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AULA 6

TERAPIAS E TÉCNICAS
DE 3ª ONDA

Profª Carolina Mayumi Formighieri Ikeda


INTRODUÇÃO

Nesta aula, com um exemplo de caso, vamos entender melhor as


aplicações práticas de algumas técnicas propostas pelas abordagens estudadas
ao longo das nossas aulas.
Além disso, o objetivo também é esclarecer a importância do terapeuta de
se manter atualizado frente às diversas técnicas existentes, com mais liberdade
para sua aplicação, ao mesmo tempo que mantém sua coerência. Afinal, como
vimos, as técnicas não são efetivas quando aplicadas sem uma conceitualização,
mostrando o porquê de estarem sendo utilizadas em cada caso.
Antes de iniciarmos, é importante destacar que a maneira que
apresentamos as técnicas ao longo da aula não está relacionada a uma ordem de
intervenção terapêutica.

TEMA 1 – APRESENTAÇÃO DO EXEMPLO DE CASO

Vamos apresentar agora uma breve conceitualização do caso que será


analisado. O modelo utilizado aqui é proposto por Wainer e Piccoloto (2011). Para
fins acadêmicos, será apresentado de forma mais simplificada.

1.1 Conceitualização do caso

O caso escolhido é o de Monica (nome fictício), que buscou a terapia para


lidar com demandas relacionadas à ansiedade. Para entendermos melhor o uso
das técnicas, vamos focar em um aspecto específico dos objetivos terapêuticos:
a ansiedade e, por consequência, comportamentos de evitação no ambiente de
trabalho.

1. Dados de identificação do paciente


a) Nome: Monica.
b) Idade: 34 anos.
c) Escolaridade: ensino superior completo.
d) Profissão e ocupação: médica e preceptora em uma unidade de
saúde.
e) Estado civil e com quem reside: casada, mora com o marido.
f) Religião: católica.

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2. Motivo da busca pelo atendimento: frente a uma proposta de fazer uma
palestra no seu trabalho, na qual percebeu que seu desempenho poderia
ser testado, sentiu um nível de ansiedade exagerado e a necessidade de
aprender a lidar com isso. Além da situação específica, percebe ansiedade
exagerada em várias áreas da sua vida, o que traz diversas consequências
e sofrimento.

3. Forma de encaminhamento: foi indicada por uma colega, também cliente


da mesma terapeuta.

4. Informações da história de vida:

a) História familiar: sua gravidez foi uma surpresa para os pais, pois
tinham enfrentado dificuldades para engravidar e até desistido de
tentar por um tempo. Ficaram felizes com sua vinda, mas estavam
passando por um momento de grande dificuldade financeira. Relação
com os pais sempre foi satisfatória, mas com muita rigidez,
principalmente após o nascimento da sua irmã. Ficava responsável
por cuidar dela, o que trazia muita ansiedade, pois não queria
decepcionar ou ter alguma punição dos pais por fazer algo
inadequado. Tem bom relacionamento com a irmã, considerando-a
sua melhor amiga.
b) História escolar: com a melhora da vida financeira dos pais na sua
infância, teve oportunidade de estudar em uma das melhores escolas
da sua região, sempre com um desempenho acima da média e pôde
fazer diversas aulas extracurriculares, aprendendo línguas e
praticando esportes. Passou em seu primeiro vestibular para Medicina
em uma universidade pública. O período do curso foi muito
tumultuado, devido à quantidade de matérias e ao nível de cobrança
que tinha sobre seu desempenho, mas nunca reprovou. Passou na
residência de sua escolha logo após se formar.
c) História social: tem dificuldade de fazer amigos. Seu grupo atualmente
é limitado a amigas de infância, que fez na época do colégio, e sua
irmã, que considera sua melhor amiga. Gosta dos colegas de trabalho
e mantém boa relação, mas não considera isso uma amizade, pois
não se encontra com eles fora do ambiente de trabalho, apesar dos
convites dos colegas.

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d) História sexual: heterossexual, é casada há 10 anos, após 3 anos de
namoro e 1 de noivado. Seu primeiro e único relacionamento sexual
foi com o marido. Diz não se incomodar por isso e considera sua vida
sexual atual satisfatória.

