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Caro aluno

Ao elaborar o seu material inovador, completo e moderno, o Hexag considerou como principal diferencial sua exclusiva metodologia em pe-
ríodo integral, com aulas e Estudo Orientado (E.O.), e seu plantão de dúvidas personalizado. O material didático é composto por 6 cadernos
de aula e 107 livros, totalizando uma coleção com 113 exemplares. O conteúdo dos livros é organizado por aulas temáticas. Cada assunto
contém uma rica teoria que contempla, de forma objetiva e transversal, as reais necessidades dos alunos, dispensando qualquer tipo de
material alternativo complementar. Para melhorar a aprendizagem, as aulas possuem seções específicas com determinadas finalidades. A
seguir, apresentamos cada seção:

incidência do tema nas principais provas vivenciando

De forma simples, resumida e dinâmica, essa seção foi desenvol- Um dos grandes problemas do conhecimento acadêmico é o seu
vida para sinalizar os assuntos mais abordados no Enem e nos distanciamento da realidade cotidiana, o que dificulta a compreensão
principais vestibulares voltados para o curso de Medicina em todo de determinados conceitos e impede o aprofundamento nos temas
o território nacional. para além da superficial memorização de fórmulas ou regras. Para
evitar bloqueios na aprendizagem dos conteúdos, foi desenvolvida
a seção “Vivenciando“. Como o próprio nome já aponta, há uma
preocupação em levar aos nossos alunos a clareza das relações entre
aquilo que eles aprendem e aquilo com que eles têm contato em
teoria seu dia a dia.

Todo o desenvolvimento dos conteúdos teóricos de cada coleção


tem como principal objetivo apoiar o aluno na resolução das ques-
tões propostas. Os textos dos livros são de fácil compreensão, com-
pletos e organizados. Além disso, contam com imagens ilustrativas aplicação do conteúdo
que complementam as explicações dadas em sala de aula. Qua-
dros, mapas e organogramas, em cores nítidas, também são usados Essa seção foi desenvolvida com foco nas disciplinas que fazem
e compõem um conjunto abrangente de informações para o aluno parte das Ciências da Natureza e da Matemática. Nos compilados,
que vai se dedicar à rotina intensa de estudos. deparamos-nos com modelos de exercícios resolvidos e comenta-
dos, fazendo com que aquilo que pareça abstrato e de difícil com-
preensão torne-se mais acessível e de bom entendimento aos olhos
do aluno. Por meio dessas resoluções, é possível rever, a qualquer
momento, as explicações dadas em sala de aula.
multimídia
No decorrer das teorias apresentadas, oferecemos uma cuidadosa
seleção de conteúdos multimídia para complementar o repertório
do aluno, apresentada em boxes para facilitar a compreensão, com áreas de conhecimento do Enem
indicação de vídeos, sites, filmes, músicas, livros, etc. Tudo isso é en-
contrado em subcategorias que facilitam o aprofundamento nos Sabendo que o Enem tem o objetivo de avaliar o desempenho ao
temas estudados – há obras de arte, poemas, imagens, artigos e até fim da escolaridade básica, organizamos essa seção para que o
sugestões de aplicativos que facilitam os estudos, com conteúdos aluno conheça as diversas habilidades e competências abordadas
essenciais para ampliar as habilidades de análise e reflexão crítica, na prova. Os livros da “Coleção Vestibulares de Medicina” contêm,
em uma seleção realizada com finos critérios para apurar ainda mais a cada aula, algumas dessas habilidades. No compilado “Áreas de
o conhecimento do nosso aluno. Conhecimento do Enem” há modelos de exercícios que não são
apenas resolvidos, mas também analisados de maneira expositiva
e descritos passo a passo à luz das habilidades estudadas no dia.
Esse recurso constrói para o estudante um roteiro para ajudá-lo a
apurar as questões na prática, a identificá-las na prova e a resolvê-
conexão entre disciplinas -las com tranquilidade.

Atento às constantes mudanças dos grandes vestibulares, é ela-


borada, a cada aula e sempre que possível, uma seção que trata
de interdisciplinaridade. As questões dos vestibulares atuais não
exigem mais dos candidatos apenas o puro conhecimento dos diagrama de ideias
conteúdos de cada área, de cada disciplina.
Cada pessoa tem sua própria forma de aprendizado. Por isso, cria-
Atualmente há muitas perguntas interdisciplinares que abrangem
mos para os nossos alunos o máximo de recursos para orientá-los
conteúdos de diferentes áreas em uma mesma questão, como Bio-
em suas trajetórias. Um deles é o ”Diagrama de Ideias”, para aque-
logia e Química, História e Geografia, Biologia e Matemática, entre
les que aprendem visualmente os conteúdos e processos por meio
outras. Nesse espaço, o aluno inicia o contato com essa realidade
de esquemas cognitivos, mapas mentais e fluxogramas.
por meio de explicações que relacionam a aula do dia com aulas
de outras disciplinas e conteúdos de outros livros, sempre utilizan- Além disso, esse compilado é um resumo de todo o conteúdo
do temas da atualidade. Assim, o aluno consegue entender que da aula. Por meio dele, pode-se fazer uma rápida consulta aos
cada disciplina não existe de forma isolada, mas faz parte de uma principais conteúdos ensinados no dia, o que facilita a organiza-
grande engrenagem no mundo em que ele vive. ção dos estudos e até a resolução dos exercícios.

Herlan Fellini
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Direitos desta edição: Hexag Sistema de Ensino, São Paulo, 2020
Todos os direitos reservados.

Autores
Alessandra Alves
Vinicius Gruppo Hilário

Diretor-geral
Herlan Fellini

Diretor editorial
Pedro Tadeu Vader Batista

Coordenador-geral
Raphael de Souza Motta

Responsabilidade editorial, programação visual, revisão e pesquisa iconográfica


Hexag Sistema de Ensino

Editoração eletrônica
Arthur Tahan Miguel Torres
Matheus Franco da Silveira
Raphael de Souza Motta
Raphael Campos Silva

Projeto gráfico e capa


Raphael Campos Silva

Imagens
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Shutterstock (https://www.shutterstock.com)

ISBN: 978-65-88825-00-6

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o ensino. Caso exista algum texto a respeito do qual seja necessária a inclusão de informação adicional, ficamos à dis-
posição para o contato pertinente. Do mesmo modo, fizemos todos os esforços para identificar e localizar os titulares dos
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SUMÁRIO
GEOGRAFIA
HIDROGRAFIA, DOMÍNIOS MORFOCLIMÁTICOS E PROBLEMAS
AMBIENTAIS
Aulas 9 e 10: Dinâmicas climáticas 6
Aulas 11 e 12: Climas do Brasil 19
Aulas 13 e 14: Hidrologia e bacias hidrográficas 35
Aulas 15 e 16: Domínios morfoclimáticos I 66

PROBLEMAS AMBIENTAIS E BIOMAS DO MUNDO


Aulas 9 e 10: Solos 82
Aulas 11 e 12: Problemas ambientais mundiais 93
Aulas 13 e 14: Grandes biomas do mundo 101
Aulas 15 e 16: Classificações do relevo 114
Competência 1 – Compreender os elementos culturais que constituem as identidades.
H1 Interpretar historicamente e/ou geograficamente fontes documentais acerca de aspectos da cultura.
H2 Analisar a produção da memória pelas sociedades humanas.
H3 Associar as manifestações culturais do presente aos seus processos históricos
H4 Comparar pontos de vista expressos em diferentes fontes sobre determinado aspecto da cultura.
H5 Identificar as manifestações ou representações da diversidade do patrimônio cultural e artístico em diferentes sociedades.
Competência 2 – Compreender as transformações dos espaços geográficos como produto das relações socioeconômicas e culturais de
poder.
H6 Interpretar diferentes representações gráficas e cartográficas dos espaços geográficos.
H7 Identificar os significados histórico-geográficos das relações de poder entre as nações.
Analisar a ação dos estados nacionais no que se refere à dinâmica dos fluxos populacionais e no enfrentamento de problemas de ordem econômi-
H8
co-social.
H9 Comparar o significado histórico-geográfico das organizações políticas e socioeconômicas em escala local, regional ou mundial
Reconhecer a dinâmica da organização dos movimentos sociais e a importância da participação da coletividade na transformação da realidade
H10
histórico-geográfica.
Competência 3 – Compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais, políticas e econômicas, associando-as aos difer-
entes grupos, conflitos e movimentos sociais.
H11 Identificar registros de práticas de grupos sociais no tempo e no espaço.
H12 Analisar o papel da justiça como instituição na organização das sociedades.
H13 Analisar a atuação dos movimentos sociais que contribuíram para mudanças ou rupturas em processos de disputa pelo poder.
Comparar diferentes pontos de vista, presentes em textos analíticos e interpretativos, sobre situação ou fatos de natureza histórico-geográfica acerca
H14
das instituições sociais, políticas e econômicas.
H15 Avaliar criticamente conflitos culturais, sociais, políticos, econômicos ou ambientais ao longo da história.
Competência 4 – Entender as transformações técnicas e tecnológicas e seu impacto nos processos de produção, no desenvolvimento do
conhecimento e na vida social.
H16 Identificar registros sobre o papel das técnicas e tecnologias na organização do trabalho e/ou da vida social.
H17 Analisar fatores que explicam o impacto das novas tecnologias no processo de territorialização da produção.
H18 Analisar diferentes processos de produção ou circulação de riquezas e suas implicações sócio-espaciais.
H19 Reconhecer as transformações técnicas e tecnológicas que determinam as várias formas de uso e apropriação dos espaços rural e urbano.
H20 Selecionar argumentos favoráveis ou contrários às modificações impostas pelas novas tecnologias à vida social e ao mundo do trabalho.
Competência 5 – Utilizar os conhecimentos históricos para compreender e valorizar os fundamentos da cidadania e da democracia,
favorecendo uma atuação consciente do indivíduo na sociedade.
H21 Identificar o papel dos meios de comunicação na construção da vida social.
H22 Analisar as lutas sociais e conquistas obtidas no que se refere às mudanças nas legislações ou nas políticas públicas.
H23 Analisar a importância dos valores éticos na estruturação política das sociedades.
H24 Relacionar cidadania e democracia na organização das sociedades.
H25 Identificar estratégias que promovam formas de inclusão social.
Competência 6 – Compreender a sociedade e a natureza, reconhecendo suas interações no espaço em diferentes contextos históricos e
geográficos.
H26 Identificar em fontes diversas o processo de ocupação dos meios físicos e as relações da vida humana com a paisagem.
H27 Analisar de maneira crítica as interações da sociedade com o meio físico, levando em consideração aspectos históricos e (ou) geográficos.
H28 Relacionar o uso das tecnologias com os impactos sócio-ambientais em diferentes contextos histórico-geográficos.
H29 Reconhecer a função dos recursos naturais na produção do espaço geográfico, relacionando-os com as mudanças provocadas pelas ações humanas.
H30 Avaliar as relações entre preservação e degradação da vida no planeta nas diferentes escalas.
Hidrografia, domínios morfoclimáticos e problemas
ambientais: Incidência do tema nas principais provas

As avaliações do Enem buscam sempre colo- No último vestibular da FUVEST, climatologia


car o aluno diante de questões interdiscipli- e domínios morfoclimáticas ganharam
nares e, às vezes, multidisciplinares, inclusive destaque. São temas recorrentes e devem ser
abordando todos os temas deste caderno. estudados com afinco.

Questões sobre domínios morfoclimáticos Esse vestibular não apresenta em seu edital Identificar os conceitos básicos dos temas
costumam aparecer com bastante frequência. mais recente e nem exigiu nas provas dos abordados neste caderno e analisá-los com
Estudar esse tema, suas características, prin- últimos vestibulares questões relacionadas à ênfase nos aspectos socioespaciais.
cipalmente com o auxilio de mapas, ocasiona disciplina de Geografia.
sempre sucesso no acerto.

O tema domínios morfoclimáticos aparece Os temas dessa frente não apresentam sur- Prova bem objetiva que também aborda temas A prova de Geografia da Santa Casa pede
com frequência nessa prova, sendo abordao presas nesse vestibular, que aborda conceitos físicos relacionados aos aspectos socioespaciais. conteúdos bem específicos, ou seja, os
de várias formas: com mapas, imagens e básicos contidos neste caderno. detalhes e as particularidades do clima e dos
gráficos. Isso significa que o vestibulando não biomas são bem relevantes.
pode deixar de estudar com muita atenção
esse tema.

UFMG

Via de regra, geografia física sempre aparece Colocamos esta dica no livro anterior: clima é Esse vestibular não apresenta em seu edital
a partir de questões regionais. um assunto certeiro nesse vestibular. Estude mais recente e nem exigiu nas provas dos
os conceitos e as características do clima e últimos vestibulares questões relacionadas à
dos biomas do Paraná. disciplina de Geografia.

Nas provas, aparecem muitos recursos como Tradicional, utiliza como base mapas, gráficos Costuma ser uma prova bem tranquila.
mapas, gráficos e tabelas. É outro vestibular e tabelas Os temas mais pedidos deste caderno são
que relaciona esses temas com a sociedade e domínios morfoclimáticos e pontos básicos de
a economia. climatologia.
AULAS Dinâmicas climáticas
9 e 10
Competência: 6 Habilidade: 30

1. Atmosfera § Dióxido de carbono: por ser um eficiente absorve-


dor de energia radiante (de onda longa) emitida pela
A atmosfera é uma camada relativamente fina de gases e Terra, ele influencia o fluxo de energia através da at-
material particulado (aerossóis) que envolve a Terra. Cer- mosfera, fazendo com que a baixa atmosfera retenha
ca de 97% da massa total da atmosfera concentra-se nos calor, tornando a Terra propicia à vida.
primeiros 302 km, contados a partir da superfície terrestre. § Vapor d’água: é um dos mais variáveis gases na
Essa camada é essencial para a vida e o funcionamento atmosfera e também tem pequena participação
ordenado dos processos físicos e biológicos sobre a Terra. A relativa. Nos trópicos úmidos e quentes constitui
atmosfera protege os organismos da exposição a níveis ar- aproximadamente 4% do volume da baixa atmos-
riscados de radiação ultravioleta, contém gases necessários fera, enquanto sobre os desertos e regiões polares
para os processos vitais de respiração celular e fotossíntese chega não mais que 1%, entretanto, sem ele não há
e fornece a água necessária para a vida. nuvens, chuva ou neve, além de ter grande partici-
pação na absorção da energia emitida pela Terra e
1.1. A composição da atmosfera também da energia solar.
A composição do ar não é constante nem no tempo, nem § Ozônio: é a forma triatômica do oxigênio (O3) e sua
no espaço. Contudo, se removêssemos as partículas sus- distribuição varia com a latitude, estação do ano,
pensas, vapor d’água e certos gases variáveis, presentes horário e padrões de tempo, podendo estar ligado a
em pequenas quantidades, encontraríamos uma com- erupções vulcânicas e atividade solar. A presença de
posição muito estável sobre a Terra, até uma altitude de ozônio é de vital devido a sua capacidade de absorver
aproximadamente 80 km. a radiação ultravioleta do sol na reação de fotodisso-
ciação (O3 hv = O2 + O ), onde o átomo livre recombi-
Dióxido de carbono, argônio, vapor
1% de água e gases raros na-se outra vez para formar outra molécula de ozônio,
Oxigênio liberando calor. Na ausência da camada de ozônio a
21% radiação ultravioleta seria letal para a vida. Desde os
anos de 1970, tem havido contínua preocupação de
que uma redução na camada de ozônio na atmos-
fera pode estar ocorrendo por interferência antrópica.
Acredita-se que o maior impacto é causado por um
grupo de produtos químicos conhecido por clorofluo-
Nitrogênio
rcarbonos (CFC). Os CFC são usados como propelentes
78% em sprays aerossóis, na produção de certos plásticos e
em equipamentos de refrigeração e condicionamento
O nitrogênio e o oxigênio ocupam 99% do volume de ar de ar. Como os CFC são praticamente inertes (não qui-
seco e limpo. A maior parte do 1% restante é ocupado pelo micamente ativos) na baixa atmosfera, uma parte deles
gás inerte argônio. Embora estes elementos sejam abundan- eventualmente atinge a camada de ozônio, onde a ra-
tes, têm pouca influência sobre os fenômenos do tempo. A diação solar os separa em seus átomos formadores. Os
importância de um gás ou aerossol atmosférico não está rel- átomos de cloro quando são liberados através de uma
acionada à sua abundância relativa. Por exemplo, o dióxido série de reações acabam convertendo parte do ozônio
de carbono, o vapor d’água, o ozônio e os aerossóis ocorrem em oxigênio. A redução do ozônio aumenta o número
em pequenas concentrações, mas são importantes para os de casos de certos tipos de câncer de pele, além de
fenômenos meteorológicos e para a vida. afetar também colheitas e ecossistemas.

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§ Mesosfera: situada entre 50 e 80 km de altitude, é
Aerossóis nessa camada que a temperatura novamente decre-
sce em função da altitude. A temperatura pode atingir
Ao contrário do que muitos pensam, aerossóis não 95 °C negativos, no limite superior. Esse é o ponto
são substâncias gasosas. São partículas sólidas ou mais frio da atmosfera.
líquidas que se encontram suspensas em um meio
gasoso (geralmente o ar).
§ Termosfera: está situada entre 80 e 400 km de alti-
tude. É composta por camadas sucessivas de partículas
Alguns aerossóis líquidos agem como núcleos de con- chamadas íons, responsáveis por refletirem os sinais
densação para o vapor d’água e são importantes para de rádio ao redor do nosso planeta. Por esse motivo
a formação de nevoeiros, nuvens e chuva. Outros po- essa camada também é conhecida como ionosfera.
dem absorver ou refletir a radiação solar, influencian- Da mesma forma que na estratosfera, as temperaturas
do a temperatura. Assim, quando ocorrem erupções nessa camada também aumentam conforme a altitude.
vulcânicas com expressiva liberação de poeira, a ra- Na ionosfera ocorre também o fenômeno das auroras.
diação solar que atinge a superfície da Terra pode ser Quando este fenômeno ocorre em regiões próximas
sensivelmente alterada. Dentre os aerossóis sólidos, ao polo Norte é chamado de aurora boreal e quando
podemos citar a fumaça e a poeira, sendo que a poei- aconteceu no polo Sul é chamado de aurora austral.
ra contribui para um fenômeno ótico que são as várias Estes fenômenos são mais comuns entre os meses de
tonalidades de vermelho e laranja no nascer e pôr do fevereiro, março, abril, setembro e outubro. A aurora
sol. Assim, podemos dizer que este material pode boreal pode aparecer em vários formatos: pontos lumi-
nosos, faixas no sentido horizontal ou circulares. Porém,
ser de origem natural ou produzido a partir das ativi-
aparecem sempre alinhados ao campo magnético ter-
dades humanas.
restre. As cores podem variar muito como, por exemplo,
As emissões antropogênicas de aerossóis atmosféricos vermelha, laranja, azul, verde e amarela. Muitas vezes
têm aumentado significativamente causando vários aparecem em várias cores ao mesmo tempo. Em mo-
impactos ambientais, que incluem efeitos adversos à mentos de tempestades solares, a Terra é atingida por
saúde humana, como problemas de visão por exemplo. grande quantidade de ventos solares. Nestes momen-
tos as auroras são mais comuns. Embora esse show
de luzes seja um fenômeno fantástico para observação,
1.2. Estrutura vertical da atmosfera os ventos solares interferem em meios de comunicação
(sinais de televisão, radares, telefonia, satélites) e siste-
Por conveniência de estudo a atmosfera é usualmente mas eletrônicos diversos.
subdividida em camadas concêntricas de acordo com o
perfil vertical médio de temperatura. Observe a figura e 1.3. Circulação geral da atmosfera
veja as características de cada subdivisão.
A circulação do ar na escala global é composta de um
§ Troposfera: é a camada inferior da atmos- complexo conjunto de sistemas de ventos e pressão. Para
fera e se estende a uma altitude média de 12 km entender melhor é conveniente utilizarmos um modelo
(≈ 20 km no equador e ≈ 8 km nos polos). A tropos- idealizado da Terra.
fera é o principal domínio de estudo dos meteorologis-
Vamos considerar inicialmente que a Terra está parada
tas, pois é nesta camada que ocorrem essencialmente
(sem rotação), e que a superfície é toda homogênea. A
todos os fenômenos que em conjunto caracterizam o
energia solar, por unidade de área, absorvida na região
tempo. Esses fenômenos só são possíveis pois é nes-
equatorial é maior do que a absorvida nas regiões polares.
sa camada que está a quase totalidade de vapores de
O ar equatorial, em contato com superfície irá então se
água que envolvem o planeta. Nessa camada a tem-
aquecer mais nessa região do que nos polos. O ar equa-
peratura diminui conforme a altitude aumente, ou seja,
torial torna-se mais “leve” e portanto sobe, enquanto o
a cada 180 metros de altura há diminuição de 1 °C.
ar das regiões polares, mas frio e pesado, desce. Por uma
§ Estratosfera: estende-se até aproximadamente 50 questão de continuidade de massa, estabelece-se então
km. Nos primeiros 20 km a temperatura permanece uma “célula de circulação”: o ar na superfície, que vem
constante e depois vai aumentando até o topo da ca- dos polos, sobe para os altos níveis no equador, retorna
mada. Temperaturas mais altas ocorrem na estratosfera aos polos em altos níveis, e desce nessas regiões, fechan-
porque é nesta camada que o ozônio está concentrado, do assim a circulação da célula. Essa circulação deve-se
pois esse gás tem a propriedade de absorver radiação ao gradiente de pressão entre os polos e o equador, num
ultravioleta do Sol. mecanismo semelhante ao da brisa.

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Vamos agora permitir que a Terra adquira um movimento Analisando essa atmosfera descrita numa seção vertical,
de rotação. Pelo efeito da força de Coriolis, os ventos em observamos o aparecimento de três pares de células de
superfície, que sopravam de norte no Hemisfério Norte irão circulação, na escala global:
se transformar agora em ventos de nordeste, enquanto que
§ Célula de Hadley (entre 0° e 30°);
no Hemisfério Sul, que vinham de sul, irão se transformar em
ventos de sudeste. Circulações no sentido inverso (sudoeste § Célula de Ferrel (entre 30° e 60°); e
no Hemisfério Norte e noroeste no Hemisfério Sul) deverão
§ Célula Polar (entre 60° e 90°).
ocorrer nos níveis superiores de nossa Terra hipotética.
Célula polar

Por outro lado, neste ponto, os ventos em superfície tem Alta polar

Célula de Ferrel
um direção oposta à da rotação da Terra. Pelo efeito da 60º Frente polar

força de fricção, seria de se esperar que esse atrito fosse


Baixa subpolar

“diminuindo” a velocidade de rotação da Terra com o tem- Célula


de
Hadley
Ventos contra alísios

po. Mas a velocidade de rotação da Terra é constante, ou


A
seja, não se observa essa diminuição. Para satisfazer esse Alta
subtropical
A

fato, houvesse a anulação dessa força de atrito, existindo


Zona de
Ventos alísios
convergencial
Baixa 0º Intertropical

assim ventos de oeste que se anulariam a força de atrito


Equatorial (ZCTT)

B
B
dos ventos de leste. Os ventos na superfície serão: B

§ de nordeste, entre cerca de 30°N e o equador, e de sudeste 30º


A
entre 30°S (os quais existem e chamam-se “ventos alíseos”); Alta
subtropical
A

§ de sudoeste entre 30°N e 60°N, e no noroeste entre 30°S 60º

e 60°S (os quais existem e chamam-se “ventos de oeste”);


§ de noroeste entre 60°N e 90°N, e de sudeste entre 2. Fenômenos meteorológicos
60°S e 90°S (os quais existem e chamam-se “ven- devastadores
tos polares”).
2.1. Tornados
O tornado é um fenômeno que se forma a partir de uma
nuvem de tempestade, o chamado Cumulonimbus. O tor-
nado aparece primeiramente a partir da base da nuvem ex-
pandindo-se até o chão. O movimento em rotação se dá do
encontro de fortes correntes de ar em direções opostas que
acontecem dentro da nuvem Cumulonimbus. Quanto mais
intensas as correntes de ar ascendentes e descendentes
dentro da nuvem, maior será a possibilidade de formar-se
um rodamoinho que evolui para o tornado e que aparece
multimídia: música como uma protuberância na base da nuvem. Nos casos mais
Fonte: Youtube intensos, o tornado tem condições de se desgarrar do Cumu-
- Chove chuva – Jorge Ben Jor lonimbus e seguir um caminho próprio que pode se estender
por quilômetros. Nesse caminho, a ventania vai levantando
Como a convergência e divergência dos ventos na superfí-
objetos, arrancando árvores e telhados, destruindo a vege-
cie estão ligados à regiões de baixa e alta pressão, respec-
tação. O centro do tornado tem pressão baixa, o que atrai o
tivamente, é de se esperar uma faixa de baixa pressão na
ar, enquanto a rotação define a força centrífuga que afasta o
região equatorial e em latitudes médias (≈60°), e faixas de
ar para fora da rotação. Com o equilíbrio dessas duas forças
alta pressão em latitudes subtropicais (≈30°) e polares. A
região de convergência dos alíseos na região equatorial é o movimento de rotação continuaria indefinidamente. Entre-
chamada Zona de Convergência Intertropical (ZCIT). tanto, o atrito com o chão e com os inúmeros obstáculos que
As regiões de alta pressão (30°N e 30°S), chamada “latitude o funil encontra no caminho, acaba promovendo uma de-
dos cavalos”, possuem ventos calmos. As regiões de baixa saceleração do tornado até sua dissipação. Quando ocorrem
pressão (60°N e 60°S), são locais onde ocorre o encontro sobre o mar ou sobre grandes corpos d’água, os tornados
de massas de ar quente e úmido proveniente das regiões podem ser vistos como uma coluna de água que se estende
subtropicais, com o ar frio e seco das regiões polares, o que desde a base da nuvem até a superfície da água e, por isso,
forma as conhecidas frentes frias e quentes e ciclones. recebem o nome de tromba d’água.

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A maioria dos tornados são escuros devido à poeira e de-
tritos arrancados do solo, pois o redemoinho atua como
um enorme aspirador de pó. A velocidade dos ventos de
um tornado pode superar os 200 km por hora.
Devido às suas pequenas dimensões e por estarem embaixo
de um grande Cumulonimbus, esses fenômenos não são vis-
tos por satélite, sendo que, radares meteorológicos detectam
fenômenos de escala maior que um quilômetro e identifi-
cam apenas assinaturas que podem indicar a presença de
um tornado. Testemunhos pessoais são fontes importante
de informações, principalmente quando acompanhados
de vídeos ou fotografias. Lugares com baixa concentração
Formação de uma tromba d’água populacional têm baixos valores de ocorrência de tornados,
muitas vezes por falta de testemunhos. Contudo, regiões
com grande concentração populacional e onde há recursos
Vamos entender melhor abundantes para registro e cobertura pela mídia, aparentam
ter um maior número de ocorrências. Isso também justifica
2 em parte a percepção popular de que tornados são mais fre-
quentes hoje do que antigamente.

2.1.1. Tornados no Brasil?


3 4 As regiões Sul e Sudeste do Brasil estão na segunda área de
maior probabilidade de ocorrência de tornados no mundo,
perdendo apenas para o Meio-Oeste dos Estados Unidos.
5
O chamado “corredor de tornados” no Brasil compreende
Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo,
Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. Existe controvérsia so-
bre qual estado brasileiro registrou mais tornados. Estudos
apontam que São Paulo, Rio Grande do Sul e Santa Cata-
1. Encontro de massas de ar frio (de origem polar) e rina são os mais afetados. A região que inclui as cidades
quente fazem, com que a massa quente, mais leve, de Campinas, Itupeva e Jundiaí seria a mais afetada pelo
suba formando o mesociclone. A subida de ar quen- fenômeno, já que está inserida em uma área de depressão
te é compensada pela descida de ar frio e pesado. O periférica, mais plana e mais branda, favorecendo o deslo-
mecanismo lembra um enorme saca-rolha num mo- camento de fluxo de ar.
vimento externo ascendente e interno descendente.
As condições climáticas são propícias para a ocorrência do
2. Caracteriza-se por ter o topo mais gelado do que a
fenômeno, pois são áreas onde o choque de massas de ar
base. A diferença de temperatura provoca ventos mui-
frio e seco vindas da Patagônia e massas de ar quente e
to fortes no interior.
úmido formadas na Amazônia resulta em grandes nuvens
3. O ar frio e pesado que desce e o ar quente que sobe de tempestades. Além disso, a topografia plana dessas re-
formando o cone do tornado deslocam-se em função giões também contribuem para a ocorrência do fenômeno.
da dinâmica interna do fenômeno e também pela to-
A formação de tornados no Brasil só foi aceita pela co-
pografia da região em que se manifesta. Essa situação
munidade científica recentemente. Antes, os tornados eram
forma minifrentes frias.
classificados como tempestades ou vendavais.
4. Ela deu origem a um tornado. Uma rajada de vento
escapou da nuvem e atingiu o solo com grande velo- 2.1.2. Furacão, tufão e ciclone
cidade.
Furacões e tufões são o mesmo fenômeno meteorológico:
5. O ar quente no interior do tornado tem uma ten- ciclones tropicais. Os cientistas chamam essas tempestades
dência natural de levantar e criar uma forte corrente de nomes diferentes, dependendo de onde elas ocorrem.
para cima, enquanto o frio desce. No Atlântico e norte do Pacífico, as tempestades são cha-
mados de “furacões“, hurricane em inglês, por causa do

9
deus caribenho do mal, chamado Hurrican. No noroeste do Escala de furacões de Saffir-Simpson
Pacífico, as mesmas tempestades poderosas são chamadas Velocidade
Categoria Efeitos
de “tufões“. No sudeste do oceano Índico e no sudoeste do vento
do Pacífico, elas são chamadas de “ciclones tropicais se- Ressaca de 1,2 a 1,5 metros
veros“. No norte do oceano Índico, elas são chamados de acima do normal; algumas
F1 119 e 153 km/h
inundações; pouco ou
“tempestades ciclônicas severas“. No sudoeste do oceano nenhum dano estrutural
Índico, elas são apenas “ciclones tropicais“. Ressaca de 1,8 a 2,4 metros
F2 155 a 177 km/h acima do normal; queda de
árvores; danos a telhados
Ressaca de 2,7 a 3,7
metros acima do normal;
F3 178 a 209 km/h danos estruturais em casas;
habitações sem alicerces
destruídas; inundações severa
Ressaca de 4 a 5,5 metros
acima do normal; inundações
F4 210 a 248 km/h
severas no interior; grandes
danos estruturais
Ressaca de pelo menos 5,5
metros acima do normal;
acima de algumas inundações severas;
F5
multimídia: vídeo 249 km/h adentrando o interior;
sérios danos à maioria das
estruturas de madeira
Fonte: Youtube
Documentário When the Le-
vees Broke: A Requiem in...
2.2. El Niño
De tempos em tempos, as águas equatoriais do Pacífico
A Requiem in Four Acts (Quando os aquecem de maneira anormal, resultando no aparecimen-
Diques Rompem / Um Réquiem em Quatro to do fenômeno El Niño, que altera profundamente o clima
Atos) do cineasta americano Spike Lee. O em escala planetária. Esse aquecimento manifesta-se nos
trabalho é uma homenagem humana e meses de setembro/outubro. Em dezembro, essa porção de
histórica à cidade de Nova Orleans, que água oceânica aquecida chega à costa peruana. Pelo fato
sofreu com o furacão Katryna, e ao mesmo de esse fenômeno ocorrer na costa da América do Sul na
tempo mostra o protesto contra o governo época do Natal, recebeu o nome de Menino Jesus, El Niño.
do presidente George W. Bush e as feridas
sociais deixadas pelo desastre natural. Para os pescadores peruanos, sua ocorrência é um grande
problema, pois o aquecimento das águas não permite que
haja ressurgência e, consequentemente, diminui a pisco-
sidade na corrente de Humboldt que margeia a costa do
Para ser classificado como furacão, tufão ou ciclone, uma Chile e do Peru.
tempestade deve atingir velocidades de vento de pelo
O El Niño é responsável por alterações climáticas em várias
menos 119 km/h. São aglomerados de tempestades que
partes do mundo. Apesar disso, as causas que levam ao
têm origem em oceanos onde a temperatura superficial seu aparecimento ainda são desconhecidas. Diversas hipó-
da água está acima de 27 ºC. Essa água mais quente teses, incluindo algumas mirabolantes, já tentaram explicar
evapora e entra em contato com o ar mais frio, formando o fenômeno sem resultado.
nuvens do tipo Cumulonimbus, que vão absorvendo cada
vez mais ar quente e úmido, aumentando as nuvens e Em 1982, ocorreu a manifestação mais forte já registra-
da, tendo sido divulgada com grande alarde pela mídia.
criando um sistema de baixa pressão, formando grandes
Em 1983, as temperaturas chegaram a 5,1 ºC acima dos
redemoinhos que giram cada vez mais rápido sobre o
níveis normais nas águas do oceano Pacífico. Estudos mais
oceano. No Hemisfério Sul esses sistemas giram no sen-
recentes apontam que a manifestação de 1972-1973 foi
tido horário e no hemisfério norte, giram no sentido an-
mais ativa que a do começo da década de 1980.
ti-horário. Quando se aproxima do continente os ventos
vão perdendo intensidade em função do atrito com o solo Em outubro de 1997, registrou-se novamente o aqueci-
e possíveis construções. São raros no Atlântico sul. O úni- mento das águas equatoriais do Pacífico. Em 1998, ela se
co sistema classificado como furacão na história do Brasil apresentava 4 ºC acima dos níveis normais. O El Niño es-
foi o Catrina, que ocorreu em março de 2004. tava de volta com bastante força.

10
enquanto o Rio Grande do Sul enfrentava enchentes. Na
úmida região Norte choveu muito menos do que o espe-
rado, propiciando o aparecimento de grandes incêndios,
como o que devastou 15% do estado de Roraima.

<https://sealevel.jpl.gov>
multimídia: livros
Clima e Meio Ambiente – José Bueno Conti

Por causa dele, algumas regiões do planeta voltaram a ter


o seu regime de chuvas muito alterado. Fortes estiagens e
muito calor castigaram os Estados Unidos, o sudeste da
África, a Indonésia, a Austrália e a América Central. Por
outro lado, índices pluviométricos muito acima do nor-
mal provocaram enchentes e prejuízos para a lavoura nos
países europeus do Mediterrâneo, no oeste da Índia e no
sul do Brasil. As áreas em vermelho representam regiões quentes,
onde ocorre o fenômeno do El Niño.
No Brasil, os efeitos de El Niño foram sentidos em difer-
entes regiões. O Nordeste foi flagelado por uma forte seca,

quente
quente
quente

seco
chuvoso chuvoso
chuvoso e quente seco
e quente
seco e quente
quente
quente chuvoso

Dezembrom, Janeiro e Fevereiro

chuvoso
seco
e frio
seco seco e
quente
seco chuvoso

quente quente
seco seco
e frio chuvoso chuvoso

Junho, Julho e Agosto

El Niño e seus efeitos sobre o clima

11
2.3. La Niña Os estudos mais recentes desse fenômeno indicam que
não há padrões regulares nas consequências causadas por
La Niña também é um fenômeno cíclico cuja manifestação La Niña: há variações nos regimes de chuvas para mais ou
opõe-se a do El Niño. Acontece quando ocorre um res- para menos.
friamento maior que o normal das águas do Pacífico, em
média, a cada dois ou sete anos, e pode durar aproxima-

Fonte: <https://sealevel.jpl.gov>
damente um ano.
Em 1998, os cientistas apontaram um decréscimo de
1,9 ºC na temperatura da superfície das águas equatoriais
no Pacífico, indicação de enfraquecimento do El Niño e da
atividade do La Niña.
No Brasil, La Niña alterou o regime de chuvas nordestino e
provocou uma primavera atípica na região Sudeste, com índi-
ces pluviométricos maiores do que a média nesse período,
e temperaturas mais baixas que o normal, provocadas pela
sucessão de dias nublados ou chuvosos. As áreas em azul rep-
resentam regiões frias, onde ocorre o fenômeno do La Niña.
Nos Estados Unidos, o inverno foi um dos mais rigorosos
com temperaturas negativas recordes. A Europa também
sentiu seus efeitos: tempestades de neve alastraram-se As manchas em azul indicam que as águas do
pelo continente, provocando avalanches nos Alpes austría- Pacífico equatorial estão mais frias
cos, além de atingir regiões onde raramente neva, como
em Paris, na França.

Fonte: enos.cptec.inpe.br
frio

frio
seco e
quente

chuvoso
frio chuvoso seco
seco e frio seco chuvoso
e frio

frio e frio
chuvoso

Dezembro, Janeiro e Fevereiro

chuvoso frio e
chuvoso
frio chuvoso quente e seco
chuvoso
frio
quente
seco
chuvoso

Junho, Julho e Agosto

La Niña e seus efeitos sobre o clima

12
VIVENCIANDO

Observar e procurar entender alguns fatores climáticos, durante uma viagem para a praia ou para altitudes elevadas,
e como eles influenciam nas atividades do dia a dia dos moradores das diferentes localidades observadas. Outra dica
importante é observar os mapas meteorológicos dos telejornais.

3. Os grandes climas 3.2. Clima tropical


do planeta Terra A área de ocorrência encontra-se entre 5ºN e 30ºS, de-
stacando-se partes da Venezuela e da Colômbia, interior
O deslocamento das massas de ar formadas na dinâmica do Brasil, Sudão, porção oriental da África, parte da África
da circulação atmosférica é responsável pela ocorrência do Sul, norte da Austrália e regiões da América Central.
simultânea de diversos tipos de tempo atmosférico no pla- Suas temperaturas são constantes e elevadas ao longo
neta. Como as massas de ar não são um elemento estático, do ano, visto que o Sol se encontra quase sempre próx-
os tempos obtidos de sua atuação, também não. Apesar imo do zênite. Por isso, a duração dos dias e das noites
disso, a repetição de determinados tipos de tempo atmos- não varia muito ao longo do ano. A amplitude térmica
férico permite a identificação de grandes climas terrestres. anual é superior à do clima equatorial, oscilando entre
15 ºC e 20 ºC.
3.1. Clima equatorial As chuvas são essencialmente de origem convectiva. No
Tipo de clima localizado entre 5ºN e 5ºS, ou seja, muito próx- entanto, nas regiões montanhosas são comuns chuvas de
imo da linha do Equador. As principais áreas de ocorrência origem orográfica, cujos totais anuais e mensais chegam
são as bacias do Congo e do Amazonas, ilhas do sudeste a atingir valores muito elevados; por exemplo, no norte
Asiático e, ainda, da costa oriental da América Central. da Índia, numa localidade chamada Cherrapunji, a me-
As temperaturas médias anuais situam-se entre 24 ºC e 27 ºC, dia anual é de 11,4 mil mm, e em um único mês foram
e a temperatura média mensal é sempre superior a 18 ºC – o registrados 9,3 mil mm. Situação semelhante verifica-se
Sol anda sempre muito próximo do zênite, ponto mais alto nas serras próximas do litoral brasileiro. Mesmo assim, de
na abóbada celeste. A amplitude térmica anual é inferior a 4 maneira geral, as chuvas anuais nas áreas tropicais ainda
ºC, ou seja, as oscilações são mínimas. são menores que nas regiões equatoriais.

As chuvas são abundantes o ano todo. Num mês, rara- O clima tropical caracteriza-se genericamente pela ex-
mente são inferiores a 60 mm. São chuvas de convecção, istência de duas estações ou períodos: a estação mais
ou seja, oriundas do ciclo da água. úmida e a estação seca.

13
3.3. Clima desértico Podemos afirmar que esse clima tem como características
gerais um verão quente, seco e prolongado e um inverno
A área de ocorrência mais comum situa-se entre os 15ºN e suave, chuvoso e curto.
45ºS, coincidindo com as faixas tropicais. São destaques o
norte do México, o sudoeste dos EUA, todo o norte da África,
a Arábia, o Irã, o Paquistão, o interior da Austrália, o sudoeste
da África do Sul e a faixa formada por Peru e Chile.
As temperaturas sofrem grandes oscilações ao longo do
dia, superiores a 30 ºC, em função da pequena capacidade
do solo de reter o calor. As temperaturas médias mensais
são elevadas, situando-se acima dos 35 ºC. As chuvas são
fracas ou inexistentes, sendo normalmente inferiores a 150
mm por ano. A precipitação ocorre sempre de forma lo-
calizada, com aguaceiros irregulares. Pode ser desastrosa,
visto que, como não há vegetação, o escoamento é muito
rápido e pouco proveitoso, formando-se torrentes de lama.
A maior parte da água que cai evapora em seguida.
A aridez, reforçada pela presença de correntes frias que
fornecem pouquíssima umidade para os litorais, é a princi-
pal característica do clima desértico.
3.5. Clima temperado continental
A principal área de ocorrência está entre 35º e 45º N, no
interior dos continentes, em especial no nordeste e norte
dos EUA, no interior da península Balcânica, no norte da
China, interior da Coreia e do Japão e em toda a parte
centro-leste da Europa.
As temperaturas médias anuais são inferiores às do clima
temperado oceânico (±10 ºC). A temperatura média do
mês mais quente ultrapassa os 22 ºC, e a média do mês
mais frio é inferior a 0 ºC, que significa considerável ampli-
tude térmica anual.
A pluviosidade é baixa, se comparada à do clima temper-
ado oceânico. Nas regiões montanhosas, é ligeiramente
mais elevada. As maiores precipitações concentram-se nos
meses de verão, de origem convectiva, e no inverno, sob
forma de neve.

3.4. Clima mediterrâneo


Sua área de ocorrência está entre 0ºN e 40ºS, destacan-
do-se a bacia do Mediterrâneo, a Califórnia, o Centro do
Chile, o sul da África do Sul e sul da Austrália
As temperaturas são elevadas durante a maior par-
te do ano, chegando à média de 22 ºC anuais. No in-
verno, porém, as temperaturas são suaves. A amplitude
térmica anual não é significativa e fica próxima dos
15 ºC, mas a média do mês mais frio nunca é inferior a 5 ºC.
As chuvas ocorrem principalmente nos meses de out-
ono e inverno, e a precipitação tem origem frontal as-
sociada à passagem das frentes frias. O total anual
de precipitação é superior a 500 mm, mas é inferior a
200 mm (média).

14
3.6. Clima temperado oceânico 3.8. Clima polar
A área de ocorrência se encontra entre 40ºN e 65ºS, com Esse clima está presente nas latitudes mais elevadas, tanto
destaque para toda a parte atlântica da Europa, do norte ao Norte quanto ao Sul do planeta. As principais áreas de
da Espanha até o sul da Escandinávia, o litoral sul do Chile, ocorrência são as regiões do norte da Sibéria, do Alasca, do
o extremo sul da Austrália, a Nova Zelândia e a Tasmânia, o Canadá, de toda a Groenlândia, da maior parte da Islândia
litoral noroeste dos EUA e o litoral sudoeste do Canadá. As e da Antártida. As temperaturas são sempre muito baixas,
temperaturas médias anuais giram em torno de 20 ºC e a não há uma estação quente. A média do mês mais quente
amplitude térmica anual é considerável, embora diminuída não chega a 10 ºC, e a média do mês mais frio é muito in-
pela proximidade do mar, que funciona como elemento de ferior a 0 ºC. A média anual é a mais baixa de todo o mun-
equilíbrio térmico. Essas temperaturas baixas são ameniza- do. No período que corresponde ao verão, o aquecimento
das na costa atlântica europeia porque o calor da corrente do ar é prejudicado pela inclinação dos raios solares, que
marítima do golfo diminui o impacto do frio na região. diminuem a superfície de insolação na região. As chuvas
inexistem, e as precipitações ocorrem sob forma de neve.
As chuvas, geralmente de origem frontal, são abundantes
durante todo o ano. Não há meses secos. A elevada nebu-
losidade é característica, em função da alta umidade do ar.

