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SARTRE

Katherine J. Morris
Professora na Universidade de Oxford, Reino Unido.

M876s Morris, Katherine J.


Sartre / Katherine J. Morris ; tradução Edgar da Rocha Marques. _
Porto Alegre: Artrned, 2009.
216 p. ; 23 em.

Consultoria, tradução e supervisão desta edição:


ISBN 978-85-363-1945-2 Edgar da Rocha Marques
1. Sartre, Jean Paul. 2. Filosofia. J. Título.
Doutor em Filosofia pela Universitiit Konstanz, Alemanha
Professor Adjunto do Departamento de Filosofia da UERJ
CDU 101
'~
Catalogação na publicação: Renata de Souza Borges CRB-10/1922
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\
- 2009
Jean-Paul Sartre, usualmente citado como criador do existencialis-
mo, é um desses raros intelectuais cujo nome evoca imagens definidas na
mente d~m comJ!.m*- seja a de uma figura atarracada, estrábica, de
óculos, com poucos cabelos, um cigarro ou um cachimbo em uma mão,
uma bebida na outra, falando em um café parisiense ou tendo seus casos
curiosamente intelectuais com belas jovens e, então, realizando suas dis-
secações curiosamente intelectuais desses casos em cartas para Simone de
Beauvoir, sua companheira por toda a vida; seja a do intelectual engajado
dirigindo-se a multidões de estudantes em marchas políticas, ou fumando
um charuto cubano no apartamento privado de Fidel Castro; ou ainda a
do dramaturgo e romancista cuja principal mensagem parece ser a de que
a vida é sem-sentido e de que "o inferno são os outros".
A poderosa imagem pública do homem é apta a levantar duas dúvidas
um tanto opostas nas mentes dos acadêmicos de hoje. Por um lado, deve
esse homem ser realmente tomado a sério como um filósofo? Por outro lado,
não são as suas ideias filosóficas irremedIavelmente datadas, "o cúmulo
do kitsch" (Lévy, 2003, p. 3), presas na atmosfera superãci~lecidà'do pós-
-guerra em Paris?
~rimeira é u..!!ill.~ocuE..~ão que provavelmente é levantada pelos
assim chamados @9sofos "analíjjcos". Por razões históricas um pouco
bscuras, filósofos do século XX e, ainda em alguma extensão, do século
XXI são amplamente classificados pelos filósofos anglófonos em anal!!!-
:os e continentais, sendo Sartre visto comSLuIl..!.fil0.ofo ..Q.araQigmático
.ontinental. J Já foi dito apropriadamente que a filosofia continental é o
"out ro" da filosofia analltica. Ela [a filosofia continental] é muitas vezes

N. dc' '1: ":111 IIIHI(lN: "Ihc' pC'l'lClI1 011 1111' Clnphnrn omnibus''. Essa expressão é usada{)
1111 IlIlX'Iollltlcllc'o 11/11'1I elc'NIXII/II 1111111 pC'NllCIII rm:()~vd t' IWI1I lnformadu, mas que não
c', c'~pc,dllllr.1II111 1111 pOlllO cllll' ~I' C'IIIIIIIIIII C'III Plllll/I,
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(' Martin Heidegger, por exemplo - e confirmar que as suas não-aparições Murccl e Camus. Muitos daqueles que tiveram oportunidade - incluindo
nflo "aconteceram como eventos reais". Não havia nenhum buraco com a 111 rc, às vezes - repudiaram o título; curiosamente, porém, Merleau-
forma da Rainha no terminal do aeroporto. Assim, podemos agora dizer I'ollly raramente figura nesse rol. Muitos livros e artigos com títulos como

quc há uma diferença entre a ausênc@ ~ mera não-presença: E~u I"dslencialismo e Introdução ao existencialismo tentaram identificar algo
lIPenas me divertindo quando digo '~Rainhanão estava no avião", ao passo cumum a esses pensadores. Outros desistiram dessa tarefa ou rejeitaram a
! que "Sue não estava no aviªo" ,w..mporta umasi'fi~
(11nsignifica telefonemas, p~e.Qcul?ação, m_de
(cf. SN 51);
planos. A diferença,
ipllcabilidade do rótulo a um ou mais dos pensadores comumente listados.
FII me restringirei a indicar o que Sartre e Merleau-Ponty compreenderam
rul como podemos confirmar imaginando que teríamos ido ao aeroporto Jlc'lotermo "existenGialiSo~ -- --
pnra encontrar a Rainha no desembarque, é que experiências de ausência No uso d{Merleau-Po~~xistencialismo" ou "filosofia existencial"
somente ocorrem no c~xto de uma expectativa: "Eu esperava ver Pedro, 1\ simplesmente parte dã fêriómenõlógia tal como ele a compreende.' A
l' minha expectativa fez com que a ausência de Pedro acontecesse como t.-nomenologia tem de ser .!:!;m..9- filosofia- existencia! porque a reoúçao fe-(
UITI evento real concernente a esse bar" (SN 50). Foi a minha expectativa uomcnolégica não pode ser tomada a ponto de suspender o juízo acerca
que fez com que a ausência de Sue acontecesse; foi a minha expectativa eI" verdade das pretensões de existência feitas pelos objetos percebidos.
que fez com que sua não-presença, diferentemente da não-presença da 1"lIlre compartilha essa compreensão da fenomenologia e da redução; a
Rainha, fosse uma ausência. I111I1 ição primária que A náusea expressou - a intuição que primeiramente
Contudo, para os fenomenólogos franceses, nós ainda não apreende- li conduziu à fenomenologia husserliana e posteriormente a afastou dela
mos totalmente o sentido do fenômeno da ausência até que tenhamos tido qunndo Sartre compreendeu as tendências idealistas da versão de Husserl
sucesso eIll relacionar nossa descrição desse tipo de experiência a algum eI.tfcnomenologia - foi a iQ.tul.çãoda contingência e, ao mesmo tempo, da
aspecto fundamental da realidade humana. Embora Sartre leve muitas 11<1 ubitabilidade da exis~ncla das coisas. Então, podemos dizer que Sartre .-/@\~l'lO ~
páginas até chegar lá, o que aprendemos, através de uma série de ques- c' 11111 existencialista no sentido de Merleau-Ponty do termo, ainda que não li rP/.
iõcs cada vez mais penetrantes, é que "o homem é o ser através do qual ç
ClliIesse o senJiQ9..,. em que Sartre emprega tal termo. "'uLYJ
nada vem ao mundo" (SN 67). E a hafíilldade do homem de "secretar sua Quandc(Sartre ilsa o termo "existencialismo", ~le se re(e!!. não a um
própria nadidade" (ver SN 67-68) !!ão é nada além de liberdade. Um poSI-
Iivista diria que o sentido da ausência é o sentido da palavra "ausência" - e
I',pecto do método da fenomenologia, mas a um de seus resultados mais I
I111 portantes: ~ ideia de que seres humanos nãotêIn uma essência iré-dada.
isso é aproximadamente o que você poderia encontrar em um dicionário, I'Ic' expressa essa tese dizendo que a existência precede a essência, uma
talvez "o estado de estar longe ou não presente". Quão distante isso está u-vcrsâo deliberada da tese escolástica de que a essência precede a existên-
da resposta dos fenomenólogos: que o sentido da ausência é que os seres I liI, Tal como.aartesão que produz um corta-papel tem uma concepção de o
humanos são livres! 11111 corta-papel e é, ao mesmo tempo, consciente da "técnica pré-existente
Veremos algumas descrições fenomenológicas no que se segue; em- dc' produção que é uma parte dessa concepção", da mesma maneira, de
hora nem sempre eu vá distinguir tão explicitamente como fiz aqui entre .uxirdo com os escolásticos, Deus, o "artesão celestial", também a tem.
.rs duas principais fases, essa discussão deve fornecer o cenário para essas Nc'ssc quadro, "Deus faz o homem de acordo com um procedimento e uma
d('sc:rições. Antes de considerar uma objeção geral ao empreendimento 1II1It't'pção, exatamente como o artesão manufatura um corta-papel" (EH