5. Lista de problemas

• Dificuldade no ambiente de trabalho, medo em relação a não ter um


desempenho que considera ideal para seu cargo.
• Dificuldade no relacionamento, sensação de ser inferior ao marido.
• Dificuldade em lidar com a vida financeira, medo de perder seus
recursos.
• Dificuldade com outros relacionamentos, não tem uma rede de apoio
grande, acaba sentindo-se desamparada, pois queria ter mais
pessoas com quem pudesse contar, além do marido e amigas
próximas.

6. Diagnóstico teórico

Quadro 1 – Diagrama de conceitualização cognitiva

Dados relevantes da infância e adolescência:


Pais que colocavam muita responsabilidade em suas mãos, ficava responsável por cuidar e
amparar a irmã mais nova.
Pais valorizavam seu desempenho perfeito e condicionavam seu amor e sua aceitação a isso.
Era punida quando não tinha um bom desempenho ou fazia algo errado.
Sonho em fazer um curso superior (Medicina), que percebeu como bastante concorrido, o que
acabou colocando seu desempenho à prova e trouxe constante pressão para passar, própria
e dos pais.

Crença nuclear:
“Sou inadequada”.

Pressupostos subjacentes:
“Se não souber conduzir tal caso, sou uma profissional incapaz”.
“Pessoas que não conseguem falar bem em público serão julgadas como inadequadas”.

Estratégia compensatória:
Evitação: fecha-se na sala para não ter que dar orientações, não prepara a palestra, falta no
dia marcado.

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SITUAÇÃO 1 SITUAÇÃO 2 SITUAÇÃO 3
Dirigindo para o trabalho. Fiquei sabendo que preciso Aluno vem tirar uma dúvida
dar uma palestra em duas sobre uma conduta
semanas. específica.

PENSAMENTO PENSAMENTO PENSAMENTO


AUTOMÁTICO AUTOMÁTICO AUTOMÁTICO
“E se chegar um caso grave, “Não vou conseguir falar pra “Como eu não sei como faz
não sei o que fazer se tiver toda essa gente, vou isso? Sou muito burra
que reviver um paciente”. esquecer tudo”. mesmo”.

SIGNIFICADO DO P.A. SIGNIFICADO DO P.A. SIGNIFICADO DO P.A.


“Se eu não souber conduzir “Se eu esquecer tudo e não “Se eu não sei tudo sobre
um caso grave/se eu não sei conseguir falar, isso vai determinada conduta médica,
a resposta de tudo, sou uma mostrar que sou inadequada isso me prova que sou
profissional incapaz e como profissional”. incompetente e não deveria
fracassada”. estar ali”.

EMOÇÃO EMOÇÃO EMOÇÃO


Ansiedade Ansiedade Ansiedade
Medo Medo Tristeza
Raiva Tristeza

COMPORTAMENTO COMPORTAMENTO COMPORTAMENTO


Chega no trabalho e se fecha “Enrola” para separar um Fecha-se em sua sala para
em sua sala para poder tempo pra preparar a palestra parecer ocupada e sem
estudar sobre primeiros (procrastinação). tempo de responder
socorros. (evitação).
Falta no dia, alegando estar
se sentindo mal (evitação).
Fonte: Ikeda, 2020.

7. Esquemas iniciais desadaptativos e estilos de enfrentamento (Young):

• Padrões inflexíveis/postura crítica exagerada.


• Fracasso.
• Privação emocional.
• Defectividade.

8. Pontos fortes e recursos: possui grande dedicação a tudo que faz. Gosta
muito de sua profissão porque se importa em sentir que fez uma diferença
para tornar a vida dos outros melhor. Apoio do marido e da irmã no
processo terapêutico. Forte nível de espiritualidade. Ótima capacidade
intelectual e de abstração.

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9. Crenças que podem interferir no atendimento: medo de buscar um
tratamento psiquiátrico, por não querer ficar dependente de remédios.
Sente-se falha por não conseguir lidar com suas questões sozinha.