3.9. Clima frio de montanha


ou clima de altitude
A área de ocorrência desse clima está nas regiões de
3.7. Clima subpolar grande altitude das cadeias montanhosas. Todas as pre-
cipitações ocorrem sob forma de neve, e as temperaturas
A área de ocorrência situa-se entre 55º e 65º N, onde estão chegam, nos pontos mais frios, a –30 ºC; durante o verão
a Suécia, a Finlândia, o norte da Rússia (Sibéria), o Alasca não chegam a 10 ºC. O principal fator que determina o frio
e grande parte do Canadá. Faz a transição do clima conti- é o ar rarefeito, em função da altitude.
nental frio para o clima polar. As temperaturas médias an-
uais são muito baixas, e a média do mês mais quente não Nas regiões dos picos, a superfície inclinada não é favorável
supera os 10 ºC; nos meses mais frios essa média pode a um aquecimento homogêneo nem à retenção de calor.
atingir –30 °C. As chuvas são escassas e a maior parte das Assim, a irradiação do calor é bem menor nessas regiões.
precipitações ocorre sob forma de neve ao longo do ano.

multimídia: sites
www.inmet.gov.br

15
CLIMA DE ALTITUDE
Áustria
Lat: 43º Norte Long: 11º Leste
ºC P
220
210
200
190
180
170 Climas frios
160 Subpolar
150
Polar
140
CLIMA SUBPOLAR CLIMA POLAR Alta
130 Montanha
VARDO, Noruega Groelândia
120
Lat: 70º Norte Long: 3º Leste Lat: 70º 50’ Norte Long: 40º 42’ Leste
110 ºC P ºC P
100 30 60 20 40
90 25 50 30
40 80 20 40 10 20
35 70 15 30 10
30 60 10 20 0 0
25 50 5 10
20 40 0 0 -10
15 30 -5
10 20 -10 -20
5 10 J F M A M J J A S O N O
0 0 -30
-5
-10 -40
-15
-20 -50
J F M A M J J A S O N O J F M A M J J A S O N O

Clima
180º 150º 120º 90º 60º 30º 0º 30º 60º 90º 120º 150º 180º
90º
ESCALA 1:150 000 000 N
750 0 1 500 km

PROJEÇÃO DE ROBINSON

60º

30º

30º

60º

90º

Tipos de clima (adaptado da classificação de Köppen) Correntes marítimas


Correntes quentes
Equatorial Mediterrâneo
Correntes frias
Tropical Temperado

Subtropical Frio

Desértico Polar Zonas climáticas

Semiárido Frio de montanha Polar

Temperada

Fonte: Atlas geográfico. 3. ed. Rio de Janeiro: IBGE; e Strahler, A. N. Physical geography. Intertropical
3. ed. New York: Wiley, e 1969.

3.10. Classificação climática de Strähler desses tipos climáticos observando o mapa.


O clima da Terra: classificação de Strähler
O norte-americano Arthur Strähler usa os conhecimentos
sobre a circulação geral da atmosfera para classificar os
climas. Ele reconhece a importância do mecanismo das
massas de ar e das frentes na caracterização dos tipos de
clima. Por isso, sua classificação é denominada dinâmica.
Para ele, os principais tipos de climas são:
§ Climas das latitudes baixas: influenciados por
massas de ar quente.
§ Climas das latitudes médias: influenciados por
massas de ar tropicais e polares.
§ Climas das latitudes altas: influenciados por mas-
multimídia: música
sas de ar polares. Fonte: Youtube
- Segue o seco – Marisa Monte
Conheça os vários subtipos em que se dividem cada um

16
Fonte: slideshare.com.br
3.11. Classificação climática de Koppen
O geógrafo russo Vladimir Köppen adota a climatologia
tradicional, chamada de analítica, porque considera sep-
aradamente os principais elementos que caracterizam
os principais tipos de clima, como chuvas e temperatura.
Recebeu muitas críticas porque, além de não considerar o
mecanismo das massas de ar, sua classificação adota um
sistema de letras maiúsculas e minúsculas, que exige a
aquisição de uma nova linguagem ou código.
Os climas do mundo são divididos em cinco grandes tipos
climáticos, representados por letras maiúsculas: tropicais multimídia: música
úmidos (A), secos (B), mesotérmicos (C), microtérmicos (D)
e polares (E). Fonte: Youtube
- Felicidade – Marcelo Jeneci
Os subgrupos são diferenciados pela quantidade de chu-
vas, à exceção dos climas polares. São representados com
letras minúsculas e algumas maiúsculas. As subdivisões
são definidas pela temperatura e representadas sempre
com letras minúsculas. Assim, por exemplo, um clima do
tipo Cwa é mesotérmico úmido, com chuvas de verão e
verão quente.

CONEXÃO ENTRE DISCIPLINAS

Apesar dos dois ramos do conhecimento possuírem um caráter interdisciplinar, a Meteorologia costuma estar mais
atrelada à Física, enquanto a Climatologia é mais relacionado à Geografia. No entanto, um bom climatologista e um
bom meteorologista precisam ter um amplo conhecimento sobre ambas as áreas.

17
DIAGRAMA DE IDEIAS

FENÔMENOS
CLIMÁTICOS
DEVASTADORES

FURACÃO TORNADO

ANOMALIAS
CLIMÁTICAS

~ ~
EL NINO LA NINA

GRANDES CLIMAS

TEMPERADO
TROPICAL
OCEÂNICO

EQUATORIAL SUBPOLAR

DESÉRTICO POLAR

FRIO DE
MEDITERRÂNEO
MONTANHA

TEMPERADO
CONTINENTAL

18
AULAS Climas do Brasil
11 e 12
Competência: 6 Habilidade: 30

“(...) a compreensão de fenômenos como secas, en- Correntes marinhas

chentes e elevação da temperatura não deve ser preocu- Massa de Ar

pação exclusiva de cientistas e pesquisadores, mas de Continentalidade /


maritimidade
todos os cidadãos. É necessário que os indivíduos per-
cebam em que medida tais ocorrências são frutos de fa- Altitude
tores naturais ou da ação do próprio ser humano. Após
Relevo
conhecer as várias dimensões dos fenômenos climáticos, Vegetação

cada cidadão será capaz de exigir, tanto das autoridades


governamentais como de toda a sociedade, uma ação Tropicalidade
eficaz voltada para a preservação do meio ambiente e,
consequentemente, da vida.”
CONTI, José Bueno; FURLAN, Sueli Angelo.
O Brasil, por ser um país de dimensões continentais, apre-

1. Introdução senta uma ampliada diversidade climática, que se organiza


por meio da ação de diversos fatores e elementos que influ-
Para o entendimento do papel do clima na organização enciam o comportamento da atmosfera. Em alguns pontos,
do espaço geográfico de uma dada região, parte-se do predominam os efeitos de massas de ar quente; em outros,
princípio de que ele é um dos elementos de seu sistema de massas de ar fio. Há também as ações da vegetação, da
natural, o ambiente, e que disponibiliza seus recursos à so- altitude e das variações de latitude, entre outros aspectos.
ciedade. O clima vem assumindo um posto de destaque nas A maior parte da área do Brasil está localizada na Zona
últimas décadas, sobretudo com a crescente preocupação Intertropical, ou seja, nas zonas de baixas latitudes, com cli-
com a degradação ambiental e com a contínua depleção mas quentes e úmidos. A essa característica, denominamos
dos recursos naturais, sendo considerado elemento-chave tropicalidade, determinada pela diferença de insolação
capaz de direcionar as ações do homem, que é o agente, a recebida pelas várias regiões do país. Além dessa carac-
princípio, teoricamente apto a intervir no ambiente. terística importante do clima brasileiro, também podemos
Nesse sentido, o clima é um dos aspectos que expressa a citar as elevadas temperaturas na maior parte do território,
relação entre a sociedade e a organização econômica e so- os regimes pluviométricos e o mecanismo das massas de
cial do espaço urbano, já que, por um lado, eventos extrem- ar. Outro fator interessante do clima brasileiro refere-se à
os que estejam ligados à temperatura ou às precipitações amplitude térmica (diferença entre as médias anuais de
fora dos padrões normais repercutem na qualidade de vida temperatura máximas e mínimas), conforme se aproxima
da população que habita as grandes cidades. Por outro, o da linha do Equador, a amplitude térmica é menor.
espaço físico atua como fator geográfico de modificação
das condições iniciais do clima, alterando, assim, as proprie-
dades inerentes aos sistemas atmosféricos atuantes sobre 1.1. Relembrando...
uma dada região. Como vimos em aulas anteriores, o en- Uma vez sempre iluminada pelo Sol, por que a insolação não
tendimento e a caracterização do clima de um lugar depen- é igual em todos os lugares da Terra, durante o ano todo?
dem do estudo do comportamento do tempo durante pelo
menos 30 anos: das variações da temperatura e da umi- Por duas razões:
dade, do tipo de precipitação (chuvas, neve ou granizo), da
§ No movimento de translação, a Terra gira em torno do
sucessão das estações úmidas e secas etc. Por essa razão, o
Sol em uma órbita elíptica. No entanto, o Sol não está
clima é definido por Max Sorre como uma “sucessão habit-
ual dos tipos de tempo num determinado local da superfície situado exatamente no centro dessa elipse. Por essa
terrestre”, enquanto o tempo é apenas o estado da atmos- razão, a Terra não está sempre à mesma distância do
fera de um lugar, num determinado momento. Sol, enquanto percorre sua órbita.

19
Movimento de translação da Terra stício de verão no Hemisfério Sul, com o dia mais longo
do ano e o início do verão nesse hemisfério. No Hemisfério
Norte acontece a noite mais longa do ano. É o início do
inverno naquele hemisfério.
A partir dos solstícios, as diferenças de duração entre os
dias e as noites vão diminuindo, até que em determinadas
datas ficam exatamente iguais (12 horas), com exceção das
regiões polares, porque os raios solares incidem perpen-
dicularmente sobre a linha do Equador. É quando temos
o equinócio (palavra que significa noites iguais aos dias),
que ocorre nos dias 21 de março (equinócio de outono, no
Hemisfério Sul, e de primavera, no Hemisfério Norte) e 23 de
setembro (equinócio de primavera, no Hemisfério Sul, e de
outono, no Hemisfério Norte).
Fonte: <alunoonline.uol.com.br/geografia/
movimentos-translação.html>. (Adaptado) Em razão da posição geográfica ocupada pelo Brasil, não é
§ Em seu movimento de rotação, o eixo da Terra tem uma muito fácil percebermos exatamente as estações do ano e
inclinação de mais ou menos 23° em relação à perpen- os equinócios e solstícios, principalmente nas regiões próx-
dicular ao seu plano de órbita. imas ao Equador.
Essas duas ocasiões são mais perceptíveis à medida que
Inclinação do eixo da Terra nos afastamos do Equador (baixa latitude) em direção às
altas latitudes.

Fonte: <projetoazul.blogspot.com.br/2012/04/
inclinação-da-Terra-em-seu-eixo.html>.

Uma das principais consequências do movimento de


translação da Terra são as estações do ano, opostas nos
dois hemisférios em virtude da inclinação do eixo terres-
tre. As datas que marcam o início dessas estações de-
terminam a maneira e a intensidade com que os raios
solares atingem a Terra. Esses dias recebem o nome de
equinócios e solstícios.
No dia 21 de junho, os raios solares chegam verticalmente
ao paralelo de 23º27’N (Trópico de Câncer), quando então
ocorre o solstício de verão no Hemisfério Norte. É o dia
mais longo e a noite mais curta do ano, que marcam o in-
Fonte: <https: pt.wikipedia.org/wiki/Solstício>
ício do verão nesse hemisfério. No Hemisfério Sul acontece
o solstício de inverno, com a noite mais longa do ano, mar-
cando o início da estação fria (inverno) nesse hemisfério. 1.2. As diferenças de insolação
No dia 21 de dezembro, os raios de sol incidem vertical- A quantidade de luz solar (insolação) recebida pelas várias
mente sobre o Trópico de Capricórnio (23º27’S). É o sol- regiões do país durante o ano não é uniforme. Nas áreas

20
mais próximas do Equador, essa incidência de luz solar é A troposfera (local de movimentação das massas de ar)
mais ou menos constante durante todo o ano; por isso há não é uma camada homogênea e, por isso, as massas de ar
poucas diferenças na duração dos dias e das noites nas são classificadas de acordo com a latitude e as suas regiões
quatro estações do ano. Porém, à medida que nos aprox- de origem, continental ou marítima. As massas que se orig-
imamos das regiões subtropicais e temperadas, essas dif- inam em latitudes altas são chamadas de massas polares
erenças vão ficando cada vez mais claras: no inverno, as ou árticas e as massas de ar que se formam em latitudes
noites são mais longas; no verão, os dias duram mais. baixas são denominadas massas de ar tropical ou equa-
Essa é uma das explicações para o horário de verão: torial. Massas de ar continentais são secas, enquanto que
quando se adianta uma hora nos relógios dos estados da as marítimas são de monção úmida. Os sistemas frontais
porção Sul, para que haja melhor aproveitamento da luz separam as massas de ar que têm diferentes densidades e
solar, economiza-se mais energia elétrica. Não é adotado temperaturas. Uma vez que uma massa de ar se move para
na porção Norte, porque não haveria resultados práticos. longe de sua região de origem, fatores como a vegetação e
disponibilidade de água numa determinada região podem
O que explica essa diferente insolação recebida por todo
modificar rapidamente o seu caráter. Isto quer dizer que, ao
o território brasileiro é o movimento de translação e suas
se deslocarem, as massas de ar vão aos poucos, perdendo
consequências: os solstícios e equinócios, que configuram
as suas características de temperatura, pressão e umidade
as estações do ano, bem como a inclinação do eixo de ro-
originadas no momento de sua formação. Esse desloca-
tação da Terra.
mento ocorre sempre no sentido das altas pressões para
as baixas pressões.

Frentes quentes e frentes frias


Frente quente é a parte dianteira de uma massa de ar
quente em movimento. O ar frio é relativamente den-
so e o ar quente tende a dominá-lo, produzindo uma
larga faixa de nuvens e uma chuva fraca e persistente
e às vezes nevoeiro esparso. As frentes quentes ten-
dem a deslocar-se lentamente e podem ser facilmente
multimídia: vídeo alcançadas por frentes frias, formando frentes oclusas.
Fonte: Youtube Quando uma frente deixa de se mover, chamamos de
frente estacionária. As frentes quentes deslocam-se
Documentário de 2010 “Clima – Criando a do equador para os polos. Como o ar quente é menos
paisagem” denso que o ar frio, a massa de ar quente sobe por
cima da massa de ar mais frio e geralmente ocorre
precipitação. A temperatura eleva-se já ligeiramente

2. Elementos do clima do antes da chegada da frente quente, porque as nuvens


aumentam localmente o “efeito de estufa” na atmos-
Brasil: as massas de ar fera, absorvendo radiação da superfície terrestre e
emitindo radiação de volta à superfície. Uma frente
Massa de ar, em meteorologia, são grandes porções de quente é representada simbolicamente por uma linha
ar que apresentam condições internas de temperatura, sólida com semicírculos que apontam para o ar frio e
pressão e umidade relativamente homogêneas, influen- na direção do movimento.
ciadas pela região onde são formadas. Cobre centenas
ou milhares de quilômetros quadrados e possui as mes- Frente fria é a borda dianteira de uma massa de ar
mas características da superfície que está abaixo dela. O fria, em movimento ou estacionária. Em geral a massa
local de formação da massa de ar é denominado região de ar frio apresenta-se na atmosfera como um domo
de origem e é neste local que a massa de ar irá adquirir de ar frio sobre a superfície. O ar frio, relativamente
suas características de temperatura, pressão e umidade. denso, introduz-se sob o ar mais quente e menos
Portanto, uma massa de ar que se forma sobre uma su- denso, provocando uma queda rápida de temperatu-
perfície gelada, como a Antártida, apresenta característi- ra junto ao solo, seguindo-se de tempestades e tam-
cas típicas dessa região, ou seja, temperatura baixa, alta bém de trovoadas. As frentes frias deslocam-se dos
pressão e pouca umidade.

21
2.1.2. Massa equatorial atlântica (mEa)
polos para o Equador, predominante de No-
roeste, no Hemisfério Norte, e de Sudoeste no Quente e úmida, formada no Atlântico equatorial e atuan-
Hemisfério Sul. Não estão associadas a um pro- te sobretudo nos litorais do Nordeste e amazônico (Pará e
cesso suave: as frentes frias movem-se rapi- Amapá). Essa massa contribui com 45% das chuvas que
damente e forçam o ar quente a subir. Quando caem durante o período chuvoso nas proximidades da costa
uma frente fria passa, a temperatura pode baixar
litorânea leste dos estados do Pará e Amapá. A massa equa-
torial atlântica, ao encontrar com o ar do continente, forma
mais de 5 °C só durante a primeira hora. Quan-
as chamadas linhas de instabilidade (LI), caracterizadas pelos
do uma frente deixa de se mover, designa-se por
grandes conglomerados de nuvens cumulonimbus (nuvens
frente estacionária. Uma frente fria é represen-
cinzas que causam chuvas e trovoadas). São formadas gra-
tada simbolicamente por uma linha sólida com
ças à circulação de brisa marítima – por influência da mEa
triângulos que apontam para o ar quente e na
–, podendo prolongar-se para o interior do continente ou
direção do movimento.
até mesmo para o extremo oeste da Amazônia. A mEa é a
Frente fria causadora de precipitações na Amazônia central durante a
Frente quente estação seca (inverno); ao cair da tarde, em virtude da di-
Frente oclusa minuição da temperatura do ar e do acúmulo de vapor de
Frente estacionária
água, ocorrem chuvas convectivas nas áreas dessas linhas.
No litoral nordestino, causa chuvas principalmente no perío-
do de inverno – de maio a setembro –, época em que a ZCIT
se desloca para o norte e a circulação dos ventos alísios se
2.1. O mecanismo das intensifica (sopram para leste), trazendo mais chuvas.
massas de ar no Brasil
As massas de ar constituem elemento determinante dos As Linhas de Instabilidade – LI, que se formam princi-
climas brasileiros porque podem mudar bruscamente o palmente nos meses de verão no Hemisfério Sul (de-
tempo nas áreas onde atuam. zembro a março), encontram-se ao sul da Linha do
Equador influenciando as chuvas no litoral norte do
O Brasil sofre a influência de praticamente todas as massas Nordeste e regiões adjacentes e ocorrem no período
de ar que atuam na América do Sul, exceto as que têm ori- da tarde e início da noite.
gem no oceano Pacífico (oeste), cuja influência é limitada
pela cordilheira dos Andes que barra a sua passagem para As Linhas de Instabilidade são bandas de nuvens
o interior do continente. causadoras de chuva, normalmente do tipo cumulus,
organizadas em forma de linha (figura), daí o seu
O mecanismo das massas de ar no Brasil depende da circu- nome. Sua formação se dá basicamente pelo fato
lação geral da atmosfera na Terra.
de que com a grande quantidade de radiação solar
Por ter 92% de seu território na zona tropical e estar loca- incidente sobre a região tropical ocorre o desenvol-
lizado no Hemisfério Sul, onde as massas líquidas (oceanos vimento das nuvens cumulus, que atingem um nú-
e mares) ocupam mais espaço do que as massas sólidas mero maior à tarde, quando a convecção é máxima,
(terras), o Brasil é influenciado predominantemente pelas com consequentes chuvas. Outro fator que contribui
massas de ar quente e úmida. para o incremento das Linhas de Instabilidade, prin-
cipalmente nos meses de fevereiro e março, é a pro-
2.1.1. Massa equatorial continental (mEc) ximidade da ZCIT.
Quente e úmida, com origem na região noroeste da Ama- Se uma linha de instabilidade se forma sobre regiões
zônia. Durante o inverno, essa massa restringe sua atuação áridas, uma tempestade de areia conhecida como
à Amazônia ocidental, que é chuvosa durante todo o ano. haboob pode resultar na formação de fortes ventos
No verão ocorre o escoamento de ar quente e úmido em que carregam consigo poeira da superfície. Atrás de
baixos níveis altimétricos, em direção às latitudes mais al- uma linha de instabilidade madura, uma área de
tas e a leste. Ou seja, durante o verão, a massa equatorial baixa pressão em altitudes médias pode se formar,
continental exerce influência sobre a Amazônia oriental, o que tende a criar um súbito aumento de tempera-
Meio-Norte (PI e MA), Centro-Oeste, Sudeste e, às vezes, tura por conta da massa de ar descendente que não
sobre o sertão nordestino. Tem papel fundamental no mais está sendo resfriada pela chuva.
transporte de umidade para outras regiões do país, devido
ao forte processo de evapotranspiração da floresta.

22
vezes pelo ar quente continental, e dirige-se a norte pelo
Atlântico, preferencialmente. Mesmo vindo via oceano,
chega enfraquecida ao litoral oriental, onde encontra a
mTa, causando chuvas frontais. Às vezes, a mPa conseg-
ue vir através do continente no verão, atingindo o Sul
e algumas partes do Sudeste brasileiro, causando mais
chuvas frontais do que propriamente o frio. No inverno,
essa massa penetra a América do Sul pela Patagônia – no
sudeste da Argentina –, onde se encaminha para o Brasil,
entrando pelo Rio Grande do Sul. Como vem por terra, a
massa chega já bem mais seca que na sua origem e, por
ser inverno, é muito mais fria do que no verão. A mPa
pode chegar na Amazônia no inverno e causar o fenôme-
no conhecido por friagem.

2.1.3. Massa tropical atlântica (mTa) Atuação das massas de ar no Brasil – inverno e verão
Quente e úmida se forma próxima à latitude 30°S, entre
o Brasil e a África. Essa massa de ar traz umidade e chu- Brasil - Massas de ar Brasil - Massas de ar
vas para o litoral oriental brasileiro – notadamente entre Verão Inverno
mEa
Equador
o “cotovelo” do RN e o norte do RS – ao longo do ano. mEa Equador

Grande parte dos maiores índices pluviométricos no litoral mEc mEc

é registrado no verão, com exceção do litoral oriental do


Nordeste, pois naquela latitude as temperaturas variam mEa → Equatorial
atlântica
mEc → Equatorial
muito pouco durante o ano, e os alísios sopram com mais continental
mTa → Tropical
força no inverno. A mTa também penetra o continente, mTc
atlântica
mTc → Tropical mTc mTa
trazendo chuvas orográficas em diversos locais, como no mTa
continental
mPa → Polar atlântica Alísio de
mPa sudeste
planalto da Borborema, na chapada Diamantina e nas ser- Fonte: educação.globo.com/geografia

ras do Mar e da Mantiqueira.

2.1.4. Massa tropical continental (mTc)


Quente e seca, forma-se no anticiclone tropical na planície
do Chaco. O Chaco é uma região de planícies alagáveis
que se estendem pelo norte da Argentina, noroeste do
Paraguai, leste da Bolívia (mais seco) e chega ao Brasil,
onde recebe o nome de Pantanal – no sudeste do MT e
no oeste do MS. A baixa do Chaco se intensifica no verão
e forma um anticiclone em altos níveis, que é a alta da
Bolívia. No verão, a mTc penetra no país pelo oeste, atua multimídia: livros
com mais força sobre o Pantanal e exerce ação admirável
em outras regiões, como no noroeste paranaense, Goiás, Climatologia – noções básicas e climas do
Tocantins e nas partes restantes do Mato Grosso e Mato Brasil - Francisco Mendonça e Ines Moresco
Grosso do Sul, além de ação periférica em Minas Gerais e Danni-Oliveira
oeste paulista.
Climatologia – noções básicas e climas
do Brasil é uma obra de referência que
2.1.5. Massa polar atlântica (mPa) reúne conceitos básicos de climatologia
É a mais famosa de todas. Tem origem no oceano Atlânti- e meteorologia, com destaque para os
co, junto ao extremo sul da Patagônia. É fria e úmida. No domínios climáticos e sistemas atmosféricos
verão, por causa das temperaturas muito altas predom- que regem tempo e climas do continente sul-
inantes no continente sul-americano, a massa não con- americano e Brasil.
segue penetrar com força no continente, barrada muitas

23
Zona de Convergência Intertropical
Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) é a área que circunda a Terra, próxima ao equador, onde os ventos orig-
inários dos Hemisférios Norte e Sul se encontram. A ZCIT era inicialmente chamada, entre os anos 1920 e 1940,
de Frente Intertropical (FIT), mas, com o reconhecimento, nos anos 1940 e 1950, da relevância da convergência de
ventos para a determinação do clima tropical, o termo ZCIT passou a ser aplicado. Na escala planetária, a ZCIT está
localizada no ramo ascendente da célula de Hadley, atuando no sentido de transferir calor e umidade dos níveis
inferiores da atmosfera das regiões tropicais para os níveis superiores da troposfera e para médias e altas latitudes.
Entretanto, a ZCIT dinamicamente é uma região de baixa pressão, tendo convergência de escoamento em baixos
níveis e divergência em altos níveis, sendo a fonte principal de precipitação nos trópicos (chuvas fortes), responsável
por condições de mau tempo sobre uma extensa área e o desenvolvimento vertical das nuvens que se estende até
a alta troposfera das regiões tropicais.

Onde a ZCIT se junta à circulação de monção, ela é chamada de cavado de monção, termo de uso mais comum na
Austrália e em algumas regiões da Ásia. Os primeiros marinheiros deram a este cinturão de calma o nome de dol-
drums (literalmente, desânimo), por causa da inatividade e estagnação em que eles ficavam após dias sem ventos.
Permanecer numa calmaria nesta região, num clima quente e abafado, poderia significar a morte numa época em
que o vento era o único propulsor eficiente para os navios no oceano. Mesmo hoje, marinheiros em barcos de lazer
ou de competição procuram cruzar a região o mais rápido possível, pois o clima errático e os padrões de vento
podem causar atrasos indesejados.
A ZCIT se apresenta como uma faixa de nuvens com grande desenvolvimento vertical (Cb – Cumulonimbus), fre-
quentemente de tempestades, que circunda o globo próximo ao equador. No Hemisfério Norte, os ventos alísios se
movem de nordeste para sudoeste, enquanto no Hemisfério Sul eles vão de sudeste para noroeste. Quando a ZCIT
está posicionada ao norte ou ao sul do Equador, essas direções variam conforme a força de Coriolis, provocada pela
rotação da Terra.
A ZCIT está inserida numa região onde ocorre a interação de características marcantes atmosféricas e oceânicas,
tais como:

§ Zona de confluência dos Alísios (ZCA);

§ Zona do Cavado Equatorial;


§ Zona de Máxima Temperatura da Superfície do Mar (TSM);
§ Zona de Máxima Convergência de Massa;

§ Zona da banda de Máxima Cobertura de Nuvens Convectivas.


Todas essas características interagem próximo à faixa equatorial. Apesar dessa interação, as características não se
apresentam, necessariamente ao mesmo tempo, sobre a mesma latitude.

24
Influências da ZCIT no Brasil
A ZCIT é um dos principais sistemas geradores de mm.
precipitação na região Norte e Nordeste do Brasil. 3300
A quantidade de precipitação durante o verão do 3000
HS na região Norte, é influenciada por fatores como 2700
os mecanismos de brisa marítima, que particular- 2400
mente ocorre o ano todo; a penetração de sistemas 2100
frontais, pois nessa época do ano a Alta Subtropi- 1800
cal do Atlântico Sul (ASAS) está mais para o ocea- 1500
no permitindo assim que o fenômeno de bloqueio 1200
não ocorra dentro do continente; ao aparecimento 900
da Baixa do Chaco, que aumenta a confluência em 600
baixos níveis e dessa maneira articula a convecção Fonte: INMET 1931/1930
300
profunda associada a alta umidade vinda da flor-
esta Amazônica e enfim a ZCIT, que na estação de
verão está posicionada em latitudes que compreendem a parte Norte e Nordeste do Brasil. No inverno a ZCIT
está posicionada em latitudes mais ao norte, entretanto sua influência restringe-se apenas ao estado de Roraima.
Em anos de El Niño o ramo descendente da célula de Walker se desloca para a região sobre a Amazônia
inibindo a convecção. Os ventos Alísios de nordeste estão bem mais fracos, diminuindo assim o fluxo de
umidade vinda dos oceanos que penetra na região Amazônica. Contudo, a ZCIT está posicionada bem mais
ao norte do que sua posição normal e então períodos de El Niño são extremamente secos, durante o que
seria a estação chuvosa (janeiro, fevereiro e março - JFM) da região Norte, mais precisamente na Amazônia
Central. A região Nordeste fica bem ao sul da ZCIT em anos secos, ou seja, em uma região preferencialmente
de subsidência que inibe a precipitação. Em anos chuvosos a ZCIT se desloca até 6ºS atingindo a costa norte
do Nordeste, permanecendo por períodos mais longos no HS até o mês de maio. Vale lembrar que o antici-
clone do Atlântico Norte e consequentemente os ventos alísios de nordeste estarão mais intensos em anos
chuvosos, logo a ZCIT estará mais ao sul.

Zona de Convergência do Atlântico Sul


Climatologicamente, a zona de convergência do Atlântico Sul (ZCAS) pode ser identificada, na composição de imagens
de satélite, como uma banda de nebulosidade de orientação Noroeste/Sudeste, estendendo-se desde o sul da região
amazônica até a região central do Atlântico Sul. Atua geralmente entre as regiões Centro-Oeste e Sudeste. Para a ZCAS
se formar é necessário uma frente fria bloqueada sobre o sudeste e alimentada pela umidade que vem da Amazônia
em altitude, formando assim, um grande corredor de umidade de nuvens carregadas.
Para ser considerada ZCAS, é preciso que esse processo dure pelo menos quatro dias, pois quando uma frente fria fica
parada por menos de quatro dias, os meteorologistas chamam esse fenômeno de Zona de Convergência de Umidade
(ZCOU). Quando a ZCAS se forma é sinal
de grandes volumes de chuvas que, as
vezes, perduram por quase uma semana,
podendo provocar transbordamentos de
rios e enchentes. A época mais comum
para a formação da ZCAS no Brasil é o
verão, pois é justamente nessa época do
ano que acontece o fluxo de umidade
da Amazônia para o Sudeste do país. Os
meteorologistas conseguem prever a for-
mação da ZCAS com pelo menos 11 dias
de antecedência.

25
2.2. Pluviosidade do Brasil Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), no
Brasil a temperatura máxima (43,2 ºC) foi registrada, em
Apesar de o país apresentar médias anuais pluviométricas 1982, na cidade de Bom Jesus do Piauí, no estado do Pi-
em torno de mil milímetros, as chuvas não se distribuem de auí; e a mínima (–11,6 ºC), na cidade de Xanxerê, no estado
modo uniforme por toda sua extensão. de Santa Catarina, em 25 de julho de 1945. No primeiro
caso, latitude e a influência do oceano pode explicar a ocor-
Em algumas áreas, como em trechos da Amazônia, no lito- rência de altas temperaturas; no segundo, o frio extremo é
ral sul da Bahia e no trecho paulista da serra do Mar, chove consequência da conjugação dos fatores latitude (média) e
mais de 2 mil milímetros por ano. É o caso da Amazônia, altitude (alta).
de Belém (PA), com 2,2 mil mm anuais, e em São Paulo; na
área banhada pelo rio Itapanhaú, em Bertioga, chove mais Temperatura média anual
de 4 mil milímetros.
No extremo oposto está o Sertão do Nordeste, com totais
bem abaixo da média do país, como nas localidades de
Cabaceiras, na Paraíba (331 mm anuais), e Areia Branca,
no Rio Grande do Norte (588 mm anuais).
Na maior parte do território brasileiro chove anualmente
mil e dois mil milímetros.
A porção situada abaixo do paralelo 20ºS, onde predomina
o clima subtropical, é caracterizada pela relativa uniformi-
dade das chuvas ao longo do ano.

multimídia: música
Fonte: Youtube
- A chuva cai – Beth Carvalho

2.3. Temperaturas
Em quase 95% de nosso território, temos médias térmicas 3. Os fatores do clima no Brasil
superiores a 18 ºC, como decorrência da tropicalidade. Ob- Diversos fatores podem modificar os elementos que com-
serve no mapa Temperatura Média Anual. põem o clima. No caso brasileiro, destacamos a altitude, a
Entretanto, o comportamento das temperaturas está su- latitude, a continentalidade, a maritimidade e as correntes
jeito à influência de outros fatores além da latitude: a alti- marinhas, que podem ter maior ou menor influência no
tude, a continentalidade e as correntes marítimas. clima brasileiro.

26
3.1. Altitude 3.3. Continentalidade e maritimidade
Quanto maior a altitude, mais frio será. Mas somente a in- Quanto menor a distância em relação ao mar, menor a am-
fluência da altitude, isolada de outros fatores, não é muito plitude térmica de uma cidade, porque a proximidade do
marcante no Brasil, porque mais de 95% do relevo brasilei- mar torna as temperaturas mais estáveis. Isso ocorre em
ro está a menos de 1,2 mil metros de altitude. Campos do consequência do “efeito regulador de caráter térmico” que
Jordão, em São Paulo, e as serras gaúchas e catarinenses, as águas dos oceanos exercem sobre as terras próximas.
com altitudes acima de 1,2 mil metros são exceções. Esta Por exemplo, a cidade de Santos, em São Paulo, possui me-
tabela ilustra diferentes médias térmicas anuais registradas nor amplitude térmica do que cidades localizadas no inte-
suas altitudes. rior do território brasileiro, como as dos estados de Mato
Grosso e Mato Grosso do Sul.
Relação entre a altitude e a temperatura

Fonte: IBGE. Anuário Estatístico do Brasil, 1999.

3.2. Latitude
Esse fator influencia os climas no Brasil porque o território
brasileiro apresenta quase 40º de variação latitudinal. Nas
altas latitudes, as temperaturas são mais baixas e as amplitu-
des térmicas, maiores. Portanto, as cidades próximas à linha
do Equador (região Norte) têm amplitudes térmicas menores
e temperaturas mais altas do que as cidades do Sul e do
Sudeste, em virtude das diferenças de latitude entre elas.

Fator latitude e médias térmicas.

Fonte: <professoralexinowatzki.webnode.com.br/climatologia/
Fonte: IBGE. Atlas nacional do Brasil, 2000. fatores-do-clima/continentalidade-e-maritimidade>.

27
3.4. Correntes marítimas de temperatura nos meses de setembro (27,9 °C) e abril
(25,8 °C). A exceção é aquela parte mais ao sul (Rondônia
O Brasil sofre influência de duas correntes marítimas quentes: e Mato Grosso).
a corrente do Brasil (no sentido sul) e a corrente das Guianas
A região amazônica possui uma precipitação média de
(no sentido norte), que contribuem para os climas quentes.
aproximados 2,3 mil mm por ano. Existem algumas dif-
Correntes marítimas que atuam no Brasil erenças no clima da Amazônia, dividido em equatorial úmi-
do e equatorial subúmido (ou semiúmido). Na Amazônia
ocidental – mais especificamente noroeste do Amazonas
–, onde atua a massa equatorial continental durante todo
o ano, não existe estação seca, e as médias pluviométricas
são altas. Na fronteira entre Brasil, Colômbia e Venezuela,
o total anual atinge os 3,5 mil mm, e o clima é dito equa-
torial superúmido. No litoral do Pará e do Amapá, os níveis
de precipitação também são altos (cerca de 2,5 mil mm ao
ano) e sem período de seca definido, pois há influência das
linhas de instabilidade que se formam ao longo da costa
Tropical Semiárido
litorânea durante o período da tarde e são forçadas pela
brisa marítima. Nessa área, o clima é equatorial úmido.
O período de chuvas ou de forte atividade convectiva na
região amazônica é compreendido entre os meses de no-
vembro e março, sendo que o período de seca (sem grande
4. Climas do Brasil atividade convectiva) é entre maio e setembro, chovendo
menos de 60 mm. Este último período ocorre numa área que
abrange o leste de Roraima (parte mais seca da Amazônia),
a região do médio Amazonas – também conhecida como
Amazônia central, onde estão Marabá, Santarém etc. –, o
sul do Pará, Rondônia e partes do Acre. Ao sul dela, o inverno
SEMIÁRIDO
é mais seco e, em razão da ação devastadora do homem –
garimpagem, desmatamento, queimadas, projetos agropas-
toris –, a pluviosidade diminuiu cerca de 10% nos últimos
tempos. Ao norte amazônico, a estação da primavera é tam-
bém seca, sendo que lá costuma chover em torno de 2,0 mil
mm por ano e o clima é o equatorial semiúmido.

4.1. Clima equatorial


O clima equatorial abrange a região norte brasileira, o
norte do Mato Grosso e de Tocantins e, ainda, o oeste do
Maranhão. Todo esse espaço é conhecido por Amazônia
(entre 5°N e 10°S), área que apresenta clima, vegetação
e hidrografia típicos de regiões equatoriais. O clima é
quente e úmido. Devido aos altos valores de energia so-
lar incidente na superfície amazônica, o comportamento
da temperatura do ar mostra pequena variação ao longo
do ano. A amplitude térmica sazonal é da ordem de 1°
a 2 °C/ano – a menor do Brasil – sendo que os valores
médios se situam entre 24 °C no mês mais frio e 26 °C
no mês mais quente. Em particular, Belém (PA) apresen-
ta temperatura média mensal máxima de 26,5 °C, no
mês de novembro, e temperatura mínima de 25,4 °C, em Fonte: <profwladimir.blogspot.com.br/2012/09/mapas-Brasil-clima.html>.
março. Manaus (AM), por outro lado, possui seus extremos (Adaptado)

28
4.2. Clima tropical continental
O clima tropical envolve a maior parte da região Cen-
tro-Oeste, do Sudeste e partes do Nordeste. As tempera-
turas médias anuais estão acima de 18 °C e há uma al-
ternância nítida entre a estação seca (inverno) e a estação
chuvosa (verão). Os índices de precipitação ficam em torno
dos 1,5 mil mm anuais. No verão, predomina a atuação da
massa equatorial continental e/ou da massa tropical atlân-
tica, isto é, o verão apresenta muito calor e muita umidade
(chuvas convectivas). Em outros casos ocorre o encontro
da mEc com a mPa, que chega já muito enfraquecida às
multimídia: sites
regiões de clima tropical típico, mas causa tempestades www.cptec.inpe.br
frontais ao se encontrar com a primeira. Mais de 70% do
total das chuvas caem entre novembro e março. No inverno
predomina a atuação da massa tropical continental e da 4.3. Clima tropical semiárido
massa polar atlântica, que chega já sem umidade à região O clima semiárido abraça uma região, cujo limite apre-
central do Brasil e o clima é seco. No interior do país senti- senta algumas variações nos diferentes mapas. É uma
mos com nitidez o efeito de continentalidade. Em cidades porção do território nacional, não totalmente contínua,
como Brasília ou Cuiabá, o clima costuma ser bem seco em que as pluviosidades são baixas (no máximo 750 mm/
em julho, cuja temperatura diurna passa facilmente dos 25 ano) e irregulares. O clima semiárido ocupa um pedaço
ºC, alcançando até 30 ºC; mas, à noite, a temperatura não de terra que adentra o país desde uma estreita faixa de
raro cai abaixo dos 15 ºC, chegando aos 10 ºC em algumas terra litorânea na divisa dos litorais cearense e potiguar
ocasiões, diminuindo bastante a média diária. (RN). É o clima denominado sertão nordestino, presente
em todos os estados dessa área brasileira, com exceção
do Maranhão. A região do vale do rio Jequitinhonha, no
norte mineiro, também é semiárida.
semiárido

Fonte: <profwladimir.blogspot.com.br/2012/09/mapas-Brasil-clima.html>.
Fonte: <profwladimir.blogspot.com.br/2012/09/mapas-Brasil-clima.html>. (Adaptado)
(Adaptado)
O sertão nordestino é uma região de grande variabilidade
Na área de clima tropical merece destaque também o Pan- anual na precipitação. Historicamente, sempre foi afetado por
tanal mato-grossense, por ser uma região de clima muito grandes secas ou cheias. O clima tropical semiárido do sertão
quente, que apresenta um longo período de estiagem – de do Nordeste reflete as condições de divergência anticiclônica
abril a setembro. No Pantanal, as médias pluviométricas do ar, isto é, geradora de ventos e dispersora de ar. As altas
estão por volta dos 1,2 mil mm anuais, chovendo cada vez pressões fazem com que a mTa, mEc e mPa, que gerariam
menos à proporção que caminhamos para oeste. instabilidades na região, sejam muitas vezes dissipadas.

29
VIVENCIANDO

Observar como os diferentes climas do Brasil (um país bastante extenso leste-oeste e norte-sul) podem interferir no
dia a dia das pessoas (roupas, culinária, lazer) e na economia (turismo, agropecuária,etc).

Há diversas partes no domínio do clima semiárido, em que explicação pode ser contestada em função das modestas
a evaporação da água é superior à quantidade que cai altitudes e pela irregularidade desse planalto.
em forma de chuva. A desertificação é definida como “a
A presença de uma célula de alta pressão atmosférica (an-
degradação da terra nas zonas áridas, semiáridas e sub-
ticiclonal), geradora de ventos, também dificulta que a mas-
úmidas secas resultantes de fatores diversos, tais como as
sa equatorial continental, a tropical atlântica e a frente po-
variações climáticas e as atividades humanas”. Esse des-
lar levem umidade para a região. Explicações mais recentes
gaste apresenta-se como:
contemplam também o papel das correntes marítimas. É
§ empobrecimento dos solos e de recursos hídricos; que, nas baixas latitudes do atlântico ao sul do equador,
as águas são mais frias, devido à influência da corrente
§ danos à vegetação e à biodiversidade; e
marítima fria de Benguela, que, após atingir costas ociden-
§ redução da qualidade de vida da população afetada. tais da África, onde se origina o deserto da Namíbia essa,
Existem indícios de desertificação em pelo menos cinco corrente se desloca numa rotação anti-horária até o litoral
locais: Gilbués (PI), Irauçuba (CE), Cabrobó (PE), Seridó do nordeste brasileiro, provocando queda na pluviosidade
(RN/PB), Rodelas – Raso da Catarina (BA). Os solos do numa faixa de 10º de latitude desde o litoral do Ceará e Rio
semiárido, em geral, são rasos, pedregosos e pobres em Grande do Norte até o norte de Minas Gerais.
matéria orgânica.
Lá estão as maiores médias térmicas do país (próximo 4.4. Clima tropical úmido
de 26 °C), chegando a 28 °C em algumas cidades como
em Sobral (CE). A massa tropical atlântica atua espo-
radicamente no inverno, mas costuma chegar já sem
muita umidade no sertão. A famosa seca ocorre quando
não chove durante longos períodos de um ano ou mais.
Já houve secas de até três anos em algumas cidades
sertanejas. As áreas em que menos chove, com 9 a 11
meses secos, ficam no “cotovelo” do São Francisco, en-
tre a Bahia e Pernambuco; e na região da Bahia, con-
hecida como sertão de Canudos, onde chove em média
menos de 500 mm/ano.
Na maior parte dos verões, ocorre a penetração da massa
equatorial continental, que já perdeu grande parte da umi-
dade pelo caminho. Os sertanejos chamam o verão de inver-
no, porque, irregularmente, a mEc traz chuvas esporádicas
à região; além disso, essas águas são decorrência da ação
da mEc e amenizam um pouco as temperaturas. As expli-
cações para a origem dessa mancha semiárida ainda são
incompletas e bastante diversas. Uma primeira explicação
seria a presença do planalto da Bordorema, que funciona
como barreira para a passagem dos ventos oceânicos, re- Fonte: <profwladimir.blogspot.com.br/2012/09/mapas-Brasil-clima.html>.
tendo toda a umidade na franja litorânea. No entanto, essa (Adaptado)

30
O clima tropical úmido ou tropical atlântico ou, ain- No domínio do clima tropical de altitude, sobreleva-se a
da, litorâneo úmido, é próprio da faixa litorânea que ação da massa tropical atlântica. Além disso, é frequente
vai da divisa do Paraná e de São Paulo até próximo ao a ação da massa polar atlântica. O encontro dessas duas
“cotovelo” do Rio Grande do Norte. A precipitação média traz muitas chuvas à região, sobretudo no verão, quando a
da área é de 2000 mm/ano. Há o predomínio da massa mPa faz um caminho quase marinho, chegando carregada
tropical atlântica ao longo do ano e existe uma estação de umidade às regiões serranas.
muito chuvosa e outra, menos. Do Sudeste até o sul da
Bahia, as chuvas prevalecem no verão e de Salvador ao Rio
Grande do Norte, no inverno.
4.6. Clima subtropical
O clima subtropical abrange a parte do Brasil ao
4.5. Clima tropical de altitude sul do Trópico de Capricórnio, que apresenta as meno-
res médias térmicas do país, quase sempre inferiores a
O clima tropical de altitude é o que domina nos planal-
18 ºC no ano. As amplitudes térmicas – diferenças entre a
tos e serras do leste e sudeste do Brasil. Dentre eles estão o
média térmica do mês que se escolhe para análise com a
planalto Atlântico, que compreende as áreas das serras do
da maior média térmica do ano e do mês de menor média
Mar e Mantiqueira, além da região metropolitana de São
térmica –, são em geral superiores a 10 ºC de diferença do
Paulo, conhecida como Grande São Paulo; a escarpa de
mês mais frio para o mais quente. A massa tropical atlân-
Botucatu, na borda leste do planalto ocidental paulista; as
tica atua por todo o litoral do sul do país, principalmente a
regiões da serra da Canastra e serra do Espinhaço, ambas
partir do litoral norte do Rio Grande do Sul, levando bas-
em Minas Gerais.
tante chuva durante o ano todo. É importante também a
Nessas áreas, as médias térmicas anuais caem para perto ação da massa polar atlântica e das frentes polares, muito
de 18 °C ou até menos, o que se deve tanto à latitude um presentes na região no verão, trazendo chuvas e, às vez-
pouco maior dessa área – que costuma sofrer ação inten- es, fazendo cair as temperaturas. No inverno, a mPa traz
sa da mPa durante o inverno – quanto ao predomínio de chuvas, geadas e até alguns casos de neve, além do frio, é
regiões de dobramentos antigos relativamente altas. claro. O clima é mais frio nas áreas serranas dos lestes pa-
ranaense e catarinense, e nas serras do Rio Grande do Sul;
em outras áreas, com altitudes menos expressivas, é mais
brando. As precipitações estão em torno dos 1500 mm
anuais e são bem distribuídas ao longo do ano. Mais es-
pecificamente, no norte do Paraná, as chuvas predominam
no verão e, no sul do Rio Grande do Sul, de junho a julho.

