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DIDÁTICA

Pablo Rodrigo Bes


Ensino e aprendizagem:
dois processos básicos
da didática
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:

 Definir ensino.
 Explicar o que é aprendizagem.
 Descrever o processo de ensino e aprendizagem segundo os quatro
pilares da educação da Unesco.

Introdução
O ensino e a aprendizagem exercem papéis centrais na didática, uma
vez que fornecem subsídios para que o professor possa atuar em sala de
aula e preparar os seus alunos para viverem em uma sociedade balizada
pelo aprender — não só na escola e durante a infância, mas sim em
todos os campos sociais e ao longo de toda a vida. Assim, entender o
que é o processo de ensino e aprendizagem e como esses conceitos se
encontram presentes no cotidiano de professores significa perceber que
estes seguem alguma tendência pedagógica que alicerçará as práticas
educacionais.
Neste capítulo, você estudará sobre os conceitos e as características
principais dos dois processos básicos que constituem a didática e pautam
o trabalho docente no interior das escolas: o ensino e a aprendizagem.
Além disso, conhecerá o processo de ensino e aprendizagem à luz dos
quatro pilares da educação da Organização das Nações Unidas para
a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) como caminhos a serem
seguidos na educação dos países membros da Organização das Nações
Unidas (ONU).
2 Ensino e aprendizagem: dois processos básicos da didática

1 O conceito de ensino
O ser humano tem se dedicado a compreender como ocorre o ensino desde a
Antiguidade Clássica, procurando maneiras, formatos, técnicas e métodos mais
eficazes para possibilitar que os conhecimentos produzidos e acumulados da
cultura humana sejam transmitidos, repassados e ensinados aos demais membros
da sociedade. Piletti (2010, p. 23) reforça que “[...] o ensino e a aprendizagem são
tão antigos quanto a própria humanidade”, referindo-se à necessidade de as tribos
primitivas ensinarem os seus filhos a caçar e sobreviver em um ambiente hostil.
Tornar possível que esse acúmulo de informações e conhecimentos se per-
petue através do tempo passa a ser entendido, então, a partir da ideia de ensinar,
ou seja, da ação de transmitir ao outro esses saberes. Daí advém a primeira
característica importante sobre o ensino: ele é realizado por alguém que tem o
conhecimento. Essa pessoa, partindo de um objeto que deseja ensinar, transmitirá
o que sabe a alguém. Piletti (2010, p. 26) traz o seguinte complemento: “[...]
segundo o conceito etimológico, ensinar (do latim signare) é ‘colocar dentro,
gravar no espírito’. De acordo com esse conceito, ensinar é gravar ideias na
cabeça do aluno. Nesse caso, o método de ensino é o de marcar e tomar a lição”.
Assim, pode-se entender, a partir dessa ideia inicial sobre o ensino, visto
sob uma perspectiva pedagógica tradicional, que ensinar segue um processo
que envolve três elementos, conforme a Figura 1.

Figura 1. Os três elementos que envolvem o processo de ensino.


Ensino e aprendizagem: dois processos básicos da didática 3

Pode-se perceber que os assuntos que envolvem o ensino para a área


da educação são muito pertinentes. Com base na sua conceituação, há
inúmeras problematizações possíveis. Por exemplo, qual é a importância
do preparo técnico do professor para que ensine de forma mais eficiente?
Quais são as técnicas (didática) mais adequadas para ensinar determina-
dos objetos de conhecimentos? Como são eleitos os conteúdos que serão
ensinados (currículo)? O ensino que está sendo proposto tem gerado
aprendizagem?
Neste capítulo, você poderá constatar que nem todos os esforços em
torno do ensino, com conteúdos ricos, ambiente estimulante, boas técnicas
didáticas e preparo do professor que os ministra, poderão garantir que a
aprendizagem ocorra. É importante destacar que considerar o ensino como
algo dissociado do aprender — e da aprendizagem em si — remonta aos
primórdios do surgimento da didática, identificada como a “arte de ensinar”.
A didática propõe técnicas diversas, as quais facilitarão a condução e o
desenvolvimento das aulas pelo docente (BES, 2017). Para contribuir com
esse argumento, pode-se resgatar as ideias propostas por Comenius (1657),
em sua obra Didática Magna:

Nós ousamos prometer uma didática magna, ou seja, uma arte universal de
ensinar tudo a todos: de ensinar de modo certo, para obter resultados, de
ensinar de modo fácil [...] de ensinar de modo sólido, não superficialmente,
de qualquer maneira, massa para conduzir à verdadeira cultura, aos bons
costumes [...] (COMENIUS, 1976, p. 13).