10. Focos do tratamento: aprender a lidar com a ansiedade, reestruturando


crenças relacionadas à cobrança de desempenho perfeito e
vulnerabilidade, e reduzindo distorções cognitivas. Reduzir
comportamentos relacionados à evitação. Aumento do nível de habilidades
sociais.

TEMA 2 – TÉCNICAS DE MINDFULNESS E TERAPIA DE ACEITAÇÃO E


COMPROMISSO (ACT)

Ao olharmos para o caso de Monica, percebemos diversos


comportamentos evitativos, como se fechar em sua sala para não ser testada ou
questionada e faltar ao dia da palestra temida. Um dos objetivos para a
intervenção, no seu caso, está relacionado a conseguir lidar melhor com seus
estados internos, principalmente com a ansiedade, de forma que não precise
recorrer a comportamentos com função de evitação para que possa se sentir
aliviada.
Considerando isso, podem ser utilizadas técnicas de mindfulness para a
observação de estados internos e treinar uma relação diferente com estes.
Também podemos pensar em técnicas da Terapia de Aceitação e Compromisso
(ACT) para treino da defusão de pensamentos relacionados à autocrítica e ao
perfeccionismo.

2.1 Mindfulness: escaneamento corporal

Entre diversas técnicas de mindfulness voltadas para o aumento da


consciência de sensações internas, o escaneamento corporal é uma das mais
completas. Consiste em uma prática formal, também ensinada no protocolo de
Terapia Cognitiva Baseada em Mindfulness (MBCT). Geralmente, é praticada com
o cliente deitado no chão, mas também pode ser feita sentando-se em uma
cadeira.
Basicamente, orienta-se que o cliente coloque a atenção no movimento da
respiração ao longo do corpo como um todo e, então, comece a colocar essa
atenção em outras regiões, começando pelas pontas dos pés até o topo da

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cabeça. Além da observação e treino da atenção, o indivíduo é encorajado a abrir-
se para a experiência como ela é, encorajando a aceitação dos estados como um
todo, inclusive dos momentos que ele se distrai com seus pensamentos ou outros
sons no seu ambiente.
No caso de Monica, a técnica foi aplicada com o objetivo principal de treinar
estar com esses estados internos, principalmente estados de ansiedade, sem que
sua primeira resposta seja buscar algum tipo de evitação, que é sua estratégia
mais frequente, como pudemos perceber na conceitualização.
Após o exercício, é feita uma reflexão com o cliente sobre sua experiência.
Para Monica, ficou clara a presença de crenças disfuncionais sobre a própria
ansiedade, como sendo uma emoção que foge do seu controle total e é sinônimo
de fraqueza. Essas crenças também dificultavam a normalização dos seus
estados internos, aumentando a tendência a um comportamento evitativo.

2.2 ACT: observe seu pensamento

Junto com a técnica de escaneamento corporal, técnicas da ACT também


foram utilizadas, com o objetivo de Monica treinar outros tipos de relação com
seus estados internos. Por conta da fusão cognitiva, ficava difícil para ela
conseguir perceber seus pensamentos apenas como pensamentos, considerando
que ela tinha um alto nível de identificação com suas cognições, principalmente
em momentos que se sentia ansiosa. Ou seja, ao perceber ou interpretar em uma
situação que não teve um desempenho ideal, não conseguia cogitar outras
possibilidades no momento, além de se sentir uma profissional inadequada e
inútil.
Um exercício utilizado com Monica foi o de observação dos pensamentos,
proposto por Harris (2009). Ele inclui pedir para o cliente fechar seus olhos e
começar a prestar atenção em sua respiração, observando como ela está
acontecendo, sem interferências. Como vemos em diversos exercícios, iniciar as
técnicas com tal instrução pode ser uma boa maneira, considerando que a
conexão com a respiração tem o poder de trazer o indivíduo para o momento
presente.
Uma vez que ele faça isso, é pedido que o cliente comece a colocar atenção
nos pensamentos conforme eles estão ocorrendo, se distanciando deles. Para
alcançar isso, o terapeuta pode pedir que o cliente observe esses pensamentos
flutuando em um espaço na sua cabeça, por exemplo.

