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Digitalização Edição Geral

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S oa res da Silva (p e m a o @ u o l.co m .b r) e o s d o s lo c a is d e Israel e E g ito d e D a n iele S o a res da
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R e v is ã o : D a n iele S oa res da Silva

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C aixa P ostal 331
20001-970, Rio d e Janeiro, RJ, Brasil

I a Edição/2010
"Torre de Davi" ou "Cidadela de Davi" é a
fortaleza construída por Herodes, o Grande,
no lado ocidental de Jerusalém. Ela fo i
reservada por Tito para servir de quartel da
10a Legião Romana. A Cidadelafo i restaurada
pelos cruzados no século XII, mas a maior
parte de sua estrutura atual é de 1540, da
época do sultão Suleiman II, o Magnífico.
c 4, i c a { á r i a

À minha esposa, Rute, pela


singular compreensão e ao meu
casal de filhos, Daniele e Filipe,
pelo constante incentivo e apoio.
ANTIGO TESTAMENTO NOVO TESTAMENTO

Gn Gênesis Mt Mateus
ÊX Êxodo MC Marcos
Lv Levítico Lc Lucas
Nm Números Jo João
Dt Deuteronômio At Atos
Js Josué Rm Romanos
Jz Juizes 1 Co 1 Coríntios
Rt Rute 2 Co 2 Coríntios
1 Sm 1 Samuel G1 Gálatas
2 Sm 2 Samuel Ef Efésios
1 Rs 1 Reis FP Filipenses
2 Rs 2 Reis Cl Colossenses
1 Cr 1 Crônicas 1 Ts 1 Tessalonicenses
2 Cr 2 Crônicas 2 Ts 2 Tessalonicenses
Ed Esdras 1 Tm 1 Timóteo
Ne Neemias 2 Tm 2 Timóteo
Et Ester Tt Tito
Jó Jó Fm Filemon
SI Salmos Hb Hebreus
Pv Provérbios Tg Tiago
Ec Eclesiastes 1 Pe 1 Pedro
Ct Cantares 2 Pe 2 Pedro
Is Isaías 1 Jo 1João
Jr Jeremias 2 Jo 2 João
Lm Lamentações c 3 Jo 3 João
Ez Ezequiel Jd Judas
Dn Daniel Ap Apocalipse
Os Oseias
J1 Joel
Am Amós
Ob Obadias
Jn Jonas
Mq Miqueias
Na Naum
Hc Habacuque As referências bíblicas citadas nesta
Sf Sofonias obra são da Versão de João Ferreira
Ag Ageu de Almeida Revista e Corrigida,
zc Zacarias edição de 1995 da Sociedade Bíblica
MI Malaquias do Brasil, salvo outras indicações.
j u tn é r i

INTRODUÇÃO .................................................................................... 11

CAPÍTU LO 1
O Ministério Profético no Antigo T esta m en to .................................... 15

CAPÍTU LO 2
A Natureza da Atividade P rofética ........................................................33

CAPÍTULO 3
As Funções Sociais e Políticas da P ro fe cia ...........................................49

CAPÍTULO 4
Profecia e M isticism o............................................................................ 67

CAPÍTULO 5
A Autenticidade da P ro fe c ia .................................................................. 81

CAPÍTU LO 6
Profetas Maiores e M en o res.............................................................. 105

CAPÍTU LO 7
Os Falsos Profetas no Antigo Testam en to........................................ 127

CAPÍTU LO 8
João Batista - O Último Profeta Veterotestamentário ...................... 1 4 1

CAPÍTULO 9
Jesus Cristo - O Cumprimento Profético do Antigo Testamento...... 163

CAPÍTU LO 10
O Ministério Profético no Novo T es ta m en to ................................... 201

C O N C L U S Ã O .................................................................................... 219

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 223


i t t t r ó - d s U .ç ã &

A presente obra O Ministério Profético na Bíblia - A Voz de Deus


na Terra é uma coleção de dez estudos bíblicos sobre oráculos divi­
nos: pelos profetas do Antigo Testamento, pelo Senhor Jesus Cristo
e seus apóstolos no N ovo Testamento. O objetivo é mostrar que um
Deus sábio e perfeito conduziu a revelação bíblica, que esse mesmo
Ser dirige o destino humano, por isso nada acontece de maneira
aleatória, pois ele tem o controle do universo. É uma resposta ao
sistema pós-moderno, a todos os que procuram excluir Deus de suas
vidas e negar a origem divina das Escrituras Sagradas.
O pós-modemismo é um movimento marcado pela decepção com
as duas grandes guerras mundiais, campos de extermínios, explosões
nucleares e tantas outras mazelas que levaram o homem à increduli­
dade. Segundo Hobsbawm: "todos os pós-modemismos tinham em
comum um ceticismo essencial sobre a existência de uma realidade
objetiva, e/ou a possibilidade de chegar a uma compreensão aceita
dessa realidade por meios racionais. Todos tendiam a um radical rela-
tivismo". É a era dos "ismos" com o prefixo "pós": pós-liberalismo,
pós-socialismo, pós-capitalismo, e por que não pós-cristianismo?
Trata-se da sociedade do bem-estar do mundo ocidental em que pre­
domina o prazer, tudo aquilo que proporciona satisfação, deleite ou
diversão, nisso inclui o consumo. Qualquer esforço ou mínimo de sa­
crifício é tratado com profundo desgosto. É esse o mundo pós-moder­
no que estamos enfrentando. O principal aspecto negativo dessa
época é a perda da fé na ciência, nos progressos e em Deus; é a morte
dos principais ideais com os quais se constrói uma sociedade.
12 I 0 Ministério Profético na Bíblia

Don McCurry serviu com o missionário durante vinte anos num


país muçulmano do Oriente Médio e em sua obra Esperança para os
Muçulmanos afirma que só entre 90 e 150 anos depois da ascenção
do islamismo é que seus teólogos descobriram sérios conflitos entre
o Alcorão e a Bíblia. Alguns dos vários conceitos errôneos são: a
Trindade é composta de três Deuses: Alá, Jesus e Maria; Jesus não é
Deus e nem o Filho de Deus, também não foi crucificado e não mor­
reu; Maria, mãe de Jesus, é a mesma Miriã, irmã de Moisés. Consi­
derando que a Bíblia contradiz o Alcorão e vice-versa, não podem
ambos se originar da mesma fonte. Em outras palavras, os dois não
podem ser simultaneamente a Palavra de Deus. O que fazer diante
de tudo isso? Admitir que Maomé errou? Nem pensar! Do contrário
o que fazer com as placas do céu (segundo os muçulmanos é a ma­
triz do Alcorão) que Gabriel teria revelado ao fundador da religião?
Foi mais fácil dizer que a Bíblia foi modificada e falsificada. Por isso
que todo o mundo islâmico acredita hoje nessa falsa ideia.1
Os mórmons afirmam acreditar na Bíblia, mas com certas restri­
ções. O artigo 8 de suas Regras de Fé declara: "Cremos ser a Bíblia
a palavra de Deus, o quanto seja correta sua tradução; cremos tam­
bém ser o Livro de Mórmon a palavra de Deus''. O livro Regras de
Fé, de James E. Talmage, proeminente líder mórmon, explica suas
confissões de Fé, afirmando: "Não há e não pode haver uma tradução
absolutamente fidedigna desta e de outras Escrituras" (página 221).
Mais adiante, na mesma página, recomenda-se que os mórmons
leiam a Bíblia distinguindo "entre a verdade e os erros dos homens".
Essa parece ser a restrição, “quanto seja correta a sua tradução",
sendo nada mais que uma maneira sutil de dizer que não crêem na
Bíblia. Chama, ainda, de néscios os que procuram a Bíblia: "Tu, tolo,
dirás: Uma Bíblia; temos uma Bíblia e não necessitamos mais de

1 Esse assunto é discutido no capitulo 8 de Manual deApologética Cristã e no capítulo 2 de Heresias


e Modismos, ambos da autoria de Esequias Soares.
In tro d u ç ã o I 13

Bíblia! Teríeis obtido uma Bíblia, se não fosse pelas mãos dos ju­
deus?" (Livro de Mórmon - 2 Nefi 29.6).
Os pós-modernistas fariam de tudo para se livrar da ira de Deus
sem Jesus. Estão estampados nos outdoors em muitos ônibus circu-
lares de Madri e de outras cidades espanholas, com o Barcelona a
seguinte mensagem: "Provavelmente Deus não existe, não se pre­
ocupe e aproveite a vida". Essa ideia veio de Londres. Porém, um
grupo de cristãos revidou essa afronta nos mesmos termos: "Deus
existe, sim; aproveite a vida com Cristo".
Os muçulmanos e os mórmons dariam tudo por uma com prova­
ção científica que viesse desacreditar a Bíblia. Muitos estudos aca­
dêmicos já foram publicados confirmando a autenticidade do texto
bíblico. A descoberta de Uiaid Qumran, conhecidos com o os ma­
nuscritos do Mar Morto, é em si mesma uma resposta a esses grupos.
O que se apresenta em Profecia - A Voz de Deus na Terra é uma des­
crição de fatos que por si só reduzem a cinzas o pensamento polí­
tico, filosófico e religioso contrário à fé cristã.
Nesta obra, o primeiro capítulo explica a origem e o significado do
ministério dos profetas hebreus em Israel, o segundo trata do modus
operandi da transmissão dos oráculos divinos a eles e o terceiro é uma
14 Io Ministério Profético na Bíblia

amostra de como esses mensageiros em sua geração combatiam a


injustiça social imbuídos do mesmo ímpeto com que atacavam a
idolatria, além de demonstar com o Deus se interessa pelo bem-estar
social dos seres humanos. O quarto e o sétimo enfocam temas pare­
cidos, pois os místicos são uma concorrência aos verdadeiros profe­
tas e, também, uma imitação falsificada da obra de Deus, sendo os
falsos profetas os opositores aos servos do Deus vivo.
Os capítulos cinco e nove comprovam na Bíblia e na História,
principalmente nos dias atuais, que realmente as Escrituras são ins­
piradas por Deus. O Estado de Israel é a principal amostragem nos
tempos modernos da veracidade da Bíblia e da autenticidade das
profecias bíblicas e do pensamento messiânico incrustado no Antigo
Testamento, desde o livro de Gênesis, nas profecias, nos símbolos,
tipos e figuras, nas solenidades e instituições de Israel, mostrando ser
Jesus Cristo a conclusão das Escrituras veterotestamentárias. O oita­
vo trata da vida e do ministério de João Batista e sobre a sua impor­
tância no cristianismo; o capítulo dez trata do ministério profético no
Novo Testamento, a começar pelo Senhor Jesus Cristo, a maior auto­
ridade no céu e na terra, o significado dos apóstolos e sua autoridade
profética; inclui-se também um análise sobre o dom de profecia e
sobre o dom ministerial de profeta.
Resumindo, esses estudos mostram que ninguém no universo
tem mais interesse no bem-estar dos seres humanos do que o pró­
prio Criador, além de comprovar a falácia do pensamento deísta,
que afirma estar Deus muito longe do homem e da mulher e que Ele
não se envolve com os seus assuntos. Essa filosofia era pregada
pelos filósofos epicureus, mas o apóstolo Paulo deu a eles a respos­
ta divina: Deus "não está longe de cada um de nós” (At 17.27), está,
sim, interessado no ser humano: ''Ora, sem fé é impossível agradar-
lhe, porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia
que ele existe e que é galardoador dos que o buscam" (Hb 11.6).
o minúécruh
PROFÉTICO NO
ANTIGO TESTAMENTO
16 I o Ministério Profético na Bíblia

A filosofia, a ciência e a religião estão comprometidas na busca


da verdade universal. A filosofia busca a verdade sobre o ser; a ci­
ência, sobre os fenômenos; a religião, sobre Deus e os significados
últimos. Cada uma dessas áreas emprega métodos e ferramentas
adequados e específicos. A religião foi submetida a estudos criterio­
sos, metódicos e objetivos.
A religiosidade humana é um fenômeno universal, está presente
na política, na imprensa, nos meios de comunicação, na indústria,
no comércio, no esporte, na arte, na literatura e até na educação.
Aparece em políticos, cientistas, empresários, financistas, artistas,
atores, em toda a parte da terra. Agostinho de Hipona, logo na aber­
tura de suas Confissões, declarou: ”Ó Deus! tu nos fizeste para ti
mesmo, e a nossa alma não achará repouso, até que volte a ti” (Livro
1.1). Isso pode revelar o anseio e a busca do homem pelo Sagrado.
O salmista expressou esse mesmo sentimento: "Como o cervo bra-
ma pelas correntes das águas, assim suspira a minha alma por ti, ó
Deus! A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo: quando en­
trarei e me apresentarei ante a face de Deus?” (Salmo 42.1,2).
O ser humano é religioso por natureza. O homem tem anseio
pelas coisas de Deus e sente o desejo de buscá-lo. Há tribos que nem
sequer usam roupas, nem sabem edificar uma casa; há outras, ain-

Julgamento após a morte segundo a crença egípcia antiga.


O M in is té r io P ro fé tic o n o A n tig o T estam e n to I 17

Mesquita de Alabastro na Cidade de Saladino - Cairo.

da, que não têm conhecimento suficiente para acender fogo; entre­
tanto, nenhuma há que não tenha suas crenças num Ser Supremo.
A religião dos egípcios, dos caldeus, dos assírios e dos demais povos
vizinhos de Israel na antiguidade estava bem organizada quando
nasceu a nação escolhida. Essas religiões possuíam cada um o seu
sistema sacerdotal e profético, porém, nada que possa ser com pa­
rado com justiça ao modelo do Antigo Testamento.
O sistema profético de Israel é singular porque teve a sua origem
em Deus e a sua mensagem atravessou os séculos e continua ins­
truindo as nações. Os profetas do Antigo Testamento são reconheci­
dos ainda hoje por judeus e cristãos. Até mesmo os muçulmanos,
apesar de procurarem negar a autenticidade do texto bíblico, reco­
nhecem esses profetas. O próprio Senhor Jesus Cristo e seus apósto­
los reconheciam a autoridade deles (Mt 5.17, 18; 2 Tm 3.16).
18 I o Ministério Profético na Bíblia

HISTÓRICO

O desenvolvimento histórico do profetismo no Antigo Testamento


pode ser dividido em dois períodos principais, que Hobart E. Freeman,
em sua obra An Introductíon to the Old Testament, chama de Era Pré-
canônica e Era Canônica (páginas 26, 27). A classificação usual é de
"profetas não-escritores" e "profetas escritores", ou "não-Iiterários" e
"literários", mas isso deixa de fora outros profetas, como Moisés, ele é
escritor também, não foi ele afinal quem escreveu o Pentateuco? O que
dizer dos livros de Josué, Juizes, os dois de Samuel e os dois dos Reis
que são considerados proféticos no Canon Judaico?1O primeiro perí­
odo começa no jardim do Éden (Gn 3.15) até o século 9 a.C., com o
livro do profeta Obadias, por volta de 825 a.C., com as seguintes sub­
divisões: pré-mosaico, mosaico, período de Samuel, do reino unido e
do reino dividido. O período Canônico será estudado no capítulo 6.
Zacarias, pai de João Batista, no seu pronunciamento profético por
ocasião do nascimento de seu filho disse que Deus: "falou pela boca
dos seus santos profetas, desde o princípio do mundo" (Lc 1.70). Jesus
afirmou que os profetas existem desde o princípio do mundo: "para
que desta geração seja requerido o sangue de todos os profetas que,
desde a fundação do mundo, foi derramado; desde o sangue de Abel
até ao sangue de Zacarias, que foi morto entre o altar e o templo;
assim, vos digo, será requerido desta geração" (Lc 11.50,51). A Bíblia
mostra que nesse período pré-mosaico Enoque profetizou: "e destes

1 A palavra grega koívgw (kanõn) "cânon" é de origem semita, originalm ente significava "vara de
medir". Na literatura clássica significa “regra, norma, padrão". A parece no N o vo Testam ento,
com o "regra", uma vez: "E, a todos quantos andarem conform e esta regra, paz e m isericórdia
sobre eles e sobre o Israel de Deus" (G16.16) e com o sentido de regra moral, três ve ze s (2 Co
10.13,14,16), traduzido por "medida". Nos três prim eiros séculos do Cristianismo, referia-se ao
conteúdo norm ativo doutrinário e ético da fé cristã. A partir do quarto século da Era Cristã os
Pais da Igreja aplicaram os term os "cânon" e "canônico" aos livros sagrados, para reconhecer
sua autoridade co m o inspirados, e, portanto, separados de outras literaturas. Hoje, "Cânon1' é
a coleçã o de escritos reconhecidos com o os únicos possuídos de autoridade norm ativa para a
conduta e a fé cristã. Essas Escrituras são a nossa medida.
O M in is té r io P ro fé tic o n o A n tig o T estam e n to I 19

profetizou também Enoque, o sétimo depois de Adão" (Jd 14) e da


mesma forma Noé: "pela fé, Noé, divinamente avisado das coisas que
ainda não se viam, temeu, e, para salvação da sua família, preparou
a arca" (Hb 11.7). As Escruturas Sagradas consideram os patriarcas
Abraão, Isaque e Jacó com o profetas (Gn 20.7; SI 105.9-15).
O período mosaico inclui também o dos juizes. O ministério dos
profetas com eçou no deserto de Sinai quando Deus ordenou a
Moisés que constituísse uma congregação de 70 anciãos para que
o ajudasse na liderança do povo. Esses homens profetizaram quan­
do receberam o Espírito Santo e o grande legislador dos hebreus
explicou que qualquer pessoa poderia profetizar: "tomara que todo
o povo do SENHOR fosse profeta, que o SENHOR lhes desse o seu
Espírito!" (Nm 11.29). Moisés disse que a manifestação divina de­
pois dele seria diferente daquela vista no Sinai:

Habitação de beduinos no monte Sinai - Egito.


20 I 0 Ministério Profético na Bíblia

Cadeia
montanhosa
do deserto de
Sinai - Egito.
0 M in is té r io P ro fé tic o n o A n tig o T estam e n to I 21

15 O SENHOR, teu Deus, te despertará um profeta do meio


de ti, de teus irmãos, com o eu; a ele ouvireis; 16 conforme
tudo o que pediste ao SENHOR, teu Deus, em Horebe, no dia
da congregação, dizendo: Não ouvirei mais a v o z do SENHOR,
meu Deus, nem mais verei este grande fogo, para que não
morra. 17 Então, o SENHOR me disse: Bem falaram naquilo
que disseram. 18 Eis que lhes suscitarei um profeta do meio
de seus irmãos, com o tu, e porei as minhas palavras na sua
boca, e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar. 19 E será
que qualquer que não ouvir as minhas palavras, que ele falar
em meu nome, eu o requererei dele. 20 Porém o profeta que
presumir soberbamente de falar alguma palavra em meu nome,
que eu lhe não tenho mandado falar, ou o que falar em nome
de outros deuses, o tal profeta morrerá. 21 E se disseres no teu
coração: Como conhecerem os a palavra que o SENHOR não
falou? 22 Quando o tal profeta falar em nome do SENHOR, e
tal palavra se não cumprir, nem suceder assim, esta é palavra
que o SENHOR não falou; com soberba a falou o tal profeta;
não tenhas temor dele (Dt 18.15-22).
22 I 0 Ministério Profético na Bíblia

É com preensível o estabelecim ento de tal instituição visto que


a Palavra de Deus condena as práticas divinatórias dos cananeus,
das quais os israelitas deviam se afastar (Dt 18.9-14), assim, Deus
prometeu suscitar um canal legítimo e verdadeiro de comunicação
com o seu povo, a corporação dos profetas. Israel não precisava
das práticas ocultistas enganosas, nem de médiuns e nem de qual­
quer forma de adivinhação. Os profetas seriam os embaixadores e
porta-vozes de Deus para revelar a sua vontade. É verdade que as
palavras: “Eis que lhes suscitarei um profeta do meio de seus irmãos,
com o tu, e porei as minhas palavras na sua boca, e ele lhes falará
tudo o que eu lhe ordenar” (Dt 18.18) são uma profecia messiânica
que se cumpriu na história dos hebreus e ao m esm o tempo em
Jesus (At 3.22, 23).
Deus levantou, preparou e inspirou profetas para ensinar e ad­
moestar os hebreus sobre o perigo da idolatria. Eram instrutores
ungidos e divinamente escolhidos para ensinar a nação a viver na
presença de Javé (Os 12.10). Eles tinham também a responsabili­
dade de tornar conhecida sua revelação e anunciar as coisas futu­
ras (Dt 18.21,2 2).
Não somente Moisés mas também Arão é chamado de profeta
(ê x 7.1; Dt 18.18). Ainda no período mosaico, Miriã é chamada de
profetisa: "então, Miriã, a profetisa, irmã de Arão" (ê x 15.20); também
Débora é assim chamada: "e Débora, mulher profetisa, mulher de
Lapidote, julgava a Israel naquele tempo" (Iz 4.4). Há no livro de
Juizes a menção de um profeta anônimo (6.8).
O primeiro grupo de profetas no Antigo Testamento aparece no
período de Samuel, mas alguns os consideram mais com o precur­
sores da instituição profética em Israel:

5 Então, virás ao outeiro de Deus, onde está a guarnição dos


filisteus; e há de ser que, entrando ali na cidade, encontrarás
um rancho de profetas que descem do alto e trazem diante de
0 M in is té r io P ro fé tic o n o A n tig o T esta m e n to I 23

si saltérios, e tambores, e flautas, e harpas; e profetizarão. 6 E


o Espírito do SENHOR se apoderará de ti, e profetizarás com
eles e te mudarás em outro homem. 7 E há de ser que, quando
estes sinais te vierem, faze o que achar a tua mão, porque Deus
é contigo. 8 TU, porém, descerás diante de mim a Gilgal, e eis
que eu descerei a ti, para sacrificar holocaustos e para oferecer
ofertas pacíficas; ali, sete dias esperarás, até que eu venha a ti e
te declare o que hás de fazer. 9 Sucedeu, pois, que, virando ele
as costas para partir de Samuel, Deus lhe mudou o coração em
outro; e todos aqueles sinais aconteceram aquele mesmo dia.
10 E, chegando eles ao outeiro, eis que um rancho de profetas
lhes saiu ao encontro; e o Espírito de Deus se apoderou dele,
e profetizou no m eio deles. 11 E aconteceu que, com o todos
os que dantes o conheciam viram que eis que com os profetas
profetizava, então disse o povo, cada qual ao seu companheiro:
Que é o que sucedeu ao filho de Quis? Está também Saul entre
os profetas? 12 Então, um homem dali respondeu e disse: Pois
quem é o pai deles? Pelo que se tornou em provérbio: Está
também Saul entre os profetas? 13 E, acabando de profetizar,
veio ao alto (1 Sm 10.5-13).

Nos últimos dias da judicatura de Eli, Israel passava por uma


crise espiritual, pois "a palavra do SENHOR era de muita valia na­
queles dias; não havia visão manifesta" (1 Sm 3.1). Foi nesse con­
texto que Deus levantou o profeta Samuel que muito cedo obteve o
reconhecimento nacional: "E todo o Israel, desde Dã até Berseba,
conheceu que Samuel estava confirmado por profeta do SENHOR"
(1 Sm 3.20). Ele iniciou essa tarefa ainda muito jovem e desenvolveu
o ministério profético de maneira rudimentar, pelo que se pode
constatar no capítulo 9 do primeiro livro que leva o seu nome. Pou­
co se sabe sobre esse "rancho de profetas” , o assunto será retoma­
do no capítulo seguinte. O que aconteceu com Saul foi algo extra­
ordinário e específico, pois Samuel disse de antemão que tudo isso
24 0 Ministério Profético na Bíblia

ia ocorrer. O Espírito Santo se apoderou de Saul e este profetizou


ao se juntar ao grupo, mas isso não significava que aconteceria com
qualquer um que se juntasse a eles.
Samuel era um líder nacional que exercia os ofícios de sacerdo­
te e profeta. Ele aparece diversas vezes nos relatos do primeiro livro
de Samuel, oferecendo sacrifícios pelo povo na consagração dos
reis Saul e Davi e pelo exército de Israel (1 Sm 7.9; 9.12, 13; 10.8;
13.8, 9; 16.3, 13). É reconhecido naquela geração com o homem
honrado "e tudo quanto diz sucede assim infalivelmente" (1 Sm 9.6);
"e o SENHOR era com ele, e nenhuma de todas as suas palavras
deixou cair em terra'' {1 Sm 3.19). É todo-importante que o homem
de Deus tenha tal conceito diante do povo da cidade. É dever de todo
cristão se comportar com decência e honestidade, pois o mundo
observa a nossa vida, mas quem ocupa cargo de relevância precisa
ter uma vida ilibada, deve ser um referencial para o povo, note que
a boa fama de Samuel era conhecida por todos.
O pagamento por consulta pessoal era comum no limiar do mi­
nistério profético em Israel. Uma nota do próprio escritor sagrado
(1 Sm 9.9) mostra ser uma prática antiga. Saul achava que não seria
atendido sem levar presente ao homem de Deus, mas tudo indica
ser uma prática aceitável (1 Sm 9.8). Esse não é um único caso no
Antigo Testamento de alguém ofertar algo para o profeta numa
consulta pessoal. Naamã levou presente para Eliseu (2 Rs 5.15);
Ben-Hadade mandou levar presente ao mesmo profeta (2 Rs 8.8).
Nessa época os profetas eram chamados videntes (1 Sm 9.9).
Quando Davi fugiu de Saul e procurou Samuel, em sua residência,
Ramá (1 Sm 7.17), ambos: "ficaram em Naiote" (1 Sm 19.18). Esse
relato mostra um pouco da vida nessa região com o a existência de
uma congregação de profetas: "os quais viram uma congregação de
profetas profetizando, onde estava Samuel, que presidia sobre eles"
(1 Sm 19.20). Segundo a tradição judaica recente, trata-se de uma
O M in is té r io P ro fé tic o n o A n tig o T estam e n to I 25

escola de profetas na qual o seu líder ensinava. Muitos expositores


bíblicos afirmam ser o próprio dirigente dela o seu fundador ou o
grande incentivador do ensino teológico {1 Sm 10.10).
Quando o profeta Am ós diz ao seu opositor Amazias: "Eu não
era profeta, nem filho de profeta, mas boieiro e cultivador de sicô-
moros" (Am 7.14), estava simplesmente expressando que não veio
de uma escola de profeta, pois o termo "filho" indica escola, proce­
dência, "discípulo, aprendiz" (2 Rs 2.12; Pv 3.1), ele não era "sócio
do grêmio dos profetas", com o bem observa o Comentário Bíblico
Beacon. Ele afirma que era camponês e não tinha freqüentado a
escola que preparava os jovens para instruir a nação, portanto, sua
autoridade veio de Deus e não de uma instituição. Esses "filhos" dos
profetas são os seus discípulos (1 Rs 20.35; 2 Rs 2.3, 5, 15). Eliseu
era o mestre de uma corporação de profetas (2 Rs 6.1-3).
Há uma linha de interpretação que nega a existência do ministé­
rio profético em Israel nos tempos do Antigo Testamento, afirman­
do que cada profeta exercia sua atividade de maneira individual e
independente. Segundo esse pensamento, não houve também a
escola de profetas, pois uma coisa liga à outra. Os defensores dessa
posição procuram desconstruir a tradição, aproveitando-se de bre­
chas exegéticas em algumas versões da Bíblia. Um dos argumentos
para fundamentar tal ideia é um problema de ordem exegética, pois
algumas versões traduzem o nome "Naiote", do hebraico nV3 (nãyôth)
"Naoite", "habitação, moradia", por "casa dos profetas", com o na
Versão Almeida Atualizada (1 Sm 19.18-20.1). O mesmo ocorre no
relato da consulta a profetisa Hulda, em Jerusalém (2 Rs 22.14; 2 Cr
34.22), em que o termo hebraico rtKtítt (mishneh), que significa "se­
gundo, cópia, exemplar", também nome de um bairro de Jerusalém,
traduzido por "segunda parte", na versão Almeida Corrigida, por
"Cidade Baixa", na Almeida Atualizada e por "escola" na King James
Version (Versão do Rei Tiago), pela palavra inglesa college, "escola".
26 I 0 Ministério Profético na Bíblia

Introduzir uma escola nessa passagem, em Jerusalém, é exagero,


mas não há por que rejeitar a sua existência em Ramá, pois a ques­
tão sobre o termo "Naiote" é apenas um detalhe.
Os que acreditam não haver o ministério dos profetas no perí­
odo do Antigo Testamento afirmam que os filhos dos profetas do
relato de 2 Reis são homens supersticiosos e sem com preensão
ministerial e que Elias não teria dado importância a eles. É sensa­
to admitir que alguns deles sejam supersticiosos, pois nem todos
os que se juntam ao grupo têm de fato vocação para o ministério,
com o acontece ainda hoje, pois nem todos que ingressam num
seminário teológico possuem de fato chamada divina. Saul foi
orientado por Samuel a se juntar a uma companhia de profetas,
chegou até a profetizar (1 Sm 10.5-10). A falta de experiência não
é de surpreender, afinal, não são aprendizes? Moisés também ale­
gou não estar preparado para a missão que Deus lhe designara (Êx
4.10-16); da mesma forma, Jeremias afirmou ser inexperiente para
a tarefa que lhe fora confiada (Jr 1.6). O profeta Eliseu parece ter
sido um instrutor (2 Rs 6.1 -7). Nada disso oferece dados consisten­
tes para fundamentar a teoria de que não teria havido escola de
preparação profética ou mesmo o ministério profético em Israel no
período veterotestamentário.
A estrutura profética de Samuel perdurou até o profeta Malaquias
no século V a.C. Durante o período do reino unido, Saul, Davi e
Salomão, os profetas Natã, Gade, Hemã e Jedutum foram conse­
lheiros do rei Davi (2 Sm 7.2-5; 12.1, 7, 13; 24.11; 1 Cr 25.5; 2 Cr
35.15), sendo que Natã também serviu com o profeta na corte de
Salomão (1 Rs 1.45). Antes m esm o da morte de Salomão, o profe­
ta Aías anunciou a Jeroboão I, filho de Nebate, a divisão do reino
de Israel em dois, o do norte e o do sul (1 Rs 11.29-32). Depois
desse cisma, Deus enviou o profeta Semaías ao rei Roboão para
impedir uma guerra fraticida (1 Rs 12.22-24). Outros profetas vive­
0 M in is té r io P ro fé tic o n o A n tig o T estam e n to I 27

ram nesse período, nos duzentos anos que se seguiram após a


morte de Salomão, com o Jeú e Hanani (1 Rs 16.1; 2 Cr 16.7), Elias
e Eliseu (1 Rs 17.1; 19.19).

O SIGNIFICADO DO TERMO "PROFETA"

Os profetas são identificados na Bíblia como alguém com o ofício


de apresentar Deus e a sua vontade ao povo ou a uma pessoa indi­
vidual. Os três termos hebraicos básicos do ofício profético aparece
em 1 Crônicas 29.29: "Os atos, pois, do rei Davi, assim os primeiros
como os últimos, eis que estão escritos nas crônicas de Samuel, o
vidente, e nas crônicas do profeta Natã, e nas crônicas de Gade, o
vidente". Samuel é chamado de (rõ 'eh), "vidente", Natã, de *033
(nãbV), "profeta" e Gade, de ríTÍl (hõzeh), que também significa "vi­
dente". O Antigo Testamento hebraico emprega ainda outros termos
para identificar os profetas como: ETXf' ’ish hã elõhim)-, "ho­
mem de Deus", n iIT (a ^ d e i YHWH), "servo de YAHWEH" e
rn rr (m alach YHWH), "mensageiro de YAHWEH".
O m esm o termo hebraico maVãch "m ensageiro, embaixador,
enviado, representante, anjo" é usado para os humanos e para os
anjos, com o seres espirituais (Hb 1.14). Os profetas, com o mensa­
geiros, são também identificados com essa palavra: "E o SENHOR,
Deus de seus pais, lhes enviou a sua palavra pelos seus mensageiros,
madrugando e enviando-//ios, porque se compadeceu do seu povo
e da sua habitação. Porém zombaram dos mensageiros de Deus, e
desprezaram as suas palavras, e escarneceram dos seus profetas"
(2 Cr 36.15, 16). Isaías identifica também dessa maneira os profetas
(Is 44.26). Ageu e João Batista são chamados de mensageiros de
Deus (Ag 1.13; MI 3.1 c f Mt 11.10; Mc 1.2). A versão Almeida Corri­
gida traduz esse vocábulo, em Malaquias 3.1, por "anjo", mas a
Atualizada, por "mensageiro".
28 \ 0 Ministério Profético na Bíblia

Os profetas são chamados de servos do SENHOR: “a qual dissera


pelo ministério de seu servo Aías, o profeta" (1 Rs 14.18). Deus fala
deles no Antigo Testamento usando a expressão "meus servos, os
profetas" (2 Rs 9.7; 17.13; Jr 7.25). Moisés, Samuel, Elias e Eliseu são
chamados nas Escrituras de "homem de Deus" (Dt 33.1; 1 Sm 9.6; 2
Rs 4.9). O termo é aplicado a Eliseu 29 vezes, sete vezes a Moisés e
seis a Samuel, sem contar o seu emprego aos profetas anônimos (1
Sm 2.27; 1 Rs 20.28; 2 Cr 25.7, 9).
O termo roeh, "vidente", aparece 11 vezes no Antigo Testamen­
to, sendo que sete se aplicam ao profeta Samuel (1 Sm 9.9, 11, 18,
19; 1 Cr 9.22; 26.28; 29.29), duas, a Hanani (2 Cr 16.7, 10) e uma,
a Zadoque (2 Sm 15.27). Essa palavra vem do verbo T l ^ f r a a h )
"ver", o vidente é aquele que vê, era assim que o profeta era cha­
mado na época da coroação de Saul (1 Sm 9.9). Mas seu ofício não
era para solução de pequenos problemas pessoais, com o as jumen­
tas perdidas de Quis, pois o profeta Isaías apresenta essa função
no mesmo nível do hozeh, mensageiros autorizados para comuni­
car a verdade divina (Is 30.10).
O hozer é também um vidente, porém, sabe-se que não existem
sinônimos perfeitos, sempre há alguma nuança, pois roeh vem do
verbo "ver", isto é, com os olhos físicos, a capacidade de compreen­
der aquilo que vê, ao passo que hozeh significa ver introspectivamen-
te, ver com o espírito (Os 9.7). Robert R. Wilson, em sua obra Profe­
cia e Sociedade no Antigo Testamento, prefere usar o termo "visioná­
rio", ou seja, aquele que tem visão (p. 298). Esses dois vocábulos
indicam os meios pelos quais Deus se comunicava com seus men­
sageiros. Note que Samuel é chamado de navi e de roeh (1 Sm 3.20;
9.19) e Gade e Amós de hozeh enavi (2 Sm 24.11; Am 7.12-16). Com
isso, segundo Freeman, esses termos são aplicados indistintamente
aos profetas, sendo que navi diz respeito ao elemento objetivo da
profecia e as outras duas palavras, ao subjetivo (p. 40).
0 M in is té r io P ro fé tic o n o A n tig o T estam e n to I 29

A p a la v r a h e b ra ic a u sa d a p a ra " p r o fe t a ” é n a v i e a p a r e c e m a is

d e 300 v e z e s n o A n t ig o T e s ta m e n to , m a s se u s ig n ific a d o é in c e r ­

to. É u m a d e r iv a ç ã o d o v e r b o K 2J (n ã b ã ’), "b o rb u lh a r , fe r v e r ,

d e r ra m a r” , s e g u n d o o lé x ic o h e b r a ic o d e G ese n iu s. A id e ia s e ria

d e e x tr a v a s a r p a la v ra s , fa la r s o b in s p ir a ç ã o d iv in a c o m a m e n te

fe r v o r o s a . U n s a c re d ita m q u e a e t im o lo g ia d o r e fe r id o v e r b o é

á ra b e n a b a 'a , q u e s ig n ific a "p ro c la m a r , a n u n c ia r"; o u tro s , que


s e ja d e o r ig e m a c á d ic a , p o is n a b u s ig n ific a "c h a m a r". O c e r to é

q u e to d a s e s s a s e x p lic a ç õ e s e t im o ló g ic a s s ã o a c e itá v e is , p o is o
p r o fe ta é tu d o is s o : e x tr a v a s a p a la v ra , p r o c la m a a r e v e la ç ã o d i­

v in a e é c h a m a d o p o r D eu s. O s lé x ic o s tr a d u z e m g e r a lm e n t e o

te r m o p o r " p o r t a - v o z , o ra d o r, p r o fe ta ", m a s se u s ig n ific a d o e ti-

m o ló g ic o se p e rd e u c o m o p a s s a r d o te m p o e d e v e s e r e n te n d id o

à lu z d o c o n t e x t o b íb lic o .
A p a s s a g e m d e Ê x o d o 4.10-16 a p re sen ta a p rim eira e a m e lh o r

e x p lic a ç ã o d o se n tid o d o te rm o navi.

10 Então, disse Moisés ao SENHOR: Ah! Senhor! Eu não sou


homem eloqüente, nem de ontem, nem de anteontem, nem
ainda desde que tens falado ao teu servo; porque sou pesado
de boca e pesado de língua. 11 E disse-lhe o SENHOR: Quem
fez a boca do homem? Ou quem fez o mudo, ou o surdo, ou o
que vê, ou o cego? Não sou eu, o SENHOR? 12 Vai, pois, agora,
e eu serei com a tua boca e te ensinarei o que hás de falar. 13
Ele, porém, disse: Ah! Senhorí Envia por mão daquele a quem
tu hás de enviar. 14 Então, se acendeu a ira do SENHOR contra
Moisés, e disse: Não é Arão, o levita, teu irmão? Eu sei que ele
falará muito bem; e eis que ele também sai ao teu encontro;
e, vendo-te, se alegrará em seu coração. 15 E tu lhe falarás
e porás as palavras na sua boca; e eu serei com a tua boca e
com a sua boca, ensinando-vos o que haveis de fazer. 16 E ele
falará por ti ao povo; e acontecerá que ele te será por boca, e
tu lhe serás por Deus (Êx 4.10-16).
30 I 0 Ministério Profético na Bíblia

Moisés se considera um homem sem eloqüência e declara ser


"pesado de boca e pesado de língua" (v. 10). Isso pode nos parecer
estranho, pois quando estava no Egito "era poderoso em suas pala­
vras e obras" (At 7.22). Deve-se considerar que ele estava fora do
convívio palaciano há 40 anos. Sem dúvida, teria perdido a habili­
dade retórica, pois o deserto não é local apropriado para oradores.
Outro fator a ser considerado diz respeito a questões de protocolo
e etiqueta, visto que se tratava de outro Faraó (2.23; 4.19). Cabe
ressaltar que a mensagem dos profetas tem sua origem em Deus (Os
12.10) e não de si mesmo e com Moisés não foi diferente. Quanto
ao conteúdo do discurso Moisés não devia se preocupar, ele recebeu
a garantia divina: "eu serei com a tua boca e te ensinarei o que hás
de falar” (v. 12).
A sua recusa: "Ah! Senhor! Envia por mão daquele a quem tu
hás de enviar" (v. 13) não deve ser interpretada com o desobedi­
ência, mas com o tem or pelo peso da responsabilidade. Moisés
não foi o único a proceder dessa forma (Jr 1.6; Jn 1.3, 10). Nem
sempre os que se oferecem têm vocação ou qualificação espiritu­
al ou teológica para o cargo, quem não se lembra de Aimaás, o
mensageiro sem mensagem? Ele se ofereceu para anunciar a Davi
a morte de Absalão, mas quando chegou diante do rei faltou-lhe
coragem (2 Sm 18.19,20,27-29). Isso nos ensina muita coisa, pois
o irmão que hesita aceitar um cargo da Igreja ou pede um tempo
para pensar, porque se sente incapaz para a tarefa. A explicação
disso, muitas vezes, é o peso da responsabilidade.
Quanto ao conteúdo da mensagem, era assunto resolvido, o
problema agora era quanto à sua apresentação ao Faraó. Deus na
sua onisciência sabia que Arão ia se encontrar com Moisés, seu ir­
mão, homem de boa retórica: "ele falará muito bem" (v. 14). Assim,
Arão seria o porta-voz de Moisés na seguinte ordem: Deus fala a
Moisés, que transmite a Arão e este a Faraó (w . 15, 16). É claro que
O M in is té r io P ro fé tic o n o A n tig o T estam e n to I 31

Deus na sua soberania e no seu eterno poder teria inúmeras alter­


nativas para a solução dos problemas apresentados por Moisés, mas
ele escolheu o sistema de porta-voz para ensino nosso. Nisso as
Escrituras Sagradas revelam o significado da palavra navi, "profeta",
e a sua função o próprio Deus revelou a Moisés; ser profeta aquele
que transmite a mensagem de um deus ou de Deus para ser mais
específico (ê x 7.1, 2), é alguém que fala em nome de Deus, "serás
com o a minha boca" (Jr 15.19).
Apesar de o sentido básico de "profeta" ser embaixador, en ­
viado, porta-voz, representante, o conceito que mais se popula­
rizou com o passar do tem po foi o de "prever o futuro", de revelar
algo im possível de se saber por m eio de recursos naturais (1 Sm
9.6). A referência aos profetas hebreus do Antigo Testam ento
também diz respeito à autoridade canônica com o legítim o porta-
v o z de Deus. É o que indica a expressão "assim diz o Senhor" e
fraseologia similar.
Curiosamente o termo "profeta" e seus correlatos são usados para
os adivinhos e falsos profetas, para os profetas das divindades pagãs
das nações vizinhas de Israel, sendo identificados com o tais pelo
contexto (Dt 13.1; Js 13.22; 1 Rs 22.12; Jr 23.13). Jeremias chama o
seu opositor Hananias de profeta (Jr 28.17). A palavra falso profeta
não aparece no Antigo Testamento hebraico, mas na Septuaginta,
portanto, o contexto bíblico mostra se realmente se trata de um
profeta de Deus ou de algum embusteiro. Da mesma forma aconte­
ce com verbo hebraico navá, "profetizar". Assim com o nem todos
os que são chamados "profetas" são autênticos, do mesmo modo a
sua ação de profetizar é também diferente, com o aconteceu com
Saul quando estava possesso (1 Sm 18.10) e com o ritual dos profe­
tas de Baal (1 Rs 18.29). O livro de Jeremias está repleto desses
exemplos (2.8; 5.1; 14.14-16; 23.16,21,25, 26, 32; 27.10, 14-16; 29.9,
21; 37.19).
32 I 0 Ministério Profético na Bíblia

A versão grega do Antigo Testamento, Septuaginta, identificada


também pela sigla LXX, traduziu navi, roeh e hozeh por TTpo4>r|TT|ç
(prophêtês), do grego pro, "antes", e da raiz phe do verbo phêmi,
"falar" e, algumas vezes, por ó pAiiríov (ho blepõn), "aquele que vê,
o que vê, o vidente" (1 Cr 9.22; 26.28; 29.29; 2 Cr 16.7, 10; Is 30.10),
por ó óptôv (ho horõn), de m esm o significado (1 Cr 21.9; 2 Cr 9.29;
12.15; 29.25; 33.18, 19). A Vulgata Latina usa a palavra propheta
para traduzir essas três palavras hebraicas. Porém, o uso do vocá­
bulo pelos gregos antecede a data em que foi produzida a Versão
dos Setenta.
O termo grego profetes estava ligado aos oráculos da antiga Gré­
cia, entre eles os mais famosos eram o de Zeus, em Dodona e o de
Apoio, em Delfos. Eram santuários onde se proferiam as respostas
às pessoas que consultavam essas divindades mitológicas da anti­
guidade. Esses templos aparecem nos poemas homéricos Ilíada e
Odisséia. O oráculo era também a resposta em si, muitas vezes era
enigmática e confusa. No caso de Delfos, a profetisa de Apoio, a
Pítia, dava a resposta em forma de sons inarticulados e enigmáticos
de maneira que o consulente ficava confuso. Diante de uma men­
sagem incompreensível, entrava em cena oficiais do santuário como
intérprete ou tradutor, eram chamados profetes, sem a ideia de ins­
piração e nem de vaticinador das coisas futuras. Platão declara o
seguinte a respeito deles: "intérpretes de palavras e de visões mis­
teriosas; o nome mais certo, portanto, não será o de adivinho, mas
o de profeta das coisas reveladas pela adivinhação" (Timeu 72b). Em
Píndaro e em Homero eles são chamados de poetas.
/ \ / u c é ttr & z tíy
DA ATIVIDADE
PROFÉTICA
34 I 0 Ministério Profético na Bíblia

A comunicação divina é necessária e muito importante para


manter o povo na direção e na vontade de Deus. A situação espiri­
tual de Israel nos dias da judicatura de Eli era decadente, a Bíblia
afirma: "E a palavra do SENHOR era de muita valia naqueles dias;
não havia visão manifesta" (1 Sm 3.1), e: "não havendo profecia, o
povo se corrompe" (Pv 29.18). O apóstolo Pedro ensina que todos
devem atentar para esses oráculos: "E temos, mui firme, a palavra
dos profetas, à qual bem fazeis em estar atentos, com o a uma luz
que alumia em lugar escuro, até que o dia esclareça, e a estrela da
alva apareça em vosso coração" (2 Pe 1.19).
O Antigo Testamento mostra que a comunicação divina aos pro­
fetas acontece pela visão e pela audição, são esses os dois meios
principais de Deus se revelar a eles: "Ouvi agora as minhas palavras;
se entre vós houver profeta, eu, o SENHOR, em visão a ele me farei
conhecer ou em sonhos falarei com ele" (Nm 12.6). Trata-se de
imagem e som, é dessa forma que Deus mostra e fala a sua vontade
aos seus mensageiros. Isso é confirmado nas páginas das Escrituras
Sagradas ao longo da história do povo hebreu. O modus operandi é
diversificado, mas os elementos são os mesmos nos profetas pré-
canônicos e canônicos, sem distinção alguma: "Conforme todas
estas palavras e conforme toda esta visão, assim falou Natã a Davi”
(2 Sm 7.17; 1 Cr 17.15). A palavra e a visão são elementos da comu­
nicação de Deus a Jeremias sobre a vara de amendoeira e da pane­
la fervendo (Jr 1.11 -13) e, também, a Amós: "palavras que, em visão,
vieram a Am ós" (Am 1.1 - Almeida Atualizada). De todos os livros
proféticos, o de Jeremias é o que apresenta mais detalhes da vida
pessoal do seu autor e essa riqueza de detalhes nos permite conhe­
cer as várias formas de comunicação de Deus com o profeta.
A N a tu re z a d a A tiv id a d e P ro fé tic a I 35

VISÃO

Os dicionários consideram visão com o experiências extáticas,


isso falando de maneira geral, na verdade, trata-se de algo visto fora
da contemplação ou percepção comum e natural, geralmente ima­
gens mentais e incorpóreas. Deve-se levar em conta, porém, que os
profetas hebreus falavam em um estado ativo e consciente. Incluem-
se, nessa forma de comunicação divina, os sonhos e as manifesta­
ções teofânicas.
Os sonhos eram os meios mais apropriados para aqueles com
pouco discernimento espiritual, note que pessoas com o Abimeleque,
rei de Gerar, Faraó, do Egito e Nabucodonosor, na Babilônia, dentre
outros de origem pagã, nunca receberam visão, Deus se comunica­
va com eles por meio de sonhos (Gn 20.3; 41.1 -7; Dn 2.1) e, até hoje,
é dessa forma que ele se comunica com os seres humanos, inde­
pendentemente de sua condição espiritual, o problema é que nem
sempre eles se dão conta do aviso ou da advertência vinda do Cria­
dor, sequer prestam atenção a tudo aquilo que acontece a sua volta.
Isso é o que Eliú diz a Jó (Jó 33.14-18). Isso também não significa
que os grandes homens de Deus, nos tempos bíblicos, não tivessem
recebido mensagens divinas por esse meio, a exemplo de Jacó, José
do Egito, Daniel, José, marido de Maria, mãe de Jesus (Gn 28.12-15;
37.5; Dn 7.1; Mt 1.20; 2.13, 19).
Teofania é a manifestação de Deus de forma visível ou audível,
ou ambas juntas. Há inúmeros relatos teofânicos no Antigo Testa­
mento. Ele apareceu a Abraão na forma de três varões (Gn 18.2, 3,
13, 14) e a Jacó, na forma de um anjo no vau do Jaboque (Gn 32.22-
32). O mesmo aconteceu com Gideão e com os pais de Sansão (Jz
6.11, 12; 13.3, 9-11). A Bíblia afirma que Moisés falava com Deus
"face a face, com o qualquer fala com o seu am igo" (Êx 33.11). Foi
numa visão teofânica que aconteceu a revelação na sarça ardente
36 I 0 Ministério Profético na Bíblia

no Sinai: "E Moisés disse: Agora me virarei para lá e verei esta gran­
de visão, porque a sarça se não queima" (êx 3.3) e da mesma forma
aconteceu com Samuel: "porém Samuel temia relatar esta visão a
Eli" (1 Sm 3.15).
Visão é a forma de comunicação divina mais comum de Deus
com os profetas canônicos. Note que seis dos 17 livros dos profetas
canônicos começam dizendo que o seu conteúdo é resultado de
visão ou visões: "Visão de Isaías, filhos de Am oz (Is 1.1);"... estando
eu no meio dos cativos, junto ao rio Quebar, se abriram os céus, e
eu vi visões de Deus" (Ez 1.1); "Visão de Obadias" (Ob 1); "Palavra
do SENHOR que em visão veio a Miquéias" (Mq 1.1- Almeida Atu­
alizada); "Livro da visão de Naum" (Na 1.1); "Peso que viu o profeta
Habacuque (Hc 1.1). Isso sem contar os livros repletos de visões,
com o o de Zacarias, sem contudo, anunciar isso na introdução.
Não há um padrão fixo dessas visões proféticas, sendo elas mui­
to diversificadas, Deus se revelou de várias maneira: "Havendo Deus,
antigamente, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais,
pelos profetas, a nós falou-nos, nestes últimos dias, pelo Filho" (Hb
1.1). Essas visões são diversificadas quanto ao tempo de seu cum­
primento e ao seu conteúdo. O cumprimento delas pode ser logo
nos dias do profeta que recebeu a mensagem, com o a visão de Mi-
caías sobre o destino de Acabe na guerra contra Ramote-Gileade,
registrada em 1 Reis 22 e em 2 Crônicas 18. Outras ocasiões são
messiânicas, com o a visão que teve Isaías do trono de Deus (Is 6.1-
10) que se cumpriu em Jesus (Mt 13.14,15; Jo 12.38-41) e no minis­
tério do apóstolo Paulo (At 28.25-27). Há ainda as visões escatoló-
gicas, com o as do templo, registradas a partir de Ezequiel 40.2.
Quanto ao seu conteúdo, essas visões podem representar seres
celestiais, com o os anjos; ou seres terrenos, com o homens e mu­
lheres, animais e plantas ou frutas. As visões de Micaías mostram
os filhos de Israel dispersos pelas montanhas com o ovelhas que não
A N a tu re z a d a A tiv id a d e P ro fé tic a I 37

têm pastor (1 Rs 22.17), mas em seguida tem outra visão em que o


próprio Deus está conduzindo uma assembleia, que deve ser de
anjos, no céu (1 Rs 22.19-24). A primeira parte do livro de Zacarias
apresenta oito visões envolvendo cavalos, chifres, a cidade de Jeru­
salém, Satanás acusando o sumo sacerdote, o castiçal de ouro e as
sete lâmpadas, o rolo voante, as mulheres com asa de cegonha, os
carros (capítulo 1 a 6). O profeta pode relatar a sua revelação à m e­
dida que os acontecimentos vão se desenvolvendo, com o aconteceu
na visão da corte celeste dada a Micaías, às vezes, o profeta parti­
cipa do diálogo com os seres espirituais, com o aconteceu com Isa­
ías (Is 6.1-8). O cenário da visão pode ser o céu ou a terra, a expe­
riência de Micaías é um bom exemplo.
Todas essas visões vêm de Deus por meio do Espírito Santo, o
que acontece é que a terceira Pessoa da Trindade que está implícita
no Antigo Testamento, se torna explícita no N ovo Testamento e de
maneira notória no livro de Atos. Essas experiências dos profetas
hebreus não são restritas ao período veterotestamentário, pois os
apóstolos experimentaram a mesma forma de comunicação divina.
Isso aconteceu com Ananias, em Damasco, a respeito da conversão
de Saulo de Tarso (At 9.10), com Pedro em Jope, o qual teve a visão
de um lençol branco com diversos animais impuros (At 10.17, 19) e
Paulo em Trôade (At 16.9).

