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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

PUC-SP

Carlos Augusto Teixeira Temperini

FAMÍLIAS CAMALEÃO:
ADAPTAÇÕES, MUDANÇAS E DESAFIOS DA
HOMOPARENTALIDADE

DOUTORADO EM PSICOLOGIA CLÍNICA

São Paulo
2018

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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
PUC-SP

Carlos Augusto Teixeira Temperini

FAMÍLIAS CAMALEÃO:
ADAPTAÇÕES, MUDANÇAS E DESAFIOS DA
HOMOPARENTALIDADE

DOUTORADO EM PSICOLOGIA CLÍNICA

Tese apresentada à Banca Examinadora da


Pontifícia Universidade Católica de São Paulo,
como exigência parcial para obtenção do título
de Doutor em Psicologia Clínica, sob a
orientação da Profa. Dra. Rosa Maria Stefanini
de Macedo

São Paulo
2018

1
Banca Examinadora:

Prof. Dr. Manoel Antonio dos Santos


Profa. Dra Marlene Bueno Zola
Prof. Dr. Salvador Sandoval
Prof. Dr. Plínio de Almeida Maciel Junior

Suplentes
Profa. Dra Ceneide Maria de Oliveira Cerveny
Profa. Dra Leda Fleury

2
Autorizo, exclusivamente para fins acadêmicos e científicos, a reprodução total ou
parcial desta tese, por processos de fotocopiadoras ou eletrônicos desde que
citada a fonte.

São Paulo, 24 de janeiro de 2018.

Assinatura:_________________________________________________
____

3
Dedico esta tese de doutorado ao meu pai
Marcio Tadeu Temperini que, ao longo da
minha infância, brincava com a seguinte frase:
“Eu dei nome composto nos meus filhos
para ter filho doutor...” Seu desejo se tornou
realidade.

4
“A improvável perspectiva de ser pai gay me
perturbava porque eu achava que ser criado por
um pai gay faria de meus filhos alvo de gozação.
Essa percepção escondia elementos de
homofobia internalizada, mas também era
coerente com a realidade social”

Andrew Solomon
5
Esta tese contou com o auxílio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de
Nível Superior - Capes - por meio de concessão da bolsa Capes.

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AGRADECIMENTOS

O percurso de uma tese é longo, cheio de altos e baixos, tem boas surpresas
e também desilusões. É um processo longo de crescimento intelectual e emocional.
“Ser doutor” só se justifica se for em ato, afinal, reconheço a importância das teorias,
mas elas não dão conta da complexidade do humano e tampouco da teia social.
Reconheço que uma jornada como essa não pode ser feita sozinho. Um
processo de doutoramento é extenso, reflexivo, cheio de dúvidas e angústias, mas
também recheado de aprendizados.
Nessa jornada conheci gente nova, reencontrei outras, morei nos Estados
Unidos por 12 meses e pude estudar em uma Universidade Americana. Conheci outra
cultura e me aventurei por novos caminhos. Me divorciei, me reencontrei comigo
mesmo e com partes que haviam sido adormecidas. Andei 650 quilômetros no
Caminho de Santiago e estudei, estudei, estudei e trabalhei mais ainda.
Nesse período, foi preciso mergulhar nas minhas vulnerabilidades e
compreender que ao final, elas me ajudaram a consertar a rota e me tornaram um ser
humano melhor. Além disso, foi preciso perdoar a mim mesmo e ser mais generoso.
Apesar do longo caminho que percorri até aqui, sem sombra de dúvidas, ele
só foi possível pela companhia, carinho e apoio de muitas pessoas. Recebam todos
os meus sinceros agradecimentos:
A minha mãe Marcia Teixeira Temperini, por demonstrar seu amor
incondicional em todos os momentos da minha vida. Você me trouxe ao mundo e me
deu simplesmente o melhor, o seu amor. Te amo eternamente!
O meu pai Marcio Tadeu Temperini que me ofereceu o seu olhar de desejo,
por acreditar e apoiar as minhas potencialidades e sempre querer mais para mim. Te
amo.
Os meus familiares por todo o apoio. Obrigado Paulina, Caio, Jaici, Taís,
Eduardo, Rita, Marcio Junior, Margarete, Marisa, Bruno, Marcela, Breno, Maya,
Manuela, Cida, Valfredo, Ivy, Anderson, Luiza e Vinícius pela compreensão das
minhas ausências e todo o carinho recebido.
A minha orientadora Rosa Maria Stefanini de Macedo que me orientou e me
deu um exemplo a ser seguido. Você é pura inspiração! Obrigado!

7
A minha co-orientadora da Seattle University - Dra. Jodi O’Brien por me
acolher nos Estados Unidos e generosamente me orientar com carinho e dedicação.
A minha amiga Julieta Al Makul Durce por me oferecer a verdade, acalentar a
minha alma e regar diariamente as flores do meu jardim.
A minha terapeuta Lorene Soares por me reconhecer, me incentivar, me
escutar atentamente e me oferecer novas possibilidades de ver e viver a vida.
Os anjos que ajudaram diretamente na produção dessa tese: Silvia Ribeiro,
Gustavo Thron, Maryan Madi, Tatiane Camargo, Aline Taconelli e Aline Ribeiro.
Os meus amigos da “tribo”, Brites, Tatí, Adriana, Acácio, Luciana e Flávio
pelos inúmeros encontros, pela conexão espiritual e pelo aprendizado contínuo.
As famílias homoparentais que participaram diretamente dessa pesquisa e
generosamente abriram, não somente as portas de suas casas, mas de suas vidas
para que essa pesquisa fosse feita.
As minhas amigas Cintia Alves, Viviane Leite e Laís Farhat por me
acompanhar na jornada da vida.
Aos professores que gentilmente aceitaram participar das bancas de
qualificação e defesa dessa tese: Dr. Plínio Maciel Junior, Dr. Marcio Stefanini de
Sant’Anna, Dr. Manoel Antonio dos Santos, Dra. Marlene Bueno Zola, Dr. Salvador
Sandoval, Dra Leda Fleury e Dra Ceneide Cerveny.
O Paulo Fochi pela presença, por acreditar em mim, por acalentar o meu
coração e me oferecer a verdade. Sua generosidade e ajuda fizeram toda a diferença
na conclusão dessa tese. Obrigado!
Os amigos Benne Catanante e Miguel Filiage por toda a generosidade e pela
abertura das portas da Casa das Bênçãos que me deu muitas possibilidades de
meditação e compreensão desse processo de doutoramento.
A Capes pela concessão das bolsas de estudo e bolsa sanduíche para que
eu pudesse chegar até aqui.
A partir daqui, que seja o fechamento de um capítulo da minha vida e que
tantos outros sejam iniciados.

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TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira. Famílias camaleão: adaptações, mudanças
e desafios da homoparentalidade. Tese (Doutorado em Psicologia Clínica).
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2018.

RESUMO
Nesta tese, objetiva-se descrever e analisar conteúdos e discursos acerca da
homoparentalidade masculina, em contexto brasileiro e americano, a fim de
compreender as configurações, vivências e experiências dessas famílias. O
arcabouço teórico foi construído à luz das teorias de John Bowlby, Donald Winnicott
e Elisabeth Badinter, para discutir a importância dos cuidados e da função parental no
desenvolvimento de bebês e crianças, além de trazer uma reflexão acerca do “mito
do amor materno” e de seu impacto na vivência da homoparentalidade. A trama
metodológica que se constituiu envolveu uma parte quantitativa e outra qualitativa.
Parte da coleta dos dados foi realizada no Brasil e outra nos Estados Unidos. Para
tratamento dos dados quantitativos, utilizou-se a análise estatística e para a pesquisa
qualitativa utilizou-se a Grounded Theory. A amostra do estudo foi coletada em três
etapas: (i) coleta da opinião pública, através de questionário online acerca do
casamento homoafetivo, da família homoparental e do desenvolvimento dos filhos; (ii)
coleta da percepção de famílias homoparentais através de entrevista estruturada
fechada e (iii) coleta da percepção de famílias homoparentais através de entrevista
aberta com profundidade. Participaram da pesquisa quantitativa 1.055 brasileiros e
180 americanos. Já na pesquisa qualitativa participaram 9 famílias homoparentais
americanas e 11 famílias homoparentais brasileiras. Observou-se, através dos dados
quantitativos, tanto no contexto americano, quanto no contexto brasileiro, que a família
homoparental, na percepção dos participantes, apresenta baixa aceitação social.
Esses resultados camuflam o preconceito e a discriminação de uma parcela dos
participantes que se auto-intitulam a favor da diversidade, mas que culpabilizam a
sociedade pela dificuldade de aceitação dessas famílias. O cruzamento dos dados
(qualitativos e quantitativos) abriu portas para a compreensão do funcionamento
dinâmico da homoparentalidade que foi denominado Famílias Camaleão: adaptações,
mudanças e desafios da homoparentalidade. Descobriu-se que há um funcionamento
permeado por processos múltiplos e dinâmicos, abastecidos por experiências
psicológicas, inter-relacionadas e vivenciadas pelas famílias homoparentais,
caracterizada por estágios e fases que requerem adaptações, mudanças e desafios
constantes. Essas famílias comumente se adaptam e mudam, porque querem ter o
direito de ser família, de endereçar o amor sem julgamentos, de construir seus lares
e de ter filhos. Querem ocupar os espaços sociais sem os questionamentos sobre a
capacidade parental, sobre a mãe da criança e sobre a necessidade de ter a presença
de uma mulher para que a criança se desenvolva. Querem gozar e usufruir de direitos
que garantam liberdade, igualdade e equidade. Querem uma sociedade mais justa,
para não ter que investir demasiadamente na proteção de seus filhos.

PALAVRAS-CHAVE: família homoparental, homoparentalidade, famílias camaleão,


grounded theory.

9
ABSTRACT

The aim of this study is to describe and analyze contents and discourses about gay
families in the Brazilian and American context in order to understand their
arrangements and experiences. The theory structure was based on John Bowlby,
Donald Winnicott and Elisabeth Badinter’s studies to discuss the parenthood
importance in infant and child development as well as a reflection on “the myth of
motherhood" and its impact on gay parenting experiences. The methodology was
structured involving both quantitative and qualitative methods. Part of the data
collection was carried out in Brazil and the other part the United States of America. For
the treatment of quantitative data, we used statistical analysis, and for qualitative
research, we used the Grounded Theory. The sample of this study was collected in
three stages: (i) gathering public opinion through an online questionnaire about same-
sex marriage, gay families and child development; (ii) gathering the perception of gay
families through a closed-interview questions and (iii) gathering the perception of gay
families through an in-depth and open-ended interview. The samples of quantitative
research were compounded by 1,055 Brazilians and 180 Americans. The qualitative
research sample was compounded by 9 American gay families and 11 Brazilian gay
families. It was observed in the American and Brazilian context that gay families, in the
perception of the participants, have little social acceptance. These results camouflage
the prejudice and discrimination of some of the participants who are self-entitled in
favor of diversity, but who blame society for the difficulty of acceptance of those
families. The (qualitative and quantitative) data crossing opened the door to
understanding the dynamic functioning of gay families, which were called the
Chameleon Families: adaptations, changes and challenges of gay families. It has been
found that there is a functioning permeated by multiple and dynamic processes, fueled
by psychological experiences, interrelated and lived by gay families, characterized by
stages that require adaptations, changes and constant challenges. Those families
commonly adapt and change because they want to have the right to be a family, to
display love without being judged, to build their homes and to have children. They want
to occupy social spaces without questions about parental capacity, about the child's
mother, and the feeling that every child needs to have a woman present to guarantee
their safe development. They want to claim their rights for freedom, equality and equity.
They want social justice, so they do not have to invest too much in their children’s
protection.

KEY WORDS: gay family, gay parenthood, chameleon families, grounded theory.

10
LISTA DE FIGURAS

Figura 1 – Família patriarcal


Figura 2 – Novas famílias
Figura 3 – Famílias
Figura 4 – Casamento homoafetivo
Figura 5 – Idade média / casamento homoafetivo
Figura 6 – Mapa do casamento homoafetivo no Brasil
Figura 7 – Banco de periódicos e artigos Scielo,
Figura 8 –Banco de teses e dissertações da CAPES
Figura 9 – Estratégia inicial da Pesquisa
Figura 10 – Projeto sequencial explanatório
Figura 11 – Nova estratégia da Pesquisa
Figura 12 – Questionário eletrônico de opinião pública utilizado no Brasil
Figura 13 – Questionário eletrônico de opinião pública utilizado nos EUA
Figura 14 – Cartaz de chamada de pesquisa nos Estados Unidos
Figura 15 – Cartaz de chamada de pesquisa no Brasil
Figura 16 – Wordcloud – Favoráveis Brasil
Figura 17 – Wordcloud – Favoráveis EUA
Figura 18 – Wordcloud – Desfavoráveis Brasil
Figura 19 – Wordcloud – Desfavoráveis EUA
Figura 20 – Exemplo de análise utilizando software Nvivo
Figura 21 – Exemplo de “Memos” dentro do software Nvivo
Figura 22 – Exemplo de mapa de eixos (NVIVO)
Figura 23 – Ciclo de Vida - Famílias Camaleão
Figura 24 – Primeiro Estágio: Homossexualidade e Homofobia
Figura 25– Segundo Estágio: Eu e você, você e eu (casamento homossexual)
Figura 26 – Terceiro Estágio: Funções Parentais e o Desenvolvimento dos Filhos
Figura 27 – As fases do vínculo seguro

LISTA DE GRÁFICOS

Gráfico 1 – Teses e Dissertações (homoparentalidade) por área – CAPES

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LISTA DE QUADROS

Quadro 1 – Pesquisas referentes ao tema homoparentalidade (Scielo)


Quadro 2 – Quadro de dissertações
Quadro 3 – Quadro de teses
Quadro 4 – Questões elaboradas para coleta de dados
Quadro 5 – Dados das entrevistas – amostra americana
Quadro 6 – Entrevista aberta
Quadro 7 – Dados das entrevistas – amostra brasileira
Quadro 8 – Remoção das duplicatas
Quadro 9 – Remoção das duplicatas
Quadro 10 – Remoção das duplicatas
Quadro 11 – Remoção das duplicatas
Quadro 12 – Remoção das duplicatas (EUA)
Quadro 13 – Tema central e eixos temáticos
Quadro 14 – Técnicas para análise dos dados
Quadro 15 – Exemplo de microanálise
Quadro 16 – Exemplos de textos codificados
Quadro 17 – Exemplos de textos codificados
Quadro 18 – Exemplo de construção de categorias
Quadro 19 – Estágio, tema e fenômeno
Quadro 20 – Fenômeno: Buscando novos caminhos com velhas memórias
Quadro 21 – Fenômeno: Vivendo as faces da homofobia internalizada
Quadro 22 – Fenômeno: Reconhecendo o preconceito que mora lá fora
Quadro 23 – Fenômeno: Oprimir e repetir o opressor
Quadro 24 – Fenômeno: Movendo-se para se afirmar como família
Quadro 25 – Segundo estágio, tema e fenômeno
Quadro 26 – Fenômeno: reivindicando o direito de existir como família
Quadro 27 – Fenômeno: casando para “poder” se realizar no mundo
Quadro 28 – Fenômeno: fortalecendo para aumentar a família
Quadro 29 – Estágio, tema e fenômeno
Quadro 30 – Fenômeno: Facilitando e dificultando a adoção
Quadro 31 – Fenômeno: Justificando para amenizar a culpa
Quadro 32 – Fenômeno: Escolhendo bebês e crianças pequenas
12
Quadro 33 – Fenômeno: Adaptando o tempo interno e o externo
Quadro 34 – Fenômeno: Descontruindo para realizar
Quadro 35 – Fenômeno: Ocupando um novo lugar na vida
Quadro 36 – Estágio, tema e fenômeno
Quadro 37 – Fenômeno: Desconstruindo e construindo modelos parentais
Quadro 38 – Fenômeno: Tornando-se pai
Quadro 39 – Fenômeno: Aprendendo a cuidar e ser cuidador
Quadro 40 – Fenômeno: Mudando a dinâmica da família
Quadro 41 – Estágio, tema e fenômeno
Quadro 42 – Fenômeno: Sustentando a adoção
Quadro 43 – Fenômeno: Construindo o vínculo
Quadro 44 – Fenômeno: Proporcionando o apego seguro
Quadro 45 – Fenômeno: Assumindo o cuidado entre o igual e o diferente
Quadro 46 – Fenômeno: Chegando mais um filho(a)
Quadro 47 – Estágio, tema e fenômeno
Quadro 48 – Fenômeno: Cuidando da educação dos filhos
Quadro 49 – Fenômeno: Alternando entre incluir e excluir a homoparentalidade
Quadro 50 – Fenômeno: Ensinando a exclusão
Quadro 51 – Fenômeno: Experimentando o preconceito dentro da escola
Quadro 52 – Fenômeno: Supervalorizando para se defender
Quadro 53 – Fenômeno: Falando sobre as diferenças dentro de casa

LISTA DE TABELAS

Tabela 1 – Amostra da pesquisa


Tabela 2 – Validação dos Dados Demográficos
Tabela 3 – Validação dos Dados – Casamento Homoafetivo
Tabela 4 – Validação dos Dados – Família Homoparental
Tabela 5 – Validação dos Dados – Desenvolvimento Emocional da Criança
Tabela 6 – Análise geral da pesquisa quantitativa
Tabela 7 – Análise Demográfica – Faixa etária
Tabela 8 – Análise Demográfica – Escolaridade
Tabela 9 – Análise Demográfica – Sexo
Tabela 10 – Análise Demográfica – Estado Civil
13
Tabela 11 – Análise Demográfica – Orientação Sexual
Tabela 12 – Análise Demográfica – Região
Tabela 13 – Análise Demográfica – Estado
Tabela 14 – Análise Demográfica – Religião
Tabela 15 – Análise Demográfica – Renda Familiar
Tabela 16 – Análise Demográfica – Filhos
Tabela 17 – Análise Demográfica – Profissão
Tabela 18 – Análise Demográfica – Profissão II
Tabela 19 – Análise Demográfica (Orientação Sexual + Idade)
Tabela 20 – Análise Demográfica (Orientação Sexual + Escolaridade)
Tabela 21 – Análise Demográfica (Orientação Sexual + Sexo)
Tabela 22– Análise Demográfica (Orientação Sexual + Estado Civil)
Tabela 23 – Análise Demográfica (Orientação Sexual + Região)
Tabela 24 – Análise Demográfica (Orientação Sexual + Religião1)
Tabela 25 – Análise Demográfica (Orientação Sexual + Religião2)
Tabela 26 – Análise Demográfica (Orientação Sexual + Renda Familiar)
Tabela 27 – Análise Demográfica (Orientação Sexual + Filhos)
Tabela 28 – Análise Demográfica (Orientação Sexual + Filhos)
Tabela 29 – Análise Demográfica (Orientação Sexual + Profissão)
Tabela 30 – Análise Demográfica (Orientação Sexual + Profissão)
Tabela 31 – Análise Demográfica (Orientação Sexual + Profissão)
Tabela 32 – Análise Demográfica (Orientação Sexual + Profissão)
Tabela 33 – Validação dos Dados Demográficos (EUA)
Tabela 34 – Validação dos Dados - Casamento Homoafetivo (EUA)
Tabela 35 – Validação dos Dados – Família Homoparental (EUA)
Tabela 36 – Validação dos Dados – Desenvolvimento Emocional da criança
(EUA)
Tabela 37 – Análise geral da pesquisa quantitativa (EUA)
Tabela 38 – Análise Demográfica – Faixa Etária (EUA)
Tabela 39 – Análise Demográfica - Escolaridade (EUA)
Tabela 40 – Análise Demográfica - Sexo (EUA)
Tabela 41 – Análise Demográfica – Estado civil (EUA)
Tabela 42 – Análise Demográfica – Orientação Sexual (EUA)
Tabela 43 – Análise Demográfica - Região (EUA)
14
Tabela 44 – Análise Demográfica - Estado (EUA)
Tabela 45 – Análise Demográfica - Religião (EUA)
Tabela 46 – Análise Demográfica – Renda Familiar (EUA)
Tabela 47 – Análise Demográfica - Filhos (EUA)
Tabela 48 – Análise Demográfica – Profissão I (EUA)
Tabela 49 – Análise Demográfica – Profissão II (EUA)
Tabela 50 – Análise Demográfica – (Orientação Sexual + Sexo) (EUA)
Tabela 51 – Análise demográfica – (Orientação Sexual + Estado Civil) (EUA)
Tabela 52 – Análise demográfica – (Orientação Sexual + Religião) (EUA)
Tabela 53 – Análise demográfica – (Orientação Sexual + Filhos) (EUA)
Tabela 54 – Média geral dos índices - Brasil versus Estados Unidos
Tabela 55 – Faixa etária - Brasil versus Estados Unidos
Tabela 56 – Escolaridade - Brasil versus Estados Unidos
Tabela 57 – Sexo - Brasil versus Estados Unidos
Tabela 58 – Estado Civil - Brasil versus Estados Unidos
Tabela 59 – Orientação sexual - Brasil versus Estados Unidos
Tabela 60 – Estado - Brasil versus Estados Unidos
Tabela 61 – Estado II - Brasil versus Estados Unidos
Tabela 62 – Religião - Brasil versus Estados Unidos
Tabela 63 – Religião II - Brasil versus Estados Unidos
Tabela 64 – Renda familiar – Brasil versus Estados Unidos
Tabela 65 – Filhos – Brasil versus Estados Unidos
Tabela 66 – Filhos II – Brasil versus Estados Unidos
Tabela 67 – Profissão – Brasil versus Estados Unidos (EUA)
Tabela 68 – Profissão II – Brasil versus Estados Unidos
Tabela 69 – Opiniões e comentários da mostra brasileira
Tabela 70 – Opiniões e comentários da mostra americana
Tabela 71 – Quantidade de dados qualitativos

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 18
Construção do Objeto............................................................................................ 20
1. TEORIAS ............................................................................................................. 24
1.1 A epistemologia Winnicottiana e a teoria do Apego de John Bowlby .............. 24
1.2 Fundamentos da teoria Winnicottiana ............................................................. 25
1.3 Fundamentos da teoria do Apego ................................................................... 35
1.4 O mito do amor materno e sua complexidade ................................................ 43
1.4.1 A concepção de instinto materno e as teorias de Bowlby e Winnicott ...... 56
2. FAMÍLIA ............................................................................................................... 60
2.1 A estrutura familiar na era Moderna e Pós-Moderna ...................................... 75
2.2 Família homoparental ..................................................................................... 84
3. ADOÇÃO DE CRIANÇAS .................................................................................. 105
3.1 Breve histórico ............................................................................................... 105
3.2 A adoção homoparental................................................................................. 115
3.2.1 Os estudos acerca da adoção e da adoção homoparental ..................... 120
3.3 A parentalidade homoafetiva ......................................................................... 122
3.4 Homoparentalidade: o que dizem os estudos sobre os filhos (as) ? ............ 127
4. METODOLOGIA DA PESQUISA ....................................................................... 130
4.1 Minha escolha metodológica ......................................................................... 130
4.1.1 Coleta de dados em métodos mistos ...................................................... 133
4.1.1.1 Coleta de dados da pesquisa quantitativa ........................................... 134
4.1.1.2 Coleta de dados da pesquisa qualitativa.............................................. 137
5. DISCUSSÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS................................................. 145
5.1 Procedimentos - Análise Quantitativa............................................................ 145
5.1.1 Preparação dos dados brasileiros........................................................... 146
5.1.2 Exploração dos dados brasileiros ........................................................... 148
5.1.3 Análise dos dados quantitativos brasileiros ............................................ 151
5.1.4 Preparação dos Dados Americanos........................................................ 168
5.1.5 Análise dos dados quantitativos americanos .......................................... 171
5.1.6 Análise comparativa dos dados Brasileiros versus Americanos ............. 179
5.2 Procedimentos - Análise Qualitativa .............................................................. 188
5.2.1 Você considera que o casamento gay é igual aos demais? Por quê? ... 190
5.2.2 A sua família já sofreu algum preconceito / discriminação vindo da
sociedade?....................................................................................................... 190
5.2.3 Na sua experiência você considera que a orientação sexual dos pais afeta
o desenvolvimento emocional da criança? ...................................................... 191
5.2.4 Você faz alguma coisa diferente em relação aos cuidados / educação dos
seus filhos(as)? ................................................................................................ 191
5.3 A teoria fundamentada nos dados (Grounded Theory) ................................ 192
5.3.1 Compreendendo a perspectiva histórica da Grounded Theory .............. 192

16
5.3.2 A escolha da Grounded Theory ............................................................. 193
5.3.3 A análise dos dados na Grounded Theory ............................................. 195
5.3.3.1 O interacionismo simbólico na análise dos dados qualitativos............. 195
5.3.4 Codificação dos dados ........................................................................... 201
5.3.5 Construindo categorias .......................................................................... 204
5.3.6 Codificando seletivamente ..................................................................... 205
6. FAMÍLIAS CAMALEÃO: ADAPTAÇÕES, MUDANÇAS E DESAFIOS DA
HOMOPARENTALIDADE ....................................................................................... 207
6.1 Estágio um: Homossexualidade e homofobia................................................ 209
6.2 Estágio dois: Eu e você, você e eu (casamento homoafetivo) ...................... 221
6.3 Estágio três: Funções parentais e o desenvolvimento dos filhos ................. 229
6.4 Revisitando o Ciclo das Famílias Camaleão ................................................. 274
CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................................... 280

REFERÊNCIAS ...................................................................................................... 284

LEIS CONSULTADAS ............................................................................................ 313

APÊNDICE A - Questionário Online: Pesquisa de Opinião / Versão Inglês ............ 315

APÊNDICE B - Questionário Online: Pesquisa de Opinião / Versão Português ..... 324

APENDICE C - Termo de Consentimento Livre e Esclarecido ............................... 332

APÊNDICE D - Consentimento Pós-Informado ...................................................... 334

APÊNDICE E - Termo de Assentimento Livre e Esclarecido para adolescentes com


12 anos completos, maiores de 12 anos e menores de 18 anos ............................ 335

APENDICE F - Planejamento da pesquisa no Brasil e Estados Unidos ................ 337

APÊNCICE G – Análise de conteúdo...................................................................... 339

ANEXO A – Informações do Cadastro Nacional de Adoção ................................... 341

17
INTRODUÇÃO

O objetivo desta tese é descrever e analisar conteúdos e discursos acerca da


homoparentalidade e do desenvolvimento das crianças, captados no contato com
famílias homoparentais, compostas por pais gays, a fim de compreender as
configurações, vivências e experiências sobre essas famílias.
O projeto compartilha da linha de pesquisa do Programa de Estudos Pós-
Graduados em Psicologia Clínica, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo –
PUC-SP, do núcleo de Família e Comunidade, sob a orientação e coordenação da
Doutora Rosa Maria Stefanini de Macedo.
O interesse pelo tema família homoparental surgiu durante um curso de pós-
graduação Lato Sensu, na Universidade Presbiteriana Mackenzie, quando se
pesquisava sobre o tema homossexualidade. Como método de pesquisa, foram
utilizados grupos focais com homossexuais masculinos que debateram sobre diversas
temáticas, dentre elas, questões acerca da família homoparental. Como continuidade
desse processo, me propus a buscar maior profundidade no Programa de Estudos
Pós-Graduados em Psicologia Social (mestrado) na Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo, desenvolvendo uma pesquisa sobre adoção homoparental e infância:
uma análise da mídia. Os resultados obtidos me intrigaram acerca da questão do
desenvolvimento infantil dos filhos de casais homoafetivos e dessa relação entre pais
/ mães e seus respectivos filhos (as).
Embora tenha havido um aumento da visibilidade pública quanto ao tema
“família homoparental”, não temos identificado discursos que também possam integrar
a participação das crianças que se desenvolvem nessas famílias (TEMPERINI, 2012).
Com o interesse em aprofundar as discussões em um plano acadêmico e a
preocupação com a construção de sustentação científica acerca da participação das
crianças nesse processo, busquei a continuidade em curso de pós-graduação - Stricto
Sensu, como um espaço de referência para a discussão do tema. Isto porque tenho
me preocupado com a participação da comunidade científica brasileira na construção
de pesquisas sobre a família homoparental. Entende-se que os problemas que são
delimitados para ocupar a agenda acadêmica adentram tanto a esfera pública como
privada; nesse processo, o curso de pós-graduação assume grande importância, pois
atua tanto como participante no processo de pesquisa como ator na teia social.

18
Apesar de definirmos um método de pesquisa (Grounded Theory), que
convoca o conteúdo da pesquisa a partir do contato com os fenômenos investigados,
partimos da seguinte pergunta de pesquisa: como o vínculo estabelecido na
relação pais e filhos da família homoparental contribui para o desenvolvimento
emocional das crianças? Ou seja, focalizamos a construção dessas relações a partir
de discursos proferidos por pais, captados nas interações entre pesquisador e
pesquisados. Além de trazer a discussão das relações entre pais e filhos nas “novas
configurações familiares” para o campo acadêmico, também pretendíamos estudar
características emocionais dos filhos por meio de testes projetivos apropriados para
tal fim. Uma outra pergunta norteadora para a pesquisa se deu ao questionarmos a
implicação de gênero nessas relações / cuidado de filhos.
No primeiro capítulo, explanamos sobre os principais aportes teóricos sobre a
Psicologia do Desenvolvimento. Em seguida, apresentamos a articulação da teoria do
vínculo de John Bowlby e do desenvolvimento emocional infantil de Donald Winnicott.
Além disso, optamos por contextualizar os estudos de Elisabeth Badinter sobre o mito
do amor materno.
No segundo capítulo, apresentamos o contexto sócio histórico das
configurações familiares, a homoparentalidade e família, desde a emergência de um
novo modelo familiar (homoparental) até a evolução do olhar do objeto, através de
levantamento das produções desse campo de estudo e as principais questões daí
advindas.
No terceiro capítulo optamos por contextualizar o campo da adoção de
crianças e fizemos um levantamento sobre as famílias homoparentais e seus filhos.
No quarto capítulo, apresentamos a metodologia da pesquisa, a análise formal
dos dados, ou seja, a descrição dos procedimentos para a coleta e análise dos dados
que compõem o corpus da análise da pesquisa. Já no quinto capítulo, será
apresentada a análise e discussão dos resultados da pesquisa quantitativa e
qualitativa.
Consideramos o sexto capítulo a maior contribuição para o campo, pois é nele
que apresentaremos a construção da teoria pela qual denominei Famílias Camaleão:
adaptações, mudanças e desafios da homoparentalidade. Lá apresentaremos o ciclo
de vida das famílias camaleão e suas fases e estágios.

19
Um orientador para a leitura desta tese é de que parto do pressuposto de que
“todas as estrelas cabem no céu, ou seja, nenhuma fica fora dele”1, isso significa que
reconheço o papel de todas as teorias psicológicas, sociais, entre outras, porém, nesta
tese de doutorado escolhi algumas que corroboram com a minha forma de ver o
mundo.

Construção do Objeto

Na construção do objeto desta investigação, foi preciso atentar para quatro


aspectos: a terminologia utilizada; o tratamento dado pela Psicologia ao tema família
homoparental; o tratamento dado à importância do vínculo no desenvolvimento
infantil; as pesquisas envolvendo filhos no contexto da homoparentalidade.
A questão da terminologia se reflete essencialmente no uso do termo
homoparentalidade. Qual o debate que seu uso vem suscitando na produção
acadêmica?
O termo “homoparentalidade” é um neologismo, criado em 1997 pela
Associação de Pais e Futuros Pais Gays e Lésbicas (APGL), em Paris, a fim de
nomear a situação na qual pelo menos um adulto, que se autodesigna homossexual,
é ou pretende ser pai ou mãe de, no mínimo, uma criança ou adolescente (GROSS,
2003).
Optou-se pelo termo homoparentalidade, somente considerado nos
dicionários de língua portuguesa recentemente. Assim, uma busca na base de dados
“Google”, no dia 15 de outubro de 2017, usando o termo “Homoparental”, indicou a
presença de 195.000 entradas; “Homoparentalidade” indicou a presença de 20.100
entradas e “Homoparentalité” (francês), a presença de 251.000 entradas.
Para Roudinesco (2003), o termo homoparentalidade não é muito utilizado
nos países de língua inglesa, que preferem os termos “lesbian and gay families” ou
“lesbian and gay parenthhood”.
Outras expressões para designar o título e o objeto da tese foram rejeitadas,
pois elas geram armadilhas como, por exemplo: “parceiros homossexuais”, que
implica a identificação/designação como homossexual, deveria se estender a ambas
as pessoas que configuram a relação de paternidade/maternidade; ora, conforme

1
Mencionado por Julieta Al Makul Durce em uma discussão sobre as teorias da Psicologia.

20
Gross (2003), o adjetivo “homoparental” qualifica todas as situações familiares nas
quais pelo menos um adulto que se auto declara homossexual é pai/mãe de pelo
menos uma criança.
Para Farias e Maia (2009), o termo homoparentalidade diz respeito à
capacidade de pessoas, com orientação sexual homossexual, exercerem a
“paternagem e maternagem”, ou seja, de oferecerem cuidado e proteção. Embora haja
certa incoerência ao se falar de homoparentalidade, no sentido de associar a
sexualidade à função parental, utiliza-se essa expressão, uma vez que o cuidado e
proteção oferecidos por homossexuais ainda gera muita dúvida, temor e estigma.

Embora haja certa incoerência ao se falar de homoparentalidade, no sentido


de associar a sexualidade à função parental, usa-se essa expressão uma vez
que o tema da maternidade ou paternidade, exercida por pessoas do mesmo
sexo, ainda gera muita dúvida, temores e polêmica. A pessoa com orientação
sexual homossexual, ainda hoje, parece enfrentar forte estereótipo de pessoa
desajustada... A sociedade em geral apresenta muita dificuldade em aceitar
que uma pessoa homossexual cuide de uma criança. O preconceito e a falta
de informação talvez interfiram nessas posições contrárias (FARIAS e MAIA,
2009, p. 68).

Como um dos resultados encontrados em minha pesquisa de mestrado, pode-


se considerar que a temática da família homoparental foi apresentada pelo jornal
Folha de S. Paulo como um problema. Esse discurso utiliza, como fundamento, fontes
ligadas principalmente à área do Direito, o que atribui ao tema o caráter de proibição
/ ilegalidade. Assim, a Folha de S. Paulo frequentemente apresentou a família
homoparental ora como um problema da lei ora como um problema para o
desenvolvimento da criança ou da capacidade parental dos pais / mães, contribuindo
para a perpetuação de preconceito e discriminação (TEMPERINI, 2012).
Zambrano (2008) adota a mesma perspectiva, quando descreve que a
utilização do termo homoparentalidade em sua pesquisa enfrentou alguns problemas
iniciais. Houve uma série de questionamentos, já que o conceito homoparentalidade
acentua a “orientação sexual” dos pais e a associa ao cuidado dos filhos
(parentalidade). Alguns estudos internacionais sobre homoparentalidade se propõem
a desfazer essa associação, mostrando a capacidade ou não de homens e mulheres
homossexuais cuidarem de seus filhos, assim como os heterossexuais. Esses estudos
mostram que a qualidade do cuidar e do relacionamento com os filhos depende da
disposição para tal e não da orientação sexual.

21
Voltando ao emprego do termo homoparentalidade, ele se justifica pela
necessidade de colocá-lo em evidência, a fim de expandir cada vez mais e torná-lo
mais presente na contemporaneidade. Fato é que no contexto brasileiro ainda não
temos um número reduzido de pesquisas direcionadas para a criança / filhos(as) de
famílias homoparentais, o que justifica a urgência desta pesquisa de doutorado.
Segundo Grossi (2003), é evidente que o tema homoparentalidade apresente
implicações políticas na conquista pela cidadania por um grupo de pessoas - grupo
significativo da população brasileira - que se reconhece como homossexual. Esse
reconhecimento dos indivíduos diz respeito ao ethos de indivíduos da modernidade e
não a práticas sexuais entre pessoas do mesmo sexo. Ademais, de acordo Mello
(2005), a discussão da homoparentalidade implica diretamente na expressão da
diversidade da instituição social família, além de explicitar a falta de apoio jurídico
relativo aos direitos conjugais e parentais de homens e mulheres reconhecidos como
homossexuais na sua condição de cidadãos.
Para Gross (2003), o termo homoparental reagrupa uma multiplicidade de
situações. Nomear e reagrupar estas situações é indispensável para as produções
estatísticas dos institutos demográficos. A rápida difusão do termo homoparentalidade
confirma a razão de nomear essa realidade social. A emergência da questão da
homoparentalidade situa-se no cruzamento entre a evolução do olhar sobre a
homossexualidade e a transformação do olhar social para as questões sobre a família.
Ao nomear uma nova concepção de família, que antes não existia, permite-se
que ela ganhe uma existência discursiva, além da indicação de uma nova realidade.
Dessa forma, abrem-se possibilidades de sua problematização e uma discussão
através de novos estudos (ZAMBRANO, 2008).
Utilizar um nome próprio para as famílias compostas por casais do mesmo
sexo - homoparentalidade, ainda traduz um binarismo entre pertencer a isto ou
pertencer àquilo, resquícios de uma sociedade heteronormativa. A associação da
orientação sexual dos pais com a parentalidade ainda apresenta um risco de criar uma
categoria específica para esse público e fazer a manutenção da exclusão. Portanto, a
criação desse neologismo ainda carrega em si o binarismo (heterossexualidade x
homossexualidade), reservando um lugar diferenciado para os pais / mães
homossexuais (VILHENA et al, 2011). Fato é que não se encontrou outro termo que
pudesse auxiliar na visibilidade dessas famílias, a fim de ajudá-las na luta por um

22
espaço social. Portanto, optou-se por manter esse neologismo para dar maior
visibilidade pública e social.
Garcia et al (2007, p. 278) defendem a utilização do termo
heteroparentalidade com o objetivo de desnaturalizar a parentalidade, “mostrando que
também a paternidade e a maternidade heterossexual devem ser consideradas como
algo a ser problematizado”. Portanto, corroborando com o pensamento dos autores,
neste texto optamos pela utilização dos termos heteroparentalidade e
homoparentalidade.
No que se refere ao desenvolvimento infantil da criança em famílias
homoparentais, existe uma ausência de pesquisas no contexto brasileiro. Tem-se
privilegiado mais as questões dos adultos do que das crianças. Já, no cenário
internacional, temos maior investimento no debate e pesquisas que incluem a
criança(s) – filhos(as) de famílias homoparentais.
Com base no último levantamento, feito por Vecho e Schneider (2005), temos
28 pesquisas em todo o mundo que focalizam a criança / filhos(as) de casais do
mesmo sexo. A maior concentração de pesquisas acerca desse tema foi localizada
nos Estados Unidos, seguida pelo Reino Unido, Bélgica, Dinamarca, França e
Canadá, sendo que o Brasil não aparece na lista de produção científica dos últimos
30 anos.
Segundo Vecho e Schneider (2005), os estudos inicialmente focaram em
aspectos sexuais e de gênero da vida das crianças - preocupação quase sistemática
antes de 1990, quando a psicologia do desenvolvimento tradicional enfocou
diferenças - problemas psicológicos, habilidades sociais, autoestima e inteligência.
Atualmente o interesse principal dos estudos tem sido apreender a retórica que
envolve a infância e as crianças de famílias homoparentais. Voltaremos a discutir este
tópico posteriormente.

23
1. TEORIAS

Este capítulo apresenta os aportes teóricos que permitiram a construção do


objeto de pesquisa e a metodologia adotada, a saber: os postulados de Winnicott
sobre um ambiente facilitador do desenvolvimento da criança e apoiado por adultos à
sua volta repousam ao lado dos postulados de Bowlby sobre o apego. Partem da
observação da necessidade humana de contato, de seu apego aos objetos, da
dependência da criança em relação aos cuidados, proteção e atendimento às suas
necessidades em um nível psicológico.
Vale ressaltar que, como acontece com qualquer investigação em curso,
deve-se pensar sobre a aplicação dos conceitos para interpretações contemporâneas
em comparação à tradução dos escritos originais, bem como o contexto em que foram
elaborados. Obviamente que a cultura e o pensamento científico mudaram ao longo
do tempo. No entanto, os pressupostos teóricos de Bowlby e de Winnicott não
perderam sua relevância e contribuem fundamentalmente para a análise das relações
de parentalidade no contemporâneo.
Além dos aportes teóricos de Bowlby e de Winnicott, esta pesquisa é
amparada por reflexões sobre alguns padrões sociais rígidos vigentes em nossa
sociedade e versam sobre as interpretações dos saberes e das formas de organização
social que constroem e produzem os conceitos e as identidades de masculino e
feminino em cada conjuntura histórica particular.

1.1 A epistemologia Winnicottiana e a teoria do Apego de John Bowlby

Durante os anos 1950 e 1960, trabalhando de forma independente, porém


contemporaneamente, Donald Winnicott e John Bowlby desenvolveram teorias sobre
o desenvolvimento psicológico e físico e o bem-estar das crianças.
Bowlby e Winnicott compõem um grupo de teóricos, cuja visão privilegia o
vínculo afetivo, a relação interpessoal, o contato de pessoa a pessoa, e uma
concepção de bebê e de criança como sujeitos ativos, deslocando o complexo edípico
de seu papel fundamental na estrutura da personalidade e defendendo a importância
do ambiente externo para o desenvolvimento emocional.
A ordem cronológica em que estes autores são apresentados neste trabalho
respeita uma cronologia aproximada de seu aparecimento, de maneira que não há
24
hierarquização de uma teoria sobre a outra, mas antes, são compreendidas como
complementares. Dessa forma, iniciaremos com os postulados de Winnicott sobre a
importância do ambiente de sustentação para o desenvolvimento emocional e
amadurecimento humano, incluindo os principais conceitos de sua obra. Na sequência
será apresentada a teoria do apego de John Bowlby, especificamente a importância
da segurança e estabilidade na regulação emocional que envolve a parentalidade.
Posteriormente apresentaremos uma importante discussão sobre “o mito do amor
materno e as implicações na parentalidade homoafetiva masculina.

1.2 Fundamentos da teoria Winnicottiana

A obra de Winnicott é marcada por impressões que partem de seu trabalho


em pediatria, pois, ainda em sua atuação como médico, já demonstrava interesse
pelos aspectos emocionais de seus pacientes e a relação destes com suas mães
(ZIMERMAN, 1999). Desse modo, surgiu o interesse do teórico pela psicanálise, que
fora aprimorado ao longo de sua carreira. Embora tenha mantido seu interesse pela
pediatria, passou a trabalhar mais como psicanalista infantil do que como pediatra
(DETHIVILLE, 2011).
A partir dessa experiência, constatou que boa parte dos problemas
emocionais de crianças pequenas parecia ter suas origens nas etapas precoces do
desenvolvimento. Observou também a influência dos aspectos emocionais no
adoecimento físico de seus pacientes e constatou a importância do ambiente para o
desenvolvimento emocional sadio, bem como as implicações das falhas ambientais
na etiologia de patologias psíquicas e psicossomáticas.
Na II Guerra Mundial, Winnicott trabalhou com crianças separadas de suas
famílias e, nesse período, identificou um interessante campo de estudos que lhe
permitiu compreender etapas fundamentais do desenvolvimento humano, no que se
refere ao amadurecimento primitivo, espinha dorsal de sua obra. Assim, ao trabalhar
com crianças refugiadas da guerra e, portanto, afastadas do convívio familiar, pôde
constatar as consequências da privação de afeto no desenvolvimento de tais sujeitos,
o que teve implicação fundamental na construção de sua teoria.
A importância atribuída ao meio ambiente no desenvolvimento emocional da
criança constitui elemento fundamental da teoria winnicottiana, voltada ao estudo dos
processos diádicos da relação entre cuidador (a) e bebê.
25
Winnicott preocupou-se em observar, anotar, aplicar e depois se voltar para a
teoria. Uma de suas maiores preocupações era levar essa psicologia ao grande
público e escreveu não só para psiquiatras e psicólogos, mas para profissionais da
educação, assistência social, pediatria, saúde mental e também para mães e pais.
Seus ensinamentos foram direcionados à sociedade por meio de palestras, livros e
programas de rádio, com o objetivo de que todos pudessem compreender o
desenvolvimento dos bebês e a importância da relação inicial destes com suas mães.
Neste trabalho, além da obra original de Winnicott, tomamos como ponto de
partida, para nos aproximar do pensamento do teórico, o ensaio analítico e crítico de
Bleichmar e Bleichmar (1992a; 1992b; 1992c), sobre os fundamentos da teoria
winnicottiana e suas modificações. Também nos apoiamos no trabalho de Jan Abram
(2000), entre outras obras traduzidas para o português.
Segundo Bleichmar e Bleichmar (1992b), p. 243), no pensamento
winnicottiano, os problemas psicológicos se iniciam a partir de falhas no vínculo entre
o recém-nascido e a mãe. Ao estudar o primeiro vínculo emocional com a mãe, em
termos de experiências sensoriais, afetivas e de constituição do psiquismo, pois:

[...] passa-se de uma postura edípica freudiana a uma bipessoal, do falo ao


seio, do triângulo à relação com a mãe. Se, antes das relações objetais, a
atenção estava voltada para os mecanismos de defesa e para a problemática
edípica, Winnicott, com Melanie Klein, pensam em uma linha evolutiva, na
qual o arcaico define o porvir. (BLEICHMAR e BLEICHMAR 1992b, p. 243).

Segundo a abordagem winnicottiana, é através dos cuidados maternos que


são estabelecidas as bases de saúde mental do sujeito. Esta teoria não desconsidera
as vicissitudes do id, as defesas do ego e os instintos, tendo os processos de
maturação papel essencial no desenvolvimento. Entretanto, parte do princípio de que,
para que o indivíduo se desenvolva de forma satisfatória, é necessário que existam
condições favoráveis fornecidas pelo meio, de modo que, em um ambiente de
facilitação, o desenvolvimento progride vindo de dentro da própria criança
(WINNICOTT, 1983).
No texto intitulado “La teoría de la relación paterno-filial”, escrito em
1960, Winnicott discorre sobre a relação de cuidado e proteção com o
amadurecimento emocional da criança, descreve o que entende sobre sustentação e
sua importância no desenvolvimento afetivo precoce, considerando o bebê como uma
estrutura ambiente-indivíduo (BLEICHMAR; BLEICHMAR, 1992).

26
Nessa perspectiva, Winnicott (2013) frisa que o ego materno funciona como
facilitador da organização do ego do bebê, facilitando o processo que faz com que
este firme sua própria individualidade e identidade pessoal.

É possível dizer que, na experiência comum de segurar adequadamente o


bebê, a mãe foi capaz de atuar como um ego auxiliar, de tal forma que o bebê
teve um ego desde o primeiro instante, um ego muito frágil e pessoal, mas
impulsionado pela adaptação sensível da mãe, e pela capacidade desta em
identificar-se com seu bebê no que diz respeito às necessidades [...]
(WINNICOTT, 2013, p. 32).

Para Winnicott, o bebê não existe, o que existe é o indivíduo em relação ao


mundo externo. Isto é, conforme explica Dethiville (2011), no pensamento
winnicottiano, não é possível falar em um bebê, sem considerar o contexto no qual
este se desenvolve. Embora um bebê já seja um ser humano, ele não consegue se
manter vivo sozinho. Portanto, esta teoria ressalta o conjunto complexo que inclui o
bebê e seu ambiente. A total dependência do bebê no início de sua vida é o
fundamento da construção de sua vida psíquica.
Do ponto de vista do bebê, ele e o ambiente são uma coisa só, ou seja, o
primeiro ambiente para o bebê é a pessoa cuidadora; ele não se percebe como
separado de sua mãe-cuidador/ambiente. Isto porque, no início, o par constitui uma
unidade fusional/psíquica, fase na qual não existe ainda a diferenciação eu e o não-
eu; a unidade não é o indivíduo, mas sim uma organização meio-ambiente-bebê.
Equivale dizer que o centro da gravidade do ser não começa no indivíduo e sim na
organização total (ABRAM, 2000).

[...] realidade esta (que vivem as crianças) em que nada ainda distinguiu-se
como não-eu, de modo que ainda não existe um EU. A identificação é aqui
aquilo com que a criança começa. Não significa que a criança se identifica
com a mãe, mas que não há conhecimento da mãe ou de qualquer objeto
externo ao self; e mesmo essa afirmação não pode ser considerada, pois não
existe ainda um self. Poder-se-ia dizer que, neste estágio, o self da criança é
apenas potencial. Retornando a este estado, o indivíduo torna-se fundido
com o self da mãe. O self de cada criança ainda não se formou, e logo não
pode ser visto como estando fundido, mas as memórias e expectativas
podem agora começar a acumular-se e formar-se. Devemos lembrar que
estas coisas só ocorrem quando o ego da criança é forte, por ser reforçado
(WINNICOTT, 2011, p. 25, grifo nosso).

Segundo Abram (2000), Winnicott concebe a maturação do ser humano como


um processo que vai da dependência absoluta à independência. A realidade da
dependência do bebê de seu ambiente constitui-se no mais importante dos fatores
determinantes do desenvolvimento emocional, processo que compreende três

27
estágios, a saber: dependência absoluta, dependência relativa e rumo à
independência.
Abram (2000) assinala que, embora Winnicott não classifique os estágios de
maneira cronológica, ao longo de sua obra, evidencia-se que a dependência absoluta
e suas diferentes graduações apresenta-se ao bebê a partir de seu nascimento,
estendendo-se de seis semanas a três ou quatro meses; o que se segue é o estágio
de dependência relativa, que se prolonga por dezoito meses até os dois anos de vida,
quando se inicia o estágio seguinte, rumo à independência.
De acordo com Winnicott, a criança nasce indefesa, em um estado de não
integração e percebe de maneira desorganizada os diferentes estímulos provenientes
do exterior. É um período de dependência absoluta.
Como destacado anteriormente, embora o autor reconheça que o bebê nasce
provido de uma tendência para o desenvolvimento, sua teoria destaca que, tal
desenvolvimento deverá ocorrer de forma satisfatória na presença de um ambiente
que facilite a maturação das suas tendências inatas. Para tanto, no início da vida do
bebê, Winnicott (2013) postula que a mãe entra em um especial estado de
identificação com o bebê, comparado a um estado patológico, exceto pelo fato de ser
normal, fazendo-se necessário que a mulher esteja saudável para entrar e sair dele.
Trata-se do conceito de “adaptação materna primária”.
Nesse momento, devido à identificação com seu filho, a mãe é naturalmente
capaz de compreender suas necessidades para satisfazê-las. Porém, para que isso
aconteça, a mulher deve ser amparada por seu ambiente familiar, de modo que não
possua muitas preocupações em seus pensamentos e possa se dedicar
exclusivamente à maternidade (WINNICOTT, 2013).
O bebê, por sua vez, se identifica com a mãe nos momentos de contato. Para
ele, a mãe é uma extensão sua, pois nada existe além de si próprio. Em outras
palavras, por meio da adaptação da mãe sensível às necessidades do bebê, este tem
a chance de experimentar o seio materno como uma parte sua. Tal definição se refere
ao conceito de “onipotência”, o qual, de acordo com Winnicott (1975), faz com que o
bebê sinta o seio como pertencente à esfera de seu controle mágico.
Assim, num primeiro momento a mãe/cuidador é o mundo para o bebê e sua
tarefa consiste em oferecer suporte adequado para que as condições inatas alcancem
um desenvolvimento ótimo. Compreende a tarefa de prover o atendimento às
necessidades básicas do bebê, as quais são de duas ordens: físicas e emocionais.
28
As necessidades físicas estão ligadas aos cuidados com alimentação, higiene, saúde,
calor, estimulação tátil, entre outros, sem os quais o bebê não sobrevive. O foco
principal nessa tarefa está voltado para o que é feito à criança. Já as emocionais
dizem respeito à necessidade de dependência, de poder contar com o outro e sem a
qual não sobrevive psicologicamente. Aqui o foco recai sobre o manejo, o modo como
a criança é cuidada.
No primeiro, da dependência absoluta, o bebê não possui meios para
perceber os cuidados e proteção recebidos2, que são em grande parte uma questão
de profilaxia. Ele não tem qualquer controle sobre o que é bem ou malfeito, mas está
em posição de obter algum proveito ou de sofrer algum incômodo/desprazer. Segundo
Abram (2000, p. 100), o fator principal, no que diz respeito à dependência absoluta,
do ponto de vista do bebê, é que ele não toma “absolutamente consciência” dos
cuidados a ele oferecidos, tampouco de sua dependência. “[...] ao receber o que
necessita, crê que isso aconteceu por ser ele Deus (a experiência da onipotência)”.
Para Winnicott, o que capacita a mãe a proporcionar esses cuidados iniciais
é a preocupação materna primária, a qual se traduz como capacidade particular que
a mãe adquire de regredir, para se identificar com as necessidades do bebê. A
sustentação feita pela mãe dedicada é o fator que decide a passagem do estado de
não integração, que caracteriza o recém-nascido, para a integração posterior. Este
vínculo físico e emocional entre a mãe e o bebê assentará as bases para o
desenvolvimento saudável das capacidades inatas do indivíduo (BLEICHMAR;
BLEICHMAR, 1992a).
A sustentação, à qual Winnicott se refere, diz respeito ao ambiente facilitador
– holding -, ou seja, suficientemente bom, “mãe dedicada”, “ego auxiliar” da criança,
aquela que atende ao bebê na medida das necessidades dele e não das suas
próprias. É essa sustentação que torna o bebê capaz de ter uma experiência de
onipotência e criar a ilusão necessária a um desenvolvimento saudável rumo à
independência. “A sustentação compreende, em especial, o fato físico de sustentar a
criança nos braços e que constitui uma forma de amar”. A criança vive a sustentação
bem sucedida como “continuidade existencial”. Suas falhas são traduzidas em uma
experiência subjetiva de ameaça, que obstaculiza o desenvolvimento normal
(WINNICOTT, 1960 apud BLEICHMAR; BLEICHMAR, 1992a, p. 223).

2
Fase na qual não existe ainda a diferenciação eu e o não-eu.

29
Holding: Protege da agressão fisiológica. Leva em conta a sensibilidade
cutânea do lactente – tato, temperatura, sensibilidade auditiva, sensibilidade
visual, sensibilidade à queda (ação da gravidade) e a falta de conhecimento
do lactente da existência de qualquer coisa que não seja ele mesmo. Inclui a
rotina completa do cuidado dia e noite, e não é o mesmo que com dois
lactentes, porque é parte do lactente, e dois lactentes nunca são iguais.
Segue também as mudanças instantâneas do dia-a-dia que fazem parte do
crescimento e do desenvolvimento do lactente, tanto físico como psicológico
(WINNICOTT, 1983, p. 48).

O holding se caracteriza como função materna primordial para o


desenvolvimento do bebê, uma vez que supre sua necessidade por segurança. Seu
significado pode ser estendido a tornar seguro, impedir que caia, tranquilizar, amparar,
tranquilizar etc. (WINNICOTT, 2013). Dentre os motivos que justificam sua
importância, destaca-se o fato de que, no início da relação materno-filial, o contato
físico e a adaptação da mãe às necessidades do bebê transmitem a este o amor e a
confiabilidade maternos, favorecendo o seu desenvolvimento e o gradual
reconhecimento da mãe como um outro ser humano (WINNICOTT, 1990).
Neste momento, no qual há uma fusão inicial entre o bebê e sua mãe, quanto
mais esta conseguir compreender e satisfazer suas necessidades, mais benefícios
terão o desenvolvimento da criança. Gradualmente, ocorre o fim da fusão,
caracterizando o período de dependência relativa. Há agora uma mudança na atitude
materna, uma vez que a mulher se recupera do estado de “adaptação materna
primária”, na medida em que o bebê a libera, demonstrando capacidade de transmitir
sinais para guiá-la na satisfação de suas necessidades (WINNICOTT, 1983).
No estágio da dependência relativa, o bebê sente necessidade de alguns
fatores do cuidado e proteção e pode, de uma forma crescente, relacioná-los ao
impulso pessoal. Nessa fase, marcada pelo processo de desmame, o bebê passa a
distinguir entre o eu e o não-eu. A identidade é também parte desse processo, uma
vez que o bebê é capaz de identificar-se com a pessoa cuidadora e de vê-la como
separada de si próprio. Para tanto, é necessário que a pessoa que provê cuidados e
proteção, antes adaptada às necessidades do bebê, se desadapte para que se
inaugure o “princípio de realidade” para a criança, além de participar do processo de
desilusão que está vinculado ao desmame. Isto significa que a pessoa cuidadora,
antes regredida e fundida com o bebê, permite a si e a ele sentir e experimentar suas
próprias necessidades, o que contribui para o desenvolvimento do sentimento de self
– um self que é eu e não-eu. Se o despertar da inteligência do bebê tem sua origem
na fase de holding da dependência absoluta, na fase da dependência relativa, a

30
inteligência evolui para uma capacidade de compreender intelectualmente e também
inicia-se o processo de o bebê tornar-se consciente de sua dependência.

A integração está intimamente vinculada à função ambiental de holding. O


objetivo da integração é a unidade. Inicialmente existe o “eu”, de que faz parte
“tudo aquilo que não é eu”. Posteriormente temos o “eu sou”, eu existo, eu
reúno experiências e me enriqueço, tendo uma interação introjetiva e
projetiva com o NÃO-EU, o mundo real da realidade fragmentada.
Acrescente-se a isso: “Eu só existo porque sou visto e compreendido por
alguém”; e mais ainda: “Eu retorno (como um rosto visto em um espelho) ao
fato de que preciso ser reconhecido como um ser”. Em circunstâncias
favoráveis, a pele transforma-se no limite entre o eu e o não-eu. Dizendo de
outra forma, a psique passa a habitar o soma, dando início a toda uma vida
psicossomática (WINNICOTT, 1962 apud ABRAM, 2000, p. 122).

Se por meio do holding a mãe possibilita que o bebê, desde o primeiro


instante, possua um ego que, apesar de frágil, é impulsionado pela satisfação de suas
necessidades, a teoria winnicottiana apresenta também a importância do handling,
função materna correspondente ao manejo e cuidado com a criança, isto é, a forma
com que é manipulada, tratada e cuidada.

[...] Há, portanto, uma não integração primária, mas ser conhecido e
reconhecido pelo outro confere à criança pequena um sentimento de
integração, na medida em que o cuidador, de certa maneira, junta seus
pedaços por meio da técnica do cuidado infantil:
o bebê é manipulado, banhado, embalado e nomeado, e também vive
experiências pulsionais que tendem a tornar a personalidade una a partir do
interior (SANTOS; ZORNIG, 2014, p. 80).

Winnicott (2013) afirma, então, que a base da personalidade é bem


desenvolvida, caso o bebê seja satisfatoriamente segurado e tenha um manejo
adequado. O autor lembra ainda que “tudo isso leva a, inclui e coexiste com o
estabelecimento das primeiras relações objetais do lactente e suas primeiras
experiências de gratificação instintiva” (WINNICOTT, 1983, p. 49).
Com o gradual fim da fusão mãe/bebê, a mãe começa a se mostrar
substituível ao filho. Desse modo, Winnicott (1975) destaca, nesse momento, a função
materna de apresentação do objeto transicional. Em outras palavras, a mãe oferece
à criança algum objeto especial, com o objetivo de que esta desenvolva apego pelo
objeto. Este representa o seio ou objeto da primeira relação do bebê, além de
representar a transição de um estado no qual estava fundido com a mãe, para o
estado em que a reconhece como externa e separada de si.
Para Winnicott, há três espaços psíquicos: o interno, o externo e o
transicional. Este último concebido como consequência da aceitação de uma etapa

31
de narcisismo primário e fusão inicial entre a criança e a mãe, pois como parte da
maturação, gradualmente se aceita que haja uma realidade externa. O espaço
transicional consiste, então, em uma zona intermediária (zona de ilusão), que vai do
narcisismo primário ao julgamento da realidade.

O objeto transicional (a manta, o urso de pelúcia etc.) significa, para


Winnicott, três coisas: é uma primeira possessão eu-não eu; serve para
enfrentar a angústia de separação da mãe; é parte do espaço da ilusão, uma
zona da mente (BLEICHMAR, 1992b, p. 244).

Sobre o conceito de fenômeno transicional, Abram (2000) explica que se trata


de uma dimensão do viver que não depende da realidade interna e nem da externa,
mas de um espaço em que ambas as realidades se encontram e separam o interior
do exterior. Os fenômenos transicionais estão associados ao brincar e à criatividade,
existem antes mesmo do nascimento, em relação à díade mãe-bebê. Segundo a
autora, é aqui que está localizada a cultura, o ser e a criatividade. Isto porque, ao dar
início ao estágio de dependência relativa, o bebê faz uso do objeto transicional,
passagem necessária ao desenvolvimento, a qual conduz ao uso da ilusão, dos
símbolos e ao uso de um objeto. Segundo a autora, o objeto externo adotado pelo
bebê constitui sua primeira posse, ou seja, verdadeiramente é seu, pois ele o criou.
Como conquista de um desenvolvimento satisfatório, surge a capacidade de
estar só, que, inicialmente, se constituiu na experiência de estar só na presença de
alguém. Isto é, a organização fraca de ego do bebê é capaz de permanecer só em
decorrência do apoio consistente do ego mais evoluído de sua mãe ou figura materna
que, progressivamente, é introjetado, estabelecendo um “meio interno”. Com isso,
gradualmente o indivíduo se torna capaz de dispensar a presença da mãe real ou de
sua figura substituta, pois já fora formado um objeto bom na realidade psíquica do
indivíduo, para, então, estar sozinho de fato (WINNICOTT, 1983).

“[...] A capacidade de ficar só depende da existência de um objeto bom na


realidade psíquica do indivíduo. Um seio ou pênis interno bom ou uma relação
interna boa estão suficientemente bem estabelecidas e defendidas pelo
indivíduo (pelo menos na situação atual) para este se sentir confiante quanto
ao presente e ao futuro. A relação do indivíduo com este objeto interno, junto
com a confiança com relação às relações internas, lhe dá auto - suficiência
para viver, de modo que ele ou ela fica temporariamente capaz de descansar
contente mesmo na ausência de objetos ou estímulos externos. Maturidade
e capacidade de ficar só significam que o indivíduo teve oportunidade através
de maternidade suficientemente boa de construir uma crença num ambiente
benigno [...]” (WINNICOTT, 1983, p. 34).

32
Embora o ambiente facilitador torne “possível um progresso constante dos
processos maturacionais”, “o ambiente não faz a criança. Na melhor das hipóteses
ele possibilita à criança realizar seu potencial” (WINNICOTT, 1963 apud ABRAM,
2000, p. 99).
Abram (2000) assinala que, embora Winnicott afirme que há uma diferença
entre o self e o ego, esta distinção nem sempre fica clara ao longo de sua obra, em
virtude da alternância no emprego dos termos “ego” e “psique”. A autora esclarece
que o termo self se apresenta essencialmente como uma descrição psicológica de
como o indivíduo se sente subjetivamente, sendo o “sentir-se real” o que coloca no
centro do sentimento de self.

[...] o ego constitui-se em um aspecto do self que possui uma função bastante
particular: organizar e integrar a experiência. Deste modo, o self é composto
por todos os diferentes aspectos da personalidade que, na terminologia de
Winnicott, constituem o eu, uma forma distinta do não-eu, de cada pessoa. A
palavra self, por conseguinte, representa um sentimento de ser subjetivo. É
preciso discernir que, na obra de Winnicott, os termos self, ego e psique
implicam diferentes abordagens sobre a realidade e a função interna, além
de que, como todos os termos que emprega, não podem – e nem deveriam
– ser estanques. De uma maneira geral, Winnicott localiza o self (central ou
verdadeiro) nos primórdios da vida, mas quando se trata do self total, sua
origem está situada no estágio de preocupação (ABRAM, 2000, p. 221).

Como já foi destacado neste texto, o ser humano nasce como um conjunto
desorganizado de pulsões, instintos, capacidades perceptivas e motoras. Conforme
progride o desenvolvimento, vão se integrando, até alcançar uma imagem unificada
de si e do mundo externo, o núcleo do self verdadeiro. A mãe é a figura capaz de
prover o bebê de um ego auxiliar que lhe permita integrar suas sensações corporais,
os estímulos ambientais e suas capacidades motoras inatas.
A ausência de fornecimento da proteção necessária ao ego do recém-nascido
é percebida por ele como falha ambiental, ou seja, uma ameaça à sua continuidade
existencial, a qual, por sua vez, provocará a vivência subjetiva de que todas as suas
percepções e atividades motoras são apenas uma resposta diante do perigo a que foi
exposto. Isto significa que o bebê estará impedido de sentir seus movimentos ou os
estímulos externos como ensaios de autonomia de seu ego imaturo, vivenciando-os
como um mundo ameaçador. Segundo Bleichmar e Bleichmar (1992a, p. 224), o bebê
procura, então, substituir a proteção que lhe falta. “Tudo acontece como se fosse se
envolvendo com uma casca, às custas da qual cresce e se desenvolve o self do

33
sujeito. [...] o indivíduo se desenvolve mais como extensão da casca do que do núcleo,
como extensão do mundo atacante. O que resta do núcleo oculta-se [...]”.
Embora na obra de Winnicott a figura paterna não seja sempre apontada de
uma forma específica e explícita, em termos de ambiente suficientemente bom, o pai
oferece uma importante contribuição na sustentação da família, como um promotor do
estágio de preocupação. Proporcionar à mãe um suporte (holding) e ser ele próprio,
assim como amar e desfrutar da relação com a mãe, contribui para o ambiente
suficientemente bom.

[...] Se o pai morre, isso é verdadeiramente importante. Quando isso acontece


durante a vida do bebê, existem vários fatores a serem considerados que
estão relacionados à imago paterna pertencente à realidade interna da mãe
e com o seu destino. [...] a terceira pessoa desempenha ou parece
desempenhar para mim um importante papel. O pai pode ou não pode ser
uma mãe substituta, porém, em algumas vezes, é percebido em um lugar
diverso. É aqui que proponho que o bebê, provavelmente, faça uso do pai
como um exemplo para sua própria integração, quando acabava de ter início
sua unificação (WINNICOTT, 1968 apud ABRAM, 2000, p. 23).

Segundo Abram (2000), Winnicott esclarece que a sustentação de um


ambiente como este pela criança em seu crescimento constitui-se exatamente no que
não pode ser destruído pelo seu ódio e agressão. Isto porque não é outra coisa senão
a sobrevivência do ambiente que possibilita ao bebê sentir-se em segurança e passar
da relação de objeto ao uso do objeto.
Em seus escritos de 1965, a ideia central desenvolvida por Winnicott refere-
se ao desenvolvimento de grupos sociais a partir do primeiro grupo original, a família.
Winnicott (2011, p. 130) esclarece que, independentemente da idade de uma
criança, adolescente ou adulto, o fundamental para o desenvolvimento sadio é o grau
de adaptação das condições ambientais às necessidades do indivíduo em qualquer
momento de sua vida, “[...] o cuidado materno transforma-se num cuidado oferecido
por ambos os pais que, juntos, assumem a responsabilidade por seu bebê e pela
relação entre todos os filhos”, de maneira que o cuidado proporcionado pelos pais
evolui para a família, palavra a qual passa a ter significado ampliado, incluindo outros
indivíduos que adquirem o status de parentes devido à proximidade (avós, primos,
padrinhos etc).
Segundo Winnicott (2011), a natureza humana necessita de um círculo cada
vez mais amplo que proporcione o cuidado do indivíduo, bem como sua necessidade
de se inserir num contexto que aceite uma contribuição sua, seja por impulso criativo

34
ou de generosidade. O autor defende que o indivíduo só pode atingir sua maturidade
emocional em um contexto em que a família proporcione um caminho de transição
entre os cuidados dos pais/mães e a vida social, a qual é, em muitos aspectos, uma
extensão das funções da família. Tais círculos, independentemente de sua amplitude,
identificam-se com o colo, os braços e os cuidados da mãe, ideia a qual o autor amplia:

[...] creio que a família da criança é a única entidade que possa dar
continuidade à tarefa da mãe (e depois também do pai) de atender às
necessidades do indivíduo. Tais necessidades incluem tanto a dependência
como o caminhar do indivíduo em direção à independência. A tarefa consiste
em fazer face às necessidades mutantes do indivíduo que cresce, não
apenas no sentido de satisfazer a impulsos instintivos, mas também de estar
presente para receber as contribuições que são características essenciais da
vida humana. A tarefa consiste, ademais, em aceitar as irrupções de rebeldia
e as recaídas na dependência (atitudes que surgem sobretudo na
adolescência) que se seguem à rebeldia (WINNICOTT, 2011, p. 131, grifo
nosso).

De acordo com Winnicott (2011, p. 132), “o apoio compreensivo não é coisa


tão rara, pois a norma é a existência da família e de pais que se sentem responsáveis
e apreciam essa responsabilidade com que são investidos”. Nesse sentido, é possível
considerar que o ambiente suficientemente bom independe de orientação sexual, de
sexo e de gênero, bem como de condição econômica; depende de uma disposição
das pessoas envolvidas com o cuidado e proteção.

1.3 Fundamentos da teoria do Apego

Para entender da teoria do apego, vamos agora explorar os escritos de John


Bowlby. Assim como Winnicott, Bowlby era um psicanalista britânico que insistiu que
o ambiente externo, especialmente interações com a figura materna, importa no
desenvolvimento da criança.
Reconhecendo que a psicanálise não era tão simples nem tão clara como
outras ciências, Bowlby enfatizou a observação científica para levantar hipóteses e
formular sua teoria. Seu trabalho está pautado em observações de crianças em
situações definidas e inclui registros sobre comportamentos, sentimentos e
pensamentos que elas expressam e têm. Para tanto explorou diversos campos do
conhecimento, incluindo a biologia evolutiva, a teoria das relações objetais, de
sistemas de controle, da etologia e da psicologia cognitiva.

35
No livro intitulado “Uma base segura”, Bowlby afirma que o apego do bebê à
mãe não é impulsionado por unidades primárias, de satisfação de necessidades
básicas, tais como o fornecimento de alimento. Com o apoio do famoso estudo de
Harry Harlow sobre filhotes de macacos, Bowlby mostra que a função biológica do
apego é a busca de aconchego, proteção e segurança; “o comportamento de apego
é qualquer forma de comportamento que resulta em uma pessoa alcançar e manter
proximidade com algum outro indivíduo claramente identificado, considerado mais
apto para lidar com o mundo” (BOWLBY, 1989, p. 38 e 39).
Embora a maioria dos estudos tenham focado na observação de crianças com
suas mães, uma criança pode estabelecer um relacionamento seguro com a mãe,
com o pai e/ou com ambos e uma outra criança pode relacionar-se de maneira segura
com o pai e não com a mãe ou o contrário, assim como pode não estabelecer
relacionamento seguro com a mãe e nem com o pai. Importante é considerar que o
estabelecimento de relacionamentos seguros promove o desenvolvimento de maior
confiança e tudo depende do modo como a criança é tratada por parte da pessoa com
quem estabelece ou não o relacionamento. As crianças, quanto mais confiantes de
que suas bases são seguras e estão prontas para responder, quando necessário,
mais elas podem se aventurar (BOWLBY, 1989).
É importante destacar que a teoria não descarta a possibilidade de outras
pessoas, que não a mãe, de se tornarem as principais figuras de apego, uma vez que
a meta do comportamento de apego aponta para o cuidado e a interação social com
a criança, ou seja, de estabelecer um vínculo com uma figura de apego acessível e
disponível. Segundo a teoria, as relações de apego seguro colaboram com o
desenvolvimento de modelos internos de apoio e segurança ou o seu contrário. Os
modelos funcionais, que a criança constrói de suas figuras paternas e de si mesma
na interação com cada uma das figuras paternas, “tornam-se rapidamente
estabelecidos como estruturas cognitivas influentes” (MAIN; KAPLAN; CASSIDY,
1985 apud BOWLBY, 1989, p. 126).
A teoria do apego enfatiza:

a) O status primário e a função biológica dos laços emocionais íntimos


entre indivíduos, cuja formação e manutenção são postulados como
sendo controlados por um sistema cibernético, situado no sistema
nervoso central, que utiliza modelos funcionais do self e da figura de
apego, um em relação ao outro;

36
b) a poderosa influência, no desenvolvimento de uma criança, da
maneira como é tratada por seus pais, especialmente pela figura
materna, e

c) que o conhecimento atual do desenvolvimento de uma criança requer


uma teoria do desenvolvimento que possa tomar o lugar de teorias
que invocam fases específicas do desenvolvimento, nas quais –
sustenta-se – uma pessoa pode tornar-se fixada e/ou pode retornar
(BOWLBY, 1989, p. 118).

As propensões para estabelecer laços emocionais íntimos com indivíduos


especiais constituem um componente básico da natureza humana. Para Bowlby
(1989, p. 118), durante a primeira infância, os laços estabelecidos com os pais (ou
pais substitutos) se devem à busca de proteção, conforto e suporte e persiste ao longo
da vida, complementados por novos laços, “comumente de natureza heterossexual”.
Segundo o autor, “a relação de apego existe por si só e tem função primordial de
sobrevivência – proteção [...]. A capacidade de estabelecer laços emocionais íntimos
com outros indivíduos é o traço principal do efetivo funcionamento da personalidade
e saúde mental”.
Bowlby (1989) concebe o comportamento de apego3 como um sistema
organizado, cujo objetivo é a manutenção da proximidade ou do acesso a uma figura
materna de proteção descriminada. Para tanto, requer da criança o desenvolvimento
de sua capacidade cognitiva de reter na memória a figura de sua mãe, mesmo que
ausente. O autor explica que a criança está se tornando capaz de representações e
que o modelo funcional que ela tem de sua mãe está se tornando disponível para
comparações da ausência da mãe e posterior reconhecimento de sua presença.
Nesse sentido, a teoria do apego propõe que o sistema de controle do comportamento
de apego mantém a relação da pessoa com sua figura de apego dentro de certos
limites de distância e acessibilidade, usando de métodos sofisticados de
comunicação. Em complementação ao modelo que a criança tem de sua mãe, ela
desenvolve um modelo funcional de si mesma em interação com sua mãe, da mesma
forma que com o pai.
Amparado por estudos e pesquisas sistemáticas sobre desenvolvimento
socioemocional4, Bowlby (1989) afirma que os traços centrais do funcionamento da

3
O comportamento de apego é organizado, segundo Bowlby (1989), por meio de um sistema de
controle inscrito no sistema nervoso central, de forma análoga aos sistemas de controle fisiológicos.
4
Conforme Ainsworth, 1989; Ainsworth, Blehar, Waters, Wall, 1978; Main, Kaplan, Cassidy, 1985;
Sroufe, Fox, Pancake, 1983; Sroufe, 1985; Grossmann, 1985; Grossmann, Grossmann, Schwan, 1986.

37
personalidade estão intimamente ligados ao sistema de controle do comportamento
de apego e sua ligação com os modelos funcionais do self e das figuras de apego,
elaborados na mente durante a infância. Isto significa que o desenvolvimento do
modelo de apego é influenciado pela maneira como os pais (ou figuras parentais
substitutas) tratam a criança e determina como ela se desenvolverá.

O modelo dos caminhos de desenvolvimento considera um bebê como tendo,


desde o nascimento, um grupo de caminhos potencialmente abertos para ele;
aquele ao longo do qual ele irá caminhar será determinado, a todo momento,
pela interação entre como ele é agora e o meio ambiente em que ele se
encontra. Cada criança é considerada como tendo seu próprio grupo de
caminhos potenciais para o desenvolvimento da personalidade que, exceto
para as crianças nascidas com certos tipos de danos neurológicos, incluem
muitos que são compatíveis com a saúde mental e outros que são
incompatíveis (BOWLBY, 1989, p. 131).

Bowlby (1989, p. 123 a 125) enumera três modelos de apego identificados


com as condições familiares que os promoveram, descritos, em 1971, nos estudos de
Ainsworth e colegas pesquisadores.
1) Modelo do apego seguro: consiste na confiança da criança de que suas
figuras paternas oferecerão resposta e ajuda, caso ela se encontre em
situação adversa ou amedrontadora. Para isso, a criança conta com a
disposição das figuras paternas, com sensibilidade aos seus sinais e
com respostas amáveis, sempre que ela procure por proteção e
conforto. Segundo Bowlby (1989), a segurança proporcionada pelas
figuras paternas faz com que a criança se sinta corajosa para explorar
o mundo. Tal modelo confere à criança uma “classificação” de
“seguramente apegada”, aquelas que tratam os pais de uma forma
relaxada e amigável, estabelece intimidade com eles de forma fácil e
sutil, mantendo “um fluxo de conversação”.
2) Modelo do apego resistente e ansioso: é marcado pela alternância, a
incerteza do indivíduo quanto à disponibilidade, possibilidade de obter
resposta de ajuda por parte das figuras paternas, as quais ora estão
disponíveis ora não. Diante da incerteza evidencia-se o conflito, no qual
o indivíduo tende à ansiedade de separação, a ficar “grudado” e
ansioso quanto à exploração do mundo. Crianças “classificadas” como
ansiosas e resistentes, mostram um misto de insegurança, tristeza e

38
medo. A intimidade é alternada com hostilidade, ora sutil ora
extrovertida.
3) Modelo do apego ansioso com evitação: é marcado pela ausência de
confiança, resultado de constantes rejeições por parte das figuras
paternas em oferecer conforto e proteção. Aqui, o conflito está mais
escondido e indivíduos cujo grau mais elevado procuram ser
autossuficientes para viver sem amor e ajuda de outros. A relação de
crianças “classificadas como ansiosas e evitantes” com as figuras
paternas é distante e impessoal. A criança ocupa-se com brinquedos e
atividades e ignora ou é desatenta às iniciativas das figuras paternas.
Os modelos que a criança constrói de si mesma e seus pais refletem a
imagem que as figuras paternas têm dela, expressa não só pela forma como é tratada,
mas também pelo que dizem sobre ela. Segundo Bowlby (1989), tais modelos
(internalizados) governam não só o que a criança sente em relação às figuras
paternas, a si mesma, a expectativa de tratamento por parte de cada uma das figuras
e seu próprio comportamento em relação aos pais, como também governam os medos
e desejos expressos em suas fantasias. Uma vez construídos, os modelos passam a
operar em nível inconsciente, embora não sejam descartadas mudanças à medida em
que a criança receba tratamentos diferentes, ocorrendo uma atualização gradual dos
modelos internalizados.

