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Anti-política em tempos de fúria homicida capitalista

Teses sobre a administração neoliberal da crise e as perspectivas da


emancipação social
de Norbert Trenkle
Tradução de Javier Blank do texto original: “Antipolitik in Zeiten
kapitalistichen Amoklaufs. Thesen zur neoliberalen Krisenverwaltung und den
Perspektiven soziales Emanzipation” em Lohoff et al (orgs.). Dead men
working. Münster: UNRAST-Verlag, 2004.
1.
Desde o seu início a compulsão inerente à lógica capitalista de valorização de
transformar todas as relações sociais em relações mercadoria-dinheiro provocou
resistência. Vinte anos de hegemonia neoliberal e a propaganda segundo a qual
não há alternativa à forma existente de sociedade não puderam suprimir esse
impulso. A experiência de uma vida sujeita às leis do mercado total e da
concorrência onipresente é intolerável demais; a espiral mundial da miséria
posta em marcha pelo processo de crise capitalista é insuportável. No início do
século 21, o surgimento de uma nova conjuntura de lutas sociais pode abrir
novas perspectivas para a resistência contra a sociedade global da mercadoria.
No entanto, não cabe um otimismo exagerado. Levando em conta a mobilização
mundial e a simultaneidade dos protestos, seja na Bolivia, na Argentina, na
França ou na Itália, assim como a presença mediática dos Fóruns Sociais, por
exemplo, e as grandes demonstrações do movimento anti-globalização, é antes
surpreendente como foram pequenas as conquistas materiais. Na Argentina, o
governo foi derrubado com o lema: “que se vayan todos”; otimistas
interpretaram isso como uma mudança radical de consciência, como uma crítica
fundamental do Estado e um abandono da ilusão política. No entanto, um ano
depois as eleições presidenciais registraram um comparecimento
surpreendentemente alto e o novo presidente Kirchner desfruta, pelo menos por
enquanto, de uma popularidade muito alta, embora ele continue basicamente a
política neoliberal anterior. No entanto, ele conseguiu distrair a atenção, por um
lado, trazendo à tona de maneira espetacular o confronto com os crimes da
ditadura militar e, por outro, com a promessa espalhada aos quatro ventos de,
através de uma política neo-keynesiana, desenvolver o mercado interno e
fortalecer novamente a indústria nacional. Embora essa promessa seja
completamente infundada em face da realidade da crise, ela mexe com um
anseio nostálgico de um passado transfigurado de força econômica e apela a uma
vontade desesperada de, diante da falta de perspectivas, acreditar nesse conto de
fadas.
Também na Bolívia a mudança forçada de governo provocou apenas uma
mudança na retórica e na política simbólica. Se os depósitos de gás natural não
foram (por enquanto) vendidos a preços baixos devido ao protesto que esse
projeto avivou, fora isso, o novo presidente Mesa está tentando canalizar o
descontentamento de maneira populista, por exemplo, jogando a carta
nacionalista e retomando a velha demanda ao Chile de ter acesso ao mar, como
se isso resolvesse os problemas econômicos e sociais do país. Finalmente, as
numerosas greves e manifestações na França e na Itália contra os intensificados
cortes sociais praticamente não deram em nada, embora tenham sido levadas
adiante e apoiadas por grandes setores da população. Não resultou em mais do
que algumas correções cosméticas superficiais às políticas neoliberais.
Raramente a desproporção entre a mobilização dos protestos e os resultados
alcançados foi tão pronunciada.
Mas seria restrito demais mensurar as lutas sociais simplesmente pelos seus
resultados políticos imediatos. Especialmente depois de longos anos em que a
resistência e o protesto social pareciam estar paralisados, as próprias
experiências de luta e os efeitos de auto-organização e solidarização que lhes
correspondem (também e não em último lugar no plano do quotidiano) ganham
um valor inestimável. A quebra, nos movimentos sociais, da individualização e
da concorrência cotidiana representa por si só um avanço em relação aos muitos
anos de calma oposicionista. E também os sucessos materiais diretos,
especialmente na Bolívia e na Argentina, vão muito além da mudança forçada
das lideranças políticas. A apropriação colectiva dos meios de subsistência e de
produção, a ocupação de fábricas, edifícios e terras, a criação de centros de
comunicação e cultura autónomos, a constituição de cooperativas e redes de
auto-ajuda, tudo isso não só alterou de um modo fundamental o quotidiano dos
implicados, mas igualmente criou uma base para a mobilização da resistência e
para a continuação da luta em um novo patamar.
No entanto, a maneira como irão se desenvolver os conflitos sociais no futuro
próximo, se eles de fato ganharão uma nova qualidade emancipatória, não está
de maneira alguma determinada. Isso depende não em última instância da
maneira em que a ineficácia evidente das lutas até o presente se refletirá no
plano político e os desdobramentos disso. Tem prevalecido em certa medida a
ideia segundo a qual os conceitos clássicos de emancipação, que sempre de uma
forma ou de outra visaram a toma do poder do Estado, tornaram-se obsoletos.
Poder-se-ia falar, de certo modo, de uma tendência anti-política em parte
espontânea e em parte consciente. Mas essa tendência é contraditória; a relação
com a política e com o Estado permanece extremamente ambígua inclusive
naqueles movimentos que não aspiram às alavancas do poder político. Persiste
teimosamente a ideia segundo a qual a alteração da correlação de forças sociais
permitiria uma ‚outra política‘, embora ninguém saiba realmente onde isso
acabaria. Donde também a forte suscetibilidade a um populismo que reside na
simulação de tal política, depois desta ter perdido sua base real. Ora, esse
espectro de ilusão política obscurece a visão de uma perspectiva de emancipação
social que só pode existir na abolição das compulsões capitalistas do trabalho,
do dinheiro, do mercado e do Estado.
2.
