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introdução 4

á linguística X
domínios
e fronteiras

fernanda mussalim
anna christina bentes
J organizadoras
fernanda mussalim
anna christina bentes
organizadoras

Ana Paula Scher • Angel Corbera Mori • Anna Christina Bentes • Filonnena Sândalo •
Gladis Massinl-Cagliari • Luis Carlos Cagllari • Marina R. A. Augusto • Nilson Gabas Jr. •
Roberto Gomes Camacho • Rosane de Andrade Berlinck • Tânia Alkmim

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Introdução à linguística : domínios e fronteiras, v. 1 / Fernanda

introdução
Mussalim, Anna Christina Bentes (orgs.) - São Paulo :
Cortez, 2001

Vários autores.
Bibliografia.
ISBN 85-249-0772-X
à linguística
1. Lingiiística 2. Linguística - Estudo e ensino 1. Mussalim, domínios
e fronteiras
Fernanda. II. Bentes, Anna Christina.

01-0320 CDD-410
índices para catálogo sistemático:

1. Linguística 410

Volume 1

/^CORT€Z
V&€DITORfi
1

SOaOLlHGUÍSTlCA

PARTE I

Tânia Maria Alkmim

1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Linguagem e sociedade estão ligadas entre si de modo inquestionável. Mais


do que isso, podemos afirmar que essa relação é gjbase da constituição do ser
jiujriano. A história da humanidade é a história de seres organizados em socie-
dades e detentores de u m sistema de c o m u n i c a ç ã o oral, ou seja, de uma língua,
lífetivamente, a relação entre linguagem e sociedade n ã o é posta em dúvida por
ninguém, e n ã o deveria estar ausente, portanto, das reflexões sobre o f e n ó m e n o
linguístico. Por que se fala, então, em Sociolinguística? Ou melhor, por que
existe uma área, dentro da Linguística, para tratar, especificamente, das rela-
ções entre linguagem e sociedade — a Sociolingiiística? A linguagem n ã o seria,
essencialmente, u m f e n ó m e n o de natureza social? As respostas a questões como
essas não s ã o tão óbvias. Para respondê-las, é preciso considerar razões de natu-
reza histórica, mais precisamente, o contexto social mais amplo em que se situam
iu|ueles que se dedicam a pensar o f e n ó m e n o linguístico. Assim, iniciaimcnie, é
iK-cessário levar em conta que os estudiosos do f e n ó m e n o iingiiístico, como
luiiiK-iis de seu lempo, assumiram posturas teóricas em c o n s o n â n c i a com o fazer
22 INTRODUÇÃO À LINGUISTICA SOCIOLINGUÍSTICA: parte I 23

científico da tradição cultural em que estavam inseridos. Nesse sentido, as teo- a língua à raça de maneira indissolúvel. Advogou que a língua é o critério mais
adequado para se proceder à classificação racial da humanidade^
rias de linguagem, do passado ou atuais, sempre refletem c o n c e p ç õ e s particula-
res de f e n ó m e n o linguístico e c o m p r e e n s õ e s distintas do papel deste na vida
social. Mais concretamente, em cada época, as teorias linguísticas definem, a A o r i e n t a ç ã o biologizante que Schleicher imprimiu à Linguística da sua
seu modo, a natureza e as características relevantes do f e n ó m e n o linguístico. E, ^ época afastou, evidentemente, toda c o n s i d e r a ç ã o de ordem social e cultural no
evidentemente, a maneira de descrevê-lo e de analisá-lo. ^ trato do f e n ó m e n o lingiiístico.

Alguns manuais de história da Linguística nos oferecem um panorama de Sr^ A relação entre linguagem e sociedade, reconhecida, mas nem sempre as-
diversas abordagens no estudo do f e n ó m e n o linguístico'. Observemos, a título 't sumida como determinante, encontra-se diretamente ligada à q u e s t ã o da deter-
ilustrativo, alguns c o m e n t á r i o s de C â m a r a Jr., em História da Lingiiística, a m i n a ç ã o do objeto de estudo da Lingiiística. Isto é, embora admita-se que a
respeito do lingijista a l e m ã o Augusto Schleicher, cujos trabalhos tiveram forte "S relação linguagem-sociedade seja evidente por si só, é possível privilegiar uma
impacto no século X I X : ^ determinada óptica, e esta d e c i s ã o repercute na visão que se tem do f e n ó m e n o
linguístico, de sua natureza e caracterização. Nesse sentido, a Linguística do
i
século X X teve u m papel decisivo na questão da c o n s i d e r a ç ã o da relação l i n -
Q âSchleicher não era apenas um linguista mas também um estudioso das ciências
5 naturais dedicando-se à botânica. Este fato dera-lhe uma orientação a favor das guagem-sociedade: é esta que se encarrega de excluir toda c o n s i d e r a ç ã o de nar
^ , ^ i ê n c i a s da natureza. Ademais, de acordo com a filosofia de Hegel, que dominou èqreza social, histórica e cultural na observação, descrição, análise e interpreta-
(- 5 ^ o pensamento alemão dessa época, as ciências humanas, incluindo a história, são ção do f e n ó m e n o linguístico. Referimo-nos, aqui, à constituição da tradição
i \ produto do livre pensamento do homem e não podem ser colocadas sob a influ- estruturalista, iniciada por Saussure em seu Curso cie Lingiiística geral, em 1916.
o ência de leis imutáveis e gerais tais como o fenómeno da natureza. ' É ^ u s s u r e quem define a língua, por oposição à fala, como o objeto central da_
; Ora, Schleicher, como todos os lingiiistas anteriores a ele, tinha a ambição de Linguística. Na visão do autor, a língua é o sistema subjacente à atividade da
elevar o estudo da linguagem ãojtatus de uma ciência rigorosa com rigorosasjÊis fala, mais concretamente, é o sistema invariante que pode ser abstraído das
de desenvolvimento^. ^ múltiplas variações observáveis da fala. Da fala, se ocupará a Estilística, ou,
^ 4 ' mais amplamente, a Linguística Externa. A Linguística, propriamente dita, terá
É assim que Schleicher se p r o p õ e a colocar a Linguística no campo das . como tarefa descrever o sistema formal, a língua. Inaugura-se, assim, a chama-
ciências naturais, dissociando-a da tradição filológica, vista p ó r ele como um L da abordagem imanente da língua, que, em termos saussureanos, significa afas-
ramo da História, ciência humana. Para o referido linguista a l e m ã o , o desenvol- tar "tudo o que lhe seja estranho ao organismo, ao seu sistema"*.
vimento da linguagem era c o m p a r á v e l ao de uma planta que nasce, cresce e
Interessantemente, para Saussure, a língua é um fato social, no sentido de
morre segundo leis físicas. A lingiiagem é vista como um organismo naturaLao
q u e é j a m j i s t e j n a convencional adquiridcTpetõs indivíduos no convívio social.
qual se aplica, portanto, o conceito de evolução, desenvolvido por Darwin^ A
Mais precisamente, ele aponta a linguagem com a faculdade natural que permi-
esse respeito C â m a r a Jr. relata o que se segue:
le ao homem constituir uma língua. E m consequência, a língua se caracteriza
|ior ser " u m produto social da faculdade da linguagem"^
De acordo com Schleicher, cada língua é o produto da ação de um complexode
^ substâncias naturais no cérebro e no aparelho fonador. Estudar uma língua é, por- Saussure privilegia o caráter formal e estrutural do f e n ó m e n o linguístico,
tanto, uma abordagem indireta a este complexo de matérias. Desta maneira, foi embora r e c o n h e ç a a importância de considerações de natureza etnológica, his-
t ele levado a adiantar que a diversidade das línguas depende da diversidade dos t(')rica e política. Segundo ele, " q j s t u d o dos fenómenos linguísticos externos é
cérebros e órgãos fonadores dos homens, de acordo com as suas raças. E associou niuilo frutífero; mas é falso dizer que sem estes n ã o seria possível conhecer o

1. Ver Câmara Jr., J. M. História da Linguística. Rio de Janeiro, Vozes, 1975; Maimberg, B. Histoire
de la l.iiiguislique. De Summer a Saussure. Paris, PUF, 1991; Wartburg, W. von & Ulmann, S. Problemas y. Câmara Jr.. J. M. Op. cit., p. 51.
e iiwlodos da UngUíslica. São Paulo, Difel, 1975. (título original, 1943) 4. Saussure, T. dc. Cur.m de Ijngiiíslica geral. 3. ed. São Paulo, Cultrix, 1981. (título orginal. 191 fih)
2. Câmara Jr., J. M. Op. cit., p. 50. .*). Saussure, P. dc. Op. cll., p.l7.
24 SOCIOLINGUÍSTICA: parte I 25
INTRODUÇÃO À LINGUÍSTICA