[...] o funcionamento da personalidade saudável em toda e qualquer idade


reflete, em primeiro lugar, a capacidade do indivíduo para reconhecer figuras
adequadas que estão dispostas e aptas a proporcionar-lhe uma base segura,
e, em segundo lugar, a sua capacidade para colaborar com essas figuras em
relações mutuamente gratificantes. Em contrapartida, muitas formas de
funcionamento da personalidade perturbada refletem a reduzida capacidade
de um indivíduo para reconhecer figuras adequadas e dispostas a fornecer
uma base segura e (ou) uma reduzida capacidade para colaborar em
relações gratificantes com qualquer dessas figuras, quando encontradas […]
(BOWLBY, 2015, p. 141).

Embora a necessidade de uma figura de ligação, que forneça uma base


pessoal e segura, não seja exclusiva apenas da infância, é nesse período em que ela
se mostra mais evidente. O padrão de apego estabelecido na infância tende a persistir
na vida do sujeito. Eis um dos motivos porque as relações familiares vivenciadas
durante os primeiros anos de vida possuem importância decisiva no desenvolvimento
da personalidade (BOWLBY, 2015).

39
Os bebês, desde os primeiros dias de vida, possuem extrema sensibilidade à
forma como são manipulados. Em comparação aos adultos, são também mais atentos
e mais sensíveis aos significados de tons de voz, expressões faciais e gestos
(BOWLBY, 2015).

Além de chorar, o que nunca é facilmente ignorado, um bebê, com frequência,


chama persistentemente e, quando é atendido, orienta-se para a mãe ou
outra companhia e desfaz-se em sorrisos. Mais tarde, acolhe-a e se aproxima
dela, esforçando-se por atrair sua atenção, de mil maneiras sedutoras. Não
só o bebê, graças a esses recursos, provoca respostas de seus
acompanhantes, mas “mantém e dá forma às respostas deles, reforçando
algumas e não outras”. O padrão de interação que, gradualmente, se
desenvolve entre um bebê e sua mãe pode ser entendido como resultante
das contribuições de cada um e, em especial, do modo como cada um, por
seu turno, influencia o comportamento do outro [...] (BOWLBY, 2002, p. 252).

Segundo Bowlby, a mãe é que alimenta e limpa a criança, quem a conforta e


mantém aquecida. É a quem a criança recorre quando se sente aflita. Desse modo,
sob a perspectiva da criança pequena, o pai desempenha um papel secundário, de
modo que seu valor cresce à medida que a criança consegue desenvolver certa
autonomia. Porém, os pais possuem uma utilidade mesmo para os bebês, uma vez
que, além de oferecerem condições materiais para que suas esposas possam se
dedicar exclusivamente ao bebê, também fornecem apoio emocional à mãe, por meio
de seu amor e companheirismo, ajudando a manter um clima de harmonia e satisfação
propício para o desenvolvimento do bebê (BOWLBY, 2006).
De acordo com Bowlby (2015), uma das habilidades para ser uma boa mãe
ou um bom pai se baseia na distinção entre as frustrações evitáveis das inevitáveis.
O autor frisa que “[...] as crianças necessitam de amor, segurança e tolerância [...]” (p.
27). Assim, desde que as necessidades que a criança tem de amor e atenção por
parte dos pais sejam satisfeitas, outras formas de frustrações se fazem menos
importantes.
Da mesma forma, o autor ressalta que o importante não é apenas o que é
feito para a criança, mas o modo como o cuidado é realizado. A compreensão
intelectual dos pais em relação às necessidades básicas da criança não é
menosprezada; entretanto, é a partir da adaptação intuitiva, sobretudo da mãe, que
nasce uma prática eficaz de cuidar de crianças (BOWLBY, 2015).
Bowlby (2015) explica que, muitas das dificuldades enfrentadas pelos pais no
exercício da parentalidade se referem à incapacidade para regular a própria
ambivalência.

40
[...] quando nos tornamos pais para uma criança, poderosas emoções são
despertadas, emoções tão fortes quanto as que vinculam um bebê à mãe ou
um amante a outro. Nas mães, em particular, existe o mesmo desejo de
possessão completa, a mesma devoção e a mesma renúncia a outros
interesses. Mas, lamentavelmente, a par de todos esses sentimentos
deliciosos e ternos, ocorre também, com excessiva frequência, uma mistura
– hesito em dizê-lo – de ressentimento, e até de ódio. A intrusão de
hostilidade nos sentimentos de uma mãe ou de um pai pelo seu bebê parece
tão estranho, tão chocante e, muitas vezes, tão horripilante, que muita gente
terá dificuldade em acreditar. Entretanto, é uma realidade e, por vezes, uma
sombria realidade para um dos pais e para a criança [...] (BOWLBY, 2015, p.
33-34).

Os sentimentos despertados nos pais, no início da parentalidade, têm relação


com os sentimentos vivenciados na infância, nas relações com os pais e os irmãos.
Embora não se trate de uma simples repetição de sentimentos, o exercício da
parentalidade pode ser comprometido, quando os pais apresentam incapacidade para
tolerar e regular tais sentimentos. “O pensamento contemporâneo talvez ainda não
tenha reconhecido como uma das principais causas dos erros dos pais a distorção
que os conflitos inconscientes oriundos de uma própria infância acarretam aos
sentimentos que eles nutrem em relação aos filhos [...]” (BOWLBY, 2015, p. 37).
Desse modo, Bowlby (2015) estabelece padrões de parentalidade patogênica:

a) ausência persistente de respostas de um ou ambos os pais ao


comportamento eliciador de cuidados, da criança, e/ou depreciação e
rejeição marcada;
b) descontinuidades da parentalidade, ocorrendo mais ou menos
frequentemente, incluindo períodos em hospital ou instituição;
c) ameaças persistentes por parte dos pais de não amar a criança, usadas
como um meio para controlá-la;
d) ameaças, por parte dos pais, de abandonar a família, usadas ou como um
método de disciplinar a criança ou como uma forma de coagir o cônjuge;
e) ameaças por parte de um dos pais de abandonar ou mesmo de matar o
outro, ou então de cometer suicídio (estas ameaças são mais comuns do que
se poderia supor);
f) indução de culpa à criança, afirmando que o comportamento dela é ou será
responsável pela doença ou morte de um dos pais (BOWLBY, 2015, p. 180).

Bowlby destaca que, para um desenvolvimento satisfatório da saúde mental,


é essencial que o bebê e a criança possuam a vivência de uma relação amorosa,
íntima e contínua com a mãe ou sua substituta permanente. Isto é, é impreterível que
alguém desempenhe o papel regular e constante da figura materna, de forma que tal
relação ofereça satisfação e prazer para ambos. Esta relação inicial, enriquecida pelas
relações com o pai, irmãos e demais familiares, é considerada base do
desenvolvimento da personalidade e da saúde mental (BOWLBY, 2006).

41
As situações em que a criança não encontra esse tipo de relação, são
chamadas de “privação da mãe”. Assim, a privação ocorre quando a mãe ou substituta
permanente é incapaz de proporcionar os cuidados amorosos necessários às crianças
pequenas, ou mesmo quando as crianças são afastadas dos cuidados maternos por
quaisquer motivos (BOWLBY, 2006).
Bowlby aborda, em sua teoria, as consequências da privação materna.
Segundo o teórico, a perda da figura materna, seja isoladamente ou em associação
com outros fatores, pode ocasionar processos psicopatológicos significativos. Por um
lado, a criança que sofre privação dos cuidados da mãe tende a apresentar uma
tendência a impor exigências sobre outras pessoas, com manifestação de raiva e
ansiedade quando suas exigências não são atendidas, características comumente
encontradas em indivíduos considerados neuróticos; por outro lado, as crianças
sujeitas a privação materna tendem também a apresentar bloqueio da capacidade de
estabelecer e manter relações profundas, como se percebe em personalidades
carentes de afeto ou psicopáticas (BOWLBY, 2004).
Ademais, o autor explica que experiências de separação com a figura
materna, especialmente se repetidas, ocasionam sentimentos de desamor, abandono
e rejeição. A privação materna, nos primeiros anos da infância, constitui-se em fator
que concorre para dificultar a regulação da ambivalência, pois conduzem ao ódio e ao
anseio libidinal em níveis particularmente elevados (BOWLBY, 2015). O teórico
constatou, portanto, que, quando uma criança é privada dos cuidados maternos, o seu
desenvolvimento é quase sempre retardado nos âmbitos intelectual, social e físico
(BOWLBY, 2006).

Os efeitos perniciosos da privação variam de acordo com seu grau. A


privação parcial traz consigo a angústia, uma exagerada necessidade de
amor, fortes sentimentos de vingança e, em consequência, culpa e
depressão. Uma criança pequena, ainda imatura de mente e corpo, não pode
lidar bem com todas estas emoções e impulsos. A forma pela qual ela reage
a estas perturbações em sua vida interior poderá resultar em distúrbios
nervosos e numa personalidade instável. A privação total [...] tem efeitos de
alcance ainda maior sobre o desenvolvimento da personalidade, e pode
mutilar totalmente a capacidade de estabelecer relações com outras pessoas
[...] (BOWLBY, 2006, p. 04).

Os efeitos nocivos da privação do cuidado materno podem ser amenizados


caso a criança passe a ser cuidada por alguém em quem tenha aprendido a confiar e
já conheça. Por outro lado, um fator de complicação ocorre quando, embora amoroso,
o novo cuidador seja um estranho para a criança. Tais cenários, embora não ideais,

42
ainda fornecem a criança algum grau de satisfação, caracterizando-se por situações
de “privação parcial”. Seu oposto constitui-se em “privação quase total”, comum em
instituições, onde geralmente as crianças não dispõem de uma determinada pessoa
que cuide delas de forma pessoal e transmita segurança (BOWLBY, 2006).

1.4 O mito do amor materno e sua complexidade

Há, no imaginário social, uma figura de mãe que é garantia de ternura e amor
incondicional, capaz de priorizar o filho, a despeito de suas próprias vontades. Devido
às peculiaridades da anatomia feminina, a mulher é a única capaz de gestar e dar à
luz outro ser humano. Entretanto, a questão da maternidade é algo que pesa nos
ombros das mulheres há algum tempo. Sobretudo, em razão de um discurso social
que apresenta uma expectativa de boa mãe ideal (MACEDO, 2003).
Para entendermos um pouco mais sobre as mudanças pelas quais a
constituição da entidade familiar se deu ao longo dos tempos, faz-se necessário que
nos debrucemos sobre este papel e lugar da mulher. Embora apontaremos mais para
frente sobre o papel da mulher, imbricado dentro das relações da instituição familiar
(GENOFRE, 1995; LASCH, 1991; COSTA, 1999; SINGLY, 2011; BORSA, FEIL, 2008;
HIRONAKA, 2006; GATO, 2014), optamos por tratar aqui, especialmente, sobre as
mudanças que aconteceram ao longo do tempo e, nos dedicaremos a falar
especificamente sobre a construção e consequente desconstrução do chamado
instinto materno. Seria o instinto materno biologicamente dado ou socialmente
construído? Caberia exclusivamente à mãe o cuidado de uma criança?
Partindo dessas perguntas norteadoras, utilizaremos especificamente do
pensamento da filósofa Elisabeth Badinter (1985; 2011), nascida na França, em 1944,
em diálogo com outros textos que poderão auxiliar na clarificação do tema aqui
proposto. Ainda na década de 1970, a filósofa juntou-se ao movimento feminista e
contribui muito para a militância política e, em especial, para as reflexões teóricas
sobre a condição da mulher na modernidade. Explicitamos aqui que ela escreve a
partir de um contexto social bem situado, a Europa, e, em especial, a França. Badinter,
em seu livro “Um amor conquistado: o mito do amor materno”, publicado pela primeira
vez no ano de 1980, direciona seu olhar para analisar o papel das mulheres na
sociedade francesa. A despeito disso, compreendemos que suas contribuições
podem nos ajudar a compreender a metamorfose da entidade familiar ao longo dos
43
tempos, bem como evidenciar as possíveis dificuldades e empecilhos sociais para o
estabelecimento da família homoparental, em especial no que tange à capacidade ou
não da maternagem e, ainda, se esse papel está estrito a uma mulher, dentro de um
contexto de uma família nuclear patriarcal.
De forma geral, Badinter (1985) desenvolve em sua obra, considerada por
muitos como um grito de libertação feminista/feminino, a desnaturalização do instinto
materno, quebrando o senso comum de que toda e qualquer mulher nasce para ser
mãe. Além disso, ela coloca em questão as qualidades ditas “femininas” que
capacitariam, naturalmente, a mulher para o cuidado e a maternagem, como a
sensibilidade, docilidade e abnegação, por exemplo.
Badinter (1985) explicita ao longo das páginas que o “amor materno”, à
semelhança de outros tipos de afetos, sofre transformações, de acordo com o
contexto social e ao longo da história. Dessa forma, o “amor materno” estaria em
constante mutação, transformação e desenvolvimento, atendendo às demandas
políticas, econômicas, filosóficas, ideológicas, científicas, entre outras tantas
condições sociais que se impõem à conceituação de algum tema. A ordem social, bem
como os costumes, não é estanque e, portanto, o conceito de “amor materno” não o
poderia ser. A partir de uma retrospectiva histórica e crítica, Badinter (1985)
demonstra os jogos de poderes e discursos normativos que estiveram a serviço de
atribuir à mulher, de forma exclusiva, o cuidado com os filhos.
Badinter (1985) questiona a visão do amor materno como algo inerente à
condição feminina, afirmando que não é algo determinado, mas sim algo adquirido.
Segundo sua explanação, é fato que uma criança não é capaz de sobreviver e se
desenvolver sem atenção e cuidados dispensados por uma figura materna. Por outro
lado, não é certo que toda mulher seja predestinada a oferecer os cuidados e o amor
que uma criança necessita.
Macedo (2003) concorda que o conceito de mãe boa e má é construído
socialmente e possui variações de acordo com as culturas e seu tempo histórico, de
modo que em cada época há um modelo de mãe predominante. A autora
complementa ainda esta ideia, afirmando que a expectativa do papel feminino tem,
como consequência, uma desumanização e despersonalização da mulher, que não
pode reconhecer em si sentimentos negativos em relação aos filhos.
Neste ponto de vista, o amor materno constitui-se em um produto da evolução
social, uma vez que, nos séculos passados, a história mostra que as crianças, mesmo
44
na tenra idade, eram entregues às amas, sendo criadas por estas e apenas voltando
para casa após os cinco anos de idade. A partir dessa constatação histórica, Badinter
(1985) afirma que, do mesmo modo, como todos os sentimentos humanos, a ideia do
amor materno sofre variações de acordo com as flutuações socioeconômicas
históricas.
Nesses casos, em que, historicamente, as crianças eram afastadas da mãe,
para serem cuidadas por uma ama, propõe-se uma reflexão sobre os sentimentos da
mãe para com as crianças, quando estas retornavam para casa. Com base na teoria
psicanalítica, Badinter (1985) questiona se é possível a mulher experimentar o amor
materno após três ou quatro anos separada do filho, impossibilitada de tocar, beijar
ou mimar a criança, o que torna pouco possível o desenvolvimento de sentimentos e
o apego entre mãe e filho.
Sua leitura parte de uma historiografia da sociedade francesa, a partir do
século XVII, chegando ao século XX. As experiências das mulheres são a chave de
leitura crítica que permite compreender os processos históricos e sociais da luta pelo
empoderamento e emancipação femininos, visando a alcançar a tão sonhada
igualdade entre os “sexos”. Badinter (1985) pretendeu demonstrar a “invenção” do
amor materno, expressão utilizada por ela que já indica, em si, que não se trata de
um conceito hermético. Ela aponta como esse sentimento passa por variações muito
profundas, partindo de uma total indiferença aos filhos até chegar ao momento em
que a mulher, mãe, é naturalizada e responsabilizada socialmente pelo cuidado. Tais
mudanças passam pelas questões das relações de gênero, a famosa “luta dos sexos”
onde o poderio masculino inferioriza a condição das mulheres e começa a impor
exigências e exclusividade no cuidado filial. Nesse conflito entre homem e mulher, a
criança desempenha um papel essencial.
A obra está apresentada em três partes que não seguem necessariamente
uma ordem cronológica. Esse fato se deve por Badinter (1985) utilizar-se
referencialmente de diários e cartas de mulheres burguesas e aristocratas; indicações
estatísticas como a natalidade e mortalidade infantis; referências legais e revisão
histórica e filosófica da sociedade francesa.
Cabe aqui, antes de adentrarmos nas mudanças e transformações do amor
materno, apresentar inicialmente o contexto do nascimento do conceito da palavra
maternidade. Segundo Knibiehler (2001) indicado por Kamers (2006) no texto “As
novas configurações da família e o estatuto simbólico das funções parentais”, a
45
palavra maternidade não existia nem em grego nem em latim. A palavra maternitas
aparece apenas no século XII como equivalente à palavra paternitas, que havia sido
inventada pelos clérigos. Maternitas foi inventada para designar a função da
maternidade, sem desmerecer a espiritual. Assim, já podemos inicialmente indicar a
“invenção” social da maternidade.
Segundo Correia (1998), na Grécia Antiga, a casa da mulher grávida era
considerada um lugar sagrado, asilar, onde até mesmo os criminosos eram bem
recebidos. Já entre os romanos, as casas das mulheres grávidas eram sinalizadas
com grinaldas ou folhas de louro para evitar visitas incômodas, dando certo aspecto
de “proteção” à gravidez. Entre os índios paraguaios Guayaku, a mulher grávida era
considerada possuidora de virtudes mágicas, pois estaria ela estreitamente ligada
com seu filho no ventre, e, portanto, em comunicação com o mundo dos espíritos,
podendo conhecer assim diversos segredos como prever o futuro e predizer a morte
de parentes. Em Esparta, a mulher que morria de trabalho de parto era comparada ao
homem que morria em defesa da pátria e, portanto, era merecedora das mesmas
honras.
Podemos verificar de pronto que, em uma abordagem histórica e
antropológica, as figuras da maternidade não encontram um comportamento
universal. Há uma grande variabilidade na expressão da maternidade, segundo suas
experiências, culturas e ambição e, também, seus projetos e funcionamento afetivo-
emocional. Verifica-se ainda que a maternidade é vivenciada de acordo com as
exigências e valores que dominam certa sociedade, em um momento determinado
(CORREIA, 1998).
Além disso, a representação social da mulher também varia ao longo da
construção da sociedade ocidental. Vasconcelos (2005) discorre acerca das
representações sociais da mulher na sociedade ocidental entre o final da Idade Média
e o século XIX na Europa. Segundo a autora, a representação do feminino quase
sempre esteve atrelada a imagens dicotômicas, no decorrer da história. Ela oscilava
entre frágil e forte, vítima ou culpada, santa ou pecadora, aparecendo sempre, na
história, prioritariamente a partir de um olhar masculino, sendo as figuras de Eva e
Maria as principais representações simbólicas dessa dicotomia. Da mesma forma os
sentimentos dos homens em relação às mulheres sempre se expressaram de forma
ambígua, oscilando entre a atração e amor ao ódio e repulsa.

46
A mulher estaria associada às forças da natureza por conta de seu papel de
reprodução da espécie e da fertilidade, o que representaria um grande mistério para
o homem. Esse medo em relação ao desconhecido teria levado o homem a buscar
garantir sua superioridade em relação a ela. A mulher seria considerada atrelada à
figura do Deus Dionísio, instintivo, e o homem ao Deus Apolo, racional. Enquanto era
divinizada nas sociedades pagãs tradicionais, no ocidente cristão medieval a mulher
passa a ser associada à imagem do demônio, o que levou à instituição do celibato nos
padres com a reforma gregoriana. Há uma dicotomização entre Eva, símbolo do
pecado e da tentação, e Maria, ideal de virgindade, santidade e maternidade
(VASCONCELOS, 2005). Voltaremos a esse tema mais adiante.
Buscaremos aqui apresentar tais variações sobre o papel materno e a
representação social da mulher ao longo dos tempos. Tais modificações articulam-se
às transformações econômicas que foram cruciais para permitir a instauração da
ordem econômica burguesa pela organização dos Estados, a partir do século XVII,
em um movimento amplo de constituição das sociedades chamadas disciplinares
(BADINTER, 1985, 2011; MOURA, ARAÚJO, 2004). Procuraremos indicar como que
esse vínculo materno-filial descrito comumente como “instintivo” e “natural”, foi
construído pelos discursos filosóficos, políticos e médicos a partir do século XVII e o
seu efeito na estrutura familiar homoparental.
Badinter (1985) apresenta, na primeira parte da obra, “O amor ausente”,
questões ligadas à autoridade masculina, portanto marital e paternal. Ela chama a
atenção para o cuidado com as crianças, antes da segunda metade do século XVIII.
As críticas indicadas por ela vão ao encontro dos fatores biológicos que naturalizariam
a maternidade como condição unânime para todas as mulheres. Assim, era imposto
por meio do poder paterno e marital, que dava ao homem o dever, moral e socialmente
construído, de julgar e punir à sua mulher e aos seus filhos. Nos textos sagrados dos
Vedas, Árias, Bramanas e Sutras, como Badinter (1985) indica, a família era
considerada um grupo religioso chefiado pelo pai. Tais conceitos permanecem
praticamente inalterados na Antiguidade, sendo um pouco atenuados na sociedade
grega e acentuados entre os romanos. Com o advento do cristianismo, ventilou-se
uma possibilidade de mudança, já que os escritos bíblicos apontariam uma igualdade
entre homens e mulheres. Na alta Idade Média, entretanto, o poder paterno acentuou-
se e, no século XVIII, no Sul da França, o pai poderia matar um filho, sem sofrer

47
consequências. Tais práticas eram legitimadas pelo discurso aristotélico, pelo
discurso teológico e pelo discurso político.
Para Aristóteles, havia uma desigualdade inata entre os seres humanos e ele
atribuía a supremacia aos homens. A desigualdade seria, então, natural.
No discurso teológico, a superioridade do homem sobre a mulher se dá pela
própria criação da mulher da costela do homem e pelo mito original do livro de
Gênesis, em que Eva, a mulher, é responsabilizada pelos pecados de Adão, homem,
e ambos são expulsos do paraíso. Sobre a mulher são lançadas maldições. Portanto,
a desigualdade aqui é divina.
Para Rose Marie Muraro (1993), a partir do mito de Gênesis, o homem, além
de culpar a mulher por todos os males da humanidade, então representados pela
expulsão do paraíso, supera um complexo inconsciente de que, a partir da retirada da
primeira mulher da costela do primeiro homem, ele estaria convencido de que teria
parido a primeira mulher. Esse mito judaico-cristão seria a base da sociedade
ocidental, tanto para os que nele creem como para os que não creem (MURARO,
1993).
Está posto o imaginário de que a mulher é descendente de Eva pecadora e
sedutora, portão do diabo. A partir do século XII se instaura fortemente o culto a Maria,
que representaria a mulher pura, assexuada e capaz de conceber sem, contudo,
pecar. Enquanto Eva carregaria o castigo em sua sexualidade, Maria a redimiria. O
culto a Maria estaria então associado à defesa da virgindade (VASCONCELOS,
2005).
Retomando Badinter (1985), o discurso político pretendia a junção de ambas
as ideias, naturais e divinas. Seguindo a linha traçada por Aristóteles, da desigualdade
natural entre os homens, buscava-se enfatizar a autoridade do rei, que não poderia
estar ligada a mais ninguém em forma equânime. Esse pensamento era fortalecido
pelo silêncio das leis divinas (dez Mandamentos) acerca do dever do amor dos pais
para com os filhos. Há, ainda, a analogia entre o rei e o Deus-Pai.
A sociedade desse contexto era, então, uma sociedade sem amor. As
condições do casamento não traziam em si a amizade, tampouco o desejo. Era
comum, inclusive, não haver grande pesar na morte do cônjuge, contraindo, tão logo
fosse possível, novo casamento (BADINTER, 1985). O casamento era realizado por
contrato, segundo as necessidades econômicas e alianças políticas familiares. Não
havia romantismo e afeto, pois tais alianças e interesses inibia qualquer expressão de
48
afetividade entre o casal, e o amor conjugal era considerado desnecessário para um
bom casamento (MOURA, ARAÚJO, 2004).
A maternidade, em meados do século XVIII, se dava em termos de indiferença
e até mesmo rejeição. Isso pode ser demonstrado pela alta taxa de mortalidade infantil
e pela contratação de “amas de leite” mercenárias, isto é, pagas pelo serviço do
aleitamento das crianças. A aparente indiferença da entidade familiar em relação à
mortalidade infantil, segundo Badinter (1985), pode ser compreendida como uma
proteção emocional diante da frequência com que a morte acontecia. Não era
obrigação exclusiva da mãe ou do pai o cuidado com as crianças e havia, inclusive,
uma grande quantidade de filhos bastardos e crianças abandonadas. Indicando mais
uma vez o papel da infância, aqui vemos que as crianças eram vistas como um “peso”
familiar. As mulheres preferiam não amamentar para que não tivessem deformações
em seus corpos e nem fossem obrigadas a abdicar de seu tempo pessoal e de
dedicação ao marido, para maternar. As crianças passavam os primeiros 4 a 5 anos
fora da entidade familiar, com amas de leite.
Esse não era um privilégio da mulher burguesa, aristocrática, mas era uma
atitude socialmente dada em todas as classes sociais. A mulher que trabalhava tinha
condições ainda mais precárias de cuidados maternos, uma vez que a vulnerabilidade
econômica impunha uma realidade diversa e, assim, o abandono entre essa parte da
população era maior.
Badinter (1985) citando Ariès (1981), indica que a preocupação com a infância
só começa paulatinamente a se transformar no início do século XVII. Ainda não existia
um lugar para a infância no grupo familiar, e somente no século XVIII, na figura do
“menino-rei”, ocupa um lugar central. Somente bem mais tarde, com a consolidação
de um novo modelo familiar, as mulheres começaram a desenvolver afetos de ternura,
cuidado e intimidade pelas crianças. Os discursos normativos passaram a exigir da
mulher esse papel, em favor da igualdade, amor e felicidade, baseando-se no ideário
Iluminista. O ideal da felicidade é manejado como argumento na imposição da mulher
em assumir o dever de maternar, que poderia trazer felicidade e satisfação a ela.
Mesmo apesar da imposição social, as mulheres resistiram a aceitar o seu novo papel
social e familiar, e, na metade do século XVIII a incidência de abandono infantil era
ainda maior.
Além da indiferença com a morte das crianças no imaginário do século XVIII,
havia o amor seletivo, ou seja, uma disparidade notável do tratamento de um filho e
49
de outro, de acordo com seu sexo e com o lugar ocupado na estrutura familiar. Assim,
a mãe desse período, além de indiferente e fria, fazia diferenciações entre seus filhos.
A preferência pelo primogênito denunciava uma necessidade lógica de cuidados da
mulher. Se o marido morresse, quem cuidaria dela? O filho mais velho.
Badinter (1985) indica que no século XVII e, sobretudo, no século XVIII, a
educação das crianças burguesas e aristocratas passava por três fases de abandono
materno: a colocação na casa de uma ama; o retorno ao lar e a partida para um
convento ou internato. Já os filhos de comerciantes e artesãos, do magistrado ou do
aristocrata da corte experimentavam solidão prolongada e muitas vezes um abandono
moral e afetivo.
Na segunda parte, “Um novo valor: o amor materno”, a autora indica o
nascimento de um novo valor social de ordem moral que direciona a responsabilidade
da mulher, no último terço do século XVIII. Essa mudança paradigmática se dá em
junção com as modificações dos conceitos de infância ao longo do tempo, que já
indicamos como constitutivos para as mudanças na entidade familiar (ARIÈS, 1981;
LASCH, 1991; COSTA, 1999). Após o ano de 1760, a autora aponta que abundam as
publicações impondo à mulher a obrigação de ser mãe antes de tudo, imaginário que
permanece vivo em boa parte, até os dias de hoje. O que há de novidade nesse
momento histórico é a associação entre as palavras “amor” e “materno”. Nesse final
do século XVIII, o imperativo é produzir seres humanos que servirão ao Estado e surge
a necessidade de que as crianças sobrevivam.

Moralistas, administradores, médicos puseram-se em campo e expuseram


seus argumentos mais sutis para persuadi-las a retornar a melhores
sentimentos e a "dar novamente o seio". Parte das mulheres foi sensível a
essa nova exigência. Não porque obedecessem às motivações econômicas
e sociais dos homens, mas porque um outro discurso, mais sedutor aos seus
ouvidos, esboçava-se atrás desse primeiro. Era o discurso da felicidade e da
igualdade que as atingia acima de tudo (BADINTER, 1985, p. 146).

Eram prometidas glórias e felicidades à mulher que abraçasse a tarefa da


maternidade e muitas mulheres perceberam que, assim, conquistariam certo
reconhecimento e valor social, nunca antes obtido. Foram utilizados pelo menos três
argumentos para que os filhos tivessem maior chance de sobrevivência, a partir do
cuidado materno: um discurso econômico; um discurso filosófico e um terceiro
discurso, dirigido somente às mulheres.
O discurso econômico passava principalmente pela importância de uma
população para um país, a demografia. A criança, no final do século XVIII, adquire um
50
valor mercantil. O discurso filosófico flui a partir da propagação da Filosofia das Luzes,
que possibilitou o desenvolvimento das ideias do amor e de sua expressão, a partir
das ideias de igualdade e felicidade individual.
O discurso que será dirigido pelo Estado para as mulheres é totalmente
diferente. Elas seriam responsáveis pela “operação” da maternidade e, portanto, a
sociedade precisaria delas. A publicação de “Émile” de Rousseau (1762) foi crucial
para a mudança no paradigma social na segunda metade do século XVIII. Tal foi a
influência dessa obra na sociedade que ela pode ser considerada a primeira a incidir
diretamente sobre o comportamento familiar moderno.
Rousseau (1762) indica que as mulheres aceitem o sacrifício de se tornarem
boas mães em nome da felicidade e, sobretudo, do dever. Elas são conclamadas a
retornar à “natureza”, por meio de promessas e ameaças. A tudo isso as mulheres
reagiram de forma diversa e muito lenta.
A nova imagem da mãe que estava sendo construída era a de “boa-mãe”,
numa inauguração da “era do amor”. A primeira prova de amor era amamentar.
Depois, veio o abandono da “faixa” que aprisionava o bebê ao corpo da mãe para
maior conforto desta. A mulher é responsabilizada, desde a gestação, por cuidar do
corpo e da higiene. Depois, veio a ideia do menino-rei, incutindo a mudança de que
as crianças, que antes eram facilmente substituídas, agora eram únicas. Elas deviam
ser bem cuidadas e sua saúde era importantíssima, por isso entra então em cena o
médico da família. A mãe ainda deve ser presente e devotada. A maternidade então
torna-se gratificante, pois atende a um ideal (BADINTER, 1985).
A ideia da “rainha do lar” incute a devoção e presença vigilantes da mãe que,
caso faltassem, colocariam em risco os cuidados necessários à preservação da
criança. Essa ampliação das responsabilidades maternas foi acompanhada da
valorização da mulher-mãe e da rainha do lar que possuía poder e autoridade, desde
que fosse apenas em seu íntimo domínio doméstico (MOURA, ARAÚJO, 2004).
Apesar disso, havia resistências e esse modelo não foi adotado de forma igual
por todas as classes sociais. Havia ainda as mães consideradas negligentes,
trapaceiras e aquelas que desprezavam seus filhos (BADINTER, 1985).
No Brasil, se deu o mesmo processo na passagem da condição territorial de
colônia à nação. Assim como na Europa, a organização e os sentimentos presentes
na família moderna, relacionados à exigência dos cuidados maternos foram marcados
pelas modificações que ocorreram pela ascensão da burguesia no final do século XVII.
51
Apesar disso, no Brasil, tais condições eram diferenciadas por conta do estatuto de
país-colônia, recentemente elevado à sede do governo português (MOURA, ARAÚJO,
2004).
Na terceira e última parte do escrito de Badinter (1985), chamado “o amor
forçado”, a filósofa indica que a mãe passa de auxiliar do médico no século XVIII, para
colaboradora do padre e do professor no século XIX e, a mãe do século XX terá que
dar conta de uma nova demanda: o inconsciente e os desejos de seu filho. A mulher
não teria somente uma responsabilidade “animal”, mas teria que dedicar-se a formar
um bom cristão, um bom cidadão e alguém que possa ocupar da melhor forma seu
lugar na sociedade.
Badinter (1985) apresenta uma crítica feminista à psicanálise de Freud que
teria sido influenciada pela teoria Rousseniana. Há uma busca pela “mãe ideal” e as
responsabilidades maternas são aumentadas. Ela se torna educadora e guardiã
natural da moral e da religião e, terrivelmente, responsável pela felicidade de seus
filhos. A pressão ideológica foi tão grande sobre essas mulheres que elas foram
obrigadas a serem mães, mesmo sem o desejarem.

Assim fazem Rousseau e Freud, que elaboraram ambos uma imagem da


mulher singularmente semelhante, com 150 anos a separá-los: sublinham o
senso da dedicação e do sacrifício que caracteriza, segundo eles, a mulher
"normal". Fechadas nesse esquema por vozes tão autorizadas, como podiam
as mulheres escapar ao que se convencionara chamar de sua "natureza"?
Ou tentavam imitar, o melhor possível, o modelo imposto, reforçando com
isso sua autoridade, ou tentavam distanciar-se dele, e tinham de pagar caro
por isso. Acusada de egoísmo, de maldade, e até de desequilíbrio, àquela
que desafiava a ideologia dominante só restava assumir, mais ou menos
bem, sua "anormalidade". Ora, a anormalidade, como toda diferença, é difícil
de se viver. As mulheres submeteram-se, portanto, silenciosamente, algumas
tranquilas, outras frustradas e infelizes (BADINTER, 1985, p. 238-239).

Em contrapartida, o papel ocupado pela paternidade declina. Com o aumento


das responsabilidades femininas desde o fim do século XVIII, aos poucos, a imagem
do pai vai sendo diminuída. A imagem do pai soberano em autoridade do século XVII
declina, uma vez que a mulher, assumindo a liderança no seio do lar, se apodera de
muitas de suas funções. Badinter (1985) afirma que não há reclamações a esse
respeito. Pelo contrário, é natural que o homem não tenha o “dom” do cuidado e da
educação de seus filhos e os negócios e a política tomariam espaço privilegiado na
vida dos pais de família. A vida social, com suas características de competição e de
trabalho, impede o homem de ser pai.

52
A autora cita o filósofo Alain que, em 1927, busca demonstrar a distinção
necessária dos papéis parentais. Segundo as “demonstrações” do filósofo, as funções
biológicas do macho seriam caçar, pescar, empreender, construir. O papel da mulher,
biologicamente passiva, seria a formação da criança e o cuidado de seu
desenvolvimento após o nascimento. Segundo ele, toda a natureza da mulher está
destinada a carregar, criar os filhos, e ocupar um lugar intermediário entre eles e o
pai.
No século XIX, o Estado passa a vigiar os pais que não estavam cumprindo
seu papel de “provedores”. A cada carência paterna identificada nas famílias, o Estado
cria novas instituições para substituí-la. O professor, o juiz de menores, a assistente
social, o educador e, posteriormente, o psiquiatra carregam em si, cada um, parte dos
antigos atributos paternos. Operou-se, então, uma substituição do “patriarcado
familiar por um patriarcado de Estado” (BADINTER, 1985, p. 289). Além disso, o
Estado institui uma política de vigilância aos pais “vagabundos” e que não cumpriam
sua função paterna. Vemos a extrema decadência da figura paterna, o rei soberano
de outrora passa a ser uma figura a ser vigiada e punida, caso não cumpra o seu
papel na entidade familiar. Segundo a filósofa, por conta do Estado e do novo papel
da mulher na entidade familiar, resta aos homens apenas serem medidos por sua
capacidade de sustentar a família, sendo responsável pelo conforto e por ser o
mantenedor, imaginário que persiste até os dias atuais.
A naturalização e responsabilização do papel materno continuam amplamente
ao final do século XIX e início do XX. Já na psicanálise freudiana e em seus discípulos
desenvolvedores de sua teoria, temos a tese central de que a mulher teria inveja do
pênis, o que definiria a personalidade feminina. O fato da menina se ver como
“castrada” nas teorias psicanalíticas incute um pensamento de inferioridade sexual em
relação ao menino, desde as primeiras etapas do desenvolvimento humano. Mesmo
quando ela percebe a impossibilidade de ter um pênis, continua durante muito tempo
com o desejo, esperança de o conseguir, inconscientemente (BADINTER, 1985).
Além disso, na obra freudiana a mulher estaria ligada ora à maternidade, ora à morte,
no sentido de que ela era também responsável por transmitir ao filho a relação entre
vida e morte. Dessa forma, Freud também contribuiu para se pensar o papel feminino
como sendo natural, associando feminilidade e maternidade (KAMERS, 2006).
Seguindo no desenvolvimento da personalidade feminina, Badinter (1985)
afirma que Freud acaba postulando três características que aponta em sua obra: a
53
passividade, o masoquismo e o narcisismo. A psicanálise aumenta a importância
atribuída à mãe, que deveria desenvolver o papel da “boa mãe”, e medicaliza o papel
da “mãe má”. Tais conceitos são amplamente desenvolvidos por Winnicott e também
indicados por Badinter (1985). Não apontaremos aqui tal teoria, que já foi
desenvolvida amplamente em outro momento na presente tese. Entretanto, cabe
ressaltar aqui a crítica da autora, uma vez que outros “psicanalistas” vulgarizaram as
teorias psicanalíticas nos meios de comunicação de massa. Tais teorias discorrem,
inclusive, sobre um papel “paterno” facilitado pelas mães. Elas seriam responsáveis
por serem “boas mães” e propiciarem o ambiente necessário para a relação dos pais
com seus filhos e permitindo que eles se tornassem os “bons pais”.
A autora afirma não estar interessada em sua obra em fazer um inventário
exaustivo das teorias psicanalíticas sobre a questão materna, mas indica que deseja
demarcar a origem de um novo pensamento que se propagou rapidamente por conta
dos meios de comunicação de massa, deixando uma marca real no inconsciente
feminino. Segundo Badinter (1985, p. 308), “na teoria freudiana, a maldição é
biológica: uma insuficiência de órgão, a falta de pênis, é a causa de sua infelicidade”.
Tais concepções filosóficas e científicas estavam em acordo com os valores sociais
dominantes que só seriam questionados a partir da década de 1960, graças à luta das
mulheres nos movimentos feministas.
A chamada “cultura psicanalista” teria um caráter de controle social higienista,
juntamente com outros setores da sociedade. Isso contribuiu para que os papéis
maternos e paternos recebessem, cada vez mais, um caráter individualizante
(MOURA, ARAÚJO, 2004).
A valorização da “família amorosa” do século XIX repercutiu também no Brasil
com o auxílio dos higienistas, fazendo com que a família brasileira assimilasse novos
valores, tornando-se nuclear e urbana. A higienização das cidades brasileiras era uma
estratégia do Estado moderno numa tentativa de controlar as famílias para que se
subordinassem aos seus objetivos. No Segundo Império, os médicos, sobretudo no
campo da medicina social, se dirigem à família da cidade, para modificar suas
condutas de ordem física, intelectual, moral, sexual e social, para que se adaptem ao
sistema político e econômico. A insistência na amamentação materna e a imposição
do cuidado por parte da mãe instauraram uma vigilância familiar. Dessa forma, por
todo o século XIX, a sociedade colonial brasileira esteve caminhando em adaptação
à família burguesa europeia, com o auxílio dos higienistas (MOURA, ARAÚJO, 2004).
54
Badinter (1985) afirma que o século XX traz um novo papel a ser
desempenhado pelas mulheres. Como resultado das lutas emancipatórias, as
mulheres têm acesso ao mercado de trabalho, transformando a forma como se
colocam diante da maternidade e da vida doméstica, não tomadas mais como
imperativas, mas como uma escolha possível.
Na década de 1960, quase 15 anos após a publicação da relevante obra
filosófica de Simone de Beauvoir, O segundo sexo, Badinter (1985) afirma que surgiu
nos Estados Unidos um importante movimento feminista que teria se espalhado
rapidamente pelo mundo ocidental. A finalidade prioritária era questionar os
postulados psicanalíticos sobre a feminilidade. Segundo a autora, elas mostraram
ideologicamente e, mais importante ainda, através de lutas, que uma outra prática da
feminilidade era possível e mesmo desejável. As críticas versavam sobre uma suposta
“leviandade freudiana” que haveria descartado as hipóteses cultural e social.
Tais mulheres em luta buscavam desmentir o caráter “natural” de suas
personalidades. Ao entrarem no mundo “masculino” das universidades, tribunais,
hospitais ou sindicatos, mostraram que também possuíam as características
“naturais” dos homens, a independência e ambição. Muitas questões são colocadas
a respeito da “tríade” feminina do masoquismo, passividade e narcisismo. O papel
materno é amplamente questionado como imposição social e cultural e as mulheres
passam a reivindicar a divisão dessa responsabilidade com o pai, fazendo uma
distinção entre o papel materno e o feminino, sendo esse último voltado às questões
externas ao lar. Badinter (1985) afirma que, a partir da década de 60, o número de
mulheres “ativas” sustenta essa mudança de papel.
A autora indica que essa mudança de atitude feminina não corresponde à
renegação e negligência de outrora, pois, mesmo quando estão trabalhando fora de
casa, as mulheres do século XX parecem infinitamente mais próximas e preocupadas
com os filhos do que as de séculos atrás. Mas, fruto do movimento da sociedade,
muitas mulheres exprimem um certo cansaço da maternidade. Ela afirma que isso tem
propiciado até mesmo o retorno do papel paterno, indicando um novo papel social: o
“pai-mãe”. O desejo de maternagem ou até mesmo de maternidade tem aparecido,
sobretudo em pais jovens. Esse “novo pai” participa da gravidez de sua mulher,
compartilha as alegrias do nascimento e as tarefas diárias da maternagem.

55
Sob a pressão das mulheres, o novo pai, materna o filho à imagem e
semelhança da mãe. Ele se insinua, como uma outra mãe, entre a mãe e o
filho, o qual experimenta quase indistintamente um corpo a corpo tão íntimo
com a mãe quanto com o pai. Para nos convencermos disso, basta
observarmos as fotografias, estampadas com frequência cada vez maior nas
revistas, de pais seminus estreitando nos braços seus filhos recém-nascidos.
Percebe-se em seu rosto uma ternura toda materna que não escandaliza
ninguém. Sim, depois de séculos de autoridade e de ausência do pai, parece
surgir um novo conceito, o "amor paterno", semelhante em tudo e por tudo ao
amor materno (BADINTER, 1985, p. 364).

As modificações em relação ao tema da sexualidade dirigido à mulher e à


criança acabaram por desenvolver uma grande transformação nas relações de
aliança, uma vez que a mulher deixa de ser reduzida ao papel de esposa ou mãe, e
foi se individualizando, dissociando, a partir da concepção, o prazer e a procriação
(KAMERS, 2006). Nesse contexto, entram as possibilidades de contracepção e a
liberdade feminina sobre o corpo.
Ao final do livro, Badinter (1985) indica que, na segunda metade do século
XX, as desigualdades permanecem, mas as possibilidades de emancipação estão
cada vez mais concretas. Nesse sentido indicamos outra obra da autora, chamada “O
conflito entre a mulher e a mãe” (BADINTER, 2011). O livro dedica-se a pensar acerca
da problemática que vive a mulher no novo contexto social em que está inserida,
conciliando a maternidade no lar e a sua busca de realização no domínio externo, por
meio da profissionalização e carreira.
Badinter (2011) discorre acerca do desejo de ter filhos, se seria uma premissa
universal, um determinante biológico ou um dever religioso. Tais questionamentos só
são possíveis com o aparecimento dos métodos contraceptivos e as mudanças nas
necessidades profissionais e financeiras das famílias. Ela conclui, em sua obra, que
as mulheres de países mais desenvolvidos entenderam que a maternidade não é mais
o único modo de afirmação de uma mulher, embora tomar essa decisão não seja fácil
em um mundo onde o individualismo e a paixão de si nunca foram tão poderosos.
Afirma ainda que a esperada igualdade entre os sexos não se obteve, pois a divisão
de trabalhos entre os sexos é sempre desigual.

1.4.1 A concepção de instinto materno e as teorias de Bowlby e Winnicott

Macedo (2003) explica que, segundo o ideal de boa mãe, construído


socialmente, atitudes como não amamentar ao seio, confiar a criança aos cuidados

56
de babás ou creche possuem conotação de relaxamento dos impulsos maternos, que
deveriam ser instintivos e próprios daquela que deveria ser considerada uma boa mãe,
o que abre espaço para a consideração de “aberrações patológicas” (MACEDO, 2003,
p. 94).
A primazia da boa mãe e a teoria do “instinto materno” trazem consigo ideais
impostos às mulheres, tais como: dedicação integral aos filhos, exigindo atitudes e
sentimentos positivos e nobres; amor profundo e igualitário a todos os filhos; anulação
de qualquer sofrimento por amor aos filhos, aceitando a exigência de não sentir ciúme,
raiva, inveja ou rancor dos filhos. Nessa perspectiva, o instinto materno deveria ser
responsável pela devoção da mãe ao filho, acima de qualquer amor por si mesma,
fazendo com que a maternidade, ao mesmo tempo em que pode representar uma
sublime realização da vida da mulher, sirva também como fator de anulação para a
mesma (MACEDO, 2003).
De acordo com o exposto, Badinter (1985) estabelece que o amor materno é
apenas um sentimento humano. Assim como todo e qualquer sentimento, é imperfeito,
incerto e frágil. Não havendo harmonia preestabelecida na interação necessária entre
as exigências feitas pela criança e as respostas dadas pela mãe, observa-se que cada
mulher é um caso particular. Dessa forma, algumas sabem compreender as
necessidades de seus filhos, enquanto outras nada compreendem. O que evidencia
a constatação de que, opostamente ao que frisa os preconceitos, o amor materno
talvez não seja parte fundamental da natureza feminina.

Em lugar do amor “forçado”, produzido pelo discurso do poder instituído


(moral, religioso, político, médico) e encarado como ideal de Boa Mãe, super-
heroína, despersonalizada como ser humano comum, surge o amor
“conquistado”, produzido pelo encontro de dois seres humanos, numa relação
de proteção das relações de afeto no decorrer da vida da criança [...]
(MACEDO, 2003, p. 98).

Macedo (2003) evidencia que, na atualidade, a maternidade deve ser pensada


a partir das mudanças amplas ocorridas, no que se refere à visão de mundo e dos
paradigmas gerais da ciência, bem como das mudanças próprias da psicanálise.
Bowlby (2015) chama atenção para o fato de que, antes de Freud, as
questões relativas à importância do amor materno para a criança eram consideradas
como sentimentalismo sem fundamento válido. Segundo o teórico, Freud insistiu no
fato de que a vida emocional tem suas raízes na infância e explorou, de modo
sistemático, a ligação entre as experiências dos primeiros anos de vida e as estruturas

57
de funcionamento da personalidade na vida adulta. Atualmente, existe, entre os
psicanalistas, uma ampla área de concordância, sobretudo sobre a necessidade de
uma relação estável com uma mãe ou mãe substituta durante toda a infância.
Macedo (2003) destaca o trabalho de Bowlby, ressaltando que constatou que,
mesmo após a perda dos pais, se acolhidas em lares que lhes dessem carinho,
proteção e cuidado, as crianças eram capazes de retomar seu desenvolvimento
emocional e físico, compensando as carências ocasionadas pela perda dos pais. Este
autor afirma que a criança “[...] que não tenha tido cuidados maternos adequados, se
colocada em ambiente de cuidado e proteção em que se sinta segura, poderia
continuar a se desenvolver sem problemas maiores [...]” (MACEDO, 2003, p. 97).
A teoria de Bowlby ressalta que é impreterível para a saúde mental do bebê
e da criança que possuam uma relação afetuosa, íntima e contínua com as mães ou
com suas substitutas permanentes. Tal relação deve oferecer, para ambos, satisfação
e prazer (BOWLBY, 2004). Por outro lado, embora em grande parte da teoria de
Bowlby o autor se refira a figuras maternas, o mesmo salienta que, em todos os casos,
a compreensão deve ser de que a pessoa a que ele se refere se trata de quem
dispensa cuidados maternos à criança e a quem esta se apega, não se tratando
exclusivamente da mãe biológica (BOWLBY, 2002).

Quando se fala “a mãe”, deve-se entender a própria mãe ou a mãe substituta,


ou seja, quem cuida do bebê. Portanto, independente de quem seja a mãe
biológica, a relação de apego criança-mãe se faz com quem exerce a
maternagem, estabelecendo-se vínculos tão fortes quanto aqueles com a
mãe biológica (MACEDO, 2003, p. 97).

Dethville (2011), com base na teoria winnicottiana, chama a atenção para


casos em que a mulher não é capaz de alcançar o estado de “adaptação materna
primária”, no qual, após o nascimento do bebê, a mãe tem profunda identificação com
este e é capaz de identificar suas necessidades e satisfazê-las. O que ocorre é que,
em alguns casos, a identificação com o bebê pode remeter a mulher a uma ameaça
de aniquilação caótica, vivenciada quando ela mesma era um bebê. Desse modo, a
mãe pode sentir seu bebê como uma ameaça a si própria ou pode ver a si mesma
como uma ameaça perigosa para seu bebê, preferindo se distanciar. Há, portanto,
casos em que a mulher não possui vontade de entrar nesse estado de adaptação com
seu filho, ou, até mesmo, casos em que a mãe luta contra esse acontecimento, pois
seus interesses são outros que não a dedicação exclusiva ao bebê.

58
É impreterível se pensar também, conforme destaca Macedo (2003), no
momento social atual, onde ocorrem profundas mudanças nas configurações
familiares.

As definições de “vida familiar normal”, em termos de estrutura familiar, têm-


se mostrado inadequadas. É evidente que uma criança pode ter uma vida
familiar normal, mesmo morando com parentes (não com os pais), e é óbvio,
também, que ela pode morar com seus próprios pais e, mesmo assim, não
ter uma vida familiar normal. É claro que a definição deve girar em torno do
que realmente acontece com a criança (BOWLBY, 2006, p. 77).

Dethville (2011) destaca que, no final de sua vida, Winnicott ressaltou que
outra pessoa, que não a mãe, pode garantir a função materna à criança. Assim como
Bowlby, Winnicott concorda com a importância da continuidade dos cuidados. A
função de “ambiente suficientemente bom” prevê a necessidade da continuidade da
linha de vida da criança, de modo que não seja perturbada por reações e
contratempos do ambiente.
A título de conclusão desse tema, indicamos então que não existe instinto
materno, embora haja amor materno, figura materna e função materna e estas não
estão associadas a gênero. Além disso, uma vez que compreendemos o instinto
materno como uma construção social e a emergência recente do “amor paterno”,
identificado totalmente com o imaginário social do amor materno, podemos nos por a
pensar quais são as possibilidades da homoparentalidade como uma nova forma de
construção social e do desenvolvimento de crianças e adolescentes.
Vale ressaltar que quando Winnicott construiu a referência de “função
materna”, ele pertencia a um contexto social permeado pelos resquícios de uma Era
Vitoriana, recheada de estigmas associados ao gênero.

59
2. FAMÍLIA

Com a chegada da chamada “pós-modernidade” e as mudanças sociais


impostas por ela, é sabido que a estrutura familiar vem se reinventando, se revisitando
e procurando novos caminhos. É evidente que ainda não se encontrou em sua
plenitude, já que quando falamos das “novas configurações familiares” – que já não
são tão novas assim – ainda temos resistência, preconceito e discriminação por parte
da sociedade.
Quando falamos de sociedade da “pós-modernidade”, estamos atribuindo à
contemporaneidade um valor de transformação social diante do período chamado
“modernidade”. Esse processo pode ser concebido a partir da chamada
“globalização”, que se dá nas esferas política, tecnológica e cultural, tanto quanto
econômica. Essa transformação pode ser datada, mais especificamente, a partir do
século passado, com as mudanças dos sistemas de telecomunicações de grande
alcance, como os telégrafos e satélites. Essa comunicação eletrônica muda
radicalmente a estrutura de nossas próprias vidas, inclusive e principalmente, o núcleo
da sociabilidade, que são as estruturas familiares. Assim, os aspectos íntimos e
pessoais de nossas vidas sofrem mutação, em uma esfera global, inclusive no que
tange os valores ditos “familiares”. A globalização, entendida como ocidentalização,
demonstra o enfraquecimento de algumas estruturas fixas, como o estado-nação e a
própria “família”, mas, paradoxalmente, continuamos a falar de tais estruturas como
se nada tivesse mudado (GIDDENS, 2007).
Segundo Vilhena et al. (2011), com a tal da modernidade líquida, a
sexualidade plástica e outras mudanças impostas pelas demandas sociais, a estrutura
familiar vem se reinventando. “A sexualidade plástica é a sexualidade
descentralizada, liberta das necessidades de reprodução” (GIDDENS, 1993, p. 10) e
proporciona, assim, que os relacionamentos sofram uma mutação quanto à sua
organização e sentido. Liberta as mulheres do seu papel secundário e tira dos homens
o protagonismo das relações. A mudança da intimidade dentro da estrutura familiar
funciona como uma força propulsora para a transformação dela própria (GIDDENS,
1993).
Os novos componentes, demandados para se constituir uma estrutura
familiar, passam a ser o afeto e a busca pela completude e o mesmo vem acontecendo
com os processos de parentalidade, que não se definem mais puramente pela
60
consanguinidade. Nesse sentido, ainda falando da sexualidade plástica, Giddens
(1993) afirma que gays e lésbicas poderiam ser considerados pioneiros dos processos
de individuação e da des-tradicionalização da estrutura familiar, iniciando a concepção
de uma “relação pura”, onde o amor fosse “confluente” e houvesse igualdade
emocional e sexual entre os parceiros. A “liquidez” das relações e a metáfora do “amor
líquido” (BAUMAN, 2001) demonstram que a estrutura familiar deixa de ser fixa e
estável para ser concebida como um projeto em curso, entendido como contingente,
fluido e ainda em evolução (ROSENEIL, 2006).
A partir da década de 80 ocorreram mudanças consideráveis na ciência, em
particular, na epistemologia, que colocou em relevo a importância das crenças,
atitudes, subjetividades, além das construções pessoais discursivas e narrativas,
tanto na produção do conhecimento, quanto na investigação psicológica (GATO,
2014).
Ainda existe uma concepção simplista, por vezes funcionalista e romantizada,
que trata do tema da “família” como uma instituição harmônica e destinada a atender,
igualitariamente, todas as necessidades de seus membros. Além disso, essa forma
propõe a perpetuação da “família tradicional burguesa” – resquícios do patriarcado
que ainda sustenta no inconsciente coletivo o modelo da “família ideal”, ou seja, pai,
mãe e filho (ALVES, 2010).
Podemos conceber tais pensamentos como fruto das mudanças a partir da
globalização e presentes na “pós-modernidade” que, necessariamente, impulsionam
um movimento de tensão e resistência ao novo e, ao mesmo tempo, na manutenção
do antigo. O fundamentalismo é um exemplo disso, de como a verdade das crenças
é defendida e sitiada. Impõe questões sobre a dessacralização da vida
contemporânea e requer um estatuto que possa ser defendido como eterno, imutável.
Pode-se, então, conceber o fundamentalismo como um fruto da globalização e das
mudanças profundas pelas quais a sociedade vem passando na pós-modernidade
(GIDDENS, 2007). Mas, a despeito das tensões e restrições impostas diante das
mudanças, elas não podem ser impedidas e continuam a fluir.
Por que é necessário explicitar a concepção da estrutura familiar ao
longo da história? Porque, com a evolução do conceito de “família” e a chegada de
novas configurações familiares, dentre elas a “família homoparental”, esta passou a
ser tema de discussão em nossa sociedade. Afinal, o que é “família”?

61
Para responder a todas essas perguntas, é necessário mostrar a evolução
desse conceito, até chegarmos aos dias atuais.
Ao consultar o dicionário online Michaelis5 de língua portuguesa, encontrou-
se os seguintes significados para a palavra Família: 1) “conjunto de ascendentes,
descendentes, colaterais e afins de uma linhagem”; 2) “pessoas do mesmo sangue,
que vivem ou não em comum”; 3) “descendência, linhagem”; 4) “o pai, a mãe e os
filhos”; 5) “sectários de um sistema”; 8) (sociol), “instituição social básica que
compreende um ou mais homens, vivendo maritalmente com uma ou mais mulheres,
os descendentes vivos, e, às vezes, outros parentes ou agregados”. Fica evidenciado
que o dicionário não considera a pluralidade de configurações familiares da
contemporaneidade, como, por exemplo, as estruturas familiares compostas por
casais de mesmo sexo.
Apesar da Constituição Federal Brasileira de 1988 ainda utilizar a rigidez e
fixação do gênero para designar a estrutura familiar brasileira, temos no Instituto
Brasileiro de Geografia Estatística a seguinte definição de família:

Família - conjunto de pessoas ligadas por laços de parentesco, dependência


doméstica ou normas de convivência, residente na mesma unidade
domiciliar, ou pessoa que mora só em uma unidade domiciliar. Entende-se
por dependência doméstica a relação estabelecida entre a pessoa de
referência e os empregados domésticos e agregados da família, e por normas
de convivência as regras estabelecidas para o convívio de pessoas que
moram juntas, sem estarem ligadas por laços de parentesco ou dependência
doméstica. Consideram-se como famílias conviventes as constituídas de, no
mínimo, duas pessoas cada uma, que residam na mesma unidade domiciliar
(domicílio particular ou unidade de habitação em domicílio coletivo) (6IBGE,
2015).

A concepção de “família” que a sociedade ocidental possui veio se


cristalizando com o passar do tempo e em função de experiências sociais que lhe
deram o status de “natural”; por isso, a impressão de ser comum a diversas realidades
(ZAMBRANO, 2008).
De maneira geral, a concepção de “família” é entendida como uma estrutura
“nuclear” formada por pai, mãe e filhos. A extensão desse modelo congrega indivíduos
(avós, tios, primos) pela parentalidade, representada por laços consanguíneos e/ou
de afetividade (DURKHEIM, 1996).

5
Disponível em:<http://educacao.uol.com.br/dicionarios/> Acesso em de 15 Julio de 2015.
6
Definição de Família para o IBGE: Disponível em:
http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/condicaodevida/indicadoresminimos/conceitos.sht
m. Acesso em de 15 Julio de 2015.

62
Para Bourdieu (2004), a “família” habita em um “campo social”, onde ocorre a
reunião de sujeitos em constantes relações de poder e força, que se afasta cada vez
mais da noção de “família burguesa tradicional”. Para o autor, este modelo de família
é socialmente construído.
A representação dominante da estrutura familiar aparece como um modelo
formado pelo conjunto de indivíduos, com relações parentais, com possibilidade de
procriar. Esse modelo reduz a família a uma realidade biológica, pelo menos até o
momento, a da necessidade do encontro de um espermatozoide e de um óvulo para
produzir uma criança (ZAMBRANO, 2008).
O conceito já indicado aqui e presente no senso comum, a saber, a “família
tradicional” também pode ser concebido como um constructo social, jamais tomando
forma de uma “entidade” posta no seio da sociedade de forma dada e prescrita.
Giddens (2007) afirma que muito do que consideramos como “tradicional” é
relativamente recente; um produto no máximo dos últimos dois séculos. Sobre o termo
“tradição” ele afirma:

As raízes linguísticas da palavra “tradição” são antigas. A palavra inglesa


tradition tem origem no termo latino tradere, que significa transmitir, ou confiar
algo à guarda de alguém. Tradere foi originalmente usado no contexto do
direito romano, em que se referia às leis da herança. (...) O termo “tradição”,
tal como é usado atualmente, é na verdade um produto dos últimos duzentos
anos na Europa. [...] Não havia necessidade de tal palavra, precisamente
porque a tradição e o costume estavam em toda parte. A ideia de tradição,
portanto, é ela própria uma criação da modernidade (GIDDENS, 2007, p. 49-
50).

Assim, de acordo com essa concepção, não podemos afirmar que existe uma
linearidade histórica, alguma entidade perdida no passado, cuja continuidade no
presente dependa da preservação da tradição por meio do conservadorismo. Todas
as tradições são inventadas e, por meio de poderes sociais, evoluem e são
constantemente reinventadas. A sociedade ocidental contemporânea pode ser
considerada como uma sociedade que vive após a tradição (GIDDENS, 2007).
A estrutura familiar é um lugar onde existe claramente a luta entre a tradição
e a modernidade. Onde isso não ocorre é por conta do peso dos governos autoritários
e grupos fundamentalistas. Há uma certa nostalgia em relação à uma “família
tradicional” como se se tratasse de um santuário perdido. Essa chamada “família
tradicional” é mais uma categoria imaginária que a tudo abrange e trata-se de, acima
de tudo, uma unidade econômica. Nessa entidade, a desigualdade entre seus

63
membros era intrínseca. A reprodução era uma normativa natural e tradicional
(GIDDENS, 2007). Veremos mais adiante as mudanças pelas quais essa “entidade”
passou ao longo dos tempos.
Pode-se, então, afirmar que a estrutura familiar, tal qual se apreende hoje, na
verdade é parte desse constructo que responde e se reinventa, de acordo com sua
experiência histórica e em consonância com os debates e com o dinamismo da
sociedade.
A história será utilizada como ferramenta de análise para demonstrar a
“família” como um produto do seu tempo e para apreender a constituição da “família
burguesa”, como uma forma cristalizada e bastante influente em nosso imaginário.
A palavra “família” advém do latino famulus, expressão que designava a
concepção de família na Roma antiga. De contorno nitidamente patriarcal, essa
organização social era formada por mulher, filhos, escravos, animais de trabalho,
terras, tudo sob o controle do chefe da família (GENOFRE, 1995).
Essa forma familiar romana sofreu mudanças significativas na Idade Média.
Com o desmoronamento de Roma antiga ocidental, a reorganização do espaço sob o
feudalismo e o fortalecimento da Igreja, a formação da família deu-se sob a ótica do
“Direito Canônico” que preconiza o matrimônio como forma de unir duas pessoas
(ZAMBRANO, 2008).
Entretanto, é a partir da Idade Moderna que a estrutura familiar ganha a
configuração que a nossa contemporaneidade assume como natural. Como se deu
esse processo?
Responder a essa questão é fundamental para a compreensão de alguns
fenômenos sociais, tais como: lugar em separado para a infância, privacidade familiar,
intimidade familiar, concentricidade familiar, família sentimental. É entendendo a
família constituída e influenciada por uma rede complexa de fatores sociais que se
pode, não só absorver a sua forma burguesa, como concluir que esta não possui uma
forma acabada, sempre respondendo, às vezes passiva, às vezes reacionária aos
anseios da sociedade contemporânea.
A figura da criança e a concepção da infância modificaram-se muito ao longo
dos tempos e esse tema é crucial para compreender a modificação da estrutura
familiar. Na mitologia antiga, a figura da criança era associada ao homúnculo, ou seja,
o adulto em miniatura, que já tinha as especificações e caracterizações que viria a
desenvolver posteriormente como adulto. Tendo já um determinado caminho a seguir,
64
caso a criança não alcançasse o que se esperava dela na idade adulta, significava
que tinha algum desvio. Ainda na Antiguidade, temos também o mito da criança
associada ao selvagem, um animal que precisa de civilização e domesticação. Por
esse motivo, na Idade Antiga, vemos uma grande ênfase no controle dos impulsos e
desejos infantis, controlando sua corporeidade, desejando que ela se mantivesse sob
disciplina, quieta. Caso isso não ocorresse, ela seria fisicamente punida (ANGERAMI,
2011).
Na Filosofia também encontramos associações feitas à infância muito
parecidas com as mitológicas. Platão, por exemplo, na Filosofia Antiga, classificaria
as crianças, junto às mulheres e aos escravos, como seres irracionais, dominados por
seus desejos e paixões, precisando ser controlados e docilizados pela razão. Para o
filósofo empirista John Locke, já na Idade Moderna, as crianças eram vistas como
tábulas rasas, ideia advinda de Aristóteles, indicando que, sendo vazias, precisavam
ser preenchidas e moldadas de acordo com a imagem do adulto ideal (ANGERAMI,
2011).
Podemos perceber então que, partindo da Antiguidade, vemos uma infância
sendo normatizada e separada do mundo do adulto, que seria um ser superior,
dominado pela razão e amadurecido cognitivamente. Também vemos que a
docilidade e a inocência são próprias da infância, sendo perdidas na idade adulta. Na
Antiguidade não tínhamos o conhecimento que temos hoje sobre a infância. Não se
sabia ao certo o que fazer com esses seres que não eram adultos, nem ao menos
como vesti-los ou como eles deveriam se portar. Exigia-se das crianças um
comportamento normatizado pelos seres mais “desenvolvidos”, ou seja, os adultos
(ANGERAMI, 2011).
A transmissão de valores culturais na Idade Média, passando pela concepção
de infância, fincaram raízes na mentalidade da sociedade que realizava a transição
dos costumes para a modernidade. Nesse período, a criança era associada à
inocência, podendo tanto ser desviada ao pecado ou à beatitude. A imagem de criança
angelical é muito retratada nas imagens pictóricas da Idade Média, sendo associada
ao menino Jesus, aludindo à inocência infantil. Outra associação comum era a criança
como ser demoníaco, remetendo à ideia de que ela deveria ser domesticada e
controlada para atender ao ideal de um futuro adulto (ANGERAMI, 2011).
Por esse ditame intenso, de educar rigidamente, a criança ou o pequeno
adulto, era comum que a instrução, transmissão de valores, se iniciasse entre 7 e 9
65
anos, porém o local de aprendizagem não era a escola, salvo raras exceções de
escolas clericais, e sim em outras famílias. Esse sistema de aprendizagem retirava a
criança de seu próprio lar e a colocava no seio de outra família, responsável por incutir
valores da época. O contato com as formas de socialização do adulto, bem como a
aprendizagem de um ofício, se dava de maneira direta; o saber estava intimamente
ligado ao fazer e a criança era formada para a atuação no mundo exterior ao da sua
família, como demonstra Ariès:

Nessas condições, a criança desde muito cedo escapava à sua própria


família, mesmo que voltasse a ela mais tarde, depois de adulta, o que nem
sempre acontecia. A família não podia alimentar um sentimento existencial
profundo entre pais e filhos. Isso não significava que os pais não amassem
seus filhos: eles se ocupavam de suas crianças menos por elas mesmas, pelo
apego que lhes tinham do que pela contribuição que essas crianças podiam
trazer à obra comum, ao estabelecimento da família. A família era uma
realidade moral e social, mais do que sentimental (ARIÈS, 1981, p. 231).

A partir do século XV, a realidade e o sentimento familiar começam a


apresentar uma lenta e profunda revolução. Esse sentimento é influenciado pela
extensão da vida escolar que, ao manter a criança em sua própria casa, e ao se
generalizar na sociedade, visto que antes era reservada aos clérigos, se configura a
instituição pela qual se garante a passagem do estado da infância ao estado de adulto.
A adesão a esse novo modelo escolar foi se generalizando, ao passo que a sociedade
assumia a noção de que era preciso criar um local em separado do mundo dos adultos
para a infância, o que culmina por aproximar a criança de sua família (ARIÈS, 1981).
A escola surge como uma forma de controlar a infância e transformá-la no
esteriótipo de adulto ideal. Esse governo começa com as igrejas cristãs e depois
extrapola, alcançando outras áreas da sociedade. Assim, a partir do século XVI
começam a emergir as artes de governo, não só para a infância, como para a família
e outras classes organizadoras da sociedade. É uma organização sutil, mas que diz
respeito a um poder delimitado diretamente no corpo dos sujeitos, fazendo com que
ele se torne dócil e obediente, a partir de uma perspectiva foucaultiana de relações de
poder e dominação (ANGERAMI, 2011).
A partir do século XVII, tais procedimentos disciplinares tomam forma de
dominação. A escola tem uma arquitetura que possibilita e facilita a ordenação e o
disciplinar (ANGERAMI, 2011). A organização familiar moderna confundiu-se com a
maneira de educar os filhos na escola; “uma nova concepção de infância colaborou
no surgimento de uma nova ideia de família” (LASCH, 1991, p. 27).

66
Importante também indicar a passagem do casamento arranjado ao amor
romântico como um determinante crucial para a organização moderna da estrutura
familiar. Na sociedade europeia pré-moderna, tínhamos a maior parte dos casamentos
contraídos levando em consideração a situação econômica e não a atração sexual
mútua. Entre as camadas mais empobrecidas, por exemplo, o casamento era uma
forma de organizar o trabalho agrário. “Tem sido relatado que, entre os camponeses
da França e da Alemanha do século XVII, o beijo, a carícia e outras formas de afeição
física, associadas ao sexo, eram raros entre os casais casados” (GIDDENS, 1993, p.
49). O amor romântico começa a fazer sentido somente no final do século XVIII,
introduzindo uma ideia de narrativa de vida individual, de sentido de “eu”, de liberdade
e autorrealização. Essa ideia de “romance” expressa e contribui as mudanças nas
organizações sociais, afetando a vida social como um todo.
Além do fato do romance e da vida escolar que modificaram a estrutura
familiar e favoreceram o contato com os filhos, o hábito de enviar bebês a amas de
leite começou a ser fortemente criticado. Veremos mais detidamente sobre esse tema,
quando falarmos especificamente sobre o contato materno-filial e o papel do chamado
“instinto materno” nessas mudanças sociais da estrutura familiar. Cabe dizer que
filósofos e humanistas argumentavam em favor do contato do neófito com sua mãe.
Apesar de o costume estar fortemente enraizado, observou-se que, no decorrer dos
séculos XVII até o fim do XIX, marco final da amamentação por meio de amas de leite,
os pais não permitiam mais a saída de seus filhos de sua casa; em contrapartida, a
ama de leite passou a morar na casa da criança (ARIÈS, 1981).
Outro fator interno na lógica dessa família que, aos poucos, ia se tornando
mais sentimental que meramente moral e mais moderna que medieval, foi o sentido
de igualdade entre os filhos. Também falaremos sobre esse tema mais adiante, mas
podemos afirmar que a partir da segunda metade do século XVII, por influência de
grupos de educadores, correntes de opinião contrárias à prática de favorecer o
primogênito, em detrimento dos demais filhos, começaram a se difundir. Essa prática
era uma tentativa de encerrar no primogênito todas as possibilidades de ascensão,
para perpetuar o nome da família numa posição de destaque. Contudo, à medida que
a equidade das relações entre pais e filhos se concretiza, a realidade da família passa
de família-casa para família sentimental (ARIÈS, 1981, SINGLY, 2011, BADINTER,
1985).

67
Embora observadas as mudanças internas na estrutura familiar, o modo de
socialização do homem, na transição do mundo medieval para o moderno, ainda era
incompatível com a família sentimental burguesa.
A rua era um lugar de encontro, onde se podiam desfilar as boas maneiras;
entretanto, a França dos séculos XVII e XVIII, não possuía nenhum ponto de reunião
(cafés ou pubs) e as tabernas eram mal afamadas. Os negócios eram desenvolvidos
nas grandes casas das famílias abastadas. Como o trânsito de pessoas era muito
grande e sem hora marcada, a casa não era o lugar da privacidade; era, sim, um ponto
onde se teciam as relações sociais mais diversas. Um aspecto interessante é o fato
de que essas casas não possuíam independência entre os cômodos, tampouco eles
tinham uma finalidade determinada. Era comum instalar acessórios para cozinha em
um cômodo onde estava havendo uma reunião, ou montar uma cama no meio de todo
o tipo de gente (ARIÈS, 1981).
Observa-se forças contrárias coexistindo, à medida que a educação se
generaliza, que a infância passa a ter um lugar em separado do mundo dos adultos,
que os pais cada vez mais zelam pelo seu cuidado e a forma de socialização do lar
apresenta um forte contrassenso a esse movimento que caminha na busca pela
privacidade. Ora, o proprietário da casa ou mesmo seu morador era exposto ao
contato social todas as horas de seu dia o que opunha à formação do sentimento
familiar, pois não havia intimidade. O progresso da intimidade implicou à família a
busca pelo seu espaço reservado. Giddens (1993) afirma que a transformação da
intimidade traz novas possibilidades muito radicalizadoras. As sociedades da
modernidade possuem uma história emocional secreta de buscas sexuais dos
homens, mantidas em oculto de suas identidades públicas, o que incidia diretamente
na organização familiar. Às mulheres cabia a opressão de ser inseridas em relações
completamente desiguais.
A partir do século XVIII, as casas passaram a ter cômodos independentes e
com funções determinadas; “agora, separava-se melhor a vida mundana, a vida
profissional e a vida privada: a cada uma era determinado um local apropriado como
o quarto, o gabinete ou o salão” (ARIÈS, 1981, p. 266).
A reorganização das casas, junto da reforma dos costumes, abriu maior
espaço para a intimidade. Aos poucos foi ganhando força a preocupação com a
saúde, higiene e educação; os filhos passaram a ser tratados de maneira igualitária e

68
criados à parte do mundo dos adultos; a intimidade e a privacidade tornaram a família,
antes extensa, cada vez mais concêntrica e nuclear. Desse modo:

[...] o que verdadeiramente distingue a família nuclear – mãe, pai e filhos – de


outros modelos da vida familiar na sociedade ocidental é um sentimento
especial de solidariedade, a unidade doméstica da comunidade circundante.
Os seus membros acham que têm muito mais em comum uns com os outros
do que com qualquer outra pessoa de fora – gozam de um clima emocional
privilegiado que têm de proteger da intrusão do exterior, através da
privacidade e do isolamento (SHORTER, 1975, p. 221).

Esse modelo familiar difundiu-se tanto que não se percebe sua origem
burguesa em um espaço e tempo determinados. Essa forma de estrutura familiar
sedimentou-se no imaginário ocidental, favorecida pelos ditames morais da religião,
pela prerrogativa do mundo do trabalho, ao ponto que foi irradiada entre várias
gerações e sendo considerada como “normal”, como “natural”, como “tradicional” e
deslocou o debate sobre os problemas da vida em sociedade para problemas
sugeridos pela debilidade da estrutura familiar.

As interpretações das inter-relações passaram a ser feitas no contexto da


estrutura proposta por aquele modelo e, quando a família se afastava da
estrutura do modelo, era chamada de “desestruturada” ou “incompleta” e
considerava-se os problemas emocionais que poderiam advir da
“desestrutura” ou “incompletude”. O foco estava na estrutura da família e não
na qualidade das inter-relações (SZYMANSKI, 1995, p. 24).

Como fruto desse imaginário, o nosso vocabulário está recheado dessas


expressões normatizadoras que ditam o que é “normal”, o que é “natural”, o que vem
a ser “tradicional”. Vemos em nossa sociedade atual, por exemplo, um grande esforço
para se manter o que se entende pela “família tradicional brasileira”. Mas, podemos
vir a nos perguntar: o que seria então essa família tradicional brasileira? De onde
surge essa ideia em nosso contexto específico?
Estamos refletindo acerca da realidade da modernidade e é interessante
pensar como essa prerrogativa ocidental esteve presente aqui em nosso contexto. Em
um primeiro momento, podemos vir a refletir novamente sobre a ideia de “tradição”,
que já foi posta anteriormente. Sabendo que o “tradicional” é mais recente do que se
possa imaginar (GIDDENS, 2007), cabe perguntar: por que e como esse modelo foi
se inserindo e se firmando a ponto de ainda existir tão fortemente hoje?
De acordo com historiadores, a estrutura familiar brasileira seria o resultado
da colonização das famílias portuguesas, gerando um modelo de característica
patriarcal e conservadora. Esse modelo é genericamente chamado de “patriarcal” e

69
serviu de base para a estrutura familiar em contexto brasileiro. Samara (1983) afirma
em seu estudo sobre o tema:

Segundo a literatura, no Brasil, desde o início da colonização, as condições


locais favoreceram o estabelecimento de uma estrutura econômica de base
agrária, latifundiária e escravocrata. Essa situação, associada a vários
fatores, como a descentralização administrativa local, excessiva
concentração fundiária e acentuada dispersão populacional, provocou a
instalação de uma sociedade do tipo paternalista, onde as relações de caráter
pessoal assumiram vital importância (SAMARA, 1983, p. 10).

A “família patriarcal” era a base desse amplo sistema e suas características


de composição e relacionamento entre os membros acabava fortalecendo a ideia de
que a autoridade paterna era suprema, e os parentes, solidários entre si, viviam
dependentes dela. Todos viviam juntos sob o mesmo teto, incorporando ao seu núcleo
central diversos componentes, de diversas origens que mantinham as mais variadas
relações com o pai, a mãe e os filhos legítimos. Esses laços poderiam ser de
parentesco, trabalho ou amizade. Anexavam a esse núcleo da estrutura familiar outros
elementos, tais como os filhos ilegítimos, parentes, serviçais, amigos, escravos o que
leva a literatura a conceber essa “família patriarcal” como “família extensa” (SAMARA,
1983).
Esse tipo de organização da estrutura familiar necessariamente enfatizava a
autoridade do marido, colocando a mulher no papel restrito do âmbito da família,
sendo que ela passava da tutela do pai para o marido, cuidando dos filhos e da casa
em sua função doméstica. Vejamos abaixo o modelo de “família patriarcal”:
Figura 1 Família patriarcal
Família Patriarcal

Estrutura Dupla

Núcleo Central Camada Periférica

Casal Afilhados Escravos

Parentes
Homem Mulher Concubina

Agregados Amigos
Filhos Ilegítimos

Noras Filhos Legítimos Genros


Outros Grupos

Trabalhadores Livres e
Descendentes Vizinhos Migrantes

Roceiros Sitiantes Lavradores

Fonte: SAMARA, 1983, p. 15.

70
Mas, segundo Samara (1983), não era somente a “família patriarcal” ou
“família extensa” que predominava no território brasileiro. A autora indica que a família
paulista se organizava de outra forma, e a família do tipo extensa representava apenas
um segmento da população. Assim, as famílias paulistas, entre os séculos XVII e XIX,
não apresentavam a mesma característica de composição de outros lugares do país,
como do Nordeste brasileiro, por exemplo. A ilegitimidade tomava um local central na
organização da estrutura familiar paulista, dando lugar para os concubinatos e o
próprio celibato. A articulação desses tipos de estrutura familiar estava diretamente
ligada aos interesses econômicos da sociedade. Predominavam na sociedade
paulista as famílias nucleares com poucos integrantes. A despeito disso, essas novas
organizações não significaram um rompimento das relações do tipo paternalistas que
ainda estavam presentes de forma muito sedimentada.