A referência positiva à política por parte dos movimentos de protesto social,
especialmente da esquerda, é um produto histórico do processo de ascensão e
imposição da sociedade moderna produtora de mercadorias. Depois de ter
desempenhado um papel central na instalação do capitalismo no início da
Modernidade, promovendo a monetarização da sociedade, criando um espaço
territorial e legalmente seguro para a circulação de mercadorias e ajustando à
força as pessoas para seu funcionamento como sujeitos do trabalho e do
mercado, mais tarde o Estado foi assumindo progressivamente a tarefa de
garantir e assegurar as condições gerais da valorização de capital. Ao mesmo
tempo, o Estado representava uma instância que impunha certas restrições à
interação desenfreada das forças do mercado e, a esse respeito, tornou-se
também o destinatário das reivindicações sociais. No entanto, é claro que o
Estado nunca foi uma entidade extra-capitalista, antes, enquanto o outro pólo do
mercado, condição de existência de uma sociedade mercantil generalizada. Ele
nunca foi capaz de anular ou substituir as leis da produção de mercadorias
enquanto tais, mas sempre só de regulá-las e guiá-las até certo ponto. O
capitalismo nunca teria sido capaz de se estabelecer como um sistema social
abrangente sem essa regulamentação estatal, pois a partir do dinamismo inerente
à concorrência, tende a se autodestruir e a destruir os fundamentos sociais e
naturais da vida humana. Contudo, a capacidade do Estado e da política de
regular e limitar a lógica de mercado estava ligada a uma condição histórica
muito específica, varrida pela terceira revolução industrial. O salto quântico no
desenvolvimento das forças produtivas, baseado na micro-eletrônica, por um
lado, rompeu irrevogavelmente os limites da economia nacional e promoveu a
transnacionalização das estruturas de produção, organização e comercialização
do capital. Assim, o processo de criação do mercado mundial, inerente à
compulsão capitalista de expansão e crescimento, culmina como um espaço de
produção e circulação de mercadorias livre de obstáculos. Por outro lado, o
enorme aumento da força produtiva leva a uma profunda racionalização
econômica e automação nos setores centrais de valorização de capital e,
portanto, a um deslocamento massivo da força de trabalho viva. Mas como o
único propósito do capitalismo é fazer do valor (representado em dinheiro) mais-
valor, e o conteúdo dessa categoria fetichista é o „trabalho abstrato“, o processo
de deslocamento da força de trabalho viva põe em movimento um processo de
crise fundamental que mina as bases da socialização capitalista.
Essa crise, na qual culminam historicamente as contradições internas do
capitalismo, não deve ser entendida certamente como um „crash“ ou „colapso“
único. Pelo contrário, é um processo de longa duração que começou há cerca de
três décadas e continuará ainda por muitas outras. Ele se apresenta como uma
espiral descendente de destruição e aniquilação dos fundamentos sociais e
naturais da vida, que só pode ser detida por um movimento emancipatório
transnacional, que rompa com o sistema devorador de homens da moderna
produção de mercadorias. Paradoxalmente, o início desse processo de crise
capitalista fundamental coincide historicamente com a finalização da criação do
mercado mundial e, portanto, com a instauração global da sociedade da
mercadoria como forma social dominante. A forma capitalista torna-se universal,
mas seu único conteúdo, a substância do trabalho, é simultaneamente derretido.
É precisamente esse paradoxo de uma forma geral que destrói seu conteúdo que
confere à crise seu brutal poder destrutivo e sua forma de desenvolvimento
específica. Por um lado, todas as formas não-capitalistas de reprodução social e
material foram quase completamente destruídas, razão pela qual, em princípio,
todas as pessoas no mundo todo são forçadas a vender sua pele no mercado a
quem quer que seja se quiserem sobreviver. Por outro lado, no entanto, a maioria
delas são supérfluas para o capitalismo porque a sua força de trabalho não é
necessária para a valorização. O resultado disso é o aumento da pressão sobre
aqueles ainda integrados nas cadeias de valorização para trabalhar mais duro e
por mais tempo, enquanto uma parte crescente da população mundial é excluída
e marginalizada. Expressão disso é a expansão acelerada do trabalho precário no
nível da miséria absoluta e um crescimento cada vez mais rápido do “setor
informal”, que não têm uma qualidade fundamentalmente diferente do setor
“formal”, mas representa apenas a forma de crise na qual o capitalismo se faz
realidade para a maior parte da humanidade[1].
3.
Como o atual processo de crise não consiste apenas em uma crise econômica
cíclica ou em uma mudança estrutural temporária na história do
desenvolvimento capitalista, mas em uma ruptura fundamental no nível da forma
social básica, todas as tentativas políticas de uma gestão da crise estão
começando a falhar. Pois a política, como forma historicamente específica de
ação social geral vinculada à sociedade produtora de mercadorias, depende
também de condições estruturais muito específicas, em particular do arcabouço
institucional do Estado-nação (embora também exista política internacional, ela
diz respeito, como o termo já aponta, à regulação mais ou menos violenta e
hierárquica das relações entre Estados-nação). O processo de crise mina os
fundamentos da sociedade capitalista e ao mesmo tempo as condições de
existência do Estado-nação, e quebra o quadro de referência da política, torna-se
esta cada vez mais impotente.
Evidentemente, o grau de decomposição do Estado e da decorrente impotência
da política depende em grande medida da posição de cada país na hierarquia do
mercado mundial. Nas regiões de catástrofe especialmente atingidas pela crise,
em grandes partes da África e da Ásia, assim como em certas regiões da Europa
Oriental e da América Latina, o Estado já se tornou uma concha vazia no interior
da qual bandos rivais lutam pelos remanescentes da riqueza social. Enquanto
isso, nos países ocidentais tais tendências vêm se desenvolvendo sob a superfície
de uma estatalidade ainda bastante estável. É sintomática a esse respeito a
crescente fusão do aparelho de Estado com o crime organizado e um
agravamento da polarização sócio-económica regional que é frequentemente
carregada etnicamente e representa o início de uma decomposição estatal. Os
Estados, aparentemente fortes, estão encurralados economicamente por dois
lados. Por um lado, com o derretimento da substância do trabalho, encolhe a
massa de valor que os Estados podem absorver através dos impostos e taxas para
financiar suas atividades. Além disso, a transnacionalização torna mais fácil para
as empresas escaparem do controle estatal, o que era possível de maneira
rudimentar sob as condições de uma economia nacional razoavelmente coerente.
Em vez disso, os próprios Estados estão se tornando cada vez mais dependentes
do capital e devem fazer tudo o que puderem para estabelecê-los em seu
território. Esta absurda “concorrência por localização” é cada vez mais
duramente travada não apenas entre Estados, mas também entre regiões e
cidades. O resultado é uma progressiva incapacidade de ação e manobra da
política, que pode intervir cada vez menos na regulação das relações de
mercado, e é degradada por sua vez a uma variável dependente dos movimentos
do mercado mundial.