PALAVRA

A maior parte dos livros proféticos começam com o elemento


auditivo, a palavra: "Palavras de Jeremias" Gr 1.1); "Palavra do SENHOR
que foi dita a Oséias” (Os 1.1); "Palavra do SENHOR que foi dirigida a
Joel (J1 1.1); "As palavras de Amós, que estava entre os pastores de
Tecoa, o que ele viu a respeito de Israel" (Am 1.1), aqui inclui-se tam­
bém o elemento visão; "E veio a palavra do SENHOR a Jonas" (Jn 1.1);
38 I 0 Ministério Profético na Bíblia

"Palavra do SENHOR que veio a Miquéias”, morastita [...] o qual viu


sobre Samaria e Jerusalém" (Mq 1.1), como acontece no livro de Amós,
aqui se acrescenta o elemento visão; "Palavra do SENHOR vinda a
Sofonias (Sf 1.1);"[...] veio a palavra do SENHOR, pelo ministério do
profeta Ageu" (Ag 1.1); "[...] veio a palavra do SENHOR ao profeta
Zacarias" (Zc 1.1); "Peso da palavra do SENHOR contra Israel, pelo
ministério de Malaquias" (Ml 1.1). A expressão hebraica r n r m n i
/ □ ,,n iPKn “D*7! (^varYHWH/ctvarhã^lõhím), "palavra áo SENHOR
/ palavra de Deus", aparece 241 vezes no Antigo Testamento sendo
que 225 vezes diz respeito ao oráculo recebido pelo profeta ou pre­
gado por ele, e mostra a origem divina da mensagem.
A chancela de autoridade aparece nas fórmulas: "veio a palavra
do SENHOR a [...]", ou "veio a mim a palavra do SENHOR"; "assim
diz SENHOR”, "fala o SENHOR". Não se trata, pois de ideias humanas,
nem de um pensamento de um profeta, com o porta-vozes de Deus
recebem dele os oráculos e transmitem ao povo tal com o lhes foram
confiados. Essas expressões aparecem muitas centenas de vezes no
Antigo Testamento. A autoridade deles não está restrita apenas aos
seus escritos que hoje compõem as Escrituras Sagradas, mas em
vida, eram homens cheios do poder do Espírito Santo. No período
pré-canônico os 70 anciãos: "Então, o SENHOR desceu na nuvem e
lhe falou; e, tirando do Espírito que estava sobre ele, o pôs sobre
aqueles setenta anciãos; e aconteceu que, quando o Espírito repou­
sou sobre eles, profetizaram; mas, depois, nunca mais" (Nm 11.25).
Depois deles encontramos apenas Azarias: "Então, veio o Espírito
de Deus sobre Azarias, filho de Obede. E saiu ao encontro de Asa e
disse [...]" e Jaaziel: "Então, veio o Espírito do SENHOR, no meio da
congregação, sobre Jaaziel [...] e Jaaziel disse: Dai ouvidos todo o
Judá, e vós, moradores de Jerusalém [...]" (2 Cr 15.1; 20.14, 15).
No período canônico, apenas em dois profetas aparecem a mani­
festação do Espírito, 14 vezes em Ezequiel: "Então, entrou em mim o
A N a tu re z a d a A tiv id a d e P ro fé tic a I 39

Espírito" (Ez 2.2); "E levantou-me o Espírito, e ouvi por detrás de mim
uma voz de grande estrondo [...] o Espírito me levantou e me levou"
(3.12, 14) e uma vez em Miqueias: "eu sou cheio da força do Espírito
do SENHOR" (Mq 3.8). Isso não significa que apenas eles profetizaram
nos domínios do Espírito. Neemias e Zacarias lembram que Deus re­
preendeu o seu povo diversas vezes por causa de sua desobediência,
sendo os profetas tomados pelo Espírito Santo que Deus usou:

Porém estendeste a tua benigrtidade sobre eles por muitos


anos e protestaste contra eles pelo teu Espírito, pelo ministério
dos teus profetas; porém eles não deram ouvidos; pelo que os
entregaste na m ão dos povos das terras (Ne 9.30).
Sim, fizeram o seu coração duro com o diamante, para
que não ouvissem a lei, nem as palavras que o SENHOR dos
Exércitos enviara pelo seu Espírito, mediante os profetas
precedentes; donde veio a grande ira do SENHOR dos Exér­
citos (Zc 7.12).

Isso inclui os profetas pré-canônicos e canônicos. Quatro juizes


foram movidos pelo poder do Espírito Santo: Otniel, Gideão, Jefté e
Sansão (Jz 3.10; 6.34; 11.29; 13.25; 14.6, 19; 15.14).

A QUESTÃO DAS EXPERIÊNCIAS EXTÁTICAS

Os intérpretes naturalistas dizem que as profecias dos profetas


bíblicos são mero resultado de um estado emocional e que a carac­
terística básica de sua atividade era um estado de êxtase. Não po­
demos aceitar essa interpretação, pois a experiência extática era
comum entre os místicos e profetas pagãos, veja o frenesi dos pro­
fetas de Baal "e saltavam sobre o altar [...] clamavam a grandes
vozes e se retalhavam com facas e com lancetas" (1 Rs 18.26, 28)
compare com a serenidade de Elias ( w 30-38).
40 I 0 Ministério Profético na Bíblia

SURREXIT T U A S
PROPHET a QUa SI
ICNIS ET VERBUH
IPSIUS QUASIFACUU
A R D FB a T lBll, ......

-eOÚjSyJ) JÜl5^Lf**í'
uv.r—u-, JsuLJlf
uí^dx'un in*pyop’i
I I Q T 3 3 3 11311

Representação do Profeta Elias exterminando os profetas de Baal. Monte Carmelo -


Israel: "Então, enviou Acabe os mensageiros a todos osfilhos de Israel e ajuntou os
profetas no monte Carmelo. Então, Elias se chegou a todo o povo e disse: Até quando
coxeareis entre dois pensamentos? Se o SENHOR é Deus, segui-o; e, se Baal, segui-o.
Porém o povo lhe não respondeu nada' (1 Rs 18.20, 21).
A N a tu re z a d a A tiv id a d e P ro fé tic a I 41

O estudo das religiões comparadas levou certos pesquisadores


a conclusões equivocadas no que diz respeito à natureza da ativi­
dade profética. Esses estudiosos pretendem colocar os adivinhos,
os xamãs e os místicos das diversas crenças antigas dos povos
vizinhos de Israel no mesmo nível dos profetas bíblicos, afirmando
que os profetas hebreus profetizaram em estado de êxtase ou tran­
se. As manifestações frenéticas dos falsos profetas em Israel, dos
profetas das divindades pagãs, dos sonhadores de sonhos, dos
médiuns, dos adivinhos, dos magos, dos bruxos etc são de fontes
estranhas. Porém, a comunicação divina aos profetas é suigeneris
e tratá-la com o os demais parece ser uma grosseria.
Um biblista protestante alemão de nome Johann Friedrich Herman
Gunkel ( 1862 - 1932) segue a opinião sobre o êxtase profético:

O êxtase é um estado peculiar do espírito e do corpo que


se apodera do hom em quando este experimenta uma sensa­
ção particularmente intensa. Esta toma conta dele a ponto de
ter a impressão de ter arrastado por uma corrente d'água o
que seu coração arde com um fo go interior. Perde o domínio
de seus membros, tropeça e balbucia com o um bêbado, sua
sensibilidade à dor física diminui ou até desaparece, a ponto
de não perceber a dor das feridas. Anim a-o uma sensação
inesgotável de força, pode correr, pular ou realizar ações
impossíveis a uma pessoa em condições normais. Desapa­
rece nele tudo o que é particular e pessoal; o pensamento
concreto, a sensação concreta, adquirem um caráter absoluto
(SICRE, p. 107).

Segundo Gunkel, tal experiência profética vem de Deus, mas ele


nunca pode mostrar evidências do conceito acima nas Escrituras
Sagradas. Outro crítico, Theodore H. Robinson alegou o seguinte
sobre a natureza da atividade profética:
42 I 0 Ministério Profético na Bíblia

Podem os im aginar uma cena da atividade pública do


profeta. Está misturado entre a multidão, às vezes em dias
ordinários, às vezes em ocasiões especiais. De repente acon-
tece-se alguma coisa. Seus olhos ficam fixos, é assaltado por
estranhas convulsões, muda sua forma de falar. As pessoas
reconhecem que o espírito caiu sobre ele. Quando passar a
síncope, dirá aos circunstantes as coisas que viu e ouviu"
(SICRE, pp. 107, 108).

J. Lindblon afirma em sua obra prophecy in Ancient Israel (Profecia


no Antigo Israel) que Israel obteve o fenôm eno profético em Canaã.
Na sua opinião, o êxtase consiste no que se segue.

O estado anormal de consciência em que a pessoa está


tão intensamente absorvida por uma única ideia ou um único
sentimento, ou por um grupo de ideias ou sentimentos, que
mais ou menos fica sustado o curso normal da vida psíquica.
Os sentidos corporais deixam de funcionar; a pessoa torna-se
insensível às impressões externas; a consciência exalta-se
acima do nível ordinário da experiência diária; impressões e
ideias inconscientes brotam à superfície em forma de visões
e audições (SICRE, p. 108).

Há até quem afirme que o oráculo de Delfos foi o mais famoso


centro extático e se espalhou pelo mundo mediterrâneo onde os
profetas hebreus teriam compartilhado tais experiências. O modelo
de Delfos era o seguinte: a Pítia, sacerdotisa de Apoio, entrava em
seu santuário, sentava-se numa banqueta de três pés, bebia água
de uma fonte considerada sagrada, mascava folha de louro, planta
de Apoio, e inalando o vapor vindo de um abismo vulcânico caía em
estado de transe, provavelmente sob os efeitos do vapor. Assim, ela
se contorcia e se despenteava e em frenesi respondia às perguntas
com o fazem os médiuns espíritas.
A N a tu re z a d a A tiv id a d e P ro fé tic a I 43

Outra forma extática na antiguidade grega aparece nas soleni-


dades religiosas em homenagem a Deméter e a Dionísio, danças
rituais desenfreadas e frenéticas produziam o êxtase, a comunhão
com a divindade. Com o passar do tempo essas danças provocavam
uma espécie de embriagues mística.
Práticas similares existem ainda hoje. O movimento conhecido
como Santo Daime se aproxima do ritual acima. O movimento com e­
çou com um maranhense Raimundo Irineu Serra (1892-1971), que se
transferiu, em 1912, para o Acre, a fim de trabalhar com o seringueiro,
tendo contato com a cultura indígena. Ele aprendeu a preparar uma
bebida do cipó alucinógeno ayahuasca, palavra quéchua que significa
"cipó das almas", e da folha chacrona, mistura que os índios usavam
para rituais religiosos e, também, para fins terapêuticos. Sob o efeito
dessa bebida, ele afirma ter recebido uma visão em 1930, na frontei­
ra com o Peru, de uma senhora muito formosa sentada num trono
sobre a lua cheia e interpretou com o uma deusa universal, chaman-
do-a de "Rainha da Floresta". Identificou-a com a Senhora da Concei­
ção, cultuada pelos católicos, que teria comissionado para fundar uma
nova religião em torno da bebida que deveria ser chamada Santo
Daime, do verbo "dar", os adeptos do movimento invocam ao tomar
a bebida durante o ritual "Daime amorl Daime luzl Daime força!".
Essa senhora deu a ele algumas normas, com o durante oito dias
abster-se de sexo, comer apenas macaxeira (mandioca ou aipim) sem
sal e beber apenas água no meio da floresta.
O fundador do movimento estabeleceu, em 1945, o Centro de
Iluminação Cristã Luz Universal para ministrar a bebida. Depois de
sua morte, o seu discípulo Sebastião Mota M elo assumiu a lideran­
ça do grupo até 1990, quando faleceu. Alex Polari de Alverga, nove
anos preso durante a ditadura, autor das obras O Livro das Mirações,
publicado em 1984 e O Guia da Floresta, lançado posteriormente, é
o atual líder do Santo Daime.
44 I 0 Ministério Profético na Bíblia

O preparo da bebida é realizado num ritual em que os homens


m aceram durante muito tempo, com golpes ritmados, o cipó
ayahuasca até se transformar numa massa e as mulheres lavam e
preparam as folhas chacronas. Depois tudo é cozido durante mui­
tas horas. As reuniões duram a noite inteira e a cada quatro horas
os adeptos tomam a bebida que com eça a fazer efeito cerca de
meia hora depois. Os cultos são realizados com cânticos, hinos do
Santo Daime, os homens se vestem de branco e da mesma forma
as mulheres, sendo que elas usam faixas verdes cruzadas no peito
e dançam e bailam de um lado e os homens do outro.
Segundo Alex Polari, essas viagens não são alucinógenas, mas
enteógenas, ideia de experiência interna com Deus, os adeptos
chamam essa experiência de miração ou estado de desprendimen­
to. Trata-se de um estado alterado da consciência provocado por
uma substância presente nas folhas de chacronas a Dimetiltrip-
tamina (DMT), que segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria
é um agente alucinógeno potente e apesar do uso religioso, pelo
Santo Daime, ter sido autorizado pelo govern o em 1987, a utili­
zação não deve ser encorajada por pessoas com problemas psi­
cóticos ou esquizofrenia.
Práticas sim ilares já eram conhecidas nos tem pos bíblicos
entre os povos vizinhos de Israel, que a Bíblia chama de feitiçaria,
4)ap|iaKeLa {pharmakeia), <j)ap|iaicóç ou $ap\xaKeúç (pharmakós ou
pharmakeus) em grego, que significa "m agia" além de "feitiçaria".
O pharmakós ou pharmakeus era o manipulador de drogas, daí
vem a palavra "farmácia". Essas drogas eram usadas na medicina,
mas os m ágicos ou bruxos manipulavam os efeitos alucinógenos
delas para rituais de magia. Essa palavra é também aplicada aos
m agos e encantadores do Egito, na LXX. Hoje en volve toda a
forma de ocultismo.
Os críticos promotores do extaticismo bíblico pinçam a Bíblia,
A N a tu re z a d a A tiv id a d e P ro fé tic a I 45

aqui e ali, com interpretações forçadas, buscam elem entos para


fundamentar sua tese. Está escrito que o profeta Elias "se inclinou
por terra, e meteu o seu rosto entre os seus joelhos" (1 Rs 18.42);
que Eliseu solicitou um "tangedor" e "sucedeu que, tangendo o
tangedor, veio sobre ele a mão do SENHOR" (2 Rs 3.15) e que o
m esm o profeta Eliseu, no seu encontro com Hazael, enviado do rei
da Síria: "afirmou sua vista e fitou os olhos nele, até se envergonhar;
e chorou o homem de Deus" (2 Rs 8.11). Colocar tais experiências
no m esm o nível das manifestações frenéticas dos místicos ou dos
profetas pagãos, com o no confronto deles com Elias, que "se reta­
lhavam com facas e com lancetas, conform e o seu costume, até
derramarem sangue sobre si" (1 Rs 18.28) é ir longe demais. O
texto sagrado afirma que tais práticas eram costume deles e não
dos profetas hebreus.
O relato sobre o "rancho de profetas" (1 Sm 10.5-13) conta que
eles "descem do alto e trazem diante de si saltérios, e tambores, e
flautas, e harpas; e profetizarão" (v. 5) e assim interpretam que
profetizam em estado de transe. Tal ideia parece precipitada porque
o texto nada fala das atividades deles e nem o que foram fazer no
monte e o papel da música na vida religiosa de Israel é muito am ­
plo. É forçar demais o texto para transformar a natureza da ativi­
dade profética dos profetas hebreus numa manifestação extática.
É verdade que sempre existiu o em prego da música para fins extá­
ticos, mas não é isso que o texto bíblico afirma nessa passagem,
pois havia muitas razões para a música, e, sobretudo, tocar cam i­
nhando, acompanhado de m ovim entos rítmicos enquanto desce
do monte não é apropriado para induzir alguém ao êxtase. E nada
indica do texto que eles tocavam para profetizar. Eliseu solicitou
um "tangedor" (2 Rs 3.15), mas o verbo hebraico (nãgên) signi­
fica "tanger" um instrumento de corda, que por ser suave, não é
adequado para êxtase.
46 I o Ministério Profético na Bíblia

18 Assim, Davi fugiu, e escapou, e veio a Samuel, a Ramá,


e lhe participou tudo quanto Saul lhe fizera; e foram, ele e
Samuel, e ficaram em Naiote. 19 E o anunciaram a Saul, dizen­
do: Eis que Davi está em Naiote, em Ramá. 20 Então, enviou
Saul m ensageiros para trazerem a Davi, os quais viram uma
congregação de profetas profetizando, onde estava Samuel,
que presidia sobre eles; e o Espírito de Deus veio sobre os
m ensageiros de Saul, e também eles profetizaram . 21 E,
avisado disso Saul, enviou outros mensageiros, e também
estes profetizaram; então, enviou Saul ainda uns terceiros
mensageiros, os quais também profetizaram. 22 Então, foi
também ele m esm o a Ramá e chegou ao poço grande que
estava em Seco; e, perguntando, disse: Onde estão Samuel
e Davi? E disseram-lhe: Eis que estão em Naiote, em Ramá.
23 Então, foi para Naiote, em Ramá; e o m esmo Espírito de
Deus veio sobre ele, e ia profetizando, até chegar a Naiote,
em Ramá. 24 E ele também despiu as suas vestes, e ele tam­
bém profetizou diante de Samuel, e esteve nu por terra todo
aquele dia e toda aquela noite; pelo que se diz: Está também
Saul entre os profetas? (1 Sm 19.18-24).

No segundo contato de Saul com os profetas liderados por Sa­


muel, seu estado era de desequilíbrio e estava possuído por um
espírito mau. Há quem afirme que ele ficou endemoninhado, nesse
caso, Deus teria dado permissão aos demônios para o atormenta­
rem, assim com o permitiu ferir o patriarca Jó (1.12). Se isso puder
ser confirmado, deve-se levar em conta que ele, nessa época, es­
tava desviado, havia sido rejeitado por Deus por causa de sua
desobediência (1 Sm 15.23), seu estado espiritual e psicológico
estava afetado. Porém, o texto bíblico não afirma que Saul ficava
endemoninhado, é dito que o Espírito Santo se retirou dele e que
"o assombrava um espírito mau da parte do SENHOR" (1 Sm 16.14).
Trata-se de um espírito da parte de Deus e não de Satanás.
A N a tu re z a d a A tiv id a d e P ro fé tic a I 47

O ponto dessa passagem que mais chama a atenção é o v. 24,


pois afirma que Saul "ele também despiu as suas vestes, e ele tam­
bém profetizou diante de Samuel, e esteve nu por terra todo aquele
dia e toda aquela noite". A expressão "também despiu suas vestes"
pode indicar que outros estavam desnudos, os seus enviados, mas
o termo hebraico usado aqui, DÍ“1Í7 ( ‘ãrôm) ou Dhl? ( ‘arõm), segun­
do Gesenius e Baumgartner, pode significar parcialmente desnudo
(Jó 22.6; 24.7,10; Is 58.7), ou seja, sem a roupa externa. A descrição
parece mostrar um estado de estupor. Essa passagem não ajuda os
críticos que pretendem colocar os profetas de Deus no mesmo nível
dos místicos por duas razões básicas: a) apenas Saul ficou nesse
estado e não todos os profetas; b) ele não fez esforço algum para
alcançar o transe extático.
O termo "êxtase" vem do grego eicaiaoií; (ekstasis), empregado
pela LXX para traduzir oito palavras hebraicas: njjTT (dibãh) "murmu-
ração, difamação, calúnia" (Nm 13.32 [33]); H1Í7T / H1Í1T (zaãvãh /
z? avãh) "tremor, temor, medo" (2 Cr 29.8); TSn(hãphaz) "correr assus-
tadamente (SI 31.23 [30.23]); r m n (harãdãh) "tremor, medo" (1 Sm
14.15); rtÇirtÇ (rrfhümãh) "perturbação, sobressalto, pânico, confusão,
tumulto" (2 Cr 15.5; Zc 14.13); “ II7S (pahad) "tremor, pavor, susto,
temor, medo, terror" (1 Sm 11.7; 2 Cr 17.10; 20.29); (tardêmãh)
"sono profundo, letargia" (Gn 2.21; 15.12). Aparece sete vezes no Novo
Testamento, sendo que em quatro lugares expressa a ideia de assom­
bro, de espanto: "e assombrara-se com grande espanto" (Mc 5.42);
"porque estavam possuídas de temor e assombro" (Mc 16.8); "e todos
ficaram maravilhados" (Lc 5.26); "e ficaram cheios de pasmo e assom­
bro" (At 3.10). As outras três vezes ocorrem com o significado de
arrebatamento dos sentidos "sobreveio-lhe um arrebatamento de
sentidos" (At 10.10); reaparecendo depois quando o apóstolo Pedro
relata essa experiência aos demais companheiros (At 11.5); isso
aconteceu também com o apóstolo Paulo: "quando orava no templo,
48 I 0 Ministério Profético na Bíblia

fui arrebatado para fora de mim" (At 22.17). O verbo êÇúmini ou


èÇiOTávü) (existêmi ou existanõ), "ficar atônito, estar fora de si", apare­
ce 17 vezes no Novo Testamento e a LXX, segundo/l Concordance to
the Septuagint and the Other Greek Versions o f the Old Testament (In-
cluding theApocryphalBooks), de Edwin Hatch M.A., D.D., e Henry A.
Redpath, M A ., é usado para traduzir 29 verbos hebraicos.
A comunicação divina veio aos profetas de "várias maneiras" (Hb
1.1) e as suas experiências são diversificadas. O profeta Ezequiel
descreve várias vezes o arrebatamento dos sentidos ao receber suas
visões (Ez 3.15; 8.1-4; 11.24), mas se trata do fator ab extra (de fora)
do Espírito Santo. Muitas vezes Deus se revelou a si mesmo ao pro­
feta por meio do Espírito Santo "entrou em mim o Espírito, quando
falava com igo" (Ez 2.2), "entrou em mim o Espírito" (Ez 3.24). Na
verdade, ele está presente em todas as manifestações divinas e se
encarrega da inspiração do profeta para sua transmissão ao povo.
Não houve, portanto, nos profetas hebreus auto-estimulação.
Nenhum deles tomou a iniciativa para obter revelação e nem há
indicação de que algum deles tenha perdido o controle das faculda­
des mentais e racionais. Havia, sim, de fato, o fator externo à razão
humana e superior a ela. Os oráculos dos profetas do Deus de Isra­
el sobre o futuro baseiam-se em fatos reais concretos, do dia a dia.
O Espírito Santo inspirou Isaías para anunciar de antemão o nasci­
mento do Messias de uma virgem a partir de uma realidade históri­
ca que envolvia os reis de Israel, da Síria e de Judá (Is 7.1-14). O
mesmo pode ser dito de Ezequiel, que predisse o retorno dos judeus
e a restauração de Israel a partir da primeira diáspora (Ez 36.19-29).
Davi fala do sofrimento do Messias a partir de sua experiência pes­
soal, no Salmo 22. A fonte dessa palavra profética é Deus por meio
do Espírito Santo (Os 12.10; 2 Pe 1.19-21). Essa característica é sem
paralelo e nada há que possa comparar com os profetas dos deuses
ou com os místicos.
z't/ L ç & e s
SOCIAIS E
POLÍTICAS
DA PROFECIA
50 I O Ministério Profético na Bíblia

Deus é o maior interessado no bem-estar de todas as suas criaturas,


por isso suas leis são também de caráter social e não apenas espiri­
tual. A Lei de Moisés não consiste apenas num compêndio religioso,
trata de profecias, histórias, registros genealógicos e cronológicos,
regulamentos, ritos, cerimônias, exortações, leis morais, civis e ceri­
moniais, sacerdotes, sacrifícios, ofertas, festas e o tabemáculo.
A justiça social está presente em toda a Bíblia e esse assunto
envolve religião, política e economia. Assim com o os aspectos po­
lítico e social nos profetas revelam a forma com o a profecia contri­
buiu na formação moral e ética nos períodos que se seguiram à
geração dos profetas de Israel e entre as nações. Temos na Lei de
Moisés a base e a estrutura social e política do Estado. O papel dos
profetas do Antigo Testamento com o porta-voz de Deus e intérpre­
te da Lei era o de conscientizar o povo do seu compromisso assu­
mido no Sinai, colocando em prática a aliança feita com seus pais.
A formação social e cultural de Israel e a sua grande influência entre
todos os povos da terra devem -se à pregação e aos escritos desses
profetas que o cristianismo difundiu por todo o mundo.

OS PROFETAS E A QUESTÃO POLÍTICA

A monarquia em Israel foi instituída depois de alguns séculos


da morte de Moisés. Mas ele profetizou o surgimento do rei entre
os hebreus. Há três pontos básicos no aspecto político da legislação
mosaica sobre o rei: ser escolhido pelo SENHOR e não ser estran­
geiro (Dt 17.15), não acumular riquezas e mulheres (Dt 17.16, 17)
e ter uma cópia da Lei sempre ao seu lado para se lembrar de
cumprir as normas ali contidas (Dt 17.18, 19). O rei não tinha au­
toridade para modificar o que o grande legislador de Israel escreveu,
não era resultado de embates políticos, mas a vontade de Deus
para o bem da nação.
A s F u n ç õ e s S o c ia is e P o lít ic a s d a P ro fe c ia 51

Reino Dividido.
52 I 0 Ministério Profético na Bíblia

A relação entre profetas e reis foi sempre tensa. Às vezes, os


profetas serviam com o conselheiros na casa real, com o Natã, Gade
e Isaías, pois esses monarcas precisavam da aprovação desses vi­
dentes por causa de sua popularidade em determinada fase da
história de Israel. Outras vezes, esses mensageiros de Javé1repre­
sentavam ameaças, pois não se dispunham a fazer a vontade de
Deus. O Antigo Testamento apresenta uma lista longa de profetas
censurando pecados dos reis com o Aías (1 Rs 14.5-12), Jeú (1 Rs
16.1-4), Elias (1 Rs 18.17, 18), Micaías (1 Rs 22.8), Eliseu (2 Rs 6.30-
32), Isaías (3.12-15), Jeremias (Jr 22.13-29), Amós (Am 7.9). Isso por
violar os preceitos da lei de Moisés em seu aspecto civil e religioso.
A situação se agravou ainda mais depois do grande cisma que divi­
diu o país em dois: Judá e Israel, Reino do Sul e Reino do Norte.

■ Primeira dinastia. Foi fundada por Jeroboão I, seu filho, Nadabe,


herdou o trono, mas foi assassinado por Baasa: dois reis (1 Rs
12.19,20; 15.27-29).

■ Segunda dinastia. Fundada por Baasa, apenas dois reis reinaram,


seu filho Elá, que herdou o trono, foi assassinado por Zinri (1 Rs
16.6, 12-14).

■ Terceira dinastia. Foi de apenas um rei, Zinri, que reinou apenas


oito dias, até que cometeu suicídio (1 Rs 16.15,16).

■ Quarta dinastia. Onri e Tibni disputaram o trono do Reino do Nor­


te, pois o povo estava dividido, e Onri venceu. Fundou a quarta
dinastia e reinou 12 anos, reinaram quatro reis. Comprou o mon-

* Javé é a forma aportuguesada de Yahweh, pronúncia que mais se aproxima do Tetragrama (quatro
consoantes hebraicas do nom e divino m r P - YHW H). Há um estudo acadêm ico sobre o assunto
no livro Testemunhas de Jeová - A Inserção de Crenças e Práticas no Texto da Tradução do Novo
Mundo, de Esequias Soares (páginas 162-169).
A s F u n ç õ e s S o c ia is e P o lític a s d a P r o fe c ia i 53

te de Samaria e fez da cidade a capital do seu reino (1 Rs 16.21 -34).


Seus sucessores foram: Acabe, Acazias e Jorão. O último foi as­
sassinado por Jeú, o que marcou o fim da casa de Onri, ou de
Acabe, seu filho (1 Rs 16 .28 ; 22.40; 2 Rs 1.17; 9.24). Quarta dinas­
tia: quatro reis.

■ Quinta dinastia. Foi fundada por Jeú, que exterminou toda a casa
de Acabe com os seus 70 filhos (2 Rs 10.1, 11, 14). Reinaram cin­
co reis e seus sucessores foram: Jeoacaz, Joás, Jeroboão II e Za­
carias (2 Rs 13.1, 9, 13; 14.29).

■ Sexta dinastia. Fundada por Salum ao assassinar o rei Zacarias


numa conspiração (2 Rs 15.10), mas reinou apenas um mês e foi
assassinado por Menaém, que assumiu o poder (2 Rs 15.13, 14).

■ Sétima dinastia. Fundada por Menaém, que reinou 10 anos. Seu


filho, Pecaias, sucedeu-lhe no trono, mas foi assassinado por Peca:
dois reis (2 Rs 15.22, 25).

■ Oitava dinastia. Fundada por Peca, assassinado numa conspiração


por Oseias: apenas um rei (2 Rs 15.30).

■ Nona e última dinastia. Fundada por Oseias, que reinou nove anos
e foi deposto pelos assírios. É o com eço do cativeiro assírio, em
que as dez tribos do norte foram levadas para o cativeiro, em 722
a.C. (2 Rs 17.1-3, 6).

Foram nove dinastias e 20 reis em Israel. Nenhum deles "andou


nos caminhos de Davi” , sendo que a maioria "andou em todos os
caminhos de Jeroboão, filho de Nebate, com o também nos seus pe­
cados com que tinha feito pecar a Israel" {1 Rs 16.26), esse refrão, ou
54 I 0 Ministério Profético na Bíblia

fraseologia similar, é repetido diversas vezes em 1 e 2 Reis (1 Rs


22.52; 2 Rs 3.3; 10.29; 13.2, 11; 14.24; 15.9, 18, 24). Judá teve seus
problemas, mas apenas uma dinastia reinou em Jerusalém, a de Davi,
Deus cumpriu a sua promessa feita a ele por meio do profeta Natã:
"o SENHOR te faz saber que o SENHOR te fará casa [...] e estabele­
cerei o seu reino [...] confirmarei o trono do seu reino para sempre
[...] mas a minha benignidade se não apartará dele, com o a tirei de
Saul" (2 Sm 7.11-15). Houve reis piedosos em Jerusalém como Asa,
Josafá, Uzias, Ezequias, Josias, o que não aconteceu em Samaria.
A s F u n ç õ e s S o c ia is e P o lít ic a s d a P ro fe c ia I 55

Samaria veio a ser a sede do governo das dez tribos do norte.


Onri, pai do rei Acabe, comprou um monte de "Semer", de onde
vem o nome "Samaria” ou "Samária", em hebraico ]Í"10ÊÍ {shõmrôn)
(1 Rs 16.24). Jerusalém continuou com o sede do governo da dinas­
tia de Davi, capital do Reino do Sui. A situação do Reino do Norte
se deteriorou mais depressa, a decadência caminhava para a anar­
quia generalizada à medida que o tempo passava. O reinado de
Jeroboão II foi próspero, mas corrupto, caracterizado pela violência
e pelas injustiças sociais. Samaria caiu em 722 d.C., conquistada
por Salmaneser V (2 Rs 17.3) e foi consumada depois por Sargão
II {Is 20.1). É o fim do Reino do Norte. Judá não era diferente nos
seus últimos anos até que Jerusalém foi destruída em 586 a.C. Foi
nesse contexto que Deus levantou os profetas Isaías, Oseias, Amós,
Miqueias, Ezequiel, Jeremias dentre outros. As questões sociais
envolviam a administração da justiça, a prática do com ércio, a
questão da escravidão, o latifundiarismo, o salário e a extravagân­
cia na riqueza e no luxo às custas da miséria do povo.
Os pecados de Samaria eram devastadores, o relato dos livros
dos reis revela a instabilidade política por conta da apostasia. Essa
situação é confirmada nos oráculos do profeta Oseias, com baten­
do a idolatria, acompanhada de prostituição, de toda espécie de
vício e de violência (Os 4.1-9; 5.1-9; 7.1). A política externa era
conduzida de forma insensata, o que levou Israel a confiar nessas
alianças internacionais e não em Javé, pois eles haviam perdido a
fé em Deus (7.11; 8.9). A festa da coroação dos reis tornou-se
evento para maquinações de assassinatos em série, rei após rei,
juiz após juiz, uma cadeia de conspiradores (2 Rs 15.10; Os 7.5).
Porém, Am ós foi o único profeta do Reino do Norte a bradar com
veem ência contra as injustiças sociais. Em Jerusalém esse discur­
so aparece apenas em Isaías, Miqueias e Sofonias.
56 I 0 Ministério Profético na Bíblia

Museu do Louvre -Sargão II, rei da Assíria (705-722 a.C).


A s F u n ç õ e s S o c ia is e P o lít ic a s d a P r o fe c ia I 57

OS PROFETAS E A QUESTÃO SOCIAL

Quanto à justiça social, o assunto é muito amplo na Lei. Ela


legisla sobre a necessidade de ser benevolente com os necessitados
(Dt 24.14), estabeleceu que o patrão deve cumprir suas obrigações
com o assalariados (v. 15), entra também na questão jurídica sobre
aquele que violar a Lei (Dt 24.16), ordena respeitar o direito do
estrangeiro e do órfão e não aceitar com o penhor a roupa de alguém
e nem emprestar dinheiro com usura (ê x 22.22-27; Dt 24.17). Per­
mite o pobre entrar para com er até fartar-se na vinha e em qualquer
plantação do próximo, desde que não leve embora na cesta (Dt
23.24, 25). A servidão de hebreus é proibida, o que veio a ser c o ­
mum com o passar do tempo era o fato de a própria pessoa se
vender com o escravo ao seu irmão, mesmo assim, a Lei manda
libertá-lo no sétimo ano (Êx 21.2; Dt 15.1-18), estabelecendo a
administração da justiça nos tribunais (Dt 16.18-20).
O capítulo 21 de 1 Reis conta que Acabe confiscou de maneira
criminosa o campo de Nabote. Este possuía uma propriedade contígua
ao palácio real, em Samaria, e o rei se interessou por ela, mas o pro­
prietário recusou-se a vender por questões familiares e de herança,
conforme prescreve a Lei (Lv 25.23). O monarca ficou profundamente
triste, quando a sua esposa Jezabel soube do acontecido, orquestrou
um plano abominável contra o dono da vinha, acusando-o mediante
falsas testemunhas de crime que não praticou e dessa forma Nabote
foi condenado à morte e o imóvel transferido para a família real. Temos
nesse deplorável fato uma amostra do desmando já nos dias de Aca­
be. Deus reagiu e mandou o profeta Elias amaldiçoar a casa real:

Assim diz o SENHOR: No lugar em que os cães lamberam


o sangue de Nabote, os cães lamberão o teu sangue, o teu
mesmo [...] Eis que trarei mal sobre ti, e arrancarei a tua pos­
58 I 0 Ministério Profético na Bíblia

teridade, e arrancarei de Acabe a todo homem, com o também


o encerrado e o desamparado em Israel; e farei a tua casa como
a casa de Jeroboão, filho de Nebate, e com o a casa de Baasa,
filho de Aías, por causa da provocação com que m e provocas-
te e fizeste pecar a Israel. E também acerca de Jezabel falou o
SENHOR, dizendo: Os cães comerão Jezabel junto ao antemu-
ro de Jezreel" (1 Rs 21.19,20-23).

A profecia se cumpriu literalmente {1 Rs 22.37, 38; 2 Rs 9.35-37;


10.10, 11). Porém, a crise permaneceu. Outros profetas continuaram
combatendo as perfídias que haviam entrado em todos os segui­
mentos na sociedade: religião, política, jurídica, empresarial etc.
Amós era judeu, de Tecoa, aldeia nas proximidades de Jerusalém,
mas foi enviado para profetizar em Samaria (Am 1.1; 7.12) e ficou
assustado quanto viu o luxo extravagante da mobília, do alimento,
dos perfumes dos ricos às custas da miséria do pobre.

Que dormis em camas de marfim, e vos estendeis sobre os


vossos leitos, e comeis os cordeiros do rebanho e os bezerros
do m eio da manada; 5 que cantais ao som do alaúde e inven­
tais para vós instrumentos músicos, com o Davi; 6 que bebeis
vinho em taças e vos ungis com o mais excelente óleo, mas
não vos afligis pela quebra de José (Am 6.4-6).

Riqueza não é o mesmo que pecado, mas os ricos devem ser


prudentes e discretos, evitando ostentação de glória, pois isso não
agrada a Deus. Porém, o que Am ós denuncia, além da extravagân­
cia, é a forma dessas camas de marfim, dos cordeiros e dos bezer­
ros, dos instrumentos musicais de alto custo da mesma qualidade
dos de Davi, das taças em que tomava vinho, dos perfumes de
preço elevado, provenientes da exploração dos miseráveis "pela
quebra de José" (v. 6). Parece que o profeta está dirigindo sua m en­
As F u n ç õ e s S o c ia is e P o lít ic a s d a P r o fe c ia I 59

sagem aos com erciantes inescrupulosos de Samaria e adverte


sobre o juízo divino (Am 8.4-7). A censura não é aos ricos, mas aos
avarentos e aproveitadores; nem aos comerciantes, pois são mui­
tos os que são uma bênção na seara do Senhor, mas aos em pre­
sários gananciosos e mesquinhos; nem ao rei Davi, pois era um rei
justo, músico por excelência, não explorou o necessitado e o que
possuía não era para seu próprio deleito, mas para Deus e para o
seu povo. A censura do profeta baseava-se na origem ignóbil des­
ses bens, na sua ostentação e na pressão sobre os camponeses que
não tinham "poder de fogo" para negociar de maneira justa com
os poderosos.
A servidão de hebreus era proibida na lei, exceto quando alguém
fracassava em seus negócios e contraía dívidas impagáveis, se isso
ocorresse, essa pessoa se venderia com o escravo ao seu irmão e,
m esm o assim, seria libertado no sétimo ano, não devendo sair de
mãos vazias (ê x 21.2; Dt 15.12-15). Ele não devia receber o trata­
mento de escravo: "quando o teu irmão empobrecer, estando ele
contigo, e se vender a ti, não o farás servir serviço de escravo" (Lv
25.39). Esse direito era violado em Samaria e Am ós protesta em
favor dos escravos: "porque vendem o justo por dinheiro e o ne­
cessitado por um par de sapatos. Suspirando pelo pó da terra sobre
a cabeça dos pobres, eles pervertem o caminho dos mansos" (Am
2.6, 7). Havia se tornado prática comum condenar inocentes em
troca de subornos, os pobres eram entregues aos seus credores
pelo valor de "um par de sapatos" para servirem com o escravos,
sem a mínima com paixão pelos justos. A expressão: "pelo pó da
terra sobre a cabeça dos pobres" mostra a humilhação de com o os
pobres eram tratados.
A situação em Jerusalém não era diferente nos dias do rei. O
profeta Jeremias relata um fato dramático, Zedequias havia con­
vocado os nobres e poderosos de Judá para rever a situação dos
60 I 0 Ministério Profético na Biblia

escravos e todos concordaram em libertá-los, em cumprimento da


Lei: "quando teu irmão hebreu ou irm ã hebreia se vender a ti, seis
anos te servirá, mas, no sétimo ano, o despedirás forro de ti. E,
quando o despedires de ti forro, não o despedirás vazio" (Dt 15.12,
13). Era o mínimo que deviam fazer, aliás, deveriam ter feito isso
antes, eles se arrependeram da decisão e voltaram atrás. Deus
descarregou a sua ira sobre eles com uma sentença muito dura, à
altura da enorm idade do pecado deles. Isso está registrado no
capítulo 34 de Jeremias.
A lei determina que o credor devolva o penhor ao devedor pobre:
"em se pondo o sol, certamente lhe restituirás o penhor, para que
durma na sua roupa e te abençoe; e isto te será por justiça diante
do SENHOR, teu Deus" (Dt 24.13). Não havia benevolência com os
pobres e desrespeitavam a lei do penhor: "e se deitam junto a
qualquer altar sobre roupas empenhadas e na casa de seus deuses
bebem o vinho dos que tinham multado" (Am 2.8). Compravam o
vinho com fundos arredados das multas e dormiam ao lado dos
altares pagãos com as roupas penhoradas que deviam devolver até
ao anoitecer.