É evidente, portanto, que a família patriarcal deixou na sociedade resquícios


da sua organização, o que não significa que possa ser considerada ainda
como o único modelo institucional e válido que sirva para caracterizar a
família brasileira de modo geral. Assim, também perdem a eficácia vários
outros conceitos ligados à mesma concepção de família (SAMARA, 1983, p.
84).

Assim, podemos compreender que a organização da estrutura familiar


brasileira seguia os ditames da organização europeia, tendo em seu bojo as relações
paternalistas, o foco patriarcal, embora não esteja sempre organizada da mesma
forma, oscilando entre alguns diferentes tipos de organização. Porém, Samara (1983)
indica que as famílias brasileiras eram fruto de uma organização social e econômica,
sendo influenciada pela classe burguesa europeia. Sendo assim, a estrutura familiar,
seja extensa, nuclear ou patriarcal, é uma organização burguesa.
Entretanto, a forma assumida pela estrutura familiar burguesa é a
acabada? Seria ela inacessível às mudanças econômicas e culturais da
sociedade ou, pelo contrário, o contorno da vida social faria pressão para
continuar compondo o seu quadro?
Para responder a essa pergunta, é preciso ter em mente que nem bem a
família burguesa atinge o seu florescimento, no século XIX, na Europa, século de
consolidação da Revolução Industrial, já começa a decair, segundo seus preceitos de
ascensão, no curso do próprio século.
Há que se acrescentar no curso final do século XIX e no começo do século
XX, o discurso construído pela linha higienista da medicina, que penetrou os espaços

71
da estrutura familiar. Essa preocupação médica vinha ao encontro do interesse em
difundir um arcabouço de condutas condizentes com a vida urbana, signo da
revolução industrial. Não por acaso, o conjunto de normas que visavam a disciplinar
a família, era antagônico ao período predecessor, influenciando-a no âmbito de seu
próprio lar (COSTA, 1999). Veremos esse desenrolar do saber médico no âmbito
familiar mais adiante, quando falarmos especificamente do papel da maternagem
atribuído à mulher.
O lar aparecia, então, como refúgio de um mundo bastante frio, comercial e
competitivo. A vida privada e a domesticidade ganharam valor na mesma medida que
o trabalho se tornou especializado e mecânico. A recompensa não estava mais no
próprio trabalho, mas fora dele, no consumo. Esse estado de coisas reflete na
estrutura familiar porque, concêntrica e nuclear, cobra da mulher o papel de educação
de seus filhos (LASCH, 1991). Ao passo que a mulher se especializa para educar e
para responder também aos seus próprios anseios, a estrutura familiar deixa de
resolver as suas próprias expectativas, contrariando mesmo o discurso higiênico que
argumentava que, pelo tamanho do cérebro, era possível inferir que o homem era
dado ao trabalho intelectual e a mulher ao doméstico (LASCH, 1991; COSTA, 1999;
SINGLY, 2011).

Desta maneira, a domesticidade burguesa deu lugar à sua antítese: o


feminismo. A domesticação da mulher provocou uma desordem geral,
encorajando-a a manter aspirações que o casamento e a família não podiam
satisfazer. Essas aspirações se converteram em um importante ingrediente
da assim chamada crise do casamento que começou a se desenvolver no
final do século XIX (LASCH, 1991, p. 28).

Mas o “higienismo”7 não versou apenas sobre a conduta da mulher, como


veremos detalhadamente adiante. Preocupado com uma saúde social idealista, ele se
ocupou da estrutura familiar como um todo para desenvolver suas prerrogativas. Para
tanto, versou sobre a necessidade do cuidado com o corpo que, disciplinado pelo
exercício, afastaria as mazelas da doença. Sobre a união, criticou duramente o
casamento do tipo arranjado, sob o argumento principal de que em um lar onde não
existe um amor consensual, os cônjuges mantêm relações extraconjugais, atraindo
para o núcleo familiar as doenças venéreas. Dessa maneira, buscou controlar os

7
No fim do século XIX e início do XX, surgia uma nova mentalidade que se propunha a cuidar da
população, educando e ensinando novos hábitos. Convencionou-se chamá-la de “movimento
higienista”.

72
impulsos sexuais dos indivíduos e reorientá-los à família. Em relação às crianças,
buscou combater o “onanismo”, prática que poderia reduzir o potencial intelectual da
criança.
Costa (1999), analisando a constituição da família burguesa, no
desenvolvimento do amor à criança, conjuntamente com o aumento do rigor do
discurso médico, afirma que:

Na família conjugal moderna, os pais dedicam-se às crianças com um


desvelo inconcebível nos tempos coloniais. No entanto, e este é um aspecto
fundamental, de maneira permanentemente insatisfatória. Perante os novos
técnicos em amor familiar, os pais, via de regra, continuam sendo vistos como
ignorantes, quando não doentes. (...) Na família burguesa os pais jamais
estão seguros do que sentem ou fazem com suas crianças. Nunca sabem se
estão agindo certo ou errado. Os especialistas estão sempre ao lado,
revelando os excessos e deficiências do amor paterno e materno (COSTA,
1999, p.15).

Vimos, portanto, que, ao lado da família, houve um desenvolvimento de ideias


que acabaram por desautorizar a própria organização familiar, devendo esta se render
à normatização da conduta “higiênica”.
Mas nem a domesticação da mulher, nem o peso do discurso higienista
conseguiram manter a unidade da família nuclear burguesa intacta às mudanças
culturais, que culminaram com nivelamento entre os gêneros, e aos desejos de
ascensão profissional da mulher.
Lasch (1991), analisando a sociedade norte-americana do final do século XIX
e começo XX, relata que a crise do casamento foi acompanhada pelo declínio da
natalidade e aumento do número de divórcio. Também as mulheres justificavam seu
ingresso no mercado de trabalho pela igualdade entre os gêneros e pelo desejo de
consumo. Há que acrescentar que esse ingresso no mercado de trabalho deveu-se
também a fatores externos, tais como as duas Guerras Mundiais e períodos de
aquecimento econômico.
Samara (1983), quando analisa a sociedade brasileira, indica que, a partir do
século XVIII, já havia casais de diversas camadas sociais que se divorciavam,
situação que era entendida pela Igreja e pelo Estado de forma legal, como separação
de corpos e bens. Em São Paulo, o registro mais antigo que diz respeito ao divórcio
data de 1700. Durante o período colonial, esse assunto era de responsabilidade da
Igreja e, após a independência, em 1822, as sentenças de divórcio ainda eram
executadas pela Justiça Eclesiástica. A partir de 1890, aparecem os primeiros casos

73
encaminhados ao Tribunal de Justiça Civil e a regulamentação só acontece em 1891,
embora os laços do matrimônio ainda continuassem indissolúveis para a Igreja. De
forma geral, as mulheres moviam mais ações de anulação de casamento e de divórcio
do que os homens.
O novo papel que a mulher começou a assumir nesse período, e segue
desenvolvendo na contemporaneidade, abre novamente o debate sobre a estrutura
familiar. No artigo, “O Papel da Mulher no Contexto Familiar: uma breve reflexão”, as
autoras, Juliana Borsa e Cristiane Feil (2008), discorrem sobre o fato de que a
inserção das mulheres no mundo do trabalho, a crescente mobilidade na cultura
ocidental, aliada a métodos contraceptivos e à possibilidade de divórcio, trouxeram
alterações para a vida pública e privada. Esses fatores contribuem para o declínio do
modelo dito “tradicional” de família a tal ponto que as diferenças de gênero são
diluídas na execução das tarefas domésticas, lembrando que o modelo sugerido é
verificado em estruturas familiares de classe média.
A pretensão da exposição acima é trazer uma questão que está além da
problematização das diferenças de gênero. Com essas mudanças culturais e
sociais, como a família contemporânea garante a reprodução de seu modelo, o
processo de socialização?
É possível observar na nossa sociedade os crescentes locais de educação e
socialização suprafamiliar. Assistimos à ocorrência da repartição do processo de
socialização por diferentes agências ou instituições sociais. Estudiosos afirmam que:

O crescimento das profissões assistenciais, educacionais e de saúde termina


por tirar dos pais e da família qualquer autoridade na reprodução. Os pais
abdicam de seu juízo e emoções em prol do conhecimento técnico dos
especialistas. A autoridade se impõe de fora para dentro e os efeitos são
vários, tanto do ponto de vista sociológico quanto psicanalítico (BILAC, 1995,
p. 33).

É possível destacar que a estrutura familiar contemporânea, que encontra seu


embrião na família moderna, nuclear e burguesa, vive, desde sua germinação,
mudanças de paradigmas a despeito dos modelos normatizadores e higienistas
impostos pela Igreja e pelo Estado.
Na contemporaneidade, a constituição familiar não retificou os preceitos
higiênicos. Pelo contrário, o casamento e o desejo de partilhar uma vida a dois,
deixaram de ser condições para torna-se pai e mãe, bem como exclusividade dos

74
arranjos heterogêneos. Veremos acerca dessas novas configurações familiares mais
adiante na presente tese.

2.1 A estrutura familiar na era Moderna e Pós-Moderna

A família “tradicional”, caracterizada pelo patriarcado e pelo casamento como


um contrato econômico, cria, a partir do século XIX, a família moderna (SINGLY,
2011). A liberdade de escolha amorosa, a valorização do afeto e do bem estar,
inerentes a um processo de individualização, transformaram a família, a conjugalidade
e a parentalidade. O processo de construção da individualidade moderna trouxe à
tona a sentimentalização, a privatização e a desinstitucionalização da vida familiar.
Essa sentimentalização das relações conjugais e familiares traz a valorização das
escolhas afetivas, dando espaço de intimidade para a família moderna. A justificativa
para essas pessoas ainda buscarem estar juntas é o amor (ABOIM, 2006; GIDDENS,
1993 e 2007; SINGLY, 2011; TORRES, 2006).
No modo de funcionar da estrutura familiar do século XVIII e XIX, o casal não
ocupava o centro do sistema, pois ele cedia lugar para a intromissão de parentes, de
vizinhos e da comunidade. A chegada da estrutura familiar da modernidade abre
espaço para o amor se tornar o centro da vida familiar. Também a infância foi
privatizada; assim, as crianças tornaram-se uma expressão do amor conjugal.
Atualmente, a decisão de ter filhos relaciona-se mais às necessidades psicológicas e
emocionais do casal, do que herança patrimonial (SEGALEN, 1999; GIDDENS, 1993,
2007).
A infância, hoje em dia, tem um papel de destaque em relação ao que era na
Antiguidade. O período cronológico da infância é reconhecido, bem como há toda uma
legislação para garantir seus direitos e assegurar seus deveres (ANGERAMI, 2011).
Singly (2011) reconhece dois momentos importantes do processo de
modernização das famílias. O autor irá instituir uma estrutura familiar da primeira parte
da modernidade que vai até meados dos anos 60 e outra estrutura familiar após anos
60. A primeira organização familiar é caracterizada pelo amor conjugal e a atenção
dada à criança, mas ainda marcada pela forte divisão de gênero, ou seja, mulheres
como donas de casa e os homens como chefes de família. Já a organização familiar
da segunda parte da modernidade (pós anos 60), caracteriza-se pelo início do
processo de individualização e pela tensão entre amor e casamento. Se, durante a
75
primeira parte da modernidade, acreditava-se que o casamento e as relações de afeto
reforçavam-se mutuamente, após os anos 60 esta crença cai por terra (GATO, 2014).
Até a década de 1960, ninguém precisava falar de “relacionamentos”, nem de
intimidade e compromisso. O próprio casamento era o compromisso. Segundo
Giddens (2007), há três áreas em que a comunicação emocional e, por conseguinte,
a intimidade estão tomando o lugar dos velhos laços de compromisso matrimonial de
outros tempos: os relacionamentos sexuais e amorosos; os relacionamentos pais-
filhos e a amizade. Giddens (2007) traz a ideia de “relacionamento puro” que diz
respeito a essas esferas. Ele designa esse relacionamento como aquele que é
baseado na comunicação emocional, em que as recompensas derivadas dessa
comunicação são o principal motivo para a continuação da mesma. Para o estudioso,
trata-se de um “relacionamento puro”, idealizado, que serve apenas como categoria
de análise para algumas dessas mudanças. A comunicação e a intimidade estão se
tornando a chave para todos os relacionamentos.
As relações familiares perdem um pouco sua valorização institucional e
começam a valorizar a satisfação que pode trazer para os seus membros. Diante
desse novo advento, temos uma queda significativa nos índices de natalidade e
nupcialidade e o aumento do divórcio, da coabitação e da participação das mulheres
no mercado de trabalho (SINGLY, 2011). Fatos estes que veremos, em breve, com
os dados do último Censo Brasileiro de 2010 – IBGE.
Como sinaliza Aboim (2006), apesar do aumento da individualização e das
mudanças da família, este processo não deve ser compreendido de qualquer forma:

[...] a liberdade amorosa não quebrou as cadeias da homogamia social, a


busca da igualdade de gênero não acabou de vez com a dominação
masculina, a separação entre família e produção econômica não fez da
primeira um lugar expressivo de manifestação de afeto e busca identitária
(ABOIM, 2006, p. 42).

Gato (2014) ressalta que os aspectos da modernidade misturam-se com os


aspectos da “família tradicional”, portanto, não temos uma ruptura absoluta com a
construção social da “família nuclear”, como vimos acontecer nos relatos de Samara
(1983) sobre a estrutura familiar brasileira. As diversas formas de organização familiar
vão coexistindo e se transformando mutuamente.
Apesar de todas estas transformações, o valor da instituição familiar continua
sendo uma das formas de realização das pessoas. Mesmo diante de todas essas
mudanças que estão ocorrendo no contexto das estruturas familiares, a organização

76
familiar ainda traz uma importante dimensão afetiva e de bem estar. Valores e normas
continuam sendo variáveis que habitam as estruturas familiares contemporâneas
(SKOLNICK e SKOLNICK, 2005).
Segundo Hironaka (2006), esta “nova família pós-moderna” não é melhor, e
tampouco pior, do que os modelos de estrutura familiar do passado, mas, certamente,
é bastante diferente, principalmente quando falamos em estrutura de poder e afeto.
Para a autora, essa mudança pode ser traduzida da seguinte forma:

[...] pois como num rio, as pedras que se esparramam pelo seu leito são
distintas, se comparadas as mais próximas de sua origem ou nascente com
aquelas que já estão mais próximas de sua vertente para o mar, de seu lugar
de desaguar, enfim. As primeiras, mais cheias de arestas e mais rústicas são
distintas destas últimas, mais roliças e menos agressivas que aquelas.
Ambas são extraordinariamente belas, com valor próprio, com distinção
intrínseca, com finalidade e papéis muito claros. Mas são distintas, pois a
água do rio, de tanto passar, modifica a forma e modela-lhes o perfil
(HIRONAKA, 2006, p. 154).

Modelos de famílias, ancestrais, feudais, modernas e pós-modernas, todas


elas deixam um pouco de si e carregam um pouco dos modelos anteriores. Mas do
que se trata então essa “família pós-moderna”? Em que medida esse novo
modelo recepciona ou afasta o viés positivista de análise das relações
familiares?
Esta discussão não tem por objetivo oferecer todas as respostas, mas sim de
descortinar alguns posicionamentos, trazer esclarecimentos e chamar à reflexão de
pontos importantes, principalmente à introdução da estrutura familiar homoparental.
Reflexões assim têm sido cada vez mais aclamadas, principalmente para dar conta
dos desafios da vivência da área da Psicologia diante dessas (novas) estruturas
familiares. Como Hironaka (2006) aponta:

[...] não se trata, advirta-se desde logo, de apenas uma nova moda por meio
da qual se inventa como se lançar o olhar por sobre os mesmos fenômenos,
ou instituições, ou situações de antes. Mas trata-se, diferentemente, de
atender à urgência – que resulta da prática da vida (...) de se construir um
perfil distinto de análise e apreciação das consequências que o estar-no-
mundo faz acontecer (HIRONAKA, 2006, p. 156).

Para a compreensão das mudanças que vieram com as novas organizações


familiares na pós-modernidade, se faz necessário o desapego de formulações do
passado. Não significa dizer que o agora está melhor ou pior, mas que as mudanças
existem e é impossível tapar os olhos frente a elas. Estas mudanças, segundo
Hironaka (2006), vieram para ajudar na reconstrução do pensar humano, seja pela

77
erosão de valores, pela alteração de parâmetros de comportamentos, pela
decrepitude e pela inadequação das instituições aos desafios presentes.
A pós-modernidade rompeu com as “verdades absolutas” de um tempo
positivista, tais como o liberalismo e o marxismo. Segundo Giddens (2007), a
chamada “globalização”, tida para muitos como o marco da pós-modernidade, não é
somente nova em si, mas também pode ser considerada revolucionária. Essa
revolução se dá em termos políticos, econômicos, culturais e tecnológicos e, portanto,
incidem diretamente sobre todas as formas de organização social. Dessa forma, as
visões antagônicas se multiplicaram na sociedade, refletindo como essência da
contemporaneidade. Tal movimento trouxe um confronto entre os paradigmas da
modernidade e os da pós-modernidade e, muitas vezes, ambos tornaram-se
ambíguos.
As organizações familiares de hoje e as de antes, sob o ponto de vista da
cena, papéis, significância, valores, certamente são muito distintas. Ainda não se sabe
ao certo se todas essas mudanças são boas ou ruins e, talvez, nem possamos valorá-
las dessa forma. Porém, como pesquisador, posiciono-me em prol da pós-
modernidade, que abre espaço para cada um de nós descobrir outras maneiras de
ver o mundo e de colocar-se nele. Com todas essas mudanças, novas ideias e
concepções que emergem dão espaço e relevância para uma pesquisa como esta, ou
seja, pesquisar as organizações familiares homoparentais é mais uma forma de
acompanhar as mudanças sociais e contribuir para a evolução das pesquisas em
Psicologia Clínica – Família e Comunidade.
A pós-modernidade ampliou a valorização do prazer e dissociou a noção do
dever, enfraquecendo a moral dos séculos XIX e XX. Muitas das “posturas ilegítimas”,
que foram condenadas pelo moralismo sexual como, por exemplo: relações sexuais
casuais, prática sexual na velhice, masturbação, possibilidade do orgasmo para as
mulheres, poliamor e a prática sexual (entre outras formas de afetividade), foram
perdendo força e libertando as pessoas do peso do pecado; além disso, trouxe a
possibilidade das pessoas escolherem suas preferências e procurarem, sem
influência dessas amarras sociais, novos caminhos para a realização de projetos
pessoas e de felicidade (GIDDENS, 1993, 2007; HIRONAKA, 2006).

Assim, as estruturas familiares, no século XXI, inserem-se em um contexto


triplo: a) o patriarcado deixou de ser a norma e tornou-se ilegítimo no mundo
todo, a partir dos Tratados e Convenções da ONU, que propugnam a

78
eliminação de todas as discriminações contra as mulheres; b) fim da
“padronização industrial” da ordem sociossexual e a retomada da
complexidade da dinâmica familiar: casamento e não-casamento, idades
variáveis ao casar, coabitação, uniões informais, temporárias e do mesmo
sexo, nascimentos extramaritais, não-nascimentos etc c) declínio da
fecundidade e transformação das estruturas etárias das populações (ALVES,
2010, p. 9).

Dados do último Censo Brasileiro - IBGE (2010) - mostram que a estrutura


familiar brasileira também vem mudando ao longo do tempo.
Um novo recorte do Censo 2010, divulgado pelo IBGE, mostra um retrato
detalhado da chamada “família brasileira”. O estudo mostra as características
observadas nas “famílias pós-modernas brasileiras”, reflexo da mudança estrutural
dos grupos familiares, da maior participação da mulher no mercado de trabalho, das
baixas taxas de fecundidade e do envelhecimento da população. Além disso, este
último censo trouxe informações importantes sobre a disposição dos brasileiros para
iniciar um novo relacionamento conjugal após o casamento (vida a dois).
Podemos constatar que parte desses resultados ganharam maior força com a
mudança da legislação que simplificou o processo do divórcio. Além disso, o IBGE,
pela primeira vez, analisou as famílias reconstituídas, ou seja, todos aqueles núcleos
familiares que foram constituídos depois de um processo de separação ou falecimento
de um dos cônjuges. Esses grupos representam 16,3% do total de casais que vivem
com filhos, sendo eles de apenas um dos companheiros ou de ambos. São mais de
4,4 milhões as famílias com essas características - o restante, quase 84%, é formado
por casais com filhos do marido e da mulher, vivendo juntos, no momento da pesquisa.
A composição de casais com filhos ainda representa a maioria das famílias
brasileiras, apesar da queda significativa nessa fatia da população: foi registrada
redução de 63,6%, em 2000, para 54,9% em 2010.
O IBGE (2010), também mostrou que, apesar de os solteiros ainda
responderem por mais de metade da população, 55,3%, entre as pessoas com 10
anos de idade ou mais, foi entre os divorciados o maior aumento observado de uma
década para outra: o índice quase dobrou do levantamento feito em 2000 para o atual,
passando de 1,7% para 3,1%. Se somados com o número de desquitados e
separados judicialmente, esse grupo chega a quase 5% dos brasileiros (VEJA, 2012).

79
Figura 2 – Novas Famílias

Fonte:<http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/a-nova-familia-brasileira-ibge/>

Fator importante nos dados apresentados pelo IBGE (2010), é que esta nova
configuração familiar apresentou um aumento significativo na participação das
mulheres como responsáveis pelas famílias, além de 62,7% declarar que seu
rendimento ajuda diretamente no sustento da casa. É a confirmação de que as
mulheres vêm alçando novas posições nas camadas sociais e conquistando o seu
lugar de atriz social (ativa).

80
Figura 3 – Famílias

Fonte:<http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/a-nova-familia-brasileira-ibge/>

Além disso, segundo o IBGE, o Brasil tem mais de 60 mil casais


homossexuais, segundo dados preliminares do Censo Demográfico 2010. Essa foi a
primeira edição do recenseamento do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE) a contabilizar a população residente com cônjuges do mesmo
sexo. Ainda de acordo com os resultados preliminares, 37.487.115 casais são
formados por pessoas de sexo oposto. Em números absolutos, a região com mais
casais homossexuais é o Sudeste, que abriga 32.202 casais, seguida pelo Nordeste,
com 12.196 casais. O Norte tem o menor número de casais do mesmo sexo: 3.429,
seguido do Centro-Oeste, com 4.141. A Região Sul tem pouco mais de 8 mil casais
homossexuais. Entre os estados, São Paulo é o que tem a maior quantidade de casais
homossexuais (16.872) e Roraima é o que tem menos, com apenas 96 casais que se
declararam homossexuais.
O IBGE divulgou ainda, em 2016, as “Estatísticas do Registro Civil” do ano
anterior, ou seja, de 2015, onde lemos os seguintes dados:

As uniões legais entre cônjuges de sexo diferentes aumentaram 2,7%,


enquanto que os de cônjuge do mesmo sexo 15,7%, representando 0,5% do
total de casamentos registrados. Importante ressaltar que, em 2013, o
Conselho Nacional de Justiça - CNJ, aprovou a Resolução n. 175, a qual
determina a todos os Cartórios de Títulos e Documentos no território brasileiro
a habilitar ou celebrar casamento civil ou, até mesmo, de converter união
estável em casamento entre pessoas de mesmo sexo. Em relação a 2013,
as uniões civis entre cônjuges do mesmo sexo aumentaram 51,7% (IBGE,
2016, p. 28).

81
Segundo os dados do IBGE, temos 14,100 registros de casamentos
homoafetivos desde 2013, sendo 51,9% entre mulheres e 48,1% entre homens.

Figura 4 – Casamento homoafetivo

Fonte:< https://exame.abril.com.br/brasil/um-raio-x-dos-casamentos-lgbt-no-brasil/>

Ainda de acordo com o Instituto, a idade média ao firmar um matrimônio varia


entre 31 e 36 anos entre os homens e 32 e 34 entre as mulheres, tendo como idade
média geral 34 anos para ambos.

Figura 5 – Idade média dos casamentos homoafetivos

Fonte:< https://exame.abril.com.br/brasil/um-raio-x-dos-casamentos-lgbt-no-brasil/>

Como pode ser visto no infográfico, os cinco estados com maior proporção no
crescimento dos casamentos homoafetivos entre os anos de 2013 e 2015 são
Amazonas, Maranhão, Sergipe, Rio de Janeiro e Roraima. Embora em termos
comparativos estes estados se destaquem, o número total de casamentos que eles
realizaram é de 1.543, ou seja, representam pouco mais de 10% dos casamentos
realizados no território nacional. Já no estado de São Paulo concentra-se mais de 1/3
dos casamentos. Pode-se observar ainda que a região Sul e Sudeste concentram
mais de 64% dos casamentos homoafetivos realizados no ano de 2015.

82
Figura 6 – Mapa do casamento homoafetivo no Brasil

Fonte:< https://exame.abril.com.br/brasil/um-raio-x-dos-casamentos-lgbt-no-brasil/>

Mas como essas “famílias homoparentais” estão funcionando? Quais os


estudos e a visibilidade acadêmica de tudo isso? Deixamos tais questões para serem
discutidas juntamente com outros pontos, em um tópico posterior.

83
2.2 Família homoparental

Até aqui vimos como a estrutura familiar vem se modificando ao longo dos
tempos, de forma não linear, de acordo com as modificações sociais, culturais e
econômicas. Deparamo-nos com a “família” em um estado totalmente diferente do
que foi em determinado momento e conjuntura histórica concebido como “natural”,
“normal” ou “tradicional”.
Estamos em um tempo contemporâneo que é chamado “pós-moderno” e
caracterizado pela liquidez e pela fluidez das relações e das instituições, como nos
diz Bauman (2001). Essas transformações, pelas quais passaram o mundo a partir da
globalização, formam um conjunto complexo de processos que não podem jamais ser
visto como singular. Esses processos funcionam, como vimos, de forma contraditória
e antagônica (GIDDENS, 2007).
Em um momento de mudanças rápidas e multiformes, nos achegamos da
estrutura familiar contemporânea, pós-moderna. Alves (2010) discorre em um texto
para o IBGE acerca da “Família DINC no Brasil”. A sigla quer dizer: duplo ingresso,
nenhuma criança, como retrato de boa parte da configuração familiar do Brasil na
contemporaneidade. Ele afirma sobre esse retrato:

Na sociedade pós-moderna, não há mais condições de se manter a


padronização fordista. A família não é uma linha de montagem em que um
casal heterossexual “fabrica” filhos padronizados que vão gerar filhos, netos
e bisnetos que viverão “como os nossos pais”. A família na sociedade pós-
industrial e pós-fordista difere das suas congêneres modernas pelas
alterações nas relações entre os gêneros e entre as gerações. Difere também
pelo tipo de inserção na divisão social e sexual do trabalho. As mulheres
deixam de ser simplesmente as esposas, ou sombras dos maridos, assim
como os filhos adquirem uma mobilidade social e espacial sem precedentes
(ALVES, 2010, p. 32).

Nessa nova configuração familiar, que difere e muito da configuração


moderna, podemos então falar do nosso objeto de estudo, que é a “família
homoparental”. Segundo Vilhena et al. (2011), foi ao final dos anos 90 que surgiram
os primeiros debates acerca da questão da “família homoparental”. O termo,
homoparentalidade, conforme dito anteriormente, é um neologismo criado em 1996,
na França pela APGL – Association des Parents et Future Parents Gays et Lesbiens,
para direcionar todas as questões relacionadas à parentalidade e à
homossexualidade.

84
Conforme Giddens (1993), e conforme já indicamos anteriormente, os gays e
lésbicas podem ser considerados pioneiros da sexualidade plástica, sem fim de
reprodução. À medida que os arranjos sentimentais seguiram a ideia do romance, as
demais camadas da população acabaram seguindo esse caminho de vanguarda
homossexual. Conforme vimos com Alves (2010), hoje não temos mais a configuração
familiar de “produção” de prole, por quaisquer motivos. Por outro lado, os casais
homossexuais começam a solicitar para si o que anteriormente era um legado
heterossexual: o direito da paternidade.
Cecarelli (2007) discorre acerca das novas configurações familiares e os mitos
e verdades sobre elas. Ele parte da hipótese de que tais novas (mas não tão novas
assim) configurações sugerem uma ameaça à noção da família vigente na cultura
ocidental. De um ponto de vista psicanalítico, o autor afirma que a sociedade viveria
obrigatoriamente um luto das antigas posições libidinais. O autor faz, a partir de uma
breve retrospectiva histórica, uma demonstração de como a sociedade sempre reagiu
com resistência, medo e suspeita às mudanças, pois elas obrigavam que fosse
reorganizado simbolicamente o real. De um ponto de vista psicanalítico, a “família”,
como significante, é composta por fatores conscientes e inconscientes. Há efeitos da
ordem no simbólico, na cultura, que respondem a essas transformações
contemporâneas.
A filiação é um fato social e político que responde ao nascimento, como fato
físico e leva a uma organização simbólica, como fato psíquico, para toda e qualquer
criança que nasça. Esses três fatos guardam uma noção de codependência entre
eles. Nos modelos familiares ditos “tradicionais”, havia lugares predefinidos a serem
ocupados pelos pais, homem e mulher, para dar sustento a essa organização na vida
da criança a ser inscrita na estrutura familiar. Mas tal organização, como fruto da
ordem social em que está inserida, fluiu e as novas organizações familiares produzem
um modo de circulação pulsional diferente do criado pelo modelo tradicional
(CECARELLI, 2007).

Entende-se, por um outro caminho, por que as novas organizações familiares


ameaçam a hegemonia do modelo de família tradicional, provocando reações
tão truculentas: o que está, no fundo, sendo ameaçado é a posição libidinal
que sustenta a representação de família no imaginário judaico-cristão, ou
seja, as ideias culturais. Os novos modelos de família, além das “ameaças”
que provocam, não encontram (ainda) nenhuma representação (Vorstellung)
pulsional no discurso social para respaldar-se. (CECARELLI, 2007, p. 96)

85
Mas não existe uma forma de organização familiar ideal, que possa indicar
como a circulação libidinal deve acontecer para uma constituição do sujeito mais sadia
ou mais patogênica. A heterossexualidade e a forma de família “tradicional”, como
produtora de sujeitos “normais” e “sadios”, não passa de uma idealização da posição
libidinal. O que a criança precisa, de acordo com a hipótese de Cecarelli (2007), não
é de um modelo de arranjo familiar ideal, mas de como, na posição de Outro (“grande
outro” na teoria lacaniana), uma determinação de organização familiar a sustenta.
A despeito da teoria lacaniana, ou de qualquer outra teoria psicanalítica,
podemos afirmar que, vencendo as barreiras e a sensação de “ameaça”, as novas
organizações familiares, dentre elas a homoparental, vem crescendo em visibilidade
na sociedade contemporânea. Em visibilidade, dizemos, pois sempre existiram
organizações diferentes da dita “tradicional” (GIDDENS, 1993 e 2007; CECARELLI,
2007). No cenário brasileiro, é notório que há um aumento da visibilidade das famílias
homoparentais. Ainda que, por vezes, essa visibilidade, principalmente midiática, ao
invés de informar e propor reflexões acerca do tema, utilize de sensacionalismo para
angariar novos espectadores. Mesmo assim, temos o tema na pauta das políticas
públicas e no cenário acadêmico (TEMPERINI, 2012).
Surgem algumas questões diante desse novo cenário. Podemos considerar
os casais homoafetivos como uma família? O que o conceito de família implica no
desenvolvimento emocional das crianças e jovens, filhos dos casais homoafetivos? E,
ainda, é desejável que se considere as organizações homoparentais como “família”?
Fazendo um caminho inverso, buscando responder partindo da última
questão, apresentamos o pensamento de Sasha Roseneil (ROSENEIL e BUDGEON,
2004; ROSENEIL, 2005; ROSENEIL, 2006 e; ROSENEIL 2007), autor transexual que
faz uma análise queer das relações pessoais no século XXI. O autor questiona em
seu artigo, que é uma síntese de suas teorias expostas em outros escritos, se é um
ganho considerar as ligações homoafetivas como sendo consideradas “família”, no
sentido “tradicional” do termo. A crítica realizada pelo autor nos leva a pensar se a
necessidade do reconhecimento social com o estatuto de “familiar” não seria um
retrocesso no próprio interior dessas relações, como se fosse um “adequar-se” aos
modelos heteronormativos de outrora. Sua tese é a de que se deve pensar para além
da família heteronormativa, por conta das práticas sexuais não-normativas, que
estariam necessariamente dentro das relações homossexuais. Para o autor, desejar
considerar a estrutura homoparental como família, requisitando da sociedade um
86
reconhecimento, criando filhos/as, parte de um imaginário presente, e que precisa ser
reformulado, de que o casal heterossexual é um modelo.
Roseneil (2006) afirma que existe uma tendência para o fim da centralidade
das heterorrelações no plano social e individual e isso pautaria até mesmo nas
organizações familiares “homoparentais”. A hegemonia “heterorrelacional” vem
perdendo força, e, na tese do presente autor, a amizade, como uma “comunidade de
eleição”, estaria se tornando muito mais importante e central do que o “casal” e a
“família”. Poucas pessoas considerariam a coabitação como inevitável e desejável e,
assim, as definições de “família” seriam atualizadas necessariamente. Em
contraponto, muitos “homossexuais” optam por viver em casa, em coabitar e ter filhos.

À medida que, cada vez mais, a vida íntima transcende não só a categoria
“família”, mas também o modelo do casal, certas práticas que antes poderiam
ser vistas como claramente “homossexuais” – como sejam colocar a amizade
no centro das nossas vidas e rejeitar a convencional conjugalidade em
coabitação – estão a tornar-se cada vez mais difundidas (ROSENEIL, 2006,
p.47)

A tese desse autor causa certa inquietação, até mesmo diante de tudo o que
viemos discutindo aqui, para podermos defender o estatuto da “família” como sendo
possível, e, desejável, para os casais homoafetivos. Colocamo-nos na necessidade,
então, de não responder de forma fechada nenhuma questão aqui posta, mas de
entender que as mudanças ainda estão em curso e muito ainda será levantado e
questionado.
Para responder, dialogando criticamente, às outras perguntas, propõe-se
apontar os últimos acontecimentos sociais e um histórico evolutivo das pesquisas
científicas, pesquisadas na base de artigos e periódicos Scielo8 e na base de teses e
dissertações da CAPES9.
Desde outubro de 2011, o Supremo Tribunal Federal reconheceu a
constitucionalidade das uniões homoafetivas no Brasil. Este reconhecimento trouxe
tensões sociais acerca do “fim da família tradicional” e da perda dos “valores sociais”.
Não é de hoje que esse “fantasma” ronda o cenário social, pois inúmeros outros
acontecimentos trouxeram essa mesma questão para a pauta das discussões
políticas e sociais. Após o reconhecimento do STF10 em 2011, houve um outro passo

8
Scielo – Scientific Electronic Library Online. Disponível em: <http://www.scielo.br>. Acesso em:
15.maio.2017.
9
CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior.
10
STF – Supremo Tribunal Federal – A partir deste momento utilizaremos a sigla STF para denominar

87
importante na luta pelo reconhecimento das famílias homoparentais, pois, em 2013, o
Conselho Nacional de Justiça determinou que todos os cartórios do país aceitassem
oficialmente a união de casais homoafetivos. Além disso, recentemente, em meados
de junho de 2015, o Presidente dos Estados Unidos – Barack Obama - anunciou a
decisão da Suprema Corte que legalizou o casamento “gay” em todos os estados
americanos. Outro fator polêmico que vem rondando a instituição família e gerando
tensão acerca do tema, foi a criação do Projeto de Lei 6.583, que institui o Estatuto
da Família, e que tramitou na Câmara dos Deputados e foi aprovado com o objetivo
de garantir que o Estado oferecesse políticas públicas e cumprisse com o artigo 226
da Carta Magna - Constituição Brasileira. A realidade é que pela Constituição do
nosso país, casal homossexual não forma família.
O Artigo 226 da Constituição Federal Brasileira estabelece que a família deve
ser protegida por ser a base da sociedade e é dever do Estado cuidar dela. Os
contrários à diversidade de estruturas familiares se concentram apenas no Artigo 2,
pelo qual:

Define-se entidade familiar como o núcleo social formado a partir da união


entre um homem e uma mulher, por meio de casamento ou união estável, ou
ainda por comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes
(ARTIGO 226 – CONSTITUIÇÃO FEDERAL BRASILEIRA11).

O modelo presente encontra-se respaldado no pensamento que conclui que


a família “nuclear”, tal qual veio se impondo, é a célula germinativa da sociedade.

Depois do advento do divórcio, houve uma multiplicação de novos arranjos


familiares, permitindo aos indivíduos a construção de novos tipos de alianças,
como as famílias de acolhimento, recompostas e monoparentais. É dentro
desses novos arranjos que surge a “família homoparental”, propondo um
modelo alternativo, no qual o vínculo afetivo se dá entre pessoas do mesmo
sexo, incluindo, também, os casos da parentalidade de travestis e transexuais
(ZAMBRANO, 2006, p. 22).

As famílias homoparentais já existem há muito tempo, porém, o que realmente


falta é o reconhecimento legal. Recusar chamar de “família” essas configurações
familiares é negar que exista um vínculo entre seus membros e fixar o conceito de
família na “família nuclear”, não correspondendo a todas as formas de expressão que
apareceram nas sociedades contemporâneas (ZAMBRANO, 2006).

11
Disponível em: http://www.jusbrasil.com.br/busca?q=Art.+226+da+Carta+Magna Acesso em de 15
Julio de 2015.

88
Entretanto, é à luz das ciências humanas que podemos encará-la, como uma
entidade não “natural”, multifacetada e que apresenta em si as peculiaridades relativas
ao tempo e ao espaço em que está inserida, apresentando uma configuração ao
mesmo tempo estável e dinâmica (ROUDINESCO, 2003).
Nesse sentido, Uziel (2002) demonstra que:

[...] entre os novos arranjos familiares, os compostos por pais gays são os
mais controversos, embora a educação por pais homossexuais não seja
novidade. Este fenômeno adquiriu visibilidade com o crescimento e a força
que o movimento vem ganhando nos últimos anos. A estabilidade do
relacionamento entre pessoas do mesmo sexo e seu desejo de ter filhos
desperta a curiosidade de muitos, que desconfiam de uma impossibilidade,
inadequação, impropriedade (UZIEL, 2002, p. 01).

Se, pelo discurso higienista, o homossexual foi considerado como


“antinorma”, por não dar sequência a uma linhagem de reprodução, hoje o movimento
LGBT12 busca a autorização para também desfrutar dos direitos constitucionalistas e
sociais garantidos à família (COSTA, 1999). Segundo Roudinesco (2003):

Quando os gays e lésbicas da costa californiana quiseram, a partir de 1965-


70, se tornar pais, inventaram uma cultura da família que não passava sob
muitos aspectos, da perpetuação do modelo que haviam contestado e que já
se encontrava ele próprio em plena mutação (...) durante alguns anos, essas
experiências permaneceram pouco numerosas, mas a partir de 1975, foram
se multiplicando à medida que a luta em favor da descriminalização da
homossexualidade ocupava espaço no seio de um vasto movimento de
emancipação dos negros e das minorias “étnicas” (ROUDINESCO, 2003, p.
181).

Constata-se que a unidade familiar não apresenta uma forma acabada, pelo
contrário, ela se arranja sempre devido aos debates e necessidades da sociedade em
que está inserida. Segundo Farias e Maia (2009, p. 53), “(...) a concepção de família
já passou por diversos significados e funções ao longo da história, como o casamento
que deveria garantir passagem da riqueza e de bens de duas famílias a seus
descendentes e a família baseada no amor romântico”.
Com o objetivo de delimitar o conceito de família homoparental que
utilizaremos nesta tese, seguiremos a proposta de Leroy-Forgeot (1999, apud Vecho
& Schneider, 2005, p. 306):

12
Importante esclarecer a utilização da escolha da sigla LGBT, que foi aprovada na I Conferência
Nacional GLBT e se refere a lésbicas, gays, bissexuais e travestis. A sigla LGBT é de uso ativista e
pode ser encontrada com variações das suas letras. É comum encontrarmos uso duplicado ou triplicado
do “T” para se referir a “transexuais”, “travestis” e “transgêneros” ou o acréscimo de letras para
representar outras identidades, tais como “Q”de“Queer” ou “I” de “intersexual”.

89
Um conjunto de pessoas constituído por 2 grupos: uma estrutura parental
formada por um (a) único(a) pai/mãe ou por um casal de pessoas do mesmo
sexo, na qual a orientação (homossexual) é individualmente clara e
coletivamente reconhecida; por outro lado, um ou mais filhos, legalmente
considerados como descendentes.

Segundo Vilhena et al. (2011), o termo família deve ser empregado no plural
devido à diversidade de formatos e intensidades. Apenas recentemente ganhou a
existência e a visibilidade de pais gays e mães lésbicas. Segundo Gato (2014):

Questionando as desigualdades de gênero, a realidade biológica do instinto


maternal e lutando pela simetria de papéis a nível profissional, conjugal e
parental, algumas correntes teóricas do feminismo contribuíram para a
desacreditação da complementariedade entre os dois sexos como base
fundacional da família moderna. Se os papéis sociais de homens e mulheres
não estão irrevogavelmente ligados ao seu sexo biológico, a conjugalidade
entre pessoas do mesmo sexo e a homoparentalidade tornam-se pensáveis
e possíveis13 (GATO, 2014, p. 329).

Diversos estudiosos (UZIEL, 2007; ZAMBRANO, 2008; VILHENA et al., 2011;


GATO, 2014) apontam os inúmeros métodos para aceder à homoparentalidade,
sendo eles:
• Acordo com uma pessoa de sexo oposto para se ter relações sexuais
e conceber uma criança;
• Auto inseminação, ou seja, inseminação caseira à margem do
sistema de saúde. Neste processo o doador pode ou não vir a ser
reconhecido como pai e a desempenhar esse papel;
• Técnicas de reprodução assistida;
• Coparentalidade homossexual, uma forma de organização familiar, na
qual a parentalidade é desempenhada por duas ou mais pessoas.
Geralmente torna-se um projeto de paternidade e maternidade no
qual estão implicados um casal de gays ou lésbicas – prática mais
utilizada na Europa e nos Estados Unidos;
• Adoção de crianças / adolescentes;
• Barriga de aluguel (apesar da ilegalidade, temos casos relatados no
Brasil);
• Filhos (as) que vieram de relações anteriores (heterossexuais).

13
Livro eletrônico.

90
Filhos originários de relacionamentos heterossexuais anteriores, cuidado de
crianças que são deixadas, reprodução assistida, combinações de filhos com amigos
(coparentalidade) e adoção são as diversas formas de filiação, tanto para solteiros,
quanto para pessoas vivendo em conjugalidade (VILHENA et al., 2011).
No âmbito da Psicologia, os estudos com famílias homoparentais têm incidido,
principalmente, sobre:
• Competência parental de lésbicas e gays;
• Desenvolvimento psicossocial de crianças educadas em contexto
homoparental;
• Atitudes e experiência das crianças frente a homoparentalidade.
Segundo estudiosos (UZIEL, 2007; ZAMBRANO, 2008; VILHENA et al., 2011;
GATO, 2014), o discurso de que crianças precisam da presença de figura masculina
(pai) e figura feminina (mãe) associadas ao gênero, gerou um paradigma frente às
diferenças biológicas e reprodutivas, além dos papéis sociais de pais e mães, pois a
boa conduta seria ter de um lado, uma mãe à serviço da criança e do outro lado, um
pai provedor (GATO, 2014).
No entanto, alguns estudiosos (sociólogos) norte-americanos, tais como
Judith Stacey e Timothy Biblarz (2001), alegam que considerar a heteropaternidade
como modelo está mais para um projeto ideológico do que resultados cientificamente
comprovados, como vimos também para Roseneil (2006). Segundo esses
pesquisadores, a maior parte das pesquisas de gênero e parentalidade não foram
projetadas para responder a este tipo de questionamento.
Muitos pesquisadores da temática LGBT apostam na minimização das
diferenças entre as famílias heteroparentais e homoparentais, visando a uma
normalização dessas famílias. Além disso, temos outro grupo de teóricos que utilizam
as diferenças dessas estruturas familiares sob forma de agenda política, a fim de
contestar a norma heterossexual ou a patologização da parentalidade homoafetiva.
Segundo levantamento de Costa, Pereira e Leal (2012), existem “[...] diferenças
inegáveis, mas que não significa que estas diferenças tenham uma tradução direta
quer na qualidade quer nas problemáticas destas famílias” (p.62). Portanto, não temos
como objetivo central, nesta tese de doutoramento, traçar um comparativo direto entre
as famílias heteroparentais e as homoparentais.

91
No Brasil, temos escassez de publicações de caráter científico-acadêmico
sobre a homoparentalidade. Comparativamente com as pesquisas americanas, ainda
temos um longo caminho a ser percorrido, a fim de compreender a realidade da
homoparentalidade no Brasil.
Para atualizar a lista de pesquisas no Brasil, utilizamos a base de artigos
científicos da Scielo e a base de teses e dissertações da CAPES. A busca foi
organizada em três descritores: 1) Homoparentalidade; 2) Família Homoparental;
3) Homoafetividade.
Apesar de não ser objetivo desta tese, fez-se necessário delinear as
pesquisas publicadas, a fim de compreender de que modo a homoparentalidade vem
sendo tratada na literatura científica nacional, destacando as principais contribuições,
bem como as lacunas existentes. Os critérios estabelecidos para a inclusão das
pesquisas / estudos foram: a) artigos indexados; b) publicados em qualquer época /
ano; c) com temática pertinente ao objetivo desta tese, ou seja, homoparentalidade.
Foram encontrados 32 artigos científicos na base indexadora – Scielo. Para manter o
rigor científico e foco na produção brasileira, excluímos 5 artigos, sendo dois artigos
de origem portuguesa, dois de origem colombiana, e um que tratava sobre o tema da
heterossexualidade, restando 27 artigos. Alguns outros artigos de origem estrangeira
foram considerados por trazerem relevância à temática em um âmbito menos
estritamente local.

Figura 7 – Banco de periódicos e artigos Scielo

Fonte:<http://www.scielo.br>

92
Quadro 1 - Pesquisas referentes ao tema homoparentalidade (2005 – 2016) - Scielo
AUTOR ANO TÍTULO DO ARTIGO
PASSOS, M. 2005 Homoparentalidade: uma entre outras formas de ser família
MEDEIROS, C. 2006 Uma família de mulheres: ensaio etnográfico sobre
homoparentalidade na periferia de São Paulo
MOTT, L. 2006 Homo-Afetividade e direitos humanos
PERELSON, S. 2006 A parentalidade homossexual: uma exposição do debate
psicanalítico no cenário francês atual
TORRICELLA, A.; 2008 La família em Oxford Street. Homosexualidad: matrimonio, filiación
VESPUCCI, G.; y subjetividad
PÉREZ, I.;
TORRICELLA, A.
FONSECA, C. 2008 Homoparentalidade: novas luzes sobre o parentesco
ARÁN, M. 2009 A psicanálise e o dispositivo diferença sexual
MOÁS, L.; CORREA, 2010 Filiação e tecnologias de reprodução assistida: entre medicina e
M. direito
TARNOVSKI, F. 2011 Les coparentalités entre gays et lesbiennes en France: le point de
vue des pères
REA, C. 2011 Desnaturalización de la sexualidad: última frontera de la democracia
MARTINEZ, A. L. M; 2011 A experiência da maternidade em uma família homoafetiva feminina
BARBIERI, V.
TARNOVSKI, F. 2012 Devenir pére homosexuel em France: la constrction sociale du désir
d'enfant
COSTA, P. A.; 2012 Homoparentalidade: o estado da investigação e a procura de
PEREIRA, H.; LEAL, normalização
I. P.
SANTOS, Y. G. S.; 2013 Homoparentalidade masculina: revisando a produção científica
SCORSOLINI-
COMIM, F.; SANTOS,
M. A.
GATO et al. 2012 Atitudes relativamente à homoparentalidade de futuros
intervenientes da rede social
CECÍLIO, M. S. ; 2013 Produção científica sobre adoção por casais homossexuais no
SCORSOLINI- contexto brasileiro
COMIM, F.; SANTOS,
M. A.
TARNOVSKI, F. 2013 Parentalidade e gênero em famílias homoparentais francesas
FRAGA PESSANHA, 2014 O respeito à diversidade e a formação social do indivíduo: uma
J.; SANT’ANNA análise do bullying sofrido por crianças advindas de famílias
VIEIRA GOMES, M. homoafetivas

93
GATO, J.; 2014 Homoparentalidade no masculino: uma revisão da literatura
FONTAINE, A. M.
PONTES, M. F.; 2014 Famílias homoparentais e maternidade biológica
CARNEIRO, T. F.;
MAGALHÃES, A. S.
COSTA, A.; NARDI, 2015 O casamento "homoafetivo" e a política da sexualidade: implicações
H. do afeto como justificativa das uniões de pessoas do mesmo sexo
ZARATE-CUELLO, 2015 Implicaciones bioéticas derivadas del acceso de las parejas del
A.; CELIS, L. mismo sexo a las tecnologías provenientes de la biomedicina [...]
MACHIN, R. 2015 Homoparentalidade e adoção: (re)afirmando seu lugar como família
ESBORRAZ, D. F. 2015 El concepto constitucional de familia em América Latina.
Tendencias y proyecciones
MESQUITA, A. M.; 2015 A família homoparental na ficção televisiva: as práticas narrativas
PAVIA, C. F. do Brasil e da Espanha como relatos das novas representações [...]
BOURNE, J.; 2015 Papeis de gênero nas brincadeiras de faz de conta de crianças
CERQUEIRA- adotadas por casais homoparentais
SANTOS, E.
LIRA, A. N.; MORAIS, 2016 (In)Visibilidade da vivência homoparental feminina: entre
N.A.;BORIS, G. DD. preconceitos e superações
J. B.
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Dentre os artigos investigados, temos 14 artigos da área da Psicologia, 5 da


área da Antropologia, 4 da área do Direito, 1 da área de Medicina ligada ao Direito e
3 da área das Ciências Sociais.
Tarnovski (2002, 2012 e 2013) traz reflexões acerca da coparentalidade nas
famílias homoparentais francesas e reflexões acerca dos contextos sociais de
surgimento do desejo de ter filhos e a elaboração do projeto parental; já Costa (2015)
discute o termo “homoafetividade” dentro da área do Direito. Medeiros (2006) faz um
estudo etnográfico sobre uma família homoparental da periferia de São Paulo.
Martinez e Barbieri (2011) falam acerca de uma experiência homoparental de
um casal feminino. Na pesquisa, houve realização de uma sessão lúdica com a
criança, filha biológica, de uma das mulheres. Após realização de investigação
psicanalítica, observou-se que a maternagem foi desempenhada, em grande parte,
pela parceira e não pela mãe biológica, dado interessante que pode corroborar com o
estabelecimento de algumas afirmações da presente tese. Tratando também sobre as
crianças filhas de casais homoparentais, Fraga Pessanha e Sant’anna Vieira Gomes

94
(2014) discutem o bullying sofrido por crianças e adolescentes na esfera do Direito.
Ainda sobre a maternagem homoparental feminina, Lira, Morais e Boris (2016)
discorrem a respeito da ambiguidade quanto à (in)visibilidade das vivências
homoparentais femininas no cenário brasileiro e as situações em que o preconceito
se mostra cruel. Mesmo diante dessa realidade, as mães homoparentais conseguem
superar as condições sociais impostas e realizam o projeto de ser mãe.
Ainda sobre as crianças, filhas de casais homoparentais, Bourne e Santos
(2016, p. 125) investigam a estereotipia de gênero nas brincadeiras de faz de conta
de crianças adotadas por casais homoparentais. Trata-se de um estudo observacional
com crianças em sessões lúdicas onde “foram encontradas diferenças significativas
para todos os critérios que caracterizam as brincadeiras como estereotipadas para
gênero, corroborando achados de estudos entre crianças educadas por casais
heterossexuais”.
As pesquisadoras Aran (2009), Perelson (2006) fazem uma investigação
acerca do posicionamento da psicanálise e discutem a noção de papéis sexuais e
parentais e a necessidade de revisão desses conceitos.
As pesquisadoras Fonseca, (2008), Passos (2005) trazem reflexões acerca
dos novos arranjos familiares (homoparentalidade), tanto sob a ótica da Antropologia,
quanto da Psicologia. Pontes, Carneiro e Magalhães (2015) trouxeram uma reflexão
acerca das técnicas de reprodução assistida no universo dos casais de lésbicas e
suas implicações.
Mott (2006) fala sobre os direitos humanos e civis para os casais
homossexuais, inclusive o reconhecimento legal da união civil. Rea (2011) postula a
desnaturalização da sexualidade como uma última fronteira da democracia, partindo
da análise do contexto francês de homoparentalidade que mostra o conflito ideológico
e político que existe entre a naturalização e desnaturalização da sexualidade, bem
como o direito de filiação.
Costa, Pereira e Leal (2012) indicam, a partir de uma revisão teórica, uma
necessidade de quebra de paradigmas na realização desses estudos acerca da
homoparentalidade, o que influenciaria até mesmo os resultados. Concluem que “a
inexistência de diferenças entre famílias homoparentais e famílias heteroparentais é
equívoca, e que os esforços de normalização e minimização de eventuais diferenças
comprometem o conhecimento científico sobre estas famílias” (COSTA, PEREIRA,
LEAL, 2012, p. 55).
95
Cecílio, Scorsolini-Comin e Santos (2013) fizeram um levantamento científico
das produções acerca do tema da adoção de crianças por casais homossexuais no
contexto brasileiro. Com esse levantamento, questionaram as descrições tradicionais
de família, destacando a necessidade de ampliação dos sentidos de arranjo familiar
para além da heteronormatividade. Tais reflexões abriram espaço para uma
intervenção crítica de profissionais no contexto da adoção de crianças por casais
homoafetivos, demonstrando que muitas das teorias são insuficientes para dar conta
das profundas transformações ocorridas nas famílias. Machin (2016) realiza um
estudo também acerca da questão da adoção por casais homoparentais em São
Paulo, entre 2011 e 2012. Em sua análise, apresenta as concepções de família e
perspectivas de gênero, bem como os desejos e valores dos pais em relação à
homoparentalidade, enfatizando que ter um filho é um passo importante na afirmação
da capacidade desses casais de constituir família.
No que concerne à área da Medicina, em imbricação com a área do Direito,
temos a publicação de Correa e Moás (2010) que analisaram os critérios jurídicos de
determinação das relações parentais, indicando a homoparentalidade como
manifestação do direito à vida familiar. Analisaram também as decorrências sociais e
médicas das técnicas de reprodução assistida para esse contexto.
Santos, Scorsolini-Comin e Santos (2011) levantaram as produções
científicas acerca da homoparentalidade masculina e encontraram nessa revisão
pontos fundamentais:

(...) as dificuldades enfrentadas por famílias homoparentais estão sempre


postas em relação ao enfrentamento do preconceito advindo de fora do
núcleo familiar e não decorrem da formação homoparental em si. Além disso,
a revisão mostra que são poucos os estudos que analisam de forma
significativa a família homoparental a partir do entendimento das próprias
famílias homoparentais, sendo estas sempre colocadas em comparação com
as famílias nucleares heterossexuais (SANTOS, SCORSOLINI-COMIN E
SANTOS, 2011, p. 579).

A comparação entre famílias homoparentais e heteroparentais limitou o


alcance de boa parte dos resultados produzidos, configurando uma importante
limitação das pesquisas publicadas nos últimos 12 anos. Pelos achados desta revisão,
realizada por Santos, Scorsolini-Comin e Santos (2011), fica clara a necessidade de
elaboração de investigações empíricas no contexto nacional. Para tanto, queremos
mover para o avanço da pesquisa acadêmica-científica e socialmente.

96
Gato e Fontaine (2014) também realizam uma revisão crítica de literatura
acerca da homoparentalidade no masculino. Tal pesquisa levou em conta as
publicações realizadas entre os anos de 1979 e 2011. Indicam em suas considerações
que a investigação com pais gays é ainda minoritária, se comparada às mães lésbicas.
Indicam a necessidade do estudo com esse tipo de arranjo familiar se expandir, como
já vem acontecendo a partir dos anos 2000 e concluem, por fim, que as famílias
formadas por homossexuais masculinos não oferecem motivos para preocupação ou
alarme social. Os mesmos autores, junto com Freitas (GATO, FONTAINE, FREITA,
2012), em outro artigo, fazem um estudo comparativo acerca das competências
parentais entre pais homossexuais e heterossexuais. Evidenciou-se uma visão
heteronormativa de parentalidade que implicaria diretamente para a formação
acadêmica dos/as futuros/as intervenientes da rede social em Portugal – universitários
- sujeitos do estudo.
Esborraz (2015) fala sobre as diferentes matizes familiares na América Latina,
o que incide sobre os direitos fundamentais. Como consequência de um novo
paradigma constitucional, foi possível notar uma mudança paradigmática de uma
família totalizante a uma mais democrática e de um modelo único de família para um
mais plural.
Torricella, Vespucci e Perez (2008) falam a respeito dos direitos civis das
famílias homoparentais e as implicações normalizadoras ou transformadoras de tais
famílias, desde a perspectiva dos homossexuais. Por fim, Mesquita e Pavia (2015)
apresentam as práticas narrativas do Brasil e da Espanha como relatos das novas
representações afetivo-amorosas, a partir da família homoparental retratada na ficção
televisiva de ambos os países.
Considerando que o tema é relativamente recente, decidimos também
pesquisar a base de tese e dissertações da CAPES, já que muitos desses estudos
não estão publicados nos indexadores. Para sistematizar a busca no banco de teses
e dissertações da CAPES, utilizou-se os descritores: homoparentalidade, família
homoparental e homoafetividade. Encontramos nesta busca, 52 dissertações de
mestrado e 13 teses de doutorado, conforme quadro 2 e 3.

97
Figura 8 –Banco de teses e dissertações da CAPES
Fonte:<http://bancodeteses.capes.gov.

Quadro 2 – Quadro de dissertações (2002 – 2016)


Autor Ano Título
Tarnovski, F. L. 2002 Pais assumidos: adoção e paternidade homossexual no brasil
contemporâneo
Espindola, R. 2005 Famílias homoparentais: (pré)conceitos dos(as) alunos(as)-
professores(as) de educação infantil e séries iniciais do ensino
fundamental
Munhoz, I. M. 2007 Entidade familiar homoafetiva e a adoção
Moschetta, S. O. R. 2008 A concretização do direito à parentalidade por casais homoafetivos
Noronha, S. A. 2008 O amor de mulheres por mulheres: a circulação pulsional nas
famílias homoparentais recompostas femininas
Souza, A. C. B. 2008 Se ele é artilheiro, eu também quero sair do banco: um estudo
sobre a coparentalidade homossexual
Pretti, K. D. P. L. 2009 A adoção nacional de menores por casais homoafetivos sob a ótica
civil-constitucional
Lettière, J. F. 2010 Uniões homoafetivas: a redefinição do conceito de família no direito
brasileiro
Oliveira, E. R. R. 2010 A liberdade de constituir família como direito fundamental: a
questão das uniões homoafetivas
Santos, J. G. M. 2010 A união estável homoafetiva, como entidade familiar na ordem
jurídica dos princípios da dignidade da pessoa humana e da
igualdade [...]
Ceccato, A. 2011 Reconhecimento das relações homoafetivas nas uniões estáveis:
uma leitura pelo enfoque do Supremo Tribunal Federal

98
Correa, A. L. F. 2011 O psicólogo jurídico frente à adoção homoafetiva: práticas, sentidos
e possibilidades
Monteiro, L. L. C. 2011 Literatura infanto-juvenil de temática homoafetiva: impasses entre
a abordagem dos pcn e a representação ficcional
Dani, G. C. C. 2011 Os conflitos homofóbicos na escola e a teoria do reconhecimento
Freitas, C. N. 2011 Uma reflexão sobre o direito a diversidade sexual com ênfase no
direito civil
Luz, F. F. C. 2011 Diversidade afetiva, uma leitura sobre os movimentos sociais LGBT
de Porto Alegre
Pontes, M. F. 2011 Desejo por filhos em casais de mulheres: percursos e desafios na
homoparentalidade
Vieira, R. V. 2011 Homoparentalidade: estudo psicanalítico sobre papéis e funções
parentais em casais homossexuais com filhos
Marçal, S. S. V. 2011 Possibilidade jurídica de adoção por casais homoafetivos
Oliveira, F. B. 2011 Concretização constitucional do direito homoafetivo: da união
estável ao casamento civil
Lira, A. N. 2012 A vivência do projeto parental das famílias homoeróticas femininas:
uma investigação fenomenológica sartreana
Aires, L. M. A. 2012 Gestando afetos, concebendo famílias: reflexões sobre
maternidade lésbica e reprodução assistida em Aracaju-SE
Barbosa, M. S. 2012 Boate Queen Vogue Campina Grande PB: espaço para afirmação
de identidades homoafetivas?
Filho, J. C. M. 2012 Diversidade sexual no currículo do ensino religioso: relações e
implicações com democracia, cidadania e direitos
Junior, J. F. R. L. 2012 I'm not no queer: a representação da homoafetividade no conto
Brokeback Mountain, de Annie Proulx
Pertel, A. M. S. 2012 Os efeitos da adoção monoparental realizada por casais
homoafetivos à luz dos direitos humanos fundamentais rizomáticos
Silva, K. R. A. P. 2012 Configurações homoafetivas em romances juvenis
Silva, C. M. S. 2012 Relação escola e famílias homoafetivas: visão de discentes de
licenciatura em pedagogia
Rodriguez, B. C. 2012 A representação parental de casais homossexuais masculinos
Temperini, C. A. T. 2012 Adoção homoparental e infância: uma análise da mídia
Hernandez, J. G. 2013 Filhas de famílias homoparentais: processos, confrontos e
pluralidades
Jurado, T. 2013 Produções imaginativas sobre a homoparentalidade por meio de
narrativas interativas
Amorim, A. C. H. 2013 Nós já somos uma família, só faltam os filhos”: maternidade lésbica
e novas tecnologias reprodutivas no Brasil

99
Rosito, E. S. 2013 Casal homoafetivo e a conjugalidade: um estudo sobre pesquisas
realizadas
Souza, T. S. P. 2013 Um novo olhar sobre a filiação: o exercício da homoparentalidade
a partir das múltiplas faces do afeto
Silva, D. A. 2013 Enfim mães! Da experiência da reprodução assistida à experiência
da maternidade lésbica
Santo, E. S. E. 2014 Adoção homoparental e diferença sexual
Barreto, M. S. V. 2014 Famílias invisíveis?: a realidade de famílias homoafetivas com
filhos/as adotivos/as na cidade do Natal/RN
Filho, R. A. C. 2014 Que ousadia é essa? A adoção homoafetiva e seus múltiplos
sentidos
Mello, L. F. 2014 Relacionamentos homoafetivos: diferentes, porém iguais -
fundamentos da legitimidade e racionalidade da decisão [...]
Poppe, L. L. F. 2014 Novas conformações jurídicas e sociais da família e o afeto como
meio de efetivação desse direito fundamental
Steele, A. S. 2014 O melhor interesse da criança: investigação dos significados da
categoria no direito brasileiro partindo de um estudo de caso
Tombolato, M. A. 2014 Desvelando a família homoparental: um estudo sobre os relatos de
casais homossexuais com filhos
Araldi, M. O. 2015 Parentalidade em casais homossexuais
Gomes, A. E. F. 2015 Adoção homoparental: representações sociais dos estudantes de
psicologia e de direito
Cavalcanti, G. G. 2015 Homoparentalidade e os efeitos da matriz heterossexual: uma
análise queer sobre a adoção conjunta por pessoas do mesmo
sexo no judiciário
Fernandes, R. M. 2015 "Atrás do processo tem gente”: homoparentalidade e suas
repercussões no universo da adoção
Martins, S. R. C. 2015 Uniões homoafetivas: da invisibilidade à entidade familiar
Bento, H. L. G. 2016 O desejo de filho na adoção homoparental: uma perspectiva
psicanalítica
Santos, Y. G. S. 2016 Pais e filhos em arranjos familiares homoafetivos: a perspectiva de
homens homossexuais e de seus/suas filhos(as)
Lena, F. F. 2016 "Só se for a dois": conjugalidade e homoparentalidade no censo
brasileiro de 2010
Martins, N. 2016 Desafios éticos e legais da parentalidade aos casais homoafetivos
Fonte: CAPES

100
Quadro 3 – Quadro de teses (2006 – 2016)
Autor Ano Título
Morris, A. Z. 2006 A intenção na determinação da parentalidade
Zambrano, E. F. 2008 "Nós também somos família:" estudo sobre a parentalidade
homossexual, travesti e transexual
Moris, V. L. 2008 Preciso te contar: Paternidade homoafetiva e a revelação para
os filhos
Toledo, L. C. C. 2008 A família no discurso dos membros de famílias homoparentais
Maluf, A. C. R. F. D. 2010 Novas modalidades de família na pós-modernidade
Fellows, A. Z. 2011 Famílias homoafetivas femininas no Brasil e no Canadá: um
estudo transcultural sobre novas vivências nas relações de
gênero [...]
Bertoncini, C. 2011 Pelo reconhecimento de uma entidade familiar: união
homoafetiva
Martinez, A. L. M. 2011 Considerações sobre o psicodinamismo de famílias
homoparentais femininas: uma visão psicanalítica
Oliveira, D. B. B. 2011 Das voltas que o mundo dá: família e homoparentalidade no
brasil contemporâneo
Corrêa, M. E. C. 2012 Duas mães? Mulheres lésbicas e maternidade
Fernandes, H. 2012 Homofobia, violência e o amor como zona de conforto: a
vulnerabilidade de jovens homossexuais masculinos às
DST/Aids
Freires, L. 2015 Atitudes frente à homoparentalidade: uma explicação a partir de
variáveis explícitas e implícitas
Daros, L. E. S. 2016 Adoção judicial de filhos por casais homossexuais: a
heteronormatividade em questão
Fonte: CAPES

Conforme gráfico 1, temos 34% (maioria) das produções na área da


Psicologia. Em seguida, temos 25% das produções científicas na área do Direito. Os
demais 41% das produções estão divididas nas respectivas áreas: Sociologia Política;
Sistema Constitucional de Direitos; Serviço Social; Saúde Pública; Políticas Públicas
e Formação Humana; Literatura; Linguística; Família na Sociedade Contemporânea;
Enfermagem; Educação; Direitos Humanos; Direito Político e Econômico; Demografia;
Ciências Sociais; Ciências Jurídicas; Ciências da Religião; e, Antropologia Social.

101
Gráfico 1 – Teses e Dissertações (homoparentalidade) por área - CAPES

Sociologia Política 2%
2%
Serviço Social 2%
2%
Psicologia 34%
2%
Literatura 3%
2%
Família na Sociedade Contemporânea 2%
2%
Educação 3%
3%
Direito Político e Econômico 2%
25%
Demografia 2%
6%
Ciências Jurídicas 2%
2%
Antropologia Social 8%

0% 5% 10% 15% 20% 25% 30% 35%

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

As produções da área da Psicologia (22) ocorreram entre 2008 e 2016, sendo


5 teses e 17 dissertações. Apresentaremos aqui um breve panorama dos temas
tratados por essas pesquisas.
Os pesquisadores (FELLOWS, 2011; MARTINEZ, 2011; PONTES, 2011;
VIEIRA, 2011; SANTO, 2014), explanaram a família homoparental, papéis e funções
parentais, além de apresentar uma crítica à psicanálise com relação ao conceito rígido
de papéis parentais. Houve, também, um estudo comparativo entre as famílias
homoparentais brasileiras x canadenses. Fellows (2011) constatou que os casais
formados por mulheres homossexuais com filhos (reprodução assistida), vivenciam as
relações de gênero diferentemente das mulheres em relacionamentos
heterossexuais. Elas tendem a romper com a divisão sexual do trabalho tradicional:
dividem as tarefas domésticas e mantém maior equilíbrio entre cuidado da casa / filhos
com exercício de atividades remuneradas (trabalho).
Bento (2016) e Noronha (2008) trazem também suas pesquisas a partir de
uma análise psicanalítica. O primeiro apresenta os resultados de uma pesquisa teórica
que buscou analisar o “desejo de ter filho” na adoção homoparental. Faz uma crítica
em relação à apropriação equivocada dos conceitos psicanalíticos por autoridades
jurídicas e religiosas, a fim de se colocarem contrárias à adoção por casais

102
homoparentais. Já a segunda analisa a circulação pulsional nas famílias
homoparentais recompostas femininas.
Gomes (2015) e Jurado (2013) buscaram estudar a questão da
homoparentalidade a partir das representações sociais de acadêmicos de Psicologia
e Direito (GOMES, 2015) e o imaginário coletivo de estudantes de Psicologia
(JURADO, 2013). A representação social de família dos estudantes de Psicologia e
Direito está diretamente norteada pela formação nuclear mãe, pai e filhos e, no que
diz respeito à adoção homoparental, ela ainda é percebida com preconceito, polêmica
e dificuldades. A investigação acerca do imaginário coletivo dos estudantes de
Psicologia, na segunda pesquisa, evidenciou o preconceito contra o homossexual, a
questão da normatização das condutas e seu efeito perverso na clínica, o desejo de
ter filhos em tempos em que há escassez de tempo para eles, além do papel do
psicólogo frente às demandas de felicidade e alívio rápido do sofrimento.
Os pesquisadores e as pesquisadoras Hernandez, 2013; Lira, 2012; Moris,
2008; Rosito, 2013; Santos, 2016; Silva, 2013; Souza, 2008; Tombolato, 2014 e
Toledo, 2008 dedicaram-se a ouvir e conhecer mais propriamente os relatos de
pessoas que vivem a homoparentalidade ou a homossexualidade em relação aos/ às
filhos(as) advindos de uma primeira relação heterossexual. Em tais pesquisas utilizou-
se de diversos métodos qualitativos, como a etnografia, cartografia, análise do
discurso, entre outros, para conhecer e analisar a realidade a partir dos próprios
sujeitos das pesquisas. De forma geral, esses estudos indicam que as famílias
homoparentais apresentam características e funções que são comuns a qualquer tipo
de configuração familiar, embora com algumas peculiaridades e, no campo social,
enfrentam conflitos e discriminação que são produtos do preconceito acerca da
homossexualidade dos casais.
Martinez (2011) observou em sua pesquisa com famílias homoparentais, via
coparentalidade, processos de repetição de conflitos nas relações dos casais,
sugerindo maior preparo para todos os interlocutores que trabalham com estas
famílias. A maioria dessas pesquisas focalizou as famílias homoparentais compostas
por mulheres e não homens. Rodriguez (2012) propôs investigar as representações
parentais de casais homossexuais masculinos. Seus resultados denotam casais muito
conectados às famílias de origem, fato este que os aprisionaram ao modelo de
conjugalidade heteronormativa. Finalizou enfatizando a necessidade de aumentar as
pesquisas na área.
103
Araldi (2015) parte do pressuposto de que há poucos estudos direcionados à
família homoparental e trabalha a sua dissertação em duas partes: a primeira consiste
em uma revisão sistemática de literatura sobre a homoparentalidade e a segunda
parte um estudo qualitativo empírico com quatro casais. Os resultados indicaram que
na homoparentalidade não há rigidez no desempenho de papéis e funções parentais,
e que pais e mães privilegiam o afeto, o respeito e aceitação das diferenças na relação
e na educação dos filhos.
Já em relação à percepção social acerca da homoparentalidade, temos o
estudo de Freires (2015) que objetivou conhecer os correlatos e preditores das
atitudes frente à homoparentalidade, a partir de variáveis explícitas e implícitas. O
pesquisador realizou uma série de 5 estudos com pessoas da população geral,
fazendo entrevistas e aplicando escalas. A partir de tão extensa pesquisa, Freires
(2015) aponta uma potencial aceitação homoparental, desde que condicionada a um
contexto de favorabilidade emocional, financeira e educacional dos adotantes e que
as pessoas compreendem ser mais convencional a heteronormatividade nas relações
parentais.
Por fim, em minha dissertação de mestrado (TEMPERINI, 2012) objetivei
descrever e interpretar conteúdos sobre adoção homoparental e infância, captados
nas peças jornalísticas da Folha de S. Paulo Online (Folha.com), publicadas entre os
anos 2000 e 2011, a fim de compreender a construção social da infância e o debate
acerca da adoção homoparental. Verifiquei que o tema da adoção homoparental é
tratado pela mídia de forma secundária e que a mesma não observa os direitos das
crianças e tampouco dos homossexuais. O jornal trata do tema de forma ideológica e
com intuito mais polemizador do que problematizador, contribuindo para a
estigmatização e sustentação de relações de dominação.
Não objetivamos aqui fazer uma apresentação detalhada tal como realizamos
com a área da Psicologia, mas podemos indicar que, de maneira geral, os estudos
apontaram a esfera dos direitos civis; os marcos regulatórios para a
homoparentalidade e a união civil, bem como a adoção; as novas configurações da
instituição familiar e, as narrativas existentes no meio social acerca da aceitação ou
rejeição da homoparentalidade.

104
3. ADOÇÃO DE CRIANÇAS

O acesso a um corpo documental bastante antigo nos deu a possibilidade de


compreender que o tema da adoção é bastante recorrente na história humana. No
entanto, ele assume formas diferentes, de acordo com o contexto em que está
inserido. Retraçar sua história, de acordo com sua presença nos códigos do direito, a
metamorfose de concepções até a discussão do tema no Brasil de nossos dias - é o
objetivo deste item.

3.1 Breve histórico

A doutrina14 aponta que o instituto da adoção remonta à Antiguidade.


Entretanto, sua forma e função diferem de nossas concepções atuais. O seu
surgimento pode ser apreendido em diversos códigos antigos como: o código de
Manu, escrito em sânscrito, na Índia antiga, entre o século II a.C. e o século II d. C., e
o código de Hamurábi, escrito na região mesopotâmica, por volta de 2000 a.C., cujo
uso estava intimamente ligado com a perpetuação do culto doméstico.

O dever de perpetuar o culto doméstico foi o princípio do direito de adoção


entre os antigos. A mesma religião obrigando o homem ao casamento,
determinando o divórcio em caso de esterilidade, substituindo o marido em
caso de impotência ou de morte prematura, oferece à família um derradeiro
recurso, como meio de escapar à desgraça tão temida de sua extinção;
encontramos esse recurso no direito de adotar (COULANGES,1987, p. 56).

Esse fator religioso disparou o costume que se generalizou entre os antigos,


de proporcionar uma segunda mulher ao homem que não havia conseguido ter filhos
com sua primeira. Ainda assim, caso não conseguisse ter filho com essa segunda
mulher, uma terceira era escolhida e, diante de nova impossibilidade, o marido poderia
escolher um homem para fecundar sua mulher. Os filhos nascidos de atos derivados
dessa busca pela manutenção do culto doméstico seriam considerados daquele
primeiro casal. Sendo todas essas possibilidades mal sucedidas, usava-se a adoção
como uma estratégia para dar continuidade ao culto dos antepassados, garantindo,
assim, o repouso após a morte (PICOLIN, 2007).

14
No Direito, é utilizado o termo “doutrina” para se referir aos escritos de estudioso na área, que
comentam as leis e as decisões judiciais ou as criticam.

105
O instituto da adoção em Roma foi usado com finalidades diferentes. Pelo
Direito Romano, e segundo a Lei das XII Tábuas, eram possíveis dois tipos de adoção:
a ad-rogatio e a adoptio. Pela ad-rogatio, o adotando poderia ser, inclusive, um chefe
de família que, por essa modalidade de adoção, teria a sua família incorporada a do
adotante, juntamente com seu pátrio poder. Essa forma, usada para transferência de
linhagem e herança – que, por diversas vezes, permitiu ao adotado ascender ao trono
de Imperador, só era aplicada mediante uma cerimônia pública e com consentimento
de ambas as partes. Já a adoptio, de caráter privado, consistia em prática de adoção
na qual o adotante deveria ser, no mínimo, dezoito anos mais velho que o adotando
e não possuir filhos legítimos ou adotados (ALVIM, 2008). Segundo os costumes,

O adotante devia ser capaz de gerar filhos, onde os castrados e os impúberes


não podiam adotar, uma vez que o instituto seguia o princípio da “adotio
imitatur natura”. Negava-se a adoção a quem tinha filhos, legítimos ou
naturais, fundando-se as proibições na própria razão de ser do instituto, que
era propiciar filhos a quem não os tinha e ainda a adoção dava o direito de
herdar o nome, os bens e os deuses (hereditas nominis, pecuniae et
sacrorum) (PICOLIN, 2007, p. 8).

Na Idade Média, o instituto da adoção sofreu influência direta da igreja católica


e do direito canônico. É possível detectar um movimento um tanto ambíguo, pois: de
um lado recebe crianças órfãs e anônimas sob o signo da caridade cristã
(MENDONÇA, 2008); de outro, critica a adoção no âmbito particular, pois esta feriria
não só a possibilidade de constituir família legitima, mas também permitia reconhecer
filhos adulterinos (RIBEIRO, 2008). Além disso, o instituto da adoção concorreria com
a Igreja nas questões de doação de herança, já que os senhores feudais doavam uma
parte de seus bens à igreja, doação que era integral no caso de ausência de herdeiros
(PICOLIN, 2007).
Na Idade Moderna, era de peculiar reordenamento do pensamento humano,
a criança deixou de ser vista como um adulto em miniatura e, aos poucos, foi sendo
construída a concentricidade do núcleo familiar (ARIÈS, 1981). Do ponto de vista
religioso, a passagem do teocentrismo para o antropocentrismo assegura à imagem
da criança a dissociação de símbolo do pecado (CAMPOS, 2001).
Combinado com esse novo olhar sobre as crianças, a modernidade se
caracterizou pelo desenvolvimento tecnológico e científico, com implicações nos
campos social e do direito. De um lado, o desenvolvimento do capitalismo e das
revoluções nacionais concorreu com as monarquias absolutistas; de outro, o peso da

106
Igreja Católica foi relativizado quanto aos seus preceitos, inclusive no campo da
legislação.
O Ocidente europeu passava por um processo de laicização atestada pelo
historiador britânico Hobsbawn (1977, p. 304): “esta difundida descristianização dos
homens nas classes instruídas data do final do século XVII ou do princípio do século
XVIII e seus efeitos públicos tinham sido surpreendentemente benéficos”.
Entre outros efeitos, no que tange à adoção, o direito canônico teve seu peso
relativizado e foi combinado com o direito romano e o direito local, culminado com o
surgimento do Código da Prússia, de 1794, que acabou por influenciar o Código de
Napoleão, de 1807. Segundo o Código prussiano, a adoção deveria passar pelo
regime de contrato escrito, requerendo perante o tribunal superior o lugar de domicílio
do adotante e, entre outros:

(...) eram requisitos para adotar: a) que o adotante tivesse no mínimo 50 anos,
não tivesse descendência, e não estivesse obrigado ao celibato; b) que o
adotado fosse menor que o adotante, não se determinando a diferença de
idade; c) a faculdade é reconhecida à mulher, que, se casada, necessitava
da autorização marital; d) fazia-se necessário o consentimento do adotando,
quando este era maior de 14 anos, bem assim, o assentimento de seus
genitores. O adotado não fazia jus aos bens dos pais adotivos, conservando,
porém seus direitos com relação aos pais biológicos (PICOLIN, 2007, p.10).

