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Medicina, Ribeirão Preto, Simpósio: TRANSTORNOS ALIMENTARES: ANOREXIA E BULIMIA NERVOSAS

39 (3): 353-60, jul./set. 2006 Capítulo VI

PERFIL PSICOLÓGICO DE PACIENTES COM ANOREXIA E


BULIMIA NERVOSAS: A ÓTICA DO PSICODIAGNÓSTICO

PSYCHOLOGICAL PROFILE OF PATIENTS WHO SUFFER FROM ANOREXIA NERVOSA


AND BULIMIA NERVOSA: PSYCHOLOGICAL ASSESSMENT POINT OF VIEW

Érika Arantes de Oliveira1, Manoel Antônio dos Santos2

1
Psicóloga. 2Docente. Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq. Departamento de Psicologia e Educação. Faculdade de
Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto - USP.
CORRESPONDÊNCIA: Érika Arantes de Oliveira. Rua Machado de Assis, 433 - Vila Tibério. CEP 14050-490 - Ribeirão Preto-SP.
E-mail: erikaao@ffclrp.usp.br / Fone: 16 3602 3645

Oliveira EA, Santos MA. Perfil psicológico de pacientes com anorexia e bulimia nervosas: a ótica do
psicodiagnóstico. Medicina (Ribeirão Preto) 2006; 39 (3): 353-60.

RESUMO: O presente trabalho tem por objetivo apresentar o perfil psicológico dos pacientes
portadores de anorexia e bulimia nervosas, visando fornecer subsídios para o planejamento de
intervenções a serem implementadas por equipe interdisciplinar. Foram realizadas 29 avalia-
ções psicodiagnósticas, compreendendo 24 mulheres e cinco homens. Os instrumentos utiliza-
dos foram: técnicas projetivas, teste de nível intelectual e escalas padronizadas, complementa-
dos por entrevista clínica. Como resultados pôde-se constatar, mediante as entrevistas, a negação
do adoecimento e, conseqüentemente, o não reconhecimento da necessidade de tratamento.
Quanto aos resultados fornecidos pelos demais instrumentos observou-se que, de um modo
geral, os recursos intelectuais encontram-se dentro da média esperada, porém evidencia-se
marcado comprometimento emocional dos pacientes portadores de transtornos alimentares,
embora esteja preservada a possibilidade de vinculação afetiva, o que atesta a necessidade de
suporte psicoterapêutico.

Descritores: Anorexia Nervosa. Bulimia Nervosa. Avaliação Psicológica. Transtornos da Ali-


mentação.

1 - INTRODUÇÃO por episódios de comer compulsivo, associados a sen-


timento de descontrole sobre o comportamento alimen-
Os transtornos alimentares são quadros psi- tar. Nos dois casos o peso e o formato corporal exercem
quiátricos caracterizados por uma grave perturbação marcada influência na determinação da auto-estima dos
do comportamento alimentar, sendo a anorexia e a pacientes1, que via de regra encontra-se rebaixada.
bulimia nervosas os dois tipos principais1. Acredita-se atualmente que exista uma etiopa-
A anorexia nervosa pode ser definida como uma togenia multifatorial, com hipóteses da influência com-
recusa sistemática em manter o peso no mínimo normal binada da dinâmica familiar, do meio cultural e de as-
adequado à idade e altura, acompanhada de uma per- pectos da personalidade do indivíduo como fatores
turbação no modo como o indivíduo vivência seu peso concorrentes para a predisposição, instalação e ma-
e sua forma física. Já a bulimia nervosa caracteriza-se nutenção dos distúrbios.