A verdadeira substância da língua não é constituída por um sistema abstrato.d^


organismo lingiiístico interno"'*. Saussure institucionaliza a distinção entre uma
formas linguísticas, nem pela enunciação monológica isolada, nem pelo ata
Lingiiística Interna oposta a uma Lingiiística Externa. É essa dicotomia que
psicofisiológico de sua produção, mas pelo fenómeno social da interação verbal
dividirá, de maneira permanente, o campo dos estudos lingiiísticos c o n t e m p o r â -
realizada através da enMnc/ação ou das enunciações. Ainteração verbal constitui
neos, em que orientações formais se o p õ e m a orientações contextuais, sendo
assim a realidade fundamental da língual
que estas ú l t i m a s se e n c o n t r a m fragmentadas sob o r ó t u l o das muitas
interdisciplinas: Sociolingiiística, Etnolingiiística, Psicolingiiística etc.
De uma perspectiva diferente da de Bakhtin, Jakobson, outro linguista
A tradição de relacionar linguagem e sociedade, ou, mais precisamente,
russo, explicita sua visão sobre a relação entre linguagem e contexto social, em
língua, cultura e sociedade, está inscrita na reflexão de vários autores do século
que a n o ç ã o de c o m u n i c a ç ã o tem t a m b é m u m papel central. Para Jakobson, o
X X . Integrados ou n ã o à grande coiTente estruturalista, que ocupou o centro da
prinõrpio da homogeneidade do c ó d i g o lingiiístico, postulado por Saussure
cena teórica, particularmente, a partir dos anos 1930, encontramos linguistas
(1916), e adotado pela Lingiiística, " n ã o passa de uma ficção desconcertante"',
cujas obras s ã o referências obrigatórias, quando se trata de pensar a q u e s t ã o do
já que todo i n d i v í d u o participa de diferentes comunidades linguísticas e todo
SQcial no campo dos estudos linguísticos. N ã o caberia, aqui, enumerar todos
código lingiiístico é "multiforme e compreende uma hierarquia de subcódigos
esses estudioso"!; rnas uma breve referência a alguns nomes, ligados ao contexto
diversos, livremente escolhidos pelo sujeito falante"'°, segundo a função da men-
europeu, impõe-se: A n t o i n ^ ^ M á U e L - M J k h a i l Bakhtin, Mareei Cohen J j n i l e
Benveniste.e Roman Jakobson. sagem, do interlocutor ao qual se dirige e da relação existente entre os falantes
envolvidos na situação comunicativa.
Meillet, aluno de Saussure, filia-se à orientação diacrônica dos estudos
lingiiísticos, mas, para ele, a história das línguas é inseparável da história da Para Jakobson (1960), o ponto de partida é o processo comunicativo am-
cultura e da sociedade: é essa abordagem que podemos ver em sua obra, sobre a ,v pio, e isso o leva a ultrapassar a óptica estreita de uma análise do f e n ó m e n o
história do latim, Esquisse d'une histoire de la langue latine. A p r o p ó s i t o desse r 'linguístico ancorada apenas em suas características estruturais. A o privilegiar o
lingiiista francês, cabe destacar sua visão do f e n ó m e n o linguístico, bem ilustra- processo comunicativo, o referido autor privilegia t a m b é m os aspectos funcio-
da por u m trecho de sua aula inaugural no Colège de France, em 1906: nais da linguagem. É o que podemos ver com clareza em seu célebre artigo
• Linguística e poética, em que Jakobson identifica os fatores constitutivos de
Ora, a linguagem é, eminentemente, um fato social. Tem-se, frequentemente, re- I todo ato de c o m u n i c a ç ã o verbal: o remetente, a mensagem, o destinatário, cu
petido que as línguas não existem forã^aos sujeitos que as falam, e, em consequên- contexto, o canal e o código. Cada u m desses fatores determina uma diferente
cia disto, não há razões para lhes atribuir uma existência autónoma, um ser parti-
liinção de linguagem, seguindo-se, então, que "a estrutura verbal de uma men-
cular. Esta é uma constatação óbvia, mas sêm força, como a maior parte das pro-
, .sagem^dêpênde basicamente da função predominante"". Assim é que, por exem-
posições evidentes. Pois, se a realidade de uma língua não é algo de substancial,
isto não significa que não seja real. Esta realidade é, ao mesmo tempo, linguística I) pio, a p r e d o m i n â n c i a do fator remetente configura a função emotiva ou expres-
e social'. " siva, que exprime "a atitude de quem fala em relação àquilo de que está falan-
( l o " ' \ se evidencia, entre outros procedimentos, pelo uso de interjeições, pela
alleração de d u r a ç ã o de vogais (por exemplo, em p o r t u g u ê s , graande).
Bakhtin (1929), com sua crítica radical à postura saussureana, traz para o
centro da cena dos estudos lingiiísticos a n o ç ã o de c o m u n i c a ç ã o social:

K. Kakhtin, M. Marxismo e filosofia da linguagem. 5. ed. São Paulo, Hucitec, 1990, p. 123. (título
6. Saussure, F. de. Op. cit., p. 31.
iirl((inal. 1929)
7. O texto original de M E I L L E T é o que se segue: "Or, le langage est éminement un fait social. On a 9 Jakobson, R. Relações entre a ciência da linguagem e as outras ciências. Lisboa, Bertrand, 1973,
souvcnt repete que les langues n'existent pas en dehors des sujets que les parlent, et que par suite on n'est p
pas fondc à leur attribuer une existence autonome, un être propre. C e s t une constalation evidente, mais
10. Ibidem, p. 29.
sans porlcc, comme la plupart des propositions evidentes. Car si la réalité d'une langue n'est pas quelque
11. Jakobson, R. Linguística e poética. In: Linguística e comunicação. São Paulo, Cultrix, 1970,
chosc dc substantiel, elle n'en existe pas moins. Cette realité est à la fois linguistique et sociale". In:
|i 1.' I (Klulo original, 19d0)
Mcillct, A. lisqui.sse d'une lústoire de la langue latine. Paris, Klincksiek, 1977, p. 16. (título original,
1928) 12 Jakobson, K. Linguística e comunicação. São Paulo, Cultrix. p i 24
SOCIOLINGUÍSTICA: parte I 27
26 INTRODUÇÃO Ã UNGÚiSTICA