Na França, a adoção aparece em quatro modalidades:

1. a ordinária, realizada através de contrato, sujeita à homologação por parte


do magistrado, a qual concedia direitos hereditários ao adotado, era permitida
somente a pessoas maiores de cinquenta anos que não tivessem filhos,
exigindo-se uma diferença de idade mínima de quinze anos entre adotante e
adotado; 2. a remuneratória, concedia a quem tivesse salvado a vida do
adotante, caracterizando-se pela irrevogabilidade; 3. a testamentária, feita
através de declaração de última vontade, permitida ao tutor somente após
cinco anos de tutela; e 4. a tutela oficiosa ou a adoção provisória, criada em
favorecimento de menores, regulando questões de tutela de criança
(SZANICK, 1993 apud ALVIM, 2008, p. 4 e 5).

Após a Revolução Francesa, em várias legislações, a adoção aparece como


ato jurídico estabelecido entre duas ou mais pessoas, no afã de concretizar um
parentesco civil análogo à filiação legítima (PICOLIN, 2007).
Focalizando, agora, o Brasil, é necessário destacar, de início, que o país,
quando colônia, era regido pela mesma legislação que regia Portugal – as ordenações
Afonsinas, Manuelinas e Filipinas, conjunto de leis que regiam Portugal e suas
possessões no Atlântico Sul, as quais eram omissas quanto à questão da adoção,

107
pois traziam algumas menções, mas não sistematizavam a sua prática (MARTINS,
2001).
De fato, a ausência de legislação sobre o assunto restringiu muito a prática,
pois, como afirma a historiadora Marcílio (1998 apud MORENO, 2006, p. 465), “sem
o estatuto da adoção – que surgiu na legislação brasileira apenas no século XX – só
se podia adotar uma criança informalmente, como filhos de criação sem direito à
sucessão”.
Moreno (2006) destaca que a “própria legislação desencorajou a adoção, ao
garantir a manutenção do pátrio poder dos pais biológicos em casos de abandono dos
filhos, impedindo que outros indivíduos pudessem adotá-los”. Porém esta carência na
legislação não significou que a sociedade colonial não tenha praticado o abandono de
crianças. Com efeito, uma de suas instituições, a roda dos expostos, evidencia o
contrário. A roda dos expostos, depósito dispensário da Europa do século XIII até
meados do século XIX, permitia que adultos – homens e mulheres – abandonassem
crianças no anonimato.
A roda dos expostos ou dos enjeitados, que persistiu no Brasil do século XVII
ao XIX, chama a atenção para a prática comum a muitas crianças do período. Utilizada
por motivos variados, o depósito consistia de:

(...) uma porta giratória, conectada com a instituição (Santa Casa de


Misericórdia) onde as crianças eram depositadas em uma gaveta que, ao
girar, levava as crianças para dentro da instituição, podendo manter em sigilo
a identidade da pessoa que iria depositá-la (MATIVE; RAMPAZZO, 2010, p.
3).

O abandono nas Rodas não significava garantia de sobrevida às crianças. A


alta mortalidade marcou a realidade dessa prática e colocava sob questionamento a
própria política, que recebia as crianças para falecerem entre os muros de sua
instituição. Eva Faleiros (1995) argumenta que os expostos eram recolhidos para
morrer na instituição e não na rua, utilizando, entre outros, o testemunho de Maria
Graham, governanta de D. Pedro I, que, em 1821, escrevia o seguinte:

A primeira vez que fui à Roda dos Expostos (do Rio de Janeiro) achei sete
crianças com duas amas; nem berços, nem vestuário. Pedi o mapa e vi que
em treze anos tinham entrado perto de 12.000 e apenas tinham vingado
1.000, não sabendo a Misericórdia verdadeiramente onde se achava
(GRAHAM, 1821 apud FALEIROS, 1995, p.231).

No Brasil republicano, o instituto da adoção só apareceu disciplinado pelo


direito brasileiro nos artigos 368 a 378 da Lei n.º 3.071/1916 (Código Civil de 1916),

108
que entrou em vigência em 1° de janeiro de 1917. Até então, a adoção se dava através
de escritura pública, averbada em Cartório de Registro Civil, sem nenhuma
interferência judicial, ao que Fonseca (2002), afirma, seguindo o mesmo procedimento
realizado para a regulamentação de bens e imóveis.
Apreendemos que a adoção legislada por esse código era destinada a
pessoas com mais de 50 anos e que se exigia uma diferença de no mínimo 18 anos,
entre adotante e adotado. O código preconizava que os adotantes não deveriam ter
prole e ainda discriminava o adotado nas questões sucessórias. Notemos o caráter
essencialmente privado desse código, no qual o olhar do Estado não está voltado para
a criança e, sim, para a unidade familiar, no intuito de suprir uma deficiência criada
pela natureza (RIBEIRO, 2008).
O instituto da adoção, do começo do século XX até os dias atuais, passou por
algumas mudanças significativas que foram acompanhando os debates da sociedade
e suas necessidades criadas em função de sua experiência histórica.
Um grande aumento na quantidade de crianças e adolescentes vivendo em
situação de miséria e abandono é marcado pelas mudanças socioeconômicas e
políticas pelas quais passaram o país.
Após o fim do trabalho escravocrata (1888), passou a predominar o regime de
trabalho assalariado, então disputado por trabalhadores ex-escravos e europeus
recém-chegados. Atrelado a isso, a expansão industrial proporcionou um processo de
migração do campo para a cidade. Vale observar que, somada à mão-de-obra desses
trabalhadores, a mão-de-obra infantil na indústria representava um complemento para
os baixos rendimentos das famílias operárias. Embora tenha havido um significativo
aumento da oferta de mão-de-obra, a oferta de empregos não correspondia à
demanda dos trabalhadores nos grandes centros urbanos, os quais não dispunham
ainda de serviços públicos voltados à saúde e à educação, problemas sociais esses
que também atingiram as crianças.
Nesse contexto, a situação das crianças e adolescentes apresentava-se como
um problema social que as autoridades da época trataram com medidas higiênicas,
uma vez que o início do século XX é perpassado pelas discussões e influências das
ideias dos higienistas, que pensavam no funcionamento da sociedade de maneira
utilitária. A criança aparece nesse contexto como depositária da reprodução da
sociedade. O poder do Estado aos poucos começava a entrar no âmbito familiar,
podendo, inclusive, destituir do pátrio poder a família que não cuidasse de suas
109
crianças, assumindo para si a responsabilidade com os abandonados e desvalidos,
alterando o tratamento dado às crianças, de filantrópico para repressor.
Assim, de modo embrionário, foi aparecendo a noção de infância
independente do poder familiar.
Conforme descreve Faleiros (1995), a agenda da proteção social tornou-se
mais sistemática com a realização, em 1921, do 1º Congresso Brasileiro de Proteção
à Infância. No ano seguinte, com a promulgação da lei orçamentária (Lei n.º
4.242/1921), o governo, combinando as estratégias de assistência e repressão,
organizou um serviço de proteção e assistência ao menor abandonado e delinquente.
Posteriormente, em 1923, pelo Decreto 16.272, o Presidente da República aprovou o
regulamento da assistência e proteção aos menores. No entanto, a promulgação do
Código de Menores só se deu quatro anos depois, em forma de Decreto n.º17.943-A,
em 12/10/1927, o qual consolidou as leis de assistência e proteção aos menores,
aboliu, formalmente, a roda dos expostos e estabeleceu a proteção legal às crianças
até completar dezoito anos de idade, “inserindo-a na esfera do direito e na tutela do
Estado” (FALEIROS, 1995, p.63).
Sustentado, por um lado, pela visão higienista de proteção do meio e do
indivíduo, o Código de 1927 prevê a saúde das crianças, dos lactantes e das nutrizes,
via inspeção médica da higiene, cuja finalidade estava ligada à integridade física e
moral dessas crianças. Àquelas desamparadas, por abandono ou falecimento dos
pais, limitadas à idade de sete anos, era aberta a possibilidade de serem
encaminhadas às famílias e às instituições públicas ou privadas, que poderiam
receber a delegação do pátrio poder.
Por outro lado, sustentado pela visão jurídica e correcional disciplinar, esse
código previa que a criança delinquente fosse repreendida por seu caráter desviante.
Na categoria de pertencentes a um grupo de menor valia para a sociedade produtiva,
a elas eram aplicadas as medidas repressivas ou correcionais, dependendo de sua
idade e culpabilidade, cabendo ao Juiz, cujo olhar era vigilante e o poder indiscutível,
definir, com base na índole, boa ou má, da criança e do adolescente, suas trajetórias
institucionais.
Diferente do Código de 1916, o Código de Menores de 1927 não tratou da
adoção. Porém, não valorizou a família de modo absoluto, na medida em que abriu a
possibilidade de encaminhar menores abandonados às famílias ou às instituições
(FALEIROS, 1995).
110
A primeira alteração no código, sobre adoção, ocorreu somente quarenta e
um anos depois do Código 1916, com a Lei n.º 3.133, de 08 de maio de 1957, a qual
apresentou mudanças nos requisitos indispensáveis para que a adoção fosse
possível.
Estabelecia a Lei n.º 3.133/57 a diminuição da idade mínima para trinta anos,
e a diferença de idade entre adotado e adotante para dezesseis anos. Deixou ainda
de existir a necessidade do casal adotante não possuir prole, exigindo a comprovação
de estabilidade conjugal por um período de no mínimo cinco anos de matrimônio. Além
disso, o parentesco resultante da adoção tinha efeitos apenas para o adotante e
adotado. Com exceção do pátrio poder, que era transferido, os demais direitos e
deveres em relação ao parentesco natural não se extinguiam. Em se tratando de
sucessão hereditária, o adotado tinha direito a apenas metade do quinhão a que
tinham direito os filhos biológicos.
Mais tarde, em 02 de junho de 1965, entrou em vigor a Lei n.º 4.655, a qual
permitiu que fosse cancelado o registro de nascimento primitivo e substituído por
outro, com novos dados da família substituta.
Posteriormente, em 10 de outubro de 1979, a Lei n.º 6.697/79 apresentou um
significativo avanço na proteção à criança e adolescente e no tratamento dado pela
legislação pátria à adoção. O Código de Menores, como ficou conhecida a Lei, previa
dois tipos de adoção: a plena e a simples ou tradicional, a saber: a adoção simples
tinha como característica o parentesco civil entre adotante e adotado, entretanto,
revogável se as partes assim acordassem. Nesta, o parentesco consanguíneo ainda
se revestia de legitimidade, não extinguindo os direitos e obrigações do parentesco
natural. Já, para haver adoção plena, os cônjuges, necessariamente, precisavam
estar casados há mais de cinco anos (salvo se um deles fosse estéril); um deles com
idade igual ou superior a trinta anos e pelo menos dezesseis anos mais velho que o
adotado; o adotado não poderia ter idade superior a sete anos (salvo se já se
encontrasse, à época em que completou tal idade, sob a guarda dos adotantes); e
houvesse, entre adotantes e adotado, estágio de convivência de pelo menos um ano
(salvo se o adotado fosse recém-nascido). A adoção não era permitida aos solteiros,
estrangeiros, viúvos ou separados, nestes dois últimos casos, salvo se já iniciado o
estágio de convivência de três anos antes da morte de um dos cônjuges ou da
separação. A adoção plena extinguia todos os vínculos do adotado com a sua família
biológica, mantendo-se apenas os impedimentos matrimoniais.
111
No entanto, a referida lei ainda mantinha a diferenciação entre filhos legítimos
e ilegítimos, o que só foi modificado em 1988 com a Constituição Federal do Brasil,
que trouxe o caráter igualitário, colocando ambos os filhos no mesmo patamar de
direitos.
De acordo com Souza (1992), a introdução do Código de Menores no
ordenamento jurídico nacional fez evoluir o tratamento dado à adoção, pois, pela
primeira vez, o legislador voltou sua preocupação aos adotandos, priorizando seu
bem-estar, condição na qual a adoção passou a ser aplicada.
Sustentada por princípios adotados pela Declaração dos Direitos das
Crianças de 1959 e pela Convenção sobre os Direitos da Criança, defendida pela
Organização das Nações Unidas em 1989, a Lei n.º 8.069 de 13 de julho de 1990, que
instituiu o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), veio confirmar o Código de
Menores, no sentido de proteger, acima de tudo, o interesse da criança e do
adolescente15. De acordo com as mudanças regulamentadas pela Lei n.º 8.069/90, a
idade máxima do adotando passou de sete para dezoito anos – salvo se o adotando
já estiver sob a guarda ou tutela do(s) adotante(s) – e a idade mínima dos adotantes
passou de trinta para vinte e um anos; independentemente de seu estado civil, porém,
pelo menos dezesseis anos mais velho que o adotando.
De acordo com o artigo 48, trata-se, a adoção, de medida irrevogável, a qual,
de acordo com o artigo 43, “será deferida quando apresentar reais vantagens para o
adotando e fundar-se em motivos legítimos”.
O artigo 41 estabeleceu que a adoção atribui ao adotado a condição de filho,
o que lhe garantiu os mesmos direitos e deveres, até mesmo os sucessórios,
desligando-o de qualquer vínculo com pais e parentes, exceto nos casos de
impedimentos matrimoniais – quando um dos cônjuges, tendo adotado o filho do outro,
são mantidos os vínculos de filiação entre o adotado e o cônjuge do adotante e os
respectivos parentes.
Conforme estabeleceu o artigo 45, a adoção deve ocorrer mediante o
consentimento dos pais ou do representante legal do adotando, salvo casos cujos pais
sejam desconhecidos ou tenham sido destituídos do pátrio poder. O adotante maior
de doze anos também deverá manifestar seu consentimento.

15
O ECA pode ter confirmado na ideia de tratamento, mas, do ponto de vista jurídico, o ECA revogou
expressamente o Código de Menores.

112
No que se refere à família substituta, o § 1o do artigo 28 estabelece que:
“sempre que possível, a criança ou adolescente deverá ser previamente ouvido e a
sua opinião devidamente considerada”.
O ECA, (art. 46), estabeleceu a obrigatoriedade do estágio de convivência,
pelo prazo que a autoridade judiciária fixar, salvo casos em que o adotando não tem
mais de um ano de idade ou já estiver na companhia do adotante em tempo suficiente
para se avaliar a constituição de vínculos entre ambos. Ainda no afã de estimular o
vínculo e disciplinar a adoção por estrangeiro ou domiciliado fora do país, determinou
que o estágio de convivência deve ser cumprido em território nacional, sendo de, no
mínimo, quinze dias para crianças de até dois anos e de, no mínimo, trinta dias para
crianças acima dessa idade.
Houve uma modificação no instituto da adoção em 2009, quando veio a lume
a Nova Lei de Adoção – n° 12.010/09, a qual “dispõe sobre o aperfeiçoamento da
sistemática prevista para garantia do direito à convivência familiar a todas as crianças
e adolescentes”, prevista pelo Estatuto da Criança e do Adolescente.
A Lei 12.010/09 ao modificar a redação do artigo 39 do ECA, reiterou que a
adoção é uma medida irrevogável, devendo ser executada ao extinguir todas as
possibilidades de manter a criança junto à família de origem. Pelo nova redação do
artigo 42 do ECA, a nova lei diminui a idade mínima para a prática da adoção de vinte
e um para dezoito anos.
A Lei n. 8.069/1990, após a reforma de 2009, em seu artigo 45, no que se
refere à condição na qual a adoção deve ocorrer, alterou a expressão pátrio poder,
substituindo-a por poder familiar. Assim, a adoção deve ocorrer mediante o
consentimento dos pais ou do representante legal do adotado, salvo casos cujos pais
sejam desconhecidos ou tenham sido destituídos do poder familiar. Reitera a
necessidade do consentimento por parte do adotando maior de doze anos de idade e
estabelece que a criança ou o adolescente, sempre que possível, será previamente
ouvido, respeitando seu estágio de desenvolvimento e grau de compreensão sobre
as implicações da medida, e sua opinião será devidamente considerada.
A nova Lei também procura evitar o rompimento definitivo dos vínculos
fraternais e, coloca os grupos de irmãos sob adoção, tutela ou guarda da mesma
família adotante, exceto em casos especiais que serão analisados pela Justiça.
Em relação ao estágio de convivência: poderá ser dispensado caso o
adotando já estiver sob a tutela ou guarda legal do adotante, durante tempo suficiente
113
que possibilite avaliar a constituição do vínculo. No entanto, a simples guarda não
autoriza, por si só, a dispensa da realização do estágio de convivência. A lei passou
a exigir um tempo de relacionamento de, no mínimo, trinta dias, cumprido no território
nacional, em caso de adoção por pessoa ou casal residente ou domiciliado fora do
país. Determinou, ainda, que o estágio de convivência será acompanhado por equipe
interprofissional a serviço da Justiça da Infância e da Juventude, que apresentará
“relatório minucioso acerca da conveniência do deferimento da medida”. Pela nova lei,
ao adotando, é garantido o direito de conhecer sua origem biológica e de obter acesso
irrestrito ao processo de sua adoção, após completar 18 anos. O adotado menor de
dezoito anos, a seu pedido, também pode ter acesso ao processo de adoção, porém,
sob orientação e acompanhamento jurídico e psicológico.
O artigo 51 do ECA, após a reforma de 2009, dispõe sobre adoção
internacional, porém, privilegia a permanência do adotando no Brasil, colocando a
família brasileira como prioritária. A nova redação do artigo 52 expõe a maneira pela
qual a adoção internacional deve ocorrer. Estabelece, ainda, que, em se tratando de
adoção de adolescente, seja assegurado que este foi consultado, por meios
adequados ao seu estágio de desenvolvimento, e que se encontra preparado para a
medida, mediante parecer elaborado pela equipe interprofissional da Justiça da
Infância e da Juventude.
A partir da evolução histórica do instituto da adoção podemos observar que
as mudanças ocorridas se deram dentro de um contexto sociocultural e que a
legislação acompanhou as modificações e transformações sociais.
Na legislação, o lugar da criança passou de objeto do direito a sujeito de
direitos. Apesar dos avanços expressivos e das crianças aparecerem como sujeitos
com direito de serem ouvidas, por serem consideradas imaturas, vulneráveis às
influências externas, perdem esse direito de participação ativa nos assuntos que lhes
dizem respeito.
A postura da legislação, ainda que com as mudanças propostas, valoriza a
família biológica em detrimento da família adotiva e pressupõe ser, esta última,
formada por um homem e uma mulher. Nota-se que, como toda e qualquer prática
social, a adoção de crianças também reflete crenças, valores e padrões de
comportamento construídos historicamente.
A última atualização no instituto da adoção ocorreu com a Lei 13.509 em 22
de novembro de 2017 e reiterou o artigo 46, estabelecendo a obrigatoriedade do
114
estágio de convivência, pelo prazo máximo de 90 dias, observadas a idade da criança
ou adolescente e as peculiaridades do caso. Ainda no afã de estimular o vínculo e
disciplinar a adoção por estrangeiro ou domiciliado fora do país, determinou que o
estágio de convivência deve ser cumprido em território nacional, sendo de, no mínimo,
trinta dias.
Há que se considerar, no entanto, que as mudanças relacionadas à adoção
continuam ocorrendo, e apesar do STF – Supremo Tribunal Federal conceder a
autorização16 para pessoas e famílias homoafetivas adotarem, ainda há a
necessidade de reivindicar o gozo dos mesmos direitos que envolvem o instituto da
família, dentre eles, o direito à adoção de crianças.
A constituição da família homoparental um fato, porém não foram
sistematizadas no corpo da lei. A ocorrência da homoparentalidade pode estar ligada
a um relacionamento heterossexual anterior que, após o desenlace, a família aparece
recomposta de maneira homossexual; por novas tecnologias, nas quais mulheres
podem ser fecundadas por inseminação artificial ou, no caso masculino, por barriga
de aluguel17; pela co-parentalidade, forma que pode se relacionar com as demais e
evidencia-se pelo planejamento conjunto do desejo de constituição de família; ou pela
adoção, quando o casal homoafetivo decide adotar uma criança / adolescente, tema
este que será problematizado no tópico a seguir.

3.2 A adoção homoparental

Apesar da opção pela utilização do termo homoparentalidade, faz-se


necessário explicitar o neologismo “união homoafetiva”, criado por Maria Berenice
Dias18, a fim de estabelecer fronteiras e diferenças entre os termos utilizados.
Segundo a criadora do termo:

Ao lidar com o Direito de Família, me dei conta de que não havia norma
regulando as uniões de pessoas do mesmo sexo. (...) equiparam a união
homoafetiva à sociedade de fato. (...) na realidade, eles continuam sendo
homossexuais, mas têm com o outro, vínculos homoafetivos. Família, no

16
Tecnicamente, o Supremo Tribunal Federal, entendido como um órgão colegiado, não se manifestou
expressamente sobre o assunto. Na verdade, quem falou foi apenas a Ministra Carmen Lúcia ao negar,
individualmente, um recurso em um processo sobre adoção por um casal homoafetivo.
17
A barriga de aluguel ou “cessão temporária do útero” é legal e expressamente prevista na Resolução
Conselho Federal de Medicina n.º 2.168/2017 para união homoafetiva.
18
Foi a primeira Desembargadora do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, tendo sido a primeira
mulher a ingressar na magistratura gaúcha.

115
conceito atual, é de caráter afetivo, portanto, esse tipo de união também está
dentro do conceito de família.

Para validar a importância do termo, foi efetuada uma busca na base de dados
“Google”, no dia 01 de setembro de 2017, do termo: “adoção homoafetiva” indicando
124.000 resultados. Pode-se perceber que a maioria das pesquisas da área do Direito
optou pela utilização do termo “união homoafetiva”. Já a maioria das pesquisas da
área da Psicologia, optou pelo termo “adoção homoparental”, que faz referência à
parentalidade e não ao afeto.
Quando pesquisado na base de artigos (Scielo), na base de dissertações e
teses da (Capes) e pesquisas em geral no (Google Acadêmico), utilizando os
descritores: “adoção; homoafetiva” foi encontrada a maior parte dos trabalhos no
campo do Direito - portanto, segundo Silva (2008), é necessário aumentar o
investimento de pesquisas no campo da Psicologia.
Para Chaves (2008), o tema adoção passou a ser motivo de interesse de
muitos estudiosos, aumentando o aparecimento na mídia, tais como - revistas, jornais
etc.
Segundo Maria Berenice Dias (2011a), as relações sociais são marcadas pela
heterossexualidade e ainda há grande resistência na aceitação de casais do mesmo
sexo habilitarem-se para a adoção. Para Silva (2008), esses casais do mesmo sexo
passaram anos escondidos atrás dos segredos e dos não-ditos. Atualmente, esse
discurso aparece dentro das clínicas psicológicas, escolas e outras instituições
sociais, evidenciando que a homossexualidade goza de uma verdadeira visibilidade
política na sociedade.
A abrangência da discussão do tema passa pelo interesse das famílias
homoparentais na adoção de crianças. Na luta por reconhecimento de direitos sociais,
essas novas famílias passam a buscar, com maior ênfase, a possibilidade do exercício
da homoparentalidade (UZIEL, 2007; ZAMBRANO, 2008).
Para a autora, a constituição da homoparentalidade pode ocorrer de maneiras
distintas, porém não sistematizadas no corpo da lei. Relacionamentos anteriores,
adoção, novas tecnologias e até mesmo barriga de aluguel, são formas de
constituição de família. A autora conclui seu pensamento dizendo que “é com o
significado de ser pai/mãe para criar e amar uma criança que a adoção é buscada por
casais homossexuais. Entretanto, ainda se faz necessário adaptá-la à configuração
homoparental” (ZAMBRANO, 2008, p.59).

116
Essa configuração da família homoparental ainda é estranha para a camada
tradicionalista da sociedade que entende a homossexualidade e a homoparentalidade
como negação da natureza procriativa:

(...) é esta visão de negação da natureza, ou de transgressor da ordem, seja


ela biológica, moral, religiosa, social que perpassa os discursos contra a
parentalidade homossexual. Essa ideia de negação da paternidade em
função da escolha de parcerias do mesmo sexo aparece como justificativa
para o estranhamento da parentalidade gay (UZIEL, 2002, p. 38).

A adoção tem por objetivo favorecer a inserção de uma criança em uma


entidade familiar, sendo essa a diretriz das convenções de direitos internacionais da
criança, portanto, o rompimento dos vínculos com a família consanguínea e o desejo
e a disponibilidade de um adulto de ser pai ou mãe são os verdadeiros pontos de
partida (CHAVES, 2008).
Diante dessa constatação pergunta-se: quando um casal do mesmo sexo
decide se tornar pais / mães? Para responder essa pergunta, é necessário
considerar o aumento da homoparentalidade na sociedade contemporânea, pois se
inicia uma luta para a inclusão, na pauta de políticas, da conquista pelos direitos, em
forma de lei, para o casamento civil e a adoção de crianças, a fim de atender à
demanda das novas configurações familiares. Para Uziel (2007), a pertinência em se
tratar de homossexualidade, quando o tema é família, não tem resposta simples. É
evidente que os homossexuais não ocupam somente o lugar de filhos, mas também
o de pais. A discussão não apenas inaugura essa realidade social, pois aumenta a
visibilidade e a inclui na pauta de busca por direitos, visando à extensão para a
concepção de família.
Se as reivindicações do movimento LGBT foram marcadas, durante muito
tempo, pela busca de direitos a uma sexualidade não-procriativa, a essas juntou-se
uma nova luta por uma procriação não-sexual. A tecnologia aumentou as
possibilidades tanto de contracepção, quanto para reprodução. Os homossexuais
encaixam-se entre os casais inférteis pela impossibilidade biológica na reprodução
(UZIEL, 2007).
Uma outra forma de ter filhos é a adoção, que tem por objetivo encontrar uma
entidade familiar para uma criança, visando ao seu melhor desenvolvimento.
O movimento LGBT buscou sua afirmação na sociedade, pelo direito de não
serem reconhecidos pelo prisma da patologia e poderem gozar dos benefícios
concedidos aos heterossexuais, como, por exemplo, os benefícios legais que

117
envolvem e protegem o instituto da família (ROUDINESCO, 2003). Por esse motivo,
será apresentada nos próximos tópicos a evolução da homossexualidade e do instituto
da família.
No Brasil, a adoção por duas pessoas só pode ser estabelecida quando há
matrimônio ou união estável, sendo reconhecida como entidade familiar “entre homem
e mulher, configurada na convivência pública, contínua e duradoura e estabelecida
com o objetivo de constituição de família”19.

Ao mesmo tempo em que o Código Civil Brasileiro não faz menção a respeito
da orientação sexual do adotante, o faz sobre a união estável. Muitos casais
do mesmo sexo vivem em uniões estáveis e duradouras, porém estas não
são reconhecidas por nossas leis (FUTINO; MARTINS, 2006, p. 151).

Além dos impeditivos apresentados acima, ainda temos, no ECA, outros


impeditivos para a adoção que devem ser considerados. Todos eles se baseiam em
evitar situações que coloquem a criança em risco. Ainda que a palavra risco dificulte
a compreensão, parece haver um consenso. Ai que entra uma das principais questões
sobre a adoção homoparental. A homossexualidade pode ser danosa para a
criança? Se a criança for adotada por um casal homoparental, ela estará
correndo risco? Muitas dúvidas e preconceitos acompanham certo receio de que a
criança possa, no futuro, apresentar orientação sexual homossexual. Essa crença não
encontra respaldo cientifico, como demonstram pesquisas nos EUA, que mostram que
as crianças criadas no seio do lar homossexual não apresentaram diferenças quanto
aos aspectos de desenvolvimento psicológico, escolar ou de socialização, quando
comparadas com crianças de famílias heteroparentais (SILVA, 2008).
Embora essas pesquisas comprovem certo sucesso dos casais
homossexuais no exercício da parentalidade, diversos setores sociais insistem no
questionamento dessa capacidade. Pode-se pensar que esse ponto de vista
engendra-se em uma crença que se baseia unicamente na estruturação de
identidades homossexuais (SILVA, 2008).
Segundo Zambrano (2008), alguns conceitos da psicanálise devem ser
interpretados como funções e não como o sexo biológico das pessoas. Existe uma
consideração social de que aquela pessoa que impõe as regras à criança e se ocupa
dos fatores objetivos - estaria realizando o papel masculino, enquanto aquela que

19
Artigo 1.622 e 1.723 do Código Civil Brasileiro.

118
cuida da criança e dos cuidados da casa estaria mais ligada ao papel feminino. Sabe-
se da importância de colocar uma criança em contato com essas duas funções para
o seu desenvolvimento saudável, porém, essas funções não precisam estar
associadas ao sexo biológico das pessoas que cercam essas crianças, podendo ser
realizadas por um casal do mesmo sexo. Assim, segundo Farias e Maia (2009), esse
fato pode ser percebido juntamente com os resultados das pesquisas, que
demonstram que filhos de casais do mesmo sexo (homossexuais femininos ou
masculinos), não apresentam comprometimento e problemas em seu
desenvolvimento psicossocial, quando comparados com filhos de heterossexuais.
Zambrano (2008) constatou, por meio de revisão de literatura, que a maioria
das pesquisas indica não haver diferenças significativas entre pais / mães
homossexuais e pais / mães heterossexuais, quanto ao tempo dispensado aos filhos
e à qualidade do vínculo criado entre eles.
Pelo que se pode perceber até aqui, as pesquisas não apontaram diferenças
quanto ao desenvolvimento da criança que é adotada por um casal do mesmo sexo,
mas ainda existe grande resistência na evolução das leis, no que diz respeito a esse
procedimento.
Chaves (2008, p. 36) diz que “[...] o interesse da criança deve ser norteador
dos profissionais encarregados de buscar para elas as alternativas de reinserção
familiar e social”. Diversos aspectos necessitam ser cuidadosamente enfocados nas
famílias candidatas à adoção:
• As motivações explícitas e implícitas de cada casal.
• A estabilidade emocional de cada um dos integrantes da família.
• As experiências familiares e de vida de cada um.
• Crenças e expectativas em relação à criança que será adotada.
• Compreensão dos aspectos relacionados ao adotante (história de
vida) e a adoção (CHAVES, 2008).
Zambrano (2008) afirma, de maneira contundente, que a regulamentação da
adoção homoparental privilegiaria não só o casal, mas a criança, pois esta seria
protegida pela lei nos casos de divórcio, direito à alimentação ou nos casos de direitos
sucessórios.

119
A criança deve ser considerada como parte integrante e ativa do processo de
adoção e não pode ser nunca “coisificada”, como se fosse uma mercadoria (CHAVES,
2008). Para o autor:

(...) a homoparentalidade enfrenta atualmente as mesmas restrições e


preconceitos sociais que o divórcio enfrentou na década de 1970. Mesmo
com a glamorização da adoção, (...) até sua banalização pela mídia nos
tempos atuais, não se pode desconsiderar que o sucesso da adoção
dependerá da articulação dos diversos atores envolvidos (CHAVES, 2008, p.
37).

3.2.1 Os estudos acerca da adoção e da adoção homoparental

A proposta deste subcapítulo é apresentar as pesquisas acerca da questão


da adoção homoparental. Para isso, fez-se necessário contextualizar os estudos que
envolvem diretamente os filhos(as) dessas famílias. Temos a intenção de apresentar
questões e funcionalidades das famílias homoparentais e discutir os resultados
encontrados, dando maior enfoque nos filhos(as). Salientamos que esse recorte traz
a possibilidade de analisarmos as ideologias referentes a esse modelo de família, num
país onde há prevalência de relações assimétricas de poder, dentre elas, a
prevalência da heteronorma, que se estende para além das questões que envolvem
consanguinidade (FONSECA, 2008; MACHADO, 2001, MACHIN, 2016).
Conforme mencionado anteriormente, temos, nos últimos anos, um aumento
significativo de famílias homoparentais20 no Brasil e também em outras partes do
mundo. De acordo com os dados do Cadastro Nacional de Adoção21, temos tido um
crescimento significativo da procura por casais homoafetivos pela adoção de crianças.
Estudos e pesquisas acerca da questão da adoção de crianças por casais
homoafetivos têm trazido importantes considerações e reflexões sobre o tema.
Atualmente temos uma extensa literatura que explora tanto o processo de
adoção, quanto a dinâmica de funcionamento dessas famílias.
Nas últimas duas décadas, as pesquisas têm apresentado uma vasta
discussão sobre as questões do envolvimento das famílias adotivas no processo de

20
Discutiremos a família homoparental considerando, predominantemente, o processo de adoção de
crianças, já que para casais homossexuais compostos por homens somente podem utilizar de
tecnologia de reprodução assistida via barriga de aluguel e este é um processo permitido no Brasil
desde novembrod e 2017.
21
Disponível em: < http://www.cnj.jus.br/cnanovo/pages/publico/index.jsf >

120
adoção (GROTEVANT et al. 2008), a reação da família consanguínea ao receber a
criança adotada (HENNEY et al. 2007), adoção transracial (BURROW e FINLEY.
2004), a comunicação dentro das famílias adotivas (WROBEL et al. 2003), entre
outras.
Em um estudo sobre o desenvolvimento das crianças, Farr e Patterson (2013)
têm indicado que crianças adotadas, comparativamente com crianças advindas de
famílias biológicas, possuem maiores chances de desenvolverem problemas
comportamentais. Crianças que experimentam o processo de institucionalização
antes de serem adotadas também apresentam maiores chances de desenvolverem
problemas comportamentais futuros. As autoras fizeram um levantamento de
pesquisas e apontaram que os pesquisadores Gunnar, Van Dulmen & The
International Adoption Project Team (2007) juntamente com o time de projeto22 de
adoção internacional, avaliaram o comportamento de 1.948 crianças. Destas, 899
passaram por um longo período de institucionalização antes de serem adotadas e
apresentaram maiores problemas comportamentais comparativamente com aquelas
que tiveram períodos menores ou nenhum contato com a institucionalização. Além
disso, os pesquisadores Juffer e Van Ijzendoorn’s (2007) analisaram 88 estudos,
comparando 10.997 crianças que foram adotadas (internacionalmente,
domesticamente e/ou transracialmente23) versus 33.862 crianças criadas pelas
respectivas famílias biológicas, revelaram que não há diferenças significativas na auto
estima decorrente do processo de adoção. Porém, quando comparados com crianças
institucionalizadas, estas apresentaram uma auto estima superior. Em um outro
estudo meta analítico Van Ijzendoorns, Juffer e Poelhuis (2005) avaliaram o QI e a
performance escolar de 17.767 crianças adotadas e não encontraram diferenças
significativas em seus resultados24.
Muitos dos resultados encontrados apresentaram outras facetas do
funcionamento dinâmico dessas famílias, dentre elas, as diferenças entre as famílias
heteroparentais e as famílias homoparentais. Existe um esforço para conciliar as

22
Um time multidisciplinar de pesquisadores da Universidade de Minnesota, das áreas de
desenvolvimento infantil, pediatria, ciência social e família, epidemiologia e psicologia que criaram o
projeto de adoção internacional a fim de investigar o comportamento de crianças adotadas.
23
Termo utilizado nas pesquisas internacionais para designar adoções que envolvem diferenças entre
a raça dos pais adotantes e da criança adotada.
24
Vale ressaltar que essa é uma pesquisa conduzida em outro país com contexto socioeconômico
significativamente diferente do Brasil, não servindo de comparação direta ao Brasil.

121
diferenças nos resultados entre os estudos que analisam o comportamento das
crianças e o papel de uma série de fatores de mediação, tais como, as circunstâncias
da vida pré-adotiva (GROTEVANT et al., 2006), o ambiente proporcionado pelas
famílias adotantes e o comportamento das crianças (WHITTEN e WEAVER, 2010), a
interação dos fatores anteriores à adoção e o ambiente pós adoção (JI et al., 2010), a
família e sua interação diante da adoção (RUETER et al., 2009), comunicação e
adoção (GROTEVANT et al., 2012), consciência sobre a adoção e identidade
(GROTEVANT et al., 2007; JUFFER, 2006), o papel da abertura no processo de
adoção (VON KORFF, GROTEVANT, McROY, 2006), o papel da avaliação nos
processos de adoção (STORSBERGEN et al., 2010), entre outros.
Um estudo denominado: “O “lugar” do filho adotivo na dinâmica parental:
revisão integrativa de literatura” de Morelli et al (2015), revisitou a literatura sobre
o tema e encontrou quatro importantes categorias para a discussão dos processos de
adoção, sendo eles: (i) motivações e preconceitos apresentados pelos pais adotivos;
(ii) temores sobre o momento de revelação da adoção ao filho; (iii) necessidade de
preparo dos pais para a filiação adotiva; e (iv) presença de apoio profissional para
prevenção da devolução filial. Concluiu-se que existe uma necessidade clara de
preparação dos pais para a parentalidade e de ajustes ambientais, sociais e psíquicos
para a chegada dos filhos. Recomenda-se auxílio profissional nesse momento do
processo de adoção. Além disso, a maioria dos estudos sobre famílias adotivas têm
revelado, predominantemente, informações sobre famílias heteroparentais. Mais
recentemente temos tido acesso às pesquisas que consideram as categorias:
orientação sexual e gênero dentro deste contexto, ou seja, pais e mães
homossexuais, e os papéis parentais associados ao homem e à mulher. A maioria
dessas pesquisas se ativeram ao processo de desenvolvimento das crianças e ao
funcionamento dinâmico das famílias homoparentais.
Para avançarmos com as discussões neste tema, vale ressaltar que nossa
perspectiva de análise segue a abordagem sistêmica - o que nos convida para um
olhar conectado aos aspectos globais e os específicos.

3.3 A parentalidade homoafetiva

O exercício da parentalidade em casais homoafetivos traz consigo fortes


debates. Trata-se de uma questão que pode ser discutida de diferentes pontos de
122
vista e de diferentes campos de estudo. Temos que lembrar que estamos diante das
experiências de diversas pessoas, sob diferentes jurisdições e culturas nos mais
diversos países. Fiorini (2010) alega que essas características são desafiadoras para
as áreas ditas “psi” tanto do ponto de vista teórico como na prática clínica.

Trata-se de um tema aberto que não se pode separar das imensas


mudanças culturais, sociais e jurídicas que se apresentaram nas últimas
décadas e que marcam fortemente a mudança deste século. Nesse sentido,
haveria de ser incluído dentro de um conjunto emergente de novas formas de
família – monoparentais, homoparentais – que se agregam ao modelo
clássico da família nuclear. O desejo de ter filhos não é exclusivo dos casais
heterossexuais e cada vez mais e com mais frequência se observa em casais
homossexuais, que recorrem a adoção ou à biotecnologia para a sua
realização (FIORINI, 2010, p. 48).

Para muitos dos casais homoafetivos, ter um filho(a) é um convite para a


imersão no mundo da heterossexualidade sob uma nova perspectiva: a de relacionar-
se com os demais pais e mães heterossexuais e receber comumente olhares ora de
curiosidade, ora de estranhamento ao notar que a criança está sendo cuidada por um
/ dois homens. Fica evidente que as associações de gênero relacionadas aos
cuidados maternos e paternos, colocando a mãe no lugar de cuidadora e o pai no
lugar de provedor, não traduz a realidade dos tempos atuais, mas a construção social
dessas posições parentais ainda se faz mais presente do que se imagina.
Primeiramente precisamos nos atentar para os vários termos empregados
para se referir às diversas configurações que articulam homossexualidade e
maternidade / paternidade. Infelizmente não temos um consenso entre os
pesquisadores da área e tampouco das instituições / organizações de apoio à causa
LGBT, com relação aos mesmos. Nos Estados Unidos encontrei o emprego dos
termos: gay and lesbian families, lesbian motherhood, same sex couples, lesbian and
gay parenting / parenthood e non tradicional families25 (GOLDBERG; ALLEN, 2013;
GOLOMBOK et al. 2003; LUCE, 2010; MAMO, 2007; ROUDINESCO, 2003;
WESTON, 1991). Nesta tese optamos pela utilização dos termos: homoparentalidade
(conforme informado anteriormente) e também parentalidade homoafetiva. Nomear
essas vivências parentais traz um aspecto importante de combate e luta contra os
modelos heteronormativos, mas ainda assim não dão conta, pois classificam,

25
Livre tradução dos termos: família de gays e lésbicas, maternidade lésbica, casais do mesmo sexo,
parentalidade gay e lésbica e famílias não tradicionais.

123
categorizam e colocam o sujeito em uma rede de relações que nem sempre consegue
representar a realidade vivida por essas famílias26.
Precisamos ressaltar que, nessa jornada para se tornar pais / mães, muitos
dos gays e lésbicas passam por preconceito e discriminação advindos de instituições
participantes do processo de adoção. A transição para a parentalidade traz consigo
alegrias e desafios. A decisão de casais homoafetivos terem filhos corrobora com
valores culturais e simbólicos associados ao ideal de pertencimento via a “família
verdadeira” (MACHIN 2016, p.354). Além disso, segundo Gomes et al, (2015) o
processo de parentalização envolve aspectos geracionais e transgeracionais, ou seja,
para tornar-se pai / mãe é necessário ter realizado um investimento interno que
começa pela aceitação de que nossas figuras paternas / maternas deixaram um
legado diante da parentalidade.
Nos relatos referentes ao projeto de parentalidade entre famílias
homoparentais compostas por gays, comumente encontra-se um desejo mais
individualizado para, posteriormente, isso se tornar algo do casal.

Tornar-se pai implica agir tendo os próprios pais como modelo, sendo que
não são os pais reais que ocupam o lugar das representações parentais, mas
o superego parental que é transmitido de geração em geração, ou seja, as
lembranças dos cuidados parentais, das regras, obrigações e interditos
(GOMES et al, 2015, p. 754).

Fato é que o desejo de constituir família está presente nas famílias


homoparentais e ela é problematizada pelos estigmas sociais. Temos dois grandes
argumentos na pauta de discussão da parentalidade homoafetiva: (i) a necessidade
de preservação da instituição familiar nos moldes tradicionais e (ii) os impactos
“negativos” causados nos filho(a)(s) dessas famílias. Esta última preocupação parte
da premissa de que a criança necessita de identificação de gênero, ajuste social e
sexual.
A construção da parentalidade é um processo contínuo e reflete nas emoções,
fantasias e em toda a subjetividade de pais e mães. De maneira geral, as
investigações acerca do lugar que o(s) filho(a)(s) ocupam no universo simbólico dos
pais/mães, podem ser analisadas através dos discursos proferidos pelos mesmos

26
Esse recorte tem por objetivo dar foco nas homoparentalidades, a fim de combater as ideologias
referentes à família socialmente construída. Isso se faz necessário, principalmente em um país onde
há prevalência dos códigos relacionais colocando a instituição familiar a possibilidade da vivência de
posições de classe, redes de parentesco que vão além da consanguinidade.

124
(MORELLI; SCORSOLINI-COMIN; SANTEIRO, 2015). A construção da parentalidade
adotiva implica em um processo adaptativo entre todos os sujeitos envolvidos nesse
processo; afinal, a elaboração psíquica requerida acerca da idealização desse filho
versus a realidade, traz consigo inúmeros desafios. O universo simbólico parental
construído diante da chegada desses filhos atribui uma imagem que carrega em si a
realização de sonhos e a dúvida com relação ao alcance de expectativas geradas
(D’AMATO, 2010; WADE, 2010). Estes fatores naturalmente interferem na
constituição desses seres humanos, sejam nos processos de filiação biológica ou nos
processos de adoção (KAMERS e BARATTO, 2004; JI et al. 2010; ZORNIG, 2010).
A história vivida pelos casais que constituem as famílias homoparentais traz
consigo relatos de mudanças sociais, culturais e históricas que, diretamente, falam
dos processos de adoção e do acesso à reprodução assistida. Muitos dos casos
relatados (Hayden, 1995; Luce, 2010; Mamo, 2007; Tarnovski, 2002; 2013) revelam
que as práticas da parentalidade entre casais homoafetivos envolvem uma tomada de
decisão que implica em alternativas importantes para a efetivação desse desejo.
Segundo a pesquisa de Machin (2016, p. 352):

O projeto de parentalidade entre homossexuais, revelados pelos


entrevistados(as), aponta para uma busca de autonomia e valorização do
casal, objetivando a escolha do melhor caminho para viabilizar esse desejo.
Nesse sentido, predomina entre as mulheres a busca ou uso de tecnologias
reprodutivas. Entre homens não obtivemos casos de acesso às tecnologias
reprodutivas, apesar de termos informações que isto está acontecendo no
país.

A opção pela adoção é valorizada a partir da (re)consideração da importância


do vínculo biológico/consanguíneo e o desejo de fazer diferença na vida de muitas
crianças que aguardam uma adoção, considerando, particularmente, o contexto social
do país.

[...] entre homens [...] igualmente mencionam receios de buscar uma solução
que os vincule e a criança também a uma provável genitora, temendo que
este vínculo possa colocar em risco o lugar de pais, ou mesmo, via a significar
a perda da criança para a mãe biológica num processo judicial futuro. Nesse
sentido, optam em regra pela adoção legal de crianças (MACHIN, 2016, p.
352).

Além disso, a maioria dos casais gays alegam sua preferência por uma
criança que tenha uma idade que permita a realização do cuidado pelo próprio casal
(a partir de 3 anos), ou seja, não necessariamente buscam por bebês.

125
Segundo Goldberg e Allen (2013), algumas pesquisas americanas mostram
que, geralmente, pais e mães gays/lésbicas são pessoas mais velhas, com maior
escolaridade e predominantemente brancas (BRODZINSKY e PINDERHUGHES,
2002; ERICH, LEUNG e KINDLE, 2005; FARR, FORSSELL e PATTERSON, 2010,
GATES et al., 2007; GOLDBERG, 2009; RYAN, PEARLMUTTER e GROZA, 2004).
As autoras reforçam que esses dados demográficos são baseados em casos de
adoção reconhecida e legalizada.
Devemos também considerar o peso das representações de gênero no
funcionamento dinâmico da homoparentalidade e nas articulações com a
parentalidade e os relativos valores biológicos e não biológicos no ser pai / mãe
(Gross, 2003).
Na pesquisa de Machin (2016), vários dos casais gays afirmaram não se
encaixar no que chamaram de “cultura gay”. Porém, vários dos relatos estavam cheios
de estereotipias associadas à promiscuidade, o que vai ao desencontro da família que
eles afirmaram que tiveram como referência, atualizando os padrões na relação atual.
Butler (1998) observa que as categorias de identidade são sempre normativas,
delimitando muitos processos de inclusão e exclusão. Muitos dos casais gays não se
identificam com a “cultura gay”, porque esta estaria na contramão dos valores da
família tradicional e heteronormativa, pontos esses que tendem a ser preservados
pelas famílias homoparentais.
Um estudo com 106 famílias adotivas, sendo 56 famílias homoparentais e 50
famílias heteroparentais, demonstrou que existem diferenças na expressão da
motivação para adotar entre os casais homoafetivos versus heteroafetivos. A maioria
dos casais heteroafetivos alegou desafios com a infertilidade como principal motivador
para o processo de adoção. Porém, menos de 50% dos casais homoafetivos declaram
o mesmo motivo. Parte dos casais homoafetivos declararam não ter forte desejo de
ter filho(as) biológicos e colocaram a adoção como sua primeira escolha,
diferentemente dos casais heteroafetivos que, em sua maioria, partem para esta
opção por não conseguirem um filho biológico. Além disso, Goldberg (2009); Goldberg
e Smith (2009), relatam que famílias homoparentais apresentam maior disponibilidade
para adoção inter-racial do que as famílias heteroparentais. Mas e as crianças e
adolescentes nesse processo todo? Quais são as pesquisas e o que elas
mostram até aqui?

126
3.4 Homoparentalidade: o que dizem os estudos sobre os filhos (as) ?

Há uma certa controvérsia acerca dos estudos sobre adoção de crianças por
famílias homoafetivas e a parentalidade destas. Inúmeras questões têm surgido sobre
a capacidade da parentalidade, sobre o provimento de “modelos parentais”
apropriados e a efetiva socialização dessas crianças, principalmente nas questões de
gênero e do desenvolvimento da sexualidade. Base de muitos desses
questionamentos partem de um modelo heteronormativo, advindo de uma construção
social de que o melhor modelo ainda é a família nuclear, branca e de classe média /
alta, fato que também se percebe em muitas das pesquisas internacionais.
Com base no último levantamento feito por Vecho e Schneider (2005), temos
28 pesquisas em todo o mundo que focalizam a criança / filhos(as) de casais do
mesmo sexo. A maior concentração de pesquisas acerca desse tema foi localizada
nos Estados Unidos, seguida pelo Reino Unido, Bélgica, Dinamarca, França e
Canadá, sendo que o Brasil não aparece na lista de produção científica dos últimos
30 anos.
Os estudos inicialmente focalizaram os aspectos sexuais e de gênero da vida
das crianças - preocupação quase sistemática antes de 1990, quando a psicologia do
desenvolvimento tradicional enfocou diferenças - problemas psicológicos,
habilidades sociais, autoestima e inteligência. Atualmente, o interesse principal
dos estudos tem sido apreender a retórica que envolve a infância e as crianças de
famílias homoparentais.
Além disso, um levantamento, feito por Short et. al. (2007), informou que os
principais assuntos abordados nas pesquisas sobre a parentalidade LGBT são: (i)
descrições dos aspectos da vida familiar, com foco no contexto jurídico, político e
social; (ii) a parentalidade exercida por diversos modelos familiares e (iii) avaliações
e críticas acerca do discurso social sobre parentalidade LGBT.
Outro levantamento americano sobre as pesquisas da área, realizado por
Goldberg e Allen (2013), demonstraram que a maioria dos estudos sobre
homoparentalidade tem se preocupado em demonstrar os resultados da capacidade
parental dessas famílias.
Os autores Biblarz & Stacey (2001), Goldberg (2010) e Tasker & Patterson
(2007) examinaram as famílias homoparentais adotivas e o desenvolvimento dos
respectivos filhos. A revisão dessas pesquisas foi baseada em três principais áreas,
127
sendo: (i) conduta e comportamento das crianças, (ii) relacionamento entre pais e
filhos e o (iii) desenvolvimento de gênero. Os resultados mostraram que a orientação
sexual dos pais não é um fator influenciador no desenvolvimento das crianças. Outros
fatores como as regras e políticas estabelecidas no ambiente familiar são mais
importantes e determinantes no desenvolvimento emocional dos filhos. Além disso,
houve pesquisas interessadas na investigação do comportamento de ajuste27 social
dessas crianças e adolescentes. Erich, Leung e Kindle (2005) não encontraram
diferenças significativas neste quesito. Um estudo com 97 famílias homoparentais
destacou normalidade no desenvolvimento socioemocional dos filhos das famílias
homoparentais (RYAN, 2007). Averett, Nalavany e Ryan (2009) avaliaram um grupo
de crianças / adolescentes entre (1,5 e 18 anos), todos adotados por mães solteiras,
casais de lésbicas ou famílias heteroparentais e os resultados não demonstraram
qualquer desajuste comportamental correlacionado com a orientação sexual dos pais.
Farr et al (2010) apresentaram um estudo sobre o comportamento de crianças
adotadas por famílias homoparental e heteroparental em idade pré-escolar. Ficou
evidenciado, de maneira geral, que essas crianças apresentaram alguns problemas
de comportamento, quando comparadas com crianças não adotadas, porém não
houve diferenças significativas entre a comparação do comportamento dos filhos
adotados por casais heteroafetivos e homoafetivos. Gianino, Goldberg e Lewis (2009)
exploraram o quanto adolescentes, filhos de famílias homoparental, revelavam a
orientação sexual de seus pais e a filiação adoção ao seu círculo de amigos. Os
resultados revelaram que estes se utilizam de diversas estratégias que vão da não
divulgação absoluta até a divulgação aberta de maneira indiscriminada. Os
adolescentes que apresentaram etnia diferente da dos seus pais adotivos, sentiam-
se forçados a revelar a condição de adotados. Todos os participantes da pesquisa
indicaram uma certa apreensão quanto à revelação de suas famílias.
Outros dois estudos examinaram a qualidade do relacionamento entre filhos
de famílias homoparentais e suas respectivas mães. Bennett (2003) destaca que as
famílias homoparentais apresentaram um forte laço emocional na relação entre ambas
as mães e seus filho(s). Porém, as mães sugeriram que as crianças mostram um maior
laço afetivo, primeiramente com uma das mães, apesar da divisão dos cuidados com

27
O termo “ajuste” é utilizado na maioria dos estudos internacionais. Nota-se uma normatização a
respeito da concepção diante das homoparentalidades que deve ser questionada, pois este termo
convida a uma adaptação a padrões e normas sociais considerados norteadores e ideias.

128
a criança serem relativamente iguais. Erich et al. (2009) informaram que a qualidade
do relacionamento entre adolescentes e pais homoafetivos não está diretamente
relacionada com a orientação sexual dos pais.
Quanto ao desenvolvimento da identidade de gênero dos filhos de famílias
homoafetivas, temos outros dois estudos envolvendo a mesma amostra de 106
famílias adotivas (FARR, DOSS & PATTERSON, 2011; FARR, FORSSELL &
PATERSON, 2010). Os resultados coletaram dados sobre crianças em fase pré
escolar e estes não apresentaram diferenças significativas na identidade de gênero
como uma função correlata à orientação sexual dos seus respectivos pais/mães.
Meninos e meninas mostraram características e preferências por brinquedos
tipicamente associados ao seu respectivo gênero e não diferenciaram de acordo com
a orientação sexual de seus pais. Os dados de observação corroboraram com os
relatos dos pais. O que nos chamou atenção é que a maioria dos estudos estrangeiros
tem apresentado um viés normatizador, tanto da sexualidade dos filhos, quanto da
comparação com as famílias heteroparentais, sendo estas, muitas vezes, utilizadas
como modelo. Essa mesma observação foi feita por Farias (2017, p. 128):

Apesar de haver um número maior de estudos estrangeiros sobre famílias


homoafetivas com filhos, percebemos que tais trabalhos parecem apresentar
um viés mais normatizador em relação à orientação sexual e aos objetivos
dos estudos. Está muito presente nos estudos estrangeiros a comparação
entre diversos aspectos do desenvolvimento e socialização de filhos de
pais/mães homossexuais e filhos de pais e mães heterossexuais,
considerando como idealizada a família heterossexual. Para medir tais
aspectos, os estudos estrangeiros utilizam entrevistas e instrumentos
padronizados.

Apesar desse viés normatizador, os resultados dos estudos estrangeiros


mostraram não haver diferenças significativas entre crianças criadas por famílias
heteroparentais e famílias homoparentais.

129
4. METODOLOGIA DA PESQUISA

Neste capítulo comunico as escolhas metodológicas, bem como o processo


de captação e análise dos dados. Para tanto, organizei o capítulo em tópicos: o
primeiro refere-se à minha escolha metodológica, depois descrição dos
procedimentos para a coleta e análise dos dados que compõem a amostra, e, o
segundo, a sistematização tanto da pesquisa quantitativa, quanto da pesquisa
qualitativa. Com o intuito de convidar os leitores a compreenderem a complexidade
dos caminhos percorridos na captação dos dados desta pesquisa, utilizei em alguns
momentos do texto um tom narrativo.

4.1 Minha escolha metodológica

Minha opção por uma metodologia mista (qualitativa e quantitativa) deu-se


naturalmente, em função do objetivo da minha pesquisa, visto ser o de investigar a
experiência das famílias homoparentais, o que envolve tanto aspectos objetivos,
quanto subjetivos de suas vivências. Além disso, esta escolha se dá pela credibilidade
de resultados, diante da multiplicidade dos dados encontrados neste modelo de
metodologia.
É evidente que existe um aumento significativo da legitimidade da pesquisa
mista nas ciências humanas e sociais. Cada vez mais, artigos, dissertações e teses
têm utilizado esse método misto e vêm publicando trabalhos nos mais diversos
campos das ciências sociais e humanas. Com a inclusão de métodos múltiplos de
dados e formas múltiplas de análise, a complexidade dessas pesquisas vem exigindo
procedimentos mais sofisticados e explícitos. Esses procedimentos se desenvolveram
em resposta à necessidade de esclarecer o objetivo de reunir dados quantitativos e
qualitativos em um único estudo (CRESWELL, 2007).
Havia planejado, conforme explicitado na figura 9, três importantes etapas na
pesquisa mista, sendo elas: (i) a captação da opinião pública de uma amostra de
brasileiros e outra amostra de americanos acerca do tema central da pesquisa; (ii) o
contato com os pais homoafetivos para a investigação de suas vivências e (iii) o
contato com as crianças – filho(a)(s) desses casais para investigação de conteúdo
simbólico.

130
Figura 9 – Estratégia inicial da Pesquisa

Investigação de Conteúdos Instrumentos de


Investigação Clínica
Filhos(as)

Famílias
Emersão de conteúdos Grupo Focal
Homoparentais
Masculinas

Pesquisa de Opinião Pública Questionário Online


Investigação do imaginário
(Brasil e Estados Unidos)
coletivo

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Embora existam literaturas que discorram sobre diferentes procedimentos


metodológicos, deparei-me com desafios emergentes desse campo de pesquisa que
me obrigaram a redesenhar o percurso metodológico. A este respeito explanarei com
mais detalhes adiante.
Como parte de minha busca, aprofundei-me nos princípios da técnica de
triangulação concomitante, ou seja, busquei tanto para a pesquisa qualitativa, quanto
para a quantitativa o cruzamento dos dados, a fim de corroborar com os resultados
dentro de um único estudo. Além disso, o projeto foi denominado “projeto sequencial
explanatório” (figura 10), ou seja, ocorreu em duas fases interativas distintas. Segundo
Creswell (2013), esse tipo de projeto inicia-se com coleta e análise de dados
quantitativos, que têm prioridade no acompanhamento das questões de estudo e
alimentará o pesquisador na coleta de dados qualitativos para posterior interpretação.

Figura 10 – Projeto Sequencial Explanatório

Coleta'e'análise' Coleta'e'análise'
de'dados' Acompanhamento' de'dados' Interpretação'
quan/ta/vos' qualita/vos'

Fonte: Creswell, 2013


Elaborado pelo autor

131
Ademais, diante de um novo objeto de estudo, busquei nos princípios da
perspectiva da Teoria Fundamentada nos Dados - Grounded Theory28 – a
metodologia que fundamentou a construção teórica derivada das análises dos dados
da tese.
Diferentemente das estratégias de pesquisas que necessitam de amostra
representativa para compreensão do fenômeno, a lógica da amostragem na Grounded
Theory é outra, pois busca encontrar sujeitos ao longo do processo de construção
teórica. A amostra segue uma extensão progressiva, no decorrer da análise, do
número e das características dos participantes em relação ao universo pesquisado
(TAROZZI, 2007). Em outras palavras, a amostra não se forma a priori, mas no
decorrer da pesquisa, seguindo as lacunas da teoria emergente, para chegar a
“saturar” as categorias, recolhendo dados dos sujeitos e de contextos que apresentam
aquelas características sobre as quais a teoria emergente ainda é fraca. Para tanto,
convidei, através de estratégia do tipo bola de neve, famílias homoparentais para
participarem da pesquisa. Tendo em vista que a pesquisa foi efetuada em três etapas,
segue um demonstrativo dos participantes para cada uma delas, conforme tabela a
seguir:

Tabela 1 – Amostra da pesquisa


Brasileiros Americanos
Pesquisa de opinião pública 1.055 180
Entrevistas estruturadas (categorias 7 casais com filhos(as) 7 casais com filhos(as)
apriorísticas)
Entrevistas abertas com temas 4 famílias 2 famílias
específicos homoparentais homoparentais
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

28
A Grounded Theory foi desenvolvida originalmente por Glaser e Strauss (1967), dois sociólogos norte
americanos envolvidos com metodologia qualitativa de pesquisa. As obras consultadas para a
realização desta pesquisa foram: The Discovery of Grounded Theory. Glaser e Strauss (1967);
Constructing Grounded Theory: A practical guide through qualitative analysis. Charmaz, (2006) e O que
é Grounded Theory? Tarozzi (2011).

132
4.1.1 Coleta de dados em métodos mistos

Na pesquisa de métodos mistos, os procedimentos de coleta de dados


demandam uma série de componentes-chave para que se tenha êxito. Definir a
amostragem, a permissão para utilização dos dados, a coleta de dados, os registros
dos dados e a administração de todos esses passos, são pontos fundamentais para
se ter sucesso nessa etapa da pesquisa. Segundo Creswell (2013, p. 157):

Ao planejar um estudo de métodos mistos, recomendamos que o pesquisador


avance um elemento qualitativo que inclua procedimentos de coleta de dados
qualitativos “persuasivos” e um elemento quantitativo que incorpore
procedimentos quantitativos “rigorosos”.

Para compor a amostra, foram convidadas as famílias homoparentais


compostas por casais homoafetivos masculinos e que tivessem pelo menos um
filho(a), sendo eles adotivos ou por barriga de aluguel. Diante da lei, a união estável
é caracterizada por ser pública, contínua, duradoura e com o objetivo de construir
família. A escolha por famílias homoparentais teve o propósito de conhecer as
peculiaridades dessas famílias quanto ao processo de desenvolvimento dos filhos. Os
participantes da pesquisa foram selecionados tanto através de indicações de pessoas
diversas, quanto ao processo de resposta do chamado de pesquisa.
A seleção dos participantes foi conduzida de acordo com os princípios éticos.
A condução das entrevistas aconteceu simultaneamente à codificação dos dados,
pois ajudou a definir os temas a serem tratados nas entrevistas posteriores. Nessa
etapa, foi necessário escrever os memorandos sobre insights e reflexões do
pesquisador.
Planejei uma coleta de dados dividida em duas etapas distintas, sendo elas:
a coleta de dados quantitativos através de questionários online e, a coleta de dados
qualitativos através dos pais e de seus filhos.
Para a segunda etapa com os pais, havia planejado o uso de grupos focais, o
que não ocorreu devido a não procura de participação diante do chamado de
pesquisa. Da mesma forma, com os filhos, havia optado por utilizar instrumentos de
investigação clínica, mas diante da não autorização dos pais americanos, abortei essa
estratégia e fui obrigado a me adaptar ao cenário apresentado, conforme figura 11
abaixo:

133
Figura 11 – Nova estratégia da Pesquisa

Emersão de Conteúdos Entrevistas Abertas com


Famílias temas específicos
Homoparentais 4 famílias brasileiras
Masculinas 2 famílias americanas

Famílias Entrevista Estruturada


Investigação de Conteúdos
Homoparentais (Categorias Apriorísticas)
Masculinas 7 famílias brasileiras
7 famílias americanas

Questionário Online
Investigação do Imaginário Pesquisa de Opinião Pública
Coletivo (Brasil e Estados Unidos) 1.055 respondentes Brasil
183 respondentes EUA

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Explanarei, adiante, cada uma das etapas de coleta de dados, ou seja, os


quantitativos e os qualitativos.

4.1.1.1 Coleta de dados da pesquisa quantitativa

O método de pesquisa quantitativo exige do pesquisador a análise de


variáveis de forma parcimoniosa, através de análise estatística, a fim de garantir
medidas e / ou observações empíricas. A validade e confiabilidade da apuração dos
levantamentos e padrões adicionais servem para fazer alegações de conhecimento,
resultantes das interpretações significativas vindas dos dados (CRESWELL, 2007).
Os procedimentos rigorosos de coleta de dados quantitativos envolvem uma
série de etapas, a fim de garantir maior eficácia. Creswell (2013) identifica as
seguintes etapas:
• Identificação dos participantes do estudo;
• Observação do tamanho da amostra (como ela proporciona suficiente
poder);
• Identificação estratégica de amostragem probabilística ou não
probabilística;
• Discussão das estratégias de recrutamento para os participantes;
• Discussão das permissões necessárias para estudar os participantes;
• Obtenção das aprovações dos conselhos de ética na pesquisa;
• Discussão dos tipos de dados a serem coletados (instrumentos etc.);

134
• Discussão dos scores relatados para validade/confiabilidade do
instrumento;
• Estabelecimento dos instrumentos / listas de checagens;
• Estabelecer como os procedimentos serão padronizados.

O intuito para a condução de uma pesquisa quantitativa de opinião pública,


deu-se na expectativa de me alimentar com informações de utilidade e relevância para
a condução da segunda etapa de coleta de dados qualitativos. Convocar a opinião de
uma amostra da população brasileira e outra da população americana nos trouxe
informações relevantes sobre a percepção geral da população sobre: (i) do casamento
homoafetivo, (ii) sobre as questões que envolvem a sociedade e a família
homoparental e (iii) o desenvolvimento emocional dos filho(a)(s) desses casais,
segundo a percepção dos pais.
Para compor a amostra da pesquisa, havia partido de um planejamento
inicial29, mesmo sabendo que essa amostra dependeria dos conteúdos emergidos,
tanto da etapa quantitativa quanto qualitativa, porém, ainda assim, fiz uma estimativa
inicial. Para compor essa amostra inicial, havia pensado em aproximadamente 400
participações na pesquisa quantitativa e aproximadamente duas famílias americanas
e duas famílias brasileiras.
Para a coleta de dados quantitativos no Brasil e nos Estados Unidos, elaborei
um questionário online fechado, composto por quatro principais blocos, sendo (i) a
primeira, responsável por captar informações demográficas dos participantes, (ii) a
segunda, elaborada com perguntas acerca do casamento homoafetivo, (iii) a terceira,
composta por perguntas relacionadas à sociedade e à família homoparental e (iv) a
quarta, e última, composta por perguntas acerca do desenvolvimento emocional dos
filho(s).
Optei por deixar a pesquisa quantitativa disponível durante 60 dias. Para
validar o questionário, busquei fazer um pré-teste com um grupo de pós-graduandos
do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo. Havia definido que o corpus da amostra deveria
ser composto por, no mínimo, 200 respondentes de cada país e, como estava

29
O planejamento inicial da amostra seguiu um número mínimo de participantes, a fim de garantir tanto
credibilidade como confiabilidade estatística.

135
interessado em escutar o imaginário coletivo social, não houve a necessidade de
predefinir um perfil para o recrutamento dos participantes.
Para garantir a confidencialidade das informações, o anonimato e a
autorização do uso das respostas dos participantes, optei por oferecer na primeira
página do questionário (figura 12) todas as informações gerais sobre a pesquisa.

Figura 12 – Questionário eletrônico de opinião pública utilizado no Brasil

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Ao responder o questionário eletrônico, os participantes foram informados de


que estariam automaticamente autorizando a utilização das respostas para fim de
pesquisa científico-acadêmica.
Para a etapa de coleta de dados quantitativos no Brasil, mantive o
questionário online disponível entre o período de 15.05.2015 a 15.07.2015. A pesquisa
foi divulgada através das redes sociais e utilizou-se da estratégia bola de neve.
Para a etapa nos Estados Unidos, traduzi e adaptei o questionário para o
idioma inglês, juntamente com a minha co-orientadora americana, e optei por seguir
o mesmo caminho, ou seja, replicar o mesmo questionário através de redes sociais e
utilizar a mesma estratégia de bola de neve, conforme figura 13. Mantive o
questionário online na internet no período entre 30.04.2016 a 30.06.2016. Porém,
nessa etapa da pesquisa, deparei-me com uma situação complexa, porque,
diferentemente do cenário brasileiro, pelo qual captei 1.055 participações, no cenário
americano consegui um número significativamente inferior de respostas, totalizando
180. Com essa diferença, fui obrigado a desistir de uma análise comparativa entre a
opinião dos brasileiros e a dos americanos, já que estatisticamente obtive uma

136
amostra numericamente não comparativa, principalmente porque não havia uma pré-
definição do perfil dos participantes. Dessa forma, fez-se necessário analisar os dois
cenários separadamente, visando a captar e compreender a opinião de uma parte da
população brasileira e outra parte da população americana.

Figura 13 – Questionário eletrônico de opinião pública utilizado nos Estados Unidos

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

4.1.1.2 Coleta de dados da pesquisa qualitativa

O método de pesquisa qualitativo exige do pesquisador um planejamento


prévio das estratégias que serão adotadas, além dos instrumentos que melhor captam
as informações do seu público alvo.
Nessa etapa da pesquisa, havia definido a utilização do método de Grupo
Focal30 para coletar dados sobre as vivências dos pais homoafetivos diante do
processo de desenvolvimento de seus filhos. Quando iniciei o processo de divulgação
do chamado de pesquisa nos Estados Unidos, percebi que nenhuma família
homoparental havia se prontificado a participar da pesquisa e que utilizar a técnica do
Grupo Focal para a coleta de dados seria algo arriscado, diante da realidade
apresentada.

30
Os grupos focais são considerados instrumentos de pesquisa qualitativa que utilizam das discussões
grupais para coletar dados a respeito de um tópico pré-determinado pelo pesquisador. A principal fonte
de dados é a discussão entre seus participantes.

137
Durante os 12 meses que estive no doutorado sanduíche na Seattle
University, tive inúmeras conversas com a minha co-orientadora - Dra Jodi O’Brien –
acerca das minhas preocupações em angariar adeptos ao meu projeto de pesquisa.
A Dra Jodi, por sua vez, acreditava que não teríamos problemas na captação dos
sujeitos para a pesquisa, já que, em sua experiência, os sujeitos americanos
comumente participavam de pesquisas como esta. Como desconhecia
completamente o processo americano, tanto ético, quanto dos procedimentos de
pesquisa, preocupei-me pela busca de informações acerca dessas questões. Por
orientação da Dra Jodi, criei um cartaz com a chamada: “Por favor, ajudem na
pesquisa avançada sobre pais gays no Brasil”, conforme figura 14, e o afixei em
diversos locais da cidade de Seattle. Tinha a expectativa de que esse processo
aconteceria de forma natural e fluídica, porém, para a minha surpresa, me deparei
com o vazio.
Johnson e O’connor (2002) observam que no processo para a localização de
famílias homoparentais, muitos dos pesquisadores acabam utilizando métodos
tradicionais, o que dificulta o processo de coleta de dados. As autoras recomendam a
utilização de folhetos para uma divulgação mais efetiva.

Figura 14 – Cartaz de chamada de pesquisa nos Estados Unidos

**" Please"help"advance"research"
for"gay"parents"in"Brazil**"
Needed:" Gay$ Male$ Parents$ with$ children$ 6312$ years$ old$ to$ par8cipate$ in$
psychology$research,$Spring$2016.$
$

Study" Ti<le:" Gay$ Male$ Parents$ and$ Their$ Children:$ A$ Child$ Development$
Analysis.$
My$ name$ is$ Carlos" Temperini,$ I$ am$ a$
doctoral$ student$ into$ Department" of$
Clinical" Psychology$ at$ the$ PonABcia"
Universidade" Católica" de" São" Paulo" F"
Brazil.$As$part$of$my$disserta8on$research,$
I$ am$ doing$ compara8ve$ analyses$ of$ gay$
paren8ng$ and$ child$ development$ in$ Brazil$
and$the$U.S.$ $This$research$is$important$in$
countering$paren8ng$policies$in$Brazil$that$
currently$ discriminate$ against$ gay$ male$
parents.$ $ Currently,$ I$ am$ conduc8ng$
research$in$the$U.S.$under$the$supervision$
of$Dr.$Jodi$O’Brien$(SeaOle$University)$and$
I$would$like$to$invite$you$to$par8cipate$of$
this$research.$

The$main$purpose$of$this$study$is$to$analyze$interac8ons$between$gay$male$parents$and$their$children$
and$to$record$the$emo8onal$development$of$the$children.$$
"
To"parAcipate"in"this"study"you"must:"
$
•  Have"a"steady"gay"male"relaAonship;$
•  Have"one"or"more"children"from"(adopAon"or"surrogacy"process);$
•  Have"one"or"more"children"between"6"and"12"years"old."
$
If$you$decide$to$par8cipate$and$allow$your$child$to$par8cipate,$you$will$be$asked$to$meet$with$me$for$
an$interview$of$about$1$hour$and$a$half.$Par8cipa8on$is$confiden8al.$$
$
If$you$would$like$to$par8cipate,$or$know$someone$else$who$would$be$interested,$please$contact$me.$$I$
look$forward$to$hearing$from$you.$
$
Researcher$Contact $ $$
Carlos"Temperini"
Phone"Number:"(206)"954"4350""
Email:"ctemperini@gmail.com$

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

138
Passadas quatro semanas, ninguém havia entrado em contato para participar
da pesquisa. Procurei algumas instituições em Seattle para solicitar ajuda na
divulgação e recomecei a jornada em busca das famílias homoparentais americanas.
Johnson e O’connor (2002, p. 268-269) advertem que:

(...) em circunstâncias ideais, psicólogos são capazes de localizar uma


amostra ou grupo de participantes com representatividade da população de
seu interesse de estudo. Psicólogos interessados em estudar pais e mães
homossexuais e seus filhos possuem o mesmo objetivo final: estudar um
grupo de participantes que se assemelham ao grande grupo de famílias
compostas por gays e lésbicas. As dificuldades aparecem porque ninguém
sabe ao certo como as famílias homoparentais se parecem. (...) Não existem
respostas definitivas para inúmeras questões, porque não existe um estudo
nacional, como um censo para respondê-las.

Diante da ausência de contato por parte das famílias homoparentais e da


aproximação do término do meu prazo no doutorado sanduíche, tive que pensar em
alternativas para a coleta de dados. Conversando com minha orientadora brasileira e
a minha co-orientadora americana, decidimos elaborar 5 questões, conforme quadro
4, para a coleta de dados e utilizar da Parada LGBT de Seattle para angariar a
percepção das famílias para a pesquisa. Nossa intenção foi a de captar percepções
sobre os mesmos três blocos de questões utilizados na pesquisa quantitativa, ou seja,
(i) casamento homoafetivo, (ii) família e sociedade (iii) e o desenvolvimento emocional
dos filho(s).

Quadro 4 – Questões elaboradas para coleta de dados31


Questions
1. Do you consider same sex marriage like any other kind of marriage? Why?
2. Have your family suffer any kind of prejudice or discrimination from society?
3. In your experience do you think that the parent’s sexual orientation directly affects the
emotional development of the child?
4. Do you do anything different about parenting / nurturing your kid?
5. What does family mean to you?
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Foi no dia 25 de junho de 2016 que me dirigi à 4th, avenue em downtown


Seattle, para participar da LGBT Parade, a fim de coletar a percepção de famílias
homoparentais americanas sobre o tema de minha pesquisa.

31
Questões elaboradas para a coleta de dados sobre a percepção das famílias homoparentais nos
Estados Unidos.

139
Cheguei às 11 horas da manhã para fazer uso intenso do tempo e conseguir
o máximo de entrevistas possíveis. Como estratégia principal, assumi que muitos
desses pais estariam com seus respectivos filhos e que a melhor abordagem a ser
adotada seria perguntar se eram de uma família homoparental e, então, prosseguir
com as perguntas. Investi todo o dia para participar do evento e coletar os dados.
Utilizei um aplicativo do meu próprio celular para gravar as entrevistas e
posteriormente transcrevê-las. Abordei mais de vinte famílias homoparentais, mas o
que me chamou atenção foi que parte delas apresentaram recusa de participação.
Diante deste cenário, outras perguntas começaram a brotar em minha cabeça. Por
que as famílias homoparentais se recusariam a participar de uma pesquisa em
plena parada LGBT? Se a parada LGBT tem cunho social e político, o que faria
com que essas pessoas evitassem a participação? O que significava todos
aqueles comportamentos? A esse respeito, desenvolverei mais adiante.
Houve uma situação com um grupo de pessoas que considero muito peculiar,
pois, além da recusa de participação, teve provocações e outros comportamentos
hostis. Observei também que a última pergunta do questionário, que era destinada
aos filhos dos casais homoafetivos, somente foi respondida por dois casais que
permitiram que eu acessasse seus respectivos filhos. Tudo isso me fez levantar novas
reflexões sobre as dificuldades em acessar essas famílias. Se Seattle é considerada
uma cidade progressista, por que tanta dificuldade? O que todo esse comportamento
estava falando a respeito dessa temática? Voltarei a discutir esses pontos na
apresentação dos dados coletados e na análise dos mesmos.
Retomei com minha co-orientadora para compartilhar a minha experiência na
Parada LGBT e iniciamos uma nova reflexão sobre os métodos e estratégias de
pesquisa.
Intensificamos nossos esforços para encontrar famílias disponíveis, a fim de
alcançar nossa meta de planejamento da pesquisa, ou seja, mínimo de duas famílias
homoparentais americanas. Recebi a indicação de um pai homoafetivo e marquei uma
entrevista com ele. Ao nos encontrarmos, solicitei autorização para gravação de nossa
entrevista e entreguei o termo de consentimento livre e esclarecido. No entanto,
durante a entrevista, percebi que ele não se enquadrava na amostra da pesquisa, pois

140
se tratava de um caso de multi–homo–parentalidade32, ainda assim, finalizei toda a
entrevista e o agradeci pela gentileza na participação.
Ao dividir a entrevista com a co-orientadora, optamos por procurar novas
famílias. Em meados de maio de 2016, recebi a indicação para falar com uma nova
família homoparental. John33 me recebeu em sua casa e possibilitou uma entrevista
sobre o tema pesquisado. Após nossa entrevista, entrou em contato com seu filho e
solicitou ao mesmo que me recebesse. Mathew, 20 anos, filho de John, aceitou
participar da pesquisa e marcou um horário comigo dois dias depois. Além disso, me
concedeu a autorização para a gravação da entrevista. Na semana seguinte, recebi
mais uma indicação de uma família homoparental. Fiz o contato por e-mail e recebi
uma resposta cordial para falarmos pessoalmente. Me dirigi ao encontro do casal que
me concedeu gentilmente uma entrevista acerca da experiência da parentalidade.