7 Vós que converteis o juízo em alosna e deitais por terra


a justiça, 10 Aborrecem na porta ao que os repreende e abo­
minam o que fala sinceramente. 11 Portanto, visto que pisais
o pobre e dele exigis um tributo de trigo, edificareis casas de
pedras lavradas, mas nelas não habitareis; vinhas desejáveis
plantareis, mas não bebereis do seu vinho. 12 Porque sei que
são muitas as vossas transgressões e enormes os vossos pe­
cados; afligis o justo, tomais resgate e rejeitais os necessitados
na porta (Am 5.7, 10-12).

Aqui, a censura se dirige às autoridades civis que baixavam


leis injustas para oprimir o pobre e o necessitado, exigindo im­
A s F u n ç õ e s S o c ia is e P o lít ic a s d a P ro fe c ia i 61

postos elevados, acima da realidade. O profeta Isaías adverte os


legisladores sobre o assunto: "A i dos que decretam leis injustas
e dos escrivães que escrevem perversidades, para prejudicarem
os pobres em juízo, e para arrebatarem o direito dos aflitos do
meu povo, e para despojarem as viúvas, e para roubarem os ór­
fãos!" (Is 10.1, 2). Am ós confrontou-se com uma estrutura que
havia transformado o juízo em amargura, absinto é o que signi­
fica o termo "alosna" e os denunciados haviam rasgado a cons­
tituição de Israel ao perverter a justiça (v. 7). Não consideram os
cidadãos de bem que andam corretam ente e falam com sinceri­
dade (v. 10). Até hoje, as pessoas sinceras e honestas não são
bem vistas pelos discípulos dessas escórias da sociedade que Deus
mandou o profeta repreender. Alguns fingem admirar e apoiar os
puros de coração, mas nos bastidores fazem até chacotas. Os
provim entos que mantinham o alto padrão de luxo vinham da
extorsão e das atividades ilícitas.

9 Fazei ouvir isto nos palácios de Asdode e nos palácios da


terra do Egito e dizei: Ajuntai-vos sobre os montes de Samaria
e vede os grandes alvoroços no m eio dela e os oprimidos
dentro dela. 10 Porque não sabem fazer o que é reto, diz o
SENHOR, entesourando nos seus palácios a violência e a des­
truição (Am ós 3.9, 10).

Todas essas maldades devem ser divulgadas do topo dos palácios


de Asdode e do Egito. Se esses povos que eram idólatras e peritos
em matéria de opressão condenam a Israel, quanto mais o Deus
justo? O alvoroço dentro dos muros de Samaria mostra a anarquia
generalizada que a nação estava experimentando. Já fazia tanto
tempo que haviam praticado o bem que perderam o bom senso,
perderam a capacidade de discernimento entre o certo e o errado
(Jr 4.22), pois "não sabem fazer o que é reto" (v. 10).
62 I 0 Ministério Profético na Bíblia

A situação em Jerusalém não era diferente e nas demais cidades


de Judá os profetas Isaías, Miqueias e Sofonias denunciaram as in­
justiças sociais.

21 Como se fez prostituta a cidade fiel! Ela que estava cheia


de retidão! A justiça habitava nela, mas, agora, homicidas. 22
A tua prata se tornou em escórias, o teu vinho se misturou
com água. 23 Os teus príncipes são rebeldes e companheiros
de ladrões; cada um deles ama os subornos e corre após sa­
lários; não fazem justiça ao órfão, e não chega perante eles a
causa das viúvas (Is 1.21-23).

O quadro descreve uma donzela pura que se transformou numa


prostituta. Essa é a comparação que faz o profeta de Jerusalém,
aquela cidade fiel e cheia de retidão dos dias de Davi deteriorou-se
de tal modo que se tornou em antro de homicidas. Seus príncipes,
chefes de escritórios estatais e também juizes absorviam ladrões por
suborno e eram chamados pelo profeta Isaías de "companheiros de
ladrões". Eram tiranos que oprimiam os fracos, pervertendo o direi­
to dos órfãos e das viúvas, práticas abomináveis que tinham a repul­
sa divina, por isso são classificados com o a escória da prata e vinho
misturado com água. Escória é o lixo do metal, o que sobra depois
de sua purificação e depuração, o que não presta para mais nada. O
vinho misturado com água era a cerveja usada pelos filisteus.

1 Mais disse eu: Ouvi agora vós, chefes de Jacó, e vós,


príncipes da casa de Israel: não é a vós que pertence saber o
direito? 2 A vós que aborreceis o bem e amais o mal, que ar-
rancais a pele de cima deles e a sua carne de cima dos seus
ossos, 3 e que comeis a carne do meu povo, e lhes arrancais
a pele, e lhes esmiuçais os ossos, e os repartis com o para a
panela e com o carne do m eio do caldeirão. 4 Então, clamarão
ao SENHOR, mas não os ouvirá, antes esconderá deles a sua
A s F u n ç õ e s S o c ia is e P o lít ic a s d a P r o fe c ia I 63

face naquele tempo, visto que eles fizeram mal nas suas obras
(Mq 3.1-4).
9 Ouvi agora isto, vós, chefes da casa de Jacó, e vós, maio-
rais da casa de Israel, que abominais o juízo e perverteis tudo
o que é direito, 10 edificando a Sião com sangue e a Jerusalém
com injustiça. 11 Os seus chefes dão as sentenças por presen­
tes, e os seus sacerdotes ensinam por interesse, e os seus
profetas adivinham por dinheiro; e ainda se encostam ao SE­
NHOR, dizendo: Não está o SENHOR no m eio de nós? Nenhum
mal nos sobrevirá (Mq 3.9-11).

Miqueias foi profeta do Sul, mas profetizou também sobre o Nor­


te. Duas vezes, no capítulo 3, dirige a palavra às autoridades de
Israel: "Ouvi agora vós, chefes de Jacó, e vós, príncipes da casa de
Israel [...] Ouvi agora isto, vós, chefes da casa de Jacó, e vós, maio-
rais da casa de Israel" (Mq 3.1, 9). Eram juizes que conheciam a lei
e o direito, pois estavam acostumados a sentar-se nas portas da
cidade para julgar os outros, entretanto, eram os principais perver-
tedores da justiça, esses príncipes deviam amar o que é certo, no
entanto, amavam o mal e aborreciam o bem (Rm 2.1). A responsa­
bilidade dos que conhecem a verdade e não a praticam é maior e
por isso o juízo divino sobre eles é mais severo (Tg 3.1).
A Lei de Moisés determina que o julgamento deve ser imparcial,
o juiz não deve defender o pobre e nem o rico, mas fazer cumprir a
lei, aplicar a justiça: "não fareis injustiça no juízo; não aceitarás o
pobre, nem respeitarás o grande; com justiça julgarás o teu próximo"
(Lv 19.15); "não torcerás o juízo, não farás acepção de pessoas, nem
tomarás suborno, porquanto o suborno cega os olhos dos sábios e
perverte as palavras dos justos" (Dt 16.9). Deus está do lado do juiz
que cumpre o seu dever e por essa razão não deve temer a pressão
dos poderosos: "não atentareispara pessoa alguma em juízo, ouvireis
assim o pequeno com o o grande; não temereis a face de ninguém,
64 I 0 Ministério Profético na Bíblia

porque o juízo é de Deus; porém a causa que vos for difícil fareis vir
a mim, e eu a ouvirei" (Dt 1.17). A Nova Tradução na Linguagem de
Hoje emprega no lugar de "porque o juízo é de Deus" a expressão
"pois a sentença que vocês derem virá de Deus", isso mostra a con­
firmação divina do veredito.
Miqueias descreve a baixa condição moral e espiritual numa
linguagem vivida e pitoresca. Esses juizes, que deveriam ser impar­
ciais, são apresentados com o alguém que abate e desossa um animal
no matadouro, pois não hesitam em oprimir e em despojar os pobres
indefesos e inocentes, que condenam o justo por suborno (vv. 2, 3,
11). O profeta Sofonias os classifica com o leões e lobos vorazes
sobre a presa indefesa: "os seus príncipes são leões rugidores no
meio dela; os seus juizes são lobos da tarde, que não deixam os
ossos para o outro dia" (Sf 3.3). A imprensa atual às vezes denuncia
corrupção envolvendo juizes e políticos, o que deixa a população
indignada. Indignação justa, pois espera-se que um juiz de verdade
não proceda de maneira aleivosa. No caso de corruptos, portanto,
trata-se de alguém mal-intencionado que conseguiu ser aprovado
nos exames seletivos. Os maus profissionais estão presentes por
toda a parte, maus juizes, maus advogados, maus médicos, maus
pastores etc., mas são exceções, porém em Israel era prática gene­
ralizada, um sistema bichado, uma casa viciada. As autoridades
legalmente constituídas para a segurança do povo e defesa do di­
reito do cidadão estavam em conluio com o crime organizado de
maneira ostensiva, sem constrangimento algum. Sofonias classifica
Jerusalém de cidade "rebelde e manchada [...] opressora!" (Sf 3.1).
Os mensageiros do Senhor, desde longa data, pregavam chaman­
do o povo ao arrependimento, mas aquela geração rejeitou a Palavra
de Deus, as advertências eram severas, mesmo assim Israel e Judá
não deram atenção à voz do Senhor. Os profetas do Antigo Testa­
mento apresentavam Deus ao povo e desempenhavam o papel de
As F u n ç õ e s S o c ia is e P o lít ic a s d a P ro fe c ia I 65

reformador religioso ou de patriota. Eles não hesitavam em enfren­


tar até reis desobedientes à vontade de Deus (1 Rs 18.18). Esses
homens de Israel lutavam contra a idolatria e zelavam pela pureza
religiosa, pela justiça social e pela fidelidade a Deus. Sua mensagem
devia ser recebida na íntegra por toda a nação (2 Cr 20.20).
Os profetas advertiram durante muito tempo e de várias manei­
ras, anunciando o dia da ira de Deus sobre toda a injustiça e a im­
piedade. As dez tribos do norte desapareceram no cativeiro assírio,
e nunca mais retornaram à terra de seus antepassados. Judá foi para
o desterro, mas Deus prometeu restaurar a nação setenta anos de­
pois (Jr 25.11; 29.10), a profecia se cumpriu, Ciro pôs fim ao cativei­
ro dos judeus (2 Cr 36.20-23). Zorobabel retornou a Jerusalém com
uma leva de judeus para reconstruir a sua a nação, depois Esdras e
Neemias regressaram com outros exilados para a terra de Judá.
A lição serviu no tocante à idolatria, que é repulsa nacional até
hoje em Israel, mas sobre o tema justiça social, Neemias teve muito
ainda o que fazer em Jerusalém. O capítulo 5 do livro que leva o seu
nome narra o estado de miséria do povo e o enriquecimento dos
aproveitadores. Essa obra é o manual do administrador público, deve
ser lida e examinada por todos os políticos.
O tema justiça social ganhou novo fôlego com a vinda do Messias.
O Senhor Jesus disse: "Portanto, tudo o que vós quereis que os homens
vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas"
(Mt 7.12). Devemos tratar as pessoas da mesma maneira que gosta­
ríamos de sermos tratados. As atividades sociais devem acompanhar
a obra da evangelização com o resultado da nova vida em Cristo. O
brado dos profetas encontrou guarida no seio da Igreja.
Jesus ensinou também: "Amai a vossos inimigos, bendizei os que
vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos
maltratam e vos perseguem" (Mt 5.44). Tomás de Aquino classificou
os ensinos de Jesus em Preceitos e Conselhos. Os preceitos seriam
66 I 0 Ministério Profético na Bíblia

as leis morais e os Conselhos as recomendações, o que a Igreja Ca­


tólica mais tarde classificou de pecados mortais e veniais. Os anaba-
tistas e os quakers não viam essa diferença. Martinho Lutero enten­
dia que o Sermão do Monte estava no modelo de Cristo "Dai a César
o que é de César" e nisso separa o estado e a igreja, o que é de ordem
pessoal e de ordem jurídica. O ensino: "Amai a vossos inimigos",
segundo Lutero, não se aplica ao estado a fim de evitar a anarquia.
O compromisso do cristão direciona-se em dois sentidos: vertical
— adoração, atividades espirituais; horizontal — servir à sociedade,
a atividades filantrópicas e sociais. Por isso Deus estabeleceu minis­
térios na Igreja com o dom de socorro: "E a uns pôs Deus na igreja,
primeiramente, apóstolos, em segundo lugar, profetas, em terceiro,
doutores, depois, milagres, depois, dons de curar, socorros, governos,
variedades de línguas" (1 Co 12.28).
E
MISTICISMO
68 I 0 Ministério Profético na Bíblia

O tema profecia e misticismo é o lado negativo do profetismo


bíblico, envolvendo adivinho, mágico, bruxo, sonhador de sonhos,
clarividente, médium etc. Trata-se de prática tão antiga quanto a
humanidade presente na Babilônia, no Egito, na Grécia e nos vários
povos vizinhos de Israel no período do Antigo Testamento, e conti­
nua no tempo presente, conhecida com o ocultismo.
Ocultismo é a crença nas forças ocultas e práticas adivinhatórias
ou divinatórias da magia, astrologia, clarividência, tarô, búzios,
quiromancia, necromancia, numerologia e outras ciências ocultas.
A palavra vem do latim occultus, que significa "secreto, misterioso",
que um ex-sacerdote católico, Eliphas Lévi (Alfred Charles Constant,
seu verdadeiro nome), na França, em 1856, usou pela primeira vez
com o sentido de esoterismo. Ele especializou-se em conhecimentos
gnósticos antigos, na cabala, a mística judaica, escreveu uma obra
em que expõe a teoria, as crenças e as práticas mágicas. Conside­
rava as ciências ocultas com o a babá de todas as religiões, podendo
produzir prodígios e maravilhas capazes de competir com os milagres
das religiões autorizadas. Muitos esotéricos questionam essa equi­
valência ocultismo-esoterismo, mas na prática não dá para separar
essas duas coisas.
O objetivo básico do ocultismo é a busca do saber, do conheci­
mento e do poder, com o diz a sabedoria popular: "informação é
poder". O poder dos mágicos baseia-se no conhecimento exato dos
ritos e fórmulas. As práticas místicas com todo o sistema de adivi­
nhação são também em decorrência do anseio humano em busca
do divino, das incertezas da vida de quem não tem Deus e nem
esperança e do desejo de conhecer o futuro e o desconhecido. As
pesquisas científicas trouxeram à tona explicações racionais dos
diversos fenômenos da vida e da natureza, mesmo assim, a corrida
em busca do misticismo e de toda forma de esoterismo e de ocul­
tismo é cada v ez mais crescente, envolvendo religiosos e intelectu­
P ro fe c ia e M is t ic is m o I 69

ais, políticos e empresários do mundo inteiro. Não houve mudança


com o passar do tempo e nem com o avanço das descobertas nos
vários ramos do saber humano. O que se vê hoje não é muito dife­
rente do fenômeno religioso manifesto entre os antigos vizinhos de
Israel que aparece nos relatos bíblicos. As crenças e práticas deles
são condenadas porque os seus adeptos ou aqueles que consultam
seus intermediários não estão buscando a Deus, mas a espíritos
estranhos, e o Senhor nunca deixou de se comunicar com o seu povo
de maneira coletiva ou mesmo com cada um de maneira individual.
A história bíblica está repleta de exemplos dessas experiências.
Assim, os místicos, tanto intermediários com o os que consultam,
estão de fato adorando a outros deuses.

O OCULTISMO E A LEI DE MOISÉS

Antes de Moisés anunciar a promessa de Deus sobre o estabe­


lecimento do ministério profético em Israel (Dt 18.15-22), ele ad­
vertiu o povo para que ninguém se envolvesse com práticas divi­
natórias e enumerou algumas delas, dizendo serem parte do culto
pagão dos cananeus. Em outras passagens das Escrituras mostram
que eram também dos outros povos, e são rituais abomináveis
diante de Deus: "pois todo aquele que faz tal coisa é abominação
ao SENHOR; e por estas abom inações o SENHOR, teu Deus, as
lança fora de diante de ti. Perfeito serás, com o o SENHOR, teu Deus.
Porque estas nações, que hás de possuir, ouvem os prognostica-
dores e os adivinhadores; porém a ti o SENHOR, teu Deus, não
permitiu tal coisa" (Dt 18.12-14).
A lista de Moisés com eça com o ritual de sacrificar crianças:
"Entre ti se não achará quem faça passar pelo fogo o seu filho ou a
sua filha" (Dt 18.10a). Trata-se de uma prática abominável muito
comum entre os adoradores de Moloque, deus nacional dos amoni-
70 I O Ministério Profético na Bíblia

tas (1 R 11.7; 2 Rs 23.10; Jr 7.31). Os adeptos do satanismo ainda


hoje praticam, às esconsas, esse sacrifício criminoso por toda parte,
quando se descobre é denunciado pela mídia. Depois ele apresen­
ta cinco tipos de oficiais ocultistas: 1) adivinhador, 2) prognosticador,
3) agoureiro, 4) feiticeiro, 5) encantador de encantamentos (Dt 18.10b
-11a). Em seguida, enumera três classes de consulentes: os que
consultam um espírito adivinhante, o mágico e os mortos (Dt 18.11b).
Os termos hebraicos que aparecem aqui para cada tipo de adivinha­
ção são amplos e complexos, dependem, muitas vezes, do contexto
para sua compreensão.

10 - Entre ti se não achará quem faça passar pelo fogo o


seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador,
nem agoureiro, nem feiticeiro, 11 - nem encantador de encan­
tamentos, nem quem consulte um espírito adivinhante, nem
mágico, nem quem consulte os mortos.

^ s a i tímaí pira craop dop mz inarlas T o ra x s ít-íò 10

c^nairSx « h ii ^ ir n aix Sxíin ~on “iam 11

A seguir o significado dos termos básicos no campo da adivinha­


ção mencionados nos w . 10 e 11, de acordo com o Dicionário Inter­
nacional de Teologia do Antigo Testamento de R. Laird Harris, Gleason
L. Archer Jr. e Bruce K. Waltke, das Edições Vida Nova.
O verbo DDp (qãsam), "praticar adivinhação", o substantivo de­
rivado DDp (qesem) significa "adivinhação, feiticeiro"; (nfônen)
vem de ]3S? ( 'ãnan), literalmente significa "fazer agouros pela nuvem",
mas o seu sentido é ampliado: "observar os tempos, praticar adivi­
nhação, espiritismo, magia, bruxaria e encantamento", traduzido na
Versão Almeida Corrigida por "prognosticador” ; ttfn3ü (menafiesh)
vem de tón? (nafiash) "adivinhação, encantamento, presságio, fei-
P r o fe c ia e M is t ic is m o I 7 1

tiçaria, agouro"; (rrfchashsheph), de (kashshãph), "feiti­


ceiro, encantador";
No v. 11 aparece a expressão “ QJ7 “1317 (hõvêr hãver) "encan­
tador de encantamento", do verbo “ 1311 (hãvar) "ser ajuntado, liga­
do, reunido, ajuntado, ter comunhão com, ser compacto, fazer
encantos. Segundo The Brown Driver Briggs Hebrew and English
Lexicon, conhecido pela sigla BDB, afirma ainda que significa: "unir,
dar um nó mágico". O 2ÍN ( ’ôv) é "alguém que tem um espírito
familiar", o termo significa: "médium, espírito, espírito de mortos,
necromante e mágico", a versão Alm eida Corrigida traduz, aqui,
por "espírito adivinhante". A LXX emprega o termo éYYaaTpíiiueoç
(engastrimythos), "ventríloquo"; o Dictionnaire Grec Français, de A.
Bailly, acrescenta: "que dá oráculos ou faz predições falando do
ventre" e aparece nas seguintes passagens Lv 19.31; 20.6; Dt 18.11;
1 Sm 28.3, 7, 9; 1 Cr 10.13; 2 Cr 33.6; Is 8.19; 19.3; 44.25; em Isaías
8.19, estão traduzidas duas palavras hebraicas ov e ideoni. A ex­
pressão "quem consulte os mortos" é literal usada para indicar a
necromancia. O necromante é o ov, aquele que faz adivinhação
por m eio de consulta aos mortos, a prática mediúnica. A palavra
grega veKUO(iocvT€Ía (nekuomanteia) "necromancia, adivinhação por
m eio da evocação dos mortos", diferente de engastrimythos, não
aparece na versão grega dos Setenta; vem de vétcuç (nekys) "morto,
cadáver, espírito dos mortos", e de \xavxtia (manteia) "predição,
vaticínio, adivinhação, poder divinatório". O último termo da lista
de Moisés é 'ÍW V (yidde‘õni) "espírito familiar, mágico, agoureiro,
adivinhos", aqui é traduzido por "m ágico".
Há outros termos ligados à arte divinatória, prática de que Israel
deveria se manter longe por ser considerada abominável aos olhos
de Deus, 'tSN ( ‘ittí) "encantador, mágico, adivinhador" aparece só
uma v ez no Antigo Testamento (Is 19.3) juntamente com os ovoth
e os ydeonim. A palavra ( ‘ashshãph) "astrólogo, encantador,
72 I 0 Ministério Profético na Bíblia

exorcista, prestidigitador, necromante" só aparece no livro de Daniel.


O vocábulo Diü"in (hartõm) "m ago" é usado para identificar uma
classe de adivinho de Faraó, no Egito (Gn 41.8; ÊX 7.11,22; 8.7, 18;
9.11) e, também, de Nabucodonosor, na Babilônia (Dn 1.120; 2.2,
10, 27; 4.4, 6; 5.11).
A adivinhação no N ovo Testamento só aparece em Atos 16.16,
no relato da jovem de Filipos que tinha "espírito de adivinhação". O
texto grego registra 7Tveu(ia m>9cova (pneuma pythõna), "espírito de
píton". O termo ttúGcov (pythõn), "adivinho, ventríloquo, píton", de
onde vem a palavra "pitonissa", era o nome de um dragão guardião
do templo de Apoio, o oráculo de Delfos. Acreditava-se que Apoio
se encarnava nessa serpente para inspirar as pitonissas.

O MÍSTICO BALAÃO

Balaão é um exem plo clássico de profeta ou vidente místico


capaz de confundir o povo com suas práticas divinatórias. Até hoje
é um personagem bíblico controvertido, apesar de a Bíblia não
deixar dúvidas quanto ao seu caráter corrompido. Em nenhum lugar
da Bíblia ele é considerado profeta do Deus vivo, mas sim encan­
tador de encantamentos, de adivinho: "não foi esta v e z com o dan­
tes ao encontro de encantamentos" (Nm 24.1). A versão Almeida
Atualizada emprega "agouros", no lugar de "encantamentos", para
traduzir o termo hebraico tínjí (nahash), "adivinhação". Nas outras
vezes ele vaticinou em transe, usando técnicas extáticas e mágicas,
mas dessa v e z tinha de falar o que Deus mandava. Foi morto com o
os demais inimigos do povo de Deus: "Também os filhos de Israel
mataram a fio de espada a Balaão, filho de Beor, o adivinho, com o
os mais que por eles foram mortos" (Nm 31.8; Js 13.22). O apóstolo
Pedro o chama de profeta, no sentido negativo, com o louco, insen­
sato (2 Pe 2.16).
P ro fe c ia e M is t ic is m o I 73

Sua história é contada nos capítulos 22 a 24 de Números. Seu


nome em hebraico é 017^2 (biVãm), "devorador, engulidor". Balaão
é identificado nessa narrativa com o filho de um certo Beor, natural
de Petor, cidade da Mesopotâmia, em Arã (22.5). Era um feiticeiro,
cartomante, prognosticador conhecido nos países vizinhos pelos
sortilégios e pelas adivinhações e por essa razão foi contratado pelo
rei Balaque, dos moabitas, para amaldiçoar a Israel. Os enviados do
rei levaram antecipadamente o pagamento "dos encantamentos"
(22.7) ou das "adivinhações", pois aparece no texto hebraico o termo
qesem, que, segundo o Dicionário Internacional de Teologia do Antigo
Testamento, significa: "adivinhação, feitiçaria, bruxaria, leitura da
sorte, agouro, sorte, oráculo, decisão" (p. 1.325).
Segundo Wilson, a natureza da atividade de Balaão é atestada
também num documento escrito em aramaico, encontrado em Deir
'Alia, na Jordânia, segundo os paleógrafos, sua data é de aproxi­
madamente 700 a.C. A primeira linha declara: "inscrição de Balaão
filho de Beor; ele era um homem, um vidente de (os) deuses, e
deuses vieram a ele à noite" (p. 166). O documento afirma ainda
que o adivinho recebeu um oráculo de ruína e de maldição dos
deuses, o que parece se harmonizar com a narrativa de Números
2 2 - 2 4 (p. 165).
Suas parábolas são pronunciadas em quatro oráculos. No primei­
ro, ele afirma que Israel não pode ser amaldiçoado porque Deus o
escolheu com um propósito definido (23.7-10); no segundo, fala que
Deus não encontrou pecado no seu povo para o amaldiçoar (23.18-
24); no terceiro, anuncia de antemão as vitórias dos hebreus sobre
os seus inimigos (24.3-9); e, finalmente, no quarto oráculo (24.15-
19), uma profecia messiânica: "Vê-lo-ei, mas não agora; contemplá-
lo-ei, mas não de perto; uma estrela procederá de Jacó, e um cetro
subirá de Israel" (24.17). O homem de Deus deve ser reconhecido
pela sua conduta e doutrina e não pelos dons: "Por seus frutos os
74 I 0 Ministério Profético na Bíblia

conhecereis" (Mt 7.16). Segundo Emílio Conde, em sua obra Tesou­


ro de Conhecimentos Bíblicos, Balaão usava a técnica de Satanás no
Éden, de misturar a verdade com a mentira, para evitar suspeitas (p.
98, 99). Balaão era um amaldiçoador profissional, no entanto, mes­
mo contra a sua vontade, teve que abençoar Israel. Visto não poder
amaldiçoar a quem Deus abençoou, procurando agradar a Balaque
que lhe ofereceu dinheiro e presentes, orientou o rei a induzir os
filhos de Israel à idolatria e ã prostituição com mulheres moabitas,
o que levou os hebreus ao desvio e por isso 24.000 homens em Is­
rael perderam a vida (Nm 31.16; Ap 2.14).

SAUL E A MÉDIUM DE EN-DOR

O rei Saul iniciou bem o seu reinado, mas não demorou muito
para sair da direção de Deus, de todos os problemas parece que a
prática divinatória o levou à ruína fatal. Ele necessitava de uma
palavra da parte de Deus, que "não lhe respondeu, nem por sonhos,
nem por Urim, nem por profetas" (1 Sm 28.6). Samuel era o vidente
cujas palavras eram oráculos divinos e por m eio de revelação rece­
beu a ordem de Deus para o ungir rei sobre Israel, mas agora o
homem de Deus havia morrido. Mesmo assim acreditava ser possí­
vel falar com o profeta, mesmo depois de morto, por meio de uma
necromante, uma mulher ov, D ÍN T lb y a {baãlath- 'ov), literalmente
"dona ov", expressão que aparece duas vezes no v. 7, traduzida por
"mulher médium" na versão Almeida Atualizada: "Então, disse Saul
aos seus servos: Apontai-me uma mulher que seja médium, para
que me encontre com ela e a consulte. Disseram-lhe os seus servos:
Há uma mulher em En-Dor que é médium" (1 Sm 28.7); a Almeida
Corrigida traduz por mulher que tem "espírito de feiticeira [...] es­
pírito de adivinhar" e a Tradução Brasileira verte as duas vezes por
mulher que consulta "espírito familiar".
P r o fe c ia e M is tic is m o I 75

A médium de En-Dor afirma que Saul havia "destruído da terra os


adivinhos e os encantadores" {1 Sm 28.9), em hebraico os ovoth, plural
de ov, e os ideoni a versão Almeida Atualizada traduziu por "espíritos"
e "espírito familiar": "exterminou da terra os que consultam espíritos
ou espírito familiar". Em seguida, ela revela o que vê, ela não afirma
ter visto Samuel, mas disse "Vejo deuses que sobem da terra" (1 Sm
28.13). Quando Saul pede a sua descrição, ela relata: "Vem subindo
um homem ancião e está envolto numa capa. Entendeu Saul que era
Samuel" (v. 14). Aquele espírito se disfarçou de Samuel, mas não era
ele, pois a necromante alegou ter visto "deuses" e só depois que rece­
beu a entidade é que reconheceu Saul (v. 12). A Bíblia declara também
que nenhuma palavra de Samuel caiu por terra (1 Sm 3.19), no entan­
to, a mensagem que Saul recebeu não se cumpriu: "Amanhã tu e teus
filhos estareis comigo" (1 Sm 28.19), Saul não morreu no dia seguinte
e com ele morreram três filhos: Jônatas, Abinadabe e Malquisua" (1 Sm
31.2) e o relato reafirma que foram três os filhos mortos de Saul naque­
le dia (w . 6, 8). Continuaram vivos Isbosete, Armoni e Mefibosete (2
Sm 2.8-10; 21.8). O destino dos desviados não é o mesmo do dos salvos
ou será que Saul foi ao mesmo lugar para onde foi Samuel na morte?
Quando, naquela época, alguém consultava um profeta de Deus
era o mesmo que consultar a Deus, pois o profeta era porta-voz de
Deus. A Bíblia, entretanto, afirma que Saul consultou a "feiticeira e
não a Samuel nem ao Senhor: "Assim, morreu Saul por causa da
sua transgressão com que transgrediu contra o SENHOR, por causa
da palavra do SENHOR, a qual não havia guardado; e também por­
que buscou a adivinhadora para a consultar" (1 Cr 10.13,14). Se Saul
tivesse consultado a Samuel teria consultado a Javé, Deus de Israel.
Na verdade, essa consulta por meio do suposto Samuel foi aos de­
mônios e não a Deus. Ele foi em busca de adivinhações, contrarian­
do os preceitos de Deuteronômio 18.9-14 que ordena o povo a se
afastar dessas práticas abomináveis.
76 I 0 Ministério Profético na Bíblia

ASTROLOGIA

Astrologia. O termo hebraico ashshaph (Dn 1.20; 2.2) ou seu


cognato aramaico ashaph (Dn 2.10, 27; 5.7, 11, 15), empregado
para "astrólogo", só aparece no livro de Daniel. É a arte divinatória
que afirma a influência dos astros sobre a sorte dos seres humanos,
crença ou superstição em que eles pressagiam ou determinam o
destino dos seres humanos e até de nações. Essa forma de adivi­
nhação se originou no Oriente Médio, Babilônia para ser mais
preciso. Veja que os astrólogos faziam parte do séquito de Nabu-
codoonosor (Dn 2.2), região onde as noites são límpidas e, assim,
do alto dos zigurates,1os antigos sacerdotes observavam as estre­
las e a marcha dos planetas, apenas cinco eram conhecidos na
antiguidade: Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno, que são
divindades para os romanos.
Mercúrio era divindade de Roma, tido pelos romanos com o
porta-voz de Júpiter, que para eles era o pai dos deuses.2 Marte era
o deus da guerra, Vênus a deusa do amor e Saturno deus da agri­
cultura. As consultas astrológicas são de fato a esses deuses. Sua
influência foi marcante nas religiões pagãs da Mesopotâmia, Egito,
Grécia, Roma e Extremo Oriente, vindo a sofrer decadência com o
surgimento do cristianismo.

1 O term o “zigurate", do acádico ziqqurratu, significa "pináculo" e designa, também, o topo de uma
montanha. Os zigurates eram gigantescos edifícios, torres-templos sagrados, que, com o passar
do tempo, foram construídas inúmeras delas. Algum as dezenas sobreviveram a o tempo, com o
o Zigurate de Uruque, no Iraque, a antiga Ereque, reinado de Ninrode, lider da rebelião de Babel
(Gn 10.10), entre o mais antigo do mundo.
2 Quando o apóstolo Paulo, juntamente com Barnabé, curou em nom e de Jesus um paralítico em
Listra, o povo da região interpretou essa manifestação do sobrenatural conform e a sua cultura: "E
as multidões, vendo o que Paulo fizera, levantaram a vo z, dizendo em língua licaônica: Fizeram-
se os deuses semelhantes aos hom ens e desceram até nós. E cham avam Júpiter a Barnabé, e
Mercúrio, a Paulo, porque este era o que falava" {At 14.11, 12). Paulo foi cham ado de Mercúrio
porque era quem falava, assim, o po vo o interpretou com o porta-voz de Barnabé, a quem chamou
de Júpiter.
P ro fe c ia e M is t ic is m o I 77

O horóscopo da atualidade presente em jornais e revistas,


aparentemente uma brincadeira inofensiva, é na verdade consul­
ta às divindades pagãs por m eio dos astros. O term o vem de duas
palavras gregas: copa (hõra) "hora" e okoitÓç (scopos) "observador".
As predições da astrologia são baseadas na posição dos astros
no m om ento do nascim ento ou de qualquer acontecim ento le­
vando em consideração local e data. Os astrólogos mapearam o
céu dividindo em 12 partes iguais, que são os signos ou conste­
lações do zodíaco.
O livro de Jó faz menção de três constelações: Sete-Estrelo ou
Plêiade, Órion e Ursa Maior: "o que faz a Ursa, e o Órion, e o Sete-
estrelo, e as recâmaras do sul [...] Ou poderás tu ajuntar as cadeias
do Sete-estrelo ou soltar os atilhos do Órion? Ou produzir as cons­
telações a seu tempo e guiar a Ursa com seus filhos?" (Jó 9.9; 38.31,
32). O termo hebraico n Í“ l-TD ou níS-TE (mazzãrôth ou mazzãalôth)
"constelações", seu cognato acádico indica as fases da lua. O vocá­
bulo aparece apenas duas vezes no Antigo Testamento: em Jó 38.32
para mostrar a sabedoria e o poder criador de Deus e em 2 Reis 23.5
para referir-se ao culto pagão aos astros: "com o também os que
incensavam a Baal, ao sol, e à lua, e aos mais planetas, e a todo o
exército dos céus". Segundo Gesenius a palavra é usada no judaísmo
para designar as constelações do Zodíaco.
Os astrólogos da corte de Nabucodonosor fracassaram nas suas
adivinhações (Dn 2.10), no entanto, Daniel triunfou: "O segredo que
o rei requer, nem sábios, nem astrólogos, nem magos, nem adivinhos
o podem descobrir ao rei. Mas há um Deus nos céus, o qual revela
os segredos" (Dn 2.27, 28). Aí está a diferença entre profecia e adi­
vinhação, entre revelação e presságio. Os astros foram criados para
separar os dias e as noites e "para sinais e para tempos determina­
dos e para dias e anos" (Gn 1.14) e não para serem consultados
sobre as coisas do futuro.
78 I O Ministério Profético na Bíblia

Deus condena essas práticas: "Cansaste-te na multidão dos teus


conselhos; levantem-se, pois, agora, os agoureiros dos céus, os que
contemplavam os astros, os prognosticadores das luas novas, e
salvem-te do que há de vir sobre ti" (Is 47.13); "Assim diz o SENHOR:
Não aprendais o caminho das nações, nem vos espanteis com os
sinais dos céus; porque com eles se atemorizam as nações" (Jr 10.2).
Consultar horóscopos é trocar Deus pelos demônios, é substituir a
Bíblia pelos prognósticos dos astrólogos, por isso que a Palavra de
Deus proíbe e condena essas práticas.

OUTRAS PRÁTICAS DIVINATÓRIAS

Hidromanáa. É a arte divinatória por meio da água. Essa forma


de adivinhação era praticada no Egito: "Não é este o copo por que
bebe meu senhor? E em que ele bem adivinha? Fizestes mal no que
fizestes" (Gn 44.5). José mandou que se colocasse seu copo de pra­
ta no saco de mantimento do seu irmão Benjamim, sem que ele
soubesse. Depois, seus servos seguem no encalço deles, fingindo
nada saber, e encontraram o tal objeto entre os pertences do filho
caçula de Jacó. A expressão usada pelos criados de José revela ser
a hidromancia prática comum naquela cultura, não que José fosse
adivinho, pois não era egípcio e servia ao Deus vivo, isso fazia par­
te de sua estratégia.

Belomancia, tcraflns e hepatscopia. O profeta Ezequiel registra três


formas de adivinhação praticada pelo rei Nabucodonosor:

"Porque o rei de Babilônia parará na encruzilhada, no cimo


dos dois caminhos para fazer adivinhações; aguçará as suas
flechas, consultará os terafins, atentando nas entranhas" (Ez
21.21 [v. 26 no texto hebraico]).
P r o fe c ia e M is t ic is m o I 79

A primeira forma é a belomancia "para fazer adivinhações; agu­


çará as suas flechas'' (v. 21 .a). Trata-se da arte de adivinhar por meio
de flechas, elas são marcadas com nomes de pessoas ou de lugares
e sacudidas numa aljava para depois tirar sorte, tirando uma delas
do recipiente.
A segunda é por m eio de terefins: "consultará os terafins'' (21 .b).
O termo "terafim" já é plural, em hebraico, e aparece no Antigo Tes­
tamento com o ídolos domiciliares (Gn 31.19; 30, 32), de origem
mesopotâmica. Era também uma forma de adivinhação: "E também
os adivinhos, e os feiticeiros, e os terafins, e os ídolos, e todas as
abominações que se viam na terra de Judá e em Jerusalém, os ex­
tirpou Josias" (2 Rs 23.24); "Porque os terafins têm falado vaidade, e
os adivinhos têm visto mentira e descrito sonhos vãos; com vaidade
consolam; por isso, vão com o ovelhas, estão aflitos, porque não há
pastor" (Zc 10.2). John B. Taylor, em sua obra intitulada, Ezequiel -
Introdução e Comentário, declara: "Mas, se eram figuras de ancestrais,
presumivelmente seriam usados com o médiuns para obter oráculos
dos defuntos'' (p. 149).
E a terceira modalidade é a hepatoscopia: "atentando nas entra­
nhas" (21 .c), por meio das entranhas do animal, mas precisamente
do fígado. Era uma forma divinatória usada pelo rei de Babilônia.
O profeta Oseias denuncia outra forma de adivinhação, a rabdo-
mancia, adivinhação por meio da vara: "O meu povo consulta a sua
madeira, e a sua vara lhe responde, porque o espírito de luxúria os
engana, e eles se corrompem, apartando-se da sujeição do seu Deus"
(Os 4.12). É de causar espanto que uma nação com o Israel, conhe-
cedora dos feitos grandiosos do Deus Javé de seus antepassados,
agora se envolva numa apostasia generalizada a ponto de se sub­
meter a práticas ignominiosas, revelando até que ponto o pecado
leva o ser humano. Isso acontece porque o Espírito Santo não esta­
va mais sobre eles, mas o "espírito de luxúria". Quando o ser huma­
80 I 0 Ministério Profético na Bíblia

no se submete ao espírito das trevas, entregando-se às práticas


ocultistas, é porque não quer mais se submeter à vontade de Deus.
Em resumo, adivinhação não é a mesma coisa que profecia. Os
vaticínios divinatórios não vêm de Deus, mas de fontes estranhas e
a Bíblia está repleta de advertências contra esses místicos e suas
práticas, mas hoje muitos não levam em conta as advertências da
Palavra de Deus. Infelizmente o Brasil está mergulhado no mais
profundo ocultismo. Os livros esotéricos e da Nova Era em geral são
os campeões de vendas. Filmes e novelas, atualmente, são os maio­
res m eios de disseminação da necromancia e várias formas de
adivinhação. Esse é um dos grandes desafios da Igreja atual.
A AUTENTICIDADE
DA
82 I O Ministério Profético na Bíblia

A profecia bíblica é de origem divina e essa verdade é compro­


vada nas páginas das Escrituras, na História e na atualidade, basta
observar o cenário geopolítico e os acontecimentos dos meios de
comunicação. O presente capítulo pretende apresentar a palavra
profética que está se cumprindo e esse fato está diante de todos na
atualidade. A maior parte das profecias messiânicas se concretizou
no Novo Testamento, mas o resultado pode ser visto ainda hoje na
vida da Igreja, outras ainda vão se cumprir, mas o cenário está
pronto, mostrando que não se trata de algo estanque, é parte da
jornada histórica das nações, dos acontecimentos ao longo da His­
tória. O mesmo pode ser dito sobre as profecias escatológicas.
O capítulo 53 de Isaías impressiona pela abundância de detalhes
e é humanamente impossível alguém apresentar tantas minúcias
com tantos séculos de antecedência. A autenticidade da profecia
pode ser confirmada não somente nas predições messiânicas, mas
em diversas áreas. O enfoque do presente capítulo é sobre o destino
de algumas nações. Os profetas falaram sobre o fim de muito povos,
mas aqui será apresentado um breve com entário sobre o destino
do império babilônico e da cidade de Babilônia; da cidade-estado
fenícia de Tiro, e, de forma especial, o moderno Estado de Israel
com o evidência incontestável da autenticidade da profecia bíblica,
tanto as duas diásporas com o a sua restauração.

SOBRE A BABILÔNIA

O profeta Isaías anunciou de antemão o fim da Babilônia numa


época em que ela vivia o apogeu, afirmando que ela seria destruída
e nunca mais reerguida:

E Babilônia, o ornamento dos reinos, a glória e a soberba dos


caldeus, será como Sodoma e Gomorra, quando Deus as trans-
A A u te n tic id a d e d a P r o fe c ia I 83

tomou. Nunca mais será habitada, nem reedificada de geração


em geração; nem o árabe armará ali a sua tenda, nem tampouco
os pastores ali farão deitar os seus rebanhos (Is 13.19,20).

O império de Nabucodonosor foi o mais poderoso do Oriente


Médio durante o período áureo da profecia hebraica. Note que não
se trata de mera previsão vaga, mas de uma mensagem precisa e ao
mesmo tempo ousada, pois anunciar a ruína da capital de um impé­
rio é possível que um dia do futuro, depois de alguns milhares de
anos venha a acontecer, nesse caso seria uma probabilidade. Porém,
aqui afirma que será com o Sodoma e Gomorra, que a maldição sobre
essas e outras cidades da região foi estarrecedora, pois era a região
local de campina: "E levantou Ló os seus olhos e viu toda a campina
do Jordão, que era toda bem regada, antes de o SENHOR ter destru­
ído Sodoma e Gomorra, e era com o o jardim do SENHOR, com o a
terra do Egito, quando se entra em Zoar" (Gn 13.10). Depois disso,
tomou-se em deserto abrasador, onde não nasce nem capim: ''e toda
a sua terra abrasada com enxofre e sal, de sorte que não será sem e­
ada, e nada produzirá, nem nela crescerá erva alguma, assim como
foi a destruição de Sodoma e de Gomorra, de Admá e de Zeboim,
que o SENHOR destruiu na sua ira e no seu furor" (Dt 29.23).
Esses oráculos de Isaías pareciam loucura para o homem daquela
geração, era com o se alguém dissesse que a cidade de Nova Iorque
iria deixar de existir para sempre, ad eterno. Qual seria a reação das
autoridades contemporâneas? O rei de Babilônia deve ter feito cha­
cota e escárnio, afinal, tratava-se da maior potência militar e econô­
mica do mundo, mas o cumprimento veio paulatinamente. O profeta
Jeremias ratificou essa palavra profética quando Deus prometeu pre­
servar Israel sobre a terra: "porquanto darei fim a todas as nações
entre as quais te espalhei" (Jr 30.11). Babilônia é hoje, com o descreve
a profecia, completa ruína e desolação e o árabe não arma a sua
84 I 0 Ministério Profético na Bíblia

tenda e nem o pastores fazem deitar os seus rebanhos. Sadam Hussein


procurou reconstruir a cidade, preparou um projeto ambicioso de
reconstrução, mas se endividou muito e terminou invadindo o Kuait
e assim começou a sua decadência com a Guerra do Golfo e o seu
fim não foi nada honroso. A profecia continua de pé: "Nunca mais
será habitada, nem reedificada de geração em geração”.

SOBRE AS CIDADES FENÍCIAS DE TIRO E SIDOM

A Fenícia ficava numa região localizada no litoral mediterrâneo


tendo fronteira com a Galileia, numa faixa estreita de terra que se
alarga abrangendo os montes Líbanos e Anti-Líbanos. Destacou-se
na história pela arte náutica. Eram inigualáveis navegadores e pe­
ritos mercadores. Fenix é uma planta da família das palmácias e,
também, uma ave do Egito, que segundo a tradição, renascia das
suas próprias cinzas, depois de queimada. Esse nome foi dado a essa
terra pelo fato de haver tamareiras em abundância na região ou pelo
fato de haver sobrevivido às muitas destruições. A Fenícia é a região
do atual Líbano.
Os fenícios procederam de Sidom, filho de Canaã (Gn 10.15, 19;
Is 23.11, 12). Povo muito antigo (Is 23.7). Não encontramos o nome
"Fenícia" no Antigo Testamento, apenas no N ovo (At 11.19; 15.3;
21.2). Tiro e Sidom são as suas principais cidades-estados. Eles
fundaram feitorias em Cartago, Malta, Silícia, Sardenha com o en­
trepostos para o desenvolvimento do comércio. Eram idólatras. Sua
divindade nacional era Baal e adoravam também a Astarote e a
Aserá (1 Rs 11.5; 16.31; 18.19).
Nos evangelhos a região é designada por "região de Tiro e Sidom"
(Mt 15.21; Mc 7.26; Lc 6.17). Essa região serviu de refúgio para os
discípulos de Jesus juntamente com Chipre e Antioquia da Síria, por
ocasião da perseguição movida pelos judeus, depois do assassinato
A A u te n tic id a d e d a P ro fe c ia I 85

de Estêvão. Paulo e Barnabé atravessaram a região depois que re­


gressaram da primeira viagem missionária. Quando retornava de sua
terceira viagem missionária, Paulo desembarcou nas proximidades
de Tiro, na Fenícia, e seguiu em direção a Jerusalém (At 21.2, 3).
Durante o apogeu de sua glória Ezequiel profetizou contra Tiro
anunciando de antemão o seu fim:

2 Filho do homem, visto com o Tiro disse no tocante a Je­


rusalém: Ah! Ah! Está quebrada a porta dos povos; virou-se
para mim; eu me encherei, agora que ela está assolada, 3
portanto, assim diz o Senhor JEOVÁ: Eis que eu estou contra
ti, ó Tiro, e farei subir contra ti muitas nações, com o se o mar
fizesse subir as suas ondas. 4 Elas destruirão os muros de Tiro
e derribarão as suas torres; e eu varrerei o seu pó e dela farei
uma penha descalvada. 5 No m eio do mar, virá a ser um en-
xugadouro das redes; porque eu o anunciei, diz o Senhor
JEOVÁ; e ela servirá de despojo para as nações. [...] 14 E farei
de ti uma penha descalvada; virás a ser um enxugadouro das
redes, nunca mais serás edificada; porque eu, o SENHOR, o
falei, diz o Senhor JEOVÁ (Ez 26.2-5, 14).