E m 1956, o francê&MarGel Gohen publicou Pour une sociologiedujqnggge corresponder tal estrutura social a tal estrutura linguística parece trair uma v i -
— republicado, em 1971, com o novo título de Matériaux pour une sociologie são muito simplista das coisas"'^. Isto porque sociedade e língua s ã o grandezas
du langage — em que advoga a necessidade de u m d i á l o g o entre as ciências de^ordem distinta, ou melhor, t ê m organizações estruturais dWersas. Assim é
humanas, afirmando que "os f e n ó m e n o s lingiiísticos se realizam no contexto que a l í n g u a se organiza em unidades distintas, que s ã o em n ú m e r o finito,
variável dos acontecimentos sociais"'^ Mas, ao assumir o postulado saussureano c o m b i n á v e i s e hierarquizadas — o que n ã o se observa na o r g a n i z a ç ã o social.
de que é preciso separar aspectos internos e aspectos externos no estudo das Mas, segundo o autor, algumas propriedades aproximam língua e sociedade:
línguas, Cohen assume a questão das relações entre linguagem e sociedade a são realidades inconscientes, representam a natureza, s ã o sempre herdadas e
partir da c o n s i d e r a ç ã o de fatores externos. Nesse sentido, o referido autor esta- não podem ser abolidas pela vontade dos homens. H á , no entanto, uma dimen-
belece um repertório de tópicos de interesse para um estudo sociológico da são privativa da língua, que a coloca num plano especial: seu poder coercitivo,
linguagem, como, por exemplo, o estudo das relações entre as divisões sociais e que transforma u m agregado de indivíduos em uma comunidade, criando a pos-
as variedades de linguagem, que perinitê abordar temas como: a distinção entre sibilidade da p r o d u ç ã o e da subsistência coletiva. Para Benveniste, a q u e s t ã o da
vaffèdades rurais, urbanas e de classes sociais, os estilos de linguagem (varieda- relação entre língua e sociedade se resolve pela c o n s i d e r a ç ã o da língua como
dos formais e informais), as formas de tratamento, a linguagem de grupos segre- instrumento de análise da sociedade. Ele afirma que a língua c o n t é m a socieda-
g a d o s ^ a r g ã o de estudantes, de marginais, de profissionais e t c ) . de e por isto é o interpretante da sociedade. Esse papel de interpretante é garan-
tido pelo fato deque a língua é "o instrumento de c o m u n i c a ç ã o que é e deve ser
Finalmente, alguns rápidos comentários sobre Benveniste, lingiiista fran-
comum a todos os membros da sociedade", possibilitando, assim, "a p r o d u ç ã o
cês, cuja reflexão marcou profundamente a Lingiiística francesa c o n t e m p o r â -
indefinida de mensagens em variedades ilimitadas"'^ Mais exatamente: "a lín-
nea em geral e, particularmente, o campo da Análise do Discurso'''. Exporemos
gua é necessariamente o instrumento próprio para descrever, para conceitualizar,
aqui apenas alguns c o m e n t á r i o s que tematizam a q u e s t ã o das relações entre
para interpretar tanto a natureza quanto a experiência"'^. A l é m disso, a língua
linguagem e sociedade. Para Benveniste (1963), " é dentro da, e pela língua, que
dá forma à sociedade ao exibir o semantismo social, que consiste, principal-
indivíduo e sociedade se determinam mutuamente"'f, dado que ambos só ga-
mente, de d e s i g n a ç õ e s , de fatos de vocabulário. Particularmente, o vocabulário
nham existência pela língua. É que a língua é a manifestação concreta da facul-
.se apresenta como uma fonte importante para os estudiosos da sociedade e da
dade humana da linguagem, isto é, da faculdade humana de simbolizar. Sendo
cultura, pois retém informações sobre as formas e as fases da organização social,
assim, é pelo exercício da linguagem, pela utilização da língua, que o homem
sobre os regimes políticos etc. Essa linha de reflexão é exemplarmente repre-
constrói sua relação com a natureza e com os outros homens. E m outros termos,
sentada na obra de Benveniste {19691 l91Qiiyocabulário das instituições Indò-
"a linguagem sempre se realiza dentro de uma língua, de uma estrutura linguís-
ciiropéias.
tica definida e particular, inseparável de uma sociedade definida e particular""*.
LogOj_língua e sociedade n ã o podem ser concebidas uma sem a outra. Finalmente, cabe assinalar uma outra consideração relevante de Benveniste.
Para ele, a língua permite que o homem se situe na natureza e na sociedade; o
Particularmente, em "Estrutura da l í n g u a e estrutura da sociedade",
l]omem "se situa necessariamente em uma classe, seja uma classe de autoridade
Benveniste (1968) discute a questão que nos interessa aqui. Segundo ele, "a
ou classe da produção"^°. E m consequência, a língua, sendo uma prática huma-
i d é k de procurar entre estas duas entidades r e l a ç õ e s u n í v o c a s ^ q u e fariam
na, "revela ò uso particular que grupos ou classes de homens fazem [dela] (...) e
US diferenciaçõès^qTTé^í resuTtãin^ d é uma língua comum"^'. Vemos,
13. O texto original de Cohen (1956) é o que se segue: "Les phénomènes linguistiques se realizem
dans le cadre changeant des événements sociaux". In: Cohen, M. Matériaux pour une sociologie du langage.
Paris, Maspero, 1956, v. 2, p. 30.
17. Benveniste, E . Problemas de Linguística Geral U. São Paulo, Cia. Editora Nacional/EDUSP,
14. Cf. particularmente o famoso artigo de Benveniste, "O aparelho formal da enunciação", in
1989, p. 95. (título original, 1968)
Benveniste, E . , Problemas de linguística geral U, São Paulo, Cia. Editora Nacional/EDUSP, 1989. (título
original, 1974). 18. Ibidem, p. 98.
19. Ibidem, p. 99.
15. Benveniste, E . Problemas de Linguística Geral. São Paulo, Cia. Editora Nacional/EDUSP, 1976
p. 27. 20. Ibidem, p. 101.
16. Ibidem, p. 31. 21. Ibidem, p.l02.
^, 28 INTRODUÇÃO À LINGUÍSTICA SOCIOLINGUÍSTICA: parte I 29

^ assim, que Benveniste articula a questão da relação língua e sociedade no plano b) identidade social do receptor ou ouvinte — relevante, por^xemplOj-PO
' geral da c o n s t r u ç ã o do humano e, particularmente, no plano das relações con- egtudq^das formas de tratamento, da baby tcilk ( fala utiljzadappr adul-
cretas e contingentes estabelecidas na vida social. tos para se dirigirem aos bebés);
O e s b o ç o feito até aqui pode ser reduzido a uma afirmação muito simples: c) o contexto social — relevante, por exemplo, no estudo das diferenças
. \ a q u e s t ã o da relação é óbvia e complexa ao mesmo tempo. Sabemos que é ine- entre a forma e a função dos estilos formal e informal, existentes na
fável, mas t a m b é m que a passagem do social ao lingiiístico — e do lingiiístico grande maioria das línguas;
^ aojx3cial_:^ n ã o é feita com tranquilidade. Naò^há consenso sobre o modo de d) ojulgamento social distinto que os falantes fazem do próprio compor-
f ^ tratar e de explicitar a q u e s t ã o da relação entre linguagem e sociedade: o fato é t ^ m e n t o l i n g u í s t i c o esobrg o dos outros, isto é, as atitudes linguísticas.
que o lugar reservado a essa c o n s i d e r a ç ã o constitui um dos grandes "divisores
de á g u a s " no campo da reflexão da Linguística c o n t e m p o r â n e a . A p r o p ó s i t o do nascimento da Sociolinguística,, Bachmann et al. (1981)
tecem c o n s i d e r a ç õ e s interessantes. Segundo estes autores, o novo campo é o
lugar
2. A SOCIOLINGUÍSTICA: FIXAÇÃO DE UM CAMPO DE ESTUDOS
onde vão se encontrar os herdeiros de tradições antigas como a da antropologia
^ O termo Sociolingiiística, relativo a u m a á r e a d a J J n g i J ^ s t i ^ fixou-se em linguística — caso de Hymes — ou da dialectologia social — como Labov — e de
^ 1964. Mais precisamente, surgiu em um congresso, organizado por W i l l i a m especialistas da experimentação ou da intervenção social: psicólogos, sociólogos,
"5 Briglitrna Universidade da Califórnia em Los Angeles ( U C L A ) , do qual partici- vÇjnesmo planificadores^**.
param vários estudiosos, que se constituíram, posteriormente, em referências
clássicas na tradição d_QS estudos voltados para a questão da relação entre l i n - Os referidos autores observam, t a m b é m , que a Sociolinguística se consti-

f guagem e sociedade: John Gumperz, Einar Haugen, W i l l i a m Labov, Dell Hymes,


John Fisher, José Pedro Rona. A o organizar e publicar, em 1966, os trabalhos
o" apresentados no referido congresso sob o título Sociolinguistics, Bright escreve
tui e floresce no momento erri que o formalismo, representado pela gramática de
Chornsky^', alcança enorme repercussão, em rotfi para o seu percurso vitorioso.
Vernos, assim, que, de u m lado, a p r e o c u p a ç ã o com as relações entre linguagem
J o texto introdutório " A ^ d i m e n s õ e s da Sociolingiiística"^^, em que define e ca- e..50ciedade tinha raízes históricas no contexto a c a d é m i c o norte-americano,_e
) ~ racteriza a nova área_de estudo. Ã proposta de Bright para á Sociolingiiística é a lanibém que a o p o s i ç ã o entre uma abordagem imanente da língua versus a con-
de qiié ela deve "demoiLStrar a.cavariação sistemática. das-v.âr4ações lingiiística ji^id^ração do contexto social é posta com grande vitalidade no campo dos estu-
e £ o c i a l . Ou seja, relacionar as variações lingiiísticas observáveis em unia ç o - dos linguísticos. De fato, a constituição da Sociolinguística se fez, claramente,
muiiTaãaH as diferenciações existentes na estrutura social desta mesma socieda- a partir da atividade de vários estudiosos e pesquisadores que deram continui-
de"^l Segundo o referido autor, o objeto de estudo da Sociolinguística é a d i - dade à tradição, inaugurada no c o m e ç o do século X X por F. Boas (1911) e seus
versidade linguística. E, como que estabelecendo u m roteiro para atividades de discípulos mais conhecidos — Edward Sapir (1921) e Benjamin L . W h o r f (1941):
pesquisa a serem desenvolvidas na área da Sociolinguística, Bright, na mesma u chamada Antropologia Linguística. Nessa vertente, em que linguagem, cultu-
obra, identifica um conjunto de fatores socialmente definidos, com os quais se ra e sociedade s ã o considerados fenómenos inseparáveis, linguistas e antropó-
supõe que a diversidade linguística esteja relacionada, como: logós"fí^ãbalham lado a lado e, mesmo, de modo integrado. Nesse sentido, o que
a) identidade social do emissor ou falante — relevante, por exemplo, no há (fé1fiovõe~ã'3efinição de uma área explicitamente voltada para o tratamento
'"t estudo d ó s dialetos de classes soçjais e das diferenças entre falas femi- do fenómeno linguístico no contexto social no interior da Linguística, animada
~ "* ninas e masculinas; peia atuação de linguistas e, particularmente, de estudiosos formados em cam-
pos das ciências sociais. A . Sociolinguística nasce marcada por uma origem