l
('01110um todo, quero primeiramente dizer algo acerca das conexões entre I,). xurtre rejeita a noção de Deus. No entanto, mesmo se "a noção de Deus
«xtstcnclalísmo e fenomenologia. Muitas pessoas consideram essa relação Ic11SIIprimida", há ainda a tendência de invocar a "natureza humana" para
11111 igunte, e dispomos agora do material necessário para esclarecê-Ia. 1'~',llirLima rota paralela, significando que "cada homem é um exemplo
Ihlll irular de uma concepção universal". Assim, mesmo nesse quadro, "a
,"1/1(111('/" do homem precede aquela existência histórica com a qual nos con-
:XISTENCIALlSMO E FENOMENOLOGIA IJllIlt1I1110S na experiência" (EH 5). Os existencialistas, ao contrário, dizem
cJl1I'"o 110111<'11I illll( 'S <1('tudo existe (...) e define a si mesmo posteriormente"
11",11 Cl), Il.:mnC'OIII'I'pc;fIO cios sl'n's humanos é fundamental para a concepção
() 1('IItH) "('Xisl('ncialiSI,I" t('111sido aplicado él um C'óllllIH)óllllplo d(' elcl:;.1'111'di! 1IllC',clrulc-C'101'1:'1 c'xplol'íldn mais tarde (Capítulo 8).
I'C'II'lIHlol('s,lnvru invc'II1I('IlI('incluindo SnrlI'C"('01110111111111"'11,
41I'C'IIIII,
IHllól ()II~C'IVC'II11I1< V/llI"" C'CclIHH, 1'1inu-iru, qunudo SIIIII'<'desenvolve' ('SS('
C')O'lIlplillc'OI,l(ic'l kCI~:ólólJd.Nic'I~,sdl!', 1>0sl()i(/v~ld, llc'ldc'Ml!I'l, ,100-.pC""', 1'1/11I1,,/111'111 Ilc'J\(~lf'l/l'illli';I/l1I tI 1/1111111111/1//1.\/1/0,
c'l., :ic'ol'lic'(I 1I1I1('I1I11I'lIlc'
<;;etu /lJf)7'r
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aos seres humanos. Assim como Deus era uma exceção para o princípio '1"(' acredita em u~~~~ considera as várias posi-
scolástico de que a essência precede a existência, os seres humanos são, I'(H'Sque antropólogos poderiam assumifTrente às crenças da tribo acerca
ao que parece, para Sartre, exceções ao mesmo princípio. A propósito, essa "('ssa divindade. Alguns, os feenomanistas, tornam-se nativos e começam
:omparação não é inapropriada; como veremos, o homem está mais pró- I "acreditar na existência real e nas boas obras de Feenoman''. Outros, os
ximo do Deus dos escolásticos do que poderíamos esperar! Assim, apesar l.x-nomanologistas, coligem descrições de Feenoman de seus informantes
de parecer uma formulação geral, ele não está proclamando "a existência Ilillivos, questionando-os rigorosamente para eliminar discordâncias onde
precede a essência" c m-e-· rincípio geral aplicável a todos os tipos 1\11possível. Eles catalogam e inventariam os "complexos-de-crenças" dos
de coisas" Seg~~dd. '~sência" para Sartre, pertence a seres humanos 11111 ivos e chegam a uma descrição o mais definitiva possível de Feenoman
individuais, Ilã<Jãâtipo er umano", e essa é uma característica que está I unsiderado como um "objeto intencional" cuja existência efetiva eles
radicalmente em desacordo com a compreensão escolástica da essência. !Illocaram entre parênteses. Outros ainda tomam as descrições dos fee-
Quando ele diz "o homem antes de tudo existe c...)
e define a si mesmo uomanologistas dos complexos-de-crenças dos nativos e tentam registrar
posteriormente", ele quer dizer que cada ser humano individual define a si IIdS causas normais, que podem ou não vir a ser as palavras e as ações
mesmo através das suas ações, isto é, como Sartre algumas vezes coloca, dI' Feenoman. Se elas não o são - se de fato suas crenças são causadas
cada ser humano cria a sua própria essência, a qual é totalmente própria pl.los truques de Sam, o xamã -, então poderíamos ou concluir que Sam,
dele. (Sartre, obviamente, formula teses gerais acerca de aspectos fun- I1X:I rnã, é Feenoman ou que Feenoman não existe, dependendo de quantas
I damentais da realidade humana, aqual é, no final das contas, o tema de 111 opriedades centrais de Feenoman são possuídos por Sam (Dennett, 1978,
ser e o nada, mas não era isso que ele tinha em mente quando usava o JI. 182-183; cf. 1991, p. 82-83).
termo "essência'()TerceirO)diferentemente das essências escolásticas, essas Esta parece uma maneira elegante de ~'yantar uma guestão geral
essências individiiãts arrfódefinidas não são eternas; de fato, uma pessoa ((('rca da empresa fenomenológica. O que os fenomenólogos, em analõgia
pode, através de uma alteração radical de seu "projeto fundamental" (ver 11)111 os feenomanologistas, estão fazendo é catalogar nossas crenças acerca
'apítulo 8), mudar sua própria essência. Seria perdoável concluir que o di' 116smesmos e do "mundo da vida" - e esta é em e por si mesma uma
Iarnoso princípio de Sartre é simplesmente um memorável jogo de palavras: 1Iividade irreprochável. Todavia, na medida em que eles reconhecem que
ele espelhou o termo "essência". Isso obviamente diminui o valor de seu '''ilillS crenças são verdadeiras - isto é, na medida em que reconhecem que
-xístencíalísmo como uma crítica da concepção escolástica de essência, I•• rausas normais de nossos complexos-de-crenças são suficientemente
mas não diminui o valor do existencialismo em si mesmo. .r-molhantes ao que consideramos ser as suas causas -, eles estão abertos
11efutação por parte de filósofos que admitem a terceira abordagem. Uma
\11"/, que Sartre e Merleau-Ponty, diferentemente de Husserl, não colocam a
i· ~ ist~ncia "entre parênt~es", eles aparentemente fazem a própria ãssunção
APAR~NCIAE REALIDADE REViSITADOS 11"(' está aberta à refutação.
Poderíamos começar observando que a antropologia de Dennett soa-
Quero concluir considerando o que poderia ser uma objeção funda- 1111 .uuiquada para muitos antropólogos modernos: os feenomanologistas
\mental a todo o esforço da fenomenologia, Observamos anteriormente ti" I x-nnet soam mais como J.G. Frazer, escrevendo em 1922: "Em várias
que, embora os fenômenos possam ser caracterizados como "aparências", 1"l1lt's de Mecklenburg, onde a crença no lobo do milho é particulamente
('sse termo não era para ser compreendido contra o pano de fundo de f, 1111',lodos temem cortar o último pé de milho, pois eles dizem que o lobo
1111H1 distinção entre aparência e realidade: não devemos compreender a 1'11"1sentado nele" (citado em Wittgenstein RF 11). Ou soa como W.H.R.
empresa fenomenológica como a de uma descrição de como as coisas são IIlv('IS, escrevendo em 1924:
('111oposição a como elas realmente são. Mas então os fenornenólogos não
I':rnTorres Straits, acredita-se que as doenças ocorrem pela ação de cer-
('stno admitindo que descrever os fenômenos é descrever como as coisas tos homens, os quais, através da possessão de objetos chamados zaga
n'CI/I/WII/(' s{ío? E, pior ainda, poderia tal assunção não ser falsa'? I\SS<lS
(...), I(1m () poder de i nfi ingir doenças. Então, acredita-se que um certo
própl ius questões, eu sugiro, manifestam preconceitos intt'ktt uuis, m,I!" 1011111 ;1/\P('SNOIIS
mngras c fnmélicas e, ao mesmo tempo, produz
1':SSilohjeçfio foi colocada de maneira vigorosa por Dcnnott h:'llllllilos dl~I'IIII.tllI,\1111otuIo plIlIlIll'.ll1\
('OllstIpH,fio (' um terceiro, insanidade.
11111)/;, EI(' d('/j('IlvoIVl'o qllt' ronskk-rn ser uma illJnlogiil: il11i1gillllIUU:Itrlho trlllld" 11111
(;111111,
I')'H. ti 111)
60 Katherine J. Morris Sartre 61
o antropólogQ B.J. G~oncentra-se na palavra "crença" [beliej] em
tais passagens. Etiriióroglcamente* ela está relacionada a "amado", pois
nologia consiste nas crenças acerca da experiência mais do ue na ró ria
expetfêTI'E'fã:'tl'B:aeXl e uma versao o que nos, no apítulo 2, chamamos
1
provém do arcaico lief, que significa amado. Em seu uso mais antigo, ainda de "preconceit favor do conhecer e contra o viver". --
retido em alguns contextos hoje, segunaõ --gar;ãs-crenças, tal como Dennett as compreende, são
estreitanterrt emelhantes a "opiniões", como na citação de Smith, ou à
A afirmação "Eu acredito em Deus" tinha o significado: "Dada a realidade "suposição", como na nossa questão original. Uma opinião é, no mínimo,
de Deus como um fato do universo, eu aqui empenho a ele meu coração alguma coisa da qual faz sentido duvidar, fazendo sentido perguntar por
e alma" c...). Hoje, essa afirmação pode seN:omada como significando: razões. A palavra "suposição" poderia ser caracterizada como alguma coi-
Thdã a incerteza de se existe Deus ou não, eu declaro que minha opinião sa tal que faça sentido perguntar por razões para algo a que não se está
é "sim". (W.C. Smith, citado em Good, 1994, p. 16)10
presentemente fornecendo razões. Mas o que Dennett em sua crítica da
fenomenologia chama de "crenças" são de fato certezas vividas. Isto é, elas
Na antropologia de estilo antigo, bem como na filosofia, a palavra
claramente carrega o segundo significado. Para Dennett e seus antropó-
são taisque a_nQ.Ção"~ dúvida não faz sentido e tais que nao faz sentido
perg~por razões. Então, elas precisamente não são opiniões ou su-
logos imaginários, crenças são opiniões, e não compromissos de modos
\ de vida. posições. Veremos muitos exemplos de certezas vividas a seguir; um caso
paradigmático é a existência de outros sujeitos conscientes (ver Capítulo
Antropólogos mais recentes, como Good, vieram a questionar tanto
7). Diferentemente de Dennett (ver, 1991, p. 95), não reconhecemos qu
a epistemologia quanto a política subjacentes a tal discurso da crença. As
nossos amigos não são zumbis, isto é, seres humanos que exibem um
suas preocupações são diretamente relevantes para as nossas porque suas
"comportamento perfeitamente vivaz, loquaz, alerta e natural, mas não
razões ecoam as dos fenomenólogos, assim como as "Observações sobre o
são, de fato, conscientes" (1991, p. 73). Nas palavras de Wittgenstein, "'hl
ramo dourado de Frazer", de Wittgenstein. Não é coincidência que muitos
\ antropólogos modernos, Good incluído, lancem mão da fenomeiiõJ.:Õgia
para ~ ~adro teórico. _ -
acredito que ele não é um autômato' [ou um zumbi], dito simplesmente
nssim, não tem nenhum sentido (...). Eu não sou de opinião que ele é um
sujeito consciente" (IF p. 178). A sugestão de que os fenomenólogos rero
Em primeiro lugar, desde Pierre Bourdieir (especialmen~ 197'O,
uhecem. ou acreditam que outros sujeitos conscientes existem incorpora um
a antropologia tendeu a se focar em práticas mais do que em crenças.
preconceito intelectual difundido; trata-se do que chamarei (Capítulo 2)
Bourdieu, ele próprio influenciado por Wittgenstein e Merleau- Ponty, argu-
de "o..12=eüo em.favor do conhecimento e contra a.certeza".
mentou, contra a orientação intelectualista ou "mentalista" predomiiiàiits
E terceiro lugar, Dennett, como os antropólogos mais antigos, ('Sloí
(Good, 1994, p. 23), que o aprendizado de uma-prática cultural era não
a aquis~ de um conjunto de creQç_as,masa aquisiÇão de con.hlnto um rlarament 2elO as crenças da tribo sobre Feenoman como prororir-n
(fficas: os poderes de Feenoman são vistos como uma explicação (,11I111,11
d~ hábitoslncorpor<0os 'por meio de imitação e treif§~nto. Além disso,
"primitiva" ele vários eventos que os homens da tribo observam no 1111111c1'1
como Wittgenstein sustentou, práticas culturais não devem ser explicadas
que os circunda. O comentário de Wittgenstein sobre Frazer parece 1>',11I11
através da referência a crenças. Quando Frazer afirma que o rei em uma
mente aplicável a Dennett. Ambos apresentam práticas "primitivas" "('111110
cultura particular "tem de ser morto na flor da idade, porque os selvagens
por assim dizer, estúpidas" (RF 61). Representar tais práticas dessa l11íllll'im
acreditam que de outro modo sua alma não permaneceria fresca", Witt-
11:10é apenas, como poderíamos dizer hoje, "politicamente incorreto", 111111
gcnstein comenta que "a prática não brota dessa concepção" (RF 62) mais
ohviamente falso.P Wittgenstein refere-se ao "Rei da chuva na ÁfricupUI,111
10 que beijar a foto de uma pessoa amada brotaria da opinião "de que o
1111,11as pessoas rezam quando chega o período das chuvas. Mas scgurtum-uu:
beijo leria algum efeito específico sobre quem a foto representa" (RF 64).
IIlHOsignifica que não acreditam que ele possa fazer chover, senão riII111111
I': os fcnomcnólogos - Merleau-Ponty assumidamente de maneira mais
r hovcr nos períodos secos cio ano" eRP 65).J3 "Que estreita é a vidu do (~S
illllliclutldo que Sartre - fizeram argumentos anti-intelectualistas parale-
1'(1110para l/rnzcr!", Willgcl1slein exclama. "Prazer é muito mais St'lV4lgl'1I1
los ('111outras arenas. I\. discussão de Dennett simplesmente desvia desses
do qll(' il Illiiiol'in dos SI'IISH(·lvugl'IlS"CHio' 68).1':111ant ropologia, III1Mls('s<lI'
ollgllllH'l1loHarrnvés de sua suposição de que o objeto tcrnático da ('nol11e-
Idlll PIí\II('IIS('01110jll'OIOl'!I'1I1(jj('Wl sflo "ngorn ill11p11l1111'1111' d('snj>l'ovilcl,w"
(;ootl, I()I)A!,1', :).:J.). ()llOlllllolll'llogol>rtllllqllll<loN<1"('('llIpn'gilll1 o 1('11110
N dI' 'I: A·; IIh~I'IVII~'OI'~ II"I'III'IJ,III'III dl/'.I'III 11'~llI'll" 1'1I'lillllll"HI" rllI p/llllVIII "111'111'1", li, 11'11(:11"
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IlIcllIlllj~11I1
62 Kotherine J. Morris Sortre 63
que suas próprias crenças são verdadeiras, enquanto aquelas das culturas Il'IlOSpropósitos, por exemplo, construir uma ponte que não venha a cair,
que eles estão estudando são falsas. A representação da cultura dos outros 1·11'o é; porém, para outroS,RQL~.g.~lo, para julgar a qualidade estética
como "crença" autoriza a posição e o conhecimento do observador antro- do ponte, ele não o é. Corno Carm~ropriadamente afirmajpropósitos \
pológico" (Good, 1994, p. 20). Embora Dennett seja um pouco malicioso I k-ntffícos "não são os nóssos~s propósitos ~ certamente não os mais ,
ao propor que se permaneça neutro em relação à verdade das crenças da til/l-ridos". Se, como Carman sugere, ôefinimos o cienil1ícl.smo corno "a
tribo sobre Feenoman, ele tem sim uma ideia clara daquilo que contaria uslstência em identificar realidade com utilidade científica" (2005a, 70,
como para mostrar que essas "crença~m falsas. Para ele, assims.omo /lola 5), essa crítica da fenomenologia - como a de Dennett - é um exem-
para os antropólogos antiquadosja c.~tem o papel de "árbitro entre plo paradigmático de cientificismo.!" Ele é um primo do que chamamos
-->. confie cimento e crença" (Good, i994, p. 22). Essa atitude exibe cientifi- (<:'Ipítulo 2) de "o 12reconceito em favor do existente". Isso não significa, )
I cismo, que incorpora um verdadeiro buquê de preconceitos intelectuais I-vktcntemente, desvalorizar a ciência: ela "tem sua própria obra magnífica
(ver adiante e Capítulo 2). I l.rzcr". Mas isso é, entretanto, desejar restringir suas pretensões hegemô-
A objeção que estamos examinando admite que há um contraste a Irlrus; a ciência "não precisa tomar para si tipos de questões estranhas a ela
ser traçado entre como as coisas são vistas e como elas realmente são t lusróricas, lógicas, éticas, linguísticas ou afins)" (Midgley, 2004, p. 6).
(cf. Austin, 1962). Sem dúvida, em casos particulares, podemos fazer tal Finalmente, há uma diferença crucial entre os antropólogos de Den-
distinção para propósitos particulares, mas ela não carregará o peso que 111'1 I c os fenomenólogos. Os antropólogos feenomanologistas são o que ele
os filósofos tendem a lhe atribuir. Considere a assim chamada ilusão ótica I h.una de "heterofenomenólogos" (ver 1991, 72ss.), isto é, inter alia, estão
(SN 312): uma ocasião paradigmática para fazer a distinção aparência! i',j lidando sujeitos outros que eles mesmos do "ponto de vista de uma ter-