Tiro era uma importante cidade-estado da costa fenícia, situada


a 40 quilômetros ao norte da Galileia e 40 ao sul de Sidom, outra
cidade-estado. Havia nela dois portos, uma na ilha e outro no con­
tinente, o Porto Velho, ambos eram uma das causas de sua impor­
tância no com ércio e nas navegações. Ela alegrou-se muito com a
destruição de Jerusalém, em 587 a.C., porque esta havia se torna­
do uma grande concorrente (v. 2). O profeta Ezequiel profetizou
contra ela, anunciando sua ruína para sempre: "farei de ti uma
penha descalvada; virás a ser um enxugadouro das redes, nunca
mais serás edificada" (v. 14). Atualmente, Tiro é isso de que falou
de antemão o profeta.
86 I 0 Ministério Profético na Bíblia

Sidom era outra cidade importante da Fenícia e o profeta Ezequiel


dirigiu seus oráculos também contra ela, dizendo:

"21 Filho do homem, dirige o rosto contra Sidom e profetiza


contra ela, 22 e dize: Assim diz o Senhor JEOVÁ: Eis-me contra
ti, ó Sidom, e serei glorificado no meio de ti; e saberão que eu
sou o SENHOR, quando nela executar juízos e nela me santificar.
23 Porque enviarei contra ela a peste e o sangue nas suas ruas,
e os traspassados cairão no meio dela, estando a espada em roda
contra ela; e saberão que eu sou o SENHOR" (Ez 28.21 -23).

Observe que o profeta que predisse o fim de Tiro anunciou tam­


bém o castigo sobre Sidom, mas não disse que a cidade seria des­
truída e desabitada para nunca mais ser reedificada, por isso, ela
existe ainda hoje, no atual Líbano.

ISRAEL

A história de Israel está ligada ao contexto escatológico. Deus


escolheu esse povo com um tríplice propósito. O primeiro foi mostrar
ao mundo o seu poder e a sua glória, e que somente Ele é Deus:
"Porque diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo te levantei, para em
ti mostrar o meu poder e para que o meu nome seja anunciado em
toda a terra" (Rm 9.17). A passagem afirma que ele levantou o Faraó
para que, por meio da sua intolerância com os hebreus, o Senhor
pudesse abater esse monarca e dar liberdade ao povo da promessa
e assim mostrar ao mundo o seu grande e eterno poder. O segundo
objetivo foi dar ao mundo os seus oráculos: "Qual é, logo, a vantagem
do judeu? Ou qual a utilidade da circuncisão? Muita, em toda manei­
ra, porque, primeiramente, as palavras de Deus lhe foram confiadas”
(Rm 3.1,2). Israel foi receptáculo dos oráculos divinos, o Senhor deu
a Bíblia às nações por meio dos israelitas. E, finalmente, o terceiro,
A A u te n tic id a d e d a P ro fe c ia I 87

dar ao mundo o Salvador: "em ti serão benditas todas as famílias da


terra" (Gn 12.3), promessa divina feita a Abraão e Jesus disse à mulher
samaritana: "porque a salvação vem dos judeus" (Jo 4.22).
Deus fez um concerto com Israel no monte Sinai, ratificando as
promessas feitas aos patriarcas Abraão, Isaque e Jacó: "agora, pois, se
diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes o meu concerto,
então, sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos;
porque toda a terra é minha" (Êx 19.5), o que foi ratificado depois me­
diante um sacrifício: "Então, tomou Moisés aquele sangue, e o espargiu
sobre o povo, e disse: Eis aqui o sangue do concerto que o SENHOR
tem feito convosco sobre todas estas palavras" (Êx 24.8). Uma vez
rompida essa aliança, o povo estaria vulnerável diante das nações, e
a sua diáspora uma ameaça constante, pregada tanto por Moisés: "E
vos espalharei entre as nações e desembainharei a espada atrás de
vós; e a vossa terra será assolada, e as vossas cidades serão desertas"
(Lv 26.33); como também por advertências similares em Deuteronômio
(28.25, 36, 37). Os profetas que vieram depois alertaram o povo e as
suas autoridades sobre tal perigo: "Portanto, lançar-vos-ei fora desta
terra, para uma terra que não conhecestes, nem vós nem vossos pais;
e ali servireis a deuses estranhos, de dia e de
noite, porque não usarei de misericórdia con­
vosco" (Jr 16.13) e pelo Senhor Jesus Cristo,
que anunciou a segunda diáspora: "E cairão
jr a fio de espada e para todas as nações serão
levados cativos; e Jerusalém será pisada pelos
gentios, até que os tempos dos gentios se com­
pletem" (Lc 21.24). A destruição de Jerusalém no
ano 70, por Tito, general romano, assinala o
início do cumprimento de profecia.

Museu do Louvre - Tito, general romano que


destruiu Jerusalém em 70 d.C. e veio a ser imperador.
88 I 0 Ministério Profético na Bíblia

A profecia de Jesus fala da dispersão e dos tempos atuais, diz


respeito aos judeus e à Cidade Santa, vislumbra o retorno e a polê­
mica atual em torno de Jerusalém. Zacarias profetizou também
sobre o assunto: "E acontecerá, naquele dia, que farei de Jerusalém
uma pedra pesada para todos os povos” (Zc 12.3).
Quando a cidade de Jerusalém foi destruída, um grupo de judeus
foi viver em Yavne ou Jâmnia, uma região na faixa de Gaza, entre
70 e 132 d.C.. Os rabinos estabeleceram um governo provisório, pois
aguardavam a restauração de sua nação naqueles dias. Nessa oca­
sião o guerreiro Bar Cochba foi apresentado pelo rabino Akiva como
o Messias de Israel.10 povo creu nele, que mais uma v ez se insurgiu
contra Roma. Os líderes do movim ento pretendiam reorganizar o
estado em ambos os lados do Jordão, pois a maioria dos combaten­
tes era proveniente do outro lado desse rio.
Em 132, o imperador Adriano foi pessoalmente à região, esfolou
Bar Cochba vivo. Irritado com a grande baixa de seu exército e pela
"teimosia" do povo judeu que resolutamente rejeitava o jugo roma­
no, decidiu exterminar para sempre a Terra Iudeorum. Uma das
medidas para tal finalidade foi mudar toda a nomenclatura usual
entre os judeus que pudesse relembrar seus vínculos a um estado
independente e soberano. A começar por Jerusalém, deu aspecto
pagão à Cidade Santa, mudando seu nome para Aelia Capitolina, em
honra a Júpiter, deus máximo dos romanos, e proibiu os judeus de
entrarem em Jerusalém sob pena de morte.
O termo b íO to '1 fH K (eretzyisrã ’êl), "Terra de Israel", soava e ain­
da soa muito forte na alma e no íntimo do povo judeu. Depois, para
humilhar os vencidos, os romanos mudaram esse nome para "Pales­
tina", um antigo inimigo de Israel que habitava a faixa costeira medi­
terrânea, em hebraico se chama □ 'r t ó S s (jflish th ím ): os conhecidos

1 O nom e Bar Cochba é aram aico e significa: "Filho da Estrela".


FONTE: HISTÓRIA UNIVERSAL DOS JUDEUS A A u te n tic id a d e d a P r o fe c ia I 89

Tiro/ è FENlCIA

iECUNDA
r Nahum
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•q • Helenópolii Abila

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'• Maximianópoljç
Capitolias
-CHÓpolis 6 Pela /

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PALESTINA PRII
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A - Elussa
(Khalutsa)
•Màmpsis

Nessana .h Subeita
á * Augustópolis
k m Eboda (Avdat)

PALESTINA TERTIA •h

Limites de provfncia sob


Deocleciano (cerca de 305)
^ Divisão administrativa no período
Petra bizantino (cerca de 405)

CENTRO CRISTÃO NO FINAL:

à Século I

k Século III
Arindela
k Século V

® Sede do Patriarca

Ad Dianam O Sede do Sinédrio depois de 135


Mapa de (Yotvata)
□ Capital de distrito
Israel depois
Local de maioria judaica
>ta
mmimmammmm 25 km
90 I 0 Ministério Profético na Bíblia

Ruína de
Cesareia
Marítima
- Israel.

Aqueduto romar\o
■em Cesareia
- Marítima - Israel.
A A u te n tic id a d e d a P ro fe c ia I 91

filisteus. Daí veio o nome "Palesti­


na”, que significa "Terra dos Filis­
teus”. O país foi dividido em três
regiões, Palestina Prima: Judeia e
Samaria, ficando Cesareia Maríti­
ma como capital, pois era a resi­
dência do governador romano;
Palestina Secunda: Galileia, Golã e
algumas áreas do outro lado do
rio Jordão, sendo Séforis sua capi­
tal; a Palestina Tertia: incluindo o
sul da Terra Santa até o mar Ver­
melho, sendo Petra sua capital.
Essa divisão se manteve durante
os períodos bizantino e persa,
sendo alterado com a chegada dos Moshé Rambam ibn Maimônides.
Estátua em Córdoba, Espanha.
muçulmanos, no século VII.
Nos séculos que se seguiram, o islamismo expandiu-se. Na Espanha,
árabes e judeus foram bons amigos e juntos fizeram muita coisa. Os
judeus procuraram aproximação com os muçulmanos em virtude de
sua religião se parecer mais com a deles do que com o catolicismo
romano e em razão das hostilidades dos católicos contra eles. O perí­
odo áureo da cultura judaica ocorreu durante a ocupação islâmica da
Península Ibérica nos séculos 10 e 11. O norte da Espanha estava sob
a administração dos cristãos, no minúsculo Reino das Astúrias. No sul
estava o principado de Córdoba, independente da dinastia dos abássi-
das, de Bagdá. Nessa época, a cultura árabe chegou ao topo, eles saí­
am na linha de frente nas descobertas científicas. O judeu Samuel ibn
Nagrela foi vizir do califado de Córdoba.2 Nesse período, surgiram

2 Vizir é um governador ou ministro nom eado por um soberano muçulmano.


92 I 0 Ministério Profético na Bíblia

Plantação de tâmaras no deserto de Negueve no sul de Israel.

Sh'lomo ibn G'vrol, Ibn Pakuda, Avraham ibn Ezra, o rabino Moshé
Rambam ibn Maimônides e outros. Veja que eles se identificavam como
ibn, "filho", em árabe ao invés de ]2 (bên), seu equivalente hebraico.
Escreveram muitos tratados em árabe, mesmo sendo eles judeus.
O califa Omar chegou a Jerusalém em 636. Ele removeu os es­
combros do templo de Jerusalém, destruído pelos romanos em 70,
e no local construiu uma mesquita. Em 691, o emir al-Malik, da di­
nastia dos Omíadas, reformou essa mesquita dando a forma que ela
apresenta ainda hoje. A mesquita de cúpula dourada, que identifica
a cidade de Jerusalém, no monte do Templo, é hoje conhecida com o
Mesquita de Omar ou Domo da Rocha.
A dinastia dos Omíadas, de Damasco, foi se exaurindo com o
passar do tempo e, depois da segunda metade do século VIII, o cali-
fado foi transferido para Bagdá. No Iraque, a dinastia era dos Abás-
sidas. Com ela começa a destruição e a desintegração geral de Eretz
Israel. A terra produtiva foi transformada em desolação e espanto, era
A A u te n tic id a d e d a P ro fe c ia I 93

O deserto do Negueveflorescendo - Israel (Is 35.1).

o cumprimento de uma profecia de Ezequiel: “Tomarei a terra em


desolação e espanto, e será humilhado o orgulho do seu poder; os
montes de Israel ficarão tão desolados, que ninguém passará por eles"
(33.28). Apesar da diáspora, grandes comunidades judaicas habitaram
o país. Os turcos otomanos ocuparam a região desde 1500 ao fim da
Primeira Guerra. Eles cobravam impostos da população da Palestina
por árvores plantadas, o que desmotivava o cultivo na região. Du­
rante essa dispersão a Palestina ficou em total abandono.
Em 1880, cerca de 24.000 judeus religiosos viviam em Jerusalém
e Hebrom, Jafa e Tiberíades, além de Safed, cidade mística no norte
de Israel. Dedicados à leitura dos livros sagrados, viviam em extre­
ma pobreza, de donativos provenientes da Europa Ocidental. Eles
não se preocupavam com a reconstrução de uma pátria para os
judeus, até porque eles, desde aquela época, acreditavam que o
Messias viria primeiro. O que eles queriam era ter o privilégio de
morrer na Terra Santa.
94 I 0 Ministério Profético na Bíblia

A cúpula dourada
do Domo da Rocha
-Jerusalém.

A Porta Dourada - muro


oriental de Jerusalém.
A A u te n tic id a d e d a P ro fe c ia I 95

Vista parcial
de Jerusalém.
96 I 0 Ministério Profético na Bíblia

Em 1882, os judeus provenientes da Rússia czarista, vítimas dos


progrons de Alexandre III, imigraram para a terra de seus antepas­
sados. Nos anos seguintes, outros imigrantes estavam determinados
a estabelecer a pátria do povo judeu na terra de seus pais. Muitos
grupos vieram da Rússia nessa década. Até 1904, cerca de 25.000
deles chegaram à Terra Santa, e encontraram o país em miséria e
desolado. Muitos deles morreram vítima de malária. O Barão de
Rothschild, banqueiro francês, destinou uma verba graúda para
ajudar nesse processo imigratório.
A segunda imigração aconteceu entre 1904e 1914. A profecia do
retomo haveria de se cumprir a começar pelo norte: "Vive o SENHOR
que fez subir e que trouxe a geração da casa de Israel da terra do
Norte e de todas as terras para onde os tinha arrojado. E habitarão
na sua terra" (Jr 23.8), e isso aconteceu, pois os primeiros imigrantes
vieram da Rússia. Foram criados partidos políticos e organizações.
O sionismo se encontrava em franco progresso. O hebraico já era a
língua usada em cerca de 20 escolas. Eliezer ben Yehuda, nessa
época, estava em Israel atuando nessa área, pois entendia que para
existir um estado seria necessário uma língua nacional, que segun­
do ele seria o hebraico.
As profecias sobre a diáspora se cumpriram integralmente, mas
Deus prometeu restaurar o seu povo depois do castigo. A lista des­
sas profecias sobre o retorno é muito grande, a seguir vão algumas
delas: "E há esperanças, no derradeiro fim, para os teus descenden­
tes, diz o SENHOR, porque teus filhos voltarão para o seu país' (Jr
31.17); "Assim diz o Senhor JEOVÁ: Hei de ajuntar-vos do m eio dos
povos, e vos recolherei das terras para onde fostes lançados, e vos
darei a terra de Israel [...] E vos tomarei dentre as nações, e vos
congregarei de todos os países, e vos trarei para a vossa terra [...]
Assim diz o Senhor JEOVÁ: Eis que eu tomarei os filhos de Israel de
entre as nações para onde eles foram, e os congregarei de todas as
A A u te n tic id a d e d a P r o fe c ia I 97

Cultivo de oliveira no deserto de Negueve (Am 9.14).

partes, e os levarei à sua terra” (Ez 11.17; 36.24; 37.21); "E rem ove­
rei o cativeiro do meu povo Israel, e reedificarão as cidades assola­
das, e nelas habitarão, e plantarão vinhas, e beberão o seu vinho, e
farão pomares, e lhes com erão o fruto. E os plantarei na sua terra,
e não serão mais arrancados da sua terra que lhes dei, diz o SENHOR,
teu Deus" (Am 9.14, 15).
O profeta Ezequiel teve a visão de um vale de ossos secos e o
próprio Deus lhe deu o significado da revelação:

1 Veio sobre mim a mão do SENHOR; e o SENHOR me levou


em espírito, e me pôs no meio de um vale que estava cheio de
ossos, 2 e me fez andar ao redor deles; e eis que eram mui
numerosos sobre a face do vale e estavam sequíssimos. 3 E
me disse: Filho do homem, poderão viver estes ossos? E eu
disse: Senhor JEOVÁ, tu o sabes. 4 Então, me disse: Profetiza
sobre estes ossos e dize-lhes: Ossos secos, ouvi a palavra do
SENHOR. 5 Assim diz o Senhor JEOVÁ a estes ossos: Eis que
98 I O Ministério Profético na Bíblia

farei entrar em vós o espírito, e vivereis. 6 E porei nervos sobre


vós, e farei crescer carne sobre vós, e sobre vós estenderei
pele, e porei em vós o espírito, e vivereis, e sabereis que eu
sou o SENHOR. 7 Então, profetizei com o se me deu ordem; e
houve um ruído, enquanto eu profetizava; e eis que se fez um
reboliço, e os ossos se juntaram, cada osso ao seu osso. 8 E
olhei, e eis que vieram nervos sobre eles, e cresceu a carne, e
estendeu-se a pele sobre eles por cima; mas não havia neles
espírito. 9 E ele me disse: Profetiza ao espírito, profetiza, ó
filho do homem, e dize ao espírito: Assim diz o Senhor JEOVÁ:
Vem dos quatro ventos, ó espírito, e assopra sobre estes mor­
tos, para que vivam. 10 E profetizei com o ele me deu ordem;
então, o espírito entrou neles, e viveram e se puseram em pé,
um exército grande em extremo. 11 Então, me disse: Filho do
homem, estes ossos são toda a casa de Israel; eis que dizem:
Os nossos ossos se secaram, e pereceu a nossa esperança; nós
estamos cortados. 12 Portanto, profetiza e dize-lhes: Assim
diz o Senhor JEOVÁ: Eis que eu abrirei as vossas sepulturas, e
vos farei sair das vossas sepulturas, ó povo meu, e vos trarei
à terra de Israel (Ez 37.1-12).

Ezequiel era parte dos cativos judeus deportados para a Babilônia


e essa visão veio durante o tempo da primeira diáspora. Esse vale
de ossos secos representa os judeus dispersos pelas nações: "estes
ossos são toda a casa de Israel" (v. 11) e é a promessa de restaura­
ção: "e vos trarei à terra de Israel" (v. 12). Porém, o contexto rem e­
te para o fim dos dias: "depois de muitos dias, serás visitado; no fim
dos anos [...] no fim dos dias" {Ez38.8, 16). Esses oráculos não dizem
respeito ao retorno da primeira diáspora, decretada pr Ciro, rei da
Pérsia (2 Cr 36.18-22), mas aos últimos dias, portanto, trata-se do
fim da segunda diáspora. Assim, essa profecia começou a se cumprir
na segunda metade do século 19. Os movimentos nacionalistas da
Europa contribuíram para a unificação da Alemanha, por Bismarck,
A A u te n tic id a d e d a P r o fe c ia I 99

e da Itália, por Cavour, com isso os judeus despertaram para a cons­


trução de sua pátria. O caso Dreyfus, na França, levou os judeus à
triste conclusão de que não havia mais espaço para eles na Europa
e que eles mesmos teriam de iniciar o processo de fundação do
Estado de Israel.
Em 1894, um agente da contra-espionagem francesa havia des­
coberto um bilhete na cesta de lixo do gabinete do adido militar
alemão, na França. O bilhete dizia que os alemães haveriam de
receber um importante manual francês de artilharia. Apenas pela
caligrafia não foi possível reconhecer o culpado, mas eles precisavam
de um bode expiatório. O escolhido foi o capitão Alfred Dreyfus,
rico, requintado e, sobretudo, judeu. Um judeu no meio de aristo­
cratas discípulos dos jesuítas, num quartel militar, ou seja, num
ambiente anti-semita. Foi fácil "descobrir" o "traidor": Dreyfus.
Cerca de um mês depois o capitão Dreyfus estava preso acusado
de traição. Condenado à prisão perpétua em uma corte marcial por
alta traição, por ter entregado segredos militares aos alemães. Em
janeiro de 1895, Dreyfus foi degredado publicamente em Paris. Ele
clamava: "Viva a França! Viva o Exército!" O povo respondia histe­
ricamente: "Morra o traidor!". Era uma armação orquestrada pelos
clérico-monárquicos da Terceira República, em conluio com generais
do exército, com o se estivessem revogando os princípios da Revo­
lução Francesa: liberdade, igualdade, fraternidade.
O quadro parecia irreversível. Desde 1886, os jesuítas vinham
publicando insinuações contra os judeus, culpando os oficiais judeus
de traição. Grande parte da imprensa instigava o povo contra Dreyfus
e contra os judeus, mas o advogado Émile Zola não desanimou.
Depois de uma luta ferrenha de Zola na justiça francesa, foi prova­
da a inocência de Dreyfus. Em 1897, foi descoberto que o culpado
era Esterhazy, um major do exército francês. Mesmo depois de
comprovada a inocência de Dreyfus, ele continuou preso por ques­
1 0 0 1 0 Ministério Profético na Bíblia

tões políticas. Em 1899, a corte anulou o veredito e declarou Dreyfus


inocente. Com o mesmo ímpeto com que Dreyfus foi desmoralizado
e humilhado ele foi exaltado e reintegrado ao exército.
O jornalista Theodor Herzl, correspondente do jornal de Viena
Neue Freie Presse, que assistiu às sessões do julgamento e à degra­
dação pública de Dreyfus, chegou à conclusão de que não havia
mais espaço para os judeus na Europa. Ou reconstruiriam sua na­
ção ou desapareceriam da terra. Foi assim que ele fundou o M ovi­
mento Sionista Mundial, em 1897, em Basiléia, Suiça. Num discur­
so posterior ele disse:

O julgamento de Dreyfus, que testemunhei em 1874, fez de


mim um sionista. Ainda soam em meus ouvidos os brados
irados da multidão na rua ao lado da escola militar, onde
Dreyfus foi degradado da sua patente de oficial: "M orte! Mor­
te aos judeus!"
"Morte! Morte a todos os judeus!" E tudo isto porque havia
entre eles, possivelmente, um traidor, e a maioria do povo
francês se une a este brado! O que aconteceu para que isto se
tornasse possível?

Herzl teve de enfrentar as dificuldades para levar avante as suas


ideias, eram o "ruído" e o "reboliço" dos "ossos secos" da visão de
Ezequiel, que começavam a se juntar. Na verdade, depois de 18
séculos, esses ossos já estavam "sequíssimos” (v. 2). Herzl morreu
cedo, em 1904, havia nascido em 1860, mas os seus ideais não
morreram, antes se fortaleceram e o resultado está diante de todos,
o Estado de Israel.
A aprovação das Nações Unidas para fundar um estado judeu na
Palestina, em 27 de novembro de 1947, é cumprimento da promes­
sa do retorno, Israel nasceu em um dia: "Quem jamais ouviu tal
coisa? Quem viu coisas semelhantes? Poder-se-ia fazer nascer uma
A A u te n tic id a d e d a P ro fe c ia I 101

Soldados da Haganá, o exército de Israel.

terra em um só dia? Nasceria uma nação de uma só vez? Mas Sião


esteve de parto e já deu à luz seus filhos" (Is 66.8). Essa profecia fala
inconfundivelmente do renascimento do Estado Judeu, e as "dores
de parto" são uma referência ao Holocausto, pois, em seguida ao
fim da Segunda Guerra, renasce Israel.
O fato de Israel ter rejeitado seu Messias não significa ser ele um
povo proscrito por Deus, os judeus jamais deixaram de ser seu povo,
mesmo na dispersão: "E, demais disto também, estando eles na
terra dos seus inimigos, não os rejeitarei, nem me enfadarei deles,
para consumi-los e invalidar o meu concerto com eles, porque eu
sou o SENHOR, seu Deus" (Lv 26.44). As ameaças proféticas contra
Israel são sempre seguidas de promessas de restauração, pois a
eleição de Israel é irrevogável por causa da aliança que Deus fez
com os patriarcas: "Assim que, quanto ao evangelho, são inimigos
por causa de vós; mas, quanto à eleição, amados por causa dos pais"
(Rm 11.28). Essas prom essas divinas são imutáveis (Hb 6.18).
10 2 I 0 Ministério Profético na Bíblia

A ameaça foi de castigo e não de extinção, seus inimigos desapare­


ceram com o anunciou Jeremias, porém, não os filhos de Jacó: "Por­
que eu sou contigo, diz o SENHOR, para te salvar, porquanto darei
fim a todas as nações entre as quais te espalhei; a ti, porém, não
darei fim, mas castigar-te-ei com medida e, de todo, não te terei por
inocente" (Jr 30.11). Os profetas contemplaram um final glorioso no
fim dos tempos e por essa razão os judeus sobreviveram a todas
intempéries da vida e, hoje, o Estado de Israel é uma realidade. De­
pois de mais de 18 séculos de dispersão entre as nações eles retor­
nam para a terra de seus antepassados.
Quem visita Israel hoje vê o cumprimento das profecias bíblicas
por toda parte. O que era antes terra deserta e desolada se tornou
pomares e cidades habitadas: "E a terra assolada se lavrará, em vez
de estar assolada aos olhos de todos os que passam. E dirão: Esta
terra assolada ficou com o jardim do Éden; e as cidades solitárias, e
assoladas, e destruídas estão fortalecidas e habitadas" (Ez 36.34,35).
Hoje Israel é um dos maiores exportadores de laranja e flores para
a Europa e tudo isso produzido no deserto do Negueve. As crianças
brincando dentro dos muros da cidade de Jerusalém é também pro­
messa de Deus: "E as ruas da cidade se encherão de meninos e
meninas, que nelas brincarão" (Zc 8.5).

1.
W Ê Ê Sm Z- k

Crianças brincando nas ruas de Jerusalém, Cidade Velha (Zacarias 8.5).


A A u te n tic id a d e d a P ro fe c ia I 103
1 0 4 I 0 Ministério Profético na Bíblia

Jerusalém, Cidade Velha.

Israel é o relógio de Deus sobre a terra. Jesus disse: "Olhai para a


figueira, e para todas as árvores; quando já têm rebentado, vós sabeis
por vós mesmos, vendo-as, que perto está já o verão" (Lc 21.29,30).
A figueira é a figura de Israel. Pela mensagem de Jesus, ficamos
saben do quão p róxim o está
"o verão", pois a figueira está
brotando. A Igreja, com o os fi­
lhos de Issacar, da época de Davi,
eram "destros na ciência dos tem­
pos, para saberem o que Israel de­
via fazer" (1 Cr 12.32), da mesma forma
a Igreja tem a capacidade do Espírito Santo
para interpretar e compreender os aconte­
cimentos do Oriente Médio e da política
internacional à luz da Bíblia e anunciar
que a vinda de Jesus se aproxima.
MAIORES
E MENORES
10 6 I 0 Ministério Profético na Bíblia

O termo “Menores" foi aplicado à coleção conhecida na antigui­


dade com o os Doze pela Igreja Latina na época de Agostinho de
Hipona e Jerônimo por causa de sua brevidade em relação aos que
hoje são conhecidos com o "Maiores". O arranjo dos livros proféticos
e a sua classificação divergem nos principais cânones das Escrituras
Sagradas do Antigo Testamento sem prejuízo do conteúdo. O texto
é exatamente o mesmo, exceto a questão dos apócrifos e pseude-
pígrafos da LXX, pois o Cânon Protestante seguiu o Judaico, diver­
gindo apenas na classificação e na ordem dos livros, mas conser­
vando o mesmo texto.

Estátua de Jerônimo, tradutor da Vulgata Latina, no pátio da Basílica da


Natividade, em Belém da Judeia, para lembrar os 20 anos em que ele viveu
nessa cidade estudando hebraico com os rabinos.
P ro fe ta s M a io r e s e M e n o re s I 107

O Canon Judaico divide-se em três partes: Lei, Profetas e Escritos


ou Hagiógrafos. A ordem dos livros do Pentateuco é a mesma em
todos os cânones: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio.
Isso não acontece com os demais. Os proféticos estão na seguinte
seqüência: Profetas Anteriores - Josué, Juizes, os dois de Samuel e os
dois dos Reis; Profetas Posteriores - Isaías, Jeremias, Ezequiel e os
Doze, com o mesmo arranjo do Cânon Protestante: Oseias, Joel, Amós,
Obadias, Jonas, Miqueias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias
e Malaquias são considerados com o um só livro por se tratar de tex­
tos curtos, afirma a Mishná: "Como seu livro é muito pequeno, ele
poderia ser perdido". Sua posição entre os Profetas Menores, segun­
do Freeman, foi baseada na cronologia dos impérios: assírio, de
Oseias a Naum; babilônico, Habacuque e Sofonias; persa, os três
últimos, de Ageu a Malaquias. Lamentações e Daniel integram a
terceira parte que consta dos livros poéticos: Salmos, Provérbios e
Jó; a s P Í ^ O (nfgillôth) ("rolos” , em hebraico"): Rute, Cantares, Ecle-
siastes, Lamentações e Ester, lidos nas festas judaicas e os históricos:
Daniel, Esdras-Neemias e os dois das Crônicas.
A LXX começa os livros proféticos com os Doze, mas a ordem é
diferente: Oseias, Amós, Miquéias, Joel, Obadias, Jonas, Naum, Ha­
bacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias. Em seguida, vem os
Profetas Maiores: Isaías, Jeremias, Baruque,1Lamentações, Epístola
de Jeremias,2 Ezequiel, Susana,3Daniel com acréscimo dos apócrifos
- Oração de Azarias e Bel e o Dragão.
Os livros proféticos no Cânon Protestante são classificados em
dois grupos na seguinte ordem: Maiores, Isaías, Jeremias, Lamenta­
ções, Ezequiel e Daniel; os Menores são os mesmos do Cânon Ju­
daico e estão na mesma seqüência. As Escrituras Sagradas não fazem

' Apócrifo.
2 Apócrifo.
3 Apócrifo.
1 0 8 1 0 Ministério Profético na Bíblia

distinção entre essas coleções, pois todos têm a mesma autoridade


e conservam a mesma inspiração.

O PROCESSO DE DATAÇÃO NO MUNDO PRÉ-CRISTÃO

A datação dos eventos do mundo pré-cristão é confiável, porém,


não é precisa. Há uma margem de erro de cem anos no segundo
milênio a.C., de dez anos no primeiro milênio a.C., e de um ano no
sexto século a. C. O processo foi computado com a ajuda de três
documentos que permitiram saber com certa precisão o ano da
ascensão de Nabucodonosor ao trono da Babilônia.
A tabuinha cuneiforme VAT 4956, atualmente no Museu de Ber­
lim, contém registros astronômicos pormenorizados sobre as várias
posições relativas do sol, da lua e dos planetas durante um ano. O
documento menciona um eclipse lunar em 4 de julho do ano 39 do
reinado de Nabucodonosor. Esse eclipse foi identificado pelos astrô­
nomos e corresponde ao ano 568 a.C., então, esse rei subiu ao
trono em 605 a.C., e a destruição de Jerusalém, que aconteceu 19
anos depois (Jr 52.12), corresponde ao ano 586 a.C. O segundo do­
cumento é o de Beroso. Um sacerdote caldeu da época dos selêuci-
das em sua obra Babilônia traça as linhagens dinásticas do império
neobabilônico. Essas listas de dinastias e reis da Babilônia foram
objetos de constantes consultas e pesquisas por Flávio Josefo, Eu-
sébio de Cesaréia e Cláudio Ptolomeu.
Cláudio Ptolomeu é astrônomo e historiador grego que viveu
entre 70 e 161 d.C. O Canon de Ptolomeu é uma lista de reis e fases
das estrelas, baseadas nas compilações de observações astronômi­
cas de Babilônia, tendo com o ponto de partida o advento de Nabo-
nassar em 747 a.C. Sua principal finalidade era a cronologia astro­
nômica. Segundo a Enciclopédia Mirador: "de acordo com os critérios
adotados por Ptolomeu para fixar o advento dos reis, o seu cômpu-
P ro fe ta s M a io r e s e M e n o re s I 109

to é bastante exato: permitiu fixar a data da conquista de Babilônia


por Ciro e, portanto, estabelecer conexões com listas dinásticas
babilônicas mais antigas" (verbete "Cronologia").
Há duas datas globais nas Escrituras que ajudam a localizar os
fatos no tempo, uma no Antigo Testamento e outra no Novo. A pri­
meira é 1 Reis 6.1:

E sucedeu que, no ano quatrocentos e oitenta, depois de


saírem os filhos de Israel do Egito, no ano quarto do reinado
de Salomão sobre Israel, no mês de zive (este é o mês segun­
do), Salomão começou a edificar a Casa do SENHOR.

Assim, a construção do templo de Jerusalém começou 480 anos


depois da saída de Israel do Egito, que corresponde ao quarto ano
do reinado de Salomão. A segunda data global está registrada em
Lucas 3.1, 2:

E, no ano quinze do im­


pério de Tibério César, sendo
Pôncio Pilatos governador
da Judeia, e Herodes, tetrar-
ca da Galileia, e seu irmão
Filipe, tetrarca da Ituréia e da
província de Traconites, e
Lisânias, tetrarca de Abilene,
sendo Anás e Caifás sumos
sacerdotes, veio no deserto
a palavra de Deus a João,
filho de Zacarias.

Museu do Louvre -
Tibério César, imperador
romano de 14 a 37 d.C.
1 1 0 1 0 Ministério Profético na Bíblia

César Augusto, em cujo governo nasceu Jesus {Lc 2.1 -7), morreu
em 14 d.C, quando Tibério subiu ao trono e, 15 anos depois, João
Batista inicia o seu ministério. Lucas informa que nessa época Jesus
estava com quase 30 anos (3.23).

OS LIVROS PROFÉTICOS

Os críticos liberais são geralmente céticos e têm dificuldade em


aceitar a ideia de predição do futuro. Eles acreditam encontrar uma
explicação racional se conseguirem apresentar argumentos aca­
dêmicos que justifiquem uma data posterior àquela geralmente
aceita pela tradição judaico-cristã e com isso a profecia cumprida
seria um vaticinium ex eventu,4 com o profecia escrita depois do
acontecimento. As profecias comentadas no capítulo anterior sobre
o destino da Babilônia, de Tiro e Sidom e de Israel, eliminam toda
e qualquer possibilidade de registro de vaticínio fora do evento.
O enfoque neste estudo nos livros proféticos é o período do mi­
nistério dos profetas literários e a época da composição de seus
oráculos. Muitos trazem na introdução origem e identidade, reinado
e assunto ou a quem dirige os oráculos divinos, com o Isaías, Jere­
mias, Oseias, Amós, Miqueias, outros são mais precisos, indicando
dia e mês, com o Ezequiel, Ageu e Zacarias. Porém, há obras que
silenciam sobre essas informações, com o Obadias e Habacuque, e
as que apresentam dados parciais, com o Joel, Jonas e Naum, mesmo
assim, é possível descobrir com ajuda de algumas evidências inter­
nas ou de flashes das narrativas históricas dos livros dos Reis e das
Crônicas, mas tudo isso depende muito da interpretação dos fatos,

4 A tradução literal da expressão vaticinium ex eventu é "vatícínio-predição-oráculo do/a/a partir


do evento-fato", é com o se a profecia fosse extraída do fato ocorrido; ou seja, não teria havido,
na realidade, uma dada profecia, mas, por assim dizer, uma palavra com valor profético seria
proferida-divulgada após a ocorrência de determinado fato-evento. A falácia desse pensamento
é notória diante das profecias cumpridas nos tem pos m odernos (ver capítulo 5).
P ro fe ta s M a io r e s e M e n o re s I 1 11

nesse caso, convém responder aos citados pesquisadores ou aos


que defendem sua linha de pensamento.
A data aproximada do início do ministério dos profetas literários,
segundo Freeman, é a seguinte:

1.000 a.C. 800 a.C. 600 a.C. 400 a.C. 200 a.C. 0

Jonas

Oseias

Amos
.
Isaias

Miqueias

Naum

Sofonias

Jeremias

Habacuque

Daniel

Ezequiel

Ageu

Zacarias

Malaquias

OS PRIMEIROS PROFETAS: OBADIAS, JOEL E JONAS

Obadias. O livro de Obadias é uma curta mensagem, contendo


apenas 21 versículos, dirigida aos edomitas que se aliaram aos ini­
migos de Judá. Seu texto é o menor dos Profetas Menores, mas a
sua data de composição é uma das mais controvertidas. Os edom i­
tas eram descendentes de Esaú, portanto, irmãos dos hebreus, mas
se tornaram inimigos dos israelitas e negaram passagem pela sua
1 1 2 I 0 Ministério Profético na Bíblia

terra quando Israel peregrinava pelo deserto, mas Deus ordenou a


Moisés tratar Edom com o irmão (Gn 36.1; Nm 20.20, 21; Dt 23.7).
A discussão sobre a data de sua composição gira basicamente
em torno dos w . 11 e 20.

No dia em que estiveste em frente dele, no dia em que os


forasteiros levavam cativo o seu exército, e os estranhos en­
travam pelas suas portas, e lançavam sortes sobre Jerusalém,
tu mesmo eras um deles [...] E os cativos desse exército dos
filhos de Israel, que estão entre os cananeus, possuirão até
Zarefate; e os cativos de Jerusalém, que estão em Sefarade,
possuirão as cidades do Sul (w . 11, 20).

Os que defendem sua composição por volta de 845 a.C. acreditam


que o profeta está se referindo à revolta dos edomitas contra Jeorão
(848-841), rei de Judá: "Nos seus dias, se revoltaram os edomitas
contra o mando de Judá e puseram sobre si um rei" (2 Rs 8.20). Essa
passagem sozinha não apresenta suporte suficiente para tal inter­
pretação, pois os w . seguintes mostram o fracasso da campanha de
Edom e a profecia afirma que os filhos de Esaú eram parte de uma
campanha de "forasteiros", de "estrangeiros". É possível que eles
tenham se juntado aos filisteus e aos arábios, que Deus levantou
contra Jeorão: "Despertou, pois, o SENHOR contra Jeorão o espírito
dos filisteus e dos arábios [...] e deram sobre ela, e levaram toda a
fazenda que se achou na casa do rei, com o também a seus filhos e
a suas mulheres; de modo que lhe não deixaram filho, senão a Jeo-
acaz, o mais m oço de seus filhos" (2 Cr 21.16, 17). Esse fato pode
explicar o significado da expressão: "lançavam sortes sobre Jerusa­
lém, tu mesmo eras um deles" (v. 11b). Eruditos conservadores como
Keil e Delitzsch defendem essa interpretação.
Outros expositores bíblicos, igualmente conservadores, com o
Charles L.Feinberg, acreditam que Obadias se refere à Queda de
P ro fe ta s M a io r e s e M e n o r e s I 1 13

Jerusalém: "Os versículos 10 a 14 dão-nos o boletim de ocorrência


contra esse obstinado inimigo de Israel. Eles retratam as condições
de Israel quando Nabucodonosor invadiu Judá" (Os Profetas Menores,
página 127). Se isso puder ser confirmado, a sua composição teria
acontecido por volta de 585 a.C., data defendida por Martinho Lu-
tero. O salmista parece referir-se à destruição da Cidade Santa pelos
caldeus: "Lembra-te, SENHOR, dos filhos de Edom no dia de Jerusa­
lém, porque diziam: Arrasai-a, arrasai-a, até aos seus alicerces" (SI
137.7). O problema dessa interpretação, que alguns alegam, é que
depois de tudo isso nada mais havia para lançar sorte.
Outra discussão é sobre a expressão "os cativos desse exército
dos filhos de Israel", mais precisamente sobre o termo "cativo",
(gãlüt), em hebraico. Parece mostrar que se trata da deportação para a
Babilônia. É verdade que essa palavra é aplicada a capturas individuais
de pessoas individuais (Am 1.9), mas não é esse o contexto aqui.

Joel. O texto não menciona o período em que recebeu ele os


oráculos divinos, algo diferente daquilo que fizeram muitos outros
profetas, com o Isaías, Jeremias, Ezequiel, Oseias, Amós, etc. Ele
simplesmente se apresenta com o "filho de Petuel" (1.1). A data tra­
dicional de sua composição é 835 a.C., mas os críticos liberais a
questionam alegando que o livro não faz menção alguma de reis de
Israel ou de Judá, nem do problema da idolatria. Eles acrescentam
ainda que a frase: "em que removerei o cativeiro de Judá e de Jeru­
salém" (3.1) está associada aleatoriamente com o cativeiro babilô-
nico, e com a menção dos gregos no v. 6 procuram identificá-los
com os do período de Filipe II, rei da Macedônia, pai de Alexandre,
o grande. Assim, datam o texto com o obra do ano de 350 a. C.
Essas alegações são meras interpretações dos fatos, pois Joel era
profeta de Judá e não é surpresa alguma a ausência do Reino do Nor­
te em seus oráculos. Israel é mencionado três vezes, mas não como
1 1 4 1 0 Ministério Profético na Bíblia

as dez tribos do norte, e sim, com o nação no fim dos tempos (2.27;
3.2, 16), pois os capítulos 2 e 3 são escatológicos. Há no seu livro um
apelo nacional para jejum e santificação: "Congregai o povo, santificai
a congregação, ajuntai os anciãos, congregai os filhinhos e os que
mamam; saia o noivo da sua recâmara, e a noiva, do seu tálamo.
Chorem os sacerdotes, ministros do SENHOR, entre o alpendre e o
altar" (2.16, 17). A mensagem menciona o povo, os anciãos, os sa­
cerdotes, os ministros do Senhor, mas não aparece a figura do rei
porque se trata do período da regência de Joiada, durante a infância
de Joás (2 Rs 11.4; 2 Cr 23.1-11), e a idolatria não era o problema de
Judá naquela época. Nada afirma nesses oráculos que o "cativeiro"
(3.1) seja o babilônico, e não é, pois o contexto é muito claro em
mostrar que se trata do retorno da segunda diáspora, que começou
em 70 d.C. A presença dos gregos no v. 6 não é impossível, visto que
descobertas arqueológicas registram a presença helênica ali desde o
século oitavo a.C.
Os inimigos mencionados são os fenícios, "Tiro e Sidom" e a
"Filístia",5 rrô b s (pHesheth) em hebraico (3.4[4.4]), egípcios e os
edomitas (3.19), justamente os povos que na época eram fortes e
agressivos. Isso significa que a composição do livro aconteceu ain­
da num período em que a Assíria e a Babilônia não eram ameaças
para Judá.

Jonas. Seu livro é uma breve narrativa biográfica de uma data da


hegemonia de Nínive, quando esta era "uma grande cidade” (3.3).
Sua composição é datada pela tradição em 752 a. C. Jonas era "filho
de Amitai" (1.1), um profeta do Reino do Norte, do período de Jeroboão
II (793-753 a.C.): "Também este restabeleceu os termos de Israel,

5 A versão Almeida Corrigida usa o nom e "Fenícia" (Jl 3.4 [4.4]), m as no texto hebraico aparece
(pflesheth) "Filístia", com o registra a Alm eida Atualizada e a Tradução Brasileira. Há uma
pequena diferença na divisão de capítulos e versículos em Joel, na Bíblia Hebraica, mas o texto
é exatam ente o m esm o de nossas versões.
P ro fe ta s M a io r e s e M e n o r e s 11 15

desde a entrada de Hamate até ao mar da Planície, conforme a pa­


lavra do SENHOR, Deus de Israel, a qual falara pelo ministério de seu
servo Jonas, filho do profeta Amitai, o qual era de Gate-Hefer" (2 Rs
14.25). Segundo Jerônimo, Gate-Hefer localizava-se na Galileia.

O QUARTETO DO PERÍODO ÁUREO


DA PROFECIA HEBRAICA

Oseias afirma que a palavra de Deus lhe foi dita "nos dias de Uzias,
Jotão, Acaz, Ezequias, reis de Judá, e nos dias de Jeroboão, filho de
Joás, rei de Israel" (1.1). Trata-se de um período mínimo de 60 anos.
É fácil chegar-se a esses números, pois Jotão reinou 16 e Acaz outros
16, nisso somam pelo menos 32 anos (2 Cr 27.1; 28.1), sendo que
em Samaria, Jeroboão II reinou 41 anos e o com eço do seu reinado
foi no ano 15 de Amazias e este reinou 29 anos (2 Rs 14.23; 2 Cr
25.1). Isso significa que o período de Jeroboão II coincidiu 14 anos
com o de Amazias e 27 com o de Uzias, seu filho. Isso quer dizer
que, quando Jeroboão II morreu, já fazia 27 anos que Uzias reinava,
então, Oseias foi contemporâneo de Uzias no mínimo 28 anos. O
profeta afirma que recebeu os oráculos divinos até os dias de Eze­
quias, ainda que seja apenas um ano deste último monarca significa
um ministério não inferior a 60 anos.
O ministério de Isaías aconteceu no mesmo período desses qua­
tro reis de Judá mencionados por Oseias, mas aqui não se sabe
quanto tempo coincidiu com o reinado de Uzias (1.1). Ele registra a
sua experiência especial com Deus "no ano em que morreu o rei
Uzias" (6.1), isso mostra que já exercia o ministério profético nessa
época. Segundo a tradição rabínica, o rei Manassés mandou serrar
o profeta Isaías ao meio e muitos expositores da Bíblia afirmam que
a palavra: "serrados", na lista dos perseguidos pela sua fé (Hb 11.37),
refere-se ao martírio do profeta. Se realmente isso puder ser confir­
1 1 6 1 0 Ministério Profético na Bíblia

mado, o tempo de seu ministério é de mais de 60 anos, basta apenas


somar 16 anos do reinado de Jotão, 16 de Acaz, 29 de Ezequias e
mais alguns anos de Uzias.
O profeta Amós exerceu o seu ministério "nos dias de Uzias, rei de
Judá, e nos dias de Jeroboão, filho de Joás, rei de Israel" (1.1). Isso mos­
tra que ele viveu na mesma época de Oséias e Isaías. Ele era de Tecoa,
na Judeia, mas Deus o enviou para profetizar em Samaria, no reino do
Norte. Miqueias é também dessa época, mas começou suas atividades
um pouco depois dos três primeiros, pois Uzias não é mencionado:
"nos dias de Jotão, Acaz e Ezequias, reis de Judá" (1.1).
Os profetas Isaías, Miqueias, Am ós e Oséias foram contem po­
râneos, o ministério de cada um deles com eçou entre 760 e 735
a.C. Eles viveram no período do esplendor profético dos hebreus.
Isaías era profeta da corte e conselheiro da casa real, ao passo que
Miquéias era profeta do campo. Am bos eram do Reino do Sul,
capital Jerusalém. Oséias e Am ós exerceram seu ministério no
reino do Norte, em Samaria.
O título de cada livro profético nem sempre quer dizer ser ele o
seu redator ou mesmo o orador que pronunciou tais oráculos. A
profecia escatológica sobre Sião, em Isaías 2.3, reaparece em Mi­
queias. Am bos foram contemporâneos e profetizaram em Judá,
sendo que Isaías era profeta da corte, na capital, e seu companhei­
ro do campo, mas é difícil saber a fonte literária original.