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Oliveira EA, Santos MA

1.1- Dinâmica familiar da anorexia nervosa. Pacientes com anorexia do sub-


tipo purgativo tenderiam a ser mais impulsivos do que
A influência do ambiente familiar sobre os trans- os restritivos, que seriam mais perfeccionistas e ob-
tornos alimentares é uma das dimensões mais valori- sessivos. Como características psicológicas salientes
zadas desde que essas enfermidades foram descritas, esses pacientes tendem a apresentar: baixa auto-esti-
sendo que fatores familiares podem contribuir tanto ma, sentimento de desesperança, desenvolvimento in-
para o desencadeamento como para a manutenção satisfatório da identidade, tendência a buscar aprova-
do transtorno2. ção externa, hipersensibilidade à crítica e conflitos re-
Alguns autores descrevem a existência de um ferentes às questões de autonomia versus indepen-
padrão de confusão das fronteiras que definem os dência6.
subsistemas familiares (parental, filial). Esse padrão Pacientes com bulimia nervosa apresentariam
seria marcado pela ausência generalizada de limites pensamentos e emoções desadaptativas, auto-estima
entre gerações e pessoas dos diferentes subsistemas, flutuante, sendo comum encontrar aqueles que apre-
faltando o senso de identidade e individualidade dos sentam atitudes caóticas, não somente no tocante aos
membros familiares, que apresentariam padrões ina- hábitos alimentares, mas também em outros aspectos
dequados de relacionamento interpessoal. Tais famíli- da vida, como os estudos, a vida profissional e as rela-
as exibiriam uma harmonia aparente que, na verdade, ções amorosas. Para alguns autores os principais as-
ocultaria graves conflitos subjacentes3, 4. pectos emocionais dos pacientes com anorexia nervo-
sa seriam: baixa auto-estima; ansiedade alta, perfec-
1.2- Meio sociocultural cionismo, pensamento do tipo “tudo ou nada”, incapa-
No mundo contemporâneo as imagens do cor- cidade de encontrar formas de satisfação, alta exigên-
po esbelto são cada vez mais cultuadas pelos meios cia e incapacidade de ser feliz6.
de comunicação de massa, geralmente associadas pelo
marketing à obtenção de sucesso e prestígio em uma 1.4- O processo de avaliação psicodiagnóstica
sociedade de consumo. Esse contexto macrossocial Levando em consideração a complexidade dos
proporcionaria novas formas de vivenciar subjetiva- fatores envolvidos na origem e na manutenção dos
mente a corporeidade e de se relacionar com o corpo, quadros de transtornos alimentares, como demonstra-
contribuindo, juntamente com outros fatores, para o do acima, o Grupo de Assistência em Transtornos
cultivo de um caldo de cultura que favoreceria a inci- Alimentares (GRATA) do Ambulatório de Nutrologia
dência dos transtornos alimentares5. do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina
Isso não significa endossar a tese de uma pro- de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo
dução eminentemente social desses sintomas, nem (HC-FMRP-USP) realiza uma avaliação psicodiag-
validar a existência de uma relação linear do tipo cau- nóstica dos seus pacientes, na tentativa de melhor com-
sa-efeito, uma vez que durante algum tempo acredi- preender seu funcionamento psicodinâmico.
tou-se que a anorexia incidiria apenas em mulheres O processo psicodiagnóstico pode ser caracte-
com bom nível socioeconômico e educacional e oriun- rizado como uma situação bi-pessoal (psicólogo-paci-
das de países desenvolvidos de cultura ocidental, com ente), de duração limitada, cujo objetivo é a descrição
oferta abundante de alimentos. Contudo, estudos re- e compreensão da personalidade do paciente, utilizan-
centes desmentem categoricamente essa crença e de- do-se para alcançar este objetivo as seguintes técni-
monstram que os transtornos da conduta alimentar não cas: entrevistas semidirigidas, técnicas projetivas e
atingem somente indivíduos com esse perfil restrito5. entrevistas de devolução. O psicólogo, ao planejar uma
bateria de testes, deve escolher os que captem o maior
1.3- Perfil de personalidade número de condutas e em seus pormenores, estabele-
Quanto aos aspectos de personalidade envolvi- cendo a melhor seqüência em que os instrumentos de
dos, alguns autores acreditam que o transtorno alimen- avaliação psicológica deverão ser aplicados7.
tar corresponderia a uma apresentação atípica de um O presente trabalho tem por objetivo apresen-
transtorno afetivo ou de um transtorno obsessivo-com- tar aspectos do funcionamento psicodinâmico dos pa-
pulsivo4. cientes portadores de anorexia e bulimia nervosas,
A baixa auto-estima, bem como a distorção da submetidos à avaliação psicodiagnóstica, tanto no to-
imagem corporal, estariam relacionadas com a origem cante aos aspectos emocionais, como no que concerne