Fonte: <profwladimir.blogspot.com.br/2012/09/mapas-Brasil-clima.html>.
(Adaptado)

Em geral, as precipitações são pouco mais acentuadas


que na região de clima tropical. A região com as maiores
médias pluviométricas do Brasil estão na serra do Mar, no
estado de São Paulo, e o lugar no qual já foram registrados
os maiores índices de precipitação do Brasil é Itapanhaú
(próxima à cidade paulista de Mogi das Cruzes), onde já Fonte: <profwladimir.blogspot.com.br/2012/09/mapas-Brasil-clima.html>.
choveu 4500 mm num único ano. (Adaptado)

31
CONEXÃO ENTRE DISCIPLINAS

Restrito inicialmente a poucos círculos científicos, os assuntos aquecimento e evolução do clima global passaram a
ser objeto de estudo em muitos centros de pesquisas em todo o mundo. Estudos climáticos envolvem o funciona-
mento do meio ambiente, conceitos como temperatura, umidade, vento, pressão, radiação solar, fotossíntese em uma
célula vegetal, desenvolvimento de séries matemáticas, química da atmosfera, entre outros. A climatologia é o estudo
científico do clima buscando o benefício do homem no sentido de procurar descobrir e explicar o comportamento
dos fenômenos atmosféricos, baseado em observações durante anos seguidos das variações do tempo atmosférico
de determinada região. O estudo da Climatologia nas salas de aula de Ensino Fundamental e Médio pode estar além
do puro conhecimento abstrato, no sentido de promover a formação de um cidadão crítico ativamente participante
na sociedade, pois os conceitos tratados pela Climatologia inseridos na vida cotidiana dos estudantes são relevant-
es para explicação e a compreensão de fenômenos que atingem diretamente ou indiretamente na sua conduta.
Adaptando Castro (1997) para o conceito acima: “Valorizar essa conceituação de clima é valorizar a capacidade de
apreensão que os alunos têm com relação à importância do tempo na transformação do espaço geográfico”. Os con-
hecimentos e as aplicações da Climatologia em várias áreas de conhecimento como a saúde, planejamento urbano
e territorial, agricultura, turismo, entre outros pode conduzir o entendimento de situações cotidianas, analisando e
explicando os fenômenos atmosféricos presentes na realidade do educando. Outro aspecto motivador são os fre-
quentes eventos meteorológicos que apresentam especificidades climáticas locais muito especiais, com expressivos
impactos ambientais, sociais e econômicos como, por exemplo, inundações, escassez na disponibilidade de água
potável, contaminações diversas do ar e da água nas cidades, entre outros aspectos igualmente importantes.

ÁREAS DE CONHECIMENTO DO ENEM

Habilidades
30 Avaliar as relações entre preservação e degradação da vida no planeta nas diferentes escalas.
Eventos climáticos extremos, como as enchentes na Bacia do Rio Madeira em 2014 e as secas que assolaram o Nor-
deste e o Sudeste do Brasil, e os seus impactos na segurança energética, hídrica e alimentar mostram que o Brasil é
vulnerável aos extremos da variabilidade de clima. Como esses extremos são associados à variabilidade natural do clima,
existem evidências de que eles seriam mais intensos e frequentes num futuro clima mais quente, e de que as atividades
antrópicas podem também ter uma participação significativa nesse processo. A alteração do espaço preexistente para a
habitação humana, na criação de cidades e grandes metrópoles, causa variação climática de diversas formas. As gran-
des cidades e metrópoles possuem diferenças climáticas fundamentais das áreas de campo próximas. As temperaturas
de verão e inverno são maiores, a umidade relativa é menor, a quantidade de poluentes no ar é muitas vezes maior, a
quantidade de nuvens e nevoeiro e as precipitações são maiores que em áreas de campo próximas, já a velocidade dos
ventos e radiação diminuem. Sendo assim, pode-se concluir que as modificações no ambiente para a instalação de ci-

32
dades densamente povoadas causam alterações no clima e na qualidade ambiental percebida. Problemas como chuvas
intensas e torrenciais, inundações, deslizamento de encostas, ventania em determinados locais, assim como instabilidade
climática são causas do efeito criado pela alta densidade populacional e das transformações ambientais.

Modelo
(Enem) A convecção na Região Amazônica é um importante mecanismo da atmosfera tropical e sua variação, em
termos de intensidade e posição, tem um papel importante na determinação do tempo e do clima dessa região. A
nebulosidade e o regime de precipitação determinam o clima amazônico.
FISCH, G.; MARENGO, J. A.; NOBRE, C. A. “Uma revisão geral sobre o clima da Amazônia”. Acta Amazônica, v. 28, n. 2, 1998 (adaptado).
O mecanismo climático regional descrito está associado à característica do espaço físico de
a) resfriamento da umidade da superfície.
b) variação da amplitude de temperatura.
c) dispersão dos ventos contra-alísios.
d) existência de barreiras de relevo.
e) convergência de fluxos de ar.

Análise expositiva - Habilidade 30: Por estar situada em áreas de baixas latitudes e, portanto, de elevadas
E médias térmicas, a Amazônia se caracteriza como uma zona ciclonal, ou seja, área de convergência de fluxos de
ar. Estão incorretas as alternativas: [A], porque a localização latitudinal da Amazônia não caracteriza resfriamento
da umidade; [B], porque o texto não descreve a amplitude térmica da região, que é a diferença entre a máxima e a
mínima temperatura em dado período de tempo; [C], porque a Amazônia é uma área de convergência dos alísios;
[D], porque o texto e a área não caracterizam barreiras de relevo.
Alternativa E

33
DIAGRAMA DE IDEIAS

FATORES CLIMÁTICOS NO BRASIL

CORRENTES MARITIMIDADE
ALTITUDE LATITUDE
MARINHAS CONTINENTALIDADE

MASSAS DE AR

mEc mEa mTc mTa mPa

CLIMAS DO BRASIL

EQUATORIAL

SEMIÁRIDO

TROPICAL

TROPICAL DE
ALTITUDE
TROPICAL
ÚMIDO

SUBTROPICAL

34
AULAS Hidrologia e bacias hidrográficas
13 e 14
Competência: 6 Habilidade: 26

1. Introdução à hidrologia A teoria da desgaseificação primitiva propõe que, durante


a solidificação da crosta, ocorreu uma mudança de tempe-
De que maneira terá surgido essa quantidade imensa de ratura que provocou abruptamente a liberação de elemen-
água no planeta Terra? tos voláteis (gasosos) que deram origem à hidrosfera.
As teorias mais modernas propõem que o aparecimento da A teoria da desgaseificação contínua, atualmente mais
água está intrinsecamente relacionado à origem do Sistema aceita, aponta para uma desgaseificação provocada por
Solar. Devido ao progressivo resfriamento da Terra, houve a intensa atividade vulcânica que assolou o planeta por um
condensação de grandes quantidades de vapor que se preci- longo período e permitiu o constante aumento de elemen-
pitaram na forma de chuvas. As águas foram sendo deposi- tos gasosos na superfície.
tadas nas áreas mais baixas da superfície da crosta terrestre,
originando os oceanos. A ação da força da gravidade reteve Embora ambas as teorias sejam aceitas no meio acadêmi-
esse imenso volume de água junto à superfície. co, elas não são excludentes, e a conjugação desses dois
processos, com temporalidades distintas, é responsável
Durante o processo de formação da crosta e solidificação pelo aparecimento da água, da atmosfera e, em última ins-
do planeta, as moléculas de H2O nos silicatos e em outros
tância, da vida na Terra.
minerais hidratados foram liberadas para a superfície terres-
tre. Essa teoria é conhecida como teoria de desgaseificação.
Há duas vertentes que explicam a liberação de moléculas de 1.1.Ciclo hidrológico
água sob a forma de vapor na superfície.

Vapor transportado para


terra firme

Precipitação
Transpiração

Evaporação
Percolação Precipitação
Evaporação

Lago

Rio
Terra
Oceano

Fluxo subterrâneo

35
A água é encontrada em três estados físicos: gasoso, líqui-
do e sólido. O conjunto das águas contidas no planeta é 2. Mares e oceanos
interdependente e ocorre mediante processos de evapo- Grande parte da Terra é constituída de água, cujo maior
ração, precipitação, infiltração e escoamento, que se con- volume é proveniente dos oceanos. Oceano é uma gigan-
figuram como uma dinâmica hidrológica. A água que se tesca massa de água salgada que ocupa cerca de 71% do
localiza em um lençol freático poderá estar na atmosfera planeta. Para facilitar a orientação, os oceanos são classifi-
ou em uma geleira. cados em: Pacífico, Atlântico, Índico e Glacial Ártico.
O processo que origina o ciclo da água ocorre em todos Os mares fazem parte dos oceanos e são definidos como
os estados físicos. Para conceber esse fenômeno, é preciso grandes massas de água salgada cercadas por terra,
que outro elemento o provoque, ou seja, é necessário que parcial ou completamente. Eles podem ser de três tipos
seja motivado pela energia da irradiação solar. principais:
Apesar da precisão desse processo dinâmico, existe a pos- § Mar fechado: é aquele que não possui nenhuma li-
sibilidade de que ocorra um desmembramento ou uma gação com o oceano, como o mar Cáspio, na divisa da
descontinuidade, isto é, uma grande mudança que com- Europa com a Ásia.
prometa a configuração das paisagens e ponha em risco
§ Mar interior (ou Mediterrâneo): possui uma peque-
diversos tipos de vida no planeta. É o caso do desequilíbrio
na ligação com o oceano; o melhor exemplo é o próprio
ligado ao ciclo natural das águas – o fenômeno do aque-
mar Mediterrâneo (entre a Europa, a Ásia e a África).
cimento global –, que ocasiona o derretimento das calotas
polares e provoca a elevação dos níveis dos oceanos, que § Mar aberto: é aquele que tem grande ligação com
podem submergir ilhas e áreas costeiras, afetando a vida o oceano, cujo exemplo é o mar do Caribe, na Amé-
das pessoas e dos animais dessas áreas. rica Central.

Mares da Europa

Oceano Atlântico Mar do Norte Mar Báltico


Mar da Irlanda

Canal da Mancha

Golfo de Vizcaya
Mar de Azov
Mar Caspio
Mar Negro
Mar Adriático

Mar de Mármara
Mar Mediterrâneo
Mar Egeo

Imagens do mar Cáspio (fechado), do mar do Norte ou de Berents (aberto) e do mar Mediterrâneo (continental)

Maior e mais importante ecossistema do planeta, o mar atmosférica, distribuem umidade e controlam as tempe-
regula a vida na Terra. Sem ele, a vida no planeta não exis- raturas. São os maiores produtores de oxigênio da Terra.
tiria ou, ao menos, seria radicalmente diferente de tudo o Sequestram carbono e metano da atmosfera, mitigando o
que é conhecido. Os oceanos cumprem papel fundamental efeito estufa. O mar guarda um imenso patrimônio de bio-
no equilíbrio climático do planeta: regulam a circulação diversidade e é fonte de alimento para bilhões de pessoas.

36
Possui recursos minerais e farmacológicos inestimáveis, verdade, os oceanos, tal como são conhecidos hoje, não
proporciona lazer e recreação e movimenta o turismo. Os têm idade superior a 200 milhões de anos, cerca de 1/20
oceanos são as grandes autoestradas do comércio global. da história da Terra.
O litoral sempre foi um recurso estratégico na história da A origem dos oceanos está intimamente ligada à formação
humanidade. Muitas nações foram favorecidas pelas tro- da atmosfera e ao resfriamento do planeta, com a conse-
cas comerciais realizadas em seus litorais. Por outro lado, quente formação da litosfera. Foi da atmosfera que veio pelo
países sem litoral foram e são obrigados a contar com a menos metade da água que preenche as bacias oceânicas
“boa vontade” de seus vizinhos para ter acesso ao mar – (acredita-se que outros 50% têm origem em meteoritos). A
é o caso da Bolívia, do Paraguai, da Suíça, da Áustria, do maior parte dos íons que formam os sais da água do mar
Afeganistão, entre outros. veio do intemperismo das rochas que compõem a litosfera.
As plataformas continentais oferecem pesca industrial, As primeiras bacias oceânicas datam do Arqueano, entre
que é fonte de riqueza para países como Peru, Portugal e 3,6 e 3,9 bilhões de anos, isto é, cerca de 1 bilhão de anos
Japão; além disso, possibilitam a exploração de petróleo depois da formação do planeta. É importante observar
em suas bacias. que os primeiros oceanos deviam ter composição bastan-
te distinta da atual, uma vez que refletiam parcialmente a
Embora se conheça cada vez mais e melhor o espaço ter-
composição da atmosfera. O aumento na quantidade de
restre, o conhecimento e a exploração dos mares continu-
oxigênio só teria ocorrido há cerca de 2,2 bilhões de anos.
am restritos.
Um fator determinante para as mudanças climáticas e para
a evolução das espécies é o arranjo de oceanos e continen-
tes na superfície terrestre. No início do Cenozoico (há 60
milhões de anos), a existência de um mar circum-equatorial
(mar de Tétis) favorecia um forte aquecimento das águas
oceânicas e, portanto, uma maior distribuição do calor no
planeta. Em contrapartida, a formação de um oceano em
torno da Antártica, há cerca de 30 milhões de anos, é con-
siderada como parcialmente responsável pelo isolamento
multimídia: livros térmico daquele continente, o que gerou efeitos significati-
vos na circulação oceânica e no clima da Terra.
Bacias hidrográficas e recursos hídricos –
O oceano Pacífico, localizado entre a América, a Ásia e
Cristiano Poleto
a Oceania, possui uma área de aproximadamente 165,3
O presente livro vem trazer um novo milhões de km2 e uma profundidade média de 4 mil me-
agrupamento de informações pertinentes tros. É o maior dos oceanos e tem o ponto batimétrico mais
ao gerenciamento dos recursos hídricos e profundo – a fossa das Marianas –, com cerca de 11 mil
busca ampliar a visão do leitor quanto às metros. O oceano Atlântico separa a Europa e a África
possibilidades e aplicabilidades de diver- da América e é o segundo em área, com aproximadamente
sos conhecimentos e estudos em difer- 82,2 milhões de km2, cuja profundidade média é de 3,3 mil
entes áreas da Ciência para preservarmos metros. O oceano Índico, conhecido no passado como
um bem maior – a Água. mar das Índias, fica entre a África, a Oceania e a Ásia e é
o terceiro em área, com aproximadamente 73 milhões de
km2 e uma profundidade média de 4 mil metros. O oce-
2.1. Oceanos ano Ártico, também conhecido como oceano Glacial
Os oceanos ocupam uma área de quase 362 milhões de Ártico, na região polar Norte, é o de menor área, com
quilômetros quadrados, com uma profundidade média de aproximadamente 14 milhões de km2, boa parte da qual
3.690 metros, perfazendo um volume de mais de 1,3 bi- congelada o ano todo.
lhão de quilômetros cúbicos. Essa divisão, embora seja a mais empregada, não é a úni-
Entretanto, as características das bacias oceânicas não ca. Há estudiosos que distinguem um quinto oceano – o
permaneceram constantes ao longo da história geoló- Antártico –, formado por partes do Atlântico, do Pacífico e
gica da Terra. A forma e a dimensão de cada um dos do Índico, que circundam a Antártica. Essa divisão é pouco
oceanos se modificam em um movimento lento e perma- levada em consideração, uma vez que é imprecisa, pois fal-
nente ligado à movimentação das placas tectônicas. Na tam limites claros para esse oceano.

37
Glacial Ártico

Oceano
Pacífico

Oceano
Oceano Oceano Índico
Pacífico Atlântico

Oceano Antártico

Distribuição dos oceanos no planeta Terra

Riquezas diluídas da Primeira Guerra Mundial, o químico alemão Fritz


Haber descobriu um método para retirar ouro e prata
À medida que os conhecimentos sobre as águas oce-
diluídos das águas oceânicas. Haber desejava ajudar
ânicas foram sendo aprofundados, foi constatada
a Alemanha a se recuperar economicamente e quitar
a presença de todos os elementos químicos nessas
seus débitos de guerra. Ele acreditava que o ouro seria
águas – uma gama surpreendente de riquezas dissol-
encontrado na concentração de uma parte por bilhão.
vidas.
Entretanto, o processo se revelou economicamente
A salinidade dos oceanos é definida como o número inviável, uma vez que a concentração de ouro no mar
de gamas de sais dissolvidos em 1,3 g/mL de água é de cinco a dez partes por trilhão.
do mar. Para cada litro de água do mar, encontram-se
cerca de 35 g de sais dissolvidos, quantidade que se
mantém mais ou menos constante nos oceanos junto 2.2. Ondas e marés
à costa. A salinidade pode variar conforme a quanti-
dade de água doce recebida de rios ou de acordo com A gigantesca massa de água dos oceanos não permanece
os processos de evaporação associados à profundida- parada, pelo contrário, movimenta-se o tempo todo. Para
de da plataforma continental. Também nos mares in- constarar esse fato, bBasta considerar as ondas, as marés e
ternos ocorrem variações de salinidade, como no mar as correntes marítimas.
Morto, cuja concentração é de 250 g/L. Caso toda a As ondas ”clássicas”, na maior parte das vezes, são produzi-
água dos oceanos evaporasse, haveria a decantação das pelos ventos, que passam parte da sua energia cinética
de uma quantidade gigantesca de sais com muitos para a superfície marinha por meio do contato direto e de
metros de espessura. diferenças de pressão (quando chegam à superfície, as mas-
Mas qual é a origem desses sais? Essa grande mas-
sas de ar resfriam ou esquentam, produzindo movimentos
circulares de subida e descida, os quais causam os típicos
sa de sal ainda é tema de discussão. A hipótese mais
formatos e movimentação das ondas). Por isso, em uma
provável é a de que esses sais tenham origem mag-
tempestade, as ondas são mais violentas, porque carregam
mática, ou seja, surgiram no processo de solidificação
bastante energia cinética dos fortes ventos. O comportamen-
da crosta. Os oceanos teriam recebido os sais desde o
to das ondas no mar também depende da relação entre o
início de sua formação. Uma pequena parte teria sido
tamanho da onda e a profundidade da água. É importante
transferida para os continentes, e depois, sob a forma
observar que as ondas não transportam água, mas energia.
de sedimentos químicos, teria retornado aos oceanos
Por esse motivo, quando uma onda passa por baixo de um
graças ao ciclo hidrológico.
barco, o barco praticamente não se desloca, apenas sobe e
Não faltaram tentativas de retirar dos mares elemen- desce. O que se move é o sentido de propagação da onda.
tos de grande valor econômico. Na Alemanha, depois Aliás, ”onda” é exatamente a palavra que faz referência
mais do que direta ao significado físico da palavra.

38
As ondas viajam porque a gravidade puxa a água na cris- esse panorama muda e as ondas se tornam gigantes. Esse
ta (parte mais alta da onda) para baixo. Então, essa água fenômeno é mais comum nos oceanos Pacífico e Índico,
forçada para baixo empurra a massa de água anterior para apesar de o Atlântico já ter registrado um tsunami que
cima, e a onda se move para uma nova posição, como é atingiu a cidade de Lisboa em 1755. O maior tsunami da
possível observar na figura anterior. Note que o atual mo- história ocorreu no Alasca, no ano de 1958.
vimento da água abaixo das ondas é circular ou orbital, o
que confirma a experiência de ser carregado para cima e
para frente à medida que a onda se aproxima, e para baixo
e para trás à medida que ela passa.
§ v = velocidade da onda
§ T = período (tempo para uma crista se formar – um
ciclo)
§ f = frequência (número de ciclos que se repetem du-
rante uma unidade de tempo – geralmente 1 segundo)
Diagrama explicativo da formação de um tsunami
§ λ = comprimento de onda (distância entre duas cristas)
As ondas permitem que nutrientes, ovos, seres com movi-
§ V = λ/T
mentação mais limitada, entre outros, sejam dispersados
§ V = λf com mais eficiência nos mares (e alguns até aproveitam
Os tsunamis são tipos de onda formados por um proces- as fortes tempestades para iniciarem a reprodução ou uma
so diferente. Nesse caso, as fontes de energia cinética são viagem mais longa, aproveitando-se da força das ondas).
fortes choques ou explosões que podem ser causados por Além disso, como é sabido, os fitoplânctons marinhos (pe-
meteoros, explosões de armas humanas e, o que é mais quenos seres microscópicos fotossintetizantes) produzem a
comum, terremotos. No caso dos terremotos, as ondas maior parte do oxigênio presente na atmosfera terrestre. As
podem até passar despercebidas em mar aberto, pois se ondas ajudam a fazer a troca gasosa com a atmosfera, re-
movimentam mais no interior do oceano do que na super- colhendo o excesso de gás carbônico e liberando oxigênio
fície, como uma parede de água em movimento. Quando para o bioma terrestre. As ondas também são excelentes
essas enormes massas de água de longos comprimentos transmissoras de calor ao redor do planeta, influenciando
de onda chegam próximo da costa, elas encontram uma em todo o clima global. Elas transportam energia calorífica
barreira terrestre, acumulando energia violentamente e das áreas mais quentes para as mais frias e vice-versa, aju-
fazendo a massa elevar-se monstruosamente, engolindo dando a manter uma temperatura global média mais ame-
tudo pelo seu caminho. Os tsunamis podem alcançar uma na. As ondas também transportam sedimentos e outros
velocidade de propagação de até 750 km/h. materiais de um ponto ao outro, formando, por exemplo,
as praias. Por fim, é importante mencionar seu papel erosi-
Para ser considerado um tsunami, as ondas precisam ter
vo, o qual é responsável por moldar as regiões costeiras a
um comprimento entre 10 km e 500 km, com um período
partir da sua força de choque.
de formação relativamente lento de alguns minutos. Quan-
do em alto mar, os tsunamis não costumam apresentar As marés correspondem ao movimento diário das águas
uma amplitude (diferença entre a maior e a menor altu- que avançam e recuam, fenômeno esse resultante de for-
ra) significativa; próximo ao litoral, em águas mais rasas, ças gravitacionais que o Sol e a Lua exercem sobre a Terra.

39
A Lua atrai a Terra na mesma intensidade que a Terra atrai evidentes nos equinócios do ano (em março e setembro),
a Lua (3.° lei, ação e reação). Entretanto, devido ao for- quando o Sol está mais próximo da Terra, aumentando
mato arredondado e abaulado do planeta, existem regiões sua influência gravitacional. O efeito de “maré” ocorre
que estão mais próximas da Lua (equador) do que o resto, em todos os materiais constituintes da Terra, da superfície
e, portanto, elas sentem mais a atração gravitacional do rochosa à camada atmosférica, mas são quase impercep-
satélite natural. Quando a Terra e a Lua vão girando, as tíveis devido à falta de fluidez ou por não gerarem efeitos
regiões nos oceanos que sentem mais fortemente a gra- visíveis. Qualquer outra porção de água, como rios e lagos,
vidade lunar também vão mudando, e diferentes pontos também sente o efeito, mas possui pouca massa aquífera
sofrem “puxões” distintos. Considerando o fato de que a para gerar algo substancialmente visível.
água é líquida, maleável e fluída, surgem relevos na su-
LUA
perfície dos mares, os quais vêm e voltam (movimento de SOL
onda), caracterizando as marés.
Para indicar quando o mar sobe e quando ele desce, exis-
tem as terminologias “marés altas” e “marés baixas”. A LUA
maré alta ocorre no ponto mais próximo da Lua e na região TERRA
MARÉ ALTA
oposta do planeta, por causa das forças gravitacionais con-
vergindo nas duas partes do globo. As marés baixas acon-
tecem nas duas faces do planeta que não estão na mesma
direção da Lua, devido às forças de “convergência gravita- TERRA MARÉ BAIXA

cional” virem dos dois lados (como mostrado na Figura a).


SOL
Aqui, o Sol deve ser mencionado, pois ele também faz par-
te da dança gravitacional. Dependendo da sua posição em Lua Cheia
Lua Nova
relação à Lua, ele pode aumentar ou diminuir o efeito das
marés, pois sua força de gravidade pode se somar à do sa- Figura b
télite ou diminuí-la. Quando o Sol está na mesma direção
(oposta/antipodal ou atrás/sublunar) da Lua, as forças se
somam, e as marés ficam ainda mais altas e mais baixas
(marés de sizígia), como é possível observar na Figura b.
Isso ocorre nas luas cheias e novas.
FORÇAS DE
CONVERGÊNCIA LUA
ÁGUA MARITIMA

MARÉ ALTA

A Baía de Fundy, na Nova Escócia, Canadá, possui o maior alcance de


Sublunar
maré do mundo. Nessa região, o alcance de maré pode ir de 3,5 até 16
MARÉ BAIXA TERRA metros, causando erosão na paisagem e criando massivos penhascos.

Antipodal As marés também desempenham o seu papel para a vida


marinha. Em primeiro lugar, elas constroem ricos ecossis-
temas devido aos seus desníveis. Isso é bastante visível
nos rochedos das praias e costas, onde, em cada nível
Figura a atingido pela altura da maré, desenvolve-se um sistema
ecológico distinto. Essas áreas são denominadas “ecos-
No outro extremo, quando o sol está a 90° da Lua, existem sistemas intertidais” e abrigam diversas espécies muito
forças de todos lados, deixando os desníveis entre maré bem adaptadas, uma vez que precisam conviver com as
alta e maré baixa com a menor diferença, e, consequente- cheias e baixas do mar, o que torna o ambiente bastante
mente, produzindo as menores marés (Figura c). Isso ocor- volúvel e desafiador. Em segundo lugar, as marés são a
re nas luas minguantes e crescentes e recebe o nome de base de referência para os ciclos reprodutivos dos orga-
marés de quadratura. Esses fenômenos ficam ainda mais nismos marinhos e até mesmo de seres terrestres.

40
Geomorfologia costeira movimentos relativos entre a terra e o mar. Uma
subida do nível do mar ou uma subsidência da
A geomorfologia costeira descreve e interpreta as terra podem causar a submergência de uma pai-
feições dos litorais e analisa os processos forma- sagem, antes modelada por processos subaéreos.
dores das costas. O ambiente costeiro, mais do que O desenho da linha de costa em uma região de
qualquer outro sistema físico, caracteriza-se pelas morros e vales resulta em uma linha recortada de
mudanças de tempo e espaço que resultam numa baías, golfos e estuários separados por pontas, pe-
variedade de feições geomorfológicas. Esse grande nínsulas e ilhas, como é o caso da linha de costa
dinamismo costeiro resulta da complexa interação no estado de Santa Catarina. Esse tipo de costa é
entre processos deposicionais e erosivos relacio- denominado costa de submergência.
nados com as forçantes – ondas, marés e corren-
tes litorâneas –, além de influências antrópicas. A
complexidade da geomorfologia costeira se deve a
interferências de processos marinhos e subaéreos
sobre estruturas e litologias muito variadas e ao
fato de que seu estudo não se restringe apenas à
parcela territorial atualmente sob a influência da
morfogênese marinha, pois, em virtude dos movi- Linha de costa recortada, com baías e ilhas entremeadas por
mentos relativos, inclui toda a zona que foi afetada pontas, promontórios e penínsulas, Florianópolis, Santa Catarina

por tais processos. Nesse contexto, acha-se forte- Por outro lado, uma queda no nível do mar ou uma
mente vinculada à Geologia do Quaternário. elevação da terra e da plataforma continental ad-
A costa é a zona entre a linha d’ água na maré baixa jacente podem causar uma retração do oceano e
e o limite superior da efetiva ação das ondas. Ela a exposição de parte da plataforma continental.
inclui a praia submersa, exposta na maré baixa e Como a plataforma continental é uma área de se-
submersa na maré alta, bem como a pós-praia, es- dimentação, a sua superfície é suave e o resultado
tendendo-se em direção à terra, do limite da maré é uma costa de emergência, como é o caso da cos-
alta, mas inundada em marés altas excepcionais ou ta do Rio Grande do Sul.
por grandes ondas durante tempestades.
A linha de costa é a linha d’água migrante entre
as marés alta e baixa. A zona da costa proximal,
compreendendo a zona de ressaca (com a reben-
tação de ondas) e a zona de marulho (balanço)
que também migram durante as marés. A zona de
Costa de emergência, Pinhal, Rio Grande do Sul
rebentação (onde as ondas quebram) se limita mar
adentro pela zona de alto-mar que se estende por As morfologias litorâneas são formas resultantes
um limite arbitrário em águas profundas. Na zona das ações principalmente das águas oceânicas.
de praia ocorre principalmente sedimento arenoso Essa dinâmica se deve aos efeitos causados pelos
confinado à linha de costa estendendo-se para a impactos das ondas marinhas sobre o litoral, que,
praia submersa. A costa é uma zona de largura va- com o passar dos séculos, vão aos poucos transfor-
riável entre a zona de praia e a zona de praia pro- mando as paisagens.
ximal, além da linha de rebentação, estendendo-se Os sacos, as baías e os golfos assemelham-se a uma
para terra até o limite de influência marinha; pode ferradura ou arco que se comunica com o oceano. O
terminar em uma escarpa, em borda de um estuá- que muda é apenas o tamanho. O saco é o menor;
rio, em um cinturão de dunas ou em uma faixa de o golfo, o maior. Ao longo do tempo, a comunica-
lagoas – pântanos alinhados. ção com o oceano pode ser diminuída por causa da
constituição de uma restinga. Se essa restinga conti-
Tipos de costas nuar aumentando, pode ocorrer o fechamento desse
Quase todas as linhas de costa se originaram de arco, formando uma lagoa costeira.

41
Baía de Guanabara, Rio de Janeiro
Barra do Cunhau, Rio Grande do Norte
Enseada refere-se a uma praia em formato de
Ponta, cabo e península são formas que avançam
arco, semelhante à baía, porém com o arco mais
do continente para o oceano; a diferença entre elas
aberto. Na enseada, os arcos que a circundam
é a dimensão: pontas são menores que cabos, que,
são mais afastados e a “curva” da praia é menos
por sua vez, são menores que penínsulas.
acentuada.
A barra é uma formação geológica que pode
ocorrer nas desembocaduras de canais, estreitos,
estuários, rios e outros cursos de água devido à
acumulação de material de aluvião, paralelo à cos-
ta, na linha onde a corrente do curso de água e a
do corpo onde ele desemboca se equilibram. Nesse
ponto, é comum haver uma linha de rebentação
devido à diminuição da profundidade. Algumas
Ponta do Seixas, João Pessoa – PB
barras podem formar ilhas, penínsulas, istmos, etc.

Exemplo de baía cercada por dois cabos

Os recifes são barreiras próximas à praia que diminuem ou bloqueiam o movimento das ondas. Podem ser de origem
biológica, constituídas por animais marinhos, ou arenosa, quando formadas por restinga que se consolida em rocha
sedimentar.

2.3. Correntes marítimas disso, as correntes marítimas se deslocam de acordo com


os hemisférios da Terra. No Hemisfério Norte, seguem no
As correntes marítimas são massas menores de água que sentido horário e, no Hemisfério Sul, no sentido anti-horário.
se deslocam em direções distintas. Elas mantêm suas ca- As principais correntes marítimas são a corrente do Golfo, que
racterísticas de cor, salinidade e temperatura, ou seja, não se move no sentido Sul-Norte pela costa leste dos EUA e de-
se misturam. Esse deslocamento é causado pela ação dos pois pela Europa; a corrente do Brasil, que se move no sentido
ventos e pelo movimento de rotação da Terra. Em razão Norte-Sul pela costa brasileira; a corrente de Humboldt, que

42
se move pelo oceano Pacífico e está relacionada ao El Niño; e a corrente de Benguela, que se move no sentido Oeste-Norte.

Correntes marítimas – temperatura e direção

De acordo com a temperatura do local em que se formam, se formam fortes nevoeiros. Descarregada a umidade no
as correntes marítimas são classificadas em correntes oceano, as massas de ar chegam ao continente secas, cau-
quentes, formadas nas zonas equatoriais (Guianas, golfo sando a formação de desertos.
do México, Brasil e sul-equatorial), e correntes frias, for-
madas nas regiões polares (Labrador, Humboldt, Malvinas, 2.4. Degradação e poluição marinha
Benguela e circumpolar-antártica).
A importância dos oceanos e mares na manutenção da
À semelhança dos ventos, as correntes marítimas são bas- vida sobre a Terra é indiscutível e fundamental. Eles retêm
tante carregadas de energia cinética, que pode ser aprovei- calor, regulam os climas e causam as precipitações que per-
tada para gerar energia, como a eólica. mitem a produção agrícola que sustenta a humanidade,
graças à evaporação de sua grande massa líquida somada
Correntes quentes, como a do golfo do México, amenizam
a demais fatores climáticos propícios. Alimentam rios, lagos
os invernos nas ilhas britânicas e em parte da Escandinávia;
e mananciais, oferecem pesca, transportes, exploração de
correntes frias, quando próximas ao litoral de continentes,
petróleo, gás natural e outros minerais.
provocam precipitações no mar que deixam os ventos prati-
camente sem umidade para o continente. É a principal causa Entretanto, os oceanos têm sido a parte da esfera da vida
do aparecimento de desertos nas áreas de sua influência. mais atingida e ameaçada por uma grande variedade de
impactos ambientais: rios poluídos levam até eles dejetos
A circulação de correntes frias e quentes entre a superfície acumulados em seu curso, que, perdidos na imensa mas-
e as profundezas dos oceanos, fenômeno conhecido como sa de água salgada, são levados pelas correntes marinhas,
ressurgência, é responsável pela renovação e continuidade afetando a vida de regiões distantes de onde foram lan-
da vida, trazendo mais nutrientes para a superfície (como é çados. As mais atingidas são as mais próximas aos litorais
o caso do Pacífico), aumentando a piscosidade. – portos e cidades turísticas.
Correntes frias, como as de Humboldt, na costa oeste da Derramamento de petróleo, lançamento de esgotos urba-
América do Sul, ou as de Benguela, na costa oeste africa- nos e de lixo atômico em águas marítimas e oceânicas são
na, são responsáveis pela formação de desertos nos conti- preocupantes. No Brasil, a baía de Guanabara, no Rio de
nentes próximos aos litorais, como o Atacama, no norte do Janeiro, está entre as áreas mais atingidas. Em janeiro de
Chile, e o Kalahari, na Namíbia. 2000, ela recebeu o impacto de 1,3 milhão de litros de
Uma vez frias, essas correntes resfriam a atmosfera junto óleo que vazaram de um duto da Petrobras.
ao oceano, fazendo com que sua água se condense e se Também integram a lista de desastres ambientais em águas
precipite sobre as marés. Tradicionalmente, são áreas onde oceânicas brasileiras o afundamento da plataforma P-36 da

43
Petrobras, responsável pela extração de petróleo na bacia de que vêm modificando negativamente a atmosfera, a litos-
Campos, no Rio de Janeiro, em 2001, e o vazamento de 86 fera e a hidrosfera – elemento da biosfera que se divide,
mil litros de óleo de um cargueiro no terminal petrolífero de especialmente, em águas continentais e oceânicas.
São Sebastião, no litoral norte do estado de São Paulo.
De fato, nota-se um preocupante descaso com os ambien-
O transporte de petróleo é realizado por navios petroleiros, tes marinhos. Embora sejam dotados de extrema capaci-
projetados especialmente para esse fim. Contudo, não faltam dade de regeneração e de diluir a poluição, nas últimas
casos de navios que navegam sem as condições necessárias décadas os oceanos têm sido alvo de esgotos, produtos
de segurança e de conservação, o que permite a ocorrência químicos e industriais, petróleo, lixo e fertilizantes agrícolas
de desastres ambientais de graves proporções. As manchas em quantidade bastante superior a de sua capacidade de
escuras nas águas do mar, formadas em decorrência de der- regeneração. Estima-se que cerca de 14 bilhões de tonela-
ramamento de petróleo, são conhecidas como marés negras.
das de poluentes atingem os oceanos anualmente.
Os maiores acidentes causados por petroleiros aconte-
Por esse motivo, o litoral passou a concentrar um volume
ceram no litoral do Alasca (1989), nas ilhas Galápagos
inestimável de elementos orgânicos, consequentemente
(2001) e no litoral da Galícia, na Espanha (2002). Neste, o
de microrganismos altamente prejudiciais aos animais
navio Prestige, de bandeira das Bahamas, contratado por
britânicos, partiu-se ao meio e afundou com toneladas de marinhos e comprometedores do ciclo da cadeia alimen-
óleo que atingiram regiões litorâneas de Portugal, França e tar. Resultado: contaminação das águas marinhas com
Espanha, causando graves danos ao meio ambiente. prejuízo de pontos turísticos litorâneos, da oferta e da
saúde de peixes.
O lixo atômico armazenado em caixas metálicas hermeti-
camente fechadas e despejadas no fundo dos mares ainda Talvez o melhor exemplo disso tudo esteja no mar do Norte
não causou impactos ambientais conhecidos. No entanto, e na costa do Japão, duas das regiões mais industrializadas
uma das grandes preocupações dos ecologistas é o sub- do planeta. Nesses locais são lançados anualmente milhões
marino nuclear russo Kursk, que afundou em agosto de de toneladas de esgoto doméstico e industrial, muitos ele-
2001 no mar de Barents, com grande quantidade de com- mentos não biodegradáveis, como plásticos e detergentes.
bustível atômico em seu interior. A concentração desses agentes poluidores reduz o nível de
Atualmente, já não se esconde a preocupação com os oxigenação das águas e altera drasticamente o ambiente,
impactos ambientais na natureza causados pelo homem, matando espécies que lá vivem.

Infográfico das principais consequências dos vazamentos de petróleo

44
3. Águas continentais subterrâneo. Se esses lençóis atingirem a superfície, dão
origem às nascentes dos rios.
Uma pequena parte de toda a água do mundo localiza-se Entretanto, nem todos os rios têm essa origem. Alguns
nas áreas continentais. Os rios representam apenas uma nascem do degelo das neves de regiões montanhosas,
pequena porcentagem delas, e suas águas sempre foram quando há elevação da temperatura; outros nascem em
um fator determinante para a fundação das cidades. regiões lacustres.
Será que as pessoas que vivem em áreas urbanizadas Existem rios perenes, ou seja, que nunca secam e mantêm
conseguem imaginar qual a origem dos rios que cortam seu curso de água durante o ano todo, mesmo sob forte
sua cidade? estiagem, e há os temporários ou intermitentes, que desa-
parecem nas épocas de seca. Rios perenes vêm ganhando
Diagrama de barras da distribuição da água na Terra novos aproveitamentos em regiões áridas e semiáridas, al-
terando a feição dessas regiões. No sertão nordestino, vêm
permitindo a irrigação e o incremento da produtividade das
lavouras e da pecuária em áreas próximas ao seu leito.

3.1. Rios multimídia: vídeo


Fonte: Youtube
Sobre rios e córregos

3.1.1. Regime fluvial


Boa porosidade e
Nível boa permeabilidade A variação do volume de água dos rios durante o ano rece-
hidroestático be o nome de regime. Se alvos de enchentes e vazantes por
águas das chuvas, têm um regime pluvial; se em razão de
Aquifero livre degelo de neve de montanhas, o regime é nival. Há os que
se avolumam graças a ambos os regimes, como é o caso da
Camada Fraca porosidade e
cabeceira do rio Amazonas.
impermeável fraca permeabilidade
Outros fatores também interferem no comportamento de
um rio, como relevo, cobertura vegetal ou não ao longo
Aquífero cativo de sua bacia hidrográfica e natureza do solo. Terrenos
com relevo acidentado, fortes declives e solos pouco per-
Camada Boa porosidade e meáveis influem para que o regime dos rios seja irregular,
impermeável boa permeabilidade
com violentas cheias e grandes vazantes.
Lençol de água freático ou aquíferos Os rios que deságuam em outros rios são chamados de
Pense em um rio que corta sua cidade. Onde ele nasce? afluentes. Também podem despejar suas águas em lagos,
Como se forma? Para saber a origem da maioria dos rios é mares e oceanos. O ponto onde termina o curso de um rio re-
preciso entender o que acontece com as águas superficiais. cebe o nome de foz. E foz pode ser do tipo estuário ou delta.
Parte das águas das chuvas escorre e parte delas infiltra-se § Estuário – a foz do rio se abre largamente em apenas
no solo. Ao encontrar camadas impermeáveis, a água infil- um canal de escoamento, sem que haja acumulação
trada forma o chamado lençol freático ou lençol de água de sedimentos.

45
§ Delta – foz com intensa sedimentação de detritos que
2 A drenagem retangular, desenvolvida
dá origem a ilhas muito próximas umas das outras, 2 num terreno retangular,
A drenagem rochoso e densamente
desenvolvida
criando uma série de canais por onde as águas são es- fraturado,
num terrenotende a seguir
rochoso o padrão das
e densamente
fraturas.
fraturado, tende a seguir o padrão das
coadas. Esse nome é creditado aos gregos, que, ao se fraturas.
depararem com o delta do Nilo, acharam que seus bra-
ços lembravam muito a letra grega delta maiúsculo (D).
§ Mista – abre parte em estuário, parte em delta.