É claro que a forma como o ensino é entendido fará com que as ações do
professor levem à finalidade de ensinar. Esse conceito se reconfigura com
o passar dos séculos, indo ao encontro das tendências pedagógicas (e até
mesmo psicológicas) que emergem, possibilitando ao docente se posicionar
e optar por aquelas com as quais mais se identifica. Ainda assim, segundo
Luck (1994, p. 39), “[...] o ensino, em geral, centra-se na reprodução do
conhecimento já produzido”.
Damis (2010), ao estudar as transformações ocorridas na didática e as
ênfases que recaem sobre o ensinar, comenta que elas seguem as mudanças
apresentadas na Figura 2.
4 Ensino e aprendizagem: dois processos básicos da didática

Figura 2. Mudanças ocorridas na didática.


Fonte: Adaptada de Damis (2010).

Dessa maneira, um professor alinhado com as tendências pedagógicas liberais


tradicionais, por exemplo, é visivelmente identificado como aquele que se porta
como o único detentor do conhecimento. Por essa razão, ele transmitirá os con-
teúdos a serem ensinados, em virtude de considerar que os alunos não possuem
conhecimento algum sobre eles. Nesse caso, os alunos recebem o ensino de forma
passiva, memorizando informações, e não interagindo entre si ou com o docente.
Ou seja, nessa visão pedagógica tradicional, ensinar é transmitir conhecimentos.
Já se o docente segue uma tendência pedagógica progressista, ele enten-
derá que, ao ensinar, deverá envolver outros elementos no processo, como as
vivências e experiências do aluno sobre os conteúdos abordados, bem como
a problematização das realidades sociais nas quais ele se encontra inserido.
Essa maneira de posicionar-se pedagogicamente propõe que o ensino possa
ser visto como uma relação horizontal entre o professor e os alunos, em que
ambos podem ter conhecimento e aprender juntos.
É conveniente destacar, ainda, que o movimento da Escola Nova, que
despontou no Brasil na década de 1930, propôs algumas modificações inte-
ressantes em relação ao ensino, deslocando-o da visão pedagógica tradicional.
Conforme propõe Piletti (2010, p. 27):

Com a Escola Nova, o eixo da questão pedagógica passa do intelecto (ensino


tradicional), para o sentimento; do aspecto lógico, para o psicológico; dos
conteúdos cognitivos para os métodos ou processos pedagógicos; do professor
para o aluno; do esforço para o interesse; da disciplina para a espontaneidade;
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do diretivismo para o não-diretivismo; da quantidade para a qualidade; de


uma pedagogia de inspiração filosófica centrada na ciência da lógica para
uma pedagogia de inspiração experimental baseada principalmente na Bio-
logia e na Psicologia.

Como é possível perceber, as formas como o ensino é entendido perten-


cem a cada época histórica e seus acontecimentos. Assim, a escola também
se modifica e apresenta novas maneiras de desenvolver os seus processos
de ensino e aprendizagem, visando a dar conta de um mundo em constante
transformação. É importante perceber que as teorias produzidas por outras
áreas das ciências, como a psicologia, a filosofia e a sociologia, repercutem
na pedagogia, que incorpora novos conceitos sobre as maneiras como se deve
ensinar e aprender, modificando as condutas docentes.
Um exemplo das contribuições da psicologia sobre o entendimento do
ensino é a definição de aprendizagem como “[...] mudança de comportamento
resultante do treino ou da experiência” (GIUSTA, 2013, p. 22). Essa ideia, que
surge nos trabalhos de psicólogos da corrente conhecida como behaviorismo,
entre eles Skinner, Pavlov e Watson, altera a compreensão do ensino em que
o professor era considerado o centro do processo, passando à percepção de
outros elementos, como a experiência ou o condicionamento.
As pesquisas desenvolvidas por Jean Piaget, com a sua epistemologia genética,
propõem a ideia de que “[...] o conhecimento não procede nem da experiência
única dos objetos nem de uma programação inata pré-formada no sujeito, mas de
construções sucessivas com elaborações constantes de estruturas novas” (PIAGET,
1976, p. 4). Da mesma maneira, as teorias de Vygotsky (1977) a respeito do processo
socio-histórico-cultural da aprendizagem contribuem de forma significativa para
os conceitos de ensino e aprendizagem, uma vez que, de acordo com o autor:

[...] a aprendizagem não é em si mesma desenvolvimento, mas uma correta


organização da aprendizagem da criança conduz ao desenvolvimento mental,
ativa todo um grupo de processos de desenvolvimento, e esta ativação não
poderia produzir-se sem a aprendizagem. Por isso, a aprendizagem é um
momento intrinsecamente necessário e universal para que se desenvolvam
na criança essas características humanas não naturais, mas formadas histo-
ricamente (VYGOTSKY, 1977, p. 47).