NAUM E SOFONIAS

Naum. Ele se apresenta em seu livro com o o "elcosita", de Elcos


ou de Elkoseh (?), o que pouco informa sobre a sua origem. Uma
tradição relativamente recente e não confiável pela crítica, do sécu­
lo XVI, vincula o nome a uma cidade chamada Elcos, na Assíria,
cerca de 38 quilômetros no norte de Nínive, onde Naum teria nas-
P ro fe ta s M a io r e s e M e n o re s I 117

Entrada de Cafamaum, na Galileia, cidade de Jesus (Mt 9.1).

cido durante o período da dispersão das dez tribos do norte, e onde


estaria o túmulo do profeta. Segundo Jerônimo, era uma aldeia da
Galileia, chamada Elkoseh. Há expositores que afirmam ser a mesma
Cafamaum, a cidade de Jesus (Mt 9.1) m n r i tt(kephar-nahüm )
"Kefar Naum, Cafamaum", que significa "aldeia" ou "vila de Naum",
em hebraico, que teve o nome mudado em sua memória. Outra
possibilidade é a Elcos, entre Jerusalém e Gaza, atualmente Beit-
Jibrin. Dessas três possibilidades a tradição de Nínive é a mais re­
mota, declara Feinberg: "Talvez não incorramos em erro crendo que
o profeta nasceu na Galileia e mudou-se para a Judeia, onde minis­
trava a palavra do Senhor" (página 191).
O livro consiste numa série de oráculos contra Nínive, com o o
profeta anuncia logo no início do texto: "Peso de Nínive" (1.1). Visto
1 1 8 1 0 Ministério Profético na Bíblia

que a cidade foi destruída em 612 a.C., a profecia contra ela só pode
ter sido pronunciada antes dessa data. O profeta compara a capital
dos assírios com a Nô-Amon, no Egito.

"És tu melhor do que Nô-Amom, que está situada entre os


rios, cercada de águas, tendo por esplanada o mar e ainda o
mar, por muralha? [...] Todavia, ela foi levada, foi para o cati­
veiro; também os seus filhos foram despedaçados no topo de
todas as ruas, e sobre os seus nobres lançaram sortes, e todos
os seus grandes foram presos com grilhões. TU também, Níni-
ve, serás embriagada e te esconderás; também buscarás força,
por causa do inimigo" (3.8, 10, 11).

O nome grego de Nô-Am om é Tebas. Assurbanipal, rei da Assíria,


capturou essa cidade em 661 a.C., no entanto, o episódio é mencio­
nado com o fato já acontecido. Assim, o pronunciamento de Naum
ou o início de seu ministério aconteceu entre 661 e 612 a.C., entre
a queda destas duas cidades: Nínive e Tebas, pois o profeta anuncia
a ruína da capital dos assírios com o fato a acontecer, para o futuro,
e a cidade egípcia de Nô-Amom, com o algo que já aconteceu. Assim,
650 a. C. é uma data aceitável para a sua atividade profética.

Sofonias. O profeta afirma que recebeu os oráculos divinos "nos dias


de Josias, filho de Amom, rei de Judá" (1.1). Os relatos dos livros dos
Reis e das Crônicas registram que Josias reinou 31 anos (2 Rs 22.1; 2
Cr 34.1) entre 640 e 609 a.C. Apesar de ser uma informação um tanto
vaga, Sofonias relata fatos que seriam mais apropriados ao período
anterior à reforma religiosa realizada pelo rei de Judá em 621 a.C.,
quando foi encontrado no templo "o livro da Lei na Casa do SENHOR"
(2 Rs 22.8). Mesmo antes dessa descoberta, o rei havia começado uma
limpeza espiritual no país: "Porque, no oitavo ano do seu reinado,
sendo ainda moço, começou a buscar o Deus de Davi, seu pai; e, no
P ro fe ta s M a io r e s e M e n o re s I 119

duodécimo ano, começou a purificar a Judá e a Jerusalém dos altos, e


dos bosques, e das imagens de escultura e de fundição” (2 Cr 34.3). É
difícil imaginar idolatria em Jerusalém, no entanto, há no livro de So-
fonias denúncias contra as injustiças sociais e contra os ídolos:

E estenderei a minha mão contra Judá e contra todos os


habitantes de Jerusalém e exterminarei deste lugar o resto de
Baal e o nom e dos quemarins com os sacerdotes; e os que
sobre os telhados se curvam ao exército do céu; e os que se
inclinam jurando ao SENHOR e juram por Malcã (1.4, 5).

Judá e Jerusalém ainda estavam infectadas pela idolatria, talvez,


herança da apostasia do rei Amom, pai de Josias (2 Cr 33.22). O pro­
feta menciona o culto de Baal e de Malcã, o deus Moloque dos amo-
nitas e a prática da astrologia, os que "curvam ao exército do céu".
Note que Sofonias chama os sacerdotes pelo termo pagão
(kõmer), "sacerdote, sacerdote idólatra", que parece apenas três vezes
no Antigo Testamento. A ARC, em Sofonias 1.4, emprega o termo
"quemarins", plural de komer, que é uma transliteração da palavra.
O profeta Oseias também os identifica com o tal, em Samaria, cha-
mando-os de sacerdotes dos bezerros e não de Javé (Os 10.5). Ele
não usou (kôhen) ou o seu plural kõhãnim, usual para os sacer­
dotes de Javé, mas kõmer, seu plural kfmãrim, "sacerdote pagão". O rei
Josias varreu os quemarins de seu país (2 Rs 23.5). Todos esses dados
históricos revelam o início de Sofonias um pouco antes de 632 a.C.

PROFETAS DO PERÍODO BABILÔNICO

Jeremias. Parece que Jeremias iniciou o seu ministério quando


Sofonias terminava o dele nos últimos anos do império assírio. O
profeta das lágrimas afirma que iniciou o seu ministério no reinado
de Josias: "A ele veio a palavra do SENHOR, nos dias de Josias, filho
1 2 0 1 0 Ministério Profético na Bíblia

de Amom, rei de Judá, no décimo terceiro ano do seu reinado" (Jr 1.2).
Essa data corresponde ao ano 627 ou 626 a.C., visto que o referido
monarca começou a reinar em 640 a.C. Nessa época, ele declara ser
muito jovem (1.5, 6), talvez tivesse a mesma idade do rei Josias ou
fosse um pouco mais velho. Isso nos permite colocar o seu nascimen­
to nos últimos anos do reinado de Manassés ou mesmo no curto
reinado de dois anos de seu filho Amon.
O livro de Jeremias é um conjunto de discursos proferidos em
diferentes etapas de sua vida, é uma antologia constituída de capí­
tulos independentes. São os sermões proféticos pregados ao povo
num período de mais de 40 anos, entre os anos 627 e 580 a.C., ou
talvez, até uma data um pouco mais adiante. Identificar com preci­
são a data de cada oráculo jeremiano é um desafio, mas é possível
datar cerca de 60% desses discursos com base nos dados fornecidos
no próprio texto de Jeremias. Os outros 40% são discutíveis, porém,
todos estão dentro do citado período aceito pela tradição. Atribui-se
ao período do rei Josias os 12 primeiros capítulos, mas 11.1 -14 pa­
rece ser uma referência ao achado do livro da Lei (2 Rs 22.8-13), e
alguma ressalva deve ser feita, por exemplo, os trechos 7.1-8:3 e
11.15-17 pertencem ao período de Jeoaquim. Não é possível precisar
a data de todas essas unidades do livro. Joacaz, filho de Josias, reinou
apenas três meses, em 609, é desse período o trecho 22.1-12. Nun­
ca esquecer que há opiniões diferentes, mas aceitáveis, pois, para
Leon J. Wood, da época de Josias são os 20 primeiros capítulos e
nada ao período de Joacaz. Do período de Jeoaquim (608 a.C. - 598
a.C.), são os seguintes capítulos 7, 17-20,21,25,35, 45-49, e de seu
filho Joaquim (598 a.C.) são partes dos capítulos9, 10, I I , 13, 15, 16
e 22. No reinado de Zedequias (597-586 a.C.), foram produzidos os
capítulos 23, 24, 27-29, 32-34, 37, 39 e partes dos capítulos 21, 51 e
52. Depois da destruição de Jerusalém, na administração de Gedalias
e Joanã, Jeremias escreveu os capítulos 40-44.
P ro fe ta s M a io r e s e M e n o re s I 121

O capítulo 52.31-34 menciona o 37° ano do cativeiro de Joaquim,


coincidindo com o primeiro ano do reinado de Evil-Merodaque, rei
de Babilônia, sucessor de Nabucodonosor, que corresponde ao ano
560 a.C., provavelmente da lavra de alguém que teve contato direto
com o profeta, Baruque, por exemplo. Parece que nem tudo que o
profeta pregou foi registrado, pois nada sabemos sobre a lamentação
que ele fez a respeito da morte do rei Josias (2 Cr 35.25). Há indícios
de haver profecias de Jeremias que circulavam entre o povo sem,
contudo, fazerem parte de seu livro. Mateus cita uma profecia regis­
trada em Zacarias 11.12-13, entretanto, atribui sua paternidade lite­
rária a Jeremias (Mt 27.9). O capítulo 51 termina com as seguintes
palavras: "Aqui terminam as palavras de Jeremias" (v. 64). Isso pare­
ce indicar o encerramento do livro. Ê, portanto, possível que profetas
posteriores tenham recolhido material ou ditos do profeta para acres­
centar ao livro. Não há, portanto, razão para se questionar a auten­
ticidade e a data dos discursos que formam o livro de Jeremias.

Habacuque. Como acontece com os livros de Obadias, de Naum


e de Joel, a introdução de Habacuque não indica o reinado e nem o
tempo em que recebeu os oráculos do Senhor, dizendo: " O peso
que viu o profeta Habacuque" (1.1). Alguns dados internos ajudam
a localizar os fatos no tempo, com o a profecia sobre a ascensão dos
caldeus. Josias morreu em 609 a. C., numa batalha contra Faraó-
Neco, em Megido, época em que ascendia a hegemonia babilônica.
O povo de Judá constituiu a Jeoacaz ou Joacaz, sendo destituído do
cargo três meses depois, por Neco que colocou seu irmão Eliaquim,
outro filho de Josias, em seu lugar e mudou o seu nome para Jeoa-
quim, também chamado Jeconias (2 Rs 23.30-34; 2 Cr 36.2-4). Este
reinou onze anos, mas nessa época a hegemonia política e militar
do Oriente Próximo havia se transferido da Assíria para Babilônia,
quando Nabopolassar, pai de Nabucodonosor, conquistou a então
1 2 2 I 0 Ministério Profético na Bíblia

enfraquecida Assíria. Os assírios, depois da destruição de Nínive,


em 612 a.C., transferiram sua capital para Harran, que foi conquis­
tada pelos caldeus, sem luta, dois anos depois. Tudo isso parece
concordar com a mensagem profética: "Porque eis que suscito os
caldeus, nação amarga e apressada, que marcha sobre a largura da
terra, para possuir moradas não suas" (Hc 1.6). Isso nos autoriza a
data o início de seu ministério em 609 a.C.

Ezequiel. O começo do ministério de Ezequiel aconteceu "No quin­


to dia do mês (no quinto ano do cativeiro do rei Joaquim), veio expres­
samente a palavra do SENHOR a Ezequiel, filho de Buzi, o sacerdote,
na terra dos caldeus, junto ao rio Quebar, e ali esteve sobre ele a mão
do SENHOR" (1.2,3). O profeta identifica-se, menciona data e local. Era
sacerdote e filho de Buzi, encontrava-se na Babilônia, na margem do
rio Quebar, era o ano 593 a.C., equivalente ao ano quinto do cativeiro
de Joaquim. Mais adiante ele menciona outra data: "E sucedeu que, no
ano vinte e sete, no mês primeiro, no primeiro dia do mês, veio a mim
a palavra do SENHOR" (29.17). É o registro do recebimento de mais um
oráculo, 27 anos depois do cativeiro e 22 de sua primeira chamada,
sobre o rei Nabucodonosor. Foi profeta do cativeiro babilônico e viveu
entre os seus irmãos exilados na Babilônia.

Daniel. Depois que os caldeus venceram a Batalha de Carquêmis,


na Síria, travada entre Nabucodonosor e Faraó-Neco, em 605 a.C.,
Judá, então tributária do Egito, passou a fazer parte do domínio do
rei de Babilônia (Jr 46.2; 2 Rs 24.7). Nesse mesmo ano, o primeiro do
seu reinado, que coincide com o quarto ano do reinado de Jeoaquim
(Jr 25.1; 46.2), ou terceiro, no calendário babilônico6 (Dn 1.1,2), o rei
de Babilônia entrou em Jerusalém e prendéu Jeoaquim para levá-lo

‘ Os caldeus calculavam o primeiro ano do reinado a partir do primeiro dia do ano seguinte. Assim,
605 a.C. era para eles o terceiro ano de Jeoaquim.
P ro fe ta s M a io r e s e M e n o r e s I 123

ao cativeiro, mas soltou-o porque teve certeza de sua lealdade. Ele


levou alguns dos utensílios do templo e alguns cativos, entre eles
Daniel e seus companheiros e, provavelmente, Ezequiel (2 Cr 36.6,7)
"e Jeoaquim tomou-se seu vassalo por três anos” (2 Rs 24.1).
Ezequiel foi profeta do exílio, mas tornou-se estadista e conse­
lheiro da corte. Daniel pertencia à nobreza de Judá e aparece ainda
muito jovem na corte de Nabucodonosor, quando é recrutado para
a escola de diplomacia babilônica logo que chegou à metrópole. Esse
império caiu cerca de 70 anos mais tarde, e o profeta foi testemunha
ocular da passagem da hegemonia política e militar dos caldeus para
os medos-persas, que aconteceu em 538 a.C. (1.1-6; 5.29-31). Ele
continuou recebendo oráculos divinos, pois o texto sagrado registra
que "No ano terceiro de Ciro, rei da Pérsia, foi revelada uma palavra
a Daniel” (Dn 10.1). Essa data corresponde a 536 ou 535 a.C. Assim,
datar a composição de suas profecias até 530 a. C. é aceitável, depois
dessa data é exagero. O nome de Daniel aparece no livro de Ezequiel
(Ez 14.14, 20; 28.3) e é mencionado pelo Senhor Jesus com o profeta
autor do livro que leva o seu nome: “Quando, pois, virdes o abomi­
nável da desolação de que falou o profeta Daniel, no lugar santo
(quem lê entenda)" (Mt 24.15). Isso encerra qualquer discussão.

O NEO-IMPÉRIO BABILÔNICO
OU A DINASTIA DE NABOPOLASSAR

REI B E RO SO PTO L O M E U DATA


Nabopalassar 21 anos 21 anos 625 - 605 a.C.
Nabucodonosor 43 anos 43 anos 605 - 562 a.C.
Evil-Merodaque 2 anos 2 anos 561 - 560 a.C.
Neriglissar 4 anos 4 anos 559 - 556 a.C.
---------—
——.......
Laborisoarcode 9 meses 9 meses 556 - a.C.
Nabonido/Belsazar 17 anos 17 anos 555 - 539 a.C.
1 2 4 I 0 Ministério Profético na Bíblia

OS PROFETAS PÓS-EXÍLIO

São os profetas do período persa: Ageu, Zacarias e Malaquias.


A supremacia da Pérsia durou desde Ciro 538 a.C. até Dario III, o
Codomano, derrotado por Alexandre, o Grande, em 331 a.C., na
Batalha de Issus. Durou cerca de 200 anos e dez reis reinaram
nesse império.7
O decreto de Ciro, rei da Pérsia, em 538, pôs fim ao cativeiro de
Judá e, assim, Deus cumpriu a sua promessa feita por meio do profe­
ta Jeremias (Jr 25.11; 29.10). A ordem imperial manda reconstruir o
templo: "Assim diz Ciro, rei da Pérsia: O SENHOR, Deus dos céus, me
deu todos os reinos da terra e me encarregou de lhe edificar uma casa
em Jerusalém, que está em Judá; quem entre vós é de todo o seu povo,
que suba, e o SENHOR, seu Deus, seja com ele" (2 Cr 36.23). Os exi­
lados chegaram no ano seguinte a Jerusalém e dois anos depois
disso começaram a construção do templo (Ed 3.8). Esse edito reapa­
rece em Esdras 1.1-3; 4.3; 5.17, mas, mesmo durante todo seu gover­
no, havia oposição dos inimigos dos judeus contra essa obra e, depois
de sua morte, em 529, Cambises, seu sucessor, terminou cedendo às
pressões, embargando a obra e impedindo, assim, o projeto.

Ageu e Zacarias. Ambos foram comissionados pelo Senhor para


exortarem o povo sobre a construção do templo (Ed 5.1). A obra
estava embargada no ano 520 a.C., equivalente ao "ano segundo do
reinado de Dario, rei da Pérsia" (Ed 4.24), Dario I. As datas de Ageu
são claras e precisas, mostrando que ele recebeu os oráculos de
divinos num período de quatro meses desse mesmo ano (1.1; 2.1,
10, 20). Dois meses depois, Zacarias começou a receber uma série
de visões de Deus (1.1).

7 Seus nom es e época em que cada um reinou estão na lista dos reis da Pérsia no livro de Esequias
Soares, Visâo Panorâmica do Antigo Testamento, p. 222.
P ro fe ta s M a io r e s e M e n o r e s I 125
1 2 6 I 0 Ministério Profético na Bíblia

Museu do Louvre - Decoração do palácio de Dario I,


representando os arqueiros do rei, datado de 500 a.C.

Malaquias. É um dos livros que silencia sobre a origem, o período


e o local do ministério do profeta. Evidências internas mostram que
o templo já havia sido construído, o sistema levita estava viciado e
o padrão moral havia se afrouxado (1.7-10; 2.10-17; 3.10). Esse es­
tado moral se parece com os últimos anos da administração de
Neemias, mas o contexto de Malaquias é posterior. O povo estava
sob o regime persa, o termo usado para “governador'' (1.8 [Almeida
Atualizada e Tradução Brasileira]) é de origem acádica, n n s (pehãh),
mas usado para diversos tipos de oficiais persas nos livros de Esdras,
Neemias e Ester. Aparece para indicar o cargo de Neemias (Ne 5.14).
A data de 433 a.C. para o início das atividades do último profeta
canônico é aceitável até mesmo para os críticos liberais.
(hS
PROFETAS
NO ANTIGO
TESTAMENTO
1 2 8 1 0 Ministério Profético na Bíblia

Israel é o reino dos profetas cujas autoridade e influência são re­


conhecidas por judeus, cristãos e muçulmanos no mundo inteiro. O
profetismo hebreu no Antigo Testamento é sui generis e nenhuma
nação no planeta goza de tal privilégio. Isso porque eles foram esco­
lhidos e inspirados por Deus: "E falarei aos profetas e multiplicarei a
visão; e, pelo ministério dos profetas, proporei símiles” (Os 12.10).
Eles foram dirigidos pelo Espírito Santo: "mas os homens santos de
Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo" (2 Pe 1.21). O apóstolo
Pedro reconhece a legitimidade do profetismo de Israel, no entanto,
chama a atenção para um detalhe importante e presente no Antigo
Testamento: "E também houve entre o povo falsos profetas'' (2 Pe
2.1). Há sempre os que querem uma projeção diante do povo como
homem de Deus, mesmo não tendo chamada divina e também os que
exercem um ministério legítimo, mas desertam para agradar a reis
ímpios em busca de propina e, ainda, aqueles que pensam ser esco­
lhidos como profeta pelo Senhor. Tudo isso acontece por causa do
pecado e da natureza pecaminosa do ser humano que resulta em
estragos na sociedade e na Igreja, prejuízos individuais e coletivos.
Os mesmos termos hebraicos navi, roeh e hozeh, usados para os
profetas do Deus vivo, ou videntes como Samuel e Gade, são também
aplicados aos falsos profetas, é o contexto que vai identificar o ver­
dadeiro e o falso no Antigo Testamento. A LXX emprega nove vezes
a palavra grega i|ieuÔo7Tpo<t)r|Tr|<; (pseudoprophêtês), "falso profeta'', para
traduzir a palavra hebraica navi "profeta" (Jr 6.13; 33.7,8, 11,16 [26.7,
8, 11, l6j; 34.7 [27.91; 35.1 [28.1]; 36.1, 8 [29-1,8]; Zc 13.2).

MOISÉS ADVERTE O POVO SOBRE OS FALSOS PROFETAS

Quando Moisés anunciou ao povo sobre o surgimento de uma


corporação profética em Israel, previu também que isso não descar­
taria a presença dos falsos profetas, pois onde há a verdade, há
O s F a ls o s P ro fe ta s n o A n tig o T estam e n to I 1 2 9

também a mentira; onde há o certo, o errado se manifesta; onde há


o autêntico, há as imitações: "Assim com o Janes e Jambres resistiram
a Moisés, assim também estes resistem à verdade, sendo homens
corrompidos de entendimento e réprobos quanto à fé" (2 Tm 3.8).
Ele mesmo experimentou essa realidade ao desmascarar os místicos
e conselheiros do Faraó, no Egito, quando não puderam imitar a
praga dos piolhos (ê x 8.18, 19).
Se hoje um número considerável de crentes em Jesus tem di­
ficuldade em distinguir entre um hom em de Deus e um embustei­
ro charlatão, o que não dizer nos primórdios da história um cida­
dão comum reconhecer o falso do verdadeiro? Israel precisava
saber com o identificar o verdadeiro profeta enviado de Deus da­
queles que se dizem ser m ensageiros do Senhor. Moisés mostrou
duas maneiras de distinguir o falso do verdadeiro, para seguran­
ça do povo, evitando assim o desvio e a apostasia. A primeira
ação é prestar a atenção nos seus discursos para ver se as palavras
se cumprem.

18 Eis que lhes suscitarei um profeta do m eio de seus ir­


mãos, com o tu, e porei as minhas palavras na sua boca, e ele
lhes falará tudo o que eu lhe ordenar. 19 E será que qualquer
que não ouvir as minhas palavras, que ele falar em meu nome,
eu o requererei dele. 20 Porém o profeta que presumir sober-
bamente de falar alguma palavra em meu nome, que eu lhe
não tenho mandado falar, ou o que falar em nom e de outros
deuses, o tal profeta morrerá. 21 E se disseres no teu coração:
Com o conhecerem os a palavra que o SENHOR não falou?
22 Quando o tal profeta falar em nom e do SENHOR, e tal pa­
lavra se não cumprir, nem suceder assim, esta é palavra que
o SENHOR não falou; com soberba a falou o tal profeta; não
tenhas temor dele (Dt 18.18-22).
1 3 0 1 0 Ministério Profético na Bíblia

Deus prometeu levantar em Israel o ministério dos profetas para


se comunicar com o povo por meio deles (v. 18). Não seria mais como
foi com Moisés, com quem Deus falava face a face: "E falava o SENHOR
a Moisés face a face, como qualquer fala com o seu amigo" (ê x 33. 11);
"E disse: Ouvi agora as minhas palavras; se entre vós houver profeta,
eu, o SENHOR, em visão a ele me farei conhecer ou em sonhos fala­
rei com ele. Não é assim com o meu servo Moisés, que é fiel em toda
a minha casa. Boca a boca falo com ele, e de vista, e não por figuras;
pois, ele vê a semelhança do SENHOR" (Nm 12.6-8). Depois de sua
morte, Deus continuaria falando com o povo por meio dos profetas.
Dizer com precisão o que vai acontecer no futuro está fora do
alcance humano e para alguém acertar uma previsão dessa era
sinal de um poder sobrenatural sobre tal profeta. Ele devia falar
"em nome do SENHOR" (v. 22) e Deus, que o escolheu para esse
ministério, se encarregaria de cumprir a sua palavra, com o fez ao
longo da história do Antigo Testamento, mesmo em tempos de
adversidades, com o Micaías anunciou a morte de Acabe, mesmo
munido de todas as precauções (1 Rs 22.28-38), e Eliseu anunciou
mantimento para o dia seguinte em Samaria, numa época de fome,
quando a cidade estava sitiada pelos inimigos, cujo relato está em
2 Reis 7. O cumprimento da palavra já era um bom sinal, mas ain­
da não era tudo, porque podia se tratar de embuste ou de um poder
maligno. Antes da morte de Moisés, o povo já conhecia o modus
operandi da adoração de Israel ao verdadeiro Deus. Os israelitas
tinham, portanto, o m odelo do autêntico culto, era só observar se
o pensamento desse novo profeta se alinhava com a realidade
histórica deixada pelo seu legislador quanto à adoração ao único
Deus que se revelou no Sinai.
Moisés apresenta, então, duas situações. A primeira, quando a
palavra não se cumpre, já caracteriza o falso profeta, o povo não
deve temer e o tal embusteiro deve ser morto "o tal profeta morrerá"
O s F a ls o s P ro fe ta s n o A n tig o T estam e n to 11 3 1

(v. 20b). Quando o seu pronunciamento é confirmado, cumpriu-se a


palavra dita, aí, vem a segunda fase do teste, conduz-se o povo à
adoração verdadeira, ao Deus verdadeiro: "Quando profeta ou so­
nhador de sonhos se levantar no meio de ti e te der um sinal ou
prodígio, e suceder o tal sinal ou prodígio, de que te houver falado,
dizendo: Vamos após outros deuses, que não conheceste, e sirvamo-
los, não ouvirás as palavras daquele profeta ou sonhador de sonhos”
(Dt 13.1-3). Assim, apenas o sinal sobrenatural não é suficiente, o
pensamento teológico não deve destoar da revelação divina deixada
por Moisés e pelos profetas do Deus vivo.
A Palavra de Deus é contundente com os falsos profetas, pois
eles afirmam falar em nome do Senhor, apresentam-se com o seus
mensageiros, sem, no entanto, ter compromisso e nem comunhão
com Deus: "Porque eles vos profetizam falsamente em meu nome;
não os enviei, diz o SENHOR" (Jr 29.9). Isso é muito sério e ao mes­
m o tempo grave. O povo de Judá estava no cativeiro, na Babilônia,
pois recebeu a sentença de 70 anos de exílio pelo pecado denuncia­
do pelos profetas. A instrução divina era para os exilados esperarem
o tempo, pois tinham a promessa de retorno e de bênçãos (Jr 29.10-
14); entretanto, alguns se posicionaram na Babilônia com o profetas
de Deus, opondo-se à mensagem de Jeremias, pregando contra tudo
isso. Dentre eles, havia um certo Acabe e outro chamado Zedequias,
xará de outro falso profeta do Reino do Norte (Jr 29.21; 1 Rs 22.11,
12). Isso significa que esses agentes levavam o povo ao desvio e à
ruína, assim, a sua pena estabelecida na lei era a morte: "E aquele
profeta ou sonhador de sonhos morrerá, pois falou rebeldia contra
o SENHOR, vosso Deus, [...] para vos apartar do caminho que vos
ordenou o SENHOR, vosso Deus, para andardes nele; assim, tirarás
o mal do m eio de ti" (Dt 13.5). O futuro dos falsos profetas não é
nada promissor (Ez 14.9-11). Mesmo assim, muitos se arriscavam
no exercício de um ministério fraudulento. Os relatos históricos
1 3 2 1 0 Ministério Profético na Bíblia

mencionam os falsos profetas e os próprios profetas canônicos os


denunciam. Há uma lista enorme contra eles.

OS FALSOS PROFETAS E AS SUAS MALDADES

O profeta Isaías comparou o estado de Judá à situação do Reino


do Norte nos anos que precederam à queda de Samaria: "Mas tam­
bém estes erram por causa do vinho e com a bebida forte se desen-
caminham; até o sacerdote e o profeta erram por causa da bebida
forte; são absorvidos do vinho, desencaminham-se por causa da
bebida forte, andam errados na visão e tropeçam no juízo" (Is 28.7).
Denunciou as autoridades civis e religiosas pelos prazeres carnais
e pelas festanças dominadas pelo vinho e pela bebida forte. Os sa­
cerdotes, que julgavam os litígios dentre o povo, haviam perdido a
sobriedade e a sensatez nesses julgamentos. A visão dos falsos
profetas eram resultados do seu estado de embriaguês, eram visões
provenientes do álcool. Isaías denunciou esses pecados com o ob­
servador, ele estava muito longe de ser com o um deles.
Jeremias fez diversas denúncias contra os falsos profetas de sua
geração e houve situação em que teve de enfrentá-los pessoalmen­
te, face a face na presença do povo e das autoridades em Jerusalém,
com o o caso de Hananias, no capítulo 28 de seu livro. Sua crítica é
dirigida aos profetas e aos sacerdotes, por causa da avareza e da
falsidade, são ministros que se corromperam por conta do contexto
social, político e religioso da época de Judá. Ele denunciou a falsi­
dade deles: "Porque, desde o menor deles até ao maior, cada um se
dá à avareza; e, desde o profeta até ao sacerdote, cada um usa de
falsidade" (Jr 6.13). A LXX emprega aqui o termo "falso profeta".
O profeta Jeremias afirmou que estavam todos contaminados,
até mesmo os sacerdotes de Judá estavam nesse sistema viciado:
"tanto o profeta com o o sacerdote estão contaminados" (23.11).
O s F a ls o s P ro fe ta s n o A n tig o T estam e n to 11 3 3

Descreveu ainda uma enorme lista de impiedades e anunciou a


ruína deles (23.12-15). A ordem divina era para que ninguém ouvis­
se a palavra dos falsos profetas, porque eram oráculos falsos, eles
usavam indevidamente o nome de Deus, falavam de si mesmos,
dizendo que eram embaixadores do céu e enviado pelo Senhor: "Não
deis ouvidos às palavras dos profetas que entre vós profetizam;
ensinam-vos vaidades e falam da visão do seu coração, não da boca
do SENHOR [...] Não mandei os profetas; todavia, eles foram corren­
do; não lhes falei a eles; todavia, eles profetizaram" (23.16, 21).
Jeremias responsabilizou os falsos profetas do Reino do Norte pela
ruína de Samaria e pelo fim das dez tribos do norte, pois levaram os
reis juntamente com o povo ao desvio, à idolatria, incentivando o
culto de Baal, atitude considerada loucura: "Nos profetas de Samaria,
bem vi eu loucura: profetizaram da parte de Baal e fizeram errar o
meu povo de Israel" (23.13). Porém, Judá caminhava para o mesmo
destino e os seus profetas, opositores dos profetas do Deus vivo, não
eram diferentes e o Senhor viu neles uma coisa horrenda: "Mas, nos
profetas de Jerusalém, vejo uma coisa horrenda: cometem adultérios,
e andam com falsidade, e esforçam as mãos dos malfeitores, para
que não se convertam da sua maldade; eles têm-se tornado para mim
com o Sodoma, e os moradores dela, com o Gomorra" (23.14). Era
algo execrável comparado à Sodoma e Gomorra.
Os falsos profetas estavam também na Babilônia, enganando o
povo e dando trabalho aos homens de Deus. Eles se correspondiam
com os seus colegas de Jerusalém, em busca de informação para
enriquecer a sua mensagem. Enquanto isso, na Babilônia, Ezequiel
tinha também de enfrentar os falsos profetas.

3 Assim diz o Senhor JEOVÁ: Ai dos profetas loucos, que


seguem o seu próprio espírito e coisas que não viram ! 4 Os
teus profetas, ó Israel, são com o raposas nos desertos. 5
1 3 4 I 0 Ministério Profético na Bíblia

Não subistes às brechas, nem reparastes a fenda da casa de


Israel, para estardes na peleja no dia do SENHOR. 6 Veem
vaidade e adivinhação mentirosa os que dizem : O SENHOR
disse; quando o SENHOR os não enviou; e fazem que se
espere o cumprimento da palavra. 7 Não vedes visão de
vaidade e não falais adivinhação mentirosa, quando dizeis:
O SENHOR diz, sendo que eu tal não falei? 8 Portanto, assim
diz o Senhor JEOVÁ: Com o falais vaidade e vedes a mentira,
portanto, eis que eu sou contra vós, diz o Senhor JEOVÁ. 9
E a minha m ão será contra os profetas que veem vaidade e
que adivinham mentira; na congregação do meu povo, não
estarão, nem nos registros da casa de Israel se escreverão,
nem entrarão na terra de Israel; e sabereis que eu sou o
Senhor JEOVÁ. 10 Visto que, sim, visto que andam enganan­
do o meu povo, dizendo: Paz, não havendo paz; e um edifi-
ca a parede de lodo, e outros a rebocam de cal não adubada
(Ez 13.3-10).

Ezequiel chamou essa gente de "profetas loucos", que falavam


de si mesmo, não de Deus, "as coisas que não viram" (v.3). O termo
hebraico usado aqui para "louco" é ^23 (nãvãl), "tolo", de significa­
do amplo. Quem não se lembra do avarento Nabal, marido de Abigail?
(1 Sm 25.25). Segundo o Dicionário Internacional de Teologia do An­
tigo Testamento, "a insensibilidade para com Deus bem com o a in­
sensibilidade moral fecham a mente para a razão". É o tipo de in­
sensato que blasfema contra Deus: "Lembra-te disto: que o inimigo
afrontou ao SENHOR, e que um povo louco blasfemou o teu nome'
(SI 74.18); não se trata, portanto, apenas de tolices.
O profeta Ezequiel considerou os oráculos desses falsos profetas
com o "adivinhação mentirosa" (w . 6, 7) e declarou que esses ini­
migos de Deus e de Israel "adivinham mentira" (v. 9) e "andam
enganando o meu povo" (v. 10). É de se lamentar que, numa época
em que a nação mais precisava ser edificada, esses opositores da
Os F a ls o s P ro fe ta s n o A n tig o T estam e n to I 1 3 5

verdade subvertiam a estabilidade: "Não subistes às brechas, nem


reparastes a fenda da casa de Israel, para estardes na peleja no dia
do SENHOR" (v. 5). Eram homens sem o mínimo de escrúpulos e
não ligavam para o bem-estar do povo, eram aproveitadores preo­
cupados apenas com seus próprios interesses, pois "são com o ra­
posas nos desertos" (v. 4), o texto sagrado descreve isso com lin­
guagem pitoresca, porém, muito forte.
Muitos falsos profetas surgiram no Reino do Norte, um exemplo
disso está em Zedequias que liderava um grupo deles, com o apare­
ce em 1 Reis 22, e na passagem paralela no segundo livro das Crô­
nicas 18. Porém, o profeta Oseias faz menção deles.

7 Chegaram os dias da visitação, chegaram os dias da re­


tribuição; Israel o saberá; o profeta é um insensato, o homem
de espírito é um louco; por causa da abundância da tua iniqüi­
dade, também avultará o ódio. 8 Efraim era vigia junto com o
meu Deus, mas o profeta é com o um laço de caçador de aves
em todos os seus caminhos, um inimigo na casa do seu Deus.
9 Mui profundamente se corromperam, com o nos dias de Gi-
beá. Ele lembrar-se-á das suas injustiças, visitará os pecados
deles (Os 9.7-9).

Jeremias registrou que Deus viu loucura nos profetas de Sama-


ria (Jr 23.13) e Oseias, que profetizou no Reino do Norte, usou a
expressão: "o profeta é um insensato, o homem de espírito é um
louco" (Os 9.7). Porém, aqui, não parece ser alusão a falsos pro­
fetas. O que aconteceu é que eles disseram: "os dias da visitação
[...] e os dias da retribuição", um paralelismo poético que indica o
cativeiro assírio. Neles o p ovo creu, entretanto, dadã a cegueira
espiritual e o profundo envolvim ento da nação com a idolatria, as
pessoas ridicularizavam os profetas de Deus, cham ando-os de
insensatos, loucos, "homem de espírito” . Isso não era elogio, mas
1 3 6 1 0 Ministério Profético na Bíblia

chacota, insinuando que esses homens de Deus perderam o bom


senso, a sabedoria, e andavam tagarelando e espiritualizando tudo.
Em Jerusalém, "zom baram dos m ensageiros de Deus, e despreza­
ram as suas palavras, e escarneceram dos seus profetas" (2 Cr
36.16). O v. 8 é referência ao "falso profeta", segundo Feinberg: "O
profeta aqui destacado é especificamente o falso profeta que se­
duziu o p ovo de Deus e era a própria corporificação do ódio na
casa de Deus. O p ovo havia percorrido a escala com pleta da cor­
rupção" (p. 45).
Miqueias protestou contra os falsos profetas, mostrando que o
propósito deles era meramente econômico: "os seus profetas adivi­
nham por dinheiro" (Mq 3.11). Assim, eles "fazem errar o meu povo"
(3.5), porque procuravam agradar aos seus pagantes.
Conta-se que vivia um rabino em Jerusalém, nos tempos antigos,
cuja especialidade era interpretar sonhos. Quando o consulente
pagava, por mais horripilante que fosse o sonho, ele tinha a habili­
dade de interpretar tal pesadelo com o algo bom e positivo. Por
outro lado, quando ele não recebia presentes do seu cliente, por
mais lindo e fascinante que fosse o sonho, sua interpretação era
sempre assustadora. Alguém lhe contou que sonhou com dois nabos,
o interpretador esperou por alguns segundos o pagamento, como
não recebeu nada, disse: "você vai receber duas pauladas". Ele saiu
nessas palavras do rabino, logo em seguida ele encontrou homens
brigando, resolveu apartar a briga e um deles deu-lhes duas paula­
das, quando foi dar a terceira, ele bradou: Para! Eu só vi dois nabos
em meu sonho!
Esse conto ilustra com o os falsos profetas profetizam paz para
quem lhe der alguma coisa, no entanto, organiza uma campanha
oposicionista contra aquele que não lhe der nada: "Mas contra
aquele que nada lhes mete na boca preparam guerra" (3.5b). São
profetas de aluguel preocupados em agradar às pessoas, falando o
O s F a ls o s P ro fe ta s n o A n tig o T estam e n to I 137

que elas querem ouvir e nunca a verdade. Por isso Sofonias os cha­
ma de "levianos e criaturas aleivosas" (Sf 3.4).

O FRACASSO DOS FALSOS PROFETAS

O Antigo Testamento menciona por nome alguns falsos profetas,


em Samaria: Zedequias, filho de Quenaana (1 Rs 22.11; 2 Cr 18.10);
em Jerusalém: Hananias, filho de Azur, embora sua origem fosse de
Gibeão, desafiou o profeta Jeremias em Jerusalém, no templo (Jr
28.1). Os caldeus levaram para a Babilônia, na incursão de 597 a.C.,
entre os demais, sacerdotes, membros da casa real e, também, fal­
sos profetas com o Acabe, filho de Colaías; Zedequias, filho de Maa-
seias e Semaías, o neelamita {Jr 29.1 -4,2 i , 31). Muito falsos profetas
anônimos surgiram na história dos hebreus do período bíblico anô­
nimos, só ao lado de Zedequais, filho de Quenaana eram cerca de
400 deles (1 Rs 22.6).
Zedequias e os que estavam com ele profetizaram que o rei Aca­
be juntamente com o rei Josafá seriam bem sucedidos na peleja
contra os siros em Ramote-Gileade. Todos eles diziam: "sobe, porque
o Senhor a entregará na mão do rei" (1 Rs 22.6). A comitiva que o
rei enviou para trazer Micaías, o profeta do Deus vivo, vinha pres­
sionando o homem de Deus para proferir um discurso alinhado com
o dos falsos profetas: "Vês aqui que as palavras dos profetas, a uma
voz, predizem coisas boas para o rei; seja, pois, a tua palavra com o
a palavra de um deles, e fala bem" (1 Rs 22.13). Mas, ele não deixou
se intimidar, disse: "Vive o SENHOR, que o que o SENHOR me disser
isso falarei" (v. 14). O resultado foi o fracasso dos falsos profetas, a
derrota de Israel e a morte do rei Acabe na peleja.
Hananias era um falso profeta que pregava mentiras para o povo,
dizendo-se enviado por Deus: "Ouve, agora, Hananias: não te enviou
o SENHOR, mas tu fizeste que este povo confiasse em mentiras" (Jr
1 3 8 I 0 Ministério Profético na Bíblia

28.15). Este havia antes desafiado Jeremias no templo de Jerusalém


diante do povo e dos sacerdotes. Ele procurava contradizer os orá­
culos divinos proferidos não somente pelo homem de Deus, mas
também pelos profetas que foram antes dele.
Os oráculos divinos pronunciados pelo profeta das lágrimas di­
ziam que o rei Joaquim haveria de morrer no cativeiro: "Vivo eu, diz
o SENHOR, que, ainda que Jeconias, filho de Jeoaquim, rei de Judá,
fosse o selo do anel da minha mão direita, eu dali te arrancaria [...]
E lançar-te-ei a ti e à tua mãe, que te deu à luz, para uma terra es­
tranha, em que não nasceste; e ali morrereis" (Jr 22.24, 26)* e os
judeus exilados não retomariam a sua terra antes de 70 anos: "e
estas nações servirão ao rei da Babilônia setenta anos [...] Certa­
mente que, passados setenta anos na Babilônia, vos visitarei e
cumprirei sobre vós a minha boa palavra, tom ando-vos a trazer a
este lugar" (Jr 25.11; 29.10). Hananias, no entanto, dizia que nada
disso era verdade, profetizava que em dois anos findaria o cativeiro:
"Depois de passados dois anos completos, eu tornarei a trazer a este
lugar todos os utensílios [...] Também a Jeconias, filho de Jeoaquim,
rei de Judá, e a todos os do cativeiro de Judá que entraram na Babi­
lônia eu tomarei a trazer a este lugar, diz o SENHOR" (Jr 28.3,4). Era
uma mensagem ousada, chegou a usar a chancela de autoridade
divina: "Assim fala o SENHOR dos Exércitos (v. 2) e "diz o SENHOR"
(v. 4b). Falou portanto, em nome do Deus de Israel. Era a palavra de
Jeremias contra a palavra de Hananias.
Depois desse embate público, Deus encarregou o próprio Jeremias
de proferir a maldição sobre o falso profeta Hananias, pois ele pre­
cisava ser castigado por pregar mentiras e desviar o povo dos ca­
minhos do Senhor: "Eis que te lançarei de sobre a face da terra; este
ano, morrerás, porque falaste em rebeldia contra o SENHOR. E mor-

1 Joaquim, filho de Jeoaquim, é conhecido tam bém pelos nom es alternativos Jeconias e Conias (Jr
22.24;37.1).
Os F a ls o s P ro fe ta s n o A n tig o T estam e n to 1 1 3 9

reu Hananias, o profeta, no mesmo ano, no sétimo mês" (Jr 28.16,


17). Era o cumprimento da sentença da Lei aplicada pelo próprio
Deus (Dt 18.20). O resultado foi o completo fracasso do opositor da
verdade. Joaquim morreu no exílio, nos dias do rei Evil-Merodaque,
sucessor de Nabucodonosor(2 Rs 25.27-30; Jr 52.31-34) e o cativei­
ro só terminou depois dos 70 anos (2 Cr 36.22, 23; Zc 7.5).
O destino dos falsos profetas que exerceram sua pérfida ativida­
de em Babilônia não foi diferente. Acabe e Zedequias foram assados:
"O SENHOR te faça com o a Zedequias e com o a Acabe, os quais o
rei da Babilônia assou no fo g o !" (Jr 29-22). Quanto a Semaías, seu
discurso era afinado com o de Hananias. Numa carta enviada a Je­
rusalém, queixa-se das autoridades religiosas, pois permitiram que
Jeremias pregasse o fim do cativeiro para muito tempo depois e que
enviasse carta para os exilados reforçando essa mensagem (Jr 29.24-
28). Como aconteceu com Hananias, Deus encarregou o próprio
Jeremias para tornar público que Semaías era um falso profeta:
"Semaías vos profetizou, e eu não o enviei, e vos fez confiar em
mentiras" Qr 29.31); portanto, estava ele e a sua família excluídos
das bênçãos que o Senhor havia preparado para o povo (v. 32).
A mentira não pode prosperar, mais cedo ou mais tarde será
desmascarada. Abraham Lincoln disse: "Pode-se enganar a todos
por algum tempo; pode-se enganar alguns por todo o tempo; mas
não se pode enganar a todos todo o tempo". Diante dos aconteci­
mentos envolvendo Jeremias e Hananias, qualquer pessoa sensata,
nem precisaria ser bom observador, poderia discernir quem era
verdadeiramente o profeta enviado por Deus.
LJCLtlSut--
O ÚLTIMO PROFETA
VETEROTESTAMENTÁRIO
1 4 2 1 0 Ministério Profético na Bíblia

Igreja de São João Batista em Ein Karem - Israel.