realidade. Diz-se comumente das linhas na ilusão de Müller-Lyer (ver I 1'1/'/\pessoa"."? Mas a "tribo" que os fenomenólogos estão estudando somos
figura) que elas parecem ter diferentes comprimentos, mas são realmente ",i.\ nós seres humanos, nós seres-no-mundo. Não há como reconhecer um
de mesmo comprimento. plllllO de vista externo acerca desses sujeitos; nem mesmo Dennett pod
I uucluzir uma heterofenomenologia vis-à-vis a realidade humana.
Eu tentei apresentar o método fenomenológico de uma maneira
> < u r-ssfvel em termos práticos, bem como esclarecer suas relações com ()
( ) I ~j'llcncialismo. Vimos que a familiaridade dos fenômenos que a fenornc
1lidogia busca descrever tende, por uma variedade de razões, a tornar esses
A ilusão de Müller-Lyer '1'II(\menos "invisíveis" e tornar visível o invisível exige uma variedade
di' I(~cnicas. Ao considerarmos uma objeção ao todo da empresa fenomv
IlIdc'lgica, vimos também vislumbres de um outro obstáculo formidável:
Em primeiro lugar, essa é uma descrição descuidada de como as linhas l'II'('ol1ceitos intelectuais disseminados. Esses preconceitos, e algumas da~
parecem; o fato é que elas parecem ter o mesmo comprimento se você ig- 11'1I!i('i1Spara superá-los, constituem o foco do próximo capítulo.
nora ou cobre as pontas da flecha e comprimentos diferentes se você não o
faz - assim, elas não parecem ter claramente nem o mesmo comprimento
nem diferentes cornprimentos.l" Em segundo lugar, a tentação de dizer que
elas são realmente de mesmo comprimento repousa sobre a pré-concepção
de que o mensurável é mais real do que o não-mensurável; o critério para I, O subtüulo de O sere o nada é, em francês, "éssai d'ontologie phéno111énologiq,It''', n
dizer que elas são "realmente" de mesmo comprimento é que atingem o qual,("01110 ouu·os.i~ o notaram, pode sertraduzido como "ensaio de onrologlafl'no I
mesmo ponto em uma régua (cf. FP 27ss.).15 1Ill'llol6Xitil" ou"('l1salo fcnumenológico deornologia".Barncsescolheo prlmeh (li1'11
Aplicar a palavra "real", €mtretanto, é fazer umjuízo de valor: realidade l'sl'olltlo sl'}tllndo, 1111111
VI'ZqUI'1·It'tOlllUlII11 pOlKI) I11l1ls
claroque !I fl'IlOllll'llolox'"
1'. u lIu{ludo plll nu-lo do quul o SI'I1< cxplorndo mOSOfll'!1I11('IIII'.
é contrastada com "mera aparência"; chamar alguma coisa de real é dar a " V!'I.pOII'XI'lI1plu, 11,'Ii'INNil'lI
I'Nludlld,' l!'III1I1H'IIUloHIII H(I ele, I 1')/1'1)
til' Splt'Xl'lhl"
Ia o selo filosófico de aprovação. Contudo, uma vez que reconheçamos que "II'II·XI'I'II·I'II·llIlllIdll~"" d,' MIIIIIII
(;~III)())1"'111
dl·IIIII'IIIIII·III"S
Itlst"r!Cilllll'IIII'1I111i
"real" significa, nesse contexto, simplesmente "rncnsurávcl", podemos ('SUII tlXlIlIlswl d'l 11'1I11'1I1'III,IIIXIII
('111 posi,fío dc lcvnntur il que'SlnO de' por que () 1111'1I11I1/1íVt'1 r suposmnu-nu- MIt:1111111 " ( tt)I)'I)1/l1111'111I1I1'"flllI~11I
dl'~"IllIhllll'"
n,dl"iI'llItlllilllltlllldtl,
1'1111111,
li 11111
lI\ais valioso q\l(' o IInu 1I\('IIS\lI;~VI'1. POc!I'lIlOS IlIell/',IV/' dliSl'glll/l/' !I11('11;111I 1111111 y'I'IIII.I!t1
di' 1'~lud,IIl\l'~til' ~"IIIIt·
64 Katherine J. Morris