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Perfil psicológico de pacientes com anorexia e bulimia nervosas

aos aspectos intelectuais que compõem a personali- 2.3- Entrevista clínica


dade, com vistas a fornecer subsídios para o planeja- A entrevista pode ser considerada um dos prin-
mento de intervenções terapêuticas por parte da equi- cipais instrumentos de investigação do funcionamento
pe interdisciplinar. psicológico de um indivíduo, já que permite ao investi-
gador recolher dados descritivos na própria linguagem
do sujeito, considerando que esta corresponde a um
2 - MATERIAL E MÉTODOS
sistema de sinais com função indicativa, comunicativa,
2.1- Participantes expressiva e conotativa. Nesse sentido, oferece a pos-
sibilidade de o investigador desenvolver intuitivamente
Foram realizadas 29 avaliações psicodiagnósti- uma idéia aproximativa sobre o modo como o sujeito
cas, com 24 pacientes do sexo feminino e cinco do interpreta o mundo8, de acordo com sua história de
sexo masculino, vinculados ao Grupo de Assistência vida, seu contexto cultural, seus valores referenciais,
em Transtornos Alimentares (GRATA) do Hospital das suas construções e atribuições de significados.
Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto A entrevista seguiu um roteiro estruturado, abar-
da Universidade de São Paulo (HC-FMRP-USP). A cando os seguintes tópicos: Dados de identificação do
faixa etária variou dos 14 aos 33 anos de idade e a paciente; Infância, adolescência e vida adulta; Rela-
maioria dos pacientes examinados era solteira. Em cionamentos na esfera sócio-familiar; Processo de
relação ao diagnóstico a maior parte era portadora de adoecimento; Tratamentos anteriores; Trabalho/estu-
bulimia nervosa, seguidos de pacientes com anorexia dos; Eventos estressores e Planos futuros.
nervosa do subtipo purgativo.

Teste de Nível Intelectual


Tabe la I: Caracte rização da amos tra de pacie nte s com
trans tornos alime ntare s e m função do s e xo, idade , 2.4- Matrizes Progressivas de Raven - Escala
e s tado civil e cate goria diagnós tica. (n=29) Geral
Variáve is Fre qüê ncia % Trata-se de um instrumento válido para avaliar
a capacidade de pensamento lógico e trabalho intelec-
Sex o tual preciso9. Esse teste é composto por cinco subtes-
Masculino 05 17
tes, constituídos por 12 itens cada um, organizados em
Feminino 24 83
Total 29 100 ordem crescente de dificuldade. Os pacientes freqüen-
temente apontam a semelhança desse instrumento com
Idade testes utilizados na avaliação psicotécnica, expressan-
14- 18 17 59 do em geral desconforto com a realização do mesmo.
19- 23 12 41

Est ado Civ il Técnicas Projetivas


Casado 03 10
Solteiro 26 90 2.5- Teste de Apercepção Temática (TAT)

Diagnóst ico
O TAT é um método projetivo que visa detectar
Anorexia Nervosa 11 38 os conflitos e tendências da personalidade, assim como
Bulimia Nervosa 18 62 revelar dinamismos, atitudes e frustrações do indiví-
duo10. São apresentadas para o paciente pranchas com
algumas gravuras em preto e branco, contendo cenas
2.2- Instrumentos e materiais em sua maioria estruturadas, geralmente envolvendo
Como instrumentos foi utilizada uma bateria de personagens humanos. É solicitado que o sujeito conte
técnicas projetivas, teste de nível intelectual e escalas uma história a partir do que percebe do material, con-
padronizadas (Escala de Atitudes Alimentares - EAT- tendo início, meio e fim. Para o presente estudo foram
26 e Escala de Autoconceito de Janis e Field, revisada escolhidas 11 pranchas (1, 2, 3RH, 4, 7RM, 8RM, 11,
por Eagly). Essa bateria foi complementada por uma 12RM, 16, 18MF, 20) considerando-se ainda a neces-
entrevista clínica, delineada especialmente para aten- sária adequação do estímulo dependendo do gênero
der aos objetivos da avaliação. do examinando.