3 A drenagem em treliça desenvolve-e em


3 terrenos de vales
A drenagem e cristas
em treliça alternados,em
desenvolve-e
onde as rochas
terrenos de valescom diferentes
e cristas resis-
alternados,
tências
onde asàrochas
erosãocom
estão dobradasresis-
diferentes em
anticlinais e sinclinais.
tências à erosão estão dobradas em
anticlinais e sinclinais.
Crista de rocha resistente
Crista de rocha resistente

Sinclinal
AnticlinalSinclinal
Foz em estuário e foz em delta Anticlinal

4 O padrão de drenagem radial desen-


3.2. Bacias e rede hidrográficas 4 volve-se
O padrãonum
como umnum
volve-se
grande cume
de drenagem
grande
isolado,
radial desen-tal
cume isolado, tal
vulcão.
grande
como um grande vulcão.
Rede hidrográfica corresponde ao conjunto de rios de
uma bacia.
Bacia hidrográfica corresponde à rede hidrográfica e à sua
área de captação de água. Muitas bacias drenam suas
águas em direção ao mar, outras correm para o interior.
Em razão disso, são classificadas de acordo com a direção
da drenagem:
§ Exorreica – drenagem voltada para o oceano; os rios
correm para o mar.
§ Endorreica – drenagem no sentido do interior do 4. Trabalhando em silêncio:
continente.
a modelagem do relevo
§ Arreica – drenagem característica de áreas desérticas.
Os rios realizam um trabalho ininterrupto de destruição,
§ Criptorreica – drenagem subterrânea, típica de áreas transporte e sedimentação, denominado ciclo de erosão
de cavernas. fluvial. Eles escavam seu próprio leito, enquanto que, em
suas margens, a erosão forma as vertentes dos vales por
3.2.1. Outros tipos de drenagem onde eles correm. A velocidade de suas águas é determi-
1 A drenagem dendrítica é caracterizada pela nada pela declividade dos terrenos que cortam.
ramificação similar aos galhos de uma árvore.

Rio principal Tributário

Grand Canyon sendo erodido pelo rio Colorado

2 A drenagem retangular, desenvolvida


46 num terreno rochoso e densamente
fraturado, tende a seguir o padrão das
fraturas.
Um rio nunca é um corpo d’água solitário na superfície O potencial econômico desse compartimento da bacia tam-
terrestre. Ele sempre compõe uma bacia hidrográfica como bém é alto, pois, devido à elevada capacidade de vazão das
tributário – também denominado afluente – ou como rio águas, a implantação de usinas hidroelétricas, sistemas de
principal da bacia. Por sua vez, uma bacia hidrográfica pos- navegação com embarcações de grande calado e projetos
sui compartimentos conforme a evolução da capacidade de irrigação é efetuada com grande frequência; por um lado,
de fluxo de água e de materiais geológicos e orgânicos que isso aquece a economia das localidades dispostas nesse
compõem esse fluxo, orientados pela compartimentação compartimento da bacia; por outro, impulsiona diversos ní-
do relevo em torno da bacia, cujo declive é o principal fator veis de impacto ambiental negativo. Essa ambiguidade deve
de orientação para a direção que esses fluxos de água to- ser estudada na forma de pontos de sensibilidade política e
mam constituindo a bacia. Também é levada em conta na econômica. Também deve ser levada em conta a capacidade
diferenciação desses compartimentos da bacia a variação dos governos de considerar o potencial desses comparti-
do volume de água durante o ano, o volume de sedimentos mentos em seus planos estratégicos de exploração de seus
ou clastos e a velocidade de transporte desses materiais. territórios e de efetuar avaliações de impacto ambiental ade-
Esses compartimentos são o alto curso ou curso superior, quadas, com medidas de redução de impacto a ser implan-
médio curso ou curso médio e baixo curso ou curso inferior. tadas no início dos programas de instalação dos projetos de
aproveitamento econômico das bacias.
4.1. Alto curso
O curso superior de um rio é a sua parte mais inclinada,
4.3. Baixo curso
em que o poder erosivo e de transporte de sedimentos é Nesse compartimento específico de uma bacia hidrográfica,
muito intenso. As margens são bem aproximadas e o fun- o rio principal deixa de ser um agente erosivo e passa a ser
do estreito; as águas límpidas e, a princípio, rasas e velo- quase completamente um agente depositor de sedimen-
zes. A força das águas escava vales em forma de V. Se as tos. No baixo curso há altas taxas de partículas, tornando
rochas do terreno são muito resistentes, o rio circula por as águas barrentas e de cor fortemente marcada pelos ti-
elas formando gargantas ou desfiladeiros. A densidade de pos de minerais resultantes do processo erosivo da bacia
partículas no alto curso é menor, pois o rio está iniciando e da concentração de outros materiais, como os materiais
o seu trabalho erosivo nesse compartimento; assim, essas orgânicos quando em seu estado natural. A capacidade de
águas cristalinas e com baixas temperaturas descem pelas vazão é baixa, caracterizando águas lamacentas, com velo-
encostas da bacia modelando feições geomorfológicas. cidade menor do que nos compartimentos anteriores (alto
e médio curso). As águas podem ser lançadas por quilô-
metros dentro do corpo de água seguinte, em que a bacia
4.2. Médio curso lança o término de seu trabalho, seja um lago, uma laguna,
O médio curso de uma bacia hidrográfica é marcado pela um mar ou um oceano. Há registros do rio Amazonas no
altíssima capacidade de vazão, isto é, a velocidade de suas Brasil que indicam lançamentos de águas doces e lama por
águas e a capacidade de transportar grandes quantidades mais de 360 quilômetros oceano Atlântico adentro. Os rios
de sedimentos é a mais elevada em toda a bacia. Trata- Nilo, no nordeste da África, e Mekong, na península da In-
-se do topo de sua capacidade de vazão hídrica. Também dochina, também apresentam esse fenômeno de elevadas
é considerado o elevado potencial hidráulico, tornando a descargas em suas “bocas” (foz), visíveis em fotos de saté-
calha – relação margem-margem-fundo – ampla e cauda- lite nos mares onde ocorrem suas desembocaduras.
losa, com grandes turbilhões de superfície caracterizando No baixo curso dos rios é demarcado o chamado Nível de
forte correnteza e resultando em uma rede de drenagem Base da Bacia Hidrográfica. O Nível de Base geralmente
de escopo amplo. Em países tropicais como o Brasil, a den- determina, entre vários fatores, a “idade” da bacia hi-
sidade da rede hidrográfica do médio curso de um rio é drográfica, sua capacidade de vazão de sedimentos, a
tão grande que torna-se possível perder qual o traço que porcentagem de relevo esculpido e a ser esculpido e ve-
marca o rio principal e identificar quais são os tributários locidade das águas. Essas informações são essenciais nos
em uma carta de grande escala cartográfica. programas de uso das águas de uma bacia hidrográfica e
Nesse compartimento, o papel da mata ciliar é de suma im- determinam as localidades mais adequadas para projetos
portância para a manutenção do balanço hídrico – média de irrigação, mineração e energia hidroelétrica.
do fluxo das águas nas estações chuvosas e de estiagem, Grande parte dos desastres ambientais ocorridos nesses
tornando o rio caudaloso e perene (curso d’água ativo o ano tipos de empreendimentos pode ter sua origem na esco-
inteiro). Também é função dessa mata impedir a evaporação lha equivocada do local de intervenção. Há vários casos de
das águas que extrapolam a calha na época das cheias. ruptura de barragem conhecidos pela execução do projeto

47
não ter considerado a localidade correta da intervenção, a A barragem de Valo Grande é um caso conhecido de desas-
capacidade de vazão, a velocidade das águas ou o compor- tre por motivo de escolha do ponto de intervenção ocorrer
tamento das estações de estiagem e chuva. A tomada de no baixo curso da bacia do rio Ribeira de Iguape no segundo
decisão de qual compartimento da bacia é o mais adequa- quartel do século XIX. O acúmulo de sedimentos típicos des-
do para sofrer a intervenção com a menor possibilidade de se compartimento da bacia resultou em um grande desastre
impacto ambiental deve considerar esses fatores naturais, para o município de Iguape e grande parte do Lagamar (Sis-
além dos fatores socioambientais (comunidades de fauna, tema Lagunar de Iguape, Cananéia, Ilha Comprida e Ilha do
flora e humanas envolvidas). Cardoso no litoral sul do estado de São Paulo).

O mercúrio, usado por garimpeiros para separar o ouro da


4.4. Lagos areia e das pedras, é um dos mais tóxicos e perigosos po-
Nem todos os lagos possuem a mesma origem. A maioria luentes. No Brasil, a Amazônia é uma das regiões que mais
deles é formada por depressões ou falhas preenchidas por sofrem contaminação com mercúrio, devido ao grande nú-
águas na superfície terrestre; outros, no entanto, como o mero de garimpos na região. O mercúrio concentra-se no
caso dos lagos do Canadá, possuem origem glacial. O Bra- organismo dos peixes e afeta o homem que o consome. No
sil é pobre em formações lacustres. As antigas depressões organismo humano, causa graves problemas neurológicos,
são hoje bacias sedimentares, graças ao depósito e ao acú- podendo levar à morte.
mulo de sedimentos ao longo de milhões de anos.
O chumbo causa envenenamento agudo ou crônico, deno-
minado saturnismo, cujos sintomas são sede intensa, secu-
4.5. Poluição das águas ra na garganta, cólicas localizadas, convulsões e paralisia
A poluição das águas agrava ainda mais o problema de nas extremidades inferiores.
sua disponibilidade. É decorrente da expansão das ativida- O cianeto, por sua vez, é altamente tóxico. Em grandes
des industriais e agrárias e do crescimento das cidades e da doses pode levar à morte. Em janeiro de 2000, a Hungria
população mundial. sofreu impactos ambientais provocados pelo derramamen-
As principais fontes poluidoras da água, consequência di- to de cianeto vazado de uma mina de ouro na Romênia,
reta desses fatores, são o lixo sólido e seus resíduos, os nos rios Tisa e Danúbio. O acidente prejudicou seriamente
agrotóxicos em geral, os esgotos sem tratamento e os resí- a pesca, o abastecimento de água e a irrigação.
duos das mineradoras.
Os dejetos domésticos são responsáveis por 85% da polui-
ção das águas; as indústrias são responsáveis pelos 15%
restantes. Os dejetos domésticos e industriais (efluentes)
deveriam ser tratados antes de ser lançados na água.
A maioria dos rios recebe suas águas das chuvas, cujo volu-
me ou caudal varia durante o ano. Em princípio, a poluição
das águas fluviais agrava-se na época da estiagem; a dimi-
nuição do caudal resulta na perda da capacidade de diluição
dos poluentes. Substâncias como mercúrio, chumbo e ciane- Espuma resultante da concentração de detergentes oriunda do esgoto no
to são verdadeiros venenos para as águas fluviais. rio Tietê

48
humanas que presenciamos. Mesmo com projeto
adequado, operação cuidadosa e monitoramento
contínuo – o que parece ter sido o caso tanto em
Mariana quanto em Brumadinho –, rupturas têm
ocorrido nas barragens de montante, indicando que
a engenharia ainda não compreendeu por inteiro o
comportamento complexo das mesmas. As previ-
sões de comportamento simplesmente não são con-
fiáveis em um nível que garanta segurança aceitável.
multimídia: música
Fonte: Youtube
Sobradinho – Sá e Guarabira

Outro tipo de contaminação das águas dos rios não está li-
gado a dejetos, mas à temperatura das águas utilizadas na
refrigeração das usinas termelétricas, que provocam altera-
ções na vida dos rios atingidos. É a “contaminação termal”,
que mata inúmeras espécies de peixes e da flora aquática.
Vazamentos de petróleo também causam sérios danos
ambientais, como o ocorrido em 2000, quando o produto
de uma refinaria no estado do Paraná contaminou os rios
Barigui e Iguaçu.
Da mesma forma, a indústria canavieira é responsável
pela poluição dos rios da região em que se estabelece.
As usinas produzem um poluente denominado vinhoto
– resíduo da destilação do álcool de cana-de-açúcar que,
muitas vezes, é jogado diretamente nos rios, causando a
morte de milhares de peixes.

Mariana e Brumadinho confirmam a Antes e depois em Brumadinho


falência das barragens de montante Já existem métodos construtivos mais seguros,
As rupturas das barragens de Fundão, em Maria- técnicas para desaguamento dos rejeitos e possibi-
na, e de Feijão, em Brumadinho, somadas a outras lidades de seu reúso benéfico em outras atividades
tantas rupturas de barragens de rejeitos de mine- econômicas. Há muito campo para inovação em
relação ao desaguamento e reúso, no que as uni-
ração ocorridas nas últimas décadas no Brasil e no
versidades e centros de pesquisa podem e devem
mundo, não deixam dúvida: é imprescindível apo-
ajudar. Também é preciso, entre tantas carecias no
sentar definitivamente o alteamento de barragens
controle efetivo da segurança na área da minera-
pelo método de montante, ou seja, a construção ção, criar normas técnicas e padronizar e unificar
de novas etapas da barragem na parte interna do os regulamentos, leis e portarias dispersas em di-
reservatório, sobre os rejeitos já depositados. versos órgãos estaduais e federais.
Entre as outras alternativas disponíveis, o método Mais do que tudo, é fundamental proibir a con-
de jusante, em que a barragem é erguida na parte strução de novas barragens pelo método de mon-
externa (“para fora”), sobre o solo natural, é mui- tante, interromper as atividades das que estão em
to mais seguro, e é indecoroso alegar seu custo operação e aplicar emergencialmente um plano de
mais alto diante das perdas ambientais e em vidas diagnóstico e recuperação das minas já encerradas.

49
4.6. Contaminação dos mananciais e implicações ecológicas. Na esfera de um estudo hidrológi-
co, apesar do conceito tácito, ainda existem alternâncias no
desperdício foco principal, de acordo com a assimilação dos técnicos
Mananciais são todos os recursos hídricos aproveitados que o aplicam em seus conhecimentos.
pelo homem. Podem ser superficiais, como rios, lagos e As bacias podem, de forma geral, ser subdivididas em dois
represas, ou subterrâneos, como os aquíferos. São alimen- compartimentos interdependentes, definidos no âmbito da
tados pelas águas das chuvas e sua formação depende da geomorfologia, por uma área de terra firme e uma de pla-
vegetação e do tipo de solo. O desperdício e a poluição nície, de modo que podem ser encontrados o rio central e
dos mananciais por resíduos industriais e lixo doméstico as regiões inundadas. As áreas aplanadas de uma bacia hi-
orgânico (chorume) têm sido uma preocupação mundial. drográfica desempenham um papel ecológico essencial na
Os habitantes das grandes cidades – notadamente de paí- gestão dos alagamentos, regulando as jusantes e enchen-
ses subdesenvolvidos – têm sido os mais prejudicados pelo tes do rio central. De modo geral, as regiões inundáveis
mau uso dos recursos hídricos. Racionamento de água e são eficazes filtros biológicos, permitindo que a qualidade
comprometimento da saúde, além da transmissão de do- do recurso hídrico seja mantida. Esse papel na gestão de
enças através das águas poluídas, são consequências da abundância e qualidade da água desse método é de suma
displicência das autoridades com relação à conservação da importância não apenas para esse compartimento, mas
natureza e da falta de informação e de educação ambien- também para toda a bacia hidrográfica, sendo declarado
tal da população no uso desses recursos. Em São Paulo, a um procedimento estratégico de forma sustentável das ati-
população de baixa renda ocupa clandestinamente áreas vidades sociais e econômicas em termos regionais.
de mananciais, como as das represas Billings e Guarapiran- A chuva é a principal responsável pela entrada de água
ga –, responsáveis pelo abastecimento de água da popula- no ciclo hidrológico. Quando precipita, parte dela escoa
ção. Nelas são lançados lixo e todo tipo de dejetos. pelos rios, parte infiltra e o restante evapora ou fica nas
folhas da vegetação. Ao longo desse trajeto, a água é uti-
lizada de diversas maneiras, encontrando o mar ao final,
onde evapora e condensa em nuvens que seguirão com o
vento, reiniciando o ciclo.
Essa área é limitada por um divisor de águas que a separa
das bacias adjacentes e que pode ser determinado nas car-
tas topográficas. As águas superficiais, originárias de qual-
quer ponto da área delimitada pelo divisor, saem da bacia
passando pela seção definida, e a água que precipita fora
da área da bacia não contribui para o escoamento na seção
considerada. Assim, o conceito de bacia hidrográfica pode
Vista aérea do Cantinho do Céu, às margens da
represa Billings, em São Paulo (2014) ser entendido por meio de dois aspectos: rede hidrográfica
e relevo. Em qualquer mapa geográfico, as terras podem ser
A atividade agrícola também contribui direta e indireta-
subdivididas nas bacias hidrográficas de vários rios
mente para a degradação dos mananciais, seja pelo uso de
agrotóxicos, seja pela erosão do solo. A grandeza territorial e os climas de alta umidade dão ao
Brasil uma extensa rede hidrográfica, que reúne as maiores

5. Bacias hidrográficas bacias do mundo e confere destaque político significativo


em relação à água. Ela é um importante modelador do re-
Bacia hidrográfica ou bacia de drenagem é a extensão ou levo que atua tanto sobre a superfície como no próprio
superfície de escoamento de um rio central e seus afluen- solo, responsável por transformações mecânicas e quími-
tes. As bacias se situam em áreas de maiores altitudes do cas que ocorrem a partir de processos erosivos e de depo-
relevo por partidores de água, nos quais as águas das chu- sição de sedimentos.
vas são drenadas superficialmente gerando os rios e ria- De maneira geral, a hidrografia brasileira caracteriza-se por:
chos ou infiltram-se no solo para formação de nascentes
§ riqueza em rios e pobreza em formações lacustres (de
e do lençol freático. Desse modo, sua definição tem-se ex-
lagos);
pandido com uma amplitude que supera aspectos hidroló-
gicos, abrangendo o estudo da estrutura biofísica, tal como § rios direta ou indiretamente tributários do oceano
as transformações nos paradigmas da utilização da terra e Atlântico;

50
§ desembocaduras em forma de estuário (por um só ca- rios que provêm de terrenos cristalinos, ricos em nutrientes
nal), à exceção dos rios Parnaíba, Acaraú e Piranhas, minerais como cálcio e magnésio. Em oposição, os rios de
com foz em deltas, em razão do depósitos de sedimen- águas barrentas, como o Amazonas, carregam muitos sedi-
tos, e do rio Amazonas, cuja foz é mista; mentos e nutrientes. E os rios de águas escuras, como o Ne-
gro, têm essa coloração em razão do material orgânico semi-
§ maioria dos rios localizados em planalto;
decomposto que carregam em áreas cobertas por florestas.
§ maioria dos rios sob regime tropical austral: cheias de Com pH maior que 7, suas águas têm acentuada acidez e
verão e vazante no inverno; pouquíssimos sais minerais, à exceção de potássio e sódio.
§ três divisores de águas no continente sul-americano: O regime fluvial misto, pluvial e nival (de neve), da bacia
cordilheira dos Andes, planalto das Guianas e planalto Amazônica é o único do Brasil. No Peru, os rios que formam
Brasileiro; e o Solimões são alimentados pelas chuvas e pelo degelo das
§ predomínio de rios exorreicos – correm direta ou indi- neves da cordilheira Andina e, graças ao clima equatorial
retamente para o oceano Atlântico – e perenes – não úmido, são abundantes o ano inteiro. A bacia Amazônica
secam. está localizada em uma região de planície, tem cerca de 20
mil km de rios navegáveis, propícios ao desenvolvimento
do transporte hidroviário. É o caso dos rios Madeira, Xingu,
5.1. Principais bacias Tapajós, Negro, Trombetas e Jari. A hidrovia do rio Madeira,
hidrográficas do Brasil inaugurada em 1997, opera de Porto Velho a Itacoatiara,
no Amazonas, e tem mil km de extensão. Por ela escoa
5.1.1. Bacia Amazônica a maior parte da produção de grãos (soja) e de minérios
(cassiterita) da região.
O potencial hidrelétrico amazônico deve-se não ao rio
Amazonas, que é de planície, mas aos afluentes que des-
cem dos planaltos e compreendem o conjunto amazônico.
A construção de represas para a produção de energia hi-
drelétrica tem acarretado danos ambientais – decomposi-
ção de material orgânico no fundo represado, mortandade
de peixes, submersão de sítios arqueológicos, deslocamen-
to de populações indígenas e ribeirinhas, alteração de cur-
sos de alguns rios e desaparecimento de ribeirões e lagos.
O maior potencial hidrelétrico brasileiro está na Amazônia.
Paralelamente a essa justificativa para a construção dessas
usinas, está a afirmação de que os impactos ambientais e
sociais serão “mínimos” se comparados ao tamanho da
região amazônica.
Bacia hidrográfica Amazônica

É a maior bacia hidrográfica do mundo, com 7 milhões de


km², dos quais 3,9 milhões de km2 estão em terras brasilei-
ras. É responsável por 15% de toda a água doce que chega
aos oceanos. O rio percorre 7,1 mil km, o que faz dele o
maior rio do planeta em extensão (o segundo maior é o
rio Nilo, no Egito, com 6,8 mil km) e o maior do mundo em
vazão de água e em largura média, com 5 km. Tem sete mil
afluentes, diversos cursos de água menores e canais flu- Encontro das águas dos rios Negro e Solimões
viais criados pelos processos de cheia e vazante. Nasce no
Peru, com o nome de Apurimac; ao entrar no Brasil, recebe
o nome de Solimões. Depois do encontro com o rio Negro,
5.1.2. Hidrelétricas na Amazônia
perto de Manaus, recebe o nome de Amazonas. § Santo Antonio
As águas dos rios amazônicos são barrentas, claras e negras. A hidrelétrica Santo Antônio está localizada no rio Madei-
A maioria tem águas claras – como o rio Tapajós –, mas vem ra, na cidade de Porto Velho, capital de Rondônia. Possui 50
sendo poluída com mercúrio da garimpagem de ouro. São turbinas do tipo bulbo para geração de energia elétrica, com

51
potência de cerca de 71,6 megawatts (MW) cada uma, tota- projeto de construção, foi sugerida a retirada da vegetação
lizando 3.568,3 MW de potência instalada e 2.424 MW de do local que seria alagado, já que era madeira de lei e, por-
energia assegurada. É a quarta maior hidrelétrica em opera- tanto, um ótimo negócio. Entretanto, o projeto não foi aceito
ção no Brasil e uma das maiores do mundo. com a alegação de que a mão de obra demandada seria
O projeto da hidrelétrica Santo Antônio se beneficiou das ca- alta e isso atrasaria a inauguração. Então resolveram alagar
racterísticas naturais do rio Madeira para aproveitar ao máxi- da maneira que estava; e com as árvores apodrecendo sob
mo o seu potencial hídrico para geração de energia. As suas a água, começou a emissão de gases nocivos à atmosfera.
turbinas são movidas pelas características únicas da vazão Assim, houve prejuízo não só econômico, mas também am-
do rio Madeira, que apresenta uma variação entre 4 mil m3 biental, pela elevada acidez do lago e pelos gases emitidos.
por segundo no período de seca e mais de 40 mil m3/s no pe- Além de Balbina, de acordo com o relatório “Emissões
ríodo de cheia. O uso de turbinas bulbo dispensa a formação de Dióxido de Carbono e de Metano pelos Reservatórios
de grandes reservatórios, que no caso dessa usina possui um Hidrelétricos Brasileiros“, do Ministério da Ciência e da
reservatório de 422 km2, área praticamente igual a ocupada Tecnologia, outras duas usinas hidrelétricas brasileiras –
pelo rio Madeira durante os períodos de cheia. Samuel (RO) e Três Marias (MG) – têm emissões maiores
§ Jirau que termelétricas de mesmo potencial.
A usina hidrelétrica de Jirau foi construída no rio Madeira, a § Belo Monte
120 km de Porto Velho, em Rondônia. Tem um reservatório A usina de Belo Monte foi construída na bacia do rio Xin-
com uma área de 361,6 km2 quando está com seu volu- gu, próximo ao município de Altamira, no sudoeste do
me máximo. Inaugurada no fim de 2016, a usina de Jirau estado do Pará.
(juntamente com a de Santo Antônio) foi considerada, a
partir de meados de 2013, fundamental para o suprimento Sua potência instalada é de 11.233 megawatts, mas,
de energia elétrica no Brasil e esteve entre as obras mais por operar com reservatório muito reduzido, deverá pro-
importantes do governo federal. duzir efetivamente cerca de 4.500 MW (39,5 TWh por
ano) em média, ao longo de um ano, o que representa
Em 2008, já se observavam efeitos no comércio, na rede aproximadamente 10% do consumo nacional (388 TWh,
hoteleira, no emplacamento de veículos e no setor imo- em 2009). Em potência instalada, a usina de Belo Monte
biliário. Além dos impactos na economia, a construção da é a terceira maior hidrelétrica do mundo, atrás apenas
usina resultou em um grande incremento populacional. da chinesa Três Gargantas (20.300 MW) e da brasileira/
De acordo com o censo demográfico de 2000, a região de paraguaia Itaipu (14 mil MW). Será a maior usina hidrelé-
Porto Velho possuía 398,1 mil habitantes; de acordo com o trica inteiramente brasileira.
censo de 2010, já com o andamento das obras, a popula-
ção dessa região chegava aos 513,8 mil habitantes, um in- O lago da usina tem uma área de 516 km2 (1/10 mil da
cremento de mais de 25% ao longo de uma década, muito área da Amazônia Legal). Seu custo foi estimado pela con-
acima da média brasileira no período e mesmo de todo o cessionária em 26 bilhões de reais, ou seja, 5,7 milhões de
estado. Pelas estimativas do IBGE, em 2017, a população reais por MW efetivo. O leilão para construção e operação
dessa região chegava aos 623,8 mil moradores. da usina foi realizado em abril de 2010 e vencido pelo con-
sórcio Norte Energia. O contrato de concessão foi assinado
§ Balbina
em 26 de agosto do mesmo ano, e o de obras civis, em 18
A usina hidrelétrica de Balbina está localizada no municí- de fevereiro de 2011.
pio de Presidente Figueiredo, no Amazonas. Cada uma das
cinco unidades geradoras tem capacidade de até 55 MW
de energia elétrica, totalizando 275 MW.
A usina é criticada por ter um alto custo e ter causado o
maior desastre ambiental da história do Brasil. Inaugurada
no final da década de 1980, a usina é citada como um erro
histórico por cientistas e gestores pela baixa geração em
relação à área alagada e pelas consequências disso. Bal-
bina é apontada como problemática também no que diz
respeito à emissão de gases de efeito estufa, considerados Usina de Belo Monte
causadores do aquecimento global.
Em novembro de 2017, a usina estava com mais de 96%
A liberação de dióxido de carbono e metano é superior à de das obras concluídas e 12 de suas 24 turbinas produzindo
uma usina térmica de mesmo potencial energético. Em seu energia em operação comercial. Belo Monte havia exigido,

52
até o momento, 38,6 bilhões de reais em investimentos pú- onde encontram médicos e dentistas. Lá, fazem seus negó-
blicos e privados. A previsão é de que a última turbina entre cios, como a venda de peixes e castanhas.
em operação em julho de 2020, tendo como capacidade
total de geração 11.233 megawatts (MW) e 4.571 MW de
energia assegurada, quantidade que pode ser comerciali-
zada pela empresa, que poderá atender a 60 milhões de
consumidores de 17 estados.
Desde seu início, o projeto de Belo Monte encontrou forte
oposição de ambientalistas brasileiros e internacionais, de
algumas comunidades indígenas locais e de membros da
Igreja católica. Essa oposição levou a sucessivas reduções
do escopo do projeto, que originalmente previa outras bar-
ragens rio acima e uma área alagada total muito maior.
Protesto em Altamira
Há opiniões conflitantes sobre a construção da usina. As
organizações sociais têm convicção de que o projeto tem A alteração da vazão do rio, segundo os especialistas, alte-
graves problemas e lacunas na sua formação. ra todo o ciclo ecológico da região, que está condicionado
O movimento contrário à obra, encabeçado por ambienta- ao regime de secas e cheias. A obra vai gerar regimes hi-
listas e acadêmicos, defende que a construção da hidrelé- drológicos distintos para o rio. A região permanentemente
trica provocará a alteração do regime de escoamento do alagada deverá impactar na vida de árvores, cujas raízes
rio, com redução do fluxo de água, afetando a flora e a apodrecerão. Essas árvores são a base da dieta de muitos
fauna locais e introduzindo diversos impactos socioeco- peixes. Além disso, muitos peixes fazem a desova no regime
nômicos. Um estudo de 230 páginas e elaborado por 40 de cheias; assim, estima-se que, na região seca, haverá re-
especialistas defende que a usina não é viável dos pontos dução nas espécies de peixes, impactando na pesca como
de vista social e ambiental. atividade econômica e de subsistência de povos indígenas e
Outro fator que pesa nas argumentações contra a constru- ribeirinhos da região. De resto, as análises sobre o “Estudo
ção é que a obra inundará permanentemente os igarapés de Impacto Ambiental de Belo Monte“, feitas pelo Painel
Altamira e Ambé, que cortam a cidade de Altamira e parte de Especialistas, que reúne pesquisadores de renomadas
da área rural de Vitória do Xingu. A vazão da água à jusan- universidades do país, apontam que a construção da hi-
te do barramento do rio em Volta Grande do Xingu será drelétrica vai implicar um caos social que seria causado pela
reduzida e o transporte fluvial até o rio Bacajá (um dos migração de mais de 100 mil pessoas para a região e pelo
afluentes da margem direita do Xingu) será interrompido. deslocamento forçado de mais de 20 mil pessoas. Tais im-
Atualmente, esse é o único meio de transporte para co- pactos, segundo o Painel, são acrescidos pela subestimação
munidades ribeirinhas e indígenas chegarem até Altamira, da população atingida e da área diretamente afetada.

53
Segundo documento do Centro de Estudos da Consultoria O caso de Belo Monte envolve a construção de uma usina
do Senado, que atende políticos da Casa, o potencial hidrelé- sem reservatório e que dependerá da sazonalidade das chu-
trico do País é subutilizado e tem o duplo efeito perverso de vas. Por isso, para alguns críticos, em época de cheia a usina
levar ao uso substituto da energia termoelétrica – considera- deverá operar com metade da capacidade, mas, em tempo
da “energia suja“ - e de gerar tarifas mais caras para os usu- de seca, a geração pode ir um pouco abaixo de 4,5 mil MW,
ários, embora o uso da energia eólica não tenha sido citada o que, somado aos vários passivos sociais e ambientais, colo-
no relatório. Por outro lado, o Ministério de Minas e Energia ca em xeque a viabilidade econômica do projeto.
defende o uso das termelétricas para garantir o fornecimen-
to, especialmente em períodos de escassez de outras fontes. Mapa das hidrelétricas na região amazônica

5.1.3. Bacia do São Francisco Embora seja um rio de planalto, é plenamente navegável
até Petrolina, em Pernambuco. De lá em diante, quedas
O rio São Francisco, principal dessa bacia, nasce em Minas de água multiplicam-se – Paulo Afonso, Sobradinho e Ita-
Gerais, na serra da Canastra, corta o sertão da Bahia, na di- parica, que são três usinas hidrelétricas de grande porte.
visa com Pernambuco e entre Alagoas e Sergipe, e deságua
no Atlântico, percorrendo 2,8 mil km em território brasilei- O rio São Francisco recebe 168 afluentes, dos quais des-
ro. Atravessa o sertão semiárido, mas nunca seca, mesmo tacam-se os rios Paraopeba, Abaeté, Jequitai, das Velhas
em períodos de forte estiagem. As águas apenas baixam e Grande. Integrador de diversas regiões, serve para irrigar
os níveis. É de utilidade inestimável para a população local: áreas áridas e vem desempenhando importante papel na
navegação, irrigação e produção de energia. economia, na sociedade e na cultura durante séculos.
A transposição do rio São Francisco é uma obra de
deslocamento de parte de suas águas nomeada pelo go-
verno brasileiro como “Projeto de Integração do Rio São
Francisco com Bacias Hidrográficas do Nordeste Seten-
trional“. Ese empreendimento é do governo federal e está
sobre responsabilidade do Ministério da Integração Nacio-
nal. A obra possui mais de 700 quilômetros de canais de
concreto em dois grandes eixos (norte e leste) ao longo do
território de quatro estados (Pernambuco, Paraíba, Ceará e
Rio Grande do Norte) para o desvio das águas do rio. Ao
longo do caminho, o projeto prevê a construção de nove
estações de bombeamento de água.
No dia 8 de março de 2017, a água atravessava a divisa
entre Pernambuco e a Paraíba, na cidade de Monteiro. O
açude São José, em Monteiro, que apresentava 12,1% nes-
Bacia hidrográfica do São Francisco sa data, encontrava-se sangrando (transbordando) em 2 de

54
fevereiro de 2018. O açude Poções, também em Monteiro, moinho“; e os estados “receptores“, necessitados de água,
apresentou evolução no período de 0,8% para 6,47% em a favor da transposição.
1.º de fevereiro de 2018.
Depois de Monteiro, a água segue pelo rio Paraíba, pas-
sando pelos açudes de Poções, Camalaú e Epitácio Pes-
soa, conhecido como Boqueirão; depois segue para Acauã,
Aracagi, chegando até um perímetro irrigado na cidade
de Sapé. Para facilitar a passagem da água, os açudes de
Poções e Camalaú passaram por obras para abertura de
espaço nas barragens.
O açude de Boqueirão (PB), que abastece Campina Grande
e outras 18 cidades do agreste, beneficiando 1 milhão de
pessoas, vem recebendo recarga das águas da transposição
do rio São Francisco desde 18 de abril de 2017, evitando o
colapso hídrico da região. Nessa época, o açude acumulava
2,9% de sua capacidade, o seu pior nível na história.
O fim do racionamento na cidade de Campina Grande
ocorreu no dia 25 de agosto de 2017, quando o açu-
de atingiu o nível de 8,2%. O episódio foi marcado pelo
questionamento quanto à segurança hídrica, mas foi libe- Mapa dos eixos da transposição do rio São Francisco
rado depois de decisão do Tribunal de Justiça da Paraíba. A usina hidrelétrica de Xingó, instalada no rio São Francis-
Em 18 de julho de 2017, uma resolução da Agência Na- co, está localizada entre Alagoas e Sergipe, situando-se a
cional da Águas (ANA) autorizou o uso da água da trans- 12 km do município de Piranhas e a 6 km do município de
posição do rio São Francisco para irrigação na Paraíba. Canindé de São Francisco. A posição da usina, com relação
Estimou-se que a medida beneficiaria mil agricultores ao São Francisco, é de cerca de 65 km à jusante do Com-
para a prática de irrigação na agricultura familiar, com plexo de Paulo Afonso, constituindo-se o seu reservatório,
limite para cada família plantar e irrigar até meio hectare. diante das condições naturais de localização, num cânion,
O modelo de irrigação permitido é limitado às técnicas de uma fonte de turismo na região, através da navegação no
gotejamento e microaspersão. trecho entre Paulo Afonso e Xingó, além de prestar-se ao
desenvolvimento de projetos de irrigação e ao abasteci-
A resolução teve validade até o dia 26 de março de 2018, mento de água para a cidade de Canindé (SE). A usina ge-
quando chegou ao fim a fase de pré-operação do rio São radora é composta por 6 unidades com 527 mil kW de po-
Francisco, isto é, enquanto não era cobrada taxa pelo uso tência nominal unitária, totalizando 3.162 milhões de kW
das águas da transposição. Depois dessa data, a irrigação de potência instalada, havendo previsão para mais quatro
dependerá de uma nova resolução. unidades idênticas numa segunda etapa.
O rio São Francisco, após o ponto de captação no eixo
leste, em seu trajeto até a foz, é o limite geográfico do 5.1.4. Bacia do Tocantins-Araguaia
estado da Bahia com Pernambuco e entre Alagoas e Ser-
É a maior bacia localizada em território brasileiro, com 813
gipe, constituindo-se no recurso hídrico mais importante
mil km2 e formada pelos rios Tocantins e Araguaia. O rio
dessa região, que também é semiárida e padece do pro-
Tocantins nasce em Goiás, ao norte da cidade de Brasília,
blema de acesso à água por parte da população. A região
percorre 2,6 mil km e desemboca na foz do rio Amazonas,
do Baixo São Francisco, que corresponde ao trecho entre
junto à ilha de Marajó. Tem 1,9 mil km navegáveis, entre
Paulo Afonso e a foz, possui municípios com os piores
as cidades de Peixe (GO) e Belém (PA). Parte de seu po-
índices de desenvolvimento humano do país.
tencial hidrelétrico é aproveitada pela usina de Tucuruí, no
Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte são estados que não Pará – a segunda maior do país e uma das cinco maiores
possuem rios perenes; com isso, a ideia de perenizar alguns do mundo. Já o rio Araguaia nasce na serra das Araras, no
rios através da transposição ganhou grande e justa adesão. Mato Grosso, próximo à divisa com Goiás, e desemboca
Nesse contexto, a proposta da transposição dividiu o Nor- no rio Tocantins, no extremo norte do estado de Tocantins,
deste: de um lado, os estados “doadores“ (Minas Gerais em São João do Araguaia, antes de Marabá. No sudoes-
e Bahia), situados a montante, posicionaram-se contra por te do estado tocantinense, o rio se divide em dois braços
motivos políticos, uma vez que “águas passadas não movem com aproximadamente 320 km – pela margem esquerda,

55
o Araguaia, e, pela direita, o Javaés, ladeando a ilha de Ba- SIN. Uma eclusa e um canal de 5,5 km possibilitam a nave-
nanal, a maior ilha fluvial do mundo. gação fluvial entre Belém e Santa Isabel.
A barragem de terra de Tucuruí tem 11 km de comprimento
e 78 m de altura. O desnível da água varia com a estação,
entre 58 m e 72 m. O reservatório tem 200 km de compri-
mento e 2.850 km2 de área quando cheio, ou seja 0,341
km2 por MW instalado.
Tucuruí foi construída entre 1974 e 1985, durante a dita-
dura militar, numa época em que havia relativamente pou-
ca preocupação com questões ambientais e desprezo geral
por direitos civis. O projeto inicial previa desmatamento da
região a ser alagada, mas, no fim, apenas 140 km2 dos
2.850 km2 foram limpos, com perda de 2,5 milhões de m3
de madeira potencialmente comercializável.
Estima-se que houve alguma perda de biodiversidade, espe-
cialmente de espécies de peixes adaptados às corredeiras ou
Bacia hidrográfica do Tocantins-Araguaia que migravam ao longo do rio. Em Tucuruí, não foi construí-
A construção da hidrovia Araguaia-Tocantins tem sido mui- da nenhuma escada para peixes, precaução que hoje é con-
to questionada pelas ONGs em razão dos impactos socio- siderada essencial para barragens nesse ambiente. A pesca à
ambientais que ela provocará. Deve cortar dez áreas de jusante diminui de mil para 500 toneladas por ano; porém,
na região do reservatório, ela aumentou de 300 para mais de
preservação natural e 35 áreas indígenas, cuja população
3 mil toneladas por ano, entre 1981 e 1998.
é de 10 mil índios.
Enquanto boa parte da população a montante, incluindo
grandes proprietários do vale de Caraipé e as tribos indí-
genas parakanãs, foram, em parte, indenizadas e contem-
pladas com investimentos em infraestrutura, a tribo Gavião
da Montanha e toda a população a jusante, incluindo os
índios assurinis, não receberam indenização alguma.

5.1.5. Bacia do Prata


O rio da Prata, na divisa entre Uruguai e Argentina, é for-
mado pelas bacias dos rios Paraguai, Paraná e Uruguai.
Essa bacia tem secular importância econômica, uma vez
Escoamento de recursos minerais na hidrovia Tocantins-Araguaia que banha a área mais desenvolvida e urbanizada do país,
além de ligar o Brasil aos países platinos.
A usina hidrelétrica de Tucuruí é uma central hidrelétrica no
rio Tocantins, no município de Tucuruí, a cerca de 300 km
ao sul de Belém, no estado do Pará, com uma capacidade
geradora instalada de 8.370 MW.
Sua construção foi iniciada em 24 de novembro de 1974
e sua inauguração ocorreu em 22 de novembro de 1984
pelo presidente João Figueiredo. Com capacidade de 4 mil
MW, ampliados em meados de 2010 para 8.370 MW, seu
vertedouro tem capacidade para 110 mil m3/s.
Tucuruí é a principal usina integrante do Subsistema Norte
do Sistema Interligado Nacional (SIN), sendo responsá-
vel pelo abastecimento de grande parte das redes: Celpa
(Pará), Cemar (Maranhão) e Celtins (Tocantins). Em perío-
dos de cheia no rio Tocantins, a usina de Tucuruí também
complementa a demanda do restante do país através do Bacia hidrográfica Platina

56
5.1.6. Bacia do Paraguai consolidaram o Tratado de Itaipu por meio de sua assina-
tura, que tornava lícito o aproveitamento e construção do
Amplamente navegável, atravessa regiões de relevo pouco empreendimento no rio Paraná.
acidentado no pantanal mato-grossense; por essa mesma
razão, tem pequeno potencial hidrelétrico; sofre intensas Somente no ano de 1974, no dia 17 de maio, foi instau-
inundações durante as chuvas de verão, fenômeno respon- rada uma entidade binacional em Itaipu com finalidade de
sável pela denominação pantanal. monitorar o projeto de construção.
A construção concreta da obra aconteceu em janeiro de
5.1.7. Bacia do Uruguai 1975. O represamento das águas do rio Paraná ocorreu em
É a menor dentre as três bacias que formam a bacia Pla- 12 de outubro de 1982, quando foram fechadas as com-
tina. É pouco aproveitada para navegação e para geração portas; as operações tiveram início em 5 de maio de 1984.
de energia. Essa bacia é fronteiriça entre Brasil e Argenti- Atualmente, a energia produzida na hidrelétrica responde
na e, portanto, exige acordos internacionais para a reali- por 20% de toda energia consumida no Brasil.
zação de projetos.
O acordo firmado entre Brasil e Paraguai prevê que o exce-
dente de produção de um dos sócios deveria ser negociado
5.1.8. Bacia do Paraná preferencialmente a um dos executores do projeto, ou seja,
A bacia do Paraná detém o maior potencial hidrelétrico um dos países em questão.
instalado do país (70%), que garante o abastecimento de
Toda a energia gerada na usina hidrelétrica de Itaipu é di-
energia elétrica para a região Sudeste – a mais industriali-
vidida em duas partes equivalentes. O Paraguai consome
zada e populosa do Brasil –, para a região Sul e para parte
somente 5% do total da energia que lhe cabe, e os 45%
do Centro-Oeste. A proximidade com os grandes centros
restantes são negociados a preço de custo com o Brasil,
urbanos e características físicas locais determinam o gran-
para cumprimento do acordo firmado.
de aproveitamento que se faz dela. O que também a tem
levado ao esgotamento quase total. Há nela diversas hi-
drelétricas, como a de Itaipu, a maior do país, na fronteira 5.2. Bacias secundárias
entre Brasil e Paraguai, responsável por 20% de toda a A bacia do Atlântico Sul é composta de várias pequenas e
produção de energia elétrica brasileira. médias bacias costeiras, formadas por rios que deságuam
A usina hidrelétrica de Itaipu corresponde a um grande no oceano Atlântico. O trecho Norte-Nordeste compreende
empreendimento arquitetônico, com finalidade de obten- rios do norte da bacia Amazônica, com destaque para o
ção de energia elétrica. Essa construção foi constituída Oiapoque, no estado do Amapá, bem como entre a foz do
pelo interesse do Brasil e do Paraguai a partir de um acor- rio Tocantins e a do rio São Francisco. Entre esses está o
do entre os envolvidos no processo. A fonte hídrica que Parnaíba, na divisa do Piauí e do Maranhão, que forma o
proporciona a movimentação das turbinas é o rio Paraná. único delta oceânico das Américas. Entre a foz do rio São
Essa é a maior usina hidrelétrica do mundo, em se tratando Francisco e a divisa carioca e paulista, estão as bacias do
de potência. A energia gerada na usina é dividida entre trecho Leste, com destaque para o rio Paraíba do Sul. A
Brasil e Paraguai – a parte que cabe ao Brasil responde partir dessa área, começam as bacias do Sudeste-Sul, cujo
por 24% de toda energia produzida no país. A distribuição rio mais importante é o Itajaí, no estado de Santa Catarina.
da parcela pertencente ao Brasil é realizada pela empresa
Furnas Centrais Elétricas S.A.
O processo de negociação entre Brasil e Paraguai ocorreu
na década de 1960, quando decidiram analisar a possibi-
lidade de implantação de uma usina hidrelétrica para usu-
fruir de todo potencial hídrico da região.
No ano de 1970, foi realizada uma licitação internacional
para conceder o direito à realização de um estudo de via-
bilidade da construção, pois se tratava de uma gigantesca
obra. O vencedor da licitação foi o consórcio composto por
empresas norte-americanas IECO e a italiana ELC.
Depois da realização da concorrência internacional, as
multimídia: sites
obras foram iniciadas em fevereiro de 1971; dois anos de- www.cbh.gov.br
pois, no dia 26 de abril, os países envolvidos no acordo

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As 12 Regiões
Hidrográficas Brasileiras
Amazonas
Tocantins-Araguaia
Atlântico NE Ocidental
Parnaíba
Atlântico NE Oriental
São Francisco
Atlântico Leste
Atlântico Sudeste
Paraná
Paraguai
Uruguai
Atlântico Sul

Fonte: ANA - Agência Nacional das Águas, 2005

5.3. Bacias hidrográficas mundiais


No continente sul-americano, em especial no Brasil, está uma das maiores reservas de água doce líquida do mundo, razão
da significativa importância econômica e geopolítica dessa região.
Observe no mapa a seguir a localização das principais bacias hidrográficas mundiais.