22. Ver Bright, W. As diinensões da Sociolinguística. In: Fonseca, M. S. & Neves, M. F. (orgs.)
Sociolinguística. Rio de Janeiro, Eldorado, 1974. 24. Bachmann, C . et al. iMnguage et Communications sociales. Paris, Hatier, 1974, p.l7.
23. Ibidcin, p. 34. 2.'i. Remetemos o leitor ao capítulo de "Sintaxe" neste mesino volume.
30 INTRODUÇÃO Ã LINGUISTICA SOCIOLINGUÍSTICA: porte I 31

3 interdisciplinar. É oportuno assinalar que o estabelecimento da Sociolingiiística, na. Surgem, assim, pesquisas voltadas para as minorias linguísticas Xiroigrantss
^ em 1964, é precedido pela atuação de vários pesquisadores, que buscavam arti- porto-riquenhos, poloneses, italianos etc.)^', e para a q u e s t ã o do insucesso esco-
^ cular a linguagem com aspectos de ordem social e cultural. Destacaremos, aqui, lar de crianças oriundas de grupos sociais desfavorecidos (negros e imigrantes,
^ dois desses pesquisadores. Em.l?62j_Hymes publica u m artigo em que p r o p õ e particularmente). E m suma, a realidade diversificada, tanto linguística como
u m novo d o m í n i o de pesquisa, a Etnografia da Fala, rebatizada mais tarde como cultural dos Estados Unidos, torna-se u m ponto de reflexão b á s i c o para u m
Etnografia da Comunicação^''. De caráter interdisciplinar, buscando a contri- contingente significativo de estudiosos. A propósito, vale lembrar que, t a m b é m
qT b u i ç ã o de áreas como a.Etnologia, a Esicologia e a Lingiiística, o novo d o m í n i o em 1964, houve u m congresso em Bloomington, Indiana, em que linguistas e
pretende descrever e interpretar o comportamento lingiiístico no contexto cultu- cientistas sociais debateram questões relafivas às relações interdisciplinares, ao
l j a l e, deslocando o enfoque tradicional sobre o c ó d i g o lingiiístico, prociu:idefi- campo da dialectologia social, à escolarização de crianças provenientes de meio
^ nir as funções da linguagem a partir da o b s e r v a ç ã o da fala e das regras sociais s o c i a l p õ b r e e de origem estrangeira. Três obras referenciais foram organizadas
S_ próprias a cada comunidade. Q u e s t õ e s como Qual o comportamento lingiiístico a partir dos trabalhos apresentados nesse congresso: Ferguson (1965) Directions
± adequado pará homens, mulheres e crianças na comunidade X? ou Que mo- in Sociolinguistics: report on a interdisciplinary seminar, Lieberson (1966) (ed.)
mentos são adequados para o exercício da fala na comunidade Y? podem ser Explorations in Sociolinguistics, e Schuy (1964) (ed.) Social dialects and
tomadas como ponto de partida para pesquisas em Etnografia da C o m u n i c a ç ã o . language learning. ^^ [;, J | '^^^,, ,
Mais tarde, Hymes (1972) publicou u m artigo de grande impacto — "Models o f
the interaction o f language and social l i f e " — no qual estabelece os princípios
teóricos e m e t o d o l ó g i c o s da Etnografia da C o m u n i c a ç ã o . 3. A SOCIOLINGUÍSTICA: OBJETO, CONCEITOS, PRESSUPOSTOS

E m 1963, Labov publica seu célebre trabalho sobre a comunidade da ilha Pondo de maneira simples e direta, podemos dizer que o objeto da Sociolin-
^ / d e _ M a r t h a ' s Vineyard, no litoral de Massachusetts, em que sublinha o papel guística ç o estudo da língua falada, observada, descrita e analisada em seu
j ^ d ^ decisivo dos fatores sociais na e x p l i c a ç ã o da variação linguística, isto é, da contexto social, isto é, em situações reais de uso. Seu ponto de partida é a comu-
% J diversidade lingiiística observada. Nesse texto, o autor relaciona fatores como nidade lingiiística, u m conjunto de pessoas que interagem verbalmente e que
•' idade, sexo, ocupação, origem étnica e atitude ao comportamento lingiiístico compartilham u m conjunto de normas com respeito aos usos linguísticos. E m
$ manifesto dos vineyardenses, mais concretamente, à p r o n ú n c i a de determina- luiiias palavras, uma comunidade de fala se caracteriza n ã o pelo fato de se c ô n s -
-^4ps fones do i n g l ê s . L o g o em 1964, L a b o v finaliza sua pesquisa sobre a ul ii ir por pessoas que falam do mesmo modo, mas por indivíduos que se relacio-
estratificação social do inglês em New York, em que fixa u m modelo de descri- nam, por meio de redes comunicativas diversas, e que orientam seu comporta-
ç ã o e interpretação do f e n ó m e n o linguístico no contexi;o social de comunidades iiienlo verbal por urn mesmo conjunto d é regras. Tomemos, como exemplo, o
urBãnãs -—iLÇOiíhícido ç p m o Sociolinguística Variacionista ou Teoria da Varia- uso do modo imperativo em português. Para os falantes do p o r t u g u ê s , o impera-
ç ã o , de grande impacto na Linguística contemporânea^'. A segunda parte desse livo denota ordem, e x o r t a ç ã o , conselho, solicitação, segundo o significado do
capítulo tratará especificamente dessa vertente da Sociolingiiística. verbo e o tom de voz utilizado, como em: "Vai-te embora"; "Ouve este conse-
Assim, o rótulo "sociolinguística", como f o i possível observar, reuniu e llio!"; " V e m cá!"; "Desce daí!". Consideremos, agora, as seguintes o b s e r v a ç õ e s
agregou, no seu início, pesquisadores marcados pela f o r m a ç ã o a c a d é m i c a em lie ('linha & Cintra:
diferentes campos do saber e marcados t a m b é m pela p r e o c u p a ç ã o com as i m p l i -
c a ç õ e s teóricas e práticas d q fenômÊnLaUngiiísJiçp_na^^^^^ Atenuação.
Por dever social e moral, geralmente evitamos ferir a suscetibilidade de nosso
iiilci locutor com a rudeza de uma ordem. Entre os numerosos meios de que nos
26. Hymes, D. The ethnography of speaking. In: Gladwin, T. & Stutervant, W.C. (orgs.) Anthropology
aiul liumiin bchavior. Washington, D.C., The Anthropological Society of Washington, 1964. (título origi-
nal. 1962) 2K, Ver Fishnian, J. A . et al. ÍMnguage loyally in lhe Uniled States. Moulon, The Hague, 1966. Ver
27. Labov, W. Tlie stmtification of English in New York city. Washington, D.C., Center for Applied liunlii'in l''isliman, J. A . et al. líilingiialisin in lhe Barrio: lhe measurement and destriplion of language
Lingiiislics, 1966. iliiiiilniinif in liilingiinis. Washington, D.C., Dept. of Health, Eduealion and Welfarc, 1968.
32 INTRODUÇÃO A LINGUISTICA SOCIOLINGUÍSTICA: parte I 33