4. Ver a discussão de Austin (1962) a respeito dos termos "aparecer" e "aparência".


5. Wittgenstein faz algo similar às vezes, embora frequentemente com exemplos imagi-
nários, por exemplo, seus seres humanos que somente falam monólogos (IF §243);
em RF, ele considera descrições antropológicas de práticas de outras culturas, mas
também comenta "que podemos imaginar todas as possibilidades" (RF 66).
2
6. Cf. Wittgenstein (IF §66); d. a acusação de Sartre contra Bergson de que este, em
vez de "olhar" para suas imagens, "apela" para uma "dedução a priori" (I 56).
7. Diferentes pensadores escolásticos e pós-escolásticos expressam esses pontos de PRECONCEITOS INT
maneiras diferentes e alguns podem discordar em relação aos detalhes. Isso é sufi-
cientemente acurado para os presentes propósitos.
8. Cf. Camap (1937, Parte Y.A) sobre o "modo material" versus "modo formal" de
E TERAPIA SARTRI
discurso.
9. Diferentemente dos escolásticos, isso não se dá porque eles pensam a existência como
uma propriedade acidental; na verdade, eles simplesmente rejeitam a ideia de que
a existência seja uma propriedade.
10. Cf. o uso de Sartre em SN Parte 1.2, em que ele tenta tomar claro que, nesse contexto,
"crença" significa "fé" (ver Capítulo 4).
11. Carman (2005a e 2005b) têm excelentes discussões dos argumentos anti-intelectua-
listas de Merleau-Ponty que fazem um confronto explícito com Dennett.
() ponto de partida da fenomenologia, como vimos no capítulo anterior,
12. Nesse ponto, palavras como "primitivo", "selvagem" e inclusive "tribo" desapareceram
do vocabulário antropológico. Espero não ser vista como alguém que endossa o uso I .k-scrição não-preconceituosa de fenô!!lenos familiares, Os fenomenó-
dessas palavras. 11111.1111 identificam vários "preconceitos intelectuais" perniciosos e de amplo
ti, 01 1I('C (SN 308:.2), os quais comumente distorcem tais descrições, Eu gos-
13. Há uma ampla literatura na teologia cristã sobre a eficácia da oração, sendo que boa
parte dela defende uma visão paralela a essa.
14. Merleau-Ponty acrescenta que "mesmo comprimento" e "diferente comprimento" não
"I
I11I de destacar
\li" duas razões:
esses preconceitos
a primeira,
o mais cedo possível.
é que muitos filósofos
Isso é imperativo
não-fenomenológicos
figuram, afinal de contas, em nossa experiência, ao menos na medida em que a pala- (1111105 pensadores estão - já vimos um exemplo disso - sob o domínio
vra "comprimento" refere-se a comprimento mensurável (FP 27). Por exemplo, não li' 1IIIIItos preconceitos que os fenomenólogos estão ansiosos para diaH
podemos perguntar "Quão maior uma linha parece ser maior do que a outra?". 1111'.llcar e tentar curar. Isso constitui uma das mais sérias barreiras parn "
15. Além disso, Dennet afirma que "as pessoas indubitavelmente acreditam que elas
1Illlpn'cnsão mútua, A segunda é que muitas das peculiaridades de ('SI 110
têm imagens mentais", mas é um "problema empírico investigar" se itens retratados
existem como objetos reais, eventos ou estados no cérebro" (1991, p. 98). A palavra I \ pressão que caracterizam os escritos fenomenológicos e que POdl'l1I
"crença" novamente mostra seus comprometimentos com o intelectualismo; sua .llvir para afastar pensadores não-fenomenológicos devem, eu (jllt'l (\
fenomenologia das imagens mentais é seriamente imprecisa (ver Sartre, 1), e sua IIW'I 11',ser vistas como estando a serviço de suas tentativas de It'mp/;t "
pressuposição acerca do que seria para essa crença ser verdadeira é cientificista (ver 1IIIIIIIII('11l0 desses preconceitos,
adiante neste capítulo). ( ) Iermo "preconceito" e termos similares, referindo-se a prcconrel I(I~.
16. Debates acerca do realismo científico em Filosofia da Ciência - por exemplo, se partícu- 1III'II'cllIilis, ecoa através da tradição histórica na qual Sartre está Ililllil
las subatômicas são "reais" ou se são meramente "construtos teóricos" - deveriam ser lh.uu!o. Basla pensar na chamada de Husserl para "pegar em armas", él qu.rl
considerados aqui. "Real" significa "existente" em ambos os casos. Aqueles que acre- 1'1('IiS;'l11eI1IC a coloca na tradição do objetivo asseverado por DCSt'illll'N
ditam em, digamos, partículas subatômicas como construtos teóricos frequentemente
I, 11\)1; liln-rtur de nossas opiniões pró-concebidas": "A demanda por \1111;\
os caracterizam como "ficções úteis", atribuindo-lhes um certo valor "heurístico", do
qual se segue que eles reconhecem valores outros que a realidade - embora ainda, Iilll',1I1'" (jlll' almeje a libertação absolutamente concebível do prccoucclto
evidentemente, um valor somente para propósitos científicos. Alguns daqueles que ) (', pw uuuu, absolut éllncn II' responsável por si ( .. .) não tem de St'1 IWIII'
insistem que partículas subatômicas são reais podem estar admitindo que o crité: io j 111111." 1I('11I;l1 do st'nl ido do íllosofln gl'n li Inu?" (Me §2), J kicleggt'f'lt'f'I'II' SI'
para existência - e, portanto, para realidade - é precisamente utilldndc C'irlltfficH, 1"llIeNlo1lp\)l,i~(')(,N (' [lI'l'COIlI'('itO/'l q\ll' sfio ('on:-;líllllt'1l1t'lll(' J'('il11plillllíl(los I'
17. De fato, há toda uma literatura sobre o que é algumas V('z('sdUlllllldo di' "11111 ropologln li 111,'" 101111;J 1'1 1'1l~'1Idi' q I11'11111il IIIVI\~.llgil~':i() ;t('1'11'1\ do S('I (', dl'SIlV('! 'ss;'lIiil"
em casa" (por exemplo, Peirano 119981 c sua hihlioglillllll. qlll' 1111I'IIIIIIIIIIIII'OIlNd~IH'11I (11'1: :1,11) A iuu IIdllt;illl d.' Ml'llc'llIl Jlllllly 0'1 l'i'/lCI/I/f'/lCl/CI,I:iu du 11f'In'II~IICI I"
s('Il,~fV('111l1l1O
dlls VHIIIII}\I'IIN d.' 1'1,1111
qlllllllOdlls dt'SVIIIIIIIXI'IIN IUI~IIII1'1(11'1111
"1111111", ílllÍlld,ltlll "!'II'rlllI('(,III", IIlldltlCltljt!', I' 11 11'1(111111110/, ftollllllll'lIn/;", ,'o '11\('
ln r luuun d.' 1III'rllllI'c'IICI du 111'111,11 111"lItc, nhll'IIVII I'· ,,1,,'/llIltll/I' di' IIUIIl o
16 Katherine J. Morris Sartre 17

.onsiderada não sendo simplesmente filosofia, e não do mesmo modo em lugar chamou de contorno irregular e desigual das coisas, se ela é algumas
que sociologia e biologia "não são filosofia" - elas são vistas como ativi- vezes obscura e ambígua, isso '!.cQn!ec~ porgue a ró ria realidade humana
li é, e não há mérito em ignorar tal fato. EIÍÍ.se undo ugar, muitas das ca-
dades legítimas apesar de não serem filosofia! -, mas de um modo que
implica que ela está engajada em um empreendimento que não deveria ser rncterísticas estilísticas exaiiiíiiadas desempenham um pap€[ metodULoglCO: ')
li retorno do nosso investimento é, ao menos em parte;Poi'Ciusa, e não
realizado (Glendinning, 2002). A filosofia continental é igualada à sofís-
rica, à mera retórica como oposta à lógica, à obscuridade mais do que à .ipcsar; dessas características.ê Retórica não é sempre "mera retórica" ou
claridade, ~g~de mais do que à precisão. Pode-se acrescentar que a "retórica vazia"." A metodologia de Sartre - o Q1!.e~e_própri.o se vê fazen-
filosofia analítica desempenha o mesmo papel em face da continental: ela é do, como filósofo - é, de fato, distinta daql!~a da filosofia analítica, e isso
vista como a-histórica, seca, logicista e cientificista. A.N. Whitehead - que, (', parte daquilo que ajuda a criar o percebido abismo entre elas. Todavia,
apesar de britânico, é visto por alguns filósofos analíticos como estando em "diferente" não implicª-~ioi'; há, por exemplo, certos paralelos entre a
um desvio excessivamente próximo do lado continental - alegadamente ronccpção de Sartre de seu próprio empreendimento como filósofo e a do
disse do filósofo arquianalítico -ª.ertgnd Russell: "B~tie_pensa que eu sou ta'gundo Wittgenstein," e Wittgenstein, embora fazendo algo claramente
onfuso, mas eu penso que ele é simplório" (Wang, 1966, p. 672). Isso di Icrcnte daquilo que a maioria dos filósofos analíticos dizem que eles fa-
resume muito bem os respectivos estereótipos que filósofos analíticos e ',('111, não apenas não é abandonado por eles, como também é, ao contrário,
.ontinentaís sustentam uns dos outros. runsiderado como pertencente ao cânone analítico"
Entretanto., cada um dos_estereótipos contém um grão da verdade: A segunda preocupa ão ue Sartre seja passé [ultrapassado] e

Ia filosofia continental em seu pior é realmente confusa e obscurantista,


enquanto a filosofia analítica em seu pior é simplista e cientificista (Critch-
ley, 2001, Capítulo 3). E há muitas características da escrita de Sartre que
n oxistencialismo
I'HlllIluralistas
seja u ,''wasm''
e pós-modernistas,
está aptaaser levantada pelos pós-
tanto em certas faculdades de filosofia
quanto na crítica literária, com base na obra de filósofos franceses mais
II~C('llleS, como Foucault e Derrida. "Sartre é frequentemente visto como
poderiam parecer quase convidar a acusações d~ofistaria e obscurantismo.
Embora seus escritos filosóficos contenham muitas passagens literariamente ,,111filósofo de um mundo que passou, filho e relíquia da modernidadc
brilhantes que são um prazer ler, eles têm um vocabulário formidável e I "Ia voz soou no meio das alienações e horrores do século XX, mas que
stranho (ser-em-si versus ser-para-si, transcendência versus facticidade, Itllj!' é escassamente detectável nas ondas sonoras de nossa condição pós-
negatividades, etc.). Em alguns casos, pode-se dar uma definição razoavel- 11IOClema contemporânea" (Fox, 2003, p. 1). Ele é comumente visto porta is
mente concisa; em outros, o significado é tão multifacetado que ele tem de 1"'llsndorcs como um individualista radical que ignora a dimensão social da
simplesmente emergir. O uso que Sartre faz de locuções como "realidade II'illldncle humana; como um advogado da liberdade extrema que ignora OH
humana" fará filósofos analíticos bem-formados se contorcerem. Ele tem CnllSI rungimentos econômicos, políticos, culturais, biológicos e históricos
uma queda por se expressar de forma paradoxal ("o homem l o ente que: 1111llhcrdade humana; como um proponente de uma autoconsciêncí» 10
o que ele não é e não é o que ele é"); por descrever coisas que não são Irtlllll'IlIC lúcida, que ignora tanto o inconsciente freudiano quanto a "falso
intrinsecamente negativas em uma linguagem que soa negativamente (por (1)1l~.d(\l1cia" de Marx. Mesmo que a sua linguagem quase convide 11 lall1
exemplo, a "alienação" das minhas possibilidades que o Outro ocasiona); 11111'1 prctuções, e mesmo que algumas delas apontem para pontos l:l'XOS
por fazer afirmações que beiram a histeria (por exemplo, o Outro "rouba" .1111Il1'Il0S em sua obra inicial, todas essas críticas simplificam em demasia
l11eL!mundo) e por empregar hipérboles (por exemplo, o ser humano é '-1111 ronccpção da realidade humana. Além disso, há tanto a-historicidude
"sempre e para sempre livre ou então simplesmente não é livre"). "Muitas 1111111110 um padrão duplo nessas cobranças: a-historicidade porque Fou (,i\ 1111
V('i',CS, ele tenta três ou quatro maneiras de transmitir uma certa impressão, I' 11e'11idél não teriam podido ocorrer sem Sartre;" um padrão duplo porque
ns quais não necessariamente dizem exatamente o mesmo, podendo até 1'11111'.1\111 l' Dcrrida também têm seus pontos cegos, alguns dos quais l'll!s
mesmo se contradizerem umas às outras" (Warnock, 1965, p. 9). I I11'}:.II11inclusive él compartilhar com Sartre. Por exemplo, Foucault, ilssllll
om certeza, não defenderei seus piores excessos. Contudo, se o termo 11111111 SIIII!'(', nmplamcnte cego para gêneros, mas as feministas adouun
--------
é