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Aprender a dar forma a seus pensamentos auxiliou Monica a conseguir se
aperfeiçoar na defusão cognitiva. Ou seja, no momento em que pensamentos
relacionados à ansiedade e às sensações de inutilidade surgem, ela consegue
observá-los como somente cognições que surgem em momentos de ansiedade e
que, principalmente, não são necessariamente verdade ou uma visão realista
sobre ela mesma. Com isso, ela conseguiu diminuir seu desconforto e aumentou
sua capacidade de exposição, se abrindo mais para tirar dúvidas dos alunos e se
colocar em atendimentos complexos.

2.3 ACT: explorando sua dor

Entre os seis processos de flexibilização psicológica da ACT, a busca por


identificar e trabalhar com os valores dos clientes possibilita é um fator
motivacional para que ele se engaje em ações na busca do que realmente quer
para sua vida.
No caso de Monica, a busca por elucidar seus valores também teve como
objetivos ajudá-la a não se engajar em comportamentos evitativos, grande parte
da sua queixa. Apesar de trazerem alívio momentâneo, esses comportamentos
acabavam a afastando do que ela valorizava: ser uma boa profissional e ajudar
os outros com sua profissão.
Para isso, foi trabalhada a técnica proposta por Harris (2009) para clarificar
os valores do cliente, chamada, em tradução livre, de explorando sua dor. Inicia-
se com uma reflexão sobre emoções desconfortáveis e sua função de nos
comunicarem sobre o que realmente importa para nós.
A ansiedade que Monica sente em momentos profissionais desafiadores
mostra o quanto ela se importa em fazer um ótimo trabalho como médica e
colaborar com seus alunos e colegas, espalhando seu conhecimento na área. Em
um segundo momento, incentiva-se que o cliente pense sobre como o desconforto
pode servir como estímulo para mudar algo em sua vida. Monica chegou à
conclusão de que foi o seu nível de desconforto com essas situações que a levou
a um processo terapêutico para aprender melhor sobre seu funcionamento e como
lidar com o que acontece dentro dela.
Em seguida, é realizada uma reflexão sobre fazer essa “transição” entre a
preocupação alimentada pela ansiedade e o que realmente importa para Monica.
Considerando que seus valores estão relacionados com o que acredita, faz todo

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sentido que essa emoção venha, entre outros motivos, para levá-la a melhorar e
buscar maior segurança na sua postura profissional.

TEMA 3 – TÉCNICAS DA TERAPIA FOCADA NA COMPAIXÃO (TFC)

Em indivíduos com um alto nível de autocrítica, técnicas da TFC podem


auxiliar no aumento da habilidade de compaixão e autocompaixão. O aumento de
mensagens autotranquilizadoras e compassivas pode ajudar como “antídoto” para
que ela possa se acolher mais e se permitir ficar com suas emoções, sem fugir de
situações ou julgar. Principalmente no caso de Monica, que apresentou questões
significativas em relação à autoinvalidação, achando que suas emoções são
indicadores de que é uma pessoa inadequada e fraca.

3.1 TFC: achar sua voz compassiva

Sabemos que clientes com altos níveis de perfeccionismo possuem uma


voz interna altamente crítica e exigente. No caso de Monica, ao trabalharmos esse
aspecto, ela percebeu o quanto essa voz está presente em sua vida,
principalmente quando relacionada ao trabalho. Neff e Garner (2018) propõem um
exercício para que os clientes possam achar e estimular uma outra voz interna
mais compassiva frente a situações difíceis.
O primeiro passo desse exercício é selecionar alguma situação na qual o
cliente gostaria de ter tido outro comportamento. No caso de Monica, ela escolheu
a situação que envolve alunos irem tirar dúvidas durante o estágio, pois a
incomoda muito seu comportamento de fechar a porta para parecer ocupada e
não ficar disponível quando pode. Com base nisso, foram identificados os
conteúdos da voz crítica que lhe fala que ela deve ser muito burra por não ter
certeza sobre tal protocolo questionado pelo aluno. Ela também foi estimulada a
perceber o tom dessa voz, fechando os olhos e, estimulada pela terapeuta, se
colocando na situação novamente. Com isso, ela identificou um tom bastante
crítico e duro, relacionando com a imagem de uma bruxa.
Em seguida, Monica foi instruída a perceber o efeito sobre ela mesma
dessa voz. Ela acabou se emocionando ao se dar conta do medo e tristeza que
tomam conta dela nesses momentos. É importante reforçar que essa capacidade
de perceber estados internos foi potencializada ao realizar a técnica de
escaneamento corporal proposta anteriormente.

