relação de trabalho. em que os modelos de produção são caracterizados pela concentração de terra.1979). pautados pela inserção na economia de mercado. coordenados principalmente pela iniciativa estatal. naquilo que Octavio Ianni caracterizou como “contrareforma agrária” ou “reforma agrária conservadora” (IANNI. na prática. o então “Território Federal de Rondônia”. muitas vezes com a conivência dos órgãos estatais. desencadeado a partir dos anos 1960. quilombolas. Esta proposta volta-se para o caso específico de Rondônia. Palco de programas de colonização dirigida. enfim. em plena ditadura. ribeirinhos e outras comunidades tradicionais. quando observamos atos como a lei nº 11. o trabalhador rural. em favor do latifúndio. ainda que originada na grilagem de terras públicas. Atualmente. em sua obra “História Econômica do Brasil”.Programa de Pós-Graduação em Direito Processo Seletivo .” Resumo: Este pré-projeto de pesquisa tem como foco de investigação as íntimas e complexas relações entre o Estado.952/2009. 1. coordenados principalmente pela iniciativa estatal. Este modelo agrícola. houve um intenso processo de abandono dos lotes e reconcentração fundiária. seringueiros. até então dotada de raros centros urbanos e habitada por povos indígenas. INTRODUÇÃO A partir dos anos 1960. por sua vez. as experiências concretas apontam para um fracasso das tentativas de executar a reforma agrária. a Grilagem e o Latifúndio Agroexportador 1 na Amazônia: O caso de Rondônia. no processo de ocupação recente da Amazônia Brasileira.. como parece atuar contra a Reforma Agrária. a ditadura militar instalada no Brasil conseguiu. a prática da grilagem de terras e o latifúndio agroexportador. Passadas algumas décadas. a história não foi diferente. não apenas tem se mostrado incapaz de solucionar os conflitos no campo. emancipado em 1981. Constituição e Concretização de Direitos. originalmente. o papel do Estado brasileiro e a sua recusa em se servir das possibilidades constitucionais e assim implementar uma efetiva política de organização fundiária e reforma agrária na região. O Estado. 1945) . que. também chamado de agronegócio. obstaculiza a reforma agrária e causa graves prejuízos à natureza.Mestrado em Direito Candidato: Afonso Maria das Chagas Área de Concentração: Direito Público Linha de Pesquisa: Hermenêutica. Assim. e que tem se consolidado desde então. Diante da precária assistência aos assentados. muitas vezes verbalizada em atos e palavras de movimentos sociais do campo. Em Rondônia. chamada de “Lei de regularização fundiária da Amazônia”. colocar em prática os planos de ocupação mais efetiva da Amazônia brasileira. Em tempos de acirramento de conflitos agrários na região Centro-Sul do país. que dá lugar ao assalariado rural. acompanhado também da apropriação privada de terras públicas. a expressão “latifúndio agroexportador” foi cunhada por Caio Prado Júnior. Neste contexto. pelo monocultivo e pela priorização do mercado externo (exportação de matérias-primas). de 1945 (PRADO Jr.

