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Revista Crítica de Ciências Sociais 

67 | 2003
Cidade / Artes / Cultura

A arte como profissão e trabalho: Pierre-Michel


Menger e a sociologia das artes
Vera Borges

Edição electrónica
URL: http://journals.openedition.org/rccs/1209
DOI: 10.4000/rccs.1209
ISSN: 2182-7435

Editora
Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra

Edição impressa
Data de publição: 1 dezembro 2003
Paginação: 129-134
ISSN: 0254-1106
 

Refêrencia eletrónica
Vera Borges, « A arte como profissão e trabalho: Pierre-Michel Menger e a sociologia das artes »,
Revista Crítica de Ciências Sociais [Online], 67 | 2003, posto online no dia 01 outubro 2012, consultado o
21 setembro 2020. URL : http://journals.openedition.org/rccs/1209  ; DOI : https://doi.org/10.4000/
rccs.1209
Revista Crítica de Ciências Sociais, 67, Dezembro 2003: 129-134

Revisões Críticas

A arte como profissão e trabalho:


Pierre-Michel Menger e a sociologia das artes
O aparecimento do mais recente livro de de comédien. Formations, activités et car-
Pierre-Michel Menger, Portrait de l’artiste rières dans la démultiplication de soi (Pa-
en travailleur, constitui uma oportuni- ris, La Documentation Française, 1997,
dade ímpar para reflectirmos sobre os ca- 455 pp.) é disso um exemplo e representa
minhos da sociologia das artes, ancora- um domínio de aplicação das démarches
dos nos trabalhos de investigação desse teóricas que Pierre-Michel Menger preco-
sociólogo. niza para as artes do espectáculo.
Vinte anos depois da primeira edição de Em segundo lugar, a análise da arte como
Le paradoxe du musicien, obra que marca trabalho: o livro Portrait de l’artiste en tra-
o princípio do seu percurso, profunda- vailleur. Métamorphoses du capitalisme
mente ligado à sociologia da criação musi- (Paris, Seuil, 2002, 96 pp.) apresenta a arte
cal, o autor edifica um importante e incon- como um modelo fecundo para o estudo
tornável quadro conceptual, no domínio das formas contemporâneas de emprego,
da sociologia das profissões, mercados das recomposição dos mercados de trabalho e
artes e trabalho artístico. 1 gestão das carreiras.
No princípio dos anos noventa, Pierre- Em conjunto, estes livros merecem-nos
-Michel Menger sucedeu a Raymonde duas breves notas, relevantes para a sua
Moulin na direcção do Centro de Sociolo- leitura. Por um lado, o autor concebe uma
gia das Artes e, desde então, tem vindo a aproximação sociológica das artes atenta
dedicar-se, em particular, ao estudo dos à situação do artista, à sua aprendizagem e
diferentes métiers do espectáculo, modali- gestão da incerteza e do risco, às suas con-
dades de carreira dos artistas, mercados de dições de profissionalização, produção das
trabalho nas artes, impacto das políticas obras e acumulação de saberes, no seio das
culturais públicas. 2 organizações artísticas. Por outro lado, o
Dois dos seus livros mais recentes testemu- autor procura nos instrumentos de tra-
nham, claramente, a organização do seu balho de outras disciplinas, como a história
campo de pesquisas. da arte e a economia, uma resposta pluri-
Em primeiro lugar, destaca-se a análise da disciplinar para o estudo dos mundos da
arte como profissão: o livro La profession arte, inovação e originalidade.

1
Cf. P.-M. Menger, Le paradoxe du musicien. Le compositeur, le mélomane et l’État dans la société contemporaine,
Paris, Flammarion, 1983. O autor publicou outros trabalhos dedicados à sociologia da produção e do consumo
musical: La condition du compositeur et le marché de la musique contemporaine en France, Paris, La Documen-
tation Française, 1979; Les laboratoires de la création musicale, Paris, La Documentation Française, 1989. Do
mesmo autor, outras contribuições interessantes para o estudo do mundo da música: “L’oreille spéculative”,
Revue Française de Sociologie, número especial “Sociologie de l’art et de la littérature” (sob a direcção de J.-C.
Chamboredon e P.-M Menger), XXVII (3), Julho-Setembro, 1986, pp. 445-479; “Technological innovations in
contemporary music. A socio-economic view”, Journal of the Royal Musical Association, vol. 114, Belfast, 1989,
pp. 92-101; “L’Opéra, bien public?”, Esprit, Março-Abril, 1989, pp. 88-96.
2
Actualmente, o Centro de Sociologia das Artes designa-se Centro de Sociologia do Trabalho e das Artes,
unidade de investigação da École des Hautes Études en Sciences Sociales, criada em 1983.
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1. A arte como profissão: a incerteza fortes, no princípio e no decurso da car-


