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O desenho do desenho de um artista invisível1

Abstract. This article discusses the drawings of Fernando Garcia to complete his degree in Fine Arts
in 2010. The present reflection proposes to present publicly his research, highlighting and analyzing
the concepts of denial, conciseness and singular attention, as well the resources of copy and drawing
manual with which the artist works.
Keywords: drawing, copy, drawing manual.

Resumo. Este artigo aborda os desenhos de Fernando Garcia para o trabalho de conclusão de sua
graduação em Artes Plásticas em 2010. A presente reflexâo se propõe a apresentar publicamente sua
pesquisa, destacando e analisando as noções de recusa, concisão e atenção diferenciada, bem como
os recursos da cópia e do manual de desenho, com as quais o artista trabalha.
Palavras chave: desenho, cópia, manual de desenho.

Para poder ver o mundo, o poeta deve se tornar invisível.


Enrique Vila-Matas, Doutor Pasavento

Em 2004, ao lecionar disciplinas de gravura na primeira fase do curso de Artes Plásticas,


conheci Fernando Bom Garcia Segura. Ele havia elaborado em uma matriz para água-forte
um desenho muito detalhado, uma cena com um casal dançando. Não me recordo se cheguei a
ver o trabalho impresso ou não, e foi o único desenvolvido por ele naquele semestre que
guardo lembrança. A partir de então voltei a encontrar Fernando Garcia regularmente em
disciplinas curriculares ou em conversas do convívio universitário. Apesar disso, vi outro
desenho seu somente em 2010 ao orientar seu trabalho de conclusão de curso.
Apesar de toda a sua discrição e reserva, pelo teor de sua conversa e pela observação de
seu comportamento, eu constatava que ele produzia constantemente, desenhando e anotando
em pequenos cadernos. Cursando licenciatura, Fernando Garcia pesquisava mecanismos de
aprendizado e ensino de desenho, considerando especialmente importantes os modelos e
manuais neste processo. Nosso interesse comum sobre o desenho tornava a interlocução
profícua.
Mas foi no contexto da produção de seu trabalho de conclusão de curso, intitulado
desenho do desenho, que nosso contato se intensificou, permitindo-me conhecer melhor suas
idéias e seu processo. Fernando Garcia desenvolveu, no âmbito acadêmico, um trabalho
artístico, movido tanto pelo seu compromisso com a reflexão sobre o ensino de arte quanto
pelo seu envolvimento como artista com o desenho. Este artigo se concentra em narrar e
analisar esta situação, destacando as operações de recusa, concisão e atenção diferenciada no
processo do artista. As citações de Fernando Garcia, neste texto, são feitas sempre a partir dos

1
Artigo apresentado e publicado nas Actas do II Congresso Internacional Criadores Sobre outras Obras –
CSO/2011, Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa.