- 1011111'.1\111 ('0111enruslnsmo pOlqll(1 ('lns V(\('1l1 sua cegueira COIllO limo In(,IIII/I
"obscurantismo" implica escrever de maneira obscura sem nenhuma razão
(' som nenhum retorno decente do investimento necessário para o compre-
('1\<11'1;espero argumentar em favor da tese de que Sartre decididamente N til' I' 1\1111'VllllllllldI1I'x 1'"'~Hnll11,/i 11I' II1I,\!/tI\llItllI 11/1'"(1111
11'1111
lu 11IlI'eI1111)\
lei~IIxliII),
I":to merece esse rótulo. Em primei'rc> lugar, se a visão d(' S:II'II'(\ sobre os l'IIII"I')llldll 1111111
1'"1'1\111'(I'lI'dl 1111I1I1'11'~III\lhlll 1'11I1111./11111'11111
I'K\'I'~NIVII111111111'1111111
til'
1'l(!H humanos (' sobre o mundo é plena daquilo qur Ni!'I'/,sl'llC' 1'111nlgum ',"1111'1'111111111111'1111 ~llIlIlt.'ntll,1I1
11111111 dI' \!~III'II'
18 Katherine J. Morris Sartre 19
a ser preenchida, e não como uma irreparável rachadura no edifício de seu logia, já que método e resultados ~tª-o nele inerentemente entrelaçados em
pensamento. Embora haja notáveis exceções - incluindo, é claro, Simone de um tipo de CIrculo metodclógico:!O o ponto de partida de Sartre é a ideia
Beauvoir -, as feministas têm sido mais lentas em adotar a mesma atitude deque nós, filósofos, somos seres humanos engajados em um projeto de
em relação a Sartre.? explorar o que é ser um ser humano. Descobrimos, por exemplo, por meio
No entanto, uma versão da segunda preocupação também está apta a da reflexão sobre nossos próprios atos conscientes, que seres humanos são
ser levantada pelos muitos admiradores de Maurice Merleau-Ponty. Embora seres conscientes, isto é,~s q€ iF!era.1@)s.ão ~apazes de refletir 1..0bre)
Merleau-Ponty seja pouco conhecido fora da academia, ele não era apenas seus atos conscientes. Alem disso, descobrimos que todo empreendimento
um contemporâneo e amigo de Sartre: ele era também - com exceção de humanõe"stá, por sua própria natureza, em perigo de ser subvertido pelo
Beauvoir - seu mais talentoso crítico. Os fãs de Merleau-Ponty consideram que Sartre chama de "má-fé" (al!.to..Qlgallo",ilusões, preconcejtos, etc.),
com muita facilidade que ele demoliu tão arrasadoramente o pensamento incluindo o empreendimento bastante filosófico que chegou a essa desco-
de Sartre, que não restou nada além de uma pilha de entulhos. Sartre é berta e que está tentando comunicá-Ia.
acusado de i,gnorar o "corpo ~vo", isto é, nosso próprio corpo como ele Isso sugere que não apenas h$Íungjpo de círculo - um círç.lllo vi.r..tuoso,
aparece no fluxo cotidiano da vida como oposto ao corpo que é objeto de então, insis~ na metodologia de Sartre, mas qu~ há E,?is aspectgs entrela-
investigações anatômicas e psicológicas, Ele é acusado do que Merleau- çados nele:Úm ~ o método filosófico chamado de fenomenolo~- envolve
'Ponty chamava de "intelectualismo", sobretudo de falhar em reconhecer él exploração refleXiVa do que é ser um ser humano; « óutro envolve
um reino de experiência pré~conceptual; ele é acusado ~ introduzir novos Icntativa de superar a má-fé, os preconceitos e as ilusões que são capazel')
dualismos, por exemplo, entre "sujeito" e "objeto", mesmo que não exata- de subverter a-prática da fenomenologia e que podem interferir na com
mente o muito injuriado dualismo cartesiano mente/corpo. Merleau-Ponty preensão dos outros dos seus resultados. Esse ~egundo aspecto, eu o ca
enfatizou e ajudou a compensar alguns dos pontos cegos de Sartre, como, racterizo cç>m~.~cdi: um termo que acena na direção da literatur
por exemplo, sua aparente inconsciência de animais não-humanos e sua sobre Wittgenstêin, uma vez que esse, eu o afirmo, é um aspecto central
negligência jovial, ao menos em sua obra inicial, de bebês e crianças - como 110qual se encontram o método fenomenológico e o método filosófico de
se brotássemos para o ser como Atena da cabeça de Zeus, plenamente Wiltgenstein. Livrar alguém da má-fé, inclusive da má-fé filosófica, é mais
conscientes, auto conscientes e perseguindo livremente projetos escolhidos." importante do que as mais familiares atividades filosóficas de corrigir
Contudo, Merleau-Ponty erguia-se inteiramente sobre os ombros de Sartre, ('Ilg-anos e falácias e requer táticas diferentes. Sartre, como Wittgenstein,
incluindo, de maneira absolutamente central, sua celebrada exposição do nflo está apenas almejando modificar a maneira pela qual pensamos; (\h'
corpo vivo. Eu I?refirg dizer que ele não refutou Sartrg, mas.sim que colocou .ilmcja modificar a maneira pela qual vivemos.
os pensamentos de Sartre de uma maneira mais clara, incisiva e sóbria do Eu ficaria gratificada se este livro tivesse o efeito colateral de rcalizru
que o próprio Sartre havia feito e levou-os adiante.' Portanto, uso livremente 11111 pouco de terapia sartriana naqueles filósofos analíticos que estão inclinn \
suas formulações para esclarecer e desenvolver as do próprio Sartre.? cios n ver a filosofia continental como mera retórica e nos pós-estruturalistus,
Eu me concentrarei, neste livro, nas obras de Sartre mais diretamente IH')Nmodernistas e merleau-pontyanos que consideram Sartre passé.
filosóficas; não obstante, ocasionalmente, eu me referirei às suas obras Snrtrc tem sido chamado de "o filósofo da liberdade" e ele IlWSIlIO
literárias, biografias, e assim por diante, as quais continuam seu projeto cllmw que "tudo o que tentei escrever ou fazer em minha vida foi pai ól
filosófico de formas interessantes. Também me concentrarei em suas obras II'I,:./ólll:lra importância da liberdade" (citado em Anderson, 1979, p. 1\2).
filosófícas iniciais, sobretudo O ser e o nada, mais do que em obras poste- 1"~j(1 t~ claramente aplicável ao modo pelo qual ele conduziu sua longn ('
riores, como a Crítica da razão dialética. Ve~1inui.çLa-ºes do.que 11111IIlcnmcntc engajada vida. É também obviamente verdadeiro em reluçn«
ou tros entre sua obra anterior e posterior. As facetas de seu pensamento 11Iconteúdo ele sua filosofia: Sartre sustenta o que, aparenta ser urna dou
que eu particUíãmi:ente quero enfatiZãr já estão em O ser e o nada, e in- 1111111 ('XlJ'('I11<1cinela libcrdndc como absoluta e da responsabilidade COIllO
clicar com algum detalhe como seu pensamento desenvolveu-se ao longo .Illundkln vm tudo, Q[I(\ il Sl1(1visão da liberdade n50 seja tão radical ('01110
do tempo tornaria a exposição ainda mais extensa e mais complicada do 11)\1'11"<1 ('Ia tcnhn começado "/)(1/'('('('"
óllg\llll1lSVI'i'.t'S (' <111(' I1W1l0Srndk-n]
<111(\ela já é. 1'111/.Ilólolu 11PONI('lltIIllóÍOdlmluul o valor t!1~SSI' pOIlIO. P01'011l,('ol1loI1111.'
Dcd ico mais tempo do que o usual a um~ploração da metodologia 1/1If(1111l('IIIIH;IIO '1111'IIPII'/lI'IIIII1('I,/llIólIlll'todologin 1""rll("lllllllplit'1I \111111
d(' SlI1'tl"C,daquilo que eu considero que Sartrejaz. Isso não implica gastar flllINoriil"111111C'1l11lc!e' 41111111'111
1'1 e'llI clol.'lse'lIlielolocllre'Il'"II'~: I\"e'I(,1I11I1I'lil,
1Ii('1I0S1('1l1POcio que o usual em explicações dos resultados dessa rneiodo- 11111lill1ll11 ele'e'lIlpllh,llrllClll fi 11',C'cln III'IWUI 11''1,"lIhe'IIIII 111111dI' 1IC1~I"jJ',
til'
20 Katherine J. Morris Sartre 21
niões pré-concebidas", libertar-nos das garras da má-fé filosófica que se austríaco Ludwig Wittgenstein são geralmente considerados como não-continentais,
ncontra no caminho do nosso reconhecimento do que todos nós sabemos enquanto os filósofos britânicos F.H. Bradleye R.G. Collingwood são tomados como
ser verdadeiro a partir da nossa experiência vivida como seres humanos tendo uma aragem de continental em torno deles. Há alguma coisa a mais do que a
, fazendo isso, ele nos liberta para vivermos, como filósofos, no mesmo mera geografia por trás dessa rotulação.
2, Pace [segundo] Warnock: "Ele está interessado em apresentar uma imagem de como
mundo que nós, como seres humanos, habitamos, Aqueles que a filosofia
as coisas são forçando seus leitores a aceitar uma certa visão do mundo e não se
exilou do mundo da vida podem considerar essa perspectiva regozijante. importa muito com as armas que usa para fazer isso" (1965, p. 10).
, Na verdade, é mais do que isto: a difamação filosófica do mundo da 3. De fato, a retórica pode ser ensinada juntamente com a lógica como ferramenta para
vida não ocorreu em um vácuo social e cultural, nem a reação fenomeno- os oradores.
lógica contra ela, A noção de uma crise estava no ar (e inclusive impressa) 4, V, .J,Morris 007). Não estou fazendo nenhuma afirmação histórica de influência
qua~? ,Huss~rl, o fUnaador a-a fenomenologia, captou-a em seu curso de direta entre artre, e Wittgenstein: é duvidoso que Wittgenstein tenha lido Sartre, e
193!y FIlosofia e a crise do homem europeu", Esse curso fez parte da base Sartre confessou que preferiria ler thrillers a ler Wittgenstein (P 49) - embora isso
ele sua grande e incompleta obra tardia A crise das ciências europeias e a fosse menos uma acusação contra Wittgenstein do que uma confissão de sua fraqueza
por subliteratura. Minha única afirmação aqui é a de que há certos paralelos entre
{.el~ome~ologia transcendental e f.gi publicado ;m ,i~glês, junta~ente co.m s~etodologias filos@cas, paralelos que não fazem de nenhum dos dois compa-
Filosofia como uma ciência rigorosa", sob o título Fenomenologw e a CrISe nheiros felizes dos filósofos analíticos. Ao mesmo tempo, há vários pensadores - por
dafilosofia,12 Talvezfosse natural para um judeu na Alemanha do seu tempo exemplo, Schopenhauer, Nietzsche, Kierkegaard - que influenciaram ambos - e isso
perceber uma crise, ainda que o nazismo)oss_e apenas uma manifestação da não é~nso eu, irrelevante.
crise em questão. O que preocupava Husserf~ o perigo colocado para a 5. O filósofo de Oxford da linguagem ordinária J.L. Austin, ele próprio uma estrela
cultura europeia P~Qredominância crescente - em domínios nos quais ela no firmamento analítico (ainda que, desafortunadamente, levemente obscurecido
não é apropriada - de umaracionalidade científica estreitamente interpretada hoje em dia), é um outro caso. Ele realmente disse que sua metodologia poderia ser
como uma racionalidade técnica e tecnológiça: uma disposição de espírito chamada d~no~logia linguística'~ "apenas que isso seria antes uma obser-
vação importante" (197Õ, p. 182), sendo fenomenologia a metodologia criada por
que era redutivista, atomística, objetivista e cíentificista. Nós, pensadores
Edmund Husserl e desenvolvida por vários filósofos continentais, incluindo Sartrc
anglo-americanos, talvez não estejamos tão propensos a falar em termos de (ver capítulo 1).
crises, ainda que alguns de nós encontrem algo de ressonante nessa descri- 6. Os especialistas em Sartre têm insistido cada vez mais nesse ponto. A leitura de Sartrc
ção. A fenomenologia sartriana não salvará a humanidade desse perigo, mas que tem emergido a partir desse reconhecimento tem sido chamada de "novo Sartre"
servirá para recordar-nos o que está em perigo de se perder. (ver HoweUs [1992], especialmente sua introdução e sua conclusão, e Fox [20031;
também Lévy [2003] em algumas passagens).
7. Isso está começando a mudar (ver Murphy, 1999).
8. Nem estava Merleau-Ponty livre de seus próprios pontos cegos, mais notavelmente
NOTAS em relação a aspectos do pensamento de Saro'e, o que resultou, algumas VCZ('S, 1'111
leituras unilaterais ou antipáticas da obra deste.
1. A distinção é, algumas vezes, efetivamente formalizada nas estruturas institucionais 9. Há toda uma indústria de estudos Sartre versus Merleau-Ponty, alguns dos <lIIIIIIi}
de faculdades e departamentos das universidades anglo-americanas; porém, mesmo assumem amplamente essa visão. A c~ea·de Stewait (1998a) fornece UI11i1vblln
onde ela não o é, há uma tendência a dividir a filosofia, ao menos a pós-kantiana, valiosa dos melhores exemplos dessa indústria; Whitford (1982) é um clássico.
nessa~ diferentes tradições. Os rótulos fazem um contraste levemente absurdo: o 10. Eu poderia ter usado o termo "círculo hermenêutico", uma expressão associndn
~nmelro refere-se muito amplamente a um estilo ou a uma família de estilos de fazer ao fenomenólogo alemão Martin Heidegger e a seu famoso pupilo Hans Gadnnu«,
filosofia; o segundo aparentemente a uma região geográfica (ver Williams, 1996; Cri-
tchley, 2001). Além disso, esses rótulos parecem pressupor uma ampla uniformidade
dentro dos grupos que é dubitável para dizer o mínimo. Entretanto, esses rótulos
l~arecem permanecer em uso comum. Os proponentes da filosofia analítica hoje são
upicamenn, anglo-americanos ou, ao menos, anglófonos (por exemplo, os britânicos
1I.
mas no presente contexto parece melhor evitar ficar enredado em debates sobr« os
sentidos precisos desse termo e se eles são adequados a Sartre.
Este é um outro aspecto central no qual a metodologia de Sartre comporta complllllçflO
à de Wittgenstcin, embora esse aspecto do pensamento de Witlgenstcill seja Ill\dlll~
vezes ncgllg(,l1d!ldo. I1l1k('r(2004, especialmente o Capítulc 9) ajuda n P\('('IH'ltl'l
I
Bcrtrand Russell e Gilbert Ryle, os americanos WV.O. Quine e Donald Davidson), cssn lfl('UI1I\.
, se ouve frequentemente a filosofia analítica referida como "filosofia anglo-saxâ", I;!, O J)/,c/r"jo dll 011""111",dI' :'PI'III\Ic'I, ColIIl11acmu rlhulçflo pllm ('SSII1l0C;:iodt, 1"11',1'
J)1I1l1I11l'1t(1993, p. 2) está certo ao apontar que "anglo-austrfaca" seria melhor, WIIIgl'II~II,1t1111111111'111 10/11111111'111111110 pt'!olfiOhN('1V!l~'ill'N('xllt'l\lIlll\t'III(' pl'NNlntl'llll
C'OIl1J"('lnçilon seu desenvolvimento histórico, embora isso tornasse o COnlr<1S\(' WI1l dt' SI'I'II~:lI'1~IIIt\l'1111I11I1111 IVI'I Mllllle, 11/1111, p, ~()!)) MIII.!tIl 111I1I11I\lIIlnld!ll~ 1I11l11I
"('0111Ir 11'1\1 to. O nlósoro 1I1c'\lIf1oCoulob Jill'~\l' (' ()
111"nllldfl l1Iais nhsurdo do <111('1:-1 !tllltl~lldll'I, 11111111,1«"1 1'\I'\lII'IiI, 1'lll"Ihll!t N!c'I/'Il"iII'
tt--