Gruta no interior da Igreja de São João Batista em Ein Karem,


onde, segundo a tradição, teria nascido João Batista.
J o ã o B a tista - O Ú ltim o P ro fe ta V e tero testam en tário i 143

Os quatro evangelhos registram porções da história de João Batista,


o precursor do Senhor Jesus Cristo, e o seu papel no cristianismo. Do­
cumentos extrabíblicos atestam a sua existência como revelada nas
páginas das Escrituras Sagradas. Ele é mencionado pelo historiador
judeu, Fláviojosefo, em sua obra, Antiguidades Judaicas, Livro 18.7.781.
As recentes descobertas ocorreram em 1999, pelo arqueólogo britâni­
co, Shimon Gibson, a três quilômetros da tradicional gruta de seu
nascimento sobre a qual foi construída a Igreja de São João Batista, em
Ein Karem, nas proximidades de Jerusalém. Esse achado foi publicado
no livro A Gruta de São João Batista, obra que apresenta fotografias de
diversos objetos datados do primeiro século d. C.: desenhos, cerâmicas,
moedas, ossos, fragmentos de tecidos, inscrições com o seu nome.

0 APARECIMENTO DE JOÃO BATISTA

Lucas apresenta um relato minucioso do nascimento de João Ba­


tista no primeiro capítulo de seu evangelho, além de informações pe­
culiares de seu ministério. Não há relato de sua origem nos outros
evangelhos, mas eles trazem porções históricas de sua vida e ministé­
rio. Ele veio de uma família de sacerdote, Zacarias e Isabel: "Existiu, no
tempo de Herodes, rei da Judeia, um sacerdote, chamado Zacarias, da
ordem de Abias, e cuja mulher era das filhas de Arão; o nome dela era
Isabel" (Lc 1.5). O rei da Judeia na época era Herodes I (74 - 4 a C.),1
chamado por Josefo de "o Grande". Era filho de um edomita ou idumeu
chamado Antípater, que serviu como primeiro ministro de Hircano II,
descendente da família dos Macabeus. Foi no seu reinado que João
Batista nasceu e da mesma forma o Senhor Jesus: "E, tendo nascido

1 O Senhor Jesus nasceu no ano 749 da fundação de Roma, cuja sigla é AUC {Anno Urbis Conditae),
que significa "A n o em que a Cidade foi Fundada", a cidade é uma referência à Roma. O m onge
Dionísio Exiguus organizou, no ano 525, um calendário tendo com o ponto de partida o nasci­
m ento de Jesus. Ele fixou o ano 1 d. C. em 753 AUC, assim, o nosso calendário está atrasado
cerca de cinco anos. Isso explica o ano da m orte de Herodes, o Grande, no ano 4 a.C., quando,
na verdade, Jesus já havia nascido, este é um problem a de cálculo.
1 4 4 I 0 Ministério Profético na Bíblia

B endito o Senhor Deus de Israel


que visitou e redimiu o seu povo
e nos deu um Salvador poderoso
na casa de D avid, seu servo,
conforme prometeu pela boca dos seus
santos, os profetas dos tempos antigos,
para nos libertar dos nossos inim igos
e das mãos daqueles que nos odeiam,

>L
para mostrar a sua misericórdia a favor
dos nossos pais, recordando a sua sagrada
aliança, e o juramento que fizera
a Abraão, nosso pai, que nos havia
de conceder esta graça:
de O servirmos um dia, sem temor,
livres das m ãos dos nossos inimigos,
em santidade e justiça, na sua presença,
todos ps dias da nossa vida.
E tu, menino, serás chamado profeta
do Altíssimo, porque irás à sua frente
a preparar os seus caminhos, para
dar a conhecer ao seu povo a salvação
pela remissão dos seus pecados,
graças ao coração misericordioso
ao nosso Deus, que das alturas
nos visita com o sol nascente,
para ilum inar os que jazem nas trevas
e na sombra da m orte, e dirigir
os nossos passos no cam inho da paz,
Lc.1.6&.7?

O cântico de Zacarias está


exposto em diversas línguas,
dentre elas, a portuguesa,
na Igreja de São João Batista
em Ein Karem.
J o ã o B a tista - O Ú ltim o P ro fe ta V e tero testam en tário 11 4 5

Jesus em Belém da Judeia, no tempo do rei Herodes" (Mt 2.1). Com o


passar do tempo, o número de sacerdotes aumentou consideravelmen­
te, por isso Davi criou um sistema de turno (1 Cr 24.3-6), a ordem de
Abias era a oitava (1 Cr 24.10), de modo que na época do rei Herodes,
cada sacerdote tinha a oportunidade de servir o altar uma vez na vida,
como aconteceu com Zacarias "na ordem da sua turma" (Lc 1.8).
O nascimento de João Batista foi um milagre, pois além da idade
avançada de seus pais, "Isabel era estéril" (Lc 1.7). Isso faz lembrar o
nascimento de Isaque, quando Sara estava com 90 anos de idade e era
também estéril (Gn 11.30; 21.2). A mãe de Sansão e Ana, mãe de Samuel,
eram ambas estéreis, embora não tivessem idade avançada, mas con­
ceberam pelo poder de Deus (Jz 13.2,24; 1 Sm 1.2,20), pois havia um
propósito divino para cada um deles. O de João Batista era converter
os filhos de Israel a Deus, "preparar ao Senhor um povo bem disposto"
(Lc 1.16) e "ir ante a face do Senhor, a preparar os seus caminhos" (Lc
1.76). Para cumprir essa missão ele precisava de algo mais que os outros
servos de Deus. O anjo disse a Zacarias que seu filho "será grande
diante do Senhor... será cheio do Espírito Santo, desde o ventre de sua
mãe" (Lc 1.15).
O anjo mandou Zacarias colocar no menino "o nome de João"
(1.13). Era um nome comum na época, em hebraico é u n i '(yôhcmãn)
"Yohanan", que significa "Yahweh é gracioso", e sua forma grega é
’l(àávvr)ç (Iõannês)’'Ioánnes". Há mais quatro personagens no N ovo
Testamento com esse nome: o filho de Zebedeu, o apóstolo João (Mt
4.21); o pai do apóstolo Pedro, que Mateus o chama de Jonas (16.17)
e no evangelho de João é chamado de "João" (1.42; 21.15-17), versão
Almeida Atualizada; João Marcos, autor do evangelho que leva o
seu nome (At 12.12; 15.37) e um parente de Anás e Caifás (At 4.6).
O nome "Batista", aplicado a ele, foi em decorrência de seu minis­
tério de batizar. Assim, "João Batista", em grego é ’I(úávvr}ç ó
ponTTLarrjç (Iõannês ho baptistês), "João, o batizador".
1 4 6 1 O Ministério Profético na Bíblia

O PROFETA

João Batista viveu no período da dinastia de Herodes, pertenceu


à mesma geração do Senhor Jesus e de seus apóstolos, mas foi o
último profeta da antiga aliança: "A Lei e os Profetas duraram até
João" (Lc 16.16). Sua história é contada em algumas porções dos
evangelhos, mas a sua vinda estava prevista no Antigo Testamento
para ser o precursor do Messias, preparando o povo para receber a
Jesus: "Eis que eu envio o meu anjo, que preparará o caminho dian­
te de mim" (Ml 3.1). O Senhor Jesus Cristo disse que essa palavra
profética diz respeito ao Batista: "porque é este de quem está escri-

Cavema 1 de Uid Qumran, no deserto da Judeia - Israel,


ondefoi encontrado o rolo do profeta Isaías.
J o ã o B a tista - 0 Ú ltim o P ro fe ta V e tero testam en tário I 147

to: Eis que diante da tua face envio o meu anjo, que preparará dian­
te de ti o teu caminho" (Mt 11.10); da mesma maneira Marcos co­
meça seu evangelho afirmando: "Como está escrito no profeta Isa­
ías: Eis que eu envio o meu anjo ante a tua face, o qual preparará o
teu caminho diante de ti. V oz do que clama no deserto: Preparai o
caminho do Senhor, endireitai as suas veredas. Apareceu João ba­
tizando no deserto e pregando o batismo de arrependimento, para
remissão de pecados" (Mc 1.2-4).
É o único no N ovo Testamento a receber os oráculos divinos na
forma dos profetas do Antigo Testamento: "veio a palavra de Deus
a João, filho de Zacarias" (Lc 3.2 - versão Almeida Atualizada). Essa
expressão é típica dos antigos profetas hebreus: "veio a palavra do
SENHOR a Samuel" (1 Sm 15.10); "a palavra do SENHOR veio a Natã"
(2 Sm 7.4). Lucas usou uma construção própria, mas num estilo que
coloca João na sucessão profética. Compare essa frase com o texto
LXX em Jeremias 1.1.

Jeremias 1.1:
tò pf||ia t o u Geoü o kyévtTo êirl Iepe|iiav t ò v t o u XeAxiou
Transliteração:
to rhêma tou theou egeneto epi Ierimian ton tou Chelkiou
Tradução:
“a palavra de Deus que veio sobre Jeremias o de Hilquias”.

Lucas 3.2
’ ' ______ 1- f\ ~ 5 \ ,-T t
eyeveto píp,ot 0eou étu Ta>ávvr}v tòv Za^apíou ulòv kv tf) èpr|(ia).
Transliteração:
egeneto rhêma theou epi lõannên ton Zachariou en tê erêmõ
Tradução:
"veio a palavra de Deus sobre João filho de Zacarias no deserto".
1 4 8 I 0 Ministério Profético na Bíblia

César Augusto morreu em 14


d.C. e, nesse mesmo ano, Tibé-
rio ocupou o trono em seu lugar.
Assim, o "ano quinze do império
de Tibério César" corresponde
ao ano 29 d.C., que corresponde
ao ano 779/780 AUC. Foi, pois,
nesse ano que João iniciou o seu
ministério (Lc 3.1, 20), quando
Jesus tinha quase 30 anos de
idade (Lc 3.23).
João foi cham ado profeta
pelo seu próprio pai: "E tu, ó
menino, serás chamado profe­
ta do Altíssim o" (Lc 1.76). O
p o v o tam bém o reco n h ecia
com o tal. Herodes Antipas sa­
bia disso: "E, querendo matá-lo,
temia o povo, porque o tinham
com o profeta" (Mt 14.5) e da
mesma forma as autoridades
religiosas: "tem em os o povo,
porque todos sustentavam que
João, v e rd a d e ira m e n te , era
profeta" (Mc 11.32). A palavra
final está com Jesus e ele disse
que João era muito mais que
Museu do Louvre: César
profeta: "Mas, então, que fostes Augusto - imperador romano de
27 a.C- 14 d.C.: "E aconteceu,
ver? Um profeta? Sim, vos digo naqueles dias, que saiu um
eu, e muito mais do que profe­ decreto da parte de César
Augusto, para que todo o
ta” (Mt 11.9). mundo se alistasse" (Lc 2.1).
J o ã o B a tista - O Ú ltim o P ro fe ta V e tero testam en tário I 149

JOÃO BATISTA E A COMUNIDADE DOS ESSÊNIOS

Há ainda hoje quem procure associar João Batista à comunidade


dos essênios que viviam em Qumran, no deserto da Judeia nas pro­
ximidades do Mar Morto. Josefo descreve o modus vivendi dessa an­
tiga seita judaica em Antiguidades Judaicas, Livro 18, capítulo 1;
Guerras Judaicas, Livro 2, capítulo 12.2A descoberta de sua biblioteca
a partir de 1949 confirma os relatos do historiador judeu e trouxe à
tona muitos detalhes até então desconhecidos. Desde então, não
falta especulação sobre a possibilidade de João Batista e até o próprio
Jesus terem sido essênios. Os documentos encontrados na região são
abundantes, mas nenhuma prova conclusiva ainda foi apresentada.
Parece, pois, temerário tentar associar o filho de Zacarias a eles.
Os defensores de um João Batista essênio argumentam que a
comunidade era governada por uma hierarquia sacerdotal e João
veio de uma família de sacerdotes. Tanto o filho de Zacarias como
o grupo de Qumran compartilhavam da visão escatológica, viviam
no deserto e praticavam o banho ritual.
A teologia escatológica vem desde Ezequiel e Daniel. A literatura
apocalíptica posterior trata basicamente do fim do mundo e do juízo
final. Por que João teria que se abeberar em fontes essênias? Josefo
e os documentos de Qumran afirmam que os essênios eram contra
o ritual do templo de Jerusalém, por essa razão foram viver com o
eremitas no deserto, afastando-se da sociedade. Além disso, mulhe­
res não eram aceitas na comunidade, mas adotavam crianças. Esses
dados por si só mostram que os pais de João Batista não podiam ser
essênios, pois Zacarias ministrava o sacerdócio na Casa de Deus,
quando o anjo anunciou o nascimento de seu filho e era casado. E

2 A divisão de livros, capítulos e parágrafos nas obras de Flávio Josefo, na edição da CPAD, destoa
do padrão universal, mas é a referência documentada aqui para facilitar a pesquisa de quem
deseja conferir as informações.
1 5 0 I 0 Ministério Profético na Bíblia

Local de banho ritual do tempo dos essênios em Uaid Qumran - Israel.

Desembocadura do rio Jordão no Mar Morto, onde João batizava - Israel.


J o ã o B a tista - 0 Ú ltim o P ro fe ta V e tero testam en tário I 151

João? O texto sagrado afirma: "E


o menino crescia, e se robuste-
cia em espírito, e esteve nos
desertos até ao dia em que havia
de mostrar-se a Israel" (Lc 1.80).
Caná 9
Alguns interpretam que, como
Tiberíades
seus pais já eram idosos, logo
Nazaré •
teriam morrido e seu filho teria
sido adotado por alguma seita
do deserto. É evidente que se
trata de interpretação hipotéti­
ca, pois o deserto, na Bíblia, é
sempre apresentado com o local
de contemplação e inspiração
• Sebaste
profética, quem não se lembra
das experiências de Moisés e
M c 1.13 Elias? (Êx 3.1; At 7.30; 1 Rs
19.4-7). E João é o último da li­
nhagem dos profetas: "Porque
todos os profetas e a lei profeti­
zaram até João" (Mt 11.13).
Jerusalém Betânia (Betábara)? Os banhos rituais eram parte
M t 3.13; Jo 1.28

da vida dos essênios, ainda hoje


podem ser vistas essas banhei­
Locais de batismo
ao longo do Jordão.
ras de pedras em Uiad Qumran.
Porém, o batismo que João in­
troduziu é outra coisa, muito
diferente da prática dessa comu­
nidade do deserto. Segundo
Josefo, essa prática visava à
purificação do corpo e, sobretu-
1 5 2 I O Ministério Profético na Bíblia

do, era praticado diariamente. De cima de uma escarpa de Qumran


tem-se uma visão perfeita da entrada do rio Jordão no Mar Morto,
onde João iniciou o seu ministério: "Apareceu João batizando no
deserto e pregando o batismo de arrependimento, para remissão de
pecados. E toda a província da Judeia e todos os habitantes de Jeru­
salém iam ter com ele; e todos eram batizados por ele no rio Jordão,
confessando os seus pecados" (Mc 1.4, 5). Por essa razão, alguns
veem a possibilidade do contato de João com os membros da seita.
A verdade é que ele realizava batismo ao longo do Jordão, não
ficava fixo em um só lugar: "E percorreu toda a terra ao redor do Jor­
dão, pregando o batismo de arrependimento, para o perdão dos pe­
cados" (Lc 3.3). A Palavra de Deus afirma que: "João batizava também
em Enom, junto a Salim, porque havia ali muitas águas; e vinham ali
e eram batizados" (Jo 3.23). Essa região é no norte de Israel, em Bete

Basílica da Anunciação, em Nazaré da Galileia. Aqui o anjo Gabriel anunciou a Maria


o nascimento de Jesus: "E, no sexto mês, fo i o anjo Gabriel enviado por Deus a uma
cidade da Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um varão cujo
nome era José, da casa de Davi; e o nome da virgem era Maria" (Lc 1.26, 27).
J o ã o B a tista - O Ú ltim o P ro fe ta V e tero testam en tário I 153

Rio Jordão em Yardenit, na Galileia - Israel.


1 5 4 1 0 Ministério Profético na Bíblia

Shean. Ele realizou também batismo do outro lado do Jordão, onde


hoje é a Jordânia: "Essas coisas aconteceram em Betânia, do outro
lado do Jordão, onde João estava batizando" (Jo 1.28). Este é o local
do batismo de Jesus. A observação "do outro lado do Jordão" serve
para não confundir com a aldeia de Lázaro, próxima a Jerusalém.
Orígenes, em suas viagens no ano 231, andou pela região, percorreu
toda a margem do Jordão em busca desse lugar e não encontrou.
Alguns manuscritos empregam o nome Br)0a(3aptó (bêthabara) "Betá-
bara", que Orígenes adotou por questões geográficas e, talvez, ba­
seado em informações locais. Mesmo assim, o lugar permanece
desconhecido. O que se sabe com certeza é que o lugar se localiza­
va do outro lado do Jordão e não era a região da Galileia, pois de lá
Jesus veio para ser batizado: "Então, veio Jesus da Galileia ter com
João junto do Jordão, para ser batizado por ele" (Mt 3.13). Tudo isso
mostra que o Senhor Jesus começou seu ministério na Judeia, com o
confirma o relato dos quatro primeiros capítulos de João. Quando o
Mestre de Nazaré aparece na Galileia, conforme os evangelhos si-
nóticos, ele já era conhecido da população.
A mensagem de João não era pensamento humano, nem da escola
de Shammai, nem de Hillel, e muito menos dos essênios. É até possível
haver alguns pontos de intercessão se forem comparadas todas as ideias
religiosas vigentes na época. No entanto, afirmar que o Batista foi essê-
nio ou que recebeu influência deles com base nos argumentos acima
apresentados é exagero, é forçar demais a interpretação dos fatos.

SUA PRISÃO E MORTE

João foi preso por Herodes Antipas e cuja decisão aconteceu por
insistência de Herodias, que vivia com seu cunhado. João Batista
não representava ameaça para a dinastia herodiana, fundada por
Herodes I, o Grande. Seu filho Arquelau herdou a Judeia (Mt 2.22), o
J o ã o B a tista - O Ú ltim o P ro fe ta V e tero testam en tário I 155

outro filho, Antipas, a Galileia e a Pereia e Filipe, seu irmão, a Itureia


e Traconites (Lc 3.1). Antipas é identificado simplesmente com o
"Herodes" no N ovo Testamento e nem o nome Pereia aparece na
Bíblia, mas nela se localizava Maquera, onde estava a fortaleza em
que, segundo Flávio Josefo, o Batista esteve preso.
A Galileia de Antipas era na época uma importante província
econômica com população de 400 mil habitantes. Seu nome hebrai­
co (galil) significa "anel, círculo, região", pois era um círculo
de cidades em volta do mar da Galileia. Aparece no Antigo Testa­
mento (Js 20.7; 1 Rs 9.11; Is 9.1). O rei da Assíria cercou Samaria e
levou em cativeiro as dez tribos do Norte, em 722 a. C. (2 Rs 17.6),
e trouxe gentios para povoarem a região (2 Rs 17.24). Isso deu origem
a uma população mista com minoria judaica. As descobertas arque­
ológicas revelam a presença de cultos pagãos em Samaria, Fenícia,
Síria e nas grandes cidades da Galileia. A região era habitada por
esses estrangeiros, predominantemente de gentios, de modo que a
região era chamada de "Galileia dos Gentios" (Is 9.1).
A região da Baixa Galileia, ou Galileia Inferior, mencionada na
maioria das narrativas dos evangelhos, é área de terra fértil e bem
regada por ribeiros, exportadora de cereais e de azeite de oliva. A
atividade pesqueira representava também uma parcela considerável
da economia da região. Era densamente povoada, porém, menos­
prezada pelos judeus (Jo 1.46; 7.52). A Galileia esteve sob o governo
da Fenícia durante 50 anos, somando-se a isso a diversidade da
população com seus cultos pagãos e costumes, o resultado foi o
desprezo dos judeus pela região. Assim, Antipas não dependia em
nada de seu irmão, sobretudo, ele era influente em Roma, vivia mais
na capital do império, "desfrutando das boas relações sociais que a
família mantinha com a aristocracia próxima da casa imperial" (Los
Herodes - Uma Dinastia Real de los Tiempos de Jesús, p. 131).
Segundo Josefo, Herodias era filha de Aristóbulo, um dos filhos de
1 5 6 1 0 Ministério Profético na Bíblia

Herodes, o Grande, sua mãe era Mariane I, da tradicional família dos


Macabeus e assassinada pelo próprio marido, assim, seu pai era irmão
de Filipe e de Antipas. Ela era sobrinha de ambos: "Herodias - filha
de Aristóbulo, irmão de ambos e irmã de Agripa, que depois foi rei
- , que propôs desposá-la logo que estivesse de volta de Roma e
repudiasse a filha de Aretas" (Antiguidades Judaicas, Livro 18.7.780).
A endogamia e a repetição dos mesmos nomes dos filhos eram ca­
racterísticas dessa dinastia, isso dificulta a identidade de certos per­
sonagens, como Herodes Filipe que aparece nos evangelhos.3Antipas
era casado com a filha de Aretas, um rei nabateu de Petra, outro lado
do Jordão, no atual Reino da Jordânia. Numa viagem a Roma, Antipas
foi visitar seu irmão, foi quando se apaixonou pela cunhada-sobrinha,
Herodias, que era casada com o tio Filipe. Ele prometeu repudiar a
filha de Aretas para se casar com a mulher de seu irmão, que por
medo de sua influência em Roma e da força econômica de sua pro­
víncia, aceitou pacificamente se divorciar dela. Esse escândalo tomou
conta do país e aconteceu na época em que João exercia o seu mi­
nistério e censurava publicamente esse novo casamento.

Vários judeus julgaram a derrota do exército de Herodes


um castigo de Deus, por causa de João, cognominado Batista.
Era um homem de grande piedade que exortava os judeus a
abraçar a virtude, a praticar a justiça e a receber o batismo,
para se tornarem agradáveis a Deus, não se contando em
evitar o pecado, mas unindo a pureza do corpo à da alma.
Como uma grande multidão o seguia para ouvir a sua doutri­
na, Herodes, temendo que ele, pela influência que exercia
sobre eles, viesse a suscitar alguma rebelião, porque o povo

3 Herodes, o Grande, casou-se dez vezes, a segunda esposa foi Mariana I, filha de H iecano 11, que
ele m esmo matou, era m ãe de Aristóbulo. Ele teve outra esposa de m esm o nome, Mariana II,
filha de Simão, sacerdote da família dos Macabeus, era ela a m ãe de Filipe l, prim eiro marido de
Herodias. Cleópatra era m ãe de Filipe II, que se casou com Salomé, filha de Herodias, o m esmo
tetrarca da Itureia e da província Traconites, m encionado por Lucas (Lc 3.1). Maltace foi a sua
sexta esposa, samaritana, a m ãe de Arquelau e de Antipas.
J o ã o B a tista - O Ú ltim o P ro fe ta V e tero testam en tário I 1 5 7

FAMÍLIA DE HERODES

estava sempre pronto a fazer o que João ordenasse, julgou que


devia prevenir o mal, para depois não ter m otivo de se arre­
pender por haver esperado muito para remediá-lo. Por esse
motivo, mandou prendê-lo numa fortaleza em Maquera, de
que acabamos de falar, e os judeus atribuíram a derrota de seu
exército a um castigo de Deus, devido a esse ato injusto {An­
tiguidades Judaicas, Livro 18.7.781).

O relato do Josefo sobre o Batista é lacônico, mas confirma e


esclarece a narrativa dos evangelhos. A piedade de João era, de fato,
notória a todos (Lc 3.10-15).

14 E ouviu isso o rei Herodes (porque o nom e de Jesus se


tornara notório) e disse: João, o que batizava, ressuscitou dos
mortos, e por isso estas maravilhas operam nele. 15 Outros
diziam: É Elias. E diziam outros: É um profeta ou com o um dos
1 5 8 1 0 Ministério Profético na Bíblia

profetas. 16 Herodes, porém, ouvindo isso, disse: Este é João,


que mandei degolar; ressuscitou dos mortos. 17 Porquanto o
m esmo Herodes mandara prender a João e encerrá-lo manie-
tado no cárcere, por causa de Herodias, mulher de Filipe, seu
irmão, porquanto tinha casado com ela. 18 Pois João dizia a
Herodes: Não te é lícito possuir a mulher de teu irmão. 19 E
Herodias o espiava e queria matá-lo, mas não podia; 20 porque
Herodes temia a João, sabendo que era varão justo e santo; e
guardava-o com segurança e fazia muitas coisas, atendendo-o,
e de boa vontade o ouvia. 21 E, chegando uma ocasião favo­
rável em que Herodes, no dia do seu aniversário, dava uma
ceia aos grandes, e tribunos, e príncipes da Galileia, 22 entrou
a filha da mesma Herodias, e dançou, e agradou a Herodes e
aos que estavam com ele à mesa. Disse, então, o rei à jovem:
Pede-me o que quiseres, e eu to darei. 23 E jurou-lhe, dizendo:
Tudo o que me pedires te darei, até metade do meu reino. 24
E, saindo ela, perguntou à sua mãe: Que pedirei? E ela disse:
A cabeça de João Batista. 25 E, entrando apressadamente,
pediu ao rei, dizendo: Quero que, imediatamente, me dês num
prato a cabeça de João Batista. 26 E o rei entristeceu-se muito;
todavia, por causa do juramento e dos que estavam com ele
à mesa, não lha quis negar. 27 E, enviando logo o rei o execu­
tor, mandou que lhe trouxessem ali a cabeça de João. E ele foi
e degolou-o na prisão. 28 E trouxe a cabeça num prato e deu-a
à jovem, e esta a deu à sua mãe. 29 E os seus discípulos, ten­
do ouvido isso, foram, tomaram o seu corpo e o puseram num
sepulcro (Mc 6.14-29).

Trata-se de uma época de grandes expectativas messiânicas em


Israel. A popularidade de João era grande, visto que o povo o escu­
tava com reverência. Além do problema com o ex-sogro, pois o
primeiro casamento, realizado durante os últimos dias de César
Augusto, foi com propósito político, era do interesse de Roma para
estabelecer a paz na região entre árabes e judeus. Antipas tinha
J o ã o B a tista - 0 Ú ltim o P ro fe ta Ve tero testam en tá r i o 11 5 9

ainda que superar o profeta do deserto que o acusava publicamente


de violar a Lei. Casamento com a cunhada só era permitido em caso
de viuvez e se não tivesse deixado filhos, é o casamento por levirato
(Dt 25.5-10), fora isso era considerado incesto, se o irmão fosse ain­
da vivo (Lv 18.16; 20.21). Filipe estava vivo e tinha pelo menos uma
filha, Salomé. Por isso João dizia: "Pois João dizia a Herodes: Não te
é lícito possuir a mulher de teu irmão" (v. 18). O Batista repreendia o
casal também pelas maldades que eles cometiam (Lc 3.19,20).
Quando João apareceu pela região da Pereia, jurisdição de Antipas,
por insistência de Herodias ele foi preso e levado para a fortaleza de
Maquera, nas proximidades do Mar Morto, onde desemboca o rio
Jordão e onde ele costumava batizar {v. 17). Mesmo estando preso,
Herodias não se dava por satisfeita, ela era uma mulher sem escrú­
pulo: "E Herodias o espiava e queria matá-lo, mas não podia' (v. 19).
O verbo grego evexco (enechõ), se traduz por "espiar", na versão A l­
meida Corrigida, cujo significado é de fato "ter rancor contra". Tanto
a versão Atualizada de Almeida com o a Tradução Brasileira empre­
gam o verbo odiar: "Herodias o odiava". Porém, não podia matá-lo,
"porque Herodes temia a João, sabendo que era varão justo e santo;
e guardava-o com segurança e fazia muitas coisas, atendendo-o, e
de boa vontade o ouvia” (v. 20). Antipas não somente temia o povo,
mas no seu íntimo sabia que João era justo e temente a Deus, por
isso preocupava-se com a segurança do prisioneiro, atendendo-o
em muitas coisas e até ouvindo seus conselhos. Isso se constituía
uma ameaça para Herodias, que via seu casamento por um fio.
Nessa época, Herodias e a sua filha Salomé estavam no palácio
de Maquera, quando se preparava a festa de aniversário de Herodes.
Era um evento para os grandes do reino onde se servia uma grande
"ceia aos grandes, e tribunos, e príncipes da Galileia” (v. 21). Ela não
perdeu tempo, pois a sua filha Salomé agradou ao rei com a sua
dança de modo que ele disse: "Pede-me o que quiseres, e eu to da­
1 6 0 1 0 Ministério Profético na Bíblia

rei [...] até a metade do meu reino" (w . 22, 23). Esse tipo de oferta
já tinha acontecido antes, no banquete de Assuero, rei da Pérsia,
com Ester e Hamã (Et 7.2). A diferença é que o pedido de Ester era
impedir um extermínio injusto de uma nação.
Salomé, orientada pela mãe, pediu a cabeça de João num prato, e
não podia ser para depois, exigia que esse pedido atípico e macabro,
principalmente numa festa de aniversário, fosse atendido de imedia­
to. A vileza dela era de tal modo baixa e ignóbil que chegou a chocar
até mesmo o ímpio rei: "o rei entristeceu-se muito" (v. 26), mas co­
meteu o assassinato, mandando degolar literalmente o profeta de
Deus, mesmo sabendo se tratar de um homem justo e santo. Assim,
é mais um servo de Deus na lista dos mártires, dos heróis da fé.
Salomé casou-se depois com o seu tio, Filipe II, que era 30 anos
mais velho, a efígie dela aparece numa moeda cunhada por ele. A
enormidade do crime de Antipas parece tê-lo afetado psicologica­
mente. Quando soube da notícia de um novo profeta, chamado Jesus
de Nazaré, parece que ficou perturbado, dizia: "Este é João que man­
dei degolar; ressuscitou dos mortos” (v. 16).

O TESTEMUNHO DE JESUS CRISTO

Quando João Batista estava na prisão, ouviu falar dos milagres


que Jesus operava e por isso enviou dois discípulos para lhes per­
guntar: "És tu aquele que havia de vir ou esperamos outro?" (Mt 11.3).
A pergunta de João é compreensível, pois se Jesus manifestava de
maneira pública seu poder sobre a morte e o inferno, sobre o diabo
e seus agentes, sobre as enfermidades e a própria natureza, por que
seu amigo, fiel servo e precursor continuaria confinado nas masmor­
ras de Herodes? Onde está a pá que deveria limpar toda a eira, con­
forme João pregava no início do seu ministério? (Mt 3.12). Os milagres
e os ensinos de Cristo falavam por si mesmo. Em sua resposta ficou
J o ã o B a tista - O Ú ltim o P ro fe ta V e tero testam en tário 116 1

claro que ele era de fato o Messias predito pelos profetas. O que João
falou a respeito do seu Jesus estava correto. Os seus enviados rece­
beram a responsabilidade de contar ao seu mestre tudo o que ouviam
e viam sobre os ensinos de Jesus e os sinais e as maravilhas que ele
operava. Depois de falar tudo isso, concluiu com essas palavras: "E
bem-aventurado é aquele que se não escandalizar em mim" (Mt 11.6).
João estaria escandalizado? Teria ele naufragado na fé? Não e não!
Todo o crente procura entender o seu atual estado de provação.
Talvez seja essa a situação de João Batista.
Jesus não prometeu tirá-lo do cárcere e nem mudar a sua sorte. Há
coisas nessa vida que pertencem somente a Deus, numa situação
dessa é melhor esperar na sua vontade. A fidelidade do justo não de­
pende do conforto e nem da bonança. Muitos profetas foram injusta­
mente preso, massacrados e mortos (Mt 23.37) e, até hoje, qualquer
um que se propõe servir a Deus sofre perseguições (2 Tm 3.12). A fim
de não deixar dúvidas sobre o caráter do seu fiel amigo e precursor fez
uma declaração pública a seu respeito jamais feita a um mortal.

7 E, partindo eles, começou Jesus a dizer às turbas a res­


peito de João: Que fostes ver no deserto? Uma cana agitada
pelo vento? 8 Sim, que fostes ver? Um homem ricamente ves­
tido? Os que se trajam ricamente estão nas casas dos reis. 9
Mas, então, que fostes ver? Um profeta? Sim, vos digo eu, e
muito mais do que profeta; 10 porque é este de quem está
escrito: Eis que diante da tua face envio o meu anjo, que pre­
parará diante de ti o teu caminho. 11 Em verdade vos digo que,
entre os que de mulher têm nascido, não apareceu alguém
maior do que João Batista; mas aquele que é o menor no Rei­
no dos céus é maior do que ele. 12 E, desde os dias de João
Batista até agora, se faz violência ao Reino dos céus, e pela
força se apoderam dele. 13 Porque todos os profetas e a lei
profetizaram até João. 14 E, se quereis dar crédito, é este o
Elias que havia de vir (Mt 11.7-14).
1 6 2 I 0 Ministério Profético na Bíblia

Jesus disse que João era mais que profeta, de fato, sua mensagem
atraiu a população de diversas "ia ter com ele Jerusalém, e toda a
Judeia, e toda a província adjacente ao Jordão" (Mt 3.5). Eram as
pessoas que caminhavam léguas para ouvir um homem estranho,
clamando no deserto. Ele tornou-se figura muito popular em Israel
(Mc 11.32). Sua vinda foi predita pelos profetas Isaías e Malaquias,
{Is 40.3-5; Ml 3.1) ele foi cheio do Espírito Santo desde o ventre
materno (Lc 1.15) e coube a ele a honra de batizar o Filho de Deus
nas águas (Mt 3.13-17). Porém, não experimentou a plenitude do
evangelho com o Cristo ressuscitado e nem participou da dispensa-
ção do Espírito Santo, por essa razão o "menor" cristão é maior do
que ele em termos de privilégio (v. 11). Ele foi o último profeta da
dispensação da lei e serviu de ponte entre a antiga e a nova era.
Quem quiser entrar no reino de Deus precisa se esforçar para se
apoderar dele, pois a salvação é oferecida gratuitamente, mas não
barata, pois Jesus pagou um alto preço por ela.
Alguns de seus discípulos tomaram-se seguidores de Jesus e den­
tre eles estava André, irmão de Pedro (Jo 1.37-40), entretanto, outros
se desviaram fundando para si religião, com o os gnósticos mandeís-
tas, que afirmavam que João tinha sido membro do movimento, e
outros diziam que João veio primeiro e batizou Jesus na águas. É
possível que alguns deles sejam os que pregaram para o grupo que
o apóstolo Paulo encontrou em Éfeso (At 19.3,4). Porém, João Batis­
ta não fundou movimento algum, pois tinha perfeito conhecimento
de sua identidade e missão, ele disse: "Aquele que tem a esposa é o
esposo; mas o amigo do esposo, que lhe assiste e o ouve, alegra-se
muito com a voz do esposo. Assim, pois, já essa minha alegria está
cumprida. É necessário que ele cresça e que eu diminua" (Jo 3.29,30).
Ele fechou a sucessão profética com chave de ouro.
^/estis C n sú â
0 CUMPRIMENTO
PROFÉTICO DO ANTIGO
TESTAMENTO
1 6 4 1 0 Ministério Profético na Bíblia

Deus prometeu por m eio dos profetas nas Escrituras Sagradas


enviar à Terra o Salvador com o verdadeiro Deus e com o verdadeiro
homem: "o qual antes havia prometido pelos seus profetas nas San­
tas Escrituras, acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de
Davi segundo a carne, declarado Filho de Deus em poder, segundo
o Espírito de santificação, pela ressurreição dos mortos, —Jesus
Cristo, nosso Senhor'' (Rm 1.2-4). O título "filho de Davi" fala da
realeza de Jesus, mas a menção da descendência de Davi diz res­
peito à sua natureza humana, assim com o a expressão "declarado
Filho de Deus em poder" é uma referência a sua deidade. O apósto­
lo Paulo insiste no fato de que a vinda de Jesus e tudo o que acon­
teceu com ele estava previsto no Antigo Testamento: "Cristo morreu
por nossos pecados, segundo as Escrituras [...] e que ressuscitou ao
terceiro dia, segundo as Escrituras" (1 Co 15.3, 4).
Jesus afirmou mais de uma vez ser ele mesmo o cumprimento e o
fim das Escrituras Sagradas. Ele falou isso em particular aos discípu­
los de Emaús: "Porventura, não convinha que o Cristo padecesse
essas coisas e entrasse na sua glória? E, começando por Moisés e por
todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as
Escrituras" (Lc 24.26, 27), e; depois, aos demais discípulos, foi mais
específico: "E disse-lhes: São estas as palavras que vos disse estando
ainda convosco: convinha que se cumprisse tudo o que de mim es­
tava escrito na Lei de Moisés, e nos Profetas, e nos Salmos" (Lc 24.44)
e no v. 46 reforçou que sua paixão e ressurreição estavam previstas
na palavra profética: "E disse-lhes: Assim está escrito, e assim convi­
nha que o Cristo padecesse e, ao terceiro dia, ressuscitasse dos mor­
tos". Sua história, portanto, já estava no cronograma divino, de modo
que tudo o que aconteceu com ele não foi resultado do acaso, nada
aleatório. O Espírito Santo conduziu a Revelação na vida do povo
israelita de tal maneira que os apóstolos puderam observar cada
detalhe na vida e no ministério terreno do Senhor Jesus Cristo.
Je su s C risto - O C u m p rim e n to P ro fé tic o d o A n tig o T estam e n to I 165

O presente capítulo não é um estudo sobre cada livro do Antigo


Testamento, apresenta um pouco da vida de seus personagens,
dos tipos e figuras, do Messias e, ainda enumera as profecias m es­
siânicas. O propósito é mostrar que a ideia cristológica está com ­
pletamente incrustada em toda a Escritura Veterotestamentária e
que todo o pensamento bíblico gira em torno do Salvador do mun­
do. Assim, alguns livros representativos de cada uma das três
partes do Cânon Judaico e alguns personagens e eventos são se­
lecionados com o exem plos da revelação messiânica na Lei, nos
Profetas e nos Salmos.

REVELAÇÃO MESSIÂNICA NO PENTATEUCO

Quando o Senhor Jesus esclareceu aos discípulos de Emaús que


o acontecido naqueles dias entre os judeus era o cumprimento das
Escrituras Sagradas sobre o Messias, ele com eçou pela lei de M oi­
sés. A esperança messiânica está presente em todos os cinco livros
do Pentateuco, na sua história e nas suas instituições, de maneira
direta e indireta.
Moisés foi um meio importante da revelação messiânica e, também,
sua vida e ministério fazem dele um tipo de Cristo, como libertador
dos hebreus na terra do Egito, intercessor do povo, profeta e líder de
Israel, que falava com Deus face a face. Ele mesmo falou da vinda de
um profeta semelhante a ele (Dt 18.15, 18; At 3.22, 23). Todas essas
características prefiguram vida e obra do Senhor Jesus Cristo.
Muitos personagens em Gênesis são figuras ou tipos de Cristo a
com eçar por Adão, o primeiro homem.

Disse também Deus: Façamos o homem à nossa imagem,


conforme a nossa semelhança: domine ele sobre os peixes do
mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos, sobre
1 6 6 1 0 Ministério Profético na Bíblia

toda a terra e sobre todo o réptil que se arrasta sobre a terra


[...] Deus os abençoou, e lhes disse: Frutificai, multiplicai-vos,
enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar,
sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se arrastam
sobre a terra. (Gn 1.26, 28).

Adão recebeu autoridade para exercer domínio sobre a terra e


sobre os demais seres vivos e capacidade para se multiplicar e encher
a terra. Os termos "im agem" e "semelhança" de Deus mostram exis­
tir no primeiro homem ressonâncias dos atributos divinos, reflexos
finitos de aspectos infinitos com o conhecimento: "que se renova para
o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou" (Cl 3.10);
justiça e santidade: "e vos revistais do novo homem, que, segundo
Deus, é criado em verdadeira justiça e santidade" (Ef 4.24). O pri­
meiro homem recebeu a incumbência de cuidar do jardim do Éden,
ele mesmo pôs os nomes nos animais (Gn2.15, 19). As implicações
teológicas nos quatro primeiros capítulos de Gênesis são profundas
e formam a base da esperança messiânica. O significado de sua
missão e de seu papel com o representante da raça humana e res­
ponsável pela conservação da criação de Deus pode ser sentido no
fracasso de Éden.
A Queda do Éden tornou-se a maior tragédia da humanidade,
houve uma quebra na comunhão com Deus e essa separação fez do
ser humano escravo de Satanás, perdendo a posição de honra que
recebera do Senhor. Adão e Eva "conheceram que estavam nus [...]
e escondeu-se Adão e sua mulher da presença do SENHOR Deus [...]
E ele disse: Ouvi a tua voz soar no jardim, e temi, porque estava nu,
e escondi-me (Gn 3.7, 8, 10). Essa desobediência arrastou toda a
raça humana ao pecado: "por um homem entrou o pecado no mun­
do" (Rm 5.12). O apóstolo Paulo fundamenta essa doutrina nos
versículos seguintes (5.12-21). Assim, o gigantesco plano divino de
Je sus C risto - 0 C u m p rim e n to P ro fé tic o d o A n tig o T estam e n to 11 6 7

redenção, traçado antes da fundação do mundo (Ef 1.4; Ap 13.8) é


colocado em prática ao anunciar a vinda da semente da mulher para
esmagar a cabeça da serpente (Gn 3.15).
Apesar de muitos personagens do Antigo Testamento serem
apresentados com o figura de Cristo pelos escritores neotestamen-
tários, Adão é o único chamado textualmente de "tipo" de Cristo, no
N ovo Testamento: "No entanto, a morte reinou desde Adão até
Moisés, até sobre aqueles que não pecaram à semelhança da trans­
gressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir". (Rm
5.14). O termo "figura", no texto grego, é twroç (typos) "tipo, figura,
imagem, forma, modelo", com o registra a Tradução Brasileira: "o
qual é tipo daquele que havia de vir". Adão, com o primeiro homem
e o representante da raça humana, foi criado.
O apóstolo Paulo apresenta essa relação tipológica, ainda que de
contraste e não de semelhança entre Adão e Cristo: "O primeiro
homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em espírito
vivificante [...] O primeiro homem é da terra, é terreno; o segundo
homem é do céu" (1 Co 15.45, 47). Assim, o Senhor Jesus Cristo, o
segundo homem, substitui o primeiro, tornando-se o representante
de Deus numa nova humanidade. Desse modo, o contexto neotes-
tamentário mostra a revelação messiânica em Adão.
O N ovo Testamento mostra ainda a revelação messiânica em
outro personagem do livro de Gênesis, Melquisedeque, outra figu­
ra de Cristo.

E Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; e este


era sacerdote do Deus Altíssim o. E a ben çoou -o e disse:
Bendito seja A brão do Deus Altíssimo, o Possuidor dos céus
e da terra; e bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os
teus inim igos nas tuas mãos. E deu-lhe o dízim o de tudo
(Gn 14.18-20).
1 6 8 I O Ministério Profético na Bíblia

Mar Morto na região de Sodoma e Gomorra, a depressão mais


projunda da Terra, 496 metros abaixo do nível do mar.

O capítulo 14 de Gênesis conta que cinco reis da região do Mar


Morto eram tributários dos elamitas há 12 anos até que resolveram
sacudir o julgo estrangeiro rebelando-se contra Quedorlaomer, rei
de Elão. Este formou uma federação de quatro reis para guerrearem
contra os reis rebeldes, entre eles estavam "Bera, rei de Sodoma” e
"Birsa, rei de Gomorra" (Gn 14.2). A confederação caldaica venceu
a palestínica e Ló, que habitava em Sodoma, foi levado com seus
bens juntamente com os vencidos e seus despojos. Quando a notí­
cia chegou ao patriarca Abraão, este foi com seus pastores e alguns
aliados no encalço dos inimigos. Ele obteve êxito e trouxe de volta
os moradores e seus despojos. A o regressar dessa incursão militar
passou por Salém, antigo nome de Jerusalém (Sl 76.2), nessa ocasião
encontrou-se com o célebre e misterioso personagem Melquisede-
que que reinava sobre a cidade. Ele era rei e sacerdote e a sua pre­
sença nesse relato torna em valor também teológico, desde o próprio
Je sus C risto - O C u m p rim e n to P ro fé tic o d o A n tig o T estam e n to I 169

Mar Morto, cujas águas contém 33% de sal, 11 vezes mais que outros mares: 'Todos
estes se ajuntaram no vale de Sidim (que é o mar de Sal). [...] E o vale de Sidim
estava cheio de poços de betume" Gn 14.3, 10). Ninguém ajunda nele.

Antigo Testamento, quando anuncia de antemão a vinda de uma


nova ordem sacerdotal: "Tu és um sacerdote eterno, segundo a
ordem de Melquisedeque" (SI 110.4). Era o prenuncio do fim da ordem
de Arão, que precisava ser substituída (Hb 7.11) em cumprimento
da palavra profética (Jr 31.31-34; Hb 8.8-11).
Nada mais se sabe a seu respeito, exceto os detalhes apresenta­
dos na epístola aos Hebreus. Porém, devia ser conhecido na época
de Moisés, visto que não se precisou oferecer mais informações
pessoais para identificá-lo. Seu nome, em hebraico, significa "rei de
justiça", de melech), "rei", e de (tsedeq), "justiça, retidão",
e o da cidade, "paz", de übw (shãlêm), "completo, perfeito, inteiro"
de onde o termo shalom "paz". O N ovo Testamento confirma esse
significado: "por interpretação, rei de justiça e depois também rei de
Salém, que é rei de paz" (Hb 7.2). A revelação messiânica, aqui, na
pessoa de Melquisedeque: "sendo feito semelhante ao Filho de Deus"
1 7 0 I 0 Ministério Profético na Bíblia

Provável local do acampamento de Israel, no deserto de Sinai.