A perda de poder do Estado em relação ao processo auto-dinâmico da crise
capitalista é frequentemente explicada como sendo o resultado de uma estratégia
política ou orientação específica, que responde ao nome de neoliberalismo, e que
foi imposta por poderosos grupos de interesse. Essa visão, como é encontrada
especialmente no contexto do neo-keynesianismo e do antigo marxismo da luta
de classes, cumpre de fato apenas o propósito ideológico de manter a antiga
crença na viabilidade política – ou, em outras palavras, do primado da política.
Portanto, ele dependeria apenas da construção de um contra-poder social, que se
imporia numa “outra política” sob relações de forças sociais transformadas.
Essa perspectiva política obscurece o dramatismo do desenvolvimento em curso
e obstrui, portanto, a visão de uma necessária re-orientação dos movimentos
emancipatórios. No entanto, ela tem um núcleo real na medida em que – embora
distorcidamente – se refere à dimensão subjetiva da ação no processo de crise. O
curso cego do desenvolvimento histórico da autodestruição do capitalismo não
se impõe em suas conseqüências automática e imediatamente em todas as
estruturas e áreas sociais, mas deve ser mediado por ações e decisões sociais e
políticas, assim como pela mudança de padrões ideológicos de percepção. A
política desempenha mais uma vez um papel importante neste processo de
mediação. Mas ele não consiste mais na regulação dos processos socio-
econômicos, mas apenas na destruição irrevogável de seu próprio campo de
referência. A tão louvada „recuperação da capacidade de agir“, tagarelada por
todos os ideólogos neoliberais ao se queixarem da „paralisia da política“ do
Estado de bem-estar social e da burocracia, consiste apenas em uma empresa de
demolição das estruturas (sociais) do Estado. Dessa maneira, a política remove
ela mesma o chão embaixo dos seus pés. O que então resta dela, na melhor das
hipóteses, é uma fachada de pós-política, por trás da qual progridem o
asselvajamento e a decomposição das relações sociais.
É claro que uma tal „política“ meramente destrutiva de auto-liquidação nunca
teria prevalecido em escala global se fosse simplesmente o instrumento de
poderosos interesses capitalistas. Pelo contrário, ela só se explica como uma
forma específica de processamento da pressão objetiva exercida pelo processo
de globalização e de crise. Somente o fim do fordismo, o desmembramento da
coerência relativa entre Estado nacional e economia nacional e a intensificação
da concorrência no mercado mundial (que, entre outras coisas, destruiu os
fundamentos do modelo de desenvolvimento orientado ao mercado interno do
Terceiro Mundo e do “socialismo real” do capitalismo de Estado) criaram o
terreno sobre o qual o neoliberalismo poderia conquistar sua hegemonia. No
entanto, seus “conceitos políticos” consistem somente em executar
“conscientemente” o desencadeamento da concorrência imposto pelo processo
de crise e remover todas as barreiras que ainda possam estar no caminho. Isto
inclui, por exemplo, a quebra de barreiras comerciais (direitos alfandegários,
restrições de importação, etc.), a privatização da infra-estrutura, o corte dos
sistemas sociais, a desregulamentação do mercado de trabalho e assim por
diante.
Tais medidas, evidentemente, são sempre controversas e contestadas e devem ser
aplicadas contra resistências mais ou menos severas e, se necessário, também
pela força. Isso, por sua vez, requer uma personagem que não se coíba de fazer o
negócio sujo: a junta militar no Chile, que com seu golpe contra o governo
socialista em 1973 abriu o caminho para o primeiro “experimento” neoliberal,
ou uma Margaret Thatcher quem, entre outras coisas, conseguiu quebrar o poder
do movimento sindical britânico – para citar apenas dois exemplos. Em nível
global, é claro, instituições como o FMI e o Banco Mundial também
desempenham um papel importante na abertura de mercados, privatizações e
cortes de benefícios sociais com seus infames „programas de ajuste estrutural“.
Não que o neoliberalismo tivesse uma ideia clara dos processos econômicos
básicos auto-dinâmicos. Pelo contrário, ele é ideologia bem no sentido de Marx:
falsa consciência necessária. Como tal, no entanto, ele cumpre certamente uma
função orientadora para a gestão da crise capitalista. Trata-se fundamentalmente
de um corpo de pensamento muito primitivo que nem sequer atende aos padrões
mais simples da ciência positivista-burguesa. Já nos anos 1960, Hans Albert,
uma das principais mentes do positivismo moderno, observou que a economia
neoclássica (o fundamento “teórico” do neoliberalismo) perseguia
essencialmente um „modelo platónico“ puro que não afirmava nada sobre a
realidade empírica. Mas pode-se falar também de um sistema de delírios que,
como tal, corresponde à fúria homicida da autodestruição capitalista.
Paradoxalmente, o neoliberalismo é funcional ao gerenciamento das crises
porque ofusca o processo de crise, e consequentemente desvanece a realidade,
negando-a teoricamente. Precisamente isso predestina-o como ideologia básica
de uma época em que a dinâmica desencadeada do capitalismo conhece apenas
uma direção: a aniquilação do mundo.
4.
Como se sabe, os problemas estruturais do capitalismo resultam apenas, segundo
os ideólogos neoliberais, do fato de que o Estado tem muita influência no
mercado, e através de todo tipo de regulações – em particular, é claro, dos
direitos trabalhistas e das normas ambientais – os efeitos supostamente benéficos
da livre concorrência são bloqueados. Portanto, se a sociedade seguisse a receita
de fazer recuar o Estado e liberar as forças do mercado, supostamente
inauguraria uma nova era maravilhosa de crescimento, prosperidade e trabalho
em massa. Para além do fato de que a promessa de transformar completamente
todos os impulsos humanos em mercadorias e dinheiro já representa uma
verdadeira ameaça e uma concepção horrorosa, deve-se notar que o
neoliberalismo tem feito o ridículo – avaliado inclusive com seus próprios
padrões. Também no sentido vulgar de um desacordo entre afirmação e
realidade, trata-se de pura ideologia. Seus alegados “sucessos“ econômicos
(crescimento econômico, criação de novos empregos, etc.) não passam de
fraude. Em primeiro lugar, eles se concentram em algumas regiões centrais do
mercado mundial e inclusive ali restringem-se a segmentos cada vez menores do
território e da população, enquanto do outro lado cada vez maiores parte do
planeta tornam-se de fato supérfluas para a valorização de capital; cortadas
praticamente do fluxo de mercadorias e dinheiro, são lançadas em uma espiral
descendente de indigência.