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Terapeuta e cliente também chegaram à conclusão de que essa voz foi
internalizada a partir da postura dos seus pais e do medo que sentia da punição
na possibilidade de tirar uma nota mais baixa ou de não conseguir cuidar direito
da sua irmã, por exemplo.
O segundo momento desse exercício envolve a estimulação da voz
compassiva. Monica foi orientada a formular algumas frases que capturam a
essência da sua voz compassiva e escrever uma mensagem para ela mesma, que
pode ser utilizada como cartão lembrete para ser lido antes de começar seu dia
de trabalho.

TEMA 4 – TÉCNICAS DA TERAPIA COMPORTAMENTAL DIALÉTICA (DBT)

A DBT propõe diversas técnicas voltadas ao desenvolvimento de


habilidades vistas como significativas para a busca por uma vida mais saudável.
Entre essas habilidades, aquelas voltadas para a regulação emocional foram
utilizadas no caso de Monica, para facilitar sua relação com suas emoções,
principalmente com a ansiedade.

4.1 DBT: ação oposta

Monica relatou, desde o início do processo terapêutico, dificuldade para


lidar com suas emoções. Durante a avaliação, percebeu-se que ela possuía
diversas crenças disfuncionais sobre seus estados emocionais que contribuíam
para a invalidação de suas emoções. Ou seja, quando se senta ansiosa,
automaticamente tinha pensamentos de que havia algo de errado com ela mesma
ao perceber essa emoção, principalmente no contexto profissional. Para ela, sentir
ansiedade era sinônimo de despreparo e inadequação e, por consequência, se
ela fosse boa mesmo, não teria esse sentimento.
Para fazer a psicoeducação sobre emoções e dar oportunidade de
aprender a lidar com elas, foi proposto que ela selecionasse alguma situação
pontual em que se sentiu muito ansiosa. Monica escolheu a situação-chave que a
trouxe para a terapia: ter que dar uma palestra para diversos colegas.
Neste ponto do processo, Monica já havia percebido que sua ansiedade
vinha de maneira desregulada e levava a procrastinação e evitação das situações.
Sendo assim, foi proposta a técnica da ação oposta, que tem como objetivo a
busca por regulação das emoções através da mudança de comportamento para

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reduzir ativações intensas e encorajar o surgimento de outros estados
emocionais.
Parte-se do princípio de que toda emoção leva a uma ação mais automática
do indivíduo. Com a ansiedade, existe a tendência de ele buscar a fuga de
situações que provocam essa emoção, o que, além de aumentar o nível da
sensação, principalmente situações futuras parecidas, também deixa o indivíduo
mais distante de agir de acordo com seus valores.
Ou seja, para situações profissionais, Monica foi encorajada a perceber os
momentos que a ansiedade e, mais profundamente, o medo de ser inadequada
vinham mais fortes. Após nomear para si mesma a emoção que sentia no
momento e perceber que seu nível está intenso, ela lembrava que sua linguagem
corporal envolve querer se retirar da situação, inclusive em sua própria postura
mais retraída nesses momentos.
Com isso, ela se comprometeu a mudar sua postura para uma que a faz
sentir-se mais confiante, com os ombros para trás e a cabeça mais elevada,
percebendo se fazia alguma diferença. Monica conseguiu perceber que acabava
sentindo-se mais calma e conseguia utilizar habilidades de mindfulness
aprendidas anteriormente para conseguir construir seus raciocínios com clareza
e responder aos alunos de maneira mais segura.