servimos para enfraquecer a noção de comando, devemos ressaltar (além dos já essas diversas variedades de holandês e de francês constituem o repertório lingiiís-
estudados), pela sua eficiência, o emprego de fórmulas de polidez ou de civilida- tico de certos complexos sociais flamengos em Bruxelas'".
de, tais como: por favor, por gentileza, digne-se de, tenha a bondade etc:
— Fale mais alto, por/avor! (F. Botelho, X, 177). Caso consideremos uma comunidade como a de Salvador, observaremos
— Entrem, porfavor, que não ocupam lugar — exclamou Seu Pio. ( A . F. Schmidt, que o seu repertório lingiiístico se constitui de variedades lingiiísticas distintas,
GB, 165) dado que os habitantes da cidade falam de modo diferente em função, por exem-
— Tenham a bondade de sentar e esperar um momento. [= Sentem-se e esperem ^•j^ pio, de sua origem regional, de sua classe social, de suas o c u p a ç õ e s , de sua
um momento.] (R. Braga, CCE, 272) 4fl esa)laridade e t a m b é m da situação em que se encontram. Assim é que u m falan-
É claro que também aqui o tom de voz é de uma suma importância. Qualquer te que pronunciaapalavra "doido" como ['dojd3u] revela s q a p r o v e n i ê n c i a da
dessas frases pode, não obstante as fórmulas de cortesia empregadas, tornar-se região interiorana, assim como a proniincia da palavra "cozinha" como [kíir) ' Z I B ]
rude e seca, ou mesmo insolente, com a simples mudança de entoação^'. indica, a l é m da origem social, a sua pouca escolaridade. U m mesmo habitante
de Salvador, segundo a situação em que se encontrar; poderá optar entre usar as
A depender do alcance e dos objetos de um trabalho de natureza sociolin- expressões "Fiquei retado" ou "Fiquei aborrecido", assim como entre " J o ã o
guística, podemos selecionar e descrever comunidades de fala como a cidade de convidou ele" ou " J o ã o o convidou".
New Y o r k ou a cidade do Rio de Janeiro, de S ã o Paulo, de B e l é m . Ou o povo
ianomâmi, que vive no Estado do A m a p á . Ou, ainda, as comunidades dos pes-
Qualquer língua, falada por qualquer comunidade, exibe sempre v a r i a i
cadores do litoral do Estado do Rio de Janeiro, da ilha de Marajó, dos estudan-
ções. Pode-se afirmar mesmo que rienhuma_língua se apresenta como uma enti-
tes de Direito, dos rappers etc.
dade hornogênea, Isso significa dizer que qualquer língua é representada por u m
A o estudar qualquer comunidade lingiiística, a constatação mais imediata conjunto de variedades. Concretamente: o que chamamos de "língua portugue-^
a existência de diversidade ou da variação. Isto é, toda comunidade se caraete- s;i" engloba os diferentes modos de falar utilizado pelo conjunto de seus falan-
•c riza pelo emprego de diferentes modos de falar. A essas diferentes maneiras de tes do Brasil, em Portugal, em Angola, M o ç a m b i q u e , Cabo Verde, Timor etc_..
falar, a Sociolingiiística reserva o nome de variedades linguísticas. O conjunto • ^ L í n g u a e v a r i a ç ã o são inseparáveis: a Sociolingiiística encara a diversida-"
de variedades lingiiísticas utilizado por uma comunidade é chamado repertório de hnguística n ã o como um problema, mas como uma qualidade constitutiva do
• 1 verbal. Assim é que, a propósito da cidade de Bruxelas, na B é l g i c a — país iciiómeno lingiiístico. Nesse sentido, qualquer tentativa de buscar apreender
f> caracterizado pelo bilingiíismo francês-flamengo (variedade do holandês) — apenas o invariável, o sistema subjacente — se valer de oposições como "língua
Fishman aponta: f lala", ou c o m p e t ê n c i a eperformance — significa uma r e d u ç ã o nacompreeii^
sflo d ó f e n ó m e n o lingiiístico. O aspecto formal e estruturado d.Q.Xenômeno
Os funcionários administrativos do Governo, em Bruxelas, que são de origem
liii)',iiístico é apenas parte do f e n ó m e n o total.
flamenga, nem sempre falam holandês entre si, mesmo quando todos sabem ho-
landês muito bem e igualmente bem. Não só há ocasiões em que falam francês
entre si, em vez de holandês, como também há algumas ocasiões em que falam
3.1. A variação linguística: um recorte
entre si o holandês standard enquanto em outras usam esta ou aquela variedade
regional do holandês. De fato, alguns da mesma forma usam diferentes variedades
de francês: uma variedade particularmente carregada de termos administrativos Todas as línguas do mundo são sempre continuações históricas. E m outras
oficiais, outra correspondendo ao francês não técnico falado nos círculos de edu- ^Jpiiliivras, a,s gerações sucessivas de indivíduos legam a seus descendentes o
cação superior e refinados da Bélgica, e, ainda outra, que não é apenas um "fran- d o m í n i o de umãTíngua particular. As m u d a n ç a s temporais s ã o parte da história
cês mais coloquial" mas o francês coloquial dos que são flamengos. Em suma. d.IS línguas. Dois exemplos de m u d a n ç a histórica no p o r t u g u ê s s ã o ilustrativos:

29. Cunha, C. & Cintra, L . F. L . Nova gramática do português contemporâneo. Rio de Janeiro, Nova 30. Fishman, J, A. A sociologia da linguagem. In: Fonseca, M. S. V. & Neves, M. F. (orgs.)
Fronteira. 198.5. Sociolinguística. Rio de Janeho, F.ldorado, 1974, p. 28.
34 INTRODUÇÃO À LINGUÍSTICA SOCIOLINGUÍSTICA: parte I 35