e o risco reira dos actores, mas geram também um
Ao longo do seu percurso de investigação, certo encantamento e magia, capazes de
Pierre-Michel Menger tem privilegiado o seduzir os mais jovens. 5
estudo das profissões e mercados artísti- Os contornos actuais do mercado de tra-
cos, organizações e políticas da arte e da balho dos actores confinam, à partida, mais
cultura. candidatos a uma carreira artística com
O resultado mais recente deste programa percursos muito enriquecidos, uma profis-
de pesquisas foi a publicação de La profes- sionalização crescente (alcançável em vá-
sion de comédien, um livro de referência rios sectores de actividade) e, ainda, uma
pela estratégia metodológica utilizada, ca- capacidade de resposta cada vez mais alar-
tegorias de análise escolhidas, alcance dos gada por parte destes profissionais.
resultados e inúmeros pontos de interesse Sem barreiras fortes de selecção, sem a
para o estudo dos mundos artísticos. exigência de uma formação técnica longa,
Este amplo e rigoroso trabalho apoia-se sem disposições estatutárias que regula-
na análise dos dados do primeiro grande mentem o exercício da profissão, entrar é
inquérito realizado junto de um milhar de fácil, manter-se é o grande desafio para os
actores e tem como objectivo principal actores.
estudar a identidade e a actividade deste Na primeira fase de selecção, as compe-
grupo profissional, em França. 3 tências requeridas para o exercício deste
A estrutura do livro assenta na descrição métier são a originalidade, a expressivi-
da profissão do actor face às outras profis- dade, a iniciativa e o talento demonstrados.
sões artísticas, na análise das trajectórias Acima dos pré-requisitos técnicos iniciais,
de formação e aprendizagem profissional indispensáveis para um músico clássico,
dos actores, o seu emprego e trabalho nos encontram-se as disposições que o actor
diferentes sectores de actividade, o exer- manifesta e que determinam a sua escolha.
cício da profissão e o funcionamento das No entanto, a formação dos actores é um
organizações artísticas. passo muito importante para a sua sociali-
De acordo com Pierre-Michel Menger, a zação e integração no meio profissional.
forte progressão do número de efectivos e Estas são, aliás, etapas que Pierre-Michel
o aumento da sua taxa de desemprego são Menger considera solidárias, no decurso
duas importantes características da evolu- da carreira do actor, pois a aprendizagem
ção demográfica dos actores, visíveis pela no palco coexiste com o próprio exercício
análise das diferentes categorias de artis- da profissão.
tas, consideradas no recenseamento da Os actores que resistem no mercado de
população, realizado pelo INSEE. 4 trabalho durante mais tempo são consi-
O autor descreve assim um métier no qual derados talentosos e a sua reputação tende
a incerteza, o risco e a concorrência inter- a consolidar-se. A combinação do talento
individual representam constrangimentos com a capacidade de se relacionar com os