(Hb 7.3), aponta ainda que, desde a antiguidade, Jerusalém foi esco­
lhida com o a cidade da redenção humana. Apenas dois personagens
na história de Israel e da Igreja ocuparam de maneira legítima os dois
ofícios de sacerdote e rei: Melquisedeque e o Senhor Jesus Cristo.
Muitos outros personagens poderiam ser apresentados se não
fosse a escassez do espaço. Emílio Conde, por exemplo, em sua obra
Estudos da Palavra, nas pp. 23-25, apresenta 19 características de
José do Egito em Jesus Cristo. O maná no deserto é outra figura
messiânica significativa: "Eis que vos farei chover pão dos céus [...]
E chamou a casa de Israel o seu nome Maná" (ê x 16.4,31). O Senhor
Jesus declarou-se ser o verdadeiro pão do céu que dá vida ao mun­
do: "Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer desse
pão, viverá para sempre; e o pão que eu der é a minha carne, que
eu darei pela vida do mundo" (Jo 6.51).
O êxodo já é em si mesmo uma figura de Cristo, pois se trata de
Je sus C risto - 0 C u m p rim e n to P ro fé tic o d o A n tig o T estam e n to 117 1

Esfinge, leão com cabeça humana, símbolo do Egito.

uma obra divina e redentiva. O sacerdócio arônico tinha a função


de construir uma ponte entre Deus e os seres humanos. A consa­
gração de Arão e o seu ministério prefiguram a obra de Cristo, isso
está muito claro na epístola aos Hebreus (5.4, 5). A instituição da
páscoa, no Egito, com o o Cordeiro pascal (ê x 12.3-13) apontava para
Cristo que padeceu durante a com em oração dessa grande festa
judaica (Lc 22.15), pois "Cristo,
nossa páscoa, foi sacrificado por
nós" (1 Co 5.7).
O tabernáculo representava
a presença de Deus no meio do
J*
te ' r* povo, foi para isso que Deus
mandou Moisés construí-lo, pois

Réplica da arca da aliança. Foto


tirada numa loja em Belém, Israel.
1 7 2 I O Ministério Profético na Bíblia

Sinagoga de Cafamaum onde Jesusfez o discurso sobre o Pão da Vida:


"Ele disse essas coisas na sinagoga, ensinando em Cafamaum" (Jo 6.59); nela ele
costumava ensinar (Mc 1,21; Lc 4.31-33). Essa construção é do século III, construída
sobre o alicerce da antiga sinagoga construída pelo centurião (Lc 7.1 -5).

queria habitar no meio dos filhos de Israel: "E me farão um santuário,


e habitarei no meio deles” (Êx 25.8). A sua santidade exigia um local
separado do uso comum, um santuário. Qualquer observância exte­
rior destituído de significado interior não passa de mera cerimônia,
porém, todo o sistema de culto arônico era simbólico e típico: "ha­
vendo ainda sacerdotes que oferecem dons segundo a lei, os quais
servem de exemplar e sombra das coisas celestiais" (Hb 8.4, 5). Essa
presença fala do Emanuel, "Deus conosco" (Mt 1.23), do Deus que se
fez homem: "E o Verbo se fez carne e habitou entre nós" (Jo 1.14).
A Lei prescreve diversas espécies de sacrifícios e em todos eles o
propósito central é a expiação. O sacrifício de animais aparece como
prática fundamental no Antigo Testamento, isso porque a vida tem de
ser substituída por vida: "Porque a vida da carne está no sangue. Eu
vo-lo tenho dado sobre o altar, para fazer expiação pela vossa alma,
porquanto é o sangue que fará expiação em virtude da vida" (Lv 17.11
Je su s C risto - 0 C u m p rim e n to P ro fé tic o d o A n tig o T estam e n to 117 3

- versão Almeida Atualizada). Assim, a vida do pecador hebreu podia


ser restaurada somente por outra vida é isso que significa a expressão
"a vida da carne está no sangue". O sangue do animal substituto era
espargido sobre as quatro pontas do altar (ê x 30 . 10; Lv 4 .25) . A marca
do sangue do "Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo" (Jo 1.29 ) ,
na cruz, apresentava sangue na cabeça, onde foi colocada a coroa de
espinhos, sangue proveniente dos cravos das mãos direita e esquerda
e dos pés: sangue em quatro pontos da cruz.
O mesmo pode ser dito da serpente de metal que Moisés levantou
no deserto. Deus ficou indignado com a murmuração do povo que
chegou a chamar o Maná de pão vil: "a nossa alma tem fastio deste
pão tão vil" (Nm 21.5). Por essa razão, o Senhor mandou serpentes
ardentes entre o povo para morderem os murmuradores e a m or­
tandade foi grande. Diante de tudo isso, o povo arrependeu-se e
Moisés orou pedindo socorro do alto. Como resposta divina foi or­
denado a levantar uma serpente de metal numa haste e todos os
mordidos de serpentes a partir de então precisavam olhar para ela
para viver (Nm 21.6-9). Jesus disse a Nicodemos: "E, com o Moisés
levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem
seja levantado, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas
tenha a vida eterna" (Jo3.14, 15).
Note que é do próprio veneno da cobra que se faz o soro antio-
fldico, assim, Jesus se fez pecado por nós, ele assumiu os nossos
pecados na cruz, fazendo-se pecado por nós (Rm 8.3; 2 Co 5.21). O
apóstolo Paulo tirou a expressão: "M aldito todo aquele que for
pendurado no m adeiro” (Gl 3.13) de Deuteronômio 21.23. A morte
no madeiro era sinal externo da maldição na legislação judaica.
Isso, obviamente, serve também para morte de cruz. Às vezes, os
escritores do N ovo Testamento usam a palavra "m adeiro" para
designar a cruz ou cruz de Cristo (At 5.30; 1 Pe 2.24). Paulo mostra
que a maldição foi removida quando Cristo a tomou sobre si e isso
1 7 4 1 0 Ministério Profético na Bíblia

permitiu aos gentios retornarem a fé. Jesus nunca pecou, nunca


conheceu pecado, era "santo, inocente, imaculado, separado dos
pecadores e feito mais sublime do que os céus" (Hb 7.26). Paulo não
diz que Jesus é maldição, mas que se fez maldição por nós, para
nos remir da maldição da lei. Jesus em si m esmo era santo quando
estava na cruz (Hb 9.14; 1 Pe 1.19). Tudo isso revela o caráter m es­
siânico no livro de Números.
A figura do anjo do Senhor no Antigo Testamento e, em especial,
no Pentateuco, é o Messias na sua manifestação pré-encarnada. A
expressão hebraica rnrr (m alach YHWH) "anjo do Senhor" ou
"anjo deJavé" ou, ainda, "mensageiro do Senhor" ou "de Javé", tem
significado especial, trata-se de um título específico, visto que todos
os anjos enviados do céu são mensageiros de Deus ou de Javé. A
narrativa do encontro de Agar com o "anjo do Senhor" (Gn 16.7-13)
mostra que esse personagem não é apenas um dos anjos enviados
do céu. Isso fica muito claro com a afirmação: "E ela chamou o nome
do SENHOR, que com ela falava: Tu és Deus da vista" (v. 13). Veja
que isso acontece depois de o texto sagrado mencionar quatro vezes
o anjo de Javé (w . 1,9, 10, 11).
A sua manifestação a Abraão por ocasião do sacrifício de Isaque
deixa isso ainda mais claro (Gn 22.11 -18). Foi o anjo do Senhor quem
bradou desde os céus: "Mas o Anjo do SENHOR lhe bradou desde os
céus e disse: Abraão, Abraão!" (v. 11), no entanto, no v. seguinte esse
personagem se identifica com o próprio Deus: "agora sei que temes
a Deus e não me negaste o teu filho, o teu único" (v. 12) e mais adian­
te essa identidade é reforçada de maneira inconfundível: "Por mim
mesmo, jurei, diz o SENHOR" (v. 16). O mesmo acontece na teofania
do sarçal ardente em Êxodo 3 .0 texto sagrado afirma que "apareceu-
lhe o Anjo do SENHOR em uma chama de fogo, no meio de uma
sarça" (v. 2) e a partir do versículo seguinte aparece no lugar desse
"anjo" o próprio Deus Javé de Israel (w . 4, 6, 7, 11-16, 18).
Je sus C risto - O C u m p rim e n to P ro fé tic o d o A n tig o T estam e n to 11 7 5

Vê-se que se trata de "uma pessoa distinta de Yahweh, mas liga­


da a ele por 'unidade de natureza'", com o afirma o respeitado teó­
logo conservador Hengstenberg, em sua obra Christology o f the Olá
Testament. Segundo Gerard Van Groningen, em sua obra Revelação
Messiânica no Velho Testamento, resultado de uma pesquisa de 40
anos sobre a presença do Messias no Antigo Testamento, afirma: "A
conclusão é inconfundível: a expressão mal'ak yhwh no sentido mais
estrito é realmente messiânica - ele é o Messias em manifestações
pré-encarnadas" (p. 200).

REVELAÇÃO MESSIÂNICA NOS PROFETAS

Quando o Senhor Jesus disse que nele se cumpriu tudo o que está
escrito nos "profetas" (Lc 24.27, 44) ele se referia ao Cânon Judaico,
dividido em três partes: Lei, Profetas e Escritos, cujo comentário
sobre o arranjo dos livros e a sua divisão está no capítulo 7 intitu­
lado Profetas Maiores e Menores. A segunda parte subdivide-se em
duas: Profetas Anteriores e Posteriores.
O primeiro dos Profetas Anteriores é o livro de Josué e o seu nome
por si só já indica o Messias. O nome hebraico do livro de Josué bem
com o o do seu personagem histórico principal que sucedeu a Moisés
é y t íilT {fhôshu *a), "Iavé é salvação" empregado para "Josué". Seu
nome antes era Oshea ben Num, "Oséias, filho de Num" (Nm 13.8),
que também significa "salvação". Moisés mudou para Josué: "Oséias,
filho de Num, Moisés chamou Josué" (Nm 13.16). Sua forma reduzi­
da é (Y sh ü ‘a), "Yeshua", do substantivo T íV W ' (yfshü ‘ã), "sal­
vação"; tornou-se comum depois do cativeiro babilônico até os dias
apostólicos. O texto hebraico de Neemias 8.17 registra: "desde os
dias de Josué, filho de Num". Aqui, é Yeshua Filho de Num e não
Yehoshua. Essa alternância de Yeshua e Yehoshua é muito comum
nos livros pós-exílicos do Antigo Testamento. Ambos nomes são
1 7 6 1 0 Ministério Profético na Bíblia

aplicados também ao sacerdote Josué, filho de Jozadaque (Ag 1.1,


12, 14; 2.2; Z c 3 .1 ,3,6, 8, 9; 6.11), que no livro de Esdras é chamado
de Yeshua "Jesua" na versão Almeida Corrigida (Ed 3.2, 8; 4.3; 5.2).
A LXX emprega 'Itiooüç (Iêsous) "Jesus", exatamente com o aparece
no N ovo Testam ento grego, indistintamente para Yehoshua ou
Yeshua, exceto em 1 Crônicas 7.27, que transliterou por ’Ir|ooüe
(Iêusue) , "Josué” .
Segundo o Dicionário Exegético do Novo Testamento Grego de Balz
& Schneider, o judaísmo rabínico não designava Jesus de Nazaré
com o "Yeshua" nem pela forma teófora antiga Yehoshua, mas pelo
nome "Yeshu", uma mutilação intencionada para eliminar o signifi­
cado de salvação. Porém, hoje, as edições do N ovo Testamento
hebraico empregam Yeshua e, da mesma forma, os judeus conver­
tidos à fé cristã conhecidos com o messiânicos, tanto em Israel como
fora do país, identificam o Filho de Deus pelo nome Yeshua. Assim,
a ideia messiânica está estampada e incrustada no livro de Josué.
O livro de Juizes registra os feitos extraordinários dos herois que
Deus levantava para a salvação de Israel.

16 E levantou o SENHOR juizes, que os livraram da mão


dos que os roubaram. 17 Porém tampouco ouviram aos juizes;
antes, se prostituíram após outros deuses e encurvaram-se a
eles; depressa se desviaram do caminho por onde andaram
seus pais ouvindo os mandamentos do SENHOR; mas eles não
fizeram assim. 18 E, quando o SENHOR lhes levantava juizes,
o SENHOR era com o juiz e os livrava da mão dos seus inimi­
gos, todos os dias daquele juiz; porquanto o SENHOR se arre­
pendia pelo seu gemido, por causa dos que os apertavam e
oprimiam. 19 Porém sucedia que, falecendo o juiz, tornavam
e se corrompiam mais do que seus pais, andando após outros
deuses, servindo-os e encurvando-se a eles; nada deixavam
das suas obras, nem do seu duro caminho (Jz 2.16-19).
Je su s C ris to - O C u m p rim e n to P ro fé tic o d o A n tig o T estam e n to I 177

O termo hebraico usado para "juiz" aqui é (shophêt), "julgar,


governar", é usado no Antigo Testamento para alguém autorizado
em decidir controvérsias e litígios, executar a lei civil, religiosa,
política e social. Esse substantivo só aparece nessa seção introdu­
tória do livro e descreve a necessidade do Messias, do Salvador, para
libertar os israelitas oprimidos de seus inimigos. O verbo "julgar”
aparece com mais frequência. O papel dos juizes era de governador,
posição de liderança que se aproximava do cargo de rei, mas não
era uma monarquia, pois o cargo não era hereditário. O verbo he­
braico empregado para "livrar" no v. 16: "E levantou o SENHOR ju­
izes, que os livraram da mão dos que os roubaram", e no v. 18: "o
SENHOR era com o juiz e os livrava da mão dos seus inimigos" é
Ü W (yãshã‘) "salvar, livrar, ser salvo, ser liberto", na construção
usada aqui significa "salvação, livramento".
Esses juizes não devem ser confundidos com os magistrados do
poder judiciário dos tempos modernos, pois eram libertadores oca­
sionais que Deus levantava para salvar Israel de uma crise nacional:
"E os filhos de Israel clamaram ao SENHOR, e o SENHOR levantou
aos filhos de Israel um libertador, e os libertou: Otniel, filho de Que-
naz, irmão de Calebe, mais novo do que ele" (Jz 3.9); ou: "suscitou-
lhes ele um salvador que os livrou" (Tradução Brasileira). O termo
hebraico usado aqui é (m õshí‘a), "libertador, salvador, re­
dentor". Assim, a revelação messiânica está também presente no
livro de Juizes.
Há três figuras importantes nos livros de Samuel e dos Reis: Sa­
muel, Davi e Salomão. Até mesmo a função que fora confiada a Saul
tipifica o Messias. Samuel, embora não seja ele ancestral do Senhor
Jesus, com o Davi e Salomão, prefigura o Munus Triplex1 de Cristo,

1 Munus Diplex. um term o latino que significa "três ofícios". Trata-se da expressão cristológica usada
para indicar os três aspectos da obra do Senhor Jesus Cristo com o profeta, sacerdote e rei.
1 7 8 1 0 Ministério Profético na Bíblia

os três ofícios mais importantes no Antigo Testamento: profeta,


sacerdote e rei. A Palavra de Deus afirma que "todo o Israel, desde
Dã até Berseba, conheceu que Samuel estava confirmado por pro­
feta do SENHOR" (1 Sm 3.20). Ele começou a instituição profética
anunciada por Moisés em Deuteronômio 18.15-18, coordenando a
escola de profetas em Ramá (1 Sm 19.18-24).
Desde muito cedo aprendeu o oficio sacerdotal com Eli: "Porém
Samuel ministrava perante o SENHOR, sendo ainda jovem, vestido
com um éfode de linho" (1 Sm 2.18). Com a morte de Eli o cargo de
sacerdote vagou. Os filhos de Eli haviam morrido na batalha contra
os filisteus e, além disso, eles foram rejeitados pelo Senhor para o
exercício do ofício do pai (1 Sm 2.34; 4.17). Assim, Samuel exerceu
a função de sacerdote, construindo um altar em Ramá e ao mesmo
tempo era juiz: "E Samuel julgou a Israel todos os dias da sua vida.
E ia de ano em ano e rodeava a Betei, e a Gilgal, e a Mispa; e julga­
va a Israel em todos aqueles lugares. Porém, voltava a Ramá, porque
estava ali a sua casa, e ali julgava a Israel, e edificou ali um altar ao
SENHOR" (1 Sm 7.15-17). Na verdade, ele exercia o papel de rei, pois
o juiz era quem executava a lei civil, religiosa, política e social. No
exercício de seu ministério, prefigurou os ofícios de Cristo de profe­
ta, sacerdote e rei.
Saul falhou e perdeu tudo, mas nem por isso deixou de ser uma
figura messiânica, pois livrou o povo de ser obrigado a se submeter
a uma servidão indescritível. O capítulo 11 de 1 Samuel relata que
o povo de Jabes-Gileade se rendeu a Naás, rei dos amonitas, porém
este impôs uma condição cruel e inaceitável de rendição: arrancar
o olho direito de todo o povo. Buscava-se em todo o Israel alguém
que pudesse livrar o povo dessa opressão e nisso surge Saul que
ao se informar da situação: "o Espírito de Deus se apossou de Saul"
de tal maneira que renovou o ânimo dos filhos de Israel. Saul ar­
regimentou 330 mil homens, organizando em três companhias, e
Je sus C risto - 0 C u m p rim e n to P ro fé tic o d o A n tig o T estam e n to I 179

com elas derrotou os amonitas. Essa vitória consagrou-o rei de


Israel, foi uma renovação do rei, pois já havia sido ungido antes (1
Sm 10.19, 24; 11.8, 11, 14, 15).
A importância de Davi na esperança messiânica ocupa lugar de
destaque nas Escrituras Sagradas, porque Deus prometeu levantar
o Cristo de sua descendência: "Porém a tua casa e o teu reino serão
firmados para sempre diante de ti; teu trono será firme para sempre"
(2 Sm 7.16). Essa profecia é a base das demais que oferecem m aio­
res detalhes sobre a vinda do Messias..

Fiz um concerto com o meu escolhido; jurei ao meu servo


Davi: a tua descendência estabelecerei para sempre e edifica-
rei o teu trono de geração em geração [... ] Não quebrarei o
meu concerto, não alterarei o que saiu dos meus lábios. Uma
vez jurei por minha santidade (não mentirei a Davi). A sua
descendência durará para sempre, e o seu trono será com o o
sol perante mim; será estabelecido para sempre com o a lua;
e a testemunha no céu é fiel (SI 89.3, 4, 34-37).
Do incremento deste principado e da paz, não haverá fim,
sobre o trono de Davi e no seu reino, para o firmar e o fortificar
em juízo e em justiça, desde agora e para sempre; o zelo do
SENHOR dos Exércitos fará isto (Is 9.7).
Porque brotará um rebento do tronco de Jessé, e das
suas raízes um ren ovo frutificará... E acontecerá, naquele
dia, que as nações perguntarão pela raiz de Jessé, posta por
pendão dos povos, e o lugar do seu repouso será glorioso
(Is 11.1, 10).
Eis que vêm dias, diz o SENHOR, em que levantarei a Davi
um Renovo justo; sendo rei, reinará, e prosperará, e praticará
o juízo e a justiça na terra. Nos seus dias, Judá será salvo, e
Israel habitará seguro; e este será o nom e com que o nom ea­
rão: O SENHOR, Justiça Nossa (Jr 23.5, 6).
1 8 0 I 0 Ministério Profético na Bíblia
Je su s C risto - O C u m p rim e n to P ro fé tic o d o A n tig o T estam e n to I 181

Basílica da Natividade construída por ordem da rainha


Helena quando visitou a Terra Santa no ano 325.

Entrada da Basílica da Natividade.


1 8 2 I 0 Ministério Profético na Bíblia

Interior da Basílica.

Todas essas e outras profecias estão nos Profetas e nos Hagió-


grafos. Os Salmos encabeçam a terceira parte do Canon Judaico,
os Hagiógrafos; Isaias e Jeremias são livros dos Profetas Posterio­
res. Essa palavra profética com eçou em 1 Samuel, parte dos Pro­
fetas Anteriores.
Essas profecias eram conhecidas por todos, tanto os judeus de
Eretz Israel com o os da Diáspoara, e isso pode ser visto no diálogo
dos ouvintes de Jesus em Jerusalém: "Não diz a Escritura que o Cris­
to vem da descendência de Davi e de Belém, da aldeia de onde era
Davi?" (Jo 7.42) e na pregação de Paulo aos helenistas da sinagoga
de Antioquia da Pisídia: "E, quando este foi retirado, lhes levantou
com o rei a Davi, ao qual também deu testemunho e disse: Achei a
Davi, filho de Jessé, varão conforme o meu coração, que executará
toda a minha vontade. Da descendência deste, conforme a promes­
sa, levantou Deus a Jesus para Salvador de Israel" (At 13.22, 23).
Je su s C risto - O C u m p rim e n to P ro fé tic o d o A n tig o T estam e n to I 183

Gruta do nascimento de Jesus: "E deu à luz o seufilho primogênito,


e envolveu-o em panos, deitou-o numa manjedoura" (Lc 2.7).

O cumprimento dessa promessa está registrado em todo o Novo


Testamento, desde Mateus: "Livro da geração de Jesus Cristo, Filho
de Davi, Filho de Abraão" (1.1), ao livro de Apocalipse: "Isto diz o
que é santo, o que é verdadeiro, o que tem a chave de Davi, o que
abre, e ninguém fecha, e fecha, e ninguém abre [...] Eu, Jesus, enviei
o meu anjo, para vos testificar estas coisas nas igrejas. Eu sou a
Raiz e a Geração de Davi, a resplandecente Estrela da manhã (Ap
3.7; 22.16). A expectativa dos profetas do Antigo Testamento se
torna realidade nos evangelhos: "E as multidões, tanto as que iam
adiante com o as que o seguiam, clamavam, dizendo: Hosana ao
Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhorí Hosana nas
alturas!" (Mt 21.9).
A história de Davi ocupa mais espaço do que qualquer outro
personagem do Antigo Testamento, presente nos Profetas e nos
Hagiógrafos. Os relatos de sua vida estão registrados nos livros de
1 8 4 I 0 Ministério Profético na Bíblia

Davi, "o suave em Salmos de Israel" (2 Sm 23.1). Jerusalém, Cidade Velha.


Je sus C risto - O C u m p rim e n to P ro fé tic o d o A n tig o T estam e n to 11 8 5

Samuel, nos dois primeiros capítulos de 1 Reis, classificados com o


Profetas Posteriores, e no primeiro livro das Crônicas, classificado
com o Hagiógrafo Histórico. A vida de Salomão e de outros reis de
Judá e de Israel estão também nessas duas partes do Cânon Judaico,
mas nada que se compare com o fundador da dinastia davídica.
O esplendor do reinado de Salomão prefigura a glória e a m ag­
nificência do reino do Messias. O título "Filho de Davi", tirado da
profecia inicial (2 Sm 7.12-16), é ambíguo, envolvendo tanto o su­
cessor imediato do seu trono com o o Rei que "reinará para sempre
na casa de Jacó" (Lc 1.33).

12 Quando teus dias forem completos, e vieres a dormir


com teus pais, então, farei levantar depois de ti a tua semente,
que procederá de ti, e estabelecerei o seu reino. 13 Este edifi-
cará uma casa ao meu nome, e confirmarei o trono do seu
reino para sempre. 14 Eu lhe serei por pai, e ele me será por
filho; e, se vier a transgredir, castigá-lo-ei com vara de homens
e com açoites de filhos de homens. 15 Mas a minha benigni-
dade se não apartará dele, com o a tirei de Saul, a quem tirei
de diante de ti. 16 Porém a tua casa e o teu reino serão firma­
dos para sempre diante de ti; teu trono será firme para sempre
(2 Sm 7.12-16).

A promessa diz respeito a Salomão que haveria de reinar após a


morte de Davi e que se encarregaria de construir o templo em Jeru­
salém. Ele sequer havia nascido, no entanto, a partir do seu reinado
a dinastia estaria confirmada para sempre. A palavra profética re­
vela ainda a relação pai-filho e a continuidade da casa davídica, que
não será quebrada com o foi a de Saul, ainda que esse filho venha a
pecar, será castigado, mas "benignidade se não apartará dele" (v.
15). Deus havia sancionado a eleição de Davi e sua ascensão ao
trono de Israel, por isso seu futuro estava garantido. A dinastia da-
1 8 6 1 O Ministério Profético na Bíblia

vídica durou 425 anos nos tempos do Antigo Testamento e poucas


famílias na História conseguiram tal proeza.
A parte do v. 12: "farei levantar depois de ti a tua semente, que
procederá de ti, e estabelecerei o seu reino" é ambígua, pois à luz
do contexto histórico e teológico permite aplicar a Salomão e a
Cristo. Alguns pontos da profecia deixam claro que dizem respeito
ao sucessor imediato de Davi, com o a referência à construção do
templo: "Este edificará uma casa ao meu nom e" (v. 13a), outros
podem ser ambíguos, com o "Eu lhe serei por pai, e ele me será por
filho" (v. 14a), que o N ovo Testamento afirma claramente ser mes­
siânico (Hb 1.5). Um dos destaques dos Profetas Posteriores são as
profecias messiânicas, contudo, a vida pessoal de alguns deles pre-
figura a vida e o ministério de Cristo, com o Jeremias e Oseias.
O profeta Oseias não é citado nos livros históricos ou nos Profe­
tas Anteriores. O pouco que se conhece sobre sua vida pessoal vem
de sua própria profecia. Sabe-se que era de família importante, pois
o texto sagrado apresenta o profeta com o "filho de Beeri" (1.1).
Quando alguém vinha de família humilde ou inexpressiva da socie­
dade, não se mencionava o nome de seu pai, com o acontece com
o profeta Am ós (Am 1.1) que era boieiro e lavrador de sicômoros
(Am 7.14). O que sabemos dele é em virtude do seu controvertido e
conturbado casamento.
O casamento de Oseias e o seu triste relacionamento com Gomer
eram o retrato do relacionamento de Israel com Javé e o prenuncio
da vinda do Messias e do surgimento da Igreja. Após a ordem de
Javé para Oseias se casar vem a justificativa: "porque a terra se
prostituiu, desviando-se do SENHOR" (Os 1.2). A comparação des­
se casamento com o então estado espiritual da nação não nos
fornece subsídios suficientes para uma interpretação alegórica. As
dez tribos do norte estiveram sempre envolvidas numa apostasia
generalizada. A idolatria é comparada ao adultério e à prostituição
Je sus C risto - 0 C u m p rim e n to P ro fé tic o d o A n tig o T estam e n to I 187

espiritual, até porque em muitos cultos idólatras, dedicados à fer­


tilidade, era praticada a prostituição de maneira literal. Deus queria
que o profeta compreendesse o paradoxo da maldade do povo e a
grandeza do grande amor de Javé por m eio da experiência com sua
esposa infiel, que ele tanto amava.
O nascimento de Jezreel era prenuncio do fim da dinastia de Jeú
(Os 1.4). Jeroboão II foi o penúltimo monarca dessa casa real, seu
filho Zacarias reinou apenas seis meses, com ele terminou o g o ­
verno dessa família (2 Rs 15.8, 12). O Senhor ficou indignado com
o m odo que ele exterminou os descendentes de Onri. É verdade
que foi o próprio Deus que o mandou eliminar todos os seus her­
deiros, exterminar a casa de Acabe, mas Jeú extrapolou o limite
agindo com crueldade (2 Rs 9.5-10). Ele tinha consciência de que
estava executando o mandado divino, entretanto, utilizou-se de
trapaça, carnificina, hipocrisia, de uma violência indescritível no
vale de Jezreel (2 Rs 10).
Javé não se agradou disso e por essa razão disse que apenas
até a quarta geração de Jeú se assentaria no trono em Samaria:
"teus filhos até à quarta geração se assentarão no trono de Israel"
(2 Rs 10.30). Cerca de 752 a.C., Salum matou o rei Zacarias, o
quarto e último monarca dessa dinastia (2 Rs 15.10-12). Não foi
apenas o pecado de Jeú a única razão para o fim da federação das
dez tribos do norte. O livro Oseias apresenta as condições religio­
sa, social e política da nação: apostasia, corrupção e violência que
justificaram o cativeiro assírio. Trata-se do fim do "reino de Israel"
(Os 1.4b) e não o fim de Israel, pois, nos textos sagrados produzidos
depois do Cisma dos dias de Roboão, o nome "Israel" aparece mui­
tas vezes para representar o Reino do Norte, distinguindo-o do
Reino do Sul, Judá.
Deus havia determinado desterrar o Reino do Norte por causa de
sua infidelidade. O nascimento de Ló Ruama (1.6), em hebraico,
1 8 8 1 0 Ministério Profético na Bíblia

significa "desfavorecida", ou, de maneira mais literal, "não com pa­


decida", o que indicava ser uma filha ilegítima, portanto, nascida
sem o amor do pai. No nascimento de JezreeI, o texto sagrado diz:
"e lhe deu um filho" (1.3). Aqui o texto não afirma que Gomer lhe
deu uma filha, mas simplesmente que "tornou ela a conceber" (1.6).
É mais que evidente que essa filha não fosse de Oséias. Esse era o
quadro espiritual de Israel naqueles dias, por isso Deus não ia mais
se compadecer do povo, levando Israel ao cativeiro.
Depois de haver desmamado a Lo-Ruama Gomer "tornou a con­
ceber e deu à luz um filho" (Os 1.8). Esse menino, com o sua irmã
Lo-Ruama, é filho de prostituição, Oséias não é o seu pai. Como o
adultério rompe os laços matrimoniais, assim Israel, por causa de
sua infidelidade ao seu Deus, havia quebrado o concerto do Sinai.
O terceiro filho era também ilegítimo e com isso fecha-se o círculo.
Oséias reconhece que Gomer adulterou e o nome Ló Ami, que sig­
nifica "não povo meu", é o mesmo que dizer: "você não é meu filho"
(1.9). Porém, em seguida, a palavra profética anuncia: "Todavia, o
número dos filhos de Israel será com o a areia do mar, que não pode
medir-se nem contar-se; e acontecerá que, no lugar onde se lhes
dizia: Vós não sois meu povo, se lhes dirá: Vós sois filhos do Deus
vivo ” (1.10). Javé prometeu a Abraão que seus descendentes seriam
com o as estrelas do céu e com o a areia da praia, tal seria o número
deles (Gn 13.16; 15.5; 22.17). A mensagem de Oséias lembra a alian­
ça abraâmica e da promessa divina de fazer do grande patriarca o
pai de uma multidão. A profecia não está restrita apenas aos judeus
naturais, é uma mensagem de caráter espiritual e escatológica. O
profeta deixa isso mais claro no capítulo 3.

I E o SENHOR me disse: Vai outra vez, ama uma mulher,


amada de seu amigo e adúltera, com o o SENHOR ama os filhos
de Israel, embora eles olhem para outros deuses e amem os
Je su s C ris to - O C u m p rim e n to P ro fé tic o d o A n tig o T estam e n to I 189

bolos de uvas. 2 E a comprei para mim por quinze peças de


prata, e um ôm er de cevada, e m eio ôm er de cevada; 3 e lhe
disse: Tu ficarás com igo muitos dias; não te prostituirás, nem
serás de outro homem; assim quero eu ser também para ti. 4
Porque os filhos de Israel ficarão por muitos dias sem rei, e sem
príncipe, e sem sacrifício, e sem estátua, e sem éfode ou tera-
fins. 5 Depois, tomarão os filhos de Israel e buscarão o SENHOR,
seu Deus, e Davi, seu rei; e temerão o SENHOR e a sua bon­
dade, no fim dos dias (Os 3.1 -5).

Gomer se prostituiu, deixou seu marido e foi atrás de seus aman­


tes ou namorados. Da mesma forma, a nação de Israel se prostituiu,
no sentido literal e espiritual, pois os cultos pagãos eram imorais
(4.13,14; Jz 8.33). Israel deixou o seu Deus Javé, que numa linguagem
figurada, é o marido de Israel, para cultuar as divindades falsas, os
seus amantes. A situação dos gentios não era diferente, mas foram
alvejados pelo amor de Deus. O verbo hebraico 2HK (a h ê v )," amar",
aparece 4 vezes só no v. 1. Falando-se de amor, isso inclui também
perdão, reconciliação e redenção. Por isso Oseias é conhecido como
o apóstolo João do Antigo Testamento. Deus nos amou quando
éramos ainda pecadores (Rm 5.8; 1 Jo 4.19).
Por que Oseias tinha de comprar Gomer, sendo ela sua mulher?
O relato desse casamento não traz pormenores. O certo é que
Gomer precisava ser redimida. O preço de um escravo era de 30
moedas de prata (Êx 21.32), o preço que nosso Senhor Jesus Cris­
to foi vendido por Judas Iscariotes (Mt26.15; 27.3,9). O profeta não
tinha todo esse dinheiro, deu a metade em dinheiro e a metade em
víveres. Fica claro com isso seu esforço para restaurar a esposa.
Jesus assumiu a forma de servo para pagar a nossa redenção a
preço de sangue (Fp 2.7; 1 Pe 1.18,19). Nenhum pecador pagou pela
sua salvação (Is 55.1-3). O nome "Davi", no v. 5, refere-se ao Mes­
sias. A promessa messiânica estava tão vinculada à casa de Davi,
1 9 0 1 O Ministério Profético na Bíblia

que às vezes aparece o seu nome nos profetas com o título messi­
ânico: "com o também a Davi, seu rei, que lhes levantarei" Gr 30.9);
"E levantarei sobre elas um só pastor, e ele as apascentará; o meu
servo Davi é que as há de apascentar; ele lhes servirá de pastor. E
eu, o SENHOR, lhes serei por Deus, e o meu servo Davi será prín­
cipe no m eio delas; eu, o SENHOR, o disse [...] E meu servo Davi
reinará sobre eles, e todos eles terão um pastor" (Ez 34.23,24;
37.24). O Targum de Jônatas traduziu assim o v. 5: "Obedecerão ao
Messias, o Filho de Davi, seu rei".
A palavra profética contempla mudanças futuras nos filhos de
Israel de modo a se reconciliarem com o seu Deus. O quadro aqui
será revertido com o arrependimento e uma mudança no compor­
tamento de Israel. Mas a expressão "vós sois filhos do Deus vivo"
(Os 1.10b) diz respeito aos gentios que se converteriam à fé cristã
na dispensação da graça. A situação espiritual de Israel naqueles
dias levou o povo a se igualar aos gentios. Jeová chamou Israel de
povo do bezerro (Os 10.5). Ambos os povos estavam no mesmo bojo:
"Pois quê? Somos nós mais excelentes? De maneira nenhuma! Pois
já dantes demonstramos que, tanto judeus com o gregos, todos estão
debaixo do pecado [...] Porque todos pecaram e destituídos estão da
glória de Deus" (Rm 3.9, 23).
O apóstolo Paulo afirma que essa mensagem é uma profecia
alusiva aos gentios que viriam a ser membros da Igreja de Cristo:
"os quais somos nós, a quem também chamou, não só dentre os
judeus, mas também dentre os gentios? Como também diz em Oséias:
Chamarei meu povo ao que não era meu povo; e amada, à que não
era amada. E sucederá que no lugar em que lhes foi dito: Vós não
sois meu povo, aí serão chamados filhos do Deus vivo" (Rm 9.24-26).
O termo grego usado no N ovo Testamento para "igreja" é kKKkr\oíu
(ekklêsia) "igreja, assembleia do povo, comunidade", vem da prepo­
sição ek, "de, de dentro para fora, fora de", e de klesis, "chamamen­
)e s u s C risto - 0 C u m p rim e n to P ro fé tic o d o A n tig o T estam e n to I 191

to, chamada", trata-se, portanto, de uma congregação dos chamados


por Deus para fora do mundo, com o um povo separado, especial,
zeloso e de boas obras (Tt 2.14). É formada por todas as pessoas
nascidas de novo que receberam a Jesus Cristo com o seu Salvador
pessoal. O Senhor Jesus eliminou a parede de separação entre judeus
e gentios criando um novo povo: a igreja (Ef 2.11-14).
Sua aplicação diz respeito também à nação de Israel, os filhos
naturais de Abraão. Após o Cisma de Israel, esses reinos se tomaram
inimigos durante muito tempo. Houve guerra entre Roboão e Jero-
boão I e entre Asa e Baasa durante todo o tempo em que viveram (1
Rs 14.30; 15.6, 32). E a aliança entre Josafá e Acabe não foi bom
negócio (2 Cr 18.2, 3; 19.2). Eram dois reinos irmãos, porém, hostis
um ao outro. As dez tribos do norte foram levadas pelos assírios ao
cativeiro. Cerca de 130 anos depois, foi a vez de Judá. O Reino do
Sul foi levado pelos caldeus para a Babilônia. Eram dois reinos ir­
mãos. Deus não fez um pacto com o Reino do Norte e outro com o
Reino do Sul, mas com as 12 tribos de Israel, é o que reafirma a pri­
meira parte do v. 11: "E os filhos de Judá e os filhos de Israel juntos
se congregarão". A profecia fala de uma reconciliação com a vinda
do Messias. Em seguida, vem a promessa messiânica: "e constituirão
sobre si uma única cabeça, e subirão da terra" (v. I lb).
O atual Estado de Israel é o início do cumprimento dessa profecia,
o seu clímax será a vinda de Jesus em glória. Essa restauração na­
cional é escatológica. Os filhos Israel e os filhos de Judá congregarão
juntos e constituirão uma única cabeça. Com essa reunificação o
reino será regido por um só Rei: o Messias. A palavra hebraica para
"cabeça" é ttfeõ (rõ sh ) "cabeça, chefe, líder, príncipe". É o rei que
Deus levantará da casa de Davi. O N ovo Testamento apresenta o
Messias com o a cabeça de todo o homem: "Mas quero que saibais
que Cristo é a cabeça de todo varão" (1 Co 11.3) e também da Igre­
ja: "E ele é a cabeça do corpo da igreja" (Cl 1.18).
1 9 2 I 0 Ministério Profético na Bíblia

Monte Calvário, onde o Senhor Jesusfo i crucifiacdo: "E, chegando


ao lugar chamado Gólgota, que significa Lugar da Caveira" (Mt 27.33).
Observe que oformato do monte é de um crânio.

Isaías é conhecido como o profeta messiânico, pois é o livro dos


Profetas que mais faz menção da vinda do Messias. Há mais de 50 cita­
ções dele no Novo Testamento.2 Ele é citado nos capítulos 19 e 20 de 2
Reis e três vezes em 2 Crônicas (26.22; 32.20, 32). Sua mulher era pro-
fetisa com quem tinha pelo menos dois filhos, um se chamava Sear-
Jasube e o outro Maer-Salal-Hás-Baz (7.3; 8.3). Nomes significativos, o
primeiro significa "um remanescente voltará” e o segundo, "rápido é o
despojo, veloz é a presa". Seu nome em hebraico é (Ysha ‘yãhü)
"salvação de Javé". Ele é chamado 13 vezes de "filho de Amoz", isso
indica ser seu pai um homem influente. Nada sabemos sobre Amoz, o
pai de Isaías, mas o Talmude afirma que era irmão do rei Uzias. Se isso
puder ser confirmado, então, Isaías era primo de Uzias, rei de Judá.

2 O livro Vísão Panorâmica do Antigo Testamento, de Esequias Soares, apresenta a lista das citações
de Isaías no N ovo Testamento, pp. 189, 190.
Je su s C risto - O C u m p rim e n to P ro fé tic o d o A n tig o T estam e n to I 193

Entrada do Jardim do Túmulo.

Isaías, com o nenhum outro profeta, destacou-se nas profecias


messiânicas. Ele anunciou detalhes da primeira vinda do Messias como
7.14; 9.6; 40.3-5, dentre outros versículos; como também do seu retor­
no escatológico para estabelecer a paz e a justiça na Terra 2.2-4; 4.2-6;
9.7; 11.1-10; 60.1-4; 62.1-12; 65.18-25. O capítulo 53, per si, é um re­
trato falado que mostra o desprezo do Servo Sofredor e de sua men­
sagem, aparência e rejeição, da sua paixão e sofrimento sem igual, do
julgamento injusto, dos malfeitores crucificados ao lado de Jesus, da
sua sepultura. Ele foi mais além, mostrando também as implicações
teológicas da vida e do seu ministério, de sua paixão e de sua morte.
Jeremias é mencionado nos relatos históricos de Judá (2 Cr 35.25;
36.12,21,22; Ed 1.1), mas a sua história é contada no livro que leva
o seu nome. De todos os livros proféticos é o que apresenta mais
detalhes da vida pessoal do seu autor. Ele pertencia a uma família
1 9 4 I O Ministério Profético na Bíblia

O túmulo vazio de Jesus: "e o pôs no seu sepulcro novo, que havia aberto em rocha"
(Mt 27.60).

sacerdotal de Anatote, nas cercanias de Jerusalém, e era filho de um


sacerdote chamado Hilquias (1.1; 11.21-23; 29.27; 32.7).
Ele iniciou o seu ministério com o profeta “nos dias de Josias, filho
de Amom, rei de Judá, no décimo terceiro ano do seu reinado” (1.2).
Essa data corresponde ao ano 627 ou 626 a.C. visto que Josias co­
meçou a reinar em 640 a.C. Nessa época, ele declara ser muito jovem
(1.5-6), talvez tivesse a mesma idade do rei Josias ou fosse um pou­
co mais velho, isso nos permite colocar o seu nascimento nos últimos
anos do reinado de Manassés ou mesmo no curto reinado de dois
anos de seu filho Amon. Não se sabe a data exata do fim do seu
ministério, os capítulos 40 a 43 mostram que ele continuou exer­
cendo o ofício de profeta, em Judá, depois da queda de Jerusalém,
em 587 a.C., e o 44, no Egito, na cidade de Tafnes, para onde foi
levado contra a sua vontade (43.5-7) e, lá, o profeta morreu, segun­
Je sus C risto - 0 C u m p rim e n to P ro fé tic o d o A n tig o T estam e n to 1195

do a tradição judaica, mas há registro bíblico de sua morte. Seu


ministério foi prolongado, durou cerca de 50 anos, segundo Edward
J. Young [Introdução ao Antigo Testamento, p. 237), que corresponde
ao ano 576 a.C., ou 46 anos, segundo Leon J. Wood, em 580 a.C. (Los
Profetas de Israel' p. 342). Trata-se de uma data em que Jeremias
deveria estar com aproximadamente com 60 anos de idade, portan­
to, é possível que ele tenha vivido mais tempo.
Quando ele iniciou sua atividade profética, Sofonias estava no
crepúsculo do seu ministério (Sf 1.1). Os profetas Naum e Habacuque
são desse período e Jeremias deve ter conhecido a todos pessoalmen­
te, mas alguns expositores do AT acreditam que ele, quando jovem,
foi influenciado pelos escritos de Oseias, Amós e Isaías, que viveram
antes dele. Cinco anos depois de sua chamada foi descoberto o livro
da Lei (2 Rs 22.3, 10-11; 2 Cr 34.3, 15-19) que resultou num grande
reavivamento em Judá. Ele teve vida celibatária, pois Deus proibiu o
profeta de casar-se e de ter filhos por causa da iminente destruição
(16:1-4), mas pode ter uma aplicação religiosa, para tipificar a esteri­
lidade espiritual de uma terra na mira de um severo julgamento. O
casamento de Oseias não serviu, também, para ilustrar a apostasia
generalizada em que viviam as dez tribos do norte? (Os 1.2-6).
Ele foi perseguido desde muito cedo, mas Deus já o havia prepa­
rado para que pudesse ser espiritualmente vitorioso. Qual o proble­
ma do profeta Jeremias? Era basicamente o conteúdo da mensagem
que não agradava ao povo e aos falsos profetas que induziam a
população a crer na mentira. Parece ter sofrido perseguição dos
vizinhos e dos parentes, na sua própria aldeia, por apoiar a reforma
do rei Josias (11.21; 12:6). Jerusalém tinha a fama de perseguir e de
matar os seus profetas (Lc 13:33; Mt 23.31). Isso mostra que os ou­
tros mensageiros de Javé sofreram os mesmos vitupérios, mas nada
que se possa comparar aos sofrimentos de Jeremias por algumas
razões: o tempo de duração de sua perseguição é praticamente o
1 9 6 1 0 Ministério Profético na Bíblia

mesmo tempo que durou o seu ministério; era ele um patriota mui­
to em otivo que amava de coração o seu povo (8.18-22), intercedia
por ele continuamente (14.8-11) de maneira que, por causa dessa
lamentação, passou para a História com o o Profeta das Lágrimas,
pois chorou muito e lamentou com o ninguém o pecado da sua nação
(9.1; 13.17; 14.17). Sua sorte piorou no reinado de Zedequias, sua
pregação foi rejeitada e foi acusado de traição, ele sofreu violência
física e prisão, tendo sido lançado num calabouço, em um poço seco
e cheio de lama (37.2,14-16; 38.6).
As perseguições contra Jeremias se intensificaram nos onze anos
que se seguiram no governo de Zedequias, pois as condições es­
pirituais e morais de seu p ovo continuavam em decadência. Ao
anunciar a deportação de Judá e a ruína de Jerusalém, foi interpre­
tado pelo povo e pelo rei com o traidor e inimigo do estado. Era
uma acusação infundada, pois em todas as am eaças proféticas o
profeta sempre apresentava uma válvula de escape, o arrependi­
mento. Com tal atitude a cidade seria poupada e o povo salvo se
tão somente se arrependesse de seus pecados. Todas essas perse­
guições, incluindo açoites e prisões, zombarias e outros impropé­
rios, fazem de Jeremias o profeta do Antigo Testam ento que mais
se parece com nosso Senhor Jesus Cristo.
Era homem de percepção aguçada acima de qualquer um de sua
geração e estava sempre em sintonia com o Espírito Santo. Não
seria exagero considerá-lo com o o único profeta psicólogo do An­
tigo Testamento. A base da ruína de Jerusalém e das demais cidades
de Judá era a idolatria (1.16), pecado que embotou a mente e a per­
cepção da maioria, levando "os reis de Judá, seus oficiais, seus sa­
cerdotes e o povo da terra" (1.18) com implicações morais, políticas
e sociais. Era uma apostasia generalizada que iá aumentado à m e­
dida que o tempo passava. Mesmo depois da primeira leva de judeus
para o cativeiro, Jeremias ainda via solução para o seu povo. Ele
Je sus C risto - 0 C u m p rim e n to P ro fé tic o d o A n tig o T estam e n to 11 9 7

sabia que somente o arrependimento seria a salvação de Judá e de


Jerusalém e aconselhava o povo e a casa real a submissão ao rei de
Babilônia, pois 70 anos depois os cativos retomariam e a Cidade
Santa seria poupada (25.11; 29.10). Sua mensagem não era fruto do
intelecto, visto se tratar de um homem que andava com Deus, ele
entendia os acontecimentos passados e contemporâneos e os inter­
pretava corretamente. Sua pregação incomodava o povo e as auto­
ridades porque exigia a conversão deles. Com essa recusa as profe­
cias de Jeremias se cumpriram, ele foi testemunha ocular da rebelião
de Judá e da destruição de Jerusalém e do templo e compôs o livro
de Lamentações, o cântico fúnebre da Cidade. O rei de Babilônia
deu ordem ao seu general, Nebuzaradã, para proteger o profeta
Jeremias (39.11-14).
Os dados pessoais fornecidos pelo próprio livro de Jeremias mos­
tram ser o profeta mais parecido com Jesus Cristo. O Senhor Jesus
foi rejeitado pelos seus irmãos e perseguido pelas autoridades, cho­
rou sobre Jerusalém, anunciou a destruição da Cidade Santa, fez
apelo ao arrependimento do povo, foi preso e escarnecido.