incapaz de garantir condições para a permanência na terra (infra-estrutura. até 70% da população originalmente assentada vendeu seus lotes. . a concentração de grandes áreas públicas sob propriedade privada. Marcos jurídicos advieram à luz possibilitando a implantação de projetos agropecuários (os contratos previam empresas rurais).de origem em busca do “sonho do Eldorado rondoniense”2. como a malária e um clima muito diferente daquele no qual estavam acostumados a produzir. A lógica destes “acertos” fomentava o “cartel imobiliário”. conforme atesta o decreto nº 1. Estrada leva ao Polonoroeste: o novo eldorado. Fato é que. 115). o Estado brasileiro. 63% dos colonos originais se desfizeram de suas terras. Os “acertos cartoriais” precediam o estudo das políticas a serem implantadas. que fizeram vista grossa ou mesmo estimularam a invasão e grilagem de terras públicas – desencadeou um processo de reconcentração fundiária em Rondônia. Em pouco tempo. quatorze anos depois do assentamento inicial. a estrada é caracterizada como “O caminho do amanhã. A rotatividade de colonos era alta: em alguns projetos. assim não o fez por escolha e por estratégia. foi a lógica do sistema. respeitando as populações ali existentes. Instalados em terras com potencial agrícola inferior (as terras mais férteis foram destinadas a grandes propriedades).615/1972. No PIC Ouro Preto. Claramente amparado pelo marco jurídico do Estatuto da Terra (Lei nº 4. A valorização das terras na região tornava os ganhos potenciais com a venda da terra superiores ao retorno econômico da produção. a sorte não foi melhor. endividadas. do meio ambiente. assistência técnica.” (PINTO. 40% dos lotes mudaram de dono. As famílias. No PA Machadinho. Esta situação – aliada à conivência dos órgãos estatais responsáveis por fiscalizar e executar a reforma agrária. 1983) 3 Para muitos dos que foram assentados nos projetos do INCRA. O marco jurídico efetivou-se com o possível desta lógica: processos de transferência de bens públicos (terras públicas) através de Contratos de licitações. estabelecendo todas as condições para um processo de transferência das terras públicas a particulares através de precários contratos de alienação de terras públicas (CATPs). Os que foram assentados. a prática agrícola só era viável por meio de técnicas de produção que empregavam capital intensivo (MILIKAN. em um ano. se desfizeram de seus lotes. Muitos não conseguiram acessar os lotes que o INCRA distribuía. 2. legítimo detentor das terras da Amazônia tinha nas mãos a possibilidade de desenvolver ou implementar uma verdadeira e razoável política de ocupação fundiária na região.164/1971 regulamentado pelo Decreto nº 71. assim orientando: “Tanto quanto possível o Instituto Brasileiro de Reforma Agrária imprimirá ao instituto das terras devolutas orientação tendente a harmonizar as pecularidades regionais com os altos interesses do desbravamento através da colonização racional visando erradicar os males do minifúndio e do latifúndio”. a frustração se espalhou. O PROBLEMA 2 Em uma reportagem de capa sobre a finalização das obras de asfaltamento da BR 364. 1999. comercialização). as características do bioma. desde o princípio. se depararam com condições ambientais desfavoráveis.3 O resultado: abandono dos lotes.050/64) e por Decretos regulamentares e atos internos4”. quando não encararam o abandono do Estado. 4 Em seu artigo 11º o Estatuto da Terra autorizava a União à dispor à sua maneira das terras federais.

terras públicas). Neste campo de disputa via-se de um lado o Estado detentor da maioria das terras (terras devolutas. principalmente nas novas frentes de colonização (Rondônia. quanto os objetivos fundamentais da República (Estado) foram preteridos nestes programas oficiais de colonização. e por isso. Mato Grosso. o Presidente Castelo Branco anunciava: “é preciso integrar para não entregar”. grupos de interesses que iam desde grandes seringalistas até grupos imobiliários. CALAMA. de colonização. ou seja: emprestaram nomes para os peritos em grilagem. INCRA. Mato Grosso e Pará). de outro lado. Imobiliárias (SINOP. Efetiva-se assim. nº 18. objetivando a especulação imobiliária. uma íntima relação entre Estado e Latifúndio e mais. Hélio Roberto Novoa. voltando-se para a Amazônia como um todo e objetivando um Programa de Integração Nacional (PIN). Revista de Direito Agrário. Conglomerados financeiros e Especuladores de terras Assim. bem como os mecanismos pelos quais tanto os dispositivos constitucionais. seringueiros e ribeirinhos). que não tinham outro objetivo senão locupletarem-se da inoperância da fiscalização oficial e perpetrarem um grande processo de reconcentração de terras”. Rondônia. explica Hélio Roberto Novoa6: “Muitos. no contexto da Colonização de Rondônia. vencendo o modelo desenvolvimentista escamoteado sutilmente pela propaganda da integração nacional5. Ano 19. deste projeto de pesquisa. como exemplos). MDA. Estado e processos de grilagem. os ocupantes originários e tradicionais (povos indígenas. são encarados como obstáculo. através de prepostos. O problema central então.2006. Beneficiaram-se de tais projetos Seringalistas (que freqüentemente expulsavam os Seringueiros). que dão garantia aos bens públicos. 6 COSTA. antigos seringais. A abertura política e a Constituição de 1988 5 Em 1966. in. . alvo de toda uma política de eliminação física e de direitos. é compreender o desdobramento da questão fundiária e o processo de transferência do patrimônio público a particulares. adquiriram lotes que se quer tiveram a intenção de um dia saber se efetivamente existiam ou não. sujeitos de direito à priori. No mesmo cenário.O projeto e o processo de colonização do Estado de Rondônia foram elaborados e postos em prática pelo Estado brasileiro com alguns marcos jurídicos e propostas de desenvolvimento específicas. remanescentes de quilombolas. 2. ABDA. NEAD.1. Prevaleceu o “direito de conquista”.