Como é possível verificar, as ideias da área da psicologia contribuem para


que a pedagogia se renove e passe a entender o ensino a partir de outras lentes.
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Ao abordar o tema do ensino e da aprendizagem, deve-se considerar que a motivação


para aprender deve partir do aluno, ou seja, é inerente a ele. Dessa forma, o professor,
a partir do uso de recursos, métodos e procedimentos adotados, procurará fazer o
aluno se motivar a aprender. Uma das maneiras mais eficazes de conseguir provocar
essa motivação é conhecer os interesses atuais dos alunos e, a partir deles, conduzir
as aulas e abordar os conhecimentos que se deseje desenvolver.

2 O conceito de aprendizagem
Destacamos, até aqui, o caráter originário do ensinar — que enfatiza as
ações iniciais da didática —, traduzido como o ato de repassar a alguém
os conhecimentos produzidos pela humanidade em todas as suas esferas:
cultural, científica, religiosa ou até mesmo do senso comum. Inicialmente, o
ensinar estava associado direta e exclusivamente com a figura do professor;
já o aprender estava relacionado com o aluno (alvo das técnicas de ensino),
devendo este apropriar-se dos conhecimentos propostos. Em outras palavras,
aprende-se alguma coisa quando aquilo que foi ensinado a partir de alguém
é, de fato, apreendido e compreendido pelo aluno ou aprendiz. A partir de
então, esse conhecimento passa a fazer parte do indivíduo, mudando os seus
pensamentos ou a sua conduta.
Segundo Pilletti (2010), existem três tipos de aprendizagem:

 aprendizagem motora ou motriz;


 aprendizagem cognitiva;
 aprendizagem afetiva ou emocional.

A aprendizagem motriz refere-se ao desenvolvimento das habilidades


motoras necessárias para a vida, como andar, correr, dirigir, falar, escrever,
etc. Já a aprendizagem cognitiva baseia-se no aprender, assimilar e interpretar
todas as informações e os conhecimentos recebidos. Por fim, a aprendizagem
afetiva envolve os sentimentos e as emoções que existem e fazem parte dos
processos de ensino e aprendizagem. É importante destacar que essas apren-
dizagens ocorrem simultaneamente, de forma interdependente.
Pode-se constatar, ainda, que inúmeros outros fatores intervêm na apren-
dizagem dos alunos no interior da escola, conforme a Figura 3.
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Figura 3. Fatores que intervêm na aprendizagem dos alunos na escola.

Como é possível perceber, o aprender, segundo as concepções pedagógi-


cas e psicológicas que circulam na atualidade, envolve aspectos que fogem
do ambiente escolar. Por exemplo, a partir da realidade social que os alunos
vivenciam, da sua estrutura de vida, da classe social que ocupam, eles tanto
poderão ter maior dificuldade em aprender quanto ser mais favorecidos.
Os aspectos nutricionais (desde a gestação) proporcionarão o desenvolvi-
mento neuronal pleno, de modo que a capacidade para aprender ocorrerá de
forma tranquila. Já crianças que tiveram uma nutrição precária na gestação e
na infância poderão apresentar maiores dificuldades de aprendizagem.
O ambiente familiar no qual a criança passa a viver a sua infância e a
sua escolarização inicial também afeta a maneira como ela aprende. Pais ou
responsáveis que se preocupam com um ambiente harmônico, não violento e
pautado no diálogo, por exemplo, produzem melhores condições psicológicas
para que essa criança possa aprender em casa e na escola. Da mesma forma,
crianças que vivenciaram ambientes familiares agressivos e violentos tendem
a ter maiores dificuldades para aprender.
Os aspectos culturais — e até mesmo étnicos — que envolvem as experi-
ências e vivências nos grupos sociais em que as crianças participam desde o
seu nascimento também serão importantes para que elas possam desenvolver
a sua visão de mundo e valorizar ou não o aprender escolar.
Nesse sentido, a didática utilizada pelo professor e os estímulos que este
adota para ensinar irão motivar e interferir diretamente na aprendizagem de
seus alunos. Assim, pode-se admitir uma relação muito estreita entre a mo-
tivação para aprender e o interesse pela aprendizagem com a maneira como
o professor procura planejar e desenvolver as suas aulas. Segundo Brousseau
(apud ALMOULOUD, 2007, p. 31):
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Um processo de aprendizagem pode ser caracterizado de modo geral (se não