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2.6- Questionário Desiderativo conforto e privacidade, junto à Clínica Psicológica do


Centro de Psicologia Aplicada (CPA) da Faculdade
O Questionário Desiderativo é uma técnica pro- de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da
jetiva verbal que informa sobre características de per- Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP). O pro-
sonalidade do paciente, sua bagagem defensiva, con- cesso foi desenvolvido ao longo de cinco encontros de
flitos básicos, desenvolvimento cognitivo, auto-imagem, aproximadamente uma hora de duração cada, com-
identidade sexual, dentre outros aspectos11. plementado por um último encontro, dedicado à reali-
zação da entrevista devolutiva.
2.5- Exame de Rorschach
O Rorschach ocupa posição privilegiada den- 3.1- Primeiro encontro
tre as técnicas de avaliação de personalidade, sendo Reservado para a explicitação da natureza da
uma das mais utilizadas em diversos países. Suas pos- proposta, seus objetivos e modus operandi. Durante
sibilidades interpretativas abrem caminho para a com- o estabelecimento do contrato de trabalho era enfati-
preensão acurada do ser humano em suas motivações zado o caráter voluntário da participação do paciente.
profundas12. Também é uma técnica de cartões ou Uma vez obtida a anuência explícita do participante,
pranchas, mas diferentemente do TAT não apresenta mediante a assinatura do Termo de Consentimento Li-
estímulo determinado, mas amorfo, uma vez que as vre e Esclarecido, era realizada a entrevista clínica.
pranchas são constituídas de borrões de tinta de for- Essa entrevista teve duração média de uma hora.
mas indefinidas, colocando o sujeito em contato com As entrevistas não foram audiogravadas. A psi-
um material menos estruturado. cóloga realizava algumas anotações durante o encon-
tro e efetuava a transcrição do conteúdo verbal ime-
2.6- Teste das Pirâmides Coloridas de Pfister diatamente após o término das entrevistas.
O Teste das Pirâmides Coloridas de Pfister é uma
técnica considerada válida e precisa (fidedigna), em- 3.2- Segundo encontro
pregada para a compreensão do funcionamento afeti- Nesse encontro era aplicado o Exame de Rors-
vo-emocional do sujeito13. Sua maior vantagem repousa chach. A aplicação dessa técnica demandava cerca
na economia de recursos, rapidez de execução e facili- de 50 minutos, sendo que a aplicação mais rápida teve
dade de compreensão da tarefa proposta, além do as- duração de 20 minutos e a mais longa, de 52 minutos.
pecto lúdico inerente à técnica, uma vez que o paciente
trabalha com a escolha de cores, manipulando quadrí- 3.3- Terceiro encontro
culos de papel colorido em uma ampla gama de cores. Foram aplicados nesse encontro o HTP e o
Teste de Pirâmides Coloridas de Pfister. O primeiro
2.7- Teste da Casa-Árvore-Pessoa (House-Tree- despendeu cerca de 45 minutos em média para a sua
Person Test - HTP) realização na íntegra e o segundo, aproximadamente
O HTP tem o objetivo de fornecer uma visão 15 minutos.
panorâmica da personalidade do sujeito, em especial
das suas interações com o mundo exterior14. Trata-se 3.4- Quarto encontro
de um teste projetivo gráfico no qual o paciente é convi- Nesse encontro eram aplicadas as Matrizes
dado a realizar determinados desenhos temáticos (casa, Coloridas de Raven. Sua aplicação em geral consu-
árvore, pessoa). Concluída a parte gráfica, o profis- miu de 45 a 50 minutos.
sional realiza um inquérito verbal, utilizando-se para
tanto de um roteiro padronizado de questões, para com- 3.5- Quinto encontro
plementação das informações obtidas e exploração das Nesse encontro eram aplicados o Questionário
fantasias inconscientes projetadas nos desenhos. Desiderativo e o TAT. Nos primeiros os pacientes
necessitavam de cerca de 20 minutos para concluí-
3 - PROCEDIMENTO DE COLETA DE DADOS rem a tarefa e, no segundo, de 40 a 45 minutos.