A monumental obra de Sartre O ser e o nada tem como subtítulo "um


ensaio fenomenológico de ontologia''.' Fenomenologja é o método filosófico
que elucidaremos neste capítulo . ..QmQ.lQ.g'iaé o estudõ fTI.õSóficodº~~r,
da existên.c~ ~ ealidade. Sartre, seguindo Heidegger, vê o ponto de
partida @ontologia como a exploração do que ele chama de "realidade
humana" - que ei egger chamou de Dasein ou "ser-aí". -
Meu objetivo neste capítulo é delinear o que o método filosófico
chamado de "fenomenologia" envolve, ao menos para Sartre, não de um
modo historicamente rigoroso, mas sim de um modo acessível em termos
práricos.? Heidegger (ST 57) leva-nos de volta às raízes etimológicas, em
grego, da palavra "fenomenologia": ela significa o lagos - aproximada-
mente "fala" ou "discurso" - do phenomenon, "a9.,.uiloque se mostra". Uma \'
vez que mostrar a si mesmo é aparecer, podemos 'ãizêr - enos A

são "aparências" - e Sartre fre9.UentellleI!t~ llgl a Qel<!YIa~_ arência'Sno


lugar da palavra "fenômeno". Isso, entretanto, é capaz de deseiiêãminhar
aqueles filósofos que chegam a essa discussão brandindo uma distinção
pronta entre aparência e realidade. Eles suporão que a fenomenologia
;stu~a como as coisas aparecem em oposição a como as coisas realmente
süófl...Mastal contraste não é pretendido. De que outro modo poderia haver
um "ensaio fenomenológico de ontologia"? De volta ao grego! Se eu digo
"uma nuvem se mostrou no horizonte", ou, de maneira equivalente, "uma
nuvem apareceu no horizonte", eu não estou implicando com isso que ela
meramente parece ser uma nuvem, mas na verdade não o é."
Ao mesmo tempo, aparecer é.aparecer pqraalguém. Assim, pOdCIl10N
tnmbérn dizer que n r(,llollwl1ologin o estudo da "experiência".
é Mas ('SSI'
II'mlo, tul ('01110 "njlml'lIl'1n", c'sl(, suJ(·Jto a muitas incomprconsõo». I!lH
101kalll('III(', 11 nd('lltlll;no Illn'lc'1lil'n coulu-ridn como ut'lllpiri:mlO" qll('
\'llIl1oloHII'lIl1lt'lltl' NIIW'I('111l1I1 dnlllllllll qlll'lolllIl :l1'XIH'II(\l1t'1UI'(Hiltl ho/IiI'1I
111I111111 de' ('1(111'111\111111
111'11111'1'11" 1III'('(lIdll·dvc·1. 1\ I'HlilVliI "('I(JI('11I'11I'11I",
48 Katherine J. Morris Sartre 49
sugere o filósofo George Santayana, começou por fazer referência "ao e Merleau-Ponty Na terceira seção, eu colocarei um exemplo da fenome-
conhecimento e à destreza alcançados a partir do contato com os eventos nologia em prática de maneira a poder tornar tudo mais concreto. Nesse
por uma criatura inteligente e com capacidade de aprender" (1922, p. estágio, estamos em posição de esclarecer algumas confusões em torno do
189), no sentido em que falamos de um "maquinista experiente" ou da termo "existencialismo", o qual está conectado à fenomenologia tanto para
"sabedoria da experiência". Ele foi transformado pelos empiristas em um Sartre quanto para Merleau-Ponty Finalizo levando em consideração urna
termo plural, "experiências", o qual designava não o engajamento com o objeção bastante geral que pode ser feita à totalidade do empreendimento
. mundo através de ação, prática e exploração, mas o suposto produto causal fenomenológico, uma objeção que poderia ser colocada pelas seguintes
na mente da percepção de supostas qualidades atomísticas da realidade: sugestões: ''A fenomenologia não está simplesmente assumindo que os
objetos internos, privados, atômicos, também conhecidos como "sensações", fenômenos são reais? E essa suposição não poderia ser falsa?".
"impressões" ou "qualia". Ao fim de sua mutação conceitual, os empiristas
- essa "gente prática" - paradoxalmente descobriram a si mesmos como
"sensualistas não-articulados absortos na contemplação umbilical de seus
estados mentais" (1922, p. 192). Isso parece um caso paradigmático do A REDUCÃOFENOMENOLÓGrCA: DESCRlÇÃO Df FENOMENOS .. ('41

que Galen Strawson chama de um termo espelho, isto é, de um termo que


se usa "de tal modo que, independentemente do que se queira dizer com Husserl introduziu a "redução fenomeD~' - que ele também cha-
ele, isso exclui o que o termo significa" (2005, p. 43)! A ênfase dos feno- mou de "e ache fenomen(;ló ica" ou "colocação entre parênteses do mundo
menÓIOgOSna experiência pode fazê-los soar como empiristas, mas a sua objetivo" (MC 20 em um certo sentido paralelo à dUVIdade Descartes, isto
noção de experiência é enfaticamente não a daqueles filósofos conhecidos ,suspensao e juízo. Já observamos que parte do que Husserl requer que
1 Como empiristas. Pelo contrário, o empirismo constitui um de seus princi-
pais alvos (ver Capítulo 2).
"coloquemos entre parênteses" era a verdade da reivindicação de existência
feita por objetos percebidos, tal como o famoso cubo de Husserl. Como tam
Embora diferentes fenomenólogos expressem isso de maneiras dis- hém já observamos, Sartre considerava impossível esse aspecto da redução
tintas, o estudo dos fenômenos pode ser visto como tendo dois estágios: a fcnomenológica: o encontro de Roquentin com a raiz da castanheira no
descrição dos fenômenos e a extração da sua essência a partir dessa des- romance A náusea, de Sartre, e o uso de Merleau-Ponty do termo "existcn
crição. Para Sartre e Merleau-Ponty o segundo estágio não está completo rialismo" - ou, em todo caso, do termo "filosofia existencial" - referem-se ;1
até que essa essência tenha sido posta em relação a algum aspecto funda- "im..I!Qssibilidadeda redução completa" (FP 10), ist0..t.! impossibilidade de I
mental da realidade humana. Sartre, ao explorar a imaginação, observa suspender,o ..juízosobre tais reiyindiçações de existência.
que quando eu imagino Pedro, que está em Londres, ele "aparece a mim Há ainda no pensamento de Sartre e de Merleau-Ponty um papel im
Como ausente", o que "é suficiente para distinguir [o objeto imaginado] portante para algo assemelhado à redução fenomenológica. Os fenômenos
do objeto da percepção" (PsyI 261); observa também que na imaginação o que a fenomenologia pretende descrever são absolutamente familiares (',
objeto é "dado-em-sua-ausência", enquanto na memória ele é "dado- agora- não importando quão paradoxal isso pareça, essa própria familiaridade ti,
-como-no-passado" (PsyI 263), e assim por diante. Essas constituem-se 11111 dos principais obstáculos para descrevê-los. Como Wittgenstein afinun:
certamente características importantes da essência da imaginação, mas ele "Os aspectos das coisas que são mais importante para nós nos são ocultos
se recusa a parar aqui, colocando, em vez disso, uma questão muito mais por causa de sua simplicidade e familiaridade. (É-se incapaz de se dar cout ti
\ IIfundamental: "podemos conceber uma consciência que nunca imaginaria?"
(PsyI 260). A resposta é "não", pois sem a habilidade de imaginar estados
de coisa ainda-não-existentes, os seres humanos nunca poderiam agir e,
portanto, nunca seriam livres (PsyI 269-73). A exploração fenomenológica
dn essência da imaginação como uma modalidade da consciência requer,
dt' algo porque está sempre diante dos olhos.)" (IF §129). É esse fato '1\11'
11(,relevância para a chamada "redução fe!!2.monológica" à lafrançaise, 11.1.
11Ino/'; dos fenomenológos franceses ela se torna suspensão não do ju (1',1
111.11'do que poderia ser chamado ~não-espa.nto> uma recuperação do qlllj
MI'I'lünu-ponty chama de "rnaravilhamentofem face do mundo" (FI' IO),
!
I,