Quadro 5 – Dados das entrevistas – amostra americana


Casamento Qtde Idade do
Entrevistado34 Idade Parentalidade por
Estável filhos filho(a)
John e Marcus Sim 65 e 60 anos Adoção internacional 1 20 anos
Joseph e Paul Sim 40 e 35 anos Adoção nacional 1 6 meses

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Finalizei a etapa americana do meu doutorado com 7 entrevistas estruturadas


(fechadas) e duas entrevistas abertas com profundidade. Discutirei os dados
posteriormente, no capítulo de análise e discussões dos resultados.
Depois de investir 12 meses do doutorado sanduíche nos Estados Unidos,
retornei ao Brasil e marquei uma reunião com a orientadora para rediscutirmos a
estratégia da amostra da pesquisa. Como nos Estados Unidos eu somente havia tido
a participação de um filho na pesquisa e o mesmo estava fora da amostra pré-
estabelecida filho(a)(s), entre 6 e 12 anos, decidimos seguir o mesmo método adotado
nos Estados Unidos para termos uma base qualitativa comparável. Diante desta

32
Denominei multi-homo-parentalidade um grupo de pessoas compostas por pais e mães
homossexuais responsáveis pelos cuidados parentais de uma única criança. Diferentemente do termo
coparentalidade, geralmente utilizado quando dois pais e duas mães homossexuais corroboram do
cuidado de uma mesma criança, este caso específico era composto por duas mães e três pais.
33
Daqui em diante utilizaremos nomes fictícios para preservar a identidade dos sujeitos da pesquisa.
34
Todos os nomes dos entrevistados foram modificados para garantir confidencialidade das
informações.

141
tomada de decisão, preparei o cartaz para a chamada de pesquisa no Brasil –
conforme a figura 15.

Figura 15 – Cartaz de chamada de pesquisa no Brasil

** Por favor, ajudem na pesquisa


sobre pais gays no Brasil
Público Alvo: Pais homossexuais masculinos com filho(a)(s).

Título da Pesquisa: Pais homossexuais masculinos e seus filhos: uma


análise do desenvolvimento da criança.
M e u n o m e é C a r l o s T e m p e r i n i ,
atualmente sou estudante do Curso de
P ó s G r a d u a ç ã o ( d o u t o r a d o ) n o
Departamento de Psicologia Clínica da
PonBCcia Universidade Católica de São
Paulo. Como parte da minha tese de
doutorado, estou fazendo análises
comparaDvas entre os pais homossexuais
masculinos e o desenvolvimento de seus
filhos, tanto nos Estados Unidos, como no
Brasil. Esta pesquisa tem importância
acadêmica e social e está sendo orientada
pela Dra Rosa Maria Stefanini de Macedo
(PUC/SP) e Co-orientada pela Dra Jodi
O’Brien (SeaSle University).

O principal objeDvo desta pesquisa é analisar as interações entre pais homossexuais masculinos e
seus filhos(as) a fim de discuDr o desenvolvimento emocional destes.

Para parBcipar desta pesquisa você precisa:

•  Ter um casamento / relacionamento estável.
•  Ter um ou mais filhos (adoção / barriga de aluguel).

Se você decidir por parDcipar e permiDr a parDcipação de seu(s) filhos(as), você será convidado para
uma entrevista de aproximadamente uma hora e meia. A parDcipação é confidencial.

Se você esDver disposto a parDcipar ou souber de alguém que poderia parDcipar, por favor, entre em
contato comigo.

Contato do Pesquisador

Carlos Temperini
Email: ctemperini@gmail.com

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Utilizei a rede social Facebook para fazer a divulgação do chamado de


pesquisa e comecei a acionar os meus contatos, tanto presencialmente, quanto por
e-mail e Whatsapp. Enviei mensagens de textos para algumas pessoas que poderiam
ajudar na captação de participantes e, ao retomar o contato com um casal de
conhecidos, os mesmos toparam participar da pesquisa e ainda me convidaram para
participar de um grupo fechado de pais e mães homoafetivos no Whatsapp. Fiz a
utilização desse canal para divulgar a minha pesquisa e me deparei com o mesmo
silêncio que havia enfrentado em Seattle. Esse canal reúne 58 pessoas, sendo todas
homossexuais, casadas ou não, com filhos ou com a intenção de tê-los. A mesma
pergunta que havia feito em Seattle me intrigou novamente no cenário brasileiro: Por
que novamente o silêncio diante da participação na pesquisa?
Marquei a primeira entrevista na casa dos entrevistados e solicitei a
autorização para a gravação da pesquisa. As crianças estavam brincando na sala e
Cassio me perguntou se elas poderiam permanecer no ambiente. Eu digo que sim e

142
as crianças ficam por perto assistindo televisão. Passamos por uma hora e trinta
minutos e, logo após a entrevista, fui convidado para participar de um piquenique das
famílias homoparentais em um parque de São Paulo. Através do contato com esta
primeira família, recebi a indicação de outro casal que concordou participar da
pesquisa. Marquei novamente uma entrevista com o casal e eles preferiram utilizar a
residência deles. Iniciamos a pesquisa e novamente apliquei o procedimento da
entrevista aberta, conforme informações abaixo:

Quadro 6 – Entrevista aberta


Entrevista Aberta
1. Apresentação do pesquisador
2. Apresentação da pesquisa nos Estados Unidos e no brasil
3. Solicitação de autorização e consentimento livre esclarecido
4. Entrevista aberta
5. Fechamento e próximos passos
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Após a conclusão da segunda entrevista, recebi outra indicação para a


participação da pesquisa. Eles aceitaram e se dirigiram ao meu consultório.
Investimos uma hora e trinta minutos, fazendo a utilização da mesma sequência da
entrevista aberta, conforme quadro 7. Na mesma semana, recebi outro contato de
mais um casal que gostaria de participar da pesquisa. Rodolfo e Lauro optaram por
ser entrevistados na própria residência. Dirigi-me para a residência em data e horário
combinado. O casal me apresentou as crianças e me perguntaram se elas
participariam também. Expliquei que, naquele momento, não seria necessário e elas
voltaram a brincar em outro ambiente da casa.

Quadro 7 – Dados das entrevistas – amostra brasileira


Casamento Qtde
Entrevistado Idade Parentalidade por
Estável filhos
Cassio e Gabriel Sim 39 e 37 anos Adoção nacional 2
Anderson e Nilton Sim 44 e 37 anos Adoção nacional 2
Joaquim e Daniel Sim 36 e 35 anos Adoção nacional 1
Rodolfo e Lauro Sim 29 e 32 anos Adoção nacional 2
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

143
As entrevistas foram feitas com os quatro pares de pais homoafetivos,
mediante a análise e emersão dos dados, conforme proposto pela Grounded Theory.
Veremos, adiante, maiores detalhes da metodologia proposta e seus fundamentos.

144
5. DISCUSSÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS

Neste capítulo, adentraremos a fase prevista de discussão e análise dos


dados, ou seja, (i) os 1.055 registros da pesquisa de opinião pública realizada no
Brasil, recebidos no período de 15.05.2015 a 21.06.2015, (ii) os 180 registros da
pesquisa de opinião pública realizada nos Estados Unidos, recebidos no período de
30.04.2016 a 30.06.2016, (iii) as 14 entrevistas estruturadas, sendo 7 no Brasil e 7
nos Estados Unidos, (iv) além das 6 entrevistas abertas, sendo 2 nos Estados
Unidos e 4 no Brasil.
A análise dos dados na pesquisa de métodos mistos consiste em analisar
separadamente os dados quantitativos dos qualitativos. Cada um deverá usar
métodos específicos de análise. Posteriormente, os dois conjuntos de informações
devem ser submetidos por técnicas que possibilitem cruzar ambos os dados
(CRESWELL, 2013).

5.1 Procedimentos - Análise Quantitativa

Para a análise dos dados quantitativos, percorreu-se um conjunto de passos


subsequentes para maior consistência e confiabilidade estatística. Aqui passei pelas
seguintes fases, como propõe Creswell (2013):
• Preparação dos Dados;
• Exploração dos Dados;
• Análise dos Dados;
• Representação da Análise dos Dados;
• Interpretação dos Resultados.
A análise dos dados foi pautada no exame do banco de dados, gerado através
da ferramenta de pesquisa do Google Drive. Após extração dos dados da base Google
Drive, as informações foram transferidas para uma base nova, utilizando a ferramenta
da Microsoft Office – Excel. Além disso, na questão aberta do questionário online,
utilizou-se as ferramentas de contagem de palavras35 contador de palavras e

35
Disponível em: <linguistica.insite.com.br/corpus.php>

145
processador linguístico de corpus e a ferramenta de construção de mapas de
palavras - WORDLE36.

5.1.1 Preparação dos dados brasileiros

No dia 21.06.2015 bloqueamos o acesso à pesquisa online, denominada:


FAMÍLIA HOMOPARENTAL: ANÁLISE DO DESENVOLVIMENTO INFANTIL37. As
respostas ficaram registrados no banco de dados do Google Drive e foram
transportados para a ferramenta Excel. Foram coletados o total de 1.072 registros -
universo da pesquisa - no período de 15.05.2015 a 21.06.2015.
Para tratamento dos dados e facilitação da análise, foi necessário criar a
coluna “CÓDIGO DE ENTRADA”. Cada linha possui um valor único que
identificaremos como “COD” + número da linha.
No tratamento da base de dados, foram identificadas as informações em
duplicidade. Tais informações duplicadas foram excluídas da base e mantidas
somente o último registro. Sobre o processo de remoção temos as seguintes
informações:
a) Remoção de 10 duplicatas identificadas pelo e-mail, ou seja, registro de
duas linhas com o mesmo endereço de e-mail. Os registros mais recentes foram
mantidos, conforme quadro abaixo:

Quadro 8 – Remoção das duplicatas


CÓDIGOS REMOVIDOS
CÓDIGOS MANTIDOS
(E-mail Duplicado)
COD-0014 COD-0015
COD-0028 COD-0055
COD-0108 COD-0109
COD-0173 COD-0283
COD-0457 COD-0458
COD-0463 COD-0464
COD-0474 COD-0475
COD-0564 COD-0958
COD-1041 COD-1053

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

36
Disponível em: <wordle.net>
37
Título inicial da tese de doutorado.

146
b) Remoção de 3 duplicatas identificadas pelo e-mail, ou seja, registro de duas
linhas com o mesmo endereço, onde houve mudança de opinião e/ou dados
demográficos. Os registros mais recentes foram mantidos, conforme quadro abaixo:

Quadro 9 – Remoção das duplicatas


CÓDIGOS REMOVIDOS
CÓDIGOS MANTIDOS
(E-mail Duplicado)
COD-0284 COD-0411
COD-0413 COD-0456
COD-0959 COD-1037
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

c) Remoção de 3 duplicatas identificadas por data/hora dentro do mesmo


minuto + respostas idênticas, onde houve mudança de opinião e/ou dados
demográficos. Os registros mais recentes foram mantidos, conforme quadro abaixo:

Quadro 10 – Remoção das duplicatas


CÓDIGOS REMOVIDOS
CÓDIGOS MANTIDOS
(E-mail Duplicado)
COD-0285 COD-0286
COD-0448 COD-0449
COD-0467 COD-0468
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

d) Remoção de 1 duplicata identificada por comentário idêntico duplicado. Os


registros mais recentes foram mantidos, conforme quadro abaixo:

Quadro 11 – Remoção das duplicatas


CÓDIGOS REMOVIDOS
CÓDIGOS MANTIDOS
(E-mail Duplicado)
COD-0423 COD-0424

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

No total, foram removidos 17 registros duplicados, restando, como base final


para a análise, a amostra de 1.055 registros únicos. Houve também a remoção da
coluna “legalização do casamento homoafetivo agride a sociedade brasileira”
que estava duplicada.
Para validação dos dados, todas as colunas foram verificadas de acordo com
o questionário da pesquisa. Não houve nenhum valor discrepante nos campos de

147
variáveis discretas e categóricas. Para manter o sigilo das respostas, extraiu-se todos
os endereços de e-mail das pessoas que se interessaram por receber a pesquisa.
No intuito de quantificar toda a escala numérica de avaliação, houve a
necessidade de troca de categoria denominada “Forte” pelo número 7 e “Fraco” pelo
número 1 em todas as perguntas da série 26. Houve também a necessidade de
conversão do campo P1138 (quantidade de filhos) para um campo de variável
numérica.
Os campos “RELIGIÃO”39 (P8) e “PROFISSÃO” 40
(P12), foram
enquadrados conforme denominações propostas pelo IBGE.
Para fazer a análise estatística, foi necessário criar 18 novos campos com
inversão das perguntas que haviam escalas invertidas, além de criar 3 índices
compostos das médias simples das questões de cada bloco, invertendo-se a escala
de algumas questões.
Conversão de escala do Índice A2 para 1 a 5. O índice A2 é composto da
média simples das questões do bloco 2, originalmente com perguntas na escala de 1
a 7. Fórmula de conversão: ValorNaNovaEscala = (((ValorAntigo - MinAntigo) *
(MaxNovo - MinNovo)) / (MaxAntigo - MinAntigo)) + MinNovo.
Depois de toda essa preparação da base de dados, partiu-se para a
exploração e, consequentemente, análise dos dados.

5.1.2 Exploração dos dados brasileiros

A etapa de exploração dos dados visa a examinar os mesmos dados para


desenvolver tendências amplas e conduzir uma análise descritiva. Essa etapa
pretende avaliar a confiabilidade e validade dos dados (CRESWELL, 2013). Diante da
base de dados da pesquisa, ficou evidenciado que os dados são consistentes e não
apresentaram distorções significativas quanto ao número de participantes versus o
número de respostas preenchidas.

38
P = Pergunta. Utilizaremos a letra P + número para representar a pergunta que está sendo
mencionada na análise estatística.
39
Referência da classificação de religiões propostas pelo IBGE:
ftp://ftp.ibge.gov.br/Censos/Censo_Demografico_2010/Caracteristicas_Gerais_Religiao_Deficiencia/ta
b1_4.pdf
40
Referência da classificação de profissões propostas pelo IBGE:
http://concla.ibge.gov.br/images/concla/estrutura/CBODomicilar.xls

148
Para validarmos os dados estatisticamente, foi necessário tirar média,
mediana, moda, desvio padrão e histograma de cada uma das questões da
pesquisa. Esses dados numéricos nos ajudarão a compreender com profundidade os
resultados que serão discutidos no item 5.1.3 – Análise dos Dados.
Apresentaremos abaixo as tabelas: 2, 3, 4 e 5, com percentual de
preenchimento de cada uma das questões, divididas em quatro blocos, sendo: dados
demográficos, casamento homoafetivo, família homoparental e
desenvolvimento emocional de crianças / adolescentes.

Tabela 2 – Validação dos Dados Demográficos


Percentual de
TIPO DE DADO Coluna Preenchidas Vazias Observação
preenchimento

S1 - Código de entrada 1055 0 100%


DADOS DE SISTEMA
S2 - Carimbo de data/hora 1055 0 100%
P1 - Qual a sua faixa etária? 1055 0 100%
P2 - Escolaridade 1055 0 100%
P3 - Sexo 1055 0 100%
P4 - Estado Civil 1055 0 100%
P5 - Orientação Sexual 1055 0 100%
P6 - Qual Estado você reside? 1055 0 100%
P7 - Você tem religião? 1055 0 100%
*Contando quem respondeu SIM
DADOS DEMOGRÁFICOS
P8 - Se sim, qual é a sua religião?* 707 348 67% para a P7 temos 98% de
preenchimento.
P9 - Qual a sua renda familiar? 1055 0 100%
P10 - Você tem filhos? 1055 0 100%
*Contando quem respondeu SIM
P11 - Se sim, quantos filhos você tem?* 485 570 46% para a P10 temos 99% de
preeenchimento.
P12 - Qual a sua profissão? 1055 0 100%

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Na tabela 2 – validação dos dados demográficos, temos, em sua maioria,


100% das perguntas respondidas, com exceção da P8 e da P11, respectivamente.
Isso significa que na P8 (religião), 2% dos participantes da pesquisa responderam que
possuem religião (sim), mas não especificaram qual a religião. Além disso, 1% dos
participantes respondeu que possuía filhos, mas quando perguntado a quantidade,
deixaram em branco.

149
Tabela 3 – Validação dos Dados – Casamento Homoafetivo
Percentual de
TIPO DE DADO Coluna Preenchidas Vazias Observação
preenchimento
P13 - Não gosto de falar sobre este tema. 1028 27 97%
P14 -O casamento homoafetivo é como qualquer outro
1050 5 100%
casamento.
P15 - Convivo tranquilamente com a presença de
1052 3 100%
casais homoafetivos.
P16 - Tenho amigos homossexuais. 1048 7 99%
P17 - Sou a favor da união de casais homoafetivos. 1046 9 99%
P18 - O casamento entre pessoas do mesmo sexo é
1045 10 99%
igual ao casamento entre pessoas de sexo diferente.
P19 - A legalização do casamento homoafetivo atende
1043 12 99%
CASAMENTO a vontade da sociedade brasileira.
HOMOAFETIVO P20 - Já presenciei preconceito e atitudes
1050 5 100%
discriminatórios contra casais homoafetivos.
P21 - Os casais homoafetivos sofrem preconceito e
1046 9 99%
discriminação
P22 - A legalização do casamento homoafetivo agride
1046 9 99%
a sociedade brasileira.
P23 - O casamento homoafetivo é diferente do
1049 6 99%
casamento heterossexual.
P24 - Tenho dificuldade para conviver com casais
1047 8 99%
homoafetivos.
P25 - Sou contra a união de casais homoafetivos. 1051 4 100%

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Na Tabela 3 – validação dos dados – casamento homoafetivo, tivemos 3%


(n=27) dos participantes que não responderam a P13 “não gosto de falar sobre este
tema”.

Tabela 4 – Validação dos Dados – Família Homoparental


Percentual de
TIPO DE DADO Coluna Preenchidas Vazias Observação
preenchimento
P26A - Preconceito contra as famílias homoparentais 1049 6 99%
P26B - Discriminação de crianças / adolescentes que
1047 8 99%
são filhos (as) de casais homoafetivos
P26C - Inclusão de famílias homoparentais em seu
1047 8 99%
círculo de amizades
P26D - Discussão sobre o tema homoparentalidade e
1042 13 99%
FAMÍLIA HOMOPARENTAL homoafetividade
P26E - Discriminação de famílias homoparentais 1039 16 98%
P26F - Informação sobre as famílias homoparentais 1041 14 99%
P26G - Solidariedade às famílias homoparentais 1045 10 99%
P26H - Conselho para as famílias homoparentais 1038 17 98%
P26I - Exclusão de famílias homoparentais 1041 14 99%
P26J - Aceitação de famílias homoparentais 1044 11 99%

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Na Tabela 4 – validação dos dados – família homoparental, temos somente


1% dos participantes que não responderam algum tipo de pergunta deste bloco. Esses
dados indicam um desvio padrão confiável.

150
Tabela 5 – Validação dos Dados – Desenvolvimento Emocional da Criança
Percentual de
TIPO DE DADO Coluna Preenchidas Vazias Observação
preenchimento
P27 - Pais / Mães homoafetivos cuidam
1042 13 99%
adequadamente dos filhos (as).
P28 - O desenvolvimento emocional de uma criança
será prejudicado se ele (a) for filho (a) de um casal 1050 5 100%
homoafetivo.
P29 - O(s) Filhos (as) de casais homoafetivos sofrem
1051 4 100%
ou sofrerão preconceito e discriminação.
P30 - Filhos (as) educados por casais homoafetivos
1051 4 100%
sofrem ou sofrerão prejuízos no rendimento escolar.
P31 - Casais homoafetivos não cuidam
1051 4 100%
adequadamente dos filhos (as).
P32 - Casais homoafetivos e casais heterossexuais
apresentam as mesmas capacidades para cuidar de 1046 9 99%
seus filhos (as).
P33 - Crianças precisam de alguém que cuide delas
1046 9 99%
DESENVOLVIMENTO independentemente de qualquer coisa.
EMOCIONAL DA P34 - A orientação sexual dos pais / mães interfere
CRIANÇA/ADOLESCENTE diretamente no desenvolvimento emocional de seus 1049 6 99%
filhos (as).
P35 - Casais homoafetivos que cuidam de crianças /
1050 5 100%
adolescentes prejudicam o desenvolvimento deles.
P36 - Crianças não nasceram para serem cuidadas por
1049 6 99%
casais homoafetivos.
P37 - Crianças cuidadas por casais homoafetivos
apresentam ou apresentarão problemas de 1048 7 99%
personalidade.
P38 - Adultos que foram criados por casais
homoafetivos apresentam problemas de 1044 11 99%
comportamento.
P39 - Crianças / Adolescentes cuidados por casais
homoafetivos têm as mesmas chances de terem
1048 7 99%
sucesso no desenvolvimento emocional, quanto
aqueles cuidados por casais heterossexuais.
C1 - Deixe aqui os seus comentários gerais. 323 732 31%
COMENTÁRIOS E DADOS C2 - Se você deseja receber os resultados desta
DE CONTATO pesquisa, por favor, deixe o endereço de um e-mail 569 486 54%
abaixo:
C3 - Endereços de Email Extraídos 564 491 53%

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Na Tabela 5, seguimos a mesma tendência vista anteriormente, ou seja,


mantivemos somente 1% de participantes que deixaram de responder as P27, P32,
P33, P34, P36, P37, P38 e P39. Além disso, temos 32% (n=323) dos participantes
que deixaram comentários no campo comentários gerais. Ponto positivo é que 54%
(n=569) dos participantes querem receber os resultados desta pesquisa

5.1.3 Análise dos dados quantitativos brasileiros

A análise dos dados quantitativos consiste no exame do banco de dados para


lidar com questões acerca da pesquisa. Nessa etapa, analisamos os dados, inter-
relacionamos com percepções conforme propõe (CRESWELL, 2013). Vale ressaltar
que por esta pesquisa tratar de análise de um objeto pouco explorado cientificamente,
não possuímos formulação de hipótese. Nossa intenção foi a de investigar a opinião
pública acerca da questão da família homoparental e do desenvolvimento emocional
de crianças e adolescentes. Temos como intenção nos munir da percepção social
acerca da questão e antecipar pontos que poderão aparecer no campo, além da rica

151
contribuição estatística e profunda que um método misto traz para as pesquisas
científicas.
Na codificação da pesquisa, temos os índices gerais A1, A2 e A3. Esses
índices representam cada um dos blocos da pesquisa, sendo: A1 – Casamento
Homoafetivo, A2 – Família Homoparental e A3 – Desenvolvimento Emocional
das Crianças / Adolescentes.

Tabela 6 – Análise geral da pesquisa quantitativa


Média Geral dos Índices
Quantidade % Índice A1 Índice A2 Índice A3
1.055 100% 4,2 2,7 4,3

A1 - Índice de favorabilidade ao casamento homoafetivo.


Valores maiores indicam maior favorabilidade.

A2 - Índice de observação da integração à sociedade de casais homoafetivos.


Valores maiores indicam percepção de uma maior integração à sociedade.

A3 - Opinião sobre o desenvolvimento de filhos de casais homoafetivos. Valores


maiores indicam maior percepção de igualdade entre desenvolvimento de
crianças criadas por casais heterosexuais e casais homossexuais.

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Ao analisar os dados numéricos, pode ser encontrado nos índices A1 –


Casamento Homoafetivo e A3 – Desenvolvimento Emocional das Crianças /
Adolescentes, valores acima da média, ou seja, valores acima de 4, em uma escala
de 1 a 5. Isto denota um posicionamento favorável, tanto ao casamento
homoafetivo, quanto ao desenvolvimento de crianças criadas por casais
homoafetivos. O índice A2 ficou abaixo de 3, valor este que representa a metade da
escala. Segundo o índice A2, a percepção geral do público da pesquisa é de que a
família homoparental não está tão integrada à sociedade.
Apresentaremos a seguir análise dos dados demográficos versus a
favorabilidade por índice A1, A2 e A3.

152
Tabela 7 – Análise Demográfica – Faixa etária
P1 - Qual a sua faixa etária?
Respostas Qtd. % Índice A1 Índice A2 Índice A3
Menor de 18 9 1% 4,4 2,8 4,4
18 a 24 anos 120 11% 4,2 2,7 4,3
25 a 35 anos 452 43% 4,3 2,6 4,4
36 a 46 anos 279 26% 4,1 2,7 4,2
47 a 60 anos 160 15% 3,9 2,8 4,1
Acima de 60 anos 35 3% 4,1 2,9 4,2
Total Geral 1.055 100% 4,2 2,7 4,3
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Os participantes da pesquisa que possuem faixa etária entre 47 e 60 anos são


os menos favoráveis ao casamento homoafetivo (Índice A1). Além disso, os
participantes dessa faixa etária são os que se posicionaram contra o desenvolvimento
emocional da criança / adolescente por famílias homoparentais (Índice A3). A faixa
"Menor de 18" apresentou poucos registros – 9 respondentes – portanto tem baixa
validade estatística. As faixas de 18 a 24 anos e de 25 a 35 anos, são mais favoráveis
ao casamento homoafetivo e enxergam menos problemas no desenvolvimento
emocional de crianças com pais homoafetivos. A faixa acima de 60 anos, enxerga que
as famílias homoparentais estão mais integradas à sociedade, diferentemente da faixa
de 25 a 35 anos que apresentou uma visão oposta.

Tabela 8 – Análise Demográfica – Escolaridade


P2 - Escolaridade
Respostas QTD % Índice A1 Índice A2 Índice A3
Até Ensino Médio 95 9% 3,9 2,8 4,1
Ensino Superior 437 41% 4,1 2,7 4,2
Pós Graduação (Especialização) 378 36% 4,2 2,7 4,3
Mestrado 100 9% 4,3 2,6 4,3
Doutorado e Pós-Doutorado 45 4% 4,3 2,7 4,5
Total Geral 1.055 100% 4,2 2,7 4,3
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

A favorabilidade ao casamento homoafetivo e a opinião sobre o


desenvolvimento de filhos de pais / mães homoafetivos apresentou tendência de
aumento em relação ao nível educacional, ou seja, quanto maior o nível educacional,
maior a favorabilidade. A opinião sobre a integração à sociedade de casais
homoafetivos parece ser pouco influenciada pelo nível educacional. Isto significa que

153
mesmo os participantes com maior nível educacional concordam que a sociedade não
integra as famílias homoparentais.

Tabela 9 – Análise Demográfica – Sexo


P3 - Sexo
Respostas QTD % Índice A1 Índice A2 Índice A3
Masculino 264 25% 4,2 2,6 4,3
Feminino 791 75% 4,2 2,7 4,3
Total Geral 1.055 100% 4,2 2,7 4,3
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Quando analisadas as respostas por sexo, não identificamos diferenças


significativas.

Tabela 10 – Análise Demográfica – Estado Civil


P4 - Estado Civil
Respostas QTD % Índice A1 Índice A2 Índice A3
Recasado (a) 5 0% 4,7 2,8 4,7
União Estável 138 13% 4,4 2,8 4,4
Solteiro (a) 407 39% 4,3 2,6 4,4
Divorciado (a) 82 8% 4,3 2,8 4,4
Casado (a) 413 39% 4,0 2,7 4,1
Viúvo (a) 10 1% 3,8 2,5 3,6
Total Geral 1.055 100% 4,2 2,7 4,3
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

O público casado apresentou menor favorabilidade ao casamento


homoafetivo e maior problema quanto o desenvolvimento de crianças / adolescentes
desses casais. O público que possui união estável apresentou maior favorabilidade
ao casamento homoafetivo. Enquanto os participantes solteiros enxergam casais
homoafetivos menos integrados à sociedade, os divorciados têm percepção contrária.
Recasados e viúvos não possuem quantidades significativas para análise.

Tabela 11 – Análise Demográfica – Orientação Sexual


P5 - Orientação Sexual
Respostas QTD % Índice A1 Índice A2 Índice A3
Bissexual 54 5% 4,6 2,6 4,6
Outros 1 0% 4,6 3,0 4,9
Homossexual 168 16% 4,6 2,6 4,6
Heterossexual 832 79% 4,1 2,7 4,2
Total Geral 1.055 100% 4,2 2,7 4,3

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

154
O público homossexual e bissexual apresentou maior favorabilidade ao
casamento homoafetivo e enxerga menos problemas no desenvolvimento infantil das
crianças de casais homoafetivos. Já o público heterossexual apresentou menor índice
para esses quesitos. O público heterossexual acha que os casais homoafetivos estão
mais integrados à sociedade.

Tabela 12 – Análise Demográfica – Região


P6 - Em qual estado você reside? (REGIÃO)
Respostas QTD % Índice A1 Índice A2 Índice A3
EXTERIOR 27 3% 4,3 2,9 4,3
SUL 147 14% 4,3 2,8 4,4
SUDESTE 690 65% 4,2 2,7 4,3
NORTE 7 1% 4,1 2,6 4,0
NORDESTE 128 12% 4,0 2,6 4,1
CENTRO-OESTE 56 5% 4,0 2,7 4,2
Total Geral 1.055 100% 4,2 2,7 4,3
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

A região Sul do país apresentou maior índice de favorabilidade e enxerga


menos problemas no desenvolvimento das crianças de famílias homoparentais; além
disso, acreditam que os casais homoafetivos estão bem integrados à sociedade. Já
as regiões Norte e Centro-Oeste foram as que apresentaram o maior índice de
desfavorabilidade. No Nordeste, o público acredita que casais homoafetivos são
menos integrados à sociedade. A região norte não apresentou dados estatísticos
significativos para esta análise.

155
Tabela 13 – Análise Demográfica – Estado
P6 - Em qual estado você reside?
Respostas QTD % Índice A1 Índice A2 Índice A3
SUDESTE 690 65% 4,2 2,7 4,3
São Paulo (SP) 629 60% 4,1 2,7 4,2
Rio de Janeiro (RJ) 40 4% 4,5 2,8 4,5
Minas Gerais (MG) 19 2% 4,2 2,4 4,3
Espírito Santo (ES) 2 0% 3,4 2,9 3,4
SUL 147 14% 4,3 2,8 4,4
Paraná (PR) 100 9% 4,3 2,8 4,4
Santa Catarina (SC) 29 3% 4,5 2,8 4,6
Rio Grande do Sul (RS) 18 2% 4,1 2,8 4,3
NORDESTE 128 12% 4,0 2,6 4,1
Sergipe (SE) 38 4% 4,3 2,4 4,4
Bahia (BA) 34 3% 3,8 2,8 3,9
Pernambuco (PE) 27 3% 4,1 2,7 4,2
Alagoas (AL) 12 1% 4,0 2,2 4,2
Rio Grande do Norte (RN) 7 1% 3,5 2,9 3,7
Ceará (CE) 6 1% 4,3 3,2 4,5
Piauí (PI) 3 0% 3,4 2,6 3,2
Paraíba (PB) 1 0% 4,8 2,3 4,8
CENTRO-OESTE 56 5% 4,0 2,7 4,2
Distrito Federal (DF) 37 4% 4,0 2,7 4,1
Mato Grosso (MT) 8 1% 4,2 2,8 4,4
Goiás (GO) 8 1% 4,0 3,1 4,3
Mato Grosso do Sul (MS) 3 0% 3,2 2,5 3,1
EXTERIOR 27 3% 4,3 2,9 4,3
Fora do País 27 3% 4,3 2,9 4,3
NORTE 7 1% 4,1 2,6 4,0
Amazonas (AM) 4 0% 4,1 2,6 3,9
Pará (PA) 2 0% 4,1 2,8 4,2
Tocantins (TO) 1 0% 4,4 2,1 4,2
Total Geral 1.055 100% 4,2 2,7 4,3
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

A análise por estado não apresentou dados estatisticamente comparativos,


portanto afirmar algo sobre um estado não é prudente. Optamos por utilizar a variável
“REGIÃO” – TABELA 12, devido à sua maior relevância estatística.

156
Tabela 14 – Análise Demográfica – Religião
P7 - Você tem religião?
Respostas QTD % Índice A1 Índice A2 Índice A3
Não 340 32% 4,5 2,6 4,5
Sim 715 68% 4,0 2,7 4,1
Total Geral 1.055 100% 4,2 2,7 4,3
P8 - Se sim, qual é a sua religião?
Respostas QTD % Índice A1 Índice A2 Índice A3
CATÓLICA 354 34% 4,0 2,8 4,2
SEM RELIGIÃO 349 33% 4,5 2,6 4,5
ESPÍRITA 164 16% 4,3 2,6 4,3
EVANGÉLICA 88 8% 3,2 2,6 3,4
OUTRAS 67 6% 4,1 2,8 4,1
AFRO BRASILEIRA 33 3% 4,6 2,8 4,6
Total Geral 1.055 100% 4,2 2,7 4,3

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

O público religioso é significativamente menos favorável ao casamento


homoafetivo e enxerga maior problema no desenvolvimento emocional dos filhos(as)
de famílias homoparentais. Fato interessante é que este mesmo público enxerga
maior integração das famílias homoparentais (A2) à sociedade. O público praticante
de religiões evangélicas apresentou o maior índice de desfavorabilidade ao
casamento homoafetivo, além perceberem mais problemas no desenvolvimento
das crianças de casais homoafetivos.
Praticantes da religião espírita veem a família homoparental menos integrada
à sociedade. Praticantes de religiões afro-brasileiras possuem uma maior aceitação
ao casamento homoafetivo e também enxergam menos problemas no
desenvolvimento das crianças de casais homoafetivos, seguidos pelo grupo dos sem
religião. Em geral as religiões cristãs (Evangélica, Católica e Outras) possuem baixos
índices de aceitação ao casamento homoafetivo e enxergam maiores problemas no
desenvolvimento das crianças de casais homoafetivos.

Tabela 15 – Análise Demográfica – Renda Familiar


P9 - Qual a sua renda familiar?
Respostas QTD % Índice A1 Índice A2 Índice A3
De R$ 0,00 a R$ 1.085,00 31 3% 3,9 3,0 4,0
De R$ 1.086,00 a R$ 1.734,00 69 7% 4,0 2,6 4,2
De R$ 1.735,00 a R$ 7.475,00 494 47% 4,1 2,7 4,2
De R$ 7.476,00 a R$ 9.745,00 157 15% 4,2 2,7 4,3
Acima de R$ 9.745,00 304 29% 4,3 2,6 4,4
Total Geral 1.055 100% 4,2 2,7 4,3
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

157
A favorabilidade ao casamento homoafetivo e a opinião sobre o
desenvolvimento de filhos de famílias homoparentais melhora, conforme a faixa de
renda das pessoas, ou seja, quanto maior a renda, maior a aceitação. Quanto à
percepção de integração à sociedade, a faixa de menor renda vê os casais
homoafetivos mais integrados à sociedade que as outras faixas superiores.

Tabela 16 – Análise Demográfica – Filhos


P10 - Você tem filhos?
Respostas QTD % Índice A1 Índice A2 Índice A3
Não 572 54% 4,3 2,6 4,4
Sim 483 46% 4,0 2,8 4,1
Total Geral 1.055 100% 4,2 2,7 4,3

P11 - Se sim, quantos filhos você tem?


Rótulos de Linha QTD % Índice A1 Índice A2 Índice A3
0 573 54% 4,3 2,6 4,4
1 210 20% 4,0 2,8 4,2
2 204 19% 4,0 2,8 4,1
3 ou mais 68 6% 3,9 2,8 4,1
Total Geral 1.055 100% 4,2 2,7 4,3

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Pessoas sem filhos são mais favoráveis ao casamento homoafetivo e


enxergam menos problemas no desenvolvimento das crianças de casais
homoafetivos. A favorabilidade ao casamento homoafetivo e a opinião sobre o
desenvolvimento de filhos de casais homoafetivos piora, conforme a
quantidade de filhos das pessoas. Quanto à percepção de integração à sociedade,
quem tem filhos vê os casais homoafetivos mais integrados à sociedade do que quem
não tem filhos.

Tabela 17 – Análise Demográfica – Profissão


P12 - Qual a sua profissão? (ÁREA)
Respostas QTD % Índice A1 Índice A2 Índice A3
ADMINISTRAÇÃO 306 29% 4,1 2,7 4,2
OUTROS 256 24% 4,1 2,7 4,2
SAÚDE 199 19% 4,2 2,7 4,4
EDUCAÇÃO 117 11% 4,0 2,7 4,1
CIÊNCIAS HUMANAS E COMUNICAÇÃO 102 10% 4,4 2,7 4,4
ESTUDANTE 75 7% 4,3 2,6 4,3
Total Geral 1.055 100% 4,2 2,7 4,3

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

As áreas de artes, ciências humanas, comunicação e estudantes são mais


favoráveis ao casamento homoafetivo e enxergam menos problemas no
desenvolvimento das crianças de famílias homoparentais. As áreas de vendas,

158
prestação de serviços, ciências jurídicas e educação possuem piores índices
A1 e A3. Quanto ao índice A2, os grupos de ciências jurídicas, TI, prestação de
serviços e vendas veem os casais homoafetivos mais integrados à sociedade, e os
grupos de ciências exatas, engenharia e arquitetura os veem menos integrados.

Tabela 18 – Análise Demográfica – Profissão II


P12 - Qual a sua profissão?
Respostas QTD % Índice A1 Índice A2 Índice A3
PSICÓLOGO 126 12% 4,3 2,7 4,5
PROFESSOR 94 9% 3,9 2,7 4,1
ESTUDANTE 75 7% 4,3 2,6 4,3
JORNALISTA 56 5% 4,4 2,7 4,4
ADMINISTRADOR DE EMPRESAS (GERAL) 54 5% 4,0 2,7 4,0
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

As 5 profissões que mais aparecem em nossa amostra, são: psicólogo,


professor, estudante, jornalista e administrador de empresas. Dentre estas 5, as
ocupações que possuem valores de A1 e A3 abaixo da média são as de professor e
administrador de empresas.

Tabela 19 – Análise Demográfica (Orientação Sexual + Idade)


Orientação Sexual e Idade
Rótulos de Linha QTD % Índice A1 Índice A2 Índice A3
Heterossexual
Menor de 18 6 1% 4,2 2,6 4,2
18 a 24 anos 74 7% 4,0 2,7 4,1
25 a 35 anos 339 32% 4,2 2,6 4,3
36 a 46 anos 232 22% 4,0 2,7 4,1
47 a 60 anos 148 14% 3,8 2,8 4,1
Acima de 60 anos 33 3% 4,1 2,9 4,3
Homossexual
18 a 24 anos 35 3% 4,6 2,5 4,7
25 a 35 anos 85 8% 4,6 2,6 4,7
36 a 46 anos 36 3% 4,5 2,7 4,6
47 a 60 anos 11 1% 4,7 2,7 4,5
Acima de 60 anos 1 0% 4,6 2,9 3,8
Bissexual
Menor de 18 3 0% 4,8 3,3 4,8
18 a 24 anos 11 1% 4,4 2,8 4,5
25 a 35 anos 28 3% 4,7 2,4 4,6
36 a 46 anos 10 1% 4,6 2,8 4,4
47 a 60 anos 1 0% 4,9 2,9 4,8
Acima de 60 anos 1 0% 5,0 4,1 4,7
Outros
36 a 46 anos 1 0% 4,6 3,0 4,9
Total Geral 1.055 100% 4,2 2,7 4,3

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

159
A faixa etária de 25 a 35 anos (GERAL) é a que apresentou maior índice de
favorabilidade, tanto ao casamento homoafetivo (Índice A1), quanto ao
desenvolvimento emocional de crianças / adolescentes por famílias homoparentais
(Índice A3). Já a faixa etária menos favorável é a de 47 a 60 anos.
Dentre o público homossexual, a faixa de 47 a 60 anos é a faixa etária que
apresentou a maior favorabilidade, tanto ao casamento homoafetivo (Índice A1),
quanto ao desenvolvimento de criança / adolescentes por famílias homoparentais.
Dentre o público bissexual, a faixa etária dos 25 aos 35 anos é a mais
favorável ao casamento homoafetivo (Índice A1) e ao desenvolvimento emocional de
crianças / adolescentes por famílias homoparentais (Índice A3). A menos favorável é
faixa etária de 18 a 24 anos.

Tabela 20 – Análise Demográfica (Orientação Sexual + Escolaridade)


Orientação Sexual e Escolaridade
Rótulos de Linha QTD % Índice A1 Índice A2 Índice A3
Heterossexual
Até Ensino Médio 80 8% 3,8 2,9 4,0
Ensino Superior 338 32% 4,0 2,7 4,1
Pós Graduação (Especialização) 303 29% 4,1 2,7 4,2
Mestrado 79 7% 4,2 2,6 4,2
Doutorado e Pós-Doutorado 32 3% 4,2 2,8 4,4
Homossexual
Até Ensino Médio 9 1% 4,5 2,2 4,6
Ensino Superior 73 7% 4,6 2,6 4,7
Pós Graduação (Especialização) 60 6% 4,6 2,8 4,7
Mestrado 16 2% 4,6 2,4 4,7
Doutorado e Pós-Doutorado 10 1% 4,5 2,4 4,5
Bissexual
Até Ensino Médio 6 1% 4,3 3,0 4,5
Ensino Superior 26 2% 4,6 2,6 4,6
Pós Graduação (Especialização) 15 1% 4,6 2,4 4,5
Mestrado 5 0% 4,9 3,0 4,8
Doutorado e Pós-Doutorado 2 0% 5,0 2,8 4,8
Outros
Doutorado e Pós-Doutorado 1 0% 4,6 3,0 4,9
Total Geral 1.055 100% 4,2 2,7 4,3
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Para o público heterossexual, a favorabilidade ao casamento homoafetivo e a


opinião sobre o desenvolvimento emocional de filhos(as) de famílias homoparentais
possui tendência de aumento. Isto significa que, quanto maior nível educacional,
maior a favorabilidade. Já entre o público homossexual não se nota esta variação,
pois os índices de favorabilidade são altos e se mantêm. Para o público bissexual os
dados não apresentam consistência estatística.
160
Tabela 21 – Análise Demográfica (Orientação Sexual + Sexo)
Orientação Sexual e Sexo
Rótulos de Linha QTD % Índice A1 Índice A2 Índice A3
Heterossexual
Feminino 684 65% 4,1 2,7 4,2
Masculino 148 14% 3,9 2,6 4,0
Homossexual
Masculino 101 10% 4,6 2,7 4,7
Feminino 67 6% 4,6 2,6 4,6
Bissexual
Feminino 39 4% 4,7 2,6 4,6
Masculino 15 1% 4,5 2,7 4,5
Outros
Feminino 1 0% 4,6 3,0 4,9
Total Geral 1.055 100% 4,2 2,7 4,3
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Para o público heterossexual, a favorabilidade ao casamento homoafetivo e a


opinião sobre o desenvolvimento emocional de filhos(as) de famílias homoparentais,
apresentaram uma leve diferença em relação ao sexo, sendo a favorabilidade
destes dois itens maior para mulheres heterossexuais do que para homens
heterossexuais. Para o público homossexual e bissexual não há diferenças
significativas por sexo.

Tabela 22– Análise Demográfica (Orientação Sexual + Estado Civil)


Orientação Sexual e Estado Civil
Rótulos de Linha QTD % Índice A1 Índice A2 Índice A3
Heterossexual
Casado (a) 372 35% 3,9 2,7 4,0
Solteiro (a) 275 26% 4,2 2,7 4,3
União Estável 97 9% 4,2 2,8 4,3
Divorciado (a) 74 7% 4,2 2,8 4,3
Viúvo (a) 10 1% 3,8 2,5 3,6
Recasado (a) 4 0% 4,6 2,7 4,7
Homossexual
Solteiro (a) 92 9% 4,5 2,6 4,6
União Estável 38 4% 4,7 2,7 4,8
Casado (a) 32 3% 4,6 2,7 4,6
Divorciado (a) 5 0% 4,6 2,9 4,6
Recasado (a) 1 0% 5,0 3,2 4,5
Bissexual
Solteiro (a) 39 4% 4,6 2,6 4,6
Casado (a) 9 1% 4,8 2,9 4,7
União Estável 3 0% 4,5 2,1 4,2
Divorciado (a) 3 0% 4,7 3,3 4,7
Outros
Solteiro (a) 1 0% 4,6 3,0 4,9
Total Geral 1.055 100% 4,2 2,7 4,3
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

161
Dentre os heterossexuais, o público casado possui menor favorabilidade ao
casamento homoafetivo e também enxerga maiores problemas quanto ao
desenvolvimento das crianças de casais homoafetivos.

Tabela 23 – Análise Demográfica (Orientação Sexual + Região)


Orientação Sexual e Região Geográfica
Rótulos de Linha QTD % Índice A1 Índice A2 Índice A3
Heterossexual
SUDESTE 549 52% 4,0 2,7 4,2
SUL 110 10% 4,3 2,8 4,3
NORDESTE 100 9% 3,9 2,6 4,0
CENTRO-OESTE 46 4% 3,9 2,7 4,1
EXTERIOR 21 2% 4,3 3,1 4,2
NORTE 6 1% 4,1 2,4 3,9
Homossexual
SUDESTE 108 10% 4,6 2,6 4,6
SUL 26 2% 4,5 2,8 4,7
NORDESTE 20 2% 4,6 2,5 4,7
CENTRO-OESTE 8 1% 4,4 2,5 4,6
EXTERIOR 5 0% 4,7 2,3 4,6
NORTE 1 0% 4,7 3,5 4,8
Bissexual
SUDESTE 32 3% 4,6 2,5 4,6
SUL 11 1% 4,7 2,9 4,7
NORDESTE 8 1% 4,6 2,6 4,4
CENTRO-OESTE 2 0% 4,8 3,7 4,6
EXTERIOR 1 0% 4,8 2,5 4,7
Outros
SUDESTE 1 0% 4,6 3,0 4,9
Total Geral 1.055 100% 4,2 2,7 4,3

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Dentre os heterossexuais, a região Sul e as pessoas que moram no Exterior


apresentaram maior favorabilidade ao casamento homoafetivo e também enxergam
menor problema quanto ao desenvolvimento emocional das crianças / adolescentes
das famílias homoparentais. O Centro-Oeste e o Nordeste possuem o índice de
favorabilidade mais baixo da amostra. Dentre os homossexuais, as regiões são
bastante homogêneas quanto aos índices A1 e A3.
Tabela 24 – Análise Demográfica (Orientação Sexual + Religião1)
Orientação Sexual e Religião 1
Rótulos de Linha QTD % Índice A1 Índice A2 Índice A3
Heterossexual
Não 244 23% 4,4 2,6 4,4
Sim 588 56% 3,9 2,7 4,0
Homossexual
Não 74 7% 4,7 2,6 4,7
Sim 94 9% 4,5 2,7 4,6
Bissexual
Não 22 2% 4,6 2,7 4,6
Sim 32 3% 4,6 2,6 4,6
Outros
Sim 1 0% 4,6 3,0 4,9
Total Geral 1.055 100% 4,2 2,7 4,3
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

162
Os heterossexuais religiosos são significativamente menos favoráveis ao
casamento homoafetivo e enxergam mais problemas no desenvolvimento emocional
das crianças / adolescentes das famílias homoparentais. Heterossexuais não-
religiosos possuem índices semelhantes ao dos homossexuais religiosos. Os
homossexuais religiosos possuem uma favorabilidade ao casamento
homoafetivo ligeiramente menor que os homossexuais não-religiosos.
Tabela 25 – Análise Demográfica (Orientação Sexual + Religião2)
Orientação Sexual e Religião 2
Rótulos de Linha QTD % Índice A1 Índice A2 Índice A3
Heterossexual
SEM RELIGIÃO 252 24% 4,4 2,6 4,4
AFRO BRASILEIRA 20 2% 4,6 2,9 4,6
ESPÍRITA 125 12% 4,2 2,6 4,2
OUTRAS RELIGIÕES 47 4% 3,9 2,8 3,9
CATÓLICA 307 29% 4,0 2,8 4,2
EVANGÉLICA 81 8% 3,1 2,7 3,3
Homossexual
SEM RELIGIÃO 74 7% 4,7 2,6 4,7
AFRO BRASILEIRA 9 1% 4,5 2,4 4,6
ESPÍRITA 29 3% 4,6 2,8 4,7
OUTRAS RELIGIÕES 14 1% 4,5 2,7 4,5
CATÓLICA 38 4% 4,5 2,6 4,6
EVANGÉLICA 4 0% 4,3 2,6 4,3
Bissexual
SEM RELIGIÃO 23 2% 4,6 2,7 4,6
AFRO BRASILEIRA 4 0% 4,7 3,1 4,4
ESPÍRITA 10 1% 4,8 2,1 4,6
OUTRAS RELIGIÕES 5 0% 4,7 2,8 4,6
CATÓLICA 9 1% 4,5 3,0 4,6
EVANGÉLICA 3 0% 4,4 1,9 4,2
Outros
OUTRAS RELIGIÕES 1 0% 4,6 3,0 4,9
Total Geral 1.055 100% 4,2 2,7 4,3

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Os heterossexuais religiosos, que possuem uma maior favorabilidade ao


casamento homoafetivo e enxergam menos problemas no desenvolvimento das
crianças / adolescentes das famílias homoparentais, seguem religiões Afro
Brasileiras, seguidas por religiões não cristãs e espírita. Os heterossexuais religiosos
que possuem uma menor favorabilidade ao casamento homoafetivo e enxergam
maior problema quanto ao desenvolvimento das crianças / adolescentes de famílias
homoparentais, seguem religiões Cristãs: Evangélica, Católica e Outras religiões
cristãs. Destaque para heterossexuais evangélicos como o grupo de menor
favorabilidade em relação aos itens A1 e A3. Além disso, temos também os

163
heterossexuais de religiões afro-brasileiras que apresentaram favorabilidade maior do
que os heterossexuais não religiosos.

Tabela 26 – Análise Demográfica (Orientação Sexual + Renda Familiar)


Orientação Sexual e Renda Familiar
Rótulos de Linha QTD % Índice A1 Índice A2 Índice A3
Heterossexual
De R$ 0,00 a R$ 1.085,00 22 2% 3,6 2,9 3,7
De R$ 1.086,00 a R$ 1.734,00 53 5% 3,9 2,6 4,1
De R$ 1.735,00 a R$ 7.475,00 391 37% 4,0 2,7 4,1
De R$ 7.476,00 a R$ 9.745,00 121 11% 4,1 2,7 4,1
Acima de R$ 9.745,00 245 23% 4,2 2,6 4,3
Homossexual
De R$ 0,00 a R$ 1.085,00 5 0% 4,5 3,1 4,7
De R$ 1.086,00 a R$ 1.734,00 10 1% 4,5 2,7 4,8
De R$ 1.735,00 a R$ 7.475,00 75 7% 4,6 2,6 4,7
De R$ 7.476,00 a R$ 9.745,00 29 3% 4,6 2,6 4,6
Acima de R$ 9.745,00 49 5% 4,6 2,7 4,6
Bissexual
De R$ 0,00 a R$ 1.085,00 4 0% 4,4 2,9 4,5
De R$ 1.086,00 a R$ 1.734,00 6 1% 4,5 2,3 4,5
De R$ 1.735,00 a R$ 7.475,00 27 3% 4,7 2,6 4,6
De R$ 7.476,00 a R$ 9.745,00 7 1% 4,6 2,7 4,6
Acima de R$ 9.745,00 10 1% 4,6 2,7 4,4
Outros
De R$ 1.735,00 a R$ 7.475,00 1 0% 4,6 3,0 4,9
Total Geral 1.055 100% 4,2 2,7 4,3
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Para o público heterossexual, a favorabilidade ao casamento homoafetivo e a


opinião sobre o desenvolvimento de filhos (as) das famílias homoparentais melhora,
conforme a faixa de renda das pessoas. Para os homossexuais e bissexuais não se
observa esse comportamento, sendo os índices bastante homogêneos entre as
faixas.

Tabela 27 – Análise Demográfica (Orientação Sexual + Filhos)


Orientação Sexual e Filhos
Rótulos de Linha QTD % Índice A1 Índice A2 Índice A3
Heterossexual
Não 386 37% 4,2 2,7 4,3
Sim 446 42% 3,9 2,8 4,1
Homossexual
Não 143 14% 4,6 2,6 4,7
Sim 25 2% 4,5 2,8 4,6
Bissexual
Não 42 4% 4,6 2,5 4,6
Sim 12 1% 4,6 3,2 4,4
Outros
Não 1 0% 4,6 3,0 4,9
Total Geral 1.055 100% 4,2 2,7 4,3
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

164
Dentro do público heterossexual, as pessoas sem filhos são mais favoráveis
ao casamento homoafetivo e enxergam menos problemas no desenvolvimento das
crianças / adolescentes das famílias homoparentais.

Tabela 28 – Análise Demográfica (Orientação Sexual + Filhos I)


Orientação Sexual e quantidade de Filhos
Rótulos de Linha QTD % Índice A1 Índice A2 Índice A3
Heterossexual
0 387 37% 4,2 2,7 4,3
1 193 18% 4,0 2,7 4,1
2 188 18% 3,9 2,8 4,0
3 ou mais 64 6% 3,9 2,7 4,0
Homossexual
0 143 14% 4,6 2,6 4,7
1 11 1% 4,5 2,7 4,5
2 12 1% 4,6 2,9 4,7
3 ou mais 2 0% 4,5 3,1 4,4
Bissexual
0 42 4% 4,6 2,5 4,6
1 6 1% 4,5 3,1 4,6
2 4 0% 4,4 2,7 4,2
3 ou mais 2 0% 4,9 4,4 4,5
Outros
0 1 0% 4,6 3,0 4,9
Total Geral 1.055 100% 4,2 2,7 4,3
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Dentro do público heterossexual, a favorabilidade ao casamento homoafetivo


e a opinião sobre o desenvolvimento de filhos de casais homoafetivos piora, conforme
a quantidade de filhos das pessoas. Não se observa isso no grupo de homossexuais
e bissexuais.

165
Tabela 29 – Análise Demográfica (Orientação Sexual + Profissão)
Orientação Sexual e Área Profissional
Rótulos de Linha QTD % Índice A1 Índice A2 Índice A3
Heterossexual
CIÊNCIAS HUMANAS E COMUNICAÇÃO 78 7% 4,4 2,7 4,3
ARTES 27 3% 4,3 2,8 4,3
TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO 14 1% 4,3 2,8 4,2
SAÚDE 172 16% 4,2 2,7 4,3
CIÊNCIAS EXATAS, ARQUITETURA 35E ENGENHARIA
3% 4,2 2,5 4,1
ESTUDANTE 45 4% 4,1 2,6 4,1
ADMINISTRAÇÃO 243 23% 4,0 2,7 4,1
CIÊNCIAS JURÍDICAS 26 2% 4,0 3,0 4,2
OUTROS 42 4% 3,9 2,8 4,0
ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA 35 3% 3,9 2,6 4,1
EDUCAÇÃO 89 8% 3,8 2,7 4,0
VENDAS E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS 26 2% 3,7 2,7 3,9
Homossexual
OUTROS 2 0% 4,8 3,2 4,5
VENDAS E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS 4 0% 4,7 2,7 4,6
ARTES 11 1% 4,7 2,6 4,6
SAÚDE 22 2% 4,6 2,7 4,7
ADMINISTRAÇÃO 52 5% 4,6 2,6 4,6
ESTUDANTE 21 2% 4,6 2,4 4,6
CIÊNCIAS EXATAS, ARQUITETURA E3ENGENHARIA
0% 4,6 3,3 4,6
CIÊNCIAS HUMANAS E COMUNICAÇÃO 17 2% 4,6 2,9 4,8
ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA 8 1% 4,5 2,4 4,7
TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO 3 0% 4,5 3,2 4,8
EDUCAÇÃO 18 2% 4,5 2,6 4,6
CIÊNCIAS JURÍDICAS 7 1% 3,9 2,6 4,3
Bissexual
CIÊNCIAS EXATAS, ARQUITETURA E1ENGENHARIA
0% 5,0 1,5 4,8
CIÊNCIAS JURÍDICAS 1 0% 4,9 2,3 4,8
ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA 2 0% 4,8 2,9 4,8
OUTROS 1 0% 4,8 2,5 4,7
SAÚDE 4 0% 4,7 2,7 4,5
ADMINISTRAÇÃO 11 1% 4,7 2,6 4,7
EDUCAÇÃO 10 1% 4,7 3,0 4,6
ESTUDANTE 9 1% 4,7 2,8 4,7
ARTES 7 1% 4,5 2,3 4,5
CIÊNCIAS HUMANAS E COMUNICAÇÃO 7 1% 4,3 2,4 4,2
VENDAS E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS 1 0% 4,0 3,5 4,4
Outros
SAÚDE 1 0% 4,6 3,0 4,9
Total Geral 1.055 100% 4,2 2,7 4,3
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira
Dentro do público heterossexual, as áreas de artes, ciências humanas,
comunicação e estudantes são mais favoráveis ao casamento homoafetivo e
enxergam menos problemas no desenvolvimento emocional dos filhos(as) de famílias
homoparentais. Já as áreas de educação, administração pública, de vendas e
prestação de serviços apresentam as favorabilidades mais baixas. Dentre do

166
público homossexual, destaque para a área de ciências jurídicas que apresenta um
nível bastante baixo de favorabilidade a A1 e A3, em relação à média dos
homossexuais.

Tabela 30 – Análise Demográfica (Orientação Sexual + Profissão I)


Orientação Sexual e Profissão
Rótulos de Linha QTD % Índice A1 Índice A2 Índice A3
Heterossexual
PSICÓLOGO 108 10% 4,3 2,7 4,5
PROFESSOR 75 7% 3,8 2,7 3,9
ESTUDANTE 45 4% 4,1 2,6 4,1
JORNALISTA 44 4% 4,3 2,6 4,3
ADMINISTRADOR DE EMPRESAS (GERAL)
44 4% 3,8 2,8 3,8
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Para o público heterossexual, as 5 ocupações que mais aparecem são as de


psicólogo, professor, estudante, jornalista e administrador de empresas. Dentre
estas 5, as ocupações que possuem valores de A1 e A3 abaixo da média são as de
professor e administrador de empresas.

Tabela 31 – Análise Demográfica (Orientação Sexual + Profissão II)


Orientação Sexual e Profissão
Rótulos de Linha QTD % Índice A1 Índice A2 Índice A3
Homossexual
ESTUDANTE 21 2% 4,6 2,4 4,6
PSICÓLOGO 13 1% 4,6 2,6 4,6
PROFESSOR 13 1% 4,4 2,7 4,6
EMPRESÁRIO 12 1% 4,6 2,4 4,7
ANALISTA (ADMINISTRAÇÃO) 9 1% 4,6 2,8 4,8
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Dentre os homossexuais, as 5 profissões que mais aparecem são psicólogo,


professor, estudante, empresário e administrador de empresas; destas, as
favorabilidades mais baixas são da profissão de professor. Isso conversa
diretamente com alguns dados qualitativos que veremos posteriormente.
Tabela 32 – Análise Demográfica (Orientação Sexual + Profissão III)
Orientação Sexual e Profissão
Rótulos de Linha QTD % Índice A1 Índice A2 Índice A3
Bissexual
ESTUDANTE 9 1% 4,7 2,8 4,7
PROFESSOR 6 1% 4,8 2,6 4,6
JORNALISTA 5 0% 4,4 2,3 4,4
CONSULTOR (ADMINISTRAÇÃO) 4 0% 4,6 2,9 4,6
PSICÓLOGO 4 0% 4,7 2,7 4,5
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

167
Dentre os bissexuais, as 5 profissões que mais aparecem são psicólogo,
professor, estudante, jornalista e administrador de empresas e, destas, a de
jornalista apresenta menor favorabilidade, porém a quantidade de dados para o
grupo dos bissexuais é muito pequena.

5.1.4 Preparação dos Dados Americanos

No dia 30.06.2016 bloqueamos o acesso online à pesquisa online,


denominada: THE GENERAL PUBLIC’S OPINION ABOUT GAY FAMILIES: A
CHILD DEVELOPMENT RESEARCH41. As respostas ficaram registrados no banco
de dados do Google Drive e foram transportados para a ferramenta Excel. Foram
coletados o total de 182 registros - universo da pesquisa - no período de 30.04.2016
à 30.06.2016.
Para tratamento dos dados e facilitação da análise, foi necessário criar a
coluna “CÓDIGO DE ENTRADA”. Cada linha possui um valor único que
identificaremos como “COD” + número da linha.
No tratamento da base de dados, foram identificadas as informações em
duplicidade. Tais informações duplicadas foram excluídas da base e mantidas
somente o último registro. Sobre o processo de remoção temos as seguintes
informações:

Quadro 12 – Remoção das duplicatas (EUA)


CÓDIGOS REMOVIDOS CÓDIGOS MANTIDOS
USA-027 USA-042
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

41
Título utilizado para a chamada de pesquisa online nos Estados Unidos.

168
Tabela 33 – Validação dos Dados Demográficos (EUA)

Percentual de
TIPO DE DADO Coluna Preenchidas Vazias Observação
preenchimento
S1 - CODIGO DE ENTRADA 180 0 100%
DADOS DE SISTEMA
S2 - Indicação de data e hora 180 0 100%
P1 - 1. How old are you? 180 0 100%
P2 - 2. Educational Background 180 0 100%
P3 - 3. Gender 180 0 100%
P4 - 4. Marital Status 180 0 100%
P5 - 5. Sexual Orientation. 180 0 100%
P6 - 6. Where do you currently reside? 180 0 100%
P7 - 7. Do you have any religion? 180 0 100%
DADOS DEMOGRÁFICOS
*Contando quem respondeu YES para a P7
P8 - 8. If you answered yes, which one? 108 72 60%
temos 100% de preenchimento.
P9 - 9. What is your U.S. income? 180 0 100%
P10 - 10. Do you have a child / children? 180 0 100%
P11 - 11. If yes, how many children do you *Contando quem respondeu YES para a
78 102 43%
have? P10 temos 100% de preeenchimento.
P12 - 12. What is your profession? 180 0 100%

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Na tabela 33 – validação dos dados demográficos (EUA), temos 100% das


perguntas respondidas, inclusive na P8 e na P11, respectivamente. Isso significa que
na P8 (religião), 100% dos participantes da pesquisa que responderam que possuem
religião (sim), responderam especificaram qual a religião. Além disso, 100% dos
participantes que responderam que possuíam filhos também responderam a
quantidade.

Tabela 34 – Validação dos Dados - Casamento Homoafetivo (EUA)

Percentual de
TIPO DE DADO Coluna Preenchidas Vazias Observação
preenchimento
P13 - 13. I do not like to talk about this
179 1 99%
theme.
P14 - 14. Same sex marriage is like any
180 0 100%
other marriage.
P15 - 15. I am confortable in the presence
180 0 100%
of same sex couples.
P16 - 16. I have homosexual friends. 179 1 99%
P17 - 17. I am favor of civil rights for same
180 0 100%
sex couples.
P18 - 18. Marriage between same sex
couples is the same as marriage between 179 1 99%
different sex couples.
P19 - 19. The legalization of same sex
CASAMENTO marriage reflects American social values of 180 0 100%
HOMOAFETIVO equality.
P20 - 20. I have witnessed discriminatory
179 1 99%
behaviors against same sex couples.
P21 - 21. Same sex couples suffer
180 0 100%
prejudice and discrimination.
P22 - 22. The legalization of same sex
marriage is an attack on American social 180 0 100%
values.
P23 - 23. A homosexual couple is different
179 1 99%
from a heterosexual couple.
P24 - 24. I am not comfortable with
179 1 99%
homosexual couples.
P25 - 25. I am against civil rights between
179 1 99%
homosexual couples.

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

169
Na Tabela 34 – validação dos dados – casamento homoafetivo (EUA),
tivemos alto percentual de preenchimento.

Tabela 35 – Validação dos Dados – Família Homoparental (EUA)

Percentual de
TIPO DE DADO Coluna Preenchidas Vazias Observação
preenchimento
P26A - Prejudice against homosexual
180 0 100%
couples.
P26B - Discrimination of children of same
180 0 100%
sex couples.
P26C - Inclusion of same sex families in
180 0 100%
my friendship circles.
P26D - Discussions about homosexuality. 180 0 100%
FAMÍLIA HOMOPARENTAL P26E - Discrimination of gay / lesbian
180 0 100%
families.
P26F - Informations about same sex
180 0 100%
families.
P26G - Solidarity with the same sex
180 0 100%
families.
P26H - Counseling for same sex families. 180 0 100%
P26I - Exclusion of same sex families. 180 0 100%
P26J - Acceptance of same sex families. 180 0 100%

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Na Tabela 35 – validação dos dados – família homoparental (EUA), temos 100%


dos participantes respondendo as perguntas deste bloco.

Tabela 36 – Validação dos Dados – Desenvolvimento Emocional da criança (EUA)

Percentual de
TIPO DE DADO Coluna Preenchidas Vazias Observação
preenchimento
P27 - 27. Gay fathers / lesbian mothers
180 0 100%
take good care of their child / children.
P28 - 28. A child's emotional development
may be damaged if they are a son / 180 0 100%
daughter of lesbian / gay parents.
P29 - 29. Children of gays and lesbians
usually suffer or will suffer prejudice or 179 1 99%
discrimination.
P30 - 30. Children of gays and lesbians do
180 0 100%
poorly in school.
P31 - 31. Gay / Lesbian parents don't take
179 1 99%
good care of their children.
P32 - 32. Gay / Lesbian families and
straight families have the same ability to 178 2 99%
take care of their children.
P33 - 33. Sexual orientation doesn't matter
180 0 100%
DESENVOLVIMENTO as long as a child is well cared for.
EMOCIONAL DA P34 - 34. The parent's sexual orientation
CRIANÇA/ADOLESCENTE directly affects the emotional development 180 0 100%
of the child.
P35 - 35. Gay / Lesbian families that take
care of their children damage their 180 0 100%
emotional development.
P36 - 36. It's unnatural for children to be
180 0 100%
cared for by Gay / Lesbian couples.
P37 - 37. Children raised by gay / lesbian
couples will have some personality 180 0 100%
problems.
P38 - 38. Adults who where raised by gay
/ lesbian parents are likely to have 179 1 99%
behavioral problems.
P39 - 39. Children and teenagers raised
by gay / lesbian parents have the same
179 1 99%
chance of healthy emotional development
as children raised by straight parents.
C1 - General Comments. 34 146 19%
COMENTÁRIOS E DADOS C2 - If you want to receive the survey
40 140 22%
DE CONTATO results, please write your e-mail address.
C3 - Extracted Emails 40 140 22%

170
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Na Tabela 36 seguimos a mesma tendência vista anteriormente, ou seja,


mantivemos somente 1% de participantes que deixaram de responder as P29, P31,
P32, P38 e P39. Além disso, temos 19% (n=34) dos participantes que deixaram
comentários no campo COMENTÁRIOS GERAIS. Temos 22% (n=40) dos
participantes querem receber os resultados desta pesquisa

5.1.5 Análise dos dados quantitativos americanos

Tabela 37 – Análise geral da pesquisa quantitativa (EUA)


Média Geral dos Índices
QTD % Índice A1 Índice A2 Índice A3
180 100% 4,5 3,0 4,5

A1 - Índice de favorabilidade ao casamento homoafetivo.


Valores maiores indicam maior favorabilidade.

A2 - Índice de observação da integração à sociedade de casais homoafetivos.


Valores maiores indicam percepção de uma maior integração à sociedade.

A3 - Opinião sobre o desenvolvimento de filhos de casais homoafetivos. Valores


maiores indicam maior percepção de igualdade entre desenvolvimento de
crianças criadas por casais heterosexuais e casais homossexuais.

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Tabela 3842 – Análise Demográfica – Faixa Etária (EUA)


P1 - Qual a sua faixa etária?
Respostas QTD % Índice A1 Índice A2 Índice A3
Between 18 and 24 10 6% 4,3 2,8 4,2
Between 25 and 35 64 36% 4,5 3,0 4,6
Between 36 and 46 39 22% 4,6 3,0 4,5
Between 47 and 60 43 24% 4,5 3,0 4,5
Above 60 24 13% 4,6 2,9 4,6
Total Geral 180 100% 4,5 3,0 4,5
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

A faixa entre 18 e 24 anos apresenta os menores índices, porém possui um


número baixo de observações (10), podendo acarretar desvio na interpretação. As
demais faixas apresentam índices bastante uniformes e próximos da média geral,

42
Optamos por manter parte das tabelas no idioma inglês para mostrar ao leitor a acurácia da tradução
e validação do questionário utilizado no Brasil. O leitor pode comparar com a apresentação de tabelas
dos resultados brasileiros.

171
sugerindo que essas questões não são interpretadas de forma diferente, conforme a
faixa etária.

Tabela 39 – Análise Demográfica - Escolaridade (EUA)


P2 - Escolaridade
Respostas QTD % Índice A1 Índice A2 Índice A3
High School and Vocational 14 8% 4,3 2,9 4,2
Bachelor and Professional Degree 76 42% 4,5 2,9 4,4
Master's degree 73 41% 4,5 3,0 4,6
Doctoral degree 15 8% 4,7 2,9 4,7
Other 2 1% 4,8 3,2 4,7
Total Geral 180 100% 4,5 3,0 4,5
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Excetuando-se as categorias High School, Vocational e Other, que possuem


um número baixo de observações, podemos notar que as categorias "Professional
Degree" e "Doctoral Degree" possuem alta favorabilidade ao casamento homoafetivo
e à igualdade entre o desenvolvimento de filhos de casais homoafetivos. A categoria
"Professional Degree" também é a que mais acredita que os homossexuais estão
integrados à sociedade.

Tabela 40 – Análise Demográfica - Sexo (EUA)


P3 - Sexo
Respostas QTD % Índice A1 Índice A2 Índice A3
Female 135 75% 4,5 3,0 4,5
Male 45 25% 4,4 2,9 4,5
Total Geral 180 100% 4,5 3,0 4,5
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Existe pouca diferença entre a opinião de homens e mulheres. Os homens


são ligeiramente menos favoráveis ao casamento homoafetivo e percebem os
homossexuais menos integrados à sociedade.

Tabela 41 – Análise Demográfica – Estado civil (EUA)


P4 - Estado Civil
Respostas QTD % Índice A1 Índice A2 Índice A3
Married or Domestic Partnership 107 59% 4,5 3,0 4,5
Single 57 32% 4,5 2,9 4,5
Divorced, Separated 14 8% 4,6 3,0 4,5
Widowed 2 1% 4,8 3,4 4,9
Total Geral 180 100% 4,5 3,0 4,5
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

172
Sem diferenças significativas entre casados, união estável, solteiros e
divorciados. Divorciados e solteiros enxergam os homossexuais menos integrados à
sociedade em relação aos casados e com união estável.

Tabela 42 – Análise Demográfica – Orientação sexual (EUA)


P5 - Orientação Sexual
Respostas QTD % Índice A1 Índice A2 Índice A3
Heterosexual 115 64% 4,4 3,0 4,4
Homosexual 43 24% 4,6 2,9 4,7
Bisexual 20 11% 4,6 2,9 4,6
Other 2 1% 4,8 2,9 4,7
Total Geral 180 100% 4,5 3,0 4,5
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Heterossexuais enxergam os homossexuais mais integrados à sociedade e


são menos favoráveis ao casamento entre homossexuais e acreditam que o
desenvolvimento de filhos de casais homossexuais é pior que o de casais
heterossexuais. Público homossexual e bissexual possui maior favorabilidade ao
casamento homoafetivo e enxerga menos problemas no desenvolvimento infantil das
crianças de casais homoafetivos, além de ver casais homossexuais menos integrados
à sociedade.

Tabela 43 – Análise Demográfica - Região (EUA)


P6 - Em qual estado você reside? (REGIÃO)
Respostas QTD % Índice A1 Índice A2 Índice A3
South 43 24% 4,6 2,9 4,6
Midwest 31 17% 4,6 2,9 4,5
Northeast 50 28% 4,5 3,0 4,6
West 53 29% 4,4 3,0 4,4
Other 3 2% 4,6 2,8 4,7
Total Geral 180 100% 4,5 3,0 4,5
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

A maior diferença entre as regiões se dá em relação a região Oeste, que


possui índices mais baixos de favorabilidade ao casamento homossexual e enxerga
mais problemas no desenvolvimento dos filhos de casais homoafetivos. Esses dados
são surpreendentes, uma vez que a região Oeste é reconhecida por ser mais
progressista.

173
Tabela 44 – Análise Demográfica - Estado (EUA)

P6 - Em qual estado você reside?


Respostas QTD % Índice A1 Índice A2 Índice A3
West 53 29% 4,4 3,0 4,4
Utah (UT) 2 1% 4,8 3,1 4,8
Colorado (CO) 4 2% 4,7 3,4 4,6
Washington (WA) 26 14% 4,5 2,9 4,4
Montana (MT) 2 1% 4,5 3,4 4,3
California (CA) 11 6% 4,4 3,0 4,5
Oregon (OR) 6 3% 4,2 3,1 4,3
Nevada (NV) 2 1% 2,8 2,7 3,5
Northeast 50 28% 4,5 3,0 4,6
Connecticut (CT) 4 2% 5,0 2,4 4,7
Maine (ME) 1 1% 4,9 3,3 4,9
Delaware (DE) 1 1% 4,9 3,3 4,9
Washington DC 2 1% 4,8 2,9 4,7
New Jersey (NJ) 3 2% 4,8 3,0 4,7
Massachusetts (MA) 10 6% 4,7 3,0 4,8
Maryland (MD) 4 2% 4,6 3,2 4,5
Vermont (VT) 3 2% 4,5 3,1 4,2
Pennsylvania (PA) 7 4% 4,5 3,2 4,7
New York (NY) 13 7% 4,3 3,1 4,4
Rhode Island (RI) 2 1% 3,5 3,0 3,3
South 43 24% 4,6 2,9 4,6
Georgia (GA) 5 3% 4,9 2,8 4,7
North Carolina (NC) 3 2% 4,9 2,9 4,8
Missouri (MO) 2 1% 4,8 2,5 4,6
Louisiana (LA) 1 1% 4,8 3,3 4,7
Oklahoma (OK) 1 1% 4,8 2,7 4,8
Alabama (AL) 2 1% 4,8 2,2 5,0
Kentucky (KY) 2 1% 4,7 3,1 4,8
Tennessee (TN) 2 1% 4,7 2,9 4,9
Virginia (VA) 5 3% 4,4 3,4 4,5
Florida (FL) 11 6% 4,4 2,9 4,5
Arizona (AZ) 2 1% 4,4 2,6 4,5
Texas (TX) 7 4% 4,4 2,8 4,4
Midwest 31 17% 4,6 2,9 4,5
Minnesota (MN) 2 1% 4,9 2,8 4,8
Iowa (IA) 3 2% 4,9 3,2 4,8
Michigan (MI) 4 2% 4,8 3,0 4,7
Wisconsin (WI) 3 2% 4,7 3,2 4,6
North Dakota (ND) 1 1% 4,6 2,7 4,8
Indiana (IN) 9 5% 4,5 2,8 4,6
Illinois (IL) 7 4% 4,4 2,8 4,4
Kansas (KS) 2 1% 3,6 2,1 3,5
Other 3 2% 4,6 2,8 4,7
Other 3 2% 4,6 2,8 4,7
Total Geral 180 100% 4,5 3,0 4,5
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

174
Ao abrir as regiões em estados, a análise fica prejudicada pelo baixo número
de observações em cada estado.

Tabela 45 – Análise Demográfica - Religião (EUA)


P7 - Você tem religião?
Respostas QTD % Índice A1 Índice A2 Índice A3
Yes 108 60% 4,4 3,0 4,5
No 72 40% 4,6 3,0 4,6
Total Geral 180 100% 4,5 3,0 4,5

P8 - Se sim, qual é a sua religião?


Respostas QTD % Índice A1 Índice A2 Índice A3
SEM RELIGIÃO 73 41% 4,6 2,9 4,6
ESPÍRITA 1 1% 4,6 3,5 4,7
OUTRAS RELIGIÕES CRISTÃS 56 31% 4,6 3,0 4,5
OUTRAS RELIGIÕES NÃO CRISTÃS 16 9% 4,3 3,0 4,5
CATÓLICA 18 10% 4,3 2,9 4,4
EVANGÉLICA 16 9% 4,2 2,8 4,1
Total Geral 180 100% 4,5 3,0 4,5

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

O público religioso é menos favorável ao casamento homoafetivo e enxerga


mais problemas no desenvolvimento das crianças de casais homoafetivos. Não há
diferença quanto à percepção da integração dos casais homoafetivos (A2) com a
sociedade.
O público sem religião e com outras religiões cristãs é mais favorável quanto
ao casamento homoafetivo e enxerga menos problemas no desenvolvimento das
crianças de casais homoafetivos. O público católico e de religiões não cristãs tem
menor favorabilidade ao casamento homoafetivo e enxerga mais problemas no
desenvolvimento das crianças de casais homoafetivos. O público evangélico é muito
menos favorável ao casamento homoafetivo e enxerga muito mais problemas no
desenvolvimento das crianças de casais homoafetivos e é também o grupo que vê os
homossexuais menos integrados à sociedade.

Tabela 46 – Análise Demográfica – Renda familiar (EUA)


P9 - Qual a sua renda familiar?
Respostas QTD % Índice A1 Índice A2 Índice A3
Less than U$ 27.000 26 14% 4,4 3,0 4,5
From U$ 27.000 to U$ 40.000 25 14% 4,3 2,9 4,3
From U$ 41.000 to U$ 55.000 30 17% 4,7 2,9 4,6
From U$ 56.000 to 70.000 27 15% 4,5 2,9 4,4
From U$ 71.000 to U$ 85.000 12 7% 4,4 2,9 4,6
From U$ 86.000 to U$ 100.000 18 10% 4,6 3,0 4,5
More than U$ 100.000 42 23% 4,5 3,1 4,6
Total Geral 180 100% 4,5 3,0 4,5

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

175
Não há correlação entre as faixas de renda e os índices. Temos a faixa de
U$41.000 a U$55.000 com os maiores índices A1 e A3 e a faixa de U$27.000 a
U$40.000 com os menores.

Tabela 47 – Análise Demográfica - Filhos (EUA)


P10 - Você tem filhos?
Respostas QTD % Índice A1 Índice A2 Índice A3
No 102 57% 4,5 2,9 4,6
Yes 78 43% 4,5 3,0 4,5
Total Geral 180 100% 4,5 3,0 4,5

P11 - Se sim, quantos filhos você tem?