atender aos interesses e necessidades da coletividade. invasão das áreas indígenas e unidades de conservação. Inciso III. 2004. não passaram de escrita. erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais”. as garantias e princípios sócio-econômicos. Veio a Assembléia e veio a Constituição em 1988.financiado pelo Banco Mundial (1bilhão e 100 milhões de dólares). É o próprio Estado 7 Programas como o POLONOROESTE – década de 80 . São Paulo: Malheiros. de executar uma política racional de organização fundiária e de uma conseqüente reforma agrária na região. do latifúndio e da grilagem. serviram como obstáculo planejado para a concretização de direitos. incapaz de cumprir seus propósitos primeiros. dos bens públicos que devem antes. afirmando em seu Artigo 3º. que veio a ser reparado várias vezes posteriormente. Quando vislumbraram-se as possibilidades preteriu-se a Constituição pela recolonização pelo golpe de Estado Institucional.. estimulado pelo Estado se tornou.8 O constitucionalismo do Estado Social. exploração predatória da madeira e concentração fundiária. falou-se da “função social da propriedade”. na lição do professor Paulo Bonavides. Tal projeto desenvolvimentista. Ainda que o País se livrasse da Ditadura Militar em 1985. com o passar dos anos. Clamava-se por eleições diretas para Presidente da República e por uma Nova Assembléia Nacional Constituinte. 8 BONAVIDES. 3ª ed. tanto com este caráter desenvolvimentista como tantas vezes dirigidas e implementadas pelo capital monopolista transnacional7. esculpiu lá princípios e garantias. ditadas pelo Estado brasileiro. Já o PLANAFLORO – década de 90 – pensado para corrigir os efeitos de execução do programa anterior. “ ondas e ventos” de cidadania atravessam o País. trouxe como conseqüência o desmatamento acelerado. que: “deve ser objetivo da República Federativa do Brasil. Nunca se efetivaram. Políticas estas dirigidas pela idéia de imperialismo norte-americano. Paulo. um importante meio de controle e manutenção do Poder. e mais. Todas as transformações ocorridas em decorrência das políticas ocupacionais. . potencialmente capaz de corrigir as desigualdades sociais e regionais sofre um duro golpe com o apoderamento do estado por setores extremamente conservadores e que fazem da concentração da terra. Do País Constitucional ao País Neocolonial”.. Desde a abertura democrática a questão agrária.A partir da segunda metade da década de 80 do século XX. incorreu em várias falhas. não conseguimos alterar a arcaica e patrimonial estrutura do Estado brasileiro. ignorou as demandas sócio-econômicas e terminou às pressas por implementar um zoneamento falho e grotesco. como política de Estado. vislumbrados no texto constitucional. para ser implantado no eixo da BR 364. ocupam praças e ruas. aprovasse uma Constituição inovadora em 1988 e os cidadãos voltassem a escolher um Presidente civil para a República em 1989.