Em segundo lugar, mesmo nas regiões e segmentos sociais não tão duramente
atingidos por enquanto pelo processo de crise, o “sucesso” econômico não é o
resultado de algo como um livre desenvolvimento das forças do mercado e uma
retirada do Estado da economia. De maneira alguma resultam de uma
implementação da doutrina neoliberal pura mas são, de fato, o resultado de
permanentes intervenções estatais mega-keynesianas nos ciclos econômicos. No
decorrer das décadas de 1980 e 1990, os gastos estatais não foram reduzidos nos
países que ainda participavam em um grau significativo no mercado mundial; ao
contrário, aumentaram ou, pelo menos, permaneceram estáveis em relação ao
produto nacional bruto. Isso vale especialmente para os países centrais do
neoliberalismo, os EUA e a Grã-Bretanha. Em ambos os países, a chamada
quota do Estado (a participação do Estado na produção econômica total) é
praticamente tão alta hoje quanto na década de 1970, apesar de a maior parte da
infra-estrutura ter sido já privatizada e de restarem apenas algumas poucas
ruínas dos sistemas sociais.
No entanto, por trás dessa participação do Estado na economia,
quantitativamente constante, oculta-se uma ruptura qualitativa estrutural decisiva
em relação à era do fordismo do pós-guerra, que é característica do
desenvolvimento do processo de crise capitalista e de sua administração política.
Em primeiro lugar, os gastos estatais são cada vez mais financiados por meio de
empréstimos. Isso é também exatamente o contrário do que o neoliberalismo
propaga. Ele sempre reivindicou a meta de um orçamento equilibrado e criticou
o Estado interventor fordista por causa de sua dívida, que representava migalhas
comparada com o status atual (em 1975, o total acumulado naquele momento da
já então escandalosa dívida pública dos Estados Unidos ascendia a cerca de 540
bilhões de dólares; entretanto, somente no ano de 2003 o governo dos EUA
produziu um déficit orçamentário de quase a mesma quantia). A razão
econômica estrutural desse desenvolvimento é simplesmente que a acumulação
de capital, estagnada devido ao enfraquecimento progressivo da substância do
trabalho e do valor, não pode mais ser acionada na base econômica real e,
portanto, deve ser alimentada artificialmente pelos créditos públicos e privados e
por um enorme inchaço da especulação na bolsa de valores[2].
Esses empréstimos não são, ou são apenas parcialmente, usados para a expansão
da infra-estrutura geral ou para outras tarefas gerais, mas servem apenas
basicamente para a preservação do sistema contra o processo de agravamento da
crise. A liquidez é bombeada para os mercados financeiros para que a
acumulação capitalista não pare. Com isso, as dívidas e os valores especulativos
descobertos se acumulam em montanhas gigantescas que, é claro, mais cedo ou
mais tarde terão de entrar em colapso – com conseqüências socio-econômicas
catastróficas. Isso se mostra de maneira especialmente exacerbada em países
periféricos, como a Argentina, onde ao longo dos anos 1990 o endividamento
teve de fato apenas o único objetivo de apoiar a moeda para permanecer atraente
para a entrada de capital financeiro. Essa lógica circular de participação no
mercado financeiro (empréstimos sempre crescentes para continuar sendo digno
de crédito) trouxe um período de boom extremamente curto a um custo
tremendo, criando a ilusão para partes da população de que logo se juntariam ao
„Primeiro Mundo“. De fato, justamente nessa fase ultra-neoliberal, a dívida
cresceu exponencialmente, enquanto simultâneamente a infra-estrutura e as
empresas estatais eram vendidas a preços irrisórios. O quadro estatal,
responsável na era fordista do pós-guerra pela manutenção do contexto social e
do abastecimento público, transformou-se em um coletivo saqueador que vendeu
a substância social no mercado mundial para enriquecer-se e, de passagem,
acender um curto fogo de palha de valorização de capital – antes que viesse a
queda mais violenta.
Um desenvolvimento semelhante está se refletindo atualmente nos países
capitalistas centrais. Nenhum custo é poupado e sacrifícios cada vez maiores são
exigidos à população, com vistas a manter a forma capitalista e assegurar um
núcleo da valorização de capital decrescente. Os benefícios sociais e a infra-
estrutura geral aparecem do ponto de vista da „concorrência por localização“
apenas como fardo que deve ser descartado. Ao mesmo tempo, a privatização do
setor público deveria abrir novas esferas de investimento para o capital; mas eles
são lucrativos apenas enquanto a substância acumulada no passado, por exemplo
na forma de hospitais, redes ferroviárias ou servicios de água, pode ser saqueada
e consumida. A riqueza social está sendo cada vez mais implacavelmente
lançada no forno da valorização, que é acendido mais uma vez por um curto
prazo, enquanto partes cada vez maiores da população são excluídas dos
serviços públicos (saúde, transporte, água potável, etc.) e empurradas à
pobreza[3].
Em princípio, esse desenvolvimento é o mesmo em todas as partes do mundo: o
capitalismo consome sua própria substância social produzida historicamente e,
portanto, transforma-se em um sistema econômico de pilhagem global. Em
princípio, não faz diferença se, por exemplo, no Reino Unido a rede ferroviária é
vendida a empresas privadas, as quais a consomem e a levam ao status de país
do Terceiro Mundo em poucos anos para garantir seus lucros, ou se um senhor
da guerra africano se apodera das minas de coltan para lançar o metal no
mercado mundial. Apenas os métodos na Grã-Bretanha são um pouco mais civis
e o grau de decomposição do Estado não progrediu tanto quanto no antigo Zaire.
No entanto, estamos lidando fundamentalmente com uma mesma tendência em
todo o mundo, com uma espiral descendente de aniquilação e autocanibalismo
sistêmico. As diferenças entre as várias regiões do mundo resultam basicamente
apenas do fato de que nas metrópoles capitalistas a substância que pode ser
consumida é muito maior do que em um país periférico que tem uma breve
história de desenvolvimento capitalista e do Estado-nação. Naturalmente, as
diferenças de poder político e militar também desempenham um papel ao
permitir que os Estados mais poderosos passem transitóriamente parte de seus
custos da crise para outros países e regiões mais frágeis.