O estudo contou com a aprovação do Comitê 3.6- Sexto encontro


de Ética em Pesquisa do HC-FMRP-USP. As avalia- O último encontro era destinado à entrevista
ções foram realizadas individualmente em uma sala devolutiva dos resultados para os pacientes, culminando
reservada e que oferecia condições adequadas de com a proposta de conduta terapêutica.

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Perfil psicológico de pacientes com anorexia e bulimia nervosas

4- PROCEDIMENTO DE ANÁLISE DOS 5.2- Organização afetiva


DADOS
Mecanismos de controle da impulsividade
Os dados obtidos por meio da aplicação dos ins- Em relação aos aspectos afetivos, detecta-se
trumentos avaliativos foram cotados segundo as re- uma falha nos mecanismos de controle da impulsivi-
comendações preconizadas pela literatura consagra- dade, desencadeando inabilidade nas expressões afe-
da a cada técnica. tivas, reações de cólera e descargas impulsivas.
A entrevista foi analisada qualitativamente, Quando vi, já foi... (masculino, 18 anos, buli-
mediante uma análise de conteúdo categorial, visando mia nervosa)
identificar as concepções, crenças, valores, motiva- Tais descargas podem ser voltadas tanto para
ções e atitudes dos entrevistados. Para efetuar a sis- o meio externo como para o próprio organismo (auto-
tematização do material coletado foram seguidas as agressividade).
três etapas do processo de análise de conteúdo, a sa-
ber: pré-análise (organização do material e sistema- Relação consigo mesmo e auto-imagem
tização das idéias cruciais), descrição analítica A auto-imagem é pobremente estruturada, ofe-
(categorização dos dados em unidades de registros) e recendo uma sustentação precária para o sentimento
interpretação referencial (tratamento dos dados e de identidade pessoal. Reações afetivas hostis são
interpretações)8,15. amplamente dominantes, quando comparadas com as
Os resultados foram interpretados segundo a experiências de gratificação das necessidades amo-
abordagem psicodinâmica que, do ponto de vista teó- rosas. A projeção da hostilidade no ambiente é uma
rico-metodológico, fundamenta a maior parte dos ins- tendência marcante, dado ao baixo nível de tolerância
trumentos empregados no processo psicodiagnóstico. aos conflitos e pouca continência aos afetos poten-
cialmente disruptivos. Na tentativa de proteger-se da
hetero-agressividade, os pacientes tendem, defensi-
5- RESULTADOS vamente, ao isolamento social e, na presença de si-
tuações de maior estresse ambiental, tornam-se sus-
5.1- Organização intelectual e pragmatismo cetíveis a manifestações auto-agressivas, apresentando
sinais de ansiedade introjetada, inquietações internas
Nível intelectual e tendência ao auto-ataque.
Observou-se que, de um modo geral, a capaci- Em qualquer lugar que eu chego eu acho
dade intelectual encontra-se dentro da média espera- que sou a mais feia, a mais mal vestida. (feminino,
da, ou seja, os resultados, expressos em percentis, si- 19 anos, anorexia nervosa)
tuam-se dentro do intervalo definido pelos valores nor- A relação consigo também é marcada por con-
mativos disponíveis pelo teste utilizado. flito, sendo comum a baixa auto-estima, combinada
com acentuada timidez, tendendo à introversão pato-
Capacidade produtiva lógica.
Apesar de não haver prejuízo do potencial inte-
lectual, notou-se um comprometimento da capacida- Relacionamentos com as figuras parentais
de produtiva devido à interferência de fatores indica- O relacionamento com as figuras parentais, em
tivos de imaturidade emocional. Além disso, consta- especial no tocante à imago materna, é vivenciado de
tou-se rebaixamento da síndrome de dinamismo, indi- forma ambivalente, oscilando entre a extrema depen-
cando um comprometimento da tríade ação-realiza- dência e o desejo de completa liberdade e autonomia.
ção-produtividade. Os sentimentos são vivenciados muito intensamente,
Desse modo, apesar de apresentarem a fun- tanto de ódio como de amor. Além disso, são expres-
ção lógica preservada, a capacidade produtiva encon- sos com o filtro de experiências do tipo “tudo ou nada”,
tra-se prejudicada pela afetividade. sem nuances e gradações, desencadeando reações ex-
Parece que eu nunca mais vou conseguir plosivas.
fazer nada... E eu fico procurando a Ana (nome Às vezes eu sei que tudo que ela (mãe) faz é
próprio) que eu era. (Feminino, 19 anos, bulimia ner- para o meu bem, mas às vezes tenho um ódio dela!
vosa) (feminino, 18 anos, bulimia nervosa)