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encontros de orientação e de sua argumentação na defesa de seu trabalho de conclusão de
curso, em dezembro de 2010.
Desenho do desenho
Para seu trabalho de conclusão de curso, Fernando Garcia se propôs a copiar através do
desenho imagens de origens diversas. Orientado pelos princípios didáticos dos manuais de
desenho, o artista utilizou-se do procedimento da cópia, da adoção assumida de exemplos e
modelos e da formação de uma seleção pessoal de referências visuais que, combinados,
problematizam noções de originalidade, autoria e autonomia da arte.
Entre as imagens mais reconhecíveis estão reproduções de obras de Rodin, Goya e
Bellmer. Sem divisões e classificações evidentes, estas referências convivem com desenhos
bastante familiares mas de origem obscura: faces, mãos, carcaças, a superfície lunar, o rosto
de uma freira, um aglomerado informe de cabeças. Outro grupo significativo é o de imagens
de manuais, reconhecíveis graças aos pequenos recursos de medição e visualização estrutural,
além dos tipos de características gráficas, dos objetos e relações espaciais que ordinariamente
este gênero explora.
No entanto, esta divisão em grupos é apenas uma tentativa de descrever e analisar as
dezenas de desenhos de Fernando Garcia. Estes não estão separados por capítulos ou temas,
não se distinguem por nenhum recurso gráfico e nenhuma observação, legenda ou nota os
acompanha. Os desenhos apenas se sucedem, formando uma espécie curiosa de catálogo
sortido que encontra ressonância no comentário do pesquisador J.J.G. Molina sobre os
manuais de desenho. Como afirma o autor, estes instrumentos causam a sensação de que
“mesmo a arte é fruto da associação reiterada de uma série de imagens de procedência muito
diversa, que foram se agrupando em estruturas caprichosas como o resto de um naufrágio”
(Molina, 2006, p. 171. Tradução minha). Resistindo à baixa popularidade do manual nos
discursos hodiernos, Fernando Garcia se interessa por estas publicações reconhecendo, em
diferentes edições, as oscilações de contribuições entre a propagação de estereótipos e
transmissão das potencialidades investigativas do desenho.
Ao aproximar-se, pela via do manual, da fragmentação errática das imagens, não faria
sentido opor-lhe resistência, pois empregar “um desagradável trabalho de reclassificação”
apenas “romperia a magia e a fascinação destes restos arqueológicos” (Molina, 2006, p. 171.
Tradução minha). E este fascínio pelo aspecto mágico do desenho parece necessário para a
proposta de trabalho de Fernando Garcia, pois sem fascínio não é possível desenvolver este
tipo de empreendimento sem incorrer em uma simulação mecânica.
Estar presente
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O projeto gráfico do trabalho é primoroso, com a encadernação feita à mão pelo próprio
artista. Cada folha contém uma dobra e quatro páginas que, em alguns casos, apresentam sutis
correspondências de desenhos contíguos. Esta característica justifica que o trabalho não
apresente cópias impressas. Existe apenas um original manuscrito. Esta situação mostra a
tensão de um objeto que, a princípio, deveria ser reproduzido mas é único, constituindo uma
reflexão visual sobre a reprodução e seus mecanismos dentro do processo de criação. Quando
indaguei a Fernando Garcia sobre a recusa em imprimir o trabalho, ele argumentou que a
imagem impressa homogeneizaria o desenho. Todas as marcas, por menores e mais discretas
que fossem, todos os detalhes e acidentes que acontecem no desenvolvimento gráfico de um
desenho, nas contingências entre o papel e o lápis, seriam transformadas ou perdidas pela
digitalização e impressão.
O que poderia ser interpretado como preciosismo, é, de fato, uma preocupação ligada ao
caráter indicial do trabalho, e talvez um dos sentidos mais importantes de seu processo.
Fernando Garcia trabalha com uma noção de atenção diferenciada, que demanda um tempo
próprio para acontecer, implicando às vezes dias inteiros para copiar alguns dos desenhos. A
própria proposta do trabalho foi uma maneira de gerar um compromisso, uma rotina de
concentração e prática de desenho na qual se pudesse observar com a devida atenção algumas
referências visuais marcantes, como o rosto de um Cupido de Botticelli, que sempre lhe
causou forte impressão. Isto reflete a preocupação de Fernando Garcia de ‘estar presente’ em
seus gestos e atividades, num movimento de resistência à imposição de um cotidiano
acelerado e de experiências superficiais.
Conforme é exigido pela instituição, foi destinado à biblioteca um arquivo digitalizado