Em particular, essas diferenças entre (ou no interior de) essas regiões estão longe
de serem secundárias porque podem decidir entre a vida e a morte; também as
condições para a formação de resistência social são diferentes, evidentemente,
dependendo se se está lidando com um aparato estatal ainda mais ou menos em
funcionamento ou se tem que se defender contra gangues saqueadoras. As
transições, no entanto, são fluidas, porque em todo o mundo, os limites (de
qualquer maneira sempre permeáveis) entre crime organizado e política, entre
gangues e serviços de segurança privada tornam-se cada vez mais confusos[4].
Dessa forma, o Estado perde o caráter universal que possuía até certo ponto nos
países capitalistas centrais (e somente ali), e se transforma em um ator na
economia de pilhagem geral.
5.
A execução politicamente mediada dos sacrifícios e imposições exigidos pelo
processo de crise capitalista dificilmente teria sido possível sem um apoio
ideológico massivo. Pois inclusive a gestão da crise capitalista não pode
renunciar completamente à legitimação pública de suas ações. No entanto, o
desencadeamento da concorrência de aniquilação, a transição para a economia
de pilhagem e a exclusão social em massa não podem mais ser justificados pela
promessa de progresso social geral, como foi caracteristico na maior parte do
século XX. A ideologia neoliberal teve que substituir aquela promessa pela
responsabilidade e sucesso individual.
Em primeiro lugar, este motivo ideológico tem a grande „vantagem“ de ser
totalmente adequado para deslocar e tornar invisível a retumbante força
disruptiva de processo de crise em curso, responsabilizando aos caídos pelo seu
próprio destino; eles não se esforçaram o suficiente, foram preguiçosos ou não
souberam se vender corretamente. Essa atribuição não ocorre apenas no nível
dos indivíduos, mas também no nível de instituições e Estados. As causas de um
Estado mergulhar na crise não são buscadas geralmente na concorrência do
mercado mundial, cuja lógica interna produz vítimas, mas em uma política
incorreta, na corrupção, na falta de disposição da população para agir, e assim
por diante.
Pensando bem, é absolutamente ridículo supor que cerca de 80% das pessoas do
mundo vivam na miséria apenas porque não se esforçaram o suficiente ou
porque estão sendo governadas por políticos incompetentes e corruptos; também
que só bastaria um governo democrático e uma abertura dos mercados para lhes
permitir o acesso à riqueza social. Mas a vontade de acreditar em tais contos de
fadas é grande. Como seu impulso não é racional, mas um desejo irresistível de
recalque, ela dificilmente é abalada por argumentos e evidências empíricas.
Aqueles que por enquanto se beneficiam da crise, e inclusive os segmentos de
movimentos ainda não batidos, querem recalcar não só a crescente miséria em
massa no mundo e sua má consciência, mas acima de tudo a idéia de que eles
mesmos estão a poucos passos do abismo e se aproximando dele
ameaçadoramente.
É claro que a individualização da “responsabilidade” pelo próprio destino não
foi inventada pelo neoliberalismo. Ela representa uma ideologia básica da
moderna sociedade mercantil e é, ao mesmo tempo, um elemento estrutural
essencial para a transformação das pessoas em sujeitos do dinheiro e da
mercadoria, todas elas submetidas ao princípio compulsório do valor e obrigadas
a se afirmar diariamente na concorrência. Essa é a razão estrutural pela qual o
domínio capitalista exige um grau muito maior de autocontrole e
autodisciplinamento individual em relação a outras formas de dominação
anteriores, o que nada mais é do que a internalização individual das formas
objetivas de dominação. As pessoas têm que se submeter elas próprias e se
transformar em objetos, em uma coisa vendável.
Esse momento de auto-sujeição permanente (que, por exemplo, Foucault
estudou e descreveu historicamente em seus estudos sobre a sociedade
disciplinar e a governamentalidade) está ganhando força no processo de crise
capitalista. Não apenas é uma condição de funcionamento para o mercado de
trabalho cada vez mais desregulamentado e garante a disposição de se submeter
a condições de trabalho cada vez piores e mais exaustivas e de espremer o
máximo de desempenho possível. Ao mesmo tempo, e sobretudo, permite
organizar de forma relativamente suave o processo de empobrecimento e
exclusão e minimizar a resistência. Nesse sentido, os cortes nos sistemas de
seguridade social, a privatização do setor público e o desencadeamento da
concorrência não são apenas uma expressão da transição para uma economia de
pilhagem global, mas são também medidas disciplinares tremendas que
acompanham esse processo. O método é no fundo muito simples: sempre
mantenha as pessoas marchando, não lhes dê nenhum descanso e elas não
questionarão as condições sociais. E quem faria isso melhor do que o mercado
total com sua concorrência brutal? Na era do fordismo, o Estado Social foi
acusado por críticos de esquerda de imobilizar as massas, controlá-las com sua
burocracia e alimentá-las com migalhas para evitar que exigissem a padaria
inteira. E com razão. Mas na crise capitalista fundamental esse método de
controle e disciplina se torna precário, até mesmo disfuncional. Pois não só
exige um esforço financeiro e burocrático cada vez maior para alimentar o
crescente número daqueles que são expulsos do processo regular de valorização.
Acima de tudo, perderam-se os meios de pressão. Na República Federal da
Alemanha, por exemplo, ainda com seis a sete milhões de desempregados, era
possível ainda durante um bom tempo, com um pouco de habilidade, escapar da
compulsão do trabalho e, pelo menos parcialmente, viver dos benefícios sociais.
Mas essa porta traseira fordista da compulsão do trabalho está agora
sistematicamente trancada.
Se os agitadores neoliberais denunciam na República Federal da Alemanha a
„ineficiência“ da administração do (des)emprego (e exploram de maneira
extremamente populista os espalhados ânimos em contra dos funcionários,
supostamente preguiçosos), esse é um ataque frontal à reivindicação da
integração social, que sobreviveu por um longo tempo nas instituições do Estado
de bem-estar do fordismo, e se tornou obsoleta do ponto de vista capitalista.
Embora desde o final dos anos 1980 os benefícios tenham sido continuamente
reduzidos e a pressão tenha sido intensificada, nos últimos dois anos ocorreu
uma mudança de rumo que representa uma ruptura qualitativa. Agora trata-se
simplesmente de empurrar tantas pessoas quanto possível para fora das
estatísticas e das prestações estatais. Ao fazê-lo, a gestão estatal do trabalho
transforma-se de instância integradora em protagonista da seleção e da exclusão
social – e isso é ‚bem-sucedido‘ em seu próprio sentido.