Principais bacias hidrográficas mundiais

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5.3.1. Grandes rios da África pela construção de duas enormes hidrelétricas – Assuã e
Assiut –, que passaram a controlar o fluxo das águas do
O maior rio africano é o Nilo, que é o segundo mais ex- Nilo. Como resultado, ocorreu um massivo êxodo rural, e
tenso do mundo. O rio Nilo jamais seca, uma vez que suas apenas agricultores capitalizados conseguem implantar
nascentes estão no coração da África, numa região predo- sistemas de irrigação.
minantemente de clima equatorial, com chuvas abundan-
tes durante o ano todo. Há séculos, o Nilo tem sido vital O rio Congo, por sua vez, é o segundo maior em volume
para a economia do Egito. de água do mundo e atravessa um relevo em grande par-
te planáltico, o que lhe confere um gigantesco potencial
No passado, suas águas transbordavam periodicamente e
hidrelétrico. A pobreza dos países banhados pelo rio Con-
fertilizavam todo o vale, que, sistematicamente, era apro-
go, no entanto, impede o aproveitamento de toda essa
veitado pela agricultura de tipo jardinagem. Desde os anos
potencialidade.
1950, todavia, esse fenômeno não ocorre mais, prejudicado

Mapa físico da rede hidrográfica do continente africano

5.4. Principais rios da Europa carboníferas, que impulsionaram o desenvolvimento das


indústrias de base na época da Revolução Industrial. Além
A bacia do rio Reno é famosa por abrigar o vale do Ruhr, disso, o Reno é quase totalmente navegável; o que permite,
a área mais intensamente industrializada da Europa. Si- portanto, o escoamento da produção industrial alemã para
tuada na Alemanha, essa região tinha grandes reservas o movimentado porto de Roterdã, na Holanda.

59
As cabeceiras do rio Pó, o maior rio do norte da Itália, deságua no Mediterrâneo, nas proximidades do porto de
drenam uma rica região industrial formada pelo eixo Mi- Marselha (França). A construção de várias eclusas tornou-o
lão-Gênova-Turim. O resto do seu curso constitui um fértil navegável e numerosos canais integraram-no a outros rios,
vale intensamente cultivado para produção de cereais. como o Reno.
O rio Volga, o mais extenso da Europa, atravessa a planície O desenvolvimento do transporte hidroviário na Europa
russa. Apesar de congelar no inverno, é bastante navega- não se deve apenas aos vários rios navegáveis, mas à cons-
do. Deságua no mar Cáspio, mas está ligado por canais trução de canais, que possibilitaram a integração hidroviá-
artificiais aos mares Branco e Báltico, situados no norte, e ria de toda a Europa. Trata-se de uma estratégia planejada
ao mar Negro, no sul. que, posta em prática ao longo de muitos anos, permitiu a
Assim como o Reno, o rio Ródano nasce nos Alpes Cen- efetiva integração socioeconômica de todo o continente.
trais (Suíça), percorre o sul, penetra em território francês e

Principais rios da Europa

5.5. Principais rios da No oeste da América do Norte, alguns rios são encachoei-
rados, com grande potencial hidrelétrico. O mais famoso é
América do Norte o Colorado, cujo leito forma o Grand Canyon. O rio Macke-
nzie, no noroeste do Canadá, foi indispensável à explora-
Interligando os Grandes Lagos e o oceano Atlântico, o rio
ção madeireira e de ouro durante a colonização.
São Lourenço é a principal porta natural de ligação do Ca-
nadá com o mundo. Além disso, nos Estados Unidos, foi O rio Yukon, que corta o Alasca, foi a principal via para o
construído um canal artificial para acessá-lo a partir do rio povoamento e desenvolvimento de atividades econômicas
Hudson, que banha a cidade de Nova Iorque. Esse canal naquele território.
permitiu a ligação hidroviária entre os portos de Nova Ior- Na porção central, o relevo baixo e plano é drenado pe-
que e Chicago, cidade situada ao sul do lago Michigan. los rios que formam a bacia do Mississipi-Missouri, cuja

60
hidrovia transporta a produção dos cinturões agrícolas (belts) dos Estados Unidos.

Mapa físico da rede hidrográfica da América do Norte

5.6. Principais rios da Ásia o governo chinês está construindo a usina hidrelétrica de
Três Gargantas, considerada uma das maiores obras de
O rio Jordão, cujas nascentes ficam nas colinas de Gelan – engenharia do mundo. Ela deverá produzir energia para
território sírio dominado por Israel desde 1967 –, corta a incrementar a crescente industrialização chinesa, além de
Cisjordânia. Serve para irrigação do deserto de Neveg, ao produzir também um grande impacto socioambiental, uma
sul de Israel, bem como para o abastecimento do mar Morto. vez que as represas deverão inundar imensas áreas férteis
Os rios Tigre e Eufrates nascem na Turquia, cruzam a Síria e exigir o deslocamento de milhões de pessoas.
e o Iraque e encontram-se perto da foz, no golfo Pérsico, Os rios Ganges e Indo cortam a planície norte da Índia e
formando o Chatt Al-Arab, um grande estuário com 193 são considerados sagrados pela população. Junto com seus
km. São importantes fontes de água e meio de transporte afluentes, são fundamentais para a irrigação de vastas áre-
naquela imensa região árida do Oriente Médio.
as agrícolas.
O rio Huang-ho (rio Amarelo) corta a parte setentrional da
O rio Mekong também nasce no Himalaia. Corre no senti-
planície chinesa e é fundamental como fonte de água para
do sudeste pelas extensas planícies da Indochina. O maior
irrigação de gigantescas plantações de arroz e trigo.
trecho percorre o território do Vietnã, onde é fundamental
O Yang-tsé (rio Azul) nasce nos planaltos e nas altas mon- para o desenvolvimento da rizicultura (arroz).
tanhas do oeste da China. Para aproveitar suas cachoeiras,

61
Mapa dos principais rios da Ásia

VIVENCIANDO

Ao longo de uma viagem, ou até mesmo nos trajetos do dia a dia, é interessante observar como está a saúde dos rios
das cidades, se eles ainda mantêm seus meandros, como estão suas margens e se exalam algum odor... Em São Paulo,
por exemplo, de cada cem paulistanos, apenas cinco viram o rio Pinheiros com curvas e várzeas. Quem tem menos de
70 anos de idade só o conhece como ele é hoje: um canal reto, poluído e cercado por enormes avenidas e prédios
espelhados em suas margens. As pessoas que nunca saíram de São Paulo não sabem o que é conviver com um rio. Por
isso, é necessário conhecer para preservar.

62
CONEXÃO ENTRE DISCIPLINAS

O conteúdo sobre bacias hidrográficas abrange conhecimentos inter-relacionados e aspectos complexos, como a
disponibilidade e o uso da água e a importância ambiental, econômica, política e social dos rios que formam as
principais bacias hidrográficas brasileiras.

ÁREAS DE CONHECIMENTO DO ENEM

Habilidade
Reconhecer a função dos recursos naturais na produção do espaço geográfico, relacionando-os com as mudanças pro-
29 vocadas pelas ações humanas.

O espaço geográfico não possui apenas uma dinâmica natural. É preciso considerar também uma dinâmica social,
exercida pelas formações sociais que ali vivem e atuam. Ao se apropriar da natureza e transformá-la, os seres huma-
nos criam ou produzem o espaço geográfico utilizando as técnicas de que dispõem, segundo o momento histórico
e de acordo com suas representações, ou seja, crenças, valores, normas (direito) e interesses políticos e econômicos.
O espaço geográfico é o espaço das sociedades ou a dimensão espacial do social. Ele contém elementos naturais
(rios, planaltos, planícies, etc.) e artificiais (casas, avenidas, pontes, etc.). Uma dessas transformações é o aumento
da exploração dos recursos naturais para atender à demanda industrial de produção. Os recursos naturais são com-
ponentes materiais da paisagem geográfica, mas que ainda não tenham sofrido importantes transformações pelo
trabalho humano e cuja própria gênese é independente do homem. Os recursos hídricos, por sua vez, são essenciais
para o estabelecimento das atividades humanas. Sendo a água um recurso renovável, estaria sempre disponível
para o homem. Entretanto, como o consumo tem excedido a renovação, atualmente verifica-se um estresse hídrico,
isto é, a falta de água doce principalmente junto aos grandes centros urbanos, além da diminuição da qualidade
da água, sobretudo devido à poluição hídrica por esgotos domésticos e industriais. No âmbito do desenvolvimento
sustentável, o manejo dos recursos hídricos compreende as ações que procuram garantir os padrões de qualidade e
quantidade da água dentro da sua unidade de conservação, a bacia hidrográfica. É atualmente aceito o conceito de
gestão integrada dos recursos hídricos como paradigma de gestão da água. Quase todos os países já adotaram uma
“legislação das águas” dentro da disciplina de Direito Ambiental. No Brasil, é a lei 9.433/97, também denominada
Lei das Águas. Procurar esse conceito e dar relevância à necessidade de integrar a gestão da água em função dos
seus diferentes tipos de uso (irrigação, abastecimento, energia hidráulica, controle de enchentes, piscicultura, lazer,
entre outros), das diferentes dimensões de conhecimento que estão envolvidas e dos diferentes tipos de instituições,
pressupõe a valorização da água em função da sua natureza renovável e fluida.

63
Modelo
(Enem) Segundo a análise do professor Paulo Canedo de Magalhães, do Laboratório de Hidrologia da COPPE, UFRJ,
o projeto de transposição das águas do rio São Francisco envolve uma vazão de água modesta e não representa ne-
nhum perigo para o Velho Chico, mas pode beneficiar milhões de pessoas. No entanto, o sucesso do empreendimento
dependerá do aprimoramento da capacidade de gestão das águas nas regiões doadora e receptora, bem como no
exercício cotidiano de operar e manter o sistema transportador.

Embora não seja contestado que o reforço hídrico poderá beneficiar o interior do Nordeste, um grupo de cientistas e
técnicos, a convite da SBPC, numa análise isenta, aponta algumas incertezas no projeto de transposição das águas do
rio São Francisco. Afirma também que a água por si só não gera desenvolvimento e será preciso implantar sistemas
de escoamento de produção, capacitar e educar pessoas, entre outras ações.
(Adaptado de: Ciência Hoje, vol. 37, n. 217, julho de 2005)

Os diferentes pontos de vista sobre o megaprojeto de transposição das águas do rio São Francisco quando confron-
tados indicam que:
a) as perspectivas de sucesso dependem integralmente do desenvolvimento tecnológico prévio da região do semiárido nordestino;
b) o desenvolvimento sustentado da região receptora com a implantação do megaprojeto independe de ações sociais já existentes;
c) o projeto deve limitar-se às infraestruturas de transporte de água e evitar induzir ou incentivar a gestão participativa
dos recursos hídricos;
d) o projeto deve ir além do aumento de recursos hídricos e remeter a um conjunto de ações para o desenvolvimento das
regiões afetadas;
e) as perspectivas claras de insucesso do megaprojeto inviabilizam a sua aplicação, apesar da necessidade hídrica do semiárido.

Análise expositiva - Habilidade 29: O projeto não deve se ater apenas ao fornecimento de água. Ele deve
D estar articulado a uma série de outros aspectos, como reforma agrária, melhoria de infraestrutura sanitária e de
transportes e programas de saúde e educação.
Alternativa D

64
DIAGRAMA DE IDEIAS

HIDROLOGIA E BACIAS
HIDROGRÁFICAS

BACIAS
HIDROLOGIA
BRASILEIRAS

RIOS PRINCIPAIS

LACUSTRE 1. AMAZÔNIA

QUANTO À
PLUVIAL 2. SÃO FRANCISCO
ORIGEM

GELEIRAS 3. TOCANTINS-ARARAQUARA

PARANÁ

ESTUÁRIO 4. PRATA PARAGUAI

QUANTO À URUGUAI
DELTA
FOZ

MISTA

SECUNDÁRIAS

EXORREICA

ENDORREICA PARNAÍBA
QUANTO À
DRENAGEM
CRIPTORREICA ATLÂNTICO NE OCIDENTAL

ARREICA ATLÂNTICO NE ORIENTAL

ATLÂNTICO LESTE

MEÂNDRICO
ATLÂNTICO SUDESTE
QUANTO À
RETILÍNEO
FORMA ATLÂNTICO SUL
ANASTOMOSADO

65
AULAS Domínios Morfoclimáticos I
15 e 16
Competência: 6 Habilidades: 26 e 29

1. Domínios morfoclimáticos Nacib Ab’Saber, que reuniu as principais características des-


ses elementos naturais para formar com os demais elemen-
“A classificação morfoclimática reúne grandes combina- tos da paisagem os domínios paisagísticos brasileiros.
ções de fatos geomorfológicos, climáticos, hidrológicos,
pedológicos e botânicos que, por sua relativa homoge-
neidade, são adotados como padrão em escala regional.” “[...] Entendemos por domínio morfoclimático e fitoge-
CONTI, José B.; FURLAN, Sueli A. Geoecologia: o clima, os solos e a ográfico um conjunto espacial de certa ordem de gran-
biota.
Apud: ROSS, Jurandyr L.S. (Org.). Geografia do deza territorial – de centenas de milhares a milhões de
Brasil. São Paulo: Edusp, 1996. p. 158. quilômetros quadrados de área –, onde haja um esque-
ma coerente de feições de relevo, tipos de solo, formas
Por possuir um território de extensão continental, o Brasil
de vegetação e condições climático-hidrológicas. Tais
favorece a formação de distintas formas de vegetação, cli-
domínios espaciais, de feições paisagísticas e ecológi-
mas e relevo. Assim, o país pode ser regionalizado a par-
cas integradas, ocorrem em uma espécie de área princi-
tir desses elementos naturais, o que se denomina região
pal, de certa dimensão e arranjo, em que as condições
natural, que corresponde a extensas áreas e na qual há
fisiográficas e biogeográficas formam um complexo re-
concentração de um elemento natural específico.
lativamente homogêneo e extensivo. À área mais típica
Os domínios morfoclimáticos resultam da combinação de e contínua – via de regra, de arranjo poligonal – aplica-
alguns elementos naturais, como hidrografia, pedologia, cli- mos o nome de área core, logo, traduzida por área nu-
ma, vegetação e relevo, com destaque principalmente para clear – termos indiferentemente empregados, segundo
os três últimos elementos. Isso significa que um domínio re- o gosto e as preferências de cada pesquisador.”
presenta a síntese desses elementos naturais, atribuindo um Aziz Ab’Saber. Os domínios de natureza do
aspecto característico a uma determinada área do território. Brasil – potencialidades paisagísticas.
Essa regionalização foi criada em 1970 pelo geógrafo Aziz
Brasil - Domínios morfoclimáticos

66
6. Domínio das pradarias mistas do Rio Grande
do Sul: com coxilhas extensivas, matas subtropicais, fra-
ca decomposição de rochas, grandes banhados, pequena
mamelonização ou formas pseudomamelonares devido,
sobretudo, à coluviação.

Em 16 de março de 2012, foi anunciada nos principais


jornais do Brasil a morte do geógrafo Aziz Nacib Ab’Sa-
ber. O destaque pouco comum entre os geógrafos se
deveu ao fato de que Ab’Saber foi um dos maiores
multimídia: vídeo especialistas em Geografia física do país, bem como
uma voz ativa nos debates sobre biodiversidade e
Fonte: Youtube
preservação ambiental. Dentre suas obras, destaca-se
Biomas brasileiros: documentário o livro Províncias geológicas e domínios morfoclimá-
produzido pelo Centro de Divul- ticos no Brasil, escrito em 1970, no qual apresenta a
gação Científica e Cultural classificação do território brasileiro em domínios mor-
foclimáticos. A importância da sua obra pode ser cons-
Domínios não devem ser confundidos com biomas. Os domí- tatada pelos inúmeros prêmios que Ab’Saber recebeu:
nios morfoclimáticos ou paisagísticos compreendem grandes Prêmio Jabuti em Ciências Humanas (1997 e 2005) e
extensões que englobam variados ecossistemas, e um bioma em Ciências Exatas (2007); Prêmio Almirante Álvaro
leva em consideração apenas elementos bióticos. O géogra- Alberto para Ciência e Tecnologia (1999); Medalha de
fo Ab’Saber identificou seis grandes domínios. São eles: Grão-Cruz em Ciências da Terra pela Academia Brasilei-
1. Domínio das terras baixas florestadas da Ama- ra de Ciências; e o Prêmio Unesco para Ciência e Meio
zônia: com planícies de inundação labiríntica e/ou meân- Ambiente (2001), concedido pelas Nações Unidas.
dricas, tabuleiros extensos com vertentes semimameloni-
zadas e morros baixos mamelonares nas áreas cristalinas
adjacentes (Amapá, Gurupi e Tumucumaque).
2. Domínio dos mares de morros florestados: com
significativa e generalizada decomposição de rochas, den-
sas drenagens perenes, extensiva mamelonização, agrupa-
mentos eventuais de “pães de açúcar”, de áreas diaclasa-
das, planícies de inundação meândricas e extensos setores
de solos superpostos.
3. Domínio dos chapadões centrais, recobertos por
cerrados, penetrados por florestas de galeria: pla-
nalto de estrutura complexa, capeados ou não por lateritas Os domínios são formados por fatores naturais e, portan-
de cimeira, planaltos sedimentares com vertentes de ram- to, não possuem fronteiras exatas. Existe uma dificuldade
pas suaves, ausência quase completa de mamelonização, para dividir um território (principalmente quando ele é
drenagens espaçadas ou ramificadas, calhas aluviais de imenso, como o brasileiro) em paisagens naturais: em
tipos particularizados. geral, os limites de cada um dos elementos dessas pai-
sagens não coincidem. Assim, em determinado comparti-
4. Domínio das depressões interplanálticas semi-
mento do relevo, por exemplo, um planalto, nem sempre
áridas do nordeste: revestidas com diferentes tipos de
o clima ou a vegetação são semelhantes em toda a sua
caatinga com fraca decomposição, frequentes afloramen-
extensão, e um determinado tipo de clima pode abranger
tos de rocha, chão pedregoso, drenagens intermitentes
um planalto e uma planície, bem como vários tipos de ve-
extensivas, canais semianastomosados locais e numerosos
getação. Esse problema costuma ser resolvido a partir do
campos de inselbergs típicos.
que se convencionou chamar de áreas de transição, que
5. Domínio do planalto das araucárias: com decom- são faixas de terra em que não há homogeneidade dos ele-
posição de rochas, solos superpostos descontínuos, drena- mentos naturais, mas a presença de elementos de conjun-
gens perenes e tipos particulares de solo subtropical, área tos diferentes. Ou seja, num conjunto natural ocorre certa
de forte atenuação da mamelonização. semelhança, em toda a sua extensão, do tipo de clima, do

67
relevo, da hidrografia, da vegetação e dos solos – às vezes,
até da estrutura geológica, embora isso seja bem mais in- § Amazônia (ecorregiões amazônicas).
comum. Entre dois desses conjuntos naturais (áreas core),
§ Mata Atlântica (ecorregiões da área da mata
há geralmente faixas de transição em que aparecem ele-
Atlântica).
mentos que ora são típicos de um conjunto, ora de outro.
§ Caatinga (ecorregiões da caatinga).
Os biomas brasileiros § Cerrado (ecorregiões do cerrado).
§ Pantanal (ecorregiões do pantanal).
§ Pampas (ecorregiões dos campos).
§ Biomas costeiros (ecorregiões dos manguezais,
das restingas e das dunas).

A vegetação é o elemento que mais marca a paisagem


com sua presença, o que se torna evidente no nome de
cada domínio morfoclimático. Mas por que a vegetação,
que é o elemento mais frágil da paisagem e que primeiro
sofre com as alterações provocadas pelo homem, é tomada
como definidora dos domínios, dando nome à maioria de-
les? Porque a vegetação sempre reflete as mudanças que
O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recur- ocorrem nos demais elementos. Se o clima muda num local
sos Naturais Renováveis (Ibama), o Ministério do Meio e o mesmo ocorre num outro local com a umidade (maior
Ambiente (MMA) e o Fundo Mundial para a Natureza ou menor presença de água), com o relevo (mais baixo
(WWF-Brasil) fizeram um estudo dos ecossistemas bra- ou mais elevado) ou com o solo, fatalmente a vegetação
sileiros com a finalidade de verificar como está sendo desse local vai evidenciar essa mudança, com novos tipos
realizada a conservação desses ecossistemas. de plantas substituindo as plantas que existem nas áreas
periféricas. É em função desse marcante elemento, ou seja,
Esse levantamento – denominado Estudo de Repre-
de acordo com as formações vegetais, que são divididos os
sentatividade Ecológica – levou em consideração a
domínios (apenas para fins didáticos). Dessa forma, serão
vegetação, a variedade biológica, a biogeografia e a descritos os domínios e as principais características dos ele-
ação do homem e dividiu o Brasil em 49 ecorregiões. mentos de cada um:
“Entende-se por ecorregião um conjunto de comuni- § Formações florestais: floresta Amazônica, mata
dades naturais, geograficamente distintas, que com- Atlântica e mata das araucárias.
partilham a maioria das suas espécies, dinâmicas e
processos ecológicos, e condições ambientais simila- § Formações arbustivas: caatinga e cerrado.
res, que são fatores críticos para a manutenção de sua § Formação herbácea: pradarias.
viabilidade a longo prazo.”
§ Formações complexas: mangue, pantanal e mata
Extraído de: DINNERSTEIN, E. Biodiversity of dos cocais.
Latin American and the Caribe – Aconservation
assessment. WWF/The Word Bank, 1995. p. 129.

Esse trabalho também deu origem a um mapa que 1.1. Formações florestais
localiza os sete biomas brasileiros – seis terrestres e A vegetação florestal se caracteriza pela predominância de
um envolvendo a região marítima (zona costeira ou árvores de grande porte. Essas formações são divididas em
litorânea) –, estabelecendo entre eles três áreas de dois grandes grupos:
transição: a mata seca (entre a Amazônia e o cerra-
§ Floresta latifoliada: apresenta folhas largas e gran-
do), a mata dos cocais (entre a floresta Amazônica e
des – é o tipo de vegetação de clima quente e úmido.
a caatinga) e a floresta de folhas secas do Nordeste
São exemplos a floresta Amazônica, a mata Atlântica e
(entre o cerrado e a caatinga).
a mata dos cocais; e
Os biomas brasileiros abrangem várias ecorregiões e
§ Floresta aciculifoliada: apresenta folhas em forma
são classificados da seguinte maneira:
de agulhas, como os pinheiros. Um exemplo é a mata
de araucárias ou mata dos pinhais.

68
Na Amazônia e na mata Atlântica, as árvores de grande
porte aparecem associadas a vários outros meios biológi-
cos, em particular as epífitas – diz-se de um vegetal que
vive apoiado sobre outro, mas sem retirar nutrientes –,
como os cipós e as orquídeas. Essas florestas se localizam
em áreas de clima ombrotérmico (ombro, chuvas) e, segun-
do o IBGE (1992), de temperaturas relativamente elevadas,
com precipitação abundante e bem distribuída o ano todo.
Por meio da fotossíntese, as árvores absorvem uma grande
quantidade de energia solar, gerando a evapotranspiração,
ou seja, a eliminação de água através das folhas, que as- multimídia: vídeo
cende na forma de vapor. Estima-se que somente na Ama-
Fonte: Youtube
zônia a cobertura vegetal seja diretamente responsável por
50% do vapor de água lançado ao ar. Esse vapor cairá em Intérpretes do Brasil: os vári-
forma de chuvas. os Brasis, por Aziz Ab’Saber

Por serem ambientes com grandes quantidades de matéria


orgânica (biomassa), a mata Atlântica e a Amazônia absor- (resinas, óleos, látex, frutas, madeiras, essências aromáti-
vem elevadas quantidades de energia solar e devolvem, cas), das quais uma parte significativa não é sequer cata-
através de calor, uma quantidade de energia menor que a logada. A umidade não é homogênea em toda a região,
devolvida por um deserto. Em razão disso, essas florestas produzindo, dessa forma, uma variação na fauna e flora de
contribuem para manter amenas as temperaturas nos tró- acordo com as variações da umidade. A variação de umida-
picos úmidos – sem extremos de frio ou calor. A substitui- de ao longo de trechos da hileia amazônica determina um
ção dessas florestas por pastos e áreas cultivadas, como na mosaico de florestas. Assim, a partir dos vales dos rios em
Amazônia, ou por lotes residenciais, como acontece na mata direção à terra firme, é possível observar:
Atlântica, causa alterações no microclima dessas regiões.
§ Mata de igapó ou caaigapó – formação vegetal lo-
calizada em terrenos baixos, próximo às margens dos
1.1.1. Domínio das terras baixas florestadas rios e, portanto, permanentemente alagada. É prová-
da Amazônia (floresta Amazônica) vel que os igapós tenham surgido nos períodos Terci-
A floresta equatorial Amazônica, também denominada flo- ário e Pré-cambriano. A flora associada a esse tipo de
resta latifoliada equatorial, é a maior formação florestal do ecossistema é altamente adaptada às condições des-
planeta em área contínua, cobrindo uma área que passa pe- se ambiente, como inundação, sedimentação, erosão,
los territórios do Brasil, Venezuela, Colômbia, Equador, Peru pH e produtividade. Essas florestas cobrem uma área
e Bolívia. Possui uma formação higrófila, ou seja, adaptada a de aproximadamente 100 mil km2 no período das en-
ambientes úmidos, latifoliada (com folhas grandes e largas), chentes e crescem principalmente sobre solos arenosos,
perene (sempre verde), densa (de difícil penetração) e hete- pobres em nutrientes, mas com muitas espécies endê-
rogênea (rica em espécies vegetais). micas. Trata-se de terrenos com solos alagados o ano in-
teiro, os denominados solos hidromórficos. Muitas espé-
cies endêmicas de vegetação florescem durante a fase
aquática, sendo o período de inundação que comanda
todos os processos de crescimento e desenvolvimento
nesses ambientes. Na floresta de igapó, a vegetação ge-
ralmente é baixa, sendo constituída por arbustos, cipós
e musgos, que são exemplos de plantas comuns nessas
áreas. É também nas matas de igapó que é encontrada
a vitória-régia, um dos símbolos da Amazônia. Sua folha
arredondada, que fica na superfície da água, pode che-
gar a mais de um metro de diâmetro, possui espinhos
A floresta Amazônica é a maior floresta equatorial do mundo e ao redor das bordas, como forma de defesa contra ata-
representa mais de 25% do total dessas florestas.
ques de peixes, e sua flor pode variar de branco à rosa.
A floresta Amazônica é bastante diversificada em espécies A planta fica presa no leito do rio por um tendão que
animais (pequenos mamíferos, insetos, répteis) e vegetais impede que a folha se separe da raiz.

69
florística que varia conforme a duração do período em
que se encontra alagada, determinada pela altura em
relação ao nível das bases dos rios. Quando situada em
áreas mais alagadas, assemelha-se aos igapós; quando
em locais mais altos (menos alagados), aproxima-se
da vegetação de terra firme. A seringueira, típica dessa
formação, tem alto valor para a sociedade por possibi-
litar a extração do látex para a produção da borracha.
Essa planta motivou a ocupação da Amazônia ociden-
tal, no período de extração, que compreendeu de 1890
a 1910; no entanto, devido à concorrência no conti-
nente asiático, esse produto entrou em decadência.
Igarapés são cursos d’água amazônicos de primeira, se-
gunda ou terceira ordem, formados por um braço longo
de rio ou canal. Existem em grande número na bacia
Amazônica e se caracterizam pela pouca profundidade
e por correrem quase no interior da mata. Devido a sua
baixa profundidade e por ser bastante estreito, apenas
pequenas embarcações, como canoas e pequenos bar-
cos, conseguem navegar pelas águas de um igarapé.
A palavra igarapé foi adotada do tupi pela junção dos
termos ygara (canoa) e apé (caminho) e significa “ca-
minho de canoa”. Os igarapés amazônicos constituem
parte essencial no funcionamento da floresta, pois atu-
am como corredores ecológicos, ligando fragmentos
florestais. Além disso, também foram fundamentais
para a ocupação indígena, possibilitando a organização
da maioria dos grupos indígenas no mundo amazôni-
co. Os igarapés foram reconhecidos pela sua função de
“estrada líquida” para a circulação de curtas distâncias.

multimídia: livros
Os domínios de natureza do Brasil: potencia-
lidades paisagísticas - Aziz Nacib Ab’Saber
O professor e geógrafo Aziz Ab’Sáber foi
um dos pesquisadores brasileiros mais
dedicados à compreensão espacial e ter-
multimídia: livros ritorial do país.

Era verde? Ecossistemas brasileiros ameaça- § Mata de terra firme ou caaetê – vegetação loca-
dos - Zysman Neiman
lizada em terras mais elevadas, ou seja, não sujeitas a
Tema constante na mídia e grande ob- alagamentos, onde se desenvolvem grandes árvores
jetivo de estudos acadêmicos (principal- (entre 60 e 65 metros), como o castanheiro. Por ser mui-
mente a partir do fim do século XX), a to alto, o dossel (a copa das árvores) retém 95% dos
questão ambiental vem sensibilizando raios solares, tornando o interior da floresta muito escu-
toda a sociedade. ro e úmido. A castanha-do-pará, extraída do ouriço do
castanheiro, tem no Brasil seu único produtor mundial.
§ Mata de várzea – vegetação localizada em terrenos Atualmente, extraem-se dessa porção da floresta ma-
periodicamente alagados; possui uma composição deiras de lei, como o mogno (uma das madeiras mais

70
contrabandeadas, devido ao seu alto valor comercial), a
peroba, a maçaranduba, etc.

multimídia: música
Fonte: Youtube
Purificar o Subaé – Maria Bethânia

N S
Mata de Mata de Depressão marginal
Planalto das Guianas terra firme igapó sul-amazônica e planaltos
Mata de residuais sul-amazônicos
Serras Planalto Nível das
norte-amazônico várzea águas altas Rio Amazonas
(enchentes)

Depósitos sedimentares Solo sedimentar


terciários de terra firme recente de várzea

Sedimentos

Esquema ilustrativo dos estratos da floresta Amazônica

mm a 1.700 mm, podendo ultrapassar 3.000 mm na foz


“O fato de possuir terras nos dois lados da linha do do rio Amazonas e no litoral do Amapá. O principal período
equador reflete diretamente na marcha dos períodos chuvoso dura seis meses (dezembro a maio).
de maior precipitação no espaço total da Amazônia.
A região Amazônica é conhecida como um grande sumi-
Enquanto o sul da Amazônia brasileira é dominado
douro de carbono, isto é, grandes quantidades de carbono
por chuvas de verão austral (de janeiro a março), o são absorvidas pelas plantas e transformadas em biomassa
norte da região recebe precipitações maiores duran- graças à fotossíntese. Contudo, a fertilidade do solo ama-
te o verão boreal (de maio a julho). Entre esses dois zônico é restrita às várzeas (solos aluvionais originários das
períodos extremos, existem transições progressivas, margens dos rios) ou a algumas manchas de terra preta de
sendo que na maior parte da calha central oeste-leste origem orgânica. Em geral, as árvores apenas vivem sobre os
do Amazonas chove também nos meses de março a solos, mas não vivem dos nutrientes deles, que normalmente
maio. Resulta daí que as grandes cheias do rio Negro, são muito pobres. Com efeito, é a própria vegetação que
por exemplo, necessitam da coincidência entre os pe- cria um sistema autossustentável: ao longo de um ano, caem
ríodos chuvosos da Amazônia centro-ocidental com cerca de 8 toneladas por hectare de folhas, flores, galhos e
o setor noroeste do estado do Amazonas. Em com- frutos no chão, que apodrecem em virtude do clima quente
pensação, a parte central do rio Amazonas mantém e úmido, facilitando a ação microbiana e a formação do hú-
estabilidade relativa de seu próprio nível d’água.” mus, com nutrientes solúveis em água. Quando chove, esses
(Aziz Ab’Saber) nutrientes penetram o solo e são absorvidos pelas raízes das
plantas. Há muitos microrganismos que vivem junto às raí-
Devido à proximidade da linha do equador, o clima na região zes, contribuindo para a decomposição da matéria orgânica
Amazônica é equatorial, quente e úmido, com a temperatu- e para a sua posterior absorção de novo por elas.
ra variando pouco durante o ano. As chuvas são abundantes, Os desmatamentos e as queimadas aceleram os processos
com as médias de precipitação anuais variando de 1.500 de degradação do solo e a perda da biodiversidade nesses

71
locais. Há problemas como a lixiviação – erosão do solo maioria dos animais morreu em virtude do clima europeu.
pelas águas das chuvas – e a laterização, que consiste na Os exemplares restantes não foram capazes de produzir o
ascensão e concentração superficial de óxidos de ferro e mesmo veneno porque, para isso, necessitavam de elemen-
alumínio no solo, tornando-o duro. Regularmente, essa as- tos retirados da floresta. Outro caso exemplar bem recente
censão se deve ao solo desmatado atingido por grandes de biopirataria é o da fruta cupuaçu e de seu nome, ambos
chuvas, que “lavam” seus nutrientes, deixando os materiais patenteados por uma empresa japonesa.
mais pesados, como os óxidos de ferro e alumínio, para
Apesar de ainda estarem preservados aproximadamente
trás. Depois, atingidos pelos raios solares intensos, esses
80% de sua área original, a floresta Amazônica é a formação
óxidos formam uma crosta avermelhada – uma camada
vegetal brasileira com o ritmo de devastação mais acelerado.
ferruginosa – sobre o solo. O caboclo amazônico ou tapuio
Desde os anos 1960, quando o governo militar promoveu
chama essa crosta de “canga” ou “pedra pará”.
uma política de integração da região ao eixo econômico do
O potencial biotecnológico da Amazônia atrai muitas trans- Centro-Sul do País, os desmatamentos só aumentaram. Os
nacionais, que vêm à floresta para contrabandear, estudar projetos agrominerais e agropecuários que recebiam incen-
e patentear substâncias dos elementos da flora e da fauna. tivos fiscais por meio da Sudam (Superintendência para o
O objetivo é óbvio: comercializar e obter lucros no futuro. Desenvolvimento da Amazônia) acabavam facilitando a pe-
netração de empresas nacionais e transnacionais na região
Os habitantes locais (indígenas e caboclos) são bons co-
em busca de riquezas como ouro, ferro, bauxita, etc. A pecu-
nhecedores da natureza e de suas possibilidades de uso.
ária e, mais recentemente, o agronegócio da soja também
Na maioria das vezes, as substâncias ativas de plantas ou
são responsáveis pela ocupação desenfreada.
mesmo de animais são descobertas pelas empresas graças
aos nativos, que não recebem nada em troca – é a denomi- Em 1970, o Programa de Integração Nacional (PIN), também
nada biopirataria. Na década de 1970, por exemplo, desco- do governo militar, destinou recursos para a construção de
briu-se na Amazônia que uma determinada cobra produzia rodovias como a Transamazônica e a Cuiabá–Santarém. Ou-
um veneno capaz de matar um homem em 60 segundos. A tras, implantadas na década anterior, como a Cuiabá–Porto
multinacional alemã Bayer furtou algumas delas e as levou Velho e a Belém–Brasília, intensificaram os fluxos migrató-
para a Europa com o objetivo de criar um remédio que atu- rios, levando ao aumento de desmatamentos em áreas adja-
aria na pressão arterial. Esse projeto foi um fracasso, pois a centes, no formato denominado “espinha de peixe”.

Dessa forma, quebrou-se o isolamento da Amazônia de 1.1.2. Domínio dos mares de morros
maneira preocupante, uma vez que foram afetados recur-
florestados (mata Atlântica)
sos importantes de sua biodiversidade, com consequências
para os sistemas hídricos, os solos e as outras formas de A definição de limites é um dos pontos mais controversos
vida. Além disso, ocorreu a desestruturação da vida dos relacionados aos aspectos naturais da mata Atlântica. Não
povos tradicionais da região, como indígenas, seringueiros, há consenso entre diferentes autores e fitogeógrafos.
ribeirinhos, castanheiros e demais habitantes da floresta – Originalmente, a mata Atlântica recobria uma extensa
espaços com gente e história. área do litoral do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do

72
Sul, penetrando pelos estados da Bahia, de Minas Gerais ou menos contínua, boa parte da costa brasileira, do Rio
e de São Paulo. Grande do Norte ao nordeste do Rio Grande do Sul. Não
estão incluídas nesse cenário as florestas estacionais – su-
Num sentido amplo, o termo floresta Atlântica pode se re-
jeitas a uma estação seca – dos planaltos mais interiores
ferir ao conjunto de formações florestais extra-amazônicas
do Sudeste, Sul, Nordeste e Centro-Oeste.
que ocupam a porção oriental do país. Também conhecida
como floresta latifoliada tropical úmida de encosta, sua Essa floresta litorânea, rica em espécies vegetais, possui as
complexidade vegetacional se relaciona com a distribui- mesmas características da mata equatorial: higrófila, latifo-
ção de umidade trazida pela massa polar atlântica (mPa), liada, perene e densa. Originalmente, apresentava grande
conjuntamente com as variações dos tipos de relevo e dos quantidade de espécies de árvores com madeiras de lei:
solos. De modo amplo, sua ocorrência é localizada em ilhas pau-brasil, peroba, ipê, jacarandá, jequitibá, entre outras.
isoladas no interior do nordeste brasileiro, chegando até o Com uma área original de 1,36 milhão de km2, a intensa
litoral, de onde segue até o nordeste-norte do Rio Grande ocupação a que foi submetida – devastações para planta-
do Sul, ocupando uma faixa de largura muito variável que ção de monoculturas da cana-de-açúcar e café, formação
percorre toda a costa. No Sul e Sudeste, essa faixa se torna dos maiores conglomerados urbanos, assim como do maior
mais larga, chegando praticamente até o vale do rio Paraná parque industrial do país – causou a perda de grande parte
– adentrando os estados de São Paulo e Minas Gerais. Em de sua cobertura nativa, que ficou reduzida a apenas 7% de
sentido restrito, incluem-se apenas as formações florestais sua área original, dos quais são poucas as reservas mantidas
que recobrem as serras que acompanham, de forma mais pelo governo. Apesar disso, a floresta continua muito rica.

VIVENCIANDO

A Praça do Relógio, na Cidade Universitária, que foi construída em 1971 e reinaugurada em setembro de 1997, depois
de uma reforma, é um bom destino para observar e estudar alguns biomas. A praça foi reurbanizada de acordo com
um projeto paisagístico elaborado por professores da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e do Instituto de Biociên-
cias. Esse projeto criou, nos 176 mil m2 do local (equivalente a 18 quarteirões urbanos), os seis ecossistemas vegetais
predominantes no Estado de São Paulo. Num dos lados da praça, junto à Avenida Professor Luciano Gualberto, por
exemplo, foram plantadas 4 mil mudas de 60 espécies típicas da mata Atlântica, como jatobá, jequitibá, pau-brasil e
cedro-rosa. Ao longo da praça, distribuem-se espécies vegetais da mata de araucária, restinga, campo rupestre, cerrado
e mata semidecídua. Painéis explicativos expostos em diversos locais apresentam informações sobre os ecossistemas.

Praça do relógio - Campus Butantã

73
A mata Atlântica tem a maior diversidade de espécies vege- apenas com as chuvas e a umidade do ar para obtenção de
tais por km2 de floresta. Além de possuir uma biodiversida- água, já que não estão ligadas ao solo. Essas adaptações
de tão grande quanto à da Amazônia, a mata Atlântica se dizem respeito ao armazenamento de água em suas folhas
apresenta em diferentes altitudes e relevo, o que possibilita ou, como no caso das bromélias, à formação de um reser-
a adequação da variedade de espécies. A floresta pode ser vatório de água no centro da planta, que também serve de
dividida em estratos. O estrato superior é denominado dos- moradia e local para alimentação e reprodução de muitos
sel (entre 20 m e 30 m), que é formado pelas árvores mais animais. As plantas epífitas e lianas não são necessaria-
altas, adultas, que recebem toda a intensidade da luz solar mente parasitas, pois muitas utilizam a planta hospedeira
que chega na superfície do planeta. Devido à diversidade somente para fixação e apoio, não sendo prejudicial.
de espécies, as copas dessas árvores formam uma espécie
No chão da floresta, misturadas à serrapilheira, vivem inú-
de mosaico. Aí estão as canelas, as leguminosas (anjicos
meras espécies de fungos, como os cogumelos basidiomi-
e jacarandás), os ipês, o manacá-da-serra, o guapuruvú,
cetos (orelha-de-pau, por exemplo). Outro tipo de fungo
entre muitas outras. As árvores do interior da mata fazem
é a micorriza, que vive associada às raízes das árvores
parte do estrato arbustivo, formado por espécies arbóreas
auxiliando na absorção de nutrientes. Também misturadas
que vivem toda a sua vida sombreadas pelas árvores do
ao solo estão as sementes e plântulas que aguardam uma
dossel. Entre elas estão as jabuticabeiras, o palmito-jussara
entrada de luz para iniciarem seu processo de crescimento.
e as begônias, por exemplo. O estrato herbáceo é formado
por plantas de pequeno porte que vivem próximas ao solo, No interior da mata a luminosidade é fraca, uma vez que
como é o caso de arbustos, ervas, gramíneas, musgos, sela- é filtrada pelo dossel. As plantas dos estratos inferiores
ginelas e plantas jovens, que compõem os outros estratos normalmente possuem folhas maiores para aumentar a
quando atingem a fase adulta. superfície de captação de luz. O caule fino e longo também
parece ser uma estratégia para a planta alcançar o dossel
e, consequentemente, mais luz.
A interação entre animais e plantas ocorre por meio de
um processo de coevolução. É possível observar especia-
lizações extremamente singulares, em que apenas uma
espécie de inseto tem a capacidade de polinizar uma de-
terminada espécie de planta. Insetos, aves e mamíferos são
os principais polinizadores e dispersores de sementes, mas
também existe a dispersão pelo vento (eólica) e pela água,
como é o caso dos musgos e algumas plantas com semen-
tes capazes de boiar.
No Parque Nacional e Histórico do Monte Pascoal, uma das mais
importantes unidades de conservação integral do sul daBahia, próximo
à cidade de Porto Seguro, encontra-se um trecho de mata Atlântica.