Respostas QTD % Índice A1 Índice A2 Índice A3
0 102 57% 4,5 2,9 4,6
1 33 18% 4,6 2,9 4,6
2 32 18% 4,6 3,1 4,5
3 ou mais 13 7% 4,0 3,1 4,0
Total Geral 180 100% 4,5 3,0 4,5
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Não há diferença significativa entre pessoas que têm filhos e pessoas que não
têm filhos. Pessoas sem filhos enxergam menos problemas no desenvolvimento das
crianças de casais homoafetivos (índice A3 ligeiramente menor).
Há uma grande diferença nos índices A1 e A3 entre pessoas que têm 3 ou
mais filhos e pessoas com até 2 filhos. Pessoas com 3 ou mais filhos são menos
favoráveis ao casamento homossexual e veem mais problemas quanto ao
desenvolvimento de crianças criadas por casais homoafetivos.

Tabela 48 – Análise Demográfica – Profissão I (EUA)


P12 - Qual a sua profissão? (ÁREA)
Respostas QTD % Índice A1 Índice A2 Índice A3
CIÊNCIAS HUMANAS E COMUNICAÇÃO 4 2% 4,7 2,6 4,7
EDUCAÇÃO 38 21% 4,7 3,1 4,7
ADMINISTRAÇÃO 50 28% 4,6 2,8 4,5
ESTUDANTE 15 8% 4,5 2,9 4,6
OUTROS 44 24% 4,4 3,0 4,4
SAÚDE 29 16% 4,4 3,0 4,4
Total Geral 180 100% 4,5 3,0 4,5
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Profissionais da área da educação possuem maior favorabilidade ao


casamento homossexual e veem menos problemas quanto ao desenvolvimento de
crianças criadas por casais homossexuais; esse grupo enxerga maior integração dos
176
homossexuais com a sociedade. Esses dados são relativamente opostos aos dados
brasileiros, ou seja, americanos da área da educação possuem maior instrução do
que os professores brasileiros e consequentemente maior índice de favorabilidade.
Profissionais da área da saúde possuem menor favorabilidade ao casamento
homossexual e veem mais problemas quanto ao desenvolvimento de crianças criadas
por casais homossexuais. O grupo de profissionais de Administração vê os casais
homossexuais menos integrados à sociedade.

Tabela 49 – Análise Demográfica – Profissão II (EUA)


P12 - Qual a sua profissão?
Respostas QTD % Índice A1 Índice A2 Índice A3
PROFESSOR 30 17% 4,7 3,1 4,7
ESTUDANTE 15 8% 4,5 2,9 4,6
ANALISTA (ADMINISTRAÇÃO) 14 8% 4,6 2,9 4,4
TECNICOS E AUXILIARES DE ENFERMAGEM
14 8% 4,4 2,7 4,4
GERENTE (ADMINISTRAÇÃO) 13 7% 4,6 2,9 4,6
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Ao abrir as áreas profissionais por profissões, a análise fica prejudicada pelo


baixo número de observações em cada profissão.

Tabela 50 – Análise Demográfica – (Orientação sexual + Sexo) (EUA)


Orientação Sexual e Sexo
Respostas Qtd. % Índice A1 Índice A2 Índice A3
Homosexual
Female 18 10% 4,6 2,8 4,7
Male 25 14% 4,6 3,0 4,6
Heterosexual
Female 98 54% 4,5 3,0 4,5
Male 17 9% 4,2 2,9 4,3
Other
Female 2 1% 4,8 2,9 4,7
Bisexual
Female 17 9% 4,7 3,0 4,7
Male 3 2% 3,8 2,7 3,8
Total Geral 180 100% 4,5 3,0 4,5
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Entre homossexuais não há grande diferença nos índices A1 e A3, porém as


mulheres homossexuais percebem os homossexuais em geral menos integrados à
sociedade. E as mulheres heterossexuais possuem todos os 3 índices superiores aos
homens heterossexuais.

177
Tabela 51 – Análise Demográfica – (Orientação Sexual + Estado Civil) (EUA)
Orientação Sexual e Estado Civil
Respostas Qtd. % Índice A1 Índice A2 Índice A3
Homosexual
Widowed 1 1% 4,7 2,9 4,8
Single 16 9% 4,6 2,9 4,7
Married or Domestic Partnership 24 13% 4,6 2,9 4,7
Divorced, Separated 2 1% 4,4 3,0 4,0
Heterosexual
Widowed 1 1% 4,8 3,8 5,0
Single 34 19% 4,4 2,9 4,4
Married or Domestic Partnership 74 41% 4,5 3,0 4,5
Divorced, Separated 6 3% 4,5 3,0 4,4
Other
Single 1 1% 4,7 3,1 4,6
Divorced, Separated 1 1% 4,8 2,7 4,7
Bisexual
Single 6 3% 4,7 2,9 4,7
Married or Domestic Partnership 9 5% 4,4 2,8 4,4
Divorced, Separated 5 3% 4,7 3,1 4,7
Total Geral 180 100% 4,5 3,0 4,5
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Entre homossexuais não há diferença nos grupos de solteiros e casados (ou


união estável). Entre os heterossexuais, os solteiros tem índices ligeiramente
menores.

Tabela 52 – Análise Demográfica – (Orientação Sexual + Religião) (EUA)


Orientação Sexual e Religião
Respostas Qtd. % Índice A1 Índice A2 Índice A3
Homosexual
Yes 32 18% 4,6 2,9 4,7
No 11 6% 4,6 2,9 4,7
Heterosexual
Yes 66 37% 4,3 3,0 4,3
No 49 27% 4,6 3,0 4,6
Other
Yes 1 1% 4,8 2,7 4,7
No 1 1% 4,7 3,1 4,6
Bisexual
Yes 9 5% 4,5 3,0 4,4
No 11 6% 4,7 2,9 4,7
Total Geral 180 100% 4,5 3,0 4,5
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Heterossexuais com religião possuem índices A1 e A2 menores que os que


não possuem religião. Entre os homossexuais não há diferença.

178
Tabela 53 – Análise Demográfica – (Orientação Sexual + Filhos) (EUA)
Orientação Sexual e Filhos
Respostas Qtd. % Índice A1 Índice A2 Índice A3
Homosexual
No 29 16% 4,6 2,9 4,7
Yes 14 8% 4,7 3,0 4,7
Heterosexual
No 60 33% 4,5 2,9 4,5
Yes 55 31% 4,4 3,0 4,4
Other
No 2 1% 4,8 2,9 4,7
Bisexual
No 11 6% 4,4 2,9 4,5
Yes 9 5% 4,8 2,9 4,7
Total Geral 180 100% 4,5 3,0 4,5

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Heterossexuais com filhos apresentam índices A1 e A3 ligeiramente menores


do que os apresentados pelos homossexuais e bissexuais.

5.1.6 Análise comparativa dos dados Brasileiros versus Americanos

Conforme mencionado anteriormente, utilizou-se do mesmo modelo de


questionário online para ambos os países. Porém, devido à dificuldade de captação
do mesmo número de respondentes, e por ser uma pesquisa aberta, as amostras
acabam não sendo uniformemente comparáveis. Dessa forma, optamos por fazer uma
análise comparável dos dados que nos trouxeram algum tipo de reflexão relevante.

Tabela 54 – Média geral dos índices - Brasil versus Estados Unidos


Média Geral dos Índices
País Quantidade % Índice A1 Índice A2 Índice A3
Brasil 1.055 100% 4,2 2,7 4,3
EUA 180 100% 4,5 3,0 4,5

A1 - Índice de favorabilidade ao casamento homoafetivo.


Valores maiores indicam maior favorabilidade.

A2 - Índice de observação da integração à sociedade de casais homoafetivos. Valores


maiores indicam percepção de uma maior integração à sociedade.

A3 - Opinião sobre o desenvolvimento de filhos de casais homoafetivos. Valores maiores


indicam maior percepção de igualdade entre desenvolvimento de crianças criadas por
casais heterosexuais e casais homossexuais.

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Todos os índices nos EUA ficaram entre 0,2 e 0,3 pontos percentuais maiores
que os do Brasil. Isso pode ter acontecido pelo fato de a sociedade americana ver

179
essa questão de forma mais favorável, porém isso não pode ser confirmado, pois a
metodologia de pesquisa utilizada não garante a uniformidade de amostras.

Tabela 55 – Faixa Etária - Brasil versus Estados Unidos


P1 - Qual a sua faixa etária? P1 - Qual a sua faixa etária?
Respostas Brasil Qtd. % Índice A1 Índice A2 Índice A3 Respostas EUA Qtd. % Índice A1 Índice A2 Índice A3
18 a 24 anos 120 11% 4,2 2,7 4,3 Between 18 and 24 10 6% 4,3 2,8 4,2
25 a 35 anos 452 43% 4,3 2,6 4,4 Between 25 and 35 64 36% 4,5 3,0 4,6
36 a 46 anos 279 26% 4,1 2,7 4,2 Between 36 and 46 39 22% 4,6 3,0 4,5
47 a 60 anos 160 15% 3,9 2,8 4,1 Between 47 and 60 43 24% 4,5 3,0 4,5
Acima de 60 anos 35 3% 4,1 2,9 4,2 Above 60 24 13% 4,6 2,9 4,6
Total Geral 1.046 100% Total Geral 180 100%

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

No Brasil, nota-se uma tendência de diminuição dos índices A1 e A3,


conforme a faixa etária aumenta; nos EUA não notamos esse comportamento; os
índices são bastante uniformes em todas as faixas etárias, menos entre 18 e 24 anos.
Quanto ao índice A2, no Brasil, os mais velhos e mais novos veem os homossexuais
mais integrados à sociedade, enquanto que a faixa de 36 a 46 anos os vê menos
integrados.

Tabela 56 – Escolaridade - Brasil versus Estados Unidos


P2 - Escolaridade P2 - Escolaridade
Respostas Brasil Qtd. % Índice A1 Índice A2 Índice A3 Respostas EUA Qtd. % Índice A1 Índice A2 Índice A3
Até Ensino Médio 95 9% 3,9 2,8 4,1 High School + Vocational 14 8% 4,3 2,9 4,2
Ensino Superior 437 41% 4,1 2,7 4,2 Bachelor + Professional 76 43% 4,5 2,9 4,4
Pós Graduação e Mestrado 478 45% 4,2 2,7 4,3 Master's degree 73 41% 4,5 3,0 4,6
Doutorado e Pós-Doutorado 45 4% 4,3 2,7 4,5 Doctoral degree 15 8% 4,7 2,9 4,7
Total Geral 1.055 100% Total Geral 178 100%

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

É importante observar que na pesquisa americana 2 pessoas responderam


“Other” em escolaridade, não sendo comparáveis com as categorias brasileiras.
Notamos, em ambos os países, um aumento nos índices A1 e A3
acompanhando o aumento de escolaridade. O índice A2 não parece ser muito afetado
por esta variável.

Tabela 57 – Sexo - Brasil versus Estados Unidos


P3 - Sexo P3 - Sexo
Respostas Brasil Qtd. % Índice A1 Índice A2 Índice A3 Respostas EUA Qtd. % Índice A1 Índice A2 Índice A3
Masculino 264 25% 4,2 2,6 4,3 Female 135 75% 4,5 3,0 4,5
Feminino 791 75% 4,2 2,7 4,3 Male 45 25% 4,4 2,9 4,5
Total Geral 1.055 100% Total Geral 180 100%

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Em ambos os países não temos diferenças significativas na variável sexo.

180
Tabela 58 – Estado Civil - Brasil versus Estados Unidos
P4 - Estado Civil P4 - Estado Civil
Respostas Brasil Qtd. % Índice A1 Índice A2 Índice A3 Respostas EUA Qtd. % Índice A1 Índice A2 Índice A3
Casado (a) + Recasado (a) 556
+ U.N. 53% 4,1 2,7 4,2 Married or Domestic Partnership
107 59% 4,5 3,0 4,5
Solteiro (a) 407 39% 4,3 2,6 4,4 Single 57 32% 4,5 2,9 4,5
Divorciado (a) 82 8% 4,3 2,8 4,4 Divorced + Separated 14 8% 4,6 3,0 4,5
Viúvo (a) 10 1% 3,8 2,5 3,6 Widowed 2 1% 4,8 3,4 4,9
Total Geral 1.055 100% Total Geral 180 100%

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

No Brasil, casados, recasados e união estável apresentam índices A1 e A3


menores que os solteiros e divorciados. Já nos EUA, essa diferença entre as
categorias não é perceptível. Em ambos os países os solteiros veem os homossexuais
menos integrados à sociedade.

Tabela 59 – Orientação sexual - Brasil versus Estados Unidos


P5 - Orientação Sexual P5 - Orientação Sexual
Respostas Brasil Qtd. % Índice A1 Índice A2 Índice A3 Respostas EUA Qtd. % Índice A1 Índice A2 Índice A3
Heterossexual 832 79% 4,1 2,7 4,2 Heterosexual 115 64% 4,4 3,0 4,4
Homossexual 168 16% 4,6 2,6 4,6 Homosexual 43 24% 4,6 2,9 4,7
Bissexual 54 5% 4,6 2,6 4,6 Bisexual 20 11% 4,6 2,9 4,6
Outros 1 0% 4,6 3,0 4,9 Other 2 1% 4,8 2,9 4,7
Total Geral 1.055 100% Total Geral 180 100%

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

No Brasil, os heterossexuais apresentam índices A1 e A3 bem mais baixos


que as outras categorias; já, nos EUA, essa diferença é menor. Quanto ao índice A2,
os comportamentos são similares entre Brasil e EUA, com os EUA tendo valores
maiores para este índice.

Tabela 60 – Estado - Brasil versus Estados Unidos


P6 - Qual Estado você reside? (REGIÃO) P6 - Qual Estado você reside? (REGIÃO)
Respostas Brasil Qtd. % Índice A1 Índice A2 Índice A3 Respostas EUA Qtd. % Índice A1 Índice A2 Índice A3
SUL 147 14% 4,3 2,8 4,4 South 43 24% 4,6 2,9 4,6
SUDESTE 690 65% 4,2 2,7 4,3 Midwest 31 17% 4,6 2,9 4,5
NORTE 7 1% 4,1 2,6 4,0 Northeast 50 28% 4,5 3,0 4,6
NORDESTE 128 12% 4,0 2,6 4,1 West 53 29% 4,4 3,0 4,4
CENTRO-OESTE 56 5% 4,0 2,7 4,2 Other 3 2% 4,6 2,8 4,7
EXTERIOR 27 3% 4,3 2,9 4,3 0%
Total Geral 1.055 100% Total Geral 180 100%

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Nos EUA, a região oeste apresenta menores índices A1 e A3, com as regiões
nordeste e sul possuindo maiores índices. No Brasil, as regiões norte, nordeste e
centro-oeste possuem os menores índices e as regiões sul e sudeste possuem os
maiores. É necessário reunir dados culturais acerca das regiões dos EUA, para que
uma comparação possa ser feita entre EUA e Brasil.

181
Tabela 61 – Estado II - Brasil versus Estados Unidos
P6 - Qual Estado você reside? P6 - Qual Estado você reside?
Respostas Brasil Qtd. % Índice A1 Índice A2 Índice A3 Respostas EUA Qtd. % Índice A1 Índice A2 Índice A3
SUDESTE 690 65% 4,2 2,7 4,3 West 53 29% 4,4 3,0 4,4
Rio de Janeiro (RJ) 40 4% 4,5 2,8 4,5 Utah (UT) 2 1% 4,8 3,1 4,8
Minas Gerais (MG) 19 2% 4,2 2,4 4,3 Colorado (CO) 4 2% 4,7 3,4 4,6
São Paulo (SP) 629 60% 4,1 2,7 4,2 Washington (WA) 26 14% 4,5 2,9 4,4
Espírito Santo (ES) 2 0% 3,4 2,9 3,4 Montana (MT) 2 1% 4,5 3,4 4,3
SUL 147 14% 4,3 2,8 4,4 California (CA) 11 6% 4,4 3,0 4,5
Santa Catarina (SC) 29 3% 4,5 2,8 4,6 Oregon (OR) 6 3% 4,2 3,1 4,3
Paraná (PR) 100 9% 4,3 2,8 4,4 Nevada (NV) 2 1% 2,8 2,7 3,5
Rio Grande do Sul (RS) 18 2% 4,1 2,8 4,3 Northeast 50 28% 4,5 3,0 4,6
NORDESTE 128 12% 4,0 2,6 4,1 Connecticut (CT) 4 2% 5,0 2,4 4,7
Paraíba (PB) 1 0% 4,8 2,3 4,8 Maine (ME) 1 1% 4,9 3,3 4,9
Sergipe (SE) 38 4% 4,3 2,4 4,4 Delaware (DE) 1 1% 4,9 3,3 4,9
Ceará (CE) 6 1% 4,3 3,2 4,5 Washington DC 2 1% 4,8 2,9 4,7
Pernambuco (PE) 27 3% 4,1 2,7 4,2 New Jersey (NJ) 3 2% 4,8 3,0 4,7
Alagoas (AL) 12 1% 4,0 2,2 4,2 Massachusetts (MA) 10 6% 4,7 3,0 4,8
Bahia (BA) 34 3% 3,8 2,8 3,9 Maryland (MD) 4 2% 4,6 3,2 4,5
Rio Grande do Norte (RN) 7 1% 3,5 2,9 3,7 Vermont (VT) 3 2% 4,5 3,1 4,2
Piauí (PI) 3 0% 3,4 2,6 3,2 Pennsylvania (PA) 7 4% 4,5 3,2 4,7
CENTRO-OESTE 56 5% 4,0 2,7 4,2 New York (NY) 13 7% 4,3 3,1 4,4
Mato Grosso (MT) 8 1% 4,2 2,8 4,4 Rhode Island (RI) 2 1% 3,5 3,0 3,3
Distrito Federal (DF) 37 4% 4,0 2,7 4,1 South 43 24% 4,6 2,9 4,6
Goiás (GO) 8 1% 4,0 3,1 4,3 Georgia (GA) 5 3% 4,9 2,8 4,7
Mato Grosso do Sul (MS) 3 0% 3,2 2,5 3,1 North Carolina (NC) 3 2% 4,9 2,9 4,8
EXTERIOR 27 3% 4,3 2,9 4,3 Missouri (MO) 2 1% 4,8 2,5 4,6
Fora do País 27 3% 4,3 2,9 4,3 Louisiana (LA) 1 1% 4,8 3,3 4,7
NORTE 7 1% 4,1 2,6 4,0 Oklahoma (OK) 1 1% 4,8 2,7 4,8
Tocantins (TO) 1 0% 4,4 2,1 4,2 Alabama (AL) 2 1% 4,8 2,2 5,0
Amazonas (AM) 4 0% 4,1 2,6 3,9 Kentucky (KY) 2 1% 4,7 3,1 4,8
Pará (PA) 2 0% 4,1 2,8 4,2 Tennessee (TN) 2 1% 4,7 2,9 4,9
Virginia (VA) 5 3% 4,4 3,4 4,5
Florida (FL) 11 6% 4,4 2,9 4,5
Arizona (AZ) 2 1% 4,4 2,6 4,5
Texas (TX) 7 4% 4,4 2,8 4,4
Midwest 31 17% 4,6 2,9 4,5
Minnesota (MN) 2 1% 4,9 2,8 4,8
Iowa (IA) 3 2% 4,9 3,2 4,8
Michigan (MI) 4 2% 4,8 3,0 4,7
Wisconsin (WI) 3 2% 4,7 3,2 4,6
North Dakota (ND) 1 1% 4,6 2,7 4,8
Indiana (IN) 9 5% 4,5 2,8 4,6
Illinois (IL) 7 4% 4,4 2,8 4,4
Kansas (KS) 2 1% 3,6 2,1 3,5
Other 3 2% 4,6 2,8 4,7
Other 3 2% 4,6 2,8 4,7
Total Geral 1.055 100% Total Geral 180 100%

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Como a amostra dos EUA possui poucas observações para cada estado, não
é possível tecer muitas conclusões a respeito dessa variável, comparando EUA com
Brasil.

Tabela 62 – Religião - Brasil versus Estados Unidos


P7 - Você tem religião? P7 - Você tem religião?
Respostas Brasil Qtd. % Índice A1 Índice A2 Índice A3 Respostas EUA Qtd. % Índice A1 Índice A2 Índice A3
Não 340 32% 4,5 2,6 4,5 No 72 40% 4,6 3,0 4,6
Sim 715 68% 4,0 2,7 4,1 Yes 108 60% 4,4 3,0 4,5
Total Geral 1.055 100% Total Geral 180 100%

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Brasil e EUA apresentam comportamento bastante parecido no quesito


religião. A distância entre os valores dos índices para pessoas com religião x pessoas
sem religião no Brasil é maior que a distância dos EUA. A religião no Brasil parece ter

182
uma influência maior sobre o comportamento das pessoas quanto à
homoparentalidade que nos EUA.

Tabela 63 – Religião II - Brasil versus Estados Unidos


P8 - Se sim, qual é a sua religião? P8 - Se sim, qual é a sua religião?
Respostas Brasil Qtd. % Índice A1 Índice A2 Índice A3 Respostas EUA Qtd. % Índice A1 Índice A2 Índice A3
SEM RELIGIÃO 349 33% 4,5 2,6 4,5 SEM RELIGIÃO 73 41% 4,6 2,9 4,6
CATÓLICA 354 34% 4,0 2,8 4,2 CATÓLICA 18 10% 4,3 2,9 4,4
EVANGÉLICA 88 8% 3,2 2,6 3,4 EVANGÉLICA 16 9% 4,2 2,8 4,1
ESPÍRITA 164 16% 4,3 2,6 4,3 ESPÍRITA 1 1% 4,6 3,5 4,7
AFRO BRASILEIRA 33 3% 4,6 2,8 4,6
OUTRAS RELIGIÕES CRISTÃS
33 3% 3,8 2,8 3,8 OUTRAS RELIGIÕES CRISTÃS
56 31% 4,6 3,0 4,5
OUTRAS RELIGIÕES NÃO CRISTÃS
34 3% 4,4 2,7 4,4 OUTRAS RELIGIÕES NÃO CRISTÃS
16 9% 4,3 3,0 4,5
Total Geral 1.055 100% Total Geral 180 100%

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

O público sem religião apresenta altos índices A1 e A3 e esses dados


puderam ser observados tanto no Brasil, quanto nos EUA. O público de Outras
religiões cristãs nos EUA apresenta índices parecidos com o grupo sem religião; esse
agrupamento de 56 pessoas possui 31 pessoas que se identificam com a religião
Anglicana. As religiões católicas e evangélicas nos EUA possuem o índice A1
bastante próximo, já no Brasil a distância é maior, sendo os católicos muito mais
favoráveis à união homoafetivo que os evangélicos.

Tabela 64 – Renda Familiar – Brasil versus Estados Unidos


Renda Renda
Respostas Brasil Qtd. % Índice A1 Índice A2 Índice A3 Respostas EUA Qtd. % Índice A1 Índice A2 Índice A3
De R$ 0,00 a R$ 1.085,00 31 3% 3,9 3,0 4,0 Less than U$ 27.000 26 14% 4,4 3,0 4,5
De R$ 1.086,00 a R$ 1.734,00
69 7% 4,0 2,6 4,2 From U$ 27.000 to U$ 40.00025 14% 4,3 2,9 4,3
De R$ 1.735,00 a R$ 7.475,00
494 47% 4,1 2,7 4,2 From U$ 41.000 to U$ 55.00030 17% 4,7 2,9 4,6
De R$ 7.476,00 a R$ 9.745,00
157 15% 4,2 2,7 4,3 From U$ 56.000 to 70.000 27 15% 4,5 2,9 4,4
Acima de R$ 9.745,00 304 29% 4,3 2,6 4,4 From U$ 71.000 to U$ 85.00012 7% 4,4 2,9 4,6
From U$ 86.000 to U$ 100.000
18 10% 4,6 3,0 4,5
More than U$ 100.000 42 23% 4,5 3,1 4,6
Total Geral 1.055 100% Total Geral 180 100%

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

No Brasil, notamos um aumento dos índices A1 e A3 com o aumento da renda,


mas, nos EUA, este padrão não é tão claro. A faixa de U$27.000 a U$40.000
apresenta os piores índices A1 e A3, enquanto a faixa seguinte apresenta os
melhores. Nos EUA as faixas mais baixas e mais altas enxergam os homossexuais
mais integrados à sociedade e, no Brasil, a faixa de menor renda tem a mesma visão.

Tabela 65 – Filhos – Brasil versus Estados Unidos


P10 - Você tem filhos? P10 - Você tem filhos?
Respostas Brasil Qtd. % Índice A1 Índice A2 Índice A3 Respostas EUA Qtd. % Índice A1 Índice A2 Índice A3
Não 572 54% 4,3 2,6 4,4 No 102 57% 4,5 2,9 4,6
Sim 483 46% 4,0 2,8 4,1 Yes 78 43% 4,5 3,0 4,5
Total Geral 1.055 100% Total Geral 180 100%

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

183
Nos EUA, esta variável tem pouca influência nos indicadores; no Brasil quem
tem filhos possui os indicadores A1 e A3 menores e o A2 maior.

Tabela 66 – Filhos II – Brasil versus Estados Unidos


P11 - Se sim, quantos filhos você tem? P11 - Se sim, quantos filhos você tem?
Respostas Brasil Qtd. % Índice A1 Índice A2 Índice A3 Respostas EUA Qtd. % Índice A1 Índice A2 Índice A3
0 573 54% 4,3 2,6 4,4 0 102 57% 4,5 2,9 4,6
1 210 20% 4,0 2,8 4,2 1 33 18% 4,6 2,9 4,6
2 204 19% 4,0 2,8 4,1 2 32 18% 4,6 3,1 4,5
3 ou mais 68 6% 3,9 2,8 4,1 3 ou mais 13 7% 4,0 3,1 4,0
Total Geral 1.055 100% 4,2 2,7 4,3 Total Geral 180 100% 4,5 3,0 4,5

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

No Brasil, a maior diferença se dá entre os grupos de quem tem filhos versus


quem não tem. Nos EUA, a diferença aparece para pessoas que tem 3 filhos ou mais.

Tabela 67 – Profissão – Brasil versus Estados Unidos (EUA)


P12 - Qual a sua profissão? (ÁREA) P12 - Qual a sua profissão? (ÁREA)
Respostas Brasil Qtd. % Índice A1 Índice A2 Índice A3 Respostas EUA Qtd. % Índice A1 Índice A2 Índice A3
ADMINISTRAÇÃO 306 29% 4,1 2,7 4,2 ADMINISTRAÇÃO 50 28% 4,6 2,8 4,5
EDUCAÇÃO 117 11% 4,0 2,7 4,1 EDUCAÇÃO 38 21% 4,7 3,1 4,7
ESTUDANTE 75 7% 4,3 2,6 4,3 ESTUDANTE 15 8% 4,5 2,9 4,6
SAÚDE 199 19% 4,2 2,7 4,4 SAÚDE 29 16% 4,4 3,0 4,4
CIÊNCIAS HUMANAS E COMUNICAÇÃO
102 10% 4,4 2,7 4,4 CIÊNCIAS HUMANAS E COMUNICAÇÃO
4 2% 4,7 2,6 4,7
OUTROS 256 24% 4,1 2,7 4,2 OUTROS 44 24% 4,4 3,0 4,4
Total Geral 1.055 100% Total Geral 180 100%

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Em todas as áreas profissionais, os índices dos EUA apresentam maior


favorabilidade às questões da homoparentalidade e da união de casais homoafetivos
que no Brasil. A maior diferença entre EUA e Brasil está na área da Educação, seguida
pela Administração.

Tabela 68 – Profissão II – Brasil versus Estados Unidos


P12 - Qual a sua profissão? P12 - Qual a sua profissão?
Respostas Brasil Qtd. % Índice A1 Índice A2 Índice A3 Respostas EUA Qtd. % Índice A1 Índice A2 Índice A3
PSICÓLOGO 126 12% 4,3 2,7 4,5 PROFESSOR 30 17% 4,7 3,1 4,7
PROFESSOR 94 9% 3,9 2,7 4,1 ESTUDANTE 15 8% 4,5 2,9 4,6
ESTUDANTE 75 7% 4,3 2,6 4,3 ANALISTA (ADMINISTRAÇÃO)14 8% 4,6 2,9 4,4
JORNALISTA 56 5% 4,4 2,7 4,4 TECNICOS E AUXILIARES DE14 ENFERMAGEM
8% 4,4 2,7 4,4
ADMINISTRADOR DE EMPRESAS
54 (GERAL)
5% 4,0 2,7 4,0 GERENTE (ADMINISTRAÇÃO) 13 7% 4,6 2,9 4,6

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Como a amostra dos EUA possui poucas observações, não foi possível tecer
conclusões mais aprofundadas.
Dando continuidade ao processo de análise dos dados quantitativos, optamos
por analisar os comentário (campo aberto) e classificá-los como: (i) “Vazias”, (ii)
“Opinião favorável”, (iii) “Opinião neutra”, (iv) “Opinião desfavorável” e (v) Dúvidas e
Sugestões.

184
Tabela 69 – Opiniões e comentários da amostra brasileira

Rótulos de Linha QTD % Índice A1 Índice A2 Índice A3


(Vazias) 732 69% 4,2 2,7 4,3
Opinião Favorável 135 13% 4,3 2,7 4,4
Opinião Neutra 129 12% 4,1 2,6 4,1
Opinião Desfavorável 15 1% 2,4 2,6 2,8
Dúvidas e Sugestões 44 4% 4,3 3,0 4,4
Total Geral 1.055 100% 4,2 2,7 4,3
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Optamos por analisar separadamente os comentários favoráveis e


desfavoráveis, tanto da amostra brasileira, quanto da amostra americana e chegamos
nos seguintes resultados, conforme tabela 69 e 70.

Tabela 70 – Opiniões e comentários da amostra americana

Rótulos de Linha QTD % Índice A1 Índice A2 Índice A3


(Vazias) 146 81% 4,6 3,0 4,6
Opinião Favorável 7 4% 4,6 2,9 4,5
Opinião Neutra 14 8% 4,2 2,9 4,1
Opinião Desfavorável 4 2% 2,6 2,8 2,7
Dúvidas e Sugestões 9 5% 4,7 3,3 4,7
Total Geral 180 100% 4,5 3,0 4,5
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Para adentrar esse conteúdo utilizamos a ferramenta wordcloud, também


conhecida como “nuvem de palavras”, pois ela possibilita criar um gráfico digital que
mostra o grau de frequência das palavras em um texto, facilitando a análise do
conteúdo.

Figura 16 – Wordcloud – Comentários Favoráveis Brasil

Fonte: www.wordclouds.com

185
Podemos perceber que as palavras mais frequentes nos comentários dos
brasileiros foram: “ser”, “orientação”, “sexual”, “amor”, “crianças”, “pais”, “filhos”,
“pessoas”, “sociedade”, “família”, “homossexuais”, “preconceito” e “casais”. De
maneira geral, esses comentários trazem o amor como o ponto fundamental, tanto
para o desenvolvimento dos filhos, quanto para a inserção das famílias homoparentais
na sociedade brasileira. Essas pessoas apoiam, tanto o casamento homoafetivo,
quanto o cuidado de crianças por famílias homoparentais.
Já no contexto americano, tivemos a maior frequência das palavras: “pais”,
“bom”, “pensar”, “gay”, “orientação”, “família”, “crianças”, “histórias”, “mentiras”,
“discriminação”, “mitos”, “mal” e “pessoas”43. De maneira geral, essas palavras
convocam a reflexão acerca da aceitação de pais homoafetivos nos cuidados de
crianças, além de descordarem de qualquer tipo de discriminação por causa de
orientação sexual.

Figura 17 – Wordcloud – Comentários Favoráveis EUA

Fonte: www.wordclouds.com

Fizemos o mesmo processo de análise de conteúdo nos comentários


desfavoráveis, tanto do contexto brasileiro, quanto do contexto americano.

43
Tradução feita pelo autor.

186
Figura 18 – Wordcloud – Desfavoráveis no Brasil

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

O mais interessante é que nos comentários “desfavoráveis” do Brasil, as


palavras que mais ressaltaram foram: “mulher”, “homossexual”, “homem”,
“sociedade”, “ser”, “normal”, “criança” e “casal”.
Lendo essas palavras podemos pensar acerca das relações assimétricas de
poder e na atribuição de papéis fixos (heteronorma), além das relações de
desigualdade de gênero. Para esse público, os cuidados de crianças ainda é um papel
predominantemente das mulheres, reiterando o “mito do amor materno”. A família
deve ser tradicional, ou seja, composta por homem, mulher e filhos.
Esses dados traduzem a expressão de parte da sociedade, que reproduzem
a homofobia e atuam para a continuidade de um modelo heteronormativo, excluindo
assim quaisquer outras possibilidades de ser família.
Já no contexto americano, obtivemos a maior frequência das palavras: “gay”,
“lésbica”, “crianças”, “pais”, “amigos”, “pensar”, “casais”, “família”, “direitos”
e “desconfortável”.

187
Figura 19 – Wordcloud –Desfavoráveis nos EUA

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

A sociedade americana também tem a representação do preconceito e da


discriminação para com as famílias homoparentais. Ainda se carrega o estigma de
que gays não podem cuidar de crianças, além de demonstrarem um certo receio
dessas se tornarem homossexuais.

5.2 Procedimentos - Análise Qualitativa

Para a análise dos dados qualitativos, percorreu-se um conjunto de passos


subsequentes, para maior consistência e padronização da análise. Esta pesquisa
fundamentada nos dados tem, por objetivo, ir além da descrição de fatos e gerar /
descobrir uma explicação teórica unificada. Para que esse procedimento
metodológico ocorra de forma satisfatória:

Todos os participantes do estudo devem ter experimentado o processo e o


desenvolvimento da teoria pode ajudar a explicar a prática ou fornecer uma
estrutura para aprofundamento da pesquisa. Uma ideia-chave é que este
desenvolvimento da teoria vem “padronizado, mas é gerado ou
“fundamentado” em dados dos participantes que experimentaram o processo.
[...] o investigador gera uma explicação geral (uma teoria) de um processo,
uma ação ou uma interação moldada pelas visões de um grande número de
participantes (CRESWELL, 2014, p. 77).

Conforme explicitado anteriormente, a coleta de dados qualitativos foi dividida


em duas etapas, sendo a primeira composta pelas entrevistas estruturadas e a
segunda pelas entrevistas abertas, conforme tabela 71.

188
Tabela 71 – Quantidade de dados qualitativos
Tipo de entrevista Brasil EUA Total
Entrevista estruturada 7 7 14
Entrevista aberta 4 2 6
Total 11 9 20
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Diante do cenário vivido na coleta dos dados qualitativos, trabalhou-se em


duas etapas distintas, com três importantes recortes, sendo: (i) o universo, (ii) o corpus
e (iii) a amostra que sustentaram a análise. Cada um dos recortes foi objeto de análise
específica e direta.
A primeira etapa da caracterização geral da amostra qualitativa, organizou-se
em torno da descrição do universo em contexto nacional e internacional. Foram
selecionadas 14 famílias homoparentais, todas com filho(s), sendo 7 do contexto
internacional44 (50%) e 7 do contexto nacional (50%).
Conforme apresentado anteriormente, o questionário estruturado foi
composto por cinco perguntas45. As respostas abertas passaram por processos de
codificação, agrupamento e reagrupamento, que geraram eixos temáticos extraídos
das respostas abertas.

Quadro 13: Tema central e eixos temáticos

Tema Central Eixos Temáticos


Vínculo afetivo, legislação e
Casamento
dinâmica familiar
Vivência de discriminação,
Discriminação / preconceito social
preconceito e localidade.
Desenvolvimento emocional da
Orientação sexual dos pais e
criança, sexualidade e
desenvolvimento dos filhos(as)
discriminação e preconceito.
Marca da diferença, cuidado e
compromisso, diferenciação
Cuidados / educação dos filhos
comparativa, exemplos familiares
e superioridade.
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

44
Famílias homoparentais americanas.
45
Como a quinta pergunta estava direcionada para os filhos (O que significa família para você?) e não
houve autorização dos pais americanos ao acesso dos filhos, as respostas não constam na análise.

189
5.2.1 Você considera que o casamento gay é igual aos demais? Por quê?

Na análise dos dados desta pergunta, obteve-se 100% do número de


respondentes que concordaram que o casamento homoafetivo é igual aos demais
casamentos, tanto nos Estados Unidos, quanto no Brasil.
Do universo de participantes da pesquisa, 57% dos brasileiros e 71% dos
americanos se referiram ao vínculo afetivo nos casamentos como expressão da
igualdade. Em ambos os contextos, nacional e internacional, os respondentes
apontaram o casamento como sendo algo relacionado ao afeto e não como instituição
social e sagrada, neste sentido, o que vale é a necessidade do afeto.
Diferentemente do contexto americano, que não mencionou a questão, no
contexto nacional, 43% dos brasileiros se referiram às questões legislativas como
expressão da igualdade no casamento (29%) e como expressão da diferença (14%).
A dinâmica familiar foi mencionada por 57% dos respondentes (43% de
brasileiros e 14% de americanos). Dos 43%, 14% atribuíram diferenças associadas à
divisão de tarefas domésticas. Já 29% dos brasileiros e 14% dos americanos
apontaram que não há essas diferenças.
Embora 100% dos respondentes considerem que o casamento gay é igual
aos demais, 43% apontaram o preconceito e a discriminação como fator de
diferença de tratamento, por parte da sociedade.

5.2.2 A sua família já sofreu algum preconceito / discriminação vindo da sociedade?

A resposta foi negativa para 64% dos participantes, sendo (5 brasileiros e 4


americanos) e positiva para 29% (2 brasileiros e 2 americanos). Ocorreu
inconsistência na resposta de uma entrevista.
Parte das famílias brasileiras (29%) relatam alguma vivência de
discriminação / preconceito sofrido através de seus filhos por conta da
homoparentalidade. Além disso, (43% dos brasileiros e 43% dos americanos) relatam
que não vivenciam experiências discriminatórias e preconceituosas por causa do local
onde vivem.

190
5.2.3 Na sua experiência você considera que a orientação sexual dos pais afeta o
desenvolvimento emocional da criança?

Do universo de participantes, obteve-se 100% de respostas afirmando que


não consideram a orientação dos pais como algo que afete o desenvolvimento
emocional da criança. Porém, temos 2 americanos (14%) e 2 brasileiros (14%) que
consideram haver maior abertura para discussão do tema sexualidade dentro de
famílias homoparentais. Para 21% dos brasileiros, as crianças (filhos / as) sofrem
preconceito e discriminação por serem filhos de casais homoafetivos. Além disso,
tivemos 36% dos participantes (80% brasileiros e 20% americanos) que alegam que
não há correlação entre orientação sexual dos pais com a orientação sexual dos filhos.
Para 43% dos americanos entrevistados, o vínculo emocional é mais
importante para o desenvolvimento da criança do que qualquer outro aspecto.

5.2.4 Você faz alguma coisa diferente em relação aos cuidados / educação dos seus
filhos(as)?

Considerando que 57% dos participantes responderam que não fazem nada
de diferente no cuidado de seus filhos(as) (25% brasileiros e 75% de americanos), e
que 43% apontaram diferenças no cuidado para com seus filhos(as), sendo (83%
brasileiros e 17% americanos), pudemos perceber que há uma significativa diferença
na compreensão de fazer algo diferente ou não nos cuidados / educação de seus
filhos(as). Para os americanos não existe a necessidade de se fazer algo diferente, o
que corroboraria com a marca da diferença que querem evitar. Já, para os
brasileiros, ressaltar a diferença nos cuidados para com os seus filhos(as) denota
maior cuidado e compromisso com o desenvolvimento dos mesmos. Essa
diferenciação para os brasileiros está associada (71%) à abertura que estes pais
possuem para tratar de temas complexos. Além disso, (43%) apontam alguma
diferenciação comparativa aos cuidados praticados por famílias heteroparentais.
Muitos dos respondentes americanos (43%) trouxeram seus exemplos
familiares como referência para um bom cuidado / educação de seus filhos(s).
Ponto que chamou atenção é que a marca da diferenciação no cuidado /
educação, apontada pelos brasileiros, traz consigo um viés de superioridade,
demonstrado em falas como essas:
191
[...] o que eu acho que a gente faz é justamente ter um diálogo,
nossa família é pautada na conversa. Eu acho que, em muitas
famílias, a conversa é pautada na proibição no “isso pode e isso
não pode” e eu acho que eu sempre construí com a minha filha
o conceito de ação e reação e que a vida é feita de escolhas e
resultados, então eu acho que é o que eu fiz de diferente [...] sic

[...] a gente cria com a cabeça mais aberta porque, para eles, a
família homoafetiva é coisa do cotidiano. Talvez isso seja mais
diferente... mas para eles é uma coisa mais natural. Nas famílias
heteros, os pais não falam sobre as famílias homoafetivas e no
nosso caso eles conhecem ambas famílias.” sic

Baseado nos dados preliminares do estudo, pudemos compreender a


emersão de dados específicos apontados pelos participantes. Estes colaboraram para
a continuidade de coleta de dados, através de entrevistas abertas com profundidade.
Adentraremos, abaixo, ao passo a passo da teoria fundamentada nos dados
e apresentaremos seus respectivos procedimentos de análise.

5.3 A teoria fundamentada nos dados (Grounded Theory)

Sabemos que a Grounded Theory tem por objetivo descobrir uma teoria a fim
de traçar uma explicação teórica unificada. Para melhor compreendermos esses
procedimentos metodológicos, faz-se necessário compreender a perspectiva história
desta teoria e seus fundamentos.

5.3.1 Compreendendo a perspectiva histórica da Grounded Theory

A Grounded Theory foi desenvolvida, originalmente, pelos sociólogos Barney


Glaser e Anselm Strauss, entre os anos de 1965 e 1967. Os pesquisadores
desenvolveram esse método de forma prática em pesquisas desenvolvidas nos
Estados Unidos. Glaser e Strauss e o time de pesquisadores observaram como alguns
profissionais de hospitais americanos e os seus respectivos pacientes terminais
manejavam diversas notícias acerca da morte. Os pesquisadores começaram a

192
analisar os dados explicitados, construir teorias analíticas acerca da organização
social e ordem temporal das mortes. Eles exploraram as análises feitas através de
longas conversas e trocavam as anotações que cada um havia feito sobre as
observações do campo de pesquisa. Conforme iam construindo categorias analíticas
acerca da morte, desenvolviam sistematicamente estratégias metodológicas para que
os cientistas sociais pudessem adotar em outros tópicos da pesquisa (CHARMAZ,
2006).
Glaser e Strauss escreveram o livro “The Discovery of Grounded Theory –
1967”, promovendo profundas modificações no modo de se fazer pesquisa,
principalmente nas ciências humanas e sociais, sendo até hoje considerada referência
metodológica qualitativa. Apesar de ser uma publicação altamente citada nos
trabalhos acadêmicos que optam por essa metodologia, houve falhas importantes na
articulação e posicionamento ontológico e epistemológico, trazendo contradições
consideráveis46.
Após longo tempo de trabalho conjunto, Glaser e Strauss apresentaram
divergências teóricas e passaram a publicar com outros pesquisadores. Ficou
evidenciado que o posicionamento da GT de Glaser trouxe maior ênfase positivista,
enquanto a GT de Strauss se apresentou como pragmática. Glaser continuou
defendendo os princípios originais da GT, focando na ideia central de “descoberta da
teoria pelo investigador”. Este investigador é o responsável por identificar os conceitos
centrais e suas relações o que propiciará a emersão natural dos dados.
Apesar dessa ruptura, tenho para mim que as obras posteriores tanto de
Glaser, quanto de Strauss possuem a mesma base filosófica e, apesar dos diferentes
caminhos percorridos e da construção de diferentes nomenclaturas, possuem a
mesma teoria fundamentada nos dados.

5.3.2 A escolha da Grounded Theory

Confesso que, quando me deparei com a possibilidade da utilização da GT,


me assustei um pouco, principalmente pelo contato com o desconhecido. Eu e minha
orientadora passamos muitas horas discutindo acerca da metodologia escolhida e,

46
Para o aprofundamento detalhado destes pontos de inconsistência, veja Thomas e James (2006)
em: “Reinventing Grounded Theory: some questions about theory, ground and discovery”

193
apesar de saber que a utilização de uma metodologia mista associada a uma teoria
desconhecida seria algo desafiador, eu topei o desafio.
A escolha pela GT deu-se tendo em vista o número reduzido de pesquisas
brasileiras acerca do tema e a incipiência dos estudos acerca da questão
homoparental. A GT é um método geral de análise comparativa e um conjunto de
procedimentos capazes de gerar (sistematicamente) uma teoria fundada nos dados.
Este método de pesquisa facilita tanto a construção de um discurso global acerca do
objeto de pesquisa, quanto procedimentos que facilitam o trabalho e análise dos
dados. Este método de pesquisa surgiu após instaurada a crise da “pesquisa
qualitativa” nos anos 1970 e 1980, decorrente da falta de procedimentos formais e
sistematizados (TAROZZI, 2011).
A utilização da GT depende exclusivamente da postura do pesquisador que
se relaciona diretamente com o objeto de estudo (realidade social), a fim de
compreender os conteúdos que são emergidos nesta relação. A GT reforça a
importância da íntima ligação entre pesquisa empírica e teórica e se caracteriza pela
união da teoria e da realidade empírica.
O tipo de teoria produzida com essa abordagem tem uma sólida base
empírica, isto é, extraída a partir dos dados. O conceito intraduzível de Grounded, que
apresenta inúmeros significados: enraizado, embasado, encravado, firme à terra, etc.
é fundamentada em dados e, além disso, baseia-se no contato do pesquisador frente
ao objeto estudado.
A peculiaridade da GT, mesmo partindo da linguagem e dos significados, é,
contrariamente, a de buscar regularidade de tipo conceitual entre os fenômenos
analisados. Portanto, seus êxitos fornecem uma interpretação teórica densa e
sistemática do que acontece num certo fenômeno. A GT está apta à exploração, não
de fenômenos estáticos, mas dos processos subjacentes a tais fenômenos e de suas
dinâmicas, percebidas em seus respectivos contextos. A GT tem por finalidade fazer
emergir os processos sociais e psicológicos de base sobre um objeto estudado
(TAROZZI, 2007).
Construir uma teoria usando a GT é uma tarefa que convoca o pesquisador
para uma postura desprendida, pois não há espaço para um posicionamento de
especialista e dono do saber, já que são os dados que falam por si só e que apontaram
os caminhos percorridos. Fui convocado para ter alto cuidado na interpretação dos
fenômenos apontados pelos dados da pesquisa, pois sabia que poderia cair em
194
ciladas teóricas e metodológicas, visto todas as mudanças ocorridas no caminho da
pesquisa.

5.3.3 A análise dos dados na Grounded Theory

A análise de dados em GT é um processo de identificação de temas e


conceitos que se apresentam no conteúdo coletado acerca do objeto de pesquisa. O
pesquisador faz tentativas para a construção sistemática sobre o conteúdo emergido
e gravado. Segundo Ezzy (2002), esta etapa de pesquisa é complexa e exige uma
estrutura que gira ao redor de três momentos de codificação dos dados, sendo:
codificação inicial; organização da codificação e utilização de softwares e codificação
focalizada.
O processo de construção teórica constitui-se de um processo contínuo e
simultâneo de coleta de dados, análise desses dados, reconfiguração de coleta de
dados (quando necessário), para posterior análise novamente dos dados. É um
processo flexível, dialético e só cessa quando o pesquisador compreende que atingiu
seus objetivos de pesquisa. As técnicas básicas para análise dos dados são:

Quadro 14 – Técnicas para análise dos dados


Codificação aberta Open coding
Codificação por eixos Axial coding
Codificação seletiva Selective coding
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

5.3.3.1 O interacionismo simbólico na análise dos dados qualitativos

Os seres humanos são seres simbólicos que produzem sua própria cultura e
interpretam a própria história através desses símbolos. Nesta metodologia, ocorre
uma centralização sobre os processos de atribuição de significados, já que
pesquisador interpreta e reinterpreta as ideias e os significados atribuídos ao mundo
individual e suas interações sociais. Existe uma centralidade na linguagem já que esta
constrói os significados individuais, sociais e sua manifestação na ação (TAROZZI,
2007).

195
O autor reforça a importância de compreender o interacionismo simbólico e
as redes de significado que caracterizam o mundo social.

A atenção heurística não acontece sobre fenômenos estáticos, mas sobre


sua constante evolução, seus processos de transformação, seus
mecanismos (que nunca são rígidos nem estruturais, mas construídos na
interação), os quais regulamentam o desenvolvimento e a mudança dos
fenômenos (TAROZZI, 2007, p. 36-37).

Desta forma, o interacionismo simbólico busca elementos que estão ocultos


nas redes de significados, das mudanças, vivências e da teia de relações
estabelecidas entre sujeitos e sociedade. Para avançarmos na análise dos dados
qualitativos, utilizamos o passo a passo recomendado nas referências (CRESWELL,
2014; GLASSER; STRAUSS, 1967; TAROZZI, 2007). Adiante temos as etapas
recomendadas pelos criadores da GT.
• Codificação Inicial
o Exploração dos dados
o Identificação das categorias de análise
o Código de sentidos, sentimentos e ações
o Geração de metáforas para o conteúdo
o Experimento com as categorias
o Comparação e contraste de eventos, ações e sentimentos
o Quebra de categorias em subcategorias
o Integração de categorias em categorias inclusivas
• Organização da codificação e uso de softwares
o Exploração das categorias
o Análise das relações entre as categorias
o Especificação de condicionais associados às categorias
o Revisão de dados para confirmação das associações das
categorias
o Comparação de categorias com teorias pré-existentes
• Codificação focalizada
o Identificação da categoria central de análise
o Análise das relações entre categoria central com outras
categorias
o Comparação de estrutura de categorias com teorias pré-
existentes
196
o A codificação, em particular, é aquele processo de análise que
se coloca no cruzamento entre os dados coletados e a teoria
produzida que corrobora com estes dados. A codificação é o
conjunto de procedimentos e das técnicas para conceituar os
dados. Codificar é um processo bastante analítico e
interpretativo, o qual elabora os dados empiricamente para
consentir uma interpretação bem ancorada e enraizada nos
dados obtidos ao longo da pesquisa.
Iniciei a análise dos dados logo após o contato com as primeiras famílias
homoparentais americanas, conforme preconiza a Teoria Fundamentada nos Dados,
especialmente para adquirir prática analítica e correlação teórica. O software Nvivo,
um programa especialmente elaborado como recurso auxiliar em pesquisas
qualitativas, foi utilizado, por causa do grande volume de textos transcritos.

Figura 20 – Exemplo de análise utilizando software Nvivo

Fonte: Print de tela do software Nvivo

O processo de análise dos dados se deu ao mesmo tempo que a coleta de


dados, utilizando de processo múltiplo de escutar, analisar, compreender, emergir
dados, levantar hipóteses e voltar ao campo para mais escuta e análise.
Devido à complexidade e novidade da área de estudo, proponho uma
explicação detalhada do passo a passo da análise, para facilitar a compreensão dos
dados encontrados. Vale ressaltar que a tese de Berthoud (2000) forneceu ampla

197
orientação e serviu como uma grande referência para a construção do passo a passo
da pesquisa.
Iniciei o processo de análise, utilizando a exploração dos dados para exercitar
o pensamento analítico. Este processo trouxe alguns desafios, já que em minha
dissertação de mestrado e outros trabalhos acadêmicos comumente utilizei a análise
de conteúdo e outras técnicas de métodos de análise. Comecei a análise dos dados
com as entrevistas estruturadas, analisando as temáticas: casamento homoafetivo,
família e sociedade e o desenvolvimento emocional dos filho(a)s dessas famílias. As
técnicas que mais utilizei foram as de comparação e questionamento para, então,
gradativamente, dominar o processo de abstração de conceitos (construção abstrata),
a partir de códigos (trechos significativos do discurso). No quadro 15 apresento um
exemplo dos exercícios de análise realizados.
O processo de microanálise me deu a oportunidade de construir os
memorandos fundamentais para interpretação e reinterpretação dos dados. Os
“memos” são redigidos pelo pesquisador, quando o mesmo sente a necessidade de
documentar qualquer ideia, dúvida, insight, hipótese ou descoberta durante o
processo de contato com o objeto de estudo e análises. No início da pesquisa registrei
todas as minhas sensações, sentimentos, dúvidas, hipóteses etc. Posteriormente,
comecei a fazer meus registros em colunas ao lado das categorias e sub-categorias
descobertas, além de utilizar o próprio software Nvivo que facilita esse processo.

Figura 21 – Exemplo de “Memos” dentro do software Nvivo

Fonte: Print de tela do software Nvivo

198
Quadro 15 – Exemplo de microanálise

CÓDIGO QUESTIONANDO COMPARANDO

- Diferenças na dinâmica de
- Igualdade no funcionamento das
funcionamento? Sexuais?
"Não há diferenças famílias homoparentais e
Diferenças no compromisso?
entre os casamentos heteroparentais.
Diferenças nos papéis? É bom? É
homoafetivos e - Negação das diferenças na
ruim? Tem os mesmos conflitos?
hétero..." dinâmica de funcionamento das
Tem o mesmo investimento
famílias homoparentais.
emocional?
- Compromisso com a relação;
compromisso com o parceiro;
- Compromisso com a relação?
compromisso com os sentimentos
"Casamento tem a Compromisso com a construção de
envolvidos;
ver com família? Compromisso com a
- Compromisso social,
compromisso" oficialização? Compromisso dentro
compromisso com o que a
da relação ou fora? com o social?
sociedade espera, compromisso
com a heteronorma.
- Dinâmica homoafetiva igual
- Igualdade de direitos? Igual no dinâmica hétero, igual na divisão de
funcionamento familiar? Igual nos papéis, igual na administração dos
"[...] casamento
problemas? Diferente sexualmente? problemas.
homoafetivo é igual."
Diferente nos papéis e - Diferenças são negadas,
funcionamento? diferenças não aparecem,
diferenças geram sofrimento.
- Me sinto igual, me vejo fazendo as
- Qual a implicação do gênero no mesmas coisas, sou igual
casamento homoafetivo? Gênero (independentemente das
"Eu acredito que
pela construção social? Gênero diferenças).
somente o gênero
pelos papéis atribuídos a ele? - Não sou igual, mas me vejo assim,
que é diferente..."
Gênero pelas questões sexuais? não correspondo ao "esperado" do
Gênero pela heteronorma? gênero, temos formas de viver
gênero diferente.
- Não temos vivências de
- Não sofre? Sofre mais nega? Não preconceito, somos aceitos pelo
"Nossa família não
sofre por que se isola? É meio social, circulamos em lugares
sofre preconceitos
discriminada, mas evita contato? de aceitação.
ou discriminação."
Foge das possibilidades de sofrer? - Sofremos preconceito mas
negamos, tentamos parecer com as

199
famílias héteroparentais, somos
discriminados pelas diferenças.
- Recebemos suporte emocional de
familiares; temos apoio da família,
- Suporte emocional? Suporte
Nossas famílias nos todos compreendem nosso
financeiro? Suporte é igual afeto?
dá muito suporte funcionamento familiar;
Suporte consiste na compreensão
para sermos pais..." - Família dá suporte para não sofrer
das diferenças? O que é suporte?
discriminação, o suporte vem para
amenizar os receios etc.
- Sofremos preconceito, sofremos
- Que pessoas? Comuns?
discriminação, somos diferentes.
"Pessoas olham Curiosidade ou preconceito? O
- Pessoas querem compreender
para a gente com olhar é a representação da
nossa forma, pessoas querem saber
curiosidade." diferença? O que querem saber? O
mais, olhares querem dar apoio e
que desperta curiosidade?
incentivo.
- Naturalização ameniza
- O que significa natural? Única dificuldades, naturalização para
"Adoção é algo possibilidade? Natural para comparar-se com o "normalização".
natural nas famílias minimizar preconceito? - Adoção não é algo natural,
homoafetivas." Comparação com as demais? Por adoção traz problemas e
que comparar? dificuldades, adoção é a única
possibilidade que temos.
- Mostrar o preconceito? As
- Preparação para as dificuldades,
diferenças sociais? Mostrar dentro e
"Tento mostrar para mostrar aspectos positivos e
fora da família? O mundo sob a ótica
meu filho o mundo negativos.
deste pai? O mundo das famílias
como ele é." - Superproteção, minimização das
homoparentais? As diferenças? A
diferenças.
heteronorma?
- Facilidade para mudar,
- Mudanças? Construção da
"A gente vive em necessidade de adaptação,
família? Personalidade? Adaptação
uma constante transformação.
ao meio? Construção boa? Má? Por
construção." - Dificuldades geram coisas novas,
quê?
preconceito convoca para construir.
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

200
5.3.4 Codificação dos dados

A próxima etapa do processo de análise inicia-se com o processo de


codificação aberta ou (open coding) – (Straus e Corbin, 1998; Glaser, 1978, Tarozzi,
2007), que consiste em analisar todo o texto, parágrafo por parágrafo, linha por linha,
codificando os discursos, ou seja, extratos de discursos que consideramos relevantes
para o processo de análise da pesquisa. Nesta etapa da pesquisa, a identificação de
códigos emergidos das narrativas transcritas, são destacadas do texto, por serem
consideradas relevantes para a pesquisa. No decorrer da análise, ampliei a
compreensão de conceitos e ou categorias específicas para gerar uma codificação
diferenciada. Nesta etapa, por meio da microanálise, as categorias específicas são
codificadas e transformadas em conceitos que, segundo Strauss e Corbin (1998), são
definidos por “...tijolos fundamentais para a construção da teoria”. Conceitos são
constructos abstratos, que geralmente são elaborados pelo pesquisador, a fim de
representar o significado e significante do que foi emergido e encontrado na análise
textual. A seguir, apresentarei exemplos de dois extratos de textos codificados, sendo
um com a utilização do software Nvivo e o outro, manualmente. A organização manual
depende das características do pesquisador que ficam impressas na organização de
seus dados. Já, na utilização do software Nvivo, há um formato padrão, e tanto os
memos47, quanto as teorias e conceitos comentados pelo pesquisador, ficam
separados para serem consultados a qualquer momento.

Quadro 16 – Exemplos de textos codificados


F: “[...] depois de alguns anos ela aceitou. Começou a visitar a gente aqui... Deu ultra certo.
Ela entendeu que um casal gay dava para ser algo estável [...]”
#HOMOPARENTALIDADE
F2: “[...] é legal, mas não é o que a gente procurava (adotar uma criança grande).”
#PRECONCEITO / DISCRIMINAÇÃO
F3: “A gente viajava muito, curtia muito a vida, íamos em muitos restaurantes.”
#VIDA ANTES DOS FILHOS
F4: “Não é algo que você espera com ansiedade porque você não sabe quando vai vir”
#DECISÃO DE TER FILHOS

47
Memos = memorandos que são escritos pelo pesquisador durante o processo de pesquisa e análise
de dados coletados.

201
F5: “...eles ligaram, eu estava no Banco, e aí recebi o contato da assistente social. Fiquei em
pânico”
#CHEGADA DA NOTÍCIA
F6: “Na verdade a gente não tinha pensado, é... em todas essas escolhas que você tem que
fazer”
#ADOÇÃO
F7: “Não sou uma mãe assim... uma fibra maternal, eu tenho um pouquinho. É tipo, você
aguenta tudo...”
#VIDA PÓS CHEGADA DOS FILHOS
F8: “A sua infância vem toda à tona...”
#PATERNIDADE
F9: A gente tem papel materno e paterno, mas a gente tem o trabalho de desconstruir isso no
cotidiano.
#PAPÉIS PARENTAIS / GÊNERO
F10: “A P. é igual... Quando fez três anos, ai ela se sentiu em casa...”
#DESENVOLVIMENTO FILHOS(AS)
F11: “É uma escola ultra colaborativa. Por exemplo nos dias das mães... Eles transformaram
o dia das mães no dia do amor incondicional e a gente também tem presente...”
#ESCOLA
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Quadro 17 – Exemplos de textos codificados

TEXTO CÓDIGOS MEMOS CONCEITOS


Depois de alguns anos Pode significar:
ela aceitou. Começou a desmistificar, ser aceito,
visitar a gente aqui e deu quebrar o preconceito,
ultra certo, ela entendeu
receber o reconhecimento
que família gay dava
de ser uma família, ser
para ser algo estável, *FAMÍLIA ESTÁVEL
compreendido, ser olhado *HOMOPARENTALIDADE
que não (in vivo)
necessariamente é o enquanto família,
estereótipo. reconhecimento do desejo
de querer uma família,
quebra da noção de família
tradicional e nuclear.
[...] não é o que a gente Pode significar: medo da
procurava (adotar uma continuidade do sofrimento,
criança grande). Talvez medo de preconceito e *PRECONCEITO E
*CASAL DIFERENTE
pudesse dar certo. DISCRIMINAÇAO
(in vivo) discriminação, desconstruir
Mas adotar uma criança INTERNALIZADA
a família idealizada, medo
maior, impor para ela
de rejeição, dualidade na
uma mudança com

202
problemas de língua, de decisão, tentativa de
cultura etc... Pensamos minimizar a diferença
também, mas internalizada.
erroneamente
pensamos, somos um
casal diferente não
vamos multiplicar as
dificuldades.
A gente viajava muito, Pode significar: mudanças
curtia muito a vida, significativas com a chegada
íamos muito em dos filhos, desprazer,
restaurantes.
dificuldades, saudades da
Aqueles lugares que *CURTIR A VIDA *VIDA ANTES DOS
liberdade que havia antes da
você esquece depois (in vivo) FILHOS
chegada dos filhos.
dos filhos. Aquelas
coisas que a gente não Mudanças advindas com a
tem mais. paternidade.

E aí a coisa começou a Pode significar: relação


se concretizar, aí a coisa entre o real e o imaginário de
tomou corpo. Porque até se ter filho? Recursos
então, tudo é muito
internos para lidar com a
subjetivo mesmo você
chegada dos filhos? *DECISÃO DE TER
falando: “estou em uma
*CONCRETIZAR Negação diante da espera? FILHOS
fila de adoção”, não tem
(in vivo) *ESPERA DO
uma ordem, não tem
FILHO(A)
uma sequência lógica
não é algo que é até tal
período chega, então
você vai tocando a sua
vida...
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Nesta fase de análise, li, reli os textos inúmeras vezes, buscando novas
categorias (códigos) e construindo conceitos a fim de encontrar um texto estruturado
e bem explorado. É um processo fragmentado e que exige a extração de pequenos
incidentes apresentadas nas falas para que estes se transformem em conceitos.
Depois de codificar uma série de trechos, iniciei o processo de organização de
categorias.

203
5.3.5 Construindo categorias

A axial coding (codificação por eixos) é um processo que deve ocorrer


simultaneamente com a codificação aberta, tendo início com a descoberta de
conceitos que possam ser agrupados sob algum critério. Nesta etapa, percebi alguns
eixos que foram se construindo a partir da análise do tamanho de cada categoria.

Figura 22 – Exemplo de mapa de eixos (NVIVO)

Fonte: Print de tela do software Nvivo

Para facilitar a análise de cada um dos eixos que defini, separei as


codificações dos grupos que compunham cada uma delas, para que cada eixo
pudesse ser considerado como um projeto único de análise. À medida que a análise
foi progredindo, pude obter novas comparações e novos registros (memos).
Nesta fase do processo de análise, meu objetivo principal foi o de encontrar
propriedades e dimensões das categorias e subcategorias, agrupando os conceitos
por similaridades.
Nesse momento do processo de identificação e construção das categorias
existe um trabalho árduo e complexo. Por muitas vezes me senti sozinho e perdido e,

204
nesses momentos, foi necessário convidar colegas para discutir minhas dúvidas e
angústias. Por muitas vezes tive que dar uma pausa, respirar e retomar dias depois.
Nessas pausas, muito dos conteúdos adentravam a minha mente e me faziam refletir
acerca dos significados, auxiliando no processo de emersão dos dados.

Quadro 18 – Exemplo de construção de categorias


EIXOS CÓDIGOS
Família e sociedade família extensa; preconceito; discriminação; sociedade
adoção; abrigos; aparatos legais, agências de adoção,
Adoção processo de adoção, preenchimento do cadastro de
adoção; da decisão der ter filhos.
Vida do casal casamento; vida antes dos filhos(as); trabalho.
homoparentalidade; papéis parentais, paternidade,
Paternidade homoafetiva
discussão de gênero.
Educação dos filhos(as) escola
Desenvolvimento dos crianças; desenvolvimento das crianças; relacionamento
filhos(as) conjugal, vida após chegada dos filhos(as).
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

É importante ressaltar que, com exceção dos códigos (in vivo) – que são
aqueles que literalmente adotamos do discurso dos participantes da pesquisa, todos
os outros são construções do pesquisador, que se utiliza então de pensamentos,
reflexões, experiência, referencial teórico, sensibilidade e intuição para adotar termos
que traduzam o significado dos símbolos, sentimentos e ações que foram
representadas nas entrevistas. Além disso, os termos que designam as subcategorias
e categorias são construídos pelo pesquisador, através de questionamentos, a fim de
formular os dados, tais como: “O que significa isso?”, “O que está acontecendo?”,
“O que está sendo representado aqui?”, “O que significa isso
simbolicamente?”, a fim de tentar obter respostas através de termos que possuam
força conotativa e denotativa.

5.3.6 Codificando seletivamente

A selective coding (codificação seletiva) é, provavelmente, o processo mais


complexo e determinante da construção de uma teoria fundamentada nos dados. Essa
etapa consiste em descobrir a categoria central (núcleo do fenômeno que está sendo

205
investigado) e relacioná-lo sistematicamente às outras categorias já apontadas
anteriormente e densificar as que precisam de ajustes. Como recursos, pesquisador
pode utilizar da construção de histórias, diagramas e da matriz.
A descoberta da categoria central, que denominei: FAMÍLIAS CAMALEÃO –
ADAPTAÇÕES, MUDANÇAS E DESAFIOS DA HOMOPARENTALIDADE, foi um dos
maiores insights que tive durante a realização desta tese. Ocorreu durante um
processo denso de análise e reflexões sobre todas as narrativas, meu contato com as
famílias, além da minha própria experiência e análise do tema.
Após muitas reflexões e uma releitura do texto teórico, dos dados
quantitativos, do resultado das entrevistas estruturadas e da análise das entrevistas
abertas (profundidade), pude compreender três estágios importantes da parentalidade
homoafetiva. Falaremos sobre esses estágios adiante.

206
6. FAMÍLIAS CAMALEÃO: ADAPTAÇÕES, MUDANÇAS E DESAFIOS DA
HOMOPARENTALIDADE

A jornada que percorri lendo, elaborando, coletando dados, analisando-os,


voltando aos dados e buscando novas formas de interagir, interpretar e reinterpretar
permitiu-me construir um conhecimento sobre a vivência da homoparentalidade, o que
resultou na construção de uma teoria fundamentada nos dados e que denominei:
FAMÍLIAS CAMALEÃO: ADAPTAÇÕES, MUDANÇAS E DESAFIOS DA
HOMOPARENTALIDADE. O processo de análise considerou os dados da pesquisa
quantitativa nos Estados Unidos e no Brasil e também das informações coletadas nas
entrevistas americanas e nas entrevistas brasileiras – processo recomendado em
pesquisas mistas.
Compreendo que as relações homoafetivas ainda utilizam como parâmetro
muitos dos modelos heteronormativos e heteroparentais e estes trazem uma série de
implicações, tanto no funcionamento dinâmico, quanto nas vivências experimentadas
por essas famílias. Escolhi nomear essas famílias como famílias do tipo
“camaleão”48, porque, no interacionismo simbólico entre as famílias homoparentais
e a sociedade, elas vivenciam constantes mudanças, adaptações e desafios impostos
pela homofobia, pelo preconceito de dentro e fora de casa, pela discriminação no
trabalho, na escola e em outros espaços de interação social. Para facilitar a
compreensão desse funcionamento, construí o que chamei de Ciclo de Vida das
Famílias Camaleão. Este é um processo múltiplo e dinâmico que conceituo como um
conjunto de experiências psicológicas, inter-relacionadas, vivenciadas por famílias
homoparentais ao longo da vida, caracterizado por estágios e fases que requerem
adaptações, mudanças e desafios constantes. Em um primeiro momento, a minha
associação ocorreu porque estava pensando sobre a bandeira do arco íris49 - símbolo
do movimento LGBT em todo o mundo e, posteriormente, associei aos processos de
adaptação e mudanças que as famílias participantes da pesquisa haviam descrito

48
A analogia com o camaleão se deu na minha observação e contato com as famílias homoparentais
e a constante necessidade de se defender, de mudar, de se adaptar e dos inúmeros desafios dessas
famílias.
49
Gilbert Baker construiu, originalmente, uma bandeira com oito cores, em 1978, exclusivamente para
o dia da Liberdade Gay de São Francisco – Califórnia (EUA). Falando sobre sua criação, Baker disse
que queria transmitir a ideia de diversidade e inclusão, usando algo da natureza para reforçar o direito
à sexualidade. Disponível em: <http://www.bbc.com/portuguese/internacional-39466677> Acesso em
15 de novembro de 2017

207
acerca de suas experiências. Ao pesquisar sobre o funcionamento dos camaleões,
constatei que algumas espécies são capazes de alterar a coloração de sua pele e
essas alterações têm predominantemente a função de fazer uma sinalização social.
Além disso, temos outros fenômenos que são responsáveis pelas mudanças na
coloração da pele, tais como: luz, temperatura, humor, atacar, intimidar, defender-se,
comunicar-se com os demais, facilitar a caça, entre outros. Ciente das inúmeras
adaptações, mudanças e desafios vividos por essas famílias, ficou evidenciado que
elas também utilizam diversas estratégias para acompanhar as demandas sociais, a
fim de se adaptar e fazer parte do todo.
Os estágios podem ser compreendidos como períodos caracterizados por
processos, adaptações, mudanças, desafios, observados em sequências constatadas
nas vivências dos participantes da pesquisa. Dentro de alguns estágios existem fases
que são compreendidas como processos e que não possuem sequências fixas,
marcadas pela individualidade de experiências, mas que ainda assim trazem
informações importantes. Assim, a homoparentalidade pode ser compreendida como
um processo que se desenvolve pelas experiências práticas das famílias
homoparentais, pelo enfrentamento de inúmeros desafios conjugais, parentais e
sociais, mas que denotam, sobretudo, a coragem e o enfrentamento dessas pessoas.
Além disso, toda análise foi feita baseando-se em pessoas dentro de um sistema, visto
por várias perspectivas e com foco principal nos fenômenos. Sendo assim, estes
fenômenos podem se repetir em outros estágios, principalmente por que estamos
analisando comportamentos humanos e esses são dinâmicos.
Vale ressaltar que não estou interessado em traçar paralelos, comparações e
tampouco utilizar como referência as famílias heteroparentais, visto que, como
indicam Costa, Pereira e Leal (2012), isso, além de influenciar nos resultados da
pesquisa, traria a tentativa de normalização e minimização de eventuais diferenças, o
que acaba comprometendo o conhecimento científico sobre essas famílias.
Ver-se-á adiante três importantes estágios construídos, a partir da análise de
dados desta tese.

208
Figura 23 – Ciclo de Vida - Famílias Camaleão

Ciclo de Vida
2 “Famílias Camaleão”
3 Funções Parentais e
1 Homossexualidade e Homofobia? Desenvolvimento dos Filhos
2 Eu e Você, Você e Eu
Casamento Homoafetivo Paternidade e
desenvolvimento dos
Como lidar com tudo filhos.

CASAMENTO
Devemos casar?
isso? Como? Mas e se...?

FILHO (S)
Será? Mas e nossas
famílias? E nossos
O despertar: como empregos?
conviver com a Ciclo de Vida
homossexualidade e as
questões advindas da (Adaptações, Mudanças e Desafios Constantes) A chegada do(s)
família e da sociedade filho(s) e o
O desenvolvimento O desenvolvimento
cuidado
emocional da relação. emocional dos filhos.
requerido

FAMÍLIA E SOCIEDADE
Interação, influência e implicações da heteronorma no funcionamento dinâmico das
famílias homoparentais.

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

O ciclo de vida das “Famílias Camaleão” é composto por três grandes


estágios, sendo eles: (i) homossexualidade e homofobia, (ii) eu e você, você e eu
(casamento homoafetivo) e (iii) funções parentais e o desenvolvimento dos filhos.
Estes estágios não são excludentes, não apresentam um tempo determinado e foram
construídos a partir das características percebidas no cruzamento dos dados desta
tese. Optei por apresentar os quadros com detalhes das implicações que surgiram no
processo de análise.50 O que importa são os fenômenos encontrados ao longo dessa
pesquisa. Esses estágios não podem ser vistos como lineares, mas sim, como
circulares, ou seja, o mais importante é compreender que apesar de alguns
comportamentos e emoções se repetirem nos diversos estágios, esses fazem parte
de um funcionamento sistêmico.

6.1 Estágio um: Homossexualidade e homofobia

O primeiro estágio, denominado homossexualidade e homofobia, é


caracterizado pela descoberta da homossexualidade, das experiências homofóbicas,
dentro e fora de casa, e das tramas vividas no sofrimento de preconceito e

50
Na leitura do capítulo 6, às vezes, dá a sensação de repetição de comportamentos e fenômenos,
porém, vale ressaltar que esses comportamentos e emoções podem ser vistas em mais de um estágio.

209
discriminação. Porém, nota-se que esses fenômenos homofóbicos, preconceituosos
e discriminatórios perpassam os demais estágios.

Figura 24 – Primeiro Estágio: Homossexualidade e homofobia

Estágio : Homossexualidade e Homofobia


1

Como lidar com


tudo isso?

Ciclo de Vida Visão Futura


Casamento?
(Adaptações, mudanças e desafios) Filhos?

O despertar: como viver com a


homossexualidade e as questões
sociais e familiares?

FAMÍLIA E SOCIEDADE
Interação, influência e implicações
da heteronorma no funcionamento
dinâmico das famílias
homoparentais.

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

O primeiro estágio é composto por cinco fenômenos, conforme o quadro 19.


Os fenômenos, por sua vez, apresentam uma série de processos/categorias
correlacionados e ajudam a compreender o funcionamento dinâmico.

Quadro 19 – Estágio, tema e fenômeno

Estágios Temática Principal Categorias /Fenômenos

1. Buscando novos caminhos com velhas memórias


2. Vivenciando as faces da homofobia internalizada
Primeiro Homossexualidade e
3. Reconhecendo o preconceito que mora lá fora
Estágio Homofobia
4. Oprimir e repetir o opressor
5. Movendo para se afirmar como família
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Tanto a sociedade brasileira, quanto a sociedade americana estão


impregnadas de relações assimétricas de poder, trazendo consigo um nó quando se
pensa a respeito das diferenças e da inclusão de pessoas LGBT’s. Tratar as
diferenças como legítimas tem convocado uma luta constante, seja através do

210
movimento LGBT, seja no cotidiano das famílias homoparentais. A heteronorma
contamina a família homoparental que tem lutado para conseguir a legitimação da
capacidade de dois pais51 cuidarem de uma criança.

Quadro 20 – Fenômeno: Buscando novos caminhos com velhas memórias


Categorias /
Eixo Conceitos Categoria
Fenômeno
Família é sinônimo de heterossexualidade 1. Buscando novos
Família e Padrões
Homem não cuida de criança caminhos com
Sociedade heteronormativos
Preconceito constante de gênero velhas memórias
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

O primeiro fenômeno observado, BUSCANDO NOVOS CAMINHOS COM


VELHAS MEMÓRIAS, pode ser considerado uma das fases desse estágio. Tem início
quando as primeiras manifestações da sexualidade aparecem e os indivíduos
começam a temer o preconceito, dentro e fora de casa. É a fase do início do
endereçamento do afeto a uma pessoa do mesmo sexo e é permeada por conflitos
pelo não enquadramento na heteronorma.
Todos os entrevistados apontaram algum tipo de vivência de preconceito,
dentro ou fora de casa. Os relatos remetem ao que dizem Santos (2004), Prado e
Machado (2008), Souza (2008), Moris (2008), Toledo (2008), Miskolci, (2009), Borrilo,
(2010), Lira (2012), Rosito (2013), Silva (2013), Tombolato (2014), Santos (2016),
Marchi-Costa (2017) e Farias (2017). As inúmeras vivências de preconceito e
discriminação acabam fazendo a manutenção das relações assimétricas de poder e
dando continuidade à subordinação da homoafetividade à heteronorma, seja dentro
ou fora de casa.
A mensagem de que família é sinônimo de heterossexualidade começa dentro
de casa e é internalizada precocemente. Esses indivíduos carregam resquícios desse
modelo e reproduzem uma série de comportamentos que têm seu fundamento em
uma herança heteronormativa. Como se verá adiante, essa internalização se reflete
na dificuldade de aceitação do masculino para com os cuidados de uma criança
(dentro e fora de casa) e a ausência da figura feminina para ocupação do papel dito

51
Vale ressaltar que respeitamos e também lutamos pelas mães lésbicas e pelas mães e pais
transexuais.

211
“materno” (o mito do amor materno), convocando-os ao fantasma do fracasso da
parentalidade.