6.
Depois de mais de 20 anos de fúria no planeta, o neoliberalismo perdeu muito de
sua credibilidade ideológica. As suas contradições internas não poderiam passar
completamente despercebidas. Portanto, não era de surpreender que seus slogans
propagandistas ficassem nesse meio tempo um tanto desarmados e estejam agora
acompanhados por uma nova retórica do Estado “social” e “ativo”.
Particularmente nos países da Europa Ocidental, nos quais ainda sobreviviam
remanescentes relativamente grandes dos sistemas sociais fordistas e de uma
infra-estrutura pública bem desenvolvida, esta mudança retórica foi inclusive o
pressuposto decisivo para implementar aceleradamente aquilo que fora
implementado tempo atrás nos países centrais do neoliberalismo e na periferia
do mercado mundial. Nesse contexto, o „social“ experimenta uma mudança
fundamental de significado. A pacificação do Estado de bem-estar fordista é
substituída por um complexo policial, de segurança e penitenciário que
acompanha a disciplina permanente quase automática do mercado de trabalho
desregulamentado. Dos sistemas sociais do Estado restou apenas um
remanescente que, por um lado, serve para separar as partes da população
trabalhadora „inúteis“ para a concorrência por localização e proteger
precariamente as partes „úteis“. Por outro lado, por razões de legitimação deve
ao mesmo tempo simular algo assim como „justiça social“, de modo que as
camadas médias de potenciais eleitores verdes ou socialdemocratas possam ser
persuadidas de que não há exclusão, mas todos recebem sua „oportunidade“.
Essa clientela sempre esteve preocupada com a sua boa consciência, já quando
doava para o movimento de libertação sandinista nos anos 1970 e 1980 ou
carregava o saco de juta em vez da sacola plástica pelas redondezas com
sentimento de elevação moral. Agora que os tempos estão ficando mais difíceis e
seu próprio status está ameaçado, o darwinismo social da ética burguesa vem à
tona novamente, segundo o qual apenas aqueles que trabalham (ou que pelo
menos querem trabalhar) têm o direito de existir. Isso significa também que as
provisórias redes de atendimento criadas para os absolutamente empobrecidos
têm caráter puramente caritativo e não mais (ou cada vez menos) estão baseadas
em reivindicações legais, mas são arbitrárias e podem ser rescindidas a qualquer
momento. Essa assistência da pobreza é, por sua vez, cada vez mais entregue a
iniciativas privadas do complexo industrial humanitário (instituições de caridade
e ONGs) e também é excelente para a política populista clientelar e para a
publicidade por via das imagens. Típico disso é o programa Fome Zero do
presidente brasileiro Lula, quem busca dar maior legitimidade à sua
continuidade das políticas neoliberais prometendo fornecer alimentos básicos
aos marginalizados. É significativo que nem mesmo essa promessa lastimável
seja honrada, embora ela comprometeria apenas uma pequena fração do
potencial de riqueza existente. Das cerca de 35 milhões de pessoas necessitadas,
apenas 5 milhões receberam algumas migalhas deste programa.
No entanto, aparentemente os antigos portadores de esperança da esquerda têm
sucesso (por enquanto) em assegurarse um certo apoio das partes marginalizadas
e amplamente despolitizadas da população, através do marketing midiático desta
turnê decadente. Tal como está começando a surgir também nos países centrais
da UE, essa mistura de repressão e assistencialismo é acompanhada por um
discurso mentiroso de revitalização dos „valores burgueses“. Ele encontra
ressonância particularmente numa seção das camadas médias que – por medo
das conseqüências desagradáveis da desintegração social, como crime, violência
e banditismo – redescobriu sua „responsabilidade social“ na forma da pedagogia
negra[5]. A culpada pela polarização social seria uma liberalidade mal
compreendida que teria falhado em ensinar às „camadas baixas“ as
competências culturais necessárias, regras de etiqueta e virtudes secundárias,
como dever, cortesia, pontualidade, etc. Não é de admirar que eles não tenham
podido acompanhar a concorrência e, em vez disso, vegetem com o saco de
batatas fritas na frente da TV. „O principal problema das camadas baixas não é a
pobreza, mas o consumo em massa de fast food e TV“, afirma por exemplo um
tal Paul Nolte, professor na Universidade Internacional de Bremen (“O grande
banquete”, em: Die Zeit, 17 de dezembro de 2003). Portanto, a „burguesia“ (mas
quem ela é?) deveria finalmente cumprir novamente sua missão educativa:
„Estamos diante de um novo começo, uma mudança de paradigma no
tratamento político das camadas baixas. Há muito tempo seguimos um conceito
que poderia ser chamado de ‘negligência cuidadora’. Um nível
comparativamente alto de cuidado material em relação às camadas baixas é
acompanhado por uma negligência em termos sociais e culturais. O objetivo
deve ser novamente não deixar a cultura da pobreza e da dependência, da falta
de educação e da falta de independência sobre si mesmos, mas intervir para
desafiá-los e abri-los. Trata-se da integração na sociedade, mas também – para
muitos um assunto sensível – da mediação de padrões culturais e modelos“
(idem).
O „truque“ discursivo usado por Nolte é indicativo do atual período de
turbulência na República Federal Alemã e em outros países da UE. Ele apela
ainda para a reivindicação de ‚integração‘, mas esta não deve resgatar mais a
participação material – porque, como afirmado com insensibilidade
contrafactual pelo especialista em história social alemã e americana, ela já teria
sido garantida – mas através da mediação dos valores burgueses. Dessa maneira,
ele fornece ao seu interessado público de classe média uma forma ideológica de
processamento com a qual ele pode se sentir socialmente responsável, sem ter
má consciência ao se refugiar das consequências sociais da crise em áreas
residenciais separadas e Shopping Centers vigiados – enquanto ainda ele pode
pagar por isso.
O recurso à „cultura dos valores burgueses“, destruída pela própria
comercialização capitalista é, por si só, um mero fantasma e mais um sinal da
transição para um período de simulação e alucinação. Mas serve também para
empacotar de maneira um pouco mais palatável a repressão real em andamento?