Em regiões de floresta Atlântica, onde o índice pluvio-


métrico é maior, o que torna o ambiente muito úmido, é
favorecida a existência de briófitas (musgos) e pteridófi-
tas (samambaias, por exemplo). No entanto, para outras
plantas, o excesso de umidade pode ser prejudicial, e suas
folhas muitas vezes apresentam adaptação para não re-
terem água, sendo inclinadas, pontiagudas, cerificadas e
sulcadas, facilitando o escoamento da água e evitando o
acúmulo, que poderia causar apodrecimento dos tecidos. multimídia: música
Há plantas que crescem sobre outras, utilizando troncos Fonte: Youtube
e folhas como substrato de fixação: as epífitas (epi = so- O Cio da Terra – MPB 4
bre; fito = planta) e as lianas. As epífitas são as bromélias,
orquídeas, cactáceas, entre outras, que não retiram seus
nutrientes do solo. As lianas são as trepadeiras, que se fi- O solo possui uma grande quantidade de matéria orgâ-
xam no solo, mas utilizam outras plantas para se apoiarem nica que se deposita no horizonte A, formando uma ca-
na tentativa de alcançar o dossel. Muitas dessas plantas mada de húmus que é rapidamente absorvida pelas plan-
tiveram que se adaptar a períodos de seca, pois contam tas. Nas planícies litorâneas se encontram formações de

74
restingas e manguezais, que são de grande importância necessária a troca de local para a plantação, aumentando
para os ecossistemas costeiros graças ao fornecimento de as áreas devastadas. A pecuária, por sua vez, foi implanta-
nutrientes e abrigo de várias espécies marinhas em suas da para servir como força motriz nos engenhos, expandin-
épocas de reprodução. do-se como atividade econômica e causando sérios danos
Desde o início da colonização, os portugueses começaram sobre a mata Atlântica.
a explorar o pau-brasil (Caesalpinia echinata), do qual se Diferentemente das práticas citadas até aqui, o cultivo do ca-
extraía tinta para tecido, sendo o produto que estabele- cau foi introduzido pelo sistema das cabrucas, que é o plan-
ceu a primeira atividade econômica da colônia. De 1500 a tio feito em áreas sombreadas, o que proporcionou a ma-
1530, não houve um projeto de colonização para o Brasil e nutenção das árvores maiores e mais antigas da mata. Essa
a extração do pau-brasil foi feita primordialmente por par- atividade ocorreu principalmente na região do sul da Bahia,
ticulares europeus, os quais pagavam impostos para a Co- estendendo-se também para o norte do Espírito Santo.
roa portuguesa. Era utilizada mão de obra indígena, cujo
A devastação da mata Atlântica seguiu por meio da mi-
pagamento era feito na forma de escambo – os índios, em
troca do trabalho, recebiam objetos sem valor, como facas neração, destruindo extensas áreas do estado de Minas
e chapéus. Até cerca de 1850 foram devastadas enormes Gerais para a retirada do ouro e, consequentemente, a ins-
áreas de mata às custas da mão de obra escrava (indígena talação de vilas e arraiais.
e africana, principalmente) de forma desordenada. Além da Desde o período colonial, foram retiradas da mata ár-
prática da extração comercial, a mata foi destruída para a vores nobres, como as canelas, o jacarandá, a peroba,
construção de vilas e cidades. o cedro, entre outras. O espaço urbano cresceu e seus
Simultaneamente ao uso do pau-brasil, foram implantados habitantes originais, empurrados para o sertão, seguiram
engenhos de cana-de-açúcar, o que contribuiu substancial- desmatando novas áreas.
mente para a devastação da floresta Atlântica. Na Zona Devido à queda da mineração, um outro ciclo econômico
da Mata nordestina, o primeiro local ocupado pelos colo- localizado em área de mata Atlântica foi o café (Coffea ara-
nizadores, a floresta foi completamente devastada e, em bica). Essa atividade se instalou inicialmente na região do
seu lugar, surgiram extensos canaviais. A cana-de-açúcar Vale do Paraíba, na Baixada Fluminense e no sul de Minas,
(Saccharum officinarum) foi a principal atividade econômi- expandindo-se para o oeste a partir de 1850, passando
ca nos séculos XVI e XVII. Era plantada em latifúndios, que por Campinas (SP) e chegando a Ribeirão Preto (SP), onde
ocupavam extensas áreas para conseguir suprir o mercado se consolidou. O cultivo do café gerou um adensamento
europeu, tendo também como base a mão de obra escrava urbano ainda maior, proporcionando a construção de fer-
africana. Foi uma atividade de monocultura, causando o rovias, o que contribuiu para o aumento do desmatamento
empobrecimento do solo e, consequentemente, tornando no século XIX.

Evolução do desmatamento na mata Atlântica

Século XVI Século XXI

75
Na serra do Mar, devido às altas escarpas e à relativa escas- a 8% da cobertura original, indica a necessidade de adoção
sez de terras nas planícies litorâneas para a agricultura, o de medidas eficientes para a sua conservação e recuperação.
litoral da região Sudeste passou à margem dos ciclos eco- Os pontos mais preservados de mata Atlântica original se
nômicos do açúcar e do café, que alteraram drasticamente a encontram no sul da Bahia (no Parque Nacional do Monte
paisagem do planalto interior. Por esse motivo, nessa região Pascoal e em seus arredores) e em São Paulo, em alguns
há áreas extensas com cobertura florestal preservada. Quan- trechos de serra pouco acessíveis ou que fazem parte do
do as atividades industriais foram implantadas e se expan- Parque Estadual da Serra do Mar ou outras áreas protegi-
diram rapidamente, principalmente no Centro-Sul do país, a das, como Cananeia e Jureia. As semelhanças estruturais e
retirada de matéria-prima acompanhou sua expansão. florísticas observadas entre ambas as florestas – a Amazô-
nica e a Atlântica – são mais evidentes em algumas partes,
como no sul da Bahia. Essas semelhanças serviram de base
O nome “mares de morros” foi assim atribuído de-
para o nome Hileia Sul-baiana, como é apelidada aquela
vido às feições externas e aparentes de suas formas
região. Esse atributo tem sido frequentemente apontado
de relevo, que apresentam morros arredondados ou
como uma evidência das conexões históricas entre ambas;
mamelonares, com destaque especial para a serra
afirma-se, ainda, que essas florestas já estiveram interliga-
do Mar. Essas feições se devem ao fato de se tratar
das em algum momento da história da Terra.
um revelo muito antigo, resultante da formação de
dobramentos da Era Pré-cambriana, e que foi muito Quanto mais no interior do país, mais se reduz a pluvio-
desgastado pelos agentes exógenos ou externos, con- sidade, e a mata Atlântica cede lugar a uma floresta tro-
tribuindo, assim, para a formação de vertentes com pical latifoliada semidecídua, menos exuberante e úmida,
topos em “meia laranja”. mas igualmente destruída pela ação humana. Esse tipo de
floresta aparece, em particular, no interior paulista, no sul
mineiro e no sul carioca.

Relevo dos mares de morros com aparência mamelonar

O domínio dos mares de morros é predominantemen- multimídia: sites


te constituído por áreas de planalto, notadamente os
http://www.arvoresbrasil.com.br/
planaltos e serras do Atlântico leste-sudeste, confor-
me a classificação do relevo elaborada por Jurandyr
Ross. Deve-se ressaltar também a presença das planí- 1.1.3. Domínio do planalto das
cies e tabuleiros litorâneos, algumas depressões peri- araucárias (mata dos pinhais)
féricas e os planaltos e chapadas da bacia do Paraná.
A cobertura vegetal que se espalhava pela região sul do
Os solos das áreas onde se encontram os mares de Brasil e em áreas elevadas do planalto da bacia do Paraná
morros são, na maior parte, de profundidade elevada é conhecida como mata dos pinhais, mata de araucária ou
em função do longo tempo de exposição aos proces- floresta aciculifoliada. Essa floresta constitui uma das mais
sos intempéricos. importantes formações do sul do Brasil, não só pela área
que ocupava, mas também pelo papel que os seus recur-
sos naturais tiveram em sua ocupação. Distribuída original-
Hoje, os principais fatores de degradação da mata Atlânti- mente pelas regiões planálticas, com altitudes superiores
ca são o crescimento urbano e o consumo dos recursoso, a 500 e ocorrência central na área compreendida pelos
além da falta de políticas públicas que incentivem seu uso estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e
sustentável. Esse bioma possui grande importância social, São Paulo, possui pequenas penetrações por Minas Gerais
econômica e ambiental, e sua porção atual, correspondente (pico da Bandeira) e pelo Rio de Janeiro (Petrópolis). Nas

76
planícies, realizava transição com os campos de pradarias A tendência atual tem sido a de proibir qualquer tipo de
sulinos. Além disso, se distribui por países vizinhos ao Bra- intervenção no bioma da araucária, mesmo na forma do
sil, como no nordeste da Argentina e sudeste do Paraguai, manejo sustentável autorizado pela Constituição. Entretan-
cuja área é pouco expressiva. to, a experiência tem demonstrado que, ao se aumentar o
rigor na interpretação da lei, sua aplicação pode se revelar
inconsistente ou ineficaz; além disso, a despeito da varia-
da e vasta proteção sacramentada pela lei, ainda ocorrem
muitas violações e abusos.

Modelo Lozango
A estratégia de regeneração das araucárias, que
combina a dependência de ambientes abertos e
bem iluminados com uma longevidade muito alta,
caracteriza essas matas como pioneiras de vida
A mata de araucária, que originalmente se estendia de Minas Gerais à longa. Essa estratégia consiste em populações
Argentina, predomina no Paraná. É uma formação típica da América de araucárias adultas dominando extensos tre-
do Sul e está entre os ecossistemas mais devastados do Brasil.
chos florestais e formando um estrato emergente
A mata de araucária, formação florestal de menor tropica- acima das copas de árvores de outras espécies.
lidade, possui características diferentes das duas florestas Entretanto, no interior dessa florestas faltam
anteriores; apresenta mata muito homogênea e típica de araucárias jovens, que não conseguem sobreviver
ambientes frios e úmidos e clima subtropical; é considera- e crescer na sombra o suficiente para atingir a
da aciculifoliada, ou seja, possui folhas pontiagudas (em idade adulta. Essa estratégia corresponde bem ao
forma de agulha) mais resistentes ao frio, floresta aberta, Modelo Lozango, proposto para explicar a ecolo-
de fácil penetração e com menor número de espécies ve- gia das florestas de coníferas da Nova Zelândia e
getais. Entre os pinheiros, crescem outras espécies arbóre- regiões vizinhas, em que grandes coníferas adul-
as, como a canela ou o angico, e também rasteiras, como tas são numerosas nas florestas maduras, mas só
a erva-mate, matéria-prima do chimarrão, bebida muito conseguem regenerar suas populações depois de
apreciada no sul do Brasil. perturbações em grande escala, como tornados e
deslizamento de encostas.
Devido à exploração econômica da madeira para produção
de papel e móveis, a mata dos pinhais está hoje reduzida As araucárias têm possuem forte atuação no processo
a menos de 10% (cerca de 20 mil km2) de sua área origi- de nucleação. Nesse processo, araucárias estabeleci-
nal. Algumas plantas ficaram famosas por essa devastação, das em campos e pastagens agem como plantas-en-
como o pinheiro-do-paraná (Araucaria angustifolia), espé- fermeiras, atraindo aves dispersoras de sementes que
cie predominante que forneceu madeira de qualidade, e o promovem a colonização do local por outras espécies
pinhão, muito apreciado pela culinária regional, que é a de árvores. Esse processo possibilita a expansão flo-
semente dessa gimnosperma, cuja dispersão é feita pela restal sobre campos naturais e facilita a regeneração
ave local, a gralha-azul. Tudo foi profusamente destruído de áreas florestais degradadas.
pelo homem com a ocupação agrícola – soja, trigo, videira
e milho – e a pecuária.
Na década de 1960, grandes empresas implantaram pro- Devido à ação do intemperismo físico e químico, o ba-
missores programas de reflorestamento, mas, desafortu- salto deu origem aos solos férteis de terra-roxa, que são
nadamente, a maioria deles não correspondeu às expec- eluvionais, ou seja, situados sobre a própria rocha matriz
tativas. O ciclo de reprodução prolongado da espécie e – ao contrário do solo aluvional das várzeas amazônicas,
seu crescimento lento, exigindo muitos nutrientes, além que são transportados pelos rios. Os solos de terra-roxa
das restrições que disciplinaram seu corte, diminuindo a são muito usados no cultivo de gêneros agrícolas típicos
sustentabilidade econômica da espécie, tornaram-na pou- de climas temperados, como o café; além de férteis, lo-
co atrativa para ser usada em reflorestamentos comerciais. calizam-se em uma região fria, como o noroeste de São
Por isso, a cultura foi sendo preterida em favor do Pinus e Paulo e do Paraná. Atualmente, a partir do sul do Paraná,
do Eucalyptus, espécies exóticas, mas de crescimento rápi- não há mais esse tipo de solo.
do e de poucas exigências.

77
CONEXÃO ENTRE DISCIPLINAS

A vida na superfície da Terra está inserida em um amplo contexto de relações de troca e fluxo de energia, compondo
sistemas abertos e hierarquizados que, em seu conjunto, denominam-se biosfera. A biosfera, por sua vez, relaciona-se
com a hidrosfera, a litosfera e a atmosfera. Essas relações variam de acordo com os períodos e com o espaço, em
níveis de associação ou de organização estabelecidos por relações de competição, predação e cooperação, como
é possível observar nas redes alimentares em que as plantas são alimentos para muitos animais, mas precisam de
muitos deles para cumprir seu ciclo de vida. Esses processos são objetos de estudo das Ciências Biológicas. Contudo,
nesse contexto também se inserem as relações sociais que, além de participarem do processo de troca de energia,
participam ativamente das transformações dos sistemas naturais ao longo dos períodos. A Ciência Geográfica estuda
a vida na superfície do planeta também na escala do bioma e analisa de que maneira a evolução desses biomas
proporcionou transformações no espaço.

ÁREAS DE CONHECIMENTO DO ENEM

Habilidade
26 Identificar em fontes diversas o processo de ocupação dos meios físicos e as relações da vida humana com a paisagem.

Reconhecer a função dos recursos naturais na produção do espaço geográfico, relacionando-os com as mudanças pro-
29 vocadas pelas ações humanas.

A influência exercida pelo ambiente natural sobre o comportamento das sociedades humanas promoveu, nas últimas
décadas, estudos sociológicos, geográficos e históricos que consideram as variáveis ambientais em suas análises.
O crescimento populacional, adicionado ao modelo capitalista de sociedade e à divisão do trabalho que se con-
centrou no terceiro setor da economia, trouxe uma apropriação excessiva dos territórios, explorando áreas antes
ambientalmente preservadas e gerando problemas ambientais. Entretanto, é possível que se promova a apropriação
de territórios de forma consciente, conhecendo o meio físico, seus elementos e processos associados para que, assim,
as decisões voltadas ao planejamento urbano e ambiental sejam menos prejudiciais ao meio natural.

Modelo
(Enem) A floresta Amazônica, com toda a sua imensidão, não vai estar aí para sempre. Foi preciso alcançar toda essa
taxa de desmatamento de quase 20 mil quilômetros quadrados ao ano, na última década do século XX, para que uma
pequena parcela de brasileiros se desse conta de que o maior patrimônio natural do país está sendo torrado.
AB’SABER, Aziz. Amazônia: do discurso à práxis. São Paulo: Edusp, 1996.

78
Um processo econômico que tem contribuído na atualidade para acelerar o problema ambiental descrito é:
a) expansão do projeto Grande Carajás, com incentivos à chegada de novas empresas mineradoras;
b) difusão do cultivo da soja com a implantação de monoculturas mecanizadas;
c) construção da rodovia Transamazônica, com o objetivo de interligar a região Norte ao restante do país;
d) criação de áreas extrativistas do látex das seringueiras para os chamados povos da floresta;
e) ampliação do polo industrial da Zona Franca de Manaus, visando atrair empresas nacionais e estrangeiras.

Análise expositiva - Habilidades 26 e 29: A floresta Amazônica é a maior formação original de floresta
B tropical úmida contínua do planeta. Sua localização expõe grandes extensões de terra em contato com áreas de
cerrado, onde a expansão agropecuária (arco de desmatamento) exerce forte pressão sobre a floresta. Ocorrem,
principalmente, lavouras mecanizadas de cultivo de soja.
Alternativa B

DIAGRAMA DE IDEIAS

VEGETAÇÃO CLIMA RELEVO SOLO HIDROGRAFIA

DOMÍNIOS MORFOCLIMÁTICOS

AMAZÔ- MARES DE ARAU- PRADA-


CERRADO CAATINGA
NICO MORROS CÁRIAS RIAS

FORMAÇÕES FORMAÇÕES FORMAÇÃO


FLORESTAIS FLORESTAIS HERBÁCEA

79
Problemas ambientais e biomas do mundo:
Incidência do tema nas principais provas

Temas muito pedidos no Enem, que costuma A pedologia aparece com frequência no ves-
trabalhá-los acompanhados de gráficos, tibular da FUVEST, mas sempre relacionada
mapas e tabelas, recursos em que o aluno a outros temas de geografia física, como
encontra uma importante ferramenta de geomorfologia, outro tema deste caderno.
apoio para resolver a questão.

Na Unicamp, o tema de solos já apareceu Esse vestibular não apresenta em seu edital Identificar os conceitos básicos dos temas
relacionado a outras matérias, como química, mais recente e nem exigiu nas provas dos dessa frente e analisá-los com ênfase nos
ou seja, trata-se de uma abordagem interdis- últimos vestibulares questões relacionadas à aspectos socioespaciais.
ciplinar que está se tornando uma tendência disciplina de Geografia.
nesse vestibular.

Em 2019, o vestibular do Einstein apresentou Os temas dessa frente não apresentam sur- Provas bem objetivas que também abordam São questões pequenas, de enunciados curtos
uma questão de geomorfologia pela primeira presas nesse vestibular, que aborda conceitos temas físicos relacionados aos aspectos e bem objetivos, em que a geografia física
vez. O solo já foi abordado com ênfase nos básicos contidos neste caderno. socioespaciais. impera nos temas pedidos por esse vestibular.
problemas ambientais. Estude os principais
conceitos e não terá surpresa.

UFMG

Via de regra, geografia física sempre aparece Nessa frente, a geomorfologia do Brasil Esse vestibular não apresenta em seu edital
a partir de questões regionais. busca mostrar o relevo, principalmente com mais recente e nem exigiu nas provas dos
a classificação do professor Jurandyr Ross. É últimos vestibulares questões relacionadas à
importante que o aluno estude esse mapa de disciplina de Geografia.
relevo e preste atenção nele regionalmente.

Nas provas, aparecem muitos recursos como Prova com conteúdos orientados para todos Observou-se nos últimos anos uma tendência
mapas, gráficos e tabelas. É outro vestibular os temas deste caderno. de questões sobre climatologia, principalmen-
que relaciona esses temas com a sociedade e te em função das mudanças climáticas.
a economia.

81
AULAS Solos
9 e 10
Competência: 6 Habilidade: 26

“O solo está repleto de vida. Ao pisar no solo de uma Até cerca de 1877, o solo era considerado apenas como
floresta, estamos caminhando sobre milhares de animais um manto de fragmentos de rocha e produtos da altera-
que participam da decomposição da floresta, sendo res- ção, cuja composição era o reflexo da própria rocha. Nesse
ponsáveis pelo processo de reciclagem dos nutrientes. Esse período, o cientista russo Vasily Dokuchaev (1846-1903)
suporte, que reúne materiais inorgânicos e orgânicos, de- definiu alguns conceitos básicos que mudariam completa-
termina o desenvolvimento das comunidades biológicas. mente a visão sobre o solo. Dokuchaev era funcionário do
governo imperial russo e teve a oportunidade de ver solos
Os solos se enriquecem com a vida que se desenvolve so-
de diferentes regiões. Ele foi o primeiro a ver o solo como
bre eles. Os organismos vivos e as quantidades variadas
um corpo natural distinto e independente do seu material
de água, por exemplo, criam uma espécie de laboratório
de origem, isto é, observou que existem vários fatores que
bioquímico corresponsável pela composição mineralógica levam a formação do solo, independentemente do seu ma-
e fertilidade dos solos.” terial de origem (o mesmo material de origem pode originar
José Bueno Conti e Sueli Angelo Furlan
diversos tipos de solo). Dokuchaev percebeu que existem
fenômenos que ocorrem no solo e não no material de ori-
1. Introdução gem. Ele considerava o solo como produto das influencias
ambientais. Dessa forma, o cientista russo foi considerado
O homem sempre conviveu intimamente com o solo. A prin- fundador da Pedologia enquanto “ciência” que considera
cípio, colhendo da terra seus produtos por meio do extrativis- estudar o solo como um corpo natural independente.
mo e, com o passar do tempo, aprendendo a cultivar o solo
cada vez mais racionalmente para a produção de bens de Embora Dokuchaev tenha elaborado a ideia principal so-
consumo. O homem passou a utilizar o solo como matéria- bre os fatores de formação do solo, somente em 1941
-prima na fabricação de cerâmica e vidraria e como material o químico suíco Hans Jenny sistematizou as ideias do
de construção e substrato para obras de engenharia civil e Dokuchaev e gerou sua “famosa” equação dos fatores
sanitária. Sua identificação, seja no passado ou agora, segue de formação dos solos “Clorpt” – f (CL, O, R, P, T), em
o processo lógico de ordenamento das ideias, buscando a que: CL = clima, O = organismos, R = relevo, P = material
organização do entendimento sobre os solos no contexto de origem e T = tempo.
do acervo de conhecimentos até então disponível. Dessa Aparentemente essa equação já havia sido deduzida por
forma, o processo compreende comparação das aparências Dokuchaev, mas não havia sido claramente expressa. Essa
do solo (morfologia) e/ou de seus atributos não aparentes, equação foi a base de todos os trabalhos de gênese do solo
diante dos conceitos estabelecidos pela mente do homem desde 1941. Como é possível observar na figura a seguir,
com o intuito de rememorar suas características, de perceber o clima e os organismos são considerados fatores ativos,
as relevantes relações entre atributos e comportamentos e enquanto o relevo, o material de origem e o tempo são
visualizar afinidades e diferenças entre solos. fatores passivos.
Naturalmente o conceito que se tem de algo complexo como
o solo reflete o conhecimento acumulado no transcorrer do Clima + organismos
tempo. Por exemplo: parte da antiga “terra vermelha de cul-
tura de primeira”, como eram denominados alguns solos,
passou a ser chamada de “terra roxa legítima” e, depois, de Tempo
“latossolo roxo eutrófico”. A conceituação elaborada na men- Material de
te do homem para cada um desses tipos de solo sofreu su- origem Solo
cessivas modificações para se ajustar ao conhecimento atual. Processos
Sua correta identificação requer, com frequência, muita expe- Relevo direciona a energia
dos processos
riência, conhecimentos específicos e, eventualmente, análises
sofisticadas que exigem técnicas e laboratórios especializados. Representação esquemática dos fatores de formação do solo.

82
2. Gênese do solo de alimentação está no plano superficial de terra arável,
estão em íntima interdependência com o meio ecológico.
O solo é a camada superficial de terra arável dotada de vida
microbiana. Pode ser espesso ou formado por uma delgada
película. As rochas que afloram na superfície do globo estão
submetidas a ações modificadoras dos diversos agentes exo-
dinâmicos. Um dos processos mais importantes na formação
dos solos é a alteração do material inicial, que fica no pró-
prio local sem ser transportado. O que pode ser solo também
pode ser rocha decomposta. A diferença primordial é dada
pelo estado mais avançado da decomposição da rocha que
não tem vida microbiana. Os solos possuem vida nascida
geralmente com a alteração das rochas, cujas associações
vegetais desenvolvem-se com elas.

O solo é o único ambiente em que se encontram reunidos


A composição química e mineralógica das rochas exer- em associação íntima os quatro elementos: domínios das
ce grande influencia na sua taxa de decomposição. rochas (litosfera); domínio das águas (hidrosfera); domínio
Geralmente, as rochas graníticas são mais resistentes do ar (atmosfera); e domínio da vida (biosfera). Trata-se de
ao intemperismo por apresentarem alta concentração um complexo vivo elaborado na superfície de contato da
de minerais silicatados, como o quartzo, cuja propor- crosta terrestre com seus invólucros – atmosfera e hidros-
ção de ligações Si-O é bastante elevada conferindo fera – e é formado de organismos vegetais e animais que
maior resistência ao mineral e também a rocha gra- fornecem a matéria orgânica.
nítica. Por outro lado, o basalto, que é uma rocha ex-
trusiva, é menos resistente ao intemperismo por ter se De acordo com Dokuchaev, o solo é um corpo natural com-
solidificado em temperaturas muito mais baixas que pletamente diferente do mundo mineral, vegetal e animal;
o magma e também por possuir alta concentração de contudo, é um mundo vivo; pode ser jovem (de formação
Fe na sua composição. Em geral, as rochas sedimenta- incompleta), adulto (bem formado), velho e morto (fóssil).
res são mais suscetíveis ao intemperismo em relação Graças a sua gênese, a sua evolução e às suas proprie-
às rochas ígneas e às metamórficas. Dessa forma, o dades, o solo difere dos reinos vegetal, animal e mineral,
calcário, o arenito, o argilito e outros, sob as mesmas motivo pelo qual deve ser considerado um quarto reino.
condições ambientais que as rochas cristalinas, seriam Os solos estão coadaptados aos ecossistemas naturais
rapidamente intemperizados. Isso ocorre porque essas para as suas necessidades por que a evolução dos dois foi
rochas são formadas pelo processo de precipitação conjunta. Por exemplo, quando se fala de solos muito áci-
química (calcário) ou pela diagênese, em que as pres- dos e impróprios, está-se referindo a sua utilização agríco-
sões e temperaturas de formação são relativamente la, uma vez que as plantas nativas desse tipo de solo estão
baixas. O tipo de material de origem pode influenciar adaptadas a essas características.
profundamente as características dos solos. Solos ori-
ginados de rochas graníticas ou de arenito tendem a
apresentar elevados teores de areia, baixos teores de
óxidos de ferro e baixos teores de bases (Ca, Mg, e K),
ao contrário do basalto, que origina solos com eleva-
dos teores de bases, altos teores de óxidos de ferro e
teores elevados de argila. Solos originados de rochas
pobres em nutrientes, como os arenitos e os granitos,
podem ser relativamente férteis se o solo ainda estiver
numa fase inicial de formação. Entretanto, se forem
muito intemperizados, não há possibilidade de apre-
sentarem alta fertilidade natural.

A pedogênese tem início com o aparecimento da vida mi- Solo e plantas formam uma unidade de materiais. O solo é
crobiana. Os solos podem possuir um ciclo vital e evoluir à um ambiente poroso onde circulam a água e os gases; por
maneira de um ser vivo. As associações vegetais, cuja fonte esse motivo é possível falar em atmosfera do solo. Contudo,

83
nessa atmosfera não há luz nem fotossíntese, predominando c) flora e a fauna – que fornecem matéria orgânica
os processo de respiração ou oxidação. Em consequência, os para reações químicas e remobilizam materiais;
solos possuem menos oxigênio e muito mais CO2. d) rocha – que, segundo sua natureza, apresenta
resistência diferenciada aos processos de alteração
Os particulares inorgânicos (siltes, areias e argilas) apre- intempérica;
sentam proporções que determinam uma das característi- e) tempo – que a rocha fica exposta aos agentes in-
cas mais importantes do solo, a textura, que determinará tempéricos.
a facilidade ou não da penetração de raízes, a quantidade
de água, a temperatura, a oração e o fluxo dos nutrientes. 2.1.1. Tipos de intemperismo
De acordo com sua gênese, os pedólogos adotam várias de- Os processos intempéricos atuam por meio de mecanis-
nominações para os diferentes tipos de solo. Atualmente, há mos modificadores das propriedades físicas dos minerais
certa confusão de terminologia, em função da falta de con- e rochas (morfologia, resistência, textura, etc.) e de suas
ceitos claros nas diferentes disciplinas correlatas à pedologia. características químicas (composição química e estrutu-
ra cristalina). Devido aos mecanismos predominantes de
atuação, são normalmente classificados em intemperismo
físico ou intemperismo químico.
Quando a ação (física ou bioquímica) de organismos vivos
ou da matéria orgânica proveniente de sua decomposição
participa do processo, o intemperismo é chamado de físi-
co-biológico ou químico-biológico.
a) Intemperismo Físico – São todos os processos
que causam desagregação das rochas, com sepa-
ração dos grãos-minerais, antes coesos, e com sua
fragmentação, transformando a rocha inalterada em
material descontínuo e friável. Exemplos de intem-
perismos físicos:
§ variação de temperatura ao longo dos dias e noites;
Observação:
§ mudança cíclica de umidade. Por exemplo: desertos;
A alteração das rochas nem sempre ocorre superfi- congelamento da água nas fissuras das rochas;
cialmente na formação de fragmentos. Nos climas § cristalização de sais nas fissuras das rochas;
intertropicais úmidos aparecem crostas ferruginosas
§ alívio de pressão dos corpos rochosos quando ascen-
(lateritos), e nas estepes, crostas calcárias, ambas re-
dem a níveis crustais mais superficiais;
sultantes da alteração de rochas ou de solos.
§ crescimento de raízes em suas fissuras.
b) Intemperismo Químico – São todos os processos
2.1. Intemperismo e composição dos solos que causam decomposição das rochas, sendo a água
da chuva o principal agente desse tipo de intemperis-
A quebra das rochas constituem os processos intempéricos, mo. As reações do intemperismo químico podem ser
e o seu deslocamento é dado pela erosão. Assim, todos representadas pela seguinte equação genética:
os produtos do intemperismo podem vir a formar os solos. Mineral I + solução de alteração ⇒ Mineral II +
solução de lixiviação
O intemperismo é o conjunto de modificações físicas (de- Essas reações estão sujeitas às leis do equilíbrio
sagregação) e químicas (decomposição) que as rochas químico e às oscilações das condições ambien-
sofrem ao aflorarem na superfície da Terra. Os produtos tais. Na maioria dos ambientes da superfície da
do intemperismo (rocha alterada e solo) estão sujeitos a Terra, as águas percolantes têm pH entre 5 e 9.
Nesses ambientes, as principais reações do in-
outros processos, como erosão/transporte e sedimentação,
temperismo são:
os quais acabam levando à denudação continental, com o
consequente aplainamento. 1. hidratação; dissolução;

Os fatores que controlam a ação do intemperismo são: 2. hidrólise;


a) clima – que se expressa na variação sazonal da 3. oxidação.
temperatura e na distribuição das chuvas;
b) relevo – que influencia no regime de infiltração e Quando o pH das águas for inferior a 5, em vez da hidró-
drenagem das águas pluviais; lise, a reação predominante é a acidólise.

84
2.2. O relevo na formação dos solos 2.3. O clima na formação dos solos
A ação do relevo reflete diretamente sobre a dinâmica O clima constitui um dos mais ativos e importantes fatores
da água, tanto no sentido vertical (infiltração) quanto no de formação do solo. No Brasil, de seus elementos desta-
sentido lateral (escorrimentos superficiais – enxurradas – cam-se pela ação direta na pedogênese:
e dentro do perfil); e reflete indiretamente sobre o clima § a temperatura;
dos solos (temperatura e umidade), por meio da incidência
diferenciada da radiação solar e do decréscimo da tem- § a precipitação pluvial;
peratura com o aumento das altitudes; além disso, reflete § a deficiência e o excedente hídrico.
também sobre os seres vivos – os tipos de vegetação natu-
A latitude influi diretamente nos regimes térmicos regio-
ral importantes na formação dos solos. nais. É muito importante no desenvolvimento dos solos,
A água que cai sobre um terreno e não evapora tem ape- uma vez que a velocidade das reações químicas que neles
nas dois caminhos a seguir: ou penetra no solo ou escorre se processam é (+) diretamente proporcional ao aumento
pela superfície. Em geral, segue simultaneamente ambos da temperatura.
os caminhos, com maior ou menor participação de um ou Além da temperatura, a quantidade de água de chuva que
outro, dependendo das condições do relevo (declividade e atinja a superfície, nela penetre, seja mantida ou percole, é
comprimento da vertente), da cobertura vegetal e de fato- fator igualmente importante no processo de formação do
res intrínsecos do solo. solo. Em geral, regiões com muita disponibilidade de água
Em terrenos declivosos, a quantidade de água que pene- excedente apresentam solos mais evoluídos do que regiões
secas. O enorme volume de água que percola através dos so-
tra no solo é, em igualdade de incidência de precipitação
los nas regiões úmidas promove a hidratação de constituin-
pluvial, normalmente menor que nos teerrenos menos
tes e favorece a remoção dos cátions liberados dos minerais
inclinados. Na coexistência de ambas as situações, com-
pela hidrólise, acelerando as transformações de constituintes
partilhando uma porção da paisagem, as áreas menos
e, consequentemente, o processo evolutivo do solo.
declivosas recebem o acréscimo de água do escoamento
superficial e subsuperficial proveniente das áreas mais
altas. Os solos de relevo íngreme são submetidos ao re-
juvenescimento por meio dos processos erosivos naturais
e, em geral, apresentam clima mais seco do que aqueles
de relevo mais suaves. Os solos rasos e pouco profundos
das vertentes declivosas são naturalmente coabitados
por matas mais secas do que as dos terrenos contíguos
menos íngremes. Disso resultam solos menos profundos
e evoluídos do que os situados em condições de relevo
mais suave, onde as condições hídricas determinam am-
biente úmido mais duradouro.
A eliminação da água pelo escorrimento superficial é Da conjugação de variados regimes de temperatura e umi-
menor em terrenos aplainados. Assim, há um acentuado dade, resulta essencialmente a ocorrência de climas distin-
fluxo de água através do perfil, favorecendo a lixiviação tos ao longo do território brasileiro e, por conseguinte, de
em sistema de drenagem livre. Nos terrenos de relevo ações formadoras de solo também diferenciadas.
subaplainado ou deprimido, em ambiente de drenagem Entre os baixos platôs amazônicos quentes e úmidos, o ser-
impedida, determinando sistema fechado, as condições tão nordestino quente e semiárido e os planaltos sulinos
são ideais para os fenômenos de redução devido ao pro- frios e úmidos, há diferenças significativas no que concerne
longado encharcamento, resultando em solos particula- à formação de solos, em função das disparidades de con-
res, denominados hidromórficos. dições pedoclimáticas.
Outra implicação importante do relevo é sobre a taxa de Na região amazônica, a conjunção de alta temperatura e
radiação e, consequentemente, sobre o clima do solo em alta precipitação pluvial, ao longo do ano, favorece a efe-
diferentes situações de exposição dos terrenos à ação so- tivação das reações químicas que se processam nos solos.
lar. Em regiões montanhosas, por exemplo, dependendo Por exemplo: solos bastantes intemperizados, profundos,
da orientação das encostas, a variação de incidência da essencialmente cauliníticos, muito pobres quimicamente,
radiação solar é significativa. com reações bastante ácidas.

85
No Nordeste semiárido, a escassez de umidade contribui A macrofauna possui importância como agente homoge-
para diminuição da velocidade e intensidade dos processos neizador dos solos. Nessa situação em particular, merecem
pedogenéticos, resultando em solos pouco desenvolvidos, destaque os efeitos dos cupins, das formigas, dos tatus e de
rasos ou pouco profundos, cascalhentos ou pedregosos e/ muitos roedores que cavam buracos. As minhocas, abrindo
ou com relativa abundância de minerais primários pouco galerias, melhoram a aeração dos solos. Os micróbios, por
alterados e minerais de argila de elevada atividade coloi- sua vez, têm ação marcante na decomposição dos compos-
dal. Por exemplo: solos pouco lixiviados, quimicamente ri- tos orgânicos, na fixação de nitrogênio e em processos de
cos, pouco ácidos e ligeiramente alcalinos ou mesmo com oxidação e/ou redução. A ação antrópica também constitui
altos teores de sais solúveis e de sódio trocáveis. um elemento perturbador da constituição e arranjo das ca-
madas dos solos, por meio das modificações que imprime
Nos planaltos sulinos, as baixas temperaturas e a constan- na paisagem, como desmatamento, reflorestamento, aber-
te umidade favorecem a formação de solos com espessas tura de estradas, aplainamento, escavações ou através de
camadas superficiais escuras e ricas em matéria orgânica, alterações que realiza diretamente no solo, como aplicação
conferindo-lhes particular morfologia, além de influenciar de corretivos e fertilizantes, arações, irrigação, drenagem e
mais ativamente os processos de transformações, como deposição de restos da sua fauna diária.
os solos não muito desenvolvidos, pouco profundos, por
vezes pedregosos, quimicamente pobres, muito lixiviados,
de reação bastante ácida e consideravelmente ricos em
2.5. O tempo na formação dos solos
constituintes orgânicos. O tempo é o mais passivo dos fatores de formação: não
adiciona, não exporta material nem gera energia que possa
2.4. Os organismos na formação dos solos acelerar os fenômenos de intemperismo mecânico e químico,
necessário à formação de um solo. Entretanto, o estado do
Os organismos – microflora e macroflora, microfauna e sistema solo não é estático: varia no transcorrer das trans-
macrofauna –, pelas suas manifestações de vida, quer na formações, transportes, adições e perdas que têm lugar na
superfície quer no interior dos solos, atuam como agentes sua formação e evolução. O conhecimento da duração do
de sua formação. O homem também faz parte desse con- período de gestação dos solos é, porém, muito complexo.
texto, pois, pela sua atuação, pode modificar intensamente
A Geomorfologia ensina que, no Brasil, é possível encontrar
as condições originais do solo. desde materiais de origem recente até os mais velhos de que
A macrofauna se destaca por sua intensa e mais evidente há notícias na Terra. Onde são encontrados exemplos de so-
ação como fator pedogenético. A cobertura vegetal tem los de cronologia recente? Nas planícies aluviais que ainda
uma ação passiva como agente atenuante do clima. En- recebem, através das inundações, adições periódicas de ma-
tretanto, é como agente ativo na formação do solo que ela terial. Onde são encontrados exemplos de solos de cronolo-
se destaca. Sua ação protetora depende de sua estrutura gia mais antiga? Nos planaltos que constituem os divisores
e tipo. Na Amazônia, por exemplo, a cobertura vegetal é dos grandes sistemas hidrográficos, como o Planalto Central
eficaz (protege o solo contra a ação das chuvas). Na região Brasileiro. Seu início ocorreu há milhões de anos.
de caatinga semiárida do nordeste, o efeito protetor é pou- A idade (cronologia) do solo é a medida dos anos transcor-
co efetivo na proteção do solo, resultando em acentuadas ridos desde seu início até determinado momento, enquanto
enxurradas de forte poder erosivo. O anteparo da cobertura a maturidade (evolução) é expressa pela evolução sofrida,
vegetal exerce efeito atenuador na temperatura da parte manifestada por seus atributos em dado momento de sua
mais superficial dos solos, repercutindo na diminuição da existência. Dessa forma, alguns solos podem apresentar
evapotranspiração. A ação pedológica passiva da cobertura idade absoluta relativamente pequena e serem bem mais
vegetal desempenha ainda outras funções protetoras, in- maduros do que outros com idade absoluta bem maior.
tervindo na fixação de materiais sólidos, como nas dunas
ou nas planícies aluviais.
3. Classificação dos solos
A vegetação tem participação ativa nos processos pela
Os solos estão agrupados em três categorias:
ação do contato direto das raízes com as superfícies coloi-
dais além da relevante participação no estoque de nutrien-
tes do sistema, os quais retornam aos solos devolvidos pe- 3.1. Zonais
los resíduos vegetais. A ação mais importante da cobertura Pertencem ao grupo cujo principal elemento responsável
vegetal ocorre, nos fenômenos de adição, tanto na super- por sua formação é o clima. São solos bem formados (ma-
fície, por meio dos resíduos vegetais aí depositados, como duros) e geralmente apresentam os horizontes (A, B e C)
no interior do solo, mediante restos que se decompõem. bem caracterizados.

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3.2. Interzonais 4. Horizontes ou camadas do solo
Correspondem aos solos cujas características indicam a influ- O perfil do solo é uma seção vertical, através do solo, en-
ência preponderante do relevo local ou da rocha de origem. globando a sucessão de horizontes ou de camadas transfor-
madas pelos processos pedogenéticos e o manto superficial
3.3. Azonais de resíduos orgânicos; assim como também é a seção ver-
Referem-se aos solos cujas características não se apresen- tical do solo encontrado no terreno que revela a presença
tam bem desenvolvidas. São geralmente recentes e despro- de horizontes ou camadas, na posição predominantemente
vidos do horizonte B. horizontal, mais ou menos distintos. Horizontes são seções
horizontais isoladas encontradas no perfil do solo que sofre-
Quanto à origem, os solos podem ser: ram a pedogênese. Esses horizontes superpostos ao material
§ Eluviais – se formados no próprio local, resultado da originário recebem o nome de solum, do latim solo. Determi-
desagregação e da composição das rochas – massapê nado solo é conhecido através da individualização de seus
e terra-roxa, por exemplo. horizontes e/ou camadas. É discriminado dos demais, segun-
do a sequência e a natureza de seus horizontes, organização
§ Aluviais – se formados pela acumulação de mate-
dos constituintes e manifestação de atributos decorrentes.
riais transportados pelas águas correntes – solos de
várzeas e de deltas fluviais, por exemplo – e pelos ven- Cada nível estratigráfico possui características distintas,
tos – solos de loess, entre outros. Com relação à cor, a diferenciando-se por aspectos dimensionais e estruturais
maior parte dos solos pode ser agrupada em três tipos: através do padrão granulométrico, composição mineralógi-
ca, hidratação e coesão, conferida por substâncias húmicas
§ Avermelhados: ricos em óxidos de ferro, man-
provenientes de restos de vegetais e animais. Essa harmo-
ganês e alumínio. Ex.: latossolos.
nia vigorou até o surgimento dos humanos modernos, ini-
§ Amarelados: possuem, normalmente, detritos ciando a progressiva exploração dos recursos naturais em
fluviais, comuns nas várzeas dos rios. detrimento da manutenção do equilíbrio ambiental.
§ Claros: o quartzo e o carbonato de cálcio são res- Se bem formados, os solos apresentam horizontes, identifica-
ponsáveis pelas cores muito claras dos solos. dos pelas letras O, A, B e C e situados acima da rocha matriz (R):
Os solos férteis do mundo são os escuros e avermelhados,
próprios das estepes da Ucrânia – solo negro de tcherno-
zion –, da Europa Central, das pradarias do Canadá e dos
Estados Unidos, do pampa argentino, entre outras regiões.
No Brasil, os solos mais férteis são o massapé da Zona da
Mata nordestina – escuro e orgânico – e a terra-roxa do
Planalto Meridional – castanho-avermelhado e de origem
vulcânica. Ambos já bastante exauridos pelas prolongadas
monoculturas da cana-de-açúcar e de café, respectivamente.

CONEXÃO ENTRE DISCIPLINAS

O solo pode ser analisado sobre diferentes óticas. Para um engenheiro agrônomo, o solo é a camada na qual é
possível desenvolver vida (vegetal e animal). Para um engenheiro civil, sob o ponto de vista da mecânica dos solos,
o solo é um corpo passível de ser escavado, sendo utilizado dessa forma como suporte para construções ou material
de construção. Para um biólogo, por meio da ecologia e da pedologia, o solo interfere na reciclagem biogeoquímica
dos nutrientes minerais e determina os diferentes ecossistemas e habitats dos seres vivos.