determinado) por um conjunto de situações identificáveis (naturais ou didá-
ticas) reprodutíveis, conduzindo frequentemente à modificação de comporta-
mentos de alunos, modificação característica da aquisição de um determinado
conjunto de conhecimentos.

O autor entende que há outras situações, além das didáticas, que poderão
proporcionar a aprendizagem e aponta algo muito importante, que atesta o
aprendizado: a mudança de comportamento. Logo, se você quiser verificar se
algum conteúdo ou conhecimento foi aprendido pelos seus alunos, também
precisará pensar em um formato de avaliação que permita visualizar se o
comportamento anterior foi alterado ou não. Observe um exemplo bem típico
das instituições de ensino da atualidade: ações educacionais que procuram
evitar o preconceito, a discriminação ou o bullying no interior das escolas.
O professor prepara-se para essa atividade e planeja as mais diversas ações e
metodologias que possam conduzir ao objetivo de acabar com tais situações
na escola. Após colocá-las em prática com o seu grupo de alunos, ele verifi-
cará se estes aprenderam o que foi proposto a partir da modificação de suas
condutas em relação ao tema. Se as ações continuarem apontando atitudes
preconceituosas e discriminatórias ou o próprio bullying, é provável que a
aprendizagem não tenha ocorrido a todos como deveria, pois não atingiu os
seus objetivos iniciais.
Logo, pode-se perceber que desenvolver a aprendizagem não é uma tarefa
simples, uma vez que:

[...] aprendizagem não é somente um processo de aquisição de conhecimentos,


conteúdos ou informações. As informações são importantes, mas precisam
passar por um processamento muito complexo, a fim de se tornarem signifi-
cativos para a vida das pessoas (PILETTI, 2010, p. 29).

É nesse processamento complexo citado pelo autor que se encontram as capaci-


dades individuais e as questões afetivas e motoras existentes naquele que aprende.
A aprendizagem tem sido muito enfatizada na atualidade, uma vez que
vivemos em uma sociedade que abrange uma grande profusão de informa-
ções advindas do universo digital, o que contribui para que o seu conceito
se reconfigure. Embora seja contestável que as informações disponíveis na
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internet possam sempre traduzir-se em qualidade de aprendizagem, ainda


assim sabe-se que é possível aprender de forma autônoma a partir da rede.
Essas possibilidades de aprendizagem, que surgiram a partir da globalização
e das novas formas de comunicação, também modificam o papel do professor
nas instituições de ensino, que é visto agora como mediador do conhecimento.
Conforme Moran (1997, p. 151):

[...] precisamos de mediadores, de pessoas que saibam escolher o que é mais


importante para cada um de nós em todas as áreas da nossa vida, que garimpem
o essencial, que nos orientem sobre as suas consequências, que traduzam os
dados técnicos em linguagem acessível e contextualizada.

Das novas associações que falam da aprendizagem, relacionando-a com a


sociedade da informação ou com a sociedade aprendente atual, fica a ideia de
que esse conceito é visto como algo novo, quase que incontrolável em relação
aos seus resultados finais. Da mesma forma, a aprendizagem via internet,
por meio da intertextualidade proposta pelos hipertextos, com suas camadas
de informações sobrepostas e complementares, produz um novo modo de
aprender, mais dinâmico e instável.
Dessa forma, pode-se entender que, na atualidade, o:

[...] aprender não pode aludir, nunca, a uma tarefa completa, a um procedi-
mento acabado ou a uma pretensão totalmente realizada; ao contrário, indica
vivamente, à dinâmica da realidade complexa, a finitude das soluções e a
incompletude do conhecimento (DEMO, 2000, p. 49).