através da célere aprovação da MP/458 convertida em Lei nº 11. vai criar o Programa Terra legal.8% dos imóveis requeridos) correspondiam a 60% do total da área requerida. este século. no entanto cria-se o posseiro. no máximo até 400 hectares. legitimar tal processo. o Estado brasileiro.6% dos imóveis cadastrados tem área até 4 módulos fiscais. em Rondônia no ano de 2009. fez a nítida opção de regularizar. um meio eficaz. para que. 11 De acordo com os dados da Comissão Pastoral da Terra (Goiânia). por um Estado. as ocupações de 400 a 1. com a chancela do Estado. judicial ou administrativamente. Agora. o “Brasil de papel” poderia enfim libertar os seu escravos. objetos de contratos resolúveis ou ilegalmente tomadas pela grilagem de terras. comunicando relatórios mínimos sobre o número de cadastrados e sobre as áreas cadastradas. um grupo de novos Procuradores da Advocacia Geral da União ligados à Procuradoria Especializada do INCRA. lhe empobrecem o povo e criam a mais injusta dívida externa e interna já contraída. Duas coisas estavam garantidas: os pobres não poderiam ocupar as terras. de controle da grilagem das terras públicas e ao mesmo tempo forma de arrecadar terras para um audacioso programa de reforma agrária na Amazônia. Por outro lado. então. 81. em ‘colônia de banqueiros’.aviltando as conquistas e as garantias constitucionais. vive nela mas não a possui. seja institucionalizada ou não. E não tem sido diferente nos dias atuais. pela lei.Assim. começaram a levantar e estudar a possibilidade de retomar as terras públicas. E. quando da famosa Lei Vergueiro (Lei nº 601/1850). já é possível “legalizar” a grande posse. 2. praça de ‘negócios da China’ e mercado de especuladores internacionais. E assim. A violência. terras ilegalmente havidas. algo só visto na história do Brasil. ou os primeiros sem-terra. para não ser pouco.952/2009. fosse tal iniciativa. transformou-se em uma possibilidade interrompida. o programa “Terra Legal” pode ser amplamente divulgado como um grande balcão de especulação imobiliária. 04 ocorrências de Trabalho .500 hectares (17. que lhe sugam as riquezas. ainda que pública. sob pressão do Congresso Nacional. criando os primeiros sem-terras.2. ainda que grilada. (Obra citada). Tal Programa publicou relatório em setembro de 2009. outra face da moeda do latifúndio. a possibilidade de uma política fundiária que pudesse corrigir um problema histórico. A MP 458 e a legitimação da grilagem No início dos anos 2000. Quando se abriu a possibilidade constitucional de retomar ou reverter extensas áreas. foram 31 conflitos no campo. ocupando 37% de toda área requerida até então. envolvendo perto de 6 mil famílias de trabalhadores/as rurais. na mesma lição do professor Bonavides9. tem sido um marco cotidiano na questão agrária em Rondônai11 9 “De País Constitucional se converte gradativamente em País Neocolonial. a chamada Lei de regularização Fundiária da Amazônia10. na Amazônia legal. 10 A citada Lei. autorizava o governo a vender as terras públicas e devolutas. oriundas de contratos viciados ou inadimplentes.

institui um novo direito de propriedade. pensado de modo a garantir o poder a quem sempre o teve.Tal decreto. originariamente estabelecidos. . Conforme o mesmo relatório. sob a luz da questão fundiária/agrária. Mantémse imutável a estrutura fundiária no País.1. no caso específico de Rondônia.866. OBJETIVOS 3.3. Uma vez mais desperdiça-se a oportunidade de superar o maior e mais remitente dos anacronismos da estrutura social brasileira. E em muitos aspectos o personagem principal e ao mesmo tempo diretor. a dirigir toda uma prática governamental de benefício e legitimação de grandes interesses na questão da ocupação das terras. beneficiando interesses particulares. indicam por sua vez o reverso desta realidade: o genocídio indígena. assim como a nova lei de regularização fundiária. Objetivo geral da pesquisa escravo denunciadas com 74 trabalhadores libertos.843. 2. há em Rondônia 508. é possível antever diversos parâmetros adotados ou assumidos. tal prática dirigida de colonização. fartamente exposta na lição de Alberto Passos GUIMARÃES (1989). por aquilo que programou e por aquilo que se omitiu. preconizados na Constituição Federal não alcançam o campo brasileiro. o papel do Estado? O cenário deste Projeto de pesquisa é a realidade da ocupação da Amazônia. 3. Portanto. Ariovaldo Umbelino Oliveira (1988). Os valores democráticos. o papel do Estado brasileiro e a recusa em se servir das possibilidades constitucionais e assim implementar uma efetiva política de organização fundiária e reforma agrária na região. Neste cenário. entre outros sinais. responsável pelo atraso econômico e pela exclusão da cidadania de milhões de brasileiros. o Estado não é platéia. é palco. enfim. os marcos jurídicos estabelecidos. conflitos pela posse da terra. 87 foram despejadas e 98 ameaçadas de despejo. A violência contra a ocupação e a posse teve 26 ocorrências atingindo 5. principalmente quando demandado pelos segmentos sociais organizados. Qual é. A efetivação de tais programas. desmatamento e degradação do meio ambiente. este Projeto busca analisar as políticas oficiais. oriunda desde o período colonial. firmou-se também como uma substituição programada e financiada de um modelo ou política de reforma agrária que tinha como objetivo a agricultura familiar para uma proposta de reforma imobiliária. Em sua rota de efetivação. republicanos. Numa visão prévia.123 famílias.00 hectares de terras devolutas. Destas.