do trabalho. A avaliação da banca levantou o assunto da acessibilidade ao conteúdo,
comentando que infelizmente o trabalho original não ficaria disponível para a apreciação
pública. Admitindo que todo trabalho acadêmico deve oferecer-se com clareza para o leitor,
podemos questionar como esta coletânea de imagens, acompanhada apenas por uma página de
diagrama sobre o desenho, pode comunicar toda a sua complexidade e desencadear outras
reflexões. Neste sentido, é importante ressaltar que o trabalho não se limita às delineações
acadêmicas, mas afirma-se como produção artística e poética de seu autor. Como tal, não se
pode cercear o trabalho com considerações delimitadoras ou conclusivas e tampouco adotar
instruções sobre sua abordagem. É necessário que um intervalo de indeterminação margeie
cada desenho para que possa instalar dúvidas e insinuações em cada ‘leitor’.
A recusa de Fernando Garcia não é ao diálogo, mas aos modelos desgastados,
impróprios ou deficientes para se abordar a arte, a prática do desenho. Uma outra forma de
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crítica a estes modelos envolve a concisão. Esta característica constante no processo do artista
é fundamental para que não se preencham os espaços de articulação nem se normatizem as
interlocuções com o trabalho. O que é dito e exibido é mínimo, permitindo uma atenção
apropriada e evitando banalizações, mas sem a ilusão de uma comunicabilidade precisa, de
um encontro de sentidos. Como coloca o artista Maurizio Cattelan (2006, p. 36), ‘a arte é
também uma questão de desentendimento’. Cattelan, conhecido por seus trabalhos irônicos,
considera que a respeito da noção de público não há a obrigatoriedade de se falar com ‘todos’,
pois ‘mesmo se eles [o público] não entendem o que você está dizendo, é importante estar lá,
presente’ (Cattelan, 2006, p. 36).
Ser invisível
Se ‘desenhar é estabelecer uma ordem de evocações precisas’, na qual ‘cada gesto, cada
estrutura, cada imagem remete a outras séries de cadeias de gestos, de estruturas, de imagens
ordenadas em discursos anteriores’ (Molina, 2006, p. 174. Tradução minha), podemos
considerar uma equivalência entre o procedimento de desenhar e de editar. O trabalho inteiro
de Fernando Garcia foi composto como cada desenho que o constitui, a partir de combinações
e correspondências entre referências diversas. Os critérios para estes arranjos não são da
ordem discursiva, assim como o procedimento desenvolvido pelo historiador Aby Warburg
em seu projeto do Bilderatlas Mnemosyne, baseado em uma eloqüência visual/conceitual que
extrapola o instrumental analítico de disciplinas como a História da Arte (Pérez-Oramas,
2006). O emprego deste procedimento evidencia uma espécie de proporção entre a micro e a
macro estrutura, sugerindo a compreensão do desenho simultaneamente como sobra e
matéria-prima.
O caráter deste conjunto de escolhas, apesar de estar cercado de indeterminação, não
deixa de assumir uma carga autoral. Quando constrói este catálogo, Fernando Garcia
inscreve-se na realidade, deixa seu registro, ainda que ocultando-se em um aparente
anonimato. Considerando também outras produções do autor, que merecem posteriores
investigações, é possível afirmar que quanto mais ele busca estar presente em suas
experiências, mais ele se esquiva dos outros. É como se o seu movimento de retiro procurasse
neutralizar os ruídos excessivos do contato com o outro, ou ainda apenas expressasse a
desilusão com uma pretensiosa luta contra a incomunicabilidade.
Este relato assume o ponto paradoxal de, ao compartilhar esta narrativa, tentar contribuir
para o projeto do artista. Fernando Garcia faz o que é necessário para estar presente e ao
mesmo tempo esquivar-se mas, como diz o fantasma ao protagonista de Doutor Pasavento,
‘Para desaparecer é preciso antes ter sido visto por alguém.’ (Vila-Matas, 2009, p. 380).
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Referências
Garcia, Fernando (2010). Desenho do desenho. Trabalho de conclusão de curso de Artes Plásticas.
Local: Universidade XXXX.
Molina, Juan José Gómez (org) (2006). Las Lecciones del Dibujo. Madri: Cátedra. ISBN: 84-376-
1376-0
Cattelan, Maurizio (2006). Entrevista a Hans Ulrich Obrist. In Obrist, Hans Ulrich (org) . Arte Agora!:
em cinco entrevistas. São Paulo: Alameda. ISBN: 85-98325-38-4
Pérez-Oramas, Luis (2006). An Atlas of Drawings. Nova Iorque: Museum of Modern Art. ISBN: 0-
87070-667-5
Vila-Matas, Enrique (2009). Doutor Pasavento. São Paulo: Cosac Naify. ISBN: 978-85-7503-873-4

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