1'lll[lO,que se a coloque em relação a um aspecto da realidade humana a "'II\OS de "nos permitir !-wr ai ingidos por ou achar surpreendemos ('oi:m
lilu-rduclc que Sartrc vê como fundamental e, desse modo, demonstra ti"l' tomrivnmos por ~ill"IIII/t1ilH.(Por exemplo, "Não tome corno ('vidl'llll\
r
qll(':1 IlIwgin<l,ão central para a realidade humnnn. 11111/1('OIIJO11111 ralo 1I0t/\VI'I,qlll' 1I11i1}:I'IIS
(' nurrutivns fktldlls 1I0Hdrto 1'111
Âs <lIIIISptillH'ir:ls S('çõ<,s d('st(, cnpítulo silo dl'Hlilli\(lns /I ('X:llllillill ,1'1",Wil1glIIlStli11lli,' ~rl:'.'\I () 1I111c'IIvII
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1I1111HII'I
Clplll!i\C's,IIIiIHIII1H1'0111('111 \'1111111111
o Kotherine J. Morris
Sartre 51
posição para des~rever o g.!!§nos é familiar. A suspensão do não-espanto é Sartre, um dos I2ropósitos das descrições de Merleau-Ponty de eXp'eriênci~
vital para o objetivo fenomenológico de descrever o mundo experienciado ão-famTIiares - por exemplo, a sua discussão dos membros-fantasma ou
e nossas relações com ele, "não porque rejeitamos as certezas do senso da anosognosia, ou das pessoas com lesões cerebrais, como o veterano
.cmum e a atitude natural frente às coisas C..), mas porque, sendo a base Schneider, ou de experimentos com espectros invertidos - é o de iluminar
pressuposta de qualquer pensamento, eles são assumidos como garantidos o faEliliar P.9r meio do contras!e.5 -
e passam despercebidos" (FP 10).
Um ponto final: há uma impressão disseminada - porém equivocada -
Qualquer um que tenha sido, como dizemos, "tomado como garantido" entre alguns filósofos e psicó~..gos.d~_qü~reflexâo fenomenológica é o que
pode testemunhar que 2funilliaLg,Q,de tornar -se imdáiY~l...tmc.ê:t<2- sentido!

-
Há várias técnicas que podemos adotar para suspender o não-espanto e,
assim, tornar visível o invisível. __ _ __
Um.-ªt:é~E~caJnuito direta é a que WittgensteiÍhbatizou dê "compil~ão"')
se chama algumas vezes d~"introspec~ Os filósofos, particularmente
aqueles que são céticos em rêlaç'ão a essa noção, tendem a caracterizar a
introspecção como um tipo de mirada metafórica nos conteúdos privados
da própria mente, capturando ali fulgurações fugidias daquelas "expe-
de recordªções""(IF §127): transformando em palavras o que fica normãf-
riências" e "qualias" inventados pelos empiristas. Se fundimos refleXã~
mente irrefletido sobre algo. Os talentos literários de Sartre são exibidos fenomenológica e introspecção, podemos querer saber o que permite ao
finamente em suas descrições de experiências familiares como esta: fenomenólogo a mudança fácil da primeira pessoa do singular ("Eu espe-
rava ver Pedro") para a primeira pessoa do plural ("Nós não dizemos, por
Eu tenho um encontro com Pedra às quatro horas. Chego ao bar quinze exemplo, 'Eu subitamente vi que ele não estava lá'?"). Podemos, como o
minutos atrasado (...) Ele esperará por mim? (...) Quando entro no bar filósofo D.C. Dennett, acusar os fenomenólogos de fazer o que ele chama
para procurar Pedra, formou-se uma organização sintética de, todos os de "presunção da primeira pessoa do plural" (1991, p. 67): se tudo aquilo
objetos do bar, como um fundo sobre o qual é dado a Pedra aparecer de que Sartre está falando é o conteúdo privado de sua própria mente, não
(...) Mas Pedra não está lá agora (...) Eu esperava ver Pedra, e minha tal presunção não apenas presunçosa, mas também intestável?
expectativa fez com que a ausência de Pedra acontecesse como um evento
real concernente a esse bar. (SN 50)
A reflexão fenoI)1enolsSgica não (~!!!retanto..z.i!!tEospecçã.Q;. Os exem-
plos dos fenomenólogos claramente não são pensados como descrições do
que ocor~interior.de su-ªspróPri~s mentes.Quando Sartre descreve-a
, "Não dizemos, por exemplo, 'subitamente vi que ele não estava lá'?" experiência da ausência, ele está descrevendo o mundo, e não conteúdos
(SN 50). Tais experiênciqs são familiares. Elas também são, isso acontece, um de sua própria mente; e supõe-se que nós, lêitores dê Sartre, reconheça-
exemplo crucial para~e' s' __. s são instâncias doqULel.€-d1a~e 1II0S algo nessa descrição, um reconhecimento que pode manifestar-se na
l1égati~ng~tam.~nte: nadidades" que desempenham um papel central ligação espontânea da descrição de Sartre com as ocasiões nas quais nós
na, inter alia, sua discussao a 1 er ade. Muito .12rovavelmente, nunca tor- expcrienciamos uma ausência. Seu deslocamento para a primeira pessoa do
namos explícitap'ara nós mesmos a experiência da ausência. Reconhecemos plural dificilmente pode ser caracterizada como uma presunção - e, longe
descrições dessa experiência porque elas são familiares. ÃSs'im,consideramos dC'Hsadescrição ser intestável, podemos dizer que nosso reconhecimento
tais descrições iluminadoras ou até mesmo reveladoras precisamente porque I' 11m critério de correção para uma descrição fenomenológica: "Quando
não as tornamos reviamente explícitas para nós mesmos.
lI<IS concentramos em alguma característica de nossa lida com o mundo
Uma outra ~témJ.Ç.a.arte ga oj)~rvação de que coisas familiares podem I' ;I Irazernos à fala, ela não aparece como uma descoberta de algum fato
ser invisíveis simplesmente devido à falta de contraste. Em um nível básico, iususpcitado, como, por exemplo, a mudança de uma paisagem em uma
podemos inclusive compreender isso como um fenômeno sensorial: deixa- C 111 VIIna estrada" (Taylor, 2005, p. 35).
1110Sde ouvir o tique-taque do relógio porqueele eum acompanhamento 11:\,entretanto, uma complicação: o fracasso em reconhecer a des-
sensorial constante. Também podemos falhar em perceber ou nos dar conta 1Iic,'flopode ser devido a preconceitos intelectuais. Dennett gosta de citar
de' aspectos familiares do nosso próprio país ou da nossa própria cultura 1 II'ION IIOSquais as pessoas sfío surpreendidas por sua própria experiência
por não lermos nada com o que os contrastar. Um dos bcneffrlos potenciais /11'1('1''''11111.1':sslIsurpresu {-c'II~\c'I\(IJ'ild:tpelo fato de que as pessoas sã
d:ls vingcns ao exterior é justamente que, ao nos fome'c'c'l 1111 C'(IIIII':IHI(',
elas 1111 1I1111c1l1H:I
dc'sc,t'C'vl'J'('01110C'I;IIIIH'IWillllqlll' () mundo percebido deve ser,
pode'lIl f;lzN-nos observar as seguintes caractcrtsr kl\.~C'III 1I(1'l~1I j!\()11Jjo pors L'III,,11I.t1lC'nltllc'IIII·II,1'111(')(c'lIlplo. J!0c!('IIIOSf'j('ill surpresos ao desculuir
1111IIf1 IIOHS:IPI'C)priíl('II!tIlI':l: sotaque, estilos dr V('NIIII\rlo"li dCIrllqllllc'l 11m, ""1' IIflO~OIlIW;C'lIpill".C'N dI' IcI('1I11111'111
1111111('/11111 c1c'lo~\()alc',II"C'C'lfIc'Hlc'jll
p"I'III~:c'IIS,C'OHIIIIlIt'N, ":IIII>(lJ'1I
C'HSiI1c~(,l1icll
pIII(',1I 1I1t'1IC1~ JlIiH'lIíiilC.'lItc~
('111
d,,~ 1I()IHi(j~
illli'IIIIIII'lItC' 11111'''-.'1111' OIlIO~11 1 (1"1'11', 1>C'IIIIIJlI
1 /lm./1I1:llIgc'll',
52 Katherine J. Morris Sartre 53
tendemos a pensar acerca do nosso campo visual como UD;l tipo de imagem triângulo particular tem de exemplificar essa propriedade, pois de outra
interna composta de formas coloridas, de modo que "é óbvia a razão pela maneira não seria 'um triângulo, mas pode ser reto, ou isósceles ou esca-
qual cada porção da tela deve ser colorida de alguma cor" (1991, p. 68). leno. Essas são propriedades acidentais, que outros triângulos podem ter
Mas que o empreendimento fenomenológico de descrever a experiência ou não. A essência de um ser humano é (ao menos de acordo com muitos
corre perigo por causa de preconceitos intelectuais dificilmente pode ser cscolásticos) ser um animal racional. Um ser humano individual tem de
.aracterizado como algo novo para os fenomenólogos, os quais envidam .xemplificar essa propriedade, uma vez que é em virtude dela que é um
randes esforços para identificar e tentar eliminar tais preconceitos. De fato, ser humano, mas pode apresentar a propriedade acidental de ser francês,
diagnóstico de Dennett soa como o tipo de diagnóstico que um fenome- ou homem, ou ter 49 anos - propriedades essas que nem todos os seres
11610gopoderia muito bem fornecer (embora contraste com o diagnóstico humanos precisam apresentar.
fetivo de Merleau-Ponty; FP 27). Alguns dos padrões mais perniciosos m tip de ropriedade era de conse uência e _ .escolásti- é
de pensamento identificados pelos fenomenólogos serão explorados no ('()S~"1fêhcla Ela sem re era uma ro riedad acidenta exceto no caso
Capítulo 2. de I2.eiJ , existe necessariamente. Sua eXlstên . ,unicameríte, é parte
de sua essênCia. A definição real de um triângulo ou de um ser humano
Iliio menciona existência. Podemos saber o que é um triângulo, o que é ser
A REDI.!ÇÃ'iffiDÉrICA: ESSÊNCtAS~E SfGNIFICADOS 11111 triângulo sem saber se quaisquer triângulos realmente existem. Esse ( I
t>or~t<2..pode ser articulado pela afirmação de que essências são um tipÕCíe
Husserj/falava ta~bém de "redução eidética" ou de "intu~Q de esquema na mente de Deus antes da s1la.-CJ.:ia.çãQ.das coisas que preenchem
essências". Ajioção de essêndã):em uma longa "história na filosofia, e os o esqUema. Os escolásticos expressavam esse princípio.-básiCQ..!:.QlXlo "a es-
fenomenólogos são -áVidos para distinguir sua concepção de essências das lu"ncia precede a existência"," O princípio de Sartre "a existência precede
de outros. Q!:!.~,Sonsepções de~~ência em particular constituem o pano , essênCia", o axioma definidor do seu existencialismo, é uma reversão
de fundo de suas discussões: a conc~~<2... escolástica e a conc!pS-ªo lógi- (Il'liberada do axioma escolástico (ver adiante).
.o-positivísta, esta última amPlamente formulada como uma reação cõiitra
a concepção escolástica.
A concepção lógico-positivista de essência
A concepção escolástica de essência o alvo dE(Jierle~-pontD menos a escolástica do que os ositi- ,YJJ
vrstas lógicos, aqueles empifÍStas do século XX do chamado Círculo r, I