TEMA 5 – TÉCNICAS DA TERAPIA DO ESQUEMA EMOCIONAL E DA TERAPIA


DO ESQUEMA

Por fim, vamos entender como técnicas derivadas da Terapia do Esquema


Emocional e da Terapia do Esquema podem ajudar no caso de Monica. Como
comentamos anteriormente, suas crenças disfuncionais sobre suas emoções e o
medo da vulnerabilidade de estar errada e ser inadequada são pontos importantes
no andamento do seu caso e que podem ser trabalhados com técnicas dessas
duas abordagens.

5.1 Terapia do Esquema Emocional: identificando crenças sobre as


emoções

Leahy propôs 14 dimensões de esquemas emocionais que foram


analisadas na conceitualização do caso de Monica. Essa avaliação foi feita

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através de perguntas que ajudam no entendimento do terapeuta e na reflexão do
paciente sobre a sua maneira de pensar sobre as emoções.
Entre as dimensões analisadas, Monica se identificou com crenças
relacionadas ao controle, a vergonha, compreensibilidade e racionalidade.

Quadro 2 – Crenças

COMPREENSIBILIDADE Julgava que a ansiedade era uma emoção que não fazia
sentido, principalmente com o peso da responsabilidade de ser
médica e preceptora. Por conta disso, buscava a fuga de
situações que traziam essa ansiedade.

CONTROLE Via emoções como tristeza, medo, raiva e ansiedade como


fora do controle quando as experienciava. Pensava que a
ansiedade, por exemplo, podia levar a uma situação
catastrófica de errar um procedimento e levar um paciente à
óbito.

VERGONHA Sentia que ela, como médica, não podia ficar ansiosa frente a
situações de sua prática, principalmente em relação aos
colegas e alunos, por conta do nível de responsabilidade de
seu papel profissional. Tinha medo do que eles poderiam
pensar sobre ela.

RACIONALIDADE Julgava que a ansiedade estava presente somente para


atrapalhar. Tinha como objetivo inicial com o processo
terapêutico conseguir ser mais lógica e racional, pois achava
que sentir-se ansiosa não se encaixava com a ideia de ser uma
médica bem-sucedida e capacitada para ajudar as outras
pessoas.
Fonte: Ikeda, 2020.

5.2 Terapia do Esquema Emocional: abrindo espaço

Muitos clientes têm dificuldade de aceitar situações e emoções


contraditórias que podem estar acontecendo em um mesmo momento. Uma das
dificuldades de Monica ao lidar com suas emoções estava em não conseguir
aceitar que podia sentir ansiedade e continuar se engajando em comportamentos
funcionais, até para poder se sentir melhor, ou seja, ou ela estava ansiosa, ou
estava bem. Não conseguia estar em um meio termo.
Uma das questões que colaborava com isso era relacionada à própria
sensação emocional intensa de ansiedade. Uma vez que ela começou a conseguir
regular suas emoções, ficou mais fácil introduzir a ideia de que é possível abrir
espaço para lidar com contradições internas e podemos estar bem com essa
gama diversa de emoções que somos capazes de sentir.

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Leahy propõe a utilização de um poema de Rumi (1997), chamado A casa
de hóspedes, para explorar com o cliente a possibilidade de abertura a diversos
estados emocionais e como todos eles possuem uma função. Esse poema
também está incluso no protocolo de Terapia Cognitiva Baseada em Mindfulness
(MBCT), explorado em aulas anteriores.

O ser humano é como uma casa de hóspedes


Toda manhã, uma nova chegada
Uma alegria, uma tristeza, uma mesquinhez
Uma percepção momentânea chega, como visitante inesperado
Acolha a todos!
Mesmo se for uma multidão de tristezas, que varre violentamente sua
casa e a esvazia de toda a mobília
Mesmo assim, honre a todos os seus hóspedes
Eles podem estar limpando você para a chegada de um novo deleite
O pensamento escuro, a vergonha, a malícia
Receba-os sorrindo à porta e convide-os a entrar
Seja grato a quem vier
Porque todos foram enviados
Como guias do além