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5. Solos do Brasil 5.2. Problemas dos solos brasileiros
§ Lixiviação – fenômeno comum em regiões de climas mui-
Apesar de ainda existirem poucas informações científicas a
to úmidos, em que a quantidade de água absorvida pelo
respeito dos solos brasileiros, pode-se afirmar que os solos
solo é superior à água evaporada. O solo é atravessado
férteis de fato ocorrem em pequena quantidade e compreen-
de cima para baixo pelas águas, sofrendo uma verdadeira
dem uma parcela relativamente restrita do território brasileiro. lavagem – que é a própria lixiviação. Em regiões de climas
São suas características: áridos, esse processo é inverso; graças à evaporação, as
§ Espessura – geralmente profundos, apresentando es- águas ascendem do lençol freático, trazendo sais para a su-
pessura entre 1,5 a 2 metros. perfície e tornando os solos ácidos e quimicamente pobres.
§ Origem – subdivide-se em: § Laterização – fenômeno comum em regiões de climas
tropicais úmidos como o Brasil. Consiste na concentração
§ eluviais – solos originados da desagregação e de- de hidróxidos de ferro e alumínio no solo, que o reves-
composição das rochas no próprio local: terra-roxa tem de uma crosta ferruginosa denominada “canga” ou
e massapé; laterita, tornando o solo inadequado à prática agrícola e
§ aluviais – solos originados do transporte e poste- exigindo investimentos para a recomposição de proprie-
rior acumulação de sedimentos: solos de aluvião. dades essenciais à cultura em que se pretende plantar.
§ Compactação – é o uso indevido do solo, principalmen-
te pela pecuária, em função do pisoteio do gado, fazendo
com que ele perca os poros e, com isso, a água e o ar que
integravam sua composição. Esse fator pode provocar
uma desertificação e contribuir para o processo erosivo.
§ Salinização – processo que ocorre normalmente em re-
giões áridas e semiáridas, em que a prática de irrigação é a
opção viável para ampliar a atividade agrícola. A irrigação
sem os devidos cuidados pode aumentar muito a concen-
tração de sais minerais, tornando o solo pouco produtivo.

multimídia: vídeo
Fonte: Youtube
A Fertilidade do Solo no Cerrado Brasileiro

5.1. Grupos de solos


§ Latossolos – são solos muito profundos (espessos),
A “canga” pode ser observada na parte superior do solo.
e fortemente lixiviados (lavados). São os mais carac-
terísticos do Brasil, encontrados em quase todas as § Erosão – em razão da ação das águas correntes pluviais,
áreas tropicais úmidas. torrentes e enxurradas, bem como da intervenção do ho-
mem, cujas técnicas agrícolas são arcaicas, a camada su-
§ Litossolos – são solos rasos, pouco espessos e sem perficial do solo é retirada, prejudicando consideravelmen-
diferenciação de horizontes. Estão em áreas de relevo te a agricultura. A ocorrência de grande concentração de
acidentado (encostas) e principalmente em áreas secas águas pluviais provoca uma escavação no solo formando
(sertão nordestino). sulcos ou ravinas, que, profundas, formam as voçorocas.
§ Podzólicos – são pouco profundos, vermelhos ou ama-
relos, com diferenciação de horizontes e típicos de climas
úmidos frios. No Brasil são encontrados, sobretudo, no Sul.
§ Aluviões – são formados pela acumulação de sedimen-
tos depositados vindos de áreas mais altas (várzeas ou
terraços). O horizonte superficial é cinzento. Espalham-se
por todo o país, preferencialmente nas várzeas.
Voçoroca no interior paulista

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5.2.1. Combate à erosão e ao
esgotamento dos solos
Diversas técnicas agrícolas dão conta do combate à erosão e
ao esgotamento dos solos. Entre elas podem ser mencionadas:
§ o terraceamento e as curvas de nível;
§ o reflorestamento;
§ o emprego de adubos e fertilizantes; e
§ a rotação de culturas e o pousio da terra.

multimídia: livros
6. Solos férteis do Brasil
§ Terra-roxa – solo avermelhado ou castanho-aver- Análise dos Solos - Formação, Classificação e
melhado, rico em óxido de ferro e matéria orgânica, Conservação do Meio Ambiente – Joao Dalton
é formado pela decomposição do basalto e diabásio. Daibert e Palloma Ribeiro Cuba dos Santos
Mais comum no planalto Meridional, compreende Apresenta as características do solo e a clas-
regiões dos Estados do Centro-Sul do país, Paraná e sificação de acordo com sua formação, com
São Paulo, em que ocorreu extraordinária expansão base no Sistema Brasileiro de Classificação
cafeeira. Atualmente, no solo terra-roxa cultiva-se de Solos (SiBCS). Aborda os tipos de relevos
café e produtos agrícolas – algodão, amendoim, ca- existentes, as causas e as formas de controle
na-de-açúcar, soja, etc. da erosão e da poluição, bem como seus efei-
§ Massapé ou massapê – solo escuro e pegajoso, rico tos sobre o meio ambiente. Também debate a
em matéria orgânica e formado pela decomposição do legislação vigente, que conta com o apoio de
gnaisse e do calcário. É próprio da Zona da Mata nor- leis específicas. Aborda a mineralogia e seus
destina, onde, desde o século XVI, serve principalmente conceitos, os tipos de minerais e de rochas
à cultura canavieira. e suas composições. Trata dos agentes do
§ Salmourão – proveniente da erosão de rochas graníticas intemperismo (químicos, físicos e biológicos)
e gnaisses, é encontrado nas regiões Sul, Sudeste e Cen- e, por fim, analisa métodos de conservação e
tro-Oeste brasileiras. Em geral, esse tipo de solo é pobre uso correto do solo.
em nutrientes, sendo necessário, em alguns casos, utilizar O conteúdo pode ser aplicado para os cursos
a fertilização do solo com adubos químicos ou naturais. técnicos em Agroecologia, Cafeicultura, Con-
§ Solos aluviais – solos com razoável fertilidade, forma- trole Ambiental, Florestas, Fruticultura, Geo-
dos pela acumulação de sedimentos e encontrados ao logia, Gestão Ambiental, Hidrologia, Meio
longo dos rios e nas várzeas inundáveis. Se bem arena- Ambiente, Mineração, entre outros.
dos e situados em terraços mais altos, são mais férteis. É
o solo propício para o cultivo do arroz.

multimídia: música multimídia: sites


Fonte: Youtube
Cio da Terra – Milton Nascimento https://www.embrapa.br/

89
VIVENCIANDO

O solo é um elemento importantíssimo para o desenvolvimento da vida, permitindo o fluxo de matéria e energia
entre o mundo inorgânico (minerais e rochas) e orgânico (plantas e animais). É possível observar um perfil de solo
num parque ou ao longo de algumas rodovias, quando, por exemplo, avistam-se alguns barrancos, que nada mais
são do que cortes onde, em alguns casos, pode-se notar a presença dos horizontes desde a rocha matriz, passando
pelo horizonte de acumulação, até o horizonte com predominância de materiais orgânicos.

PRINCIPAIS TIPOS DE SOLOS DAS REGIÕES BRASILEIRAS

Regiões Tipos e características dos solos


Norte Solos rasos, formados por acumulação de sedimentos fluviais (litos solos aluvionais), com
presença de materiais orgânicos.
1. Várzea
Solos profundos (latossolos), ricos em óxido de ferro e alumínio (apresentando intensa
2. Tessos e terra firme laterização), ácidos, de baixa fertilidade e coloração vermelho-amarela.
Solos profundos (latossolos) argilosos, originários da decomposição do calcário e gnaisse –
massapé ou massapê – de cor escura devido à presença de materiais orgânicos; são férteis
Nordeste e utilizados principalmente no cultivo de cana-de-açúcar.
1. Zona da Mata Solos resultantes da decomposição do granito e gnaisse em clima semiárido; são rasos
2. Sertão nordestino e Agreste (litossolos) e ricos em sais minerais. No sertão, os solos são mais rasos e sujeitos à erosão
devido às chuvas que aparecem concentradas e torrenciais. No Agreste apresentam maior
profundidade e estão menos sujeitos à erosão.
Latossolos – solos profundos de cor vermelho-escuro e vermelho-amarelado, formados em
clima subúmido; apresentam lateritas; em geral, são pobres em materiais orgânicos. Cobertos
Centro-Oeste pelos cerrados, são usados principalmente para a pecuária. Solos de terra roxa – principal-
mente no sul de Mato Grosso do Sul, onde aparecem em manchas. Solos orgânicos nos vales
fluviais no sul de Mato Grosso do Sul e de Goiás.
Latossolos roxos – solos profundos com a presença de óxido de ferro. Ocorrem principal-
mente no Triângulo Mineiro e Nordeste de São Paulo.
Terra roxa – manchas de solo rico em materiais orgânicos, formado pela decomposição do
Sudeste
basalto e dotado de muita fertilidade. Ocorrem principalmente no Estado de São Paulo.
Salmourão – solo argiloso originado da decomposição de granito e gnaisse em clima úmi-
do. Aparece em áreas do planalto Atlântico.
Solos pouco desenvolvidos, rasos, de cor avermelhada, formados em clima subtropical e
originados de rochas ricas em ferromagnesianos, o basalto. São os solos da floresta Ar-
aucária; Solos lateríticos, rasos, muito meteorizados, ligados também à presença de basalto,
Sul
aparecem nas porções elevadas do planalto meridional, do Sudeste do Paraná até o Norte
do Rio Grande do Sul. Litossolos podzólicos de cor acinzentada, ricos em material orgânico
e pouco ácidos. São os solos da Campanha Gaúcha.

90
ÁREAS DE CONHECIMENTO DO ENEM

Habilidades
26 Identificar em fontes diversas o processo de ocupação dos meios físicos e as relações da vida humana com a paisagem.

O solo é um recurso natural básico, constituindo um componente fundamental dos ecossistemas e dos ciclos
naturais. Ele é um reservatório de água, um suporte essencial do sistema agrícola e um espaço para as atividades
humanas e para os resíduos produzidos. Trata-se de uma das grandes riquezas da humanidade. Assim como água,
o solo tem uma grande importância na vida atual e principalmente no futuro da humanidade. Contudo, em diversos
pontos do mundo esse recurso mineral renovável encontra-se em condições deploráveis de conservação. A procu-
ra por terras cultiváveis e férteis aumentou em razão do crescimento da população mundial e do consumo. Não
obstante, a humanidade degrada cada vez mais, não atentando para a importância que o solo possui. Altamente
degradável, o solo é um meio bastante afetado pela pressão antrópica. Sua poluição afeta particularmente o nível
superficial da crosta terrestre, camada da biosfera que abriga considerável biodiversidade. Esse meio, diferente do
que pensamos, não é inerte e tampouco sustenta apenas as relações humanas. No extrato superficial do solo habi-
tam espécies de macro e microrganismos importantes à manutenção do equilíbrio biológico no planeta: bactérias,
fungos, nematódeos, artrópodes, anelídeos, moluscos e pequenos vertebrados, aliados à vegetação, dão vida e
sustentação a esse substrato.
Entretanto, devido aos mais variados tipos de impactos, as formas viventes e o seu “pleno” desenvolvimento regu-
lar são prejudicados.
A poluição do solo, dependendo da magnitude, pode causar malefícios irreparáveis tanto à natureza, que responde
lentamente aos processos de reparação, quanto à frágil estrutura corpórea do homem.
Sendo o homem o agente causador, a origem poluidora dos solos pode ser urbana ou rural, refletindo os danos
característicos em cada meio de ocupação humana.

Modelo
(Enem) O desgaste acelerado sempre existirá se o agricultor não tiver o devido cuidado de combater as causas, relacionadas a vários
processos, tais como: empobrecimento químico e lixiviação provocados pelo esgotamento causado pelas colheitas e pela lavagem vertical
de nutrientes da água que se infiltra no solo, bem como pela retirada de elementos nutritivos com as colheitas. Os nutrientes retirados,
quando não repostos, são comumente substituídos por elementos tóxicos, como, por exemplo, o alumínio.

LEPSCH, I. Formação e consumação dos solos. São Paulo: Oficina de Textos, 2002 (adaptado).

A dinâmica ambiental exemplificada no texto gera a seguinte consequência para o solo agricultável:
a) Elevação da acidez.
b) Ampliação da salinidade.
c) Formação de voçorocas.
d) Remoção da camada superior.
e) Intensificação do escoamento superficial.

91
Análise expositiva - Habilidades 26: A concentração de íons de hidrogênio e/ou alumínio eleva a acidez do
A solo reduzindo o rendimento produtivo das culturas agrícolas ou influenciando a fisiologia da cobertura vegetal,
como no caso do cerrado. As alternativas incorretas são: [B], porque a salinidade é o acúmulo excessivo de sais no
solo e sua ampliação ocorre por meio da adição de água, em que a evaporação resultará em maior concentração
salina; [C], porque voçorocas se formam por meio da erosão linear, isto é, o escoamento hídrico concentrado em
fissuras do solo; [D], porque a remoção da camada superior é uma prática aplicada em áreas de laterização; [E],
porque a intensificação do escoamento superficial é consequência da retirada da cobertura vegetal.
Alternativa A

DIAGRAMA DE IDEIAS

PEDOLOGIA

LEITO ROCHOSO DESINTEGRAÇÃO

MATÉRIA ORGÂNICA PEDOGÊNESE

FORMAÇÃO DOS PROBLEMAS


HORIZONTES DOS SOLOS

• HORIZONTE O • LIXIVIAÇÃO
• HORIZONTE A • LATERIZAÇÃO
• HORIZONTE B • COMPACTAÇÃO
• HORIZONTE C • SALINIZAÇÃO
• HORIZONTE R

92
AULAS Problemas ambientais mundiais
11 e 12
Competência: 6 Habilidade: 30

1. Oscilação Decadal que costumam ser mais intensas do que a média. Por outro
lado, na ODP negativa, a tendência mais considerável
do Pacífico são manifestações climáticas do tipo La Niña, que cos-
tumam ser mais frequentes e intensas do que a média de
acontecimentos climáticos desse tipo.
No Brasil, durante a ODP positiva, a região Nordeste tende
a registrar um período mais longo de anos com tempera-
turas elevadas e índices pluviométricos abaixo da média,
resultando obviamente numa temporada mais longa de es-
tiagem. Durante a ODP negativa, por sua vez, essa região
volta a contar com um regime mais frequente de chuvas e
umidade, embora não necessariamente mais elevado, em
razão das características geoclimáticas locais.
O clima é influenciado por uma gama muito ampla e vari-
ada de elementos, o que torna sensíveis as alterações de
cada um deles. Temperatura, pressão, massas de ar, regime
de chuvas, latitude, altitude, vegetação, relevo e muitos
A variação das temperaturas nas águas do Pacífico influenciam o clima.
outros fenômenos e fatores estão interligados e se influen-
ciam mutuamente. Entretanto, há também acontecimentos
A Oscilação Decadal do Pacífico (ODP) representa as al- climáticos classificados como anomalias, que represen-
terações climáticas da Terra decorrentes das variações de tam alterações no sistema atmosférico e provocam mu-
temperatura das águas do oceano Pacífico. danças em diversas partes do mundo.
A ODP é um fenômeno cíclico e um dos fatores mais im-
portantes e decisivos na dinâmica climática em várias par-
A oscilação Interdecadal do Pacífico (OIP) é um
tes do mundo. Trata-se de uma variação climática cíclica de
fenômeno semelhante à Oscilação Decadal do
média duração (cerca de 20 a 30 anos), mais duradoura do
Pacífico (ODP), ou seja, um fenômeno oceano-me-
que o El Niño e o La Niña e menos duradoura do que as
teorológico; no entanto, atinge uma área mais
variações da atividade solar.
ampla do Pacífico. Enquanto a ODP ocorre em
O oceano Pacífico ocupa por volta de um terço da super- latitudes médias do oceano Pacífico no Hemisfério
fície terrestre, com uma área de aproximadamente 180 Norte, a OIP se estende do Hemisfério Sul para o
milhões de km2. Considerando essa imensidão, não é de Hemisfério Norte.
surpreender o fato de o calor de suas águas influenciar o
O período de oscilação pode variar de 15 a 30 anos
clima do planeta.
e está diretamente relacionado à força e à frequên-
O ciclo de funcionamento da ODP ocorre em função da cia do El Niño e do La Niña.
interposição de duas fases distintas: uma positiva, quando
As fases positivas da OIP são caracterizadas por
as temperaturas são mais elevadas, e outra negativa, quan-
um Pacífico tropical mais quente do que a média
do elas diminuem. Essas oscilações podem ser diretamente
e mais frio do que a média do Pacífico Norte, en-
sentidas na interposição de diferentes variações climáticas
quanto as fases negativas são caracterizadas por
ao longo dos anos.
uma inversão desse padrão, com trópicos frios e
Na ODP positiva, a tendência mais considerável são regiões quentes do norte.
manifestações climáticas do tipo El Niño, na costa do Peru,

93
Esquema explicativo do funcionamento do El Niño

A média anual é calculada pela média dos valores


médios trimestrais do IPO para cada ano. As fases
positivas são representadas por números de índice
positivos, enquanto as fases negativas são repre-
sentadas por números negativos.
O OIP é uma das três oscilações climáticas que
afetam o clima. Essas mudanças influenciam na
pressão do ar, na temperatura do mar e na di-
reção do vento, fenômenos que podem durar de
semanas a décadas, dependendo da oscilação.

1.1. El Niño
O El Niño é um fenômeno atmosférico-oceânico que tem Algumas consequências do El Niño, por exemplo,
como consequência o aquecimento anormal das águas do são os altos índices pluviométricos na costa oeste da
oceano Pacífico tropical, influenciando diretamente a dis- América do Sul e as graves secas e períodos de esti-
tribuição da temperatura da superfície da água e o clima agem em regioes como a Austrália. Quando da sua
de diversas regiões do planeta. O fenômeno foi percebido incidência, que ocorre em ciclos de dois a sete anos,
pela primeira vez por pescadores da costa oeste da Améri- o fenômeno também provoca temperaturas acima da
ca do Sul. Dado que o fenômeno ocorre no final do ano, os média nos verões europeu e norte-americano. No Bra-
pescadores deram a ele o nome de El Niño, em referência sil, provoca excesso de chuvas nas regiões Sul e Sud-
ao menino Jesus, principal figura do Natal. este e secas na região Nordeste.
Os ventos alísios sopram regularmente com certa inten-
sidade na costa oeste da América do Sul, provocando a res-
surgência de águas profundas, mais frias e carregadas de
nutrientes. O El Niño faz com que esses ventos soprem com
menos intensidade, interrompendo a ressurgência e provo-
cando mudanças significativas nos climas de várias regiões.

Anomalia de temperatura da superfície do mar –


dezembro de 1997

multimídia: vídeo
Fonte: tvcultura.com.br
Planeta Terra

1.1.1. Influência do El Niño


Os efeitos do El Niño são sentidos em todo o planeta.
Os Estados Unidos são afetados por secas intensas
em várias regiões, enquanto em algumas áreas desér-
ticas do território peruano se elevam rapidamente os

94
índices pluviométricos. Na Índia, as temperaturas
sobem consideravelmente, e tempestades torrenciais
1.2. La Niña
castigam todo o território australiano. Esquema explicativo do funcionamento do La Niña.
Essas são apenas algumas das diversas consequências do
El Niño quando em atividade. Muitas delas sequer foram
corretamente descritas e estudadas pelas ciências atmos-
féricas e climáticas.

1.1.2. Efeitos do El Niño no Brasil


A diversidade climática e as dimensões continentais do
território brasileiro fazem com que as consequências do El
Niño sejam variadas no país. Há áreas em que o fenômeno
produz secas extremas; em outras, apenas eleva as tem-
peraturas; e em certas regiões provoca chuvas torrenciais.
Para resumir os efeitos do El Niño, é possível classificar a
sua influência por região.
§ Norte – redução das chuvas e estiagens cíclicas nas
porções leste e norte da floresta Amazônica; crescimen-
to de problemas com queimadas.
§ Centro-Oeste – aumento das chuvas no verão e el-
O La Niña é um fenômeno exatamente inverso ao El
evação intensa das temperaturas na segunda metade
Niño. Em virtude do aumento da força dos ventos alí-
do ano. sios, o La Niña provoca o esfriamento irregular das
§ Nordeste – secas severas nas áreas centrais e águas do Pacífico. No Brasil, o La Niña causa inten-
norte da região, mais precisamente no polígono sificação das chuvas na Amazônia, no Nordeste e em
das secas, com dramática escassez hídrica. partes do Sudeste. Na América do Norte e na Europa,
por exemplo, ocorre queda das temperaturas.
§ Sudeste – aumento das temperaturas durante o in-
verno e intensificação do regime de chuvas. Os eventos climáticos anômalos do Pacífico são cíclicos,
isto é, repetem-se de tempos em tempos, a cada três ou
§ Sul – chuvas torrenciais bem acima das médias históri- até sete anos. Em razão dos eventos climáticos globais e da
cas para a região e elevação das temperaturas. Oscilação Decadal do Pacífico, o El Niño vem sendo mais
Apesar dessas alterações climáticas, é incorreto aval- comum do que o La Niña.
iar o El Niño como “ruim” ou “maléfico”, causador
de uma “bagunça climática”. No caso da seca no 1.3. Aquecimento global
Nordeste, por exemplo, a “culpa” não é só do El O aquecimento global corresponde a uma série de prob-
Niño, mas da falta de investimentos públicos para lemas ambientais que tendem a agravar as condições
abastecer a população local. No Sul, embora as chu- climáticas em escala mundial.
vas excessivas causem problemas, um planejamento
adequado evitaria catástrofes.
Em 2014, um caso curioso ocorreu no Sudeste do Bra-
sil. Com a intensificação do calor, o prolongamento da
seca e a falta de planejamento por parte do poder pú-
blico, ocorreu uma significativa redução das reservas
hídricas, sobretudo na cidade de São Paulo. Por esse
motivo, torceu-se muito para que o El Niño voltasse
a aparecer, o que não aconteceu. Caso o fenômeno
se manifestasse, poderiam ocorrer chuvas acima da
média no verão seguinte e redução do período de es- Há previsões de que o aquecimento global
tiagem no restante do ano. possa provocar graves problemas socioambientais.

95
dos chamados gases-estufa seria o principal problema
em questão.
Os gases-estufa mais conhecidos são o dióxido de carbo-
no, o gás metano, o óxido nitroso, o hexafluoreto de enx-
ofre, o clorofluorcarboneto (CFC) e os perfluorcarbonetos
(PFC). A presença e a gradual intensificação desses gases
na atmosfera em razão de práticas humanas – emissão de
poluentes pelas indústrias, pelos veículos, pela queima de
combustíveis fósseis e até pela pecuária – constam do Pro-
tocolo de Kyoto.
multimídia: música
Fonte: Youtube
Herdeiros do futuro – Toquinho

Trata-se de um processo de elevação média das temperatu-


ras da Terra ao longo do tempo. De acordo com a maioria
dos estudos científicos e relatórios de painéis climáticos, o
aquecimento global vem sendo acelerado pelas atividades O dióxido de carbono (CO2) seria o grande vilão do aquecimento global.
humanas, causando problemas atmosféricos e provocando
Outra causa significativa para o aquecimento global é o
o derretimento das calotas polares, fator que altera o nível
desmatamento das florestas, que reduz a capacidade das
dos oceanos.
matas de amenizar as temperaturas mediante o controle da
O principal órgão responsável pela divulgação de dados e umidade. Já se pensou que as florestas tivessem a função
informações sobre o aquecimento global é o Painel Inter- de absorver o dióxido de carbono e emitir oxigênio para a
nacional sobre Mudanças Climáticas (IPCC), órgão ligado atmosfera. Entretanto, o oxigênio produzido por elas é ab-
à Organização das Nações Unidas (ONU). Segundo o IPCC, sorvido pela própria vegetação, que também emite dióxido
o século XX foi o mais quente dos últimos tempos, com de carbono na decomposição de sua matéria orgânica.
uma elevação média de 0,7 ºC da temperatura de todo o
planeta. A estimativa é de que, caso ações de contenção
do problema não sejam adotadas em larga escala, as tem-
peraturas continuem se elevando ao longo do século XXI.
O IPCC trabalha basicamente com dois cenários: um oti-
mista e outro pessimista. O otimista considera que o ser
humano pode diminuir a emissão de poluentes na atmos-
fera e conter ações de desmatamento; assim, as tempera-
turas se elevariam apenas 1 ºC até 2100. O cenário pes-
simista calcula a elevação das temperaturas em até 4 ºC
durante esse mesmo período, o que comprometeria boa
parte das atividades humanas.
Um relatório publicado pelo IPCC em março de 2014, e
que causou grande repercussão, afirma que o aquecimento
global seria muito grave e irreversível, uma vez que provo-
caria a elevação dos oceanos, perdas agrícolas e inúmeras
catástrofes geradas pelas alterações no clima e pela dis-
posição dos elementos e recursos naturais.

1.3.1. Causas do aquecimento global Na verdade, as algas e os fitoplânctons presentes nos


Segundo parte significativa dos especialistas, a principal oceanos são quem contribuem para a emissão de oxigê-
causa do aquecimento global é a intensificação do efeito nio na atmosfera e a diminuição de dióxido de carbono.
estufa, fenômeno natural responsável pela manutenção Por esse motivo, a poluição dos mares e oceanos pode ser
do calor na superfície terrestre. Nesse sentido, a emissão apontada como mais uma causa do aquecimento global.

96
1.3.2. Consequências do aquecimento global Quantidade de carbono armazenado nas florestas do
mundo - 2005
Entre as consequências dessa ameaça ambiental, estão as
transformações estruturais e sociais do planeta provocadas por:
§ aumento das temperaturas dos oceanos e derretimen-
to das calotas polares;
§ eventuais inundações de áreas costeiras e cidades li-
torâneas em razão da elevação do nível dos oceanos;
§ aumento da insolação e radiação solar em razão do
aumento do buraco na camada de ozônio;
§ intensificação de catástrofes climáticas – furacões,
Adaptado de: Atlas do meio ambiente. Le
tornados, secas, chuvas irregulares, entre outros Monde Diplomatique Brasil, 2007.
fenômenos meteorológicos de difícil controle e pre-
visão; e
§ extinção de espécies em razão das condições ambien-
tais adversas para a maioria delas.

1.3.3. Como combater o aquecimento global?


Segundo apontamentos oficiais e científicos, para combat-
er o aquecimento global é necessário privilegiar fontes ren-
ováveis e não poluentes de energia e diminuir significativa-
mente ou mesmo abandonar o uso de combustíveis fósseis multimídia: livros
– gás natural, carvão mineral e principalmente petróleo. As
A ordem ambiental internacional – Wagner
indústrias, por sua vez, devem diminuir as emissões de pol-
Costa Ribeiro
uentes na atmosfera.
Outra forma de combater o aquecimento global seria, por Problemas como poluição atmosférica,
meio da conscientização social, diminuir a produção de aquecimento global e conservação da
lixo e estimular a reciclagem. Com menos produção de lixo, diversidade biológica transpassam as
menor também seria a poluição e a emissão de gás meta- fronteiras dos países; a temática ambiental
no, muito comum em aterros sanitários. tem ganhado, com isso, contornos
internacionais. Na construção de um
Some-se a essas medidas a preservação da vegetação dos sistema internacional multilateral que
grandes biomas e dos domínios morfoclimáticos, como a trate desses assuntos, surgem ideias como
Amazônia, e o cultivo de áreas verdes no espaço agrário e segurança ambiental e desenvolvimento
urbano. Dessa forma, ao menos previsivelmente, as conse- sustentável. Seria possível regular as
quências do efeito estufa na sociedade seriam atenuadas. ações humanas, de modo a contemplar
esses dois aparentes antagonismos? O
autor procura responder a essa questão
a partir das principais convenções
internacionais sobre o ambiente.

1.3.4. O aquecimento global existe?


No meio científico, debate-se muito a respeito da existên-
cia e das possíveis causas do aquecimento global. A ocor-
rência do fenômeno não estaria satisfatoriamente provada,
razão pela qual não é consenso entre os especialistas que
multimídia: sites estudam o comportamento da atmosfera.
www.mma.gov.br/biomas Há quem afirme que o aquecimento global seria um evento
natural; assim, ele não seria influenciado pelas ações hu-

97
manas. Tampouco seria gravemente sentido em um perío- Essas posições consideram que os estudos sobre o aqueci-
do curto de tempo. Outras posturas simplesmente negam mento global possuem caráter mais político do que verda-
a existência do aquecimento global por meio de dados que deiramente científico e acusam o IPCC de distorcer dados
não comprovam a diminuição do ozônio na atmosfera. ou apresentar informações equivocadas sobre o funciona-
mento do meio ambiente e da atmosfera. Elas não consid-
eram o painel da ONU uma fonte confiável para estudos
sobre o tema.
Divergências à parte, é importante considerar que o aquec-
imento global não é a única consequência das agressões
ao meio ambiente. A esse respeito, mesmo os especialistas
divergentes admitem a importância da conservação dos
recursos naturais e dos elementos da biosfera, vitais para a
qualidade de vida das sociedades.

Há cientistas que veem nas calotas polares


um fenômeno de expansão, não de diminuição.

CONEXÃO ENTRE DISCIPLINAS

Pode-se dizer que a interdisciplinaridade se efetiva quando cada profissional realiza uma leitura do ambiente de
acordo com o seu saber específico, contribuindo para desvendar o real e apontando para outras leituras realizadas
pelos seus pares. O tema comum, extraído do cotidiano, integra e promove a interação de pessoas, áreas e disciplinas,
produzindo um conhecimento mais amplo e coletivizado. As leituras, descrições, interpretações e análises diferentes
do mesmo objeto de trabalho permitem a elaboração de um outro saber, que busca um entendimento e uma com-
preensão do ambiente por inteiro.

ÁREAS DE CONHECIMENTO DO ENEM

Habilidade
30 Avaliar as relações entre preservação e degradação da vida no planeta nas diferentes escalas.

O aumento nas temperaturas globais e a nova composição da atmosfera desencadeiam alterações importantes em
todos os sistemas e ciclos naturais da Terra. Afetam os mares, provocando a elevação do seu nível e mudanças nas
correntes marinhas e na composição química da água, como acidificação, dessalinização e desoxigenação; interfer-
em no ritmo das estações e nos ciclos da água, do carbono, do nitrogênio e de outros compostos; causam o degelo

98
das calotas polares, do solo congelado das regiões frias (permafrost) e dos glaciares de montanhas, modificando
ecossistemas e reduzindo a disponibilidade de água potável; afetam irregularmente o regime de chuvas e os padrões
dos ventos, produzindo uma tendência à desertificação das regiões florestadas tropicais, enchentes e secas mais
graves e frequentes, e tendem a aumentar a frequência e a intensidade de tempestades e outros eventos climáticos
extremos, como as ondas de calor e de frio. As mudanças climáticas induzidas pela ação antrópica nos sistemas bi-
ológicos, químicos e físicos do planeta são vastas. Algumas são de longa duração e outras são irreversíveis, e já estão
provocando uma grande redistribuição geográfica da biodiversidade, induzindo o declínio populacional de grande
número de espécies, modificando e desestruturando ecossistemas em larga escala e gerando problemas sérios para
a produção de alimentos, o suprimento de água e a produção de bens diversos para a humanidade, benefícios que
dependem da estabilidade do clima e da integridade da biodiversidade. Esses efeitos, intimamente inter-relacionados,
influem uns sobre os outros amplificando seus impactos.

Modelo
(Enem) O gráfico a seguir ilustra o resultado de um estudo sobre o aquecimento global. A curva mais escura e con-
tínua representa o resultado de um cálculo em que se considerou a soma de cinco fatores que influenciaram a tem-
peratura média global de 1900 a 1990, conforme mostrado na legenda do gráfico. A contribuição efetiva de cada um
desses cinco fatores isoladamente é mostrada na parte inferior do gráfico.

Os dados apresentados revelam que, de 1960 a 1990, contribuíram de forma efetiva e positiva para aumentar a
temperatura atmosférica:
a) aerossóis, atividade solar e atividade vulcânica;
b) atividade vulcânica, ozônio e gases-estufa;
c) aerossóis, atividade solar e gases-estufa;
d) aerossóis, atividade vulcânica e ozônio;
e) atividade solar, gases-estufa e ozônio.

Análise expositiva - Habilidade 30: A leitura do gráfico permite observar a atividade solar, os gases-estufa e
E o ozônio como elementos capazes de contribuir de forma positiva no aumento da temperatura atmosférica.
Alternativa E

99
DIAGRAMA DE IDEIAS

PROBLEMAS AMBIENTAIS MUNDIAIS

OSCILAÇÃO
DECADAL DO PACÍFICO

VARIAÇÃO DE
TEMPERATURA DAS AQUECIMENTO GLOBAL
ÁGUA DO PACÍFICO

EL NIÑO E LA NIÑA

ANOMALIA CLIMÁTICA
CAUSADA PELA
INFLUÊNCIA DOS ELÍSIOS

100
AULAS Grandes biomas do mundo
13 e 14
Competência: 6 Habilidade: 26

“Solidão, magnificência do céu austral, calma das flores- as reservas naturais do planeta em virtude de um conjun-
tas vinculam-se tanto ao meu trabalho, ao qual dediquei to de ações humanas, principalmente em decorrência do
mais tempo de minha estada no novo continente do que enorme crescimento populacional do último século e do
deveria, devido à grande diversidade dos objetivos que
rodeiam o viajante.”
modo degradante como tem sido realizada a exploração
dos recursos naturais. O consumo exagerado em muitos
(Alexander Von Humboldt)
países do Hemisfério Norte, a expansão agrícola e a polui-
”A fitofisionomia é a primeira impressão causada pela ve- ção alteram os ciclos biogeoquímicos e climáticos da Terra.
getação. A fitofisionomia é uma característica morfológica A biodiversidade sofre com a irreversível extinção de espé-
da comunidade vegetal, sendo Humboldt quem a empre-
cies. Embora a “crise das espécies” seja, por si só, um fato
gou pela primeira vez para descrever a vegetação.”
grave, outra crise, a dos biomas, preocupa ainda mais, pois
GRABHERR, G.; KOJIMA, S. Diversidade
vegetal e sistemas de classificação.
resulta na perda dos ambientes naturais onde as espécies
nascem e se desenvolvem.

1. Grandes biomas do mundo Não é necessário ser um botânico para reconhecer os dife-
rentes biomas. Ao sobrevoar uma área de avião, é possível
Os diversos meios de comunicação, as empresas, os go- notar, por exemplo, a diferença entre um bioma de floresta
vernos e as instituições de ensino de todos os graus têm tropical, com árvores altas formando um verdadeiro tapete
demonstrado crescente preocupação com as questões eco- com suas copas, e um bioma de savana, com árvores espa-
lógicas. Esse fato deve-se às ameaças a que estão expostas çadas entre si e o solo coberto de gramíneas baixas.

Mapa com os principais biomas no mundo

101
Os biomas diferem em fisionomia, estrutura e fatores am- equador aos polos. Como o macroclima é de fundamen-
bientais relacionados ao clima, como temperatura, quanti- tal importância para a vegetação, cada uma dessas faixas
dade e distribuição das chuvas, solo e altitude. representa uma grande unidade ecológica da geobiosfera
denominada zonobioma. Esse conceito considera o bioma
1.1. Definições e histórico como uma área de ambiente uniforme que pertence a um
zonobioma. Consideram-se, ainda, outros fatores ambien-
Em 1943, o ecólogo norte-americano Frederic Clements tais como altitude e solo.
(1874-1945) criou o conceito de bioma, que se caracteriza
Em 1993, o norte-americano Paul Colinvaux (1930-2016)
pela uniformidade fisionômica do clímax vegetal e pelos
definiu bioma como um ecossistema de grande área
animais mais relevantes, possuindo uma constituição bióti-
geográfica na qual as plantas são de uma mesma for-
ca característica, ou seja, pela uniformidade e predomínio
mação e o clima define seus limites. Em 1998, o ecólogo
de espécies vegetais locais, bem como dos animais “ca-
norte-americano Timothy F. H. Allen defendeu que biomas
racterísticos” da região. Desde sua criação, o termo vem
são identificados pela forma de vida dominante.
sofrendo modificações e hoje possui diferentes acepções.
Acompanhe a seguir algumas mudanças desse conceito. Como é possível observar, não há um consenso a respeito
da definição do conceito de bioma. A ênfase em um ou ou-
tro aspecto depende da sua relevância para a classificação
dos biomas, assim como o conhecimento sobre a constitui-
ção da região estudada. Alguns, como a tundra e a taiga,
são facilmente reconhecidos, classificados e determinados;
outros dependem do enfoque que se deseja. Por exemplo,
florestas tropicais englobam a floresta Amazônica, a mata
Atlântica, a ilha de Madagascar, etc.; porém, por suas carac-
terísticas peculiares e necessidades, sejam elas administrati-
vas, econômicas, sociais ou pelo histórico regional, é possível
separá-las em biomas distintos, embora essa classificação
Biomas pelo mundo possa ser alvo de críticas por diversos pesquisadores. A
Em 1971, o ecólogo norte-americano Howard Thomas complexidade das áreas naturais, principalmente das tropi-
Odum (1924-2002) definiu o termo de maneira semelhante cais, leva pesquisadores a considerar, por exemplo, a mata
a Clements, mas introduziu o clima como constituinte dessa Atlântica, como um mosaico de biomas.
grande região. No mesmo ano, o também ecólogo norte-a- Qual a diferença entre bioma e ecossistema? Essa é uma
mericano Robert Whittaker (1920-1980) restringiu a abran- pergunta comum; a resposta, porém, não é tão óbvia. Para
gência dos biomas aos continentes em que se encontram. ilustrar, acompanhe a seguir as definições do Instituto Bra-
Em 1973, W.B. Clapham Jr. condicionou os biomas a fato- sileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
res abióticos (desprovidos de vida), em especial ao clima; § Ecossistema é um sistema integrado e autofuncionante
dessa forma, um mesmo bioma pode ser formado em di- que consiste em interações dos elementos bióticos e abi-
versas e diferentes partes do mundo. Roger Dajoz, no mes- óticos cujas dimensões podem variar consideravelmente.
mo ano, e depois Michael J. Crawley, no fim da década de
§ Bioma é um conjunto de vida (vegetal e animal) defini-
1980, definiram de forma parecida o termo bioma como
da pelo agrupamento de tipos de vegetação contíguos e
sendo um agrupamento de fisionomia homogênea e in-
identificáveis em escala regional, com condições geocli-
dependente da composição florística, sendo sua existência
máticas similares e história compartilhada de mudanças,
controlada pelo macroclima.
resultando em uma diversidade biológica própria.
Em 1978, Robert Whitaker afirmou que biomas teriam
dimensões subcontinentais e o bioma-tipo seria a soma
de todos os biomas de um determinado tipo, nos diversos
continentes. Dessa forma, a floresta tropical Amazônica
seria um bioma, e as florestas tropicais do mundo consti-
tuiriam um bioma-tipo.
Em 1960, H. Walter e H. Lieth elaboraram um tipo especial
de diagrama ecológico de clima do mundo, classificando-o
em nove zonas climáticas, que mais tarde tornaram-se dez,
distribuídas como faixas latitudinais da Terra, que vão do Uma cidade como Los Angeles pode ser um ecossistema, mas não um bioma.

102
A relação entre os elementos bióticos (“com vida”) e abió- 1.1.1. Sistema de Holdridge
ticos (“sem vida”) em um ecossistema depende, principal-
mente, do fluxo de energia, e as escalas são extremamente O sistema de classificação de Holdridge é um projeto para
a classificação das diferentes áreas terrestres de acordo
variadas. Um pequeno lago, uma poça de água, uma mata,
com seu comportamento bioclimático global. Ele foi de-
uma cidade ou um poço podem ser considerados ecossiste-
senvolvido pelo botânico norte-americano e climatologista
mas, ou seja, o importante é a relação nesse meio, podendo
Leslie Holdridge (1907-1999) e publicado pela primeira vez
ainda existir elementos comuns em ecossistemas variados.
em 1947, sendo atualizado em 1967 ( Vida Zona Ecologia).
Em um bioma, por sua vez, o perfil do local e a dimensão O sistema utiliza o conceito de zona de vida e se baseia na
possuem maior importância. Pode-se analisar um bioma média anual de biotemperatura (em escala logarítmica) –
como um ecossistema caso se deseje entender o fluxo de m geral; estima-se que o crescimento vegetativo de plantas
energia e a relação entre os elementos bióticos e abióticos; ocorre numa gama de temperaturas entre 0 °C e 30 °C –,
no entanto, um ecossistema qualquer só será considerado pela precipitação anual em mm (em escala logarítmica) e
um bioma se suas dimensões forem regionais, isto é, numa pela razão de potencial de evapotranspiração (EPT).
grande escala e se ainda forem considerados como fatores Nesse sistema, as zonas biogeográficas são classificadas de
abióticos o relevo e o macroclima, por exemplo. Em relação acordo com os efeitos biológicos da temperatura e da pre-
aos fatores bióticos, a fisionomia da vegetação é uma das cipitação na vegetação, considerando que esses dois fatores
principais características para classificar um bioma. Por outro abióticos são os principais determinantes do tipo de vegetação
lado, a relação planta/animal, essencial na compreensão de encontrado em uma área. O sistema de Holdridge usa quatro
um ecossistema, não é um fator que influi diretamente nessa eixos (biotemperatura, precipitação, piso altitudinal e região
classificação. Além disso, o bioma será definido por “tipos” latitudinal) para definir as chamadas trinta “províncias de umi-
específicos característicos de plantas e animais. dade“, que são claramente visíveis no diagrama de Holdridge.
Como sua classificação ignora amplamente a exposição ao
Conheça a seguir um pouco mais detalhadamente os prin- solo e ao sol, Holdridge reconheceu que esses elementos eram
cipais biomas da Terra. fatores importantes na determinação dos biomas.

1.2. Florestas tropicais

103
As florestas tropicais se desenvolvem em baixas altitudes e síntese, floração, frutificação, predação e herbívora. Devi-
próximas do equador, entre os trópicos de Câncer (30o N) do à densa cobertura no dossel, a parte inferior da floresta,
e Capricórnio (30o S). Essas florestas estão presentes em denominada sub-bosque, recebe pouca luminosidade e não
ambos os hemisférios e são encontradas principalmente é densa, sendo formada por espécies arbustivas e herbáceas.
na África, na Austrália, na Ásia e nas Américas Central e
do Sul. No Brasil, correspondem à floresta Amazônica e à
mata Atlântica.
Quando comparados às florestas tropicais, todos os biomas do
mundo podem ser considerados os primos pobres. Isso por-
que esse bioma, apesar de cobrir apenas 6% da Terra, abriga
mais da metade das espécies de plantas e animais do planeta.
Ainda não existe uma hipótese conclusiva para a grande di-
versidade de espécies existentes nesse bioma, mas uma das
mais defendidas é a que, quando ocorriam as grandes eras do
gelo, essas florestas, por estarem próximas aos trópicos, não se
congelavam por completo, mas formavam “ilhas” de florestas
isoladas. Depois de milhares de anos isoladas, quando uma era
do gelo terminava, essas regiões formavam novamente flores-
tas contínuas cada vez mais diversificadas.

Essas plantas são adaptadas para fazer fotossíntese com


pouca luz e são denominadas umbrófilas. Por outro lado,
uma característica comum em florestas tropicais é o fato
de muitas plântulas e árvores jovens permaneceram por
muitos anos dormentes, esperando uma oportunidade para
crescer e alcançar o dossel da floresta. Essa oportunidade
só ocorre quando uma clareira é aberta fornecendo luz e
espaço para a planta crescer. Essa batalha travada dentro
A diversidade biológica é a grande característica das florestas tropicais. da floresta por espaço e luz faz com que algumas espé-
Trata-se do bioma de maior produtividade biológica da Ter- cies tenham estratégias diferentes para alcançar o dossel,
ra, resultado da alta radiação solar, com temperaturas que como as trepadeiras e lianas, plantas longas que escalam
variam entre 18° e 30 °C, e do alto índice pluviométrico, as grandes árvores e depois se misturam à copa das ár-
uma vez que recebe durante um ano inteiro mais de 2 mil vores. Algumas espécies de plantas, chamadas de epífitas,
mm de chuvas. Todos os outros biomas são mais frios ou crescem diretamente na superfície úmida superior das
mais secos, sendo todos sazonais, isto é, todos possuem árvores. Essas plantas, que incluem uma variedade de orquí-
estações mais definidas com as chuvas restritas a deter- deas e samambaias, formam a área mesófila, o estrato da
minadas épocas do ano. Na verdade, as florestas tropic- floresta abaixo do dossel; devido ao fato de não alcancarem
o solo, retiram nutrientes de fendas e húmus das árvores.
ais mantêm uma temperatura praticamente invariável ao
longo do ano, com pouca distinção entre verão e inverno, Nessas florestas, a grande queda de folhas forma a serra-
ocorrendo uma ou mais épocas um pouco mais secas. pilheira, que é rapidamente decomposta, geralmente por
microrganismos, o que faz com que os nutrientes sejam
As florestas tropicais são formadas por árvores que al-
rapidamente liberados no solo. Em virtude do processo de
cançam entre 18 e 46 metros de altura. Sua vegetação é
lixiviação que pode levar os nutrientes para locais no solo
nitidamente estratificada verticalmente com, no mínimo,
inacessíveis para as plantas, quase todos os nutrientes da
três estratos, cada um com um microclima, fauna e flora
floresta estão contidos nas próprias plantas. Isso faz com
específicos e adaptados. A parte mais alta da floresta é
que o solo de uma floresta tropical seja pobre em nutrientes.
chamada de dossel e possui uma grande densidade de
folhas sempre verdes e galhos que se espalham para cap- Nas florestas tropicais, as plantas de um mesmo gênero po-
tar o máximo de luz solar. Quase todas as ações em uma dem florescer em épocas distintas do ano, provendo recur-
floresta tropical ocorrem no seu dossel, incluindo fotos- sos durante o ano inteiro. Não há uma espécie claramente

104
dominante, situação diferente das florestas de coníferas no
Hemisfério Norte. São espécies características da floresta tro-
pical as castanheiras, o guaraná, as seringueiras, as palmei-
ras, as samambaias, as bromélias e as orquídeas.
Dentre as florestas tropicais existem as florestas tropicais
sazonais, também denominadas subperenifólias. Essas flo-
restas são consideradas por alguns autores como biomas
distintos. Elas possuem um período de seca prolongado,
quando algumas ou todas as árvores (dependendo da se-
veridade da seca) perdem suas folhas. Essas florestas ocor-
rem, por exemplo, na Ásia tropical e no interior do estado
Entre os polos e os trópicos, as florestas temperadas
de São Paulo, onde são chamadas de florestas estacionais. têm as estações dos anos bem definidas.