Quadro 21 – Fenômeno: Vivendo as faces da homofobia internalizada


Categorias /
Eixo Conceitos Categoria
Fenômeno
Família extensa tem preconceito
Mães não aceitam a chegada do neto
Religião prejudica aceitação
Fofocas na família extensa sobre a adoção
Vivenciando o
Relacionamento distante da família
preconceito na
Sexualidade é tabu na família extensa
família de origem
Cobrança de heterossexualidade
Conservadorismo com relação à adoção
Tratamento diferenciado da família com
filhos adotivos
Conflitos dentro de casa
Família extensa conservadora
Definição de homossexualidade como
doença
Família finge aceitação 2. Vivenciando as
Olhando a dura
Família e Família precisa de tempo para aceitação faces da
realidade de
Sociedade Agressão física por parte da família homofobia
dentro de casa
Dificuldade na relação com a mãe internalizada
Não atendimento do desejo dos pais
Evitação do contato familiar
Problemas com consanguinidade
Família acha estranho adotar uma criança
Família extensa ajuda na criação de filhos
Valores compartilhados com companheiro
Percebendo e
Aceitação com a chegada dos filhos
aceitando os laços
Convívio com os avós
necessários
Relação positiva com a sogra
Apoio e suporte do pai
Revelação da homossexualidade à família
extensa Expandindo para a
Aproximação da família extensa família extensa
Quebra do tabu com a família extensa
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

212
O segundo fenômeno denominado VIVENCIANDO AS FACES DA
HOMOFOBIA INTERNALIZADA, traz consigo a homofobia dentro de casa por parte
de pais, mães e irmãos. Além disso, há prevalência da homofobia na família extensa
e, consequentemente, é reproduzida de forma sutil pelas próprias famílias
homoafetivas - como já haviam apontado as pesquisas de Antunes (2016) e Farias
(2017).
Comumente, indivíduos homossexuais ocultam de suas famílias de origem
suas vivências e experiências homoafetivas, a fim de evitar constrangimento e
homofobia. Essa ocultação vai desde os relacionamentos homoafetivos até a decisão
de ter filhos e se inscrever no cadastro nacional de adoção. Muitas vezes não há
espaço para se falar dentro de casa sobre a homossexualidade / homoafetividade, ora
por preconceito e discriminação explícita, ora por tabu.
A categoria denominada VIVENCIANDO O PRECONCEITO NA
FAMÍLIA DE ORIGEM, confirma as diversas experiências homofóbicas, dentro de
casa, e pode ser percebida pelos diversos relatos dos participantes da pesquisa:

“[...] eu preferia ter um filho drogado do que um filho “viado””

“[...] Só que a reação da minha mãe foi... [...] a gente nunca teve
brigas... [...] a reação da minha mãe foi o contrário da briga, ela
se excluiu, ela praticamente, assim, não poderia diagnosticar,
mas ela teve sintomas de depressão, ela se excluiu no quarto,
não saía para nada, ela só saía para fazer almoço porque ela
não trabalhava... Lavava a louça e voltava para o quarto, saía,
fazia janta, lavava louça e voltava para o quarto...”

“[...] Então foi tudo de uma vez: “Sou gay, o G. é meu marido,
vamos ficar junto e vamos ter filhos”, tudo de uma vez.... E aí, à
tarde eu fui na casa deles e minha mãe estava super mal, com
o olho todo inchado, meu pai mal, mas ninguém falou sobre...”

São inúmeras as formas de agressão que obrigam a um processo de


adaptação constante. Isso não é uma regra, porque se sabe que existem famílias de
origem que são amorosas e acolhedoras. Porém, grande parte dos participantes da
pesquisa relatou homofobia explícita, dentro da casa, advindas de suas famílias de

213
origem e é OLHANDO A DURA REALIDADE DENTRO DE CASA que surgem os
dilemas sobre o que fazer. Relatos de agressões físicas, preconceito explícito e
dificuldades de aceitação são problemas enfrentados pelos homossexuais.

“[...] as nossas duas famílias são meio conservadoras... Então o


filho já é gay... Ela demorou um pouquinho para superar... Minha
mãe achava que era uma doença!”

“[...] a cunhada dele é super católica e não aceita...”

“[...] bom, no meu caso, o meu pai nunca aceitou muito, então
ele passou por várias fases... até chegar a uma agressão
física...”

“[...] na fase da minha adolescência, meu pai chegou com a


agressão física; depois que ele viu que não tinha mais jeito, virou
tabu.”

“[...] sempre me tratou com respeito, mas assim com dois metros
de distância, do tipo: “não encoste no meu ombro.”

“[...] é aquela coisa de tia que fica na janela, titi titi. Então no caso
da minha família sempre foi isso...”

“[...] não conversavam e eu assim, sempre me escondendo.”

“[...] “minha casa, minhas regras, isso pode, isso não pode,
vocês estão errados.” Chegar em casa era toda aquela
discussão, aquele dilema, conflito, conflito, conflito...”

As dificuldades vão sendo enfrentadas e são diversas as estratégias para


sobreviver à homofobia dentro de casa. Muitos aguentam até um certo tempo, até que
uma tomada de decisão é convocada internamente.
Característica predominante nessa fase é o enfrentamento da dura realidade
do preconceito e a tomada de decisão, que quase sempre são permeados por
sentimentos de medo e perda de controle diante dos conflitos.

214
“[...] ela percebeu que ela poderia "perder o filho" e aí mudou
meio que da água para o vinho. Ela passou a entender melhor,
passou a falar mais comigo, conversar mais e a princípio eu
achei... [...] eu sempre fui muito família, a gente sempre foi muito
família, de se reunir, de família sempre junta, comer, assistir e
tudo mais e eu sempre gostava da casa cheia e eu pensava:
Nossa, ninguém vai querer ir na minha casa, né?!”

[...] meu tio solta a seguinte frase: "É, a família R. está acabando"
aí minha irmã vira e fala: "Não senhor, o R e a F. são o que?" O
R. é o filho dela e a F é a filha do meu primo, enfim... ela resumiu
aos filhos dela e ao do meu primo. Na hora, apesar de triste,
desceu o demônio em mim, né?! Falei: “e os meus filhos, não
contam? Eles também têm o sobrenome R., eles podem não ter
o sangue dos R, mas o sobrenome é R...”

Elaborados os conflitos dentro de casa e a decisão tomada, seja ela de falar


abertamente, assumir-se homossexual, apresentar o companheiro e, em alguns
casos, apresentar o filho(a), as famílias estão mais propensas a vivenciar o processo
conceituado como PERCEBENDO E ACEITANDO OS LAÇOS NECESSÁRIOS.
Existe um imaginário, por parte da família de origem, de que, pelo fato do filho ser
homossexual, ele será motivo de vergonha externa para a família, além de não poder
constituir família e, assim, atender o desejo dos pais de se tornarem avós, como
aponta o estudo de Marchi-Costa (2017).
Com o tempo, há uma tendência de equilíbrio nas relações da família de
origem com a família homoparental, principalmente com a chegada de uma criança.
Essa convivência traz a diminuição de mitos e fantasias acerca da homoafetividade
como descritos por Santos (2004), Farias e Maia (2009), Farias, (2017) e Marchi-
Costa (2017). Serão discutidas, no estágio 3, as mudanças ocorridas com a chegada
de um filho, tanto na família homoparental quanto na família de origem.

“[...] eu tinha medo do meu pai, mas a aceitação do meu pai foi
incrível, nunca tive nenhum tipo de problema com meu pai.”

215
“[...] nossas famílias eram incrivelmente solidárias. Eu acho que,
no início, eles falavam "por que você está fazendo isso?", "Isso
é estranho", mas nós dois temos famílias que confiam em nós.
Assim, uma vez que ele estava em nossas vidas (filho), isso ficou
inaplicável, não fazia mais sentido. Meus pais moravam aqui
perto e os pais de S. moravam em Montana (EUA), os pais dele
vieram imediatamente e minha mãe estava aqui e, desde o
primeiro dia, ele foi tratado como qualquer um dos outros
netos...”

Superadas as barreiras com a família de origem, é comum o enfrentamento e


a exposição com a família extensa. Chamo esse processo de: EXPANDINDO PARA
A FAMÍLIA EXTENSA. É através do fortalecimento reconquistado com a família de
origem que muitos homossexuais expandem suas relações, podendo expor sua
orientação sexual de forma mais aberta e transparente para os demais familiares.

“[...] na minha família eles sempre souberam, foi aberto para o


núcleo mais próximo e chegou o momento que eu liguei o foda-
se, com o perdão da palavra...”

216
Quadro 22 – Fenômeno: Reconhecendo o preconceito que mora lá fora
Categorias /
Eixo Conceitos Categoria
Fenômeno
Tabu no trabalho Preconceito externo
Dificuldade de aceitação gay com as famílias
Medo do preconceito social homoparentais
Preconceito nas escolas
Dificuldade das escolas com esse
Preconceito externo
tema
com as crianças
Preconceito de outras crianças na
escola
3. Reconhecendo o
Família e Relacionamento escondido
preconceito que
Sociedade Dificuldade de se assumir gay
mora lá fora
Mentiras sobre o parceiro
Preconceito e
Preconceito dentro da empresa
discriminação no
Quebra do preconceito no trabalho
trabalho
Chantagem no trabalho
Diminuição do preconceito pós-
casamento
Trabalho e reconhecimento social Importância do
Assumir-se no trabalho trabalho
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

RECONHECENDO O PRECONCEITO QUE MORA LÁ FORA é o conceito


que define outro fenômeno importante desse estágio: o movimento de reconhecer as
nuances do preconceito fora de casa e se adaptar às diversas situações. Apesar dos
participantes da pesquisa reconhecerem os direitos das pessoas LGBT’s, ainda há
uma certa dificuldade para falar sobre a homossexualidade em diversos grupos
sociais dos quais eles participam, tais como: trabalho, igreja, escola etc. Essa é uma
fase difícil, porque a exclusão fica fazendo ronda e convocando sentimentos de medo
frente às inúmeras possibilidades de rejeição.
Existe um sentimento impregnado de medo e um alerta constante quando se
trata do campo do trabalho, principalmente pela possibilidade de perda de
oportunidades na carreira ou até mesmo de demissão.

“[...] a igreja católica, nós rompemos muito antes da adoção...


nós rompemos totalmente, foi até uma situação de mágoas.
Depois, com o tempo, nós descobrimos a existência das igrejas

217
inclusivas e nós inicialmente... Visitamos uma igreja em São
Paulo, nos afeiçoamos totalmente e somos membros dela até
hoje...”

“[...] no meu trabalho ninguém sabia, então era completamente


tudo escondido...”

“[...] então, aquilo estava me atrapalhando nas minhas relações


de trabalho... O fato de eu não poder falar de mim ou mentir...
Então, ah, eu fui para a China e logo as pessoas perguntaram:
“Mas foi com quem?” E eu: “Sozinho”, mas era mentira...”

“[...] e de uma maneira, o trabalho era a forma de ter o


reconhecimento social, o medo de que aquilo não desse certo
por você ser gay era enorme...”

“[...] por exemplo, eu passei uma situação de trabalho horrível,


pois uma pessoa que sabia da minha sexualidade, usou isso
contra mim... Depois desaparece, porque aí você fala: “pode
falar...”

“Em uma das reuniões no trabalho do meu companheiro,


anunciaram que a United Way estava doando dinheiro para este
grupo da “Catholic Services”, mas como a United Way tinha uma
cláusula de não discriminação, S. contou a nossa história e disse
que a empresa não deveria doar dinheiro para esse grupo.
Então o cara responsável pela Catholic Services se levantou e
disse que, se soubesse que era a gente, ele deixaria adotar uma
criança.”

Uma das estratégias de proteção é a mentira ou invenção de relacionamentos


heterossexuais para poder fazer parte do grupo e evitar maiores conflitos. Os
ambientes profissionais tendem a ser machistas e excludentes. O problema é que a
sustentação da mentira requer um grau de sofisticação e tende a construir,
posteriormente, situações complexas. Apesar de ser percebido um aumento de

218
empresas preocupadas com a inclusão, ainda há muitos ambientes hostis e
preconceituosos.
Sobre as dificuldades das escolas, falarei posteriormente, já que foi
identificado e construído um fenômeno para esta discussão.

Quadro 23 – Fenômeno: Oprimir e repetir o opressor


Categorias /
Eixo Conceitos Categoria
Fenômeno
Mentiras para lidar com preconceito
Auto-preconceito
Preconceito na comunidade gay
Preconceito na escolha da criança
(idade)
Preconceito na escolha da criança
(raça)
Família e Preconceito interno 4.Oprimir e repetir o
Preconceito na escolha da criança
Sociedade na comunidade gay opressor
(doenças)
Preconceito na escolha da criança
(gorda)
Preconceito com relação à adoção
Racismo
Preconceito (medo da criança ser
gay)
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Ainda característico dessa fase é o fenômeno de OPRIMIR E REPETIR O


OPRESSOR, traduzido pelas sensações de busca pelo pertencimento e inclusão. A
evidência desse processo é caracterizada pelo PRECONCEITO INTERNO NA
COMUNIDADE GAY. Em especial, existe uma propensão à mentiras para lidar com o
auto-preconceito, já que o não atendimento à heteronorma, por vezes, traz dor e
sofrimento. A sociedade estabelece uma série de padrões estereotipados aos gays,
que não dão conta da realidade, já que existe uma construção social de que gays são:
brancos, bem sucedidos, ricos, inteligentes, bonitos e com um corpo escultural.
Esse estereótipo tem sido sustentado socialmente, mas não dá conta da realidade, já
que existe uma parcela grande de homossexuais negros, pobres, desprovidos de
escolaridade e, muitas vezes, com baixa oportunidade de emprego e tantos
outros.

219
Quadro 24 – Fenômeno: Movendo-se para se afirmar como família
Categorias /
Eixo Conceitos Categoria
Fenômeno
Diminuição do preconceito com o
casamento
Aceitação da
Maior aceitação de acordo com
homoparentalidade
localidade
Aceitação politicamente correto
Destaque na sociedade 5. Movendo-se para
Família e
Atenção pela marca da diferença Fazendo uso da se afirmar como
Sociedade
Ser “pai” traz status para diferença família
homossexuais
Querer e se
Identificação com outras famílias
reconhecer na
homoparentais
família
O desejo de ter família
homoparental
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Uma demanda que surge, muitas vezes vivida como uma fase dentro dos
demais estágios, é o fenômeno que denominei MOVENDO-SE PARA SE AFIRMAR
COMO FAMÍLIA. Morar junto, passar pelo ritual do casamento e celebrar também se
faz presente nas vivências dos casais homoafetivos e isso acontece com a
ACEITAÇÃO DA HOMOPARENTALIDADE.
A heteronorma ainda dita o modelo de casamento e os caminhos a serem
percorridos. Casar e ter família passa a ser uma possibilidade de pertencimento, com
isso, as vivências de preconceito associadas a promiscuidade, diminuem
significativamente, oferecendo assim um lugar de respeito.
A autorização do Conselho Nacional de Justiça acerca do casamento
homoafetivo legitimou o direito de casar, mas não conseguiu assegurar a aceitação
social. O ato de casar é legal, mas ainda considerado, por parte da sociedade, como
amoral, advindo da influência judaico-cristã. Herdamos a ideia de que família deve ser
composta por homem e mulher e esta é maquiada por uma pseudoaceitação social.
Os dados quantitativos desta pesquisa revelaram que, apesar da sociedade mostrar
abertura e aceitação ao casamento homoafetivo, muitos participantes da pesquisa
justificam que o maior problema é a “não aceitação pela sociedade” - típico
mecanismo para culpabilizar terceiros. Independentemente deste cenário, o desejo de
casar tem crescido bastante desde a sua autorização. Com isso, QUERER E SE

220
RECONHECER NA FAMÍLIA HOMOPARENTAL é o resultado da aceitação desses
casais para poder constituir família. FAZENDO USO DA DIFERENÇA é um conceito
que demonstra a capacidade de se adaptar, mudar e driblar os desafios impostos
pela sociedade e utilizar a “diferença” para angariar olhares positivos, adentrar novos
espaços sociais e, muitas vezes, conseguir até um certo status através do casamento
e da paternidade. Serão vistos, adiante, outros fenômenos associados ao estágio 2.

6.2 Estágio dois: Eu e você, você e eu (casamento homoafetivo)

O segundo estágio denominado Eu e você, você e eu (casamento


homoafetivo) é caracterizado pelo desejo de pertencimento, de existir, de constituir
família, legalizar a relação e se preparar para ter filhos no futuro. Ocorre quando o
casal faz movimentos para ficar juntos e constituir família.

Figura 25– Segundo Estágio: Eu e você, você e eu (casamento homossexual)

Estágio :
2 Eu e Você, Você e Eu (Casamento Homoafetivo)

Devemos casar?
Será? Mas e nossas famílias?
E nossos empregos?

Ciclo de Vida Visão Futura


Filhos?
(Adaptações, mudanças e desafios)

O casamento homoafetivo e o
desenvolvimento emocional da
relação.

FAMÍLIA E SOCIEDADE
Interação, influência e implicações
da heteronorma no funcionamento
dinâmico das famílias
homoparentais.

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

O segundo estágio é composto por três fenômenos, conforme o quadro 25.


Os fenômenos, por sua vez, apresentam uma série de processos/categorias
correlacionados e ajudam a compreender pontos importantes do funcionamento
dinâmico do casamento homoafetivo masculino.

221
Quadro 25 – Segundo estágio, tema e fenômeno

Estágios Temática Principal Categorias / Fenômenos

1. Reivindicando o direito de existir


como família
Eu e você, você e eu 2. Casando para “poder” se realizar
Segundo Estágio
(Casamento Homoafetivo) no mundo
3. Fortalecendo para aumentar a
família
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Os participantes da pesquisa não enxergam diferenças significativas entre o


casamento heterossexual e o casamento homoafetivo, a não ser pelos aspectos da
legislação. Durante muitos anos, tanto o Movimento LGBT americano quanto o
brasileiro lutaram para conseguir a legalização do casamento entre pessoas do
mesmo sexo.
O problema é que a natureza do casamento foi baseada na criação, o que
dificulta a aceitação social. O retrato disso pode ser constatado pelos números que
colocam o Brasil no topo do ranking de assassinatos de pessoas LGBT’s52 e do
aumento de casos de crimes de ódio, dentre eles, em sua maioria, os de homofobia
nos Estados Unidos. Tanto a autorização do casamento homoafetivo no Brasil quanto
nos Estados Unidos foram um grande marco para o avanço da homoparentalidade /
homoafetividade, mas ainda não traz uma aceitação universal e, tampouco, a proteção
necessária, visto que no Brasil sequer tem uma lei que combata a homofobia como
crime.

“[...] De início morar em Seattle... Pode não parecer uma grande


coisa hoje em dia, mas nos anos 80, mostrar afeto em público
para os homens... Mesmo Seattle sendo progressista, as
pessoas olham estranho... Ainda hoje, a menos que você seja
super feminino ou algo assim, as pessoas vão assumir que você
é hetero...”

52
Levantamento feito em 2017 pelo Grupo Gay da Bahia.
Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2017/05/1884666-brasil-patina-no-combate-a-
homofobia-e-vira-lider-em-assassinatos-de-lgbts.shtml Acesso em 15 novembro de 2017

222
Quadro 26 – Fenômeno: reivindicando o direito de existir como família
Categorias /
Eixo Conceitos Categoria
Fenômeno
Oficializar o casamento homoafetivo
Não oficializar
1. Reivindicando o
Direitos dos casais homoafetivos Legalizando a
Vida do Casal direito de existir
Contrato legal relação
como família
Garantia de direitos com o casamento
Facilitar adoção com o casamento
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

A discussão sobre o casamento de pessoas do mesmo sexo tem trazido


inúmeras discussões no meio acadêmico, vide Butler (2003), Mello (2006), Oliveira
(2010), Santos (2010), Oliveira (2011), Coacci (2015), entre outros.
O primeiro fenômeno desse segundo estágio, REIVINDICANDO O DIREITO
DE EXISTIR COMO FAMÍLIA, traz com ele o desejo de reconhecimento e o direito de
existir como família. A conquista dos direitos é importante, mas fica secundária diante
do afeto. A união abre possibilidades para se viver uma vida a dois, com o aparato da
lei, o que facilita angariar um novo espaço social. Essa é a hora de mudar e se
adaptar à nova vida, de sair da casa dos pais, de pensar juntos no processo de vida
a dois, do compartilhar, da compra dos móveis, do aluguel da casa e do
funcionamento do casal.
Os casais citam aspectos relativos a valores que consideram importantes e
fica evidenciado um processo de identificação para que a decisão de dividir a vida
possa ser concretizada. De alguma forma é comum as vivências anteriores de
homofobia trazerem à tona uma certa identificação entre o casal.

“[...] acho que os princípios, os valores são idênticos, até porque


senão não estaríamos juntos há 10 anos...”

“[...] mas é óbvio que, com o tempo, a gente foi aprendendo,


tomando tapa na cara da vida, aprendendo o que é um
casamento... nem sei se a gente aprendeu até hoje, mas
estamos aí na luta e basicamente de forma resumida é isso...”

No decorrer desse estágio, os casais recorrem à oficialização da união para


garantir direitos com relação à transferência de propriedade em caso de falecimento

223
e garantir o acesso ao companheiro. Aqui, através do casamento, ganha-se uma
reputação de homem sério e respeitado.
Com a chegada dos filhos, há um aumento de pressão para a oficialização e,
assim, regularizar a situação de um dos parceiros. Ainda é comum somente um dos
pais darem entrada no cadastro nacional da adoção e somente incluir seu
companheiro quando o relacionamento ganha estabilidade e segurança.

“[...] foi mesmo com a chegada do C. que a gente falou: “vamos


eliminar qualquer possibilidade de confusão”, aí a gente resolveu
fazer o casamento...”

“[...] a gente ficou com um pouco de medo também que teria uma
segunda adoção, de mudar alguma coisa no caminho e aí a
gente falou: “é melhor a gente oficializar, né?”

“[...] inicialmente fizemos um contrato de união estável por


instrumento particular, isso foi em 2008. Aí em 2010 fizemos por
instrumento público e em 2013 nos casamos no civil...”

“[...] quando nós nos casamos, nós estávamos quase no final do


processo de adoção já... Então já estávamos devidamente
cadastrados, já tínhamos conhecido as crianças então a gente
estava em um período de situação financeira muito apertada...”

Além disso, o fato de casar nomeia uma nova posição social que havia sido
desejada pelo casal. Esse evento traz uma mudança no status do casal e garante
direitos que são importantes dentro de nossa estrutura social. No decorrer deste
estágio esses casais vivenciam o fenômeno CASANDO PARA PODER SE REALIZAR
NO MUNDO, a fim de angariar essa nova possibilidade de existir e legitimar a
conjugalidade. Além disso, esse é um fenômeno que inicia um processo de
preparação para se ter filhos.

224
Quadro 27 – Fenômeno: casando para “poder” se realizar no mundo
Categorias /
Eixo Conceitos Categoria
Fenômeno
Casamento como realidade Real e imaginários
Cerimônia para realizar sonho sobre o casamento
Possibilidades
Morar junto
advindas com o
Sair de casa
casamento
Evitar problema futuros
(legalmente)
2. Casando para
Oficializar como segurança para
Vida do Casal “poder” se realizar
a família
no mundo.
Casar para ter família
Casar para proteção de bens Papel do casamento
Casar para aprender
conjuntamente
Casar para realização pessoal
Ritual social (compromisso
social)
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Aqui o casamento ganha sentidos que vão além da garantia dos direitos.
Existe um imaginário sobre o casar, sobre a realização do sonho. O casamento passa
a ser realização pessoal, realização de sonho, possibilidade real de constituir família,
oficializar um compromisso e ganhar os benefícios do status social. Tudo isso gera
sensações de pertencimento, de adentrar uma nova categoria social, de não mais
fazer parte de um lugar rotulado e estereotipado. Essa discussão já foi mencionada
por Butler (2003), Mello (2006), Ceccato (2011), Vieira (2011), Rosito (2013), Araldi,
(2015), Santos (2016) e Farias (2017).

“[...] aí depois, quando foi consentido o casamento, fizemos pelo


meio natural... Fomos, agendamos pessoalmente, porque tinha
a possibilidade de só converter a união estável para a certidão
de casamento, mas a gente quis ir lá e casar...”

“[...] eu sempre quis ter uma família, acho que fantasiava um


pouco a coisa do casamento...”

225
“[...] a gente teve um casal de amigos que casou na praia o ano
retrasado, enfim, foi muito bacana, mas muito mais uma coisa
de fantasia...”

“A gente estava em uma situação financeira bem complicada;


então a gente casou mesmo só no civil, fizemos um almoço só
para os pais e padrinhos, uma coisa bem simples, foi uma
cerimônia bem particular...”

O instituto da família traz consigo um papel amenizador da homofobia vivida,


mas com ele vêm novas mudanças, desafios e adaptações.

“[...] o que tem é só a parte bonita, que a gente se assumiu


plenamente, trabalho, família, a gente percebeu e a gente se deu
conta, de que o preconceito e as possibilidades e os problemas
que a gente enfrentava diminuíram...”

“[...] talvez a gente não precisa estar morando juntos, mas uma
coisa é fato, quando você namora é um relacionamento, quando
você vai morar junto é outro relacionamento...”

“[...] quando começamos a morar juntos, tiveram novas fases, foi


um choque, foi brutal, foi... Houve muitas dificuldades...”

Apesar das dificuldades aparecerem, a proposta de casamento, seja em união


estável ou casamento, trazem ganhos, sejam eles através da partilha de benefícios,
tais como: plano de saúde e seguro de vida e também da divisão das despesas, do
planejar compras futuras, de desenhar um caminho e da afetividade compartilhada.

226
Quadro 28 – Fenômeno: fortalecendo para aumentar a família

Categorias /
Eixo Conceitos Categoria
Fenômeno
Companheirismo nas dificuldades Reavaliando a vida a
Avaliando o relacionamento no passado dois

Incerteza sobre o parceiro ideal para Desejo de ter o 3. Fortalecendo


Vida do
constituir família companheiro / pai ideal para aumentar a
Casal
família
Vida social intensa antes dos filhos
Vida social antes dos
Vida acadêmica ativa antes dos filhos
filhos
Papel ativo na comunidade
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Com o tempo, a convivência e as dificuldades vão sendo acomodadas e com


isso ocorre o fenômeno que chamei de FORTALECENDO PARA AUMENTAR A
FAMÍLIA. Este é um fenômeno composto por três categorias, sendo elas:
REAVALIANDO A VIDA A DOIS, DESEJO DE TER AO LADO O PAI IDEAL e VIDA
SOCIAL ANTES DOS FILHOS.
Reavaliar, retrospectivamente, o começo da relação e as vivências dos anos
iniciais da vida a dois ajudam na projeção do futuro e trazem a possibilidade de
ressignificar as experiências negativas. Existe um sentimento de incerteza com
relação à capacidade parental do companheiro. Surgem dúvidas sobre a hora certa
de se ter filho(s), sobre a capacidade de cuidar, se ambos estão preparados para a
paternidade e sobre os desafios sociais.

“[...] eu não vou ter condições de cuidar de uma criança [...] Eu


tenho dúvidas se o meu companheiro é a pessoa para a gente
criar uma criança juntos. São essas oscilações da vida, de um
relacionamento...”

O companheirismo, as histórias construídas, os laços sociais, tudo fortalece a


relação conjugal e prepara o campo para a decisão de ter filhos.

“[...] até que o relacionamento ganha mais força... a gente se


pergunta: “É isso que eu quero para mim mesmo...?” Sim, então
vamos embora...”

227
“[...] Oh, vou te falar um negócio: meu sonho é ser pai, eu estou
na fila de adoção, então eu estou só esperando, qualquer hora
pode aparecer a criança... você topa?”

“[...] ter filhos? Através da minha profissão, eu sempre lidei com


crianças... a gente discutia muito isso... Sobre o casamento,
sobre ter filhos, sobre o cuidar, do que isso faz para o casal e
para a vida. A gente passou por várias fases. Momentos que ele
queria muito, e eu não queria... Momentos que eu queria muito
e ele não queria...”

Parte dos pais entrevistados, já gostaria de ter filhos, antes mesmo do


relacionamento atual. Além das preocupações sobre conseguir cuidar de um filho,
existiam outras preocupações, tais como: dinheiro, carreira, além de apoio e suporte
emocional da família de origem e amigos.
Essa etapa da vida do casal é permeada por dúvidas e sentimentos de
insegurança. O que predomina são oscilações e interrogações, traduzidas por um
certo “e se...” pelo qual tenta responder toda a falta de controle, do desconhecido, da
possibilidade do erro e de não poder voltar atrás. Como já havia notado em minha
dissertação de mestrado, a mídia não facilita a informação acerca da família e da
adoção homoparental, mais problematizando do que informando, gerando mais
dúvidas na tomada de decisão. Algumas estratégias são utilizadas para apaziguar
esse momento de dúvida. A leitura sobre a família homoparental, os modelos
externos, o apoio de amigos, tudo vale para amenizar a angústia.

“[...] a gente leu, porque estávamos meio assustados com a


homoparentalidade, falando de doenças psicológicas para os
filhos... Tudo isso estava na mídia. E levou alguns meses para a
gente ir lá para o fórum e fazer o pedido.”

“[...] sempre falávamos sobre ter filhos e então meu parceiro


entrou para a faculdade de direito na cidade de Nova York. Acho
que sabíamos que estávamos comprometidos um com o outro e
conhecíamos outras pessoas que tinham filhos...”

228
Tomada a decisão de ter filhos que, por vezes, acontece conjuntamente, por
vezes sozinho, é chegada a hora de dar entrada no Cadastro Nacional de Adoção ou
de incluir o companheiro em um cadastro pré-existente e iniciar a jornada da
homoparentalidade.

6.3 Estágio três: Funções parentais e o desenvolvimento dos filhos

Na análise dos dados coletados, considero o terceiro estágio como cerne


desta tese, seja pela sua complexidade, seja pela contribuição única para o campo
desta pesquisa.

Figura 26 – Terceiro Estágio: Funções Parentais e o Desenvolvimento dos Filhos

Estágio :
3 Funções Parentais e Desenvolvimento dos Filhos

Paternidade e desenvolvimento dos filhos.


Como? Mas e se...?

Ciclos de Vida Visão Futura


Cuidar dos filhos
(Adaptações, mudanças e desafios)

A chegada do(s) filho(s) e os


cuidados requeridos

FAMÍLIA E SOCIEDADE
Interação, influência e implicações
da heteronorma no funcionamento
dinâmico das famílias
homoparentais.

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

O terceiro estágio é composto pela junção de quatro grandes eixos temáticos,


sendo ADOÇÃO, PATERNIDADE, DESENVOLVIMENTO DOS FILHOS E ESCOLA,
o qual denominei FUNÇÕES PARENTAIS E O DESENVOLVIMENTO DOS FILHOS.
O terceiro estágio será separado em diversos quadros, de acordo com o eixo temático,
a fim de facilitar a compreensão tanto do eixo, quanto dos fenômenos apresentados.

229
Quadro 29 – Estágio, tema e fenômeno

Estágios Temática Principal Eixo Categorias / Fenômenos

1.Facilitando e dificultando a
adoção
2. Justificando para amenizar a
culpa
Funções Parentais e o 3. Escolhendo bebês e crianças
Terceiro
Desenvolvimento dos ADOÇÃO pequenas
Estágio
Filhos 4. Adaptando o tempo interno e o
externo
5. Desconstruindo para realizar
6. Ocupando um novo lugar na
vida
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Tomada a decisão de ter filhos, é chegada a hora de preencher o Cadastro


Nacional de Adoção, pensar acerca das escolhas da criança, descontruir a idealização
e se preparar para a chegada do filho real.
A experiência da parentalidade inicia-se com grandes mudanças, adaptações
e desafios e traz um grande impacto na vida dos casais.
Chegada a hora de procurar os meios legais para iniciar o processo de
adoção, começa-se com o fenômeno FACILITANDO E DIFICULTANDO A ADOÇÃO.
Ainda não se tem uniformidade no atendimento de psicólogos, assistentes sociais,
juízes e, tampouco, dos cuidadores de abrigos que, muitas vezes, fazem um
desserviço no processo da adoção homoparental.

Quadro 30 – Fenômeno: Facilitando e dificultando a adoção


Categorias /
Eixo Conceitos Categoria
Fenômeno
Auxílio de profissionais especializados
Profissionais apresentam as dificuldades 1. Facilitando e
Profissionais
Adoção Profissionais relatam dados de realidade dificultando a
especializados
Oscilação dos profissionais no auxílio adoção
Profissionais do fórum desencorajam
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

230
Trata-se aqui de não generalizar, principalmente porque há relatos de elogios
a alguns profissionais. O que mais chamou atenção é que este é um momento que
mobiliza tensão e uma certa dificuldade para preencher o Cadastro Nacional de
Adoção.

“[...] a psicóloga ajudou a gente a preencher o cadastro com ela.


Ela deixou super claro que: “bom, negro produz um problema...”
Mas é tranquilo, porque você não é o problema, você faz parte
da solução...”

“[...] primeiro, eles simplesmente colocaram todos esses


obstáculos no caminho... Olhando retrospectivamente, depois
que fomos aprovados, descobrimos que éramos o primeiro casal
gay a ser aprovado no estado de Nova York...”

“[...] o acolhimento com a assistente social foi bem carinhoso,


ela explicou bastante coisa, passou algumas dicas...”

“[...] Mas a juíza, que era a Dra. X, foi ultraliberal e liberou de eu


ir dar seguimento no processo, apesar do meu companheiro não
estar junto...”

“[...] Ele dizia coisas como: “por que você acha que uma criança
vai se beneficiar de estar em uma casa com dois homens gays?”
Terrível... E você está neste jogo de poder porque ele tem todo
o poder, certo? Então você está tentando seguir em frente. Bem,
podemos superar isso ao invés de dizer "você é um homofóbico,
podemos ter outro conselheiro?"

Ainda existem profissionais que imprimem o seu preconceito, prejudicando o


processo de adoção, não facilitando ou trazendo dados questionáveis. Após o
preenchimento do CNA53, pode-se perceber um sentimento de culpa em relação às
características da criança escolhida e uma necessidade de justificá-las. Para este

53
A partir deste momento utilizaremos a abreviatura CNA para Cadastro Nacional de Adoção.

231
fenômeno, dei o nome de JUSTIFICANDO PARA AMENIZAR A CULPA, em função
da repetição do preconceito e da discriminação que orienta a escolha da criança.

Quadro 31 – Fenômeno: Justificando para amenizar a culpa


Categorias /
Eixo Conceitos Categoria
Fenômeno
Casais não têm informações sobre adoção
Processo de informação para a adoção Informação e
Casais esperam dificuldade no processo desinformação
Participação em grupo de apoio (adoção) sobre a adoção
Descoberta da facilidade do processo
Justificativas para a escolha da criança
Raça é um fator de discriminação
O preconceito 2. Justificando
Casais homoafetivos também excluem e
Adoção também mora lá para amenizar
justificam o preconceito
em casa a culpa
Inclusão do parceiro na adoção
Também há preconceito dentro do fórum
Dificuldade no preenchimento do cadastro
Escolha no cadastro traz complexidade A dificuldade de
Constrangimento na escolha escolher e
Processo de adoção traz obstáculos discriminar
Incômodo na escolha da criança
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

“[...] então, se você não quer nem negro, nem pardo, nem
velho... então para mim tranquilo, eu vou deixar no cadastro e
vem quando vem... Então, a gente ficou mais relaxadinho e,
dessa vez, a gente tinha colocado, menino/menina, abaixo de 4
anos.”

“[...] De qualquer cor, exceto negro, porque tinha na época uma


chance muito alta de saírmos do país e ir para a Polônia e, na
Polônia, ser gay é difícil, mas negro é até pior... e não quisemos
também pela mesma razão...”

“[...] E nós limitamos o HIV, não por preconceito... mais por


medo. É um medo até regado em preconceito. Nós tínhamos

232
medo de que essa criança crescesse com dois preconceitos,
além de ser filha de “viados”, ainda tem HIV positivo?...”

“[...] Depois, tem o aspecto das doenças, a gente pediu para não
ter doença psicológica / mental e aceitamos doenças fisiológicas
não graves...”

Este fenômeno refere-se às experiências dos casais homoafetivos, antes,


durante e depois que a criança chega. Essa etapa de transição da parentalidade traz
grande sentido para o casal, visto que toda essa vivência está pautada na
transformação de suas vidas para sempre e é no ESCOLHENDO BEBÊS E
CRIANÇAS PEQUENAS que esses casais tentam amenizar essa tensão e buscar
aquilo que chega mais próximo do idealizado.

“[...] A princípio nós queríamos até 2 anos, para não ter


identidade psicológica, no sentido de não ter formado um
preconceito ainda. Não tem entendimento do que é um casal
gay, então, queríamos um bebê para poder criar do nosso modo,
educar do nosso modo e de uma forma não preconceituosa [...]
porque se a gente pegasse uma criança mais velha, ela já viria
com traços de preconceito, natural né?! Machismo, homofobia e
tal. Mantínhamos firme nessa opinião que queríamos um bebê
por causa disso...”

Quadro 32 – Fenômeno: Escolhendo bebês e crianças pequenas


Categorias /
Eixo Conceitos Categoria
Fenômeno
Casais preferem crianças pequenas O "encantamento" 3. Escolhendo
Adoção Crianças pequenas podem ser modeladas pelas crianças bebês e crianças
Crianças menores são mais procuradas pequenas pequenas
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Portanto, acabam buscando, predominantemente, crianças menores de cinco


anos de idade, brancas ou pardas, com doenças fisiológicas leves. Aqui demonstram

233
a continuidade da ideia social de que a criança pequena é “tábula rasa”54, podendo
ser moldada com os valores da família receptora.
Existe em certo grau de preconceito que tenta ser amenizado, mas que vem
com relatos de dificuldade e da angústia que causa preencher o CNA.

“[...] Isso foi muito pensado, isso foi uma das coisas que a gente
discutiu, a gente não tinha chegado a um acordo e aí a gente
levou em consideração... [...] vamos pegar menor, bebezinho e
tal... Aquela questão da gente cuidar, evitar alguns traumas que
pudessem vir ou deixar de vir...

“[...] então a gente não vai conseguir cuidar. E se for muito mais
velho aí vem toda a história... blá, blá, blá... Aí afinal, vamos
colocar de zero a cinco e depois a gente vê o que faz...”

Quadro 33 – Fenômeno: Adaptando o tempo interno e o externo


Categorias /
Eixo Conceitos Categoria
Fenômeno
Ansiedade para a sentença da adoção
O tempo lógico
Ansiedade para a chegada da criança 4. Adaptando o
e o cronológico
Adoção Frustração nas visitas antecipadas dos abrigos tempo interno e o
no processo de
Velocidade e rapidez na adoção externo
adoção
Tempo entre querer e adotar uma criança
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

ADAPTANDO O TEMPO INTERNO E O EXTERNO é o que comumente


esses casais precisam fazer para lidar com toda a espera dos processos de adoção.
Apresentam-se vivências emocionais intensas, recheadas de ansiedade e frustração
quanto à espera da criança. Além disso, fatores fantasiosos aparecem num misto de
atendimento do desejo e uma certa ansiedade para a chegada do filho(a). Nesta fase
de espera, aparecem dúvidas sobre ter feito a coisa certa.
O preenchimento do CNA confirma a largada da parentalidade no campo da
imaginação, mas, ao mesmo tempo, ocorre o movimento DESCONTRUINDO PARA

54
Ideia central do filósofo John Locke (1960) que dizia que quando se nasce, a mente é uma página
em branco (tábula rasa) que a experiência vai preenchendo. O conhecimento produz-se em duas
etapas: a) a da sensação, proporcionada pelos sentidos e b) a da reflexão, que sistematiza o resultado
das sensações.

234
REALIZAR, pois é chegada a hora de se preparar emocionalmente para se tornarem
pais.
Quadro 34 – Fenômeno: Descontruindo para realizar

Categorias /
Eixo Conceitos Categoria
Fenômeno
Fantasias versus realidade na adoção
Homossexualidade traz o fantasma de não
poder ter filhos Entre o idealizado
Mitos sobre dificuldades no processo de e o real na
adoção chegada dos filhos
5. Descontruindo
Adoção Visão romântica do processo de adoção
para realizar
Ter filho para garantir um legado
Oscilações quanto à capacidade de cuidar da
criança A chegada do
Medo mobilizado nos pais com a chegada da filho(a)
criança
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Esse período pré-parentalidade traz medos e fantasmas da não realização do


desejo de ser pai, além de um medo de não conseguir cuidar adequadamente do(s)
filho(s).

“[...] A adoção há 10 anos atrás era uma coisa de que não se


falava... em adoção homoafetiva...O sonho de se tornar pai foi
distanciando...”

“[...] Não, eu acho que eu me enganava... pensava assim: “vai


ser biológico, mas, sempre pensei na adoção, mesmo pensando
no biológico...”

“[...] é tudo muito um mito que adotar é complicado, que vai te


dar muito trabalho, adotar é muito duro, porque quando você
quer ter um filho e gera naturalmente, você dorme e acorda
grávida. Agora, adota, você passa por uma sabatina, você tem
que ser avaliado por psicólogo, assistente social...”

235
“[...] A gente ficou até meio assim... Pensamos: “vão rasgar o
nosso papel, né?!” Porque não pode ser simples desse jeito...
Chegam dois caras aqui querendo adotar, você entrega um
papel e vai para fila! Como assim, né?!”

“[...] o objetivo da adoção não é você sofrer. O objetivo da


adoção é você ser feliz, curtir com tudo aquilo que você está
disposto a lidar”

Quadro 35 – Fenômeno: Ocupando um novo lugar na vida


Categorias /
Eixo Conceitos Categoria
Fenômeno
Adoção igual êxito
Família idealizada
Auto-validação
A ocupação simbólica de 6. Ocupando um
Pais se auto promovem
Adoção um novo lugar (família novo lugar na
Paternidade e aceitação social
homoparental) vida
Lei legitima a família homoparental
Comparações com famílias
heteroparentais
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Com a chegada do(s) filho(s), os componentes do fenômeno OCUPANDO UM


NOVO LUGAR NA VIDA são constituídos por sentimentos e experiências
desafiadoras que os pais retratam e podem ser conceituados como A OCUPAÇÃO
SIMBÓLICA DE UM NOVO LUGAR (FAMÍLIA HOMOPARENTAL).
A vivência da família de origem dos casais homoafetivos trouxe o modelo
heteronormativo que está internalizado. Na tentativa de evitar o preconceito, as
famílias supervalorizam a homoparentalidade.
Apesar da recorrência da homofobia, a homoparentalidade tem recebido um
aumento da aceitação social e da legitimação enquanto família. Porém, os pais
homoafetivos brasileiros possuem uma necessidade de comparação a outros pais
heteroafetivos, alegando que estes somente buscam a adoção, por terem
experiências de inseminação artificial fracassadas. Esse mecanismo é
diametralmente oposto nos Estados Unidos, já que os casais homoafetivos
americanos evitam qualquer tipo de comparação ou diferenciação com os pais

236
heteroafetivos. Para eles, é mais importante sentir-se igual do que supervalorizar
qualquer diferença.
O próximo eixo do terceiro estágio é o que se chama de PATERNIDADE
HOMOAFETIVA e é composto por quatro principais fenômenos, conforme quadro 37.

Quadro 36 – Estágio, tema e fenômeno


Temática
Estágios Eixo Categorias /Fenômenos
Principal
1.Desconstruindo e construindo os
Funções
modelos parentais
Terceiro Parentais e o PATERNIDADE
2. Tornando-se pai
Estágio Desenvolvimento HOMOAFETIVA
3. Aprendendo a cuidar e ser cuidador
dos Filhos
4. Mudando a dinâmica da família
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Experienciar o papel de cuidador é algo imposto por esse novo cotidiano que
traz novas demandas, ajustes, mudanças e adaptações da vida do casal. É neste
momento que os novos pais iniciam os processos de cuidado, encarados com
preocupações, atenção, e correrias de última hora. Aqui ocorre o que chamei de
DESCONTRUINDO E CONSTRUINDO OS MODELOS PARENTAIS.

“[...] Então pensei, bom é falta de experiência, imagino que o pai


biológico que tem o meu perfil também tenha as mesmas
dificuldades.”

“[...] a gente foi lá sem saber por onde começar... será que
precisa de mamadeira? Precisa, né?...

“[...] você começa tudo do zero (risos). Aí, quando vem o filho,
de novo (risos), são vários recomeços...”

“[...] Eu morria de medo de ter um bebezinho...”

Nessa fase da vida do casal, as mudanças são tantas e tão rápidas que os
acontecimentos são concomitantes, gerando novos desafios.

237
Quadro 37 – Fenômeno: Desconstruindo e construindo modelos parentais
Categorias /
Eixo Conceitos Categoria
Fenômeno
Demanda social da figura materna Demandas sociais
Função materna “envergonha” das funções
Homens criarem crianças é estranho parentais
Flexibilidade nos papéis parentais
Divisões de tarefas são mais flexíveis Compartilhamento
Revezamento no cuidado da criança e flexibilização da
Decisões sobre o cuidado são conjuntas função materna e 1.Descontruindo
Paternidade Prevalência de uma função em cada pai paterna e construindo
homoafetiva Referências das famílias heteroparentais modelos
Dificuldade dos papéis de gênero Negação da parentais
Barreira entre função materna e paterna existência das
Tentam desconstruir papéis e funções no funções materna e
cotidiano paterna
Internalização de papéis de gênero Noções de
parentalidade e
Visão romântica sobre a paternidade
gênero
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Aqui, encontra-se uma fase pela qual as famílias precisam ser mais
“camaleão” do que nunca, já que há uma alta fiscalização velada da sociedade com
relação aos cuidados dos filhos, ainda mais pelo estranhamento / curiosidade que
esse arranjo familiar ainda traz na sociedade.

“[...] a gente vai no St. Marche na esquina da nossa casa, o M.


é atração do supermercado, as caixas, a gerente, todo mundo é
apaixonado por ele. Às vezes eu estou lá com ele aí a menina
do caixa fala: "O outro pai já veio com ele aqui de manhã" - eu
acho que a gente deve ser o assunto...”

“[...] na aula de natação, as pessoas queriam conversar com a


gente. A gente estava sentada lá, o povo senta do meu lado...
assim, é tipo assim: “nossa cool eu sou cool, conheço um casal
de pais gays...”

238
“[...] eu comentei que na nossa viagem tinha um casal de mulher
em um resort que a gente estava e uma me perguntou: “muda
muito?" E eu falei, muda totalmente... Mas, acho que no meu
caso e do D. sempre foi muito tranquilo, porque somos um casal
caseiro, a gente nunca foi muito de festa, badalação, então para
a gente não teve o choque... E mesmo assim ainda a gente tem
um pouco...”

Há uma mudança completa de foco e a atenção do casal passa a ser


totalmente voltada ao(s) filho(s). É chegada a hora de construir um novo espaço
psicológico para a chegada do filho e repensar a nova dinâmica familiar.

“[...] A gente chorou... Assim... umas duas vezes antes dele


chegar, pânico, uma criança, uma vida... Então a gente teve
esses momentos de... que eu acho que foi bom para a gente
colocar para fora, desabafar que a gente tinha medo. E
realmente é uma coisa que ninguém ensina; de repente você se
vê trocando uma fralda, dando banho...”

“[...] porque a maternidade e paternidade muda as pessoas,


você faz unir algumas hipóteses relacionais e depois o
emocional pode fazer essas hipóteses se revelarem
infundadas.”

Os casais homoafetivos passam por situações complexas com relação aos


cuidados e o gênero. É evidente que a nossa sociedade ainda traz muito da fantasia
de que o homem não teria o “dom” de cuidar e educar seus filhos, mantendo uma
relação assimétrica de poder no binômio da heteronormatividade (homem e mulher)55.
Apesar das mudanças sociais que estamos acompanhando, esses lugares ainda
possuem seu espaço na construção social.

“[...] Quando estávamos viajando, logo no começo, as pessoas


perguntavam: "onde está a mãe, onde está a mãe?" Porque ver

55
Compreendemos que a sociedade pós-moderna vem flexibilizando um pouco mais esses papéis de
gênero, porém sabemos que ainda é esperado o papel de cuidador para a mãe e de provedor para o
pai (associados ao gênero), vide as considerações discutidas anteriormente (Badinter, 1985).

239
dois homens com um garoto era estranho, especialmente em
outros países...”

Sabe-se que, com o advento da entrada intensa da mulher no mercado de


trabalho, muitos pais ocupam tal posição em seus lares, mas ainda é comum a
sociedade demandar e associar os cuidados de uma criança a uma mulher
(BADINTER, 1985).

“[...] Não sou uma mãe, assim... uma fibra maternal. Eu tenho
um pouquinho, mas nem tanto.”

“[...] A sorte é que já dava para ter uma interação com ele.
Quando tinha 1 ano ele não andava, mas dava para brincar e
compartilhar.... Então não era aquele bebezinho que a mãe tem
que cuidar sempre, amamentar, trocar...”

Nas famílias homoafetivas masculinas, os papéis parentais são mais


flexibilizados, as tarefas são divididas e há um revezamento nos cuidados dos filhos.

“[...] Eu troco fraldas, ele também! A gente dá banho nas


crianças de forma totalmente simétrica... Durante a semana
costuma ser ele, de final de semana costuma ser eu. Os únicos
papéis de casa que a gente tem uma regra são aqueles de
rotina, tipo: lavar a roupa é ele que coleta a roupa, coloca na
máquina, faz funcionar a máquina etc., a faxineira ela dobra e
quem cuida de colocar no lugar certo sou eu.”

“[...] Aí, como ele cozinha, eu limpo. Da educação eu vou para


as reuniões e participo do colégio, mas a lição o G. está com ele
em casa à tarde, portanto eles fazem a lição juntos... E é uma
coisa que o G. gosta, então ele se aproxima aí.”

“[...] A gente entende como função... A gente dividiu a função de


mãe, de acordo com as características de cada um, por exemplo:
Ele é muito preocupado com higiene, com banho, então ele
automaticamente ficou responsável por fraldas, porque na
época o G. ainda estava com fraldas, aquela função da mãe
240
machista mesmo, ele ficou responsável pela fralda, pelo banho
e eu já sou muito preocupado com remédio, escola, saúde,
então eu que levava no posto de saúde, já peguei a carteirinha
de vacinação e já vi se estava tudo em ordem, fui no posto, já
marquei médico pra fazer check up geral, então as funções da
mãe praticamente a gente dividiu ele ficou com algumas coisas...

As decisões com relação aos cuidados do(s) filho(s) tendem a ser conjunta e
há uma preocupação em manter a mesma palavra para não dificultar a compreensão
da criança. O que chama atenção é que, apesar de uma maior compreensão sobre
os estigmas associados ao gênero, existe uma prevalência de papéis nos cuidados
com os filhos.

“[...] Com os meninos a gente trabalha muito a questão da função


e do cuidar. Então... É o exercício do cuidar que a gente gosta
de fazer para cada um com as suas diferenças. [...] Vem o
questionamento dos meninos, porque, às vezes, eles acabam
olhando, dentro da nossa rotina, que quem faz o papel da
maioria das mães de amigos deles, sou eu...”

“[...] o meu companheiro é mais educador, sem dúvida, ele é


extremamente educador com o M! Já eu? Eu sou a mãe italiana
total...”

“[...] Eu continuei trabalhando de manhã, abri mão do meu


trabalho à tarde para poder dar conta, para poder estar presente
aí acompanhando, mas foram negociações que aconteceram
conforme foram surgindo as necessidades.

“[...] Eu não cozinho, aqui a gente divide... Ele sempre foi melhor
na cozinha e eu sempre cuidei da parte da limpeza. Então,
automaticamente, essa parte com as crianças ficou comigo...”

“[...] às vezes vem o questionamento dos nossos filhos, porque


às vezes eles acabam olhando dentro da rotina e quem faz o
papel das mães de amigos deles acaba sendo eu...”

241
Apesar da intenção de descontruir os papéis no dia a dia, há sempre um dos
pais ocupando com maior frequência o que é denominado por alguns por “função
materna”56 – o que é apresentado com uma barreira pelos próprios casais, visto que
essa função ainda carrega o estigma de inferioridade socialmente. O cônjuge que
possui maior poder econômico e uma carreira de destaque, acaba ocupando o lugar
de provedor, deixando para seu parceiro assumir com maior frequência o lugar de
cuidador. Aqui nota-se as concepções tradicionais de homem e mulher / masculino e
feminino também demarcadas dentro das famílias homoafetivas.
Compreende-se da ideia central de Butler (1990), sobre a subversão da
“ordem compulsória” social que nos exige uma certa coerência entre sexo, gênero e
o desejo. Nesta lógica, homens são condicionados a sentir atração por mulheres e
jamais poderiam exercer uma função materna.
Apesar de não ser foco desta tese, vale a pena problematizar o conceito de
“performatividade de gênero” de Butler (1998). Poder-se ia pensar a respeito da
função materna sendo exercida por dois homens (pais) como um ato de
subversão de uma ordem estabelecida? Será que dois homens cuidarem de uma
criança não entra na esfera da ousadia, a fim de chacoalhar essa coerência
compulsória?
Para Connel (2009, p. 11)57, “gênero é estrutura das relações sociais que se
centra na arena reprodutiva [...]. É a configuração de práticas que trazem as distinções
reprodutivas entre os corpos para os processos sociais.” Isso significa que está
relacionada à maneira pela qual a sociedade lida com as relações entre corpos e as
consequências desse tratamento na vida dos indivíduos.
Connel (2009) adverte que não devemos colocar homens e mulheres no
interior das diversas categorias (corpo, sexo etc.), pois, focar nas diferenças é um
problema, afinal se não houvesse diferenças, não haveria gênero.
A proposta de Connel (2009) é tirar a ênfase das diferenças e pensar nas
relações entre os indivíduos, evitando colocar um traço fixo e permanente. Dessa
forma, consideramos a função do cuidador, exercida pelos pais homoafetivos, como
mera fluidez de práticas que podem ser mutáveis e não dependem de gênero, mas
sim da intenção de amar e cuidar de um ser humano.

56
Entendemos por função materna a pessoa que dispensa os cuidados à criança (BADINTER, 1985).
57
Disponível em: https://ensaiosdegenero.wordpress.com/2012/05/07/o-conceito-de-genero-por-
raewyn-connell-o-corpo-no-foco-das-relacoes-sociais/ Acesso em de 22 outubro de 2017

242
“[...] Porque era uma coisa que deveria demorar uma hora e não
quatro. A cada minuto saia uma assistente social, psicóloga,
explicando que dois pais não sabem cuidar de uma criança...”

TORNANDO-SE PAI é um processo contínuo e diário que requer parceria no


casal, já que o(s) filho(s) passa(m) a ser o centro da atenção. É um momento grande
de adaptação na vida do casal, principalmente pelo cansaço e esgotamento que a
chegada de um filho traz consigo.
A paternidade, em um primeiro momento, traz dificuldades, questionamentos
e dúvidas. É preciso construir uma nova identidade para seguir em frente e assumir o
papel de CUIDADOR. Apropriar-se de um filho envolve uma série de estratégias,
novos sentimentos e principalmente a compreensão de todas as mudanças. Os
camaleões são acionados para se adaptar à nova dinâmica familiar e encontrar uma
nova forma de funcionar.

Quadro 38 – Fenômeno: Tornando-se pai


Categorias /
Eixo Conceitos Categoria
Fenômeno
Paternidade exige parceria no casal
Paternidade muda a vida social do casal Paternidade o
Crianças trazem cansaço e esgotamento para o conjugalidade
casal
Paternidade e cansaço
Paternidade e as dificuldades
Paternidade muda as pessoas
Paternidade traz dúvidas com os cuidados
Chegada do(s) filho(s) modifica o funcionamento
Paternidade
da casa Ofícios da 2. Tornando-se pai
Homoafetiva
A chegada do(s) filho(s) muda o ritmo da paternidade
dinâmica familiar
Abrir mão de si em detrimento do outro
Arrependimento e dúvida com a paternidade
Acomodação na paternidade
Chegada do segundo filho (mudanças)
Readaptação profissional Adaptando a
Revisitar carreira e filhos carreira com
Licença maternidade/paternidade a paternidade
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

243
As famílias de origem trazem suporte e apoio, tanto no campo prático, como
no campo emocional. Há um convite intrínseco nesse processo, pelo qual os novos
pais reconhecem suas famílias e o cuidado recebido, assim podem proporcionar os
mesmos cuidados aos seus filhos.
Essa etapa envolve novas vivências, tais como: aprender, reaprender, olhar
para dentro e para fora, restabelecer acordos e pactos com o companheiro, adaptar-
se profissionalmente e encontrar a paternidade dentro de si mesmo.
APRENDENDO A CUIDAR E SER CUIDADOR é um fenômeno que envolve
uma série de negociações entre o casal, traz a experimentação de papéis e é vivido
como um momento permeado por desafios fundamentais para o estabelecimento de
uma base sólida diante das relações familiares.

“[...] quando ele chegou, para a gente foi assim... Como que dá
banho? Enfia a mão no pipi do menino? Lava o ânus do menino?
Como que eu faço? Porque ele não sabe se lavar direito... Fico
perto do box vendo ele tomar banho? Como que é tudo isso?
Era tudo novo...”

“[...] É, eu precisei faltar no trabalho dois dias para ficar com ele.
Depois o G. já entrou em férias e a gente passou as férias
juntos... Aí meus pais viajaram com a gente, já criou vínculo com
os avós e, assim, foi perfeito! Pois a gente teve tempo de cuidar
dele, para organizar...”

Apesar da família de origem trazer suporte, existe um momento que os pais


são convocados a assumir de fato o lugar de CUIDADORES. Sentimentos de medo e
de incapacidade surgem, mas é na prática que os cuidados são aprendidos e trocados
entre o casal.
As tarefas de cuidados básicos vão sendo exercitadas gradativamente e o(s)
filho(s) vão se adaptando a elas. Este novo momento pede um aumento significativo
de disponibilidade interna, atenção e prática.

244
Quadro 39 – Fenômeno: Aprendendo a cuidar e ser cuidador
Categorias /
Eixo Conceitos Categoria
Fenômeno
Cuidar depende de autoestima
Aprendizagem
Intuição ajuda nos cuidados parentais
sobre o cuidar
Ninguém ensina ser pai / mãe
Paternidade requer carinho e limites
Avós dão exemplos no cuidar
Precisa de disponibilidade para cuidar
Cuidados requerem aumento da atenção 3. Aprendendo a
Paternidade
Referência interna guia os cuidados Construção das cuidar e ser
Homoafetiva
Cuidados exige um alto exercício noções de cuidado cuidador
Não precisa ser homem ou mulher para e atenção com os
cuidar filhos
Cuidados da criança se esbarram com
receios (sexualidade)
Dificuldades nos cuidados e educação da
criança
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Com o tempo, fica evidenciado que ninguém ensina a ocupação das funções
parentais e que esses cuidados não dependem de gênero para acontecerem
plenamente. Os pais encontram inúmeras referências internas das suas vivências na
posição de filho para atender às demandas da posição de pai. Com todo esse turbilhão
de mudanças, percebe-se o fenômeno MUDANDO A DINÂMICA DA FAMÍLIA.

245
Quadro 40 – Fenômeno: Mudando a dinâmica da família
Categorias /
Eixo Conceitos Categoria
Fenômeno
Manutenção da relação
Cansaço
Conflito
Fortalecimento da relação
Mudança na libido Relacionamento do
Mudança na vida sexual do casal com casal pós-chegada
chegada dos filhos dos filhos
Mudanças na relação
Perda da liberdade
Rel. conjugal muda com paternidade
4. Mudando a
Paternidade Dificuldades para vida social
dinâmica da
Homoafetiva O desejo de ter filho(s) Dualidade entre ter
família
Arrependimento ou não filhos
Filho(s) mudam a dinâmica do casal
Vida Social com a
A chegada dos filhos convocam os pais
chegada do filho
na inserção de um novo grupo (pais)
Mudanças na dinâmica da casa
Ter filhos gera ansiedade
Pais levam as crianças no trabalho Mudanças na
Crianças ajudam na mudança do dinâmica do casal
estigma e estereótipos das famílias de
origem do casal
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Esta é uma etapa permeada por uma certa intensidade de desconstrução e


reconstrução, que exige alguns movimentos psicológicos por parte dos pais para
poderem retomar e readaptar a rotina da vida. É uma fase cheia de desafios, pois é
necessário criar novos significados diante da parentalidade.

“[...] a gente está mais cansada, não sai para um restaurante...


Eh, muda a vida de um casal...”

“[...] Mesmo a libido, muda... mexe tudo!”

246
“[...] Ia colocar para dormir, acabava dormindo junto na cama
dele. E aí ia o outro lá acordar.... “Vem para cá, você dormiu!”.
Fora as emoções, as ansiedades... É um turbilhão de coisas!”

“[...] Eu cheguei a pensar, de fato, se a gente deu o passo errado


e na verdade a gente tinha que se separar e não ter um filho...”

“[...] Então para a gente já foi muita mudança, e ainda assim a


gente é muito tranquilo. A dinâmica da casa, muda tudo...”

“[...] A gente foi para lá, em tese, para descansar... Mas, acaba
que, com criança, você fica o tempo inteiro ligado. Eu acho que
é isso, essa função...”

“[...] às vezes você quer ter um tempo para você, sim a vida
muda, às vezes você não tem uma vida social como você
gostaria...”

“[...] Eu amo ser pai! O M. é o amor maior que eu tenho hoje.


Não dá para descrever o amor que eu tenho por ele, mas... É
só... Talvez eu tenha tranquilidade em poder verbalizar aqui que,
às vezes, cansa, que, às vezes, você quer ter um pouquinho de
tempo para você... Esse tipo de coisa...”

O RELACIONAMENTO PÓS A CHEGADA DO FILHO é intensificado com


cansaço, readaptações e alguns conflitos que fortalecem a relação. São convidados
a revisitar a liberdade que existia antes para adaptar a dinâmica familiar.
A dinâmica familiar necessariamente toma um novo rumo e, com isso, novas
estratégias precisam ser pensadas para que essa readaptação da vida conjugal
ocorra. Para isso, mudanças destinadas aos cuidados com o(s) filho(s), reorganização
da jornada profissional, administração do cansaço e até uma certa readaptação da
vida sexual, serão exigidas dos casais. Aqui, alguns sentimentos são mobilizados, tais
como: solidão, arrependimento, cansaço, dúvidas e ansiedades.
A DUALIDADE ENTRE TER E NÃO TER O FILHO se faz presente e o
arrependimento e a dúvida de ter feito a coisa certa logo aparecem. Esses são
sentimentos que tendem a ser minimizados com a construção do vínculo afetivo.

247
A VIDA SOCIAL COM A CHEGADA DO(S) FILHO(S) insere o casal em um
novo grupo social - o grupo de pais. Com isso, começam a participar de novas
conversas e discussões com outros pais/mães sobre cuidados de filhos, educação,
escola etc. Então, ocorrerem MUDANÇAS NA DINÂMICA DO CASAL, pois a
ocupação do papel de pai ajuda na quebra do preconceito e discriminação, tanto
dentro da família de origem quanto para a sociedade, e, assim, o casal ganha um
lugar de respeito e seriedade que antes era duvidado.
O próximo eixo do terceiro estágio é o que se chama de
DESENVOLVIMENTO DOS FILHOS e é composto por cinco principais fenômenos,
conforme quadro 41.

Quadro 41 – Estágio, tema e fenômeno


Temática
Estágios Eixo Categorias / Fenômenos
Principal
1.Sustentando a adoção
Funções 2. Construindo o vínculo
Terceiro Parentais e o Desenvolvimento 3. Proporcionando o apego seguro
Estágio Desenvolvimento dos filhos 4. Assumindo o cuidado entre o igual e o
dos Filhos diferente
5. Chegando mais um filho(a)
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Nesse momento da vivência da parentalidade, quando o(s) filho(s) estão


chegando do processo de adoção, os pais descobrem que ser cuidador é mais do que
cumprir tarefas a serem desempenhadas. É necessário dar suporte às inúmeras
demandas que surgem com os filhos. Para esse primeiro fenômeno, dei o nome de
SUSTENTANDO A ADOÇÃO.

Quadro 42 – Fenômeno: Sustentando a adoção


Categorias /
Eixo Conceitos Categoria
Fenômeno
Crianças abandonadas para adoção
A criança que adota os pais
Desenvolvimento Implicações 1. Sustentando a
Crianças disputam colo
dos filhos da adoção adoção
Convivência com outras crianças
Pais minimizam as questões da adoção
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

248
Sabemos, segundo Bowlby (1989), que a função biológica do apego é a
busca por aconchego, proteção e segurança. O comportamento de apego pode ser
compreendido por qualquer forma de comportamento que resulta em uma pessoa
alcançar e manter proximidade com outro indivíduo claramente identificado,
considerado mais apto para lidar com o mundo. As crianças podem estabelecer esse
relacionamento seguro com a mãe, pai ou substituto.
Sabe-se que a descontinuidade da parentalidade, o que acontece com muitas
crianças institucionalizadas, pode acarretar em comportamentos patológicos.
A maioria das crianças chega dos abrigos apresentando um modelo de
apego ansioso com evitação, marcado pela ausência de confiança. Esse modelo de
funcionamento é resultado das constantes rejeições experimentadas e pela
impessoalidade e distância das relações estabelecidas, tanto da família de origem,
quanto das relações dentro do abrigo.

“[...] a dona do abrigo me falou, dando risada, que a P. já tinha


colocado os dedos duas vezes na tomada e tinha levado um
choque... E eu não achei engraçado...”

“[...] Fui no abrigo na mesma noite, era um abrigo horroroso,


onde só tinha adolescentes... A nossa filha era a única criança
que tinha menos de 5 anos... Um desastre.... Era tudo
adolescente... A maioria deles com pai na cadeia, sem ninguém
que cuidassem deles, os adolescentes faziam o que queriam...”
Nossa filha dormia em um dormitório que tinha doze
adolescentes, esses adolescentes no inverno dormiam de janela
aberta, colocavam-se embaixo do cobertor... Mas uma criança
de 18 meses não sabe ficar embaixo do cobertor... Então,
quando a gente pegou, ela estava com infecção pulmonar, ficou
internada 10 dias no Hospital Sírio Libanês... Ou seja, uma coisa
absurda.... Não tinha rotina, os adolescentes deram Coca Cola
para ela às dez da noite, quando acordava, eles davam café, ela
comia um monte de chocolate...”

Os abrigos, em sua maioria, ainda são lugares precários que não oferecem a
base para um desenvolvimento satisfatório da saúde mental às crianças e

249
adolescentes. Esses aspectos podem ser notados tanto em abrigos dentro do Brasil,
quanto em abrigos no exterior, vide os relatos de dois participantes da pesquisa (um
brasileiro e outro americano).

“[...] O abrigo é muito precário. O Brasil tem uma visão de abrigo


que são aquelas mansões maravilhosas. Chegamos lá, uma
casa minúscula que nem tinha quintal, as crianças brincavam no
corredor da casa, aqueles corredores laterais, porque nem tinha
garagem, pois estava cheio de entulho, enfim...”

“[...] Fizemos uma turnê por onde ele estava e ele estava em um
quarto, talvez do tamanho daquele lado (aponta) e havia 25
berços... Eles estavam todos fechados para que os bebês não
pudessem levantar, porque havia apenas duas mulheres
cuidando de toda a sala... E nenhum bebê chora porque
ninguém vem quando eles choram...”

A transição do estágio anterior para o atual é composta pela persistência e


pelo desejo de cuidar, construir família e assumir a parentalidade. Exige persistência,
tolerância à frustração e muita dedicação, principalmente porque se sabe que não é
somente o adulto que adota a criança, mas o processo contrário, também é
verdadeiro.

Quadro 43 – Fenômeno: Construindo o vínculo


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Eixo Conceitos Categoria
Fenômeno
Crianças demonstram impulsos agressivos Herança

Crianças carregam maus tratos anteriores emocional e


história das
Vivência de luto do abrigo crianças
2.
Desenvolvimento Existe uma adaptação natural da criança na
chegada à casa dos pais A chegada da Construindo
dos filhos
A criança precisa de tempo para perceber que criança e o o vínculo
é definitivo
processo de
A criança precisa de tempo para compreender
que não será abandonada inserção na
Demora para a criança se sentir "em casa" família
Tempo para adaptação à nova rotina na família
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

250
Aos poucos, os pais vão CONSTRUINDO O VÍNCULO com o(s) filho(s) e essa
é uma jornada permeada por importantes passos. Essas evoluções são gradativas,
diárias e demandam atenção e dedicação contínua, principalmente pela HERANÇA
EMOCIONAL E HISTÓRIA DAS CRIANÇAS que adentram a família.

“[...] a vivência dele no abrigo tinha muita agressividade. Ele


tinha um amiguinho que dormia no mesmo quarto que ele e
estudava na mesma sala de aula e esse amiguinho era muito
agressivo. Então ele apanhava muito... Toda vez que a gente ia
lá ele estava com um machucado diferente, isso em duas
semanas que foi o processo de aproximação dele.”

“[...] A gente saiu com o abrigo, pois eles foram levar as crianças
ao teatro. A gente ficou com o P. e as outras crianças com o
abrigo. Você segurava na mão dele e ele esperneava: “me solta,
me solta, você está me machucando!” Ele era muito arredio...”

A CHEGADA DA CRIANÇA E O PROCESSO DE INSERÇÃO NA FAMÍLIA


ocorre através de uma adaptação natural. O tempo e espaço da criança é respeitado
pelos adultos, apesar da mobilização de sentimentos de angústia. Existe um convite
inconsciente ao vazio da parte dos filhos para os pais, pois, inicialmente, existe uma
não clareza das demandas e necessidades dos filhos. O processo de decodificação,
descoberta e aproximação requer tempo e disponibilidade interna de pais e filhos.
Inicia-se um novo tempo de perceber mudanças necessárias, avaliar os novos
espaços e papéis e compreender as competências para dar conta da demanda da
parentalidade. O nascimento de uma relação entre pessoas traz importantes
perguntas e questionamentos de ambos os lados.
O fantasma do abandono ronda e dificulta o processo de adaptação, fazendo
com que a criança necessite de mais tempo para compreender que este novo lar é
definitivo. Sendo assim, a paciência e compreensão são pontos importantes na
dinâmica do casal, pois este encontra nas negociações, conversas, escolhas,
possibilidades de ir acomodando, aos poucos, a chegada dos filhos e a nova dinâmica
familiar.

251
“[...] É, aos poucos... Ela se abriu um pouquinho, mas levou mais
ou menos um ano para ela se sentir super à vontade...”

“[...] Um ano e meio. Até que a gente fez uma reflexão. [...]
Temos a impressão que a criança precisa passar tanto tempo
com você quanto ela passou no abrigo para perceber que
realmente é definitivo, que é de verdade e que não é... Que ela
não vai sofrer um abandono de novo.”

“[...] Porque eu acho que ele já passou muito tempo


abandonado, ele ficou muito tempo em um abrigo. É, eu queria
que ele sentisse a casa, se apropriasse da casa dele. O D. acha
que eu quero super proteger o M., principalmente nesses
pontos, tipo, dia da família na escola...”

Os pais homoafetivos cuidam do ambiente, facilitando o fenômeno que


chamei de PROPORCIONANDO O APEGO SEGURO. Embora reconheça que uma
criança nasça provida de uma tendência ao desenvolvimento, tal desenvolvimento
depende de um ambiente facilitador (WINNICOTT, 1975).
Sabe-se que o ambiente é um elemento fundamental no desenvolvimento
emocional dos filhos e, quando há privação de afeto, ocorrem prejuízos significativos.
Em um ambiente facilitado, o desenvolvimento progride vindo de dentro da própria
criança.
As crianças, quanto mais confiantes de que suas bases são seguras e dão
suporte quando necessário, mais elas podem arriscar na vida (BOWLBY, 1989). Além
disso, no início da vida, os bebês nascem com potencialidades e essas somente serão
utilizadas se os adultos oferecerem um ambiente seguro. Um ambiente pobre de
recursos materiais e emocionais dificultam significativamente o desabrochar dessas
potencialidades.
Winnicott (1975) chamou de “adaptação materna primária” a capacidade que
a mãe ou substituto adquire para regredir e se identificar com as necessidades dos
bebês e crianças e isso é gradativo.

252
“[...] O vínculo você não cria no primeiro dia, você cria aos
poucos. E eu também não tinha muita empatia com crianças
naquela época...”

“[...] Quando ele acorda no meio da noite, às 2 da manhã, e ele


se deita, e você está confortando ele, você sente o seu coração
bater com o dele.”

Na figura 27 evidenciam-se duas fases importantes que os pais homoafetivos


enfrentam no processo de construção do vínculo com os filhos. Essas fases auxiliam
na facilitação de um ambiente suficientemente bom e do apego seguro. Na
primeira fase, alguns sentimentos despertados nos pais, no início da parentalidade,
têm relação direta com os sentimentos vivenciados na infância. Embora não se trate
de uma simples repetição de sentimentos, o exercício da parentalidade pode ser
comprometido quando pais apresentam incapacidade para tolerar e regular tais
sentimentos. Percebe-se que os pais homoafetivos relataram revivências às
respectivas infâncias, a fim de se identificar com as necessidades dos filhos, fazendo
o que denominei HOMOLOGIA DA INFÂNCIA DOS PAIS PARA COM OS FILHOS.
Este movimento faz com que revisitem as experiências infantis, a fim de construir um
novo modelo parental. Fato é que existe uma marca impressa da família de origem e
que serve de base para a construção desse novo modelo parental. Dessa forma,
esses pais conseguem oferecer o princípio de realidade aos filhos, além do sustento
e da proteção física e emocional.

253
Figura 27 – As fases do vínculo seguro

Pais homoafetivos e o cuidado com os filhos

Primeira fase: Regridem e


revivem a infância para compreender
e atender as necessidades de seus
filhos. Querem oferecer as coisas boas
vividas na infância.

Segunda fase:
Resignificam para construir o
próprio modelo parental.

Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

“[...] A sua infância vem toda à tona. Você começa a reviver


tudo, é super gostoso, você começa lembrando da sua infância,
fazer isso era legal, vou fazer para eles também...”

“[...] reviver é gostoso, mas de fato, assim... O fato de você ter


que decidir como você vai criar essa criança é muito conflitivo...”

“[...] quando o P. imita o irmão, a gente fala: “você não é o seu


irmão, você é o P. e você nunca vai ser o seu irmão. O seu irmão
é o seu irmão, você é você e você nunca será o seu irmão... O
papai C. é o papai C. e o papai G. é o papai G... Você não tente
ser o outro porque você não vai ser. Você é quem você é e a
gente te ama como você é! Então a gente fala muito isso com
eles...”

Para Winiccot (1975) “mãe” é aquele que atende ao bebê / criança na medida
das necessidades delas e não das suas próprias. Com isso, fica evidenciado no
comportamento dos pais homoafetivos esse comportamento, conhecido socialmente
como “materno”. Estes fazem alto investimento emocional para compreender as
demandas de seus filhos e atendê-las adequadamente, além de proporcionar um

254
ambiente suficientemente bom. Esse processo foi chamado de AFETO E
SEGURANÇA.

“[...] E os com meninos a gente trabalha muito a questão da


função e do cuidar. [...] O exercício do cuidar a gente gosta de
fazer cada um com as suas diferenças, a gente achou mais ou
menos o nicho de cada um, porque tem as diferenças desse
cuidar...”

“[...] Eu acho que o que faltou para o J. foi colo. [...] ele pede
muito colo, muito mais do que qualquer criança da idade dele e
a gente dá! A gente pega no colo muitas vezes ele é muito
carinhoso com a gente...”

“[...] as crianças vão no trabalho, eu apresento! Recentemente a


gente foi levar o P. para ele conhecer e materializar onde é esse
trabalho que eu vou todo dia, até para dar segurança para as
crianças de que elas não precisam se esconder, que elas não
precisam ter vergonha delas e da família delas.”

255
Quadro 44 – Fenômeno: Proporcionando o apego seguro
Categorias /
Eixo Conceitos Categoria
Fenômeno
Crianças demandam segurança
Abrigo oferece ambiente desprotegido Afeto e
Pais priorizam o contato e vínculo segurança
Pais usam afeto para dar segurança
Alto investimento emocional dos pais
Homologia da
Revivência da infância dos pais nos
cuidados com os filhos infância dos
Pais querem o melhor para seus filhos
pais para com
Desenvolvimento Pais querem dar aquilo que não possuíram 3.Proporcionand
para os filhos os filhos
dos filhos o o apego seguro
Crianças precisam de carinho e limites Educando os
Pais decidem pela criança
filhos
Pais evitam espaço para chantagem
Pais protegem os filhos do preconceito
Preconceito e
Pais ensinam filhos a se defender
Pais temem a sexualidade dos filhos discriminação e
Vivências de ataques pela a proteção com
homossexualidade
Aumento dos cuidados por serem pais os filhos
homossexuais
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Os pais homoafetivos oferecem carinho e afeto, mas também oferecem limites


e tomam as decisões, pensando nos cuidados das crianças. Eles evitam espaço para
manipulações das crianças e chantagens, preocupando-se em manter somente uma
palavra. Esse processo, chamei de EDUCANDO OS FILHOS.

“[...] Uma regra que temos muito clara é que não podemos deixar
as crianças arbitrarem entre os pais, exemplo: se ele falou uma
coisa, mesmo que eu não concordo eu sustento a posição dele.
Depois a gente briga sem as crianças, mas na frente das
crianças tem uma solidariedade importante.”

“[...] É importante para a criança! Se a criança percebe que os


pais não concordam entre eles, aí se abre a janela para uma
arbitragem permanente... Ela vai sempre tentar ir ao pai que tem
mais chance de conseguir.”

256
Rolou alguns acordos assim: um não pode desdizer o outro, se
está diferente a gente vai combinar de conversar depois...

“[...] vamos conversar, tanto sobre decisões boas, como


decisões ruins. Se vem um recadinho da escola dizendo que vai
ter uma excursão, a gente fala: “Filha, obrigado. Depois eu e seu
pai vamos conversar” e aí a gente resolve no particular, porque
a gente não queria que houvesse uma identificação das crianças
de quem é o pai policial ruim ou o policial bom, então, assim, a
gente decide no particular porque, se um quer e o outro não
quer, eles não sabem quem é que quis e quem é que não quis...”

Para proporcionar um apego seguro, uma das maiores dificuldades dos pais
homossexuais é o PRECONCEITO, A DISCRIMINAÇÃO E A PROTEÇÃO COM OS
FILHOS. Ocupar a função da figura de apego exige garantir a sobrevivência contra a
sociedade predadora, além de acolher e oferecer afeto (BOWLBY, 1989;
WINNICOTT, 1975). Para isso, os pais homoafetivos apresentam um aumento da
proteção aos seus filhos. Já havia mencionado anteriormente sobre a minha
dificuldade de autorização e acesso aos filhos das famílias homoafetivas americanas.
Tanto a minha percepção e compreensão sobre o evento, quanto da minha co-
orientadora, foram de que os pais protegem seus filhos em demasia para amenizar os
impactos de um mundo constantemente ameaçador, ora pelas vivências dos pais, ora
pelas vivências dos próprios filhos. O que os convida para um aumento significativo
de cuidados para evitar qualquer falha do ambiente que pudesse acionar maiores
defesas em seus filhos. Com isso, acabam evitando olhar para as diferenças que
naturalmente existem e supervalorizam a homoparentalidade, esta última,
principalmente no contexto brasileiro, constatado também na pesquisa de Farias
(2017).
ASSUMINDO O CUIDADO ENTRE O IGUAL E O DIFERENTE é um outro
fenômeno que representa o movimento através do qual os pais lidam com os cuidados
requeridos pela parentalidade, mas se deparam com desafios sociais advindos do
preconceito para com a homoparentalidade. Nem sempre esse preconceito e a
discriminação são direcionados para os adultos, pois, por vezes, ela é diretamente
vivenciada pelas crianças.