5.3 Terapia do Esquema: acolher a criança vulnerável

Muitos clientes têm grande dificuldade em ser mais acolhedores e


autocompassivos. Como vimos, a Terapia Focada na Compaixão traz diversos
recursos para aumentar a capacidade de autocompaixão. A Terapia do Esquema
também busca melhorar a relação do cliente com sua vulnerabilidade por meio do
acolhimento do modo criança vulnerável.
Monica relatava dificuldade de acolhimento e autovalidação frente a
dificuldades. Quando estava muito ansiosa e triste por não conseguir ter o
comportamento que gostaria e acabar evitando situações de trabalho
desconfortáveis, ela foi psicoeducada para perceber seu modo criança vulnerável
nesses momentos.
Quando estamos no modo criança vulnerável, sentimos plenamente as
emoções básicas relacionadas às necessidades emocionais básicas frustradas.
No caso de Monica, ela se sentia, em especial, desamparada nessas situações.
Foi feita uma relação entre essa sensação com a sua história de vida na qual a
necessidade emocional de acolhimento não foi atendida por seus cuidadores,
principalmente em situações relacionadas aos estudos. Muito pelo contrário, eles
acabavam sendo bastante punitivos nos momentos que se sentia inadequada por
ter tido um desempenho diferente do que esperava.

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Uma vez entendido isso, a terapeuta conduziu a cliente em um exercício
de imagem com o objetivo de aumentar a capacidade de acolhimento de seu modo
criança vulnerável desamparada. O exercício consiste em pedir para o cliente se
imaginar encontrando uma criança na rua após um dia de trabalho, retornando
para sua casa. Ao chegar mais perto, ela percebe que a criança está sozinha e
chorando.
Com isso, a terapeuta foi estimulando Monica a falar sobre como se sentia,
na imagem, ao ver a criança nesse estado e o que tinha vontade de fazer. Ela
relatou querer pegar a criança no colo. Ela também foi instruída a perguntar para
a criança o que aconteceu.
Nesse momento, a terapeuta responde como se fosse uma criança falando,
contando uma história parecida com a própria história de vida de Monica nas
situações que não se sentia acolhida. Ao perceber a semelhança das histórias,
Monica se emocionou e foi encorajada a atender a necessidade de acolhimento
da criança, pegando no colo e abraçando para que ela pudesse se sentir melhor.
Para fechar, a terapeuta estimulou Monica a exercitar uma respiração em
ritmo mais lento para a regulação emocional e, aos poucos, voltar para o ambiente
presente, abrindo seus olhos, para conversarem sobre sua experiência. A cliente
conseguiu perceber que tinha capacidade de ser acolhedora com a criança da
imagem e, por consequência, com seu modo criança nos momentos que não se
sentia acolhida como gostaria. Uma vez que ela começou a atender mais essa
necessidade, percebeu diferenças em como se sentia nos momentos que não
agia de maneira perfeita. Com essa sensação de segurança em relação a si
mesma, começou a se expor com mais confiança e reduziu comportamentos em
busca da evitação.

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REFERÊNCIAS

HARRIS, R. Watch your thinking. In: _____. ACT Made Simple: an easy-to-read
primer on acceptance and commitment therapy. United States: New Harbinger,
2009.

_____. Know what matters. In: _____. ACT made simple: an easy-to-read primer
on acceptance and commitment therapy. United States: New Harbinger, 2009.

LEAHY, R. L. Socialização para o modelo do esquema emocional. In: _____.


Terapia do esquema emocional: Manual para o Terapeuta. Porto Alegre: Artmed,
2016.

LEAHY, R. L; TIRCH, D.; NAPOLITANO, L. A. Atenção plena: mindfulness. In:


_____. Regulação emocional em psicoterapia: um guia para o terapeuta
cognitivo-comportamental. Porto Alegre: Artmed, 2013.

NEFF, K.; GERMER, C. G. Self-compassionate motivation. In: _____. The


mindful self-compassion workbook: a proven way to accept yourself, build inner
strength, and thrive. United States: The Guilford Press, 2018.

RUMI, J. A. The illuminated Rumi. United States: Random House, 1997.

WAINER, R.; PICCOLOTO, N. M. Conceitualização cognitiva de casos adultos. In:


RANGÉ, B. et al. Psicoterapias cognitivo-comportamentais: um diálogo com a
psiquiatria. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2011.

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