REVELAÇÃO MESSIÂNICA NOS HAGIÓGRAFOS

Os Salmos encabeçam a terceira parte do Canon Judaico, os


Hagiógrafos. Seu conteúdo é muito diversificado, são poemas di­
dáticos, devocionais, históricos, proféticos, messiânicos e de louvor
e adoração a Deus. Os messiânicos apresentam o Messias com o
Rei (2, 20, 21, 45, 72, 110), com o Sacerdote (110) e com o sofredor
(22). Falam do sofrimento do Messias (22.1; Mt 27.46), da sua res­
surreição (16.8-10; At 2.25-27) e de sua ascensão (24.7-10; At 1.11;
1 Co 2.8).
Os Salmos são essencialmente messiânicos por causa do ideal
do justo sofredor que triunfa e isso está de acordo com a vida de
1 9 8 1 0 Ministério Profético na Bíblia

Jesus, seu sofrimento e sua glória (2,45, 72, 110,132). Esse Saltério
de Israel e Isaías são os dois livros do Antigo Testamento mais ci­
tados no Novo.3
A figura do Messias está também presente no livro de Jó, pois o
sofrimento dele prefigura o de Jesus Cristo. Ele falou da vinda do
Redendor: "Porque eu sei que o meu Redentor vive, e que por fim se
levantará sobre a terra" (19.25). Há referências diretas e indiretas a
ele e ao seu livro no N ovo Testamento (Tg 5.11; Jó 5.13 c f 1 Co 3.19;
Jó 13.16 cfF p 1.19).
O livro de Daniel é o último no arranjo dos Profetas Maiores no
Cânon Protestante das Escrituras Sagradas, mas no Judaico é His­
tórico e seu lugar é nos Hagiógrafos juntamente com Esdras, Neemias
e Crônicas. O título messiânico "Filho do Homem", muitas vezes
usado por Jesus, veio de Daniel 7.13. Tudo o que foi dito sobre a fi­
gura messiânica de Davi e Salomão serve também para 1 e 2 Crô­
nicas, pois esses livros são um complemento interpretativo de 1 e 2
Samuel e de 1 e 2 Reis.
O cumprimento profético do Antigo Testamento em Jesus Cristo
não se esgota aqui, mas recomendo a quem deseja se aprofundar
no assunto duas obras completas, uma em inglês e outra em portu­
guês: Chrístology o f the Old Testament, de Ernest Wilhelm Hengsten-
berg (1802 -1869), a quem Benjamin B. Warfield, teólogo presbite­
riano de Princeton, chamou de "um dos mais profundos expositores
das Escrituras que Deus já deu à Sua Igreja". Sua edição recente, de
2007, em dois volumes, contém 1.396 páginas. A outra é a Revelação
Messiânica no Velho Testamento, de Gerard Van Groningen, publica­
da em inglês em 1990 e cinco anos depois, no Brasil, contém 942
páginas. Tratam-se de trabalhos acadêmicos completos, ricos em
detalhes cristológicos nas Escrituras Hebraicas.

3 Ver a lista dos Salmos citados no N ovo Testam ento em Visao Panorâmica do Antigo Testamento,
página 171.
Jesus Cristo - O Cumprimento Profético do Antigo Testamento I 1 9 9

LISTA DE PROFECIAS E REVELAÇÕES MESSIÂNICAS


NO ANTIGO TESTAMENTO

P r o fe c ia A n t ig o Cumprimento no
T e s ta m e n t o N ovo Testam ento
Semente da mulher Gn 3.15 Gl 4.4
Descendente de Abraão, Gn 12.3; 17.19; 24.14 Lc 3.33, 34
Isaque e Jacó
Descendente de Judá Gn 49.10 Mt 1.2,3
Nasceria de uma virgem Is 7.14 Mt 1.18; Lc 1.34
Em Belém de Judá Mq 5.2 Mt 2.1-5; Lc 2.9-11
Da linhagem de Davi Jr 23.5,6 Mt 2.1
Fuga para o Egito Os 11.1 Mt 2.14, 15
Crianças de Belém Jr 31.15 Mt 2.16, 17
seriam assassinadas
Habitaria em Naftali, Is 9.1-4 Mt 4.15
nos confins de Zebulon
Entraria triunfalmente Zc 9 9 Mt 21.1-11
em Jerusalém, montado
num jumento
Traído por um amigo SI 41.9 Mt 26.23
Condenado pelos Is 53.8-11 1 Co 15.3
nossos pecados
Crucificado SI 22.1 Mt 27.46; Jo 19.17-19
Ressuscitaria dentre Sl 16.10 Mt 28.1-5
os mortos
Retom o ao céu SI 24 At 1.9-11
Sacerdote segundo a Sl 110.4 Hb 5.5,6; 6.20; 7.15-17
ordem de Melquisedeque
Profeta com o Moisés Dt 18.15, 18 At 3.22
Contado entre Is 53.12 Mt 27.38
os malfeitores
O friuiuécruh
PROFÉTICO NO
NOVO TESTAMENTO
2 0 2 1 0 Ministério Profético na Bíblia

O ministério profético no N ovo Testam ento é mais amplo por­


que, em bora o Canon Sagrado já tenha se encerrado, as Escritu­
ras neotestamentárias, com base na revelação dos profetas do
Antigo Testamento, deixam fortes indícios de que a com unicação
divina continua, mas de forma diferente. Os escritos divinam en­
te inspirados se encerram na Bíblia, porém, o Senhor continua se
com unicando com seus servos e servas de form a individual, mas
essa profecia não se reveste de autoridade para se igualar a dos
profetas e apóstolos.
A revelação divina dada aos profetas do Antigo Testamento só
difere da que foi dada aos apóstolos em alguns aspectos da nature­
za da atividade profética e do conteúdo da mensagem, afinal, foram
os receptáculos dos oráculos divinos na "plenitude dos tempos" (GI
4.4). As profecias do N ovo Testamento são complementos finais dos
oráculos divinos, cuja manifestação começou nas Escrituras vete-
rotestamentárias e cujo clímax se consumou em Jesus Cristo: "Ha­
vendo Deus, antigamente, falado, muitas vezes e de muitas manei­
ras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos, nestes últimos dias,
pelo Filho" (Hb 1.1). A fonte da mensagem de ambos e a autoridade
deles são a mesma.

O SENHOR JESUS CRISTO

Moisés anunciou a vinda de um profeta semelhante a ele e a sua


declaração é atestada no N ovo Testamento com o profecia messiâ­
nica que se cumpriu em Jesus: "Porque Moisés disse: O Senhor,
vosso Deus, levantará dentre vossos irmãos um profeta semelhante
a mim; a ele ouvireis em tudo quanto vos disser" (At 3.22). Nesse
discurso, o apóstolo Pedro apresenta o perfil de Cristo no Antigo
Testamento, provando assim que os últimos acontecimentos eram
cumprimento das Escrituras. A citação é de Deuteronômio 18.15,
0 M in is té r io P ro fé tic o n o N o v o T estam e n to 12 0 3

18,19. Isso não significa ser ele mais um profeta, mas outro Legis­
lador para estabelecer "os tempos do refrigério pela presença do
Senhor" (At 3.19), seria uma nova ordem para o mundo.
É verdade que Cristo foi aclamado, diversas vezes, pelo povo
com o profeta: "E a multidão dizia: Este é Jesus, o Profeta de Nazaré
da Galileia" (Mt 21.11); "Outros diziam: É Elias. E diziam outros: É
um profeta ou com o um dos profetas" (Mc 6.15); "E de todos se
apoderou o temor, e glorificavam a Deus, dizendo: Um grande pro­
feta se levantou entre nós, e Deus visitou o seu povo" (Lc 7.16). Ele
mesmo assim se considerava: "Jesus, porém, lhes disse: Não há
profeta sem honra, a não ser na sua pátria e na sua casa" (Mt 13.57);
"Em verdade vos digo que nenhum profeta é bem recebido na sua
pátria [...] Importa, porém, caminhar hoje, amanhã e no dia seguin­
te, para que não suceda que morra um profeta fora de Jerusalém"
(Lc 4.24; 13.33).
Os profetas do Antigo Testamento tinham em Moisés um m ode­
lo, pois Deus falava com ele face a face, e não com o os outros.
Porém, Jesus é superior a Moisés "Porque ele é tido por digno de
tanto maior glória do que Moisés, quanto maior honra do que a casa
tem aquele que a edificou" (Hb 3.3) e superior aos profetas e aos
sacerdotes, pois ele é Deus em forma humana (Jo 1.14; Cl 2.9), com o
tal o seu conhecimento é perfeito e absoluto. Essa é a diferença
significativa, pois não falava em nome de Deus, não era o seu porta-
voz, mas o Filho Unigênito: "Ninguém jamais viu a Deus; o Deus
unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou" (Jo 1.18 - ver­
são Almeida Atualizada).
Ele sabia que no mar havia um peixe com uma moeda e que
Pedro ao lançar o anzol o pescaria, e com o dinheiro pagaria o im­
posto, tanto por ele com o por seu Mestre (Mt 17.27). Em João 2.24,25,
está escrito que não havia necessidade de ninguém falar algo sobre
o que há no interior do homem, porque Jesus já sabia de tudo.
2 0 4 1 0 Ministério Profético na Bíblia

w A Bíblia afirma que só Deus conhece o coração dos homens (1 Rs


8.39). Então, Jesus é onisciente, porque ele é Deus. Ele sabia que a
mulher samaritana já havia possuído cinco maridos, e que o de
então não era o seu esposo (Jo 4.17,18). Encontramos em João 16.30;
21.17 que Jesus sabe tudo; e Colossenses 2.2,3 nos diz que em Cris­
to "estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência".
O Senhor Jesus ouvia a oração de Saulo de Tarso enquanto falava
com Ananias, em Damasco (At 9.11). Não há nada no universo que
Jesus não saiba e tudo porque ele é onisciente e é Deus. Ele mesmo
é o Deus verdadeiro e por isso jamais discursou dizendo "assim diz
o Senhor" ou "veio a mim a palavra do Senhor", o que se encontra
nos evangelho é o seguinte: "em verdade, em verdade vos digo" e
fraseologia similar, ou ainda: "passará o céu e a terra, mas as minhas
palavras não hão de passar" (Lc 21.32).

O APÓSTOLO

O apóstolo é na verdade um enviado, um embaixador, represen­


tante, e nisso é comparado aos profetas do Antigo Testamento que
assim são também identificados (2 Cr 36.15, 16; Ez 2.3; A g 1.13). O
termo grego ámxjTOÀoç (apostolos) vem de duas palavras gregas, a
preposição apo "de", com sentido de partida, e o verbo ateAlco (stellõ)
"enviar". Esse vocábulo é usado no Novo Testamento para designar
os doze apóstolos: "e escolheu doze deles, a quem deu o nome de
apóstolos" (Lc 6.13). Esse colegiado é específico e suigeneris, nin­
guém mais entrou nele, exceto Paulo, "com o a um abortivo" (1 Co
15.8) e Matias, o substituto de Judas Iscariotes (At 1.26). Nenhum
dos apóstolos se apresentou com o apóstolo da Igreja, mas com o
apóstolo de nosso Senhor Jesus Cristo (Rm 1.1; G1 1.1; 2 Pe 1.1).
É também usado para os enviados com o embaixadores ou mis­
sionários da igreja (2 Co 8.23; Fp 2.25). A Igreja Ortodoxa Grega,
0 M in is té r io P ro fé tic o n o N o v o T esta m e n to ! 2 0 5

desde o princípio, usava o vocábulo apostolos para designar seus


missionários. Jesus é chamado de apostolos no N ovo Testamento
grego: "Considerai a Jesus Cristo, apóstolo e sumo sacerdote da
nossa confissão" (Hb 3.1). Deus enviou seu Filho ao mundo (Jo 3.17),
o Filho enviou seus discípulos ao mundo (Jo 20.21), o Pai e o Filho
enviaram o Espírito Santo para dar poder a Igreja em sua missão de
buscar os perdidos da terra (Lc 24.49; At 1.8).
Os apóstolos do N ovo Testamento não são identificados com o
os profetas, mas o ofício deles inclui os oráculos proféticos com a
mesma autoridade dos mensageiros do Senhor no Antigo Testamen­
to, ambos estão no mesmo nível em termo de inspiração. Nunca
esquecer que o termo "profeta", no N ovo Testamento, é mais amplo
do que nas Escrituras veterotestamentárias, pois é aplicado aos da
antiga aliança, à segunda parte do Canon Judaico, à posição de
ensinadores nas igrejas do primeiro século e a todos os cristãos que
têm o dom de profecia. Deus não deixou sucessão profética, não há
um profeta sucessor daqueles que exerceram esse ministério no
antigo Israel: "Porque todos os profetas e a lei profetizaram até João"
(Mt 11.13). O mesmo pode ser dito sobre os apóstolos, o Senhor
Jesus não deixou sucessão apostólica (Jd 17; Ap 21.14), o apóstolo
Paulo afirmou ser ele o último deles: "e, por derradeiro de todos, me
apareceu também a mim, com o a um abortivo" (1 Co 15.8). O cargo
de papa, portanto, não é legítimo à luz da Bíblia.
A aparição de Cristo a Saulo de Tarso no caminho de Damasco,
que ele mesmo afirma ser "com o um abortivo", indica que tem a
mesma validade da vocação canônica, tendo o mesmo nível da dos
demais apóstolos que tiveram uma formação natural e gradual du­
rante o ministério do Senhor Jesus. A palavra grega usada para
"abortivo" é eKTpo)|ia (ektrõma), "aborto, nascimento prematuro", e
só aparece aqui no N ovo Testamento e três vezes na LXX (Nm 12.12;
Jó 3.16; Ec 6.3), com o sentido de alguém imaturo, expelido do ven ­
2 0 6 1 0 Ministério Profético na Bíblia

tre do judaísmo, para se tornar apóstolo. Era uma experiência sui


generis encontrar o Senhor ressuscitado nas mesmas condições que
Pedro, João e os demais apóstolos viram. O Senhor Jesus apareceu
mais vezes a ele (At 18.9; 22.18; 27.23; 2 Co 12.2-4), mas não como
da primeira vez. Ninguém mais depois dele teve tal experiência.
Assim, Paulo é um dos apóstolos com a mesma autoridade dos ou­
tros, é o último dos apóstolos. Ele reconhece não ser merecedor
disso, mas afirma que fez mais que os outros pela causa do Mestre
(1 Co 15.9, 10).
Os apóstolos eram também profetas na condição de receptácu­
los dos oráculos divinos, apesar de o N ovo Testamento não iden­
tificá-los com esse título, todavia, são mensageiros do Senhor e
receberam diretamente de Jesus de Nazaré autoridade divina nos
termos dos profetas do Antigo Testamento, para pregar e escrever
a revelação dada pelo Espírito Santo. Por duas vezes Paulo deixa
isso bem claro em Efésios.

Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profe­


tas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina [...] o
qual, noutros séculos, não foi manifestado aos filhos dos ho­
mens, como, agora, tem sido revelado pelo Espírito aos seus
santos apóstolos e profetas (Ef 2.20; 3.5).

Não há mais ninguém além dos apóstolos no fundamento da


Igreja, a não ser o próprio Cristo, que seja a pedra principal. Veja
que eles aparecem nos 12 fundamentos da Nova Jerusalém (Ap
21.14). A construção gramatical grega nas passagens em foco: xQv
aTT O O TO À Q v k oci TTpo(j)r)Ttôu (tõn apostolõn kaiprophètõn), que literal­
mente é "dos apóstolos e profetas" e não "dos profetas" (Ef 2.20).
Note que o artigo definido grego tõn não se repete, não reaparece
diante de prophètõn. A versão Almeida Atualizada e a Tradução
0 M in is té r io P ro fé tic o n o N o v o T estam e n to 12 0 7

Brasileira foram mais precisas nessa tradução. O texto sagrado in­


dica um grupo apenas, isso mostra que se a intenção de Paulo fos­
se designar dois grupos, por exemplo, os profetas do Antigo Testa­
mento e os apóstolos de nosso Senhor Jesus Cristo, ele teria repeti­
do o artigo diante do segundo substantivo.
Outra passagem bíblica deixa isso ainda mais claro, pois o após­
tolo Paulo argumenta que o mistério da inclusão dos gentios na
Igreja esteve oculto no passado: "o qual, noutros séculos, não foi
manifestado aos filhos dos homens, como, agora, tem sido revelado
pelo Espírito aos seus santos apóstolos e profetas" (Ef 3.5). Ora, essa
declaração deixou de fora os profetas do Antigo Testamento, pois a
expressão "agora, tem sido revelado" mostra tratar-se de uma reve­
lação recente. Paulo está dizendo aqui que os apóstolos são também
profetas, essa afirmação encontra apoio escriturístico, com o as pro­
fecias escatológicas sobre Israel (Rm 11.25-27); sobre o arrebata -
mento da Igreja (I Co 15.51-55; 1 Ts 4.13-17; 5.1-4; 2 Pe 3.4-13). O
livro de Apocalipse é em si m esm o um com pêndio profético. O
apóstolo João define essa obra como: "palavras desta profecia [...]
profecia deste livro [...] "; "palavras da profecia deste livro [...] pala­
vras do livro desta profecia" (1.3; 22.7, 18, 19).
Paulo usa o m esm o tipo de construção gramatical da passagem
bíblica anterior: to lç à y ío iç aTrooTÓÀoiç autou kcu 'n p o ^ ta iç
(tois haguiois apostolois autou kai prophêtais), "aos seus santos
apóstolos e profetas" (Ef 3.5). O artigo tois não reaparece antes do
segundo substantivo prophêtais. Em ambas passagens a ordem das
palavras "apóstolos e profetas" e não "profetas e apóstolos" não
permitem a interpretação de que se trata de profetas do Antigo
Testamento e os apóstolos do Novo. O contexto histórico e a exe­
gese dão sustentação ao presente pensamento, mas nem todos
pensam dessa maneira. Por essa razão cabe aqui uma explicação
sobre os dons ministeriais.
2 0 8 1 0 Ministério Profético na Bíblia

Paulo afirma proclamar verdadeiramente as palavras de Deus:


o Espírito que "penetra todas as coisas, ainda as profundezas [...]
ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus" (I Co
2.10-12). Assim, seus oráculos são manifestos "não com palavras
de sabedoria humana, mas com as que o Espírito Santo ensina" (1
Co 2.13). A verdade que o Espírito lhe revelou é tão autêntica e
inspirada com o a dos santos profetas do Antigo Testamento. Pedro
iguala as palavras dos apóstolos com igual autoridade: "para que
vos lembreis das palavras que primeiramente foram ditas pelos
santos profetas e do mandamento do Senhor e Salvador, median­
te os vossos apóstolos" (2 Pe 3.2). Mais adiante chama as epístolas
paulinas de Escrituras: "com o também o nosso amado irmão Pau­
lo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada, falando
disto, com o em todas as suas epístolas, entre as quais há pontos
difíceis de entender, que os indoutos e inconstantes torcem e igual­
mente as outras Escrituras, para sua própria perdição" (2 Pe 3.15,
16). A o dizer "igualmente as outras Escrituras" está reconhecendo
a sua autoridade divina.
O apóstolo Paulo considera a Lei de Moisés em pé de igualdade
com os escritos do Novo Testamento: "Porque diz a Escritura: Não
ligarás a boca ao boi que debulha. E: Digno é o obreiro do seu salá­
rio" (1 Tm 5.18). A primeira parte é citação de Deuteronômio 25.4,
entretanto, a parte final: "Digno é o obreiro do seu salário" não
consta do Antigo Testamento, senão nos evangelhos (Mt 10.10; Lc
10.7). Em outra ocasião afirma que quem rejeitar a sua palavra re­
jeita a Deus: "Portanto, quem despreza isto não despreza ao homem,
mas, sim, a Deus, que nos deu também o seu Espírito Santo" (1 Ts
4.8). A autoridade apostólica é indicutivelmente igual a dos profetas
do Antigo Testamento.
O M in is té r io P ro fé tic o n o N o v o T estam e n to 12 0 9

"APÓSTOLO" E "PROFETA" COMO DONS MINISTERIAIS

Os termos apóstolos e profetas devem ser compreendidos à luz


do seu contexto, pois já foi explicado que ambos aparecem com
significados distintos no N ovo Testamento.

A uns estabeleceu Deus na igreja, primeiramente, apósto­


los; em segundo lugar, profetas; em terceiro lugar, mestres;
depois, operadores de milagres; depois, dons de curar, socor­
ros, governos,-variedades de línguas [...] E ele mesmo deu uns
para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evange­
listas, e outros para pastores e doutores (1 Co 12.28; Ef 4.11).

Nessas duas passagens bíblicas "apóstolos" e "profetas" estão


separados, mesmo assim, não é indicação do ministério profético
do Antigo Testamento e nem do colegiado apostólico escolhido por
Jesus (Lc 6.13) e mais o apóstolo Paulo (1 Co 15.8). Aqui, trata-se
dos dons ministeriais, é outro assunto e não deve ser confundido
com Efésios 2.20; 3.5.
Paulo introduz o tema dos dons espirituais no capítulo 12 de 1 Co-
ríntios. Nos três primeiros versículos ele chama a atenção dos seus
leitores para o assunto. Nos versículos 4 a 6, ele revela a fontes dessas
manifestações espirituais e, de 7 a 11, ele cataloga nove xapLopáicov
(charismatõn) "dons" do Espírito Santo. Depois disso, apresenta uma
explicação por meio de metáfora comparando a Igreja e seus membros
a um corpo com seus membros e suas funções, mostrando a diversi­
dade na unidade. Ao concluir o capítulo, ele retoma os dons sendo que
acrescenta uns dons até então não mencionados como "socorros,
governos" (v. 28b), omitindo alguns da lista (w . 8-10), como "palavra
da ciência, palavra da sabedoria, operação de maravilhas" etc e inclui
outros dons ministeriais: "apóstolos, profetas, doutores" (v. 28a).
2 1 0 1 0 Ministério Profético na Bíblia

Há dois tipos de construção gramatical em Efésios 4.11. A ex­


pressão: "pastores e doutores" ou "pastores e mestres" (versão A l­
meida Atualizada e Tradução Brasileira) é a mesma de 2.20 e 3.5,
pois o apóstolo Paulo usou o artigo definido grego, tous, apenas
antes do termo poim ena, "pastores", tous poimena kai didaskalous,
"pastores e mestres" com o sendo uma mesma função, pastores-
mestres. Porém, há os que separam essas funções, afirmando que a
tarefa do pastor é alimentar e proteger o rebanho e a do doutor ou
mestre, instruir a Igreja.
A outra construção gramatical para apóstolos, profetas e evange­
listas (4.11 a) é diferente, aqui são grupos distintos. A sucessão pro­
fética do Antigo Testamento se encerrou com João Batista (Mt 11.13;
Lc 16.16). O Novo Testamento não indica ninguém com o sucessor
dos apóstolos, contrário de tudo aquilo que ensina a Igreja Católica,
pois o colegiado dos doze que Jesus preparou (Lc 6.13) e mais o
apóstolo Paulo (1 Co 15.8-10) já se encerrou (Jd 17; Ap 21.14). Se
profeta pode ser quem profetiza, Paulo pode ser um deles, ele chama
a si mesmo de "pregador, e apóstolo, e doutor dos gentios" (1 Tm
2.7; 2 Tm 1.11). Já foi comentado acima o sentido do termo apóstolo
com o "enviado, embaixador" (2 Co 8.23; Fp 2.25). O N ovo Testamen­
to chama Barnabé e Tiago, irmão do Senhor, de apóstolo, sem,
contudo, serem eles membros do Colegiado (At 14.14; GI 1.19).

O DOM DE PROFECIA

A revelação canônica, ou seja, a palavra profética com autorida­


de divina é sui generís e está registrada na Bíblia Sagrada, a única
revelação escrita de Deus para toda a humanidade. Essa é a única
e singular fonte de autoridade para a fé e para a conduta cristã. Essa
é a revelação perfeita e absoluta, inerrante e infalível. O Senhor
continua a falar nela e por ela, pois "a palavra de Deus é viva e eficaz"
0 M in is té r io P ro fé tic o n o N o v o T estam e n to 1211

(Hb 4.12); "Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensi­
no, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça,
a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habili­
tado para toda boa obra" (2 Tm 3.16, 17). É a voz de Deus na Terra.
Essa é a fonte final de autoridade.
Deus proveu outros recursos de comunicação e por meio deles
entra em contato com os seres humanos, dentre eles o dom de pro­
fecia, com o manifestação momentânea do Espirito Santo na vida de
qualquer crente em Jesus. Segundo Wayne Grudem, em O Dom de
Profecia - Do Novo Testamento aos Nossos Dias, é "o uso de palavras
humanas para relatar o que Deus colocou na mente" (página 87). O
Novo Testamento deixa claro que seu objetivo é para "edificação,
exortação e consolação" (1 Co 14.3) e não é infalível: "E falem dois
ou três profetas, e os outros julguem' (1 Co 14.29). Esse tipo de julga­
mento não existe nos oráculos dos profetas do Antigo Testamento e
nem nas profecias dos apóstolos registradas nas Escrituras neotesta-
mentárias. Ninguém está autorizado a julgar a Palavra de Deus, pois
isso exigiria da tal pessoa um juízo crítico perfeito. Mas o dom de
profecia é diferente, ninguém está obrigado a obedecer a essa men­
sagem. Isso acontece porque é perfeitamente possível alguém se
exceder entregando algo a mais daquilo que o Espírito Santo mandou.
A chancela de autoridade divina, com o "assim diz o Senhor", era
muito comum no ministério profético do antigo Israel, não se aplica
aqui. Quando alguém profetiza usando essa expressão, ou dando
ordem para seu ouvinte, está demonstrando claramente que preten­
de manipular os irmãos, isso revela estar fora da direção de Deus.
Ágabo é um exem plo clássico do caráter impreciso do dom de
profecia. Ele aparece em duas ocasiões no livro de Atos, na primei­
ra, é contado com os profetas que vieram de Jerusalém: "Naqueles
dias, desceram profetas de Jerusalém para Antioquia. E, levantan­
do-se um deles, por nom e Ágabo, dava a entender, pelo Espírito,
2 1 2 I 0 Ministério Profético na Bíblia

que haveria uma grande fom e em todo o mundo, e isso aconteceu


no tempo de Cláudio César" (At 11.27, 28). Nada se sabe sobre a
atividade deles e nem o texto sagrado declara o que Ágabo profe­
tizou, mas que "dava a entender, pelo Espírito, que haveria uma
grande fom e em todo o mundo" e não comenta sobre a realidade
dessa carestia mundial, pois o foco da narrativa é a atitude gene­
rosa da igreja de Antioquia para socorrer os irmãos necessitados
de Jerusalém (vv. 29, 30). Por essa razão não temos muitas infor­
mações sobre o cumprimento da profecia. Cláudio governou Roma
de 41 a 54 d.C. Não há registro de uma fom e de ordem mundial,
mas os historiadores romanos Suetônio e Tácito afirmam que no
tempo desse imperador houve fom e em várias partes do mundo.
O historiador judeu, Flávio Josefo, fala de uma grande fom e na
Judeia em 46 d.C., certamente Ágabo se referia a ela e os irmãos
judeus necessitavam de ajuda.
Na segunda ocasião em que
ele aparece em Cesareia maríti­
ma, quando é chamado textual­
mente de profeta: "chegou da
Judeia um profeta, por nome
Ágabo" (At 21.10). O texto sa­
grado afirma: "e, vindo ter co­
nosco, tomou a cinta de Paulo
e, ligando-se os seus próprios
pés e mãos, disse: Isto diz o
Espírito Santo: Assim ligarão os
judeus, em Jerusalém, o varão
de quem é esta cinta e o entre-

Museu do Louvre -
Cláudio, imperador
romano 41 -5 4 d.C.
O M in is té r io P ro fé tic o n o N o v o T estam e n to 1213

Maquete do templo de Jerusalém, onde começou o tumulto que


terminou com a prisão do apóstolo Paulo.

garão nas mãos dos gentios" (v. 11). Há alguns pontos nessa profecia
dignos de nota. O apóstolo não obedeceu à palavra do profeta, o que
jamais aconteceria no contexto profético do Antigo Testamento.
Sua profecia se cumpriu em termos gerais, pois apesar de o após­
tolo Paulo ser preso em Jerusalém, os detalhes dessa prisão não
aconteceram com o Ágabo havia predito. Mais adiante o texto sagra­
do registra: "Então, aproximando-se o tribuno, o prendeu, e o mandou
atar com duas cadeias, e lhe perguntou quem era e o que tinha feito"
(v. 33). Isto é reafirmado em Atos 22.29: "e até o tribuno teve temor,
quando soube que era romano, visto que o tinha ligado". Outro pon­
to desse discurso é que Paulo não foi entregue "nas mãos dos gentios",
mas tomado das mãos dos judeus: "E, procurando eles matá-lo, che­
gou ao tribuno da coorte o aviso de que Jerusalém estava toda em
confusão [...] E sucedeu que, chegando às escadas, os soldados tive­
ram de lhe pegar por causa da violência da multidão" (w . 31, 35).
2 1 4 I 0 Ministério Profético na Bíblia

Cenáculo - local ondefo i celebrada a última ceia e também aconteceu


a descida do Espírito Santo no Dia de Pentecostes.

Tudo parece mostrar que Ágabo desconhecia a natureza do dom


que possuía e por isso teria tentado imitar de maneira inadequada
os antigos profetas do Antigo Testamento. Esse breve relato pode
mostrar o lado prático do ensino paulino sobre o dom de profecia:
"E falem dois ou três profetas, e os outros julguem [...] os espíritos
dos profetas estão sujeitos aos profetas" (1 Co 14.29, 32).
A linha evangélica tradicional se contenta apenas com a Bíblia e
não acredita que Deus continue falando com seus servos e servas
individualmente. São os cessacionistas, pois afirmam que os dons
e as manifestações do Espírito Santo cessaram com o fim da Era
Apostólica. Com cem anos de história do Movimento Pentecostal,
há ainda os não-pentecostais que não criticam, porém veem o tal
fenômeno com ceticismo, uns creem, porém, têm um conceito di­
ferente das manifestações das línguas, outros admitem ser algo
ocorrido apenas na era apostólica.
0 M in is té r io P ro fé tic o n o N o v o T estam e n to 1215

Por outro lado, os pentecostais creem que o Senhor fala realmen­


te pela sua Palavra e que a sua autoridade é singular e incomparável,
nenhuma revelação pode ser igualada à Bíblia Sagrada. Porém, as
Escrituras Sagradas ensinam a comunicação divina durante toda a
dispensação da Igreja por recursos não escriturísticos.

16 Mas isto é o que foi


dito pelo profeta Joel: 17 E
nos últimos dias acontece­
rá, diz Deus, que do meu
Espírito derramarei sobre
toda a carne; e os vossos
filhos e as vossas filhas
p ro fe tiz a rã o , os vo sso s
jovens terão visões, e os
vo ssos velh o s sonharão
sonhos; 18 e também do
meu Espírito derram arei
sobre os m eus servos e
minhas servas, naqueles
dias, e profetizarão; 19 e
farei aparecer p rod ígios
em cima no céu e sinais
em baixo na terra: sangue,
fogo e vapor de fumaça. 20
O sol se co n verterá em
trevas, e a lua, em sangue,
antes de chegar o grande
e glorioso Dia do Senhor;
21 e acontecerá que todo
aquele que invocar o nome
d o S e n h o r se rá s a lv o .
Estátua do apóstolo Pedro em
(At 2.16-21). Cafamaum, na Galileia.
2161 O Ministério Profético na Bíblia

A comunicação divina na antiga aliança era restrita a quem Deus


chamava para o ministério profético ou para uma missão específica
(Nm 12.6), mas uma mudança nesse sistema estava prevista e o
apóstolo Pedro lembra, no dia de Pentecostes, que o derramamento
do Espírito Santo juntamente com a manifestação dos dons espiri­
tuais eram promessa divina do Antigo Testamento anunciada por
meio do profeta Joel (v. 16). Trata-se de uma citação direta de Joel
2.28-32. Agora, começa o cumprimento dessa profecia de modo que
os recursos espirituais com o sonhos, visões e profecias estão dis­
poníveis a todos, independentemente de idade, sexo e status social.
A palavra profética afirma que essa bênção é para "toda a carne",
ou seja, todas as pessoas, em seguida, passa a enumerar: jovens e
velhos, servos e servas, e essa nova ordem vai até o fim, "antes de
chegar o grande e glorioso dia do Senhor" (v. 20). Não há, portanto,
indicação alguma, aqui e nem em outras partes da Bíblia, que tudo
isso findaria com os apóstolos. Os dons espirituais foram dados à
Igreja até a vinda de Jesus, quando vier o que é perfeito: "havendo
profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo
ciência, desaparecerá; porque, em parte, conhecemos e, em parte,
profetizamos. Mas, quando vier o que é perfeito, então, o que o é
em parte será aniquilado" (1 Co 13.8-10).
A História confirma a fidelidade de Deus, pois essas manifestações
acompanharam a Igreja ao longo dos séculos. Paul Tillich afirma em
sua obra História do Pensamento Cristão que "a hierarquia tradicional
triunfou contra o espírito profético. Com isso excluía-se, mais ou menos,
o espírito profético da igreja organizada, levando-o a se abrigar em
movimentos sectários" (p. 51). Segundo Tillich, os montanistas não
eram hereges, e lamenta o tratamento dispensado a eles no mesmo
parágrafo: "A igreja cristã excluiu o montanismo do seu seio. Contudo,
a vitória sobre o montanismo resultou em perda". Jessé Lyman Hurlbut,
em seu livro História da igreja Cristã considera o seguinte:
0 M in is té r io P ro fé tic o n o N o v o T estam e n to 12 1 7

Para form ar nossa opinião acerca deles, dependem os


exclu sivam ente daqueles que contra eles escreveram , e
todos sabem os que escreveram inspirados pelo interesse da
causa que defendiam ; não eram imparciais. Suponhamos,
por exem plo, que a denom inação metodista desaparecesse,
com todos os seus escritos; e que mil anos mais tarde, es­
tudiosos procurassem conhecer seus ensinos pesquisando
os livros e panfletos com batendo John Wesley, publicados
durante o século dezoito. Com o seriam erradas suas con ­
clusões, e, que versão distorcida do m etodism o apresenta­
riam! (p. 63).

O movimento foi fundado por Montano na segunda metade do


século II e passou para a História com o seita e suas doutrinas com o
heresias. Os montanistas eram puritanos e procuravam viver a sim­
plicidade dos primeiros cristãos, eram a favor do sacerdócio univer­
sal, criam no sacerdócio de todos os cristãos, e não no cargo do
ministério. Tertuliano, um dos mais respeitados Pais da Igreja, tor­
nou-se montanista, isso intriga pesquisadores desde a antiguidade.
De qualquer forma, essas coisas servem com o evidências históricas
da manifestação do Espírito Santo naqueles dias.
Ronald Kydd, em sua tese de doutorado na Universidade de St.
Andrews, na Escócia, intitulada Charismatic Gifts in the Early Chur-
ch (Dons Carismáticos na Igreja Primitiva), examinou diversos docu­
mentos da patrística e confirmou a manifestação dos dons espiri­
tuais nos três primeiros séculos da Era Cristã. W ayne Grudem
também com prova essa presença dos dons do Espírito Santo na
vida de alguns proeminentes líderes cristãos desde a era da reforma,
com o John Knox (1514-1572) e Charles Spurgeon (1834-1892).
O M ovimento da Rua Azuza, em Los Angeles, 1906 - 1910, é
considerado por seus críticos e historiadores com o o centro irradia­
dor, de onde o avivamento se espalhou para outras cidades, para
2 1 8 I 0 Ministério Profético na Bíblia

outros estados dos Estados Unidos e para outras nações. Ele trouxe
de volta a manifestação do Espírito de Deus de maneira generaliza­
da, cuja característica básica é o batismo no Espírito Santo, com
seus dons e manifestações, com o a glossolalia, as profecias, as curas
e as outras operações de maravilhas.
A teologia pentecostal é fundamentada nas Escrituras Sagradas,
é histórica e mantém o pensamento da teologia dos reformadores,
nas doutrinas cardeais da fé cristã. Com o surgimento de uma nova
geração interessada em aprofundar o assunto, estudos acadêmicos
relevantes sobre a pessoa e a obra do Espírito Santo começaram a
aparecer. Os pentecostais deixaram com o herança espiritual o uso
consciente da música e a aproximação de um Deus pessoal. A iden­
tificação com o Antigo Testamento é outra herança importante, por
isso que eles procuram ler a Bíblia, permitindo que as verdades
contidas nela se tornem reais em suas vidas, daí a importância das
experiências pessoais norteadas pelos ensinos bíblicos. Essas são
as contribuições dos pentecostais na construção do pensamento
teológico do século XX.
Jesus disse: "E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador,
para que fique convoscopara sempre'' (Jo 14.16). Ora, o Senhor Jesus
Cristo é o mesmo e sua Igreja, a mesma. Estamos ainda na mesma
dispensação — Dispensação da Graça. A História confirma a exten­
são dessa verdade. É, portanto, engano pensar que a manifestação
do Espírito esteve restrita apenas ao período apostólico. O livro de
Atos dos Apóstolos não terminou sua narrativa, o leitor pode obser­
var que ela foi cortada bruscamente, pois não apresenta o fim do
ministério do apóstolo Paulo. Isso revela que a jornada da Igreja
ainda não terminou. Essa Igreja, que começou ali a sua marcha,
continua ainda hoje sua jornada, com os mesmos sinais. Só em
Apocalipse é que encontramos o final glorioso da jornada da Igreja.
Assim, a voz de Deus continua na Terra.
Diante do exposto, é possível perceber que Deus escolheu os
profetas e os apóstolos para revelar-se a si mesmo a fim de que a
humanidade venha a conhecer a sua vontade. Por meio deles a co­
municação divina continua à disposição de todos os seres humanos,
em todos os lugares e em todas as épocas, com o disse o historiador
italiano Césare Cantu: "A Bíblia é o livro de todos os povos, de todas
as gentes e de todas as idades". A missão profética da Igreja consis­
te em levar o evangelho de Jesus Cristo a todos os povos.
Foi visto que a Bíblia revela desde Adão o interesse de Deus em
se comunicar com as suas criaturas racionais de maneira que pos­
samos entendê-lo. Ele usou várias formas para se comunicar com
os profetas de Israel e estes, com o povo, de modo que a mensagem
se tornasse compreensível. João Batista fechou com chave de ouro
o ministério profético do Antigo Testamento, vindo em seguida a
plenitude da revelação divina em Jesus Cristo. Os seus apóstolos
receberam os oráculos provenientes de Deus por meio do seu Espí­
rito Santo, sendo igualmente inspirados com o os profetas mensa­
geiros antecessores.
Os problemas com relação à prática do dom de profecia já existiam
nos dias apostólicos e permanecem na atualidade, mas não é motivo
para se desprezar essa manifestação do Espírito Santo. O apóstolo
Paulo que conviveu com esses problemas nunca deixou de incentivar
a busca do referido dom: "procurai com zelo os dons espirituais, mas
principalmente o de profetizar" (1 Co 14.1). Assim, jamais devemos
desprezar esse dom: "Não desprezeis as profecias" (1 Ts 5.20). Seja
2 2 0 1 O Ministério Profético na Bíblia

pela Bíblia ou pela pregação do evangelho, ou ainda pelo dom de


profecia ou de outros recursos espirituais divinamente concedidos à
Igreja, o certo é que a voz de Deus continua na Terra.
Os profetas da antiga aliança e os apóstolos de Jesus Cristo tive­
ram confrontos com falsos profetas e Israel e a Igreja precisaram
enfrentar os desafios dos místicos adivinhos, realidade existente
ainda hoje. Eles arruinam a vida de muita gente até hoje. Por causa
deles, muitos mudam o projeto de vida e os planos, outros se afas­
tam dos círculos familiares, de amigos e passam a ter ojeriza pela
Igreja, rejeitando os pontos fundamentais da fé cristã, com base nos
discursos falsos de seus líderes religiosos. Cada crente em Jesus deve
ser sóbrio e vigilante diante de uma avalanche de crenças e práticas
disseminadas pelos meios de comunicação. A sociedade parece
encarar isso com naturalidade. Não somente esses embusteiros
procuram desacreditar os profetas e os apóstolos, tanto na geração
deles com o nos séculos vindouros, mas também os críticos liberais,
intelectuais opositores da Verdade, se levantaram contra a Bíblia.
Todavia, eles veem e vão, "mas a palavra de nosso Deus subsiste
eternamente" (Is 40.8). A verdade divina permaneceu incólume e
inalterada, o reino das trevas não conseguiu corromper a revelação.
Deus inspirou homens imperfeitos, sujeito às mesmas paixões que
nós, para escreverem os oráculos divinos perfeitos.
O impacto político, social e religioso da palavra desses mensa­
geiros do Senhor impressiona o espírito humano até os dias atuais.
O discurso dos profetas e apóstolos não era apenas de caráter espi­
ritual, esses homens se destacaram também por sua batalha pela
justiça social e a defesa em favor dos miseráveis da Terra. Não foi
uma batalha vã, pois lutaram por uma causa nobre, ainda que não
foram ouvidos em sua geração, seus ideais atravessaram os séculos
e até hoje impressionam políticos, filósofos, intelectuais, religiosos.
Não existe legislação no mundo que não tenha a influência dessas
C o n c lu s ã o I 221

mensagens. Essas palavras atravessaram os séculos e continuam


vivas e eficazes, instruindo nações e a Igreja, edificando vidas e
transformando pecadores perdidos em cidadãos do reino de Deus.
O ponto central das profecias e das Escrituras Sagradas é o Se­
nhor Jesus Cristo. Ele é em si m esmo a conclusão e o fim do Antigo
Testamento a quem todos os livros sagrados se convergem . Diante
de tudo o que aqui foi exposto, fica mais claro que o sol do meio
dia, que Jesus é o centro da Bíblia, o que torna indestrutível a pro­
va consistente e robusta de que é impossível alguém manipular os
fatos para forçar o cumprimento das profecias bíblicas. A própria
História é também uma das evidências de sua origem divina tanto
quanto os oráculos dos profetas do Antigo Testamento. Temos,
portanto, nelas um guia seguro para a nossa vida nessa jornada
para o céu, até que Jesus venha. O cumprimento delas é tão certo
quanto a sucessão dos dias e das noites e, por isso, todos devem
esperar as fieis promessas de Deus feitas por meios dos apóstolos
e profetas. Esse exem plo nos mostra ainda que a autenticidade da
profecia bíblica significa que as profecias escatológicas igualmente
se cumprirão.
É de fundamental importância que os seres humanos também
se interessem pelo conhecimento da vontade de Deus. Por essa
razão devem os considerar "a palavra dos profetas, à qual bem fazeis
em estar atentos, com o a uma luz que alumia em lugar escuro, até
que o dia esclareça, e a estrela da alva apareça em vosso coração"
(2 Pe 1.19). A v o z de Deus na Terra era manifestada pelos profetas
do Antigo Testamento e Israel o seu receptáculo, já no N ovo Testa­
mento é por m eio dos apóstolos. Hoje, a Igreja é a plataforma do
Senhor Jesus e a missão profética dela é anunciar as boas novas de
salvação a toda a criatura inteligente.
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O MINISTÉRIO
PROFÉTICO N A BÍBLIA

O principal aspecto negativo do mundo pós-moderno é a perda da fé


na ciência, nos progressos e em Deus; é a morte dos principais ideais com
os quais se constrói uma sociedade. Em O Ministério Profético na Bíblia, o
pastor Esequias Soares apresenta uma resposta ao sistema pós-moderno e
a todos que procuram excluir Deus de suas vidas e negar a origem divina
das Escrituras Sagradas.
Trata-se de uma coleção de 10 estudos bíblicos acerca do ministério
profético no Antigo e Novo Testamentos; a natureza da atividade profética;
profecia e misticismo; vida e ministério de João Batista, o último profeta
veterotestamentário, e sua importância no cristianismo; o cumprimento
profético do Antigo Testamento — Jesus Cristo; dentre outras questões.
Seu objetivo é mostrar que ninguém no universo tem mais interesse no
bem-estar dos seres humanos do que o próprio Criador, que escolheu os
profetas e os apóstolos para revelar-se a fim de que a humanidade viesse a
conhecer sua vontade.

ESEQUIAS SOARES
Líder da AD em Jundiaí-SP, graduado em Letras (Hebraico) pela Universi­
dade de São Paulo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Pres­
biteriana Mackenzie, professor de Hebraico, Grego e Apologia Cristã, bem
como comentarista de Lições Bíblicas e autor de diversos livros, entre eles
Visão Panorâmica do Antigo Testamento, Heresias e Modismos, Comentário
Bíblico de Oséias, e coautor de Teologia Sistemática Pentecostal, editados
pela CPAD. Também é presidente da Comissão de Apologética Cristã da
CGADB.

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