3
No passado, as pesquisas francesas consagradas a esta profissão foram da responsabilidade de Jean Duvignaud
(L’acteur, Paris, Gallimard, 1965 e Sociologie du théâtre, Paris, PUF, 1965). Mais recentemente, uma equipa
dirigida por Catherine Paradeise divulgou os resultados de um trabalho realizado junto de cem actores (Les
comédiens. Profession et marchés du travail, Paris, PUF, 1998).
4
Institut National de la Statistique et des Études Économiques, em França.
5
O autor apresentou e discutiu estes enunciados na conferência intitulada Y a-t-il trop d’artistes? Controverses
sociologiques et économiques, realizada na Universidade Nova de Lisboa, em 2001.
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colegas, com as diferentes equipas de traba- riedade e incerteza das profissões artísti-
lho e com os responsáveis é uma condição cas, como explica o autor a insistência na
de permanência e de reconhecimento pro- profissão de actor, cujas gratificações mo-
fissional no mundo artístico. netárias podem tardar ou nunca acontecer,
Por essa razão, os actores principiantes e e ainda, as fortes desigualdades dos rendi-
experientes mantêm-se associados a redes mentos auferidos?
de relações com diversos intervenientes nos Em França, a actividade dos actores no
processos de produção artística. Estas re- cinema, audiovisual e espectáculo ao vivo
des profissionais, sempre ligadas ao merca- divide-se entre os empregos assalariados
do de trabalho, permitem-lhes ter um aces- permanentes, no interior das organizações
so rápido e imediato às informações sobre artísticas estáveis, os empregos independen-
os papéis, os castings, as audições, os pro- tes remunerados e os contratos de emprego
jectos, os espectáculos, os filmes, enfim, os intermitente que conferem aos artistas um
empregos disponíveis. estatuto próximo dos independentes.
Para compreendermos como se organizam, O elevado recurso ao assalariado inter-
afinal, as actuais trajectórias profissionais mitente nas artes resulta, segundo o autor,
dos actores, Pierre-Michel Menger des- de um conjunto de factores interligados,
creve a diversidade e as incertezas que ca- como a organização empresarial do sector
racterizam as suas carreiras individuais, artístico, as políticas de intervenção no
assinalando a acumulação de funções e a sector cultural, a multiplicação de estrutu-
diversificação dos sectores de actividade ras e contratos por projecto, o volume cres-
onde trabalham. cente de trabalho artístico e técnico no
Ser actor é trabalhar no teatro, na televisão sector audiovisual, as transformações do
e no cinema, acumular funções e activi- próprio mercado de emprego.
dades profissionais diversificadas. O autor Não é a primeira vez que Pierre-Michel
associa a esta “desmultiplicação de si”, Menger se debruça sobre o funcionamento
mecanismos como a mobilidade sectorial do regime de trabalho intermitente francês,
e a polivalência profissional dos actores único na Europa. Já o fizera noutras oca-
(p. 132). E acrescenta ainda: a acumulação siões, apontando as principais caracterís-
de experiências e contratos de trabalho ticas da forma dominante de emprego dos
– com diferentes mestres, nas várias estru- artistas: o assalariado intermitente com
turas artísticas e sectores de actividade – uma multiplicidade de entidades empre-
é decisiva para a inserção e integração dos gadoras, uma certa autonomia do artista,
actores no mercado. as relações de trabalho temporárias, a
Estamos assim em condições de pergun- diversificação dos riscos profissionais, a
tar: de acordo com os resultados das luta contra a precariedade e o risco da pro-
pesquisas de Pierre-Michel Menger, qual fissão. 6
é o tipo de contrato de trabalho predomi- Actualmente, em França, o contrato de
nante no mundo das artes? Face à preca- duração determinada (CDD) intermitente

6
Cf. os estudos teóricos e empíricos do autor que antecederam este livro, em particular: “Rationalité et incerti-
tude de la vie d’artiste”, L’Année sociologique, vol. 39, 1989, pp. 111-151; “Marché du travail artistique et sociali-
sation du risque: le cas des arts du spectacle”, Revue Française de Sociologie, XXXII (1), 1991, pp. 61-74 ; “Être
artiste par intermittence. La flexibilité du travail et le risque professionnel dans les arts du spectacle”, Travail et
Emploi, nº 60, 1994, pp. 4-22. E ainda: P.-M. Menger e M. Gurgand, “Work and compensated unemployment in
the performing arts. Exogenous and endogenous uncertainty in artistic labour markets”, in V. Ginsburgh e
P-M. Menger (dir.), Economics of the arts, Amesterdão, North Holland, 1996, pp. 347-381.
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e a indemnização prevista para os perío- balho alternativos ao “assalariado à antiga”