Em geral, os solos são abundantes em matéria orgânica,


com uma grande riqueza de ervas que crescem durante a
primavera, enquanto as árvores ainda estão sem folhas. Di-
versos animais fazem parte desse bioma, como ursos, rapo-
sas e veados. Entretanto, grande parte dos animais migra no
outono-inverno e os que permanecem possuem adaptações
que lhes permitem sobreviver em baixas temperaturas, como
os que hibernam ou os que armazenam comida (esquilos).
Essas florestas são geralmente dominadas por poucas espé-
cies de plantas, como são os casos de florestas de carvalho
(quercus) e de castanheiras (castanea) da América do Norte.
Floresta estacional no outono

1.3. Florestas temperadas 1.4. Savanas


Agrupar a vegetação de uma região, de um país ou do pla-
Trata-se um bioma encontrado nas regiões situadas entre os
neta em categorias de fácil reconhecimento pode parecer en-
polos e os trópicos e abrange o oeste e o centro da Europa, o
ganosamente uma tarefa simples. Com a savana não é dife-
leste da Ásia e o leste dos Estados Unidos, embora algumas rente. Talvez, de todos os tipos de vegetação, a savana seja a
fontes citem sua ocorrência no Chile. As árvores dominantes mais difícil de definir, pois sua distribuição e origem são con-
das florestas temperadas são as que perdem suas folhas (de- troversas. A definição de savana e a evolução histórica desse
cídua) durante o outono, ficando dormentes em seguida. Por termo causam polêmicas e têm sido frequentemente discuti-
essa razão, também recebem o nome de florestas decíduas das nos diversos fóruns de discussões acadêmicas ao longo
caducifólias. O clima é temperado, com médias anuais mo- das últimas décadas. Apesar de bastante debatido, o assunto
deradas e se caracteriza pela ocorrência de quatro estações ainda desperta controvérsias em função do alto número de
bem definidas, com os dias de invernos curtos e baixas tem- interpretações. Na literatura científica, são encontradas mais
peraturas, inclusive abaixo de zero, podendo perdurar por até de duas centenas de termos técnicos relacionados à palavra
seis meses. Esse bioma recebe de 750 a 1.500 mm de chuva savana. Esse número elevado está associado à grande quan-
por ano, distribuídos uniformemente. tidade de tipologias vegetacionais classificadas como savana.

105
As regiões definidas savanas ou campos tropicais se locali- capivaras e aves como o avestruz e a ema. O fato de ocor-
zam em regiões quentes da América do Sul, África e Austrália, rer longos períodos de seca faz com que os insetos sejam
onde a precipitação varia de 1.000 a 1.500 mm por ano. En- mais abundantes durante o período chuvoso, e os répteis,
tretanto, como as chuvas não são distribuídas uniformemente durante o período seco.
durante o ano, podem ocorrer longos períodos de seca com
A fisionomia desse bioma é bem aberta, com mistura de bos-
incidência de fogo, o que constitui um fenômeno importante
ques e campos alternando-se, dependendo dos nutrientes
desse ambiente, principalmente na estrutura da vegetação.
do solo e da disponibilidade de água do local, entre outros
A vegetação predominante nesse bioma é herbácea, geral- fatores. Nas savanas, as gramíneas não fazem economia de
mente baixa, com algumas árvores e arbustos espaçados água e não diminuem sua transpiração mesmo na estação
entre si. Nas savanas, diferentemente do que ocorre nas seca, o que causa o ressecamento da parte aérea.
florestas tropicais, uma única espécie de gramínea ou árvo-
Uma das teorias para explicar o aspecto retorcido dos ga-
re pode dominar a paisagem por grandes áreas.
lhos das árvores da savana brasileira é a ação do fogo ou
A fauna das savanas, principalmente de grandes herbívoros de inimigos naturais (animais, por exemplo) que causariam
e carnívoros, não é superada por nenhum bioma do mundo. repetidos traumatismos (machucados) nas gemas termi-
Nesses biomas são encontrados girafas, rinocerontes, leões, nais, responsáveis pelo crescimento das plantas.

1.5. Campos temperados 1.6. Desertos


Os campos temperados ocorrem em todos os continen- Os desertos se localizam em regiões que recebem anualmente
tes, como as pradarias da América do Norte e os pampas menos de 250 mm de chuva por ano. A reduzida precipitação
da América do Sul. Nessas regiões, os verões são muito se deve a sua localização em áreas de alta pressão, onde se ori-
mais quentes do que os invernos, com nítida diferença ginam os ventos, o que impede a chegada de umidade nessas
nas estações, podendo ocorrer secas sazonais. A vege- regiões, ou em áreas atrás de altas cadeias montanhosas, ou
tação predominante é herbácea, geralmente baixa. As ainda em regiões que sofrem influência de correntes marítimas
populações de invertebrados, como os gafanhotos, são frias, como é o caso do Atacama. Mesmo quando os desertos
em geral muito grandes por causa da imensa biomassa ocorrem em regiões que recebem uma maior precipitação, as
disponível para alimentação. De todos os biomas, esse é o chuvas são distribuídas de forma muito desigual. Nos desertos, o
mais utilizado e transformado por ações humanas. Diver- clima é geralmente quente, embora existam desertos frios, como
sos alimentos são produzidos nesses biomas, como arroz nas montanhas do Tibet, na Ásia. Devido às grandes tempera-
e milho, além da criação de bovinos para leite e corte. turas nos desertos quentes, as chuvas raras, fortes e de peque-
na duração não se infiltram no solo, evaporando rapidamente.
Nessas áreas, ocorre uma grande oscilação de temperatura, que
pode variar em até 30 °C entre a manhã e a noite.

A agropecuária confunde e muda a paisagem dos campos temperados. Os desertos possuem pouca vida animal e vegetal.

106
A vegetação é rara e espaçada, predominando o solo nu. Mui- ele possui cerca de 15 centímetros de altura. Aos 75 anos, o
tas espécies são oportunistas e a germinação é estimulada cacto desenvolve seus primeiros ramos. Quando totalmente
pelas chuvas imprevisíveis. Elas crescem rapidamente e com- adulto, o saguaro chega a 15 metros de altura e pesa quase
pletam seus ciclos de vida depois de poucas semanas. Outro 10 toneladas. Eles povoam o deserto de Sonora e reforçam
padrão são as plantas perenes, com processos fisiológicos a impressão de que os desertos são áreas ricas em cactos.
lentos com caules suculentos, como os cactos, que controlam
Apesar de os cactos serem normalmente considerados
a perda de água através do fechamento dos seus estômatos.
plantas dos desertos, outros tipos de plantas adaptaram-
-se à vida em meio árido. Isso inclui plantas da família da
ervilha e do girassol.
Em função da baixa produtividade vegetal e da indigesti-
bilidade, a diversidade animal é pequena e muitos animais
são nômades, deslocando-se constantemente pela neces-
sidade de encontrar água. No deserto, só alguns animais
conseguem retirar água do seu alimento. Entre eles há vá-
rios artrópodes, lagartos, algumas aves e roedores, como
os da família Gerbillinae, que, apesar de não pertencerem
Saguaro à família dos ratos, são chamados de ratos do deserto. En-
Normalmente, os desertos possuem uma cobertura vegetal tre os mamíferos que habitam o deserto, um dos mais co-
esparsa mas muito diversificada. O deserto de Sonora, no nhecidos é o camelo, que, ao contrário do que se pensava,
sudoeste americano, tem a vegetação desértica mais com- ao se alimentarem de vegetais ricos em líquido, como os
plexa da Terra. O gigantesco cacto saguaro fornece ninhos às cactos, não armazenam água nas suas bossas, mas arma-
aves do deserto e funciona como “árvore“. O saguaro cres- zenam gordura, que lhes proporciona reservas para andar
ce lentamente e pode viver duzentos anos. Aos nove anos, grandes distâncias sem beber água ou se alimentar.

1.7. Taiga

A taiga ou floresta setentrional de coníferas constitui um


cinturão abaixo do Círculo Polar Ártico, limitando o domí-
nio da tundra, e ocorre entre os paralelos 45° N e 70° N, da
América do Norte até a Eurásia. Para a maioria dos autores,
não existem correspondentes no Hemisfério Sul. Contudo,
há autores que classificam a mata de araucária, localizada
no sul do Brasil, como um bioma correspondente.
Esse bioma recebe menos de 300 mm de chuva, distribuí-
da durante todo ano como na tundra. Possui duas estações
bem distintas, com o predomínio do inverno sobre o verão.
O solo congela durante o inverno, mas, ao contrário do que
ocorre na tundra, no verão ele descongela totalmente. Em A forma vegetal dominante é formada por árvores de co-
algumas áreas, entretanto, como nas florestas de spruce (pi- nífera, como os pinheiros (pinus), abetos (abies) e spruce
cea), parte do solo continua congelada durante todo o ano. (picea), que possuem folhas adaptadas à falta de água,

107
com pequena área e em forma de acículas (agulhas). Essa verão curto, com temperaturas amenas. Apesar de a maior
vegetação se caracteriza pela biomonotonia, que consiste parte da chuva estar concentrada no verão e ser inferior a
em florestas em que apenas uma espécie de árvore é en- 100 mm por ano, esse não é um fator limitante para a vida,
contrada, o que pode gerar condições ideais para o desen- uma vez que a taxa de evaporação também é baixa. Os prin-
volvimento de pragas e epidemias. Devido ao fato de as ár- cipais fatores limitantes da vida nesse bioma são as baixas
vores desse bioma permitirem pouca passagem de luz para temperaturas e as curtas épocas de crescimento. Todo o solo
os estratos inferiores, aliado à baixa decomposição das fo- passa o inverno congelado, e, durante o verão, apenas uma
lhas das coníferas no solo, o desenvolvimento arbustivo e fina camada superior de cerca de 15 cm descongela.
herbáceo é muito baixo. Além disso, algumas espécies são
O subsolo continua congelado e é chamado em inglês de
alelopáticas, impedindo o crescimento de outras plantas no
permafrost. Com isso, a tundra possui um solo com pouca
solo e diminuindo a competição por água.
profundidade e encharcado durante o verão, o que possi-
bilita o crescimento da vegetação, formada principalmente
1.8. Tundra por gramíneas, plantas lenhosas anãs e líquenes.

multimídia: livros
Tundra – Aaron Frisch
Nosso planeta é colorido e cheio de vida,
e o mesmo pode ser dito da tundra.
Oferece para os jovens leitores uma in-
trodução visualmente deslumbrante do
nosso mundo natural.

A tundra é um bioma no qual a baixa temperatura e as es-


tações de crescimento curtas impedem o desenvolvimento 1.9. Chaparrais
de árvores. A vegetação é predominantemente composta
Chaparrais ou charnecas, como são conhecidos na região do
por líquenes, musgos, ervas e arbustos baixos. As plantas
Mediterrâneo, distribuem-se em regiões com clima tempera-
com raízes longas não podem se desenvolver, uma vez que
do ameno, como a Califórnia, o México, o litoral do mar Me-
o subsolo permanece gelado. Por outro lado, como as tem-
diterrâneo, o Chile e a costa meridional da Austrália. Essas
peraturas são muito baixas, a matéria orgânica se decom-
áreas se caracterizam pelo inverno chuvoso e o verão seco.
põe muito lentamente, e, em consequência, o crescimento
da vegetação é lento. Existem três tipos de tundra: ártica,
alpina e antártica.
O crescimento em maciços foi uma adaptação que as plan-
tas dessas regiões desenvolveram, o que as ajuda a evitar
o ar frio. Outra adaptação está no fato de elas crescerem
junto ao solo, o que as protege dos ventos fortes. As folhas
são pequenas e retêm a umidade com maior facilidade.
Apesar das condições inóspitas, uma grande variedade de
plantas vive na tundra ártica.
É encontrada na região do Círculo Polar Ártico, acima dos A vegetação é formada por arbustos e árvores de pequeno
57° N. É característica do seu clima possuir apenas duas es- e médio porte. Suas folhas são duras, grossas e permane-
tações: um inverno longo e frio, com noites contínuas, e um cem sempre verdes. Diversas espécies possuem micorrizas,

108
associação íntima entre certos fungos e suas raízes, o que liderou um estudo que aperfeiçoou a teoria inicial de
aumenta a chance de sobrevivência em condições adver- Myers e identificou 17 hotspots. Três anos depois, com
sas. O fogo é um fator ecológico relevante, uma vez que a contribuição de mais de cem pesquisadores, o número
favorece o domínio de gramíneas. Além disso, uma grande de hotspots foi ampliado para 25. Em fevereiro de 2004,
quantidade de sementes só germina depois da ocorrên- a Conservation International ampliou para 34 as regiões
cia de fogo, enquanto outras plantas, devido ao fato de consideradas hotspots.
armazenarem grande parte de seus nutrientes nas raízes,
rebrotam rapidamente após serem queimadas.

A mata Atlântica é um dos hotspots ambientais da Terra.


Moradia na região próxima ao mar Mediterrâneo
Na escolha de um hotspot, dois fatores são críticos: a exis-
Entre os animais presentes no chaparral estão aves migra-
tência de espécies endêmicas, isto é, restritas a um ecossis-
tórias e residentes e o veado, além de vertebrados peque-
tema específico, e grandes taxas de destruição do habitat.
nos e de cores apagadas, como coelhos, ratos e lagartos.
Quando Myers estabeleceu dez áreas críticas para a con-
servação, ele não utilizou critérios quantitativos em relação
1.10. Hotspots ambientais à definição de um hotspot. Entretanto, com o passar dos
Em biogeografia, hotspots são pontos ou manchas de anos, foram introduzidos patamares quantitativos na de-
altíssima biodiversidade. finição do conceito. Um hotspot passou a ser considerado
Um dos maiores dilemas dos conservacionistas é saber uma região com a existência de pelo menos 1.500 espé-
quais são as áreas mais importantes para preservar a bio- cies endêmicas de plantas e 75% ou mais da sua vegeta-
diversidade na Terra. Em 1988, para tentar resolver esse ção destruída. Assim, é tido como toda área prioritária para
problema, o ecólogo inglês Norman Myers criou o conceito conservação, ou seja, com alta biodiversidade e com alto
dos hotspots, estabelecendo dez áreas críticas para a pre- grau de ameaça. Com isso, o conceito de hotspot concen-
servação em florestas tropicais. Entre essas áreas estão os tra-se em ecossistemas fragmentados e devastados, como
Andes tropicais, Madagascar e a mata Atlântica. é o caso da mata Atlântica, que hoje possui apenas entre
7% e 8% da sua extensão original distribuída em fragmen-
tos de diferentes tamanhos.
A fragmentação do habitat, que assola praticamente to-
dos os biomas, é um processo no qual o tipo de habitat
é parcialmente removido e subdividido. Os processos de
fragmentação e perda de habitat ocorrem, de forma geral,
simultaneamente.
Para a escolha desses pontos críticos, levou-se em consi-
deração a biodiversidade não igualmente distribuída ao
redor do planeta. A soma da área de todos os hotspots
totaliza apenas 2,3% da superfície terrestre. Nessas áreas,
multimídia: música concentram-se em torno de 50% das plantas e 42% dos
Fonte: Youtube vertebrados conhecidos.
Natureza distraída – Toquinho
1.10.1. Diretrizes da Conservation International
Em 1996, o primatólogo norte-americano Russell Mit- Além dos hotspots, a ONG Conservation International pos-
termeier, presidente da ONG Conservation International, sui outras duas diretrizes para conservação:

109
§ Wilderness areas, que identifica os grandes blo-
cos de florestas tropicais, praticamente intactos
(com mais de 75% de sua vegetação original) e com
baixa densidade populacional (menos de 1 habi-
tante por km2). Nessas regiões, como é o caso de
grande parte da Amazônia, vivem algumas poucas
populações indígenas.
§ Outra diretriz leva em consideração as fronteiras polí-
ticas e a riqueza biológica encontrada dentro de cada
nação. Os 17 países de megadiversidade possuem os
mais altos índices de riqueza natural do mundo. multimídia: sites
Em todas as três abordagens, o Brasil tem posição de des- Planeta Terra
taque. É o país campeão de megadiversidade, com maior http://tvcultura.com.br/programas/plan-
número de espécies do que qualquer outra nação. Possui etaterra/
também o maior bloco de área verde do planeta, a floresta Greenpeace
Amazônica. Em território brasileiro, podem ser encontrados www.greenpeace.org/international/en/
dois hotspots importantes: a mata Atlântica e o cerrado.

Os 34 hotspots ambientais do mundo

110
VIVENCIANDO

Observe nas praças, nos bosques e nos parques quais árvores não são nativas do Brasil e a quais biomas pertencem.

Região remanescente de mata Atlântica, em São Paulo (Cidade Universitária – USP), invadida por palmeira de origem australiana

CONEXÃO ENTRE DISCIPLINAS

É possível definir como biomas as grandes formações vegetais com uma fauna característica, encontradas nos difer-
entes continentes, cujos aspectos são determinados pelos fatores climáticos relacionados diretamente com a latitude,
como a umidade e a temperatura. Esses biomas são então classificados entre os biomas universais (tundra, taiga,
floresta temperada, floresta tropical pluvial, savana e deserto). Esses biomas, além de estarem sujeitos à intervenção
humana, também estão sujeitos a alterações ambientais, que, por sua vez, podem gerar um desequilíbrio ecológico.

111
ÁREAS DE CONHECIMENTO DO ENEM

Habilidade
26 Identificar em fontes diversas o processo de ocupação dos meios físicos e as relações da vida humana com a paisagem.

A biosfera é constituída por uma série de elementos naturais que favorece o desenvolvimento da vida.
A cobertura vegetal nativa de uma determinada região está diretamente ligada às características do clima que
abrange o espaço. Dessa forma, algumas espécies vegetais conseguem se desenvolver positivamente em condições
climáticas de característica úmida, ao contrário de outras que se adaptam a condições mais secas.

Modelo
(Enem) Sabe-se que uma área de quatro hectares de floresta, na região tropical, pode conter cerca de 375 espécies de
plantas, enquanto uma área florestal do mesmo tamanho, em região temperada, pode apresentar entre 10 e 15 espécies.

O notável padrão de diversidade das florestas tropicais se deve a vários fatores, entre os quais é possível citar:
a) altitudes elevadas e solos profundos;
b) a ainda pequena intervenção do ser humano;
c) sua transformação em áreas de preservação;
d) maior insolação e umidade e menor variação climática;
e) alternância de períodos de chuvas com secas prolongadas.

Análise expositiva - Habilidade 26: A riqueza das áreas florestadas está muito relacionada à presença da
D umidade em forma de chuvas e à evapotranspiração, o que garante, em parte, a diversidade.
Alternativa D

112
DIAGRAMA DE IDEIAS

GRANDES BIOMAS DO MUNDO

TUNDRA SAVANAS

POLO ÁRTICO, NORTE CLIMA TROPICAL


DO CANADÁ, EURO- (VERÃO QUENTE
PA E ÁSIA (TEMPE- E ÚMIDO, INVER-
RATURAS BAIXAS, NO FRIO E SECO)
MUSGOS E LÍQUENES) CAMPOS COM AR-
BUSTOS ESPAÇADOS
E GRAMÍNEAS

TAIGA

TUNDRA ÁRTICA
(AO SUL, FLORESTA
DE CONÍFERAS) FLORESTA TROPICAL

CLIMA QUENTE
E ÚMIDO
FLORESTA TEMPERADA VEGETAÇÃO DENSA,
APRESENTAN-
DO DOSSEL
CLIMA TEMPERADO
(ESTAÇÕES BEM DE-
FINIDAS) PLANTAS
CADUCIFÓLIAS

113
AULAS Classificações do relevo
15 e 16
Competência: 6 Habilidades: 26 e 29

forma de relevo, por mais que possam parecer estáticas e


iguais, na verdade são dinâmicas e se manifestam ao longo
do tempo e do espaço de maneira bastante diferenciada,
devido às múltiplas interferências e combinações dos de-
mais componentes do estrato geográfico. Essas interações,
que se traduzem pela troca de energia e matéria entre os
componentes, são as verdadeiras geradoras da história
natural do relevo, ou seja, são responsáveis pela evolução
e pela gênese do modelado da superfície terrestre.
multimídia: livros
Assim, é importante compreender o que está por trás de
Geomorfologia do Brasil - Sandra Baptis- cada padrão de forma ou tipo de vertente, verificar quais as
ta da Cunha e Antonio Teixeira Guerra influências de cada componente do estrato geográfico na
gênese e a dinâmica atual e futura dessas formas.
A Bertrand Brasil lança Geomorfologia do Brasil,
o quarto livro da série de publicações geomor- Nesta aula, serão abordadas as morfologias encontradas
fológicas. A obra em questãotem por objetivo no território brasileiro que, como em qualquer outra parte
preparar alunos da graduação e pós-graduação da superfície da Terra, apresentam-se sob diversas formas.
nas Ciências da Terra em relação às principais Além disso, serão estudadas as modificações ocorridas nes-
questões geomorfológicas brasileiras. sas morfologias, inclusive as causas dessas mudanças por
meio da ação dos elementos da natureza e dos seres vivos.
“O relevo não é como a rocha, o solo, a vegetação ou até O estudo será iniciado com uma ênfase nas mais recentes
mesmo a água que se pode pegar; constitui-se eminente- classificações geomorfológicas propostas pela comunidade
mente de formas com arranjo geométrico as quais se man- científica do Brasil.
têm em função do substrato rochoso que as sustentam e No Brasil, os estudos geomorfológicos ganharam maior
dos processos internos e externos que as geram. Desse importância durante o século XX, com a valorização das
modo, o relevo terrestre assemelha-se a uma escultura em questões ambientais. Foi quando a Geomorfologia brasile-
rocha, a qual depois de esculpida deixa de ser rocha para ira conheceu um novo cenário.
ser uma peça ou uma obra de arte, fruto do processo de
elaboração humana. Pode-se imaginar que o globo terres-
tre é uma imensa peça de escultura, sobre a qual os pro- 2. As classificações
cessos naturais internos e externos agem, sendo respon-
sáveis pela esculturação. O escultor é a própria natureza.” do relevo brasileiro
Jurandyr Ross. Geomorfologia: ambiente e planejamento. Como foi visto, o território brasileiro é muito extenso e, por
esse motivo, apresenta uma grande diversidade no que se

1. Introdução refere à fisionomia de suas paisagens e às características


de suas formas de relevo, o que tornou o seu detalhamen-
Nada na natureza é tão concreto como o conjunto das for- to uma tarefa bastante difícil. Dessa forma, para melhor
mas de relevo que compõe a superfície da Terra. Entretan- compreender a estrutura física do Brasil, foram elaborados
to, a percepção do concreto, que se define como aquilo que diferentes modelos de classificação do relevo.
tem massa e forma própria, não se aplica especificamente Em termos gerais de caracterização, o espaço físico do
ao relevo, que se define através da geometria de suas for- Brasil é conhecido por ter uma formação geologicamente
mas. Dessa forma, pode-se dizer que o relevo é algo con- antiga, o que significa que ele esteve, ao longo das eras
creto quanto às formas, mas abstrato enquanto matéria. As geológicas, mais tempo exposto à ação dos agentes ex-

114
ternos ou exógenos de transformação do relevo, como as de sedimentos). Nas planícies, de maneira inversa, é a
chuvas, os ventos e demais fatores. Isso significa que as sedimentação quem supera a erosão. Assim, o critério
formas superficiais foram bastante desgastadas ao longo da altitude não estava mais inserido na classificação do
do tempo. relevo brasileiro, mas sim os tipos de processos geomor-
fológicos predominantes.
2.1. A classificação de
Aroldo de Azevedo
A primeira classificação do relevo brasileiro – incluindo o
seu mapeamento e total caracterização – só ocorreu na
década de 1940, quando foi possível ter uma noção ini-
cial das composições geomorfológica do território nacio-
nal. Essa classificação foi realizada pelo Departamento de
Geografia da Universidade de São Paulo (USP), liderada
pelo professor e pesquisador Aroldo de Azevedo.
Segundo Aroldo de Azevedo, o Brasil ficou dividido em
59% de planaltos, conceituados como terrenos aciden-
multimídia: vídeo
tados com mais de 200 metros, e 41% de planícies, Fonte: Youtube
consideradas como áreas planas com altitudes inferiores. Extremo Sul - Direção: Monica Schmirdt
As áreas mais altas, acima de 1.200 metros, totalizaram
um valor muito pequeno, de aproximadamente 0,58%. Devido a essa mudança nos conceitos de planície e plan-
Assim, o Brasil foi dividido em oito unidades de relevo: alto, a classificação do relevo brasileiro foi modificada. Os
o planalto das Guianas, a planície Amazônia, o planal- planaltos passaram a compor cerca de 75% do território
to Central, a planície do Pantanal, o planalto Atlântico, brasileiro, enquanto as planícies ficaram com 25%, total-
a planície costeira, o planalto Meridional e a planície de izando dez unidades de relevo: o planalto das Guianas,
Pampa. Observe o mapa: a planície e terras baixas Amazônicas, o planalto Central,
o planalto do Maranhão-Piauí, o planalto Nordestino, a
planície do Pantanal, as serras e planaltos do Leste e Sud-
este, as planícies de terras baixas costeiras, o planalto Me-
ridional e o planalto Uruguaio Sul-Rio-Grandense.

2.2. A classificação de Aziz Ab’Saber


No ano de 1958, uma nova classificação do relevo bra-
sileiro foi realizada. Essa nova classificação também foi
reallizada pelo Departamento de Geografia da USP, sob a 2.3. A classificação de Jurandyr Ross
liderança de Aziz Ab’Saber. Esse geógrafo adotou outras Não obstante, uma nova classificação foi realizada com
conceituações e passou a considerar como planalto toda base na modificação dos critérios para a definição dos ti-
e qualquer área em que o processo de erosão (perda pos de relevo. Dessa vez, os estudos foram realizados pelo
de sedimentos) é superior ao de sedimentação (acúmulo geógrafo Jurandyr Luciano Sanches Ross no ano de 1989,

115
que utilizou como ponto de partida a própria classificação
de Aziz Ab’Saber. Assim, com base nos conhecimentos pre-
viamente estabelecidos e nas imagens obtidas pelo projeto
Radam Brasil, entre 1970 e 1985, Ross realizou um mi-
nucioso mapeamento que resultou em uma classificação
mais completa e complexa.
A introdução de mais um tipo de unidade de relevo – as
depressões – foi uma novidade na classificação do relevo
brasileiro de Jurandyr Ross. Nessa definição, era consid-
erada depressão qualquer área de relevo aplainada que
estivesse rebaixada em relação ao seu entorno, caracter-
izando as “depressões relativas”, uma vez que no Brasil
não existem “depressões absolutas”, aquelas que se en-
contram abaixo do nível do mar.
Devido aos resultados do projeto Radam Brasil, a
classificação de Ross foi muito detalhada, e nela o
território brasileiro ficou dividido em 28 unidades de
relevo, sendo 11 planaltos, 11 depressões e 6 áreas de
planícies. Como é possível verificar no mapa a seguir,
o espaço geomorfológico brasileiro ficou marcado pela
presença de grandes depressões, como a da Amazônia
Oriental, e alguns grandes planaltos, como as Chapa-
das da Bacia do Parnaíba e da Bacia do Paraná. Entre
as planícies, o destaque vai para a do Rio Amazonas e
os tabuleiros litorâneos.
Essas sucessivas caracterizações e detalhamentos de ter- 2.4. Brasil: um país de
ritório brasileiro foram muito importantes não apenas para altitudes modestas
o conhecimento sobre as paisagens naturais do nosso Quando a idade geológica dos terrenos é associada à in-
país, mas também para auxiliar o planejamento público de existência de dobramentos cenozoicos (Andes, Himalaia,
ocupação do espaço geográfico. Além disso, uma maior e etc.), à diversidade climática e a certa estabilidade tectôni-
melhor noção da disposição de tipos minerais e das difer- ca, justificam-se as altitudes modestas do relevo brasileiro
entes estruturas puderam ser analisadas, o que favoreceu – o pico da Neblina, na Amazônia ocidental, com 2.993,78
a atividade econômica da mineração. metros de altitude, é o relevo de maior altitude. Os ele-
mentos mais importantes para as transformações atuais
das formas de relevo brasileiro, à exceção do homem, são
os rios, as chuvas e a temperatura, isto é, intemperismo
(desgaste) e erosão (transporte). Nota-se, por isso, a pre-
dominância dos agentes externos sobre os internos, dando
ao relevo uma certa estabilidade.

OS PRINCIPAIS PICOS DO BRASIL

multimídia: livros Valor de altitude


divulgada no Valor de altitude calcula-
Estação medida
Anuático Estatísti- da após a medição (2004)
Geografia do Brasil- Jurandyr Luciano co Brasileiro (AEB)

Sanches Ross pico da Neblina 3.014,1 metros 2.993,78 metros


Esta obra analisa problemas específicos da re-
alidade brasileira a partir de toda dinâmica de pico 31 de Março 2.992,4 metros 2.972,66 metros

funcionamento do planeta terra. pico das Agulhas


2.787,0 metros 2.791,55 metros
Negras

116
Valor de altitude § Planaltos e chapadas da bacia do Parnaíba –
Estação medida
divulgada no Valor de altitude calcula- ocupa uma vasta extensão territorial que se estende
Anuático Estatísti- da após a medição (2004)
co Brasileiro (AEB) da planície litorânea do Maranhão até as proximidades
de Brasília. Possui formas residuais como chapadas ou
pico Pedra da Mina 2.770,0 metros 2.798,39 metros
cuestas que podem atingir até 100 metros.

3. Conceituando as
formas de relevo
3.1. Planalto

§ Planaltos e chapadas da bacia do Paraná – ex-


tenso planalto que se estende das imediações de Goiás
até o Rio Grande do Sul, abrangendo porções de MG,
Planalto em forma de serra (serra da Mantiqueira)
MS, SP, PR e SC e avançando até o Paraguai, a Argen-
Os planaltos são feições morfológicas caracterizadas por tina e o Uruguai. Trata-se de um terreno de formações
terrenos elevados, com hipsometria superior a 300 m, onde arenítico-basálticas onde se destacam as cuestas e os
o processo de erosão é predominante, ou seja, são formas morros-testemunhos.
de relevo formadas por um processo de desgaste que,
embora seja mais intenso que o processo de acumulação,
caracteriza-se por ser uma forma residual. Trata-se de um
terreno que, independentemente da estrutura geológica, é
mais resistente ao processo erosivo.
As áreas representadas por relevos planálticos são classifi-
cadas em quatro estágios.

3.1.1. Planaltos em bacias sedimentares


Apresentam-se como formas mais suaves (topos, planos, 3.1.2. Planalto em intrusões e
convexos), quase totalmente circundados por depressões coberturas residuais de plataforma
periféricas de marginais que, quando em contexto, formam
os relevos escarpados denominados cuestas. São os plan- Trata-se de uma unidade constituída de áreas residuais
altos da bacia Amazônica Oriental e Ocidental, os planaltos (que sofreram diversos ciclos erosivos) de coberturas sedi-
e chapadas da bacia do Parnaíba e os planaltos e chapadas mentares e também por uma variedade de morros e serras
da bacia do Paraná. isoladas que se originaram de intrusões graníticas, der-
rames vulcânicos e dobramentos antigos (pré-
§ Planalto da Amazônia Oriental – sistema que cir-
cambrianos). São exemplos os planaltos norte-
cunda a bacia Amazônica e sua planície, apresentan-
-Amazônicos, onde está localizado o pico da Neblina, o
do uma forma de cuesta, desde as proximidades de
ponto mais alto do Brasil.
Manaus até a foz do rio Amazonas.
§ Planalto e chapada do Parecis – são formações
que se estendem no sentido leste-oeste por RO, MT e
sul do PA; apresentam o relevo de chapadas de topo
plano e são um divisor de águas das bacias do Amazo-
nas-Paraguai.
§ Planaltos residuais Norte-Amazônicos – região
onde se encontram os pontos mais altos do país, como
o pico da Neblina (AM). São formações serranas des-
contínuas, onde se destacam as serras do Tapirapecó,

117
Imeri, Parima, Pacaraima e Tumucumaque. Apresentam § Planaltos e serras de Goiás-Minas – sistemas de
grande riqueza mineral em virtude da presença dos ter- dobramentos graníticos metamórficos; são sistemas
renos metamórficos. de resíduos que vão de Brasília até a fronteira SP-MG.
Apresentam desde serras até chapadas.
§ Serras residuais do Alto do Paraguai – ocupam
uma área de rochas cristalinas e rochas sedimentares
antigas, que se concentram ao norte e ao sul da grande
planície do Pantanal, no oeste brasileiro. Um exemplo é
a serra Bodoquena, no Mato Grosso do Sul.

3.1.3. Planaltos em núcleos


cristalinos arqueados
§ Planaltos residuais Sul-Amazônicos – constituem
Essas unidades de relevos correspondem a dois trechos, um
outro grande sistema sedimentar fragmentado, que se
no Nordeste (planalto da Borborema) e outro no extremo sul
encontra dentro da depressão marginal Sul-Amazônica.
(planalto Sul Rio-Grandense), que fazem parte do cinturão
São formações graníticas pré-cambrianas que formam
orogênico do Atlântico, mas que se encontram em posições
chapadas, como a do Cachimbo, ou serras com grandes
relativamente isoladas. São dobramentos antigos em for-
concentrações de minerais, como a dos Carajás. ma de cúpula, intensamente erodidos ao longo do tempo
geológico. Alcançam até 1.000 m de altitude na
Borborema, com estruturas cristalinas (rochas magmáticas
e metamórficas), e 450 m no Sul Rio-Grandense, com
estrutura variada.
§ Planalto da Borborema – formação convexa
pré-cambriana, encontrada no leste de PE, com altitude
de 800 a 1.000 m.

§ Planaltos em cinturões orogênicos – são unidades


de relevo planáltico que se caracterizam por faixas de
antigos dobramentos orogenéticos que sofreram intenso
processo erosivo. Geralmente compõem serras de ori-
gem metamórfica associadas a intrusões. Apresentam na
fachada atlântica formas de topos convexos, vertentes
inclinadas e vales profundos que Ab’Saber denominou
mares de morros mamelonares ou morros em
§ Planalto Sul-Rio-Grandense – encontra-se no sul
meia-laranja. São exemplos os planaltos e serras do
do RS, na fronteira com o Uruguai, com altitudes mais
Atlântico Leste-Sudeste, os planaltos e serras de Goiás-
modestas (450 m).
Minas e as serras residuais do alto Paraguai.
§ Planaltos e serras do Atlântico Leste-Sudeste 3.2. Feições de planaltos
– com formação pré-cambriana, apresentam falha-
§ Relevo cuestiforme: essa estrutura apresenta um
mentos, escarpas e fossas tectônicas. As principais
relevo com forma dissimétrica; de um lado é formada
formas de relevo são serras de topos convexos devi- por um perfil côncavo em declive íngreme, e, do outro,
do à erosão, mas que podem ultrapassar 2.000 m de por um planalto suavemente inclinado. Essa forma se
altitude. No reverso das serras, tem-se o domínio de desenvolve por erosão diferenciada e apresenta os se-
mares de morros, formações mamelonares e convexas guintes elementos topográficos: front, depressão sub-
em virtude do processo erosivo. sequente e reverso.

Frente de cuesta de Botucatu, São Paulo, Brasil

118
VIVENCIANDO

A realização de estudos empíricos é fundamental para a observação dos objetos analisados pela Geografia. Trata-se de
uma ferramenta que permite verificar, confirmar ou falsear dados e informações, além de fornecer novas perspectivas
para aquilo que se pesquisa. Uma boa maneira de compreender como o relevo influencia na ocupação do espaço urba-
no é visitar o Pico do Jaraguá, em São Paulo, e a Pedra da Gávea, no Rio de Janeiro. O Pico do Jaraguá é o ponto mais alto
da cidade de São Paulo, com 1.135 metros de altitude, que corresponde geomorfologicamente a uma faixa da chamada
Série São Roque, seção paulista remanescente de um grupo de formações brasileiras muito dobradas e antigas, possivel-
mente de idade proterozoica. Antigo palco de guerras entre bandeirantes e índios, o local foi muito explorado por possuir
grande quantidade de ouro. Depois do fim da mineração, com o esgotamento de todos os recursos por volta do século
XIX, tornou-se, segundo o missionário Daniel Kidder, “um marco dos viajantes”, pois, de qualquer local, o Pico poderia
ser visto e, a partir daí, calculava-se a distância que faltava para se chegar a São Paulo. A Pedra da Gávea, por sua vez,
faz parte do conjunto do Maciço da Tijuca, que consiste num maciço montanhoso com picos elevados (Pico da Tijuca,
1.021 metros de altitude) dividindo as zonas sul, norte e oeste do município do Rio de Janeiro. Os maciços costeiros são
remanescentes de uma antiga borda meridional do Gráben da Guanabara, antes inserida no Planalto Atlântico (época
do Paleoceno, período terciário, era cenozoica), que foi intensamente intemperizada.

§ Relevo em chapada: relevo de estrutura geológica § Inselberg: do alemão inselber, “monte ilha”, o termo
tipicamente sedimentar com topo em forma de mesa; foi proposto pelo geógrafo alemão Walther Penck. Se-
é também conhecido como relevo tabuliforme. gundo o geógrafo Aziz Ab’Saber, trata-se de um resto de
relevo com aspecto geológico cristalino saliente em meio
a uma paisagem de depressão semiárida (sertaneja),
oriunda de uma longa história erosiva. Essa paisagem é
formada pelo intemperismo físico (erosão seletiva).

Chapada Diamantina

§ Serra: segundo o geógrafo Igor Moreira, as serras são


formadas por relevos alongados com topos irregulares,
por vezes isolados. Geralmente, são alinhamentos de Inselberg, Pedra Azul, MG
montanhas antigas erodidas e, mais tarde, falhadas.
As irregularidades que apresentam são resultado de § Mares de morro: essa formação geomorfológica é
movimentos de subida e descida de blocos das rochas também conhecida como planaltos sul e sudeste de
fraturadas. A denominação “serras” também pode se morros ou mamelonares. Trata-se de um planalto for-
referir às áreas de bordas de planalto. mado pelo intemperismo químico. Essa estrutura de
relevo faz parte do bioma da mata Atlântica.

Serra da Mantiqueira Mares de morros, entre São Paulo e Rio de Janeiro

119
§ Coxilhas: formações cristalinas com bordas mais arre- banhadas pelos rios da região. As demais áreas, que
dondadas e bem mais suavizadas; se comparadas aos ocupam a maior porção, são denominadas baixos pla-
mares de morros, essa estrutura é encontrada na por- tôs amazônicos, ou seja, são planaltos rebaixados.
ção do extremo meridional do Brasil, onde são comuns
os pampas ou as campanhas gaúchas.

Planície costeira, em Ipanema, Rio de Janeiro

Canela, Rio Grande do Sul

3.3. Planície
As feições morfológicas de planícies são caracterizadas
como formas de relevo planas e baixas com hipsometrias
inferiores a 300 m, bem como por duas linhas de aclive
onde o processo de acumulação supera a decomposição.
São formas de relevo em acumulação, como a encontrada
em estruturas geológicas sedimentares.
Casos mais típicos de planícies: Planície do Pantanal mato-grossense

§ Fluvial – encontradas no interior dos continentes cujo


processo de acumulação está relacionado à ação dos rios.
§ Fluvio-marinha – ocorre em faixas litorâneas; sua
formação de sedimentação está relacionada à ação
dos oceanos e rios.
§ Costeira – ocorre no litoral e é formada pela acumula-
ção de sedimentos trabalhados pelo mar. Sua estrutura
geológica sedimentar também é cenozoica quaterná-
ria. Estende-se do Maranhão ao Rio Grande do Sul.
§ Do Pantanal – é considerada a mais típica planície multimídia: música
do Brasil. Localiza-se na porção oeste do Mato Grosso Fonte: Youtube
do Sul, encravada entre o planalto meridional e central. - Tempo rei – Gilberto Gil
Sua estrutura geológica é recente, datada do cenozoico
quaternário. É importante ressaltar que, graças ao seu
estado de conservação e à rica biodiversidade, o Panta- 3.4. Depressão
nal é considerado uma das 37 últimas grandes regiões Depressão é uma unidade geomorfológica que se caracte-
naturais da Terra, com alta diversidade biológica, gran- riza pela superfície rebaixada em relação às demais formas
des extensões e baixa densidade populacional humana. de relevo próximas.
§ Amazônica – de formação geológica cenozoica, lo- Essas unidades foram geradas por processos erosivos ocor-
caliza-se entre o planalto das Guianas, pela porção ridos no contato das extremidades das bacias sedimenta-
setentrional, e o planalto central, ao sul. No domínio res com maciços antigos. De acordo com a classificação de
amazônico, estende-se nas áreas baixas das margens Ross, no Brasil há onze unidades de depressões, segunda

120
forma de relevo mais importante do país. À medida que
foram ocorrendo os processos erosivos e de localização, as
estruturas de depressões relativas foram recebendo várias
denominações: periféricas, marginais, interplanálticas, etc.

3.5. Formação de depressões


relevantes na geomorfologia brasileira
§ Periférica – área deprimida e alongada na zona de
multimídia: livros
contato entre terrenos sedimentares e cristalinos: de-
pressão periférica da borda leste da bacia do Paraná.
Ambiente e apropriação do relevo - Valter
§ Marginal – margeia as bordas de bacias sedimenta- Casseti
res: depressões sul-amazônica e norte-amazônica. Relações homem-natureza e suas implicações.
§ Interplanáltica – área cuja altitude é inferior em O significado do relevo no estudo ambien-
tal. Dinâmica processual do relevo: a
relação a dos planaltos que a circundam; depres-
vertente como categoria
sões sertaneja e do São Francisco, marginal sul-
-amazônica e periférica da bacia do Paraná.
§ Relativa – rebaixamento do relevo acima do nível do
mar.
§ Absoluta – rebaixamento do relevo abaixo do nível
do mar.

multimídia: sites
www.relevobr.cnpm.embrapa.br/index.htm
videoeducacionais.cptec.inpe.br

Depressões absoluta e relativa

CONEXÃO ENTRE DISCIPLINAS

A Geomorfologia é essencial para a leitura e interpretação dos espaços e dos territórios. Ela é aplicada no planeja-
mento e na avaliação das intervenções sobre os territórios e na minimização das consequências de algumas inter-
venções menos ajustadas. O caráter integrado dessas abordagens faz com que o trabalho da Geomorfologia apre-
sente melhores resultados quando realizado em ambiente interdisciplinar. A Geologia, a Engenharia e a Arqueologia,
para citar apenas os mais óbvios, são saberes que, integrados com os saberes geográficos, conduzem a uma leitura
eficaz dos aspectos geomorfológicos do território e da sua utilização social.

121
DIAGRAMA DE IDEIAS

GEOMORFOLOGIA

RELEVO

PLANALTOS PLANÍCIES DEPRESSÕES

• EM BACIAS • ALUVIAIS • PERIFÉRICAS


SEDIMENTARES • FLUVIAIS • MARGINAIS
• EM INTRUSÕES E • COSTEIRAS • INTERPLANÁLTICAS
COBERTURAS RESIDUAIS
• EM NÚCLEOS
CRISTALINOS
• EM CINTURÕES
OROGÊNICOS

122

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