no p o r t u g u ê s arcaico (entre os séculos X I I e X V I ) , ocorriam constru- b) entre falantes brasileiros originários das regiões nordeste (incluída a
ções impessoais em que a indeterminação do sujeito era indicada pelo Bahia) e sudeste, percebemos diferenças fonéticas, como, por exem-
v o c á b u l o "homem", com o mesmo sentido que, atualmente, usamos o plo, a p r o n ú n c i a de vogais médias pretónicas — como ocorre na pala-
pronome "se". Por exemplo: "E pode homem hyr de S a n t a r é m a Beia vra " m e l a d o " — pronunciadas como vogais abertas no nordeste
[Beja] em quatro dias"^', que corresponde, modernamente, a " E pode- [ m e l a d u ] e fechadas no sudeste [me'ladu]. Percebemos t a m b é m dife-
se ir de S a n t a r é m a Beja em quatro dias"; renças gramaticais, como, por exemplo, a preferência pela p o s p o s i ç ã o
a forma de tratamento "Vossa Senhoria" é atestada nos meados do sé- verbal da n e g a ç ã o , como em "sei n ã o " (nordeste) e " n ã o sei" (ou, " n ã o
culo X V como e x p r e s s ã o reservada ao rei. J á no final do século X V I , sei, n ã o " , no sudeste); o uso do artigo definido antes de nomes pró-
esta perde seu estatuto de realeza, sendo empregada no trato com arce- prios como em "Falei com Joana" (nordeste) e "Falei com a Joana"
bispos, bispos, duques, marqueses, condes, além de uma gama de altos (sudeste);
funcionários (como, por exemplo, vice-rei ou governador da índia)^^. c) no Estado da Bahia, por exemplo, a origem urbana ou rural pode ser
evidenciada pelo uso da e x p r e s s ã o "de primeiro" [di primero], em l u -
líJoplano sincrônico, as variações observadas nas línguas são relacionáveis gar de "antigamente", "anteriormente".
a fatores diversos: dentro"de uma mesma comunidade de fala, pessoas de origem
geográfica, de idade, de sexo diferentes falam distintamente. É bom frisar que n ã o Tomando-se a comunidade de fala de língua portuguesa como um todo,
existe nenhuma relação de causalidade entre o fato de nascer em uma determina- podemo-nos referir às variedades brasileira, portuguesa, baiana, curitibana, ru-
da região, ser de uma classe social determinada etc, e falar de uma certa maneira. lal paulista (ou caipira) etc.
Os falantes adquirem as variedades linguísticas próprias a sua região, a A variação social ou diastrática, por sua vez, relaciona-se a u m conjunto
sua classe social etc. De uma perspectiva geral, podemos descrever as varieda- de fatores que t ê m a ver com a identidade dos falantes e t a m b é m com a organi-
des linguísticas a partir de dois p a r â m e t r o s básicos: a variação geográfica (ou ^ação sociocultural da comunidade de fala. Neste sentido, podemos apontar os
djatópica) e a variação social (ou diastrática). seguintes fatores relacionados às variações de natureza social: a) classe social;
A variação geográfica ou diatópica está relacionada às diferenças lingiiís- b) idade; c) sexo; d) situação ou contexto social. E m relação aos três primeiros
ticas distribuídas no e s p a ç o físico, observáveis entre falantes de origens geográ- lalores, nos limitaremos a fornecer exemplos, remetendo, para um tratamento
ficas distintas. Alguns exemplos: variacionista dos fatores em questão, à segunda parte deste capítulo. No que diz
respeito ao fator situação ou contexto social, faremos uma e x p o s i ç ã o um pouco
a) brasileiros e portugueses se distinguem em vários aspectos de sua fala.
mais aprofundada.
N o plano lexical, apenas u m exemplo: "comboio" em Portugal, "trem"
no Brasil. N o plano fonético: a pronúncia aberta da vogal anterior m é - a) Çb^sejQÊJâU-Qb&ervgrnps alguns exemplos indicativos de pertencente
dia como em " p r é m i o " ['premju], em contraste com a pronúncia fechada à fala de grupos situados abaixo na escala social:
no Brasil, " p r é m i o " ['premju]. N o plano gramatical: derivações diver- — uso de dupla n e g a ç ã o , como em " n i n g u é m n ã o v i u " , "eu nem num
sas de uma raiz comum, como em ficheiro, paragem, bolseiro, que no gosto";
Brasil correspondem a fichário, parada e bolsista; a c o l o c a ç ã o de ad-
— presença de [ r ] , em lugar de [1], em grupos consonantais, como em
vérbios como em " L á n ã o v o u " (Portugal) e " N ã o vou lá" (Brasil);"
\" (blusa) e "grobo" (globo);
— na índia, existem as castas b r â m a n e (superior), n ã o b r â m a n e (média) e
31. Dias, A. E . S. Sinlaxe histórica portuguesa. 4. ed. Lisboa, Clássica, 1959, p. 22. (título original, intocável (inferior), que correspondem à hierarquia social vigente. Na
I8K4)
32. Cintra, L . F. L . Origens do sistema de formas de tratamento do português actual. In: Sobre as
área de Bangaiore, a língua Kannada apresenta dados relativos a esta
"formas de tratamento" na língua portuguesa. Lisboa, Horizonte, 1972. (título original, 1965) diferenciação social: a palavra "nome" tem as formas /hesru/, "hesru",
33. Ver Câmara Jr., J. M. Línguas europeias de ultramar: o português do Brasil. In: Dispersos. Rio de na variedade coloquial dos b r â m a n e s , e /yesru/, "yesru", na variedade
Jnneiío, buiidavao (ieliilio Vargas, 1975. (título original, 1963). Ver tambcin Boléo, M. P. Brasilcirismo.
não b r â m a n e ; a expressão "com licença" é realizada como /ksamisii/,
llKisiliii. V. 3. pp. 3-42, 1943.
INTRODUÇÃO Ã LINGUÍSTICA SOCIOLINGUÍSTICA: parle l
36
lo determinado"^''. Uma definição desse tipo possibilita descrever os p a d r õ e s de
"ksamisu", na variedade coloquial dos b r â m a n e s e /cemsu/, "cemsu",
uma determinada sociedade com respeito ao uso das variedades linguísticas.
na variedade coloquial dos n ã o b r â m a n e s (Bright, 1960).
Islo é, qual o comportamento lingiiístico adequado às situações em que se en-
contram os falantes. Consideremos, por exemplo, a situação de uma defesa de
b) IdadeL_
lese e a c o m e m o r a ç ã o que se segue à a p r o v a ç ã o desta tese, que envolve as mes-
— o uso de léxico particular, como presente em certas gírias ("maneiro", mas pessoas. As diferenças existentes entre as duas situações — tema das con-
"esperto", c o m o sentido de avaliação positiva sobre coisas, pessoas e versas, local etc. — podem fazer com que uma sociedade considere adequado
situações), denota faixa etária j o v e m ; utilizar variedades lingiiísticas diferentes ou a mesma. Segue-se, então, que cada
— uso de pronome tu em situações de interação entre iguais no R i o de )',rupo social estabelece u m c o n t í n u o de situações cujos pólos extremos e opos-
Janeiro, como em " T u v i u s ó ? " , t a m b é m sugere que os falantes s ã o tos são representados pela formalidade e informalidade. E m nossa sociedade,
conferências, entrevistas para o b t e n ç ã o de emprego, solicitação de informação
jovens;
.1 um desconhecido, contato entre vendedores e clientes s ã o , em geral, vistos
— a p r o n ú n c i a fechada da vogal tónica posterior da palavra "senhora"
t o m o situações formais. Já situações como passeatas, mesas redondas sobre
[se'jiore], em lugar de [se'jiofB], é característica de alguns falantes mais esporte, bate-papo em bar, festas de Natal nas empresas são definidas como
velhos. iiilormais. As variedades hngiiísticas utilizadas pelos participantes das situa-
ções devem corresponder às expectativas sociais convencionais: o falante que
"^C c) Sexo: iiào atender às c o n v e n ç õ e s pode receber algum tipo de " p u n i ç ã o " , representada,
— a d u r a ç ã o de vogais como recurso expressivo, como em "maaravilhoso", por exemplo, por um franzir de sobrancelhas.
costuma ocorrer na fala de mulheres (Camacho, 1978), assim como o
H á u m tipo de interação social particular em que u m falante decide mudar
uso frequente de diminutivos, como "bonitinho", "gostosinho", "verme-
de variedade linguística sem que tenha ocorrido m u d a n ç a de situação: é o que
lhinho"; {'islunan (1972) chama de mudança metafórica. U m bom exemplo é uma con-
— na língua Z u n i , falada por u m grupo indígena da A m é r i c a do Norte, os versa em que o pai interroga a filha nos seguintes termos: "Aonde a senhora
fones [ty] e [c] falados por pessoas do sexo feminino correspondem a |iríi.sa que vai?" — em que o uso da forma de tratamento "senhora" está obvia-
[ k y ] na fala masculina; iiu-iiie carregado de ironia.
— no j a p o n ê s , para o pronome de primeira pessoa eu, a l é m de uma forma Aprende-se a falar na convivência. Mas, mais do que isso, aprendemos
utilizável por todos os falantes, existem as formas "atashi", usada ex- quando devemos falar de um certo modo e quando devemos falar de outro. Os
clusivamente por mulheres, e "boku", própria aos homens. indivíduos que integram uma comunidade precisam saber quando devem mudar
dr uma variedade para outra. Segundo Fishman (1972), os membros de qual-
d) S i t u a ç ã o ou contexto social: é um fato muito conhecido que qualquer
quer comunidade "adquirem lenta e inconscientemente as competências comu-
pessoa muda sua fala, de acordo com o(s) seu(s) interlocutor(es) — se nii aiivd e sociolinguística, c o m respeito ao uso apropriado da língua"^'. E m
este éTTiais velho ou hierarquicamente superior, por exemplo — , se- lei mos concretos, é possível afirmar que os falantes aprendem quando podem
gundo o lugar em que se encontra — em u m bar, em uma conferência l.il.n e cjuando devem permanecer em silêncio, se podem utilizar a forma impe-
— e até mesmo segundo o tema da conversa — fofoca, assunto cientí- iiiliva para dar uma ordem ou se devem se valer de uma e x p r e s s ã o modalizada,
fico. Ou seja, todo falante varia sua fala segundo a situação em que se I limo em "saiam daqui, j á " ou "por favor, dirijam-se à saída"; se é oportuno
encontra.

Fishman (1972) assim se pronuncia: "uma situação é definida pela co- M 1'i.slimaii, J. A. A sociologia tia linguagem. In: Fonseca, M. S. V. & Neves, M. F. (orgs.)
ocorrência de dois (ou mais) interlocutores mutuamente relacionados de uma SiHliilliii;UÍ.\lit<i. Rio tlc Janeiro, Eltloratlo, 1974, p. 29. (Ululo original, 1972)
lliiilein.
maneira determinada, comunicando sobre um determinado tópico, num contex-
38 INTRODUÇÃO À LINGUÍSTICA SOCIOLINGUÍSTICA: parte I 39