que passou ao largo do debate público. de maneira transversal e multidisciplinar. 12 Tal lei consiste numa verdadeira proposta de apropriação ilegal de terras públicas. muitas vezes titulando e tutelando acordo de gabinetes. direito e função social da propriedade. . Rondônia. seja pela especulação em torno de suas riquezas. • Investigar se há uma linha de continuidade jurídica entre as várias Instruções Normativas da Autarquia federal encarregada de gerir e regular procedimentos fundiários (INCRA). 1º ao 4º da Constituição Federal.2. 3. é importante destacar que esta proposta de pesquisa consiste também em uma oportunidade para ampliar o conhecimento sobre a Amazônia Brasileira sob o ponto de vista da ciência jurídica. Este processo. especialmente a política fundiária/agrária no caso específico do projeto de colonização de Rondônia. objetiva-se verificar os critérios de efetividade dos direitos sociais e econômicos frente à precariedade das políticas implementadas pelo Estado brasileiro.12 • Examinar e buscar formalizar uma hipótese sobre o papel do Estado (intervenção/controle) na aplicação da política agrária no caso específico de Rondônia.JUSTIFICATIVAS Antes que as justificativas deste projeto de pesquisa sejam apresentadas. e mais especificamente. a Amazônia.952/2009.Através da análise dos dispositivos constitucionais relativos aos bens públicos. 4 . traduzindo-se enfim numa verdadeira efetivação de programa de especulação imobiliária e grilagem. seja pelo potencial dos movimentos sociais organizados em torno da luta por direitos. passando pela MP 458/2009. as políticas públicas constitucionais possíveis de concretizar uma legítima e democrática política agrária e fundiária e que foram negadas ou revogadas por programas e políticas anti-cidadãs excludentes. Considerada uma região estratégica. que dispõe sobre a regularização fundiária das ocupações incidentes em terras da União. Objetivos específicos • Conhecer e analisar. seja pela intensidade do processo de acumulação capitalista em curso.666/93). por natureza. na Amazônia legal chegando à Lei nº 11. Princípios fundamentais (Art. altera sorrateiramente a Lei de Licitações (Lei nº 8. pela cobiça internacional e por tantos outros motivos. pretendendo compreender a correlação entre o mesmo Estado e a concepção do latifúndio agroexportador na Amazônia e no caso concreto de Rondônia.