Podemos ver nos chamados campos de treinamento nos EUA com que práxis se
corresponde a „mudança de paradigma“ proclamada pelo Sr. Nolte e seus
parceiros: ali, jovens desviantes das camadas baixas são ensinados a
funcionarem como cidadãos decentes, com exercícios militares extremos e
métodos de lavagem cerebral. Qualquer um que sobreviva a essa lição bem-
intencionada de valores burgueses experimenta muito de perto como é o
„cuidado“ que o Sr. Professor tem em mente.
Não é por acaso que o discurso sobre repressão e educação e a práxis a ele
vinculada lembrem a forma de lidar com as camadas inferiores e as „classes
perigosas“ dos primórdios do capitalismo. Na crise da sociedade da mercadoria,
o núcleo violento e autoritário do capitalismo claramente volta à tona. E, no
entanto, há uma diferença nada insignificante: não se trata mais de adequar
violentamente as camadas inferiores camponesas para o gasto regular de sua
energia vital pelo ritmo de trabalho da manufatura e da fábrica, preparando
assim o terreno para a expansão capitalista. Pelo contrário, o objetivo
consciente-inconsciente consiste em disciplinar a grande massa de “supérfluos”,
de modo que ela atrapalhe o menos possível as empresas capitalistas residuais e
aqueles que ainda participam delas. Os excluídos e cuspidos para fora devem
submeter-se o mais calmamente possível ao seu destino. É claro que centenas de
milhões de pessoas marginalizadas pelo capitalismo em todo o mundo não
podem ser mantidas sob controle dessa maneira. Enquanto elas não representam
ameaça alguma para o encolhido setor da valorização de capital e do consumo
no mercado mundial, são deixadas à própria sorte e impedidas de entrar no
centro por um regime de fronteira cada vez mais rigoroso. Mas à medida que
centros e periferias se tornam cada vez mais misturados, a proteção das
fronteiras internas ganha cada vez mais importância. O discurso sobre „valores
burgueses“ fornece para isso a música de fundo moralista.
7.
Em face da decomposição do Estado e de sua mutação de instância de regulação
capitalista e da universalidade social para ator da concorrência de destruição e da
economia de pilhagem, a relação dos movimentos sociais com ele – ou melhor,
com os produtos da sua decomposição – deve ser radicalmente redefinida. Se a
esquerda continua alimentando e propagando ilusões sobre a possibilidade de
uma “outra política”, isso não leva a lugar algum, pois sob as condições
objetivas da crise, esses conceitos não têm mais a menor chance de uma
oportunidade prática (o que fica claro nesses raros exemplos de social-
democracia que têm chegado ao governo ainda com alguma reivindicação social,
como o caso de Lula no Brasil). Em segundo lugar, esse fracasso pré-
programado implica uma desilusão negativa, por ser acrítica, promovendo assim
formas regressivas de processamento do processo de crise: racismo, anti-
semitismo, nacionalismo e teorias da conspiração de todos os tipos, em alta de
qualquer maneira no mundo todo. Os próprios movimentos sociais não estão de
forma alguma livres disso. Em especial, tendências anti-semitas freqüentemente
penetram em argumentos aparentemente críticos do capitalismo ou pelo menos
elas são carregadas e toleradas de maneira totalmente irrefletida.
Pelo menos tão fortes são as tendências para as políticas de identidade étnica,
regionalista e religiosa que, em face do processo social geral, opaco e
incontrolável, proporcionam o sentimento de “comunidade”. Um triste exemplo
disso é o desenvolvimento do EZLN mexicano, que, após o fracasso de seu
conceito político de transformar o Estado mexicano através da pressão da
„sociedade civil“, agora se concentra cada vez mais nas identidades indígenas.
Mas também em outras partes do mundo há desenvolvimentos análogos de
movimentos cuja reivindicação emancipatória é negada por seu etnicismo, como
o movimento Aimara na Bolívia ou os vários partidos regionalistas ou
separatistas de esquerda na Espanha. Essas formas de afastamento da política
não têm nada a ver com a sua superação, mas são basicamente variantes de seu
desmoronamento. Que uma perspectiva de emancipação social não deva deixar-
se vincular ao Estado não significa que o nível da universalidade social seja
removido. Em vez disso, o populismo, a simulação pós-política, a gestão da crise
capitalista e as formas regressivas de processamento da crise devem ser
resolutamente contrapostos nesse nível. Isso não tem nada a ver com a ilusão de
uma “outra política”, mas pode ser melhor designado como anti-política[6]. Sua
perspectiva não é a conquista do Estado, mas a sua superação. Portanto, a anti-
política não constitui um “programa” bem definido, positivo e unificador, mas
tem o caráter de uma “estratégia negativa” provisória que caduca na medida em
que é bem-sucedida e desaparece com seus antípodas. E é por isso que não se
baseia na unificação dos movimentos sociais sob um comando e com uma
vanguarda no topo, como acontece na lógica da política e das organizações
partidárias, que sempre representam e reproduzem as estruturas de poder do
Estado. Mas, ao mesmo tempo, o termo anti-política também deve apontar que
uma mera justaposição não vinculativa das lutas está condenada ao fracasso.
Pois todas essas lutas se movem em um quadro comum de estruturas coercitivas
globalizadas que são constituídas pelo princípio uniforme universalista abstrato
da forma mercadoria e valor. Seu objetivo comum deve ser, portanto, fazer
explodir esse quadro, a fim de abrir o horizonte para uma sociedade mundial
verdadeiramente plural de indivíduos livremente associados[7]. É verdade que o
domínio capitalista pode, em princípio, precisamente por causa de sua
onipresença, ser atacado em qualquer lugar. Mas as lutas parciais a qualquer
momento podem virar concorrência e demarcação identitária, se elas não
estiverem vinculadas à perspectiva comum de superar as formas de coação da
sociedade da mercadoria e as estruturas de sujeito a ela associadas. Nesse
sentido, anti-política significa levar muito à sério as instituições sociais da
dominação capitalista e se decidir a confrontá-las no nível social geral. Isso
implica reconhecer que mesmo nas condições da crise os atores estatais
representam um verdadeiro fator de poder; não só continuam administrando uma
parte significativa da riqueza social, como também regulam e controlam o
acesso a ela, especialmente através da polícia e do sistema jurídico. Isto é
dramaticamente evidente particularmente ali onde, como na Argentina, fábricas
ocupadas são evacuadas, mesmo tendo se tornado não lucrativas para a produção
para o mercado[8]. A despeito disso, a propriedade privada é defendida com toda
violência porque é um princípio fundamental da sociedade da mercadoria.