o termo "escolástica" é aplicado a um conju!!!Q fr®.xªm~nte definido Vh'lH~ cuja premissa básica era a de que toda sente!),ça_significativs-é ou kJ
le filósofos medievais e teólogos cujo projeto fundamental era integrar os "annlluca" - verdadeira em virtude do sentido das palavras, como, por
cnsinamentos ~ªBíbliª com aqueles dos grilnde$ filósofos ~8.0s, especial- ")('ll1plo, "Todos os solteiros são não-casados" - ou veriJiçável-ª.través da
mente Aristóteles. Seus escritos formam o pano de fundo para Descartes, r-xporiência", isto é~empiricamente. Os positivistas lógicos estavam em
cujos próprios escritos são uma parte tão importante para o pano de fundo 111111conscientemente
(' se posicionando contra certos aspectos da noção
dos fenomenólogos. Uma distinção básica que Descartes e os escolásticos I",('ol(islica de essência. Sua queixa principal era a de que a escolástica havia
fizeram é aquela entre dois tipos-dê propriedades: essenciais e acidentais. ,.I,'vndo a noção de essência a alguma coisa metafísica, como indicava a
Propriedades essenciais pertencem a tipos de coisas e o fazemeternamente. 1101 ('"fase na expressão "ter de" e a sua linguagem grandiosa de "eterno"
(:0(1(1instância de um tipo particular necessariamente exemplifica aquela I' "1111111é\vcl", Os positivistas queriam substituir essa noção pela noção
propriedade - ou propriedades - essencial do tipo: é aquela em virtude da IIIIIIHpn'llinl ele 1I111é1 proposição analítica cuja verdade está fundada nos \
qunl " instância é uma instância. Essências são expressas naquilo que os l'lllldos dns pitlilvrns, l'lns IlH'Sl1lilSprodutos de convenções. Fruão, em vez
ices chamavam de "definições reais" ou definições de coisas como
I'Iol('(lI(ls1 di' di:!,I'1"o IHllIU'l1I('I 11111 nnhunl rnclonnl", que pode ser compreendido
0!l0lllaS às I11ni~superficiais definições nominais ou definições ,"I<'palavras. 11111111 ,'xpn'sHillldll 1111\plOf\ll1do Il/si,I:"1 I1wtllf(sko nn lIilllll'('zn dos SI'I'('S
1'1opll.'dndlls í1c1d(,l1loispertencem a indivíduos, islo c\ il 111Il1!\1l<'lIlS <1(1 IlIlflIlIlIO/j!,', 1111'111111 "lIgllIHIIIIII dl'/,.'I "/\ 1ll'II11'IIçn'O 1111111(1111(~11111 nulmnl
tlPIIH,c' 11:10pn'('islIllI S('I'(IX(llllplifirilclilspor OIIIlO/i liulivldllCl'l do IIII'SIIIO 1111 ,', 1111li I(t "'n" 011"/\ I'lilIIVI'fI'1I1I11Ie'III'
11111,11' NI>~l1lf1('tI
'1IIIIIIIillrucionn!'"."
tipo, 1':lIllto,iI l'IlN{lII<'l11
dI' Iri!\II}',II10('.: /11//(/ Ii.l!/lI·fI ,,/1"'11di' I1 í'\ IlIcllI\. 11111 I'"'" lI'I,-IIII\lillll i1 1'''','1111111114\111'
d(' lllilrl "c!"IIIIH,'j\ll11'/11".di' 1111111d(,fll"I;,lo
Sartre 55
54 Katherine J. Morris
I IlloS fenomenológicos. Significados de palavras e significados de coisas
da coisa como 0Rosta à palavra; somente palavras, e não coisas, possuem ('lIrias) são inseparáveis: ambos têm suas raízes na existência, isto é,
sentidos. Não podemos falar acerca dOjientidQ da vida, m~ apenas acerca IHJ 1II\II1doexperienciado, E ultimamente ambos se referem a propriedades
do sentido daJ?aJavra ''vida''!
illllll.lll1cntais da realidade humana.
Os positivistas lógicos, entretanto, comE~rtilh~.v~ com os escolásti- /\ questão de como efetivamente chegamos a caracterizações da es-
cos o princípio de que a ~ência, reinterpretada como sentido de palavras, I 111liI ou ao sentido de um fenômeno a partir de uma descrição é mais
()
precede a existência, pois se pode, do ponto de vista positivista, saber o que
1)1111ilustrada por meio de um exemplo.
lima palavra significa independentemente de saber se ela se refere a algo que
.xista efetivamente." (Eles também não viam a Deus como uma exceção a
esse princípio.) E Merleau-Ponty era tão crítico desse axioma quanto Sartre,
•• p.ATlCA DA FeNOMENOlOGlA: UM EXEMPLO
mbora por razões diferentes:Sua conclusão será llãõãâe que "a existência
precede a essência", mas Slln a ae que a renomenologia "coloca as essências
de volta à existência (FP 12~ C}!!.e essência e existência estão entrelaçadas,
() que, então, um fenomenólogo faz para exibir a essência ou sentido
11111 fenômeno? Podemos esperar que haverá, grosso modo, .dlli!Üas~s: a
I
O centro da crítica de Merleau-Ponty aos positivistas é uma crítica 1'111t;f10 da redução fenomenológica e a execução da redução eidética.
da sua concepção de linguagem: eles veem seu "ofício" como "fazer com Tomemos de novo um exemplo já dado anteriormente: a descrição
que essências existam em um estado de separação [da existência]". Suas 1I :;11I1 rc sobre a experiência da ausência de Pedra. Exibimos nosso re-
ssências são significados de palavras, e eles compreendiam os sentidos I ,,,IH'cimento dessa descrição e, através disso, confirmamos sua correção
das palavras como o produto de uma convenção arbitrária, não-fundada 1111 !'Iacioná-Ia espontaneamente às nossas próprias experiências de ausên-
naquilo a que se refere Merleau-Ponty como "a vida antepredicajjyg dª I!I por exemplo, a vez em que eu encontraria Sue quando ela desembar-
existência" (f'P 12). E como se os positivistas tivessem esquecido que eles l\l~"do avião, mas ela perdeu o vôo. Pode ser que não compreendamos1
são seres humanos e que a linguagem é um fenômeno humano, expres- 1111.Iprcendamos as_imIili.caçõ~ .totais deS0lligy~$em (por e;;m-plo,
sivo. Se queremos dizer que os sentidos das palavras são o resultado de 111 >:tI11ização sintética"), mas o gue quer g};le§ej9-_que reconheçamos n~ ~
convenções, não devemos exagerar sua arbitrariedade. Não esqueçamos
que convenções são o produto de atividades humanas, atividades de seres-
I'"H'I1<,'50nos ajuda a compreender essa lingu,ªgw· Se refletirmos sobre T'
1I,1~I~n própria experiência, talvez notemos que os passageiros que não são
Il no-mundo, que ocorrem em uma situação. A afirmação de que as conven- 111',que O próprio terminal, as chamadas, tudo se funde em um pano de
ções que produzem os sentidos das palavras são arbitrárias é comumente 11111110 com um buraco com a forma de Sue, como se estivesse esperando
justificada pela aparente arbitrariedade da conexão entre - para tomar I'I Illl'cnchido, embora esse buraco não esteja em nenhuma localização
um exemplo típico e aparentemente trivial- um tipo particular de animal 1'"'( iS:I.Então, após a leitura com compreensão das descrições de Sartre,
c a palavra "cão", evidenciada pelo fato de que o mesmo tipo de animal é '"111I'<';01110S a nos dar conta de coisas em nossa própria experiência com
:hamado de Hund ou chien em outras línguas. Chamar as convenções que r-, qllllÍS estamos perfeitamente familiarizados, mas com as quais nunca
governam o uso dessas palavras de arbitrárias é sugerir, de um lado, que t'lllv('IIlOS sintonizados antes. Suspendemos nosso desespanto e, então, ao
foi simplesmente decidido por decreto que esses animais seriam doravante illl'1I0Sde maneira incipiente e reduzida, realizamos a redução fenomenoló-
chamados de cães (ou Hunds ou chiens); isso é ignorar o fato de que o li 11I':mmeçamos a descrever nossa experiência talvez para suplementar,
nome desse tipo de animal em uma dada linguagem tem uma história e
,,11,11("mesmo corrigir, a descrição de Sartre .
pressupõe toda uma cultura. E parece também sugerir, de outro lado, qu /\ descrição de Sartre e a nossa confirmação dela tornam-nos capazes
.~I'rill uma atitude arbitrária selecionar esse tipo de item do mundo e dar lh~dizl'l' que "uma ausência pode acontecer como um evento real". Fazen-
IIH'um nome, em primeiro lugar, como se proeminências perceptuais não tlil ItiNO,já nos movemos para além da experiência particular, seja aquela
I'SIivcsscm relacionadas às necessidades humanas, sejam por companhci ;l1\IU~1 illl por Snrl rc, seja aquela que colocamos diante de nossa mente para
IiSII\(),alimento ali segurança. Mcrlcau-Ponty; então, diz que' "no silêncio I 1111'1" (,(.,,<1('1sua cI('sn içf1o.I:,sla mos agora falando sobre um tipo de expe-:
dll cunsciênci» primária pode-se ver aparecendo não npcnas () que os 111'111111 ('XIII'lil\nrias d(' illIs{lllcl". I':sln Il\OS, então, em posição de realizar a
plllilVI'óISsigl1ificlIll1, mos também o que as coisas significam" (I"P 1:1); S\l:1 (1'.1111:;101'1<1("1 leu: (' li pl ill\l'iIo pllHlltlmllsisll'Il:l I(~('l)i<'aque j tusserl batizou
IIlIgllil~:I'11l1'('01111disljll~'fi() (\s('()I;~Sliril1\llIl'(\dl\nlti~'dlls n\nlN I' nomlnuls, til' "Vj\IIIII;1I011Ilil>',l1111 11VIIIivII'" , I'Ot!I'IIIWi,po!' ('xI'lIlplo, pensnr i\('('ITa ele
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