257
“[...] Pode ser que, no futuro, a criança tenha problema com
isso... Com bullying etc. São coisas resolvíveis, coisas que você
consegue lidar, mas se você começar a multiplicar as frentes, é
tipo, você tem isso... Você tem o bullying, você tem a cultura...”

Comumente enfrentam o processo dos CUIDADOS E ESTIGMAS SOCIAS,


afinal a sociedade não tem somente dúvidas acerca da capacidade parental, como da
orientação sexual e identidade de gênero dos filhos desses casais.
As famílias camaleão acabam adotando “as cores” do momento para se
adaptarem. Vivem constantemente com uma preocupação acerca da apresentação
de suas famílias, em função do grupo em que estão inseridos e isso gera desgaste.
Apesar de relatarem algumas dificuldades neste processo, gastam alta energia para
comprovar sua capacidade parental e de uma certa “normalidade”. Além disso, o
modelo internalizado devido à vivência familiar desses pais homoafetivos é
heteronormativo, o que faz com que repitam uma série de comportamentos das
famílias heteroparentais. Ao mesmo tempo em que se tem um movimento de
igualdade, existe a preocupação individualista de marcar a diferença. Quem tem a
vivência e experiência de dentro da família homoparental é bem diferente de quem
acha o que é lá dentro. E apesar do custo emocional que essas adaptações e desafios
geram para as famílias homoafetivas, o fundamental para o desenvolvimento sadio
depende do grau de adaptação entre as condições ambientais e as necessidades dos
indivíduos.

“[...] Então quando a gente fala isso, a gente fala: "você não
precisa ser homem ou mulher para ter o cuidado”. O cuidado é
uma questão de saúde e de autoestima".

258
Quadro 45 – Fenômeno: Assumindo o cuidado entre o igual e o diferente
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Fenômeno
Estigma social de que pais não sabem
Cuidados e
cuidar de criança
estigmas sociais
Cuidados com a criança e gênero
Pais também erram nos cuidados
Dificuldades no cuidado geram
angústia no casal
Vulnerabilidades
Cuidado deve ser feito pelos pais
do cuidar e do
Assumir responsabilidade do cuidar
cuidador
gera conflito
Pais se comparam com casais héteros

Sociedade pergunta sobre a mãe da


4. Assumindo o
Desenvolvimento criança (socialmente)
cuidado entre o
dos filhos Crianças associam as diferenças
igual e o diferente
dentro e fora de casa
Pais oferecem maior abertura para
temas relacionados à sexualidade
identidade de gênero
Diferenças e seus
Diferenças da família são colocadas de
dilemas
forma explicativa
O tema “diversidade” está em cima da
mesa
Casais homoafetivos apresentam medo
de ter filhos homossexuais
Homofobia internalizada nas famílias
homoparentais
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

VULNERABILIDADES DO CUIDAR E DO CUIDADOR mostra que esses pais


estão longe de qualquer fantasiosa perfeição de parentalidade e que todo esse
processo gera sentimentos de responsabilidade, angústia e constrangimento.

“[...] pode ser que no futuro a criança tenha problema com isso...
Com bullying etc. São coisas resolvíveis, coisas que você
consegue lidar, mas se você começar a multiplicar as frentes, é
tipo, você tem isso... Você tem o bullying, você tem a cultura...”

259
“[...] Não dá para adotar e deixar com alguém para cuidar,
porque assim você não consegue dar atenção.”

“[...] As pessoas às vezes diziam: “Hey, qual deles é a mãe?..."

“[...] a princípio ele dizia: "Ah, o meu amigo tem um pai e uma
mãe". A gente dizia: “Nossa, que chato né?! Que legal você ter
dois pais, muito mais legal que o seu amigo que só tem um pai.
E, na cabeça dele, aquilo era o máximo e até hoje eu acho que
ele não entende muito essa diferença...”

As DIFERENÇAS E SEUS DILEMAS vão sendo apontados dentro e fora de


casa, aumentando a complexidade da trama da homoparentalidade e seus desafios.
As famílias camaleão olham para dentro e para fora a fim de desenvolver estratégias
de adaptação ao meio social.

Quadro 46 – Fenômeno: Chegando mais um filho(a)


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Fenômeno
Irmãos são bem vindos para ajudar no
desenvolvimento
5. Chegando
Desenvolvimento Importância de comunicar o filho da Irmãos e
mais um
dos filhos chegada do irmão segundo filho
filho(a)
Adaptação na chegada do segundo filho
Irmãos sentem ciúmes um do outro
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

É com o tempo que a parentalidade atinge um certo grau de acomodação


interna, minimizando os sentimentos de medo, angústia e cansaço. Para alguns, é
chegada a hora de pensar no próximo filho(a). Para esse fenômeno dei o nome de
CHEGANDO MAIS UM FILHO(A). Os pais homoafetivos reconhecem a importância
de irmãos no desenvolvimento dos filhos e, quando optam por essa escolha, fazem
um trabalho de conversa e adaptação com o filho atual.

“[...] A gente sempre quis dois. A gente até colocou que aceitava
irmãos, mas daí o C. estava para adoção sozinho. [...] E aí, da
chegada do P. já não foi assim, a gente já estava mais
descolado. Não é que deu menos trabalho, porque daí são

260
outros trabalhos... [...]você tem que cuidar do relacionamento
dos irmãos, algo que ele não tinha no início. Antes era nos dois
e a criança, agora somos nós dois e as duas crianças.”

[...] a gente comprou uma cama nova para ela e deixamos a


cama pequena, tipo berço, e falamos que iria chegar um irmão.
Então já tinha o espaço do irmão, tinha que acolher...”

“[...] ia chegar um irmão para brincar, ela estava super feliz,


contava para todo mundo na escola. Quando a gente foi
conhecer o J., depois a gente falou para ela que o irmão iria
chegar...”

“[...] No mesmo dia antes de ir para escola, avisamos que a noite


iria ter o irmão que ela iria conhecer. Logo que ela chegou,
estava super tranquilo, beijou, estava super feliz e pronto. A
sorte é que já dava para ter uma interação com ele.”

A chegada de mais um filho(a) requer uma renegociação conjugal, além de


conversas e acompanhamento próximo com o filho a fim de amenizar qualquer tipo
de conflito e desconforto. Principalmente pelo fato dessas crianças carregarem
histórias de abandono e perda de lugar, o que pode convocar inúmeros sentimentos.
O último eixo do terceiro estágio é o que chamamos de ESCOLA e é composto
por cinco principais fenômenos, conforme quadro 47.

Quadro 47 – Estágio, tema e fenômeno

Estágios Temática Principal Eixo Categorias / Fenômenos

1.Cuidando da educação dos filhos


2. Alternando entre incluir e excluir a
Funções Parentais e o homoparentalidade
Terceiro
Desenvolvimento dos Escola 3. Ensinando a exclusão
Estágio
Filhos 4.Experimentando o preconceito dentro
da escola
5.Supervalorizando para se defender
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

261
O processo de educação dos filhos é extremamente importante, pois existe
uma preocupação para que essas crianças construam uma convivência saudável com
outras crianças. Por esse motivo, inicialmente, os pais optam por colocar seus filhos
na escola, a fim de facilitar o processo de socialização. Para este fenômeno, dei o
nome de CUIDANDO DA EDUCAÇÃO DOS FILHOS.

Quadro 48 – Fenômeno: Cuidando da educação dos filhos


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Eixo Conceitos Categoria
Fenômeno
Pais querem que filhos convivam com
outras crianças
Pais optam por filhos na escola ao invés de
babá
Preocupações de
Pais querem aproximação na escola
pais sobre a
Pais conversam sobre homoparentalidade
escolarização dos
na escola
filhos
Pais refletem conjuntamente qual a melhor
1. Cuidando da
escola para os filhos
Escola educação dos
Pais optam por escola em período integral
filhos
Escolas demandam alto custo
Casal divide as tarefas escolares
Geralmente ambos os pais participam das
A paternidade e os
reuniões escolares
cuidados com a
Geralmente ocorre um revezamento entre os
educação dos
pais para levar filhos na escola
filhos
Pais demandam adaptações do discurso da
escola (inclusão)
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Nesse momento do ciclo de vida das famílias camaleão, os pais discutem


sobre a educação dos filhos e a melhor opção de escola. Esse período é permeado
por dúvidas e angústias, afinal, o que mais desejam é evitar situações de
constrangimento para o(s) filho(s). Esse é um sentimento que ronda os pais
homoafetivos diante de muitas decisões advindas da parentalidade. Para evitar
maiores problemas, visitam escolas previamente, investigam a metodologia de
ensino, averiguam se há experiência anterior com famílias homoparentais, para então
tomar uma decisão.

262
“[...] mesmo eu dando aulas na escola pública, nós, naquele
momento, não nos sentimos confortáveis em colocá-lo em
escola pública, por isso colocamos ele em uma escola particular.
E ele só estudou em escola particular desde a pré-escola,
porque nós sentimos que queríamos que ele crescesse, se
desenvolvesse e crescesse em um ambiente seguro...”

A rotina da escola exige maior acompanhamento e, apesar de termos relatos


de casais que alegam “dividir” as demandas escolares, sabemos que, no final, um pai
sempre se apropria mais delas do que o outro e isso acontece em consonância com
os aspectos financeiros, já que o pai que mais traz dinheiro para casa (provedor)
acaba tendo menor participação nas demandas escolares.

“[...] Cidade pequena tem essas coisas, essa proximidade muito


fácil. [...] como a minha função de mãe era ir na escola, eu fui na
coordenadora pedagógica, fui na diretora, fui na professora dos
dois. O G. foi para creche e a F. estava no ensino fundamental,
eu me apresentei para os três...”

Para se certificarem de que a escola é inclusiva e atenderá as necessidades


das famílias homoparentais, os pais homoafetivos demandam adaptação do discurso
da escola. Apesar disso, sabemos que esse é um desafio gigantesco e que temos
ainda muito o que avançar.

“[...] Quando uma escola recebe um aluno cadeirante, tem que


adaptar rampa, tem que adaptar escada, corrimão, banheiro,
tem que fazer adaptações, pois ela está recebendo um aluno
diferente. É o caso da minha filha... Não vai precisar fazer
adaptações estruturais, mas vai precisar fazer adaptações
comportamentais, o discurso... Não dá para falar: “Crianças,
levem esse bilhetinho para a mãe... Crianças, peçam para a
mamãe ajudar na lição de casa, vai ter reunião de mães...”

Assim, o início do processo de educação do(s) filho(s) pode ser compreendido


como uma etapa de investigação, pesquisa e averiguação do funcionamento das
escolas, para que elas atendam as demandas da família homoparental. Isso inclui a

263
minimização das diferenças, a compreensão dos diferentes configurações familiares
e a multiplicação da diversidade.

“[...] A nossa ideia era um colégio que tivesse a nossa linha


pedagógica da formação do indivíduo para a sociedade, então
que tivesse esse olhar e não simplesmente conteúdo...”

“[...] A gente olhou vários colégios aqui perto e não havia vagas,
pois já era o mês de abril... Perguntávamos: “Como vai ficar a
rotina e quais são os custos disso?” E aí tinha opção do colégio
que eu dou aula, que eu estudei e que eu sei que tem essa
visão... É muito aberto, todo mundo sabe da situação, lida
abertamente”

“[...] Mas, antes, a gente já estava pensando em colocar ele na


escola, estávamos vendo escolinha particular. Eu já tinha ido lá
no Cei e a princípio tinha gostado. Fui chamado lá e a gente foi
conhecer. Quando eu falei com ele, ele falou: “de jeito nenhum,
mas, quando ele conheceu ele gostou...”

“[...] Eu acho que principalmente conviver com outras crianças,


ele fica entediadíssimo de ficar dentro de casa. Então a gente
pensou: “Vamos colocar ele meio período, das 7 às 11 da
manhã, para ele poder ter esse convívio.”

“[...] Isso é uma das coisas mais bizarras, pois a gente não vê
nenhum outro casal gay. Nas escolas que a gente foi em Moema
eu perguntei e nenhuma tinha casos anteriores”

“[...] Eu queria colocar ele em outra escola que tivesse uma


criança ou adotada ou filhos de casais gays... Eu queria que
tivesse essa interação com semelhantes.”

Ainda temos um comportamento por parte das escolas que denominei


ALTERNANDO ENTRE INCLUIR E EXCLUIR A HOMOPARENTALIDADE. Como foi
mencionado anteriormente, os pais preocupam-se em garantir um ambiente seguro e
protegido. Querem evitar as vivências de preconceito e descriminação dos seus filhos
264
pelo fato de terem pais gays. Porém, o que se percebe é que existem as ESCOLAS
QUE ACOLHEM A HOMOPARENTALIDADE e as ESCOLAS QUE DIFICULTAM A
HOMOPARENTALIDADE.

Quadro 49 – Fenômeno: Alternando entre incluir e excluir a homoparentalidade


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Fenômeno
A escola acolhe os pais homoafetivos
A escola é colaborativa com a família
homoparental
A escola flexibilizou datas comemorativas
para adaptar às famílias homoparentais
Professores são legais com as crianças Escolas que acolhem
Escola quis aprender com família a homoparentalidade
homoparental
Escola buscou adaptação diante das
2. Alternando entre
demandas da família homoparental
Escola incluir e excluir a
A escola percebeu necessidade de
homoparentalidade
adaptação da criança
Pais pedem uma escola que se adapte à
realidade homoparental
Famílias homoparentais se adaptam à
Escolas que
agenda escolar
dificultam a
Pais que precisam adaptar as datas
homoparentalidade
comemorativas (dia das mães e pais)
Dificuldade para compreender e lidar com
famílias homoparentais
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

As escolas que dificultam a inclusão de famílias homoparentais trazem um


discurso arcaico, baseado no modelo de famílias “ditas” como tradicionais,
desconsiderando não só as famílias homoparentais, mas também as famílias
monoparentais e qualquer outro arranjo que não aquele constituído por um pai e uma
mãe heterossexual.
Os pais homoafetivos comumente pedem às escolas que adaptem o discurso
para atender e considerar a família homoparental como mais uma forma de ser família,
mas, infelizmente, temos escolas que não conseguem compreender as mudanças e
a necessidade de incluir a homoparentalidade.

265
“[...] então tivemos preconceito do tipo: “Bilhetinho para a mãe,
você prefere que coloque no nome da mãe? Da tia? Para a avó?”
Aí eu falei: “Não, vai ser para nós!” “E o presentinho de dia da
mãe?” Eu disse: “Vai ser para nós...”

“[...] Então vinham questões logo no primeiro ano: “José sai para
trabalhar, Maria ficava em casa cuidando de Jesus... E a gente
questionou e disse não, assim não dá...”

“[...] Mesmo porque o colégio manda, exemplo: “Hoje no dia das


mães você vai massagear os pés dela, hoje você vai pentear o
cabelo da sua mãe...” Mas, na semana do dia das mães, que
antecede o domingo que geralmente só vão as mães na missa,
aí a gente vai os dois...”

“[...] Em uma dessas lições apareceu algo do tipo: "traga foto da


sua mãe", Ai a gente falou: “C., a gente não tem foto da sua mãe,
mas você pode colocar uma foto nossa ou desenhar como você
imagina a sua mãe.” Aí ele foi lá, fez um desenho lindo, todo
colorido e aí a gente tirou a foto e depois imprimiu...”

De maneira geral, as escolas querem evitar a possibilidade de conflito, tanto


para com os pais homoafetivos, quanto para com os pais heteroafetivos. Isso implica
um investimento por parte das escolas para manter o status quo e não mudar.
Apesar da dificuldade de flexibilidade e mudança de boa parte das escolas,
temos também aquelas escolas que estão iniciando um processo de busca por
aprimoramento e adaptação frente às demandas das famílias homoparentais.

“[...] é uma escola ultra colaborativa... Por exemplo, no “dia das


mães” eles transformaram no “dia do amor incondicional” e a
gente também ganha presente.”

“[...] Eles adoram o colégio, ele é um colégio maravilhoso. Tem


muito verde, tem gambá, tem macaco, então eles estão lá, eles
estão no meio da natureza, os bichos soltos no meio da natureza
e aí, assim, os professores são muito bacanas.”

266
“[...] Hoje não mais, a escola, os funcionários já se adaptaram a
situação dos dois. [...] Alguns professores trataram isso durante
o ano mostrando como as famílias são diferentes. Hoje a
questão da identidade de gênero tem que ser cuidada, foram
feitas coisas mais sutis...”

Muitas escolas ainda não estão preparadas para mudar a forma tradicional de
lecionar, problematizar e informar sobre as diferentes configurações familiares. O que
muda de uma escola para a outra é que algumas delas estão cientes das mudanças
necessárias e estão gerando abertura para aprender.

“[...] Mas a coordenadora da escolinha também falou: "Olha,


para a gente também vai ser um aprendizado, porque se eu falar
para vocês que eu sei lidar, também não sei, mas vai ser ótimo
para as professoras. Não só para a turma dele! São 3
professoras na sala, mas para as outras também, trazer isso
para o nosso meio..."

Lá na escolinha não tem dia do pai, nem dia da mãe, não que
isso seja um problema, mas, se tiver, ele vai ter que passar por
isso.”

Um dos grandes desafios para as famílias camaleão é o da inclusão dentro


da escola. Digo que o desafio é para toda a família camaleão porque, de um lado, os
filhos recebem diretamente a marca da “diferença” pela ausência de uma “mãe”, e os
pais também sofrem quando não há flexibilidade nas datas comemorativas, quando
são deparados com livros didáticos que propõem modelos de família tradicional e não
trazem a possibilidade da diversidade. Isso significa que ainda há muitas escolas que
continuam ENSINANDO A EXCLUSÃO.
Deparei-me com esse fenômeno quando evidenciei a presença dos processos
A VELHA FORMA DE ENSINAR e PRECONCEITO E EDUCAÇÃO. As escolas
continuam sendo um ambiente propagador de preconceito e discriminação.

267
Quadro 50 – Fenômeno: Ensinando a exclusão
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Fenômeno
A escola traz conteúdo religioso
A escola reforça os papéis de gênero A velha forma de
Pais pedem para a escola minimizar ensinar
brincadeiras de gênero
Pais compreendem que filhos passam por
situações constrangedoras na escola
Pais homoafetivos recebem a marca da
3. Ensinando a
Escola diferença na escola
exclusão
Escola não sabe lidar com datas
Preconceito e
comemorativas e a homoparentalidade
educação
Crianças sofrem preconceito na escola
Pais ensinam a criança a se defender do
preconceito
Pais participam da escola para minimizar
experiência de preconceito
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Ainda existem muitas escolas que propagam conteúdo religioso e sabe-se


que, sob a ótica da maioria das religiões, o conceito de família tende a ser fechado,
ou seja, homem, mulher e filhos, o que traz para as famílias homoparentais novos
desafios.

“[...] Nesses pontos a gente é bem flexível, inclusive com a


religião, eu sou religioso, eu sou cristão e vai parecer pejorativo,
eu sou fanático dentro da minha fé, mas eu quero respeito dentro
da escola! Eu respeito o direito de quem não é religioso, de quem
é ateu. [...] assim, apesar de ser fanático, meus filhos rezam
dentro de casa e na escola eu não quero. Então, quando veio
perguntinha assim: “Permite oração?” Não, não permito, a não
ser que seja uma oração genérica, do tipo papai do céu... Uma
coisa genérica eu tolero, agora oração do pai nosso eu não
tolero...”

“[...] a gente colocou em uma escola religiosa, mas tem uma


linha progressista. Mas, claro, traz a tradição e o peso da igreja.”
268
Além de driblar todas as situações impostas por um modelo de educação
tradicional, as famílias homoparentais se deparam com demandas que vão contra
uma visão de mundo diverso. Isso as convida constantemente para adaptações,
flexibilidade e mudanças de rota. As comemorações dos dias das mães e pais trazem
diretamente a associação de gênero, fazendo com que os pais se adaptem.

“[...] Teve ano (no dia das mães) que eles teriam que pintar uma
echarpe. Aí eles pintaram duas echarpes, uma para a vovó,
outra para a vovó Eugenia e aí a gente tenta tratar com a maior
naturalidade...”

“[...] Surge nas lições fotos... [...] desenhe a barriga da sua mãe
até o seu nascimento ou até hoje. A Linha da vida... Então,
vamos lá, 7 anos... Aí um desenha um berço, aí todo mundo
pinta, aí a gente colou os desenhos, na verdade a gente tirou
foto dos desenhos...”

Assim, com o tempo, as crianças vão EXPERIMENTANDO O


PRECONCEITO NA ESCOLA. As crianças, naturalmente, vão mostrando as
diferenças por possuírem dois pais e isso é motivo de estranhamento por parte de
outras crianças, principalmente porque a associação de cuidados de crianças está
para a figura de uma mãe e não para pais. Todas essas situações trazem OS
DESAFIOS DAS CRIANÇAS NA ESCOLA.

“[...] teve uma situação que uma menininha veio assim e falou:
“Professora, é verdade que dois homens podem casar?” Aí a
professora disse: “É, se eles se amarem, eles podem casar sim”.
E aí o C. estava do lado e falou: “Está vendo que eu tenho dois
pais”.

Isso segue aquela mesma associação de gênero socialmente aceita e


reforçada. Fato é que esses pais lutam e relutam para demonstrar os cuidados para
com seus filhos a fim de quebrar essa lógica carregada por uma herança sócio-
histórica que não atende e tampouco dá conta dos avanços e mudanças sociais.

269
Quadro 51 – Fenômeno: Experimentando o preconceito dentro da escola
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Fenômeno
Crianças mostram que têm dois pais na escola
A escola demanda a figura materna
Os desafios 4. Experimentando
Tirar o peso da criança da escola da família
Escola das crianças o preconceito
homoparental
na escola dentro da escola
Crianças sentem preconceito de outras
crianças
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Com tudo isso, as famílias camaleão novamente precisam se ajustar para


garantir maior proteção para os filhos e essa é uma preocupação constante dos pais.

“[...] Me voluntariei três dias por semana para ajudar na sala de


aula dele e me tornei uma presença para que as outras crianças
pudessem ver: "Oh, pais gays são como qualquer outra pessoa";
foi muito deliberado.”

“[...] o P. teve uns incidentes na fase de adaptação dele no


jardim, aí a gente falou com a professora, a professora falou
assim: “É super normal, eu entendo como é difícil o luto e ter que
lidar com tantas rupturas.””

“[...] Assim, na sala do M. tem a foto das famílias e a do M. sou


eu e o J., os pais. Acho que todo mundo já sabe, porque a gente
chega lá de manhã para deixar ele e encontra com os outros
pais... Eles devem sondar por trás quem são...”

A participação constante dos pais homoafetivos na escola tem a intenção de


aumentar a proximidade, a fim de evitar situações constrangedoras e garantir maior
adaptabilidade dos filhos. Porém, essa proximidade traz consigo uma intenção de
proteção aos filhos e evitação de conflitos. Acaba sendo inevitável que os filhos
passem por situações difíceis e que, mais cedo ou mais tarde, ocorra a revelação das
diferenças. O que tenho notado é que A ANGÚSTIA E A MARCA DA DIFERENÇA
fazem com que surja o fenômeno que denominei SUPERVALORIZANDO A FAMÍLIA
HOMOPARENTAL PARA SE DEFENDER.

270
Quadro 52 – Fenômeno: Supervalorizando para se defender
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Eixo Conceitos Categoria
Fenômeno
Pais supervalorizam a homoparentalidade
5. Supervalorizando
Pais estimulam a ideia de que ter dois pais é A angústia e
a família
Escola especial (marca da diferença) a marca da
homoparental para
Busca de identificação com famílias (iguais) diferença
se defender
homoparentais para lidar com a escola
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Uma pergunta constante feita pelos pais homoafetivos é: “Como vamos


administrar as situações de preconceito e discriminação nas vivências dos
nossos filhos?”. Fato é que essas situações convocam sentimentos anteriormente
vividos pelos pais, afinal, estes possuem as marcas do preconceito em suas histórias.
Desta forma, acabam supervalorizando a família homoparental para amenizar a dor
do preconceito e discriminação nos filhos.

“[...] é, filho, as pessoas são diferentes. Você não tem um pai


que é gay, que é casado com outro homem? Somos diferentes,
mas o papai não se sente mulher, ela se sente e trabalha o corpo
dela para isso. Aí ele disse: “Ah tá...”! Aí eu falei: “Não é a maioria
que é assim, mas as pessoas são diferentes...”

Em alguns momentos é difícil encontrar a melhor forma de falar sobre o tema,


utilizando da supervalorização da diferença para dar conta da dor de não adentrar a
heteronorma.

“[...] E, a princípio, a gente tentou comprar o G. de outra forma.


A princípio ele dizia: "Ah, o Ryan ele tem um pai e uma mãe.” E
a gente dizia: “Nossa, que chato né? Que legal que você tem
dois pais, muito mais legal que o Ryan que só tem um pai.” E na
cabeça dele aquilo era o máximo e até hoje eu acho que ele não
entende muito essa diferença...”

Alguns ajustes na criação do(s) filho(s) vão sendo feitos e é através das
experiências de dor que a família se fortalece. Uma das estratégias para ajudar na

271
compreensão do mundo e das diferenças é participar de encontros com outras
famílias LGBT’s.

“[...] E nós começamos a ter contato com outras famílias


homoafetivas e teve situações de irmos a reuniões e eles irem
também e eles começaram a ver que eles não são únicos, que
tem outras crianças que são a minoria, porém não são únicos.
As sutilezas são essas, você vai a um lugar, as pessoas
mostram surpresa "nossa, são seus filhos? Eles são
adotados?..."

“[...] você sabe que éramos parte de um grupo de apoio com 8


outras famílias e nós nos encontrávamos uma vez por semana
e trazíamos os nossos filhos. Penso que estávamos muito
conscientes de que queríamos que os nossos filhos crescessem
sem pensar que éramos diferentes. Que eles eram apenas parte
de uma família, então...”

Esses encontros possibilitam a identificação entre as crianças, amenizando


sentimentos de exclusão e medo. Com isso, as crianças descobrem que não são
únicas, que existem mais famílias como a delas e isso traz boas sensações.
O contexto do preconceito dentro das escolas e a demanda para cuidar das
diferenças influenciam nas ações das famílias homoparentais e é nesse momento que
elas acabam FALANDO SOBRE AS DIFERENÇAS DENTRO DE CASA.

272
Quadro 53 – Fenômeno: Falando sobre as diferenças dentro de casa
Categorias /
Eixo Conceitos Categoria
Fenômeno

Abertura para falar sobre sexualidade


Exposição das diferenças na sociedade
Discussão sobre identidade de gênero Escola convoca o
As diferenças da família ganham espaço nas tema dentro de
discussões 6. Falando
casa
Diversidade é ensinada com frequência sobre as
Escola Casais homoafetivos apresentam medo de ter diferenças
filhos homossexuais
Maior abertura e flexibilidade nas brincadeiras dentro de
Gênero e as
(gênero) brincadeiras na casa
Pais pedem flexibilidade nas brincadeiras e gênero escola
Abertura para
Pais apresentam maior flexibilidade quanto à temas como
identidade de gênero dos filhos expressão/identida
de de gênero
Fonte: TEMPERINI, Carlos Augusto Teixeira

Comumente, as famílias homoparentais precisam ter conversas sobre


orientação sexual, identidade de gênero e outras formas de ser família, já que esse
tema fica ressaltado nas vivências de seus filhos.
Com tanta pressão social, ainda temos pais homoafetivos que temem a
homossexualidade dos filhos, não pelo fato de não aceitarem, mas sim pelo fato de
repetirem as suas histórias de preconceito. Apesar desses receios aparecerem, os
pais continuam levantando a bandeira de que querem que seus filhos sejam livres na
expressão do amor.

“[...] Queremos que ele cresça livre! Tínhamos medo de


pressioná-lo enquanto hétero ou ser pressionado a ser gay. [...]
mês passado teve uma entrevista que a menina perguntou para
ele: "E aí G.? Como que está na escola?” Foi por Skype... Ele
estava sozinho e nós na cozinha. Ai ela perguntou: “Como é que
estão as meninas, já tem namorada?”

A sociedade insiste na preocupação de que pais homoafetivos estejam


“reproduzindo” filhos homossexuais. Fato é que, apesar dos pais serem contaminados
com essas preocupações, eles manifestam o desejo de terem filhos livres e felizes.
Dessa forma, demandam maior flexibilidade da escola nas brincadeiras associadas a

273
gênero, a fim de não e cercearem seus filhos. Querem que a expressão de gênero de
seu(s) filho(s) seja livre e que atenda o querer.

“[...] A princípio, a gente não quis colocar essa coisa de gênero;


ele gosta mesmo é de Super Heróis e a gente sempre deixou
claro para ele que, brincando, ele pode ser qualquer Super
Herói, até a mulher maravilha, a Elsa do Frozen... A princípio, a
gente começou a estimular ele na brincadeira dizendo que eu
era a mulher maravilha para não criar nele um preconceito de
que ele precisa ser um personagem masculino.”

“[...] Hoje nós educamos nossos filhos para eles serem livres. Se
você quer ser mulher, se você quer ser homem, tudo na sua
hora. Hoje ele se sente livre. Conversamos na escola com a
professora que, se caso meu filho venha brincar com bonecas,
não é para cortar e espero que você corte qualquer reação
negativa dos amigos dele porque ele pode brincar do que ele
quiser.”

Assim, as famílias camaleão vão domando as situações e se adaptando a


elas. Oferecem ao(s) seu(s) filho(s) proteção e cuidados para o fortalecimento da
personalidade e, comumente, trazem reflexões sobre as inúmeras possibilidades do
mundo, a fim de amenizar a dor da marca da diferença.
A sociedade insiste em questionar a habilidade de pais cuidarem de crianças
e associam cuidados ao gênero feminino. Pais homoafetivos apresentam histórias
sustentadas no amor, na proteção e no carinho para com seus filhos, comprovando
que a associação de gênero aos cuidados de crianças é algo equivocado, advindo de
uma construção social baseada em contextos sócio-históricos longínquos.

6.4 Revisitando o Ciclo das Famílias Camaleão

O primeiro estágio caracteriza-se pela luta dos homossexuais na construção


de um espaço psicológico seguro, tendo como tema central a homossexualidade e
a homofobia e a necessidade de driblar as situações de preconceito e discriminação
advindas do convívio, tanto dentro, como fora de casa.

274
São inúmeras as formas de agressão que obrigam a adaptações constantes.
As dificuldades dentro de casa oferecem as faces da homofobia internalizada e é
ai que vão sendo criadas as diversas estratégias para garantir um caminhar menos
doloroso. É chegada a hora de reconhecer o preconceito que mora lá fora, porque
as vivências de preconceito e discriminação perpassam os muros de casa e adentram
as igrejas e religiões, o mercado de trabalho, as instituições educacionais, entre
outras.
A busca pelo pertencimento e a inclusão, por vezes, convoca a construção de
mentiras, a fim de atender as demandas da heteronorma. É nesse momento que
ocorre o processo que denominei oprimir e repetir o opressor. A construção social
de uma visão estereotipada acerca dos homossexuais espalha simbolicamente a ideia
de que são brancos, bem-sucedidos, ricos, inteligentes e bonitos, o que não dá conta
da realidade e gera constantes adaptações dos que não se enquadram nessa visão,
principalmente no campo do trabalho.
O desejo de casar, construir família traz a necessidade de adentrar novos
caminhos, para dar vazão ao afeto e encontrar um parceiro que aceite compartilhar a
vida. Quando o endereçamento do afeto a outra pessoa do mesmo sexo é feita e os
laços são construídos, nasce o desejo de se tornar família.
O segundo estágio caracteriza-se pelo estabelecimento do casamento
homoafetivo e pela reivindicação do direito de existir como família. A conquista
dos direitos é importante, mas fica secundária diante do afeto. A união abre
possibilidades para se viver uma vida a dois com o aparato da lei, o que facilita
angariar um novo status social.
Com o desejo de construir família, o casamento ganha sentido de realização
de sonho e a possibilidade real de constituir família; além disso, os casais
homoafetivos aumentam a sensação de pertencimento social e adentram uma nova
categoria – a categoria dos casados.
A legitimação da conjugalidade, a realização do sonho, a garantia dos direitos
advindos da legalização da união fortalecem o casal para aumentar a família.
Passada a fase do casar e de viver plenamente todos os aspectos da conjugalidade,
inicia-se o processo de reavaliar a vida a dois para projetar um futuro e iniciar o
processo de adoção de um(a) filho(a). Essa etapa da vida é recheada por
inseguranças, medos e oscilações entre o querer e a dúvida de estar fazendo a coisa
certa.
275
O terceiro estágio caracteriza-se pelo reconhecimento das funções parentais
e o desenvolvimento dos filhos. Tudo começa com a complexidade da adoção, não
pelo processo em si, mas pelos sentimentos mobilizados durante todas as etapas.
Inicia-se com o atendimento desuniforme dos profissionais do judiciário, pois
há uma ambiguidade de informações desencontradas, há tantos profissionais
inadequados, quanto profissionais adequados, o que contribui para uma vasta jornada
até a chegada da criança.
O preenchimento do cadastro de adoção gera angústia na escolha da criança.
Os casais homoafetivos, predominantemente buscam crianças menores de cinco
anos de idade, brancas ou pardas, com aceitação de doenças fisiológicas leves. O
processo que ocorre aqui é a justificativa para amenizar a culpa por escolher e
automaticamente também excluir uma parte das crianças e adolescentes abrigados.
Essa justificativa tem por objetivo amenizar a tensão de buscar a criança que atenda
a idealização dos pais.
Passado o preenchimento do cadastro de adoção, chega a hora de adaptar
o tempo interno e o tempo externo; isso significa que existe uma espera não
controlável que gera angústia, ansiedade e frustração quanto à chegada da criança.
É neste momento que há um espaço para fantasiar as características da criança que
vai chegar.
É dada a largada da parentalidade no campo da imaginação, o que exige a
desconstrução da visão romântica para realizar o lugar de ser pai. Este momento é
permeado por sentimentos de medo.
Quando chega o momento da recepção do(a) filho(a), nasce a paternidade
homoafetiva, o que requer a desconstrução e construção dos modelos parentais. É
nesse momento que os novos pais iniciam os processos de cuidado, encarados com
preocupações, atenção e correrias de última hora. Nessa fase da vida, as mudanças
são tantas e tão rápidas que as famílias camaleão vivem desafios, mudanças e
adaptações constantes.
Ocorre uma mudança completa de foco e a atenção do casal passa a ser
totalmente voltada para a criança. Inicia-se a construção de um novo espaço
psicológico para a chegada do filho e o repensar sobre as mudanças na dinâmica
familiar.
Com a chegada da parentalidade, também chegam as demandas sociais, e a
propagação de que homens não possuem o “dom” para cuidar de crianças. A
276
manutenção desse mito social continua sendo sustentada pelas relações assimétricas
de poder, gerando constantemente situações de adaptação.
Os pais homoafetivos tendem a flexibilizar os cuidados do(s) filho(s), porém,
ainda assim há uma prevalência daquele que ocupa as ditas “funções maternas”, já
que este lugar (função) carrega um estigma de inferioridade, dificultando a aceitação
do próprio casal sobre essa questão.
Tornar-se pai é um processo contínuo e diário que requer parceria do casal.
É um momento grande de adaptação na vida do casal, principalmente pelas
sensações de cansaço e esgotamento que a chegada de um filho traz consigo. O o
processo de aprender a cuidar e ser cuidador, o que requer negociações constantes
entre o casal. Essa etapa traz experimentações de papéis e é vivida como um
momento permeado por desafios fundamentais para o estabelecimento de uma base
sólida diante das relações familiares.
A chegada de uma criança facilita a aceitação da homoparentalidade por parte
da família de origem que acaba auxiliando nas demandas da parentalidade. Esse
momento pede um aumento significativo de disponibilidade interna, atenção e prática
dos cuidados para com a criança.
A dinâmica da família muda e os pais homoafetivos encontram suas
referências internas nas vivências na posição de filho para ocupar plenamente a
posição de pais. A vida social do casal é modificada e novas readaptações são feitas.
A maioria das crianças institucionalizadas carregam inúmeras experiências de
desproteção e adentram as famílias homoparentais carregando marcas da
precariedade dos abrigos que, em sua maioria, não oferecem uma base adequada
para o desenvolvimento satisfatório das crianças.
Existe uma vasta jornada para construir o vínculo diante de toda a herança
emocional carregada pelas crianças. A chegada da criança demanda uma
adaptação que é respeitada pelos adotantes, que tendem a sentir angústia, já que é
um processo demorado. Nota-se que os pais homoafetivos são demasiadamente
preocupados com o ambiente, a fim de proporcionar um apego seguro.
A homologia da infância dos pais para com os filhos oferece
possibilidades para a experimentação de coisas boas. Com o tempo os pais
homoafetivos revivem e resignificam suas infâncias para construir um novo modelo
parental e assim oferecer maior proteção.

277
Afeto e segurança passam a fazer parte das escolhas dos pais homoafetivos
que precisam compensar a hostilidade do mundo para com seus filhos. As crianças
iniciam as suas vivências de discriminação e a homofobia volta a assombrar, fazendo
com que os pais aumentem a atenção à proteção. As diferenças vão sendo
apontadas, dentro e fora de casa, oferecendo dilemas constantes.
É chegada a hora de pensar sobre a educação dos filhos e o tema escola
aparece fortemente como nunca. Os pais cuidam da educação dos filhos e iniciam
uma busca por uma escola que ofereça apoio e proteção à família homoparental.
Ainda temos uma oscilação gigante por parte das escolas que ora incluem,
ora excluem a homoparentalidade. Infelizmente muitas delas acabam propagando
a exclusão, utilizando da velha forma de ensinar para dar continuidade no
preconceito e discriminação, o que gera maior exclusão das diferenças.
As crianças começam a experimentar o preconceito na escola, já que há
uma falta de adaptação, tanto dos eventos comemorativos, quanto dos materiais
didáticos que insistem em propagar somente a “boa e velha família nuclear
tradicional”.
Com a intenção de proteger as crianças, os pais homoafetivos tendem a
supervalorizar suas famílias, como uma forma de defesa e mostrar o quanto é “legal
ter dois pais”, o que traz o fantasma de reproduzir dor e sofrimento aos filhos pelo fato
de terem dois pais. Com tal cenário, falam abertamente sobre identidade de gênero,
orientação sexual e diversidade para criarem seus filhos com maior liberdade de
expressão.
Assim, as famílias camaleão adotam as “diversas cores” para se adaptar às
demandas do mundo e garantir maior cuidado e proteção aos seus filhos. O propulsor
dessas adaptações, mudanças e desafios é o amor... O amor que sustenta pais e
filhos na jornada da vida. Esse é o relato de um pai que criou o seu filho que,
atualmente, tem 20 anos e está na universidade:

“Quero dizer que me sinto ótimo sobre todo o trabalho que


fizemos desde o começo. Porque agora me sinto como um pai.
Eu acho que no início, quando eu dizia: "Eu sou pai," era como
dizer que sou uma mulher. Parece estranho saindo de sua língua
e, você sabe, eu acho que abracei ser um pai. Mas dizer isso em
voz alta era enorme. E eu sinto que, agora, nem sequer passa

278
na minha cabeça, certo? Tipo, dizemos que somos pais para
pessoas que nós não conhecemos: "Sim, nós temos um filho..."
Parece que somos héteros, apenas dizendo "sim, eu tenho um
filho". Então eu sinto que chegamos a um lugar no mundo em
que as pessoas liberais, em sua maioria, aceitam bastante...
Mais do que aceitar, percebem que é apenas parte do que a vida
é...”

279
CONSIDERAÇÕES FINAIS

Na jornada percorrida durante esta tese de doutoramento, foi possível analisar


conteúdos e discursos acerca da família homoparental, tanto sob a ótica social, quanto
sob a ótica das próprias famílias - participantes da pesquisa.
Retomou-se os pressupostos teóricos de John Bowlby e Donald Winnicott
acerca da importância dos cuidados de crianças e bebês e, também, sobre “o mito do
amor materno” postulado por Elisabeth Badinter. A partir daí, objetivou-se sustentar o
processo de investigação da homoparentalidade masculina e seu funcionamento
dinâmico.
Foi revisitado o contexto sócio-histórico da família e contextualizado o campo
da adoção de crianças, trazendo, assim, a evolução do olhar do objeto. Levantou-se
os dados da produção nacional acerca da família homoparental e as questões daí
advindas.
No entanto, confrontados com a realidade encontrada no percurso da
investigação e o quadro teórico levantado, pudemos perceber que o modelo familiar
que aqui nos referimos, a família homoparental, tem uma particularidade que extrapola
o “tornar-se pais”. Envolve constantes transformações e ajustes entre a família que se
constitui e a sociedade que ainda está fortemente marcada pelos modelos e
parâmetros heteronormativos.
A família de extensão, o trabalho, a escola, a vizinhança, todos os espaços
sociais dos pais e das crianças impactam no funcionamento dinâmico e nas vivências
experimentadas por essas famílias.
Foi aí que entendemos que as famílias homoparentais são famílias do tipo
camaleão. E a partir desta metáfora, para fins de análise nesta tese, se constituiu o
Ciclo de Vida das Famílias Camaleão.
Este Ciclo envolve uma série de estágios e fases que explicitam as
adaptações e mudanças destas famílias entre o período da construção do casal
homoafetivo e a construção da família homoparental.
Ao escrever as considerações finais dessa tese, percebi que não se trata
apenas da família homoparental ser uma família que denominei “camaleão”, pois, em
função da complexidade do tema e da necessidade desse campo ser ainda muito
explorado, foi necessário também construir uma tese camaleão.

280
Retomando o projeto inicial dessa tese, percebi que, aquilo que foi antevisto
como possibilidade a ser percorrida, na medida em que avancei com a pesquisa,
obrigou-me a reconstruir o próprio percurso de trabalho e, por consequência, assumir
uma posição de abertura, mudanças e adaptações frente à emergência do campo.
Daí que a escolha metodológica da Grounded Theory se mostrou produtiva ao
empreendimento feito.
A trama metodológica que se constituiu envolveu uma parte quantitativa e
outra qualitativa. Parte da coleta dos dados foi realizado no Brasil e parte nos Estados
Unidos. Para tratamento dos dados quantitativos, utilizou-se a análise estatística e
para a pesquisa qualitativa utilizou-se a Grounded Theory conforme mencionado
anteriormente. A amostra do estudo foi coletada em três etapas: (i) coleta da opinião
pública, através de questionário online, acerca do casamento homoafetivo, da família
homoparental e do desenvolvimento dos filhos; (ii) coleta da percepção de famílias
homoparentais através de entrevista estruturada fechada e (iii) coleta da percepção
de famílias homoparentais através de entrevista aberta com profundidade.
A título de síntese, foram captadas 1.055 opiniões no contexto brasileiro e 180
opiniões no contexto americano sobre o (i) casamento homoafetivo (A1); a (ii) família
homoparental e a sociedade (A2) e o (iii) desenvolvimento das crianças e
adolescentes (A3).
Ao analisar os dados numéricos, encontrei nos índices A1 - Casamento
Homoafetivo e A3 - Desenvolvimento das Crianças e Adolescentes, valores acima da
média, ou seja, valores acima de 4 em uma escala de 1 a 5.
O que chamou atenção é que, tanto no contexto americano, quanto no
contexto brasileiro, o índice A2 - família homoparental e sociedade obteve índices
inferiores, quando comparado com os índices A1 e A3, demonstrando, assim, na
percepção dos participantes, uma baixa aceitação das famílias homoparentais à
sociedade. Esses resultados camuflam o preconceito e a discriminação de uma
parcela dos participantes que se auto-intitulam como a favor da diversidade, mas que
culpabilizam a sociedade pela dificuldade de aceitação dessas famílias, esquecendo
que a sociedade é formada por nós. Além disso, os comentários desfavoráveis
trouxeram a preocupação de pais homoafetivos assumirem os cuidados de crianças
e estas se tornarem homossexuais, confirmando o preconceito internalizado.
Para dar seguimento na investigação do campo e atender à emergência das
questões advindas da pesquisa quantitativa, optei por construir um questionário
281
estruturado, composto por perguntas interessadas em investigar: (i) o casamento
homoafetivo, (ii) o preconceito e discriminação, (iii) a orientação sexual dos pais e o
desenvolvimento dos filhos e (iv) os cuidados para com os filhos. Participaram da
pesquisa 7 famílias homoparentais americanas e 7 famílias homoparentais brasileiras.
De maneira geral, as famílias homoparentais apontam que o casamento
homoafetivo é igual aos demais casamentos, valorizando o afeto como ponto
essencial para o funcionamento do mesmo. Além disso, relataram experiências de
preconceito e discriminação direcionadas às suas famílias. Do universo dos
participantes, obtive 100% de respostas que afirmaram não haver qualquer influência
e correlação entre orientação sexual dos pais e os cuidados para com os filhos.
Quando perguntado sobre os cuidados e a educação dos filhos, obtive uma
polarização de respostas. Para os americanos, não existe a necessidade de se fazer
nada que denote qualquer diferença, evitando qualquer estigma associado à
homossexualidade e aos cuidados dos filhos. Já os brasileiros ressaltaram diferenças
positivas, a fim de denotar maior cuidado e compromisso com o desenvolvimento dos
filhos, visto que são comumente questionados sobre a mãe da(s) criança(s), gerando
dúvidas sobre a capacidade de homens cuidarem de crianças e bebês.
Ao reconhecer a existência dessa associação direta sobre cuidados de
crianças e bebês ao gênero feminino, decidi investigar a realidade das famílias
homoparentais masculinas e da vivência da parentalidade utilizando entrevistas
abertas com profundidade. Participaram da pesquisa 2 famílias homoparentais
americanas e 4 famílias homoparentais brasileiras.
Essa investigação abriu portas para a compreensão do funcionamento
dinâmico da homoparentalidade que denominei: Famílias Camaleão: adaptações,
mudanças e desafios da homoparentalidade. Tomei o cuidado de não traçar
paralelos, comparações e tampouco utilizar as famílias heteroparentais, pois isso
traria a tentativa de normalização e minimização de eventuais diferenças o que
comprometeria o conhecimento científico sobre essas famílias.
Para facilitar a compreensão desse funcionamento, construí o que chamei de
Ciclo de Vida das Famílias Camaleão. Descobri que há um funcionamento
permeado por processos múltiplos e dinâmicos, abastecidos por experiências
psicológicas, inter-relacionadas e vivenciadas pelas famílias homoparentais,
caracterizada por estágios e fases que requerem adaptações, mudanças e desafios
constantes. Esse ciclo de vida é composto por três estágios, sendo: (i)
282
homossexualidade e homofobia, (ii) eu e você, você e eu (casamento
homoafetivo) e (iii) funções parentais e o desenvolvimento dos filhos. Esses
estágios não são excludentes, não apresentam tempo determinado e foram
construídos a partir das características percebidas no cruzamento de todos os dados
coletados (quantitativos e qualitativos). Vale ressaltar que os ciclos das famílias
camaleão não são lineares, mas sim circulares e sistêmicos e acompanham os
desafios impostos por uma sociedade heteronormativa.
Ressalta-se que essas famílias comumente se adaptam e mudam, porque
querem ter o direito de ser família, de endereçar o amor sem julgamentos, de construir
seus lares e de ter filhos. Querem ocupar os espaços sociais sem os questionamentos
sobre a capacidade parental, sobre a mãe da criança e sobre a necessidade de ter a
presença de uma mulher para que a criança se desenvolva. Querem gozar e usufruir
de direitos que garantam liberdade, igualdade e equidade. Querem uma sociedade
mais justa, para não ter que investir demasiadamente na proteção de seus filhos.
Querem que seus filhos sejam respeitados na família de origem na escola e nos
espaços sociais. Querem viver os ciclos de vida e seguir.
Isso tudo nos ajudou a entender sobre a emergência da revisitação aos
conceitos encontrados na literatura sobre o tema. Por isso, recomenda-se que a dita
“função materna” seja reconhecida como “função do cuidador”, evitando a associação
de cuidados de crianças somente a mulheres. Há uma necessidade emergente para
diminuir o estigma social que esses pais homoafetivos carregam, já que o mais
importante é o amor e a vontade de amar.
Concluindo, na medida em que surgem as dificuldades da vida, as famílias
camaleão vão mudando, a fim de garantir a manutenção e a preservação da vida de
seus filhos e isso é o mais fundamental.
O que há de mais precioso em toda essa vivência é o amor e ele não necessita
ser “camaleão”, pois o amor não requer adaptações, mudanças e tampouco desafios.
O amor simplesmente é e ponto!

283
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BRASIL, Lei 13.509, de novembro de 2017. Dispõe sobre adoção e altera a Lei
no 8.069, de 13 de julho de 1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente), a
Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), aprovada pelo Decreto-Lei no 5.452, de
1o de maio de 1943, e a Lei no 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil).
Disponível em <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-
2018/2017/lei/L13509.htm> Acesso em 02 de janeiro de 2018.

BRASIL, Lei 3071, de janeiro de 1916. Dispõe do Código Civil. Brasília, 01 de janeiro
de 1916. Disponível em < http://www.lexml.gov.br/urn/urn:lex:br:federal:lei:1916-01-
01;3071> Acesso em 07 de setembro de 2017.

BRASIL, Lei 4655, de junho de 1965. Dispõe sobre a legitimidade adotiva, 02 de


junho de 1965. Disponível em < http://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/1960-1969/lei-
4655-2-junho-1965-377680-norma-pl.html> Acesso em 07 de setembro de 2017.

BRASIL, Lei orçamentária 4242, de janeiro de 1921. Dispõe sobre a Lei


orçamentária. Brasília, 03 de janeiro de 1921. Disponível em <
http://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/1920-1929/lei-4242-3-janeiro-1921-568762-
norma-pl.html> Acesso em 07 de setembro de 2017.

BRASIL, Projeto de lei 6.583, de outubro de 2013. Dispõe sobre o estatuto da


família e dá outras providências. Brasília, 16 de outubro de 2016. Disponível em: <
http://www.camara.gov.br/sileg/integras/1174113.pdf> Acesso em 07 de setembro de
2017.

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF, 5


de outubro de 1988. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constitui%C3%A7ao.htm>. Acesso
em 07 setembro de 2017.

BRASIL. Decreto nº 17.943-A, de 12 de outubro de 1927. Consolida as leis de


assistência e proteção de menores. Rio de Janeiro, RJ, 12 de outubro de 1927.
Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1910-
1929/D17943A.htm>. Acesso em 07 setembro de2017.

313
BRASIL. Estatuto da Criança e do Adolescente. Brasília, DF: 2005.

BRASIL. Lei 12.010, de 3 de agosto de 2009. Dispõe sobre adoção; altera as Leis
8.069, de 13 de julho de 1990 - Estatuto da Criança e do Adolescente, 8.560, de 29
de dezembro de 1992; revoga dispositivos da Lei no 10.406, de 10 de janeiro de 2002
- Código Civil, e da Consolidação das Leis do Trabalho - CLT, aprovada pelo Decreto-
Lei nº 5.452, de 1o de maio de 1943; e dá outras providências. Brasília, DF, 3 de
agosto de 2009. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato20072010/2009/Lei/L12010.htm#art2>.
Acesso em 07 setembro de 2017.

BRASIL. Lei 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do


Adolescente e dá outras providências. Brasília, DF, 13 de julho de 1990. Disponível
em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8069.htm>. Acesso em 07 setembro
de2017.

BRASIL. Lei nº 3.071, de 1º de janeiro de 1916. Institui o Código Civil. Rio de Janeiro,
RJ, 1º de janeiro de 1916. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L3071.htm>. Acesso em 07 setembro
de2017.

BRASIL. Lei nº 3.133, de 08 de maio de 1957. Atualiza o instituto da adoção prescrita


no Código Civil. Rio de Janeiro, RJ, 08 de maio de 1957. Disponível em:
<http://www6.senado.gov.br/legislacao/ListaNormas.action?numero=3133&tipo_nor
ma=LEI&data=19570508&link=s>. Acesso em 07 setembro de2017.

BRASIL. Lei nº 4.697, de 02 de junho de 1965. Dispõe sobre a legitimidade adotiva.


Brasília, DF, 02 de junho de 1965. Disponível em:
<http://www010.dataprev.gov.br/sislex/paginas/42/1965/4655.htm>. Acesso em 07
setembro de2017.

BRASIL. Lei nº 6.697, de 10 de outubro de 1979. Institui o Código de Menores.


Brasília, DF, 10 de outubro de 1979. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/1970-1979/L6697.htm>. Acesso em 07
setembro de2017.

314
APÊNDICE A - Questionário Online: Pesquisa de Opinião / Versão Inglês

THE GENERAL PUBLIC'S OPINION ABOUT GAY FAMILIES - A CHILD


DEVELOPMENT RESEARCH
The main purpose of this research is to gather from American people
perceptions about the emotional development of children of gay and lesbian parents.
CONTEXT
My name is Carlos Temperini and I am a doctoral student in the Department
of Clinical Psychology at Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - Brazil. As
part of my dissertation research, I am doing comparative analyses of gay/lesbian
parenting and child development in Brazil and the U.S. This research is important in
countering parenting policies in Brazil that discriminate against homosexual parents.
Currently, I am conducting research in the U.S. under the supervision of Dr. Jodi
O'Brien (Seattle University).
We invite you to participate in this important research by answering the
following survey. The questions are divided into three parts and ask your opinions on:
same sex marriage, gay/lesbian families and society and child development. The
survey will take less than 10 minutes.
CONFIDENCIALITY
Your responses are entirely confidential and anonymous and your participation
is voluntary. You may skip any question that you do not wish to answer. By answering
this survey, you authorize the researcher (Carlos Temperini) to use the information for
academic - scientific purposes, but you will not be identified in any way.

DEMOGRAPHY

1. How old are you?


Less than 18
Between 18 and 24
Between 25 and 35
Between 36 and 46
Between 47 and 60
Above 60

315
2. Educational Background
Grammar School
High School or Equivalent
Vocational / Technical School
Bachelor's degree
Master's degree
Doctoral degree
Professional degree (MD, JD, etc.)
Other

3. Gender
Male
Female
Non Binary Gender

4. Marital Status
Single
Married or Domestic Partnership
Widowed
Divorced
Separated

5. Sexual Orientation.
Heterosexual
Homosexual
Bisexual
Other

6. Where do you currently reside?


Alabama (AL)
Alaska (AK)
Arizona (AZ)
Arkansas (AR)
California (CA)

316
Colorado (CO)
Connecticut (CT)
Delaware (DE)
Florida (FL)
Georgia (GA)
Hawaii (HI)
Idaho (ID)
Illinois (IL)
Indiana (IN)
Iowa (IA)
Kansas (KS)
Kentucky (KY)
Louisiana (LA)
Maine (ME)
Maryland (MD)
Massachusetts (MA)
Michigan (MI)
Minnesota (MN)
Mississippi (MS)
Missouri (MO)
Montana (MT)
Nebraska (NE)
Nevada (NV)
New Hampshire (NH)
New Jersey (NJ)
New Mexico (NM)
New York (NY)
North Carolina (NC)
North Dakota (ND)
Ohio (OH)
Oklahoma (OK)
Oregon (OR)
Pennsylvania (PA)
Rhode Island (RI)
317
South Carolina (SC)
South Dakota (SD)
Tennessee (TN)
Texas (TX)
Utah (UT)
Vermont (VT)
Virginia (VA)
Washington (WA)
Washington DC
West Virginia (WV)
Wisconsin (WI)
Wyoming (WY)
Other

7. Do you have any religion?


Yes
No

8. If you answered yes, which one?


(Open answer)

9. What is your U.S. income?


Less than U$ 27.000
From U$ 27.000 to U$ 40.000
From U$ 41.000 to U$ 55.000
From U$ 56.000 to 70.000
From U$ 71.000 to U$ 85.000
From U$ 86.000 to U$ 100.000
More than U$ 100.000

10. Do you have a child / children?


Yes
No

318
11. If yes, how many children do you have?
(Open answer)

12. What is your profession?


(Open answer)

PART 1: SAME SEX MARRIAGE


Please indicate how much you agree or disagree with each of the statements below:
1 = strongly disagree
2 = disagree
3 = neutral
4 = agree
5 = strongly agree.

13. I do not like to talk about this theme.


(Strongly Disagree 1 2 3 4 5 Strongly Agree)

14. Same sex marriage is like any other marriage.


(Strongly Disagree 1 2 3 4 5 Strongly Agree)

15. I am confortable in the presence of same sex couples.


(Strongly Disagree 1 2 3 4 5 Strongly Agree)

16. I have homosexual friends.


(Strongly Disagree 1 2 3 4 5 Strongly Agree)

17. I am favor of civil rights for same sex couples.


(Strongly Disagree 1 2 3 4 5 Strongly Agree)

18. Marriage between same sex couples is the same as marriage between
different sex couples.
(Strongly Disagree 1 2 3 4 5 Strongly Agree)

319
19. The legalization of same sex marriage reflects American social values of
equality.
(Strongly Disagree 1 2 3 4 5 Strongly Agree)

20. I have witnessed discriminatory behaviors against same sex couples.


(Strongly Disagree 1 2 3 4 5 Strongly Agree)

21. Same sex couples suffer prejudice and discrimination.


(Strongly Disagree 1 2 3 4 5 Strongly Agree)

22. The legalization of same sex marriage is an attack on American social values.
(Strongly Disagree 1 2 3 4 5 Strongly Agree)

23. A homosexual couple is different from a heterosexual couple.


(Strongly Disagree 1 2 3 4 5 Strongly Agree)

24. I am not comfortable with homosexual couples.


(Strongly Disagree 1 2 3 4 5 Strongly Agree)

25. I am against civil rights between homosexual couples.


(Strongly Disagree 1 2 3 4 5 Strongly Agree)

PART 2: GAY AND LESBIAN FAMILIES IN SOCIETY


26. In your experience, how prevalent is each of the following in U.S. society. The
scale goes from 1 to 7, in which 1 is low prevalence (weak) and 7 is the very
high prevalence (strong).

Prejudice against homosexual couples.

Scale: 1 2 3 4 5 6 7

Discrimination of children of same sex couples.

Scale: 1 2 3 4 5 6 7

320
Inclusion of same sex families in my friendship circles.

Scale: 1 2 3 4 5 6 7

Discussions about homosexuality.

Scale: 1 2 3 4 5 6 7

Discrimination of gay / lesbian families.

Scale: 1 2 3 4 5 6 7

Informations about same sex families.

Scale: 1 2 3 4 5 6 7

Solidarity with the same sex families.

Scale: 1 2 3 4 5 6 7

Counseling for same sex families.

Scale: 1 2 3 4 5 6 7

Exclusion of same sex families.

Scale: 1 2 3 4 5 6 7

Acceptance of same sex families.

Scale: 1 2 3 4 5 6 7

PART 3. EMOTIONAL CHILD DEVELOPMENT


Please indicate whether you agree or disagree with the following statements. (Scale
from 1 to 5 where 1 = strongly disagree and 5 = strongly agree).

27. Gay fathers / lesbian mothers take good care of their child / children.

321
(Strongly Disagree 1 2 3 4 5 Strongly Agree)

28. A child's emotional development may be damaged if they are a son / daughter
of lesbian / gay parents.
(Strongly Disagree 1 2 3 4 5 Strongly Agree)

29. Children of gays and lesbians usually suffer or will suffer prejudice or
discrimination.
(Strongly Disagree 1 2 3 4 5 Strongly Agree)

30. Children of gays and lesbians do poorly in school.


(Strongly Disagree 1 2 3 4 5 Strongly Agree)

31. Gay / Lesbian parents don't take good care of their children.
(Strongly Disagree 1 2 3 4 5 Strongly Agree)

32. Gay / Lesbian families and straight families have the same ability to take care
of their children.
(Strongly Disagree 1 2 3 4 5 Strongly Agree)

33. Sexual orientation doesn't matter as long as a child is well cared for.
(Strongly Disagree 1 2 3 4 5 Strongly Agree)

34. The parent's sexual orientation directly affects the emotional development of
the child.
(Strongly Disagree 1 2 3 4 5 Strongly Agree)

35. Gay / Lesbian families that take care of their children damage their emotional
development.
(Strongly Disagree 1 2 3 4 5 Strongly Agree)

36. It's unnatural for children to be cared for by Gay / Lesbian couples.
(Strongly Disagree 1 2 3 4 5 Strongly Agree)

322
37. Children raised by gay / lesbian couples will have some personality problems.
(Strongly Disagree 1 2 3 4 5 Strongly Agree)

38. Adults who where raised by gay / lesbian parents are likely to have behavioral
problems.
(Strongly Disagree 1 2 3 4 5 Strongly Agree)

39. Children and teenagers raised by gay / lesbian parents have the same chance
of healthy emotional development as children raised by straight parents.
(Strongly Disagree 1 2 3 4 5 Strongly Agree)

GENERAL COMMENTS
If you want to receive the survey results, please write your e-mail address.

323
APÊNDICE B - Questionário Online: Pesquisa de Opinião / Versão Português

FAMÍLIA HOMOPARENTAL: ANÁLISE DO DESENVOLVIMENTO INFANTIL


O objetivo desta pesquisa consiste no levantamento de opinião pública sobre
o desenvolvimento emocional de filhos(as) de casais homoafetivos (pais, mães
homossexuais).
Contamos com sua participação respondendo a estas perguntas que estão
divididas em três partes. O questionário todo leva cerca de 10 minutos para ser
respondido.
CONTEXTO
Trata-se de uma pesquisa de tese de doutorado que está sendo desenvolvida
no núcleo de Família e Comunidade do Programa de Estudos Pós Graduados em
Psicologia Clínica da Pontifícia Universidade de São Paulo – São Paulo, sob a
supervisão da Doutora Rosa Maria Stefanini de Macedo. A pesquisa versa a
compreensão do desenvolvimento emocional da criança / adolescente em contexto
familiar homoparental.
CONFIDENCIALIDADE
Esta pesquisa é totalmente confidencial e garantimos sigilo total das
respostas. Ao responder a pesquisa, você estará autorizando o pesquisador Carlos
Temperini na utilização deste conteúdo para fins de pesquisa acadêmico-científica.

DEMOGRAFIA

1. Qual a sua faixa etária


Menos de 18 anos
18 a 30
31 a 40
41 a 50
51 a 60
Mais de 60

2. Escolaridade
Ensino Fundamental I
Ensino Fundamental II
Ensino Médio
Ensino Superior

324
Pós Graduação (Especialização)
Mestrado
Doutorado
Pós doutorado

3. Sexo
Masculino
Feminino

4. Estado Civil
Solteiro
Casado
Divorciado
União Estável
Recasado
Viúvo

5. Orientação Sexual
Heterossexual
Homossexual
Bissexual
Outros

6. Qual Estado você reside?


Acre (AC)
Alagoas (AL)
Amapá (AP)
Amazonas (AM)
Bahia (BA)
Ceará (CE)
Distrito Federal (DF)
Espírito Santo (ES)
Goiás (GO)
Maranhão (MA)
Mato Grosso (MT)
Mato Grosso do Sul (MS)
Minas Gerais (MG)
Pará (PA)
Paraíba (PB)
Paraná (PR)
Pernambuco (PE)

325
Piauí (PI)
Rio de Janeiro (RJ)
Rio Grande do Norte (RN)
Rio Grande do Sul (RS)
Rondônia (RO)
Roraima (RR)
Santa Catarina (SC)
São Paulo (SP)
Sergipe (SE)
Tocantins (TO)

7. Você têm religião?


Sim
Não

8. Se sim, qual é a sua religião?


(Resposta aberta)

9. Qual a sua renda familiar?


De R$0,00 a de R$1.085,00
De R$1.085,00 a R$1.734,00
De R$1.734 a R$7.475,00
De R$7.475,00 a R$9.745,00
Acima de R$9.745,00

10. Você tem filhos?


Sim
Não

11. Se sim, quantos filhos você tem?


(Resposta aberta)

12. Qual a sua profissão?


(Resposta aberta)

326
PARTE 1. CASAMENTO HOMOAFETIVO

Abaixo temos uma série de frases que gostaria que você indicasse o quanto
você concorda ou discorda com cada uma delas. Utilize a sua percepção em relação
ao tema.

13. Não gosto de falar sobre este tema


(Discordo totalmente 1 2 3 4 5 Concordo Totalmente)

14. O casamento homoafetivo é como qualquer outro casamento


(Discordo totalmente 1 2 3 4 5 Concordo Totalmente)

15. Convivo tranquilamente com a presença de casais homoafetivos


(Discordo totalmente 1 2 3 4 5 Concordo Totalmente)

16. Tenho amigos homossexuais.


(Discordo totalmente 1 2 3 4 5 Concordo Totalmente)

17. Sou a favor da união de casais homoafetivos.


(Discordo totalmente 1 2 3 4 5 Concordo Totalmente)

18. O casamento entre pessoas do mesmo sexo é igual ao casamento entre


pessoas de sexo diferente.
(Discordo totalmente 1 2 3 4 5 Concordo Totalmente)

19. A legalização do casamento homoafetivo atende a vontade da sociedade


brasileira.
(Discordo totalmente 1 2 3 4 5 Concordo Totalmente)

20. Já presenciei preconceito e atitudes discriminatórias contra casais


homoafetivos.
(Discordo totalmente 1 2 3 4 5 Concordo Totalmente)

327
21. Os casais homoafetivos sofrem preconceito e discriminação.
(Discordo totalmente 1 2 3 4 5 Concordo Totalmente)

22. A legalização do casamento homoafetivo agride a sociedade brasileira.


(Discordo totalmente 1 2 3 4 5 Concordo Totalmente)

23. O casamento homoafetivo é diferente do casamento heterossexual.


(Discordo totalmente 1 2 3 4 5 Concordo Totalmente)

24. Tenho dificuldade para conviver com casais homoafetivos.


(Discordo totalmente 1 2 3 4 5 Concordo Totalmente)

25. Sou contra a união de casais homoafetivos.


(Discordo totalmente 1 2 3 4 5 Concordo Totalmente)

PARTE 2: FAMÍLIA HOMOPARENTAL


26. Utilizando a sua percepção sobre o tema, assinale em que medida você
observa maior presença ou menor presença dos comportamentos advindos da
sociedade, utilizando uma escala de 1 a 7, sendo 1 a menor presença (fraca) e 7
a maior presença (forte).

Preconceito contra as famílias homoparentais.


Escala: 1 2 3 4 5 6 7

Discriminação de crianças / adolescentes que são filhos (as) de casais


homoafetivos.
Escala: 1 2 3 4 5 6 7

Inclusão de famílias homoparentais em seu círculo de amizades.


Escala: 1 2 3 4 5 6 7

Discussão sobre o tema homoparentalidade e homoafetividade.


Escala: 1 2 3 4 5 6 7

328
Negação da família homoparental.
Escala: 1 2 3 4 5 6 7

Orientação formal sobre as famílias homoparentais.


Escala: 1 2 3 4 5 6 7

Solidariedade às famílias homoparentais.


Escala: 1 2 3 4 5 6 7

Conselho às famílias homoparentais.


Escala: 1 2 3 4 5 6 7

Fofocas e intrigas sobre as famílias homoparentais.


Escala: 1 2 3 4 5 6 7

Exclusão de famílias homoparentais.


Escala: 1 2 3 4 5 6 7

Aceitação de famílias homoparentais.


Escala: 1 2 3 4 5 6 7

PARTE 3. DESENVOLVIMENTO EMOCIONAL DA CRIANÇA / ADOLESCENTE


Abaixo temos uma série de frases que gostaria que você indicasse o quanto
você concorda ou discorda com cada uma delas. Utilize a sua percepção em relação
ao tema.

27. Pais / mães homoafetivos cuidam adequadamente dos filhos (as)


(Discordo totalmente 1 2 3 4 5 Concordo Totalmente)

28. O desenvolvimento emocional de uma criança será prejudicado se ela for


filha (o) de um casal homoafetivo
(Discordo totalmente 1 2 3 4 5 Concordo Totalmente)

29. O(s) filhos (as) de casais homoafetivos sofrem ou sofrerão preconceito e


discriminação
(Discordo totalmente 1 2 3 4 5 Concordo Totalmente)

30. Filhos (as) educados por casais homoafetivos sofrem ou sofrerão prejuízos
em sua educação

329
(Discordo totalmente 1 2 3 4 5 Concordo Totalmente)

31. Casais homoafetivos não cuidam adequadamente dos filhos (as)


(Discordo totalmente 1 2 3 4 5 Concordo Totalmente)

32. Casais homoafetivos e casais heterossexuais apresentam as mesmas


capacidades para cuidar de seus filhos (as).
(Discordo totalmente 1 2 3 4 5 Concordo Totalmente)

33. Crianças precisam de alguém que cuide delas independentemente de


qualquer coisa.
(Discordo totalmente 1 2 3 4 5 Concordo Totalmente)

34. A orientação sexual dos pais / mães interfere diretamente no


desenvolvimento emocional de seus filhos (as).
(Discordo totalmente 1 2 3 4 5 Concordo Totalmente)

35. Casais homoafetivos que cuidam de crianças prejudicam o desenvolvimento


delas
(Discordo totalmente 1 2 3 4 5 Concordo Totalmente)

36. Crianças não nasceram para serem cuidadas por casais homoafetivos
(Discordo totalmente 1 2 3 4 5 Concordo Totalmente)

37. Crianças cuidadas por casais homoafetivos apresentarão problemas de


personalidade
(Discordo totalmente 1 2 3 4 5 Concordo Totalmente)

38. Adultos que foram criados por casais homoafetivos apresentam problemas
de comportamento
(Discordo totalmente 1 2 3 4 5 Concordo Totalmente)

39. Crianças / Adolescentes cuidados por casais homoafetivos têm as mesmas


chances de terem sucesso no desenvolvimento emocional, quanto aqueles
cuidados por casais heterossexuais.
(Discordo totalmente 1 2 3 4 5 Concordo Totalmente)

330
COMENTÁRIOS GERAIS
Deixe aqui comentários gerais acerca da temática da pesquisa (opcional).
Se você deseja receber os resultados desta pesquisa, por favor, deixe um endereço
de e-mail abaixo:

331
APENDICE C - Termo de Consentimento Livre e Esclarecido

TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO AOS PAIS


PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO – PUC/SP

TÍTULO DA PESQUISA: “Família homoparental: uma análise do desenvolvimento


emocional infantil”.

PESQUISADOR RESPONSÁVEL: CARLOS AUGUSTO TEMPERINI TEMPERINI

I – EXPLICAÇÕES DO PESQUISADOR SOBRE A PESQUISA


EU, Carlos Augusto Teixeira Temperini, pesquisador do Curso de Pós-
Graduação em Psicologia Clínica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
(PUC-SP), venho convidá-lo(a) a participar de minha pesquisa de doutorado intitulada:
Família Homoparental: uma análise do desenvolvimento emocional infantil. A
pesquisa tem por objetivo descrever e compreender conteúdos e discursos acerca da
homoparentalidade e do desenvolvimento infantil, captados no contato com famílias
homoparentais, a fim de compreender a construção do desenvolvimento infantil das
crianças e a relação desta vivência.
Para compreender a construção do desenvolvimento infantil dessas crianças,
teremos aproximadamente quatro encontros com os pais / mães (grupo focal) e
posteriormente dois encontros com os filhos (as) para a aplicação de dois testes
psicológicos. Os pais / mães podem ser solicitados para uma entrevista complementar
(se necessário). Os encontros com os pais / mães serão gravados (filmados) e
transcritos para que se possa ter uma apreciação fiel de seu conteúdo, mas após as
transcrições, as gravações serão inutilizadas.
Os participantes não receberão qualquer compensação financeira, bem como
nenhum benefício outro que não esteja relacionado àqueles relativos aos resultados
do processo de intervenção. Este estudo visa contribuir para a concepção e
posicionamento de um campo de estudos ainda em construção. Contribuir para a
construção de novos conceitos sobre família, adoção, desenvolvimento infantil,
paternagem e os direitos da criança como um direito humano.
Os participantes podem abandonar a pesquisa a qualquer momento, sem que
isto implique em prejuízo a sua pessoa. O procedimento realizado na pesquisa oferece
baixo risco, mas este termo garante o compromisso do pesquisador de manter-se
atento a possíveis desconfortos, bem como intervir a favor da minimização de
eventuais prejuízos, caso necessário.
O pesquisador mantém-se a disposição para quaisquer esclarecimentos acerca
da pesquisa e compromete-se a informar seus resultados após a defesa pública da

332
tese. O relatório da pesquisa ficará disponível, após a defesa pública, na Biblioteca
Nadir Gouvêa Kfouri, PUC-SP, Campus Monte Alegre. Os resultados do estudo
poderão ser divulgados par fins científicos ou acadêmicos.
Dúvidas e denúncias relativas às questões éticas desta pesquisa poderão ser
esclarecidas pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo (PUC-SP) por meio dos seguintes contatos:
CEP – Sede Campus Monte Alegre. Rua Ministro Godói, 969 – Perdizes –
São Paulo/SP. 05015-001. Edifício Reitor Bandeira de Mello, sala 63C – Térreo. Fone:
(11) 3670-8466. E-mail: cometica@pucsp.br

II– ESCLARECIMENTOS DADOS PELO PESQUISADOR SOBRE GARANTIAS AO


PARTICIPANTE

Ficam garantidas ao sujeito da pesquisa:


1. O acesso, a qualquer tempo, a informações sobre procedimentos, riscos e
benefícios relacionados à pesquisa, inclusive para dirimir eventuais dúvidas.
2. A salvaguarda da confidencialidade, sigilo e privacidade.
3. O direito de retirar-se da pesquisa no momento em que desejar.

III – INFORMAÇÕES DO PESQUISADOR

NOME: Carlos Augusto Teixeira Temperini


ENDEREÇO: Rua Durval Fontoura Castro, 40 – apto. 24 – São Paulo - SP
CEP: 04361-050
CELULAR: (11) 99492-2433
E-MAIL: carlostemperini7@gmail.com

IV – CONSENTIMENTO LIVRE ESCLARECIDO

Eu ____________________________________________________ compreendo os
direitos dos participantes de pesquisa e declaro estar ciente do inteiro teor deste
TERMO DE CONSENTIMENTO, sabendo que poderei desistir dessa participação a
qualquer momento, sem sofrer qualquer punição ou constrangimento. Compreendo
sobre o que, como e por que está sendo feito este estudo e estou ciente de que não
terei nenhum custo ou quaisquer compensações financeiras. Receberei uma cópia
assinada deste formulário de consentimento

São Paulo, ____ de ________________ de 2015

Carlos Augusto Teixeira


Sujeito da Pesquisa
Temperini
CNH 022163856 83
Pesquisador

333
APÊNDICE D - Consentimento Pós-Informado

Consentimento Pós-Informado

Eu,__________________________________________________, declaro:

• Haver concordado em participar da pesquisa intitulada: Família


Homoparental: uma análise do desenvolvimento infantil;
• Haver compreendido o objetivo da pesquisa supra citada;
• Haver autorizado meu/minha filho(a), o(a) menor
_______________________________________________a participar
da pesquisa em questão;
• Haver compreendido as informações acerca dos riscos envolvidos e a
disponibilidade do pesquisador para intervir, se necessário;
• Haver concordado com a gravação em vídeo (grupos focais) e com os
procedimentos de pesquisa, assegurado o compromisso do pesquisador
em inutilizar as gravações após ter concluído o trabalho;

• Haver autorizado a publicação do conteúdo do trabalho para fins de
ensino e pesquisa, garantido o sigilo da minha identidade.

Que o presente Termo de Consentimento Livre e Esclarecido foi a mim


apresentado em 2 (duas) vias, uma delas permanecendo em meu poder.

Nome do Participante: __________________________________________


Assinatura do Participante: ______________________________________
CPF: _________________________ RG ___________________________
Endereço:____________________________________________________

Assinatura do Pesquisador: ______________________________________

São Paulo, _______ de _____________ de 2015

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APÊNDICE E - Termo de Assentimento Livre e Esclarecido para adolescentes
com 12 anos completos, maiores de 12 anos e menores de 18 anos

TERMO DE ASSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO


PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO – PUC/SP

Informação geral: O assentimento informado para a criança/adolescente não


substitui a necessidade de consentimento informado dos pais ou guardiãs. O
assentimento assinado pela criança demonstra a sua cooperação na pesquisa.

Título do Projeto: Família Homoparental: Uma análise d desenvolvimento


infantil
Investigador: Carlos Augusto Teixeira Temperini
Local da Pesquisa: São Paulo / SP
Endereço: Rua Coronel Arthur de Paula Ferreira, 59 – 10 andar (Vila Nova
Conceição) - São Paulo - SP

O que significa assentimento?


O assentimento significa que você concorda em fazer parte de um grupo de
adolescentes, da sua faixa de idade, para participar de uma pesquisa. Serão
respeitados seus direitos e você receberá todas as informações por mais simples que
possam parecer.
Pode ser que este documento denominado TERMO DE ASSENTIMENTO
LIVRE E ESCLARECIDO contenha palavras que você não entenda. Por favor, peça
ao responsável pela pesquisa ou à equipe do estudo para explicar qualquer palavra
ou informação que você não entenda claramente.

Informação ao sujeito da pesquisa:


Você está sendo convidado(a) a participar de uma pesquisa, com o objetivo
de descrever e compreender relatos acerca da sua vivência com sua família, para
compreender a construção do desenvolvimento infantil das crianças e a relação desta
vivência.

Como esta pesquisa vai ser feita?


Vamos nos encontrar de uma a duas vezes para eu aplicar um instrumento de investigação
clínica da sua personalidade. Com os resultados dessa pesquisa, teremos maiores
informações sobre o desenvolvimento dos filhos (as) que pertencem às famílias
homoparentais. Todas as informações que serão coletadas neste contato serão confidenciais,
isso significa que ninguém saberá que foi você quem fez esses desenhos e me contou essas
histórias. Para esta participação você deverá fazê-la de livre e espontânea vontade.
Caso você aceite, a pesquisa envolverá a sua pa