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Relacionamentos interpessoais Negação do adoecimento


Como a organização do relacionamento com as Não sei se sou mesmo doente... Hoje em dia
figuras estruturantes do psiquismo (imagos parentais) todo mundo quer emagrecer a qualquer custo. (fe-
é precária, a relação com o outro também apareceu minino, 23 anos, anorexia nervosa)
prejudicada, sendo que os relacionamentos profundos Os pacientes inicialmente “negam” a condição
são considerados ameaçadores e tenazmente evita- de adoecimento, alegando tratar-se de um estilo de
dos. Os relacionamentos superficiais são marcados vida, uma opção que assumiram conscientemente para
pela baixa espontaneidade e intensa insegurança. São lidar com suas preocupações com a forma física, uma
freqüentes os sentimentos de solidão, isolamento, estratégia eficaz para a manutenção do peso.
incompreensão, desamparo e desesperança. Acho que é um jeito que arrumei de manter
Ando muito nervoso, as pessoas se afastam o meu peso, não acho que eu seja doente. (mascu-
de mim... Ou eu que me afasto das pessoas? (mas- lino, 17 anos, bulimia nervosa)
culino, 17 anos, bulimia nervosa)
Mudanças no discurso
Sentimentos de desamparo e solidão No decorrer do processo de avaliação psico-
Transpareceram no discurso dos pacientes sen- diagnóstica alguns pacientes apresentaram uma modi-
timentos de desamparo e solidão extrema, bem como ficação no discurso referente à sua percepção do ado-
a não-confiança na capacidade de compreensão do ecimento.
outro e a “sensação de ser diferente no mundo”. Eu nunca quis aceitar que tenho anorexia,
Eu sou diferente, às vezes me sinto como um queria pensar que era desnutrição. (feminino, 23
extraterrestre. (feminino, 25 anos, bulimia nervosa) anos, anorexia nervosa)
Alguns pacientes demonstraram ter uma cons-
ciência dolorosa acerca de seu empobrecimento afe- 5.4- Atitude frente ao tratamento
tivo, ressentindo-se da falta de uma bússola empática
para se orientar no mundo das relações afetivas. Negação da necessidade de tratamento
Eu me sinto muito sozinho no mundo... Às Eu fico ouvindo as moças (profissionais da
vezes acho que, se eu me matar, ninguém vai sentir equipe) falar e acho que ali não é o meu lugar... Tô
a minha falta. (masculino, 17 anos, bulimia nervosa) pegando vaga de quem precisa de verdade. (femi-
nino, 17 anos, bulimia nervosa)
5.3- O adoecimento Da mesma forma que negam – e até porque
negam – o próprio adoecimento, revelam uma atitude
Doença: ganho secundário de desvalorização e recusa do tratamento, incluindo a
Apareceu no discurso da maioria dos pacientes necessidade de participação na avaliação psicológica.
avaliados a questão do ganho secundário advindo do Venho para agradar a minha mãe. (feminino,
adoecimento, em especial a maior aproximação com 17 anos, anorexia nervosa)
os pais e a obtenção de um lugar de destaque na famí-
lia, ainda que pelo viés negativo. Mudanças no discurso
Antes eu achava que a minha mãe preferia Ao término do processo de avaliação psicodiag-
meu irmão, agora (depois do transtorno alimentar) nóstica, alguns pacientes já apresentam uma postura
inverteu... Sempre me defende. (feminino, 16 anos, mais reflexiva em relação ao adoecimento e ao trata-
bulimia nervosa) mento:
Os sintomas suscitam reações extremas e Às vezes eu acho que os outros estão lou-
paroxísticas, que oscilam desde a absoluta indulgên- cos... Depois penso que eu posso estar doente! Será
cia até uma rejeição escancarada por parte de alguns que posso pensar que TODOS estão mentindo para
familiares. mim? Nessas horas penso que preciso de ajuda.
Meus irmãos não acreditam que eu tenho (feminino, 30 anos, bulimia nervosa)
uma doença, acham que eu como escondido de
todos. Dizem que é tudo frescura, que eu faço isso 5.5- A Entrevista devolutiva
só pra chamar a atenção dos meus pais. (feminino, A entrevista devolutiva era um momento eleito
26 anos, anorexia nervosa) não só para fornecer as informações oriundas da