Para entender melhor como funciona a relação entre o ensino e a aprendizagem,


podemos nos valer de algumas metáforas, como a da agricultura. Dessa maneira,
o professor pode ser visto como o agricultor, que prepara a terra, a aduba e a irriga.
Contudo, a germinação, o desenvolvimento das plantas e o sucesso na colheita de-
pendem, também, das sementes que foram plantadas. Em suma, o professor é um
agente externo que colabora na aprendizagem do aluno, assim como o agricultor o
faz para o resultado da plantação.
10 Ensino e aprendizagem: dois processos básicos da didática

3 Os quatro pilares da educação e o ensino


e a aprendizagem
As questões que envolvem a educação e, consequentemente, os aspectos
relacionados ao ensino e à aprendizagem têm um destaque mundial muito
grande na contemporaneidade, sobretudo pelos aspectos relacionados a uma
sociedade que passa de pautada na informação para aprendente — fenômeno
verificado principalmente nas últimas décadas. Assmann (1998) faz uma
interessante constatação ao analisar que, com a universalização da internet
e das tecnologias da informação e da comunicação, que caracterizam a cha-
mada sociedade da informação, tivemos uma mudança radical nas questões
de tempo/espaço. Isso também altera as exigências no mercado de trabalho,
principalmente nos aspectos relacionados a uma maior formação/qualificação
e flexibilidade por parte dos colaboradores que atuam nas empresas globais.
Dessa forma, percebe-se que a denominada sociedade aprendente surgiu nos
ambientes organizacionais e, posteriormente, deslocou-se para as escolas, que
mudaram as suas ênfases também para a aprendizagem. Para darmos apenas um
pequeno exemplo dessa argumentação, em 1990, Peter Senge lançou o seu livro
A quinta disciplina, que se tornou um best-seller seguido e praticado em muitas
das grandes organizações públicas e privadas mundiais. Ele argumenta que:

Muitos se referem às organizações emergentes como “organizações baseadas


no conhecimento” ou como “organizações que aprendem”: organizações
inerentemente mais flexíveis, adaptáveis e mais capazes de constantemente
“reinventarem-se”. Tais organizações terão por base a crença de que, em um
mundo de mudanças cada vez mais aceleradas e crescente interdependência […]
a fonte básica de toda vantagem competitiva está na capacidade de aprender
mais rápido do que seus concorrentes (SENGE, 2002, p. 12, grifo nosso).

Como é possível verificar, alguns fatores econômicos, políticos e sociais contri-


buem para essa mudança de ênfase. O aprender ganha destaque e a aprendizagem
passa a ser entendida como algo que deve ser realizado pela vida toda. Preocupada
em propor condições universais para equilibrar as questões que envolvem a educa-
ção da população global, a Unesco — braço da Organização das Nações Unidas
(ONU) relativo aos cuidados com a educação — lançou, em 1996, o Relatório da
Comissão Internacional da Educação para o Século XXI, intitulado Um tesouro
a descobrir. Esse documento aponta os quatro pilares sobre os quais a educação
deverá se pautar (Figura 4). Esses pilares se relacionarão diretamente com as
questões que envolvem o ensino e, principalmente, aquilo que deve ser aprendido
nas escolas dos sistemas de ensino das nações que fazem parte da ONU.
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Figura 4. Os quatro pilares da educação propostos pelo relatório da Unesco.


Fonte: Adaptada de Dzm1try/Shutterstock.com.

Segundo as próprias palavras do documento, dentro de um mundo que se


encontra imerso em tantos infortúnios, violências e desigualdades sociais, e
que busca ser coeso e global, é coerente entender que:

[...] o indivíduo deve dispor de todos os elementos de uma educação básica de


qualidade; melhor ainda, é desejável que a escola venha a incrementar, cada
vez mais, o gosto e prazer de aprender, a capacidade de aprender a aprender,
além da curiosidade intelectual (UNESCO, 2010, p. 12).

Em essência, como a sociedade torna-se mais dinâmica e suscetível a mu-


danças, e para que se alcance o objetivo de um mundo sustentável no futuro,
“[...] é imperativo impor o conceito de educação ao longo da vida com suas
vantagens de flexibilidade, diversidade e acessibilidade no tempo e no espaço”
(UNESCO, 2010, p. 12). Como é possível perceber, a busca pelo aprender está
sendo enfatizada e reforçada, e o relatório propõe, ainda, que essa educação
e essas aprendizagens ocorram não somente durante a vida escolar, mas sim
por toda a extensão da vida, de forma permanente.
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Confira, a seguir, os quatro pilares da educação e como eles se articulam


com as questões do processo de ensino e aprendizagem, conforme apresentado
no documento da Unesco (2010).