Tal Estado. de seus instrumentais de controle/permissão de políticas que não só motivam como também legitimam a adoção de práticas políticas sobre a questão das terras no Brasil. A questão central é então. nos direcionariam para uma releitura da função do Estado sob os parâmetros constitucionais. tem potencial não só de qualificar um possível processo de consciência individual ou coletiva. este olhar acadêmico sobre uma realidade até agora descuidada do rigor científico. quando. têm sido secularmente um instrumental para assegurar alguma forma de poder e torná-lo legítimo. este projeto justifica-se pelo contexto atual. suas responsabilidades sociais e sua legitimação. estudar e analisar a participação e intervenção do Estado. que em uma sociedade de classes. em investigar. Tais filtros principiológicos entre outros. nesta leitura preambular. A busca por parâmetros que ajudem a entender esta realidade. buscando a constitucionalização da norma. resgatar. produzido de modo a respeitar as especificidades regionais de seus processos sociais. refletir a força do mais forte. a fim de que se efetive concretamente um Estado democrático de Direito e de concretização de direitos. à escritura. incluindo aqueles problematizados neste projeto de pesquisa. “age por omissão”.ainda carece de atenção sistemática no campo do conhecimento científico. proporciona e assume um verdadeiro espetáculo de regularização de ilegalidades. o registro. vinculado aos interesses da cidadania e de uma autêntica democracia. Este Direito novo. uma releitura dos estatutos civis e uma abordagem mais funcionalista do Estado e da Administração. Do ponto de vista da ciência jurídica. antes de tudo. Embora limitado. mas ao fato social. muitas vezes “encomendada” com o fim somente de proteção à interesses de grandes grupos. A compreensão de tais processos sob o crivo do debate jurídico se faz urgente. como fonte principal do Direito. principalmente neste cenário fundiário/agrário. poderá subsidiar a opinião pública com outros tipos de informação e colaborar no avanço do processo democrático e de construção da cidadania. os subterfúgios transformados em normativos procedimentos. como também de oferecer contribuições para uma atuação tanto técnica quanto de apoio aos diferentes segmentos sociais envolvidos. justifica-se o fio condutor de tal Projeto. . em que há uma reflexão diferenciada. Estado este que não pode sucumbir mediante uma legislação patrimonialista. afinal. com a possibilidade de uma releitura contextualizada. o próprio Direito e não a lei abstrata. Assim. vai inexoravelmente. recomenda valor não ao título.

Procedimentos de Pesquisa 5. as lacunas de tais procedimentos. buscando e ouvindo os envolvidos no outro lado da questão: moradores antigos. relacionada ao processo de Colonização no Estado de Rondônia. seja na assessoria aos segmentos sociais. Consulta a arquivos. entre outros. seja no âmbito da discussão jurídica. lideranças. possa servir de instrumental propositivo à contestação e insurgência contra tais posturas. para que. afetados pelo processo.Justifica-se ainda. que foram objeto de processos de licitação e que hoje encontram-se ocupadas por pequenos posseiros que muitas . pelo fato de investigar as possibilidades. 5. debate doutrinário-jurídico e correlação com os grandes projetos em curso para a região amazônica. tentando assim construir uma memória desse processo. e recolhimento de noticias. Há também a necessidade de visitar áreas em disputa hoje. O mesmo método será utilizado. entrevistas com estudiosos do assunto e antigos funcionários do INCRA. Consultas às Unidades do INCRA e outros acervos históricos. CPT. CIMI. num debate teórico mais aprofundado. materiais antigos sobre o assunto. relatórios e outros documentos. relacionado ao tema da pesquisa. além de levantamento Cartorial.3 – Pesquisa de Campo A reunião dos assuntos relacionados aos processos e projetos de colonização será feita a partir de conversas.1 – Pesquisa documental Levantamento de toda documentação possível de ser encontrada em Órgãos governamentais. 5. populações indígenas atingidas. Levantamento também junto à Advocacia Geral da União e Procuradoria Especializada do INCRA. 5 – LINHA DE PESQUISA . técnicos e Superintendentes. Muitos destes documentos já foram localizados e copiados. dos impactos e resultados de tais projetos. Interlocutores desta fase serão também os segmentos e movimentos sociais que hoje possuem uma leitura ou releitura desta abordagem fundiária/agrária no Estado: MST. nos Cartórios de registros de imóveis das antigas Comarcas do Estado. principalmente aqueles que tratam de assuntos ligados aos processos de colonização na Amazônia. sobre o rumo da atual demanda de reversão e retomada de terras públicas e interação aplicativa com os novos dispositivos legais.2 – Pesquisa bibliográfica Leitura de material relevante para a pesquisa.

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