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Perfil psicológico de pacientes com anorexia e bulimia nervosas

avaliação e sugerir opções de encaminhamento – em consolidação da identidade pessoal. Em decorrência


geral para acompanhamento psicológico, como tam- da frágil estrutura egóica, em situações de maior vul-
bém um momento para efetuar uma espécie de “ba- nerabilidade psíquica os pacientes com transtornos
lanço” do trabalho de compreensão do psicodinamismo alimentares recorrem a movimentos regressivos, na
do paciente até então realizado. tentativa de se defenderem de vivências catastróficas
No decorrer desse encontro que marcava o de dispersão e perda dos limites da própria identidade.
desfecho do processo ficava evidente a mudança do Isso se manifesta na tenacidade com que tentam pre-
padrão de relacionamento estabelecido com a psicó- servar um padrão de relacionamento infantil com seus
loga-avaliadora. Inicialmente os pacientes coloca- pais, agarrando-se a vínculos simbióticos – uma fusão
vam-se de forma muito distanciada: Venho aqui por- eu-outro mortífera, que embaralha as fronteiras que
que a médica falou para eu vir, evoluindo para mo- definem a subjetividade – obstruindo os movimentos
mentos de maior proximidade psíquica que oportuni- expansivos que normalmente impulsionam o adoles-
zavam confidências: Sabe o que me aconteceu esta cente na rota do crescimento emocional.
semana? Encerrava-se o processo muitas vezes com Apesar do marcado comprometimento psíquico
um lamento, expressão de inusitada manifestação afe- detectado nos pacientes avaliados, durante o processo
tiva, provavelmente ativada pela sensibilidade à dor de avaliação psicodiagnóstica puderam ser observa-
do desligamento: Já acabou? Não podemos fazer das mudanças na forma como encaravam a doença e
mais coisas? Ou mesmo só conversar? lidavam com o tratamento. É bastante freqüente que
esses pacientes, no início do tratamento, acentuem
6- DISCUSSÃO uma tendência a negar a existência da doença, asso-
ciando o transtorno alimentar a um estilo de vida ex-
Os resultados da avaliação psicodiagnóstica cêntrico, porém válido, resultante de uma opção cons-
evidenciaram a preservação da capacidade intelectual ciente a qual eles alçaram de forma deliberada, após
– enquanto potencial, apesar da impossibilidade de uti- examinarem várias alternativas. Abraçados aos seus
lização eficiente de todos os recursos cognitivos-raci- sintomas sentem-se, inclusive, diferenciados da maio-
onais devido à invasão dos afetos, gerando acentuado ria dos mortais, uma vez que se consideram dotados
sentimento de ineficiência16. de um estilo peculiar de levar a vida. Conseqüente-
A avaliação dos aspectos emocionais, de uma mente, mostram-se em geral refratários ao tratamen-
forma geral, corroborou dados da literatura. O con- to ou, quando menos questionadores, apresentam uma
trole de impulsos dos pacientes é deficitário, podendo aderência superficial ao esquema terapêutico propos-
ocorrer episódios de auto e hetero agressividade, que to pela equipe.
colocam em risco tanto a própria integridade física Essa atitude de reserva em relação ao atendi-
como das pessoas do ambiente circundante. São pes- mento em geral reflete-se em uma atitude de descon-
soas com auto-estima rebaixada, que sofrem de in- fiança – que por vezes se traduz em manifestações de
tensa distorção da imagem corporal e sentimentos de franca hostilidade e explosividade no relacionamento
desesperança6. com algum profissional da equipe. Contudo, com a evo-
Essa configuração da organização afetiva, além lução do tratamento e o fortalecimento do vínculo com
de interferir no aproveitamento pleno dos recursos a equipe, tendem a reconhecer a necessidade de aten-
intelectuais, acaba prejudicando também a qualidade ção especializada, embora uma parcela de pacientes
dos relacionamentos interpessoais, que são temidos e ainda permaneça ambivalente em relação ao atendi-
marcados pelo desejo de aprovação e extrema inse- mento, guardando uma atitude defensiva de aparente
gurança16. indiferença e calculado distanciamento emocional.
Devido aos intensos conflitos psicológicos ex- Outro importante achado encontrado diz respeito
perimentados, o relacionamento com as figuras à capacidade de vinculação com a psicóloga e uma
parentais aparece permeado por marcada ambivalên- crescente aproximação e abertura a experiências de
cia emocional, prejudicando o processo de individuação intimidade emocional que foi ocorrendo ao longo do
e separação psicológica em relação aos pais, o que processo de avaliação, o que leva a refletir sobre a
remete às questões de autonomia versus independên- dificuldade – e não impossibilidade – de estabele-
cia2,16 como uma tarefa ainda não elaborada. A falta cimento de vínculos interpessoais. Na medida em que
de elaboração dos conflitos psíquicos vivenciados na a desconfiança foi abrandada e outras experiências
internalização das imagos parentais compromete a emocionais abriram caminho para que se criassem