 Aprender a conhecer: faz-se necessário que os indivíduos tenham


acesso e aprendam sobre determinada cultura geral, sobre uma base
cultural relacionada a tudo o que foi desenvolvido nos aspectos cientí-
ficos. Esses conhecimentos devem ser suficientemente amplos, a fim
de fornecer capacidade intelectual e permitir que essas pessoas possam
ter condições de selecionar os conhecimentos que mais lhe interessem
e, assim, planejar seus estudos no decorrer da vida. Aqui, percebe-se
que a escolarização inicial é de fundamental importância, pois, por
meio do sucesso no alcance de seus objetivos educacionais, ela estará
proporcionando que os alunos adquiram essa base de conhecimentos
que darão suporte às suas aprendizagens posteriores. Cabe ressaltar
que, atualmente, vivemos a emergência de uma Base Nacional Comum
Curricular, construída a partir de um esforço do Ministério da Educação,
com a participação popular, que propõe um nivelamento de conteúdos
a serem adquiridos por todos os que frequentam as escolas brasileiras.
 Aprender a fazer: esse item refere-se especificamente à aquisição de
uma profissão, a aprender competências que qualifiquem o indivíduo
para as imprevisibilidades do mercado de trabalho. Propõe-se, ainda, a
desenvolver, dentro da escola, o trabalho em equipe, por meio de processos
de ensino e aprendizagem que simulem, testem e aproximem a escola
dos ambientes de trabalho encontrados pelos estudantes ao se tornarem
trabalhadores. Percebe-se esse pilar no interior de muitas escolas que
procuram projetar situações empresariais aos alunos e desenvolver as suas
competências para exercer algumas atribuições específicas. Da mesma
maneira, as dinâmicas de trabalhos em equipe e grupos, o desenvolvi-
mento de lideranças, o empreendedorismo e as habilidades voltadas para
a comunicação, a inteligência emocional e o relacionamento interpessoal,
tão valorizadas no mercado de trabalho, têm feito parte importante dos
projetos educacionais atuais em muitas das escolas do sistema de ensino.
 Aprender a conviver: esse pilar destaca o quanto o respeito pelo outro é
necessário e deve ser constante nos processos de ensino e aprendizagem
da escola. Ele propõe que sejam conhecidas a história, as tradições e
até mesmo as questões espirituais que fazem parte da vida dos diversos
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grupos culturais que convivem na sociedade. Visa-se, assim, a uma


convivência social menos conflituosa. É possível entender, a partir
desse pilar, como os temas que envolvem o multiculturalismo, a diver-
sidade e a própria inclusão escolar vão fazendo parte dos projetos de
trabalho realizados nas escolas na última década, buscando construir
uma sociedade mais tolerante e pacífica.
 Aprender a ser: esse pilar reforça os compromissos individuais que
possuímos de nos tornarmos melhores, no desenvolvimento pleno de
nossas capacidades, visando ao benefício da coletividade. Aqui, são
apontadas algumas das capacidades necessárias: “[...] a memória, o
raciocínio, a imaginação, as capacidades físicas, o sentido estético, a
facilidade de comunicar-se com os outros” (UNESCO, 2010, p. 14).
Também é apontada a necessidade de autoconhecimento. Partindo
desse pilar, ao frequentar a escola, os alunos devem conseguir expandir
ao máximo as suas habilidades ou talentos, como refere o documento,
pois assim também estarão contribuindo para uma sociedade melhor
no futuro.

Como é possível observar, ao abordar os quatro pilares da educação pro-


postos no relatório da Unesco, as questões relacionadas à educação escolar
em âmbito global são cada vez mais importantes. Entende-se que, a partir
delas, será possível a construção de um projeto de sociedade capaz de viver
em harmonia e enfrentar os seus problemas, as desigualdades e os conflitos de
forma sustentável. Para isso, é preciso que se aprenda na escola a ser o melhor
possível, que se adquiram capacidades ou competências profissionais e que
se entenda a importância do convívio com os seus semelhantes. Além disso,
o aluno precisa ter o conhecimento cultural produzido pela sociedade que o
capacite a viver e projetar novos estudos de seu interesse no futuro, uma vez
que a educação será a sua acompanhante durante toda a vida.

Para ler na íntegra o relatório da Unesco que apresenta os quatro pilares da educação
que têm norteado os sistemas de ensino mundiais nas duas últimas décadas, pesquise
por Educação: um tesouro a descobrir em seu navegador e acesse o respectivo relatório.
14 Ensino e aprendizagem: dois processos básicos da didática

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