dizer " t ô fora" ou " n ã o vai ser p o s s í v e l " ; ou, ainda, "a gente n ã o sabia" ou " n ã o Izabel S. M a g a l h ã e s (1985), The rezas andbenzeções: healing speech activities
s a b í a m o s " , ou ainda " d e s c o n h e c í a m o s " . in BraziL que focaliza a prática linguística de benzedores, a partir de dados
ccJetados em cidades-satélites de Brasília.
À s variações lingiiísticas relacionadas ao contexto chamamos de varia-
ções estilísticas ou registros. Nesse sentido, os falantes diversificam sua fala — W . M . 0 ' B a r r & J. F. 0 ' B a r r (1976) organizaram u m volume, de extremo
istõ~é~'usam estilos ou registros distintos — em função das circunstâncias em interesse — Language and politics — em que analisam a q u e s t ã o das relações
íque ocorrem suas interações verbais. Segundo Camacho, os falantes adequam entre linguagem e o funcionamento do sistema de ordenações legais na índia e
suas formas de e x p r e s s ã o às finalidades específicas de seu ato enunciativo, sen- na T a n z â n i a , dois países que compardlham algumas características marcantes:
do que tal a d e q u a ç ã o "decorre de uma seleção dentre o conjunto de formas que são ex-colônias inglesas, sociedades plurilingues e precisam pensar a q u e s t ã o
constitui o saber lingiiístico individual, de u m modo mais ou menos conscien- da r e l a ç ã o entre a h e r a n ç a histórica tradicional e a recente, produzida pelo
te"^''. A seleção de formas envolve, naturalmente, u m grau maior ou menor de colonialismo inglês.
reflexão, por parte do falante: o uso do estilo formal, em relação ao informal, Os p a r â m e t r o s da variação linguística são diversos, como se pode inferir
requer uma a t u a ç ã o mais consciente. Assim é que observamos esfilos distintos da e x p o s i ç ã o feita até aqui. Para efeito de apresentação, isolamos os fatores a
quando u m falante conversa com u m amigo ou com vizinhos r e c é m - c o n h e c i - que a variação linguística, como u m todo, está relacionada. N ã p podemos dei-
dos, ou com u m m é d i c o , durante uma consulta, bem como ao escrever u m bilhe- xar de apontar, no entanto, que,, na realidade das relações sociais, os fatores de
te a u m colega de faculdade, uma carta à^seção de leitores de u m jornal ou ao variação se encontram imbricados. N o ato de interagir verbalmente, u m falante
elaborar u m relatório dirigido a u m superior no trabalho. A terminologia para se utilizará a variedade lingUísfica relativa a sua região de origem, classe social,
referir aos diferentes estilos de fala n ã o é nada precisa. Utilizamos, muito generi- idade, escolaridade, sexo etc. e segundo a situação em que se encontrar. Por
camente, expressões como estilos formal, informal, coloquial, familiar, pessoal. exemplo: u m brasileiro, nascido em Recife, a p r e s e n t a r á , sempre, vogais
pretónicas abertas como em [reau] "real", mas ainda a depender de sua escola-
A n o ç ã o de situação — tal como foi definida — tem u m alcance restrito, ridade, da origem rural ou urbana, utilizará o verbo "assuntar" ou "prestar aten-
reduzindo-se, praticamente, à consideração da cena em que ocorrem as interações ção" e, a depender da situação, dirá " F u i nada" ou " F u i n ã o " .
verbais. É útil e produtivo entender situação dè uma perspectiva mais abrangente,
a saber, como o contexto social global de uma comunidade, com suas marcas
históricas e culturais próprias. Pensamos aqui, particularmente, nos contextos 3.2. As variedades linguísticas e a estrutura social
ritualísficos e religiosos que, tomados como ponto de partida, sugerem o estudo
de variedades e usos linguísticos especiais. Assim, por exemplo, o contexto das ' Como j á f o i dito, em qualquer comunidade de fala, podemos observar a
tradições religiosas sugere o estudo das linguagens esotéricas, das fórmulas e J t y ç x i s t ê n c i a d e u m conjunto de.variedades linguísticas. Essa coexistência, en-
invocações propiciatórias às práticas da relação com o mundo do sagrado. O ^ Iretanto, n ã o se d á no v á c u o , mas no contexto das relações sociais estabelecidas
contexto da o r d e n a ç ã o jurídica, por sua vez, sugere o estqdo das variedades r pela estrutura sociopolítica de cada comunidade. Na realidade objetiva da vida
linguísticas particulares utilizadas pelos tabeliães, advogados, j u í z e s e promo- Miciai, há sempre uma o r d e n a ç ã o valorativa das variedades linguísticas em uso,
tores nos julgamentos. qnc reflete a hierarquia dos grupos sociais. Isto é, em todas as comunidades
existem variedades que s ã o consideradas superiores e outras inferiores. E m ou-
N o campo dos usos religiosos, cabe citar o fascinante trabalho de M i c h e l
i ' l i i i s palavras, como afirma Gnerre, "uma variedade linguística 'vale' o que 'va-
Leiris (1948), La langue secrète des J^ogon de Sanga, q u ê se ocupa da língua
I n i i ' na sociedade os seus falantes, isto é, vale como reflexo do poder e da
iniciática do povo Dogon que habita uma região do atual M a l i (antigo S u d ã o
. H i l o i i i l a d e que eles t ê m nas relações e c o n ó m i c a s e sociais"". Constata-se, de
Francês). Sobre a comunidade brasileira, há u m interessante estudo de Maria

36. Camacho, R. A variação hnguística. In: Subsídios à proposta curricular de língua portuguesa W, ( i i u n c . M. Linguagem, escrita e poder. São Paulo, Martins Fontes, 1985, p. 4, (capítulo 1: l.in-
para o segundo grau. São Paulo, CENP, Secretaria do Estado da Educação, v. IV, 1978, p.l7. yuii|ii'Mi. podí-r e discriminação)
40 INTRODUÇÃO Ã UNGÚiSTICA SOCIOLINGUÍSTICA: parte I 41

modo muito evidente, a existência de variedades de prestígio e de variedades O que é considerado n ã o p a d r ã o pode ser estabelecido corno p a d r ã o . A história
não prestigiadas nas sociedades em geral. Â s sociedades de tradição ocidental da língua portuguesa, como a de tantas outras, oferece-nos i n u m e r á v e i s exem-
oferecem u m caso particular de variedade prestigiada: a variedade padrão. A plos dessa ordem de fatos. Consideremos, a propósito, os seguintes exemplos
variedade p a d r ã o é a variedade lingiiística socialmente mais valorizada, de re- do século X V I :
conhecido prestígio dentro de uma comunidade, cujo uso é, normalmente, reque-__ — as formas "dereito", "despois", "frecha", "frito", "premeiramente", hoje
rido em situações de interação determinadas, definidas pela comunidade como desabonadas, s ã o encontradas no texto da carta de Pero Vaz de Cami-
próprias, em função da formalidade da situação, do assunto tratado, da relação nha, de 1500;
entre os interlocutores etc. A questão da língua p a d r ã o tem uma enorme impor-
— as formas "frauta", "escuitar", "intonce", assim como as construções
tância em sociedades como a nossa. Algumas considerações a seu respeito se
sintáticas do tipo "deseja de comprar" (com a p r e s e n ç a da p r e p o s i ç ã o
impõem.
de) e "se esta gente, cuja valia e obra tanto a m a s t e / n ã o queres que
A^yariedade p a d r ã o de uma comunidade — t a m b é m chamada norma culta, p a d e ç a m v i t u p é r i o " ( c o n c o r d â n c i a do sujeito gente c o m o verbo
ou língua culta — n ã o é, como o senso comum faz crer, a língua por excelência, flexionado no plural) — hoje consideradas incorretas — s ã o encontra-
a j í n g u a original, posta em circulação, da qual os falantes se apropriam como das em Os Lusíadas, de C a m õ e s (1572).
podem ou são capazes. O que chamamos de variedade p a d r ã o é o resultado de
uma atitude social ante a língua, que se traduz, de u m lado, pela seleção de u m Como se vê, representações de p r o n ú n c i a s e construções gramaticais ates-
dos modos de falar entre os vários existentes na comunidade e, de outro, pelo tadas em textos legifimados n ã o são mais consideradas como "bom uso". Como
estabelecimento de u m conjunto de normas que definem o modo "correto" de entender, e n t ã o , que ocorrências equivalentes, t ã o vivas em variedades n ã o pa-
falar. Tradicionalmente, o melhor modo de falar e as regras do b o m uso drões c o n t e m p o r â n e a s , como por exemplo "Framengo", "ele deve de sair, ago-
correspondem aos hábitos lingiiísticos dos grupos socialmente dominantes. E m ra" e "a gente fomos lá", sejam consideradas como "erradas", "fruto de ignorân-
nossas sociedades de tradição ocidental, a variedade p a d r ã o , historicamente, cia"? A fala das cksses altas mudou e a de outros grupos sociais reteve esses
coincide com a variedade falada pelas classes sociais altas, de determinadas usos: esse f o i o "erro".
rçgiões geográficas. Ou melhor, coincide com a variedade lingiiística falada A avaliação social das variedades linguísticas é u m fato observável em
pela nobreza, pela burguesia, pelo habitante de n ú c l e o s urbanos, que sjo^çen- ([ualquer comunidade da fala. Freqiientemente, ouvimos falar em línguas "sim-
tros do poder e c o n ó m i c o e do sistema cultural predominante. ^ pies", "inferiores", "primitivas". Para a Lingiiístíca, esse tipo de afirmação ca-
PisTmíãii (1970) define a p a d r o n i z a ç ã o , isto é, o estabelecimento da varie- rece de qualquer fundamento científico. Tpda língua é adequada à comunidade
dade p a d r ã o , como u m tratamento social característico da língua, que se verifi- que a utiHza, é u m sistema completo que permite a u m povo exprimir o mundo
ca quando há diversidade social suficiente e necessidade de e l a b o r a ç ã o s i m b ó - 'j físico e s i m b ó l i c o em que vive. É absolutamente i m p r ó p r i o dizer que há línguas
lica. E n i outras 'palavras, a definição de uma variedade p a d r ã o representa o ideal pobres em v o c a b u l á r i o . N ã o existem t a m b é m sistemas gramaticais imperfeitos.
da homogeneidade em meio à realidade concreta da variação linguística — algo ' Seria u m contra-senso imaginar seres humanos com uma "meia língua". A falta
que, por estar acima do corpo social, representa o conjunto de suas diversidades de léxico específico para descrever, por exemplo, a astronomia na língua de u m
e contradições. A variedade alçada à c o n d i ç ã o de p a d r ã o n ã o d e t é m proprieda- '"^ povo corresponde ao desinteresse por este assunto: a sociedade n ã o tem neces-
des intrínsecas que garantem uma qualidade "naturalmente" superior às demais sidade de dominar este dado do real. Caso a sociedade necessite, basta fazer
variedades. Na verdade, a, p a d r o n i z a ç ã o é sempre historicamente definida. Isto e m p r é s t i m o s lingiiísticos: o contato cultural com outros povos, o conhecimento
é, cada é p o c a determina o que considera como forma padrão: determinadas pro- de novos c o n t e ú d o s ou a descoberta de realidades até então desconhecidas s ã o o
núncias, cõhstruçÔes gramadcais e expressões lexicais. Segue-se, então, que molor da elaboração de novos conceitos e da produção de novas palavras. Quanto
certas formas podem ser consideradas como pertencentes à variedade p a d r ã o ao aspecto gramatical, o estudo das mais distintas línguas tem revelado que ele
em uma época e deixar de sê-lo em outra. As línguas mudam incessantemente, e se apresenta sempre como u m sistema organizado e coerente de regras. As lín-
a definição do "certo", do " a g r a d á v e l " e do "adequado" t a m b é m . N a prática, guas diferem entre si em numerosos aspectos, e essas diferenças correspondem
podemos concordar com Fishman, o que é p a d r ã o pode tomar-se n ã o p a d r ã o , e ao palrimônio expressivo da humanidade.
42 SOCIOLINGUÍSTICA: parte I 43
INTRODUÇÃO Ã LINGUÍSTICA