dos de não trabalho representam o regime aproximam as profissões artísticas das ou-
da maioria dos artistas e de um número tras profissões. Lembramos o caso dos jo-
considerável de técnicos. Inicialmente cria- vens diplomados: por exemplo, os jovens
do para o sector do cinema, o regime de advogados e o trabalho muitas vezes não
indemnização específico para os períodos remunerado nos escritórios, situação que
de não trabalho dos artistas e técnicos alar- se mantém devido à existência de um ele-
gou-se às outras actividades ligadas ao vado número de profissionais disponíveis
espectáculo. no mercado de trabalho.
Neste livro, Pierre-Michel Menger confir- É neste sentido que, tendo como ponto de
ma que o referido sistema contribuiu para partida as questões levantadas no domínio
o aumento do número de actores, mas su- das artes do espectáculo, Pierre-Michel
blinha que para a escolha destas profissões Menger explora abertamente a evolução
contribuem muito significativamente as dos mercados contemporâneos do traba-
recompensas resultantes da natureza e va- lho, registando a evolução específica dos
riedade das tarefas e actividades artísticas, mercados contemporâneos artísticos.
autonomia dos indivíduos, aprendizagem A propósito das actuais configurações dos
incessante do “eu”, reconhecimento do mé- mercados artísticos, sublinhamos a impor-
rito individual, prestígio social e estatuto. tância de uma obra recente co-dirigida pelo
Além disso, os artistas reconhecidos, com autor: Le spectacle vivant. Neste livro, os
sucesso e elevados rendimentos, conti- sectores de actividade como o teatro, a
nuam a alimentar o sonho de que tudo dança, a música, entre outros, são analisa-
pode acontecer. O sucesso é imprevisível dos à luz da estruturação do seu campo
e não existe uma relação evidente entre este profissional, lógicas de produção e difusão
e as características sociais ou a formação dos espectáculos, o seu impacto nas lógi-
artística dos indivíduos. cas e práticas de emprego e gestão dos re-
O autor considera que a situação dos artis- cursos humanos, nas diferentes estruturas
tas, como descrita acima, insere-se num do espectáculo. 7
“regime de emprego hiper-flexível” A generalização das hipóteses lançadas
(p. 134), na medida em que os artistas e os pelo autor, no livro La profession de comé-
técnicos, ligados ao métier do espectáculo, dien e nos trabalhos que tem vindo a desen-
trabalham durante períodos de curta dura- volver, ao longo dos anos, tornaram possí-
ção e não trabalham durante períodos de vel a elaboração de um modelo de análise
tempo mais ou menos longos, mantendo- das artes fecundo e indissociável do carác-
-se disponíveis e assegurando a flexibili- ter pluridisciplinar da sua investigação.
dade da produção artística. Como veremos a seguir, a construção deste
Esta hiper-flexibilidade do regime de em- modelo passa pelo exame das teorias e dos
prego nas artes é produtiva para a análise métodos de análise sociológica e económi-
de outros grupos profissionais, o que ca, ligados ao trabalho, à gestão dos riscos
demonstra também que os sistemas de tra- e das incertezas profissionais. 8

7
Cf. P.-M. Menger, Rémi Debeauvais e François Piettre (dir.), Le spectacle vivant, Paris, La Documentation
Française, 1997 ; P.-M. Menger, “Les intermittents du spectacle: croissance de l’emploi et croissance du chômage
indemnisé”, Insee Première, Fevereiro, 1997, 4 p.
8
Daqui resultaram a coordenação de um número especial da Revue Française de Sociologie, “Sociologie et écono-
mie”, 1997, e os trabalhos que consagrou a esta temática, em obras colectivas, seminários e colóquios, nos últimos
dez anos.
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2. A arte como trabalho: a inovação e guinte: ao falar da actividade de criação


a originalidade estaremos a falar de um trabalho cujos mo-
O livro Portrait de l’artiste en travailleur dos de organização económica e social
representa o momento de articulação dos servem como instrumentos de leitura de
principais domínios em que se apoia a outros mundos produtivos? Ou, pelo
investigação de Pierre-Michel Menger. contrário, as particularidades dos mundos
Revela-se ainda um importante passo para artísticos obrigam-nos a construir uma
o seu percurso pessoal e para os desafios aproximação oposta à anterior?
que se impõem hoje à sociologia das artes. Para ultrapassar este dilema, o autor
Como o próprio nome indica, este livro propõe-nos seguir as actividades de criação
é uma análise sociológica da arte e do artística “[…] como a expressão mais
artista, realizada a partir da categoria avançada dos novos modos de produção e
conceptual trabalho. Mas como e porquê das novas relações de emprego engendra-
uma análise da arte construída nestes ter- das pelas mutações recentes do capitalis-
mos? mo. Longe das representações românti-
Nas obras e artigos publicados, nos semi- cas […] seria agora necessário olhar para
nários que dirige, o autor defende que os o criador como uma figura exemplar do
estudos sociológicos das artes e das novo trabalhador […]. Nas representações
profissões artísticas devem incidir sobre o actuais, o artista é quase como uma incar-
que faz a sua especificidade, o que as dis- nação possível do trabalhador do futuro, é
tingue e o que as aproxima das outras for- quase como a figura do profissional inven-
mas de trabalho, a importância da ino- tivo, móvel, rebelde perante as hierarquias,
vação, da originalidade, da competência intrinsecamente motivado, que vive numa
profissional para a renovação de cada economia da incerteza, e mais exposto aos
domínio artístico e para a análise de outros riscos de concorrência inter-individual e às
mundos produtivos. novas inseguranças das trajectórias profis-
Além disso, a diferenciação das actividades sionais” (pp. 8 e 9).
e domínios artísticos é muito grande e a Como tivemos oportunidade de compro-
categoria trabalho permitirá evidenciar as var acima, a amplitude e a riqueza dos re-
suas diferenças e as suas similitudes. Cada sultados dos trabalhos empíricos, realiza-
mundo artístico coloca à prova empírica dos pelo autor e pela equipa que dirige,
os paradigmas da sociologia e origina in- permitem-lhe testar, neste livro, as inúme-
vestigações muito diversas, de acordo com ras hipóteses de análise, no que respeita às
o enfoque da pesquisa: a organização artís- novas configurações, quer da actividade
tica, o recrutamento e a formação, o mer- profissional artística, quer de outros secto-
cado de trabalho, o consumo das obras. res de actividade.
Mais ainda: fazer uma análise das artes, O autor demonstra que a procura perma-
seguindo a linha de investigação sugerida, nente de originalidade e de novidade na
consiste em explorar o processo de criação concepção e produção artísticas tem por
como um trabalho. Cada vez mais, os pró- si mesma consequências originais, quer no
prios artistas representam esse processo e funcionamento do mercado de emprego
abrem os seus espaços de criação, os seus artístico, quer nas formas organizacionais
ateliers, as suas salas de ensaio, aos inves- da actividade produtiva em geral. É aqui
tigadores e ao público em geral. que reside a força deste livro e será este o
A questão principal que está na origem mote das três partes que, solidamente cons-
de Portrait de l’artiste en travailleur é a se- truídas, o compõem.
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Na primeira parte, Pierre-Michel Menger Na terceira parte, Pierre-Michel Menger