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condições para um relacionamento amistoso, pôde-se prometimento psíquico dos pacientes portadores de
perceber uma maior permeabilidade aos afetos. O que transtornos alimentares. O perfil psicológico delinea-
sugere que esses pacientes podem se beneficiar de do pelas avaliações realizadas revela dificuldades não
um tipo de psicoterapia que favoreça o exame do es- apenas em termos de funcionamento dinâmico, como
tado emocional vivenciado no aqui-e-agora, possibili- também de estrutura psíquica. Por outro lado, a des-
tando assim uma experiência emocional corretiva. peito das limitações demonstradas no plano da organi-
zação psíquica dos pacientes com transtornos alimen-
7- CONCLUSÃO tares, os resultados evidenciaram também a possibili-
dade de vinculação e manutenção de laços afetivos,
A maior parte dos achados, vistos em seu con- sugerindo a necessidade de suporte psicoterapêutico
junto, fornecem suporte empírico à hipótese de com- propiciador de amadurecimento emocional.

Oliveira EA , Santos MA. Psychological profile of patients who suffer from anorexia nervosa and bulimia
nervosa: psychological assessment point of view. Medicina (Ribeirão Preto) 2006; 39 (3): 353-60.

ABSTRACT: The aim of this work is to present the psychological profile of patients who suffer
from anorexia nervosa and bulimia nervosa in order to provide information for intervention plan-
ning by the interdisciplinary team. 29 psychodiagnostic assessments were carried out with 24
women and 5 men. The used tools were projective techniques, intellectual level test, standardized
scales and clinical interview. The outcomes of this research were: denial of the illness and conse-
quently of the necessity of treatment stood out in the interviews. As to the outcome provided by the
others tools it was seen, by and large, that the intellectual resources are within the expected
average but some emotional disturbs of patients who suffer from eating disorders showed up,
despite the bond possibility, which proves the need of psychotherapeutically support.
Keywords: Anorexia Nervosa. Bulimia Nervosa. Psychological Assessment. Eating Disor-
ders.

REFERÊNCIAS 8 - Biklen S, Bogdan R. Investigação qualitativa em educação:


uma introdução à teoria e aos métodos. Porto: Porto Editora;
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