Ali onde a crise capitalista mina a base da produção de mercadorias e os
próprios produtos de decadência do Estado promovem ativamente a destruição e
a pilhagem da substância social, as demandas por uma redistribuição da riqueza
monetária e pela regulamentação do mercado são meros castelos no ar. O lema
„o dinheiro é suficiente“ está equivocado em todos os sentidos. Em primeiro
lugar, não é correto porque a crise é precisamente uma crise das formas
mercadoria e dinheiro que perdem sua base, junto com a substância de trabalho e
valor[9]. Em segundo lugar, com isso aceita-se de maneira inquestionada a
redução da riqueza material à forma limitada de riqueza monetária abstrata, em
lugar de ser criticada. O objetivo da emancipação social, no entanto, só pode
consistir em acabar com essa redução e produzir e administrar a riqueza social
diretamente, sem o desvio através do fetiche da mercadoria e do dinheiro[10].
A idéia de que pode haver um retorno a um capitalismo de algum modo
„regulado“ ou „civilizado“ é completamente infundada. O capitalismo
„selvagem“ de hoje, o capitalismo que literalmente devora e aniquila sua própria
substância e, portanto, a humanidade, é a única forma em que ainda pode existir
hoje. Não há mais valores civilizatórios da sociedade burguesa para defender-se
contra a „barbárie“, pois a lógica interna dessa sociedade leva à barbárie. Uma
emancipação só pode existir para além dela. O ponto de partida de qualquer
resistência emancipatória deve, portanto, ser também a contraposição à
tendência de sacrificar a riqueza material sem consideração ao processo de crise.
A este respeito, a anti-política é absolutamente compatível com a resistência
contra a gestão neoliberal da crise, com a luta contra a privatização da água,
como por exemplo foi levada adiante com sucesso na Bolívia, ou com a
necessária resistência contra a destruição da saúde pública que tem lugar
atualmente em países europeus. As lutas imanentes e uma perspectiva de
superação do sistema produtor de mercadorias não são de forma alguma
mutuamente excludentes, mas se referem uma à outra. Em última instância,
essas lutas podem ser conduzidas apenas com uma tal perspectiva, pois caso
contrário os movimentos permanecem vulneráveis à chantagem da lógica
sistêmica (concorrência por localização, “rentabilidade”, etc.) e a visão da única
saída, a apropriação da riqueza material e do conjunto das relações sociais,
permanece bloqueada. Reconhecer essa saída não é apenas uma questão de
discernimento intelectual, mas pode mudar decisivamente a qualidade das lutas
sociais: „Quando uma ideia se apodera das massas, ela se torna força material“
(Marx).
[1] Cf. Trenkle, Norbert. “Es rettet Euch kein Billiglohn” em: Kurz; Lohoff;
Trenkle (orgs.). Feierabend! Hamburg, 1999. Disponível em:
<http://www.krisis.org/wp-content/data/feierabend.pdf>. E Trenkle, Norbert:
“Das Ende der Arbeit / Informalisiertes Elend”, em: iz3w, março de 2003.
[2] Cf. Kurz, Robert: “Die Himmelfahrt des Geldes”, em: Krisis 16/17, 1995
[versão em português disponível em:
<http://www.obeco-online.org/rkurz101.htm>]; Lohoff, Ernst. “Große Fluchten.
Krise und Entwicklung des Kapitals”, em: Weg und Ziel 1/2000 [versão em
português disponível em: <http://www.krisis.org/2015/fugas-para-frente/>].
[3] Cf. Lohoff, Ernst. “Das Schweigen der Lämmer” em: Lohoff; Trenkle et al.
(orgs.). Dead Men Working. Unrast, 2005.
[4] Isso relata, por exemplo, o Coletivo Situaciones na Argentina: “Em 26 de
junho de 2002 foram assassinados Darío Santillán e Maximiliano Costeki, dois
membros da Coordinadora de Trabajadores desocupados Aníbal Verón. A
repressão dos movimentos sociais ocorre tanto em uniforme estatal como em
toda uma série de outras formas. Elas tem a ver com a reciclagem de pessoas que
serviram a última ditadura militar e adotaram seus métodos. Estamos falando de
grupos mercenários parecidos com a polícia, grupos criminosos com contatos da
máfia e empresas de segurança que se tornaram verdadeiros exércitos privados e
em serviço direto a corporações ou grupos de poder político. As várias formas de
expressão de repressão provam que o ataque às práticas radicais de
transformação social não precisa ser necessariamente homogêneo (Colectivo
Situaciones, prefácio a “Que se vayan todos! Krise und Widerstand in
Argentinien”, Berlin, 2003, p.22 e ss.)
[5] N.do.T.: A pedagogia negra é um termo que faz referência a métodos
educacionais que incluem violência e intimidação como meio. O termo foi
introduzido em 1977 pela socióloga alemã Katharina Rutschky com a publicação
de um livro com ese título.
[6] Cf. Kurz, Robert: “Antipolitik und Antiökonomie”, em: Krisis, 19, 1997
[versão em português disponível em:
<http://www.obeco-online.org/rkurz106.htm>]; Kurz, Robert; Trenkle, Norbert.
“Die Aufhebung der Arbeit”, em: Kurz; Lohoff; Trenkle (orgs.). Feierabend!
Hamburg, 1999; Lohoff, Ernst. “Determinismus und Emanzipation”, em: Krisis,
18.
[7] Cf. Trenkle, Norbert. “Weltgesellschaft ohne Geld”, em: Krisis, 18, 1996.
[8] Cf. Fernandes, Marco. “Wind des Südens. Funken eines nicht-entfremdeten
Bewussteins inmitten des argentinischen Zusammenbruchs”, em: Lohoff;
Trenkle et al. (orgs.). Dead Men Working. Unrast, 2005.
[9] Isso se expressa empiricamente, por um lado, com o correspondente impulso
à desvalorização (inflação, queda da moeda, crise do mercado financeiro) e, por
outro lado, em que cada vez mais pessoas são cortadas das fontes do dinheiro.
[10] Cf também Exner, Andreas: “Geld ist genug da! Essen kann man’s trotzdem
nicht Attac un di Krise der Arbeitsgesellschaft”, em: Lohoff; Trenkle et al.
(orgs.). Dead Men Working. Unrast, 2005. E sobre a noção de riqueza: Lohoff,
Ernst: “Zur Dialektik von Mangel und Überfluss”, in Krisis, 21/22, 1998.

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