Assim como n ã o existem línguas "inferiores", n ã o existem variedades l i n - língua é u m dos componentes do sistema cultural. A existência de uma varieda-
giiísticas "inferiores". Como vimos, as línguas n ã o são h o m o g é n e a s e a varia- de p a d r ã o , que desloca todas as outras variedades linguísticas e cria um contex-
ç ã o observável em todas elas é produto de sua história e do seu presente. E m to de relações assimétricas entre falantes de uma comunidade, é u m exemplo
que se baseiam, então, as avaliações sociais? Podemos afirmar, com toda tran- objetivo dessa q u e s t ã o . Cabe aos usuários das variedades n ã o - p a d r õ e s adotar a
qtiilidade, que os julgamentos sociais ante a língua — ou melhor as atitudes variedade socialmente aceitável — pelo menos, em certas circunstâncias, como
sociais — se baseiam em critérios n ã o lingiiísticos: são julgamentos de natureza em situação de fala pública ou durante uma entrevista em uma agência de em-
política e social. N ã o é casual, portanto, que se julgue "feia" a variedade dos prego. Por que aprender um outro modo de falar? Onde adquirir este outro modo
falantes d é origem rural, de classe social baixa, com pouca escolaridade, de de falar? A m o t i v a ç ã o para falar u m outro modo de falar é sempre social, e isso
regiões culturalmente desvalorizadas. Por que se considera " d e s a g r a d á v e l " o r pode ser produzido pela escola, ou pela experiência social. De qualquer manei-
retroflexo, o chamado r caipira, presente em realizações como ['p3.{tB] "por- ra, a decisão de falar de u m modo distinto daquele que aprendemos n ã o se con-
ta"? A f i n a l , a mesma articulação retroflexa ocorre em palavras do inglês como cretiza facilmente: h á sempre u m longo caminho a percorrer, tanto mais longo
[ka^j "car" (carro), que n i n g u é m sente como "feia". E m resumo: julgamos n ã o ijiianto mais distante se encontra o falante dos p a d r õ e s linguísticos e culturais
$ a fala, mas o falante, e o fazemos em função de sua inserção na estrutura social, legitimados.
í Para a Sociolingiiística, .a natureza variável da língua é u m pressuposto
^ fundamental, que orienta e sustenta a observação, a descrição e a interpretação
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
do comportamento lingiiístico. As diferenças lingiiísticas, observáveis nas co-
munidades em geral, são vistas cótiió u m dado inerente ao f e n ó m e n o lingiiístico. Marcada por uma heterogeneidade original, a Sociolinguística dos anos
A n ã o aceitação da diferença é responsável por numerosos e nefastos precon- I ')60 pode ser vista como o ponto de partida de novas correntes e orientações de
ceitos sociais e, neste aspecto, o preconceito lingiiístico tem u m efeito particular- pesquisas, centradas no trato do f e n ó m e n o linguístico relacionado ao contexto
mente negativo. A sociedade reage de maneira particularmente consensual quan- f.ocial e cultural, que se distinguem, de forma mais evidente, pela vinculação
'-' • do se trata de questões lingiiísticas: ficamos unanimemente chocados diante da cKplícita a algum campo das ciências humanas. De uma perspectiva bem geral,
palavra inadequada, da concordância verbal n ã o realizada, do estilo i m p r ó p r i o à ptulemos apontar a Antropologia e a Sociologia como áreas relevantes. Dentre
^ situação de fala. A intolerância linguística é u m dos comportamentos sociais eslas correntes, destacaremos apenas algumas:
£ mais facilmente observáveis, seja na mídia, nas relações sociais cotidianas, nos
— a Sociologia da Linguagem, representada por J. Fishman;
/ e s p a ç o s institucionais etc. A rejeição a certas variedades lingiiísticas, concreti-
zada na desqualificação de p r o n ú n c i a s , de construções gramaticais e de usos — a Sociolinguística Interacional, ligada ao nome de J. Gumperz;
vocabulares, é compartilhada sem maiores conflitos pelos n ã o especialistas em — a_ Dialectologia Social, associada ao trabalho de estudiosos como R.,
linguagem. O senso comum opera com a ideia de que existe uma língua — o Shuy e P. Trudgil;
bem s o c i a l à disposição de todos — que é adquirida distintamente, em função — a Etnografia da C o m u n i c a ç ã o , inseparável do nome de D . Hymes, refe-
de c o n d i ç õ e s diversas, pelos falantes. Na realidade, existe sempre u m conjunto rida anteriormente. Caberia, t a m b é m , uma referência, nesta vertente.,
de variedades linguísticas em circulação no meio social. Aprende-se a varieda- aos trabalhos de R. Bauman e J. Sherzer, voltados, particularmente,
de a que se é exposto, e n ã o há nada de errado com essas variedades. Os grupos para a q u e s t ã o da arte verbal e da poética dos géneros de fala.
sociais d ã o continuidade à herança linguística recebida. Nesse sentido, é preci-
^ so ter claro que os grupos situados embaixo na escala social n ã o adquirem a Algumas antologias, bastante citadas, oferecem uma visão da p r o d u ç ã o no
língua de modo imperfeito, n ã o deturpam a língua "comum". A homogeneidade 1 .iiiipo da Sociolinguística e permitem observar a diversidade de temas estuda-
lingiiística é um mito, que pode ter c o n s e q u ê n c i a s graves na vida social. Pensar ilii;. e lie abordagens praticadas, como, por exemplo: Pride, J. B . & Holms, J.
, que a diferença linguística é u m mal a ser erradicado justifica a prática da exclu- ( I")/.'') (orgs.), Sociolinguistics; G i g l i o l i , P. P. (1974) (org.), Language and so-
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•• dos grupos delenlores do poder (ou a eles ligados) aos outros grupos — e a cinií.is referências merecem ser feitas: a colelànea de trabalhos repiesenlativos
44 INTRODUÇÃO À LINGUÍSTICA SOCIOLINGUÍSTICA: parte I 45

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