questiona até que ponto as artes consti- debruça-se sobre os sistemas de emprego
tuem ainda um domínio cujos princípios que caracterizam actualmente a actividade
de funcionamento não são comparáveis artística, na Europa e nos Estados Unidos.
aos vulgares mundos de produção ou até Ao utilizar estes contributos, o autor faz
que ponto as artes obedecem às mesmas uma análise das transformações no merca-
regras económicas, com os devidos ajusta- do de trabalho contemporâneo.
mentos. A dinâmica das organizações e dos mer-
Na reflexão que promove em torno desta cados artísticos remetem o autor para a
temática, o autor avalia um importante análise de temas que há muito tempo fa-
conjunto de posições teóricas que lhe per- zem parte das suas investigações: a va-
mitem construir este novo “retrato do artis- riedade de competências e talentos que
ta”. A saber, autores tão diferentes como são pedidos ao artista como forma de
Adam Smith, Karl Marx, Theodor Ador- reduzir os riscos da concorrência pela ino-
no, Daniel Bell, Arthur Stinchcombe ou vação e da actividade desenvolvida por
Eve Chiapello, para citar apenas alguns. projecto.
Apresenta assim uma tipologia dos argu- Para terminar, o autor argumenta que as
mentos que acompanharam a penetração artes parecem surgir, ironicamente, como
do capitalismo na esfera da arte, depois percursoras de formas flexíveis de empre-
desta última se apresentar como uma “ver- go, de combinações múltiplas de activi-
dade utópica do homem” ou ainda um dades e de modalidades de exercício do
“agente de protesto contra o capitalismo”. trabalho, originando o que designou por
E termina com uma interessante discussão “hibridação dos estatutos da actividade”
em torno da arte como um modelo para a artística.
inovação e para a divisão social do trabalho. O grande mérito deste último livro de
Na segunda parte, Pierre-Michel Menger Pierre-Michel Menger é desenvolver uma
trata as desigualdades presentes no mun- interessante análise sociológica e socio-
do das artes e do espectáculo, no que res- económica do trabalho artístico, aprovei-
peita ao sucesso e à remuneração. O autor tando os ensinamentos de uma obra muito
analisa os critérios que legitimam as dis- rica, construída ao longo dos anos que tem
paridades encontradas e os fundamentos dedicado à investigação.
não monetários para a escolha destas
profissões. Muito estimulante para aqueles que traba-
Discute, ainda, os principais mecanis- lham ou começam a trabalhar nestas áreas
mos responsáveis pela construção da temáticas, o trabalho de Pierre-Michel
reputação individual dos artistas e dos gru- Menger revela-se um importante modelo
pos: “A reputação é ao mesmo tempo um e instrumento de análise para os mundos
capital acumulável que confere ao seu sociais das artes, em terreno português.
detentor um poder para orientar as suas Assim, quer pela pertinência do seu qua-
escolhas de projecto e equipa, um sinal dro teórico, quer pela qualidade das suas
necessário para o consumidor quando ele reflexões e resultados apresentados, os seus
não pode conhecer o conteúdo da obra […] livros mais recentemente publicados são
e um elemento de identificação do qual a referências incontornáveis nesta área de
comunidade profissional se serve […] para pesquisa.
organizar os seus projectos e diminuir a
incerteza dos resultados” (p. 46). Vera Borges

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